Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
KURT
BRAND
Digitalização
BLACKNIGHT
Revisão
ARLINDO_SAN
Alarma máximo na frota
espacial solar...
Um agente cósmico expediu o
sinal de socorro...
Apesar das hábeis manobras
realizadas no espaço galáctico, o trabalho pelo poder e pelo
reconhecimento da Humanidade no seio do Universo, realizado por Perry
Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de
que a Humanidade podia dispor na época eram insuficientes face aos
padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos
passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria
ocorrido no ano de 1.984.
Uma nova geração de homens
surgiu. E, da mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência
evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se
ampliou, formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de
Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que
não se prestam à colonização são utilizados como bases terranas
ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema solar não foram
descobertas outras inteligências. Dessa forma os terranos são os
soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é
formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que
alcançou grau elevado de evolução tecnológica e civilizatória,
evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que devia estar em
condições de enfrentar qualquer atacante.
Mas Perry Rhodan,
administrador do Império Solar, ainda não está disposto a
dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes cósmicos —
todos eles mutantes do célebre exército — continuam a ser
instruídos no sentido de, em quaisquer circunstâncias, manter em
sigilo sua origem terrana. Porém as coisas tornam-se complicadas
quando dois deles fazem-se traidores...
=
= = = = = = Personagens
Principais: = = = =
= = =
Fellmer
Lloyd
— Baixo; ombros e
cabelos escuros.
Jim
Markus
— Comandante da nave
Lotus.
Kuri
Oneré
— A moça corajosa
da raça dos saltadores. Bonita, seus olhos são mongolóides.
Os
Volatenses
— Insetos
gigantescos dotados de inteligência.
1
O Espaço cósmico, um oceano de
negrume infindável e silêncio eterno, precipitava-se para a sala de
comando da Lotus, através da tela de visão global.
O veículo espacial esférico de
cem metros de diâmetro era um cruzador leve da frota espacial
terrana. Naquele instante pairava imóvel, em meio ao tempo e ao
espaço. A 4.300 anos-luz da Terra, a esfera parecia uma minúscula
partícula de pó colocada entre sóis próximos e distantes, cuja
luminosidade intensa procurava desde sua formação vencer a
escuridão do Universo. A luminosidade era fria e calma, embora
colorida. Mas mesmo o sol mais próximo não passava de um ponto bem
destacado, e sua luz não chegava a refletir-se na superfície polida
da Lotus.
Depois de ter penetrado 4.300
anos-luz no espaço intergaláctico, o cruzador leve da classe Cidade
mantinha sua posição, imobilizado, como se quisesse aguardar a
eternidade. O potente dispositivo de proteção contra a localização
excluía a possibilidade do acaso traiçoeiro que propiciasse a
observação por uma nave estranha. Atrás desta camuflagem, a vida
na nave se desenvolvia no seu dia-a-dia, muito embora o cruzador leve
do planeta Terra se encontrasse dentro da área de influência do
Império dos Arcônidas. Esse grande império estelar se concentrava
na nebulosa M-13, mas estendia seus braços pelo Universo afora,
dominando entre outros o sistema solar mais próximo à Lotus.
O comandante da Lotus era o
capitão Jim Markus, um homem que parecia ter seus quarenta anos de
idade, e que chamava a atenção pelas têmporas embranquecidas e
pelas simpáticas rugas produzidas em torno dos olhos, quando sorria.
Naquele instante, Jim Markus contemplava em atitude pensativa o lugar
da tela de visão global que exibia a luminosidade distante do sol
Heperés, a 2,46 anos-luz.
O sol era uma estrela entre
muitas, constituía o pólo de um sistema planetário igual a
centenas de milhões de outros existentes na Galáxia. Mas para Jim
Markus era o único sol que oferecia algum interesse. Sua atenção
voltava-se para o segundo planeta, que, juntamente com outros cinco,
gravitava em torno da estrela-mãe, alimentando-se com a luz
fornecida pela mesma e constituindo um mundo cheio de vida. Os
arcônidas e os mercadores galácticos designavam-no pelo nome de
Volat. Seu tamanho era aproximadamente igual ao de Marte. Porém, ao
contrário desse planeta do sistema solar, Volat era um mundo úmido
coberto de gigantescos oceanos e de imensas matas virgens. Sua
gravitação, 0,8G, tornava-se o motivo pelo qual os arcônidas e os
mercadores galácticos o consideravam um planeta absolutamente
normal.
A importância de Volat não
resultava da circunstância de que Kuklon, a capital desse mundo,
possuía um espaçoporto supermoderno e constituía um centro de
expedição das mercadorias que deviam ser transportadas para as
diversas estrelas; antes, tinha sua origem no fato de ser a sede
oficial do administrador arcônida, que para lá havia sido enviado
por ordem do computador gigante de Árcon, a fim de dar uma
demonstração do poder rejuvenescido do Grande Império.
Em Volat encontrava-se Ralph
Sikeron, um homem de vinte e sete anos que era um superescuta
do Exército de Mutantes de Perry Rhodan. Recebera a incumbência de
estudar a situação reinante naquele mundo e reunir um elenco de
informações que permitisse uma visão geral.
Rhodan, que ficara mais
experiente em virtude de algumas surpresas desagradáveis, ordenara
ao capitão Markus que, logo depois da chegada do agente cósmico ao
planeta Volat, se mantivesse à espera numa distância segura e, se
surgisse algum perigo, acudisse a Ralph Sikeron.
Há doze dias a Lotus pairava no
espaço, imóvel, a 2,46 anos-luz de Volat, aguardando notícias do
mutante de Rhodan.
O olhar do capitão Jim Markus
vagou da tela para o calendário de bordo. A data lhe induziu maiores
reflexões: 12 de julho de 2.040. Mas o ruído crepitante emitido
pelo micro alto-falante de hipercomunicação deixou-o alarmado.
Era uma mensagem chegando.
O ruído só durou poucos
segundos. Seguiu-se um ligeiro impulso com a mensagem, e não houve
mais nada.
O computador positrônico da
Lotus entrou em funcionamento automaticamente. O setor de decifração
do cérebro eletrônico decodificou a mensagem. Tangido por uma
inquietação interior, o capitão Markus aproximou-se do computador
positrônico, mais precisamente, da fenda de que deveria sair a
interpretação da mensagem.
O cérebro logo expeliu a folha
de plástico. Markus agarrou-a com um gesto que quase chegava a ser
guloso. A mensagem que o superescuta Ralph Sikeron havia expedido do
planeta Volat continha quatro palavras:
Três toques de sino.
O capitão Jim Markus moveu a
chave do alarma.
No mesmo instante, o alarma
acústico, o alarma ótico e o alarma vibracional rugiram pela nave.
O enorme computador positrônico da Lotus entrou em atividade.
Milhares de funções despertaram do estágio zero, os conversores
passaram a trabalhar com o desempenho máximo, as unidades de energia
entraram em funcionamento. Os dispositivos de armazenamento,
recheados até o limite de sua capacidade, apenas esperavam o momento
de liberar a energia retida. Os homens corriam para seus postos junto
aos canhões, usando as fitas transportadoras expressas e os
elevadores antigravitacionais. A Lotus parecia um formigueiro
revolvido, mas o pânico aparente representava uma manobra ensaiada
milhares de vezes. Todas as engrenagens ajustavam-se perfeitamente,
fazendo com que a nave pudesse desenvolver todo o seu potencial numa
questão de minutos.
Dali a pouco, a sala de rádio
transmitiu pelo intercomunicador esta frase lacônica:
— Contato com Ralph Sikeron
foi interrompido.
Para o capitão Jim Markus esta
informação teve o mesmo significado da mensagem anterior: “Três
toques de sino.”
Três toques de sino era a
expressão que indicava o grau máximo de alarma.
Este código significava a
existência de perigo de vida para o agente e um risco extremo para a
Terra.
— Transição dentro de trinta
segundos! — gritou a voz metálica do computador positrônico em
todos os compartimentos da Lotus.
No setor de memória do cérebro
eletrônico encontravam-se à disposição, para serem utilizados a
qualquer momento, os dados necessários à execução de um salto
pelo hiperespaço, que levaria a Lotus num tempo zero, só
inteligível em termos matemáticos, a outro lugar do Universo,
situado a milhares de anos-luz de distância. Apesar disso, uma nave
do tipo do cruzador ligeiro
precisava de trinta segundos para que todas as máquinas pudessem
funcionar com o máximo de sua potência.
Jim Markus
já se acomodara no assento do piloto; a seu lado Bendler, o
imediato, ocupava o lugar do co-piloto. Os dois mantiveram-se atentos
para descobrir se a sala de rádio ainda enviaria outra mensagem,
enquanto o tempo X corria vertiginosamente em direção ao ponto X
menos zero.
Por trinta
vezes, a voz do computador positrônico transmitiu a indicação do
tempo. Todas as trinta vezes, o ruído representou um martírio
psicológico. O capitão Jim Markus sabia perfeitamente que seu salto
representaria a eliminação definitiva de contato com o superescuta
Ralph Sikeron, se é que esse agente cósmico ainda estivesse vivo.
A sala de
rádio não transmitiu qualquer aviso sobre outra mensagem de
Sikeron, embora duas dezenas de homens recorressem a todos os meios
para restabelecer a comunicação. Chegou-se ao momento X menos dez.
O capitão
Jim Markus colocou a mão sobre a chave que poderia isolar o
computador positrônico de todas as funções da Lotus.
Ainda
esperava que nos últimos segundos Ralph Sikeron poderia entrar em
contato com a nave.
Apenas a
sala de rádio manifestou-se em X menos quatro.
— O
emissor de Volat continua em silencio.
Markus
perdeu as esperanças. Enquanto na nave esférica de cem metros os
mecanismos rugiam e as mensagens em texto claro faziam piscar a
lâmpada verde na mesa do comandante, aproximava-se o momento em que
a Lotus saltaria e fugiria para o hiperespaço.
*
* *
Com três
saltos pelo hiperespaço a Lotus voltou ao sistema solar.
Cruzou a
órbita de Plutão, foi localizada pela estação automática desse
planeta, transmitiu sua senha, obteve permissão de passagem e correu
à velocidade de 0,6 da luz em direção à Terra.
Marte
surgiu em teta 56 graus, 17 verde. No momento em que as estações
das luas de Júpiter e Saturno registraram a presença do cruzador
leve, o setor de vigilância espacial sediado em Marte incumbiu-se da
Lotus, anunciando sua chegada para a Terra, mais precisamente, para
Terrânia. Esta metrópole, erigida no deserto de Gobi, era o
trampolim destinado aos saltos para a Galáxia.
A Lotus
realizou um pouso de alarma. O capitão Markus encarregou o imediato
da realização da manobra. Perry Rhodan foi informado pelo rádio
sobre os motivos do regresso da Lotus, e ainda a respeito das razões
pelas quais o capitão Markus desejava falar com o chefe.
Markus
encontrava-se na comporta, aguardando que o dispositivo automático
abrisse a escotilha, quando a sala de rádio lhe transmitiu a
seguinte mensagem:
— No
momento Perry Rhodan se encontra em Vênus. Foi informado sobre o
regresso da Lotus. Pede que os fatos sejam relatados a Bell.
Quem
chamasse Reginald Bell, o representante de Rhodan, pelo nome de Bell,
não o estaria depreciando. Ele mesmo fizera questão de que todos o
chamassem simplesmente de Bell, e pouca gente sabia seu nome
completo. O poder, que Reginald Bell detinha na qualidade de
substituto de Rhodan, nunca lhe subira à cabeça. Em qualquer
situação, continuava a ser apenas um homem, com todas as qualidades
e defeitos. Talvez fosse esse o motivo por que era tão simpático
aos olhos de todo mundo.
A Lotus
pousou em meio a cruzadores pesados, naves da classe Império,
destróieres e naves mercantes fracamente armadas.
Um veículo
pertencente ao serviço de Reginald Bell recolheu Jim Markus e correu
pelo gigantesco campo de pouso. Não foi detido pela barreira de
radiações que protegia o bairro administrativo de Terrânia. Dez
minutos após o pouso da Lotus, deixou o comandante na entrada do
arranha-céu.
Todos os
postos pelos quais Markus tinha de passar para chegar à presença do
representante de Perry Rhodan já haviam recebido as respectivas
instruções.
Treze
minutos após o pouso, achava-se à frente de Bell.
Com sua
cabeleira ruiva cortada à escovinha, Reginald recebeu Markus com
estas palavras:
— Entre
depressa, Markus. Sente aqui. A qualquer momento o chefe deverá
aparecer na tela. Rhodan não se importará nem um pouco em ocupar a
mente por alguns minutos com alguma coisa que não seja o tal do
Atlan. Mas com Perry acontecerá a mesma coisa que aconteceu comigo:
não ficará nada contente com a notícia. Três toques de sino. Não
fazemos a menor idéia por que os sinos estão repicando em nossa
homenagem.
Era a fala
típica de Bell. Nunca era muito rigoroso na maneira de expressar-se.
A tela
começou a tremeluzir. A outra estação ficava em Vênus, onde se
encontrava Perry Rhodan, a fim de colher mais algumas informações
sobre o solitário do tempo e seu enigma da vida eterna.
O rosto
marcante de Perry Rhodan surgiu na tela. Seus olhos impunham calma.
Sorriu ligeiramente quando cumprimentou o capitão.
Enquanto
Reginald Bell permanecia sentado, o comandante da Lotus apresentou
seu relato ao chefe. Estabeleceu-se contato radiofônico simultâneo
com o cruzador ligeiro. Todos os dados, que Markus não tinha à mão,
eram recebidos dentro de poucos segundos diretamente da nave.
O capitão
Jim Markus poderia ter conseguido esta comunicação com muito menos
trabalho. Bastaria que permanecesse na posição de espera no
interior do sistema de Heperés, e enviasse uma mensagem para Rhodan
pelo hiper-rádio. Porém, havia ordens terminantes de, em hipótese
alguma, usar o hiper-rádio a fim de entrar em contato com a Terra ou
qualquer outro ponto do sistema solar. É que para toda nave de Árcon
ou para um dos veículos espaciais cilíndricos dos mercadores seria
fácil efetuar a medição do respectivo raio. Com isso, o planeta
Terra, que os arcônidas, bem como os clãs dos mercadores e os
médicos galácticos consideravam destruído, voltaria a se
constituir no alvo de perigosos ataques.
Era o que
Rhodan queria evitar em quaisquer circunstâncias. Por isso “mantinha
seus agentes em algumas centenas de mundos habitados pelos arcônidas
ou pelos mercadores. Rhodan não estava interessado na espionagem
militar ou industrial. Apenas queria ser mantido a par sobre o
comportamento dos saltadores e do centro de computação de Árcon.
Rhodan
ouviu o relato de Jim Markus sem interrompê-lo. Assim que concluiu,
as perguntas começaram a desabar sobre o comandante do cruzador. Os
aspectos mais relevantes do relato obtiveram o devido realce. Markus
solicitou alguns dados ao pessoal que se encontrava no cruzador.
Rhodan refletiu ligeiramente diante da tela instalada em Vênus e
tomou sua decisão.
— Capitão
Markus, coloque a Lotus em condições de decolar imediatamente.
Assim que o mutante Fellmer Lloyd se encontre a bordo, volte para o
sistema de Heperés. Providencie para que Lloyd consiga chegar a
Volat sem que ninguém o observe. Mantenha a Lotus em posição de
espera. Não se esqueça de que nossa existência e a de todo o
sistema solar correrão um perigo sério se não descobrirmos num
espaço de tempo muito curto por que Ralph Sikeron transmitiu a
mensagem três toques de sino. Aja segundo seu arbítrio, sempre que
a situação o exigir, mas lembre-se que nossa vida poderá depender
daquilo que o senhor fizer. Boa viagem, capitão!
A tela
apagou-se.
Reginald
Bell entrou em contato com a sede do Exército de Mutantes.
— Onde
Fellmer Lloyd se encontra no momento? — gritou para dentro do
microfone.
A resposta
foi imediata:
— No
terceiro planeta do sistema de Horga, pertencente ao Império de
Árcon.
— Era só
o que faltava — resmungou Bell, lançando um olhar envenenado para
o microfone, como se o aparelho tivesse culpa de que o telepata e
localizador Fellmer Lloyd se encontrasse tão longe da Terra. Olhou
para o capitão Markus e disse: — Acho que o senhor não terá
outra alternativa senão voar ao extremo oposto do Grande Império
para recolher...
O
alto-falante berrou em meio às suas palavras. A sede do Exército de
Mutantes voltou a falar.
— Ratificamos,
Sir — disse o homem que ocupava a estação transmissora. —
Fellmer Lloyd concluiu sua missão no sistema de Horga e a qualquer
hora deverá descer em Terrânia num cruzador pesado. Acabamos de
receber esta informação...
— Que
sorte! — ironizou Bell. Piscou para Jim Markus. — O senhor é um
felizardo e...
Mais uma
vez foi interrompido. Trud, o elemento encarregado de entrar em
contato com todas as pessoas que diziam terem necessidade imperiosa
de falar com Bell, entrou e, sem dizer uma palavra, entregou-lhe um
relatório.
Este vinha
de Vênus, ou melhor, de Perry Rhodan. Logo após a palestra mantida
com o capitão Markus, Rhodan entrara em contato com Trud a fim de
transmitir-lhe as instruções que o mutante Fellmer Lloyd deveria
seguir durante a execução de sua missão em Volat.
Bell
lançou um olhar sobre o papel e entregou-o a Markus.
— Isto é
para seu mutante, capitão — reteve o papel.
Uma das
frases escritas no mesmo despertara sua atenção. Continha uma
palavra que Rhodan usava muito raramente.
...procure
averiguar quanto antes onde Ralph Sikeron viu um perigo gravíssimo
para a Terra...
2
O capitão
Jim Markus entrou no camarote que Fellmer Lloyd estava ocupando
durante a viagem ao sistema de Heperés.
Encontrou
Lloyd deitado, lendo e fumando. Tinha a seu lado uma garrafa de
Napoleon, de pelo menos cento e cinqüenta anos de “idade”.
— Gostaria
de ter os seus nervos — exclamou Markus, sacudindo a cabeça face à
calma do mutante.
Dali a uma
hora, Fellmer Lloyd se lançaria numa missão perigosíssima. Em vez
de preparar-se para a mesma, ficou tranqüilamente na cama, lendo,
fumando e tomando um conhaque de primeiríssima qualidade.
Fellmer
Lloyd era baixo e de ombros largos. Afastou os cabelos escuros da
testa, sorriu e respondeu:
— Eu que
gostaria de ter os seus nervos, capitão. Afinal, não é nenhuma
brincadeira ter de esgueirar-se constantemente diante das naves de
Árcon e dos veículos espaciais cilíndricos.
— Pelo
tempo de bordo são 16 horas e 52 minutos, Lloyd...
— ...e o
senhor acha que já está na hora de levantar-me, não é? —
completou o telepata com um sorriso. — Por quê? Posso entrar em
ação a qualquer momento. Com os mutantes acontece a mesma coisa que
com a Lotus, Markus. Quem não está em condições de entrar em ação
quando isso se torna necessário, nunca mais precisa estar. Se não
fosse assim, a Lotus já teria se transformado numa nuvem de gases e,
a esta hora, eu não estaria respirando. Sente, capitão; ainda
disponho de uma hora.
— Acontece
que eu não disponho — disse Markus, esquivando-se. Nunca se
sentira muito à vontade perto dos mutantes que sabiam ler
pensamentos. Por isso, usou o pretexto da falta de tempo para
encerrar sua visita ao camarote de Fellmer Lloyd.
*
* *
O ponto em
que a Lotus se mantinha em posição de espera ficava a dez anos-luz
do sistema de Heperés.
Às
dezoito horas em ponto, tempo de bordo, a Gazela — uma nave de
reconhecimento de grande alcance em forma de disco, dotada de
propulsores que lhe permitiam desenvolver velocidade superior à da
luz e garantiam um raio de ação de quinhentos anos-luz — foi
retirada do hangar da Lotus.
Sentado
tranqüilamente numa poltrona, Fellmer Lloyd não se parecia
preocupar nem um pouco com o fato de que aquilo dizia respeito ao
desempenho de sua missão.
A Gazela,
um veículo de trinta e cinco metros de diâmetro e dezoito metros de
altura, aguardava junto à Lotus pelo sinal que liberaria sua
partida. Naquele momento, Cerl Sandford, piloto da nave de
reconhecimento, prestava atenção exclusivamente ao surgimento de
determinada luz verde.
Durante
três segundos, o cruzador Lotus ficou privado de todos os campos
protetores, inclusive daquele que o resguardava contra a localização.
Foi quando a Gazela disparou com uma aceleração equivalente a 3G em
direção a um ponto luminoso, mais precisamente, em direção ao sol
Heperés.
No hangar
da Lotus, havia outras naves do tipo Gazela. Porém o veículo de
reconhecimento que acabara de ser lançado ao espaço era o único
que dispunha de compensador estrutural.
Cerl
Sandford, que recebera do cérebro positrônico todos os dados para o
salto, fez com que o pequeno computador positrônico de sua nave
anunciasse o tempo X. Mais uma vez, a voz metálica começou a
“recitar”
os segundos; mais uma vez, os setores energéticos e de propulsão se
tornaram bastante barulhentos. No momento X menos zero, veio o salto
para o irreal, durante o qual os corpos se desmaterializavam e, ainda
dentro desse tempo zero, tudo retornaria ao cosmos normal. Executando
um salto que a levou de uma distância de dez anos-luz até 8,2
milhões de quilômetros do sol Heperés, a Gazela colocou-se “à
porta”
do sistema.
O
compensador estrutural tornou impossível a constatação do tremendo
abalo da estrutura cósmica causada pelo hiper-salto. Este aparelho
fazia com que as estações de Volat não pudessem registrar a
aproximação da Gazela.
Cerl
Sandford, um jovem de vinte e três anos, era o elemento mais
competente da tripulação do capitão Jim Markus, sempre que se
tratava de chegar a um planeta sem ser percebido. Quando no
desempenho de uma missão, era frio como gelo, e não precisava de
co-piloto. Regulou a tela de visão global para a ampliação máxima.
A posição dos seis planetas de Heperés estava gravada em seu
cérebro. Durante as três horas seguintes, ficaria em condições de
recitar impecavelmente suas coordenadas. Estava familiarizado com a
configuração planetária de Volat. Além disso, conhecia
perfeitamente o lugar em que a Gazela de Ralph Sikeron se encontrava
oculta sob uma abóbada energética.
A
existência, a essa hora, da nave de reconhecimento de longo curso,
não era apenas uma especulação teórica. Depois que a Lotus pousou
em Terrânia, o maior computador positrônico realizou outra medição
do ângulo de partida do sinal “três
toques de sino”,
expedido por Ralph Sikeron. Constatou-se que o alarma fora irradiado
de Kuklon. Dali se concluía que a Gazela do superescuta Sikeron
ainda devia existir, embora houvesse pouquíssimas chances de
encontrar o agente cósmico com vida.
A
impassibilidade exibida por Fellmer Lloyd não era nenhuma máscara
atrás da qual se escondesse o nervosismo. Se o dom telepático lhe
permitia ler os pensamentos das outras pessoas, a outra faculdade que
possuía, a da localização, constituía uma vantagem ainda maior,
que justificava plenamente que cultivasse essa impassibilidade.
Absorvia os modelos de vibrações cerebrais de outras pessoas,
decifrava-os e podia dizer com segurança quase absoluta quem vinha,
a que vinha e de onde vinha.
Examinara
Cerl Sandford e ficou satisfeito. Tinha certeza de que chegaria a
Volat sem ser localizado pelas estações arcônidas, e pousaria
perto da Gazela de Ralph Sikeron, na qual Cerl Sandford voltaria à
Lotus.
A defesa
solar do planeta Terra preparara todos os detalhes da tarefa de
Fellmer Lloyd. Nada foi deixado ao acaso. Tudo fora conferido. E a
quantia com que o mutante chegaria ao planeta reforçava o relevo que
Rhodan atribuía a essa missão.
A Gazela
percorreu os últimos trezentos mil quilômetros numa velocidade
infernal, muito embora não ultrapassasse a marca de 0,2 luz. Cerl
Sandford usava apenas a terça parte das energias de que a nave podia
lançar mão. Assim não desfalcaria suas reservas que tornavam
superpotente o campo de proteção contra a localização. Tudo isso
não bastaria para que a Gazela pudesse chegar a Volat sem ser
percebida, se Sandford não utilizasse uma trilha de entrada bem
delimitada. Nesta, havia uma faixa de menos de um quilômetro que não
era inteiramente coberta pelas estações de vigilância dos
arcônidas e dos mercadores galácticos.
A mesma
rota fora utilizada para levar Ralph Sikeron ao planeta.
Finalmente
a Gazela desceu como uma folha seca. Penetrou por uma abertura entre
as árvores gigantescas da mata virgem e, sob a proteção da
semi-escuridão, ficou pousada a poucos quilômetros da periferia da
selva.
Cerl
Sandford expediu uma minúscula sonda, que era uma verdadeira
maravilha de precisão e potência. Subiu ao espaço com um chiado.
Era muito pequena para ser captada pelos instrumentos de localização,
suas dimensões eram tão exíguas que não poderia ser vista na mais
sensível das telas, e sua superfície continha pouco metal para
refletir quaisquer ondas. Mas a potência de seu microtransmissor era
suficiente para, a uma distância segura do planeta Volat, transmitir
à Lotus, estacionada a dez anos-luz de distância, o sinal de um
pouso sem incidentes.
A seguir,
Cerl Sandford colocou toda a aparelhagem na posição zero,
levantou-se do assento de piloto, despediu-se de Fellmer Lloyd com um
aperto de mão e disse:
— A
outra Gazela está a duzentos metros daqui, para a direita. Durante o
pouso consegui medir a posição da abóbada energética.
— Está
bem — disse Lloyd. — É bom que me deseje muita sorte. Sinto que
desta vez realmente vou precisar.
*
* *
Fellmer
Lloyd aguardou o amanhecer antes de fazer qualquer coisa.
Depois de
caminhar durante uma hora pela mata exuberante e fechada, que
ostentava uma flora estranha, atingiu o terreno livre.
Dali a
duas horas viu-se numa estrada, da qual saiu apressadamente, pois
dentro dos limites do Grande Império não se poderia recorrer à
desculpa clássica de veículo avariado sem despertar suspeitas.
Fellmer
Lloyd não se queixou quando ao meio-dia ainda não havia chegado à
pequena cidade de Esgun. Um pantanal obrigara-o a dar uma enorme
volta, fazendo-o empenhar-se em luta com um estranho monstro em forma
de salamandra.
Seu
primeiro encontro com um ser de Volat representou um confronto com o
mais perigoso dos répteis do planeta. E isso deu-lhe que pensar.
Lembrava-se com freqüência cada vez maior de Ralph Sikeron. Sabia
perfeitamente que o superescuta era um homem extremamente prudente e
previdente. Ao que tudo indicava, já estava morto. E era muito mais
perigoso seguir as pegadas de um agente colocado fora de ação do
que iniciar uma tarefa.
O sol de
Heperés transformou o planeta Volat numa sauna, que se tornava cada
vez mais quente à medida que se aproximava o meio-dia. Mas Lloyd não
desanimou. Caminhou resolutamente ao longo das samambaias de caules
alongados e desviou-se de um líquen avermelhado, que ao mais leve
toque esguichava um ácido corrosivo, capaz de afastar até os
répteis em forma de salamandra.
Eram três
horas, tempo local, quando chegou a Esgun, uma cidade pequena, onde
todas as pessoas se conheciam. Fellmer Lloyd ficou muito feliz ao
notar que o trem de radiações destinado a Kuklon partiria cinco
minutos após sua chegada à estação da via férrea expressa.
Um
saltador aproximou-se dele, lançou-lhe um olhar de espreita e
perguntou no dialeto dos mercadores galácticos:
— Quando
foi que choveu hoje? O senhor está todo molhado.
Fellmer
Lloyd leu os pensamentos de seu interlocutor. Foi só em virtude do
treinamento rhodaniano que não estremeceu. O saltador não só se
espantara com seu aspecto exterior, mas estava realmente desconfiado.
Apesar de
tudo, Lloyd conseguiu soltar uma risada. Apontou para seu corpo com
um gesto da mão.
— Chuva?
— disse na linguagem inconfundível dos preboneanos. — Que chuva,
que nada. Isto é suor. E o pior é que foi em vão. Vi o besouro de
dugerun uma única vez. Depois o bicho me fez de idiota durante três
horas. Quero que o diabo carregue tudo quanto é besouro.
Um sorriso
largo aflorou ao rosto do saltador quando este ouviu o que o
preboneano suado procurara caçar. Mas a desconfiança logo voltou a
surgir, porque não viu em poder de Lloyd o recipiente que carregam
aqueles que andam atrás do besouro raro. Lloyd adiantou-se à
pergunta do saltador. Apontou para os sapatos sujos, em que ainda se
viam sinais de lama, e ficou praguejando contra os arredores
inóspitos de Esgun.
Naquele
momento, o trem de radiações pousou no trilho magnético. Com um
ligeiro cumprimento, o mutante deixou o saltador na plataforma. O
mercador galáctico ainda se encontrava no mesmo lugar quando o
veículo se desprendeu do trilho magnético para percorrer os últimos
230 quilômetros que o separavam de Kuklon.
Lloyd
captou todos os detalhes da mente de seu interlocutor. O saltador
ainda não estava decidido sobre se devia avisar os setores de
vigilância de Kuklon.
Enquanto
em torno dele havia um burburinho formidável, o telepata e
localizador concentrou-se sobre o saltador. A distância crescia a
cada segundo que passava. Porém, isso em nada afetou a percepção
nítida dos pensamentos do outro.
Subitamente
Fellmer Lloyd recostou-se na poltrona.
A decisão
acabara de ser tomada.
O saltador
pôs-se a caminho a fim de entrar em contato com a administração
arcônida de Kuklon pelo rádio, chamando sua atenção sobre o
prebonense que lhe parecia tão suspeito.
“Isso
está começando bem”,
pensou o mutante bastante contrariado, lançando um olhar indiferente
para baixo, onde a paisagem se desenrolava como num filme sob o trem
que corria a toda velocidade.
Dali a dez
minutos, viram os edifícios de Kuklon. O trem perdeu altitude e
velocidade e esgueirou-se entre os arranha-céus. Finalmente, pousou
em sentido vertical sobre o trilho magnético da estação.
Fellmer
Lloyd encontrava-se junto à comporta, onde aguardava a abertura
automática da mesma. Notou três arcônidas que caminhavam pela
plataforma. Seus uniformes eram inconfundíveis. A mente do mutante
não teve a menor dificuldade em abranger os pensamentos daqueles
homens altos. Logo percebeu a que vinham.
A porta
abriu-se à sua frente. Lloyd deixou que três passageiros passassem
à sua frente. Mostrou-se muito gentil para com uma velha saltadora,
que carregava três volumes enormes.
Fellmer
colocou um volume em cada ombro, caminhou meio recurvado ao lado da
senhora de idade, iniciando uma conversa. Os olhos dos três
arcônidas passaram acima de sua cabeça; estavam à procura de um
prebonense de sapatos sujos.
Lloyd nem
chegou a ouvir os agradecimentos da senhora.
Seu
destino era a base de operações de Ralph Sikeron, situada no bairro
galáctico de Kuklon, na Praça Thator, cujo nome fora tirado da nave
exploradora mais bem sucedida dos arcônidas.
Não se
interessou pelo tráfego intenso da metrópole.
Kuklon era
um ponto de entroncamento do Grande Império e um centro de operações
dos mercadores galácticos. O mutante viu que se haviam fixado
definitivamente por ali. A melhor prova disso consistia nos edifícios
majestosos que traziam a denominação dos clãs que os haviam
construído.
Tomou um
veículo robotizado. À medida que este prosseguia em sua viagem por
Kuklon, aumentava o luxo dos edifícios de escritórios dos
saltadores.
Subitamente
a rua alargou-se. O autômato anunciou que havia chegado ao destino.
A Praça
Thator era uma área circular de dois quilômetros de diâmetro,
cercada de prédios com mais de quinhentos metros de altura.
O lugar
servia de ponto de encontro de todas as raças da Via Láctea. Lloyd
viu seres de que nunca ouvira falar. Alguns deles arrastavam-se
dentro de trajes pressurizados. Outros executavam um salto de dez
metros a cada passo dado. Deviam vir de mundos em que a gravitação
era muito maior. Viu monstros que lhe causaram calafrios, mesmo sendo
um mutante bem treinado. Por outro lado, deparou-se com seres que se
pareciam com os cães bassê do planeta Terra. Apenas, esses bassês
não possuíam pele, cauda ou focinho de bassê. Porém o formato da
cabeça e das orelhas assemelhava-se tanto ao dessa raça canina que
Lloyd teve de controlar-se para não os chamar com um assobio.
A base de
operações de Ralph Sikeron fora instalada no edifício do clã de
Uxlad. Fellmer contemplou discretamente o edifício, atravessou a
praça e procurou localizar uma eventual fonte de perigo. A
utilização de sua faculdade localizadora não produziu o menor
resultado.
A enorme
porta de entrada revelava uma ostentação exagerada. O clã de Uxlad
mandara revestir os batentes, controlados por um dispositivo
positrônico, com os metais mais preciosos, mas nem por isso seu
aspecto tornou-se mais acolhedor. Os letreiros das firmas,
apresentavam o mesmo feitio de ostentação da porta de entrada.
Entre outros, Fellmer Lloyd leu o seguinte:
GETLOX
ASARGUD
TRANSPORTES
O nome
Asargud era o disfarce usado pelo superescuta Ralph Sikeron, que
instalara sua base de operações no edifício comercial do clã de
Uxlad.
Lloyd
lançou um olhar para seu corpo. As vestes já estavam secas, mas nos
sapatos ainda havia sinais inconfundíveis de sujeira. Não estava
disposto a arriscar o êxito de sua missão devido a este detalhe
ridículo. Resolveu adquirir vestimentas novas.
Dali a uma
hora, viu-se novamente diante do edifício dos Uxlad. Desta vez,
envergava o traje elegante dos arcônidas. Procurou localizar uma
eventual causa de perigo. Não encontrou nenhuma e, atravessando o
portal — um modelo de ostentação — penetrou no hall de
recepção.
Um robô
aproximou-se rapidamente e perguntou o que desejava. A firma Getlox
Asargud ficava no 212o
andar.
O elevador
antigravitacional gastou poucos segundos para levá-lo ao pavimento
desejado. A intensidade do tráfego no respectivo poço era notável.
Também ali estavam reunidas todas as raças da Via Láctea, que
pareciam negociar com o clã dos Uxlad.
Fellmer
Lloyd atingiu o 212o
pavimento sem ser molestado. Num andar acima, ficava a área de pouso
para táxis aéreos e naves espaciais de pequeno porte.
O corredor
largo, pomposo como a entrada, irradiava tranqüilidade benfazeja.
Mas o mutante não se deixou impressionar pela beleza nem pela
riqueza. Encontrava-se no cumprimento de uma missão. Devia entrar em
contato quanto antes com o agente Ralph Sikeron, se é que este ainda
estivesse vivo, a fim de esclarecer o sentido da mensagem de alarma
três toques de sino.
Não foi
por acaso que a defesa solar do planeta Terra atribuíra a Fellmer
Lloyd a identidade de um prebonense. Aquela raça colonial, que há
milênios era um membro fiel do Grande Império, assemelhava-se pelo
feitio do corpo à figura de Lloyd. Por várias vezes, os mutantes de
Rhodan tiveram de aprender por experiência própria que o aspecto
mais comum é o melhor disfarce.
Uma porta
abriu-se a poucos metros do lugar em que Lloyd se encontrava. Uma
moça saiu para o corredor e lançou um olhar curioso para o mutante.
Nem desconfiava que este lia seus pensamentos como se fosse um livro
aberto. Lloyd dirigiu um cumprimento amável à moça e disse:
— Estou
procurando a firma Asargud, que fica no 212o
andar.
Mal acabou
de pronunciar o nome que servia de disfarce a Ralph Sikeron, percebeu
que a moça saltadora passou a assumir uma atitude de reserva hostil.
O rosto encantador de feições mongolóides continuou amável, mas
sua voz assumiu um tom nada gentil.
— Terceira
porta à direita. Hoje o senhor já é a oitava pessoa que está à
procura dessa firma.
Os olhos
escuros, que formavam um contraste maravilhoso com a pele
avermelhada, já não exprimiam a menor curiosidade. Com o gesto
característico a qualquer moça que repele alguém, virou-se
bruscamente e foi andando em direção ao elevador antigravitacional.
Fellmer
Lloyd não a seguiu com os olhos. Os pensamentos da jovem saltadora
causaram-lhe certa preocupação: “Mais
um espia arcônida!”
Para não
chamar a atenção mais que o necessário, foi até a terceira porta
da direita. Conforme esperava, encontrou-a trancada. À sua vista bem
treinada, não escapou o fato de que a fechadura magnética fora
forçada, embora com muita habilidade.
Desceu
pelo elevador antigravitacional. Não esperara conseguir entrar em
contato com Sikeron na primeira tentativa. No entanto, o pensamento
que passara pela cabeça da bela jovem não lhe saía da mente: “Mais
um espia arcônida!”
No hall de
recepção, desviou-se de três indivíduos pertencentes à raça dos
superpesados. Conversando em voz alta, caminhavam em sua direção e
com seu corpo de setecentos e cinqüenta quilos poderiam dar-se ao
luxo de esbarrar num humano de peso normal. Naquele momento, seu dom
de localização avisou-o de que estava sendo observado.
O aspecto
exterior de Fellmer Lloyd transmitia a impressão da apatia e da
lentidão. Mas naquele instante, a mente do mutante correspondia ao
extremo oposto desse estado.
Com o
rosto de um homem que reflete sobre um negócio, saiu do edifício
Uxlad. Na verdade, estava observando atentamente as imediações.
Mantinha uma das mãos no bolso, onde os dedos cingiam a arma de
choques com a qual estava tão familiarizado.
Lentamente
foi abrindo caminho entre a confusão de raças que continuava a
acotovelar-se na Praça Thator.
Seu
sentido localizador continuava a emitir o sinal de alarma.
Não havia
a menor dúvida. Estava sendo seguido por uma pessoa. Os dados
relativos à mesma foram captados de maneira pouco nítida e com
fortes interferências.
Fellmer
Lloyd nunca se deparara com um fenômeno igual.
Dois
soldados da força espacial dos arcônidas encontravam-se na Praça
Thator, na qual se via, sobre um pedestal, uma reprodução artística
da célebre nave espacial. Os dois arcônidas altos e uniformizados
fitavam o mutante de forma tão acintosa que Fellmer Lloyd não
poderia deixar de notá-los. Aproximou-se tranqüilamente dos dois
homens.
— Desejam
alguma coisa? — perguntou no dialeto dos prebonenses e lançou-lhes
um olhar de desafio. Antes que respondessem, Lloyd informou-se sobre
os pensamentos deles. Sentiu-se chocado pelo fato de que esses
homens, que eram apenas soldados de Árcon, haviam recebido ordens da
administração de Kuklon para procurarem determinado indivíduo.
E a pessoa
que estava sendo procurada era ele mesmo!
No peito
dos soldados, destacava-se o pequeno aparelho de radiocomunicação.
Fellmer
Lloyd percebeu que a situação era muito mais perigosa do que
supusera.
Onde
estaria a outra pessoa, que o observara enquanto saía do edifício
Uxlad?
O mais
velho dos arcônidas respondeu com outra pergunta:
— Alguém
falou com o senhor?
Enquanto
falava, olhou para os sapatos de Lloyd.
O agente
cósmico logo percebeu que a situação se modificara. Os pensamentos
dos arcônidas eram tão confusos que não permitiam qualquer
interpretação precisa, com exceção deste impulso: “Sapatos
enlameados!”
— Não —
rangeu a voz de Lloyd — ninguém falou comigo. Acontece que os
senhores me olharam de forma muito insolente — com as últimas
palavras lançou uma “ponte”
para a idéia dos sapatos enlameados.
O soldado
mais jovem logo pisou nessa “ponte”.
— A
Administração mandou que prendêssemos um suspeito, caso o
encontrássemos. Trata-se de um homem de roupa suada e sapatos sujos.
A estatura dele é igual à sua, mas quanto ao mais...
Fellmer
Lloyd começou a rir.
— O
computador de Árcon está dominando vocês que é uma beleza! Até
quando estão na cidade, de férias, têm que dar serviço. Procurem
não apodrecer nos pântanos de Kuklon!
Despediu-se
com um gesto amável e embrenhou-se na multidão.
Nem pensou
em sair da Praça Thator. A busca misteriosa de sua pessoa, que dera
origem ao alarma mental, não combinava com o quadro. Embora o
cérebro positrônico, que governava o Grande Império há quase um
século, tentasse constantemente despertar os arcônidas
entorpecidos, até então a máquina fria não conseguira registrar
um único êxito nessa tentativa. Assim, a suposição de Fellmer
Lloyd, segundo a qual os mercadores galácticos deviam estar atrás
desse alarma, não tinha nada de absurdo.
Ao
contornar a Praça Thator, voltou a passar à frente do edifício
Uxlad. O edifício portentoso atraía-o que nem um ímã. Subitamente
estremeceu.
Localização!
Um modelo de vibrações cerebrais foi captado com toda nitidez.
Mais uma
vez, estava sendo observado. E mais uma vez, isso acontecia nas
proximidades do edifício Uxlad.
Lloyd não
demorou em analisar o modelo de vibrações cerebrais.
Verificou
a direção de onde vinha a emissão e não se surpreendeu ao
constatar que o ponto de partida ficava na entrada do edifício.
A entrada
ostentosa dotada de comando positrônico estava aberta. Centenas de
saltadores saíam do edifício. Desciam apressadamente pela larga
escadaria e perdiam-se na multidão.
Subitamente
Fellmer Lloyd pôs a mão na cabeça. Seus lábios moveram-se, e
disseram:
— A
moça!
Ela o
observava!
A jovem
mercadora galáctica do 212o
andar estava de pé à esquerda da entrada e olhava para ele.
Fellmer
não deu a perceber que notara a atitude da moça. Com sua faculdade
telepática procurou captar os pensamentos dela. Ao descobrir neles
um certo ritmo, que lhe parecia familiar, não teve a menor dúvida
de que ela o seguira desde o momento em que saíra do edifício
Uxlad.
E a moça
pensava intensamente em Ralph Sikeron!
3
Fellmer
Lloyd passou sua primeira noite em Volat no Hotel Plana. Dormiu um
sono profundo, que não foi perturbado por sonhos. Ao despertar,
porém, sua mente ocupou-se imediatamente com a moça alta e de rosto
encantador. Os traços mongólicos e a pele avermelhada não
permitiam a menor dúvida quanto ao fato de que era filha de um
mercador galáctico.
A moça
pensara ininterruptamente em Ralph Sikeron, enquanto observava
Fellmer Lloyd. Não chegou a estabelecer contato com ela. Fellmer
Lloyd não gostava de agir precipitadamente, mesmo num caso como
este, em que Perry Rhodan lhe confiara a tarefa de esclarecer o
quanto antes qual era o perigo gravíssimo para a Terra existente em
Volat.
Fellmer
Lloyd sorriu enquanto guardava seus “instrumentos de luta” junto
ao corpo. Nenhum deles faria supor a origem terrana. Todos os
objetos, mesmo os mais insignificantes, eram produtos genuínos da
indústria prebonense, embora a construção de três armas de
modelos diferentes pudesse dar o que pensar aos arcônidas. Por
certo, teriam dificuldade em descobrir o canto da Galáxia cuja
tecnologia produzira esses artefatos.
Tomou café
com a tranqüilidade do homem que está em paz com a consciência,
deu a indicação de que pretendia ficar com o aposento e caminhou em
direção à Praça Thator.
Não
poderia deixar de ir ao edifício Uxlad. Ele mesmo não saberia dizer
o que o atraía para lá. Seria a moça?
Mais uma
vez, o elevador antigravitacional levou-o ao 212o
andar. Enquanto subia, resolveu dar ao menos uma olhada ligeira na
área de pouso. Ali havia apenas uma nave espacial rápida de
pequenas dimensões.
Uma nave
auxiliar cilíndrica dos saltadores chiava, vindo do sul.
Lloyd fez
de conta que pertencia à tripulação da pequena nave pousada.
Encostou-se
confortavelmente à coluna de apoio telescópica. A nave auxiliar
cilíndrica pousou a menos de vinte metros do lugar em que se
encontrava.
Três
saltadores apareceram. Ainda envergavam os trajes espaciais. Lançaram
um ligeiro olhar para Fellmer e caminharam em direção ao elevador
antigravitacional.
Por uma
questão de rotina, Lloyd controlou seus pensamentos. No mesmo
instante passou a ser exclusivamente o telepata. Os saltadores
pertenciam à equipe de uma estação de vigilância espacial. Vinham
de lá e conversavam sobre a aproximação de um objeto — não
identificado — ocorrida duas noites atrás. O objeto não foi
atingido pelos raios, nem se tornou visível no instrumental ótico.
O exame de rotina realizado pelo computador positrônico chegara à
conclusão de que uma nave espacial de dimensões reduzidíssimas
devia ter pousado em Volat.
Fellmer
Lloyd não ficou nem um pouco satisfeito ao descobrir que o
funcionamento preciso do computador positrônico permitira calcular o
local do pouso com uma diferença não superior a vinte quilômetros.
E os três
saltadores, que passaram por ele, ainda haviam sido informados de que
quinze dias atrás o mesmo fenômeno fora registrado.
Foi há
quinze dias que Ralph Sikeron chegou a Volat.
“Que
bela perspectiva!”,
pensou Lloyd com um humor fúnebre. “Só
falta uma expedição arcônida de busca para que, hoje de noite,
metade dos habitantes de Volat esteja na minha pista.”
Não se
entregou a quaisquer ilusões. Tinha plena certeza de que antes do
anoitecer Volat se encontraria em estado de alarma. Mas o que será
que os três saltadores, que afinal estavam a serviço de Árcon,
vieram fazer no edifício comercial dos Uxlad?
Mais uma
vez, captou os pensamentos deles, embora o elevador já os tivesse
levado ao 35o
andar.
Falavam em
chefes, em outros saltadores. Subitamente foi proferido o nome da
localidade de Esgun. Lloyd esperava conseguir informações mais
detalhadas, mas justamente nesse instante a palestra e o conglomerado
mental dos três homens divergiram para o quotidiano.
O pouso de
um táxi aéreo surpreendeu-o. Só o chiado da manobra de
aterrissagem despertou-o da concentração telepática. E seu sentido
localizador desencadeou o alarma: era a moça.
Antes que
ela descesse, captou-lhe o modelo de vibrações cerebrais e também
o conteúdo de seus pensamentos.
Estava
chegando atrasada ao serviço. Por isso, tomara um táxi aéreo. Mas
naquele momento não pensava em seu trabalho, e sim em Ralph Sikeron;
ou melhor, em Asargud.
Ao descer
do táxi aéreo, fitou-o perplexa. Estava completamente indecisa.
Pensava nos espias de Árcon e comparou Asargud com o homem
desconhecido que ontem vira pela primeira vez no corredor.
Fellmer
Lloyd saiu da sombra da pequena nave espacial e dirigiu seus passos
ao elevador antigravitacional. Lá não deixaria de encontrar-se com
ela, e era o que a moça queria. Acontece que não disse uma palavra
enquanto desciam um andar, e ainda se mantiveram em silêncio
enquanto caminhavam pelo corredor.
— Asargud
era seu conhecido? — disse, surpreendendo-a com a pergunta. — Ele
e eu somos de Prebon. Estou apenas de passagem. Amanhã deverei
prosseguir viagem. Sabe onde posso encontrar Asargud?
A moça
voltou a sentir medo de que o homem que caminhava a seu lado fosse um
espião arcônida. Subitamente parecia andar com certo
constrangimento. Lloyd sentiu quase fisicamente a luta interior em
que estava empenhada. Convenceu-se de que essa moça deveria gostar
muito de Ralph Sikeron, e que certamente se tornara uma espécie de
amiga do agente.
— Sou
amigo de Asargud — insistiu Fellmer Lloyd. — Não sou igual aos
outros que ontem perguntaram por ele.
A moça
não poderia deixar de compreender estas palavras. Virou abruptamente
a cabeça e seus olhos escuros e profundos fitaram Lloyd com uma
expressão perscrutadora.
*
* *
Ralph
Sikeron, agente cósmico de Perry Rhodan, morrera em ação no
planeta de Volat. Foi assassinado e seu cadáver estava desaparecido.
Dali em
diante, Fellmer Lloyd não precisaria esforçar-se para entrar em
contato com o superescuta. Ralph Sikeron já não existia.
Kuri
Oneré, a jovem da raça dos mercadores galácticos, funcionária do
clã de Uxlad, não lhe pediu que guardasse segredo sobre o
assassinato ou que vingasse a morte de Ralph Sikeron. Apenas o fitou
insistentemente com os olhos negros e aguardou sua reação.
— Por
que está fazendo isso por Asargud, Kuri? — perguntou Lloyd, embora
seu dom telepático já lhe houvesse revelado os pensamentos da moça.
Seus olhos
iluminaram-se por um instante. Seus lábios empalideceram e um traço
duro surgiu em torno dos mesmos. A resposta foi imediata:
— Porque
foi um homem decente, prebonense... Não foi nenhum tipo imundo que
nem os saltadores — seu rosto exprimiu um profundo desprezo.
— Kuri,
a senhora também é... A moça fez uma pose orgulhosa.
— Sim.
Pertenço à raça dos mercadores galácticos. Há oito anos nosso
clã era rico e poderoso. Meu pai possuía trinta e oito naves
espaciais. Mas o poder do clã de Uxlad foi crescendo e, por fim, ele
nos tirou fraudulentamente o monopólio de sgokx. Em um ano, meu pai
ficou arruinado. Agora, tenho de ganhar meu pão com esse clã
maldito.
Um ódio
implacável surgiu em seus olhos, e pensamentos terríveis
desenvolviam-se na mente da bela moça. Kuri Oneré já perdera os
pais e não tinha parentes vivos. Provavelmente foi por isso que se
ligou a Ralph Sikeron. Acontece que não sabia mais nada além
daquilo que contara a Lloyd.
Em tom
discreto formulou outras perguntas, falou sobre a administração
arcônida no planeta e referiu-se ao fato de que no Império de Árcon
as penas para o assassínio são bastante rigorosas.
— Asargud
nunca lhe disse que tinha inimigos, Kuri?
— Não,
prebonense. Mas quando o vi pela última vez tive a impressão de que
tinha diante de mim um homem que acabara de descobrir uma coisa
terrível. Estava muito excitado, embora procurasse disfarçar. Mal
teve tempo para trocar algumas palavras comigo. Acho que já
desconfiava de que morreria em breve. Na época não dei tanta
importância ao fato. Já quase me havia esquecido e nunca mais me
lembraria se não me tivesse encontrado com o senhor.
“O
que foi mesmo que ele disse?
— prosseguiu, indagando-se. Tentava recordar-se do acontecido. —
Pediu que mandasse seu amigo à mãe onisciente, se um belo dia
desaparecesse e não voltasse. Sim, foi exatamente isso que ele disse
quando nos encontramos pela última vez.”
— À mãe
onisciente? — Fellmer Lloyd teve o cuidado de não rir.
A
expressão só poderia designar uma pessoa residente em Volat. Ontem
de noite tivera a primeira oportunidade ver e observar alguns
habitantes.
Os nativos
desse mundo provinham de uma raça de insetos e, até que o planeta
fosse colonizado pelos arcônidas, levavam a vida tranqüilamente à
sua maneira. Para qualquer pessoa que não estivesse acostumada a
lidar com as raças inumanas, os volatenses — corpo feito de
articulações finas, pernas de inseto, pele preto-marrom, às vezes
revestida por córneas, grandes olhos salientes e as antenas que
encimavam estes — só poderiam oferecer um aspecto grotesco. Apesar
dos seus dois metros de altura não apenas pareciam inofensivos e
pacatos; realmente o eram. Além disso, eram inteligentes. O desprezo
que votavam aos arcônidas e aos saltadores não tinha sua origem no
orgulho ferido. Fundava-se na concepção de vida dos volatenses,
segundo a qual o espiritual devia preencher a vida, e os ritos mais
estranhos tinham um lugar assinalado.
Fellmer
Lloyd repetiu:
— Mãe
onisciente? — Kuri Oneré confirmou com um gesto. — Não acho que
os hábitos incompreensíveis dos volatenses sejam ridículos.
Asargud deve ter sido um probonense formidável, pois conseguiu o que
até hoje nenhum saltador pôde realizar: estabeleceu contato com os
volatenses na selva.
Naquele
instante, um saltador saiu do elevador antigravitacional e entrou no
corredor. Fellmer Lloyd sentiu quase fisicamente o perigo que se
aproximava dele junto com o mercador galáctico. Não havia tempo
para afastar-se.
O saltador
maciço passou por eles e fitou-os com uma expressão curiosa. Ao
reconhecer Kuri Oneré sorriu e, enquanto passava, soltou uma piada
pesada proferida no dialeto dos saltadores.
Dali a
dois passos parou, olhou atentamente para Fellmer Lloyd e perguntou
em tom de espreita:
— Está
à procura da firma Asargud?
Fellmer
Lloyd, um homem que parecia um tanto indolente, não demonstrou o
menor nervosismo. Com uma lentidão insolente, levantou a cabeça,
olhou o mercador galáctico com uma expressão fria e perguntou numa
fala lenta, mas enfática:
— Será
que o senhor tem sempre que dizer uma coisa engraçada a toda moça
com quem se encontra, saltador?
O mutante
resolvera passar ao ataque. O caos mental do mercador era feito de
desconfiança — onde mais uma vez os chefes desempenhavam seu papel
— de raiva e atrevimento. Porém tudo era disforme e sem a
necessária elaboração, provando que o homem que Lloyd tinha diante
de si era um sujeito tolo e arrogante.
O
mercador, cuja altura excedia a de Fellmer em cerca de trinta
centímetros, aproximou-se em atitude ameaçadora:
— Como
se atreve...
A bofetada
vigorosa de Kuri Oneré fechou-lhe a boca. Ainda mais eficaz que o
castigo físico foi a ameaça de comunicar à Administração que ele
a molestara.
O mercador
recuou enquanto seus olhos chamejavam de raiva. Praguejou em voz
baixa e desapareceu atrás da segunda porta.
Seus
pensamentos não eram nada bons. Parte deles se exprimia nesta
observação de Fellmer Lloyd:
— Acho
que a senhora não precisa comparecer mais ao serviço. Este saltador
é um homem influente?
— Além
de ser um membro do clã dos Uxlad, é o caçula mimado de Aser
Uxlad. É um sujeito malandro, incompetente e mulherengo.
— Esse
homem tem mais de um chefe? — perguntou Lloyd.
Kuri
respondeu prontamente:
— Aser
Uxlad é o rei sem coroa de seu clã; não existe outro chefe.
*
* *
Fellmer
Lloyd sentiu a localização como se fosse um raio goniométrico.
Nascera
com esta capacidade fenomenal e só no curso da vida adquirira o dom
da telepatia. A localização pertencia à sua natureza. Não
precisava sair à sua procura: ela vinha a ele, advertia-o ou
informava, trazendo simultaneamente modelos das vibrações cerebrais
dos homens ou das outras inteligências que pretendessem entrar em
contato com intenções boas ou más.
Quatro
saltadores subiam apressadamente pelo elevador antigravitacional, em
direção ao 212p
andar.
O filho
mais jovem de Aser Uxlad os chamara. Por vingança e em represália
pelo fato de que Kuri Oneré falara no corredor com um estranho como
se fosse um velho conhecido, resolvera desencadear essa ação. Por
enquanto a intervenção dos saltadores não seguia uma linha
definida. Porém, quando saíram do elevador e só encontraram Kuri
Oneré no corredor, sem que houvesse o menor vestígio do preboneano
desconhecido, começaram a desconfiar.
Jidif, um
saltador magro como um esqueleto, de olhar traiçoeiro, reagiu
imediatamente, enquanto seus acompanhantes procuravam exercer pressão
contra a moça. Usou seu intercomunicador de bolso para entrar em
contato com a recepção. Lá embaixo havia um sujeito de sua
confiança. Este mandou que três robôs que distribuíam informações
se aproximassem e os reprogramou com alguns movimentos ligeiros,
criando três armas perigosíssimas para a vida de Fellmer Lloyd, das
quais não haveria como escapar.
No enorme
edifício do clã dos Uxlad, havia um único elevador
antigravitacional. Esse centro neutralizador da gravidade, de mais de
trinta metros de diâmetro, começava no pavimento mais profundo do
subsolo e terminava na cobertura, onde ficava o campo de pouso. Nas
horas de maior movimento, centenas de humanos e outras inteligências
subiam e desciam ininterruptamente pelo poço. Mas Fellmer Lloyd
preferiu não utilizá-lo. No momento em que comunicou à espantada
Kuri Oneré que dali a pouco uma matilha de saltadores se grudaria
nos seus calcanhares, esta — sem dizer uma palavra — lhe entregou
uma chave magnética.
Não teve
necessidade de ler seus pensamentos para descobrir qual era a porta à
qual a mesma se destinava.
Era a
terceira à esquerda desse corredor, atrás da qual ficava a antiga
base de operações de Ralph Sikeron.
Desapareceu
nesse recinto. Fechou a porta atrás de si e, com a calma peculiar de
um agente cósmico, examinou as quatro salas contíguas.
Ralph
Sikeron disfarçara muito bem a base de operações, dando-lhe o
aspecto de uma firma que se dedicava aos transportes interestelares.
Fellmer não mexeu em nenhuma das gavetas. Nelas não encontraria as
indicações de que precisava. Muitas vezes os melhores esconderijos
são os lugares que qualquer pessoa vê em primeiro lugar, e onde
costuma passar os olhos desatentamente.
Encontrava-se
na segunda sala, ouviu o ruído na porta.
Seus
perseguidores recorriam à força, na tentativa de penetrar ali. Numa
série de reflexões lógicas, Jidif chegara à conclusão de que o
prebonense ainda devia estar no 212o
andar.
Fellmer
Lloyd, com seu aspecto indolente, não se perturbou. Usou seu sentido
localizador para analisar os quatro modelos de vibrações cerebrais.
Seus olhos procuravam qualquer indicação, por menor que fosse, que
Ralph Sikeron porventura tivesse deixado por escrito.
Os ruídos
tornaram-se mais fortes na fechadura magnética, do outro lado da
porta. A mão esquerda de Lloyd segurava o projetor hipnótico.
Regulara-o para a potência máxima. Colocaria fora de ação os
saltadores, assim que penetrassem ali. Kuri Oneré, que evidentemente
se encontraria entre eles, ficaria também submetida por algumas
horas aos efeitos da hipnose.
Lloyd
virou para trás a página da agenda que tinha diante de si.
8 de
julho...
23 mil
dexresitica, enfeixado. S Suc
ção VI,
vindo de Midg.
51.365
clodexal, 100%, vinda de Zalit
por derr-k
118, retransmitido por Klo
XXII para
Orro. Supercrânio?
— Supercrânio?
Desta vez,
Fellmer Lloyd estremeceu de modo visível.
Era a
indicação que procurava instintivamente. No dia 8 de julho Ralph
Sikeron ainda estava vivo. E nesse dia devia ter feito a primeira
descoberta importante. Mas o que significaria a referência ao
Supercrânio?
Fazia mais
de meio século que o Supercrânio estava morto.
Ninguém
mais falava no inimigo mais perigoso que Perry Rhodan já enfrentou.
Por que a
terrível palavra Supercrânio estava escrita junto aos pousos
figurados das naves espaciais fretadas?
O que
estaria pensando Ralph Sikeron ao registrar o nome de um morto?
Atrás
dele, a fechadura magnética desmanchou-se sob o fogo do radiador de
impulsos térmicos, e a porta foi aberta em meio a uma nuvem de gases
malcheirosos.
Num
instante, Fellmer Lloyd voltou ao presente. Sua mão tranqüila
dirigiu o projetor hipnótico para a porta de entrada. Puxou o
gatilho e espalhou os impulsos para a direita e para a esquerda. No
mesmo instante, seu sentido de localização trouxe os modelos de
vibrações dos cérebros hipnotizados.
Quatro
saltadores receberam ordem para descer imediatamente e dizer ao seu
comparsa que o prebonense havia escapado num táxi aéreo.
Acontece
que Fellmer Lloyd cometeu um erro pequenino.
Não deu a
necessária atenção ao ângulo de abertura da arma.
Não foram
apenas os quatro perseguidores e Kuri Oneré que ficaram sujeitos aos
efeitos hipnóticos do projetor, mas ainda três homens totalmente
alheios aos acontecimentos, que se encontravam do outro lado do
corredor, inclinados sobre seu trabalho. Em suas mentes não havia a
menor disposição para a luta. Por isso, obedeceram mais depressa
aos impulsos do agente cósmico que os quatros saltadores, e chegaram
ao hall de recepção alguns segundos antes destes.
O mercador
galáctico, que se encontrava na recepção, ficou pasmado quando um
saltador totalmente desconhecido compareceu à sua frente e relatou
detalhes surpreendentes sobre um prebonense que teria fugido pelo
campo de pouso da cobertura. E sua perplexidade cresceu quando Jidif,
o magricela, apareceu sem espantar-se com a presença do outro
saltador.
No momento
em que os acompanhantes de Jidif se propuseram a repetir o relato,
repetindo sempre as mesmas palavras, o saltador percebeu o que havia
acontecido com estes homens.
Moveu a
mão em direção à chave de alarma; ao acionar a mesma, o edifício
se transformaria numa prisão. Mas, no último instante, lembrou-se
de que a administração arcônida ficaria sabendo do fato e mandaria
instaurar uma investigação bastante rigorosa. Praguejou baixinho e
retirou a mão da chave.
4
Fellmer
Lloyd realmente usou um táxi aéreo para sair do edifício comercial
dos opulentos saltadores, levando Kuri Oneré, que se encontrava sob
influência hipnótica.
Uma
palavra martelava constantemente seu pensamento: Supercrânio. Quanto
mais refletia sobre a mesma, maior era o poder que exercia em sua
mente.
Supercrânio
e três toques de sino!
Isso
combinava. Há mais de meio século, quando o Supercrânio recorreu
aos mutantes iludidos para tirar o poder das mãos de Perry Rhodan,
houvera três toques de sino no planeta Terra. Naquele tempo, o
planeta se encontrava à beira do abismo. Porém, o Supercrânio
estava morto, e, juntamente com ele, alguns dos seus homens haviam
encontrado a morte.
As idéias
de Fellmer Lloyd descreviam círculos cada vez mais estreitos em
torno de uma organização secreta, cuja atuação era dirigida
contra a Terra.
Será que
alguns mercadores galácticos chegaram por acaso ao sistema solar e
reconheceram a Terra que, segundo acreditava o Império de Árcon, os
saltadores e os médicos galácticos, havia sido destruída?
Lembrou-se
de que o rebento mais jovem dos Uxlad pensara em vários chefes.
Será que
mais de um clã dos saltadores conhecia a posição da Terra? Será
que os mercadores galácticos preparavam um ataque de surpresa
particular com suas frotas de naves cilíndricas, ação que lhes
poderia render bons dividendos?
Uma
organização desse tipo representaria para a Terra e para os planos
de Perry Rhodan um risco tão grande como o que em tempos idos se
corporificara na pessoa do Supercrânio.
Sem
desconfiar de nada, Fellmer Lloyd entrou no Hotel Plana, depois de
ter deixado Kuri Oneré em sua residência. Após dar três passos no
hall de recepção, captou a localização.
Em seu
apartamento encontravam-se agentes da Administração de Árcon, que
aguardavam seu regresso para prendê-lo. No mesmo instante, viu junto
à grossa coluna outros agentes da Administração. Eram três
saltadores.
Ainda não
haviam notado sua presença, porque um grupo de turistas havia
entrado no hall juntamente com ele. Era impossível recuar. Lloyd
enfiou-se discretamente entre a multidão, que se dirigia ao robô
recepcionista mais próximo. Face à sua estatura não era difícil
esconder-se entre pessoas mais altas que ele. Mas logo chegou o
momento em que o aglomerado, dividido em três grupos menores, foi
encaminhado a três elevadores antigravitacionais que os levariam aos
seus aposentos.
Lloyd
aproveitou os espaços livres entre os turistas para contemplar os
saltadores que se encontravam junto à coluna. Um deles levantou-se,
esticou a cabeça e olhou na direção de Lloyd. Este não precisou
recorrer à telepatia para descobrir por que o saltador mantinha a
mão direita no bolso.
Naquele
momento, o saltador que se encontrava de pé pensou no motivo pelo
qual estavam tão interessados em prender o prebonense.
“Fellmer
Lloyd devia ser um assassino pertencente a esse povo.”
— Era só
o que faltava! — disse a si mesmo.
Por outro
lado, porém, sentiu-se bem mais tranqüilo, pois já compreendia a
atividade espantosa dos arcônidas.
Subitamente,
um homem pertencente ao grupo de turistas zangou-se. Alguém o
agarrou com força e o empurrou em direção ao elevador
antigravitacional.
— Seu...
O turista
contrariado não conseguiu dizer mais nada. Fellmer Lloyd deu um
disparo silencioso com sua arma hipnótica e irradiou esta ordem:
— Todos
para o elevador. Cinco vítimas obedeceram.
Mais um
passo, e Fellmer Lloyd chegaria juntamente com os cinco turistas
hipnotizados ao poço do elevador, que representaria a salvação.
Mas, naquele instante, um dos saltadores que se encontravam junto à
coluna fez a voz ressoar pelo gigantesco hall:
— Aí
está ele!
Antes do
grito, Lloyd já havia captado o pensamento do saltador, e regulou
sua própria ação de acordo com a mente do mercador. Sabia que um
robô recepcionista pode ser transformado facilmente num robô de
combate. Três dos turistas hipnotizados foram arremessados para o
lado. Um raio térmico foi expelido pela arma de Fellmer e, numa
fração de segundo, o cérebro positrônico do robô que se
encontrava junto ao elevador antigravitacional transformou-se numa
nuvem de gases.
Enquanto
os três turistas cambaleavam para o lado, Lloyd pôs-se a salvo com
um salto para dentro do poço do elevador. Naquele instante, não
tinha mais nada de indolente.
Os
turistas bloquearam a visão dos três saltadores que saíram
correndo. O radiador térmico de Fellmer Lloyd desencadeou uma onda
de pânico no hall. No lugar em que pouco antes o caminho estivera
livre para os saltadores, as pessoas se acotovelavam.
Fellmer
Lloyd ganhou alguns preciosos segundos.
Subterrâneo
número 3. Quarto pavimento. Quinto pavimento do subsolo.
Correu
para a esquerda, contornou dois robôs de trabalho que não tomaram
conhecimento de sua presença e viu o elevador antigravitacional de
carga. O fato de que a utilização deste era proibida aos arcônidas,
saltadores ou a qualquer ser inteligente não o preocupou. Desceu
mais quatro pavimentes. Encontrava-se no nono pavimento do subsolo.
Passou apressadamente pelo corredor vazio, mas bem iluminado.
A essa
hora Lloyd estava disposto a enfrentar qualquer saltador, por mais
valente que fosse. Era só nas situações de perigo que o agente
cósmico revelava suas qualidades.
Enquanto
corria, procurou calcular suas chances. Tentou localizar a comporta
antigravitacional destinada ao lixo. Fez uma careta e balançou a
cabeça.
Aproximou-se
do poço. Sentia o mal-cheiro, apesar do forte campo de absorção de
odores.
O poço
antigravitacional de detritos tinha a largura do corpo de um saltador
normal. Fellmer Lloyd era franzino mas, mesmo assim, preferiu
certificar-se de que não estava sendo seguido antes de abandonar o
Hotel Plana por este caminho.
Viu o
primeiro perseguidor sair do elevador antigravitacional, na
extremidade oposta do corredor.
Fellmer
esquivou-se para o interior da comporta de detritos. Caiu num oceano
de odores infernais e teve de lutar contra a vontade de vomitar.
Sentiu que a gravidade controlada o levava suavemente para baixo.
Tirou a
lanterna do bolso e acendeu-a por um instante. Mas, logo a seguir,
deixou que a escuridão voltasse a reinar. A uma velocidade de dois
metros por segundo, aproximava-se do sistema de eliminação de
detritos de Kuklon.
Um
borbulhar viscoso anunciou o fim da viagem. Agora teria que acender a
lanterna, pois do contrário morreria afogado nos detritos.
Subitamente
o tubo desembocou num canal oval. Apoiando os joelhos e as costas
contra as paredes do tubo, Fellmer Lloyd olhou para baixo. Mais por
instinto que por uma reflexão racional, procurou imediatamente olhar
para cima. Dirigiu a luz da lanterna para o alto e viu uma massa
enorme de imundícies descendo à velocidade de dois metros por
segundo.
Esse fato
levou-o a agir depressa. A força antigravitacional que ainda existia
no fim do tubo ajudou-o a não cair diretamente dentro do mingau de
imundícies. Conseguiu aterrissar dois metros adiante, junto à
parede do canal.
Afundou na
sujeira até os joelhos. Não se incomodou com o fedor nauseante.
Olhou desesperadamente em ambas as direções, a fim de encontrar um
sistema de cruzamentos.
A seu
lado, um monte de imundícies desceu pelo tubo. Cobriu os olhos com o
braço e suspendeu a respiração por um instante. Porém um sorriso
de satisfação cobriu-lhe o rosto. Essa carga de sujeira vinda atrás
dele garantiria melhor sua fuga.
Cuspindo e
sentindo a areia ranger nos dentes, Fellmer Lloyd apressou-se em
seguir caminho.
Dali a
meia hora, encontrou uma possibilidade de sair daquele submundo
malcheiroso. Entretanto teve de esperar durante várias horas embaixo
de um tampão do canal, até que pudesse sair à superfície sob a
proteção da noite.
Estava
todo sujo e fedia. Esgueirou-se pelo enorme bairro hoteleiro como se
fosse um ladrão.
Logo
conseguiu sair das áreas mais nobres para mergulhar nas ruas menos
iluminadas de Kuklon. Ele mesmo não saberia dizer como fez para
chegar a uma das casas de banhos que ofereciam um equipamento
sofisticado de limpeza.
Enquanto
se entregava ao deleite de lavar as imundícies que cobriam sua pele,
suas vestes foram submetidas a um processo intensivo de limpeza na
lavadora centrífuga. Quando saiu da cabine com a pele vermelha e
cheirando a perfumes agradáveis, suas roupas o aguardavam no cesto.
No momento
em que vestia a última peça, sua mente voltou a captar o sinal de
localização.
Naquele
instante, dois espias arcônidas entravam na casa de banhos. Um
funcionário indicou-lhes a direção em que ficava a cabine de
Lloyd.
Fellmer
saiu da casa de banhos, usando a terceira porta, enquanto os dois
espias caminhavam em direção à sua cabine.
*
* *
Recorrendo
à técnica de mascaramento dos arcônidas, Fellmer Lloyd modificou
seu rosto de tal maneira que nem mesmo Perry Rhodan conseguiria
reconhecê-lo à primeira vista. Além disso, mudou de vestes; desta
vez escolheu o tipo de macacão usado pelos trabalhadores do porto.
Seu
destino era o espaçoporto de Kuklon.
Não
conseguia tirar da cabeça a lembrança do registro efetuado por
Ralph Sikeron. Na página reservada ao dia 8 de julho estava escrito
o seguinte: “...retransmitido
por Klo XXII para Orro. Supercrânio?”
Pegou um
táxi aéreo e foi ao espaçoporto. O imenso edifício da recepção
estava mergulhado na luminosidade das luzes artificiais. Grandes
áreas do campo de pouso também estavam tão profusamente iluminadas
que até parecia dia. As naves esféricas arcônidas pousavam e
decolavam, mas eram as naves cilíndricas dos ricos clãs dos
saltadores que dominavam o quadro. Vez por outra, via-se uma de
construção estranha. As raças inteligentes que passavam por este
lugar para entrar em Volat ou sair do planeta ofereciam um quadro tão
variado como o das naves.
Os
mercadores galácticos haviam reservado para si a terça parte do
edifício da recepção e da administração. O setor destinado aos
aras, os médicos galácticos, quase nem chegava a chamar a atenção.
A parte destinada aos arcônidas era de concepção exclusivamente
funcional, oferecendo um aspecto militar.
Foi para
lá que Fellmer Lloyd se dirigiu. Uma arcônida de estatura alta
transmitiu suas perguntas. Examinou-o atentamente, enquanto ambos
aguardavam as respostas que seriam fornecidas pelo arquivo.
— O
senhor também fala o arcônida, prebonense? — perguntou depois de
algum tempo.
Fellmer
Lloyd apressou-se em absorver os pensamentos da moça, e o que
conseguiu ler não foi nada satisfatório. A arcônida não
acreditava em sua descendência prebonense; julgava se tratar de um
treggl
degenerado. Sobre esta raça pesava a suspeita de que com o auxílio
de certas inteligências desconhecidas da Galáxia conspirava contra
Árcon.
Lloyd
respondeu num arcônida impecável. Continuou a irradiar amabilidade
e fingiu-se de curioso.
O
comportamento da moça mudou por completo assim que ouviu os sons de
sua língua materna. A habilidade com que Lloyd falava um arcônida
sem qualquer sotaque deixou-a surpresa.
— Há
poucos dias falei com outro prebonense; ele me perguntou... Espere
aí; o senhor não acaba de perguntar também pela Klo XXII?
— Naturalmente.
Estou esperando que o arquivo me forneça a resposta. Não se espante
com a coincidência, arcônida. Meu amigo, que também é prebonense,
desapareceu em Kuklon. O último registro encontrado por mim em sua
agenda falava na Klo XXII, que recebera carga para Orro.
— A Klo
XXII existe, prebonense — disse a arcônida em tom pensativo. —
Se não me engano, ficou no porto por algumas horas há cerca de uma
semana. Ah, já me lembro... Sim, foi isso mesmo. Seu amigo recebeu
as informações desejadas. Queria saber quando a Klo XXII deveria
chegar. Naquele momento, foi seguido por três saltadores
antipáticos. Mais tarde, correu por aqui o boato de que um homem foi
assassinado no caminho do espaçoporto para a cidade, mas que seu
cadáver havia desaparecido.
Só agora
a arcônida percebeu que o boato sobre o assassínio poderia ter
alguma ligação com o encontro, que ela tivera cerca de uma semana
atrás com o prebonense.
O
localizador e telepata Lloyd, que num esforço de concentração lia
os pensamentos da arcônida, tranqüilizou-a com um olhar pensativo.
Voltando a usar a língua dos arcônidas, disse:
— A
ligação que acaba de estabelecer não representa nenhum absurdo.
Seria uma impertinência perguntar como eram os três saltadores
antipáticos?
Tinha uma
ligeira esperança de que talvez a arcônida possuísse memória
fotográfica, que lhe permitisse lembrar-se para sempre das feições
de um rosto ou de um objeto, mesmo que apenas o visse rapidamente.
Um sorriso
franco passou pelo rosto da moça.
— Um
momento, prebonense — disse, e afastou-se.
O arquivo
forneceu a resposta. A nave Klo XXII existia. Chegara ao porto no dia
8 de julho, vinda do sistema de Midg, carregara 51.365 peças de
clodexal e, depois de uma permanência de três horas, partira com
destino ao planeta Orro. Antes disso, o comandante da nave procurara
em vão pelo agente.
Enquanto
ainda estava surpreso pelo fato de o superescuta Ralph Sikeron ter
conseguido fechar negócios de transporte no espaço de poucos dias,
pois os registros em sua agenda não eram fictícios, Fellmer chegou
à conclusão de que a palavra Supercrânio não tinha nada a ver com
os negócios, mas representava uma descoberta importantíssima do
mutante.
A bela
arcônida, que se sentia feliz por conversar em sua língua com um
ser pertencente a uma raça estranha, logo voltou. A simpatia lhe
fizera cometer uma infração contra o regulamento de serviço dos
arcônidas e a levou a revelar um segredo sobre a estratégia de
vigilância.
Todo e
qualquer ser que procurasse um escritório de Árcon situado no
espaçoporto era fotografado discretamente.
— É
este? — perguntou a moça a Fellmer Lloyd, apontando para a
fotografia de Ralph Sikeron.
Fellmer
limitou-se a fazer um gesto afirmativo. A fotografia devia
representar o mutante desaparecido.
— Aqui,
à direita, o senhor vê os três saltadores antipáticos. Conhece
algum deles, prebonense?
Fellmer
Lloyd logo reconheceu um deles:
Era o
mercador galáctico Jidif, o magricela!
Enquanto
ainda se esforçava para dominar o nervosismo, sentiu de repente um
vazio estranho na cabeça.
“O
que é isso?”,
pensou, indagando-se. “Por
que não capto nenhuma localização?”
Antes que
reconhecesse plenamente o perigo do fenômeno, a sensação do vazio
desapareceu. Mas esse segundo bastou para convencer o agente cósmico
de que em Volat havia coisas movendo-se fora das trilhas da
normalidade.
5
Com uma
decepção visível, a arcônida gentil seguiu com os olhos o
prebonense que se afastava, e que mal chegara a agradecer pelo
serviço prestado.
Fellmer
Lloyd colocara-se no grau máximo de alarma.
Uma força
estranha procurara apoderar-se de sua mente.
Já não
estava sendo perseguido apenas pelos arcônidas e seus espias, que o
consideravam um prebonense assassino; não estava sendo procurado
apenas pelos mercadores galácticos, com os quais tivera um incidente
no edifício comercial dos Uxlad; ainda havia um ser dotado de
capacidades telepáticas ou outras capacidades supersensoriais que
estendia a “mão”
em sua direção.
Mais uma
vez, a palavra Supercrânio martelou-lhe a cabeça.
Era isso
que Ralph Sikeron queria dizer.
Era o
poder supersensorial que agia em Volat. Foi só graças ao
treinamento rhodaniano que Fellmer Lloyd não fugiu em pânico para a
Gazela, a fim de escapar do planeta Volat.
Completara
o raciocínio lógico sobre o problema da força supersensorial que
agia em Volat.
Tudo
terminara no assassínio de seu colega Ralph Sikeron. Mas, antes
disso, o poder supersensorial extraíra de Ralph todo o saber de que
o mesmo dispunha. E o que se tornara conhecido em Volat não era
apenas o fato de que a Terra ainda existia e de que Perry Rhodan não
havia perecido na Titan; também a posição galáctica do sistema
solar fora revelada.
Foi este o
motivo dos três toques de sino!
E da
alusão ao Supercrânio!
Ralph
Sikeron devia ter previsto a morte, pois só assim se explicava que
carregasse um hipertransmissor de dimensões reduzidíssimas, no qual
emitiu segundos antes de sua morte o código de alarma.
*
* *
Fellmer
Lloyd fez uma visita à Gazela. Trocou parte de seu equipamento e,
depois dessas providências, penetrou na mata virgem.
Ralph
Sikeron lhe dera uma indicação precisa através de Kuri Oneré.
Deveria procurar a mãe onisciente dos volatenses.
Estava à
procura desse povo que descendia de uma raça de insetos, mas era
dotado de quociente intelectual bastante elevado.
O
treinamento hipnótico lhe transmitira todas as informações úteis
sobre os volatenses. Sabia que não possuíam linguagem no sentido
usual do termo. Comunicavam-se por meio de vibrações de freqüência
ultra-elevada, situadas muito acima da marca dos 100 mil hertz, e que
não eram perceptíveis nem pelos arcônidas nem pelos humanos. Essas
vibrações superiores a 100 mil hertz eram produzidas pelas antenas
dos volatenses, que não representavam apenas o órgão do tato, mas
também o instrumento da fala e o órgão auditivo.
O pequeno
planador-relâmpago, que Fellmer Lloyd retirara do espaçoporto sem
consultar ninguém, fora afundado no pântano, a poucos quilômetros
da periferia da selva. Prosseguia penosamente a pé, avançando mata
adentro. Uma das mãos segurava a terrível arma térmica, enquanto
na outra levava o radiador de choques.
Não se
esquecera do encontro com o réptil em forma de salamandra.
Ao
anoitecer, ainda não havia avançado trinta quilômetros mata
adentro.
Volat era
do tamanho de Marte.
O
continente em que ficava a cidade de Kuklon tinha o quádruplo do
tamanho da Europa. Dois terços dessa área estavam cobertos pela
mata virgem. Em algum lugar, no interior dessa selva, ficavam as
estranhas cidades dos volatenses e a sede da mãe onisciente.
Fellmer
Lloyd passou a noite numa série de cochilos, mantendo-se num estado
que não atrapalhava sua capacidade de reação. Por três vezes,
acendeu o holofote portátil; teve de repelir dois ataques de insetos
noturnos que mediam um metro.
A sua
primeira refeição consistiu em alguns tabletes de alimento
energético concentrado.
Assim que
o dia clareou, o agente cósmico prosseguiu na sua caminhada.
Na
primeira hora, percorreu cinco quilômetros. Depois a mata virgem
transformou-se numa selva de vegetação entrelaçada. Se não
dispusesse do radiador de impulsos térmicos, Fellmer Lloyd não
teria avançado um quilômetro.
Com a
mente preocupada, examinou o indicador de dispêndio de energia, mas
o minúsculo conversor embutido na coronha da arma era tão potente
que o indicador continuava no ponto máximo.
Um verme
bloqueou seu caminho. Instantaneamente colocou o radiador em posição
de tiro. Mas viu a seta espetada no corpo do animal verde-escuro, que
media três metros de comprimento.
O verme,
que se locomovia sobre trinta pares de tocos de perna, passou por
ele, soltando um chiado agudo.
Lloyd não
se moveu. Examinou ligeiramente a seta e percebeu que era de feitio
estranho. Não conseguiu lembrar-se do lugar em que já teria visto
coisa semelhante.
De
repente, constatou a presença de modelos estranhos de vibrações
cerebrais. Eram os volatenses!
Acreditava
que conseguiria vê-los. Virou a cabeça, mas só viu a penumbra da
selva, o solo escuro, e, vez por outra, um raio de sol que
atravessava um espaço livre entre a folhagem..
A selva
mantinha-se num silêncio absoluto. Os volatenses que, segundo as
indicações de seu sentido de localização, deviam encontrar-se a
cerca de trinta metros de distância, não se moviam.
Lloyd
procurou concentrar ainda mais intensamente seu sentido de
localização. Sabia que se achava em situação menos encorajadora
que a do superescuta Sikeron. Este era capaz de ouvir as ondas
sonoras dos volatenses, situadas acima da escala dos 100 mil hertz. O
máximo que ele mesmo poderia fazer era analisá-las e procurar
interpretá-las com base nos modelos de vibrações captadas por sua
mente.
Soltou uma
praga.
Os
volatenses retiravam-se para a selva, sem demonstrar o menor
interesse de estabelecer contato com ele.
Fellmer
Lloyd, que até então só os localizara, esforçou-se para, numa
ação desesperada, estabelecer contato telepático com suas mentes.
Sentiu-se perplexo, pois descobriu que o pensamento dos volatenses se
desenvolvia por “linhas”
humanas.
Mas o
contato com a população primitiva inteligente de Volat foi
interrompido. Desenvolvendo uma velocidade três vezes superior
àquela com que ele mesmo conseguia locomover-se, retiraram-se em
silêncio, deixando para trás a caça abatida.
O grande
verme, de aspecto repugnante, abatido por um ferrão venenoso em
forma de seta, encontrava-se poucos metros atrás de Fellmer Lloyd.
*
* *
Dali a uma
hora, uma agitação contínua tomou conta do ambiente acima da mata
virgem.
Sem a
menor consideração por si mesmo, Fellmer Lloyd enfiou-se na toca
malcheirosa de um grande animal selvagem, onde encontrou um abrigo
precário que o protegia dos raios localizadores das naves de
reconhecimento dos arcônidas. Compreendeu o motivo por que a
operação de busca desencadeada pela Administração de Árcon, com
auxílio dos saltadores, assumiu tamanha intensidade justamente nesse
setor. A aproximação da Gazela não fora registrada de modo direto
nem constatada numa tela. Mas certos desvios insignificantes,
verificados no cérebro positrônico de vigilância, fizeram com que
um computador positrônico, que costumava conferir todos os valores,
chegasse à conclusão de que uma nave espacial de procedência
desconhecida pousara em Volat. O computador chegou mesmo a calcular o
local de pouso com uma aproximação razoável.
O chiado
dos propulsores das naves arcônidas foi ouvido por Fellmer Lloyd. Só
lhe restava esperar que ele e sua Gazela não fossem descobertos.
Enquanto isso, sua mente voltou a ocupar-se com a força
supersensorial.
Mais uma
vez, a palavra Supercrânio caiu sobre ele como se fosse uma sombra.
Durante
mais de três horas, uma atividade febril desenvolveu-se no espaço
aéreo desse setor do planeta Volat. Por seis vezes, o agente usou
sua capacidade telepática para atingir o conteúdo da mente dos
tripulantes. A satisfação de Fellmer crescia cada vez mais, pois
além de ainda não terem descoberto sua Gazela, ninguém se lembrara
da possibilidade de ele mesmo encontrar-se na selva.
O fato
constituía outra prova de que o dono do poder supersensorial não
era um elemento que trabalhava para a Administração de Árcon no
planeta Volat. Enquanto se mantinha imóvel na toca malcheirosa,
rememorou o avanço em direção ao seu cérebro.
Não
durara mais que uma fração de segundo; mas essa fração de segundo
fora suficiente para mostrar toda a extensão do perigo. Era um dos
mutantes que, em virtude de um processo de autodefesa biológica,
reagia com uma sensação de vazio no cérebro sempre que uma força
estranha procurava penetrar em sua mente.
— Supercrânio,
você não está morto? Será que um morto pode ter uma sombra? —
cochichou.
Esses
cochichos reforçavam a idéia do agente cósmico sobre a gravidade
do perigo.

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