Rhodan
ficou a sós com seus mutantes.
Gucky
já havia saltado para a Drusus. Crest aproximou-se e disse:
— Devemos
voltar à nave, Perry. Ao que parece, o alarma é muito sério. A
Arc-Koor já se prepara para a decolagem instantânea. Recomendo a
maior pressa.
Puseram-se
em movimento, sem dizer mais uma palavra. Atrás deles, o “bebê”
voltou a entrar em sua escotilha, seguido por Talamon e seus
acompanhantes. Depois de mais alguns segundos, o gigantesco veículo
espacial subiu silenciosamente em direção ao céu límpido. No
momento em que o grupo de Rhodan chegava à Drusus, a nave arcônida
já estava reduzida a um pontinho no céu.
Baldur
Sikermann aguardava-os na sala de comando.
— Decolar!
— ordenou Rhodan e transmitiu mais algumas instruções.
Depois
dirigiu-se apressadamente à sala de rádio e pediu que o operador
estabelecesse contato com as naves de patrulhamento.
Dali
a alguns minutos, quando voltou à sala de comando, seu rosto estava
pálido como cera e rígido como uma máscara.
Crest
assustou-se e sentou-se na poltrona giratória mais próxima. John
Marshall lançou um olhar de súplica aos outros mutantes. Sabia que
nunca havia visto Perry Rhodan tão perplexo e assustado.
— A
Drusus entrará em órbita a um minuto-luz de Mirsal III
—
disse Rhodan em voz rouca, dirigindo-se a Sikermann. — Providencie
para que a nave auxiliar K-13 seja preparada para a decolagem...
— Sua
nave pessoal? — procurou certificar-se o imediato.
Rhodan
confirmou com um gesto.
— Isso
mesmo. Marshall, Ras Tschubai e Gucky irão comigo, além da
tripulação normal de quinze homens. Quero sair da Drusus dentro de
cinco minutos.
Nem
mesmo o telepata Marshall conseguiu ler os pensamentos de Rhodan.
— O
que pretende fazer, chefe? — perguntou Marshall.
Rhodan
olhou para além dele.
— Sabe
o que aconteceu, John? Os invisíveis atacaram o sistema de Mirsal. O
perigo de que o computador-regente acaba de falar está estendendo
seus tentáculos em nossa direção. Se não conseguirmos livrar-nos
dele...
Calou-se.
Mas
Marshall já havia compreendido.
E
os outros também...
Certa
vez alguém, por brincadeira, deu às naves auxiliares o nome de
girinos, nome este que conservam até hoje.
Eram
naves esféricas, capazes de enfrentar o espaço. Tinham sessenta
metros de diâmetro, saltavam por vários anos-luz através do
hiperespaço e traziam um armamento adequado.
A
K-13 mal se distinguia das outras naves do mesmo tipo. Acontece que
estava equipada com um aparelho de hiper-rádio e com um transmissor
fictício. Além disso, havia certos detalhes, montados após a
construção, que já haviam dado prova de seu valor por diversas
vezes.
Na
sala de comando, relativamente pequena, não cabiam muitas pessoas.
Mas bastava abrir a porta que a ligava à sala de rádio para que se
dispusesse de um recinto de dimensões respeitáveis.
Atrás
do painel de controle estava sentado Stepan Potkin, um russo baixote
e robusto de cabelos louros e curtos. Era tenente e costumava ser
considerado um dos melhores pilotos para naves de pequenas dimensões.
Por isso não era de admirar que Rhodan o tivesse escolhido como
comandante da K-13.
Gucky
estava sentado num sofá, e fazia cara de tédio, embora se sentisse
radiante diante da perspectiva da aventura. A luta com o invisível
excitava-o, embora não conseguisse reprimir certo mal-estar.
Marshall
e Tschubai encontravam-se de pé junto à porta, enquanto Rhodan
estava sentado ao lado de Potkin e fitava as telas.
Há
bastante tempo a Drusus tinha mergulhado no espaço e entrara em
órbita. Da Arc-Koor também não se via mais nada. Rhodan voltou a
sentir um calafrio na nuca, quando se deu conta do fato singelo:
“Estamos
sós, e o perigo nos espreita de algum lugar.”
Mirsal
III
voltou
a crescer à medida que a K-13 se aproximava do planeta,
desenvolvendo metade da velocidade da luz. A nave desacelerou, para
não entrar em incandescência na atmosfera. Na face noturna, apenas
vez por outra, surgia uma cidade profusamente iluminada. Rhodan
sentiu-se tranqüilizado diante desse fato.
Mas,
de início, teriam que examinar a face diurna.
Rhodan
tinha diante de si o catálogo dos astronautas arcônidas. As
indicações dele constantes eram exatas e atualizadas; era ao menos
o que afirmava Crest. Porém, Rhodan carregava certas dúvidas,
especialmente quanto à atualização dos dados.
Segundo
esse catálogo, Mirsal III
era
um mundo habitado por inteligências humanóides. Os habitantes
primitivos dificilmente cresciam mais que um metro e meio e viviam
numa civilização por eles criada, que correspondia aproximadamente
à Idade Média terrana. Não conheciam a navegação espacial, mas
vez por outra viam em seu planeta as naves dos arcônidas, venerados
por eles como semi-deuses. Em Mirsal III,
ainda
havia Estados e nações. Isso costumava acontecer em todos os mundos
que ainda não haviam atingido o estágio cósmico. Reis e príncipes
governavam o cidadão comum, que era oprimido e explorado por meio de
exércitos de mercenários. Os governantes viviam muito bem em seus
castelos fortificados. O cidadão tinha que trabalhar para ganhar a
vida.
Rhodan
guardou o catálogo. Em todos os lugares, a evolução tinha aspectos
comuns. E Mirsal não constituía nenhuma exceção.
A
K-13 desceu e atravessou a atmosfera com um chiado.
— Não
compreendo; não aparece ninguém — observou Marshall dali a dois
minutos, quando passavam por cima de uma pequena aldeia.
A
nave reduzira consideravelmente a velocidade, que já era inferior a
duzentos quilômetros por hora.
— Se
tivesse havido uma invasão, deveria existir um sinal da mesma —
prosseguiu Marshall.
— O
senhor se esquece do que o regente acabou de informar. Nunca são
encontrados vestígios.
Algumas
casas baixas se espremiam em torno de um morro sobre o qual se via
uma espécie de castelo. Estradas primitivas atravessavam os campos
cultivados, dando mostras de que os meios de transporte eram bastante
primitivos. No mercado, ainda se notavam as carretas com os produtos
dos lavradores. Porém não se via nenhuma criatura humana ou outro
ser vivo.
Estreitando
os olhos, Rhodan ordenou:
— Potkin,
voe sempre para o oeste e reduza a velocidade assim que nos
aproximarmos de uma cidade grande. Quero dar uma boa olhada.
A
cidade não demorou em aparecer, iluminada pelo sol da tarde. Os
telhados limpos brilhavam como se tivessem sido revestidos de ouro e
prata, mas eram apenas as telhas metálicas que costumavam ser
usadas. As ruas eram mais largas que nas aldeias, mas nelas também
não se via o menor sinal de vida.
Até
mesmo vista do alto, a cidade parecia morta.
— Vamos
pousar naquela área livre — ordenou Rhodan.
Não
sabia por quê, mas uma sensação terrível apossou-se dele. Em seus
cem anos de vida, nunca defrontara-se com uma situação igual à que
receava encontrar ali. Ao que parecia, as informações do regente
não eram exageradas. E quando um computador sente
medo...
— Não
consigo captar nenhum pensamento — disse Marshall de repente. —
Os seres que construíram estas casas devem saber pensar!
Rhodan
não respondeu. Acompanhou a manobra de pouso nas telas e esperou até
que um ligeiro solavanco abalasse a nave. Depois fez um sinal para
Marshall e Tchubai.
— Vocês
e Gucky irão comigo. Potkin, o senhor nos dará cobertura com a
artilharia da nave, se necessário; não tire os olhos de nós.
Confio na sua ação.
— Sim
senhor — resmungou o russo e desligou os propulsores. — Pode
confiar em mim, chefe. Vai levar armas?
Rhodan
fez um gesto afirmativo e saiu da sala de comando juntamente com os
mutantes. Antes de chegarem à comporta, tiraram do arsenal alguns
radiadores portáteis e várias granadas atômicas. Dali a alguns
minutos, pisaram pela segunda vez na superfície de Mirsal III.
A
K-13 havia pousado no centro de uma área livre, que mostrava sinais
de trabalhos rudimentares. Provavelmente servia a reuniões e feiras.
Junto à nave estava um veículo que evidentemente era puxado por um
animal. Os arreios estavam soltos, como se o cavalo, ou outro animal
que fosse, tivesse escapado dos mesmos.
Rhodan
contemplou os arreios com os olhos semicerrados, mas não disse nada.
Marshall, que por acaso captara seus pensamentos, também lançou um
olhar para as cangas. Uma expressão indagadora surgiu em seu rosto.
Mas não teve tempo para resolver o enigma desses arreios, pois,
naquele mesmo instante, Gucky chiou muito exaltado:
— Olhe,
perto daquele muro!
Viram
ao mesmo tempo. Uma sombra passou rapidamente, parou por um
instante... e desapareceu.
— Poderia
perfeitamente ter sido uma ilu...
— Não
— disse Rhodan com a voz segura. — Isso não foi nenhuma ilusão.
Alguém passou por ali, e não foi nenhum mirsalense.
— Este
alguém sabe tornar-se invisível — disse Gucky em tom exaltado,
demonstrando um nervosismo que não era usual nele. — Dissolveu-se
diante de nossos olhos.
— E
seus impulsos mentais? — perguntou Rhodan com a maior tranqüilidade
de que foi capaz. — Será que também se tornaram invisíveis?
Ninguém
respondeu, porque não havia como responder!
Entraram
na casa mais próxima, de armas em punho, e revistaram-na. Para
espanto deles viram que tudo estava disposto de tal forma parecendo
que os moradores poderiam voltar a qualquer momento. Nada fora
destruído ou desarrumado; tudo continuava no mesmo lugar. O fogo
ardia, embora as grossas achas de lenha já estivessem chegando ao
fim. Isto vinha provar que há horas ninguém colocara lenha no
fogão.
Mas
não encontraram nenhuma criatura viva.
— Onde
estarão? — indagou Ras Tschubai num sopro; um medo misturado com
superstição parecia ter-se apoderado dele. — Não podem ter
desaparecido sem mais nem menos.
Gucky,
que tanto gostava de zombar, manteve-se em silêncio. Olhava
obstinadamente para os objetos abandonados, para as salas e os
corredores vazios, para fora das janelas, para as ruas desertas. O
pêlo da nuca arrepiou-se, traindo o nervosismo do rato-castor.
Marshall
colocou a mão sobre o braço do africano.
— Tudo
tem uma explicação natural, Ras. Ainda haveremos de descobrir o que
significa isto. Sem dúvida é estranho que não se encontre o menor
vestígio de luta, nenhuma indicação sobre o como ou o porquê. Mas
eu já disse: haveremos de encontrar a solução.
Rhodan
não pôde deixar de reconhecer que era um fraco consolo. Mas não
encontrou outro melhor.
Nas
outras casas, o quadro não foi diferente. Não acharam vivalma,
nenhum animal, nada. Apenas se via uma ordem exemplar em todos os
aposentos e a atmosfera de expectativa de breve regresso dos
moradores.
Mas
o computador-regente lhes dissera que estes nunca mais voltariam...
Rhodan
insistiu em que prosseguissem. Atravessaram algumas ruas estreitas e
chegaram à periferia da cidade. Ali o aspecto era mais simples e
menos citadino. As casas grandes foram substituídas por outras,
menores, atrás das quais se viam jardins e campos cultivados, e
estábulos Num desses estábulos voltaram a defrontar-se com o
mistério.
Havia
correntes engastadas nas paredes, que terminavam em argolas. Via-se
perfeitamente que essas argolas serviam para cingir os pescoços dos
animais domésticos. Mas agora estavam vazias. E continuavam
fechadas, e jogadas ao chão, na mesma posição onde deviam ter-se
encontrado os animais.
Quem
teria libertado os animais sem abrir as argolas de metal?
— Os
arreios também continuavam fechados — murmurou Marshall, quando se
lembrou da carroça abandonada. — Até parece que os animais se
desmaterializaram.
Mais
uma vez Rhodan não respondeu. Com uma expressão pensativa saiu para
a luz do sol, que já entrara no poente. A seguir, iniciou o caminho
de volta para a K-13.
Sabia
que tinham uma estrada longa pela frente. E não havia a menor dúvida
de que também seria um caminho perigoso.
*
* *
O
tenente Marcel Rous comandava a nave auxiliar K-7. Vindo do espaço,
aproximou-se da face noturna de Mirsal III.
Marcel,
um homem vivaz, de cabelos escuros, cujas paixões muitas vezes
ultrapassavam a medida recomendada pela inteligência. Amava a vida,
mas era corajoso e arrojado. E esta sua impulsividade já lhe pregara
muitas peças.
Sobrevoou
o planeta numa altura de apenas quinhentos metros. Os alto-falantes
transmitiam ininterruptamente informações vindas dos outros girinos
e as instruções expedidas pela Drusus. Alguma coisa estava
acontecendo naquele mundo desconhecido, mas ninguém saberia dizer o
que era.
Por
mais de uma vez os instrumentos de localização da K-7 registraram a
presença de corpos sólidos na atmosfera de Mirsal III,
mas
nunca foram capazes de retê-los por mais de três ou quatro
segundos. As telas logo voltavam a ficar vazias, e os impulsos
eletrônicos cessavam. Por maior que fosse a aceleração de uma
nave, ela não poderia sair tão rapidamente do alcance dos raios
rastreadores.
Também
era impossível que um objeto, podendo tornar-se invisível por meio
de recursos técnicos, escapasse aos raios rastreadores. Uma onda
luminosa normal podia ser defletida do seu caminho, mas não os raios
especiais de localização. Até mesmo uma nave invisível teria de
aparecer nas telas.
Mas
não foi o que aconteceu.
Marcel
Rous sentiu o ar de mistério e Ignorou as instruções recebidas da
Drusus e resolveu realizar investigações por conta própria. Saiu
da órbita e precipitou-se sobre a superfície de Mirsal III que nem
uma ave de rapina.
Escolheu
propositadamente a face noturna do planeta. Pensou que não seria
descoberto com tanta facilidade como à luz do sol. Talvez
acreditasse que os desconhecidos não o enxergassem no escuro.
Ao
primeiro relance de olhos, Rous percebeu que não houvera uma invasão
no sentido usual da palavra. Lá embaixo, tudo parecia pacato e
normal. Nas grandes cidades, as ruas retilíneas estavam bem
iluminadas e perfeitamente nítidas. Concluiu que os habitantes de
Mirsal III
conheciam
a eletricidade, embora ainda vivessem num estágio relativamente
primário de sua evolução. Talvez os arcônidas tivessem ajudado,
proporcionando-lhes ao menos esta vantagem da civilização. De
qualquer maneira, as cidades estavam bem iluminadas, revelando uma
vida trepidante.
A
impressão continuou inalterada, até que Rous decidisse descer ainda
mais e parar acima do centro da cidade. As telas aproximaram as casas
ainda mais dos olhos do francês que, de repente, prendeu a
respiração.
Demorou
quase dez segundos até que se dirigisse ao co-piloto, que se
encontrava a seu lado na central.
— Está
notando alguma coisa, Becker? O cadete inclinou-se para a frente e
examinou atentamente o quadro que via diante de si. Levou algum tempo
até que sua vista se acostumasse à claridade e conseguisse enxergar
através da luminosidade espalhada pelas lâmpadas. Depois voltou a
reclinar-se e respondeu:
— Por
que estão iluminando a cidade, se a esta hora todo mundo deve estar
dormindo?
Rous
acenou lentamente com a cabeça. Era exatamente a pergunta que já
havia formulado em sua mente.
— Já
passa bastante da meia-noite, hora local. Mas as luzes continuam
acesas em quase todas as casas. Até parece que são nove horas da
noite. Aliás, mais ao leste também está tudo iluminado, embora lá
já devam ser quatro horas da madrugada. É estranho...
Em
matéria de arrojo, o cadete Becker não ficava atrás de seu
superior.
— Se
pousarmos, talvez... Rous se fez de indeciso.
— Não
temos permissão para isso, Becker, e não podemos agir por conta
própria. Se fizéssemos isso, seríamos responsáveis por toda a
tripulação. Se acontecer alguma coisa...
— O
que poderia acontecer? — respondeu Becker, fornecendo ao superior o
apoio moral que este esperava. — Os habitantes deste planeta nem
sequer conhecem as armas energéticas; dificilmente teremos de recear
qualquer coisa da parte deles. E quanto à pretensa invasão dos
desconhecidos, não vi o menor sinal da mesma.
— Não
sei. Talvez seja conveniente entrar em contato com a Drusus e
solicitar permissão para pousar.
— É
o senhor quem sabe — disse Becker em tom frio; parecia um tanto
ofendido. — Tenho certeza de que essa permissão nos será negada.
O chefe não costuma assumir qualquer risco desnecessário, e quando
tem de fazê-lo, ele mesmo prefere enfrentar o perigo.
— Hum
— fez Rous, que já não se sentia tão seguro.
Felizmente
foi interrompido em suas reflexões. Do alto-falante veio a voz de
David Stern, que se encontrava de serviço na sala de rádio da
Drusus.
— K-7,
responda. Comunique sua posição.
Rous
praguejou baixinho e ligou o transmissor.
— Aqui
fala o tenente Rous. Face noturna de Mirsal III.
— Saiu
da órbita? — soou a voz espantada.
— Sim.
Estamos perseguindo uma nave desconhecida, mas a perdemos de vista;
os instrumentos de bordo não conseguem detectá-la. Deve ter pousado
na cidade situada abaixo de nós. Podemos persegui-la? Dali a um
minuto, veio a resposta.
— Ordem
do primeiro-tenente Sikermann: Pousem num lugar em que a visibilidade
seja boa e desembarquem dois robôs de guerra e três tripulantes.
Você continuará a bordo e decolará ao menor sinal de ataque.
Entendido?
— E
meus homens? — perguntou Rous. — Não posso deixá-los para trás.
— Em
hipótese alguma sua nave deverá cair em poder do inimigo. Saberemos
cuidar de seus homens.
— Mais
alguma ordem?
— Não,
tenente Rous. Permaneça em contato comigo. É só.
Marcel
Rous olhou o cadete Becker, cujos olhos se iluminaram.
— Ao
que parece, tive azar, Becker. O senhor terá uma excelente
oportunidade de obter um mérito. Talvez consiga uma promoção.
Pegue dois homens e dois robôs de guerra, e passe umas férias na
cidade.
Dali
a alguns minutos, pairavam sobre uma praça profusamente iluminada.
Num movimento suave o veículo espacial esférico foi descendo e
tocou o solo. Rous ligara todas as telas disponíveis, a fim de
conseguir uma visão abrangente. Examinou atentamente a praça e as
casas contíguas. Nada se movia.
A
cidade parecia morta.
Notou
que sobre o pavimento irregular havia alguns objetos que não
deveriam estar ali. Perto do meio-fio uma espada larga estava
encostada a um muro. A seu lado via-se um escudo. Até parecia que a
sentinela largara as armas para passear. Pouco adiante, tombada ao
chão, Rous viu uma armadura de cavaleiro, sinal de ter havido uma
tremenda luta.
Não
havia a menor mostra de vida. Os aposentos bem iluminados, que se
viam através das janelas, estavam vazios. Nenhuma sombra surgiu nos
retângulos luminosos.
— Pronto?
— perguntou o tenente.
A
resposta, vinda da comporta, foi transmitida pelo rádio:
— Cadete
Becker está pronto para entrar em ação com dois homens e dois
robôs.
— Boa
sorte! — respondeu Rous. Becker suspirou aliviado, embora de
repente não se sentisse muito à vontade. Mas os robôs bem armados
representavam uma proteção suficiente. Se necessário, poderiam
defendê-lo contra uma companhia inimiga. E os dois cadetes em sua
companhia também não poderiam ser chamados de covardes. Seguravam
os radiadores de impulsos com as mãos firmes.
Poderia
confiar nos seus acompanhantes.
A
escotilha externa abriu-se e a rampa tocou o solo. Becker caminhou à
frente do grupo, seguido pelos dois robôs. Os outros dois homens iam
na retaguarda.
Em
torno deles estendia-se o silêncio da cidade adormecida, ou morta.
Não se ouvia nada além dos passos pesados dos robôs. Becker sentiu
que o medo do inexplicável subia à sua mente e ameaçava dominá-lo.
Muito acima das luzes da rua, estendia-se o céu negro daquele mundo
estranho. Parecia uma fenda pela qual o inimigo poderia esgueirar-se
antes que alguém percebesse.
“Que
inimigo? Será que há mesmo um inimigo?”,
refletiu o cadete.
Becker
ficou bem perto dos robôs.
— Vigiem
a retaguarda e os lados — disse aos companheiros, que mantinham as
armas em posição de disparar. — Eu cuidarei principalmente
daquilo que acontecer à nossa frente e em cima de nós.
A
praça não era muito grande, mas levaram quase dois minutos antes de
atingirem as casas. Na rua havia muitos buracos, o que não era de
admirar, pois em Mirsal III
ainda
se vivia em plena Idade Média.
Becker
olhou em torno. A menos de duzentos metros, a K-7 descansava sobre as
colunas de apoio. Sabia que o tenente Rous se encontrava diante da
tela, observando cada um de seus movimentos. Sem dúvida suas mãos
repousavam sobre os acionadores das pesadas armas de radiações.
Becker
sentiu a tranqüilidade benfazeja de não se ver só.
Viu,
por acaso, pelo canto dos olhos, uma sombra que se movia. Virou-se
abruptamente. Foi no segundo andar de um edifício. A luz que saía
de uma das janelas era um pouco menos intensa que as outras. Até
mudava de intensidade. Às vezes ficava mais clara, outras vezes mais
escura, como se alguém caminhasse diante da fonte de luminosidade,
encobrindo-a a intervalos irregulares com seu corpo.
Becker
sentiu aumentarem-lhe as batidas do coração. Era uma oportunidade
única. Não poderia deixar de aproveitá-la, custasse o que
custasse.
— Fiquem
aqui embaixo — cochichou para seus camaradas; depois olhou para um
dos robôs. — Venha comigo, R-2.
— Não
seria preferível... — principiou um dos cadetes, mas Becker
cortou-lhe a palavra.
— Irei
sozinho. Por que expor todos ao perigo?
— Becker!
— disse a voz de Marcel Rous, transmitida pelo rádio. Não soava
muito forte pelo receptor de pulso. — Tenha cuidado!
— Não
se preocupe, tenente. Saberei cuidar de mim.
Os
degraus rangeram horrivelmente sob o peso do robô, mas não havia
mais nada que pudesse deter Becker. Vira alguma coisa, e queria saber
o que era.
“Quem
estaria caminhando de um lado para outro, num quarto que ficava numa
cidade abandonada? Seria um habitante que ficara para trás? Por
quê?”,
pensava, questionando a situação.
Becker
resolveu que por enquanto não adiantava nada ficar fazendo perguntas
inúteis. Agarrou mais firmemente sua arma e subiu pela escada atrás
do robô.
A
porta do apartamento do segundo andar estava aberta. O corredor
encontrava-se quase completamente às escuras, pois a luz achava-se
acesa apenas na escadaria.
Quando
R-2 parou e esperou que Becker se aproximasse, não se ouviu nada.
Mas,
subitamente, escutou-se o ranger forte de uma porta.
Becker
estremeceu e levantou a arma. O ruído vinha do interior do
apartamento. Alguém andava por ali. Primeiro vira a intensidade
variável da luz, e agora o rangido da porta. Não podia haver nenhum
engano.
Becker
fez um sinal para R-2 e caminhou à frente. O robô seguiu-o
cautelosamente.
A
porta possuía uma fechadura rudimentar, que não teria representado
qualquer obstáculo para um intruso. Acontece que estava aberta.
Becker viu mais atrás haver outra porta aberta. Esta levava a um
recinto que dava para a praça. Talvez também para aquele em que
vira a sombra caminhar de um lado para outro.
Becker
continuou a caminhar sorrateiramente, até que se viu junto à porta.
Esperou que R-2 se aproximasse. Depois escancarou-a com um pontapé e
entrou no aposento bem iluminado.
Estava
vazio.
A
janela estava entreaberta. Só agora Becker sentiu a ligeira brisa
que passava por ele e movia lentamente a porta atrás do robô,
fazendo-a ranger.
Ao
mesmo tempo, uma cortina leve executava movimentos fantasmagóricos
diante da fonte de luz, que era um abajur de cabeceira. Ao lado deste
havia duas camas. Estavam remexidas e ainda mostravam perfeitamente
as impressões de dois corpos humanos. Becker quase se sentiu tentado
a pôr as mãos a fim de verificar se as impressões ainda estavam
quentes.
Movendo-se
junto à cama, a cortina fazia com que a luz saísse pela janela com
intensidade variável. E o que fazia ranger a porta era o vento. Era
esta a solução do mistério.
Um
tanto decepcionado, o cadete baixou a arma. Deixara-se enganar por
uma cortina.
— O
que houve? — disse a voz de Marcel Rous, interrompendo o silêncio
repentino.
— Tudo
bem — respondeu Becker laconicamente e pôs-se a andar. — Foi o
vento. Esta gente esqueceu-se de fechar as janelas antes de sair.
— Não
observou nada de extraordinário?
Becker
olhou para trás.
— Nada,
tenente. Estou no quarto de um casal. Está muito bem instalado.
Gostaria de saber onde ficaram os ocupantes. As roupas continuam
penduradas por cima das cadeiras. Devem ser uns lunáticos que foram
viajar de camisola.
— Mirsal
III
não
possui nenhuma lua — disse Rous em tom indiferente. — Pode
voltar, Becker.
— Já
vou — respondeu Becker.
No
momento em que saiu para a rua e viu os dois companheiros que o
esperavam, aconteceu alguma coisa que mais tarde não saberia
explicar.
E
nem haveria um mais tarde que lhe desse tempo para isso.
Notou
em primeiro lugar a nave espacial a duzentos metros, fortemente
iluminada pelas numerosas luzes da rua e pela luminosidade saída das
janelas próximas. Logo depois, viu os dois companheiros e o robô
que o esperavam.
Num
instante tudo aquilo começou a desmanchar-se diante de seus olhos.
Ao
perceber a modificação, Becker estacou. O robô que o acompanhava
não se preocupou com o fenômeno; prosseguiu na sua caminhada,
passando por ele. Mas enquanto o robô caminhava, Becker viu-o
desmanchar-se no ar.
Becker
soltou um grito de pavor, que também foi ouvido por Rous. Mal
conseguiu ouvir a voz de seu superior:
— Volte
imediatamente. Apresse-se, senão...
Becker
não ouviu mais que isso. Fitou os olhos arregalados dos dois
companheiros. Um deles hesitou e fez menção de estender o braço em
sua direção, mas logo se pôs a fugir. Estava com a boca bem
aberta, como se estivesse gritando, mas Becker não ouviu nada.
O
mundo, que o cercava, foi mergulhando lentamente na escuridão e no
silêncio. Devia ser a impressão sentida por quem vagasse mil metros
abaixo da superfície do mar. Apenas, havia uma ausência
completa de sensações.
Becker
não sentia
mais
nada.
*
* *
O
tenente Marcel Rous viu Becker sair da porta do edifício e esteve a
ponto de suspirar aliviado, quando se verificou o terrível fenômeno.
Becker
adquiriu certa transparência e acabou desaparecendo por completo.
Certamente não chegou a ouvir a ordem de regresso. Porém seus dois
companheiros e os robôs deviam tê-la percebido, pois puseram-se em
movimento em direção à nave.
E
então o cadete Becker deixou
de existir. O
lugar há pouco ocupado pelo cadete estava vazio.
Os
dois robôs não se apressaram. Já os dois homens puseram-se a
correr e tentaram atingir o mais rápido possível a nave, onde
estariam a salvo.
Mas
não foram bastante rápidos, pois o poder misterioso também os
atingiu.
Por
estranho que parecesse, em primeiro lugar desapareceram as pernas e a
parte inferior do corpo. Marcel viu, terrivelmente abalado, apenas as
duas cabeças cortarem o espaço, pouco mais de metro e meio acima do
solo. Saltitavam numa linha sinuosa, seguindo os movimentos dos
corpos, já então invisíveis. Depois também foram se
desmanchando...
Marcel
Rous observou o fenômeno sem compreendê-lo. Os dois robôs
continuaram a caminhar tranqüilamente, em direção à escotilha
aberta.
— K-7
à Drusus! Três homens foram atacados pelos invisíveis e também...
se tornaram invisíveis! — gritou Rous para dentro do microfone.
Como não encontrasse melhor explicação, acrescentou: —
Desapareceram...
— Decole
imediatamente! — foi a ordem que veio logo em seguida.
— Os
dois robôs ainda estão...
— Decole!
Rous
assustou-se com o tom da voz de Sikermann. Com uma das mãos empurrou
a alavanca de decolagem para a aceleração máxima, enquanto a outra
fechava a comporta.
A
nave mergulhou nas profundezas do espaço.
O
que ficou para trás foram dois robôs, que seguiram a nave fugitiva
com olhares indiferentes. Seus cérebros positrônicos compreendiam
todos os acontecimentos regidos pela lógica, mas desta vez falharam
por completo.
Permaneceram
num mundo desabitado e procuraram um inimigo.
Entretanto
não o encontraram.
*
* *
— O
espaço está cheio de impulsos mentais — disse Fellmer Lloyd,
contemplando Rhodan. — Acontece que nenhum deles faz o menor
sentido. Até parece que esses desconhecidos só pensam
fragmentariamente. O senhor compreende, chefe?
— Não;
em absoluto — Rhodan, que se encontrava na K-13, passava pouco
acima das cidades despovoadas da face diurna do planeta, à procura
de qualquer vestígio de vida. — Tenho a impressão de que os
atacantes se encontram no espaço. Aqui embaixo não se nota muito de
sua presença. Marshall e Gucky dificilmente conseguem captar um
impulso.
— Pois
o espaço está cheio deles, mas não têm continuidade. É como já
disse: são apenas fragmentos. Uma coisa estranha...
— Procure
identificar ao menos um pensamento; com isso já teríamos dado um
passo para a frente.
— É
impossível. Seria como querer interpretar um livro com base numa
única palavra. Existem críticos que gostam de proceder assim, mas
pode-se duvidar da autenticidade de um juízo desses. É o que está
acontecendo comigo. Estou captando um único fragmento de idéia. O
que posso fazer com isso?
— Não
desista, Lloyd. E, principalmente, procure identificar a fonte da
qual provêm os impulsos. Quem sabe se Marten não consegue avançar
até lá?
— Um
momento, o senhor pode falar com Marten. Ele mesmo lhe contará.
Seguiu-se
uma ligeira pausa.
Rhodan
olhou para as outras telas e viu a paisagem de Mirsal III
desfilar.
Os castelos abandonados erguiam-se em meio às cidades desertas. Nos
campos cultivados ainda se viam os arreios dos animais desaparecidos.
Os veículos abandonados estavam parados em meio a peças de roupa
espalhadas em torno deles. Das fogueiras saíam as últimas nuvens de
fumaça.
Ralf
Marten surgiu na tela e cumprimentou ligeiramente através de milhões
de quilômetros.
Era
um teleótico, e por isso conseguia trasladar seu espírito para
dentro de outros seres vivos e enxergar com os olhos dos mesmos. Mas,
desta vez, seu dom não produzia o menor resultado.
— Lloyd
já me explicou o que o senhor deseja, chefe. Fiz o possível.
Acontece que a fonte dos impulsos que estamos captando é totalmente
indefinida. Nem sequer conseguimos apurar a direção de onde provêm.
Efetuei vários saltos, mas todos eles terminaram no vazio. Mesmo das
vezes em que acreditava firmemente que conhecia a direção, ia parar
no espaço vazio. É inútil, chefe. Não consigo nada.
Rhodan
manteve-se tranqüilo.
— Não
o culpo, Marten. Defrontamo-nos com um inimigo incorpóreo,
invisível. E, ao que parece, sabe camuflar seu espírito. É muito
mais do que receávamos. Seremos impotentes enquanto não nos atacar
abertamente. Mas, ao que parece, não tem o menor interesse nisso.
— O
tenente Becker e mais dois tripulantes da K-7 desmancharam-se no ar,
chefe. Será que isso não é um ataque aberto?
— Não
tenho certeza sobre se devemos interpretar o fenômeno
dessa
forma — respondeu Rhodan. — Talvez fosse um descuido dos
invisíveis. De qualquer maneira, deveremos agir com a maior cautela
quando voltarmos a pisar em Mirsal III.
E
não poderemos deixar de fazer isso, se quisermos resolver o
problema. O regente de Árcon tenta resolvê-lo há dez anos, e não
podemos esperar que nós o consigamos em um dia. Continue a
esforçar-se, Marten. Chegará a hora em que nossos esforços serão
bem sucedidos.
Rhodan
esperou até que David Stern transferisse a ligação. Na tela surgiu
o rosto de Sikermann.
Nele
se notava uma palidez descomunal.
— O
que houve, Sikermann? — perguntou Rhodan em tom de espanto, pois
nunca vira o oficial tão fora de si. — Encontrou-se com algum
fantasma?
— Se
fosse só isso, saberia como agir — respondeu o primeiro-tenente,
que começava a recuperar um pouco da autoconfiança. — Mas estas
localizações indefinidas e verificadas em todas as direções
acabam deixando-me doido. A cada segundo, receio que a Drusus esbarre
em alguma nave que os instrumentos registram a poucos segundos à
nossa frente, mas no fim não é nada.
— Deveria
sentir-se feliz com isso.
— Para
o senhor é fácil gracejar — disse Sikermann em tom exaltado. —
Qual é sua posição?
— Que
palhaço! — chiou Gucky, que se encontrava mais afastado, em cima
do sofá. Rhodan lançou-lhe um olhar recriminador.
— Dirigimo-nos
à Drusus. Dentro de poucos minutos, entraremos a bordo. Pretendo
voltar a pousar em Mirsal III,
com
uma tripulação reforçada. Talvez pousemos mesmo com a Drusus.
— Caramba!
— limitou-se Sikermann a dizer.
Rhodan
desligou e cuidou da pilotagem da K-13. O tenente Potkin introduziu a
rota ordenada nos controles e acelerou a nave.
Momentos
depois, entrava — quase simultaneamente com a K-7, comandada pelo
tenente Rous — na comporta aberta e pousava no hangar da Drusus.
— Mantenha-se
preparado para decolar, Potkin. Voltarei num instante.
Rhodan
aguardou até que Marcel Rous saísse de sua nave e pediu que este
relatasse mais uma vez todos os detalhes do acontecido. Mas mesmo o
testemunho visual do tenente não adiantou muito. Não havia qualquer
explicação lógica e razoável para o
fenômeno, a
não ser que os atacantes soubessem tornar invisíveis a si mesmos e
a outros seres vivos.
E,
ao que tudo indicava, era exatamente isso que acontecia.
— Não
devemos subestimar o inimigo — disse Rhodan, assim que Marcel
concluiu sua exposição. — Para lutarmos contra um inimigo
invisível, devemos concentrar-nos ao máximo e lançar mão de todos
os meios de que dispomos. Façamos votos de que Becker e seus
companheiros possam ser libertados. Mantenha sua nave preparada para
entrar em ação. Ainda não sei quais são os recursos que teremos
de empregar na batalha.
Marcel
seguiu-o com os olhos e voltou a entrar na comporta de seu Girino.
— Gostaria
de saber o que Rhodan quer dizer quando fala numa batalha —
murmurou. — Será que pretende entrar em guerra contra os
invisíveis?
Rhodan
saiu do hangar e, passando apressadamente pelos diversos elevadores
antigravitacionais, dirigiu-se à sala de comando, onde Sikermann já
o aguardava. Todos os mutantes estavam presentes, além de Crest,
cujo rosto revelava um nervosismo fora do comum.
— Aqueles
desconhecidos devem encontrar-se num estado ininterrupto de transição
— disse o arcônida em tom compenetrado assim que viu Rhodan. —
Os instrumentos de localização registram sua presença e, dali a um
instante, passam a não mais existir. Receio que a teoria da
invisibilidade não seja exata.
Rhodan
ouviu-o com o rosto sério.
— É
o que também receio, embora isso não represente uma explicação
aceitável. Como vão as coisas, Marten? Ainda não conseguiu nada?
— Há
cinco minutos tentei um salto. Os impulsos mentais vinham de uma
direção determinada e mantiveram-se constantes por alguns segundos.
Por um momento consegui contato e penetrei num cérebro estranho, mas
antes que pudesse enxergar pelos olhos do outro ser fui literalmente
jogado para fora. Isso nunca me aconteceu.
— Tem
alguma explicação?
Ralf
Marten sacudiu a cabeça; parecia desesperado.
— Não
senhor. É uma coisa incompreensível. Tenho certeza de que não foi
o ser desconhecido que me expulsou de seu cérebro, mas outra coisa,
uma força medonha. Essa força notou minha presença e tomou suas
providências. Não sei em que consistiram essas providências.
Rhodan
estreitou os olhos enquanto fitava Marten.
— Já
tentou penetrar no cérebro de outro ser humano, no momento em que
este entra em transição com a nave onde se encontra? Será que os
efeitos poderiam ser análogos?
Ralf
Marten acenou com a cabeça; parecia surpreso.
— Talvez
seja isso; é claro que não tenho certeza. Será que o senhor
acha?...
— Não
tenho uma suposição precisa — disse Rhodan, esquivando-se. —
Devemos considerar todas as possibilidades — olhou para as outras
pessoas que se encontravam presentes. — Quero pousar em Mirsal III
juntamente
com os membros do Exército de Mutantes. Decolaremos daqui a dez
minutos na K-13. A Drusus nos seguirá exatamente dentro de três
minutos e também pousará. Encontrei uma área de pouso favorável,
junto às muralhas de uma cidade.
— Por
que temos de assumir o risco sozinhos? — indagou Sikermann. — E
os arcônidas?
— Está
se referindo a Talamon e ao computador-regente?
— Isso
mesmo. Rhodan deu de ombros.
— Talamon
está submetido ao comando do regente; não obedece às minhas
ordens. Por enquanto não tenho o direito de me intrometer.
Sikermann
esteve a ponto de dizer mais alguma coisa, mas preferiu ficar calado.
Voltou-se para os controles. Por algum tempo Rhodan fitou suas costas
largas, finalmente fez um sinal para Crest.
— Fique
aqui, Crest. Ajude Sikermann no cumprimento de sua tarefa. Ficaremos
em contato.
Pegou
os outros mutantes e voltou com eles ao hangar. Dali a mais três
minutos, a K-13 disparou espaço afora, em direção a Mirsal III.
A
Drusus seguiu a grande distância.
Dez
minutos depois, pousou na área livre que ficava às portas de uma
cidade na qual não havia vivalma. Conforme o combinado, a Drusus
pousou três minutos após.
O
planeta parecia deserto. Nada se movia, e as misteriosas localizações
também haviam terminado. Marten e Lloyd não conseguiram captar o
menor impulso mental. O mesmo aconteceu com Marshall e Gucky.
Será
que os invisíveis resolveram suspender o ataque?
Rhodan
não confiava naquela calma. Teve um pressentimento de que era a
bonança que precedia a tempestade.
Permaneceu
na comporta aberta e viu uma companhia de robôs de combate sair dos
compartimentos de carga da Drusus e marchar em direção à cidade.
De repente Gucky surgiu ao seu lado e disse:
— Sikermann
quer falar com você, Rhodan. Diz que é urgente. Talamon entrou em
contato com ele.
Rhodan
não fez perguntas; entrou apressadamente no elevador e subiu à sala
de rádio. O rosto de Sikermann fitou-o de cima da tela.
— Estou
em contato com a Arc-Koor. Quer que transfira a ligação?
— Transfira;
depressa!
O
rosto de Sikermann desapareceu e no mesmo instante a cabeça maciça
do superpesado apareceu em seu lugar. Um sorriso fugaz surgiu no
rosto de Talamon, quando o mesmo reconheceu Rhodan.
— Queria
falar-lhe antes de entrar em transição — disse com certa tristeza
na voz retumbante. — Não quero que pense que estou com medo, mas
vejo-me obrigado a cumprir as ordens do regente.
— Será
que o regente ordenou a retirada? — perguntou Rhodan em tom
incrédulo. — É inacreditável. Pois ele mesmo nos pediu que
identificássemos o perigo que ameaça nosso cosmos.
— Não
quer que a Arc-Koor se exponha a qualquer risco, Rhodan. Levarei a
nave para Árcon e voltarei com minha frota. Confie em mim.
— Não
posso segurá-lo, Talamon, por mais que eu queira. Temos uma única
chance de descobrir os desconhecidos. Quer dizer que terei que agir
sozinho. Transmita minhas recomendações ao regente.
— Suas
palavras parecem amarguradas — disse Talamon em tom queixoso. —
Não sou culpado por ter que bater em retirada. A Arc-Koor já se
aproxima do ponto de transição. Dentro de cinco minutos, saltarei.
Passe bem, Perry Rhodan. Voltarei ainda hoje.
— Eu
o espero — disse Rhodan, concluindo a palestra.
Muito
pensativo, voltou à comporta e contemplou a companhia de robôs que
passava pelos portões da cidade.
— E
agora? — cochichou Marshall. — Não há ninguém na cidade; se
houvesse, eu perceberia. Não existe qualquer impulso mental.
— Os
invisíveis não pensam — disse Rhodan, falando devagar e com uma
estranha ênfase. — Possuem uma “camuflagem”
não apenas ótica, mas também mental. Será muito difícil
encontrá-los.
Marshall
não respondeu. Teve a impressão de que subitamente sentia frio.
Aparentemente
controlados, mas trêmulos de tensão, quatro homens caminhavam pelas
ruas desertas da cidade. Cinco metros atrás deles, o rato-castor
Gucky os seguia, balançando o corpo e formando a retaguarda. Uma vez
que não sabia caminhar tão depressa, combinava o útil e o
necessário.
Rhodan
e Fellmer Lloyd caminhavam lado a lado; logo atrás deles John
Marshall e Ras Tschubai mantinham as armas prontas para disparar. O
africano esforçou-se para disfarçar o medo nato pelo sobrenatural.
Mas, apesar do treinamento e da idade, não o conseguiu inteiramente.
Os
robôs estavam espalhados pela cidade, e revistavam todos os
recantos, à procura de qualquer sinal de vida. Rhodan pôde
acompanhar suas informações pelo rádio. Por enquanto não havia
nada de novo.
Um
edifício alto e maciço prendeu sua atenção.
Parou.
Gucky sentiu-se satisfeito, pois pôde ganhar terreno.
— É
imponente — disse Rhodan, apontando para o edifício. — Deve ser
a Prefeitura ou coisa que o valha. Vamos entrar?
— Por
que não? — disse Marshall. — O perigo invisível está em toda
parte, mas talvez ali encontremos alguma indicação do que aconteceu
com os habitantes da cidade.
Os
outros confirmaram com um gesto. Voltaram a colocar-se em movimento.
Ao
aproximar-se dos grandes portais, Rhodan voltou a parar.
— Gucky,
não quer dar uma olhada?
O
rato-castor compreendeu imediatamente.
— Se
você pensa que estou com medo, está muito enganado — chiou em tom
de recriminação, pois lera os pensamentos de Rhodan. — Afinal,
posso desaparecer assim que perceber que alguma coisa não está
dando certo.
— Não
consigo ouvir a palavra desaparecer sem sentir calafrios —
confessou Marshall em voz baixa.
Gucky
olhou-o ligeiramente, concentrou-se para efetuar um salto curto, que
o levaria ao interior do edifício. Em meio a um torvelinho de ar
tremeluzente desapareceu.
Dali
a menos de dez segundos, estava de volta.
— Vi
um local de reunião — informou, alisando o pêlo. — Estive num
grande salão, muito bem iluminado. E olhem que o sol está
brilhando! Não há ninguém por lá, mas a impressão que tive foi
que aquela gente só fez uma ligeira pausa e deve voltar a qualquer
momento.
— Vamos
até lá — decidiu Rhodan e começou a subir os largos degraus. —
Não podemos desprezar qualquer pista, por mais insignificante que
seja. Precisamos descobrir onde estão as pessoas desaparecidas,
pois, do contrário, nunca mais descobriremos nossos cadetes.
Atravessaram
uma série de corredores e pequenos halls, antes de chegarem à sala
de reuniões que Gucky visitara em primeiro lugar.
Pararam
junto à porta e, mais uma vez, sentiram que a coisa misteriosa
estava próxima, procurando agarrá-los.
Não
havia ninguém nas fileiras de assentos que formavam semicírculos e
subiam em direção aos fundos do recinto. Diante de cada assento,
havia uma mesinha na qual ainda se viam os papéis e
canetas-tinteiro. Realmente parecia que os participantes da reunião
só haviam saído da sala para fazer uma ligeira pausa. Ninguém
deixaria suas anotações sobre a mesa, se não tivesse a intenção
de voltar.
— Há
alguém por aqui — cochichou Fellmer Lloyd de repente em voz baixa.
— Sinto perfeitamente.
Rhodan,
que era um telepata muito fraco, não sentiu nada. Mas o mesmo não
aconteceu com Gucky.
— Lloyd
tem razão. Há alguém neste salão. Eu sinto... sim, é isso mesmo,
eu sinto. Seus pensamentos... são muitos pensamentos, mas não fazem
o menor sentido, são apenas fragmentos de idéias. Vão e voltam...
Ras
Tschubai manteve-se num silêncio obstinado. Suas mãos cingiram
firmemente a arma, enquanto os olhos procuravam localizar um alvo.
Rhodan tinha certeza de que no íntimo o teleportador se preparava
para o salto que o colocaria a salvo.
— Não
teleporte-se em hipótese alguma — preveniu Rhodan em voz baixa. —
Quando fizer isso, terá de levar dois de nós. Entendido?
O
africano confirmou com uma atitude de pecador arrependido.
Naquele
salão havia muitos esconderijos. Embaixo de cada mesa ou banco,
alguém poderia esconder-se, se tivesse necessidade disso. Uma luz
forte enchia o recinto, mas não se via ninguém.
— Talvez
sejam nossos nervos — cochichou Rhodan, enquanto sua mente
procurava uma explicação. — Quem sabe se não nos tentam pregar
uma peça...
— A
mim ninguém prega peças — protestou Gucky com a voz fina e pôs
as orelhas de pé. — Há alguém por aqui. E são vários
indivíduos. Acontece que não consigo vê-los.
De
repente, teve a impressão de que vira alguém junto à tribuna. Fora
apenas uma sombra que desapareceu com a mesma rapidez com que surgira
do nada. Um sopro incrivelmente frio parecia atravessar o salão.
Envolveu os quatro homens e Gucky, fazendo-os estremecer. Depois
passou.
Mais
uma sombra atravessou a sala.
Ras
Tschubai levantou a arma. O raio de impulsos energéticos caiu com um
chiado sobre o “alvo”,
atravessou-o e incendiou a fileira de bancos que havia atrás dele.
A
fumaça começou a surgir e as chamas levantaram-se em direção ao
teto.
Marshall
também disparou desesperadamente sobre outro “alvo”
que na verdade não se fazia nítido.
— Vamos
embora! — chiou Gucky em tom apavorado. Nunca ninguém vira Gucky
desse jeito, nem no planeta de Volat, quando fugiu de um gato-gigante
com o qual acabou fazendo amizade. — Não existem armas com as
quais possamos combater essas criaturas!
— Silêncio!
— cochichou Rhodan. — Se fugirmos agora, nunca descobriremos quem
são os seres que temos diante de nós.
Voltando-se
na direção das sombras tremeluzentes e dos fenômenos luminosos
difusos, gritou em voz alta:
— Sejam
vocês quem forem, identifiquem-se. Nossas intenções não são
hostis.
Não
houve qualquer resposta. Em compensação, uma coisa terrível
aconteceu com Fellmer Lloyd.
O
localizador começou a desmanchar-se.
Rhodan
levou apenas uma fração de segundo para perceber o fenômeno
incompreensível e tomar a reação adequada. Foi por puro instinto
que gritou:
— Tschubai!
Segure Lloyd e Marshall! Salte para fora! — No mesmo instante
segurou o braço de Gucky. — Vamos, salte! Rápido!
No
mesmo instante, o salão desfez-se diante dos seus olhos e quando
voltou a abri-los, viu-se na rua, ao lado de Gucky. A cinqüenta
metros de distância do edifício três vultos humanos
materializaram-se: eram Ras Tschubai, Marshall, e Fellmer Lloyd, que
voltara a surgir por inteiro.
Assim
Rhodan ficou sabendo de uma coisa: o salto de um teleportador era a
única salvação contra a ação dos invisíveis.
Suspirou
aliviado.
Ainda
não conhecia o inimigo, mas já descobrira um meio de escapar ao
mesmo. Um teleportador poderia fugir com mais alguém, assim que os
invisíveis atacassem.
Rhodan
teve a impressão de ter ganho o primeiro round da luta desigual.
Era
verdade que apenas o ganhara por pontos... e por muito poucos pontos.

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