segunda-feira, 18 de março de 2013

P-058 - Ataque do Invisível - Clark Darlton [parte 2]

Rhodan ficou a sós com seus mutantes.
Gucky já havia saltado para a Drusus. Crest aproximou-se e disse:
Devemos voltar à nave, Perry. Ao que parece, o alarma é muito sério. A Arc-Koor já se prepara para a decolagem instantânea. Recomendo a maior pressa.
Puseram-se em movimento, sem dizer mais uma palavra. Atrás deles, o “bebê” voltou a entrar em sua escotilha, seguido por Talamon e seus acompanhantes. Depois de mais alguns segundos, o gigantesco veículo espacial subiu silenciosamente em direção ao céu límpido. No momento em que o grupo de Rhodan chegava à Drusus, a nave arcônida já estava reduzida a um pontinho no céu.
Baldur Sikermann aguardava-os na sala de comando.
Decolar! — ordenou Rhodan e transmitiu mais algumas instruções.
Depois dirigiu-se apressadamente à sala de rádio e pediu que o operador estabelecesse contato com as naves de patrulhamento.
Dali a alguns minutos, quando voltou à sala de comando, seu rosto estava pálido como cera e rígido como uma máscara.
Crest assustou-se e sentou-se na poltrona giratória mais próxima. John Marshall lançou um olhar de súplica aos outros mutantes. Sabia que nunca havia visto Perry Rhodan tão perplexo e assustado.
A Drusus entrará em órbita a um minuto-luz de Mirsal III — disse Rhodan em voz rouca, dirigindo-se a Sikermann. — Providencie para que a nave auxiliar K-13 seja preparada para a decolagem...
Sua nave pessoal? — procurou certificar-se o imediato.
Rhodan confirmou com um gesto.
Isso mesmo. Marshall, Ras Tschubai e Gucky irão comigo, além da tripulação normal de quinze homens. Quero sair da Drusus dentro de cinco minutos.
Nem mesmo o telepata Marshall conseguiu ler os pensamentos de Rhodan.
O que pretende fazer, chefe? — perguntou Marshall.
Rhodan olhou para além dele.
Sabe o que aconteceu, John? Os invisíveis atacaram o sistema de Mirsal. O perigo de que o computador-regente acaba de falar está estendendo seus tentáculos em nossa direção. Se não conseguirmos livrar-nos dele...
Calou-se.
Mas Marshall já havia compreendido.
E os outros também...

Certa vez alguém, por brincadeira, deu às naves auxiliares o nome de girinos, nome este que conservam até hoje.
Eram naves esféricas, capazes de enfrentar o espaço. Tinham sessenta metros de diâmetro, saltavam por vários anos-luz através do hiperespaço e traziam um armamento adequado.
A K-13 mal se distinguia das outras naves do mesmo tipo. Acontece que estava equipada com um aparelho de hiper-rádio e com um transmissor fictício. Além disso, havia certos detalhes, montados após a construção, que já haviam dado prova de seu valor por diversas vezes.
Na sala de comando, relativamente pequena, não cabiam muitas pessoas. Mas bastava abrir a porta que a ligava à sala de rádio para que se dispusesse de um recinto de dimensões respeitáveis.
Atrás do painel de controle estava sentado Stepan Potkin, um russo baixote e robusto de cabelos louros e curtos. Era tenente e costumava ser considerado um dos melhores pilotos para naves de pequenas dimensões. Por isso não era de admirar que Rhodan o tivesse escolhido como comandante da K-13.
Gucky estava sentado num sofá, e fazia cara de tédio, embora se sentisse radiante diante da perspectiva da aventura. A luta com o invisível excitava-o, embora não conseguisse reprimir certo mal-estar.
Marshall e Tschubai encontravam-se de pé junto à porta, enquanto Rhodan estava sentado ao lado de Potkin e fitava as telas.
Há bastante tempo a Drusus tinha mergulhado no espaço e entrara em órbita. Da Arc-Koor também não se via mais nada. Rhodan voltou a sentir um calafrio na nuca, quando se deu conta do fato singelo:
Estamos sós, e o perigo nos espreita de algum lugar.”
Mirsal III voltou a crescer à medida que a K-13 se aproximava do planeta, desenvolvendo metade da velocidade da luz. A nave desacelerou, para não entrar em incandescência na atmosfera. Na face noturna, apenas vez por outra, surgia uma cidade profusamente iluminada. Rhodan sentiu-se tranqüilizado diante desse fato.
Mas, de início, teriam que examinar a face diurna.
Rhodan tinha diante de si o catálogo dos astronautas arcônidas. As indicações dele constantes eram exatas e atualizadas; era ao menos o que afirmava Crest. Porém, Rhodan carregava certas dúvidas, especialmente quanto à atualização dos dados.
Segundo esse catálogo, Mirsal III era um mundo habitado por inteligências humanóides. Os habitantes primitivos dificilmente cresciam mais que um metro e meio e viviam numa civilização por eles criada, que correspondia aproximadamente à Idade Média terrana. Não conheciam a navegação espacial, mas vez por outra viam em seu planeta as naves dos arcônidas, venerados por eles como semi-deuses. Em Mirsal III, ainda havia Estados e nações. Isso costumava acontecer em todos os mundos que ainda não haviam atingido o estágio cósmico. Reis e príncipes governavam o cidadão comum, que era oprimido e explorado por meio de exércitos de mercenários. Os governantes viviam muito bem em seus castelos fortificados. O cidadão tinha que trabalhar para ganhar a vida.
Rhodan guardou o catálogo. Em todos os lugares, a evolução tinha aspectos comuns. E Mirsal não constituía nenhuma exceção.
A K-13 desceu e atravessou a atmosfera com um chiado.
Não compreendo; não aparece ninguém — observou Marshall dali a dois minutos, quando passavam por cima de uma pequena aldeia.
A nave reduzira consideravelmente a velocidade, que já era inferior a duzentos quilômetros por hora.
Se tivesse havido uma invasão, deveria existir um sinal da mesma — prosseguiu Marshall.
O senhor se esquece do que o regente acabou de informar. Nunca são encontrados vestígios.
Algumas casas baixas se espremiam em torno de um morro sobre o qual se via uma espécie de castelo. Estradas primitivas atravessavam os campos cultivados, dando mostras de que os meios de transporte eram bastante primitivos. No mercado, ainda se notavam as carretas com os produtos dos lavradores. Porém não se via nenhuma criatura humana ou outro ser vivo.
Estreitando os olhos, Rhodan ordenou:
Potkin, voe sempre para o oeste e reduza a velocidade assim que nos aproximarmos de uma cidade grande. Quero dar uma boa olhada.
A cidade não demorou em aparecer, iluminada pelo sol da tarde. Os telhados limpos brilhavam como se tivessem sido revestidos de ouro e prata, mas eram apenas as telhas metálicas que costumavam ser usadas. As ruas eram mais largas que nas aldeias, mas nelas também não se via o menor sinal de vida.
Até mesmo vista do alto, a cidade parecia morta.
Vamos pousar naquela área livre — ordenou Rhodan.
Não sabia por quê, mas uma sensação terrível apossou-se dele. Em seus cem anos de vida, nunca defrontara-se com uma situação igual à que receava encontrar ali. Ao que parecia, as informações do regente não eram exageradas. E quando um computador sente medo...
Não consigo captar nenhum pensamento — disse Marshall de repente. — Os seres que construíram estas casas devem saber pensar!
Rhodan não respondeu. Acompanhou a manobra de pouso nas telas e esperou até que um ligeiro solavanco abalasse a nave. Depois fez um sinal para Marshall e Tchubai.
Vocês e Gucky irão comigo. Potkin, o senhor nos dará cobertura com a artilharia da nave, se necessário; não tire os olhos de nós. Confio na sua ação.
Sim senhor — resmungou o russo e desligou os propulsores. — Pode confiar em mim, chefe. Vai levar armas?
Rhodan fez um gesto afirmativo e saiu da sala de comando juntamente com os mutantes. Antes de chegarem à comporta, tiraram do arsenal alguns radiadores portáteis e várias granadas atômicas. Dali a alguns minutos, pisaram pela segunda vez na superfície de Mirsal III.
A K-13 havia pousado no centro de uma área livre, que mostrava sinais de trabalhos rudimentares. Provavelmente servia a reuniões e feiras. Junto à nave estava um veículo que evidentemente era puxado por um animal. Os arreios estavam soltos, como se o cavalo, ou outro animal que fosse, tivesse escapado dos mesmos.
Rhodan contemplou os arreios com os olhos semicerrados, mas não disse nada. Marshall, que por acaso captara seus pensamentos, também lançou um olhar para as cangas. Uma expressão indagadora surgiu em seu rosto. Mas não teve tempo para resolver o enigma desses arreios, pois, naquele mesmo instante, Gucky chiou muito exaltado:
Olhe, perto daquele muro!
Viram ao mesmo tempo. Uma sombra passou rapidamente, parou por um instante... e desapareceu.
Poderia perfeitamente ter sido uma ilu...
Não — disse Rhodan com a voz segura. — Isso não foi nenhuma ilusão. Alguém passou por ali, e não foi nenhum mirsalense.
Este alguém sabe tornar-se invisível — disse Gucky em tom exaltado, demonstrando um nervosismo que não era usual nele. — Dissolveu-se diante de nossos olhos.
E seus impulsos mentais? — perguntou Rhodan com a maior tranqüilidade de que foi capaz. — Será que também se tornaram invisíveis?
Ninguém respondeu, porque não havia como responder!
Entraram na casa mais próxima, de armas em punho, e revistaram-na. Para espanto deles viram que tudo estava disposto de tal forma parecendo que os moradores poderiam voltar a qualquer momento. Nada fora destruído ou desarrumado; tudo continuava no mesmo lugar. O fogo ardia, embora as grossas achas de lenha já estivessem chegando ao fim. Isto vinha provar que há horas ninguém colocara lenha no fogão.
Mas não encontraram nenhuma criatura viva.
Onde estarão? — indagou Ras Tschubai num sopro; um medo misturado com superstição parecia ter-se apoderado dele. — Não podem ter desaparecido sem mais nem menos.
Gucky, que tanto gostava de zombar, manteve-se em silêncio. Olhava obstinadamente para os objetos abandonados, para as salas e os corredores vazios, para fora das janelas, para as ruas desertas. O pêlo da nuca arrepiou-se, traindo o nervosismo do rato-castor.
Marshall colocou a mão sobre o braço do africano.
Tudo tem uma explicação natural, Ras. Ainda haveremos de descobrir o que significa isto. Sem dúvida é estranho que não se encontre o menor vestígio de luta, nenhuma indicação sobre o como ou o porquê. Mas eu já disse: haveremos de encontrar a solução.
Rhodan não pôde deixar de reconhecer que era um fraco consolo. Mas não encontrou outro melhor.
Nas outras casas, o quadro não foi diferente. Não acharam vivalma, nenhum animal, nada. Apenas se via uma ordem exemplar em todos os aposentos e a atmosfera de expectativa de breve regresso dos moradores.
Mas o computador-regente lhes dissera que estes nunca mais voltariam...
Rhodan insistiu em que prosseguissem. Atravessaram algumas ruas estreitas e chegaram à periferia da cidade. Ali o aspecto era mais simples e menos citadino. As casas grandes foram substituídas por outras, menores, atrás das quais se viam jardins e campos cultivados, e estábulos Num desses estábulos voltaram a defrontar-se com o mistério.
Havia correntes engastadas nas paredes, que terminavam em argolas. Via-se perfeitamente que essas argolas serviam para cingir os pescoços dos animais domésticos. Mas agora estavam vazias. E continuavam fechadas, e jogadas ao chão, na mesma posição onde deviam ter-se encontrado os animais.
Quem teria libertado os animais sem abrir as argolas de metal?
Os arreios também continuavam fechados — murmurou Marshall, quando se lembrou da carroça abandonada. — Até parece que os animais se desmaterializaram.
Mais uma vez Rhodan não respondeu. Com uma expressão pensativa saiu para a luz do sol, que já entrara no poente. A seguir, iniciou o caminho de volta para a K-13.
Sabia que tinham uma estrada longa pela frente. E não havia a menor dúvida de que também seria um caminho perigoso.

* * *

O tenente Marcel Rous comandava a nave auxiliar K-7. Vindo do espaço, aproximou-se da face noturna de Mirsal III.
Marcel, um homem vivaz, de cabelos escuros, cujas paixões muitas vezes ultrapassavam a medida recomendada pela inteligência. Amava a vida, mas era corajoso e arrojado. E esta sua impulsividade já lhe pregara muitas peças.
Sobrevoou o planeta numa altura de apenas quinhentos metros. Os alto-falantes transmitiam ininterruptamente informações vindas dos outros girinos e as instruções expedidas pela Drusus. Alguma coisa estava acontecendo naquele mundo desconhecido, mas ninguém saberia dizer o que era.
Por mais de uma vez os instrumentos de localização da K-7 registraram a presença de corpos sólidos na atmosfera de Mirsal III, mas nunca foram capazes de retê-los por mais de três ou quatro segundos. As telas logo voltavam a ficar vazias, e os impulsos eletrônicos cessavam. Por maior que fosse a aceleração de uma nave, ela não poderia sair tão rapidamente do alcance dos raios rastreadores.
Também era impossível que um objeto, podendo tornar-se invisível por meio de recursos técnicos, escapasse aos raios rastreadores. Uma onda luminosa normal podia ser defletida do seu caminho, mas não os raios especiais de localização. Até mesmo uma nave invisível teria de aparecer nas telas.
Mas não foi o que aconteceu.
Marcel Rous sentiu o ar de mistério e Ignorou as instruções recebidas da Drusus e resolveu realizar investigações por conta própria. Saiu da órbita e precipitou-se sobre a superfície de Mirsal III que nem uma ave de rapina.
Escolheu propositadamente a face noturna do planeta. Pensou que não seria descoberto com tanta facilidade como à luz do sol. Talvez acreditasse que os desconhecidos não o enxergassem no escuro.
Ao primeiro relance de olhos, Rous percebeu que não houvera uma invasão no sentido usual da palavra. Lá embaixo, tudo parecia pacato e normal. Nas grandes cidades, as ruas retilíneas estavam bem iluminadas e perfeitamente nítidas. Concluiu que os habitantes de Mirsal III conheciam a eletricidade, embora ainda vivessem num estágio relativamente primário de sua evolução. Talvez os arcônidas tivessem ajudado, proporcionando-lhes ao menos esta vantagem da civilização. De qualquer maneira, as cidades estavam bem iluminadas, revelando uma vida trepidante.
A impressão continuou inalterada, até que Rous decidisse descer ainda mais e parar acima do centro da cidade. As telas aproximaram as casas ainda mais dos olhos do francês que, de repente, prendeu a respiração.
Demorou quase dez segundos até que se dirigisse ao co-piloto, que se encontrava a seu lado na central.
Está notando alguma coisa, Becker? O cadete inclinou-se para a frente e examinou atentamente o quadro que via diante de si. Levou algum tempo até que sua vista se acostumasse à claridade e conseguisse enxergar através da luminosidade espalhada pelas lâmpadas. Depois voltou a reclinar-se e respondeu:
Por que estão iluminando a cidade, se a esta hora todo mundo deve estar dormindo?
Rous acenou lentamente com a cabeça. Era exatamente a pergunta que já havia formulado em sua mente.
Já passa bastante da meia-noite, hora local. Mas as luzes continuam acesas em quase todas as casas. Até parece que são nove horas da noite. Aliás, mais ao leste também está tudo iluminado, embora lá já devam ser quatro horas da madrugada. É estranho...
Em matéria de arrojo, o cadete Becker não ficava atrás de seu superior.
Se pousarmos, talvez... Rous se fez de indeciso.
Não temos permissão para isso, Becker, e não podemos agir por conta própria. Se fizéssemos isso, seríamos responsáveis por toda a tripulação. Se acontecer alguma coisa...
O que poderia acontecer? — respondeu Becker, fornecendo ao superior o apoio moral que este esperava. — Os habitantes deste planeta nem sequer conhecem as armas energéticas; dificilmente teremos de recear qualquer coisa da parte deles. E quanto à pretensa invasão dos desconhecidos, não vi o menor sinal da mesma.
Não sei. Talvez seja conveniente entrar em contato com a Drusus e solicitar permissão para pousar.
É o senhor quem sabe — disse Becker em tom frio; parecia um tanto ofendido. — Tenho certeza de que essa permissão nos será negada. O chefe não costuma assumir qualquer risco desnecessário, e quando tem de fazê-lo, ele mesmo prefere enfrentar o perigo.
Hum — fez Rous, que já não se sentia tão seguro.
Felizmente foi interrompido em suas reflexões. Do alto-falante veio a voz de David Stern, que se encontrava de serviço na sala de rádio da Drusus.
K-7, responda. Comunique sua posição.
Rous praguejou baixinho e ligou o transmissor.
Aqui fala o tenente Rous. Face noturna de Mirsal III.
Saiu da órbita? — soou a voz espantada.
Sim. Estamos perseguindo uma nave desconhecida, mas a perdemos de vista; os instrumentos de bordo não conseguem detectá-la. Deve ter pousado na cidade situada abaixo de nós. Podemos persegui-la? Dali a um minuto, veio a resposta.
Ordem do primeiro-tenente Sikermann: Pousem num lugar em que a visibilidade seja boa e desembarquem dois robôs de guerra e três tripulantes. Você continuará a bordo e decolará ao menor sinal de ataque. Entendido?
E meus homens? — perguntou Rous. — Não posso deixá-los para trás.
Em hipótese alguma sua nave deverá cair em poder do inimigo. Saberemos cuidar de seus homens.
Mais alguma ordem?
Não, tenente Rous. Permaneça em contato comigo. É só.
Marcel Rous olhou o cadete Becker, cujos olhos se iluminaram.
Ao que parece, tive azar, Becker. O senhor terá uma excelente oportunidade de obter um mérito. Talvez consiga uma promoção. Pegue dois homens e dois robôs de guerra, e passe umas férias na cidade.
Dali a alguns minutos, pairavam sobre uma praça profusamente iluminada. Num movimento suave o veículo espacial esférico foi descendo e tocou o solo. Rous ligara todas as telas disponíveis, a fim de conseguir uma visão abrangente. Examinou atentamente a praça e as casas contíguas. Nada se movia.
A cidade parecia morta.
Notou que sobre o pavimento irregular havia alguns objetos que não deveriam estar ali. Perto do meio-fio uma espada larga estava encostada a um muro. A seu lado via-se um escudo. Até parecia que a sentinela largara as armas para passear. Pouco adiante, tombada ao chão, Rous viu uma armadura de cavaleiro, sinal de ter havido uma tremenda luta.
Não havia a menor mostra de vida. Os aposentos bem iluminados, que se viam através das janelas, estavam vazios. Nenhuma sombra surgiu nos retângulos luminosos.
Pronto? — perguntou o tenente.
A resposta, vinda da comporta, foi transmitida pelo rádio:
Cadete Becker está pronto para entrar em ação com dois homens e dois robôs.
Boa sorte! — respondeu Rous. Becker suspirou aliviado, embora de repente não se sentisse muito à vontade. Mas os robôs bem armados representavam uma proteção suficiente. Se necessário, poderiam defendê-lo contra uma companhia inimiga. E os dois cadetes em sua companhia também não poderiam ser chamados de covardes. Seguravam os radiadores de impulsos com as mãos firmes.
Poderia confiar nos seus acompanhantes.
A escotilha externa abriu-se e a rampa tocou o solo. Becker caminhou à frente do grupo, seguido pelos dois robôs. Os outros dois homens iam na retaguarda.
Em torno deles estendia-se o silêncio da cidade adormecida, ou morta. Não se ouvia nada além dos passos pesados dos robôs. Becker sentiu que o medo do inexplicável subia à sua mente e ameaçava dominá-lo. Muito acima das luzes da rua, estendia-se o céu negro daquele mundo estranho. Parecia uma fenda pela qual o inimigo poderia esgueirar-se antes que alguém percebesse.
Que inimigo? Será que há mesmo um inimigo?”, refletiu o cadete.
Becker ficou bem perto dos robôs.
Vigiem a retaguarda e os lados — disse aos companheiros, que mantinham as armas em posição de disparar. — Eu cuidarei principalmente daquilo que acontecer à nossa frente e em cima de nós.
A praça não era muito grande, mas levaram quase dois minutos antes de atingirem as casas. Na rua havia muitos buracos, o que não era de admirar, pois em Mirsal III ainda se vivia em plena Idade Média.
Becker olhou em torno. A menos de duzentos metros, a K-7 descansava sobre as colunas de apoio. Sabia que o tenente Rous se encontrava diante da tela, observando cada um de seus movimentos. Sem dúvida suas mãos repousavam sobre os acionadores das pesadas armas de radiações.
Becker sentiu a tranqüilidade benfazeja de não se ver só.
Viu, por acaso, pelo canto dos olhos, uma sombra que se movia. Virou-se abruptamente. Foi no segundo andar de um edifício. A luz que saía de uma das janelas era um pouco menos intensa que as outras. Até mudava de intensidade. Às vezes ficava mais clara, outras vezes mais escura, como se alguém caminhasse diante da fonte de luminosidade, encobrindo-a a intervalos irregulares com seu corpo.
Becker sentiu aumentarem-lhe as batidas do coração. Era uma oportunidade única. Não poderia deixar de aproveitá-la, custasse o que custasse.
Fiquem aqui embaixo — cochichou para seus camaradas; depois olhou para um dos robôs. — Venha comigo, R-2.
Não seria preferível... — principiou um dos cadetes, mas Becker cortou-lhe a palavra.
Irei sozinho. Por que expor todos ao perigo?
Becker! — disse a voz de Marcel Rous, transmitida pelo rádio. Não soava muito forte pelo receptor de pulso. — Tenha cuidado!
Não se preocupe, tenente. Saberei cuidar de mim.
Os degraus rangeram horrivelmente sob o peso do robô, mas não havia mais nada que pudesse deter Becker. Vira alguma coisa, e queria saber o que era.
Quem estaria caminhando de um lado para outro, num quarto que ficava numa cidade abandonada? Seria um habitante que ficara para trás? Por quê?”, pensava, questionando a situação.
Becker resolveu que por enquanto não adiantava nada ficar fazendo perguntas inúteis. Agarrou mais firmemente sua arma e subiu pela escada atrás do robô.
A porta do apartamento do segundo andar estava aberta. O corredor encontrava-se quase completamente às escuras, pois a luz achava-se acesa apenas na escadaria.
Quando R-2 parou e esperou que Becker se aproximasse, não se ouviu nada.
Mas, subitamente, escutou-se o ranger forte de uma porta.
Becker estremeceu e levantou a arma. O ruído vinha do interior do apartamento. Alguém andava por ali. Primeiro vira a intensidade variável da luz, e agora o rangido da porta. Não podia haver nenhum engano.
Becker fez um sinal para R-2 e caminhou à frente. O robô seguiu-o cautelosamente.
A porta possuía uma fechadura rudimentar, que não teria representado qualquer obstáculo para um intruso. Acontece que estava aberta. Becker viu mais atrás haver outra porta aberta. Esta levava a um recinto que dava para a praça. Talvez também para aquele em que vira a sombra caminhar de um lado para outro.
Becker continuou a caminhar sorrateiramente, até que se viu junto à porta. Esperou que R-2 se aproximasse. Depois escancarou-a com um pontapé e entrou no aposento bem iluminado.
Estava vazio.
A janela estava entreaberta. Só agora Becker sentiu a ligeira brisa que passava por ele e movia lentamente a porta atrás do robô, fazendo-a ranger.
Ao mesmo tempo, uma cortina leve executava movimentos fantasmagóricos diante da fonte de luz, que era um abajur de cabeceira. Ao lado deste havia duas camas. Estavam remexidas e ainda mostravam perfeitamente as impressões de dois corpos humanos. Becker quase se sentiu tentado a pôr as mãos a fim de verificar se as impressões ainda estavam quentes.
Movendo-se junto à cama, a cortina fazia com que a luz saísse pela janela com intensidade variável. E o que fazia ranger a porta era o vento. Era esta a solução do mistério.
Um tanto decepcionado, o cadete baixou a arma. Deixara-se enganar por uma cortina.
O que houve? — disse a voz de Marcel Rous, interrompendo o silêncio repentino.
Tudo bem — respondeu Becker laconicamente e pôs-se a andar. — Foi o vento. Esta gente esqueceu-se de fechar as janelas antes de sair.
Não observou nada de extraordinário?
Becker olhou para trás.
Nada, tenente. Estou no quarto de um casal. Está muito bem instalado. Gostaria de saber onde ficaram os ocupantes. As roupas continuam penduradas por cima das cadeiras. Devem ser uns lunáticos que foram viajar de camisola.
Mirsal III não possui nenhuma lua — disse Rous em tom indiferente. — Pode voltar, Becker.
Já vou — respondeu Becker.
No momento em que saiu para a rua e viu os dois companheiros que o esperavam, aconteceu alguma coisa que mais tarde não saberia explicar.
E nem haveria um mais tarde que lhe desse tempo para isso.
Notou em primeiro lugar a nave espacial a duzentos metros, fortemente iluminada pelas numerosas luzes da rua e pela luminosidade saída das janelas próximas. Logo depois, viu os dois companheiros e o robô que o esperavam.
Num instante tudo aquilo começou a desmanchar-se diante de seus olhos.
Ao perceber a modificação, Becker estacou. O robô que o acompanhava não se preocupou com o fenômeno; prosseguiu na sua caminhada, passando por ele. Mas enquanto o robô caminhava, Becker viu-o desmanchar-se no ar.
Becker soltou um grito de pavor, que também foi ouvido por Rous. Mal conseguiu ouvir a voz de seu superior:
Volte imediatamente. Apresse-se, senão...
Becker não ouviu mais que isso. Fitou os olhos arregalados dos dois companheiros. Um deles hesitou e fez menção de estender o braço em sua direção, mas logo se pôs a fugir. Estava com a boca bem aberta, como se estivesse gritando, mas Becker não ouviu nada.
O mundo, que o cercava, foi mergulhando lentamente na escuridão e no silêncio. Devia ser a impressão sentida por quem vagasse mil metros abaixo da superfície do mar. Apenas, havia uma ausência completa de sensações.
Becker não sentia mais nada.

* * *

O tenente Marcel Rous viu Becker sair da porta do edifício e esteve a ponto de suspirar aliviado, quando se verificou o terrível fenômeno.
Becker adquiriu certa transparência e acabou desaparecendo por completo. Certamente não chegou a ouvir a ordem de regresso. Porém seus dois companheiros e os robôs deviam tê-la percebido, pois puseram-se em movimento em direção à nave.
E então o cadete Becker deixou de existir. O lugar há pouco ocupado pelo cadete estava vazio.
Os dois robôs não se apressaram. Já os dois homens puseram-se a correr e tentaram atingir o mais rápido possível a nave, onde estariam a salvo.
Mas não foram bastante rápidos, pois o poder misterioso também os atingiu.
Por estranho que parecesse, em primeiro lugar desapareceram as pernas e a parte inferior do corpo. Marcel viu, terrivelmente abalado, apenas as duas cabeças cortarem o espaço, pouco mais de metro e meio acima do solo. Saltitavam numa linha sinuosa, seguindo os movimentos dos corpos, já então invisíveis. Depois também foram se desmanchando...
Marcel Rous observou o fenômeno sem compreendê-lo. Os dois robôs continuaram a caminhar tranqüilamente, em direção à escotilha aberta.
K-7 à Drusus! Três homens foram atacados pelos invisíveis e também... se tornaram invisíveis! — gritou Rous para dentro do microfone. Como não encontrasse melhor explicação, acrescentou: — Desapareceram...
Decole imediatamente! — foi a ordem que veio logo em seguida.
Os dois robôs ainda estão...
Decole!
Rous assustou-se com o tom da voz de Sikermann. Com uma das mãos empurrou a alavanca de decolagem para a aceleração máxima, enquanto a outra fechava a comporta.
A nave mergulhou nas profundezas do espaço.
O que ficou para trás foram dois robôs, que seguiram a nave fugitiva com olhares indiferentes. Seus cérebros positrônicos compreendiam todos os acontecimentos regidos pela lógica, mas desta vez falharam por completo.
Permaneceram num mundo desabitado e procuraram um inimigo.
Entretanto não o encontraram.

* * *

O espaço está cheio de impulsos mentais — disse Fellmer Lloyd, contemplando Rhodan. — Acontece que nenhum deles faz o menor sentido. Até parece que esses desconhecidos só pensam fragmentariamente. O senhor compreende, chefe?
Não; em absoluto — Rhodan, que se encontrava na K-13, passava pouco acima das cidades despovoadas da face diurna do planeta, à procura de qualquer vestígio de vida. — Tenho a impressão de que os atacantes se encontram no espaço. Aqui embaixo não se nota muito de sua presença. Marshall e Gucky dificilmente conseguem captar um impulso.
Pois o espaço está cheio deles, mas não têm continuidade. É como já disse: são apenas fragmentos. Uma coisa estranha...
Procure identificar ao menos um pensamento; com isso já teríamos dado um passo para a frente.
É impossível. Seria como querer interpretar um livro com base numa única palavra. Existem críticos que gostam de proceder assim, mas pode-se duvidar da autenticidade de um juízo desses. É o que está acontecendo comigo. Estou captando um único fragmento de idéia. O que posso fazer com isso?
Não desista, Lloyd. E, principalmente, procure identificar a fonte da qual provêm os impulsos. Quem sabe se Marten não consegue avançar até lá?
Um momento, o senhor pode falar com Marten. Ele mesmo lhe contará.
Seguiu-se uma ligeira pausa.
Rhodan olhou para as outras telas e viu a paisagem de Mirsal III desfilar. Os castelos abandonados erguiam-se em meio às cidades desertas. Nos campos cultivados ainda se viam os arreios dos animais desaparecidos. Os veículos abandonados estavam parados em meio a peças de roupa espalhadas em torno deles. Das fogueiras saíam as últimas nuvens de fumaça.
Ralf Marten surgiu na tela e cumprimentou ligeiramente através de milhões de quilômetros.
Era um teleótico, e por isso conseguia trasladar seu espírito para dentro de outros seres vivos e enxergar com os olhos dos mesmos. Mas, desta vez, seu dom não produzia o menor resultado.
Lloyd já me explicou o que o senhor deseja, chefe. Fiz o possível. Acontece que a fonte dos impulsos que estamos captando é totalmente indefinida. Nem sequer conseguimos apurar a direção de onde provêm. Efetuei vários saltos, mas todos eles terminaram no vazio. Mesmo das vezes em que acreditava firmemente que conhecia a direção, ia parar no espaço vazio. É inútil, chefe. Não consigo nada.
Rhodan manteve-se tranqüilo.
Não o culpo, Marten. Defrontamo-nos com um inimigo incorpóreo, invisível. E, ao que parece, sabe camuflar seu espírito. É muito mais do que receávamos. Seremos impotentes enquanto não nos atacar abertamente. Mas, ao que parece, não tem o menor interesse nisso.
O tenente Becker e mais dois tripulantes da K-7 desmancharam-se no ar, chefe. Será que isso não é um ataque aberto?
Não tenho certeza sobre se devemos interpretar o fenômeno dessa forma — respondeu Rhodan. — Talvez fosse um descuido dos invisíveis. De qualquer maneira, deveremos agir com a maior cautela quando voltarmos a pisar em Mirsal III. E não poderemos deixar de fazer isso, se quisermos resolver o problema. O regente de Árcon tenta resolvê-lo há dez anos, e não podemos esperar que nós o consigamos em um dia. Continue a esforçar-se, Marten. Chegará a hora em que nossos esforços serão bem sucedidos.
Rhodan esperou até que David Stern transferisse a ligação. Na tela surgiu o rosto de Sikermann.
Nele se notava uma palidez descomunal.
O que houve, Sikermann? — perguntou Rhodan em tom de espanto, pois nunca vira o oficial tão fora de si. — Encontrou-se com algum fantasma?
Se fosse só isso, saberia como agir — respondeu o primeiro-tenente, que começava a recuperar um pouco da autoconfiança. — Mas estas localizações indefinidas e verificadas em todas as direções acabam deixando-me doido. A cada segundo, receio que a Drusus esbarre em alguma nave que os instrumentos registram a poucos segundos à nossa frente, mas no fim não é nada.
Deveria sentir-se feliz com isso.
Para o senhor é fácil gracejar — disse Sikermann em tom exaltado. — Qual é sua posição?
Que palhaço! — chiou Gucky, que se encontrava mais afastado, em cima do sofá. Rhodan lançou-lhe um olhar recriminador.
Dirigimo-nos à Drusus. Dentro de poucos minutos, entraremos a bordo. Pretendo voltar a pousar em Mirsal III, com uma tripulação reforçada. Talvez pousemos mesmo com a Drusus.
Caramba! — limitou-se Sikermann a dizer.
Rhodan desligou e cuidou da pilotagem da K-13. O tenente Potkin introduziu a rota ordenada nos controles e acelerou a nave.
Momentos depois, entrava — quase simultaneamente com a K-7, comandada pelo tenente Rous — na comporta aberta e pousava no hangar da Drusus.
Mantenha-se preparado para decolar, Potkin. Voltarei num instante.
Rhodan aguardou até que Marcel Rous saísse de sua nave e pediu que este relatasse mais uma vez todos os detalhes do acontecido. Mas mesmo o testemunho visual do tenente não adiantou muito. Não havia qualquer explicação lógica e razoável para o fenômeno, a não ser que os atacantes soubessem tornar invisíveis a si mesmos e a outros seres vivos.
E, ao que tudo indicava, era exatamente isso que acontecia.
Não devemos subestimar o inimigo — disse Rhodan, assim que Marcel concluiu sua exposição. — Para lutarmos contra um inimigo invisível, devemos concentrar-nos ao máximo e lançar mão de todos os meios de que dispomos. Façamos votos de que Becker e seus companheiros possam ser libertados. Mantenha sua nave preparada para entrar em ação. Ainda não sei quais são os recursos que teremos de empregar na batalha.
Marcel seguiu-o com os olhos e voltou a entrar na comporta de seu Girino.
Gostaria de saber o que Rhodan quer dizer quando fala numa batalha — murmurou. — Será que pretende entrar em guerra contra os invisíveis?
Rhodan saiu do hangar e, passando apressadamente pelos diversos elevadores antigravitacionais, dirigiu-se à sala de comando, onde Sikermann já o aguardava. Todos os mutantes estavam presentes, além de Crest, cujo rosto revelava um nervosismo fora do comum.
Aqueles desconhecidos devem encontrar-se num estado ininterrupto de transição — disse o arcônida em tom compenetrado assim que viu Rhodan. — Os instrumentos de localização registram sua presença e, dali a um instante, passam a não mais existir. Receio que a teoria da invisibilidade não seja exata.
Rhodan ouviu-o com o rosto sério.
É o que também receio, embora isso não represente uma explicação aceitável. Como vão as coisas, Marten? Ainda não conseguiu nada?
Há cinco minutos tentei um salto. Os impulsos mentais vinham de uma direção determinada e mantiveram-se constantes por alguns segundos. Por um momento consegui contato e penetrei num cérebro estranho, mas antes que pudesse enxergar pelos olhos do outro ser fui literalmente jogado para fora. Isso nunca me aconteceu.
Tem alguma explicação?
Ralf Marten sacudiu a cabeça; parecia desesperado.
Não senhor. É uma coisa incompreensível. Tenho certeza de que não foi o ser desconhecido que me expulsou de seu cérebro, mas outra coisa, uma força medonha. Essa força notou minha presença e tomou suas providências. Não sei em que consistiram essas providências.
Rhodan estreitou os olhos enquanto fitava Marten.
Já tentou penetrar no cérebro de outro ser humano, no momento em que este entra em transição com a nave onde se encontra? Será que os efeitos poderiam ser análogos?
Ralf Marten acenou com a cabeça; parecia surpreso.
Talvez seja isso; é claro que não tenho certeza. Será que o senhor acha?...
Não tenho uma suposição precisa — disse Rhodan, esquivando-se. — Devemos considerar todas as possibilidades — olhou para as outras pessoas que se encontravam presentes. — Quero pousar em Mirsal III juntamente com os membros do Exército de Mutantes. Decolaremos daqui a dez minutos na K-13. A Drusus nos seguirá exatamente dentro de três minutos e também pousará. Encontrei uma área de pouso favorável, junto às muralhas de uma cidade.
Por que temos de assumir o risco sozinhos? — indagou Sikermann. — E os arcônidas?
Está se referindo a Talamon e ao computador-regente?
Isso mesmo. Rhodan deu de ombros.
Talamon está submetido ao comando do regente; não obedece às minhas ordens. Por enquanto não tenho o direito de me intrometer.
Sikermann esteve a ponto de dizer mais alguma coisa, mas preferiu ficar calado. Voltou-se para os controles. Por algum tempo Rhodan fitou suas costas largas, finalmente fez um sinal para Crest.
Fique aqui, Crest. Ajude Sikermann no cumprimento de sua tarefa. Ficaremos em contato.
Pegou os outros mutantes e voltou com eles ao hangar. Dali a mais três minutos, a K-13 disparou espaço afora, em direção a Mirsal III.
A Drusus seguiu a grande distância.
Dez minutos depois, pousou na área livre que ficava às portas de uma cidade na qual não havia vivalma. Conforme o combinado, a Drusus pousou três minutos após.
O planeta parecia deserto. Nada se movia, e as misteriosas localizações também haviam terminado. Marten e Lloyd não conseguiram captar o menor impulso mental. O mesmo aconteceu com Marshall e Gucky.
Será que os invisíveis resolveram suspender o ataque?
Rhodan não confiava naquela calma. Teve um pressentimento de que era a bonança que precedia a tempestade.
Permaneceu na comporta aberta e viu uma companhia de robôs de combate sair dos compartimentos de carga da Drusus e marchar em direção à cidade. De repente Gucky surgiu ao seu lado e disse:
Sikermann quer falar com você, Rhodan. Diz que é urgente. Talamon entrou em contato com ele.
Rhodan não fez perguntas; entrou apressadamente no elevador e subiu à sala de rádio. O rosto de Sikermann fitou-o de cima da tela.
Estou em contato com a Arc-Koor. Quer que transfira a ligação?
Transfira; depressa!
O rosto de Sikermann desapareceu e no mesmo instante a cabeça maciça do superpesado apareceu em seu lugar. Um sorriso fugaz surgiu no rosto de Talamon, quando o mesmo reconheceu Rhodan.
Queria falar-lhe antes de entrar em transição — disse com certa tristeza na voz retumbante. — Não quero que pense que estou com medo, mas vejo-me obrigado a cumprir as ordens do regente.
Será que o regente ordenou a retirada? — perguntou Rhodan em tom incrédulo. — É inacreditável. Pois ele mesmo nos pediu que identificássemos o perigo que ameaça nosso cosmos.
Não quer que a Arc-Koor se exponha a qualquer risco, Rhodan. Levarei a nave para Árcon e voltarei com minha frota. Confie em mim.
Não posso segurá-lo, Talamon, por mais que eu queira. Temos uma única chance de descobrir os desconhecidos. Quer dizer que terei que agir sozinho. Transmita minhas recomendações ao regente.
Suas palavras parecem amarguradas — disse Talamon em tom queixoso. — Não sou culpado por ter que bater em retirada. A Arc-Koor já se aproxima do ponto de transição. Dentro de cinco minutos, saltarei. Passe bem, Perry Rhodan. Voltarei ainda hoje.
Eu o espero — disse Rhodan, concluindo a palestra.
Muito pensativo, voltou à comporta e contemplou a companhia de robôs que passava pelos portões da cidade.
E agora? — cochichou Marshall. — Não há ninguém na cidade; se houvesse, eu perceberia. Não existe qualquer impulso mental.
Os invisíveis não pensam — disse Rhodan, falando devagar e com uma estranha ênfase. — Possuem uma “camuflagem” não apenas ótica, mas também mental. Será muito difícil encontrá-los.
Marshall não respondeu. Teve a impressão de que subitamente sentia frio.

Aparentemente controlados, mas trêmulos de tensão, quatro homens caminhavam pelas ruas desertas da cidade. Cinco metros atrás deles, o rato-castor Gucky os seguia, balançando o corpo e formando a retaguarda. Uma vez que não sabia caminhar tão depressa, combinava o útil e o necessário.
Rhodan e Fellmer Lloyd caminhavam lado a lado; logo atrás deles John Marshall e Ras Tschubai mantinham as armas prontas para disparar. O africano esforçou-se para disfarçar o medo nato pelo sobrenatural. Mas, apesar do treinamento e da idade, não o conseguiu inteiramente.
Os robôs estavam espalhados pela cidade, e revistavam todos os recantos, à procura de qualquer sinal de vida. Rhodan pôde acompanhar suas informações pelo rádio. Por enquanto não havia nada de novo.
Um edifício alto e maciço prendeu sua atenção.
Parou. Gucky sentiu-se satisfeito, pois pôde ganhar terreno.
É imponente — disse Rhodan, apontando para o edifício. — Deve ser a Prefeitura ou coisa que o valha. Vamos entrar?
Por que não? — disse Marshall. — O perigo invisível está em toda parte, mas talvez ali encontremos alguma indicação do que aconteceu com os habitantes da cidade.
Os outros confirmaram com um gesto. Voltaram a colocar-se em movimento.
Ao aproximar-se dos grandes portais, Rhodan voltou a parar.
Gucky, não quer dar uma olhada?
O rato-castor compreendeu imediatamente.
Se você pensa que estou com medo, está muito enganado — chiou em tom de recriminação, pois lera os pensamentos de Rhodan. — Afinal, posso desaparecer assim que perceber que alguma coisa não está dando certo.
Não consigo ouvir a palavra desaparecer sem sentir calafrios — confessou Marshall em voz baixa.
Gucky olhou-o ligeiramente, concentrou-se para efetuar um salto curto, que o levaria ao interior do edifício. Em meio a um torvelinho de ar tremeluzente desapareceu.
Dali a menos de dez segundos, estava de volta.
Vi um local de reunião — informou, alisando o pêlo. — Estive num grande salão, muito bem iluminado. E olhem que o sol está brilhando! Não há ninguém por lá, mas a impressão que tive foi que aquela gente só fez uma ligeira pausa e deve voltar a qualquer momento.
Vamos até lá — decidiu Rhodan e começou a subir os largos degraus. — Não podemos desprezar qualquer pista, por mais insignificante que seja. Precisamos descobrir onde estão as pessoas desaparecidas, pois, do contrário, nunca mais descobriremos nossos cadetes.
Atravessaram uma série de corredores e pequenos halls, antes de chegarem à sala de reuniões que Gucky visitara em primeiro lugar.
Pararam junto à porta e, mais uma vez, sentiram que a coisa misteriosa estava próxima, procurando agarrá-los.
Não havia ninguém nas fileiras de assentos que formavam semicírculos e subiam em direção aos fundos do recinto. Diante de cada assento, havia uma mesinha na qual ainda se viam os papéis e canetas-tinteiro. Realmente parecia que os participantes da reunião só haviam saído da sala para fazer uma ligeira pausa. Ninguém deixaria suas anotações sobre a mesa, se não tivesse a intenção de voltar.
Há alguém por aqui — cochichou Fellmer Lloyd de repente em voz baixa. — Sinto perfeitamente.
Rhodan, que era um telepata muito fraco, não sentiu nada. Mas o mesmo não aconteceu com Gucky.
Lloyd tem razão. Há alguém neste salão. Eu sinto... sim, é isso mesmo, eu sinto. Seus pensamentos... são muitos pensamentos, mas não fazem o menor sentido, são apenas fragmentos de idéias. Vão e voltam...
Ras Tschubai manteve-se num silêncio obstinado. Suas mãos cingiram firmemente a arma, enquanto os olhos procuravam localizar um alvo. Rhodan tinha certeza de que no íntimo o teleportador se preparava para o salto que o colocaria a salvo.
Não teleporte-se em hipótese alguma — preveniu Rhodan em voz baixa. — Quando fizer isso, terá de levar dois de nós. Entendido?
O africano confirmou com uma atitude de pecador arrependido.
Naquele salão havia muitos esconderijos. Embaixo de cada mesa ou banco, alguém poderia esconder-se, se tivesse necessidade disso. Uma luz forte enchia o recinto, mas não se via ninguém.
Talvez sejam nossos nervos — cochichou Rhodan, enquanto sua mente procurava uma explicação. — Quem sabe se não nos tentam pregar uma peça...
A mim ninguém prega peças — protestou Gucky com a voz fina e pôs as orelhas de pé. — Há alguém por aqui. E são vários indivíduos. Acontece que não consigo vê-los.
De repente, teve a impressão de que vira alguém junto à tribuna. Fora apenas uma sombra que desapareceu com a mesma rapidez com que surgira do nada. Um sopro incrivelmente frio parecia atravessar o salão. Envolveu os quatro homens e Gucky, fazendo-os estremecer. Depois passou.
Mais uma sombra atravessou a sala.
Ras Tschubai levantou a arma. O raio de impulsos energéticos caiu com um chiado sobre o “alvo”, atravessou-o e incendiou a fileira de bancos que havia atrás dele.
A fumaça começou a surgir e as chamas levantaram-se em direção ao teto.
Marshall também disparou desesperadamente sobre outro “alvo” que na verdade não se fazia nítido.
Vamos embora! — chiou Gucky em tom apavorado. Nunca ninguém vira Gucky desse jeito, nem no planeta de Volat, quando fugiu de um gato-gigante com o qual acabou fazendo amizade. — Não existem armas com as quais possamos combater essas criaturas!
Silêncio! — cochichou Rhodan. — Se fugirmos agora, nunca descobriremos quem são os seres que temos diante de nós.
Voltando-se na direção das sombras tremeluzentes e dos fenômenos luminosos difusos, gritou em voz alta:
Sejam vocês quem forem, identifiquem-se. Nossas intenções não são hostis.
Não houve qualquer resposta. Em compensação, uma coisa terrível aconteceu com Fellmer Lloyd.
O localizador começou a desmanchar-se.
Rhodan levou apenas uma fração de segundo para perceber o fenômeno incompreensível e tomar a reação adequada. Foi por puro instinto que gritou:
Tschubai! Segure Lloyd e Marshall! Salte para fora! — No mesmo instante segurou o braço de Gucky. — Vamos, salte! Rápido!
No mesmo instante, o salão desfez-se diante dos seus olhos e quando voltou a abri-los, viu-se na rua, ao lado de Gucky. A cinqüenta metros de distância do edifício três vultos humanos materializaram-se: eram Ras Tschubai, Marshall, e Fellmer Lloyd, que voltara a surgir por inteiro.
Assim Rhodan ficou sabendo de uma coisa: o salto de um teleportador era a única salvação contra a ação dos invisíveis.
Suspirou aliviado.
Ainda não conhecia o inimigo, mas já descobrira um meio de escapar ao mesmo. Um teleportador poderia fugir com mais alguém, assim que os invisíveis atacassem.
Rhodan teve a impressão de ter ganho o primeiro round da luta desigual.
Era verdade que apenas o ganhara por pontos... e por muito poucos pontos.

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