domingo, 24 de março de 2013

P-061 - O Robô Espião - Clark Darlton [parte 2]

Sim, Gucky, estou com fome.
Venha comigo; arranjarei alguma coisa para você. Gosta de cenouras?
Cenouras?
O rato-castor achou que seria complicado demais explicar àquela criatura estranha as “excelências” de uma cenoura. Ele que experimentasse, e depois veria. Paciência; o cozinheiro-chefe da Drusus teria que soltar uma ração dupla. E se Muzel não ficasse entusiasmado com as cenouras, talvez se poderia... Os pensamentos de Gucky perderam-se numa série de especulações felizes; por pouco não esquece Muzel. Mas logo se lembrou dos seus deveres de anfitrião. Ergueu-se e com a pata dianteira abriu a porta que dava para o corredor.
Uma vez no corredor, Gucky voltou a fechar a porta. Cismou sobre o que acharia Muzel se lhe fosse apresentada uma demonstração ao vivo da teleportação. Mas seria preferível fazer uma coisa de cada vez, para que as surpresas não se esgotassem muito depressa.
Um oficial dobrou a esquina do corredor e aproximou-se deles. De sua perspectiva, Muzel, de início, só viu as pernas e desviou-se instintivamente. Já fizera experiências desagradáveis com as pernas dos grandes bípedes que passavam por Swoofon. Os saltadores não costumavam ser muito delicados.
Gucky prosseguiu em sua caminhada como se nada tivesse acontecido. Se o Tenente Hicks não tivesse baixado os olhos, teria tropeçado no cão e dado com o rosto no tapete de plástico.
O Tenente Hicks parou e esfregou os olhos.
Gucky está passeando com um verdadeiro cão bassê! De onde vem o animal? Eu não sabia que havia um cachorro a bordo da Drusus, quanto mais um bassê, raça que nunca soube o que era disciplina. Há séculos esse fato era do conhecimento geral! Mas a bordo da Drusus...”, pensava o oficial.
Não maltrate a cuca, homo sapiens — chiou Gucky e empertigou o corpo, para reforçar o efeito de suas palavras. — Ficaríamos muito gratos se pudesse sair do caminho, para que possamos passar.
O Tenente Hicks saltou para o lado com tamanha rapidez que por pouco não cai. Seus olhos quase saltaram das órbitas quando ouviu Gucky dizer “vamos andando” ao cachorro, e sair com ele.
Seguiu a estranha dupla com o olhar e murmurou:
Será que estamos numa nave-couraçado do Império Solar ou num circo voador?
Gucky esperou até que Hicks se tivesse afastado e parou.
Você sabe correr? — perguntou ao bassê.
Muzel, que se acomodara sobre a traseira do corpo, respondeu:
Por que faz essa pergunta? Minhas pernas são curtas e estou cansado. Além disso, estou com fome. Por que Kulman não me dá comida?
Um momento, Muzel. A cozinha fica lá embaixo. Vamos saltar.
Os olhos cor de ouro brilharam numa expressão de confiança, mas neles também se lia uma indagação muda: saltar?
Um sorriso alegre surgiu no rosto de Gucky quando se aproximou de Muzel, segurou-o pela nuca e passou a concentrar-se no ponto de destino.
Quando Muzel voltou a abrir os olhos viu que, sem saber como, fora transportado para outro lugar. Não poderia entender que num milésimo de segundo percorrera uma distância superior a um quilômetro. Porém compreendeu perfeitamente que se encontrava num lugar diferente. Gucky, seu novo amigo, falara em saltar. E...
Pronto; chegamos! — disse o rato-castor com a voz alegre.
Abriu a porta à sua frente. Atrás dela ouvia-se o ruído da louça que batia, o praguejar baixo dos cozinheiros atarefados, o zumbido dos grandes aparelhos de grelhagem e outros ruídos misteriosos de uma cozinha eletrônica.
Ei, Fatty!
Uma figura maciça, envolta pela fumaça desprendida pelas comidas, encolheu-se como se tivesse sido atingida pelo raio. Um homem de branco, gordo, de quase dois metros de altura atravessou a cozinha maravilhosa e parou à frente dos visitantes.
Ainda não está na hora do almoço! — resmungou num ligeiro tom de recriminação, em que também se notava certo medo.
Fatty nunca se esquecera de que certa vez Gucky se valera da capacidade telecinética para trancá-lo no grande frigorífico, onde ficara preso durante algumas horas.
Deseja alguma coisa? — só agora viu Muzel e teve o cuidado de não deixar que seu rosto se tornasse muito mais inamistoso. — Onde está o lindo au-au? Onde está...
Que pergunta idiota! — interrompeu Gucky. — Não vê que está aqui?
Fatty voltou a endireitar o corpo e falou de modo sério:
Não é permitida a entrada de cachorros na cozinha. Existe uma ordem terminante nesse sentido.
Muzel não é nenhum cachorro; é um possoncal — informou Gucky. — Além disso, ninguém disse que quer entrar na sua cozinha fedida.
Aqui está cheirando bem”, pensou Muzel, bastante animado.
Cozinha fedida? — Fatty teve a impressão de que iria sofrer um ataque. — Se você repetir isso...
O que acontecerá?
Fatty preferiu não discutir. Não queria entrar em conflito com esse bicho medonho. Há pouco um dos seus auxiliares subitamente perdera o peso e voara pela cozinha até que alguém conseguisse pegá-lo com um laço e amarrá-lo à coluna de concreto do grill, que nem mesmo Gucky conseguiria deslocar.
Posso fazer alguma coisa por você? — perguntou Fatty com uma amabilidade fingida.
Gucky fez um gesto afirmativo e disse:
Quero cinco quilos de cenouras cruas, meio quilo de carne e uma garrafa de água. Vamos logo!
Fatty virou-se e saiu praguejando. Dali a trinta segundos, voltou e trouxe as iguarias numa bandeja.
Faço tudo que você quiser, Gucky. Mas ordens são ordens: não é permitida a entrada de cachorros...
Você já disse isso — interrompeu-o o rato-castor, dirigindo-se para Muzel. — Vamos embora, senão ele acabará tendo “problemas psicológicos”. No meu camarote é mais agradável.
Fatty esperou até que os estranhos visitantes se desmaterializassem. Depois fechou ruidosamente a porta e pôs-se a gritar ordens. Nas próximas horas o pessoal da cozinha passaria por maus bocados.
Gucky e Muzel devoraram as iguarias. Depois deitaram no sofá e dormiram.
Neste meio tempo, Kulman voltou ao camarote e deu pela falta do companheiro. Em resposta à sua indagação, foi informado de que depois de desinfetado o bassê fora levado ao camarote e ainda deveria estar lá.
Acontece que não estava”, pensou Kulman. Fazia questão de que seu cão fosse considerado um ser como qualquer outro.
Subitamente um vulto materializou-se ao lado de Kulman, que levou um tremendo susto. Identificou-o: era o rato-castor. Os olhos de Gucky pareciam sonolentos e exprimiam certa contrariedade.
Ora esta! Você acorda tudo quanto é telepata, de tão preocupado que está com Muzel. Por quê? Ele está comigo. Acabamos de comer e estamos descansando um pouco. Quando acordarmos, pretendemos brincar.
Brincar? — disse Kulman, respirando com dificuldade. — O que quer dizer com isso?
Você deveria ter conservado um pouco de seu ânimo infantil — disse Gucky e desapareceu sem dizer mais nada.
Kulman sentiu-se um tanto perplexo.
3



Enquanto Perry Rhodan permanecia em seu posto na sala de comando, Atlan retirou-se para refletir sobre a situação. Sabia por experiência própria que muitas vezes a reflexão calma e concentrada oferece resultados admiráveis, que podem ser mais úteis à solução de um problema que a atividade incansável de outras pessoas, que pretendem atingir o objetivo desferindo golpes no escuro.
Depois de uma hora, porém, o arcônida chegou à conclusão de que nesse caso o princípio da reflexão não oferecia maior utilidade. Havia poucos pontos de partida. O único era o fato de ter a sala de rádio captado algo que se parecia com sinais goniométricos, e esse material evidentemente era muito escasso para servir a um trabalho mental proveitoso.
Atlan ficou curioso para saber se o grande computador positrônico da nave saberia fazer algo com essa informação, e pediu que lhe fosse concedido o tempo necessário para realizar essa tarefa. A Drusus pairava imóvel no espaço, e os dados para a transição já haviam sido apurados. Por isso seu desejo pôde ser cumprido imediatamente: Atlan teve licença para usar a máquina durante uma hora e meia.
A elaboração do programa-questionário causou sérias dificuldades ao arcônida. Era difícil formular uma pergunta inicial a fim de que o computador não desse a resposta, e sim formulasse perguntas adicionais, que pudessem servir de base à ampliação do programa.
O primeiro passo de Atlan consistiu em reunir uma série de fatos num programa de dados. O computador ficou sabendo que no momento a Drusus se encontrava nas proximidades do sol Swaft e que em Swoofon, um dos planetas de Swaft, viviam os swoons, uma raça anã à qual pertenciam os melhores microtécnicos da Galáxia.
Outro dado introduzido na máquina foi a atividade do agente Kulman e o recebimento dos sinais misteriosos. Atlan colocou na máquina um cartão-consulta, por meio do qual pediu que lhe fosse fornecida uma avaliação global da situação.
O grande computador começou a trabalhar. Ruídos estranhos se misturaram ao zumbido que constantemente enchia a sala de computação: o estalido dos relês, o leve chiado que por vezes era emitido pelas grandes válvulas...
Atlan recostou-se confortavelmente na poltrona. A pergunta que acabara de formular não era fácil de responder. Até mesmo uma máquina de grandes dimensões, como a que se encontrava no interior da Drusus, levaria ao menos quinze minutos para ativar as últimas ramificações de seu mecanismo combinatório e encontrar a resposta.
O arcônida recostou-se e fitou o teto. Enquanto o computador trabalhava, procurou descontrair-se, deslocando-se em pensamento na direção das linhas traçadas no teto e estreitando os olhos, para enxergar melhor as variações das tonalidades da luz branco-azulada.
Não havia mais ninguém na grande sala. Os sons emitidos pela máquina se ajustaram numa seqüência uniforme e tinham um efeito soporífero. Atlan mergulhou em meditações.
Não notou que alguém o observava.
Não viu o par de olhos que o fitavam pelo nicho existente entre dois fichários.
Ouviu um ruído. No momento em que se levantou, sobressaltado, a luz apagou-se. As luzes de controle do computador continuavam acesas. Mas logo depois a iluminação sumiu, não permitindo sequer que se enxergasse a mão diante dos olhos.
O arcônida teve a impressão de que um perigo o ameaçava. Levantou-se e foi recuando para junto da mesa de controle, tateando a parte frontal do grande computador. Ouviu um ruído; parecia que alguém se arrastava pelo chão. Antes que pudesse refletir a este respeito, viu um raio fulminante, que parecia ter saído do crânio do agressor. Uma dor insuportável envolveu-o; no mesmo instante desmaiou.

* * *

A Drusus partiu exatamente no momento previsto. Passou a algumas unidades astronômicas do sol Swaft e penetrou no hiperespaço.
O emissor goniométrico não dera mais nenhum sinal de vida. Na sala de comando voltou a manifestar-se a esperança de que tudo aquilo não passava de uma interferência absolutamente normal, e de que não havia nenhum emissor goniométrico a bordo da Drusus.
No momento em que a dor provocada pela distorção foi amainando e o novo quadro do espaço começou a surgir nas telas, todos se mantinham nos seus postos. Esforçavam-se para disfarçar o nervosismo de que se sentiam possuídos, e permaneciam sempre atentos em não perder qualquer ordem que viesse da sala de comando.
Os minutos foram passando num silêncio total.
Bell, que ocupava o assento do imediato, não conseguiu dissimular a impaciência de que se sentia possuído:
Então! É isso mesmo. O medo foi em vão. Tudo não passou de um alarma...
Até parecia que o intercomunicador só aguardava o primeiro sinal de otimismo equivocado. O zumbido interrompeu Bell em meio à frase. O rosto de um operador de rádio surgiu na pequena tela que ficava à frente de Rhodan. Nos seus olhos arregalados se via tamanho espanto e combatividade que de pronto bastou para convencer Bell de que se enganara.
Conseguimos realizar a localização goniométrica! — exclamou o operador de rádio sem dar a menor atenção às formalidades que normalmente deveria cumprir. — É no convés E, seção 2, na altura do corredor principal.
Rhodan agiu como que por instinto. Seus movimentos pareciam ser os de uma máquina, de tão rápidos e precisos que foram. O rosto do operador de rádio apagou-se na tela e a cabeça marcante do Capitão Farrington surgiu em seu lugar.
Convés E, seção 2, na altura do corredor principal — disse Rhodan com uma calma surpreendente. — Fica bem perto do senhor, Farrington. Acho que o sujeito não lhe poderá escapar.
Farrington limitou-se a acenar com a cabeça. A tela logo se apagou. Rhodan levantou-se.
Por enquanto Reginald Bell comandará a nave — disse. — Quero verificar in loco.
A própria sala de comando ficava no convés E, que correspondia ao pavimento central da Drusus. À distância até a seção 2 era de apenas trezentos metros. Com a fita rolante Rhodan conseguiu vencê-la em menos de dois minutos.
Farrington e seus homens já tinham chegado ao local. Bastava ver seus rostos para concluir que o grupo não havia encontrado nada, e já não sabiam onde procurar.
Farrington fez um relato objetivo.
Bloqueamos o corredor dos dois lados e as salas contíguas — explicou. — Nem um rato conseguiria entrar ou sair. Mas não encontramos ninguém.
Rhodan sorriu, embora a situação fosse séria.
Quem lhe diz que se trata de alguém, capitão? — perguntou. — É perfeitamente possível que seja alguma coisa.
Farrington não se deu por vencido.
Não encontramos ninguém nem coisa alguma — respondeu prontamente. — Revistamos toda área. Está tudo em ordem. Neste meio tempo entrei em contato com a sala de rádio para saber qual é o grau de precisão da localização. Afirmam que a diferença máxima é de mais ou menos dez metros, provavelmente ainda menor. Não é possível que qualquer coisa nos tenha escapado.
Rhodan ergueu as sobrancelhas.
Já que não encontrou nada nem ninguém, quer afirmar que nada houve por aqui?
Farrington parecia desolado.
Parece inacreditável — respondeu — mas estou inclinado a afirmar isso mesmo.
Rhodan interrompeu-o com um gesto.
Neste caso ninguém de nós sabe o que é estranho e o que deixa de sê-lo. Mas antes de desistirmos convém que o senhor mande alguém à Seção Técnica para trazer um bom instrumento de sucção, de preferência um verdadeiro aspirador de pó.
Farrington arregalou os olhos.
Um aspirador de pó?
Isso mesmo — disse Rhodan. — E quando o aparelho chegar aqui, mande limpar cuidadosamente centímetro por centímetro do soalho, das paredes e do teto do corredor e das salas contíguas. A sala de rádio diz ter determinado a posição do transmissor com uma precisão de mais ou menos dez metros. Pegue quinze metros de cada lado do ponto indicado, pois não queremos assumir qualquer risco. Mais uma coisa: a poeira que for recolhida será entregue aos analistas. Quero que estes a examinem cuidadosamente. Preste atenção que nada escape aos homens que manipularem o aspirador de pó.
Farrington fez continência.
Entendido! — e em seus olhos surgiu um brilho de compreensão.
Rhodan tinha certeza de que dentro em pouco saberia do que se tratava. Quando subiu na fita rolante para dirigir-se à sala de comando, ouviu Farrington ordenar a alguém que descesse à Seção Técnica e trouxesse ao menos cinco aspiradores de pó. Ao que parecia, a natureza não dotara aquele homem da mesma compreensão de que dispunha seu superior, pois este teve de repetir-lhe a ordem várias vezes.
Assim que Rhodan voltou à sala de comando, informou à Seção Analítica sobre a tarefa que tinha pela frente. Os analistas asseveraram que saberiam cumpri-la.
Dali a uma hora Farrington, que tivera o maior cuidado de que o trabalho fosse executado com toda minúcia, entrou em contato com Rhodan.
Limpamos tudo com os aspiradores de pó.
Pois mande um dos seus homens levar a sujeira à Seção Analítica.
Sim senhor. Providenciarei imediatamente.
Os analistas já tinham preparado tudo. Levaram apenas uma hora para encontrar aquilo que estavam procurando. Rhodan foi avisado imediatamente.
Trata-se de uma pequena esfera de plástico — informou o oficial. — Seu diâmetro é de zero vírgula dois milímetros. É artificial.
Aguardem minha chegada! — gritou Rhodan. — Vamos examinar isso em conjunto.
Mais uma vez Bell assumiu o comando. Rhodan parecia ter muita pressa. Levou apenas alguns minutos para chegar à Seção Analítica, que ficava a cerca de setecentos metros da sala de comando.
O Major Hill, chefe da seção, preparava-se para abrir o estranho achado.
Como foi que encontrou isso? — indagou Rhodan.
Primeiro, porque é maior que uma partícula de pó — respondeu Hill — e depois, porque brilha um pouco.
Brilha?
Hill fez que sim.
Não é muito. Em seu interior deve haver uma pequena bateria. O fluxo de energia pôde ser constatado sem qualquer margem de dúvida.
Muito bem; abra.
Usando o microtom — uma cortadeira automática, que abre perfeitamente minúsculos objetos — Hill dividiu-a em duas partes. No microscópio viu-se que a bola de plástico era apenas um fino envoltório, que continha uma confusão aparentemente inextricável de minúsculas válvulas, condutores, peças de relógio e coisas parecidas.
Rhodan logo percebeu de que se tratava. Reconheceu que aquilo tinha as características de um transmissor de hipercomunicação. Além do emissor propriamente dito, que era relativamente rudimentar e não poderia transmitir outra coisa senão simples zumbidos, usando sempre a mesma faixa de freqüência, havia algumas peças minúsculas que formavam uma espécie de relógio mecânico.
Hill, que reconhecera imediatamente o hipertransmissor, quebrou a cabeça a respeito do mecanismo de relógio.
Para que será que serve isto? — perguntou em tom de espanto.
É simples. O transmissor deveria emitir os sinais num momento previamente fixado — explicou Perry.
O Major Hill arregalou os olhos.
Mas isso é... — murmurou, lançando mais um olhar ao microscópio, sem completar a frase — ...é muito simples — prosseguiu depois de algum tempo. — Basta um ligeiro impulso da bateria, para que o mecanismo seja ajustado para o momento desejado. Acontece que de cada vez só pode ser feita uma regulagem.
Fitou Rhodan; parecia um tanto inseguro.
Tem toda razão — disse Rhodan para tranqüilizá-lo. — Se este objeto for responsável por ambas as seqüências de sinais que captamos, deve haver alguém a bordo que depois da primeira regulagem realizou outra, fazendo com que o transmissor entrasse em funcionamento logo após a transição.
Isso mesmo — confirmou o Major Hill um tanto exaltado. — Dali se conclui que além do microtransmissor temos um espião a bordo. Este regula o transmissor de maneira tal que o mesmo revela a posição da nave sempre que isso se torna importante. Não é isso?
Rhodan riu.
A hipótese não deixa de ser plausível. Mas não acredito que o espião deixe o microtransmissor em algum lugar e, depois que o mesmo irradiou seus sinais, volta cautelosamente ao esconderijo para efetuar outra regulagem. O sujeito agiu com tamanha habilidade que não devemos acreditar que complicasse as coisas dessa maneira.
Mas... — disse Hill, respirando com dificuldade. — Se é assim, como...
Porque possui vários transmissores deste tipo — interrompeu-o Rhodan.
Hill parecia perplexo. Olhava ora para Rhodan, ora para o minúsculo aparelho, cujas duas metades jaziam sobre a tampa escura da mesa.
Um objeto destes, por causa do tamanho, vale pelo menos cem mil solares! — exclamou. — O senhor realmente acredita que um espião cometeria tamanho desperdício?
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Acredito. Não se esqueça de que uma de nossas naves pousou em Swoofon. E para os swoons, os minúsculos aparelhos não têm nada de extraordinário. É provável que em Swoofon um destes micro transmissores não custe mais que um aparelho de tamanho normal na Terra.
Quer dizer que ainda corremos perigo? — perguntou Hill em tom preocupado. — Se o espião tiver outros transmissores deste tipo...
Tenho certeza de que depois da próxima transição voltaremos a ter notícias de sua presença — admitiu Rhodan. — Se não conseguirmos pegá-lo, teremos de realizar transições seguidas, até que seu estoque de transmissores se esgote. Apenas receio...
Não completou a frase. Por enquanto o Major Hill não sabia quais eram os receios de Perry Rhodan. Suas preocupações eram tamanhas que até se esqueceu de fazer continência quando Rhodan se retirou.
Depois da descoberta do microtransmissor, Rhodan se tornara bastante pensativo. Sem dúvida os saltadores ou os arcônidas haviam incumbido os swoons de fabricar os microtransmissores. Era duvidoso que tivessem qualquer idéia sobre as finalidades do aparelho; e, de resto, isso não importava.
O que importava era apenas o fato de que na luta pelos dados relativos à posição da Terra surgira um fator novo. Este fazia representar-se por uma tecnologia estranha que, devido às dimensões reduzidas de seus produtos, tornava praticamente impossível a adoção de qualquer medida capaz de evitar que a mesma produzisse seus efeitos.
Uma vigilância ininterrupta e uma cuidadosa determinação goniométrica provavelmente tornaria possível a localização e a inutilização de um transmissor após o outro. Mas ninguém sabia quantos aparelhos desse tipo o espião trazia, e quanto tempo demorariam para encontrar todos eles. E o tempo de que dispunha a Drusus e sua tripulação não era infinito.
Quem seria o espião?
Só havia uma resposta plausível: era Kulman ou seu cachorro. Eram os únicos seres que subiram a bordo depois que a Drusus partira da Terra.
Rhodan recusou-se a acreditar na possibilidade de que Kulman pudesse ter modificado suas convicções tão radicalmente e num tempo tão curto. Por outro lado, não se sabia nada sobre o caráter do possoncal chamado de Muzel. Era evidente, porém, que um possoncal não seria capaz de esconder um microtransmissor num lugar cuidadosamente escolhido, quanto mais ativar o contato do minúsculo mecanismo de relógio.
Rhodan refletiu por um instante sobre se a situação mudaria de figura caso Muzel fosse um robô, mas logo abandonou a idéia. Kulman lhe contara que Muzel se ferira e sangrou durante a luta com os piratas ou os saltadores. Um robô não sangra. Além disso, Gucky, o rato-castor, era o companheiro de folguedos de Muzel. E Gucky possuía faculdades telepáticas bem desenvolvidas. Se seu novo companheiro fosse um robô, o fato não lhe teria escapado.
Havia outra possibilidade. Alguém poderia ter privado Kulman de sua vontade, impondo-lhe outra. Rhodan não sabia se os saltadores dispunham de meios para hipnotizar um homem e provocar os necessários efeitos pós-hipnóticos. De qualquer maneira, esta possibilidade não poderia ser desprezada.
Resolveu que Kulman seria apresentado imediatamente aos psicofísicos, que o examinariam. Os efeitos pós-hipnóticos produzem uma modificação reduzida, mas inequívoca na atividade mental do indivíduo. Os psicofísicos descobririam se havia algo de errado com Kulman.
Quando se encontrava a alguns metros da escotilha da sala de comando, Rhodan ouviu o som estridente das sereias de alarma. Passou a correr e chegou no momento exato em que Bell pegava o microfone do sistema de comunicação de bordo a fim de solicitar-lhe a presença.
Virou-se e, ao reconhecer Rhodan, baixou a mão que segurava o microfone.
Encontraram Atlan — disse sem o menor intróito — na sala do computador. Está inconsciente. Parece que alguém lhe aplicou um choque.

* * *

Demorou meia hora até que o arcônida se recuperasse a ponto de conseguir falar. Não havia a menor dúvida de que recebera o impacto direto de uma arma de choque. A energia com que seu corpo fora atingido devia ser considerável. Na opinião dos médicos, Atlan só teria recuperado a consciência dentro de seis ou oito horas, se não fossem os medicamentos que lhe foram aplicados.
As informações fornecidas por Atlan eram muito escassas. Não vira nada; apenas ouvira. E os ruídos que conseguira perceber não permitiam a menor conclusão sobre a identidade do autor do disparo.
Rhodan apurou que naquele momento vários membros da tripulação se encontravam nas proximidades do centro de computação, mas nenhum deles notara qualquer coisa suspeita.
Assim, não se poderia extrair qualquer conclusão. O ato poderia ter sido praticado por um dos elementos que se encontravam ali.
Não havia coisa mais importante a fazer senão seguir as vagas indicações fornecidas por Atlan. Deviam descobrir o que o desconhecido fora fazer no centro de computação. Com toda certeza não fora para lá a fim de atingir o arcônida com a arma de choque. Teria realizado alguma operação com o computador?
Rhodan mandou que o mesmo fosse inspecionado. Queria que os matemáticos responsáveis pelo setor apurassem se alguém trabalhara no computador fora dos espaços de tempo que haviam sido concedidos, qual fora o trabalho realizado e quais as informações que a máquina poderia ter fornecido ao desconhecido.
Enquanto a inspeção estava sendo realizada, Rhodan lembrou-se do plano que concebera antes do alarma. Kulman deveria ser examinado.
O agente ainda estava dormindo, o que era de admirar. Neste meio tempo houvera uma transição, e a dor provocada pela mesma desperta qualquer pessoa, por mais profundamente que ela esteja dormindo.
Rhodan ordenou pessoalmente a Kulman que se submetesse a um exame psicofísico. Estava interessado em observar a sua reação.
Kulman não parecia espantar-se muito ao ouvir o que queriam dele. Fez um gesto de indiferença e disse:
Naturalmente. Já contava com isso. É claro que as primeiras suspeitas têm de recair sobre mim.
Sinto-me aliviado em notar que encara a coisa dessa forma — confessou Rhodan. — Por enquanto ninguém suspeita do senhor. Acontece que não podemos assumir o menor risco. Na situação em que nos encontramos, a confiança não basta.
Kulman sorriu.
É claro que não — respondeu.
Dali a pouco Rhodan ficou sabendo o que o espião fora fazer com o computador positrônico.
A máquina havia sido ativada por um desconhecido às 10 horas e 32 minutos, tempo de bordo, ou seja, cerca de quinze minutos antes que começasse o tempo oficialmente concedido a Atlan. O chamado comando de prontidão provavelmente perturbara o desconhecido em seu trabalho e representara um aviso de que era iminente uma visita ao centro de computação. Esse sinal costumava ser transmitido à máquina dois minutos antes do tempo concedido a qualquer pessoa e tinha por fim erradicar todas as operações combinatórias ou de cálculo que eventuais usuários anteriores não tivessem concluído, e assim permitir o pleno funcionamento do computador.
Naturalmente o desconhecido se escondera e atacara Atlan para concluir tranqüilamente as operações já iniciadas. Não poderia esperar uma oportunidade mais favorável. Durante o tempo concedido ao arcônida não seria de esperar outras visitas, enquanto antes disso poderia ser perturbado a qualquer momento.
Também descobriu de que forma as luzes foram apagadas. O espião fizera desaparecer, pouco acima do chão, um pedaço do cabo-mestre, provavelmente por meio de um desintegrador. Nem sequer chegara a ocorrer um curto-circuito.
O ponto mais alarmante foram os dados que procurou extrair do computador. Os matemáticos deixaram claro que o espião estava interessado em conhecer o código utilizado nas hipertransmissões da nave.
As mensagens de hipercomunicação costumavam ser codificadas, com raríssimas exceções. Depois de reduzidas a um código, eram condensadas. Assim, uma mensagem cuja leitura poderia consumir meia hora seria irradiada numa fração de milésimo de segundo. O código fora criado por matemáticos terranos, e apresentava diferenças fundamentais face ao sistema arcônida. Havia uma série de modificações que dificultavam enormemente, ou talvez tornavam inteiramente impossível, a decodificação por uma pessoa não credenciada.
Quer dizer que o espião queria descobrir o código terrano de hipercomunicação. Sem dúvida pretendia transmitir a informação, pelo caminho mais rápido, a seu chefe, que provavelmente seria um agente-robô estacionado em Árcon. Dessa forma este estaria em condições de decifrar as mensagens de hipercomunicação da Terra.
Mas, havia uma pergunta para a qual por enquanto não se encontrava a resposta. Por que o espião não agira de forma mais discreta? Teria de contar com a possibilidade de que, depois do ataque a Atlan, o centro de computação seria examinado, e o comandante da nave procuraria descobrir o que ali fora fazer o espião. Se tivesse qualquer conhecimento, por menor que fosse, sobre o funcionamento de um computador positrônico, chegaria à conclusão de que os terranos logo teriam conhecimento de seu interesse pelo código de hipercomunicações. E com isso a informação obtida perderia todo valor para o espião e para o computador-regente de Árcon, pois era evidente que o terranos logo substituiriam seu código.
Quais seriam suas verdadeiras intenções?
4



A Drusus continuava parada no espaço. Na verdade, não estava propriamente parada, mas deslocava-se em queda livre, à velocidade da luz, em direção ao centro da Via Láctea. Mas em comparação com a velocidade que desenvolvera durante o salto pelo hiperespaço, podia-se dizer que estava parada.
Até então Rhodan não quis arriscar-se a realizar outra tentativa. No seu íntimo estava convencido de que, quando isso acontecesse, mais um minúsculo transmissor goniométrico entraria em funcionamento, a fim de revelar sua posição cósmica. Depois o destinatário dos impulsos registraria mais um ponto no mapa, e começaria a refletir sobre o possível destino da Drusus.
Rhodan não pôde deixar de rir ao lembrar-se de que não havia um perigo real, enquanto não realizasse o salto que o levaria de volta à Terra. Mas um belo dia esse salto teria que ser realizado. Porém isso só seria feito depois de encontrado o espião, fosse ele quem fosse.
Suas reflexões foram interrompidas pelo zumbido do intercomunicador.
Estava deitado no sofá, em seu camarote, a fim de descansar um pouco, depois do nervosismo das últimas horas.
Atlan por pouco poderia ter capturado o desconhecido. Em certa oportunidade tive a idéia de que um desconhecido poderia ter entrado na nave a bordo da Gazela de Wroma. Era possível, mas pouco provável. De qualquer maneira...”, pensou.
Moveu uma pequena chave. O rosto de uma moça esbelta, de cabelos escuros, surgiu na tela.
Desculpe a interrupção, Sir. O Ministro Bell informou-me sobre o lugar em que poderia encontrá-lo. Acho que o que tenho a dizer é importante.
Pode falar, Miss Peres. O exame já foi concluído? O que descobriram a respeito de Kulman?
Foi justamente por isso que entrei em contato com o senhor. Não lhe posso oferecer um resultado concludente. Não conseguimos progredir. Há uma barreira em torno do cérebro de Kulman...
Uma barreira? O que quer dizer com isso? — Rhodan sentiu sua tensão aumentar.
A hipótese que lhe ocorrera em primeiro lugar ameaçava transformar-se em certeza. Havia algo de errado com Kulman. O que seria?
Não me torture, Miss Peres.
Acho que seria preferível que o senhor viesse até aqui. Se tentarmos romper a barreira por meio de um choque, estaremos assumindo um risco. O senhor sabe...
Sei, sim — disse Rhodan. — Não faça nada antes que eu chegue. Deverei estar aí dentro de dez minutos.
Desligou o aparelho, refletiu por alguns segundos e comprimiu um botão que estabelecia a ligação com John Marshall.
John, mande André Noir comparecer imediatamente à Divisão Psicológica. Peça-lhe que se apresse. Obrigado.
Depois pôs-se a caminho. Mal havia cumprimentado Rosita Peres, quando Noir chegou.
O senhor mandou chamar-me?
Não sei se precisaremos de você. Veremos. Conte o que houve, Miss Peres.
Encontravam-se numa sala cujas paredes haviam sido revestidas com azulejos brancos. Os cientistas que se encontravam presentes cumprimentaram-nos com gestos respeitosos. Jost Kulman estava deitado numa espécie de mesa de operações; mantinha-se imóvel. Mesmo que não estivesse inconsciente, não poderia esboçar o menor movimento, pois as finas correias de couro o prendiam. Acima de sua cabeça pairava um estranho objeto metálico, que lembrava vagamente um aparelho de raios ultravioletas. Mas não havia dúvida de que era outra coisa. Do objeto partiam fios que o ligavam a um aparelho de controle que emitia um ligeiro zumbido.
Continua a falar apenas naquilo que já declarou — principiou Peres, apontando para o homem que parecia estar dormindo. —-Mas temos certeza de que existe uma barreira hipnótica que bloqueia sua memória. Na verdade, perdeu a memória, ou melhor, esta foi substituída por uma artificial. Quer dizer que Kulman mentiu, mas John Marshall não pode desmascará-lo.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Era o que eu imaginava. Por que aconteceu isso? Tem alguma explicação para o fenômeno?
A explicação é simples e apavorante — interveio um homem alto, de jaleco branco. — A lembrança da verdade foi retirada de Kulman. Este não sabe mais o que realmente lhe aconteceu em Swoofon. Só sabe aquilo que um desconhecido lhe sugeriu.
Por enquanto não temos como afirmar com segurança se isso foi realizado por meios mecânicos. O que desejamos saber é apenas se devemos restaurar a memória original e autêntica de Kulman pela força, ou se devemos agir com cautela.
Queira explicar-se melhor, Mister Grothe. Qual será o risco que estaremos assumindo se agirmos pela força?
Kulman poderá morrer.
Não assumiremos este risco — resolveu Rhodan. — Ainda temos outras possibilidades.
Dirigiu-se ao mutante.
Noir, tente romper a barreira. Não recorra à violência, pois a vida de Kulman é muito preciosa para nós; na verdade, não existe nenhuma vida que não seja preciosa. Procure romper a barreira.
André Noir confirmou com um gesto. Compreendera. Era um hipno, e como tal estava em condições de impor sua vontade a outros seres e transmitir comandos hipnóticos.
Pôs-se a trabalhar, sem dar a menor atenção aos homens que o rodeavam. Ninguém o perturbou. Fitavam-no extasiados.
Dali a dez minutos, Noir descontraiu-se e voltou a cabeça para Rhodan. Seu rosto parecia cansado; em seus olhos lia-se não só a decepção, mas também o espanto.
É impossível. Não consigo penetrar pela barreira colocada em torno de seu cérebro. Isso foi feito por um hipno mais forte que eu. Se tivermos paciência, talvez consigamos.
Um hipno mais forte que você? — na voz de Rhodan havia um tom de incredulidade. — Será que isso pode existir?
Noir fez um gesto afirmativo.
Por que não? É bem verdade que pode tratar-se de um hipno artificial, de um robô. Se foi assim, restaria saber quem controlava o robô.
Rhodan viu confirmadas as suspeitas que trazia na mente. Mas desejava saber mais uma coisa que lhe parecia importante.
Mais uma pergunta, Noir. Se Kulman recebeu este tratamento, que o fez perder a memória, e se esta foi substituída por outra, que serve de base aos seus atos, nesse caso um telepata poderia penetrar em sua mente? Em outras palavras, se o novo Kulman soubesse que é um espião, ele conseguiria ocultar esse fato de Marshall?
Não — respondeu Noir. — Em hipótese alguma.
Rhodan suspirou aliviado.
Quer dizer que não é o espião. Era apenas isso que eu queria saber por enquanto. Prossiga nas suas tentativas, Noir. Precisamos descobrir quem emitiu a mensagem de alarma, da qual Kulman, segundo afirma, não tem nenhum conhecimento. Talvez tenha sido o próprio Kulman, e alguém o privou da possibilidade de recordar o fato. Se foi assim, ele deve ter tido um motivo sério para pedir que fôssemos buscá-lo em Swoofon. Precisamos descobrir esse motivo. Quando isso acontecer, teremos a chave do enigma, e talvez um indício que nos leve ao espião que se encontra a bordo da Drusus.
Noir meneou a cabeça.
Se não for Kulman, só poderá ser o cachorro.
Um sorriso ligeiro aflorou aos lábios de Rhodan.
Muzel? Não; acho totalmente impossível. Muzel permanece constantemente em poder de Gucky, e tenho certeza de que nada escapa ao rato-castor. Mesmo assim, prevenirei Gucky, pois devemos contar com qualquer eventualidade. De qualquer maneira, o bassê não pode ser artificial, pois emite impulsos mentais orgânicos. Nenhum robô pode fazer uma coisa dessas. A única maneira de reconhecer um robô consiste em verificar se ocorre a ausência de verdadeiros impulsos mentais. E, se Muzel não é nenhum robô, também não pode ser o espião, pois não possui a inteligência que seria necessária para isso.
Hum — fez Noir e voltou a fitar Kulman. — Farei o possível. Se conseguir alguma coisa, avisarei o senhor.
Será um favor, Noir — disse Rhodan; cumprimentou seu interlocutor com um gesto e retirou-se da Divisão Psicológica.
Mergulhado em suas reflexões, caminhou pelo corredor e entrou no elevador antigravitacional, que o fez subir alguns andares. Prosseguiu na fita rolante. Saltou à frente da porta de um camarote, parou um instante e subitamente abriu a porta.
Gucky estava sentado, imóvel e ereto, no centro do camarote, e mantinha os olhos semicerrados, como se refletisse atento sobre alguma coisa. Evidentemente vira Rhodan, que voltou a fechar a porta, mas não tomou conhecimento de sua presença. Rhodan, que também dispunha de capacidade telepática pouco desenvolvida, esforçou-se em vão para penetrar na mente do rato-castor. Aquele ser versátil colocara uma barreira em torno de seu cérebro.
O que é isso? — perguntou Rhodan em tom de espanto. — Onde está Muzel?
Quando notou que Gucky não respondia, prosseguiu:
Pelo que ouvi, vocês são muito amigos. Dizem que sempre andam por aí...
Gucky não respondeu. Fez um movimento quase imperceptível com o dedo da mão direita e apontou para o teto. Foi o único movimento que executou.
Está fazendo um exercício de meditação? — perguntou Rhodan em tom galhofeiro.
Mais uma vez apenas conseguiu colher um olhar que quase chegava a ser de desprezo. Ao que parecia, o rato-castor não estava disposto a permitir que o perturbassem em sua estranha atividade.
Fale logo, senão eu lhe ensino a obedecer! — disse Rhodan em tom de ameaça.
Gucky abriu inteiramente um dos olhos e lançou um olhar de recriminação para Rhodan.
Não me distraia! Não vê que procuro concentrar-me?
Em quê?
Nesse maldito possoncal, que não sabe fazer outra coisa senão enganar-me.
Não compreendo — confessou Rhodan. — Onde está Muzel? Não o vejo. Por que resolveu concentrar-se nele?
Estamos brincando de esconder — respondeu Gucky em tom sério. — Uma vez ele se esconde, outra vez eu. Pensei que para mim fosse simples, já que sou teleportador e posso usar a telepatia para localizá-lo, esteja onde estiver. Mas não é nada disso! Esse “sujeito” sempre encontra um esconderijo, cada qual melhor que o outro. Se não pudesse captar as fracas emanações de seu cérebro canino, provavelmente nunca o encontraria.
Pare um pouco. Quero fazer algumas perguntas.
Tem de ser justamente agora, que estamos numa brincadeira tão gostosa? — perguntou Gucky, que parecia indignado.
Sim, justamente agora, que você está só. A pergunta é a seguinte: Você consegue comunicar-se com Muzel? Ele fala?
Não fala, mas pensa — informou Gucky, que já parecia estar conformado com a idéia de perder essa partida do jogo. — Leio seus pensamentos.
E como é que ele entende uma mensagem sua?
Falo em inglês. Deve ter aprendido essa língua com Kulman. E olhe que para um cachorro isso representa muita coisa, embora nunca me canse de dizer que mesmo um cão terrano...
Quer dizer que entende o que você diz? E responde através dos pensamentos, a fim de que você os ouça? Isso é muito interessante. O que costuma pensar seu amigo bassê quando está só? Acho que você entende o que quero dizer. Qualquer ser pensa ininterruptamente, mesmo que não tenha consciência desse processo mental. Será que com Muzel acontece a mesma coisa?
Acontece, sim — respondeu Gucky em tom hesitante, pois não sabia aonde Rhodan pretendia chegar com sua pergunta. — Pensa ininterruptamente, embora seus pensamentos sejam pouco numerosos e um tanto indefinidos. Geralmente costumam ser mais fracos do que os que surgem em sua mente quando quer comunicar-se comigo. Mas sempre pensa.
Ah — fez Rhodan, que viu confirmada a suposição surgida em sua mente. Muzel jamais poderia ser um robô. — O que é que ele costuma pensar?
Gucky soltou uma risadinha idiota.
Acho que seus pensamentos são tolos para um cão bassê. Não pensa em coelhos ou ratos, em raposas ou na caça. Também não pensa em lingüiças grelhadas ou carne crua. Nada disso. Sabe o que costuma pensar?
Como é que eu poderia saber? — disse Rhodan em tom impaciente.
Gucky fez um gesto de assentimento.
É mesmo; como é que você poderia saber? Quando está só, os pensamentos de Muzel só giram em torno da água. Imagina que está nadando e pegando plâncton. Nem sei o que vem a ser isso...
O plâncton é formado por seres minúsculos que bóiam no mar. Serve de alimento aos caranguejos e peixes pequenos, e também a outros animais...
Ah! — exclamou Gucky e soltou uma gargalhada estridente. — Provavelmente Muzel costumava caçar caranguejos e não consegue livrar-se da recordação desses bichos.
Rhodan fez um gesto afirmativo, mas não disse nada. Em sua testa surgiram rugas de reflexão, e subitamente seus olhos se estreitaram.
Gucky acreditou que o interrogatório estivesse concluído. Voltou a fechar os olhos e subitamente deu um salto de mais de um metro.
Sei onde está! — exultou com a voz fina. — Consegui localizá-lo. Está no convés F, bem em cima de nós, no interior de um depósito. Um momento; vou buscá-lo.
No mesmo instante Gucky desapareceu, mas não demorou em materializar-se de novo. Gemendo baixinho, o bassê saltou de cima de seus braços e aproximou-se de Rhodan, passando a farejar-lhe as pernas. Abanou alegremente a cauda.
Está gostando de você — anunciou Gucky, que parecia sentir-se muito feliz com isso. — Os cachorros têm um sentido que lhes permite saber em quem podem confiar e em quem não podem.
Fico muito satisfeito em saber disso — disse Rhodan e abaixou-se. — Então, bichinho, está gostando daqui? Já fez amizade com Gucky?
Muzel olhou para Gucky. Houve um silêncio total. Finalmente o rato-castor exclamou:
Percebeu? Acha que você também é muito bacana.
Rhodan sacudiu a cabeça.
Não percebi coisa alguma. Será que você quer dizer que ele expediu uma mensagem telepática? Se fosse assim, eu não poderia deixar de captá-la, pois as condições são extremamente favoráveis.
O rosto de Gucky exprimiu espanto.
Enviou uma mensagem inequívoca. Será que só eu sou capaz de entendê-lo, e mais ninguém? Devo ter o mesmo comprimento de onda que ele; só pode ser isso.
Tolice! O motivo deve ser outro. Vamos tentar mais uma vez.
Mas o resultado da segunda e da terceira tentativa não foi diferente. Rhodan sentiu que o bassê pensava, mas não o entendeu. De qualquer maneira, convenceu-se de que o que tinha diante de si não era um robô, ainda mais que Gucky lhe disse o que haviam comido juntos.
A idéia de que Muzel pudesse ser um espião, ou mesmo um robô, era tão absurda que não devia sequer ser considerada.
Um robô não come carne ou cenouras, nem bebe água.
Despediu-se com um gesto e saiu para o corredor.
Estava na hora de iniciar a próxima transição. Devia-se contar com a possibilidade de que logo após o retorno ao espaço normal o misterioso espião voltasse a transmitir a posição da nave. O salto mais uma vez os levaria em direção ao centro da Via Láctea. A distância a ser percorrida seria de exatamente duzentos anos-luz.
Extensos preparativos haviam sido tomados.
Vários operadores de rádio, com aparelhos de radiogoniometria portáteis, continuavam distribuídos pelos pontos estratégicos da nave. Mantinham contato direto com a sala de comando, a fim de poderem transmitir imediatamente os resultados de suas medições goniométricas. Estes resultados seriam coordenados. Dessa forma a posição exata do transmissor colocado pelo espião poderia ser determinada numa questão de segundos.
O Capitão Farrington mantinha-se em posição junto à sala de comando, juntamente com um grupo de cinqüenta homens, a fim de agir assim que fossem fornecidos os resultados das medições goniométricas. Além do mais, a Drusus entrou em regime de prontidão. Cada tripulante mantinha-se em seu posto, do qual não poderia retirar-se sem licença especial.
Rhodan chegou à sala de comando e cumprimentou Sikermann. Sentados lado a lado junto aos inúmeros controles, os dois homens aguardavam. A transição estava iminente. Faltavam apenas alguns segundos...
Sikermann empurrou a alavanca vermelha para a frente. As estrelas apagaram-se, e com isso o Universo parecia desaparecer, apenas para voltar a surgir sob outra configuração. A nave fora trasladada para um ponto situado a duzentos anos-luz. Notava-se perfeitamente que a profusão de estrelas se tornara mais densa.
Na sala de comando reinava um silêncio ansioso.
Era tudo tal qual fora da primeira vez. Apenas, desta vez Bell permaneceu tranqüilamente em sua poltrona, sem dar mostras de um otimismo prematuro.
E teve razão em agir assim, pois os receios de Rhodan se confirmaram.
Oito minutos após a transição o alarma soou pela nave. Os resultados das diversas medições goniométricas foram chegando, e o oficial da equipe de rádio que se encontrava na sala de comando não levou mais de trinta segundos para determinar a localização do transmissor. Achava-se no convés inferior, junto ao eixo norte-sul da nave.
Aquilo quase chegava a ser uma rotina, e tudo se passou exatamente da mesma forma como da primeira vez, no sistema de Swaft. Quando Farrington e seu grupo chegaram ao convés A, não encontraram o menor sinal do espião. O comando equipado com aspiradores de pó pôs-se a trabalhar, sem aguardar as ordens de Rhodan. O Laboratório de Análise teve um serviço a executar, e dentro de meia hora o Major Hill encontrou o microtransmissor.
O aparelho era igual ao primeiro: um transmissor rudimentar e unifreqüencial, equipado com uma minúscula bateria de fusão, extremamente potente, e um mecanismo de relógio regulável bastante simples.
Apoderaram-se de mais um transmissor, mas quanto ao mais tudo continuava como antes.
O rosto de Rhodan adquiriu a rigidez de uma máscara.
Ainda não nos lembramos de uma hipótese — disse de repente em meio ao silêncio.
Todos os olhares convergiram sobre ele. Bell inclinou-se para a frente.
É perfeitamente possível que o espião tenha subido a bordo antes de chegarmos ao sistema de Swaft. Talvez se encontre na nave há bastante tempo e só agora entrou em ação. É o momento mais favorável, pois seria de supor que voltássemos à Terra com Kulman. A barreira hipnótica colocada em torno da mente de Kulman tem alguma ligação com isso.
Bell sacudiu a cabeça.
E os micro transmissores? Só podem ter sido fabricados em Swoofon.
E daí? Swoofon não começou a existir apenas há algumas semanas. Há séculos os swoons trabalham na confecção destes aparelhos.
Bell fez um gesto de assentimento e manteve-se em silêncio. O argumento era contundente.
Rhodan levantou-se.
A terceira transição será realizada daqui a duas horas. Antes disso tenho de fazer uma coisa. Poderei ser encontrado no meu camarote.
Retirou-se da sala de comando mas, em vez de dirigir-se ao seu camarote, foi ao de Gucky.

* * *

Uma esfera de um quilômetro e meio de diâmetro é um verdadeiro mundo. Alguém que não conheça seus meandros pode perder-se irremediavelmente na mesma. Se isso acontecer, vários dias poderão passar-se antes que seja encontrado.
Não há necessidade de ressaltar que o imenso espaço existente no interior da Drusus representava um local de folguedos ideal para Gucky, que sempre sabia orientar-se. Como pudesse realizar saltos de teleportação, não tinha a menor dificuldade em transportar-se de um pólo a outro.
As coisas não foram nada fáceis para Muzel.
Fazia pouco tempo que o bassê havia chegado à nave, e o mesmo não possuía qualquer dom parapsicológico. Sempre que chegava sua vez de esconder-se, Gucky deixava que saísse do camarote e lhe dava uma boa dianteira. Vez por outra chegava a levá-lo a algum lugar e voltava ao camarote.
Havia, contudo, uma vantagem: Muzel não tinha razões para recear que desaparecesse no interior da nave ou até morresse de fome. Gucky sempre o encontrava. Em compensação Muzel perdia invariavelmente; mas isso não parecia incomodá-lo. Era mais um motivo para que Gucky se afeiçoasse a ele.
Gucky abriu a porta e disse:
Desta vez esperarei dez minutos, Muzel. Procure um bom lugar e não pense tanto, pois do contrário logo será encontrado.
O bassê moveu as perninhas tortas, encostou as orelhas à cabeça e saiu em disparada pelo corredor afora. Sem a menor hesitação saltou para dentro de um elevador e deixou que os raios antigravitacionais o levassem para baixo, em direção ao centro do campo de gravidade.
Desceu algumas centenas de metros e, ao chegar ao convés C, abandonou o elevador. Mais uma vez saiu correndo, a fim de ficar o mais longe possível de Gucky. Era claro que isso não adiantava nada, pois o rato-castor saberia localizá-lo a algumas centenas de metros, bem como a dez mil quilômetros. Acontece que o possoncal não sabia disso.
Dobrou uma esquina e entrou num corredor estreito. Não sabia para onde ia, mas isso não lhe importava. Uma das inúmeras portas deveria estar aberta. Entraria, deitaria bem quietinho e não pensaria em nada. Que Gucky procurasse até cansar.
Muzel demorou demais em ver as pernas que surgiram à sua frente. Bateu contra as mesmas e deu duas cambalhotas.
O pedestre que andava por ali também se sentiu surpreendido com o encontro. Cambaleou, praguejou em arcônida e segurou-se na parede. Por pouco não perde o equilíbrio e cai ao chão. Mas controlou-se com uma rapidez surpreendente, revelando uma extraordinária presença de espírito.
Muzel chegou a voar, de tão forte que fora o impacto. Deu duas cambalhotas, bateu com as costas contra uma porta e escorregou para o chão.
Atlan — era este o caminhante solitário — abaixou-se para examinar o animal, que evidentemente devia estar ferido. Sentiu-se muito surpreso ao notar que o possoncal já se mantinha sobre as pernas. Um arranhão sangrento estava bem visível no pêlo prateado, mas seu comportamento não indicava que tivesse sofrido qualquer ferimento interno. Naqueles olhos dourados apenas se lia uma ligeira recriminação.
Atlan sacudiu a cabeça, surpreso. Subitamente uma expressão estranha surgiu em seus olhos. Tratava-se de um misto de suspeita e curiosidade.
Sinto muito; coitadinho — disse, passando a mão pela ferida. Seus dedos tingiram-se de vermelho, e sentiu a tepidez do sangue, que gotejava da ferida recente. Fez tudo para que continuasse grudado aos seus dedos, sem ser removido pelo pêlo sedoso. — Está doendo?
Muzel choramingou baixinho, como se quisesse responder. Abanava lentamente a cauda e farejou as pernas de Atlan, que haviam provocado a queda. Deu um rosnado que significava não estar zangado com esse par de pernas.
Ao menos foi essa a interpretação que Atlan deu ao rosnado.
O que veio fazer aqui embaixo? — perguntou o arcônida, sacudindo a cabeça numa suave repreensão. — Está brincando com alguém?
Muzel voltou a choramingar. De repente parecia sentir dores. Isso não era de admirar, pois o impacto devia ter sido muito forte. Era um milagre que o bassê não havia quebrado os ossos.
Antes que Atlan pudesse refletir a este respeito, Gucky surgiu à sua frente. Enquanto ainda se encontrava no camarote, procurara localizar Muzel e fora informado sobre o incidente que provocou algumas especulações bastante fantasiosas na mente de Atlan. Mas essas especulações foram desmentidas pelo comportamento de Muzel. Especialmente pelo sangue quente que saía da ferida.
Por que é que você tinha de passear justamente por este corredor, Atlan? — perguntou o rato-castor em voz estridente, que revelava uma enorme dose de cólera. — A nave é muito grande, mas...
Você quer fazer a gentileza de levar Muzel ao posto médico, onde cuidarão de sua ferida? — interrompeu-o o imortal. — Eu lhe ficaria muito grato. Da próxima vez prestarei mais atenção.
Fez um gesto para Gucky e afastou-se, cuidando sempre para que a mão direita não tocasse em nada, a fim de não remover o sangue.
Gucky seguiu-o com o olhar e estreitou os olhos. Procurou em vão romper a barreira que Atlan erigira em torno de seu cérebro. Nem mesmo o rato-castor conseguiu descobrir o que o arcônida estava pensando.
Gucky suspirou e dirigiu-se a Muzel.
Está doendo, bichinho? Vamos, eu o levo aos consertadores de ossos. Estes consertarão sua carcaça.
Isso não é necessário, Gucky. Não está doendo mais.
Nada de discussões, Muzel. Uma atadura não faz mal a ninguém. Vamos, segure-se em mim!
Muzel voltou a choramingar e obedeceu à ordem que acabara de receber. Quando os dois apareceram na Divisão Médica, o médico-chefe, Dr. Arnulf Sköldson, quase morreu de susto. Era claro que aquele homem ligeiramente corpulento, de cabelos cor de palha, conhecia Gucky. Na Drusus não havia ninguém que não o conhecesse. Mas qualquer pessoa leva um susto quando de repente vê uma criatura materializar-se à sua frente.
Santo Deus! — exclamou Sköldson, com o rosto pálido, e recuou dois passos, a fim de segurar-se na mesa.

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