segunda-feira, 11 de março de 2013

P-053 - Os Condenados de Isan - Kurt Mahr [parte 3]


Rhodan tinha certeza de que o inimigo não se limitaria ao ataque tão habilmente lançado contra a nave. Juntamente com Laury levou o rato-castor ferido ao abrigo de Fenomat, pois acreditava que lá as condições de segurança seriam melhores. Laury permaneceu em companhia de Gucky, para continuar a cuidar dele.
O próximo passo de Rhodan consistiu em examinar a saída da galeria pela qual Belal, Havan e os dois soldados se haviam aproximado do jato espacial. Não perdeu tempo com a portinhola, que possuía um fecho bastante complicado; removeu o obstáculo com o desintegrador.
Verificou que do outro lado da portinhola a galeria estava obstruída numa extensão de pelo menos cem metros. Para o desintegrador esses metros de entulho não representavam nada. Mas Rhodan tinha certeza de que Belal postara seus homens do outro lado dos escombros.
Por isso preferiu voltar para junto de Marshall que, depois de sua descoberta na usina energética do abrigo de Sallon, não abandonara seu posto.
O jato espacial ficou vazio e sem vigilância. Mas Rhodan gastara o tempo necessário em expedir uma mensagem de hiper-rádio à Terra, para solicitar o envio de uma nave espacial. A mensagem, fortemente condensada, ficou limitada a uma duração de dois milionésimos de segundo. A probabilidade de que alguma pessoa a decodificasse indevidamente era praticamente igual a zero. Em sua mensagem, Rhodan indicou a posição galáctica de Isan e pediu que uma nave viesse carregada de mantimentos até o limite de sua capacidade.

* * *

De pé diante da retorta de destilação, Feriar contemplava o líquido marrom-esverdeado que borbulhava ininterruptamente sobre uma chama de gás. Vapores escuros eram expelidos para a serpentina de condensação. Do outro lado do aparelho, um líquido límpido e inodoro caía numa vasilha.
Ivsera estava muito ocupada. Feriar interessava-se pela química, especialmente por uma química tão nutritiva como a que estava sendo praticada ali, e bem que gostaria de formular algumas perguntas.
Acontece que nenhum dos peritos, que eram Irvin e Ivsera, tinha tempo para ele. Thér talvez tivesse, embora continuasse a martirizar-se, classificando as peças de roupa e empilhando-as aqui e ali. Porém Thér entendia tão pouco de química quanto o próprio capitão.
Enquanto Feriar ainda contemplava o líquido borbulhante, a porta do laboratório abriu-se e alguém gritou:
Aqui está uma pessoa que quer dialogar com um estranho chamado Perry. Caso não seja possível localizá-lo, o homem quer falar com Feriar ou Ivsera.
Ivsera respondeu sem interromper o trabalho.
Mande-o falar com Feriar. Feriar, o senhor quer fazer isso por mim?
Feriar estava curioso. Foi até a porta e viu do lado de fora a pessoa que o chamara. Tratava-se de um homem robusto de rosto zangado. Envergava as poucas vestes que eram usadas por todos os homens de Fenomat e ultimamente também de Sallon.
Não trazia nenhuma arma. Feriar nunca o havia visto.
Sabe onde está o estranho? — perguntou o homem.
O capitão sacudiu a cabeça.
Não; mas posso descobrir.
O homem robusto tirou e entregou a Feriar uma folha de papel de dentro do único bolso de sua vestimenta, que parecia uma bermuda.
Pois procure — disse em tom áspero. — Leia isto e conclua por si mesmo se o assunto é importante.
Antes que Feriar pudesse recuperar-se do espanto, o homem robusto deu-lhe as costas e foi-se afastando pelo corredor. Feriar desdobrou o papel e leu:
Hoje de noite, às 29 horas, Belal tentará apoderar-se do veículo dos estranhos juntamente com sua tripulação.
Estas palavras haviam sido gravadas por uma máquina de escrever cartas. O papel não trazia assinatura.
Feriar leu o texto duas vezes. Depois procurou descobrir o mensageiro que lhe trouxera o bilhete.
Onde está? — perguntou perplexo.
Desceu por ali — respondeu o homem.
Vá atrás dele e traga-o de volta — ordenou Feriar.
O homem saiu correndo.
Feriar voltou ao laboratório e mostrou o bilhete a Ivsera que leu e imediatamente interrompeu a destilação já iniciada.
Precisamos localizar Perry — disse em tom sério. — Isto é muito importante. Pelo que sei, sua nave sofreu avarias graves. Quase não tem armas para defender-se.
Está certo — admitiu Feriar. — Mas onde poderemos encontrá-lo?
Provavelmente na nave.
E se não estiver lá? Nesse caso um de nós ficará por lá e esperará até que Belal apareça e o prenda?
Ivsera pôs-se a refletir.
Em Sallon há um amigo dele chamado Marshall. Se conseguirmos avisá-lo, ele se comunicará com Perry — disse a química.
Feriar concordou com um gesto.
Muito bem. Continue no seu trabalho. Procurarei encontrar Marshall.
Naquele instante, entrou o homem que Feriar mandara atrás do mensageiro.
O homem desapareceu — falou arfando.
O capitão tranqüilizou-o com um gesto.
Está bem. Devia ter-me lembrado disso antes.
Thér acompanhara a palestra. Interrompeu seu trabalho e aproximou-se de Feriar.
Não sei, não — disse em tom contrariado. — Tenho a impressão de que qualquer pessoa saberá classificar e empilhar roupas melhor que eu. Não quer deixar que eu vá a Sallon?
Feriar franziu a testa.
O senhor nem sequer tem uma arma. O que acontecerá se alguma coisa não der certo em Sallon?
É verdade — disse Thér com um sorriso irônico. — Poderia dar-me sua arma.
Ivsera sorriu.
Vão os dois — aconselhou. — Provavelmente terão de procurar Marshall, e quatro olhos sempre enxergam mais que dois.
Thér fez uma mesura irônica.
Desde que a conheço sei que a senhora é uma menina inteligente — disse em tom solene.

* * *

Daqui em diante continua em linha reta! — exclamou Marshall.
Rhodan descansou a pesada arma e olhou para dentro do canal com os cabos que o último tiro do desintegrador pusera à mostra.
Qual é a direção? — perguntou. Marshall pôs-se a refletir.
Já conheço a planta da situação do abrigo de cor. Diria que, se o tubo com os cabos não descreve outra curva, o esconderijo de Belal fica dois quilômetros ao nordeste da galeria principal, perto do rio Ovial.
Por que justamente lá? — perguntou Rhodan perplexo.
Não teve necessidade de aguardar a resposta, pois percebeu nitidamente os pensamentos de Marshall:
Porque Belal precisa de abastecimento de água. E este será tanto mais fácil quanto mais perto estiver do rio.
Rhodan mediu o tubo do elevador. Era retangular e achatado, com cerca de cinqüenta centímetros de largura por dez de altura. Teria que ser ampliado antes de dar passagem ao esconderijo de Belal.
Será que não seria melhor aguardarmos a chegada de nossa nave de guerra? — perguntou Rhodan. — Se calcularmos todos os imprevistos, a demora será de um dia e meio, no máximo. Gostaria de dispor de mais algumas pessoas antes de atravessar dois quilômetros de terra.
Marshall fez um gesto afirmativo.
Acontece que não sabemos o que Belal poderá tramar nesse meio tempo, não acha?
Rhodan sorriu.
Exatamente; e não devemos esquecer-nos de Havan.

* * *

Vinte e oito horas — resmungou Thér. — Já é tempo de encontrarmos Marshall.
Feriar olhou em torno, muito nervoso. Já haviam recebido quinze informações diferentes sobre o paradeiro de Marshall, seguiram todas elas e não o encontraram.
Parecia ter desaparecido. Nas últimas duas horas, ninguém vira nem a ele, nem a Perry.
Já haviam subido do primeiro pavimento do abrigo até o 35o. Lamentavam que Perry não julgara necessário entregar-lhes um dos rádios que usava para comunicar-se com seus homens.
Estavam caminhando por uma estreita galeria secundária, pouco iluminada, quando Thér subitamente pegou o braço de Feriar, que caminhava à frente, e o puxou até a parede.
O quê...? — reclamou Feriar.
Quieto! — cochichou Thér. — Olhe ali na frente.
Thér enxergava melhor que Feriar. Vira a fenda estreita que de repente se abriu na parede do lado direito. Juntamente com Feriar viu esta ampliar-se numa abertura que tinha a altura de um homem em pé; ainda notou que dois homens bem armados saíam cautelosamente da abertura.
Thér e Feriar mantinham-se junto à parede, na sombra de duas lâmpadas fracas.
Encontravam-se pelo menos a cinqüenta metros da misteriosa abertura. Thér tinha certeza de que os dois homens não poderiam vê-los.
Um dos soldados virou-se e fez um sinal para dentro da abertura. Foi para o lado e deixou que mais cinqüenta homens armados passassem por ele e entrassem no corredor.
O último era um homem baixo, gordo e calvo: Belal.
Thér sentiu que Feriar tremia atrás dele.
Calma! — cochichou. — Por aqui não podemos fazer nada contra ele.
Caminhando em meio aos seus soldados, o ditador marchou na direção oposta. Thér e Feriar acompanharam-no com os olhos, até que o grupo desapareceu numa curva.
Poucos segundos depois, ouviram-se gritos violentos, um matraquear metálico e o som de tiros.
Belal está abrindo caminho! — fungou Thér. — Quem dera que soubéssemos onde está o estranho.

* * *

Marshall havia alargado o tubo de cabos numa extensão de cem metros o suficiente para que um homem alto pudesse caminhar em seu interior. Quando Rhodan o chamou, estava fazendo uma pausa para descansar os braços que seguravam o desintegrador.
O chefe dos mutantes correu o caminho de volta.
Preste atenção! — pediu Rhodan no momento em que Marshall descia do tubo de cabos para o recinto amplo que abrigava a usina energética. — Não está percebendo nada?
Marshall concentrou-se. Sentiu que nas proximidades alguém pensava nele ansiosa e intensamente.
Alguém está à minha procura — disse em tom de espanto.
Rhodan confirmou com um gesto.
Acho que é o homem chamado de Thér. Parece que tem uma informação importante para mim. Chame-o.
Marshall abriu a porta e saiu para o corredor. Ouviu passos deslocando-se por uma galeria secundária que começava a poucos metros do lugar em que se encontrava. Chamou-o pelo nome.
Dali a um instante, Thér apareceu do corredor, fungando e suando. Reconheceu Marshall e pôs as mãos para o alto.
Graças a Deus! — exclamou. — Finalmente conseguimos encontrá-lo.
Mas logo estacou.
O senhor não acaba de me chamar pelo nome?

* * *

Marshall fez um gesto.
Deixemos isso para depois. O que houve?
Feriar passou ao lado de Thér. Segurava na mão o bilhete que o mensageiro lhe entregara.
Achamos que talvez o senhor poderia ajudar-nos a encontrar Perry. É muito importante. Leia!
Marshall leu as palavras escritas no bilhete e ergueu as sobrancelhas.
Venham comigo — pediu. — Perry está perto daqui.
Rhodan leu a informação com toda atenção. Depois perguntou a Feriar:
Tem certeza de que não é uma cilada que estão armando para nós?
Feriar deu de ombros.
Não faço a menor idéia. Apenas quis entregar-lhe o bilhete. A decisão terá que ser sua.
Rhodan franziu o cenho.
Quem mandou este bilhete? — perguntou.
Não sei.
Pois eu sei: foi Havan.
Feriar arregalou os olhos.
Havan? — perguntou em tom de espanto. — Mas Havan e Belal estão trabalhando de mãos dadas.
Rhodan sorriu.
Será mesmo? Mas quem poderia conhecer as intenções de Belal, se não fosse Havan?
Feriar não respondeu. Thér relatou a observação que acabara de fazer na galeria lateral.
O grupo de Belal levará cerca de quarenta e cinco minutos a pé para percorrer a distância da saída do abrigo até o veículo — disse. — Com o armamento de que dispõem não terão o menor trabalho em abrir caminho. Estarão lá o mais tardar às vinte e nove horas.
Rhodan confirmou com um gesto.
Muito bem. Vamos estragar a brincadeira deles. Bem que precisaremos de auxílio quando tivermos colocado Belal e seu grupo fora de ação.

* * *

A planície apresentava o quadro vermelho-escuro de sempre, quando Marshall e Rhodan se deslocavam em seus trajes transportadores a baixa altura mas a grande velocidade, em direção ao jato espacial.
Ligaram os campos de deflexão, para que Belal não tivesse a menor chance de descobri-los antes que eles mesmos julgassem conveniente.
Belal e seu grupo tinham uma vantagem considerável. Marshall e Rhodan só os alcançaram cem metros antes do jato espacial, quando já se agrupavam para o ataque.
Rhodan viu que carregavam fuzis e morteiros leves. Os morteiros eram operados por dois homens. Estes empilhavam a munição no capim e colocavam os morteiros de forma a terem a linha de tiro livre.
Marshall e Rhodan precipitaram-se pela comporta aberta e entraram na nave. O mutante ficou deitado na comporta para manter Perry a par do que se passava lá fora, já que a aparelhagem ótica não estava funcionando. Enquanto isso Rhodan preparou o pesado radiador térmico e ficou aguardando as indicações de Marshall.
Essas indicações não seriam muito precisas. Ninguém conseguiria dirigir uma arma desse tipo a olho nu de tal forma que acertasse exatamente no alvo. Mas no caso do radiador de impulsos não era necessário que a pontaria fosse muito exata. O raio térmico poderia abrir-se para cobrir uma área maior. Além disso, o inimigo não possuía armas equivalentes. Mesmo que não fosse posto fora de ação com o primeiro tiro, o risco não seria muito grande.
* * *

Feriar e Thér viram de que maneira Belal e seu grupo abriram caminho pelo abrigo.
Quando Rhodan e Marshall conquistaram o abrigo de Sallon, Belal soubera esconder em tempo as armas mais potentes juntamente com a guarda pessoal no setor secreto em que ficava o laboratório. No abrigo propriamente dito, só deixaram alguns fuzis e pistolas antiquadas.
Quando os ocupantes do abrigo de Sallon viram Belal surgir com metade de sua guarda pessoal, alguns homens mais arrojados procuraram detê-lo. Havia um prêmio pela prisão de Belal, e não era só isto; Rhodan soubera esclarecer os homens sobre o perigo que um ditador como Belal representaria para a nova civilização de Isan.
Mas Belal abriu caminho a tiros sem mostrar a menor contemplação. Os poucos fuzis existentes em Sallon não estavam em condições de enfrentar as armas automáticas trazidas pelos seus homens. Houve alguns mortos e grande número de feridos. Depois, ninguém se atreveu a cruzar o caminho de Belal, quanto mais detê-lo.
Quando Feriar e Thér procuraram subir no elevador principal para seguir Rhodan e Marshall, que haviam ido na frente, houve um contratempo: todas as cabinas achavam-se ocupadas e em viagem. Demorou quinze minutos até que conseguissem entrar numa que os levasse para cima.
Na comporta de superfície, estavam os dois guardas que Rhodan mandara colocar ali porque receava que Belal procurava apoderar-se do abrigo de Sallon.
Belal e os homens de seu grupo não deram a menor atenção aos guardas. Passaram tranqüilamente. Os dois nem pensaram em impedi-los. Caso interferissem, o resultado não teria sido nada agradável para eles.
Feriar e Thér saíram da construção que abrigava a comporta e subiram a colina em linha oblíqua, tomando a direção em que ficava a nave espacial. Thér aguçou o ouvido, mas não ouvia o menor sinal de luta.
Gostaria de saber... — disse em tom irritado, mas não conseguiu completar a frase, porque a surpresa o deixou sem fôlego.
Haviam chegado ao topo da colina e dispunham-se a ultrapassá-lo para descer do outro lado, passando ao lado da antiga cidade de Fenomat, quando, sem fazer o menor ruído, alguns homens se ergueram em meio ao capim.
No primeiro instante Thér pensou que pertencessem ao grupo de Belal. Mas depois ouviu uma risada esquisita e na luz vermelho-escura da noite viu um homem pequeno e magro caminhar em sua direção.
Vejam só! Quem está aqui! — admirou-se o magricela em tom irônico, aproximando-se. — Ah, é nosso querido Thér, o amigo do peito do antigo e célebre membro do Conselho Killarog...
Tome cuidado! — retrucou Thér furioso. — Alguma coisa poderá acontecer com você.
O magricela recuou um passo e gritou:
Amarrem os dois!
Os homens precipitaram-se sobre Thér e Feriar. Feriar logo percebeu que não adiantava resistir. Mas Thér debateu-se furiosamente. Teria de agir contra sua natureza se quisesse deixar que o prendessem sem oferecer qualquer resistência. Afastou alguns homens a socos e, por um instante, conseguiu abrir espaço em torno de si. Mas a superioridade do inimigo era muito grande. Thér sentiu as cordas cingirem seus braços e pernas.
Então? — perguntou o magricela. — Ainda está tão arrogante?
Thér lançou-lhe um olhar furioso.
Você não perde por esperar, Havan. Um dia ainda ajustarei contas com você.
Ao que parecia a ameaça não o impressionava. Dirigindo-se para os homens de seu grupo, disse:
Vamos levá-los. Façam com que não andem muito devagar. Temos de estar lá por volta de meia-noite.

* * *

Gire ligeiramente para a direita, senhor! — gritou Marshall. — Se abrir bem o raio, poderá atingir dois morteiros ao mesmo tempo.
Rhodan não se apressou. Sabia o que poderia acontecer se atirasse antes da hora. Belal reconheceria a situação e se retiraria apressadamente. E isso não correspondia aos planos de Rhodan. Era necessário reduzir Belal à inatividade.
Avise quando estiverem a vinte metros — disse, dirigindo-se a Marshall.

* * *

Belal viu o veículo em forma de lentilha brilhar à luz vermelha. Ao pensar no que pretendia fazer, chegou à conclusão de que não poderia haver nenhum imprevisto ou surpresa desagradável. No seu avanço já haviam deixado para trás o limite diante do qual o estranho de nome Perry parará a fim de ligar o campo defensivo do veículo. Portanto, a parede invisível tinha deixado de existir, pois do contrário não poderiam ter avançado até o ponto em que se encontravam.
Bastaria permanecer no lugar em que estavam, apontar com os morteiros e arrebentar o veículo.
Fariam exatamente isso, se Belal não tivesse a intenção de prender os estranhos vivos e apoderar-se dos instrumentos existentes no interior do veículo.
Poderia haver alguma dificuldade em rastejar até a nave e dirigir-se aos tripulantes com as armas em punho, pedindo-lhes que se rendessem?”, pensou o ditador, depois monologou:
Não, não poderia haver nenhuma dificuldade.
Assim mesmo, porém, Belal não se sentia muito bem. De repente teve suas dúvidas sobre se poderia avaliar os estranhos por aquele idiota nervoso e desmiolado que na noite anterior matara sem o menor esforço.
O ditador espantou suas indecisões com uma praga pesada.
Adiante! — gritou para seus homens. — Vamos avançar o último trecho.
Quando deu essa ordem, não se encontravam a mais de trinta metros da nave. Passaram a rastejar mais depressa e com muito menos cautela.
Belal olhou para trás e viu bem perto de si os canos grossos de dois morteiros que avançavam acima do capim. Sentiu-se satisfeito. Ao menor sinal de resistência, os morteiros entrariam em ação.
Faltavam vinte metros.
A abertura escura da comporta desenhava-se em meio à parede da nave. Não compreendia por que a deixaram aberta, mas não viu nisso um sinal de perigo.
Mais quinze metros!
Ergueu ligeiramente o corpo e contemplou, com os olhos arregalados, o veículo estranho. Subitamente um raio branco e ofuscante de vinte centímetros de diâmetro saiu de uma abertura que ainda não havia visto.
Belal não teve tempo de fechar os olhos. A terrível claridade cegou-o. Círculos coloridos dançavam diante de seus olhos. Não enxergava nada.
Apavorado, deixou-se cair para a frente e ficou deitado no capim. Mas no mesmo instante, ouviu-se um ribombar e o chão foi sacudido. A pressão levantou Belal e atirou-o alguns metros para o lado. Os estilhaços assobiavam pelo ar e batiam no solo em torno dele.
Belal ouviu gritos apavorados assim que o ruído cessou. Alguém disse que dois morteiros haviam explodido juntamente com a munição. A seguir, houve outra detonação, pois o raio energético branco e escaldante atingiu mais um morteiro e a respectiva munição.
Belal sentiu-se tomado pelo desespero. Levantou-se e continuou a correr na mesma direção de onde havia rastejado. Segurava uma pistola automática e atirava loucamente em torno de si, até esvaziar o pente.
Ouviu gritos. Não sabia se vinham dos homens de seu grupo ou dos estranhos. Não via nada.
Corria, cambaleava e tropeçava até que sua cabeça bateu uma coisa dura e fria. O impacto atirou-o ao chão. Por algum tempo, ficou quase inconsciente.
Quando tentou erguer-se, teve a impressão de que uma bomba explodia no seu cérebro. Viu um raio ofuscante, sentiu um estrondo e, logo após, Belal estava fora de combate.

* * *

A luta havia chegado ao fim. Belal ficara inconsciente com um tiro certeiro da arma de choque disparado por Marshall. Rhodan fez ir para os ares o último dos quatro morteiros juntamente com a munição.
Depois que os morteiros deixaram de representar um perigo, Rhodan abandonou seu posto e saiu pela comporta. Disse que queria falar com uma pessoa autorizada a negociar com ele. Uma vez que, naquele momento, Belal não estava em condições de pôr em prática seu gênio obstinado, o desejo de Perry encontrou ressonância imediata.
Rhodan foi bastante lacônico. Pediu aos homens do grupo de Belal que escolhessem entre a capitulação e o aniquilamento. Resolveram aceitar a capitulação; não levaram mais de cinco minutos para tomar essa decisão.
Belal, que provavelmente não teria concordado, continuava inconsciente.
Os soldados largaram as armas e, vigiados por Rhodan e Marshall, que empunhavam as suas, sentaram bem próximos uns dos outros no capim ressequido.
6



Quando a porta do laboratório se abriu, Ivsera mal levantou a cabeça. Só o grito de surpresa de Irvin lhe despertou a atenção.
Ergueu-se da banqueta e fitou os dois homens que apareceram na porta.
Um deles ela nunca havia visto. Parecia um idiota. Mas a pistola automática destravada que apoiava no braço proibia a qualquer pessoa que risse de sua estupidez.
Já o outro homem Ivsera conhecia até bem demais. Fitava-a, seguia todos os seus movimentos com os olhos atentos e exibia o sorriso presunçoso e debochado que a química tanto odiava nele.
Era Havan!
Havan viu que Ivsera se assustou.
Não há nenhum motivo para ter medo — gritou em voz alta. — A senhora sabe perfeitamente o que pode fazer pela sua segurança.
Ela sabia. Mas, naquele momento, ainda estava certa de que não precisaria pedir nada ao traidor. Perry estava por perto. Thér também. Até Feriar poderia vir em seu auxílio.
Dê o fora o mais rápido que puder! — gritou furiosa para Havan. — Do contrário será executado.
O rosto de Havan contorceu-se numa careta.
Será mesmo? — perguntou e entrou no laboratório. — Esperei para fazer esta visita até ter certeza de que todo o abrigo está em meu poder. Olhe!
Fez um sinal para o soldado parado à porta. O soldado transmitiu o sinal a outra pessoa, e dali a alguns segundos Thér e Feriar foram empurrados para dentro do laboratório, amarrados.
Ivsera empalideceu. Naquele momento, não pensava em Perry: era um estranho, e ninguém sabia o que pretendia fazer. Mas Irvin era um homem forte e inteligente. Sob sua proteção, sentia-se segura. Por isso pedira-lhe que permanecesse no laboratório, separando a roupa.
Havan prendera Thér e Feriar.
Segundo afirma”, pensou, “todo o abrigo encontra-se em seu poder. Será que ainda resta alguma esperança?
Não revelou o que se passava em sua mente. Continuou parada tranqüila enquanto Havan caminhava em sua direção.
Vá para o inferno! — gritou furiosa.
O traidor parou e fez um sinal para o soldado.
Amarre-a! — ordenou laconicamente.

* * *

Laury se sentiria muito mais à vontade se conhecesse algumas das pessoas que agora a rodeavam. Todos pareciam preocupados com ela e com o rato-castor ferido. Mas, a cada instante, via um rosto novo e estranho, e isso a deixava irritada.
Não ficou muito surpresa quando um homem armado entrou no recinto e a examinou atentamente.
O que houve? — perguntou.
O homem armado continuou a olhá-la.
Pare de me olhar desse jeito! — gritou. — O que está procurando por aqui?
Laury não passara pelo ligeiro treinamento especial que permitia a Rhodan falar a língua desse mundo sem o menor sotaque. Laury expressava-se em um arcônida polido que se usava em quase toda a Galáxia. Mas o homem compreendeu.
Estou procurando a senhora — respondeu o homem.
Por quê?
Para prendê-la.
Laury levantou-se de um salto. No último instante, lembrou-se da arma que trazia consigo. Mas antes que pudesse mover a mão, o homem apontou-lhe a pistola e disse:
Fique bem quieta, senão atiro!
Laury obedeceu. Lançou um olhar desesperado para o rato-castor, que jazia imóvel sobre uma espécie de leito, no fundo do recinto. Gucky dormia o sono de um ser completamente esgotado e não estava percebendo nada do que se passava ao redor.
Laury não sabia que se encontrava em poder de Havan. O traidor era agora o senhor absoluto do abrigo de Fenomat.

* * *

Rhodan começou a impacientar-se porque Feriar e Thér não compareceram na hora combinada.
Tenho uma sensação desagradável — disse em inglês, dirigindo-se a Marshall.
Não devemos esquecer esse Havan. Quem sabe o que não andou tramando?
Hum — fez Marshall, olhando para o lado. — Podemos mandar embora essa gente. Sem arma não representarão perigo para ninguém.
Rhodan levantou-se de um salto.
Está bem. Avise-os. Tentarei entrar em contato com Laury.
Marshall logo se desincumbiu de sua tarefa. Encostou o capacete de seu traje transportador contra o capacete do prisioneiro que se encontrava mais próximo e disse:
Dêem o fora, gente. Vocês estão livres. Procurem não aparecer mais em má companhia.
O homem transmitiu a notícia aos companheiros por meio do rádio de capacete. Hesitaram um instante, pois não acreditavam na sua boa sorte. Mas, depois de algum tempo, saíram correndo e desapareceram em meio à noite vermelha.
Marshall não se preocupou com eles. Procurariam chegar a um dos abrigos sem serem vistos e ali se misturariam aos demais ocupantes. Uma vez que não tinham armas, poderiam dar-se por satisfeitos caso ninguém os reconhecesse como membros da guarda pessoal de Belal.
O que devia causar maior preocupação era o fato de que Rhodan não conseguia entrar em contato com a mutante pelo telecomunicador. Laury não respondia.
Rhodan enfiou no bolso o pequeno aparelho de telecomunicação e procurou atingir Laury por via telepática. Laury era telepata, tal qual Rhodan, que só possuía o dom em circunstâncias extremamente favoráveis e em extensão reduzida; Marshall também possuía essa faculdade. O chamado de Rhodan chegou-lhe apesar das camadas de terra e concreto que teve de vencer.
Dali a cinco minutos, Rhodan e Marshall sabiam o que estava acontecendo no abrigo.
Laury, Gucky e os outros prisioneiros mais importantes de Havan foram trancados no laboratório químico-biológico. Não era proibido conversar. Thér e Feriar contaram o que Havan lhes havia dito no caminho.
Havan convencera Belal a ceder-lhe metade de sua guarda pessoal, para que pudesse apoderar-se do abrigo de Fenomat. Belal achara que o plano era útil e viável. Além disso, tinha certeza de que metade de sua guarda pessoal seria suficiente para conquistar o estranho veículo.
Belal não sabia que o inimigo havia sido informado sobre seu plano. O bilhete entregue pelo mensageiro de Havan preenchera duas finalidades distintas: Belal foi eliminado, e os estranhos estavam fora do abrigo, o que permitia a Havan agir livremente.
As comunicações entre as duas cidades subterrâneas foram interrompidas. Em Fenomat, Havan dominava a situação, e Laury soubera que o traidor pretendia enviar um emissário a Rhodan, que negociaria as condições para a libertação dos prisioneiros mais importantes.
Perry pediu a Laury que fizesse o que estava ao seu alcance para libertar-se juntamente com os demais prisioneiros. A mutante não possuía nenhuma arma, mas em compensação tinha o dom paramecânico da desintegração. Rhodan recomendou o seguinte:
Tenho certeza absoluta de que Havan e seus homens nunca ouviram falar em dons parapsicológicos e coisas semelhantes. Sua guerra nuclear ocorreu há apenas oito anos, um tempo insuficiente para a formação de mutantes. Mas não se esqueça de que mesmo um mutante não é imune aos efeitos das balas. Procure não irritar Havan ou qualquer dos seus homens. Arranje-se juntamente com os outros prisioneiros. No momento, não podemos fazer nada por eles. Havan os mandaria matar assim que soubesse que penetramos no abrigo. Só nos resta esperar o auxílio que deverá vir da Terra.

* * *

Laury ficou conjeturando. Teve uma porção de idéias, refletiu sobre as mesmas, abandonou-as e procurou outras. Só aos poucos, um plano começou a surgir em sua mente.
A maior dificuldade consistia no fato de que no próprio laboratório havia três guardas. Ninguém estava impedido de falar com os outros prisioneiros, mas os guardas faziam questão de ouvir o que se conversava.
Laury deitou de lado, para se aproximar de Ivsera. Por meio de olhares comunicou-lhe que pretendia dizer-lhe alguma coisa que o guarda não devia ouvir. A química respondeu com outro olhar. Parecia um tanto surpresa e desconfiada.
A mutante voltou a deitar de costas, fechou os olhos e concentrou-se.
Imaginou encontrar-se diante da parede que separava o laboratório do corredor. Procurou ver com os olhos de sua mente as saliências e reentrâncias do concreto e do revestimento cinzento da parede. Imaginou fresta após fresta, e finalmente ordenou ao cérebro que ativasse o mecanismo que liberava as energias paramecânicas de seu apêndice cerebral.
O efeito foi tremendo.
Na parede surgiu um furo da espessura de uma agulha. A tremenda pressão das massas de terra logo o ampliou, transformando-o numa fenda. Dali a alguns segundos, a parede cedeu numa extensão de dez metros. Com um enorme estrondo, os blocos de concreto caíram no corredor, seguidos pelo farfalhar da terra úmida e fria.
Imediatamente os três guardas dirigiram-se à porta. Laury viu a terra marrom entrar no corredor, só parando alguns metros adiante. A terra obstruía metade da entrada. Os guardas engatinharam para fora e gritaram por socorro.
Laury voltou a deitar de lado.
Procure fazer com que alguém a leve até Havan — cochichou para Ivsera. — Converse com ele, faça-lhe uma proposta. Quero que sua atenção seja desviada ao menos por quinze minutos. Faça o possível para que não deixe entrar ninguém no gabinete enquanto a senhora estiver com ele. Entendido?
A química fez um gesto afirmativo. Em seu rosto havia uma expressão matreira. A tarefa, que Laury lhe atribuíra, foi a mais repugnante possível.
Mas não se opôs. Aquela mulher desconhecida seguia um objetivo bem definido. Embora Ivsera não tivesse sido familiarizada com o plano, estava plenamente convencida de ter de cumprir o que estava sendo pedido.
A salvação dependia disso; e na situação em que se encontravam a salvação só poderia vir de uma pessoa desconhecida.

* * *

Os três guardas voltaram depois de algum tempo. Haviam constatado que as comunicações com o resto do abrigo não foram interrompidas. A terra que irrompeu no corredor só o obstruiu até a metade da altura.
Um grupo de prisioneiros estava carregando a terra em carrinhos e removendo-a. Ninguém sabia informar do desmoronamento parcial.
Ivsera chamou um dos guardas.
Diga a Havan que quero fazer-lhe uma oferta! — exclamou.
O soldado sorriu.
Qualquer pessoa pode vir com esta conversa — disse em tom ingênuo.
Faça o que ela está pedindo — interveio um dos outros.
O guarda retirou-se. Voltou depois de algum tempo, soltou as amarras de Ivsera sem dizer uma única palavra e ajudou-a a levantar-se.
Venha comigo — ordenou.
A jovem química lançou um olhar para a mulher desconhecida. Laury deu uma piscadela. Ivsera deixou que a levassem.
O quartel-general ficava no mesmo corredor, a cinco portas de distância. Conforme ela supunha, estava cercado por uma espécie de guarda pessoal. Mas, assim que foi introduzida no gabinete, Havan mandou todos saírem juntamente com a guarda que a trouxera.
Sorriu e convidou a jovem a sentar. Ele mesmo levantou-se e aproximou-se.
Pelo que vejo andou pensando no assunto — disse.
Ivsera deu de ombros.
Não sei — respondeu. — O que exige para libertar as pessoas que foram presas juntamente comigo?
Havan soltou uma gargalhada.
Exijo a senhora.
Sentiu um calafrio. Controlou-se e perguntou com a maior calma:
Quem me garante que o senhor cumprirá o acordo?
Ele excitou-se.
Se quiser poderemos celebrar o acordo por escrito e assiná-lo na presença de testemunhas.
Ah, velhaco!”, pensou Ivsera enojada. “As testemunhas seriam seus subordinados, e nunca se atreveriam a abrir a boca caso deixasse de cumprir o acordo.”
Mas fez de conta que estava refletindo sobre a proposta.
Em algum lugar do abrigo ouviu-se um leve ribombo, mas nem Havan nem Ivsera interessaram-se pelo ruído.
Quinze minutos”, pensou Ivsera, concentrando-se ao máximo. “Terei que distraí-lo por quinze minutos.
Subitamente a porta abriu-se e um guarda armado entrou correndo. Antes que pudesse abrir a boca para transmitir seu relato, Havan gritou furiosamente:
Saia! Quem lhe disse que pode entrar aqui sem fazer-se anunciar? Fora!
O guarda hesitou, mas quando Havan puxou a arma e apontou-a para ele, virou-se e saiu correndo.

* * *

Assim que o guarda levou Ivsera, Laury pôs-se a trabalhar.
Fez desmoronar a parede lateral direita do laboratório. Os dois guardas que ali permaneciam puseram-se a gritar e saíram precipitadamente para o corredor.
Na parede do laboratório havia uma abertura que dava passagem a uma pessoa adulta e permitia a visão da sala contígua.
Laury ainda fez desmoronar parte da parede oposta. Depois soltou as amarras que a prendiam, fazendo simplesmente com que as mesmas se dissolvessem. Os dois guardas ainda não haviam voltado. Só os prisioneiros viram Laury levantar-se e atravessar a abertura que dava para a sala contígua.
Laury sentiu os pensamentos angustiados de Ivsera. Não podia estar longe. Provavelmente encontrava-se umas três ou quatro salas adiante. Laury atravessou a abertura da parede oposta e entrou num recinto escuro, que parecia estar vazio.
Ouviu gritos vindos de fora. Encostou o ouvido à outra parede e percebeu que do outro lado tudo estava em silêncio.
Laury concentrou-se e fez uma terceira abertura, através da qual penetrou em outro recinto, que também estava escuro e vazio.
Os pensamentos da química tornaram-se mais nítidos.
Esta acabou acenando com a cabeça:
Acho que posso concordar — respondeu um tanto insegura, pois certamente era o que Havan esperava dela. — Quer redigir o acordo?
Ele ficou radiante. Pegou a mão de Ivsera, e esta deixou-se tocar a contragosto e cheia de repugnância.
Nunca pensava que a senhora ainda chegaria a essa conclusão — balbuciou Havan muito feliz. — Agora...
Soltou a mão e correu para a escrivaninha atrás da qual estivera sentado. Impaciente, abriu uma gaveta e tirou uma pilha de folhas de papel, atirando-a sobre a escrivaninha. Pôs a mão no bolso, procurando uma caneta.
Ivsera assustou-se tanto quanto o próprio Havan quando de repente surgiu uma fenda na parede da direita. A brecha estendeu-se do chão ao teto e, poucos segundos depois, a parede desmoronou com um enorme estrondo. Uma nuvem de poeira levantou-se e pedaços da parede voavam pelo ar.
A jovem levantou-se de um salto e pôs-se a gritar de medo. Havan deixou-se cauda cadeira e rolou até a parede do lado oposto. Olhando através da poeira, Ivsera viu que protegia a cabeça com os braços.
Sobre os destroços da parede surgiu Laury, a mulher desconhecida.
Ivsera fitou-a perplexa. Viu Laury fazer um sinal, mas não compreendia o que ela queria.
Laury apontou para Havan, que continuava deitado no chão, completamente imóvel. Seus gestos tornaram-se cada vez mais impacientes.
Finalmente Ivsera compreendeu. Com dois ou três passos rápidos, colocou-se atrás de Havan. Antes que este percebesse o que estava acontecendo, tirou a pistola de seu cinto, destravou-a e apontou-a contra ele.
Levante! — gritou. — Seu jogo está definitivamente findado.
O resto foi fácil. Em meio à confusão geral Laury não teve a menor dificuldade em libertar os outros prisioneiros que se encontravam no laboratório. Thér, o velho impetuoso subjugou o guarda que tirara a arma de choque da mutante. Só pelo ataque de Thér percebeu-se que alguma coisa não estava em ordem com os prisioneiros.
Thér usou a arma de choque, seguindo as instruções de Laury. Os guardas que acorreram ao local desmaiaram na porta do laboratório.
Desistiram da tentativa de apoderar-se novamente dos prisioneiros. A notícia de que o próprio Havan se encontrava em poder destes quebrou as últimas resistências entre os revoltosos. Perceberam que estavam perdendo o controle da situação e procuraram exceder-se em demonstrações de boa vontade para compensar o prejuízo que lhes poderia advir do fato de se terem juntado a Havan.
Para vencer a rebelião não houve necessidade de espalhar a sensacional notícia. Um veículo aéreo gigantesco e nunca visto estava pousando sobre a área urbana de Fenomat, para ajudar Laury e os demais ex-prisioneiros a assumirem o controle total da situação.

* * *

A Terra enviara a Drusus, uma nave que acabara de entrar em serviço. Era um veículo espacial esférico e seu diâmetro media mil e quinhentos metros. Nunca antes se vira em Isan um engenho gigantesco como este.
Seguindo as instruções de Rhodan, o comandante da Drusus só trouxera a tripulação indispensável e o armamento essencial. O resto do espaço disponível foi ocupado com caixas de mantimentos.
A bordo havia vinte mil megatons de alimentos. Aproximadamente metade dessa quantidade consistia em preparados alimentícios altamente concentrados. Era fácil calcular que essas provisões dariam para nutrir os cem mil habitantes de Isan pelo menos durante um século.
E um século era um tempo suficiente para que mesmo as radiações perigosas e duradouras do estrôncio-90 baixassem a um nível inofensivo. Dentro de um século, os habitantes de Isan poderiam iniciar sem o menor risco a produção de alimentos naturais. Até lá teriam de contentar-se com o presente recebido da Terra.
A Drusus trouxe outra coisa: más notícias. O comandante Harrings, que conduzira a enorme nave da Terra ao centro da Via Láctea, imediatamente após o pouso solicitou uma entrevista com Rhodan, que logo lhe foi concedida.
Perry foi informado de que em todos os setores da Galáxia as patrulhas terranas haviam descoberto uma atividade extraordinária das naves de Árcon e de outras procedências. A movimentação foi registrada segundo a rota e a data e os dados foram introduzidos no grande cérebro positrônico de Terrânia. O gigantesco aparelho, que também dispunha dos últimos relatórios que Rhodan enviara de Tolimon, concluiu com uma alta dose de probabilidade que o Império Arcônida tivera sua atenção despertada pelos acontecimentos, e que ligava os mesmos a uma pessoa chamada Rhodan, subitamente desaparecida há meio século. Na opinião do cérebro positrônico, os acontecimentos que se desenrolaram em Tolimon, e especialmente a maneira pela qual estes se sucederam, bastaram para que o sistema de combinação de dados de Árcon chegasse à conclusão quase inequívoca de que seu causador fora Rhodan.
A pausa de descanso que Perry Rhodan havia conseguido há cinqüenta anos para si e para a Terra, induzindo em erro a frota dos saltadores, havia chegado ao fim.
O Império saíra novamente em busca da Terra.

* * *

Para Rhodan essa descoberta significava que teria de encerrar quanto antes sua permanência em Isan e pôr-se a caminho da Terra.
A despedida precipitada foi muito difícil para ele. Depois de envolver-se por acaso nos acontecimentos de Isan, tinha na mente mais alguns planos, que incluíam a estabilização da situação em condições humanas e dignas.
Além disso, Rhodan desejava satisfazer sua curiosidade. No primeiro dia, sentira-se surpreendido ao notar que os habitantes de Isan falavam o arcônida, embora fosse um arcônida arcaico. Supunha que fossem descendentes dos emigrantes arcônidas, que na primeira fase da colonização, ou seja, há cerca de dez mil anos, penetraram até o centro da Via Láctea. Provavelmente as comunicações com o mundo de origem foram interrompidas pouco depois. A maravilhosa tecnologia arcônida caiu no esquecimento e a população de Isan regrediu à barbárie. No início da grande guerra, atingira aproximadamente o mesmo nível cultural em que a Terra se encontrava há cem anos.
Rhodan tinha certeza de que nos arquivos dos abrigos haveria alguma informação sobre a ascendência do homem de Isan. Mas não possuía tempo para vasculhar arquivos. A Terra chamava.
Rhodan mandou que duas naves auxiliares saíssem da Drusus e fossem tripuladas com dez homens cada uma. Os pequenos veículos espaciais foram equipados com armas que garantiam à pequena tripulação uma superioridade absoluta sobre tudo que vivia em Isan. Os vinte homens ainda se encarregaram de providenciar a distribuição justa e sensata dos mantimentos trazidos pela Drusus.
Rhodan designou Feriar, Thér e Ivsera como comissários-chefes dos abrigos de Fenomat e Sallon, e ordenou aos tripulantes das duas naves auxiliares que fizessem tudo que estivesse ao alcance deles para apoiá-los no desempenho de suas funções. Encareceu aos três chefes que se esforçassem a fim de não se perpetuarem no governo mas fossem substituídos quanto antes por um conselho eleito regularmente. Ivsera disse:
Quando o senhor apareceu, eu estava cansada de não fazer nada e não me conformava mais com a idéia de que a mulher não deve intrometer-se na política. Mas nunca teria sonhado com a possibilidade de que, dentro de poucos dias, poderia atingir o posto de chefe do abrigo.
Rhodan sorriu. Antes que pudesse responder, Thér interveio na palestra:
Não seja tão convencida, minha filha. Afinal, a senhora não está sozinha.
Nem quero continuar nisso por muito tempo — exclamou Ivsera. — Basta que tenha chegado até lá.
Rhodan sorriu.
Quer saber de uma coisa? — disse. — Tenho a impressão de que talvez a senhora possua uma visão um tanto romântica de tudo isto. Não quero interferir em sua vida privada, mas acho bem provável que a senhora sinta falta de um homem que, vez por outra, lhe endireite as idéias e lhe mostre como realmente são as coisas.
Ivsera baixou a cabeça e olhou para o chão.
É o que vivo dizendo! — disse Thér.
De alguns dias para cá, ou seja, desde o dia em que me tratou como um escravo no laboratório, procuro atrair sua atenção para minha pessoa. Acha que se dignou a olhar-me uma única vez com uma expressão amável?
A cena terminou numa série de estrondosas gargalhadas partidas de Rhodan e Feriar. Thér e Ivsera continuaram tão sérios como parecia ser a intenção das últimas palavras ditas por ele.

* * *

Poucas horas depois, a Drusus decolou.
No momento em que a Drusus penetrou no hiperespaço, Rhodan deixou para trás um mundo e uma experiência que já pertenciam ao passado. Tinha agora coisas muito mais importantes pela frente.
Já os homens de Isan haviam assistido a um milagre.
A população do planeta chegara ao estágio da extinção. Foi graças a um punhado de desconhecidos que o extermínio pôde ser evitado e a população teve as esperanças renovadas. Era um punhado de desconhecidos que dispunha de recursos misteriosos e apavorantes, e que não recuava diante de nenhum esforço para alcançar as soluções justas.
Instalaram a ordem e acabaram com a fome. Coisas que poucas semanas antes qualquer um consideraria impossível, tornaram-se possíveis: fizeram com que o planeta despertasse para uma vida nova carregada de esperanças.
Isan nunca se esqueceria dos desconhecidos.
A veneração incluiu o morto cujo túmulo solitário ficava no lugar em que a nave espacial dos estranhos pousou pela primeira vez, e que nada tinha a ver com os acontecimentos que se desenrolaram em Isan. Era o conde Rodrigo de Berceo, o homem que correu para a morte quando tentava ajudar Rhodan.




* * *
* *
*




Após solucionar o problema Isan, Rhodan terá de pensar com todo o cuidado no futuro da Terra, pois Árcon a está procurando...
Em O Duelo, título do próximo volume, Perry viverá outra estupenda aventura.

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