segunda-feira, 18 de março de 2013

P-058 - Ataque do Invisível - Clark Darlton [parte 1]

Autor
CLARK DARLTON


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN

Os Invisíveis golpeiam — e o
desaparecimento em massa começa...

Apesar das hábeis manobras realizadas no espaço galático, o trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria ocorrido no ano de 1984.
Uma nova geração de homens surgiu.
E, da mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante...
Mas, subitamente, surge um acontecimento que transforma Terra e Árcon em aliados.
O computador-regente precisa de auxílio para defender-se contra o ataque do invisível, que ameaça toda a Via Láctea...




= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

TalamonSuperpesado servindo a Árcon.

Cadete BeckerQue desapareceu em Mirsal.

Marcel RousComandante da nave auxiliar K-7.

Baldur SikermannImediato da nave Drusus.

GuckyO rato-castor mutante.

Era um homem alto e esbelto, de cabelos escuros. Os olhos, azuis-claros e ligeiramente oblíquos, fato que tinha sua origem na descendência materna japonesa. Mas não era só isso que chamava a atenção em sua pessoa.
Ralf Marten era mutante ou, mais precisamente, um teleótico. Bastava concentrar-se fortemente para eliminar a própria consciência e penetrar na de outro ser, enxergando com os olhos do mesmo. Essa capacidade extraordinária foi um dos motivos de ser ele destacado para trabalhar como agente cósmico do Império Solar no segundo planeta do sol Trebola, situado a quatro mil anos-luz da Terra.
Não era um serviço pesado. Trebola II, um mundo belo e pacato! Mas não era a Terra. Seus habitantes, seres inteligentes em forma de aranha, não sabiam distinguir um ser humano do outro. Por isso, Marten não teve a menor dificuldade em fazer-se passar por um descendente dos arcônidas. Conseguiu convencer o administrador de Árcon, que existia em qualquer mundo habitado do Império Arcônida, de que seus antepassados, que há muito tempo ali realizaram um pouso de emergência, no correr dos séculos modificaram ligeiramente seu aspecto exterior.
Quando fechou a porta de seu pequeno escritório, situado nas proximidades do espaçoporto, Ralf Marten praguejou consigo mesmo. Era ali que se concentrava a vida de Trebola II, ao menos na parte que dizia respeito às relações com outros mundos. Marten mantinha uma pequena agência de viagens e arranjava vôos e excursões turísticas para todas as partes do planeta. Dessa forma mantinha contato com as inteligências vindas de outros mundos, e muitas vezes descobria novidades que se revestiam da maior importância para a Terra.
Foi caminhando pela alameda e aproximou-se da rua principal, que levava ao seu pequeno apartamento. Pelo aspecto exterior sua residência não era diferente das demais do planeta. Ao menos daquelas ocupadas por seres humanóides. Havia, porém, algumas diferenças fundamentais, que muita gente acharia interessante, se soubesse das mesmas.
Marten foi andando mais devagar e olhou discretamente em torno. Esperava ser descoberto a qualquer momento, pois há algumas semanas o regente do Império Estelar de Árcon descobrira que a Terra, falsamente destruída há mais de cinco decênios, ainda existia. Na verdade, esse regente era apenas um gigantesco centro de computação positrônico. Porém esse fato apenas o tornava mais perigoso.
Tranqüilizado, Marten entrou no edifício, tomou o elevador e subiu ao décimo pavimento, parando diante da porta de seu apartamento. Empurrou o polegar para dentro da pequena abertura redonda que ficava junto à fechadura e pôs-se a esperar. Dentro de poucos segundos, a fechadura eletrônica registrou e transmitiu suas impressões digitais e o modelo das vibrações de seu cérebro. A porta abriu-se com um ligeiro zumbido. Marten entrou e voltou a trancá-la.
Assobiou enquanto entrava na cozinha e programava o jantar no fogão robotizado. Enquanto a refeição estava sendo preparada, foi à sala e dedicou-se a uma atividade muito misteriosa. Num dos cantos havia uma caixa metálica pouco vistosa, de cerca de cinqüenta centímetros de altura e largura e um metro de comprimento. Abriu-a por meio de duas chaves estranhas que trazia numa corrente pendurada ao pescoço. Se uma pessoa qualquer tentasse abrir a caixa, faria detonar uma carga explosiva. A explosão, além de destruir o objeto, mataria o intruso.
A tampa abriu-se. O aparelho colocou-se em recepção, enquanto o emissor transmitia o chamado. Tudo era feito automaticamente. Não se tratava de um aparelho de radiotransmissão como qualquer outro, pois numa distância de quatro mil anos-luz de nada serviria. Na caixa havia um hiper-transmissor e receptor, de um modelo especialmente construído para os agentes cósmicos. As ondas emitidas pelo mesmo venciam distâncias enormes numa fração de segundo.
Os impulsos vindos de Trebola II percorreram o hiperespaço, em direção à Terra. A mensagem era codificada; ninguém conseguiria decifrá-la se não intercalasse o respectivo corretor.
Agente Marten chamando a Terra. Pronto para a recepção. Agente Marten chamando...
A mensagem foi transmitida até que chegasse a confirmação. Quando isso aconteceu, o transmissor desligou-se automaticamente. Marten saberia que não havia novas instruções, e a estação receptora da Terra estava informada de que seu agente Marten continuava vivo.
Uma luz vermelha acendeu-se.
Marten esqueceu o robô de cozinha e deu toda atenção à recepção.
Havia uma mensagem para ele.
Dali a poucos segundos, ouviu-se uma voz humana. Marten estremeceu instintivamente, pois fazia muito tempo que não ouvia a voz de um terrano.
Central chamando o agente Marten. Instruções de Terrânia: Amanhã pousará uma nave dos mercadores galácticos, comandada pelo chefe de clã Logarop. Suba a bordo. Antes, você deverá destruir seu próprio apartamento, segundo o plano XXB. Favor confirmar. Desligo.
Marten ligou para a transmissão.
Agente Marten para a central. Entendido. Desligo.
O zumbido cessou.
A tampa foi fechada. Marten levantou-se e foi à cozinha. A comida estava pronta; comeu sem vontade. Não havia nada que o prendesse a Trebola. Mas sempre que há uma mudança surge a pergunta: o futuro será melhor que o presente? Já se adaptara à vida em Trebola e conhecia suas tarefas.
E não tinha a menor certeza sobre o que viria pela frente.
Mas ordens eram ordens.
No dia seguinte sairia do apartamento como se não tivesse acontecido nada. Mas dali a uma hora os ácidos gaseificados apagariam todos os vestígios de sua presença. Se, depois de alguns dias ou meses, alguém tivesse a idéia de penetrar no apartamento abandonado, não encontraria o menor sinal da atuação de Marten. Apenas se depararia com um apartamento vazio.
Marten foi deitar cedo. Não teve vontade de fazer uma última visita ao administrador.
Sua missão em Trebola II estava concluída.

* * *

Mais ou menos a mesma coisa aconteceu naquele dia com cinco outros agentes do Império Solar. A central de comando situada em Terrânia, capital do planeta Terra, chamou-os de volta. A respectiva ordem provinha diretamente de Perry Rhodan.
Terrânia, a enorme metrópole de mais de 14 milhões de habitantes, ficava numa área que, há pouco mais de meio século, era conhecida pelo nome de deserto de Gobi. Área esta provocadora de sentimentos nada agradáveis. Hoje não havia nada que lembrasse as pedras e a areia que antigamente dominavam a paisagem. Gigantescos arranha-céus, amplas áreas verdes e um enorme espaçoporto constituíam as características principais da cidade de onde se controlavam os destinos do Império Solar.
Todos os fios vinham ter às mãos de um único homem: Perry Rhodan.
Foi ele quem ordenou o regresso de seis agentes cósmicos, e mandou adotar as providências necessárias para isso. Essas providências consumiram alguns dias, pois nem sempre as coisas correram tão bem como no caso de Ralf Marten.
Uma semana depois de iniciada a ação, só faltava John Marshall, o verdadeiro chefe do Exército de Mutantes, que era um excelente telepata.
John Marshall, um australiano de cabelos escuros e rosto estreito, recebera juntamente com Rhodan e mais alguns personagens importantes da antiga Terceira Potência, no planeta artificial Peregrino, a ducha celular que conservava a vida. Embora tivesse cerca de cem anos, apresentava o aspecto de um quarentão bem conservado. Sua missão o levara para Reno 25.
Reno 25 era o vigésimo quinto planeta de um sistema solar. Esse sistema era formado por cerca de sessenta planetas. Todos gravitavam em torno das três estrelas, pouco distantes uma da outra, que constituíam o núcleo desse estranho sistema. Seu centro de gravidade ficava num lugar vazio do espaço. Os três sóis giravam em torno desse lugar.
Sete dos sessenta planetas eram habitados por seres inteligentes. Reno 25 era considerado o mundo principal.
Situado a aproximadamente dez mil anos-luz, o planeta era um importante pólo de comércio do Império Arcônida, e ainda servia de base aos mercadores galácticos e à frota de guerra dos arcônidas.
Não era de admirar que John Marshall tivesse sido enviado justamente para lá, a fim de transmitir os acontecimentos mais importantes para a Terra. Usava um transmissor semelhante ao de Ralf Marten.
Marshall tivera de recorrer às artes dos cirurgiões plásticos terranos, a fim de fazer-se passar por um lurano. Os luranos eram uma raça perfeitamente humanóide. Eram considerados como um clã um tanto “teimoso” dos mercadores galácticos, também conhecidos como saltadores; chamavam-se assim porque viviam em suas gigantescas naves cilíndricas e de certa forma saltavam de uma estrela para outra, a fim de se dedicarem ao comércio.
Marshall usava o nome de Probat e todos o consideravam sócio de um lurano muito influente, que todo mundo conhecia apenas de nome. Ninguém havia visto esse lurano, o que não era de admirar, uma vez que o mesmo só existia na imaginação de Marshall. Mas, como o desconhecido por certo possuía muito dinheiro, ninguém se importou com isso.
O escritório de Probat ficava nas imediações do espaçoporto, onde num dos hangares particulares havia um disco voador achatado. A pequena nave tinha trinta e cinco metros de diâmetro e dezoito metros de altura. Era uma Gazela, tipo de nave de reconhecimento que permitia saltos pelo hiperespaço até a distância de quinhentos anos-luz.
Reno 25 era um mundo pacato, pois no Império dos Arcônidas já não havia guerras. Porém seus habitantes e o administrador local de Árcon deviam ter ficado espantados quando, naquele dia, três naves cilíndricas de quase trezentos metros de comprimento, que se identificaram como veículos espaciais dos saltadores, pousaram de súbito. Mas, mal essas naves tocaram a superfície de Reno 25, uma coisa extraordinária aconteceu.
As escotilhas abriram-se, e delas saíram algumas companhias de robôs de guerra bem equipados. Alarmadas às pressas, as tropas do administrador foram rechaçadas depois de uma luta ligeira, e os robôs ocuparam a cidade.
Só então ficaram sabendo se tratar de um grupo de piratas bem organizados, que viviam das sobras dos diversos mundos, e surgiam inesperadamente nos mais diversos lugares.
No momento do ataque, Marshall encontrava-se no seu escritório, e não teve tempo de transmitir a novidade excitante à Terra através do hiper-rádio. Antes que soubesse o que estava acontecendo, dois robôs de guerra penetraram em seu apartamento, que ficava em cima do escritório, e demoliram as instalações. Infelizmente mexeram no hipertransmissor camuflado.
A única coisa que sobrou foi o escritório, situado no pavimento inferior do edifício.
O resto foi pelos ares, juntamente com os dois robôs.
Marshall viu-se isolado da Terra. Mas sentia-se satisfeito por ter escapado com vida. A primeira idéia que lhe veio à mente foi pegar a Gazela e deixar o planeta pouco hospitaleiro. Porém teve de notar que isso não seria tão simples como imaginara. Os piratas fecharam “hermeticamente” o espaçoporto, impedindo que qualquer pessoa saísse de Reno 25.
Marshall estava preso e nem desconfiava da ordem que há várias horas percorria ininterruptamente o hiperespaço: estavam à procura de seu receptor. Esperava pacientemente por uma chance de atingir sua nave espacial. Tinha certeza de que, uma vez a bordo, conseguiria fugir, e não teria a menor dificuldade em romper o bloqueio em torno de Reno 25.
Na teoria isso poderia dar certo, mas na prática era diferente. Os piratas ocuparam o palácio do administrador, e juntamente com ele o hipertransmissor. As comunicações com Árcon estavam interrompidas, ainda mais que, quase no mesmo instante, entrou em ação um transmissor dos piratas, que emitia sinais de interferência. Assim, todas as naves do espaçoporto ficaram impossibilitadas de emitir qualquer pedido de socorro.
Os piratas não se apressaram em saquear o planeta indefeso. Mas tiveram azar; foi justamente o emissor que realizava as interferências que lhes seria fatal. Cerca de oito dias depois do ataque, o centro de computação de Árcon procurou entrar em contato com o administrador de Reno 25. Isso poderia acontecer mais ou menos de dez em dez anos. Como não obtivesse resposta, o regente robotizado reagiu com a costumeira rapidez. Enviou um grande couraçado para Reno, a fim de verificar o que estava acontecendo.
Marshall estava sentado em seu quartinho, em meio aos destroços, observando os hangares. Tivera sorte, pois não houvera outros ataques dos robôs: fora deixado em paz. Sentia-se despreocupado, muito embora uma inquietação cada vez mais intensa ameaçasse tornar insuportável sua permanência no planeta.
Foi nesse instante que surgiu o couraçado!
Antes que os piratas pudessem organizar a defesa ou reunir-se, a gigantesca esfera espacial pousou. Uma divisão de potentíssimos robôs de combate saiu pelas comportas e entrou em posição. Os robôs dos piratas, que eram um pouco menores, passaram automaticamente ao ataque, e com isso revelaram desde logo o que havia acontecido em Reno 25.
Marshall teve oportunidade de verificar como os métodos de governo de Árcon haviam mudado nos últimos decênios. O computador-regente não admitia qualquer tipo de desobediência.
As máquinas de guerra do regente restabeleceram a ordem, sem colocar em perigo a vida de qualquer ser humanóide. Num ataque concentrado destruíram os robôs inimigos e aprisionaram os piratas em que conseguiram pôr as mãos. As três naves cilíndricas fundiram-se sob o fogo cruzado dos raios energéticos.
Marshall assistiu a tudo sem sair do lugar. Para ele, não havia o menor perigo, pois a qualquer momento poderia identificar-se como habitante de Reno 25. Cinco horas depois do pouso da nave esférica, a ordem havia sido restabelecida, e a reconstrução foi iniciada. Uma companhia de robôs de combate ficou no planeta, enquanto o resto embarcou na nave e voltou para Árcon.
Marshall tinha um único desejo: sair o quanto antes de Reno 25. O que lhe restava fazer ali, se não dispunha de meios de entrar em contato com a central? Sua nave estava guardada num dos hangares. A proibição de decolagem já fora revogada. O que estava esperando?
Uma vez que não possuía mais nada, saiu de mãos vazias, passou pelos robôs que montavam guarda, identificou-se como Probat, um rico negociante, e conseguiu chegar ao hangar onde estava sua Gazela.
O resto foi facílimo.
Penetrou na comporta e entrou na pequena sala de comando, depois de ter transmitido as necessárias instruções aos robôs de trabalho. A cobertura do hangar abriu-se para o lado, deixando à mostra o céu. Marshall fez sua pequena nave subir verticalmente e logo acelerou ao máximo. Um rastro chamejante marcava a trajetória da Gazela que, dentro de poucos segundos, rompeu a atmosfera, aproximando-se da velocidade da luz. Assim, já estava prestes a fazer o primeiro salto que a levaria pelo hiperespaço.
Marshall ligou o compensador estrutural. Foi um ato instintivo, mas o mesmo lhe poupou muitos aborrecimentos, pois nesse exato momento o administrador de Reno 25 recebeu instruções terminantes para realizar um cuidadoso exame sobre a verdadeira identidade do comerciante Probat, já que havia suspeitas fundadas de que o mesmo...
A investigação foi iniciada, e sua fase inicial terminou no hangar. Logo se estendeu ao espaço, onde mais uma vez chegou ao fim.
Desta vez terminou num ponto em que a nave do suspeito havia desaparecido, mergulhando numa dimensão diversa sem deixar a menor pista.
Era claro que Marshall nem desconfiava desses acontecimentos. O chefe do Exército de Mutantes teve trabalho de sobra. Depois de cada salto, sempre havia necessidade de fazer os computadores de navegação calcularem e programarem a rota da Terra. Cada salto fazia a Gazela avançar quinhentos anos-luz. A distância até a Terra era de dez mil anos-luz. Cada salto durava mais ou menos um décimo de segundo. Os preparativos, que no início consumiam meia hora, foram se reduzindo a pouco menos de cinco minutos. Apesar de tudo, quase um dia se passou até que Marshall chegasse ao sistema solar e pudesse pousar no espaçoporto de Terrânia.
Chegou na hora exata para participar da última reunião destinada a discutir a situação.
No momento em que Marshall entrou na pequena sala onde se realizava a reunião, Rhodan levantou a cabeça.
Ora, veja! O senhor? Já não contava com sua presença, John. A ordem de deixar o planeta foi emitida há mais de dez dias.
Houve um pequeno incidente — disse o telepata com um sorriso e relatou em termos lacônicos os acontecimentos que se haviam desenrolado em Reno 25. Rhodan só se interessava por um único fato: a reação rápida e precisa do computador positrônico de Árcon. Uma ruga surgiu em sua testa.
Muita coisa mudou no Império dos Arcônidas — constatou. — Devemos estar preparados para enfrentar um inimigo igual a nós, não um império decadente. O regente aprendeu a impor-se. Receio que nosso jogo não será nada fácil.
Que nada! — piou enfaticamente uma voz que vinha dos fundos da sala. — Esse montão de latas positrônicas vai tremer que nem um pudim quando souber das nossas condições.
Nesse caso será preferível que você se mantenha discretamente “nos fundos” — exclamou Ralf Marten em tom zombeteiro.
A criatura que falara em primeiro lugar endireitou o corpo, e chegou a medir um metro de altura. Agachado sobre as pernas traseiras, apoiava-se sobre a larga cauda de castor. A parte anterior do corpo e a cabeça pareciam de um grande rato.
Manter-me nos fundos? — disse Gucky em voz estridente e em tom indignado. — Afinal, sou telepata, telecineta, teleportador, hipno...
Só isso? — perguntou Rhodan em tom amável.
Gucky esteve a ponto de responder, mas acabou sacudindo tristemente a cabeça, voltando a sentar. Parecia sentir-se triste como se fosse um mutante em decadência.
Rhodan reprimiu o riso e, dirigindo-se principalmente a Marshall, disse:
Como sabe, a fim de ganhar tempo, há cinqüenta e seis anos fizemos a Galáxia e o regente acreditarem que a Terra havia sido destruída. Hoje sentimo-nos bastante fortes para formular nossas condições perante o regente, que neste meio tempo também se fortaleceu. A descoberta foi devida a Talamon, um superpesado. Ele me reconheceu há algumas semanas, quando fui buscar Fellmer Lloyd. O regente foi informado imediatamente, e desde então emite uma mensagem de minuto em minuto, para que entre em contato com ele. Os psicólogos de robôs chegaram à conclusão de que deve encontrar-se em situação difícil, pois do contrário sua reação seria bem diferente. Por isso, respondemos ao chamado. Bem, Marshall, a situação é esta.
E eu mais uma vez terei de ficar aqui — resmungou alguém com a voz contrariada. Todos os olhares voltaram-se para a pessoa que acabara de falar.
Ao que tudo indicava, Reginald Bell, o representante de Rhodan e seu melhor amigo, não estava satisfeito com o papel que lhe estava sendo atribuído.
Ora, Bell — disse Rhodan em tom contemporizador. — Você terá uma responsabilidade pesada na Terra. Não posso dispensar sua presença em nosso planeta. Durante a missão que vamos executar, preciso ter certeza absoluta de que aqui tudo anda bem. Será que isso não é uma missão de verdade?
Bell exibiu um sorriso forçado e nada alegre.
Farei com que você obtenha o Prêmio Nobel de melhor consolador, Perry. Está bem, não estou zangado...
Está é com inveja — interrompeu Gucky, que exibia alegremente seu dente roedor e balançava as orelhas. — Você estouraria se pudesse ver-me em combate. A Galáxia estremecerá e empalidecerá quando souber que o grande Gucky voltou a aparecer...
Uma Galáxia que empalidece deve ser um panorama notável — disse Rhodan, ameaçando o rato-castor com o dedo em riste. — Mas fiquem quietos, senão amanhã ainda estaremos aqui. Vou fornecer a posição de cada participante. Desta vez, o grosso da tropa será formado pelo Exército de Mutantes, representado pelo telepata John Marshall, pelo telecineta Tama Yokida, pelo telepata e localizador Fellmer Lloyd, pelo teleportador Ras Tschubai, pelo teleótico Ralf Marten e por Gucky. Além disso, os oficiais e tripulantes da Drusus farão parte do contingente.
Os senhores ainda não conhecem a Drusus. Trata-se de uma nave esférica do tipo da Titan, de um quilômetro e meio de diâmetro, dois mil tripulantes, quarenta Girinos de sessenta metros de diâmetro nos hangares de bordo e uma capacidade de executar hipersaltos de trinta mil anos-luz. Os outros dados são idênticos aos da Titan, que os senhores já conhecem. A Drusus foi construída na Terra; portanto, não é uma presa de guerra. Acredito que com ela conseguiremos impressionar o regente.”
Hum — fez Bell, mas não disse mais nada.
Mandei construir esta supernave exclusivamente para fins demonstrativos — prosseguiu Rhodan, sem impressionar-se com a objeção sumamente lacônica. — De qualquer maneira, acha-se equipada com as armas mais eficientes de que dispomos, inclusive o transmissor fictício de matéria. A decolagem já será realizada amanhã de manhã. Os últimos detalhes serão fornecidos a bordo. Mais alguma pergunta?
Ras Tschubai, um africano robusto, fez um sinal violento com a cabeça.
Sim, chefe. O computador-regente de Árcon já foi informado sobre a visita que lhe pretendemos fazer?
É claro que não — disse Rhodan com um sorriso. — Amanhã de manhã realizaremos um salto curto pelo espaço adentro, evidentemente com o compensador estrutural ligado. Depois estabeleceremos contato. A seguir, ele poderá realizar a determinação goniométrica do local de transmissão, pois isso já não representará o menor perigo para nós. Sua lógica lhe dirá que jamais enviaríamos uma hipermensagem da Terra.
Não houve outras perguntas. Todos sabiam que Rhodan lhes forneceria em tempo todas as informações que se tornassem necessárias.
Então, até amanhã — concluiu Rhodan e retirou-se. Bell acompanhou-o, pois tinha mais algumas perguntas.
Os mutantes seguiram os dois homens com os olhos.
Teriam mais uma noite na Terra.

Por toda parte, nas proximidades da Via Láctea, ou seja, até uma distância de trinta mil anos-luz, estavam postados os rastreadores estruturais dos arcônidas. Cabia-lhes detectar e registrar qualquer transição realizada por uma nave espacial. Dessa forma, o regente estacionado no centro do Império era mantido constantemente informado sobre toda e qualquer transição e podia tirar suas conclusões.
A primeira transição da Drusus foi realizada sob a proteção dos compensadores estruturais. O salto foi completamente “silencioso”, não tendo deixado o menor vestígio. Pelas profundezas da Via Láctea, ninguém ficou sabendo que em algum lugar uma gigantesca nave deixara o espaço normal para retornar a ele em outro ponto. A posição do planeta Terra manteve-se desconhecida.
Mas, dali a algumas horas, todo o mundo ficaria sabendo que essa nave existia, e quem era seu comandante.
As estrelas voltaram a surgir nas telas da Drusus.
O primeiro-tenente Baldur Sikermann, imediato da nave esférica, um homem baixo e moreno de rosto grosseiro, suspirou aliviado. Sentado ao lado de Rhodan, manipulava os controles. Tentava disfarçar a emoção que sentia diante do fato de que este vôo representava sua primeira tarefa séria.
Posição ordenada acaba de ser atingida. A distância da Terra é de exatamente trezentos anos-luz, posição de noventa graus em relação ao centro da Galáxia. Velocidade atual 0,98 luz.
Obrigado, Sikermann. A rota e a velocidade serão mantidas.
Rhodan fez um gesto de estímulo para o imediato, levantou-se, e caminhou em passadas enérgicas em direção à saída da sala de comando semicircular. Sabia que cada passo dado mais o aproximava da decisão. E seria uma decisão dura e difícil.
Alguém o esperava à porta da sala de rádio. De cabelos brancos brilhando, a figura esbelta estava ligeiramente inclinada para a frente. A posição traía-lhe a idade. Dois olhos vermelho-dourados num rosto inteligente revelavam se tratar de um albino. Todos os arcônidas de raça pura eram albinos, e Crest não constituía nenhuma exceção.
Por enquanto, a mensagem do regente não cessou, Perry — disse Crest com um sorriso um tanto embaraçado. — Já fizemos o computador esperar bastante.
Ele tem muito tempo, Crest — disse Rhodan, retribuindo o sorriso. — Devemos fazer de conta que também temos.
Entrou juntamente com o amigo na ampla sala de rádio, onde também ficavam as instalações de hipercomunicação. Embora houvesse meios de tornar impossível a determinação goniométrica de uma hiper-transmissão, Rhodan achou preferível não estabelecer contato com Árcon a partir da Terra. Ninguém podia saber que invenções os novos arcônidas poderiam ter feito nesse meio tempo. Crest recomendara que só se entrasse em contato com o regente quando a nave se encontrasse no espaço.
O tenente David Stern, um israelense de cabelos escuros e estatura mediana, fez continência quando o chefe entrou em companhia do arcônida.
Tudo em ordem na sala de rádio.
Obrigado, Stern — respondeu Rhodan, apontando para as instalações maciças. — O que está fazendo nosso amigo?
Stern ligou o suprimento de energia.
Continua a chamar. Parece que o texto sofreu uma pequena modificação; está vazado em termos mais pessoais. Quer ouvi-lo?
Talvez seria conveniente, Stern. Se estiverem transmitindo uma imagem, também a ligue.
Demorou alguns minutos que pareciam infindáveis até que a tela oval se iluminasse. Nela surgiu a imagem bem conhecida do regente arcônida: uma imensa abóbada de aço. Antenas móveis e instrumentos de medição interrompiam a superfície lisa.
A voz do maior computador positrônico da Via Láctea saiu do alto-falante numa entonação tranqüila, sem revelar a menor emoção.
Sei que você está vivo, Perry Rhodan da Terra. Por que não corresponde aos meus pedidos de entrar em contato comigo? Garanto-lhe que não falaremos no que passou. O que nos interessa é somente o futuro, Perry Rhodan. Seu futuro e o meu. Responda!
David Stern confirmou com um aceno de cabeça.
O computador está transmitindo este texto de dois em dois minutos, e isso certamente há alguns dias. Quer que desligue?
Mantenha-se em recepção, Stern, e ligue o transmissor.
Chegara o grande momento. Crest mantinha-se um pouco afastado e procurava demonstrar a emoção que sentia. Era um arcônida e já pertencera às camadas dirigentes de seu povo. Acontece que atualmente o governo estava sendo exercido pelo computador construído pelos próprios arcônidas. E, pelo que se via, não governava mal.
Rhodan aguardou até que a luz verde se acendesse e o computador fizesse uma pausa nas transmissões.
Depois disse com a voz calma e firme:
Aqui fala Perry Rhodan do planeta Terra. Recebi sua mensagem, regente. Nós, os terranos, estamos dispostos a entrar em contato com você. Poderia fazer o favor de confirmar?
Desta vez a mensagem que vinha sendo transmitida ininterruptamente não apareceu. De súbito a figura de aço que se via na tela parecia mergulhada numa luz ofuscante, pois a imagem tornou-se mais clara e brilhante. Era claro que Rhodan não havia ligado sua câmara, para que não pudesse ser visto.
Você está muito longe de Árcon, Rhodan — disse a voz mecânica do regente, sem revelar qualquer admiração ou alegria. — Eu o espero.
Rhodan respondeu com um sorriso frio:
Não pretendo colocar-me ao alcance de sua frota, regente. Tenho minhas condições. Quer ouvi-las?
Quero ouvi-las, Rhodan. Rhodan ainda estava sorrindo.
Crest, do clã dos Zoltral, sugere o terceiro planeta do sol Mirsal. Segundo os catálogos, trata-se de um mundo habitado, mas primitivo. Pousarei lá e esperarei por você ou seus enviados.
Jamais poderei sair de Árcon, Rhodan.
Muito bem; mande um representante. Sugiro o superpesado Talamon, que já conheço. Afinal, foi ele quem primeiro me encontrou.
Não, Rhodan. Venha para Árcon. Tenho...
Rhodan interrompeu o regente:
Ou nos encontramos em Mirsal III, ou não nos encontramos de forma alguma, regente. Envie Talamon. Combinado?
Por que justamente Mirsal?
Poderia ser outra estrela. Mas por que não Mirsal?
O computador manteve-se em silêncio por alguns segundos. Rhodan sabia que nesse curto espaço de tempo o gigantesco mecanismo podia processar um volume maior de reflexões que um cérebro humano em dez anos.
Está bem. Concordo com Mirsal, mas também faço uma condição. Cada um de nós virá numa única nave, e essa deverá ter sido construída no respectivo planeta natal: a minha em Árcon, a sua na Terra.
O sorriso de Rhodan tornou-se mais intenso.
Combinado, regente. Serão apenas duas naves que se encontrarão em Mirsal III. Vai enviar Talamon?
Enviarei Talamon, que será meu representante.
Quando? — perguntou Rhodan e lançou um olhar ligeiro para Crest, que ainda se mantinha um pouco afastado. Seu rosto estava completamente indiferente.
Dentro de dez das suas horas, Rhodan. Fim do contato.
Esse fim era muito abrupto, mas afinal não seria de esperar que um computador se despedisse com fórmulas corteses, conforme costumam fazer os humanos. Fim do contato. Era tudo.
Rhodan fez um gesto e David Stern desligou o aparelho.
Uma vez no corredor, o terrano dirigiu-se ao arcônida.
Então? — perguntou.
Crest levantou ligeiramente os ombros e disse:
Uma coisa é certa, Perry: o regente está bastante encalacrado, se me permite usar uma expressão terrana. Se não fosse assim, nunca teria concordado com as condições que você lhe apresentou.
Realmente — disse Rhodan. — Também não acredito que teria concordado. Mas qual poderia ser o problema. Ao que parece, no Império está tudo em ordem. Nenhum dos nossos agentes cósmicos deu informações sobre qualquer dificuldade.
Talvez se trate de dificuldades conhecidas apenas ao computador-regente — disse Crest.
Rhodan fitou Crest prolongadamente. Depois fez um gesto afirmativo e saiu andando.
A Drusus continuava a deslocar-se em direção ao centro da Via Láctea, numa velocidade beirando à da luz. Chegaria aproximadamente dentro de trinta mil anos.
Acontece que ninguém poderia esperar tanto, nem mesmo Perry Rhodan.

* * *

Por seis vezes a Drusus mergulhou no desconhecido do hiperespaço, para voltar a materializar-se em outro ponto. Os saltos levavam a direções diversas. Todos os saltos eram feitos sob a proteção do compensador estrutural. Assim venceram distâncias incomensuráveis.
Apenas o sétimo e último salto foi realizado sem qualquer proteção ou precaução. Este levou a Drusus ao sistema do sol Mirsal. Quem observasse este salto e a materialização que se seguiu, chegaria à conclusão espantosa de que o planeta Terra ficava além do centro da Via Láctea.
Seria um erro perfeitamente compreensível.
O sol Mirsal era igual ao astro que iluminava o planeta Terra.
Ficava a 14.480 anos-luz deste planeta, mais ou menos a meio caminho entre nosso sol e o de Árcon.
Cinco planetas gravitavam em torno de Mirsal. Segundo os catálogos dos arcônidas, só o terceiro desses planetas era habitado. A raça humanóide, que ali habitava, desenvolvera uma cultura primitiva; ainda estava longe da navegação espacial, se bem que tivesse recebido visitas ocasionais vindas do espaço.
Mirsal III parecia o ponto de encontro indicado.
A Drusus materializou-se sete horas antes do momento combinado com o regente. Prosseguiu à velocidade da luz, em direção a Mirsal III. Os tripulantes correram para os postos de combate, mantendo-se preparados para a qualquer momento abrir fogo contra um possível atacante.
Rhodan reuniu os mutantes na sala de comando. As telas enfileiradas reproduziam a imagem do espaço circundante. O primeiro-tenente Sikermann mantinha-se imóvel à frente dos controles.
O ar até parecia crepitar.
Rastreadores estruturais ligados — anunciou David Stern na sala de rádio. Sikermann agradeceu.
O espaço estava vazio. Não havia uma única nave no sistema, com exceção da Drusus. Ao menos, não havia qualquer nave de propulsão atômica. E no Império não existiam naves de outro tipo.
Será que o regente atacará? — perguntou Fellmer Lloyd, que se mantinha um tanto afastado. — Dificilmente encontrará outra oportunidade como esta.
Não, Lloyd — disse John Marshall, sacudindo a cabeça, quando notou que Rhodan não respondia. — Por que o regente nos atacaria? Tenho certeza de que os psicólogos de robôs estão com a razão. Árcon encontra-se em situação difícil, e quer que nós o livremos da mesma. Tenho a impressão de que querem fazer de nós uma espécie de policiais, tal qual já fizeram em outra oportunidade.
Acontece que não quero ser policial — piou Gucky em cima do sofá, onde se mantinha sentado. — Sou um rato decente.
Será que um policial não é uma criatura decente? — perguntou Marshall em tom de recriminação.
Gucky encolheu-se na poltrona quando notou o olhar de censura de Rhodan.
Teria ido longe demais?”, pensou. Depois disse, baixando os olhos, todo envergonhado:
Sim, é decente. Acontece que Bell me contou que são humanos, que isso é uma condição para sua admissão. Acontece que não sou nenhum humano. Por isso nunca poderei ser um policial.
Não havia nenhum remédio contra a lógica do rato-castor. Marshall desistiu.
Falaram pouco enquanto os segundos passavam, enfileiravam-se em minutos e por fim se transformaram na primeira hora.
Nada.
Dez horas, disse o regente — observou Rhodan em tom tranqüilizador e caminhou de um lado para outro. — Ainda temos duas horas, desde que resolva ser pontual. Estou curioso para ver o rosto de Talamon quando tiver oportunidade de contemplar nossa Drusus.
Foi esse patife quem contou ao regente ter visto o chefe — resmungou Fellmer Lloyd, que carregava indiretamente parte da culpa pelo fato. — Darei um puxão de orelha nele.
Será preferível crescer alguns centímetros antes de pensar nisso — disse Gucky, que em oportunidades como esta não sabia ficar calado. — Nosso prezado Talamon pesa mais de meia tonelada. Se uma pulga resolver pular em suas orelhas, ele não perceberá nada.
Lloyd contemplou o rato-castor.
Será que você quer dizer que sou uma pulga?
Uma pulga também tem direito de existir — falou Gucky em tom contemporizador — Sem as pulgas não existiria o circo de pulgas.
Lloyd pretendia explicar que existem outros tipos de circo, além do de pulgas, mas Marshall o impediu.
Deixe Gucky falar à vontade, Fellmer. Ninguém pode com ele; e no momento temos coisas mais importantes a fazer.
Gucky amoleceu o corpo, e dali a pouco os roncos exagerados revelavam que queria ser deixado em paz. Tiveram muito prazer em fazer-lhe a vontade.
A segunda hora passou sem que nada acontecesse. Mas depois disso começou a terceira fase do período de espera, que seria a decisiva.
Sessenta segundos pareciam pingos da eternidade que se despejavam no oceano do infinito. Os ponteiros dos rastreadores estruturais mantinham-se imóveis. Pareciam congelados nas escalas. O receptor de hipercomunicação mantinha-se em silêncio.
Faltava meia hora. Dez minutos. Um minuto...
O abalo do contínuo espaço-temporal só podia ser registrado por meio de instrumentos ultra-sensíveis. Tudo parecia quieto quando, subitamente, um corpo materializou-se a menos de dois segundos-luz da Drusus, tornando-se visível nas telas.
Era o mensageiro do regente de Árcon.
Rhodan soltou uma risadinha de satisfação ao reconhecer a outra nave. Era um couraçado esférico do tipo da Titan — e também da Drusus. Deduziu que nos últimos decênios os arcônidas não conseguiram realizar qualquer inovação em suas naves. Dali se podiam tirar certas conclusões sobre a situação em que se encontravam.
O regente pretendia impressionar Rhodan, mas enviara-lhe uma nave de um tipo que já era construído na Terra. Era claro que Árcon não poderia saber disso. Porém, o regente não ficaria na ignorância por muito tempo. Afinal, Talamon possuía olhos...
Desaceleração, direção Mirsal III, Sikermann.
Os campos antigravitacionais não permitiram que surgisse qualquer pressão. Dali a menos de trinta minutos a Drusus pousou a aproximadamente um quilômetro do gigante de Árcon, que já se encontrava na superfície. Ambas as naves haviam descido num grande planalto.
Sem que a tripulação da outra nave pudesse vê-los, o pessoal de bordo da Drusus ia ocupando os postos de combate. Bastaria uma única palavra para que os canhões energéticos concentrassem seu fogo sobre o inimigo. E o campo defensivo da própria nave poderia ser ativado com um simples movimento de chave.
Mas Rhodan não contava com qualquer ataque.
Examinou a outra nave e viu o nome do veículo espacial enviado por Árcon: Arc-Koor.
Stern — disse para dentro do intercomunicador. — Estabeleça contato pelo rádio e transfira-o para a sala de comando. Quero um contato audiovisual direto.
Olhou atentamente para a tela retangular que ficava à esquerda dos controles de navegação. O microfone utilizado por Perry servia também de alto-falante para o aparelho de intercomunicação.
A tela iluminou-se lentamente; um rosto surgiu. Rhodan não demorou em reconhecê-lo, embora fizesse — com exceção da fração de segundo em que este o reconhecera em Volat — mais de 50 anos que vira Talamon, o superpesado à sua frente.
Perry Rhodan, sinto-me satisfeito em ver que está vivo.
Rhodan cumprimentou com um gesto de cabeça e disse em tom ligeiramente irônico:
Sua alegria foi tamanha que não pôde guardá-la para si. Não teve coisa mais urgente a fazer senão informar o regente.
Procure compreender — disse Talamon em sua defesa. — Fiquei muito surpreso e temia complicações. No Império reinava a paz, Rhodan. Não sabia...
...não sabia se eu iria perturbar essa paz. Não é o que pretendia dizer? Não se preocupe, Talamon. Ninguém se sente mais feliz com a paz do que eu. Se depender de mim, nunca haverá um conflito entre a Terra e Árcon. Fico-lhe muito grato por ter avisado o regente. Assim livrou-me da necessidade de tomar esta decisão. E agora vemo-nos frente a frente, o senhor como representante de Árcon e eu como representante do Império Solar.
O que vem a ser o Império Solar?
É formado pela Terra e pelos planetas coloniais — respondeu Rhodan em tom indiferente. — O senhor vai me dizer alguma coisa sobre Árcon? Ou será preferível que nos encontremos pessoalmente?
A atmosfera deste planeta é respirável — disse Talamon. — Encontrar-nos-emos a meio caminho entre as duas naves. Levarei alguns dos meus oficiais para servirem de testemunhas, além do representante pessoal do regente...
Você não é o representante?
Sou, mas apenas o representante humano. O regente achou preferível enviar também um robô, a fim de manter-se informado sobre o andamento das negociações.
Combinado. Também levarei algumas pessoas. Mas acho que podemos confiar um no outro. Como está sua situação financeira, Talamon?
Esta pergunta tinha sua finalidade. Foi graças a Rhodan que Talamon conseguiu realizar o melhor negócio de sua vida. Provavelmente, ainda estaria vivendo das riquezas então adquiridas. Devia sentir-se grato ao terrano.
Minha situação financeira está boa, Rhodan. E digo mais: não me esqueci que devo minha prosperidade exclusivamente a você. Deve estar lembrado de que não participei da ação que os saltadores e os aras desencadearam contra a Terra há seis decênios.
Está bem — disse Rhodan com um sorriso. — Daqui a dez minutos conversaremos pessoalmente.
O contato foi interrompido. Rhodan emitiu mais algumas instruções e fez um sinal para os seis mutantes e para Crest.
Não vamos levar armas. Mas a Drusus permanecerá de prontidão para entrar em combate. Sikermann, o senhor assumirá o comando da nave. Mantenha-se em contato comigo pelo rádio de pulso. Dessa forma ficará a par dos acontecimentos e, se necessário, poderá tomar as providências adequadas.
A comporta já estava aberta. Enquanto as escotilhas da Arc-Koor deslizavam para dentro do envoltório da nave, Rhodan e seus acompanhantes desceram pela larga rampa e caminharam em direção ao local de encontro. Gucky ia a “passos” ligeiros atrás dos outros, esforçando-se para que a distância entre ele e o grupo não aumentasse demais.
Quando se encontravam a quatrocentos metros da Drusus, Rhodan fez sinal para que parassem. Era mais ou menos a metade do caminho entre as duas naves. Algumas rochas convidavam a sentar. O sol de tom amarelo encontrava-se bem alto no céu. Fazia um calor benfazejo. A oeste, as silhuetas das montanhas destacavam-se contra o firmamento pálido. Nas outras direções, a planície se estendia com suas florestas, vales e estepes. Não se via sinais de nenhuma povoação humana.
Só agora a rampa da Arc-Koor desceu ao solo. Um vulto maciço surgiu na escotilha da comporta e olhou para os oito humanos.
Era Talamon!
Levantou a mão direita e fez um sinal. Depois desceu pela rampa. Foi seguido por quatro ou cinco homens de estatura normal. Dois deles eram saltadores, e os outros certamente arcônidas.
No momento em que os enviados do regente se encontravam embaixo da nave esférica, aconteceu uma coisa bastante estranha. Rhodan alarmou-se. Viu perfeitamente que a escotilha da comporta se abriu ainda mais, transformando-se numa enorme fenda, pela qual poderia sair uma nave auxiliar.
Será que Talamon pretende desembarcar blindados?”, pensou Rhodan.
Mas antes de transmitir as respectivas instruções a Sikermann, lembrou-se de que Talamon o avisara de que o regente enviaria um representante mecânico.
Observou atentamente a escotilha aumentada, enquanto Marshall lhe cochichava ao ouvido:
As intenções de Talamon não são más. O pequeno computador positrônico está saindo da nave. Ali está!
Uma semi-esfera desceu lentamente, apoiada nos campos antigravitacionais, e parou a meio metro da superfície do planeta. Rhodan notou que se tratava de uma imitação quase perfeita do regente de Árcon; apenas, as dimensões haviam sido reduzidas aproximadamente à metade. O “bebê” do regente tinha um diâmetro de pouco menos de trinta metros, e, tal qual este, apresentava antenas, além de telas de imagem e uma tela fictícia, no qual poderiam ser exibidos os impulsos positrônicos.
Quando o “bebê” se aproximou, viu numa das telas o verdadeiro computador positrônico de Árcon. Devia estar sendo projetado em virtude de uma transmissão direta pelo hiperespaço, pois Árcon ficava a milhares de anos-luz.
Talamon esforçou-se para manter-se ao lado do espantoso representante do regente. Atingiu as rochas escolhidas por Rhodan como ponto de encontro quase ao mesmo tempo que o computador.
Fico satisfeito em vê-lo, Rhodan — ressoou sua voz pelo ar límpido. — Realmente, fico muito satisfeito.
Rhodan percebeu que essas palavras eram sinceras.
Mentiria se eu tivesse de afirmar o contrário — respondeu em tom amável. — O regente não poderia ter enviado um representante melhor — segurou as mãos de Talamon e retribuiu o aperto relativamente suave. — Vejo que não envelheceu nestes decênios.
O superpesado piscou os olhos, quase invisíveis sob as sobrancelhas hirsutas.
Quem é rico e está disposto a gastar consegue manter boas relações com os aras, e estes conhecem muitos remédios contra a morte. Até por isso tenho de lhe agradecer. Mas observo também que não está nada mal. Onde fica sua fonte da juventude?
Rhodan exibiu um sorriso matreiro.
Num planeta desconhecido, que costuma ser designado como o mundo da vida eterna. Encontrei-o por acaso.
Ora essa! — retumbou a voz de Talamon sacudindo-se de tanto rir. — Você não mudou nem um pouco; ainda gosta de brincar com os outros.
Esqueceu-se do tema delicado que os havia trazido para ali e apontou para a Drusus.
Não venha me dizer que este couraçado foi construído na Terra. Não é do mesmo tipo da Arc-Koor?
Não há dúvida, meu velho. Mas o fato é que foi construído na Terra. Dispomos de mais alguns desse tipo. Não posso deixar de confessar que a Titan nos serviu de modelo, mas de qualquer maneira estou cumprindo o combinado, pois vim numa nave construída na Terra.
Está certo — disse Talamon com um sorriso, parecendo concordar com o estratagema de Rhodan. — Permite que cumprimente seus companheiros e lhe apresente os meus?
Seguiu-se uma série de apertos de mão, até que chegou a vez do computador, que se mantinha silencioso e à distância. Ali evidentemente não haveria nenhum aperto de mão. Apenas Gucky quis aproveitar a oportunidade de entrar em contato pessoal com o representante do regente.
Mas antes que pudesse dirigir a palavra aos outros, o que certamente teria dado origem a certas complicações, o regente tomou a iniciativa.
Cumprimento-o, Perry Rhodan — soou a voz fria e mecânica saída do alto-falante escondido. — Sim, sou eu mesmo que lhe estou falando. Aquilo que vê à sua frente é apenas uma estação retransmissora. Estamos em contato direto. É como se você estivesse em Árcon, ou se eu estivesse aí, perto de você.
Fico satisfeito em vê-lo depois de tanto tempo — respondeu Rhodan, procurando ocultar o nervosismo.
Para mim foram apenas alguns segundos — respondeu a voz mecânica sem a menor comoção. — Mas concordo com você; também fico satisfeito em revê-lo. Neste meio tempo aconteceu muita coisa.
Rhodan viu que seus mutantes haviam tomado lugar nas rochas mais próximas, ao lado de Talamon e de seus companheiros. Crest mantinha-se um tanto afastado e conversava animadamente com um arcônida. Mais adiante, a gigantesca Drusus estava pousada no solo, aguardando numa atitude ameaçadora. Do outro lado, estava sua imagem perfeita, em atitude não menos ameaçadora.
Já sei — respondeu Rhodan.
Sim, seus agentes descobriram, Rhodan. Mas não acredito que saibam de tudo.
A palestra foi conduzida em voz alta, motivo por que as delegações ouviam cada palavra pronunciada. Marshall e os outros mutantes acompanhavam atentamente tudo que se falava. Talamon também se interessou pelo diálogo.
O que poderia ter escapado a eles, regente? Sei que você voltou a transformar o Império dos Arcônidas num importante fator de poder no seio da Via Láctea e restabeleceu a paz. Fico realmente satisfeito com isso. Você varreu todos os inimigos. No Império, reina a paz e a ordem. É o que sei, regente. Gostaria de saber o que você sabe sobre mim e sobre o planeta Terra.
Não sei muita coisa — confessou o computador. — Há certo tempo acreditava-se que a Terra havia sido destruída. Você estava desaparecido. De repente, você ressurge. Isso nos coloca diante de fatos novos, com os quais tenho de me conformar.
Não está curioso para saber como isso foi possível?
Por quê? Você está vivo, Rhodan, e é só o que interessa. Talvez quisesse enganar-me de propósito. Se foi assim, você conseguiu. O passado está liquidado, só o presente importa. E, evidentemente, também o futuro. Foi por isso que quis ter um encontro com você.
Rhodan sabia que os psicólogos de robôs que se encontravam na Drusus ouviam cada palavra que se pronunciava ali. A interpretação era automática, e os resultados já estavam disponíveis. Hesitou um pouco, mas acabou vencendo o desejo de solicitar que os mesmos lhe fossem transmitidos. Não queria despertar suspeitas no regente.
Quer dizer que não está interessado em saber como consegui enganar você e a toda a Galáxia, regente?
Talvez mais tarde. Por enquanto temos problemas mais importantes. Como sabe, há paz e ordem no Império e, portanto, nos setores conhecidos da Via Láctea. Todas as raças vivem tranqüilas, e já não existem guerras. Apenas vez por outra, certos grupos de piratas procuram conseguir vantagens. Mas logo são localizados e destruídos por minhas tropas. Não conheço qualquer compaixão contra quem deseja a guerra.
Constato que existe certo paralelismo entre nossas idéias — disse Rhodan com um sorriso, olhando diretamente para a tela, atrás da qual deveria ficar a câmera que transmitia sua imagem para Árcon. — Por isso vivo perguntando a mim mesmo por que não trabalhamos em conjunto.
Teremos de trabalhar em conjunto, Rhodan, pois do contrário nossa própria existência estará em perigo.
Foi a primeira vez que a voz do regente revelou vida. Parecia que a preocupação vibrava na voz do cérebro mecânico — a preocupação pela conservação da própria existência.
Conforme as condições, estarei disposto a cooperar, regente. Mas, em hipótese alguma, concordarei em ser seu servo.
Nem exijo tanto, se bem que numa situação dessas seria preferível isto à morte. E o perigo de morte existe, Rhodan.
Mais uma vez Rhodan sentiu a seriedade da voz. Infelizmente sua reduzida capacidade telepática nessa hora não servia para nada, pois ninguém consegue ler os pensamentos de um cérebro positrônico.
Que perigo? — limitou-se a perguntar.
Não posso defini-lo, mas o fato é que já existe há dez anos. Ninguém, a não ser eu, sabe de sua existência, pois sempre que surgiu, não houve ninguém que pudesse contar qualquer coisa. Você entende, Rhodan? Não houve sobreviventes.
Rhodan sentiu uma mão fria que queria agarrar seu coração. Será que a guerra voltava a ameaçar a Via Láctea.
Teria surgido mais um inimigo imbuído do propósito de destruir implacavelmente as raças humanóides?”, pensou, indagando-se. Depois perguntou, procurando ser objetivo:
A espécie do armamento usado pelo inimigo não permite alguma conclusão, regente?
Armas? — perguntou o regente em voz fria. — Até agora o inimigo desconhecido não revelou o tipo de armamento que usa. Talvez não me esteja exprimindo com suficiente clareza, Rhodan. Conforme disse, não há sobreviventes. Para ser mais preciso: depois do ataque do medonho inimigo, todos os seres humanos e os animais somem.
As criaturas são destruídas, transformadas em radiações?
Não é isso. Simplesmente desaparecem. Planetas inteiros são despovoados. Esses planetas pertenciam ao nosso Império, possuíam uma civilização avançada, desfrutavam dos benefícios de uma natureza bem desenvolvida, com plantas e animais. Subitamente, desses planetas só restaram as plantas. Os homens e os animais desapareceram como se nunca tivessem existido. Até hoje não consegui encontrar a explicação para o fenômeno. E todas as precauções por mim adotadas revelaram-se inúteis. Não existe qualquer tipo de proteção contra o inimigo.
Rhodan lançou um ligeiro olhar para seus acompanhantes e para os membros da delegação do regente. Pela reação de Talamon concluiu que o superpesado ainda não tivera conhecimento do perigo. O superpesado empalidecera e lançava um olhar quase suplicante para o cérebro robotizado. Os saltadores e os arcônidas mostravam-se confusos e temerosos. Só os mutantes de Rhodan conservavam a calma.
Mais uma vez, Rhodan dirigiu-se ao “bebê”.
O que pretende fazer, e de que forma poderei cooperar?
A máquina falou sem a menor hesitação:
Para podermos enfrentar o perigo, devemos unir nossas forças e inteligências. Você é dotado da agilidade que eu não possuo. Confesso que dispõe de forças mais vivas e competentes. Talvez eu tenha mais poder. Acontece que nem uma coisa, nem outra será suficiente, só por si, para enfrentar o inimigo, quanto mais para derrotá-lo. Juntos, poderemos aproveitar a chance. Se é que essa chance existe.
Se é que existe? — perguntou Rhodan, esticando as palavras. — Será que já está disposto a abandonar as esperanças?
Há dez anos venho lutando sem o menor resultado contra o perigo invisível. Dez anos é um tempo muito curto, mas suficiente para permitir uma conclusão. Se não conseguirmos ao menos identificar o pavoroso agressor, estaremos perdidos. O inimigo vai despovoar toda a galáxia.
Você está exagerando! — disse Rhodan em tom áspero.
Simplesmente não poderia haver um perigo tão apavorante como o regente estava contando.
Estou disposto a ajudar, regente. Mas como amigo e sócio, de igual para igual. Se necessário, exigirei até o poder de comando sobre sua frota de guerra e seus robôs de combate.
Isso não é possível — recusou o regente em tom frio. — Não posso conferir-lhe qualquer poder sobre os arcônidas.
Reconheço que você se vê diante de uma decisão difícil. Mas só lhe resta uma alternativa; ou confia em mim, ou então um belo dia o perigo invisível há de corroer todo o Império. Pessoalmente não tem nada a recear, pois é feito de matéria inorgânica.
Acontece que sou responsável por toda a vida neste setor da Via Láctea...
Pois aja de acordo com essa responsabilidade! Transfira-me parte de seu poder, pois só assim poderei enfrentar o inimigo.
Surgiu uma ligeira pausa. Baldur Sikermann aproveitou-a para entrar em contato com Rhodan. O laboratório da Drusus chamou. Um dos cientistas cochichou:
Segundo nossas análises, o computador está dizendo a verdade. Já não consegue dominar o perigo com que se defronta e sente-se satisfeito em encontrar alguém que possa ajudá-lo. Aceitará todas as condições que o senhor fizer; não existe a menor dúvida.
Rhodan respondeu em voz baixa:
Obrigado, doutor Ali el Jagat — falando mais alto, prosseguiu: — Sikermann, acho conveniente fazer decolar algumas naves auxiliares, a fim de patrulhar o espaço em torno de Mirsal III. Os arcônidas devem agir da mesma forma.
Perfeitamente.
Talamon fez um sinal com a cabeça e transmitiu instruções idênticas aos oficiais que se encontravam na Arc-Koor. Dali a um minuto, os versáteis girinos subiram verticalmente ao céu, e colocaram-se em órbita.
Rhodan suspirou aliviado. O perigo de um ataque de surpresa havia sido grandemente reduzido. Por um instante perguntou a si mesmo quem poderia atacá-los. Depois voltou a dirigir-se ao computador.
Já chegou a uma decisão, regente?
Cooperaremos de igual para igual, Rhodan. Em hipótese alguma poderei conceder mais do que isso sem colocar em perigo a existência do Império.
Rhodan confirmou com um gesto.
Se quisesse, poderia conseguir mais, mas dou-me por satisfeito com o que você acaba de oferecer. Só aceito o que você quiser dar espontaneamente. Talvez ainda chegue o tempo em que esteja disposto a confiar-me responsabilidades maiores. Peço-lhe que me explique seus planos.
Não tenho qualquer plano, Rhodan. Aguardamos o próximo ataque; só assim poderá ter uma idéia. Depois você me informará sua opinião a respeito, e conferenciaremos sobre o que se pode fazer.
Minha opinião?
Isso mesmo. Tenho minha opinião sobre o inimigo, sobre quem seja ele, sobre seus métodos. Não lhe comunicarei esta opinião, para não influenciar suas idéias. Se você chegar à mesma conclusão que eu, existirá boa probabilidade de termos nos aproximado da verdade. É bem possível que essa verdade vá arrasá-lo. Seu cérebro não a suportará. É uma verdadeira loucura...
Rhodan manteve seu ar de fria superioridade.
Estou preparado para o pior, regente. Portanto, no terreno psicológico não existe o menor perigo para mim. Nossa palestra está terminada, ou será que tem mais alguma sugestão?
No momento não. Você poderá conferenciar com Talamon sobre a maneira de cooperarmos. Entrarei em contato com você assim que o inimigo desconhecido volte a atacar. Pela primeira vez faço votos de que isso não demore muito.
A tela da semi-esfera de aço apagou-se. O “bebê” manteve-se imóvel sobre seus campos antigravitacionais. Sem dúvida continuava a manter contato com o regente, mas não interferia mais nos acontecimentos.
Você ouviu o que o regente acaba de dizer. Não sabia nada sobre esse perigo? — perguntou Rhodan, dirigindo-se a Talamon.
Não tinha a menor idéia — respondeu o superpesado, e Rhodan percebeu que não estava mentindo. — Que seres serão estes que vêm das profundezas da Via Láctea e despovoam nossos mundos?
Não tenho a menor idéia, Talamon. De qualquer maneira, parece que podemos esquecer as preocupações que trazíamos na mente e arquivá-las. Surgiu alguma coisa terrível e muito mais perigosa do que tudo que já conhecemos. Não sabemos o que é. Um perigo desconhecido sempre é mais funesto do que qualquer outro.
Talamon esteve a ponto de responder, mas não conseguiu.
O minúsculo receptor de pulso de Rhodan emitiu um zumbido e Sikermann exclamou:
Atenção Sir! Um dos girinos deu o alarma.
Quase no mesmo instante, o computador — ou seja, a estação retransmissora do regente — começou a deslizar em direção à Arc-Koor. Talamon viu, mas não fez qualquer comentário. Um dos arcônidas que o acompanhava tirou uma caixinha do bolso e comprimiu um botão. Uma voz forte disse:
Volte à nave! Alarma! O planeta está sendo atacado!
Rhodan sentiu-se totalmente perplexo.
Teria sido vítima de um estratagema primário?”, pensou atordoado.
Mas logo viu que Talamon empalidecia e compreendeu que, de uma hora para outra, o planeta, onde eles se encontravam, havia se transformado no centro de acontecimentos que ninguém previra.
Alarma?!
Gritou apressadamente para dentro do rádio de pulso:
O que houve? Quero os detalhes.
Nossas naves auxiliares localizaram naves espaciais desconhecidas, mas voltaram a perdê-las. Os comandantes afirmam que essas conseguem tornar-se invisíveis.
Invisíveis? — repetiu Rhodan e sentiu um terrível choque. — Invisíveis?
John Marshall e Talamon aproximaram-se.
Preciso voltar à minha nave, para aguardar outras instruções — disse o superpesado. — Ninguém poderia ter previsto este incidente. O que aconteceu mesmo?
Sei tanto quanto você — respondeu Rhodan, enquanto suas idéias se atropelavam e ele procurava lembrar-se do que o regente lhe dissera sobre o terrível agressor. — Uma coisa é certa: este planeta está sendo visitado por seres desconhecidos.
Desconhecidos? Talvez sejam aqueles de que o regente nos falou — Talamon ergueu-se e olhou para sua nave esférica. — Por que será que não atacam?
Rhodan fez um sinal para Marshall e seus outros acompanhantes.
Agora não temos tempo para discutir sobre isso, Talamon. Você ouviu o que o regente disse. Assim eu e ele passamos a ser sócios, de igual para igual. Tomara que desta vez a sociedade seja mais duradoura do que foi há seis decênios. Lutaremos lado a lado nas batalhas que se aproximam. Receio de que já tenha chegado a hora da primeira. Decolaremos e aguardaremos. Manteremos contato permanente pelo rádio. Passe bem, Talamon. Nas próximas horas, descobriremos de que forma poderemos enfrentar juntos os maiores perigos.
Felicidades, Rhodan — respondeu o superpesado e, sem dizer mais uma palavra, deu as costas a Rhodan e caminhou em direção à Arc-Koor. Os arcônidas e saltadores seguiram-no sem dizer uma palavra. Seus rostos haviam perdido a cor sadia que lhes era costumeira.

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