Rhodan
tinha certeza de que o inimigo não se limitaria ao ataque tão
habilmente lançado contra a nave. Juntamente com Laury levou o
rato-castor ferido ao abrigo de Fenomat, pois acreditava que lá as
condições de segurança seriam melhores. Laury permaneceu em
companhia de Gucky, para continuar a cuidar dele.
O
próximo passo de Rhodan consistiu em examinar a saída da galeria
pela qual Belal, Havan e os dois soldados se haviam aproximado do
jato espacial. Não perdeu tempo com a portinhola, que possuía um
fecho bastante complicado; removeu o obstáculo com o desintegrador.
Verificou
que do outro lado da portinhola a galeria estava obstruída numa
extensão de pelo menos cem metros. Para o desintegrador esses metros
de entulho não representavam nada. Mas Rhodan tinha certeza de que
Belal postara seus homens do outro lado dos escombros.
Por
isso preferiu voltar para junto de Marshall que, depois de sua
descoberta na usina energética do abrigo de Sallon, não abandonara
seu posto.
O
jato espacial ficou vazio e sem vigilância. Mas Rhodan gastara o
tempo necessário em expedir uma mensagem de hiper-rádio à Terra,
para solicitar o envio de uma nave espacial. A mensagem, fortemente
condensada, ficou limitada a uma duração de dois milionésimos de
segundo. A probabilidade de que alguma pessoa a decodificasse
indevidamente era praticamente igual a zero. Em sua mensagem, Rhodan
indicou a posição galáctica de Isan e pediu que uma nave viesse
carregada de mantimentos até o limite de sua capacidade.
*
* *
De
pé diante da retorta de destilação, Feriar contemplava o líquido
marrom-esverdeado que borbulhava ininterruptamente sobre uma chama de
gás. Vapores escuros eram expelidos para a serpentina de
condensação. Do outro lado do aparelho, um líquido límpido e
inodoro caía numa vasilha.
Ivsera
estava muito ocupada. Feriar interessava-se pela química,
especialmente por uma química tão nutritiva como a que estava sendo
praticada ali, e bem que gostaria de formular algumas perguntas.
Acontece
que nenhum dos peritos, que eram Irvin e Ivsera, tinha tempo para
ele. Thér talvez tivesse, embora continuasse a martirizar-se,
classificando as peças de roupa e empilhando-as aqui e ali. Porém
Thér entendia tão pouco de química quanto o próprio capitão.
Enquanto
Feriar ainda contemplava o líquido borbulhante, a porta do
laboratório abriu-se e alguém gritou:
— Aqui
está uma pessoa que quer dialogar com um estranho chamado Perry.
Caso não seja possível localizá-lo, o homem quer falar com Feriar
ou Ivsera.
Ivsera
respondeu sem interromper o trabalho.
— Mande-o
falar com Feriar. Feriar, o senhor quer fazer isso por mim?
Feriar
estava curioso. Foi até a porta e viu do lado de fora a pessoa que o
chamara. Tratava-se de um homem robusto de rosto zangado. Envergava
as poucas vestes que eram usadas por todos os homens de Fenomat e
ultimamente também de Sallon.
Não
trazia nenhuma arma. Feriar nunca o havia visto.
— Sabe
onde está o estranho? — perguntou o homem.
O
capitão sacudiu a cabeça.
— Não;
mas posso descobrir.
O
homem robusto tirou e entregou a Feriar uma folha de papel de dentro
do único bolso de sua vestimenta, que parecia uma bermuda.
— Pois
procure — disse em tom áspero. — Leia isto e conclua por si
mesmo se o assunto é importante.
Antes
que Feriar pudesse recuperar-se do espanto, o homem robusto deu-lhe
as costas e foi-se afastando pelo corredor. Feriar desdobrou o papel
e leu:
Hoje
de noite, às 29 horas, Belal tentará apoderar-se do veículo dos
estranhos juntamente com sua tripulação.
Estas
palavras haviam sido gravadas por uma máquina de escrever cartas. O
papel não trazia assinatura.
Feriar
leu o texto duas vezes. Depois procurou descobrir o mensageiro que
lhe trouxera o bilhete.
— Onde
está? — perguntou perplexo.
— Desceu
por ali — respondeu o homem.
— Vá
atrás dele e traga-o de volta — ordenou Feriar.
O
homem saiu correndo.
Feriar
voltou ao laboratório e mostrou o bilhete a Ivsera que leu e
imediatamente interrompeu a destilação já iniciada.
— Precisamos
localizar Perry — disse em tom sério. — Isto é muito
importante. Pelo que sei, sua nave sofreu avarias graves. Quase não
tem armas para defender-se.
— Está
certo — admitiu Feriar. — Mas onde poderemos encontrá-lo?
— Provavelmente
na nave.
— E
se não estiver lá? Nesse caso um de nós ficará por lá e esperará
até que Belal apareça e o prenda?
Ivsera
pôs-se a refletir.
— Em
Sallon há um amigo dele chamado Marshall. Se conseguirmos avisá-lo,
ele se comunicará com Perry — disse a química.
Feriar
concordou com um gesto.
— Muito
bem. Continue no seu trabalho. Procurarei encontrar Marshall.
Naquele
instante, entrou o homem que Feriar mandara atrás do mensageiro.
— O
homem desapareceu — falou arfando.
O
capitão tranqüilizou-o com um gesto.
— Está
bem. Devia ter-me lembrado disso antes.
Thér
acompanhara a palestra. Interrompeu seu trabalho e aproximou-se de
Feriar.
— Não
sei, não — disse em tom contrariado. — Tenho a impressão de que
qualquer pessoa saberá classificar e empilhar roupas melhor que eu.
Não quer deixar que eu vá a Sallon?
Feriar
franziu a testa.
— O
senhor nem sequer tem uma arma. O que acontecerá se alguma coisa não
der certo em Sallon?
— É
verdade — disse Thér com um sorriso irônico. — Poderia dar-me
sua arma.
Ivsera
sorriu.
— Vão
os dois — aconselhou. — Provavelmente terão de procurar
Marshall, e quatro olhos sempre enxergam mais que dois.
Thér
fez uma mesura irônica.
— Desde
que a conheço sei que a senhora é uma menina inteligente — disse
em tom solene.
*
* *
— Daqui
em diante continua em linha reta! — exclamou Marshall.
Rhodan
descansou a pesada arma e olhou para dentro do canal com os cabos que
o último tiro do desintegrador pusera à mostra.
— Qual
é a direção? — perguntou. Marshall pôs-se a refletir.
— Já
conheço a planta da situação do abrigo de cor. Diria que, se o
tubo com os cabos não descreve outra curva, o esconderijo de Belal
fica dois quilômetros ao nordeste da galeria principal, perto do rio
Ovial.
— Por
que justamente lá? — perguntou Rhodan perplexo.
Não
teve necessidade de aguardar a resposta, pois percebeu nitidamente os
pensamentos de Marshall:
— Porque
Belal precisa de abastecimento de água. E este será tanto mais
fácil quanto mais perto estiver do rio.
Rhodan
mediu o tubo do elevador. Era retangular e achatado, com cerca de
cinqüenta centímetros de largura por dez de altura. Teria que ser
ampliado antes de dar passagem ao esconderijo de Belal.
— Será
que não seria melhor aguardarmos a chegada de nossa nave de guerra?
— perguntou Rhodan. — Se calcularmos todos os imprevistos, a
demora será de um dia e meio, no máximo. Gostaria de dispor de mais
algumas pessoas antes de atravessar dois quilômetros de terra.
Marshall
fez um gesto afirmativo.
— Acontece
que não sabemos o que Belal poderá tramar nesse meio tempo, não
acha?
Rhodan
sorriu.
— Exatamente;
e não devemos esquecer-nos de Havan.
*
* *
— Vinte
e oito horas — resmungou Thér. — Já é tempo de encontrarmos
Marshall.
Feriar
olhou em torno, muito nervoso. Já haviam recebido quinze informações
diferentes sobre o paradeiro de Marshall, seguiram todas elas e não
o encontraram.
Parecia
ter desaparecido. Nas últimas duas horas, ninguém vira nem a ele,
nem a Perry.
Já
haviam subido do primeiro pavimento do abrigo até o 35o.
Lamentavam que Perry não julgara necessário entregar-lhes um dos
rádios que usava para comunicar-se com seus homens.
Estavam
caminhando por uma estreita galeria secundária, pouco iluminada,
quando Thér subitamente pegou o braço de Feriar, que caminhava à
frente, e o puxou até a parede.
— O
quê...? — reclamou Feriar.
— Quieto!
— cochichou Thér. — Olhe ali na frente.
Thér
enxergava melhor que Feriar. Vira a fenda estreita que de repente se
abriu na parede do lado direito. Juntamente com Feriar viu esta
ampliar-se numa abertura que tinha a altura de um homem em pé; ainda
notou que dois homens bem armados saíam cautelosamente da abertura.
Thér
e Feriar mantinham-se junto à parede, na sombra de duas lâmpadas
fracas.
Encontravam-se
pelo menos a cinqüenta metros da misteriosa abertura. Thér tinha
certeza de que os dois homens não poderiam vê-los.
Um
dos soldados virou-se e fez um sinal para dentro da abertura. Foi
para o lado e deixou que mais cinqüenta homens armados passassem por
ele e entrassem no corredor.
O
último era um homem baixo, gordo e calvo: Belal.
Thér
sentiu que Feriar tremia atrás dele.
— Calma!
— cochichou. — Por aqui não podemos fazer nada contra ele.
Caminhando
em meio aos seus soldados, o ditador marchou na direção oposta.
Thér e Feriar acompanharam-no com os olhos, até que o grupo
desapareceu numa curva.
Poucos
segundos depois, ouviram-se gritos violentos, um matraquear metálico
e o som de tiros.
— Belal
está abrindo caminho! — fungou Thér. — Quem dera que
soubéssemos onde está o estranho.
*
* *
Marshall
havia alargado o tubo de cabos numa extensão de cem metros o
suficiente para que um homem alto pudesse caminhar em seu interior.
Quando Rhodan o chamou, estava fazendo uma pausa para descansar os
braços que seguravam o desintegrador.
O
chefe dos mutantes correu o caminho de volta.
— Preste
atenção! — pediu Rhodan no momento em que Marshall descia do tubo
de cabos para o recinto amplo que abrigava a usina energética. —
Não está percebendo nada?
Marshall
concentrou-se. Sentiu que nas proximidades alguém pensava nele
ansiosa e intensamente.
— Alguém
está à minha procura — disse em tom de espanto.
Rhodan
confirmou com um gesto.
— Acho
que é o homem chamado de Thér. Parece que tem uma informação
importante para mim. Chame-o.
Marshall
abriu a porta e saiu para o corredor. Ouviu passos deslocando-se por
uma galeria secundária que começava a poucos metros do lugar em que
se encontrava. Chamou-o pelo nome.
Dali
a um instante, Thér apareceu do corredor, fungando e suando.
Reconheceu Marshall e pôs as mãos para o alto.
— Graças
a Deus! — exclamou. — Finalmente conseguimos encontrá-lo.
Mas
logo estacou.
— O
senhor não acaba de me chamar pelo nome?
*
* *
Marshall
fez um gesto.
— Deixemos
isso para depois. O que houve?
Feriar
passou ao lado de Thér. Segurava na mão o bilhete que o mensageiro
lhe entregara.
— Achamos
que talvez o senhor poderia ajudar-nos a encontrar Perry. É muito
importante. Leia!
Marshall
leu as palavras escritas no bilhete e ergueu as sobrancelhas.
— Venham
comigo — pediu. — Perry está perto daqui.
Rhodan
leu a informação com toda atenção. Depois perguntou a Feriar:
— Tem
certeza de que não é uma cilada que estão armando para nós?
Feriar
deu de ombros.
— Não
faço a menor idéia. Apenas quis entregar-lhe o bilhete. A decisão
terá que ser sua.
Rhodan
franziu o cenho.
— Quem
mandou este bilhete? — perguntou.
— Não
sei.
— Pois
eu sei: foi Havan.
Feriar
arregalou os olhos.
— Havan?
— perguntou em tom de espanto. — Mas Havan e Belal estão
trabalhando de mãos dadas.
Rhodan
sorriu.
— Será
mesmo? Mas quem poderia conhecer as intenções de Belal, se não
fosse Havan?
Feriar
não respondeu. Thér relatou a observação que acabara de fazer na
galeria lateral.
— O
grupo de Belal levará cerca de quarenta e cinco minutos a pé para
percorrer a distância da saída do abrigo até o veículo — disse.
— Com o armamento de que dispõem não terão o menor trabalho em
abrir caminho. Estarão lá o mais tardar às vinte e nove horas.
Rhodan
confirmou com um gesto.
— Muito
bem. Vamos estragar a brincadeira deles. Bem que precisaremos de
auxílio quando tivermos colocado Belal e seu grupo fora de ação.
*
* *
A
planície apresentava o quadro vermelho-escuro de sempre, quando
Marshall e Rhodan se deslocavam em seus trajes transportadores a
baixa altura mas a grande velocidade, em direção ao jato espacial.
Ligaram
os campos de deflexão, para que Belal não tivesse a menor chance de
descobri-los antes que eles mesmos julgassem conveniente.
Belal
e seu grupo tinham uma vantagem considerável. Marshall e Rhodan só
os alcançaram cem metros antes do jato espacial, quando já se
agrupavam para o ataque.
Rhodan
viu que carregavam fuzis e morteiros leves. Os morteiros eram
operados por dois homens. Estes empilhavam a munição no capim e
colocavam os morteiros de forma a terem a linha de tiro livre.
Marshall
e Rhodan precipitaram-se pela comporta aberta e entraram na nave. O
mutante ficou deitado na comporta para manter Perry a par do que se
passava lá fora, já que a aparelhagem ótica não estava
funcionando. Enquanto isso Rhodan preparou o pesado radiador térmico
e ficou aguardando as indicações de Marshall.
Essas
indicações não seriam muito precisas. Ninguém conseguiria dirigir
uma arma desse tipo a olho nu de tal forma que acertasse exatamente
no alvo. Mas no caso do radiador de impulsos não era necessário que
a pontaria fosse muito exata. O raio térmico poderia abrir-se para
cobrir uma área maior. Além disso, o inimigo não possuía armas
equivalentes. Mesmo que não fosse posto fora de ação com o
primeiro tiro, o risco não seria muito grande.
*
* *
Feriar
e Thér viram de que maneira Belal e seu grupo abriram caminho pelo
abrigo.
Quando
Rhodan e Marshall conquistaram o abrigo de Sallon, Belal soubera
esconder em tempo as armas mais potentes juntamente com a guarda
pessoal no setor secreto em que ficava o laboratório. No abrigo
propriamente dito, só deixaram alguns fuzis e pistolas antiquadas.
Quando
os ocupantes do abrigo de Sallon viram Belal surgir com metade de sua
guarda pessoal, alguns homens mais arrojados procuraram detê-lo.
Havia um prêmio pela prisão de Belal, e não era só isto; Rhodan
soubera esclarecer os homens sobre o perigo que um ditador como Belal
representaria para a nova civilização de Isan.
Mas
Belal abriu caminho a tiros sem mostrar a menor contemplação. Os
poucos fuzis existentes em Sallon não estavam em condições de
enfrentar as armas automáticas trazidas pelos seus homens. Houve
alguns mortos e grande número de feridos. Depois, ninguém se
atreveu a cruzar o caminho de Belal, quanto mais detê-lo.
Quando
Feriar e Thér procuraram subir no elevador principal para seguir
Rhodan e Marshall, que haviam ido na frente, houve um contratempo:
todas as cabinas achavam-se ocupadas e em viagem. Demorou quinze
minutos até que conseguissem entrar numa que os levasse para cima.
Na
comporta de superfície, estavam os dois guardas que Rhodan mandara
colocar ali porque receava que Belal procurava apoderar-se do abrigo
de Sallon.
Belal
e os homens de seu grupo não deram a menor atenção aos guardas.
Passaram tranqüilamente. Os dois nem pensaram em impedi-los. Caso
interferissem, o resultado não teria sido nada agradável para eles.
Feriar
e Thér saíram da construção que abrigava a comporta e subiram a
colina em linha oblíqua, tomando a direção em que ficava a nave
espacial. Thér aguçou o ouvido, mas não ouvia o menor sinal de
luta.
— Gostaria
de saber... — disse em tom irritado, mas não conseguiu completar a
frase, porque a surpresa o deixou sem fôlego.
Haviam
chegado ao topo da colina e dispunham-se a ultrapassá-lo para descer
do outro lado, passando ao lado da antiga cidade de Fenomat, quando,
sem fazer o menor ruído, alguns homens se ergueram em meio ao capim.
No
primeiro instante Thér pensou que pertencessem ao grupo de Belal.
Mas depois ouviu uma risada esquisita e na luz vermelho-escura da
noite viu um homem pequeno e magro caminhar em sua direção.
— Vejam
só! Quem está aqui! — admirou-se o magricela em tom irônico,
aproximando-se. — Ah, é nosso querido Thér, o amigo do peito do
antigo e célebre membro do Conselho Killarog...
— Tome
cuidado! — retrucou Thér furioso. — Alguma coisa poderá
acontecer com você.
O
magricela recuou um passo e gritou:
— Amarrem
os dois!
Os
homens precipitaram-se sobre Thér e Feriar. Feriar logo percebeu que
não adiantava resistir. Mas Thér debateu-se furiosamente. Teria de
agir contra sua natureza se quisesse deixar que o prendessem sem
oferecer qualquer resistência. Afastou alguns homens a socos e, por
um instante, conseguiu abrir espaço em torno de si. Mas a
superioridade do inimigo era muito grande. Thér sentiu as cordas
cingirem seus braços e pernas.
— Então?
— perguntou o magricela. — Ainda está tão arrogante?
Thér
lançou-lhe um olhar furioso.
— Você
não perde por esperar, Havan. Um dia ainda ajustarei contas com
você.
Ao
que parecia a ameaça não o impressionava. Dirigindo-se para os
homens de seu grupo, disse:
— Vamos
levá-los. Façam com que não andem muito devagar. Temos de estar lá
por volta de meia-noite.
*
* *
— Gire
ligeiramente para a direita, senhor! — gritou Marshall. — Se
abrir bem o raio, poderá atingir dois morteiros ao mesmo tempo.
Rhodan
não se apressou. Sabia o que poderia acontecer se atirasse antes da
hora. Belal reconheceria a situação e se retiraria apressadamente.
E isso não correspondia aos planos de Rhodan. Era necessário
reduzir Belal à inatividade.
— Avise
quando estiverem a vinte metros — disse, dirigindo-se a Marshall.
*
* *
Belal
viu o veículo em forma de lentilha brilhar à luz vermelha. Ao
pensar no que pretendia fazer, chegou à conclusão de que não
poderia haver nenhum imprevisto ou surpresa desagradável. No seu
avanço já haviam deixado para trás o limite diante do qual o
estranho de nome Perry parará a fim de ligar o campo defensivo do
veículo. Portanto, a parede invisível tinha deixado de existir,
pois do contrário não poderiam ter avançado até o ponto em que se
encontravam.
Bastaria
permanecer no lugar em que estavam, apontar com os morteiros e
arrebentar o veículo.
Fariam
exatamente isso, se Belal não tivesse a intenção de prender os
estranhos vivos e apoderar-se dos instrumentos existentes no interior
do veículo.
“Poderia
haver alguma dificuldade em rastejar até a nave e dirigir-se aos
tripulantes com as armas em punho, pedindo-lhes que se rendessem?”,
pensou o ditador, depois monologou:
— Não,
não poderia haver nenhuma dificuldade.
Assim
mesmo, porém, Belal não se sentia muito bem. De repente teve suas
dúvidas sobre se poderia avaliar os estranhos por aquele idiota
nervoso e desmiolado que na noite anterior matara sem o menor
esforço.
O
ditador espantou suas indecisões com uma praga pesada.
— Adiante!
— gritou para seus homens. — Vamos avançar o último trecho.
Quando
deu essa ordem, não se encontravam a mais de trinta metros da nave.
Passaram a rastejar mais depressa e com muito menos cautela.
Belal
olhou para trás e viu bem perto de si os canos grossos de dois
morteiros que avançavam acima do capim. Sentiu-se satisfeito. Ao
menor sinal de resistência, os morteiros entrariam em ação.
Faltavam
vinte metros.
A
abertura escura da comporta desenhava-se em meio à parede da nave.
Não compreendia por que a deixaram aberta, mas não viu nisso um
sinal de perigo.
Mais
quinze metros!
Ergueu
ligeiramente o corpo e contemplou, com os olhos arregalados, o
veículo estranho. Subitamente um raio branco e ofuscante de vinte
centímetros de diâmetro saiu de uma abertura que ainda não havia
visto.
Belal
não teve tempo de fechar os olhos. A terrível claridade cegou-o.
Círculos coloridos dançavam diante de seus olhos. Não enxergava
nada.
Apavorado,
deixou-se cair para a frente e ficou deitado no capim. Mas no mesmo
instante, ouviu-se um ribombar e o chão foi sacudido. A pressão
levantou Belal e atirou-o alguns metros para o lado. Os estilhaços
assobiavam pelo ar e batiam no solo em torno dele.
Belal
ouviu gritos apavorados assim que o ruído cessou. Alguém disse que
dois morteiros haviam explodido juntamente com a munição. A seguir,
houve outra detonação, pois o raio energético branco e escaldante
atingiu mais um morteiro e a respectiva munição.
Belal
sentiu-se tomado pelo desespero. Levantou-se e continuou a correr na
mesma direção de onde havia rastejado. Segurava uma pistola
automática e atirava loucamente em torno de si, até esvaziar o
pente.
Ouviu
gritos. Não sabia se vinham dos homens de seu grupo ou dos
estranhos. Não via nada.
Corria,
cambaleava e tropeçava até que sua cabeça bateu uma coisa dura e
fria. O impacto atirou-o ao chão. Por algum tempo, ficou quase
inconsciente.
Quando
tentou erguer-se, teve a impressão de que uma bomba explodia no seu
cérebro. Viu um raio ofuscante, sentiu um estrondo e, logo após,
Belal estava fora de combate.
*
* *
A
luta havia chegado ao fim. Belal ficara inconsciente com um tiro
certeiro da arma de choque disparado por Marshall. Rhodan fez ir para
os ares o último dos quatro morteiros juntamente com a munição.
Depois
que os morteiros deixaram de representar um perigo, Rhodan abandonou
seu posto e saiu pela comporta. Disse que queria falar com uma pessoa
autorizada a negociar com ele. Uma vez que, naquele momento, Belal
não estava em condições de pôr em prática seu gênio obstinado,
o desejo de Perry encontrou ressonância imediata.
Rhodan
foi bastante lacônico. Pediu aos homens do grupo de Belal que
escolhessem entre a capitulação e o aniquilamento. Resolveram
aceitar a capitulação; não levaram mais de cinco minutos para
tomar essa decisão.
Belal,
que provavelmente não teria concordado, continuava inconsciente.
Os
soldados largaram as armas e, vigiados por Rhodan e Marshall, que
empunhavam as suas, sentaram bem próximos uns dos outros no capim
ressequido.
6
Quando
a porta do laboratório se abriu, Ivsera mal levantou a cabeça. Só
o grito de surpresa de Irvin lhe despertou a atenção.
Ergueu-se
da banqueta e fitou os dois homens que apareceram na porta.
Um
deles ela nunca havia visto. Parecia um idiota. Mas a pistola
automática destravada que apoiava no braço proibia a qualquer
pessoa que risse de sua estupidez.
Já
o outro homem Ivsera conhecia até bem demais. Fitava-a, seguia todos
os seus movimentos com os olhos atentos e exibia o sorriso presunçoso
e debochado que a química tanto odiava nele.
Era
Havan!
Havan
viu que Ivsera se assustou.
— Não
há nenhum motivo para ter medo — gritou em voz alta. — A senhora
sabe perfeitamente o que pode fazer pela sua segurança.
Ela
sabia. Mas, naquele momento, ainda estava certa de que não
precisaria pedir nada ao traidor. Perry estava por perto. Thér
também. Até Feriar poderia vir em seu auxílio.
— Dê
o fora o mais rápido que puder! — gritou furiosa para Havan. —
Do contrário será executado.
O
rosto de Havan contorceu-se numa careta.
— Será
mesmo? — perguntou e entrou no laboratório. — Esperei para fazer
esta visita até ter certeza de que todo o abrigo está em meu poder.
Olhe!
Fez
um sinal para o soldado parado à porta. O soldado transmitiu o sinal
a outra pessoa, e dali a alguns segundos Thér e Feriar foram
empurrados para dentro do laboratório, amarrados.
Ivsera
empalideceu. Naquele momento, não pensava em Perry: era um estranho,
e ninguém sabia o que pretendia fazer. Mas Irvin era um homem forte
e inteligente. Sob sua proteção, sentia-se segura. Por isso
pedira-lhe que permanecesse no laboratório, separando a roupa.
Havan
prendera Thér e Feriar.
“Segundo
afirma”,
pensou, “todo
o abrigo encontra-se em seu poder. Será que ainda resta alguma
esperança?”
Não
revelou o que se passava em sua mente. Continuou parada tranqüila
enquanto Havan caminhava em sua direção.
— Vá
para o inferno! — gritou furiosa.
O
traidor parou e fez um sinal para o soldado.
— Amarre-a!
— ordenou laconicamente.
*
* *
Laury
se sentiria muito mais à vontade se conhecesse algumas das pessoas
que agora a rodeavam. Todos pareciam preocupados com ela e com o
rato-castor ferido. Mas, a cada instante, via um rosto novo e
estranho, e isso a deixava irritada.
Não
ficou muito surpresa quando um homem armado entrou no recinto e a
examinou atentamente.
— O
que houve? — perguntou.
O
homem armado continuou a olhá-la.
— Pare
de me olhar desse jeito! — gritou. — O que está procurando por
aqui?
Laury
não passara pelo ligeiro treinamento especial que permitia a Rhodan
falar a língua desse mundo sem o menor sotaque. Laury expressava-se
em um arcônida polido que se usava em quase toda a Galáxia. Mas o
homem compreendeu.
Estou
procurando a senhora — respondeu o homem.
— Por
quê?
— Para
prendê-la.
Laury
levantou-se de um salto. No último instante, lembrou-se da arma que
trazia consigo. Mas antes que pudesse mover a mão, o homem
apontou-lhe a pistola e disse:
— Fique
bem quieta, senão atiro!
Laury
obedeceu. Lançou um olhar desesperado para o rato-castor, que jazia
imóvel sobre uma espécie de leito, no fundo do recinto. Gucky
dormia o sono de um ser completamente esgotado e não estava
percebendo nada do que se passava ao redor.
Laury
não sabia que se encontrava em poder de Havan. O traidor era agora o
senhor absoluto do abrigo de Fenomat.
*
* *
Rhodan
começou a impacientar-se porque Feriar e Thér não compareceram na
hora combinada.
— Tenho
uma sensação desagradável — disse em inglês, dirigindo-se a
Marshall.
— Não
devemos esquecer esse Havan. Quem sabe o que não andou tramando?
— Hum
— fez Marshall, olhando para o lado. — Podemos mandar embora essa
gente. Sem arma não representarão perigo para ninguém.
Rhodan
levantou-se de um salto.
— Está
bem. Avise-os. Tentarei entrar em contato com Laury.
Marshall
logo se desincumbiu de sua tarefa. Encostou o capacete de seu traje
transportador contra o capacete do prisioneiro que se encontrava mais
próximo e disse:
— Dêem
o fora, gente. Vocês estão livres. Procurem não aparecer mais em
má companhia.
O
homem transmitiu a notícia aos companheiros por meio do rádio de
capacete. Hesitaram um instante, pois não acreditavam na sua boa
sorte. Mas, depois de algum tempo, saíram correndo e desapareceram
em meio à noite vermelha.
Marshall
não se preocupou com eles. Procurariam chegar a um dos abrigos sem
serem vistos e ali se misturariam aos demais ocupantes. Uma vez que
não tinham armas, poderiam dar-se por satisfeitos caso ninguém os
reconhecesse como membros da guarda pessoal de Belal.
O
que devia causar maior preocupação era o fato de que Rhodan não
conseguia entrar em contato com a mutante pelo telecomunicador. Laury
não respondia.
Rhodan
enfiou no bolso o pequeno aparelho de telecomunicação e procurou
atingir Laury por via telepática. Laury era telepata, tal qual
Rhodan, que só possuía o dom em circunstâncias extremamente
favoráveis e em extensão reduzida; Marshall também possuía essa
faculdade. O chamado de Rhodan chegou-lhe apesar das camadas de terra
e concreto que teve de vencer.
Dali
a cinco minutos, Rhodan e Marshall sabiam o que estava acontecendo no
abrigo.
Laury,
Gucky e os outros prisioneiros mais importantes de Havan foram
trancados no laboratório químico-biológico. Não era proibido
conversar. Thér e Feriar contaram o que Havan lhes havia dito no
caminho.
Havan
convencera Belal a ceder-lhe metade de sua guarda pessoal, para que
pudesse apoderar-se do abrigo de Fenomat. Belal achara que o plano
era útil e viável. Além disso, tinha certeza de que metade de sua
guarda pessoal seria suficiente para conquistar o estranho veículo.
Belal
não sabia que o inimigo havia sido informado sobre seu plano. O
bilhete entregue pelo mensageiro de Havan preenchera duas finalidades
distintas: Belal foi eliminado, e os estranhos estavam fora do
abrigo, o que permitia a Havan agir livremente.
As
comunicações entre as duas cidades subterrâneas foram
interrompidas. Em Fenomat, Havan dominava a situação, e Laury
soubera que o traidor pretendia enviar um emissário a Rhodan, que
negociaria as condições para a libertação dos prisioneiros mais
importantes.
Perry
pediu a Laury que fizesse o que estava ao seu alcance para
libertar-se juntamente com os demais prisioneiros. A mutante não
possuía nenhuma arma, mas em compensação tinha o dom paramecânico
da desintegração. Rhodan recomendou o seguinte:
— Tenho
certeza absoluta de que Havan e seus homens nunca ouviram falar em
dons parapsicológicos e coisas semelhantes. Sua guerra nuclear
ocorreu há apenas oito anos, um tempo insuficiente para a formação
de mutantes. Mas não se esqueça de que mesmo um mutante não é
imune aos efeitos das balas. Procure não irritar Havan ou qualquer
dos seus homens. Arranje-se juntamente com os outros prisioneiros. No
momento, não podemos fazer nada por eles. Havan os mandaria matar
assim que soubesse que penetramos no abrigo. Só nos resta esperar o
auxílio que deverá vir da Terra.
*
* *
Laury
ficou conjeturando. Teve uma porção de idéias, refletiu sobre as
mesmas, abandonou-as e procurou outras. Só aos poucos, um plano
começou a surgir em sua mente.
A
maior dificuldade consistia no fato de que no próprio laboratório
havia três guardas. Ninguém estava impedido de falar com os outros
prisioneiros, mas os guardas faziam questão de ouvir o que se
conversava.
Laury
deitou de lado, para se aproximar de Ivsera. Por meio de olhares
comunicou-lhe que pretendia dizer-lhe alguma coisa que o guarda não
devia ouvir. A química respondeu com outro olhar. Parecia um tanto
surpresa e desconfiada.
A
mutante voltou a deitar de costas, fechou os olhos e concentrou-se.
Imaginou
encontrar-se diante da parede que separava o laboratório do
corredor. Procurou ver com os olhos de sua mente as saliências e
reentrâncias do concreto e do revestimento cinzento da parede.
Imaginou fresta após fresta, e finalmente ordenou ao cérebro que
ativasse o mecanismo que liberava as energias paramecânicas de seu
apêndice cerebral.
O
efeito foi tremendo.
Na
parede surgiu um furo da espessura de uma agulha. A tremenda pressão
das massas de terra logo o ampliou, transformando-o numa fenda. Dali
a alguns segundos, a parede cedeu numa extensão de dez metros. Com
um enorme estrondo, os blocos de concreto caíram no corredor,
seguidos pelo farfalhar da terra úmida e fria.
Imediatamente
os três guardas dirigiram-se à porta. Laury viu a terra marrom
entrar no corredor, só parando alguns metros adiante. A terra
obstruía metade da entrada. Os guardas engatinharam para fora e
gritaram por socorro.
Laury
voltou a deitar de lado.
— Procure
fazer com que alguém a leve até Havan — cochichou para Ivsera. —
Converse com ele, faça-lhe uma proposta. Quero que sua atenção
seja desviada ao menos por quinze minutos. Faça o possível para que
não deixe entrar ninguém no gabinete enquanto a senhora estiver com
ele. Entendido?
A
química fez um gesto afirmativo. Em seu rosto havia uma expressão
matreira. A tarefa, que Laury lhe atribuíra, foi a mais repugnante
possível.
Mas
não se opôs. Aquela mulher desconhecida seguia um objetivo bem
definido. Embora Ivsera não tivesse sido familiarizada com o plano,
estava plenamente convencida de ter de cumprir o que estava sendo
pedido.
A
salvação dependia disso; e na situação em que se encontravam a
salvação só poderia vir de uma pessoa desconhecida.
*
* *
Os
três guardas voltaram depois de algum tempo. Haviam constatado que
as comunicações com o resto do abrigo não foram interrompidas. A
terra que irrompeu no corredor só o obstruiu até a metade da
altura.
Um
grupo de prisioneiros estava carregando a terra em carrinhos e
removendo-a. Ninguém sabia informar do desmoronamento parcial.
Ivsera
chamou um dos guardas.
— Diga
a Havan que quero fazer-lhe uma oferta! — exclamou.
O
soldado sorriu.
— Qualquer
pessoa pode vir com esta conversa — disse em tom ingênuo.
— Faça
o que ela está pedindo — interveio um dos outros.
O
guarda retirou-se. Voltou depois de algum tempo, soltou as amarras de
Ivsera sem dizer uma única palavra e ajudou-a a levantar-se.
— Venha
comigo — ordenou.
A
jovem química lançou um olhar para a mulher desconhecida. Laury deu
uma piscadela. Ivsera deixou que a levassem.
O
quartel-general ficava no mesmo corredor, a cinco portas de
distância. Conforme ela supunha, estava cercado por uma espécie de
guarda pessoal. Mas, assim que foi introduzida no gabinete, Havan
mandou todos saírem juntamente com a guarda que a trouxera.
Sorriu
e convidou a jovem a sentar. Ele mesmo levantou-se e aproximou-se.
— Pelo
que vejo andou pensando no assunto — disse.
Ivsera
deu de ombros.
— Não
sei — respondeu. — O que exige para libertar as pessoas que foram
presas juntamente comigo?
Havan
soltou uma gargalhada.
— Exijo
a senhora.
Sentiu
um calafrio. Controlou-se e perguntou com a maior calma:
— Quem
me garante que o senhor cumprirá o acordo?
Ele
excitou-se.
— Se
quiser poderemos celebrar o acordo por escrito e assiná-lo na
presença de testemunhas.
“Ah,
velhaco!”,
pensou Ivsera enojada. “As
testemunhas seriam seus subordinados, e nunca se atreveriam a abrir a
boca caso deixasse de cumprir o acordo.”
Mas
fez de conta que estava refletindo sobre a proposta.
Em
algum lugar do abrigo ouviu-se um leve ribombo, mas nem Havan nem
Ivsera interessaram-se pelo ruído.
“Quinze
minutos”,
pensou Ivsera, concentrando-se ao máximo. “Terei
que distraí-lo por quinze minutos.”
Subitamente
a porta abriu-se e um guarda armado entrou correndo. Antes que
pudesse abrir a boca para transmitir seu relato, Havan gritou
furiosamente:
— Saia!
Quem lhe disse que pode entrar aqui sem fazer-se anunciar? Fora!
O
guarda hesitou, mas quando Havan puxou a arma e apontou-a para ele,
virou-se e saiu correndo.
*
* *
Assim
que o guarda levou Ivsera, Laury pôs-se a trabalhar.
Fez
desmoronar a parede lateral direita do laboratório. Os dois guardas
que ali permaneciam puseram-se a gritar e saíram precipitadamente
para o corredor.
Na
parede do laboratório havia uma abertura que dava passagem a uma
pessoa adulta e permitia a visão da sala contígua.
Laury
ainda fez desmoronar parte da parede oposta. Depois soltou as amarras
que a prendiam, fazendo simplesmente com que as mesmas se
dissolvessem. Os dois guardas ainda não haviam voltado. Só os
prisioneiros viram Laury levantar-se e atravessar a abertura que dava
para a sala contígua.
Laury
sentiu os pensamentos angustiados de Ivsera. Não podia estar longe.
Provavelmente encontrava-se umas três ou quatro salas adiante. Laury
atravessou a abertura da parede oposta e entrou num recinto escuro,
que parecia estar vazio.
Ouviu
gritos vindos de fora. Encostou o ouvido à outra parede e percebeu
que do outro lado tudo estava em silêncio.
Laury
concentrou-se e fez uma terceira abertura, através da qual penetrou
em outro recinto, que também estava escuro e vazio.
Os
pensamentos da química tornaram-se mais nítidos.
Esta
acabou acenando com a cabeça:
— Acho
que posso concordar — respondeu um tanto insegura, pois certamente
era o que Havan esperava dela. — Quer redigir o acordo?
Ele
ficou radiante. Pegou a mão de Ivsera, e esta deixou-se tocar a
contragosto e cheia de repugnância.
— Nunca
pensava que a senhora ainda chegaria a essa conclusão — balbuciou
Havan muito feliz. — Agora...
Soltou
a mão e correu para a escrivaninha atrás da qual estivera sentado.
Impaciente, abriu uma gaveta e tirou uma pilha de folhas de papel,
atirando-a sobre a escrivaninha. Pôs a mão no bolso, procurando uma
caneta.
Ivsera
assustou-se tanto quanto o próprio Havan quando de repente surgiu
uma fenda na parede da direita. A brecha estendeu-se do chão ao teto
e, poucos segundos depois, a parede desmoronou com um enorme
estrondo. Uma nuvem de poeira levantou-se e pedaços da parede voavam
pelo ar.
A
jovem levantou-se de um salto e pôs-se a gritar de medo. Havan
deixou-se cauda cadeira e rolou até a parede do lado oposto. Olhando
através da poeira, Ivsera viu que protegia a cabeça com os braços.
Sobre
os destroços da parede surgiu Laury, a mulher desconhecida.
Ivsera
fitou-a perplexa. Viu Laury fazer um sinal, mas não compreendia o
que ela queria.
Laury
apontou para Havan, que continuava deitado no chão, completamente
imóvel. Seus gestos tornaram-se cada vez mais impacientes.
Finalmente
Ivsera compreendeu. Com dois ou três passos rápidos, colocou-se
atrás de Havan. Antes que este percebesse o que estava acontecendo,
tirou a pistola de seu cinto, destravou-a e apontou-a contra ele.
— Levante!
— gritou. — Seu jogo está definitivamente findado.
O
resto foi fácil. Em meio à confusão geral Laury não teve a menor
dificuldade em libertar os outros prisioneiros que se encontravam no
laboratório. Thér, o velho impetuoso subjugou o guarda que tirara a
arma de choque da mutante. Só pelo ataque de Thér percebeu-se que
alguma coisa não estava em ordem com os prisioneiros.
Thér
usou a arma de choque, seguindo as instruções de Laury. Os guardas
que acorreram ao local desmaiaram na porta do laboratório.
Desistiram
da tentativa de apoderar-se novamente dos prisioneiros. A notícia de
que o próprio Havan se encontrava em poder destes quebrou as últimas
resistências entre os revoltosos. Perceberam que estavam perdendo o
controle da situação e procuraram exceder-se em demonstrações de
boa vontade para compensar o prejuízo que lhes poderia advir do fato
de se terem juntado a Havan.
Para
vencer a rebelião não houve necessidade de espalhar a sensacional
notícia. Um veículo aéreo gigantesco e nunca visto estava pousando
sobre a área urbana de Fenomat, para ajudar Laury e os demais
ex-prisioneiros a assumirem o controle total da situação.
*
* *
A
Terra enviara a Drusus, uma nave que acabara de entrar em serviço.
Era um veículo espacial esférico e seu diâmetro media mil e
quinhentos metros. Nunca antes se vira em Isan um engenho gigantesco
como este.
Seguindo
as instruções de Rhodan, o comandante da Drusus só trouxera a
tripulação indispensável e o armamento essencial. O resto do
espaço disponível foi ocupado com caixas de mantimentos.
A
bordo havia vinte mil megatons
de alimentos. Aproximadamente metade dessa quantidade consistia em
preparados alimentícios altamente concentrados. Era fácil calcular
que essas provisões dariam para nutrir os cem mil habitantes de Isan
pelo menos durante um século.
E
um século era um tempo suficiente para que mesmo as radiações
perigosas e duradouras do estrôncio-90 baixassem a um nível
inofensivo. Dentro de um século, os habitantes de Isan poderiam
iniciar sem o menor risco a produção de alimentos naturais. Até lá
teriam de contentar-se com o presente recebido da Terra.
A
Drusus trouxe outra coisa: más notícias. O comandante Harrings, que
conduzira a enorme nave da Terra ao centro da Via Láctea,
imediatamente após o pouso solicitou uma entrevista com Rhodan, que
logo lhe foi concedida.
Perry
foi informado de que em todos os setores da Galáxia as patrulhas
terranas haviam descoberto uma atividade extraordinária das naves de
Árcon e de outras procedências. A movimentação foi registrada
segundo a rota e a data e os dados foram introduzidos no grande
cérebro positrônico de Terrânia. O gigantesco aparelho, que também
dispunha dos últimos relatórios que Rhodan enviara de Tolimon,
concluiu com uma alta dose de probabilidade que o Império Arcônida
tivera sua atenção despertada pelos acontecimentos, e que ligava os
mesmos a uma pessoa chamada Rhodan, subitamente desaparecida há meio
século. Na opinião do cérebro positrônico, os acontecimentos que
se desenrolaram em Tolimon, e especialmente a maneira pela qual estes
se sucederam, bastaram para que o sistema de combinação de dados de
Árcon chegasse à conclusão quase inequívoca de que seu causador
fora Rhodan.
A
pausa de descanso que Perry Rhodan havia conseguido há cinqüenta
anos para si e para a Terra, induzindo em erro a frota dos
saltadores, havia chegado ao fim.
O
Império saíra novamente em busca da Terra.
*
* *
Para
Rhodan essa descoberta significava que teria de encerrar quanto antes
sua permanência em Isan e pôr-se a caminho da Terra.
A
despedida precipitada foi muito difícil para ele. Depois de
envolver-se por acaso nos acontecimentos de Isan, tinha na mente mais
alguns planos, que incluíam a estabilização da situação em
condições humanas e dignas.
Além
disso, Rhodan desejava satisfazer sua curiosidade. No primeiro dia,
sentira-se surpreendido ao notar que os habitantes de Isan falavam o
arcônida, embora fosse um arcônida arcaico. Supunha que fossem
descendentes dos emigrantes arcônidas, que na primeira fase da
colonização, ou seja, há cerca de dez mil anos, penetraram até o
centro da Via Láctea. Provavelmente as comunicações com o mundo de
origem foram interrompidas pouco depois. A maravilhosa tecnologia
arcônida caiu no esquecimento e a população de Isan regrediu à
barbárie.
No
início da grande guerra, atingira aproximadamente o mesmo nível
cultural em que a Terra se encontrava há cem anos.
Rhodan
tinha certeza de que nos arquivos dos abrigos haveria alguma
informação sobre a ascendência do homem de Isan. Mas não possuía
tempo para vasculhar arquivos. A Terra chamava.
Rhodan
mandou que duas naves auxiliares saíssem da Drusus e fossem
tripuladas com dez homens cada uma. Os pequenos veículos espaciais
foram equipados com armas que garantiam à pequena tripulação uma
superioridade absoluta sobre tudo que vivia em Isan. Os vinte homens
ainda se encarregaram de providenciar a distribuição justa e
sensata dos mantimentos trazidos pela Drusus.
Rhodan
designou Feriar, Thér e Ivsera como comissários-chefes dos abrigos
de Fenomat e Sallon, e ordenou aos tripulantes das duas naves
auxiliares que fizessem tudo que estivesse ao alcance deles para
apoiá-los no desempenho de suas funções. Encareceu aos três
chefes que se esforçassem a fim de não se perpetuarem no governo
mas fossem substituídos quanto antes por um conselho eleito
regularmente. Ivsera disse:
— Quando
o senhor apareceu, eu estava cansada de não fazer nada e não me
conformava mais com a idéia de que a mulher não deve intrometer-se
na política. Mas nunca teria sonhado com a possibilidade de que,
dentro de poucos dias, poderia atingir o posto de chefe do abrigo.
Rhodan
sorriu. Antes que pudesse responder, Thér interveio na palestra:
— Não
seja tão convencida, minha filha. Afinal, a senhora não está
sozinha.
— Nem
quero continuar nisso por muito tempo — exclamou Ivsera. — Basta
que tenha chegado até lá.
Rhodan
sorriu.
— Quer
saber de uma coisa? — disse. — Tenho a impressão de que talvez a
senhora possua uma visão um tanto romântica de tudo isto. Não
quero interferir em sua vida privada, mas acho bem provável que a
senhora sinta falta de um homem que, vez por outra, lhe endireite as
idéias e lhe mostre como realmente são as coisas.
Ivsera
baixou a cabeça e olhou para o chão.
— É
o que vivo dizendo! — disse Thér.
— De
alguns dias para cá, ou seja, desde o dia em que me tratou como um
escravo no laboratório, procuro atrair sua atenção para minha
pessoa. Acha que se dignou a olhar-me uma única vez com uma
expressão amável?
A
cena terminou numa série de estrondosas gargalhadas partidas de
Rhodan e Feriar. Thér e Ivsera continuaram tão sérios como parecia
ser a intenção das últimas palavras ditas por ele.
*
* *
Poucas
horas depois, a Drusus decolou.
No
momento em que a Drusus penetrou no hiperespaço, Rhodan deixou para
trás um mundo e uma experiência que já pertenciam ao passado.
Tinha agora coisas muito mais importantes pela frente.
Já
os homens de Isan haviam assistido a um milagre.
A
população do planeta chegara ao estágio da extinção. Foi graças
a um punhado de desconhecidos que o extermínio pôde ser evitado e a
população teve as esperanças renovadas. Era um punhado de
desconhecidos que dispunha de recursos misteriosos e apavorantes, e
que não recuava diante de nenhum esforço para alcançar as soluções
justas.
Instalaram
a ordem e acabaram com a fome. Coisas que poucas semanas antes
qualquer um consideraria impossível, tornaram-se possíveis: fizeram
com que o planeta despertasse para uma vida nova carregada de
esperanças.
Isan
nunca se esqueceria dos desconhecidos.
A
veneração incluiu o morto cujo túmulo solitário ficava no lugar
em que a nave espacial dos estranhos pousou pela primeira vez, e que
nada tinha a ver com os acontecimentos que se desenrolaram em Isan.
Era o conde Rodrigo de Berceo, o homem que correu para a morte quando
tentava ajudar Rhodan.
*
* *
*
*
*
Após
solucionar o problema Isan, Rhodan terá de pensar com todo o cuidado
no futuro da Terra, pois Árcon a está procurando...
Em
O
Duelo, título
do próximo volume, Perry viverá outra estupenda aventura.

Nenhum comentário:
Postar um comentário