terça-feira, 12 de março de 2013

P-055 - A Sombra do Supercrânio - Kurt Brand [parte 1]


Autor
CLARK DARLTON


Tradução
KURT BRAND


Digitalização
BLACKNIGHT


Revisão
ARLINDO_SAN
Alarma máximo na frota espacial solar...
Um agente cósmico expediu o sinal de socorro...



Apesar das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante.
Mas Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não está disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes cósmicos — todos eles mutantes do célebre exército — continuam a ser instruídos no sentido de, em quaisquer circunstâncias, manter em sigilo sua origem terrana. Porém as coisas tornam-se complicadas quando dois deles fazem-se traidores...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Fellmer LloydBaixo; ombros e cabelos escuros.

Jim MarkusComandante da nave Lotus.

Kuri OneréA moça corajosa da raça dos saltadores. Bonita, seus olhos são mongolóides.

Os VolatensesInsetos gigantescos dotados de inteligência.
1



O Espaço cósmico, um oceano de negrume infindável e silêncio eterno, precipitava-se para a sala de comando da Lotus, através da tela de visão global.
O veículo espacial esférico de cem metros de diâmetro era um cruzador leve da frota espacial terrana. Naquele instante pairava imóvel, em meio ao tempo e ao espaço. A 4.300 anos-luz da Terra, a esfera parecia uma minúscula partícula de pó colocada entre sóis próximos e distantes, cuja luminosidade intensa procurava desde sua formação vencer a escuridão do Universo. A luminosidade era fria e calma, embora colorida. Mas mesmo o sol mais próximo não passava de um ponto bem destacado, e sua luz não chegava a refletir-se na superfície polida da Lotus.
Depois de ter penetrado 4.300 anos-luz no espaço intergaláctico, o cruzador leve da classe Cidade mantinha sua posição, imobilizado, como se quisesse aguardar a eternidade. O potente dispositivo de proteção contra a localização excluía a possibilidade do acaso traiçoeiro que propiciasse a observação por uma nave estranha. Atrás desta camuflagem, a vida na nave se desenvolvia no seu dia-a-dia, muito embora o cruzador leve do planeta Terra se encontrasse dentro da área de influência do Império dos Arcônidas. Esse grande império estelar se concentrava na nebulosa M-13, mas estendia seus braços pelo Universo afora, dominando entre outros o sistema solar mais próximo à Lotus.
O comandante da Lotus era o capitão Jim Markus, um homem que parecia ter seus quarenta anos de idade, e que chamava a atenção pelas têmporas embranquecidas e pelas simpáticas rugas produzidas em torno dos olhos, quando sorria. Naquele instante, Jim Markus contemplava em atitude pensativa o lugar da tela de visão global que exibia a luminosidade distante do sol Heperés, a 2,46 anos-luz.
O sol era uma estrela entre muitas, constituía o pólo de um sistema planetário igual a centenas de milhões de outros existentes na Galáxia. Mas para Jim Markus era o único sol que oferecia algum interesse. Sua atenção voltava-se para o segundo planeta, que, juntamente com outros cinco, gravitava em torno da estrela-mãe, alimentando-se com a luz fornecida pela mesma e constituindo um mundo cheio de vida. Os arcônidas e os mercadores galácticos designavam-no pelo nome de Volat. Seu tamanho era aproximadamente igual ao de Marte. Porém, ao contrário desse planeta do sistema solar, Volat era um mundo úmido coberto de gigantescos oceanos e de imensas matas virgens. Sua gravitação, 0,8G, tornava-se o motivo pelo qual os arcônidas e os mercadores galácticos o consideravam um planeta absolutamente normal.
A importância de Volat não resultava da circunstância de que Kuklon, a capital desse mundo, possuía um espaçoporto supermoderno e constituía um centro de expedição das mercadorias que deviam ser transportadas para as diversas estrelas; antes, tinha sua origem no fato de ser a sede oficial do administrador arcônida, que para lá havia sido enviado por ordem do computador gigante de Árcon, a fim de dar uma demonstração do poder rejuvenescido do Grande Império.
Em Volat encontrava-se Ralph Sikeron, um homem de vinte e sete anos que era um superescuta do Exército de Mutantes de Perry Rhodan. Recebera a incumbência de estudar a situação reinante naquele mundo e reunir um elenco de informações que permitisse uma visão geral.
Rhodan, que ficara mais experiente em virtude de algumas surpresas desagradáveis, ordenara ao capitão Markus que, logo depois da chegada do agente cósmico ao planeta Volat, se mantivesse à espera numa distância segura e, se surgisse algum perigo, acudisse a Ralph Sikeron.
Há doze dias a Lotus pairava no espaço, imóvel, a 2,46 anos-luz de Volat, aguardando notícias do mutante de Rhodan.
O olhar do capitão Jim Markus vagou da tela para o calendário de bordo. A data lhe induziu maiores reflexões: 12 de julho de 2.040. Mas o ruído crepitante emitido pelo micro alto-falante de hipercomunicação deixou-o alarmado.
Era uma mensagem chegando.
O ruído só durou poucos segundos. Seguiu-se um ligeiro impulso com a mensagem, e não houve mais nada.
O computador positrônico da Lotus entrou em funcionamento automaticamente. O setor de decifração do cérebro eletrônico decodificou a mensagem. Tangido por uma inquietação interior, o capitão Markus aproximou-se do computador positrônico, mais precisamente, da fenda de que deveria sair a interpretação da mensagem.
O cérebro logo expeliu a folha de plástico. Markus agarrou-a com um gesto que quase chegava a ser guloso. A mensagem que o superescuta Ralph Sikeron havia expedido do planeta Volat continha quatro palavras:

Três toques de sino.

O capitão Jim Markus moveu a chave do alarma.
No mesmo instante, o alarma acústico, o alarma ótico e o alarma vibracional rugiram pela nave. O enorme computador positrônico da Lotus entrou em atividade. Milhares de funções despertaram do estágio zero, os conversores passaram a trabalhar com o desempenho máximo, as unidades de energia entraram em funcionamento. Os dispositivos de armazenamento, recheados até o limite de sua capacidade, apenas esperavam o momento de liberar a energia retida. Os homens corriam para seus postos junto aos canhões, usando as fitas transportadoras expressas e os elevadores antigravitacionais. A Lotus parecia um formigueiro revolvido, mas o pânico aparente representava uma manobra ensaiada milhares de vezes. Todas as engrenagens ajustavam-se perfeitamente, fazendo com que a nave pudesse desenvolver todo o seu potencial numa questão de minutos.
Dali a pouco, a sala de rádio transmitiu pelo intercomunicador esta frase lacônica:
Contato com Ralph Sikeron foi interrompido.
Para o capitão Jim Markus esta informação teve o mesmo significado da mensagem anterior: “Três toques de sino.”
Três toques de sino era a expressão que indicava o grau máximo de alarma.
Este código significava a existência de perigo de vida para o agente e um risco extremo para a Terra.
Transição dentro de trinta segundos! — gritou a voz metálica do computador positrônico em todos os compartimentos da Lotus.
No setor de memória do cérebro eletrônico encontravam-se à disposição, para serem utilizados a qualquer momento, os dados necessários à execução de um salto pelo hiperespaço, que levaria a Lotus num tempo zero, só inteligível em termos matemáticos, a outro lugar do Universo, situado a milhares de anos-luz de distância. Apesar disso, uma nave do tipo do cruzador ligeiro precisava de trinta segundos para que todas as máquinas pudessem funcionar com o máximo de sua potência.
Jim Markus já se acomodara no assento do piloto; a seu lado Bendler, o imediato, ocupava o lugar do co-piloto. Os dois mantiveram-se atentos para descobrir se a sala de rádio ainda enviaria outra mensagem, enquanto o tempo X corria vertiginosamente em direção ao ponto X menos zero.
Por trinta vezes, a voz do computador positrônico transmitiu a indicação do tempo. Todas as trinta vezes, o ruído representou um martírio psicológico. O capitão Jim Markus sabia perfeitamente que seu salto representaria a eliminação definitiva de contato com o superescuta Ralph Sikeron, se é que esse agente cósmico ainda estivesse vivo.
A sala de rádio não transmitiu qualquer aviso sobre outra mensagem de Sikeron, embora duas dezenas de homens recorressem a todos os meios para restabelecer a comunicação. Chegou-se ao momento X menos dez.
O capitão Jim Markus colocou a mão sobre a chave que poderia isolar o computador positrônico de todas as funções da Lotus.
Ainda esperava que nos últimos segundos Ralph Sikeron poderia entrar em contato com a nave.
Apenas a sala de rádio manifestou-se em X menos quatro.
O emissor de Volat continua em silencio.
Markus perdeu as esperanças. Enquanto na nave esférica de cem metros os mecanismos rugiam e as mensagens em texto claro faziam piscar a lâmpada verde na mesa do comandante, aproximava-se o momento em que a Lotus saltaria e fugiria para o hiperespaço.

* * *

Com três saltos pelo hiperespaço a Lotus voltou ao sistema solar.
Cruzou a órbita de Plutão, foi localizada pela estação automática desse planeta, transmitiu sua senha, obteve permissão de passagem e correu à velocidade de 0,6 da luz em direção à Terra.
Marte surgiu em teta 56 graus, 17 verde. No momento em que as estações das luas de Júpiter e Saturno registraram a presença do cruzador leve, o setor de vigilância espacial sediado em Marte incumbiu-se da Lotus, anunciando sua chegada para a Terra, mais precisamente, para Terrânia. Esta metrópole, erigida no deserto de Gobi, era o trampolim destinado aos saltos para a Galáxia.
A Lotus realizou um pouso de alarma. O capitão Markus encarregou o imediato da realização da manobra. Perry Rhodan foi informado pelo rádio sobre os motivos do regresso da Lotus, e ainda a respeito das razões pelas quais o capitão Markus desejava falar com o chefe.
Markus encontrava-se na comporta, aguardando que o dispositivo automático abrisse a escotilha, quando a sala de rádio lhe transmitiu a seguinte mensagem:
No momento Perry Rhodan se encontra em Vênus. Foi informado sobre o regresso da Lotus. Pede que os fatos sejam relatados a Bell.
Quem chamasse Reginald Bell, o representante de Rhodan, pelo nome de Bell, não o estaria depreciando. Ele mesmo fizera questão de que todos o chamassem simplesmente de Bell, e pouca gente sabia seu nome completo. O poder, que Reginald Bell detinha na qualidade de substituto de Rhodan, nunca lhe subira à cabeça. Em qualquer situação, continuava a ser apenas um homem, com todas as qualidades e defeitos. Talvez fosse esse o motivo por que era tão simpático aos olhos de todo mundo.
A Lotus pousou em meio a cruzadores pesados, naves da classe Império, destróieres e naves mercantes fracamente armadas.
Um veículo pertencente ao serviço de Reginald Bell recolheu Jim Markus e correu pelo gigantesco campo de pouso. Não foi detido pela barreira de radiações que protegia o bairro administrativo de Terrânia. Dez minutos após o pouso da Lotus, deixou o comandante na entrada do arranha-céu.
Todos os postos pelos quais Markus tinha de passar para chegar à presença do representante de Perry Rhodan já haviam recebido as respectivas instruções.
Treze minutos após o pouso, achava-se à frente de Bell.
Com sua cabeleira ruiva cortada à escovinha, Reginald recebeu Markus com estas palavras:
Entre depressa, Markus. Sente aqui. A qualquer momento o chefe deverá aparecer na tela. Rhodan não se importará nem um pouco em ocupar a mente por alguns minutos com alguma coisa que não seja o tal do Atlan. Mas com Perry acontecerá a mesma coisa que aconteceu comigo: não ficará nada contente com a notícia. Três toques de sino. Não fazemos a menor idéia por que os sinos estão repicando em nossa homenagem.
Era a fala típica de Bell. Nunca era muito rigoroso na maneira de expressar-se.
A tela começou a tremeluzir. A outra estação ficava em Vênus, onde se encontrava Perry Rhodan, a fim de colher mais algumas informações sobre o solitário do tempo e seu enigma da vida eterna.
O rosto marcante de Perry Rhodan surgiu na tela. Seus olhos impunham calma. Sorriu ligeiramente quando cumprimentou o capitão.
Enquanto Reginald Bell permanecia sentado, o comandante da Lotus apresentou seu relato ao chefe. Estabeleceu-se contato radiofônico simultâneo com o cruzador ligeiro. Todos os dados, que Markus não tinha à mão, eram recebidos dentro de poucos segundos diretamente da nave.
O capitão Jim Markus poderia ter conseguido esta comunicação com muito menos trabalho. Bastaria que permanecesse na posição de espera no interior do sistema de Heperés, e enviasse uma mensagem para Rhodan pelo hiper-rádio. Porém, havia ordens terminantes de, em hipótese alguma, usar o hiper-rádio a fim de entrar em contato com a Terra ou qualquer outro ponto do sistema solar. É que para toda nave de Árcon ou para um dos veículos espaciais cilíndricos dos mercadores seria fácil efetuar a medição do respectivo raio. Com isso, o planeta Terra, que os arcônidas, bem como os clãs dos mercadores e os médicos galácticos consideravam destruído, voltaria a se constituir no alvo de perigosos ataques.
Era o que Rhodan queria evitar em quaisquer circunstâncias. Por isso “mantinha seus agentes em algumas centenas de mundos habitados pelos arcônidas ou pelos mercadores. Rhodan não estava interessado na espionagem militar ou industrial. Apenas queria ser mantido a par sobre o comportamento dos saltadores e do centro de computação de Árcon.
Rhodan ouviu o relato de Jim Markus sem interrompê-lo. Assim que concluiu, as perguntas começaram a desabar sobre o comandante do cruzador. Os aspectos mais relevantes do relato obtiveram o devido realce. Markus solicitou alguns dados ao pessoal que se encontrava no cruzador. Rhodan refletiu ligeiramente diante da tela instalada em Vênus e tomou sua decisão.
Capitão Markus, coloque a Lotus em condições de decolar imediatamente. Assim que o mutante Fellmer Lloyd se encontre a bordo, volte para o sistema de Heperés. Providencie para que Lloyd consiga chegar a Volat sem que ninguém o observe. Mantenha a Lotus em posição de espera. Não se esqueça de que nossa existência e a de todo o sistema solar correrão um perigo sério se não descobrirmos num espaço de tempo muito curto por que Ralph Sikeron transmitiu a mensagem três toques de sino. Aja segundo seu arbítrio, sempre que a situação o exigir, mas lembre-se que nossa vida poderá depender daquilo que o senhor fizer. Boa viagem, capitão!
A tela apagou-se.
Reginald Bell entrou em contato com a sede do Exército de Mutantes.
Onde Fellmer Lloyd se encontra no momento? — gritou para dentro do microfone.
A resposta foi imediata:
No terceiro planeta do sistema de Horga, pertencente ao Império de Árcon.
Era só o que faltava — resmungou Bell, lançando um olhar envenenado para o microfone, como se o aparelho tivesse culpa de que o telepata e localizador Fellmer Lloyd se encontrasse tão longe da Terra. Olhou para o capitão Markus e disse: — Acho que o senhor não terá outra alternativa senão voar ao extremo oposto do Grande Império para recolher...
O alto-falante berrou em meio às suas palavras. A sede do Exército de Mutantes voltou a falar.
Ratificamos, Sir — disse o homem que ocupava a estação transmissora. — Fellmer Lloyd concluiu sua missão no sistema de Horga e a qualquer hora deverá descer em Terrânia num cruzador pesado. Acabamos de receber esta informação...
Que sorte! — ironizou Bell. Piscou para Jim Markus. — O senhor é um felizardo e...
Mais uma vez foi interrompido. Trud, o elemento encarregado de entrar em contato com todas as pessoas que diziam terem necessidade imperiosa de falar com Bell, entrou e, sem dizer uma palavra, entregou-lhe um relatório.
Este vinha de Vênus, ou melhor, de Perry Rhodan. Logo após a palestra mantida com o capitão Markus, Rhodan entrara em contato com Trud a fim de transmitir-lhe as instruções que o mutante Fellmer Lloyd deveria seguir durante a execução de sua missão em Volat.
Bell lançou um olhar sobre o papel e entregou-o a Markus.
Isto é para seu mutante, capitão — reteve o papel.
Uma das frases escritas no mesmo despertara sua atenção. Continha uma palavra que Rhodan usava muito raramente.

...procure averiguar quanto antes onde Ralph Sikeron viu um perigo gravíssimo para a Terra...
2



O capitão Jim Markus entrou no camarote que Fellmer Lloyd estava ocupando durante a viagem ao sistema de Heperés.
Encontrou Lloyd deitado, lendo e fumando. Tinha a seu lado uma garrafa de Napoleon, de pelo menos cento e cinqüenta anos de “idade”.
Gostaria de ter os seus nervos — exclamou Markus, sacudindo a cabeça face à calma do mutante.
Dali a uma hora, Fellmer Lloyd se lançaria numa missão perigosíssima. Em vez de preparar-se para a mesma, ficou tranqüilamente na cama, lendo, fumando e tomando um conhaque de primeiríssima qualidade.
Fellmer Lloyd era baixo e de ombros largos. Afastou os cabelos escuros da testa, sorriu e respondeu:
Eu que gostaria de ter os seus nervos, capitão. Afinal, não é nenhuma brincadeira ter de esgueirar-se constantemente diante das naves de Árcon e dos veículos espaciais cilíndricos.
Pelo tempo de bordo são 16 horas e 52 minutos, Lloyd...
...e o senhor acha que já está na hora de levantar-me, não é? — completou o telepata com um sorriso. — Por quê? Posso entrar em ação a qualquer momento. Com os mutantes acontece a mesma coisa que com a Lotus, Markus. Quem não está em condições de entrar em ação quando isso se torna necessário, nunca mais precisa estar. Se não fosse assim, a Lotus já teria se transformado numa nuvem de gases e, a esta hora, eu não estaria respirando. Sente, capitão; ainda disponho de uma hora.
Acontece que eu não disponho — disse Markus, esquivando-se. Nunca se sentira muito à vontade perto dos mutantes que sabiam ler pensamentos. Por isso, usou o pretexto da falta de tempo para encerrar sua visita ao camarote de Fellmer Lloyd.

* * *

O ponto em que a Lotus se mantinha em posição de espera ficava a dez anos-luz do sistema de Heperés.
Às dezoito horas em ponto, tempo de bordo, a Gazela — uma nave de reconhecimento de grande alcance em forma de disco, dotada de propulsores que lhe permitiam desenvolver velocidade superior à da luz e garantiam um raio de ação de quinhentos anos-luz — foi retirada do hangar da Lotus.
Sentado tranqüilamente numa poltrona, Fellmer Lloyd não se parecia preocupar nem um pouco com o fato de que aquilo dizia respeito ao desempenho de sua missão.
A Gazela, um veículo de trinta e cinco metros de diâmetro e dezoito metros de altura, aguardava junto à Lotus pelo sinal que liberaria sua partida. Naquele momento, Cerl Sandford, piloto da nave de reconhecimento, prestava atenção exclusivamente ao surgimento de determinada luz verde.
Durante três segundos, o cruzador Lotus ficou privado de todos os campos protetores, inclusive daquele que o resguardava contra a localização. Foi quando a Gazela disparou com uma aceleração equivalente a 3G em direção a um ponto luminoso, mais precisamente, em direção ao sol Heperés.
No hangar da Lotus, havia outras naves do tipo Gazela. Porém o veículo de reconhecimento que acabara de ser lançado ao espaço era o único que dispunha de compensador estrutural.
Cerl Sandford, que recebera do cérebro positrônico todos os dados para o salto, fez com que o pequeno computador positrônico de sua nave anunciasse o tempo X. Mais uma vez, a voz metálica começou a “recitar” os segundos; mais uma vez, os setores energéticos e de propulsão se tornaram bastante barulhentos. No momento X menos zero, veio o salto para o irreal, durante o qual os corpos se desmaterializavam e, ainda dentro desse tempo zero, tudo retornaria ao cosmos normal. Executando um salto que a levou de uma distância de dez anos-luz até 8,2 milhões de quilômetros do sol Heperés, a Gazela colocou-se “à porta” do sistema.
O compensador estrutural tornou impossível a constatação do tremendo abalo da estrutura cósmica causada pelo hiper-salto. Este aparelho fazia com que as estações de Volat não pudessem registrar a aproximação da Gazela.
Cerl Sandford, um jovem de vinte e três anos, era o elemento mais competente da tripulação do capitão Jim Markus, sempre que se tratava de chegar a um planeta sem ser percebido. Quando no desempenho de uma missão, era frio como gelo, e não precisava de co-piloto. Regulou a tela de visão global para a ampliação máxima. A posição dos seis planetas de Heperés estava gravada em seu cérebro. Durante as três horas seguintes, ficaria em condições de recitar impecavelmente suas coordenadas. Estava familiarizado com a configuração planetária de Volat. Além disso, conhecia perfeitamente o lugar em que a Gazela de Ralph Sikeron se encontrava oculta sob uma abóbada energética.
A existência, a essa hora, da nave de reconhecimento de longo curso, não era apenas uma especulação teórica. Depois que a Lotus pousou em Terrânia, o maior computador positrônico realizou outra medição do ângulo de partida do sinal “três toques de sino”, expedido por Ralph Sikeron. Constatou-se que o alarma fora irradiado de Kuklon. Dali se concluía que a Gazela do superescuta Sikeron ainda devia existir, embora houvesse pouquíssimas chances de encontrar o agente cósmico com vida.
A impassibilidade exibida por Fellmer Lloyd não era nenhuma máscara atrás da qual se escondesse o nervosismo. Se o dom telepático lhe permitia ler os pensamentos das outras pessoas, a outra faculdade que possuía, a da localização, constituía uma vantagem ainda maior, que justificava plenamente que cultivasse essa impassibilidade. Absorvia os modelos de vibrações cerebrais de outras pessoas, decifrava-os e podia dizer com segurança quase absoluta quem vinha, a que vinha e de onde vinha.
Examinara Cerl Sandford e ficou satisfeito. Tinha certeza de que chegaria a Volat sem ser localizado pelas estações arcônidas, e pousaria perto da Gazela de Ralph Sikeron, na qual Cerl Sandford voltaria à Lotus.
A defesa solar do planeta Terra preparara todos os detalhes da tarefa de Fellmer Lloyd. Nada foi deixado ao acaso. Tudo fora conferido. E a quantia com que o mutante chegaria ao planeta reforçava o relevo que Rhodan atribuía a essa missão.
A Gazela percorreu os últimos trezentos mil quilômetros numa velocidade infernal, muito embora não ultrapassasse a marca de 0,2 luz. Cerl Sandford usava apenas a terça parte das energias de que a nave podia lançar mão. Assim não desfalcaria suas reservas que tornavam superpotente o campo de proteção contra a localização. Tudo isso não bastaria para que a Gazela pudesse chegar a Volat sem ser percebida, se Sandford não utilizasse uma trilha de entrada bem delimitada. Nesta, havia uma faixa de menos de um quilômetro que não era inteiramente coberta pelas estações de vigilância dos arcônidas e dos mercadores galácticos.
A mesma rota fora utilizada para levar Ralph Sikeron ao planeta.
Finalmente a Gazela desceu como uma folha seca. Penetrou por uma abertura entre as árvores gigantescas da mata virgem e, sob a proteção da semi-escuridão, ficou pousada a poucos quilômetros da periferia da selva.
Cerl Sandford expediu uma minúscula sonda, que era uma verdadeira maravilha de precisão e potência. Subiu ao espaço com um chiado. Era muito pequena para ser captada pelos instrumentos de localização, suas dimensões eram tão exíguas que não poderia ser vista na mais sensível das telas, e sua superfície continha pouco metal para refletir quaisquer ondas. Mas a potência de seu microtransmissor era suficiente para, a uma distância segura do planeta Volat, transmitir à Lotus, estacionada a dez anos-luz de distância, o sinal de um pouso sem incidentes.
A seguir, Cerl Sandford colocou toda a aparelhagem na posição zero, levantou-se do assento de piloto, despediu-se de Fellmer Lloyd com um aperto de mão e disse:
A outra Gazela está a duzentos metros daqui, para a direita. Durante o pouso consegui medir a posição da abóbada energética.
Está bem — disse Lloyd. — É bom que me deseje muita sorte. Sinto que desta vez realmente vou precisar.

* * *

Fellmer Lloyd aguardou o amanhecer antes de fazer qualquer coisa.
Depois de caminhar durante uma hora pela mata exuberante e fechada, que ostentava uma flora estranha, atingiu o terreno livre.
Dali a duas horas viu-se numa estrada, da qual saiu apressadamente, pois dentro dos limites do Grande Império não se poderia recorrer à desculpa clássica de veículo avariado sem despertar suspeitas.
Fellmer Lloyd não se queixou quando ao meio-dia ainda não havia chegado à pequena cidade de Esgun. Um pantanal obrigara-o a dar uma enorme volta, fazendo-o empenhar-se em luta com um estranho monstro em forma de salamandra.
Seu primeiro encontro com um ser de Volat representou um confronto com o mais perigoso dos répteis do planeta. E isso deu-lhe que pensar. Lembrava-se com freqüência cada vez maior de Ralph Sikeron. Sabia perfeitamente que o superescuta era um homem extremamente prudente e previdente. Ao que tudo indicava, já estava morto. E era muito mais perigoso seguir as pegadas de um agente colocado fora de ação do que iniciar uma tarefa.
O sol de Heperés transformou o planeta Volat numa sauna, que se tornava cada vez mais quente à medida que se aproximava o meio-dia. Mas Lloyd não desanimou. Caminhou resolutamente ao longo das samambaias de caules alongados e desviou-se de um líquen avermelhado, que ao mais leve toque esguichava um ácido corrosivo, capaz de afastar até os répteis em forma de salamandra.
Eram três horas, tempo local, quando chegou a Esgun, uma cidade pequena, onde todas as pessoas se conheciam. Fellmer Lloyd ficou muito feliz ao notar que o trem de radiações destinado a Kuklon partiria cinco minutos após sua chegada à estação da via férrea expressa.
Um saltador aproximou-se dele, lançou-lhe um olhar de espreita e perguntou no dialeto dos mercadores galácticos:
Quando foi que choveu hoje? O senhor está todo molhado.
Fellmer Lloyd leu os pensamentos de seu interlocutor. Foi só em virtude do treinamento rhodaniano que não estremeceu. O saltador não só se espantara com seu aspecto exterior, mas estava realmente desconfiado.
Apesar de tudo, Lloyd conseguiu soltar uma risada. Apontou para seu corpo com um gesto da mão.
Chuva? — disse na linguagem inconfundível dos preboneanos. — Que chuva, que nada. Isto é suor. E o pior é que foi em vão. Vi o besouro de dugerun uma única vez. Depois o bicho me fez de idiota durante três horas. Quero que o diabo carregue tudo quanto é besouro.
Um sorriso largo aflorou ao rosto do saltador quando este ouviu o que o preboneano suado procurara caçar. Mas a desconfiança logo voltou a surgir, porque não viu em poder de Lloyd o recipiente que carregam aqueles que andam atrás do besouro raro. Lloyd adiantou-se à pergunta do saltador. Apontou para os sapatos sujos, em que ainda se viam sinais de lama, e ficou praguejando contra os arredores inóspitos de Esgun.
Naquele momento, o trem de radiações pousou no trilho magnético. Com um ligeiro cumprimento, o mutante deixou o saltador na plataforma. O mercador galáctico ainda se encontrava no mesmo lugar quando o veículo se desprendeu do trilho magnético para percorrer os últimos 230 quilômetros que o separavam de Kuklon.
Lloyd captou todos os detalhes da mente de seu interlocutor. O saltador ainda não estava decidido sobre se devia avisar os setores de vigilância de Kuklon.
Enquanto em torno dele havia um burburinho formidável, o telepata e localizador concentrou-se sobre o saltador. A distância crescia a cada segundo que passava. Porém, isso em nada afetou a percepção nítida dos pensamentos do outro.
Subitamente Fellmer Lloyd recostou-se na poltrona.
A decisão acabara de ser tomada.
O saltador pôs-se a caminho a fim de entrar em contato com a administração arcônida de Kuklon pelo rádio, chamando sua atenção sobre o prebonense que lhe parecia tão suspeito.
Isso está começando bem”, pensou o mutante bastante contrariado, lançando um olhar indiferente para baixo, onde a paisagem se desenrolava como num filme sob o trem que corria a toda velocidade.
Dali a dez minutos, viram os edifícios de Kuklon. O trem perdeu altitude e velocidade e esgueirou-se entre os arranha-céus. Finalmente, pousou em sentido vertical sobre o trilho magnético da estação.
Fellmer Lloyd encontrava-se junto à comporta, onde aguardava a abertura automática da mesma. Notou três arcônidas que caminhavam pela plataforma. Seus uniformes eram inconfundíveis. A mente do mutante não teve a menor dificuldade em abranger os pensamentos daqueles homens altos. Logo percebeu a que vinham.
A porta abriu-se à sua frente. Lloyd deixou que três passageiros passassem à sua frente. Mostrou-se muito gentil para com uma velha saltadora, que carregava três volumes enormes.
Fellmer colocou um volume em cada ombro, caminhou meio recurvado ao lado da senhora de idade, iniciando uma conversa. Os olhos dos três arcônidas passaram acima de sua cabeça; estavam à procura de um prebonense de sapatos sujos.
Lloyd nem chegou a ouvir os agradecimentos da senhora.
Seu destino era a base de operações de Ralph Sikeron, situada no bairro galáctico de Kuklon, na Praça Thator, cujo nome fora tirado da nave exploradora mais bem sucedida dos arcônidas.
Não se interessou pelo tráfego intenso da metrópole.
Kuklon era um ponto de entroncamento do Grande Império e um centro de operações dos mercadores galácticos. O mutante viu que se haviam fixado definitivamente por ali. A melhor prova disso consistia nos edifícios majestosos que traziam a denominação dos clãs que os haviam construído.
Tomou um veículo robotizado. À medida que este prosseguia em sua viagem por Kuklon, aumentava o luxo dos edifícios de escritórios dos saltadores.
Subitamente a rua alargou-se. O autômato anunciou que havia chegado ao destino.
A Praça Thator era uma área circular de dois quilômetros de diâmetro, cercada de prédios com mais de quinhentos metros de altura.
O lugar servia de ponto de encontro de todas as raças da Via Láctea. Lloyd viu seres de que nunca ouvira falar. Alguns deles arrastavam-se dentro de trajes pressurizados. Outros executavam um salto de dez metros a cada passo dado. Deviam vir de mundos em que a gravitação era muito maior. Viu monstros que lhe causaram calafrios, mesmo sendo um mutante bem treinado. Por outro lado, deparou-se com seres que se pareciam com os cães bassê do planeta Terra. Apenas, esses bassês não possuíam pele, cauda ou focinho de bassê. Porém o formato da cabeça e das orelhas assemelhava-se tanto ao dessa raça canina que Lloyd teve de controlar-se para não os chamar com um assobio.
A base de operações de Ralph Sikeron fora instalada no edifício do clã de Uxlad. Fellmer contemplou discretamente o edifício, atravessou a praça e procurou localizar uma eventual fonte de perigo. A utilização de sua faculdade localizadora não produziu o menor resultado.
A enorme porta de entrada revelava uma ostentação exagerada. O clã de Uxlad mandara revestir os batentes, controlados por um dispositivo positrônico, com os metais mais preciosos, mas nem por isso seu aspecto tornou-se mais acolhedor. Os letreiros das firmas, apresentavam o mesmo feitio de ostentação da porta de entrada. Entre outros, Fellmer Lloyd leu o seguinte:

GETLOX ASARGUD
TRANSPORTES

O nome Asargud era o disfarce usado pelo superescuta Ralph Sikeron, que instalara sua base de operações no edifício comercial do clã de Uxlad.
Lloyd lançou um olhar para seu corpo. As vestes já estavam secas, mas nos sapatos ainda havia sinais inconfundíveis de sujeira. Não estava disposto a arriscar o êxito de sua missão devido a este detalhe ridículo. Resolveu adquirir vestimentas novas.
Dali a uma hora, viu-se novamente diante do edifício dos Uxlad. Desta vez, envergava o traje elegante dos arcônidas. Procurou localizar uma eventual causa de perigo. Não encontrou nenhuma e, atravessando o portal — um modelo de ostentação — penetrou no hall de recepção.
Um robô aproximou-se rapidamente e perguntou o que desejava. A firma Getlox Asargud ficava no 212o andar.
O elevador antigravitacional gastou poucos segundos para levá-lo ao pavimento desejado. A intensidade do tráfego no respectivo poço era notável. Também ali estavam reunidas todas as raças da Via Láctea, que pareciam negociar com o clã dos Uxlad.
Fellmer Lloyd atingiu o 212o pavimento sem ser molestado. Num andar acima, ficava a área de pouso para táxis aéreos e naves espaciais de pequeno porte.
O corredor largo, pomposo como a entrada, irradiava tranqüilidade benfazeja. Mas o mutante não se deixou impressionar pela beleza nem pela riqueza. Encontrava-se no cumprimento de uma missão. Devia entrar em contato quanto antes com o agente Ralph Sikeron, se é que este ainda estivesse vivo, a fim de esclarecer o sentido da mensagem de alarma três toques de sino.
Não foi por acaso que a defesa solar do planeta Terra atribuíra a Fellmer Lloyd a identidade de um prebonense. Aquela raça colonial, que há milênios era um membro fiel do Grande Império, assemelhava-se pelo feitio do corpo à figura de Lloyd. Por várias vezes, os mutantes de Rhodan tiveram de aprender por experiência própria que o aspecto mais comum é o melhor disfarce.
Uma porta abriu-se a poucos metros do lugar em que Lloyd se encontrava. Uma moça saiu para o corredor e lançou um olhar curioso para o mutante. Nem desconfiava que este lia seus pensamentos como se fosse um livro aberto. Lloyd dirigiu um cumprimento amável à moça e disse:
Estou procurando a firma Asargud, que fica no 212o andar.
Mal acabou de pronunciar o nome que servia de disfarce a Ralph Sikeron, percebeu que a moça saltadora passou a assumir uma atitude de reserva hostil. O rosto encantador de feições mongolóides continuou amável, mas sua voz assumiu um tom nada gentil.
Terceira porta à direita. Hoje o senhor já é a oitava pessoa que está à procura dessa firma.
Os olhos escuros, que formavam um contraste maravilhoso com a pele avermelhada, já não exprimiam a menor curiosidade. Com o gesto característico a qualquer moça que repele alguém, virou-se bruscamente e foi andando em direção ao elevador antigravitacional.
Fellmer Lloyd não a seguiu com os olhos. Os pensamentos da jovem saltadora causaram-lhe certa preocupação: “Mais um espia arcônida!
Para não chamar a atenção mais que o necessário, foi até a terceira porta da direita. Conforme esperava, encontrou-a trancada. À sua vista bem treinada, não escapou o fato de que a fechadura magnética fora forçada, embora com muita habilidade.
Desceu pelo elevador antigravitacional. Não esperara conseguir entrar em contato com Sikeron na primeira tentativa. No entanto, o pensamento que passara pela cabeça da bela jovem não lhe saía da mente: “Mais um espia arcônida!
No hall de recepção, desviou-se de três indivíduos pertencentes à raça dos superpesados. Conversando em voz alta, caminhavam em sua direção e com seu corpo de setecentos e cinqüenta quilos poderiam dar-se ao luxo de esbarrar num humano de peso normal. Naquele momento, seu dom de localização avisou-o de que estava sendo observado.
O aspecto exterior de Fellmer Lloyd transmitia a impressão da apatia e da lentidão. Mas naquele instante, a mente do mutante correspondia ao extremo oposto desse estado.
Com o rosto de um homem que reflete sobre um negócio, saiu do edifício Uxlad. Na verdade, estava observando atentamente as imediações. Mantinha uma das mãos no bolso, onde os dedos cingiam a arma de choques com a qual estava tão familiarizado.
Lentamente foi abrindo caminho entre a confusão de raças que continuava a acotovelar-se na Praça Thator.
Seu sentido localizador continuava a emitir o sinal de alarma.
Não havia a menor dúvida. Estava sendo seguido por uma pessoa. Os dados relativos à mesma foram captados de maneira pouco nítida e com fortes interferências.
Fellmer Lloyd nunca se deparara com um fenômeno igual.
Dois soldados da força espacial dos arcônidas encontravam-se na Praça Thator, na qual se via, sobre um pedestal, uma reprodução artística da célebre nave espacial. Os dois arcônidas altos e uniformizados fitavam o mutante de forma tão acintosa que Fellmer Lloyd não poderia deixar de notá-los. Aproximou-se tranqüilamente dos dois homens.
Desejam alguma coisa? — perguntou no dialeto dos prebonenses e lançou-lhes um olhar de desafio. Antes que respondessem, Lloyd informou-se sobre os pensamentos deles. Sentiu-se chocado pelo fato de que esses homens, que eram apenas soldados de Árcon, haviam recebido ordens da administração de Kuklon para procurarem determinado indivíduo.
E a pessoa que estava sendo procurada era ele mesmo!
No peito dos soldados, destacava-se o pequeno aparelho de radiocomunicação.
Fellmer Lloyd percebeu que a situação era muito mais perigosa do que supusera.
Onde estaria a outra pessoa, que o observara enquanto saía do edifício Uxlad?
O mais velho dos arcônidas respondeu com outra pergunta:
Alguém falou com o senhor?
Enquanto falava, olhou para os sapatos de Lloyd.
O agente cósmico logo percebeu que a situação se modificara. Os pensamentos dos arcônidas eram tão confusos que não permitiam qualquer interpretação precisa, com exceção deste impulso: “Sapatos enlameados!
Não — rangeu a voz de Lloyd — ninguém falou comigo. Acontece que os senhores me olharam de forma muito insolente — com as últimas palavras lançou uma “ponte” para a idéia dos sapatos enlameados.
O soldado mais jovem logo pisou nessa “ponte”.
A Administração mandou que prendêssemos um suspeito, caso o encontrássemos. Trata-se de um homem de roupa suada e sapatos sujos. A estatura dele é igual à sua, mas quanto ao mais...
Fellmer Lloyd começou a rir.
O computador de Árcon está dominando vocês que é uma beleza! Até quando estão na cidade, de férias, têm que dar serviço. Procurem não apodrecer nos pântanos de Kuklon!
Despediu-se com um gesto amável e embrenhou-se na multidão.
Nem pensou em sair da Praça Thator. A busca misteriosa de sua pessoa, que dera origem ao alarma mental, não combinava com o quadro. Embora o cérebro positrônico, que governava o Grande Império há quase um século, tentasse constantemente despertar os arcônidas entorpecidos, até então a máquina fria não conseguira registrar um único êxito nessa tentativa. Assim, a suposição de Fellmer Lloyd, segundo a qual os mercadores galácticos deviam estar atrás desse alarma, não tinha nada de absurdo.
Ao contornar a Praça Thator, voltou a passar à frente do edifício Uxlad. O edifício portentoso atraía-o que nem um ímã. Subitamente estremeceu.
Localização! Um modelo de vibrações cerebrais foi captado com toda nitidez.
Mais uma vez, estava sendo observado. E mais uma vez, isso acontecia nas proximidades do edifício Uxlad.
Lloyd não demorou em analisar o modelo de vibrações cerebrais.
Verificou a direção de onde vinha a emissão e não se surpreendeu ao constatar que o ponto de partida ficava na entrada do edifício.
A entrada ostentosa dotada de comando positrônico estava aberta. Centenas de saltadores saíam do edifício. Desciam apressadamente pela larga escadaria e perdiam-se na multidão.
Subitamente Fellmer Lloyd pôs a mão na cabeça. Seus lábios moveram-se, e disseram:
A moça!
Ela o observava!
A jovem mercadora galáctica do 212o andar estava de pé à esquerda da entrada e olhava para ele.
Fellmer não deu a perceber que notara a atitude da moça. Com sua faculdade telepática procurou captar os pensamentos dela. Ao descobrir neles um certo ritmo, que lhe parecia familiar, não teve a menor dúvida de que ela o seguira desde o momento em que saíra do edifício Uxlad.
E a moça pensava intensamente em Ralph Sikeron!
3



Fellmer Lloyd passou sua primeira noite em Volat no Hotel Plana. Dormiu um sono profundo, que não foi perturbado por sonhos. Ao despertar, porém, sua mente ocupou-se imediatamente com a moça alta e de rosto encantador. Os traços mongólicos e a pele avermelhada não permitiam a menor dúvida quanto ao fato de que era filha de um mercador galáctico.
A moça pensara ininterruptamente em Ralph Sikeron, enquanto observava Fellmer Lloyd. Não chegou a estabelecer contato com ela. Fellmer Lloyd não gostava de agir precipitadamente, mesmo num caso como este, em que Perry Rhodan lhe confiara a tarefa de esclarecer o quanto antes qual era o perigo gravíssimo para a Terra existente em Volat.
Fellmer Lloyd sorriu enquanto guardava seus “instrumentos de luta” junto ao corpo. Nenhum deles faria supor a origem terrana. Todos os objetos, mesmo os mais insignificantes, eram produtos genuínos da indústria prebonense, embora a construção de três armas de modelos diferentes pudesse dar o que pensar aos arcônidas. Por certo, teriam dificuldade em descobrir o canto da Galáxia cuja tecnologia produzira esses artefatos.
Tomou café com a tranqüilidade do homem que está em paz com a consciência, deu a indicação de que pretendia ficar com o aposento e caminhou em direção à Praça Thator.
Não poderia deixar de ir ao edifício Uxlad. Ele mesmo não saberia dizer o que o atraía para lá. Seria a moça?
Mais uma vez, o elevador antigravitacional levou-o ao 212o andar. Enquanto subia, resolveu dar ao menos uma olhada ligeira na área de pouso. Ali havia apenas uma nave espacial rápida de pequenas dimensões.
Uma nave auxiliar cilíndrica dos saltadores chiava, vindo do sul.
Lloyd fez de conta que pertencia à tripulação da pequena nave pousada.
Encostou-se confortavelmente à coluna de apoio telescópica. A nave auxiliar cilíndrica pousou a menos de vinte metros do lugar em que se encontrava.
Três saltadores apareceram. Ainda envergavam os trajes espaciais. Lançaram um ligeiro olhar para Fellmer e caminharam em direção ao elevador antigravitacional.
Por uma questão de rotina, Lloyd controlou seus pensamentos. No mesmo instante passou a ser exclusivamente o telepata. Os saltadores pertenciam à equipe de uma estação de vigilância espacial. Vinham de lá e conversavam sobre a aproximação de um objeto — não identificado — ocorrida duas noites atrás. O objeto não foi atingido pelos raios, nem se tornou visível no instrumental ótico. O exame de rotina realizado pelo computador positrônico chegara à conclusão de que uma nave espacial de dimensões reduzidíssimas devia ter pousado em Volat.
Fellmer Lloyd não ficou nem um pouco satisfeito ao descobrir que o funcionamento preciso do computador positrônico permitira calcular o local do pouso com uma diferença não superior a vinte quilômetros.
E os três saltadores, que passaram por ele, ainda haviam sido informados de que quinze dias atrás o mesmo fenômeno fora registrado.
Foi há quinze dias que Ralph Sikeron chegou a Volat.
Que bela perspectiva!”, pensou Lloyd com um humor fúnebre. “Só falta uma expedição arcônida de busca para que, hoje de noite, metade dos habitantes de Volat esteja na minha pista.”
Não se entregou a quaisquer ilusões. Tinha plena certeza de que antes do anoitecer Volat se encontraria em estado de alarma. Mas o que será que os três saltadores, que afinal estavam a serviço de Árcon, vieram fazer no edifício comercial dos Uxlad?
Mais uma vez, captou os pensamentos deles, embora o elevador já os tivesse levado ao 35o andar.
Falavam em chefes, em outros saltadores. Subitamente foi proferido o nome da localidade de Esgun. Lloyd esperava conseguir informações mais detalhadas, mas justamente nesse instante a palestra e o conglomerado mental dos três homens divergiram para o quotidiano.
O pouso de um táxi aéreo surpreendeu-o. Só o chiado da manobra de aterrissagem despertou-o da concentração telepática. E seu sentido localizador desencadeou o alarma: era a moça.
Antes que ela descesse, captou-lhe o modelo de vibrações cerebrais e também o conteúdo de seus pensamentos.
Estava chegando atrasada ao serviço. Por isso, tomara um táxi aéreo. Mas naquele momento não pensava em seu trabalho, e sim em Ralph Sikeron; ou melhor, em Asargud.
Ao descer do táxi aéreo, fitou-o perplexa. Estava completamente indecisa. Pensava nos espias de Árcon e comparou Asargud com o homem desconhecido que ontem vira pela primeira vez no corredor.
Fellmer Lloyd saiu da sombra da pequena nave espacial e dirigiu seus passos ao elevador antigravitacional. Lá não deixaria de encontrar-se com ela, e era o que a moça queria. Acontece que não disse uma palavra enquanto desciam um andar, e ainda se mantiveram em silêncio enquanto caminhavam pelo corredor.
Asargud era seu conhecido? — disse, surpreendendo-a com a pergunta. — Ele e eu somos de Prebon. Estou apenas de passagem. Amanhã deverei prosseguir viagem. Sabe onde posso encontrar Asargud?
A moça voltou a sentir medo de que o homem que caminhava a seu lado fosse um espião arcônida. Subitamente parecia andar com certo constrangimento. Lloyd sentiu quase fisicamente a luta interior em que estava empenhada. Convenceu-se de que essa moça deveria gostar muito de Ralph Sikeron, e que certamente se tornara uma espécie de amiga do agente.
Sou amigo de Asargud — insistiu Fellmer Lloyd. — Não sou igual aos outros que ontem perguntaram por ele.
A moça não poderia deixar de compreender estas palavras. Virou abruptamente a cabeça e seus olhos escuros e profundos fitaram Lloyd com uma expressão perscrutadora.

* * *

Ralph Sikeron, agente cósmico de Perry Rhodan, morrera em ação no planeta de Volat. Foi assassinado e seu cadáver estava desaparecido.
Dali em diante, Fellmer Lloyd não precisaria esforçar-se para entrar em contato com o superescuta. Ralph Sikeron já não existia.
Kuri Oneré, a jovem da raça dos mercadores galácticos, funcionária do clã de Uxlad, não lhe pediu que guardasse segredo sobre o assassinato ou que vingasse a morte de Ralph Sikeron. Apenas o fitou insistentemente com os olhos negros e aguardou sua reação.
Por que está fazendo isso por Asargud, Kuri? — perguntou Lloyd, embora seu dom telepático já lhe houvesse revelado os pensamentos da moça.
Seus olhos iluminaram-se por um instante. Seus lábios empalideceram e um traço duro surgiu em torno dos mesmos. A resposta foi imediata:
Porque foi um homem decente, prebonense... Não foi nenhum tipo imundo que nem os saltadores — seu rosto exprimiu um profundo desprezo.
Kuri, a senhora também é... A moça fez uma pose orgulhosa.
Sim. Pertenço à raça dos mercadores galácticos. Há oito anos nosso clã era rico e poderoso. Meu pai possuía trinta e oito naves espaciais. Mas o poder do clã de Uxlad foi crescendo e, por fim, ele nos tirou fraudulentamente o monopólio de sgokx. Em um ano, meu pai ficou arruinado. Agora, tenho de ganhar meu pão com esse clã maldito.
Um ódio implacável surgiu em seus olhos, e pensamentos terríveis desenvolviam-se na mente da bela moça. Kuri Oneré já perdera os pais e não tinha parentes vivos. Provavelmente foi por isso que se ligou a Ralph Sikeron. Acontece que não sabia mais nada além daquilo que contara a Lloyd.
Em tom discreto formulou outras perguntas, falou sobre a administração arcônida no planeta e referiu-se ao fato de que no Império de Árcon as penas para o assassínio são bastante rigorosas.
Asargud nunca lhe disse que tinha inimigos, Kuri?
Não, prebonense. Mas quando o vi pela última vez tive a impressão de que tinha diante de mim um homem que acabara de descobrir uma coisa terrível. Estava muito excitado, embora procurasse disfarçar. Mal teve tempo para trocar algumas palavras comigo. Acho que já desconfiava de que morreria em breve. Na época não dei tanta importância ao fato. Já quase me havia esquecido e nunca mais me lembraria se não me tivesse encontrado com o senhor.
O que foi mesmo que ele disse? — prosseguiu, indagando-se. Tentava recordar-se do acontecido. — Pediu que mandasse seu amigo à mãe onisciente, se um belo dia desaparecesse e não voltasse. Sim, foi exatamente isso que ele disse quando nos encontramos pela última vez.”
À mãe onisciente? — Fellmer Lloyd teve o cuidado de não rir.
A expressão só poderia designar uma pessoa residente em Volat. Ontem de noite tivera a primeira oportunidade ver e observar alguns habitantes.
Os nativos desse mundo provinham de uma raça de insetos e, até que o planeta fosse colonizado pelos arcônidas, levavam a vida tranqüilamente à sua maneira. Para qualquer pessoa que não estivesse acostumada a lidar com as raças inumanas, os volatenses — corpo feito de articulações finas, pernas de inseto, pele preto-marrom, às vezes revestida por córneas, grandes olhos salientes e as antenas que encimavam estes — só poderiam oferecer um aspecto grotesco. Apesar dos seus dois metros de altura não apenas pareciam inofensivos e pacatos; realmente o eram. Além disso, eram inteligentes. O desprezo que votavam aos arcônidas e aos saltadores não tinha sua origem no orgulho ferido. Fundava-se na concepção de vida dos volatenses, segundo a qual o espiritual devia preencher a vida, e os ritos mais estranhos tinham um lugar assinalado.
Fellmer Lloyd repetiu:
Mãe onisciente? — Kuri Oneré confirmou com um gesto. — Não acho que os hábitos incompreensíveis dos volatenses sejam ridículos. Asargud deve ter sido um probonense formidável, pois conseguiu o que até hoje nenhum saltador pôde realizar: estabeleceu contato com os volatenses na selva.
Naquele instante, um saltador saiu do elevador antigravitacional e entrou no corredor. Fellmer Lloyd sentiu quase fisicamente o perigo que se aproximava dele junto com o mercador galáctico. Não havia tempo para afastar-se.
O saltador maciço passou por eles e fitou-os com uma expressão curiosa. Ao reconhecer Kuri Oneré sorriu e, enquanto passava, soltou uma piada pesada proferida no dialeto dos saltadores.
Dali a dois passos parou, olhou atentamente para Fellmer Lloyd e perguntou em tom de espreita:
Está à procura da firma Asargud?
Fellmer Lloyd, um homem que parecia um tanto indolente, não demonstrou o menor nervosismo. Com uma lentidão insolente, levantou a cabeça, olhou o mercador galáctico com uma expressão fria e perguntou numa fala lenta, mas enfática:
Será que o senhor tem sempre que dizer uma coisa engraçada a toda moça com quem se encontra, saltador?
O mutante resolvera passar ao ataque. O caos mental do mercador era feito de desconfiança — onde mais uma vez os chefes desempenhavam seu papel — de raiva e atrevimento. Porém tudo era disforme e sem a necessária elaboração, provando que o homem que Lloyd tinha diante de si era um sujeito tolo e arrogante.
O mercador, cuja altura excedia a de Fellmer em cerca de trinta centímetros, aproximou-se em atitude ameaçadora:
Como se atreve...
A bofetada vigorosa de Kuri Oneré fechou-lhe a boca. Ainda mais eficaz que o castigo físico foi a ameaça de comunicar à Administração que ele a molestara.
O mercador recuou enquanto seus olhos chamejavam de raiva. Praguejou em voz baixa e desapareceu atrás da segunda porta.
Seus pensamentos não eram nada bons. Parte deles se exprimia nesta observação de Fellmer Lloyd:
Acho que a senhora não precisa comparecer mais ao serviço. Este saltador é um homem influente?
Além de ser um membro do clã dos Uxlad, é o caçula mimado de Aser Uxlad. É um sujeito malandro, incompetente e mulherengo.
Esse homem tem mais de um chefe? — perguntou Lloyd.
Kuri respondeu prontamente:
Aser Uxlad é o rei sem coroa de seu clã; não existe outro chefe.

* * *

Fellmer Lloyd sentiu a localização como se fosse um raio goniométrico.
Nascera com esta capacidade fenomenal e só no curso da vida adquirira o dom da telepatia. A localização pertencia à sua natureza. Não precisava sair à sua procura: ela vinha a ele, advertia-o ou informava, trazendo simultaneamente modelos das vibrações cerebrais dos homens ou das outras inteligências que pretendessem entrar em contato com intenções boas ou más.
Quatro saltadores subiam apressadamente pelo elevador antigravitacional, em direção ao 212p andar.
O filho mais jovem de Aser Uxlad os chamara. Por vingança e em represália pelo fato de que Kuri Oneré falara no corredor com um estranho como se fosse um velho conhecido, resolvera desencadear essa ação. Por enquanto a intervenção dos saltadores não seguia uma linha definida. Porém, quando saíram do elevador e só encontraram Kuri Oneré no corredor, sem que houvesse o menor vestígio do preboneano desconhecido, começaram a desconfiar.
Jidif, um saltador magro como um esqueleto, de olhar traiçoeiro, reagiu imediatamente, enquanto seus acompanhantes procuravam exercer pressão contra a moça. Usou seu intercomunicador de bolso para entrar em contato com a recepção. Lá embaixo havia um sujeito de sua confiança. Este mandou que três robôs que distribuíam informações se aproximassem e os reprogramou com alguns movimentos ligeiros, criando três armas perigosíssimas para a vida de Fellmer Lloyd, das quais não haveria como escapar.
No enorme edifício do clã dos Uxlad, havia um único elevador antigravitacional. Esse centro neutralizador da gravidade, de mais de trinta metros de diâmetro, começava no pavimento mais profundo do subsolo e terminava na cobertura, onde ficava o campo de pouso. Nas horas de maior movimento, centenas de humanos e outras inteligências subiam e desciam ininterruptamente pelo poço. Mas Fellmer Lloyd preferiu não utilizá-lo. No momento em que comunicou à espantada Kuri Oneré que dali a pouco uma matilha de saltadores se grudaria nos seus calcanhares, esta — sem dizer uma palavra — lhe entregou uma chave magnética.
Não teve necessidade de ler seus pensamentos para descobrir qual era a porta à qual a mesma se destinava.
Era a terceira à esquerda desse corredor, atrás da qual ficava a antiga base de operações de Ralph Sikeron.
Desapareceu nesse recinto. Fechou a porta atrás de si e, com a calma peculiar de um agente cósmico, examinou as quatro salas contíguas.
Ralph Sikeron disfarçara muito bem a base de operações, dando-lhe o aspecto de uma firma que se dedicava aos transportes interestelares. Fellmer não mexeu em nenhuma das gavetas. Nelas não encontraria as indicações de que precisava. Muitas vezes os melhores esconderijos são os lugares que qualquer pessoa vê em primeiro lugar, e onde costuma passar os olhos desatentamente.
Encontrava-se na segunda sala, ouviu o ruído na porta.
Seus perseguidores recorriam à força, na tentativa de penetrar ali. Numa série de reflexões lógicas, Jidif chegara à conclusão de que o prebonense ainda devia estar no 212o andar.
Fellmer Lloyd, com seu aspecto indolente, não se perturbou. Usou seu sentido localizador para analisar os quatro modelos de vibrações cerebrais. Seus olhos procuravam qualquer indicação, por menor que fosse, que Ralph Sikeron porventura tivesse deixado por escrito.
Os ruídos tornaram-se mais fortes na fechadura magnética, do outro lado da porta. A mão esquerda de Lloyd segurava o projetor hipnótico. Regulara-o para a potência máxima. Colocaria fora de ação os saltadores, assim que penetrassem ali. Kuri Oneré, que evidentemente se encontraria entre eles, ficaria também submetida por algumas horas aos efeitos da hipnose.
Lloyd virou para trás a página da agenda que tinha diante de si.

8 de julho...
23 mil dexresitica, enfeixado. S Suc
ção VI, vindo de Midg.
51.365 clodexal, 100%, vinda de Zalit
por derr-k 118, retransmitido por Klo
XXII para Orro. Supercrânio?

Supercrânio?
Desta vez, Fellmer Lloyd estremeceu de modo visível.
Era a indicação que procurava instintivamente. No dia 8 de julho Ralph Sikeron ainda estava vivo. E nesse dia devia ter feito a primeira descoberta importante. Mas o que significaria a referência ao Supercrânio?
Fazia mais de meio século que o Supercrânio estava morto.
Ninguém mais falava no inimigo mais perigoso que Perry Rhodan já enfrentou.
Por que a terrível palavra Supercrânio estava escrita junto aos pousos figurados das naves espaciais fretadas?
O que estaria pensando Ralph Sikeron ao registrar o nome de um morto?
Atrás dele, a fechadura magnética desmanchou-se sob o fogo do radiador de impulsos térmicos, e a porta foi aberta em meio a uma nuvem de gases malcheirosos.
Num instante, Fellmer Lloyd voltou ao presente. Sua mão tranqüila dirigiu o projetor hipnótico para a porta de entrada. Puxou o gatilho e espalhou os impulsos para a direita e para a esquerda. No mesmo instante, seu sentido de localização trouxe os modelos de vibrações dos cérebros hipnotizados.
Quatro saltadores receberam ordem para descer imediatamente e dizer ao seu comparsa que o prebonense havia escapado num táxi aéreo.
Acontece que Fellmer Lloyd cometeu um erro pequenino.
Não deu a necessária atenção ao ângulo de abertura da arma.
Não foram apenas os quatro perseguidores e Kuri Oneré que ficaram sujeitos aos efeitos hipnóticos do projetor, mas ainda três homens totalmente alheios aos acontecimentos, que se encontravam do outro lado do corredor, inclinados sobre seu trabalho. Em suas mentes não havia a menor disposição para a luta. Por isso, obedeceram mais depressa aos impulsos do agente cósmico que os quatros saltadores, e chegaram ao hall de recepção alguns segundos antes destes.
O mercador galáctico, que se encontrava na recepção, ficou pasmado quando um saltador totalmente desconhecido compareceu à sua frente e relatou detalhes surpreendentes sobre um prebonense que teria fugido pelo campo de pouso da cobertura. E sua perplexidade cresceu quando Jidif, o magricela, apareceu sem espantar-se com a presença do outro saltador.
No momento em que os acompanhantes de Jidif se propuseram a repetir o relato, repetindo sempre as mesmas palavras, o saltador percebeu o que havia acontecido com estes homens.
Moveu a mão em direção à chave de alarma; ao acionar a mesma, o edifício se transformaria numa prisão. Mas, no último instante, lembrou-se de que a administração arcônida ficaria sabendo do fato e mandaria instaurar uma investigação bastante rigorosa. Praguejou baixinho e retirou a mão da chave.
4



Fellmer Lloyd realmente usou um táxi aéreo para sair do edifício comercial dos opulentos saltadores, levando Kuri Oneré, que se encontrava sob influência hipnótica.
Uma palavra martelava constantemente seu pensamento: Supercrânio. Quanto mais refletia sobre a mesma, maior era o poder que exercia em sua mente.
Supercrânio e três toques de sino!
Isso combinava. Há mais de meio século, quando o Supercrânio recorreu aos mutantes iludidos para tirar o poder das mãos de Perry Rhodan, houvera três toques de sino no planeta Terra. Naquele tempo, o planeta se encontrava à beira do abismo. Porém, o Supercrânio estava morto, e, juntamente com ele, alguns dos seus homens haviam encontrado a morte.
As idéias de Fellmer Lloyd descreviam círculos cada vez mais estreitos em torno de uma organização secreta, cuja atuação era dirigida contra a Terra.
Será que alguns mercadores galácticos chegaram por acaso ao sistema solar e reconheceram a Terra que, segundo acreditava o Império de Árcon, os saltadores e os médicos galácticos, havia sido destruída?
Lembrou-se de que o rebento mais jovem dos Uxlad pensara em vários chefes.
Será que mais de um clã dos saltadores conhecia a posição da Terra? Será que os mercadores galácticos preparavam um ataque de surpresa particular com suas frotas de naves cilíndricas, ação que lhes poderia render bons dividendos?
Uma organização desse tipo representaria para a Terra e para os planos de Perry Rhodan um risco tão grande como o que em tempos idos se corporificara na pessoa do Supercrânio.
Sem desconfiar de nada, Fellmer Lloyd entrou no Hotel Plana, depois de ter deixado Kuri Oneré em sua residência. Após dar três passos no hall de recepção, captou a localização.
Em seu apartamento encontravam-se agentes da Administração de Árcon, que aguardavam seu regresso para prendê-lo. No mesmo instante, viu junto à grossa coluna outros agentes da Administração. Eram três saltadores.
Ainda não haviam notado sua presença, porque um grupo de turistas havia entrado no hall juntamente com ele. Era impossível recuar. Lloyd enfiou-se discretamente entre a multidão, que se dirigia ao robô recepcionista mais próximo. Face à sua estatura não era difícil esconder-se entre pessoas mais altas que ele. Mas logo chegou o momento em que o aglomerado, dividido em três grupos menores, foi encaminhado a três elevadores antigravitacionais que os levariam aos seus aposentos.
Lloyd aproveitou os espaços livres entre os turistas para contemplar os saltadores que se encontravam junto à coluna. Um deles levantou-se, esticou a cabeça e olhou na direção de Lloyd. Este não precisou recorrer à telepatia para descobrir por que o saltador mantinha a mão direita no bolso.
Naquele momento, o saltador que se encontrava de pé pensou no motivo pelo qual estavam tão interessados em prender o prebonense.
Fellmer Lloyd devia ser um assassino pertencente a esse povo.”
Era só o que faltava! — disse a si mesmo.
Por outro lado, porém, sentiu-se bem mais tranqüilo, pois já compreendia a atividade espantosa dos arcônidas.
Subitamente, um homem pertencente ao grupo de turistas zangou-se. Alguém o agarrou com força e o empurrou em direção ao elevador antigravitacional.
Seu...
O turista contrariado não conseguiu dizer mais nada. Fellmer Lloyd deu um disparo silencioso com sua arma hipnótica e irradiou esta ordem:
Todos para o elevador. Cinco vítimas obedeceram.
Mais um passo, e Fellmer Lloyd chegaria juntamente com os cinco turistas hipnotizados ao poço do elevador, que representaria a salvação. Mas, naquele instante, um dos saltadores que se encontravam junto à coluna fez a voz ressoar pelo gigantesco hall:
Aí está ele!
Antes do grito, Lloyd já havia captado o pensamento do saltador, e regulou sua própria ação de acordo com a mente do mercador. Sabia que um robô recepcionista pode ser transformado facilmente num robô de combate. Três dos turistas hipnotizados foram arremessados para o lado. Um raio térmico foi expelido pela arma de Fellmer e, numa fração de segundo, o cérebro positrônico do robô que se encontrava junto ao elevador antigravitacional transformou-se numa nuvem de gases.
Enquanto os três turistas cambaleavam para o lado, Lloyd pôs-se a salvo com um salto para dentro do poço do elevador. Naquele instante, não tinha mais nada de indolente.
Os turistas bloquearam a visão dos três saltadores que saíram correndo. O radiador térmico de Fellmer Lloyd desencadeou uma onda de pânico no hall. No lugar em que pouco antes o caminho estivera livre para os saltadores, as pessoas se acotovelavam.
Fellmer Lloyd ganhou alguns preciosos segundos.
Subterrâneo número 3. Quarto pavimento. Quinto pavimento do subsolo.
Correu para a esquerda, contornou dois robôs de trabalho que não tomaram conhecimento de sua presença e viu o elevador antigravitacional de carga. O fato de que a utilização deste era proibida aos arcônidas, saltadores ou a qualquer ser inteligente não o preocupou. Desceu mais quatro pavimentes. Encontrava-se no nono pavimento do subsolo. Passou apressadamente pelo corredor vazio, mas bem iluminado.
A essa hora Lloyd estava disposto a enfrentar qualquer saltador, por mais valente que fosse. Era só nas situações de perigo que o agente cósmico revelava suas qualidades.
Enquanto corria, procurou calcular suas chances. Tentou localizar a comporta antigravitacional destinada ao lixo. Fez uma careta e balançou a cabeça.
Aproximou-se do poço. Sentia o mal-cheiro, apesar do forte campo de absorção de odores.
O poço antigravitacional de detritos tinha a largura do corpo de um saltador normal. Fellmer Lloyd era franzino mas, mesmo assim, preferiu certificar-se de que não estava sendo seguido antes de abandonar o Hotel Plana por este caminho.
Viu o primeiro perseguidor sair do elevador antigravitacional, na extremidade oposta do corredor.
Fellmer esquivou-se para o interior da comporta de detritos. Caiu num oceano de odores infernais e teve de lutar contra a vontade de vomitar. Sentiu que a gravidade controlada o levava suavemente para baixo.
Tirou a lanterna do bolso e acendeu-a por um instante. Mas, logo a seguir, deixou que a escuridão voltasse a reinar. A uma velocidade de dois metros por segundo, aproximava-se do sistema de eliminação de detritos de Kuklon.
Um borbulhar viscoso anunciou o fim da viagem. Agora teria que acender a lanterna, pois do contrário morreria afogado nos detritos.
Subitamente o tubo desembocou num canal oval. Apoiando os joelhos e as costas contra as paredes do tubo, Fellmer Lloyd olhou para baixo. Mais por instinto que por uma reflexão racional, procurou imediatamente olhar para cima. Dirigiu a luz da lanterna para o alto e viu uma massa enorme de imundícies descendo à velocidade de dois metros por segundo.
Esse fato levou-o a agir depressa. A força antigravitacional que ainda existia no fim do tubo ajudou-o a não cair diretamente dentro do mingau de imundícies. Conseguiu aterrissar dois metros adiante, junto à parede do canal.
Afundou na sujeira até os joelhos. Não se incomodou com o fedor nauseante. Olhou desesperadamente em ambas as direções, a fim de encontrar um sistema de cruzamentos.
A seu lado, um monte de imundícies desceu pelo tubo. Cobriu os olhos com o braço e suspendeu a respiração por um instante. Porém um sorriso de satisfação cobriu-lhe o rosto. Essa carga de sujeira vinda atrás dele garantiria melhor sua fuga.
Cuspindo e sentindo a areia ranger nos dentes, Fellmer Lloyd apressou-se em seguir caminho.
Dali a meia hora, encontrou uma possibilidade de sair daquele submundo malcheiroso. Entretanto teve de esperar durante várias horas embaixo de um tampão do canal, até que pudesse sair à superfície sob a proteção da noite.
Estava todo sujo e fedia. Esgueirou-se pelo enorme bairro hoteleiro como se fosse um ladrão.
Logo conseguiu sair das áreas mais nobres para mergulhar nas ruas menos iluminadas de Kuklon. Ele mesmo não saberia dizer como fez para chegar a uma das casas de banhos que ofereciam um equipamento sofisticado de limpeza.
Enquanto se entregava ao deleite de lavar as imundícies que cobriam sua pele, suas vestes foram submetidas a um processo intensivo de limpeza na lavadora centrífuga. Quando saiu da cabine com a pele vermelha e cheirando a perfumes agradáveis, suas roupas o aguardavam no cesto.
No momento em que vestia a última peça, sua mente voltou a captar o sinal de localização.
Naquele instante, dois espias arcônidas entravam na casa de banhos. Um funcionário indicou-lhes a direção em que ficava a cabine de Lloyd.
Fellmer saiu da casa de banhos, usando a terceira porta, enquanto os dois espias caminhavam em direção à sua cabine.

* * *

Recorrendo à técnica de mascaramento dos arcônidas, Fellmer Lloyd modificou seu rosto de tal maneira que nem mesmo Perry Rhodan conseguiria reconhecê-lo à primeira vista. Além disso, mudou de vestes; desta vez escolheu o tipo de macacão usado pelos trabalhadores do porto.
Seu destino era o espaçoporto de Kuklon.
Não conseguia tirar da cabeça a lembrança do registro efetuado por Ralph Sikeron. Na página reservada ao dia 8 de julho estava escrito o seguinte: “...retransmitido por Klo XXII para Orro. Supercrânio?
Pegou um táxi aéreo e foi ao espaçoporto. O imenso edifício da recepção estava mergulhado na luminosidade das luzes artificiais. Grandes áreas do campo de pouso também estavam tão profusamente iluminadas que até parecia dia. As naves esféricas arcônidas pousavam e decolavam, mas eram as naves cilíndricas dos ricos clãs dos saltadores que dominavam o quadro. Vez por outra, via-se uma de construção estranha. As raças inteligentes que passavam por este lugar para entrar em Volat ou sair do planeta ofereciam um quadro tão variado como o das naves.
Os mercadores galácticos haviam reservado para si a terça parte do edifício da recepção e da administração. O setor destinado aos aras, os médicos galácticos, quase nem chegava a chamar a atenção. A parte destinada aos arcônidas era de concepção exclusivamente funcional, oferecendo um aspecto militar.
Foi para lá que Fellmer Lloyd se dirigiu. Uma arcônida de estatura alta transmitiu suas perguntas. Examinou-o atentamente, enquanto ambos aguardavam as respostas que seriam fornecidas pelo arquivo.
O senhor também fala o arcônida, prebonense? — perguntou depois de algum tempo.
Fellmer Lloyd apressou-se em absorver os pensamentos da moça, e o que conseguiu ler não foi nada satisfatório. A arcônida não acreditava em sua descendência prebonense; julgava se tratar de um treggl degenerado. Sobre esta raça pesava a suspeita de que com o auxílio de certas inteligências desconhecidas da Galáxia conspirava contra Árcon.
Lloyd respondeu num arcônida impecável. Continuou a irradiar amabilidade e fingiu-se de curioso.
O comportamento da moça mudou por completo assim que ouviu os sons de sua língua materna. A habilidade com que Lloyd falava um arcônida sem qualquer sotaque deixou-a surpresa.
Há poucos dias falei com outro prebonense; ele me perguntou... Espere aí; o senhor não acaba de perguntar também pela Klo XXII?
Naturalmente. Estou esperando que o arquivo me forneça a resposta. Não se espante com a coincidência, arcônida. Meu amigo, que também é prebonense, desapareceu em Kuklon. O último registro encontrado por mim em sua agenda falava na Klo XXII, que recebera carga para Orro.
A Klo XXII existe, prebonense — disse a arcônida em tom pensativo. — Se não me engano, ficou no porto por algumas horas há cerca de uma semana. Ah, já me lembro... Sim, foi isso mesmo. Seu amigo recebeu as informações desejadas. Queria saber quando a Klo XXII deveria chegar. Naquele momento, foi seguido por três saltadores antipáticos. Mais tarde, correu por aqui o boato de que um homem foi assassinado no caminho do espaçoporto para a cidade, mas que seu cadáver havia desaparecido.
Só agora a arcônida percebeu que o boato sobre o assassínio poderia ter alguma ligação com o encontro, que ela tivera cerca de uma semana atrás com o prebonense.
O localizador e telepata Lloyd, que num esforço de concentração lia os pensamentos da arcônida, tranqüilizou-a com um olhar pensativo. Voltando a usar a língua dos arcônidas, disse:
A ligação que acaba de estabelecer não representa nenhum absurdo. Seria uma impertinência perguntar como eram os três saltadores antipáticos?
Tinha uma ligeira esperança de que talvez a arcônida possuísse memória fotográfica, que lhe permitisse lembrar-se para sempre das feições de um rosto ou de um objeto, mesmo que apenas o visse rapidamente.
Um sorriso franco passou pelo rosto da moça.
Um momento, prebonense — disse, e afastou-se.
O arquivo forneceu a resposta. A nave Klo XXII existia. Chegara ao porto no dia 8 de julho, vinda do sistema de Midg, carregara 51.365 peças de clodexal e, depois de uma permanência de três horas, partira com destino ao planeta Orro. Antes disso, o comandante da nave procurara em vão pelo agente.
Enquanto ainda estava surpreso pelo fato de o superescuta Ralph Sikeron ter conseguido fechar negócios de transporte no espaço de poucos dias, pois os registros em sua agenda não eram fictícios, Fellmer chegou à conclusão de que a palavra Supercrânio não tinha nada a ver com os negócios, mas representava uma descoberta importantíssima do mutante.
A bela arcônida, que se sentia feliz por conversar em sua língua com um ser pertencente a uma raça estranha, logo voltou. A simpatia lhe fizera cometer uma infração contra o regulamento de serviço dos arcônidas e a levou a revelar um segredo sobre a estratégia de vigilância.
Todo e qualquer ser que procurasse um escritório de Árcon situado no espaçoporto era fotografado discretamente.
É este? — perguntou a moça a Fellmer Lloyd, apontando para a fotografia de Ralph Sikeron.
Fellmer limitou-se a fazer um gesto afirmativo. A fotografia devia representar o mutante desaparecido.
Aqui, à direita, o senhor vê os três saltadores antipáticos. Conhece algum deles, prebonense?
Fellmer Lloyd logo reconheceu um deles:
Era o mercador galáctico Jidif, o magricela!
Enquanto ainda se esforçava para dominar o nervosismo, sentiu de repente um vazio estranho na cabeça.
O que é isso?”, pensou, indagando-se. “Por que não capto nenhuma localização?
Antes que reconhecesse plenamente o perigo do fenômeno, a sensação do vazio desapareceu. Mas esse segundo bastou para convencer o agente cósmico de que em Volat havia coisas movendo-se fora das trilhas da normalidade.
5



Com uma decepção visível, a arcônida gentil seguiu com os olhos o prebonense que se afastava, e que mal chegara a agradecer pelo serviço prestado.
Fellmer Lloyd colocara-se no grau máximo de alarma.
Uma força estranha procurara apoderar-se de sua mente.
Já não estava sendo perseguido apenas pelos arcônidas e seus espias, que o consideravam um prebonense assassino; não estava sendo procurado apenas pelos mercadores galácticos, com os quais tivera um incidente no edifício comercial dos Uxlad; ainda havia um ser dotado de capacidades telepáticas ou outras capacidades supersensoriais que estendia a “mão” em sua direção.
Mais uma vez, a palavra Supercrânio martelou-lhe a cabeça.
Era isso que Ralph Sikeron queria dizer.
Era o poder supersensorial que agia em Volat. Foi só graças ao treinamento rhodaniano que Fellmer Lloyd não fugiu em pânico para a Gazela, a fim de escapar do planeta Volat.
Completara o raciocínio lógico sobre o problema da força supersensorial que agia em Volat.
Tudo terminara no assassínio de seu colega Ralph Sikeron. Mas, antes disso, o poder supersensorial extraíra de Ralph todo o saber de que o mesmo dispunha. E o que se tornara conhecido em Volat não era apenas o fato de que a Terra ainda existia e de que Perry Rhodan não havia perecido na Titan; também a posição galáctica do sistema solar fora revelada.
Foi este o motivo dos três toques de sino!
E da alusão ao Supercrânio!
Ralph Sikeron devia ter previsto a morte, pois só assim se explicava que carregasse um hipertransmissor de dimensões reduzidíssimas, no qual emitiu segundos antes de sua morte o código de alarma.

* * *

Fellmer Lloyd fez uma visita à Gazela. Trocou parte de seu equipamento e, depois dessas providências, penetrou na mata virgem.
Ralph Sikeron lhe dera uma indicação precisa através de Kuri Oneré. Deveria procurar a mãe onisciente dos volatenses.
Estava à procura desse povo que descendia de uma raça de insetos, mas era dotado de quociente intelectual bastante elevado.
O treinamento hipnótico lhe transmitira todas as informações úteis sobre os volatenses. Sabia que não possuíam linguagem no sentido usual do termo. Comunicavam-se por meio de vibrações de freqüência ultra-elevada, situadas muito acima da marca dos 100 mil hertz, e que não eram perceptíveis nem pelos arcônidas nem pelos humanos. Essas vibrações superiores a 100 mil hertz eram produzidas pelas antenas dos volatenses, que não representavam apenas o órgão do tato, mas também o instrumento da fala e o órgão auditivo.
O pequeno planador-relâmpago, que Fellmer Lloyd retirara do espaçoporto sem consultar ninguém, fora afundado no pântano, a poucos quilômetros da periferia da selva. Prosseguia penosamente a pé, avançando mata adentro. Uma das mãos segurava a terrível arma térmica, enquanto na outra levava o radiador de choques.
Não se esquecera do encontro com o réptil em forma de salamandra.
Ao anoitecer, ainda não havia avançado trinta quilômetros mata adentro.
Volat era do tamanho de Marte.
O continente em que ficava a cidade de Kuklon tinha o quádruplo do tamanho da Europa. Dois terços dessa área estavam cobertos pela mata virgem. Em algum lugar, no interior dessa selva, ficavam as estranhas cidades dos volatenses e a sede da mãe onisciente.
Fellmer Lloyd passou a noite numa série de cochilos, mantendo-se num estado que não atrapalhava sua capacidade de reação. Por três vezes, acendeu o holofote portátil; teve de repelir dois ataques de insetos noturnos que mediam um metro.
A sua primeira refeição consistiu em alguns tabletes de alimento energético concentrado.
Assim que o dia clareou, o agente cósmico prosseguiu na sua caminhada.
Na primeira hora, percorreu cinco quilômetros. Depois a mata virgem transformou-se numa selva de vegetação entrelaçada. Se não dispusesse do radiador de impulsos térmicos, Fellmer Lloyd não teria avançado um quilômetro.
Com a mente preocupada, examinou o indicador de dispêndio de energia, mas o minúsculo conversor embutido na coronha da arma era tão potente que o indicador continuava no ponto máximo.
Um verme bloqueou seu caminho. Instantaneamente colocou o radiador em posição de tiro. Mas viu a seta espetada no corpo do animal verde-escuro, que media três metros de comprimento.
O verme, que se locomovia sobre trinta pares de tocos de perna, passou por ele, soltando um chiado agudo.
Lloyd não se moveu. Examinou ligeiramente a seta e percebeu que era de feitio estranho. Não conseguiu lembrar-se do lugar em que já teria visto coisa semelhante.
De repente, constatou a presença de modelos estranhos de vibrações cerebrais. Eram os volatenses!
Acreditava que conseguiria vê-los. Virou a cabeça, mas só viu a penumbra da selva, o solo escuro, e, vez por outra, um raio de sol que atravessava um espaço livre entre a folhagem..
A selva mantinha-se num silêncio absoluto. Os volatenses que, segundo as indicações de seu sentido de localização, deviam encontrar-se a cerca de trinta metros de distância, não se moviam.
Lloyd procurou concentrar ainda mais intensamente seu sentido de localização. Sabia que se achava em situação menos encorajadora que a do superescuta Sikeron. Este era capaz de ouvir as ondas sonoras dos volatenses, situadas acima da escala dos 100 mil hertz. O máximo que ele mesmo poderia fazer era analisá-las e procurar interpretá-las com base nos modelos de vibrações captadas por sua mente.
Soltou uma praga.
Os volatenses retiravam-se para a selva, sem demonstrar o menor interesse de estabelecer contato com ele.
Fellmer Lloyd, que até então só os localizara, esforçou-se para, numa ação desesperada, estabelecer contato telepático com suas mentes. Sentiu-se perplexo, pois descobriu que o pensamento dos volatenses se desenvolvia por “linhas” humanas.
Mas o contato com a população primitiva inteligente de Volat foi interrompido. Desenvolvendo uma velocidade três vezes superior àquela com que ele mesmo conseguia locomover-se, retiraram-se em silêncio, deixando para trás a caça abatida.
O grande verme, de aspecto repugnante, abatido por um ferrão venenoso em forma de seta, encontrava-se poucos metros atrás de Fellmer Lloyd.

* * *

Dali a uma hora, uma agitação contínua tomou conta do ambiente acima da mata virgem.
Sem a menor consideração por si mesmo, Fellmer Lloyd enfiou-se na toca malcheirosa de um grande animal selvagem, onde encontrou um abrigo precário que o protegia dos raios localizadores das naves de reconhecimento dos arcônidas. Compreendeu o motivo por que a operação de busca desencadeada pela Administração de Árcon, com auxílio dos saltadores, assumiu tamanha intensidade justamente nesse setor. A aproximação da Gazela não fora registrada de modo direto nem constatada numa tela. Mas certos desvios insignificantes, verificados no cérebro positrônico de vigilância, fizeram com que um computador positrônico, que costumava conferir todos os valores, chegasse à conclusão de que uma nave espacial de procedência desconhecida pousara em Volat. O computador chegou mesmo a calcular o local de pouso com uma aproximação razoável.
O chiado dos propulsores das naves arcônidas foi ouvido por Fellmer Lloyd. Só lhe restava esperar que ele e sua Gazela não fossem descobertos. Enquanto isso, sua mente voltou a ocupar-se com a força supersensorial.
Mais uma vez, a palavra Supercrânio caiu sobre ele como se fosse uma sombra.
Durante mais de três horas, uma atividade febril desenvolveu-se no espaço aéreo desse setor do planeta Volat. Por seis vezes, o agente usou sua capacidade telepática para atingir o conteúdo da mente dos tripulantes. A satisfação de Fellmer crescia cada vez mais, pois além de ainda não terem descoberto sua Gazela, ninguém se lembrara da possibilidade de ele mesmo encontrar-se na selva.
O fato constituía outra prova de que o dono do poder supersensorial não era um elemento que trabalhava para a Administração de Árcon no planeta Volat. Enquanto se mantinha imóvel na toca malcheirosa, rememorou o avanço em direção ao seu cérebro.
Não durara mais que uma fração de segundo; mas essa fração de segundo fora suficiente para mostrar toda a extensão do perigo. Era um dos mutantes que, em virtude de um processo de autodefesa biológica, reagia com uma sensação de vazio no cérebro sempre que uma força estranha procurava penetrar em sua mente.
Supercrânio, você não está morto? Será que um morto pode ter uma sombra? — cochichou.
Esses cochichos reforçavam a idéia do agente cósmico sobre a gravidade do perigo.

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