Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Os
Invisíveis golpeiam
— e o
desaparecimento
em massa começa...
Apesar
das hábeis manobras realizadas no espaço galático, o trabalho pelo
poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo,
realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto,
pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram
insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta
e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que
teria ocorrido no ano de 1984.
Uma
nova geração de homens surgiu.
E,
da mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até
transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou,
formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e
Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se
prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou
jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No
sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa
forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino
planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse
reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa
frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer
atacante...
Mas,
subitamente, surge um acontecimento que transforma Terra e Árcon em
aliados.
O
computador-regente precisa de auxílio para defender-se contra o
ataque do invisível, que ameaça toda a Via Láctea...
=
= = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Talamon
— Superpesado
servindo a Árcon.
Cadete
Becker
— Que
desapareceu em Mirsal.
Marcel
Rous
— Comandante
da nave auxiliar K-7.
Baldur
Sikermann
— Imediato
da nave Drusus.
Gucky
— O
rato-castor mutante.
Era
um homem alto e esbelto, de cabelos escuros. Os olhos, azuis-claros e
ligeiramente oblíquos, fato que tinha sua origem na descendência
materna japonesa. Mas não era só isso que chamava a atenção em
sua pessoa.
Ralf
Marten era mutante ou, mais precisamente, um teleótico. Bastava
concentrar-se fortemente para eliminar a própria consciência e
penetrar na de outro ser, enxergando com os olhos do mesmo. Essa
capacidade extraordinária foi um dos motivos de ser ele destacado
para trabalhar como agente cósmico do Império Solar no segundo
planeta do sol Trebola, situado a quatro mil anos-luz da Terra.
Não
era um serviço pesado. Trebola II,
um
mundo belo e pacato! Mas não era a Terra. Seus habitantes, seres
inteligentes em forma de aranha, não sabiam distinguir um ser humano
do outro. Por isso, Marten não teve a menor dificuldade em fazer-se
passar por um descendente dos arcônidas. Conseguiu convencer o
administrador de Árcon, que existia em qualquer mundo habitado do
Império Arcônida, de que seus antepassados, que há muito tempo ali
realizaram um pouso de emergência, no correr dos séculos
modificaram ligeiramente seu aspecto exterior.
Quando
fechou a porta de seu pequeno escritório, situado nas proximidades
do espaçoporto, Ralf Marten praguejou consigo mesmo. Era ali que se
concentrava a vida de Trebola II,
ao
menos na parte que dizia respeito às relações com outros mundos.
Marten mantinha uma pequena agência de viagens e arranjava vôos e
excursões turísticas para todas as partes do planeta. Dessa forma
mantinha contato com as inteligências vindas de outros mundos, e
muitas vezes descobria novidades que se revestiam da maior
importância para a Terra.
Foi
caminhando pela alameda e aproximou-se da rua principal, que levava
ao seu pequeno apartamento. Pelo aspecto exterior sua residência não
era diferente das demais do planeta. Ao menos daquelas ocupadas por
seres humanóides. Havia, porém, algumas diferenças fundamentais,
que muita gente acharia interessante, se soubesse das mesmas.
Marten
foi andando mais devagar e olhou discretamente em torno. Esperava ser
descoberto a qualquer momento, pois há algumas semanas o regente do
Império Estelar de Árcon descobrira que a Terra, falsamente
destruída há mais de cinco decênios, ainda existia. Na verdade,
esse regente era apenas um gigantesco centro de computação
positrônico. Porém esse fato apenas o tornava mais perigoso.
Tranqüilizado,
Marten entrou no edifício, tomou o elevador e subiu ao décimo
pavimento, parando diante da porta de seu apartamento. Empurrou o
polegar para dentro da pequena abertura redonda que ficava junto à
fechadura e pôs-se a esperar. Dentro de poucos segundos, a fechadura
eletrônica registrou e transmitiu suas impressões digitais e o
modelo das vibrações de seu cérebro. A porta abriu-se com um
ligeiro zumbido. Marten entrou e voltou a trancá-la.
Assobiou
enquanto entrava na cozinha e programava o jantar no fogão
robotizado. Enquanto a refeição estava sendo preparada, foi à sala
e dedicou-se a uma atividade muito misteriosa. Num dos cantos havia
uma caixa metálica pouco vistosa, de cerca de cinqüenta centímetros
de altura e largura e um metro de comprimento. Abriu-a por meio de
duas chaves estranhas que trazia numa corrente pendurada ao pescoço.
Se uma pessoa qualquer tentasse abrir a caixa, faria detonar uma
carga explosiva. A explosão, além de destruir o objeto, mataria o
intruso.
A
tampa abriu-se. O aparelho colocou-se em recepção, enquanto o
emissor transmitia o chamado. Tudo era feito automaticamente. Não se
tratava de um aparelho de radiotransmissão como qualquer outro, pois
numa distância de quatro mil anos-luz de nada serviria. Na caixa
havia um hiper-transmissor e receptor, de um modelo especialmente
construído para os agentes cósmicos. As ondas emitidas pelo mesmo
venciam distâncias enormes numa fração de segundo.
Os
impulsos vindos de Trebola II
percorreram
o hiperespaço, em direção à Terra. A mensagem era codificada;
ninguém conseguiria decifrá-la se não intercalasse o respectivo
corretor.
— Agente
Marten chamando a Terra. Pronto para a recepção. Agente Marten
chamando...
A
mensagem foi transmitida até que chegasse a confirmação. Quando
isso aconteceu, o transmissor desligou-se automaticamente. Marten
saberia que não havia novas instruções, e a estação receptora da
Terra estava informada de que seu agente Marten continuava vivo.
Uma
luz vermelha acendeu-se.
Marten
esqueceu o robô de cozinha e deu toda atenção à recepção.
Havia
uma mensagem para ele.
Dali
a poucos segundos, ouviu-se uma voz humana. Marten estremeceu
instintivamente, pois fazia muito tempo que não ouvia a voz de um
terrano.
— Central
chamando o agente Marten. Instruções de Terrânia: Amanhã pousará
uma nave dos mercadores galácticos, comandada pelo chefe de clã
Logarop. Suba a bordo. Antes, você deverá destruir seu próprio
apartamento, segundo o plano XXB. Favor confirmar. Desligo.
Marten
ligou para a transmissão.
— Agente
Marten para a central. Entendido. Desligo.
O
zumbido cessou.
A
tampa foi fechada. Marten levantou-se e foi à cozinha. A comida
estava pronta; comeu sem vontade. Não havia nada que o prendesse a
Trebola. Mas sempre que há uma mudança surge a pergunta: o futuro
será melhor que o presente? Já se adaptara à vida em Trebola e
conhecia suas tarefas.
E
não tinha a menor certeza sobre o que viria pela frente.
Mas
ordens eram ordens.
No
dia seguinte sairia do apartamento como se não tivesse acontecido
nada. Mas dali a uma hora os ácidos gaseificados apagariam todos os
vestígios de sua presença. Se, depois de alguns dias ou meses,
alguém tivesse a idéia de penetrar no apartamento abandonado, não
encontraria o menor sinal da atuação de Marten. Apenas se depararia
com um apartamento vazio.
Marten
foi deitar cedo. Não teve vontade de fazer uma última visita ao
administrador.
Sua
missão em Trebola II
estava
concluída.
*
* *
Mais
ou menos a mesma coisa aconteceu naquele dia com cinco outros agentes
do Império Solar. A central de comando situada em Terrânia, capital
do planeta Terra, chamou-os de volta. A respectiva ordem provinha
diretamente de Perry Rhodan.
Terrânia,
a enorme metrópole de mais de 14 milhões de habitantes, ficava numa
área que, há pouco mais de meio século, era conhecida pelo nome de
deserto de Gobi. Área esta provocadora de sentimentos nada
agradáveis. Hoje não havia nada que lembrasse as pedras e a areia
que antigamente dominavam a paisagem. Gigantescos arranha-céus,
amplas áreas verdes e um enorme espaçoporto constituíam as
características principais da cidade de onde se controlavam os
destinos do Império Solar.
Todos
os fios vinham ter às mãos de um único homem: Perry Rhodan.
Foi
ele quem ordenou o regresso de seis agentes cósmicos, e mandou
adotar as providências necessárias para isso. Essas providências
consumiram alguns dias, pois nem sempre as coisas correram tão bem
como no caso de Ralf Marten.
Uma
semana depois de iniciada a ação, só faltava John Marshall, o
verdadeiro chefe do Exército de Mutantes, que era um excelente
telepata.
John
Marshall, um australiano de cabelos escuros e rosto estreito,
recebera juntamente com Rhodan e mais alguns personagens importantes
da antiga Terceira Potência, no planeta artificial Peregrino, a
ducha celular que conservava a vida. Embora tivesse cerca de cem
anos, apresentava o aspecto de um quarentão bem conservado. Sua
missão o levara para Reno 25.
Reno
25 era o vigésimo quinto planeta de um sistema solar. Esse sistema
era formado por cerca de sessenta planetas. Todos gravitavam em torno
das três estrelas, pouco distantes uma da outra, que constituíam o
núcleo desse estranho sistema. Seu centro de gravidade ficava num
lugar vazio do espaço. Os três sóis giravam em torno desse lugar.
Sete
dos sessenta planetas eram habitados por seres inteligentes. Reno 25
era considerado o mundo principal.
Situado
a aproximadamente dez mil anos-luz, o planeta era um importante pólo
de comércio do Império Arcônida, e ainda servia de base aos
mercadores galácticos e à frota de guerra dos arcônidas.
Não
era de admirar que John Marshall tivesse sido enviado justamente para
lá, a fim de transmitir os acontecimentos mais importantes para a
Terra. Usava um transmissor semelhante ao de Ralf Marten.
Marshall
tivera de recorrer às artes dos cirurgiões plásticos terranos, a
fim de fazer-se passar por um lurano. Os luranos eram uma raça
perfeitamente humanóide. Eram considerados como um clã um tanto
“teimoso”
dos mercadores galácticos, também conhecidos como saltadores;
chamavam-se assim porque viviam em suas gigantescas naves cilíndricas
e de certa forma saltavam de uma estrela para outra, a fim de se
dedicarem ao comércio.
Marshall
usava o nome de Probat e todos o consideravam sócio de um lurano
muito influente, que todo mundo conhecia apenas de nome. Ninguém
havia visto esse lurano, o que não era de admirar, uma vez que o
mesmo só existia na imaginação de Marshall. Mas, como o
desconhecido por certo possuía muito dinheiro, ninguém se importou
com isso.
O
escritório de Probat ficava nas imediações do espaçoporto, onde
num dos hangares particulares havia um disco voador achatado. A
pequena nave tinha trinta e cinco metros de diâmetro e dezoito
metros de altura. Era uma Gazela, tipo de nave de reconhecimento que
permitia saltos pelo hiperespaço até a distância de quinhentos
anos-luz.
Reno
25 era um mundo pacato, pois no Império dos Arcônidas já não
havia guerras. Porém seus habitantes e o administrador local de
Árcon deviam ter ficado espantados quando, naquele dia, três naves
cilíndricas de quase trezentos metros de comprimento, que se
identificaram como veículos espaciais dos saltadores, pousaram de
súbito. Mas, mal essas naves tocaram a superfície de Reno 25, uma
coisa extraordinária aconteceu.
As
escotilhas abriram-se, e delas saíram algumas companhias de robôs
de guerra bem equipados. Alarmadas às pressas, as tropas do
administrador foram rechaçadas depois de uma luta ligeira, e os
robôs ocuparam a cidade.
Só
então ficaram sabendo se tratar de um grupo de piratas bem
organizados, que viviam das sobras dos diversos mundos, e surgiam
inesperadamente nos mais diversos lugares.
No
momento do ataque, Marshall encontrava-se no seu escritório, e não
teve tempo de transmitir a novidade excitante à Terra através do
hiper-rádio. Antes que soubesse o que estava acontecendo, dois robôs
de guerra penetraram em seu apartamento, que ficava em cima do
escritório, e demoliram as instalações. Infelizmente mexeram no
hipertransmissor camuflado.
A
única coisa que sobrou foi o escritório, situado no pavimento
inferior do edifício.
O
resto foi pelos ares, juntamente com os dois robôs.
Marshall
viu-se isolado da Terra. Mas sentia-se satisfeito por ter escapado
com vida. A primeira idéia que lhe veio à mente foi pegar a Gazela
e deixar o planeta pouco hospitaleiro. Porém teve de notar que isso
não seria tão simples como imaginara. Os piratas fecharam
“hermeticamente”
o espaçoporto, impedindo que qualquer pessoa saísse de Reno 25.
Marshall
estava preso e nem desconfiava da ordem que há várias horas
percorria ininterruptamente o hiperespaço: estavam à procura de seu
receptor. Esperava pacientemente por uma chance de atingir sua nave
espacial. Tinha certeza de que, uma vez a bordo, conseguiria fugir, e
não teria a menor dificuldade em romper o bloqueio em torno de Reno
25.
Na
teoria isso poderia dar certo, mas na prática era diferente. Os
piratas ocuparam o palácio do administrador, e juntamente com ele o
hipertransmissor. As comunicações com Árcon estavam interrompidas,
ainda mais que, quase no mesmo instante, entrou em ação um
transmissor dos piratas, que emitia sinais de interferência. Assim,
todas as naves do espaçoporto ficaram impossibilitadas de emitir
qualquer pedido de socorro.
Os
piratas não se apressaram em saquear o planeta indefeso. Mas tiveram
azar; foi justamente o emissor que realizava as interferências que
lhes seria fatal. Cerca de oito dias depois do ataque, o centro de
computação de Árcon procurou entrar em contato com o administrador
de Reno 25. Isso poderia acontecer mais ou menos de dez em dez anos.
Como não obtivesse resposta, o regente robotizado reagiu com a
costumeira rapidez. Enviou um grande couraçado para Reno, a fim de
verificar o que estava acontecendo.
Marshall
estava sentado em seu quartinho, em meio aos destroços, observando
os hangares. Tivera sorte, pois não houvera outros ataques dos
robôs: fora deixado em paz. Sentia-se despreocupado, muito embora
uma inquietação cada vez mais intensa ameaçasse tornar
insuportável sua permanência no planeta.
Foi
nesse instante que surgiu o couraçado!
Antes
que os piratas pudessem organizar a defesa ou reunir-se, a gigantesca
esfera espacial pousou. Uma divisão de potentíssimos robôs de
combate saiu pelas comportas e entrou em posição. Os robôs dos
piratas, que eram um pouco menores, passaram automaticamente ao
ataque, e com isso revelaram desde logo o que havia acontecido em
Reno 25.
Marshall
teve oportunidade de verificar como os métodos de governo de Árcon
haviam mudado nos últimos decênios. O computador-regente não
admitia qualquer tipo de desobediência.
As
máquinas de guerra do regente restabeleceram a ordem, sem colocar em
perigo a vida de qualquer ser humanóide. Num ataque concentrado
destruíram os robôs inimigos e aprisionaram os piratas em que
conseguiram pôr as mãos. As três naves cilíndricas fundiram-se
sob o fogo cruzado dos raios energéticos.
Marshall
assistiu a tudo sem sair do lugar. Para ele, não havia o menor
perigo, pois a qualquer momento poderia identificar-se como habitante
de Reno 25. Cinco horas depois do pouso da nave esférica, a ordem
havia sido restabelecida, e a reconstrução foi iniciada. Uma
companhia de robôs de combate ficou no planeta, enquanto o resto
embarcou na nave e voltou para Árcon.
Marshall
tinha um único desejo: sair o quanto antes de Reno 25. O que lhe
restava fazer ali, se não dispunha de meios de entrar em contato com
a central? Sua nave estava guardada num dos hangares. A proibição
de decolagem já fora revogada. O que estava esperando?
Uma
vez que não possuía mais nada, saiu de mãos vazias, passou pelos
robôs que montavam guarda, identificou-se como Probat, um rico
negociante, e conseguiu chegar ao hangar onde estava sua Gazela.
O
resto foi facílimo.
Penetrou
na comporta e entrou na pequena sala de comando, depois de ter
transmitido as necessárias instruções aos robôs de trabalho. A
cobertura do hangar abriu-se para o lado, deixando à mostra o céu.
Marshall fez sua pequena nave subir verticalmente e logo acelerou ao
máximo. Um rastro chamejante marcava a trajetória da Gazela que,
dentro de poucos segundos, rompeu a atmosfera, aproximando-se da
velocidade da luz. Assim, já estava prestes a fazer o primeiro salto
que a levaria pelo hiperespaço.
Marshall
ligou o compensador estrutural. Foi um ato instintivo, mas o mesmo
lhe poupou muitos aborrecimentos, pois nesse exato momento o
administrador de Reno 25 recebeu instruções terminantes para
realizar um cuidadoso exame sobre a verdadeira identidade do
comerciante Probat, já que havia suspeitas fundadas de que o
mesmo...
A
investigação foi iniciada, e sua fase inicial terminou no hangar.
Logo se estendeu ao espaço, onde mais uma vez chegou ao fim.
Desta
vez terminou num ponto em que a nave do suspeito havia desaparecido,
mergulhando numa dimensão diversa sem deixar a menor pista.
Era
claro que Marshall nem desconfiava desses acontecimentos. O chefe do
Exército de Mutantes teve trabalho de sobra. Depois de cada salto,
sempre havia necessidade de fazer os computadores de navegação
calcularem e programarem a rota da Terra. Cada salto fazia a Gazela
avançar quinhentos anos-luz. A distância até a Terra era de dez
mil anos-luz. Cada salto durava mais ou menos um décimo de segundo.
Os preparativos, que no início consumiam meia hora, foram se
reduzindo a pouco menos de cinco minutos. Apesar de tudo, quase um
dia se passou até que Marshall chegasse ao sistema solar e pudesse
pousar no espaçoporto de Terrânia.
Chegou
na hora exata para participar da última reunião destinada a
discutir a situação.
No
momento em que Marshall entrou na pequena sala onde se realizava a
reunião, Rhodan levantou a cabeça.
— Ora,
veja! O senhor? Já não contava com sua presença, John. A ordem de
deixar o planeta foi emitida há mais de dez dias.
— Houve
um pequeno incidente — disse o telepata com um sorriso e relatou em
termos lacônicos os acontecimentos que se haviam desenrolado em Reno
25. Rhodan só se interessava por um único fato: a reação rápida
e precisa do computador positrônico de Árcon. Uma ruga surgiu em
sua testa.
— Muita
coisa mudou no Império dos Arcônidas — constatou. — Devemos
estar preparados para enfrentar um inimigo igual a nós, não um
império decadente. O regente aprendeu a impor-se. Receio que nosso
jogo não será nada fácil.
— Que
nada! — piou enfaticamente uma voz que vinha dos fundos da sala. —
Esse montão de latas positrônicas vai tremer que nem um pudim
quando souber das nossas condições.
— Nesse
caso será preferível que você se mantenha discretamente “nos
fundos”
— exclamou Ralf Marten em tom zombeteiro.
A
criatura que falara em primeiro lugar endireitou o corpo, e chegou a
medir um metro de altura. Agachado sobre as pernas traseiras,
apoiava-se sobre a larga cauda de castor. A parte anterior do corpo e
a cabeça pareciam de um grande rato.
— Manter-me
nos
fundos? —
disse Gucky em voz estridente e em tom indignado. — Afinal, sou
telepata, telecineta, teleportador, hipno...
— Só
isso? — perguntou Rhodan em tom amável.
Gucky
esteve a ponto de responder, mas acabou sacudindo tristemente a
cabeça, voltando a sentar. Parecia sentir-se triste como se fosse um
mutante em decadência.
Rhodan
reprimiu o riso e, dirigindo-se principalmente a Marshall, disse:
— Como
sabe, a fim de ganhar tempo, há cinqüenta e seis anos fizemos a
Galáxia e o regente acreditarem que a Terra havia sido destruída.
Hoje sentimo-nos bastante fortes para formular nossas condições
perante o regente, que neste meio tempo também se fortaleceu. A
descoberta foi devida a Talamon, um superpesado. Ele me reconheceu há
algumas semanas, quando fui buscar Fellmer Lloyd. O regente foi
informado imediatamente, e desde então emite uma mensagem de minuto
em minuto, para que entre em contato com ele. Os psicólogos de robôs
chegaram à conclusão de que deve encontrar-se em situação
difícil, pois do contrário sua reação seria bem diferente. Por
isso, respondemos ao chamado. Bem, Marshall, a situação é esta.
— E
eu mais uma vez terei de ficar aqui — resmungou alguém com a voz
contrariada. Todos os olhares voltaram-se para a pessoa que acabara
de falar.
Ao
que tudo indicava, Reginald Bell, o representante de Rhodan e seu
melhor amigo, não estava satisfeito com o papel que lhe estava sendo
atribuído.
— Ora,
Bell — disse Rhodan em tom contemporizador. — Você terá uma
responsabilidade pesada na Terra. Não posso dispensar sua presença
em nosso planeta. Durante a missão que vamos executar, preciso ter
certeza absoluta de que aqui tudo anda bem. Será que isso não é
uma missão de verdade?
Bell
exibiu um sorriso forçado e nada alegre.
— Farei
com que você obtenha o Prêmio Nobel de melhor consolador, Perry.
Está bem, não estou zangado...
— Está
é com inveja — interrompeu Gucky, que exibia alegremente seu dente
roedor e balançava as orelhas. — Você estouraria se pudesse
ver-me em combate. A Galáxia estremecerá e empalidecerá quando
souber que o grande Gucky voltou a aparecer...
— Uma
Galáxia que empalidece deve ser um panorama notável — disse
Rhodan, ameaçando o rato-castor com o dedo em riste. — Mas fiquem
quietos, senão amanhã ainda estaremos aqui. Vou fornecer a posição
de cada participante. Desta vez, o grosso da tropa será formado pelo
Exército de Mutantes, representado pelo telepata John Marshall, pelo
telecineta Tama Yokida, pelo telepata e localizador Fellmer Lloyd,
pelo teleportador Ras Tschubai, pelo teleótico Ralf Marten e por
Gucky. Além disso, os oficiais e tripulantes da Drusus farão parte
do contingente.
“Os
senhores ainda não conhecem a Drusus. Trata-se de uma nave esférica
do tipo da Titan, de um quilômetro e meio de diâmetro, dois mil
tripulantes, quarenta Girinos de sessenta metros de diâmetro nos
hangares de bordo e uma capacidade de executar hipersaltos de trinta
mil anos-luz. Os outros dados são idênticos aos da Titan, que os
senhores já conhecem. A Drusus foi construída na Terra; portanto,
não é uma presa de guerra. Acredito que com ela conseguiremos
impressionar o regente.”
— Hum
— fez Bell, mas não disse mais nada.
— Mandei
construir esta supernave exclusivamente para fins demonstrativos —
prosseguiu Rhodan, sem impressionar-se com a objeção sumamente
lacônica. — De qualquer maneira, acha-se equipada com as armas
mais eficientes de que dispomos, inclusive o transmissor fictício de
matéria. A decolagem já será realizada amanhã de manhã. Os
últimos detalhes serão fornecidos a bordo. Mais alguma pergunta?
Ras
Tschubai, um africano robusto, fez um sinal violento com a cabeça.
— Sim,
chefe. O computador-regente de Árcon já foi informado sobre a
visita que lhe pretendemos fazer?
— É
claro que não — disse Rhodan com um sorriso. — Amanhã de manhã
realizaremos um salto curto pelo espaço adentro, evidentemente com o
compensador estrutural ligado. Depois estabeleceremos contato. A
seguir, ele poderá realizar a determinação goniométrica do local
de transmissão, pois isso já não representará o menor perigo para
nós. Sua lógica lhe dirá que jamais enviaríamos uma hipermensagem
da Terra.
Não
houve outras perguntas. Todos sabiam que Rhodan lhes forneceria em
tempo todas as informações que se tornassem necessárias.
— Então,
até amanhã — concluiu Rhodan e retirou-se. Bell acompanhou-o,
pois tinha mais algumas perguntas.
Os
mutantes seguiram os dois homens com os olhos.
Teriam
mais uma noite na Terra.
Por
toda parte, nas proximidades da Via Láctea, ou seja, até uma
distância de trinta mil anos-luz, estavam postados os rastreadores
estruturais dos arcônidas. Cabia-lhes detectar e registrar qualquer
transição realizada por uma nave espacial. Dessa forma, o regente
estacionado no centro do Império era mantido constantemente
informado sobre toda e qualquer transição e podia tirar suas
conclusões.
A
primeira transição da Drusus foi realizada sob a proteção dos
compensadores estruturais. O salto foi completamente “silencioso”,
não tendo deixado o menor vestígio. Pelas profundezas da Via
Láctea, ninguém ficou sabendo que em algum lugar uma gigantesca
nave deixara o espaço normal para retornar a ele em outro ponto. A
posição do planeta Terra manteve-se desconhecida.
Mas,
dali a algumas horas, todo o mundo ficaria sabendo que essa nave
existia, e quem era seu comandante.
As
estrelas voltaram a surgir nas telas da Drusus.
O
primeiro-tenente Baldur Sikermann, imediato da nave esférica, um
homem baixo e moreno de rosto grosseiro, suspirou aliviado. Sentado
ao lado de Rhodan, manipulava os controles. Tentava disfarçar a
emoção que sentia diante do fato de que este vôo representava sua
primeira tarefa séria.
— Posição
ordenada acaba de ser atingida. A distância da Terra é de
exatamente trezentos anos-luz, posição de noventa graus em relação
ao centro da Galáxia. Velocidade atual 0,98 luz.
— Obrigado,
Sikermann. A rota e a velocidade serão mantidas.
Rhodan
fez um gesto de estímulo para o imediato, levantou-se, e caminhou em
passadas enérgicas em direção à saída da sala de comando
semicircular. Sabia que cada passo dado mais o aproximava da decisão.
E seria uma decisão dura e difícil.
Alguém
o esperava à porta da sala de rádio. De cabelos brancos brilhando,
a figura esbelta estava ligeiramente inclinada para a frente. A
posição traía-lhe a idade. Dois olhos vermelho-dourados num rosto
inteligente revelavam se tratar de um albino. Todos os arcônidas de
raça pura eram albinos, e Crest não constituía nenhuma exceção.
— Por
enquanto, a mensagem do regente não cessou, Perry — disse Crest
com um sorriso um tanto embaraçado. — Já fizemos o computador
esperar bastante.
— Ele
tem muito tempo, Crest — disse Rhodan, retribuindo o sorriso. —
Devemos fazer de conta que também temos.
Entrou
juntamente com o amigo na ampla sala de rádio, onde também ficavam
as instalações de hipercomunicação. Embora houvesse meios de
tornar impossível a determinação goniométrica de uma
hiper-transmissão, Rhodan achou preferível não estabelecer contato
com Árcon a partir da Terra. Ninguém podia saber que invenções os
novos arcônidas poderiam ter feito nesse meio tempo. Crest
recomendara que só se entrasse em contato com o regente quando a
nave se encontrasse no espaço.
O
tenente David Stern, um israelense de cabelos escuros e estatura
mediana, fez continência quando o chefe entrou em companhia do
arcônida.
— Tudo
em ordem na sala de rádio.
— Obrigado,
Stern — respondeu Rhodan, apontando para as instalações maciças.
— O que está fazendo nosso amigo?
Stern
ligou o suprimento de energia.
— Continua
a chamar. Parece que o texto sofreu uma pequena modificação; está
vazado em termos mais pessoais. Quer ouvi-lo?
— Talvez
seria conveniente, Stern. Se estiverem transmitindo uma imagem,
também a ligue.
Demorou
alguns minutos que pareciam infindáveis até que a tela oval se
iluminasse. Nela surgiu a imagem bem conhecida do regente arcônida:
uma imensa abóbada de aço. Antenas móveis e instrumentos de
medição interrompiam a superfície lisa.
A
voz do maior computador positrônico da Via Láctea saiu do
alto-falante numa entonação tranqüila, sem revelar a menor emoção.
— Sei
que você está vivo, Perry Rhodan da Terra. Por que não corresponde
aos meus pedidos de entrar em contato comigo? Garanto-lhe que não
falaremos no que passou. O que nos interessa é somente o futuro,
Perry Rhodan. Seu futuro e o meu. Responda!
David
Stern confirmou com um aceno de cabeça.
— O
computador está transmitindo este texto de dois em dois minutos, e
isso certamente há alguns dias. Quer que desligue?
— Mantenha-se
em recepção, Stern, e ligue o transmissor.
Chegara
o grande momento. Crest mantinha-se um pouco afastado e procurava
demonstrar a emoção que sentia. Era um arcônida e já pertencera
às camadas dirigentes de seu povo. Acontece que atualmente o governo
estava sendo exercido pelo computador construído pelos próprios
arcônidas. E, pelo que se via, não governava mal.
Rhodan
aguardou até que a luz verde se acendesse e o computador fizesse uma
pausa nas transmissões.
Depois
disse com a voz calma e firme:
— Aqui
fala Perry Rhodan do planeta Terra. Recebi sua mensagem, regente.
Nós, os terranos, estamos dispostos a entrar em contato com você.
Poderia fazer o favor de confirmar?
Desta
vez a mensagem que vinha sendo transmitida ininterruptamente não
apareceu. De súbito a figura de aço que se via na tela parecia
mergulhada numa luz ofuscante, pois a imagem tornou-se mais clara e
brilhante. Era claro que Rhodan não havia ligado sua câmara, para
que não pudesse ser visto.
— Você
está muito longe de Árcon, Rhodan — disse a voz mecânica do
regente, sem revelar qualquer admiração ou alegria. — Eu o
espero.
Rhodan
respondeu com um sorriso frio:
— Não
pretendo colocar-me ao alcance de sua frota, regente. Tenho minhas
condições. Quer ouvi-las?
— Quero
ouvi-las, Rhodan. Rhodan ainda estava sorrindo.
— Crest,
do clã dos Zoltral, sugere o terceiro planeta do sol Mirsal. Segundo
os catálogos, trata-se de um mundo habitado, mas primitivo. Pousarei
lá e esperarei por você ou seus enviados.
— Jamais
poderei sair de Árcon, Rhodan.
— Muito
bem; mande um representante. Sugiro o superpesado Talamon, que já
conheço. Afinal, foi ele quem primeiro me encontrou.
— Não,
Rhodan. Venha para Árcon. Tenho...
Rhodan
interrompeu o regente:
— Ou
nos encontramos em Mirsal III,
ou
não nos encontramos de forma alguma, regente. Envie Talamon.
Combinado?
— Por
que justamente Mirsal?
— Poderia
ser outra estrela. Mas por que não Mirsal?
O
computador manteve-se em silêncio por alguns segundos. Rhodan sabia
que nesse curto espaço de tempo o gigantesco mecanismo podia
processar um volume maior de reflexões que um cérebro humano em dez
anos.
— Está
bem. Concordo com Mirsal, mas também faço uma condição. Cada um
de nós virá numa única nave, e essa deverá ter sido construída
no respectivo planeta natal: a minha em Árcon, a sua na Terra.
O
sorriso de Rhodan tornou-se mais intenso.
— Combinado,
regente. Serão apenas duas naves que se encontrarão em Mirsal III.
Vai
enviar Talamon?
— Enviarei
Talamon, que será meu representante.
— Quando?
— perguntou Rhodan e lançou um olhar ligeiro para Crest, que ainda
se mantinha um pouco afastado. Seu rosto estava completamente
indiferente.
— Dentro
de dez das suas horas, Rhodan. Fim do contato.
Esse
fim era muito abrupto, mas afinal não seria de esperar que um
computador se despedisse com fórmulas corteses, conforme costumam
fazer os humanos. Fim do contato. Era tudo.
Rhodan
fez um gesto e David Stern desligou o aparelho.
Uma
vez no corredor, o terrano dirigiu-se ao arcônida.
— Então?
— perguntou.
Crest
levantou ligeiramente os ombros e disse:
— Uma
coisa é certa, Perry: o regente está bastante encalacrado, se me
permite usar uma expressão terrana. Se não fosse assim, nunca teria
concordado com as condições que você lhe apresentou.
— Realmente
— disse Rhodan. — Também não acredito que teria concordado. Mas
qual poderia ser o problema. Ao que parece, no Império está tudo em
ordem. Nenhum dos nossos agentes cósmicos deu informações sobre
qualquer dificuldade.
— Talvez
se trate de dificuldades conhecidas apenas ao computador-regente —
disse Crest.
Rhodan
fitou Crest prolongadamente. Depois fez um gesto afirmativo e saiu
andando.
A
Drusus continuava a deslocar-se em direção ao centro da Via Láctea,
numa velocidade beirando à da luz. Chegaria aproximadamente dentro
de trinta mil anos.
Acontece
que ninguém poderia esperar tanto, nem mesmo Perry Rhodan.
*
* *
Por
seis vezes a Drusus mergulhou no desconhecido do hiperespaço, para
voltar a materializar-se em outro ponto. Os saltos levavam a direções
diversas. Todos os saltos eram feitos sob a proteção do compensador
estrutural. Assim venceram distâncias incomensuráveis.
Apenas
o sétimo e último salto foi realizado sem qualquer proteção ou
precaução. Este levou a Drusus ao sistema do sol Mirsal. Quem
observasse este salto e a materialização que se seguiu, chegaria à
conclusão espantosa de que o planeta Terra ficava além do centro da
Via Láctea.
Seria
um erro perfeitamente compreensível.
O
sol Mirsal era igual ao astro que iluminava o planeta Terra.
Ficava
a 14.480 anos-luz deste planeta, mais ou menos a meio caminho entre
nosso sol e o de Árcon.
Cinco
planetas gravitavam em torno de Mirsal. Segundo os catálogos dos
arcônidas, só o terceiro desses planetas era habitado. A raça
humanóide, que ali habitava, desenvolvera uma cultura primitiva;
ainda estava longe da navegação espacial, se bem que tivesse
recebido visitas ocasionais vindas do espaço.
Mirsal
III
parecia
o ponto de encontro indicado.
A
Drusus materializou-se sete horas antes do momento combinado com o
regente. Prosseguiu à velocidade da luz, em direção a Mirsal III.
Os
tripulantes correram para os postos de combate, mantendo-se
preparados para a qualquer momento abrir fogo contra um possível
atacante.
Rhodan
reuniu os mutantes na sala de comando. As telas enfileiradas
reproduziam a imagem do espaço circundante. O primeiro-tenente
Sikermann mantinha-se imóvel à frente dos controles.
O
ar até parecia crepitar.
— Rastreadores
estruturais ligados — anunciou David Stern na sala de rádio.
Sikermann agradeceu.
O
espaço estava vazio.
Não
havia uma única nave no sistema, com exceção da Drusus. Ao menos,
não havia qualquer nave de propulsão atômica. E no Império não
existiam naves de outro tipo.
— Será
que o regente atacará? — perguntou Fellmer Lloyd, que se mantinha
um tanto afastado. — Dificilmente encontrará outra oportunidade
como esta.
— Não,
Lloyd — disse John Marshall, sacudindo a cabeça, quando notou que
Rhodan não respondia. — Por que o regente nos atacaria? Tenho
certeza de que os psicólogos de robôs estão com a razão. Árcon
encontra-se em situação difícil, e quer que nós o livremos da
mesma. Tenho a impressão de que querem fazer de nós uma espécie de
policiais, tal qual já fizeram em outra oportunidade.
— Acontece
que não quero ser policial — piou Gucky em cima do sofá, onde se
mantinha sentado. — Sou um rato decente.
— Será
que um policial não é uma criatura decente? — perguntou Marshall
em tom de recriminação.
Gucky
encolheu-se na poltrona quando notou o olhar de censura de Rhodan.
“Teria
ido longe demais?”,
pensou. Depois disse, baixando os olhos, todo envergonhado:
— Sim,
é decente. Acontece que Bell me contou que são humanos, que isso é
uma condição para sua admissão. Acontece que não sou nenhum
humano. Por isso nunca poderei ser um policial.
Não
havia nenhum remédio contra a lógica do rato-castor. Marshall
desistiu.
Falaram
pouco enquanto os segundos passavam, enfileiravam-se em minutos e por
fim se transformaram na primeira hora.
Nada.
— Dez
horas, disse o regente — observou Rhodan em tom tranqüilizador e
caminhou de um lado para outro. — Ainda temos duas horas, desde que
resolva ser pontual. Estou curioso para ver o rosto de Talamon quando
tiver oportunidade de contemplar nossa Drusus.
— Foi
esse patife quem contou ao regente ter visto o chefe — resmungou
Fellmer Lloyd, que carregava indiretamente parte da culpa pelo fato.
— Darei um puxão de orelha nele.
— Será
preferível crescer alguns centímetros antes de pensar nisso —
disse Gucky, que em oportunidades como esta não sabia ficar calado.
— Nosso prezado Talamon pesa mais de meia tonelada. Se uma pulga
resolver pular em suas orelhas, ele não perceberá nada.
Lloyd
contemplou o rato-castor.
— Será
que você quer dizer que sou uma pulga?
— Uma
pulga também tem direito de existir — falou Gucky em tom
contemporizador — Sem as pulgas não existiria o circo de pulgas.
Lloyd
pretendia explicar que existem outros tipos de circo, além do de
pulgas, mas Marshall o impediu.
— Deixe
Gucky falar à vontade, Fellmer. Ninguém pode com ele; e no momento
temos coisas mais importantes a fazer.
Gucky
amoleceu o corpo, e dali a pouco os roncos exagerados revelavam que
queria ser deixado em paz. Tiveram muito prazer em fazer-lhe a
vontade.
A
segunda hora passou sem que nada acontecesse. Mas depois disso
começou a terceira fase do período de espera, que seria a decisiva.
Sessenta
segundos pareciam pingos da eternidade que se despejavam no oceano do
infinito. Os ponteiros dos rastreadores estruturais mantinham-se
imóveis. Pareciam congelados nas escalas. O receptor de
hipercomunicação mantinha-se em silêncio.
Faltava
meia hora. Dez minutos. Um minuto...
O
abalo do contínuo espaço-temporal só podia ser registrado por meio
de instrumentos ultra-sensíveis. Tudo parecia quieto quando,
subitamente, um corpo materializou-se a menos de dois segundos-luz da
Drusus, tornando-se visível nas telas.
Era
o mensageiro do regente de Árcon.
Rhodan
soltou uma risadinha de satisfação ao reconhecer a outra nave. Era
um couraçado esférico do tipo da Titan — e também da Drusus.
Deduziu que nos últimos decênios os arcônidas não conseguiram
realizar qualquer inovação em suas naves. Dali se podiam tirar
certas conclusões sobre a situação em que se encontravam.
O
regente pretendia impressionar Rhodan, mas enviara-lhe uma nave de um
tipo que já era construído na Terra. Era claro que Árcon não
poderia saber disso. Porém, o regente não ficaria na ignorância
por muito tempo. Afinal, Talamon possuía olhos...
— Desaceleração,
direção Mirsal III,
Sikermann.
Os
campos antigravitacionais não permitiram que surgisse qualquer
pressão. Dali a menos de trinta minutos a Drusus pousou a
aproximadamente um quilômetro do gigante de Árcon, que já se
encontrava na superfície. Ambas as naves haviam descido num grande
planalto.
Sem
que a tripulação da outra nave pudesse vê-los, o pessoal de bordo
da Drusus ia ocupando os postos de combate. Bastaria uma única
palavra para que os canhões energéticos concentrassem seu fogo
sobre o inimigo. E o campo defensivo da própria nave poderia ser
ativado com um simples movimento de chave.
Mas
Rhodan não contava com qualquer ataque.
Examinou
a outra nave e viu o nome do veículo espacial enviado por Árcon:
Arc-Koor.
— Stern
— disse para dentro do intercomunicador. — Estabeleça contato
pelo rádio e transfira-o para a sala de comando. Quero um contato
audiovisual direto.
Olhou
atentamente para a tela retangular que ficava à esquerda dos
controles de navegação. O microfone utilizado por Perry servia
também de alto-falante para o aparelho de intercomunicação.
A
tela iluminou-se lentamente; um rosto surgiu. Rhodan não demorou em
reconhecê-lo, embora fizesse — com exceção da fração de
segundo em que este o reconhecera em Volat — mais de 50 anos que
vira Talamon, o superpesado à sua frente.
— Perry
Rhodan, sinto-me satisfeito em ver que está vivo.
Rhodan
cumprimentou com um gesto de cabeça e disse em tom ligeiramente
irônico:
— Sua
alegria foi tamanha que não pôde guardá-la para si. Não teve
coisa mais urgente a fazer senão informar o regente.
— Procure
compreender — disse Talamon em sua defesa. — Fiquei muito
surpreso e temia complicações. No Império reinava a paz, Rhodan.
Não sabia...
— ...não
sabia se eu iria perturbar essa paz. Não é o que pretendia dizer?
Não se preocupe, Talamon. Ninguém se sente mais feliz com a paz do
que eu. Se depender de mim, nunca haverá um conflito entre a Terra e
Árcon. Fico-lhe muito grato por ter avisado o regente. Assim
livrou-me da necessidade de tomar esta decisão. E agora vemo-nos
frente a frente, o senhor como representante de Árcon e eu como
representante do Império Solar.
— O
que vem a ser o Império Solar?
— É
formado pela Terra e pelos planetas coloniais — respondeu Rhodan em
tom indiferente. — O senhor vai me dizer alguma coisa sobre Árcon?
Ou será preferível que nos encontremos pessoalmente?
— A
atmosfera deste planeta é respirável — disse Talamon. —
Encontrar-nos-emos a meio caminho entre as duas naves. Levarei alguns
dos meus oficiais para servirem de testemunhas, além do
representante pessoal do regente...
— Você
não é o representante?
— Sou,
mas apenas o representante humano. O regente achou preferível enviar
também um robô, a fim de manter-se informado sobre o andamento das
negociações.
— Combinado.
Também levarei algumas pessoas. Mas acho que podemos confiar um no
outro. Como está sua situação financeira, Talamon?
Esta
pergunta tinha sua finalidade. Foi graças a Rhodan que Talamon
conseguiu realizar o melhor negócio de sua vida. Provavelmente,
ainda estaria vivendo das riquezas então adquiridas. Devia sentir-se
grato ao terrano.
— Minha
situação financeira está boa, Rhodan. E digo mais: não me esqueci
que devo minha prosperidade exclusivamente a você. Deve estar
lembrado de que não participei da ação que os saltadores e os aras
desencadearam contra a Terra há seis decênios.
— Está
bem — disse Rhodan com um sorriso. — Daqui a dez minutos
conversaremos pessoalmente.
O
contato foi interrompido. Rhodan emitiu mais algumas instruções e
fez um sinal para os seis mutantes e para Crest.
— Não
vamos levar armas. Mas a Drusus permanecerá de prontidão para
entrar em combate. Sikermann, o senhor assumirá o comando da nave.
Mantenha-se em contato comigo pelo rádio de pulso. Dessa forma
ficará a par dos acontecimentos e, se necessário, poderá tomar as
providências adequadas.
A
comporta já estava aberta. Enquanto as escotilhas da Arc-Koor
deslizavam para dentro do envoltório da nave, Rhodan e seus
acompanhantes desceram pela larga rampa e caminharam em direção ao
local de encontro. Gucky ia a “passos”
ligeiros atrás dos outros, esforçando-se para que a distância
entre ele e o grupo não aumentasse demais.
Quando
se encontravam a quatrocentos metros da Drusus, Rhodan fez sinal para
que parassem. Era mais ou menos a metade do caminho entre as duas
naves. Algumas rochas convidavam a sentar. O sol de tom amarelo
encontrava-se bem alto no céu. Fazia um calor benfazejo. A oeste, as
silhuetas das montanhas destacavam-se contra o firmamento pálido.
Nas outras direções, a planície se estendia com suas florestas,
vales e estepes. Não se via sinais de nenhuma povoação humana.
Só
agora a rampa da Arc-Koor desceu ao solo. Um vulto maciço surgiu na
escotilha da comporta e olhou para os oito humanos.
Era
Talamon!
Levantou
a mão direita e fez um sinal. Depois desceu pela rampa. Foi seguido
por quatro ou cinco homens de estatura normal. Dois deles eram
saltadores, e os outros certamente arcônidas.
No
momento em que os enviados do regente se encontravam embaixo da nave
esférica, aconteceu uma coisa bastante estranha. Rhodan alarmou-se.
Viu perfeitamente que a escotilha da comporta se abriu ainda mais,
transformando-se numa enorme fenda, pela qual poderia sair uma nave
auxiliar.
“Será
que Talamon pretende desembarcar blindados?”,
pensou Rhodan.
Mas
antes de transmitir as respectivas instruções a Sikermann,
lembrou-se de que Talamon o avisara de que o regente enviaria um
representante mecânico.
Observou
atentamente a escotilha aumentada, enquanto Marshall lhe cochichava
ao ouvido:
— As
intenções de Talamon não são más. O pequeno computador
positrônico está saindo da nave. Ali está!
Uma
semi-esfera desceu lentamente, apoiada nos campos antigravitacionais,
e parou a meio metro da superfície do planeta. Rhodan notou que se
tratava de uma imitação quase perfeita do regente de Árcon;
apenas, as dimensões haviam sido reduzidas aproximadamente à
metade. O “bebê”
do regente tinha um diâmetro de pouco menos de trinta metros, e, tal
qual este, apresentava antenas, além de telas de imagem e uma tela
fictícia, no qual poderiam ser exibidos os impulsos positrônicos.
Quando
o “bebê” se aproximou, viu numa das telas o verdadeiro
computador positrônico de Árcon. Devia estar sendo projetado em
virtude de uma transmissão direta pelo hiperespaço, pois Árcon
ficava a milhares de anos-luz.
Talamon
esforçou-se para manter-se ao lado do espantoso representante do
regente. Atingiu as rochas escolhidas por Rhodan como ponto de
encontro quase ao mesmo tempo que o computador.
— Fico
satisfeito em vê-lo, Rhodan — ressoou sua voz pelo ar límpido. —
Realmente, fico muito satisfeito.
Rhodan
percebeu que essas palavras eram sinceras.
— Mentiria
se eu tivesse de afirmar o contrário — respondeu em tom amável. —
O regente não poderia ter enviado um representante melhor —
segurou as mãos de Talamon e retribuiu o aperto relativamente suave.
— Vejo que não envelheceu nestes decênios.
O
superpesado piscou os olhos, quase invisíveis sob as sobrancelhas
hirsutas.
— Quem
é rico e está disposto a gastar consegue manter boas relações com
os aras, e estes conhecem muitos remédios contra a morte. Até por
isso tenho de lhe agradecer. Mas observo também que não está nada
mal. Onde fica sua fonte da juventude?
Rhodan
exibiu um sorriso matreiro.
— Num
planeta desconhecido, que costuma ser designado como o mundo da vida
eterna. Encontrei-o por acaso.
— Ora
essa! — retumbou a voz de Talamon sacudindo-se de tanto rir. —
Você não mudou nem um pouco; ainda gosta de brincar com os outros.
Esqueceu-se
do tema delicado que os havia trazido para ali e apontou para a
Drusus.
— Não
venha me dizer que este couraçado foi construído na Terra. Não é
do mesmo tipo da Arc-Koor?
— Não
há dúvida, meu velho. Mas o fato é que foi construído na Terra.
Dispomos de mais alguns desse tipo. Não posso deixar de confessar
que a Titan nos serviu de modelo, mas de qualquer maneira estou
cumprindo o combinado, pois vim numa nave construída na Terra.
— Está
certo — disse Talamon com um sorriso, parecendo concordar com o
estratagema de Rhodan. — Permite que cumprimente seus companheiros
e lhe apresente os meus?
Seguiu-se
uma série de apertos de mão, até que chegou a vez do computador,
que se mantinha silencioso e à distância. Ali evidentemente não
haveria nenhum aperto de mão. Apenas Gucky quis aproveitar a
oportunidade de entrar em contato pessoal com o representante do
regente.
Mas
antes que pudesse dirigir a palavra aos outros, o que certamente
teria dado origem a certas complicações, o regente tomou a
iniciativa.
— Cumprimento-o,
Perry Rhodan — soou a voz fria e mecânica saída do alto-falante
escondido. — Sim, sou eu mesmo que lhe estou falando. Aquilo que vê
à sua frente é apenas uma estação retransmissora. Estamos em
contato direto. É como se você estivesse em Árcon, ou se eu
estivesse aí, perto de você.
— Fico
satisfeito em vê-lo depois de tanto tempo — respondeu Rhodan,
procurando ocultar o nervosismo.
— Para
mim foram apenas alguns segundos — respondeu a voz mecânica sem a
menor comoção. — Mas concordo com você; também fico satisfeito
em revê-lo. Neste meio tempo aconteceu muita coisa.
Rhodan
viu que seus mutantes haviam tomado lugar nas rochas mais próximas,
ao lado de Talamon e de seus companheiros. Crest mantinha-se um tanto
afastado e conversava animadamente com um arcônida. Mais adiante, a
gigantesca Drusus estava pousada no solo, aguardando numa atitude
ameaçadora. Do outro lado, estava sua imagem perfeita, em atitude
não menos ameaçadora.
— Já
sei — respondeu Rhodan.
— Sim,
seus agentes descobriram, Rhodan. Mas não acredito que saibam de
tudo.
A
palestra foi conduzida em voz alta, motivo por que as delegações
ouviam cada palavra pronunciada. Marshall e os outros mutantes
acompanhavam atentamente tudo que se falava. Talamon também se
interessou pelo diálogo.
— O
que poderia ter escapado a eles, regente? Sei que você voltou a
transformar o Império dos Arcônidas num importante fator de poder
no seio da Via Láctea e restabeleceu a paz. Fico realmente
satisfeito com isso. Você varreu todos os inimigos. No Império,
reina a paz e a ordem. É o que sei, regente. Gostaria de saber o que
você sabe sobre mim e sobre o planeta Terra.
— Não
sei muita coisa — confessou o computador. — Há certo tempo
acreditava-se que a Terra havia sido destruída. Você estava
desaparecido. De repente, você ressurge. Isso nos coloca diante de
fatos novos, com os quais tenho de me conformar.
— Não
está curioso para saber como isso foi possível?
— Por
quê? Você está vivo, Rhodan, e é só o que interessa. Talvez
quisesse enganar-me de propósito. Se foi assim, você conseguiu. O
passado está liquidado, só o presente importa. E, evidentemente,
também o futuro. Foi por isso que quis ter um encontro com você.
Rhodan
sabia que os psicólogos de robôs que se encontravam na Drusus
ouviam cada palavra que se pronunciava ali. A interpretação era
automática, e os resultados já estavam disponíveis. Hesitou um
pouco, mas acabou vencendo o desejo de solicitar que os mesmos lhe
fossem transmitidos. Não queria despertar suspeitas no regente.
— Quer
dizer que não está interessado em saber como consegui enganar você
e a toda a Galáxia, regente?
— Talvez
mais tarde. Por enquanto temos problemas mais importantes. Como sabe,
há paz e ordem no Império e, portanto, nos setores conhecidos da
Via Láctea. Todas as raças vivem tranqüilas, e já não existem
guerras. Apenas vez por outra, certos grupos de piratas procuram
conseguir vantagens. Mas logo são localizados e destruídos por
minhas tropas. Não conheço qualquer compaixão contra quem deseja a
guerra.
— Constato
que existe certo paralelismo entre nossas idéias — disse Rhodan
com um sorriso, olhando diretamente para a tela, atrás da qual
deveria ficar a câmera que transmitia sua imagem para Árcon. —
Por isso vivo perguntando a mim mesmo por que não trabalhamos em
conjunto.
— Teremos
de trabalhar em conjunto, Rhodan, pois do contrário nossa própria
existência estará em perigo.
Foi
a primeira vez que a voz do regente revelou vida.
Parecia
que a preocupação vibrava na voz do cérebro mecânico — a
preocupação pela conservação da própria existência.
— Conforme
as condições, estarei disposto a cooperar, regente. Mas, em
hipótese alguma, concordarei em ser seu servo.
— Nem
exijo tanto, se bem que numa situação dessas seria preferível isto
à morte. E o perigo de morte existe, Rhodan.
Mais
uma vez Rhodan sentiu a seriedade da voz. Infelizmente sua reduzida
capacidade telepática nessa hora não servia para nada, pois ninguém
consegue ler os pensamentos de um cérebro positrônico.
— Que
perigo? — limitou-se a perguntar.
— Não
posso defini-lo, mas o fato é que já existe há dez anos. Ninguém,
a não ser eu, sabe de sua existência, pois sempre que surgiu, não
houve ninguém que pudesse contar qualquer coisa. Você entende,
Rhodan? Não houve sobreviventes.
Rhodan
sentiu uma mão fria que queria agarrar seu coração. Será que a
guerra voltava a ameaçar a Via Láctea.
“Teria
surgido mais um inimigo imbuído do propósito de destruir
implacavelmente as raças humanóides?”,
pensou, indagando-se. Depois perguntou, procurando ser objetivo:
— A
espécie do armamento usado pelo inimigo não permite alguma
conclusão, regente?
— Armas?
— perguntou o regente em voz fria. — Até agora o inimigo
desconhecido não revelou o tipo de armamento que usa. Talvez não me
esteja exprimindo com suficiente clareza, Rhodan. Conforme disse, não
há sobreviventes. Para ser mais preciso: depois do ataque do medonho
inimigo, todos os seres humanos e os animais somem.
— As
criaturas são destruídas, transformadas em radiações?
— Não
é isso. Simplesmente desaparecem. Planetas inteiros são
despovoados. Esses planetas pertenciam ao nosso Império, possuíam
uma civilização avançada, desfrutavam dos benefícios de uma
natureza bem desenvolvida, com plantas e animais. Subitamente, desses
planetas só restaram as plantas. Os homens e os animais
desapareceram como se nunca tivessem existido. Até hoje não
consegui encontrar a explicação para o fenômeno. E todas as
precauções por mim adotadas revelaram-se inúteis. Não existe
qualquer tipo de proteção contra o inimigo.
Rhodan
lançou um ligeiro olhar para seus acompanhantes e para os membros da
delegação do regente. Pela reação de Talamon concluiu que o
superpesado ainda não tivera conhecimento do perigo. O superpesado
empalidecera e lançava um olhar quase suplicante para o cérebro
robotizado. Os saltadores e os arcônidas mostravam-se confusos e
temerosos. Só os mutantes de Rhodan conservavam a calma.
Mais
uma vez, Rhodan dirigiu-se ao “bebê”.
— O
que pretende fazer, e de que forma poderei cooperar?
A
máquina falou sem a menor hesitação:
— Para
podermos enfrentar o perigo, devemos unir nossas forças e
inteligências. Você é dotado da agilidade que eu não possuo.
Confesso que dispõe de forças mais vivas e competentes. Talvez eu
tenha mais poder. Acontece que nem uma coisa, nem outra será
suficiente, só por si, para enfrentar o inimigo, quanto mais para
derrotá-lo. Juntos, poderemos aproveitar a chance. Se é que essa
chance existe.
— Se
é que existe? — perguntou Rhodan, esticando as palavras. — Será
que já está disposto a abandonar as esperanças?
— Há
dez anos venho lutando sem o menor resultado contra o perigo
invisível. Dez anos é um tempo muito curto, mas suficiente para
permitir uma conclusão. Se não conseguirmos ao menos identificar o
pavoroso agressor, estaremos perdidos. O inimigo vai despovoar toda a
galáxia.
— Você
está exagerando! — disse Rhodan em tom áspero.
Simplesmente
não poderia haver um perigo tão apavorante como o regente estava
contando.
— Estou
disposto a ajudar, regente. Mas como amigo e sócio, de igual para
igual. Se necessário, exigirei até o poder de comando sobre sua
frota de guerra e seus robôs de combate.
— Isso
não é possível — recusou o regente em tom frio. — Não posso
conferir-lhe qualquer poder sobre os arcônidas.
— Reconheço
que você se vê diante de uma decisão difícil. Mas só lhe resta
uma alternativa; ou confia em mim, ou então um belo dia o perigo
invisível há de corroer todo o Império. Pessoalmente não tem nada
a recear, pois é feito de matéria inorgânica.
— Acontece
que sou responsável por toda a vida neste setor da Via Láctea...
— Pois
aja de acordo com essa responsabilidade! Transfira-me parte de seu
poder, pois só assim poderei enfrentar o inimigo.
Surgiu
uma ligeira pausa. Baldur Sikermann aproveitou-a para entrar em
contato com Rhodan. O laboratório da Drusus chamou. Um dos
cientistas cochichou:
— Segundo
nossas análises, o computador está dizendo a verdade. Já não
consegue dominar o perigo com que se defronta e sente-se satisfeito
em encontrar alguém que possa ajudá-lo. Aceitará todas as
condições que o senhor fizer; não existe a menor dúvida.
Rhodan
respondeu em voz baixa:
— Obrigado,
doutor Ali el Jagat — falando mais alto, prosseguiu: — Sikermann,
acho conveniente fazer decolar algumas naves auxiliares, a fim de
patrulhar o espaço em torno de Mirsal III.
Os
arcônidas devem agir da mesma forma.
— Perfeitamente.
Talamon
fez um sinal com a cabeça e transmitiu instruções idênticas aos
oficiais que se encontravam na Arc-Koor. Dali a um minuto, os
versáteis girinos subiram verticalmente ao céu, e colocaram-se em
órbita.
Rhodan
suspirou aliviado. O perigo de um ataque de surpresa havia sido
grandemente reduzido. Por um instante perguntou a si mesmo quem
poderia atacá-los. Depois voltou a dirigir-se ao computador.
— Já
chegou a uma decisão, regente?
— Cooperaremos
de igual para igual, Rhodan. Em hipótese alguma poderei conceder
mais do que isso sem colocar em perigo a existência do Império.
Rhodan
confirmou com um gesto.
— Se
quisesse, poderia conseguir mais, mas dou-me por satisfeito com o que
você acaba de oferecer. Só aceito o que você quiser dar
espontaneamente. Talvez ainda chegue o tempo em que esteja disposto a
confiar-me responsabilidades maiores. Peço-lhe que me explique seus
planos.
— Não
tenho qualquer plano, Rhodan. Aguardamos o próximo ataque; só assim
poderá ter uma idéia. Depois você me informará sua opinião a
respeito, e conferenciaremos sobre o que se pode fazer.
— Minha
opinião?
— Isso
mesmo. Tenho minha opinião sobre o inimigo, sobre quem seja ele,
sobre seus métodos. Não lhe comunicarei esta opinião, para não
influenciar suas idéias. Se você chegar à mesma conclusão que eu,
existirá boa probabilidade de termos nos aproximado da verdade. É
bem possível que essa verdade vá arrasá-lo. Seu cérebro não a
suportará. É uma verdadeira loucura...
Rhodan
manteve seu ar de fria superioridade.
— Estou
preparado para o pior, regente. Portanto, no terreno psicológico não
existe o menor perigo para mim. Nossa palestra está terminada, ou
será que tem mais alguma sugestão?
— No
momento não. Você poderá conferenciar com Talamon sobre a maneira
de cooperarmos. Entrarei em contato com você assim que o inimigo
desconhecido volte a atacar. Pela primeira vez faço votos de que
isso não demore muito.
A
tela da semi-esfera de aço apagou-se. O “bebê” manteve-se
imóvel sobre seus campos antigravitacionais. Sem dúvida continuava
a manter contato com o regente, mas não interferia mais nos
acontecimentos.
— Você
ouviu o que o regente acaba de dizer. Não sabia nada sobre esse
perigo? — perguntou Rhodan, dirigindo-se a Talamon.
— Não
tinha a menor idéia — respondeu o superpesado, e Rhodan percebeu
que não estava mentindo. — Que seres serão estes que vêm das
profundezas da Via Láctea e despovoam nossos mundos?
— Não
tenho a menor idéia, Talamon. De qualquer maneira, parece que
podemos esquecer as preocupações que trazíamos na mente e
arquivá-las. Surgiu alguma coisa terrível e muito mais perigosa do
que tudo que já conhecemos. Não sabemos o que é. Um perigo
desconhecido sempre é mais funesto do que qualquer outro.
Talamon
esteve a ponto de responder, mas não conseguiu.
O
minúsculo receptor de pulso de Rhodan emitiu um zumbido e Sikermann
exclamou:
— Atenção
Sir!
Um
dos girinos deu o alarma.
Quase
no mesmo instante, o computador — ou seja, a estação
retransmissora do regente — começou a deslizar em direção à
Arc-Koor. Talamon viu, mas não fez qualquer comentário. Um dos
arcônidas que o acompanhava tirou uma caixinha do bolso e comprimiu
um botão. Uma voz forte disse:
— Volte
à nave! Alarma! O planeta está sendo atacado!
Rhodan
sentiu-se totalmente perplexo.
“Teria
sido vítima de um estratagema primário?”,
pensou atordoado.
Mas
logo viu que Talamon empalidecia e compreendeu que, de uma hora para
outra, o planeta, onde eles se encontravam, havia se transformado no
centro de acontecimentos que ninguém previra.
— Alarma?!
Gritou
apressadamente para dentro do rádio de pulso:
— O
que houve? Quero os detalhes.
— Nossas
naves auxiliares localizaram naves espaciais desconhecidas, mas
voltaram a perdê-las. Os comandantes afirmam que essas conseguem
tornar-se invisíveis.
— Invisíveis?
— repetiu Rhodan e sentiu um terrível choque. — Invisíveis?
John
Marshall e Talamon aproximaram-se.
— Preciso
voltar à minha nave, para aguardar outras instruções — disse o
superpesado. — Ninguém poderia ter previsto este incidente. O que
aconteceu mesmo?
— Sei
tanto quanto você — respondeu Rhodan, enquanto suas idéias se
atropelavam e ele procurava lembrar-se do que o regente lhe dissera
sobre o terrível agressor. — Uma coisa é certa: este planeta está
sendo visitado por seres desconhecidos.
— Desconhecidos?
Talvez sejam aqueles de que o regente nos falou — Talamon ergueu-se
e olhou para sua nave esférica. — Por que será que não atacam?
Rhodan
fez um sinal para Marshall e seus outros acompanhantes.
— Agora
não temos tempo para discutir sobre isso, Talamon. Você ouviu o que
o regente disse. Assim eu e ele passamos a ser sócios, de igual para
igual. Tomara que desta vez a sociedade seja mais duradoura do que
foi há seis decênios. Lutaremos lado a lado nas batalhas que se
aproximam. Receio de que já tenha chegado a hora da primeira.
Decolaremos e aguardaremos. Manteremos contato permanente pelo rádio.
Passe bem, Talamon. Nas próximas horas, descobriremos de que forma
poderemos enfrentar juntos os maiores perigos.
— Felicidades,
Rhodan — respondeu o superpesado e, sem dizer mais uma palavra, deu
as costas a Rhodan e caminhou em direção à Arc-Koor. Os arcônidas
e saltadores seguiram-no sem dizer uma palavra. Seus rostos haviam
perdido a cor sadia que lhes era costumeira.

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