— Sim,
Gucky, estou com fome.
— Venha
comigo; arranjarei alguma coisa para você. Gosta de cenouras?
— Cenouras?
O
rato-castor achou que seria complicado demais explicar àquela
criatura estranha as “excelências”
de uma cenoura. Ele que experimentasse, e depois veria. Paciência; o
cozinheiro-chefe da Drusus teria que soltar uma ração dupla. E se
Muzel não ficasse entusiasmado com as cenouras, talvez se poderia...
Os pensamentos de Gucky perderam-se numa série de especulações
felizes; por pouco não esquece Muzel. Mas logo se lembrou dos seus
deveres de anfitrião. Ergueu-se e com a pata dianteira abriu a porta
que dava para o corredor.
Uma vez no
corredor, Gucky voltou a fechar a porta. Cismou sobre o que acharia
Muzel se lhe fosse apresentada uma demonstração ao vivo da
teleportação. Mas seria preferível fazer uma coisa de cada vez,
para que as surpresas não se esgotassem muito depressa.
Um oficial
dobrou a esquina do corredor e aproximou-se deles. De sua
perspectiva, Muzel, de início, só viu as pernas e desviou-se
instintivamente. Já fizera experiências desagradáveis com as
pernas dos grandes bípedes que passavam por Swoofon. Os saltadores
não costumavam ser muito delicados.
Gucky
prosseguiu em sua caminhada como se nada tivesse acontecido. Se o
Tenente Hicks não tivesse baixado os olhos, teria tropeçado no cão
e dado com o rosto no tapete de plástico.
O Tenente
Hicks parou e esfregou os olhos.
“Gucky
está passeando com um verdadeiro cão bassê! De onde vem o animal?
Eu não sabia que havia um cachorro a bordo da Drusus, quanto mais um
bassê, raça que nunca soube o que era disciplina. Há séculos esse
fato era do conhecimento geral! Mas a bordo da Drusus...”,
pensava o oficial.
— Não
maltrate a cuca, homo sapiens — chiou Gucky e empertigou o corpo,
para reforçar o efeito de suas palavras. — Ficaríamos muito
gratos se pudesse sair do caminho, para que possamos passar.
O Tenente
Hicks saltou para o lado com tamanha rapidez que por pouco não cai.
Seus olhos quase saltaram das órbitas quando ouviu Gucky dizer
“vamos
andando”
ao cachorro, e sair com ele.
Seguiu a
estranha dupla com o olhar e murmurou:
— Será
que estamos numa nave-couraçado do Império Solar ou num circo
voador?
Gucky
esperou até que Hicks se tivesse afastado e parou.
— Você
sabe correr? — perguntou ao bassê.
Muzel, que
se acomodara sobre a traseira do corpo, respondeu:
— Por
que faz essa pergunta? Minhas pernas são curtas e estou cansado.
Além disso, estou com fome. Por que Kulman não me dá comida?
— Um
momento, Muzel. A cozinha fica lá embaixo. Vamos saltar.
Os olhos
cor de ouro brilharam numa expressão de confiança, mas neles também
se lia uma indagação muda: saltar?
Um sorriso
alegre surgiu no rosto de Gucky quando se aproximou de Muzel,
segurou-o pela nuca e passou a concentrar-se no ponto de destino.
Quando
Muzel voltou a abrir os olhos viu que, sem saber como, fora
transportado para outro lugar. Não poderia entender que num milésimo
de segundo percorrera uma distância superior a um quilômetro. Porém
compreendeu perfeitamente que se encontrava num lugar diferente.
Gucky, seu novo amigo, falara em saltar. E...
— Pronto;
chegamos! — disse o rato-castor com a voz alegre.
Abriu a
porta à sua frente. Atrás dela ouvia-se o ruído da louça que
batia, o praguejar baixo dos cozinheiros atarefados, o zumbido dos
grandes aparelhos de grelhagem e outros ruídos misteriosos de uma
cozinha eletrônica.
— Ei,
Fatty!
Uma figura
maciça, envolta pela fumaça desprendida pelas comidas, encolheu-se
como se tivesse sido atingida pelo raio. Um homem de branco, gordo,
de quase dois metros de altura atravessou a cozinha maravilhosa e
parou à frente dos visitantes.
— Ainda
não está na hora do almoço! — resmungou num ligeiro tom de
recriminação, em que também se notava certo medo.
Fatty
nunca se esquecera de que certa vez Gucky se valera da capacidade
telecinética para trancá-lo no grande frigorífico, onde ficara
preso durante algumas horas.
— Deseja
alguma coisa? — só agora viu Muzel e teve o cuidado de não deixar
que seu rosto se tornasse muito mais inamistoso. — Onde está o
lindo au-au? Onde está...
— Que
pergunta idiota! — interrompeu Gucky. — Não vê que está aqui?
Fatty
voltou a endireitar o corpo e falou de modo sério:
— Não é
permitida a entrada de cachorros na cozinha. Existe uma ordem
terminante nesse sentido.
— Muzel
não é nenhum cachorro; é um possoncal — informou Gucky. — Além
disso, ninguém disse que quer entrar na sua cozinha fedida.
“Aqui
está cheirando bem”,
pensou Muzel, bastante animado.
— Cozinha
fedida? — Fatty teve a impressão de que iria sofrer um ataque. —
Se você repetir isso...
— O que
acontecerá?
Fatty
preferiu não discutir. Não queria entrar em conflito com esse bicho
medonho. Há pouco um dos seus auxiliares subitamente perdera o peso
e voara pela cozinha até que alguém conseguisse pegá-lo com um
laço e amarrá-lo à coluna de concreto do grill, que nem mesmo
Gucky conseguiria deslocar.
— Posso
fazer alguma coisa por você? — perguntou Fatty com uma amabilidade
fingida.
Gucky fez
um gesto afirmativo e disse:
— Quero
cinco quilos de cenouras cruas, meio quilo de carne e uma garrafa de
água. Vamos logo!
Fatty
virou-se e saiu praguejando. Dali a trinta segundos, voltou e trouxe
as iguarias numa bandeja.
— Faço
tudo que você quiser, Gucky. Mas ordens são ordens: não é
permitida a entrada de cachorros...
— Você
já disse isso — interrompeu-o o rato-castor, dirigindo-se para
Muzel. — Vamos embora, senão ele acabará tendo “problemas
psicológicos”.
No meu camarote é mais agradável.
Fatty
esperou até que os estranhos visitantes se desmaterializassem.
Depois fechou ruidosamente a porta e pôs-se a gritar ordens. Nas
próximas horas o pessoal da cozinha passaria por maus bocados.
Gucky e
Muzel devoraram as iguarias. Depois deitaram no sofá e dormiram.
Neste meio
tempo, Kulman voltou ao camarote e deu pela falta do companheiro. Em
resposta à sua indagação, foi informado de que depois de
desinfetado o bassê fora levado ao camarote e ainda deveria estar
lá.
“Acontece
que não estava”,
pensou Kulman. Fazia questão de que seu cão fosse considerado um
ser como qualquer outro.
Subitamente
um vulto materializou-se ao lado de Kulman, que levou um tremendo
susto. Identificou-o: era o rato-castor. Os olhos de Gucky pareciam
sonolentos e exprimiam certa contrariedade.
— Ora
esta! Você acorda tudo quanto é telepata, de tão preocupado que
está com Muzel. Por quê? Ele está comigo. Acabamos de comer e
estamos descansando um pouco. Quando acordarmos, pretendemos brincar.
— Brincar?
— disse Kulman, respirando com dificuldade. — O que quer dizer
com isso?
— Você
deveria ter conservado um pouco de seu ânimo infantil — disse
Gucky e desapareceu sem dizer mais nada.
Kulman
sentiu-se um tanto perplexo.
3
Enquanto
Perry Rhodan permanecia em seu posto na sala de comando, Atlan
retirou-se para refletir sobre a situação. Sabia por experiência
própria que muitas vezes a reflexão calma e concentrada oferece
resultados admiráveis, que podem ser mais úteis à solução de um
problema que a atividade incansável de outras pessoas, que pretendem
atingir o objetivo desferindo golpes no escuro.
Depois de
uma hora, porém, o arcônida chegou à conclusão de que nesse caso
o princípio da reflexão não oferecia maior utilidade. Havia poucos
pontos de partida. O único era o fato de ter a sala de rádio
captado algo que se parecia com sinais goniométricos, e esse
material evidentemente era muito escasso para servir a um trabalho
mental proveitoso.
Atlan
ficou curioso para saber se o grande computador positrônico da nave
saberia fazer algo com essa informação, e pediu que lhe fosse
concedido o tempo necessário para realizar essa tarefa. A Drusus
pairava imóvel no espaço, e os dados para a transição já haviam
sido apurados. Por isso seu desejo pôde ser cumprido imediatamente:
Atlan teve licença para usar a máquina durante uma hora e meia.
A
elaboração do programa-questionário causou sérias dificuldades ao
arcônida. Era difícil formular uma pergunta inicial a fim de que o
computador não desse a resposta, e sim formulasse perguntas
adicionais, que pudessem servir de base à ampliação do programa.
O primeiro
passo de Atlan consistiu em reunir uma série de fatos num programa
de dados. O computador ficou sabendo que no momento a Drusus se
encontrava nas proximidades do sol Swaft e que em Swoofon, um dos
planetas de Swaft, viviam os swoons, uma raça anã à qual
pertenciam os melhores microtécnicos da Galáxia.
Outro dado
introduzido na máquina foi a atividade do agente Kulman e o
recebimento dos sinais misteriosos. Atlan colocou na máquina um
cartão-consulta, por meio do qual pediu que lhe fosse fornecida uma
avaliação global da situação.
O grande
computador começou a trabalhar. Ruídos estranhos se misturaram ao
zumbido que constantemente enchia a sala de computação: o estalido
dos relês, o leve chiado que por vezes era emitido pelas grandes
válvulas...
Atlan
recostou-se confortavelmente na poltrona. A pergunta que acabara de
formular não era fácil de responder. Até mesmo uma máquina de
grandes dimensões, como a que se encontrava no interior da Drusus,
levaria ao menos quinze minutos para ativar as últimas ramificações
de seu mecanismo combinatório e encontrar a resposta.
O arcônida
recostou-se e fitou o teto. Enquanto o computador trabalhava,
procurou descontrair-se, deslocando-se em pensamento na direção das
linhas traçadas no teto e estreitando os olhos, para enxergar melhor
as variações das tonalidades da luz branco-azulada.
Não havia
mais ninguém na grande sala. Os sons emitidos pela máquina se
ajustaram numa seqüência uniforme e tinham um efeito soporífero.
Atlan mergulhou em meditações.
Não notou
que alguém o observava.
Não viu o
par de olhos que o fitavam pelo nicho existente entre dois fichários.
Ouviu um
ruído. No momento em que se levantou, sobressaltado, a luz
apagou-se. As luzes de controle do computador continuavam acesas. Mas
logo depois a iluminação sumiu, não permitindo sequer que se
enxergasse a mão diante dos olhos.
O arcônida
teve a impressão de que um perigo o ameaçava. Levantou-se e foi
recuando para junto da mesa de controle, tateando a parte frontal do
grande computador. Ouviu um ruído; parecia que alguém se arrastava
pelo chão. Antes que pudesse refletir a este respeito, viu um raio
fulminante, que parecia ter saído do crânio do agressor. Uma dor
insuportável envolveu-o; no mesmo instante desmaiou.
*
* *
A Drusus
partiu exatamente no momento previsto. Passou a algumas unidades
astronômicas do sol Swaft e penetrou no hiperespaço.
O emissor
goniométrico não dera mais nenhum sinal de vida. Na sala de comando
voltou a manifestar-se a esperança de que tudo aquilo não passava
de uma interferência absolutamente normal, e de que não havia
nenhum emissor goniométrico a bordo da Drusus.
No momento
em que a dor provocada pela distorção foi amainando e o novo quadro
do espaço começou a surgir nas telas, todos se mantinham nos seus
postos. Esforçavam-se para disfarçar o nervosismo de que se sentiam
possuídos, e permaneciam sempre atentos em não perder qualquer
ordem que viesse da sala de comando.
Os minutos
foram passando num silêncio total.
Bell, que
ocupava o assento do imediato, não conseguiu dissimular a
impaciência de que se sentia possuído:
— Então!
É isso mesmo. O medo foi em vão. Tudo não passou de um alarma...
Até
parecia que o intercomunicador só aguardava o primeiro sinal de
otimismo equivocado. O zumbido interrompeu Bell em meio à frase. O
rosto de um operador de rádio surgiu na pequena tela que ficava à
frente de Rhodan. Nos seus olhos arregalados se via tamanho espanto e
combatividade que de pronto bastou para convencer Bell de que se
enganara.
— Conseguimos
realizar a localização goniométrica! — exclamou o operador de
rádio sem dar a menor atenção às formalidades que normalmente
deveria cumprir. — É no convés E, seção 2, na altura do
corredor principal.
Rhodan
agiu como que por instinto. Seus movimentos pareciam ser os de uma
máquina, de tão rápidos e precisos que foram. O rosto do operador
de rádio apagou-se na tela e a cabeça marcante do Capitão
Farrington surgiu em seu lugar.
— Convés
E, seção 2, na altura do corredor principal — disse Rhodan com
uma calma surpreendente. — Fica bem perto do senhor, Farrington.
Acho que o sujeito não lhe poderá escapar.
Farrington
limitou-se a acenar com a cabeça. A tela logo se apagou. Rhodan
levantou-se.
— Por
enquanto Reginald Bell comandará a nave — disse. — Quero
verificar in
loco.
A própria
sala de comando ficava no convés E, que correspondia ao pavimento
central da Drusus. À distância até a seção 2 era de apenas
trezentos metros. Com a fita rolante Rhodan conseguiu vencê-la em
menos de dois minutos.
Farrington
e seus homens já tinham chegado ao local. Bastava ver seus rostos
para concluir que o grupo não havia encontrado nada, e já não
sabiam onde procurar.
Farrington
fez um relato objetivo.
— Bloqueamos
o corredor dos dois lados e as salas contíguas — explicou. — Nem
um rato conseguiria entrar ou sair. Mas não encontramos ninguém.
Rhodan
sorriu, embora a situação fosse séria.
— Quem
lhe diz que se trata de alguém, capitão? — perguntou. — É
perfeitamente possível que seja alguma coisa.
Farrington
não se deu por vencido.
— Não
encontramos ninguém nem coisa alguma — respondeu prontamente. —
Revistamos toda área. Está tudo em ordem. Neste meio tempo entrei
em contato com a sala de rádio para saber qual é o grau de precisão
da localização. Afirmam que a diferença máxima é de mais ou
menos dez metros, provavelmente ainda menor. Não é possível que
qualquer coisa nos tenha escapado.
Rhodan
ergueu as sobrancelhas.
— Já
que não encontrou nada nem ninguém, quer afirmar que nada houve por
aqui?
Farrington
parecia desolado.
— Parece
inacreditável — respondeu — mas estou inclinado a afirmar isso
mesmo.
Rhodan
interrompeu-o com um gesto.
— Neste
caso ninguém de nós sabe o que é estranho e o que deixa de sê-lo.
Mas antes de desistirmos convém que o senhor mande alguém à Seção
Técnica para trazer um bom instrumento de sucção, de preferência
um verdadeiro aspirador de pó.
Farrington
arregalou os olhos.
— Um
aspirador de pó?
— Isso
mesmo — disse Rhodan. — E quando o aparelho chegar aqui, mande
limpar cuidadosamente centímetro por centímetro do soalho, das
paredes e do teto do corredor e das salas contíguas. A sala de rádio
diz ter determinado a posição do transmissor com uma precisão de
mais ou menos dez metros. Pegue quinze metros de cada lado do ponto
indicado, pois não queremos assumir qualquer risco. Mais uma coisa:
a poeira que for recolhida será entregue aos analistas. Quero que
estes a examinem cuidadosamente. Preste atenção que nada escape aos
homens que manipularem o aspirador de pó.
Farrington
fez continência.
— Entendido!
— e em seus olhos surgiu um brilho de compreensão.
Rhodan
tinha certeza de que dentro em pouco saberia do que se tratava.
Quando subiu na fita rolante para dirigir-se à sala de comando,
ouviu Farrington ordenar a alguém que descesse à Seção Técnica e
trouxesse ao menos cinco aspiradores de pó. Ao que parecia, a
natureza não dotara aquele homem da mesma compreensão de que
dispunha seu superior, pois este teve de repetir-lhe a ordem várias
vezes.
Assim que
Rhodan voltou à sala de comando, informou à Seção Analítica
sobre a tarefa que tinha pela frente. Os analistas asseveraram que
saberiam cumpri-la.
Dali a uma
hora Farrington, que tivera o maior cuidado de que o trabalho fosse
executado com toda minúcia, entrou em contato com Rhodan.
— Limpamos
tudo com os aspiradores de pó.
— Pois
mande um dos seus homens levar a sujeira à Seção Analítica.
— Sim
senhor. Providenciarei imediatamente.
Os
analistas já tinham preparado tudo. Levaram apenas uma hora para
encontrar aquilo que estavam procurando. Rhodan foi avisado
imediatamente.
— Trata-se
de uma pequena esfera de plástico — informou o oficial. — Seu
diâmetro é de zero vírgula dois milímetros. É artificial.
— Aguardem
minha chegada! — gritou Rhodan. — Vamos examinar isso em
conjunto.
Mais uma
vez Bell assumiu o comando. Rhodan parecia ter muita pressa. Levou
apenas alguns minutos para chegar à Seção Analítica, que ficava a
cerca de setecentos metros da sala de comando.
O Major
Hill, chefe da seção, preparava-se para abrir o estranho achado.
— Como
foi que encontrou isso? — indagou Rhodan.
— Primeiro,
porque é maior que uma partícula de pó — respondeu Hill — e
depois, porque brilha um pouco.
— Brilha?
Hill fez
que sim.
— Não é
muito. Em seu interior deve haver uma pequena bateria. O fluxo de
energia pôde ser constatado sem qualquer margem de dúvida.
— Muito
bem; abra.
Usando o
microtom — uma cortadeira automática, que abre perfeitamente
minúsculos objetos — Hill dividiu-a em duas partes. No microscópio
viu-se que a bola de plástico era apenas um fino envoltório, que
continha uma confusão aparentemente inextricável de minúsculas
válvulas, condutores, peças de relógio e coisas parecidas.
Rhodan
logo percebeu de que se tratava. Reconheceu que aquilo tinha as
características de um transmissor de hipercomunicação. Além do
emissor propriamente dito, que era relativamente rudimentar e não
poderia transmitir outra coisa senão simples zumbidos, usando sempre
a mesma faixa de freqüência, havia algumas peças minúsculas que
formavam uma espécie de relógio mecânico.
Hill, que
reconhecera imediatamente o hipertransmissor, quebrou a cabeça a
respeito do mecanismo de relógio.
— Para
que será que serve isto? — perguntou em tom de espanto.
— É
simples. O transmissor deveria emitir os sinais num momento
previamente fixado — explicou Perry.
O Major
Hill arregalou os olhos.
— Mas
isso é... — murmurou, lançando mais um olhar ao microscópio, sem
completar a frase — ...é muito simples — prosseguiu depois de
algum tempo. — Basta um ligeiro impulso da bateria, para que o
mecanismo seja ajustado para o momento desejado. Acontece que de cada
vez só pode ser feita uma regulagem.
Fitou
Rhodan; parecia um tanto inseguro.
— Tem
toda razão — disse Rhodan para tranqüilizá-lo. — Se este
objeto for responsável por ambas as seqüências de sinais que
captamos, deve haver alguém a bordo que depois da primeira regulagem
realizou outra, fazendo com que o transmissor entrasse em
funcionamento logo após a transição.
— Isso
mesmo — confirmou o Major Hill um tanto exaltado. — Dali se
conclui que além do microtransmissor temos um espião a bordo. Este
regula o transmissor de maneira tal que o mesmo revela a posição da
nave sempre que isso se torna importante. Não é isso?
Rhodan
riu.
— A
hipótese não deixa de ser plausível. Mas não acredito que o
espião deixe o microtransmissor em algum lugar e, depois que o mesmo
irradiou seus sinais, volta cautelosamente ao esconderijo para
efetuar outra regulagem. O sujeito agiu com tamanha habilidade que
não devemos acreditar que complicasse as coisas dessa maneira.
— Mas...
— disse Hill, respirando com dificuldade. — Se é assim, como...
— Porque
possui vários transmissores deste tipo — interrompeu-o Rhodan.
Hill
parecia perplexo. Olhava ora para Rhodan, ora para o minúsculo
aparelho, cujas duas metades jaziam sobre a tampa escura da mesa.
— Um
objeto destes, por causa do tamanho, vale pelo menos cem mil solares!
— exclamou. — O senhor realmente acredita que um espião
cometeria tamanho desperdício?
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Acredito.
Não se esqueça de que uma de nossas naves pousou em Swoofon. E para
os swoons, os minúsculos aparelhos não têm nada de extraordinário.
É provável que em Swoofon um destes micro transmissores não custe
mais que um aparelho de tamanho normal na Terra.
— Quer
dizer que ainda corremos perigo? — perguntou Hill em tom
preocupado. — Se o espião tiver outros transmissores deste tipo...
— Tenho
certeza de que depois da próxima transição voltaremos a ter
notícias de sua presença — admitiu Rhodan. — Se não
conseguirmos pegá-lo, teremos de realizar transições seguidas, até
que seu estoque de transmissores se esgote. Apenas receio...
Não
completou a frase. Por enquanto o Major Hill não sabia quais eram os
receios de Perry Rhodan. Suas preocupações eram tamanhas que até
se esqueceu de fazer continência quando Rhodan se retirou.
Depois da
descoberta do microtransmissor, Rhodan se tornara bastante pensativo.
Sem dúvida os saltadores ou os arcônidas haviam incumbido os swoons
de fabricar os microtransmissores. Era duvidoso que tivessem qualquer
idéia sobre as finalidades do aparelho; e, de resto, isso não
importava.
O que
importava era apenas o fato de que na luta pelos dados relativos à
posição da Terra surgira um fator novo. Este fazia representar-se
por uma tecnologia estranha que, devido às dimensões reduzidas de
seus produtos, tornava praticamente impossível a adoção de
qualquer medida capaz de evitar que a mesma produzisse seus efeitos.
Uma
vigilância ininterrupta e uma cuidadosa determinação goniométrica
provavelmente tornaria possível a localização e a inutilização
de um transmissor após o outro. Mas ninguém sabia quantos aparelhos
desse tipo o espião trazia, e quanto tempo demorariam para encontrar
todos eles. E o tempo de que dispunha a Drusus e sua tripulação não
era infinito.
Quem seria
o espião?
Só havia
uma resposta plausível: era Kulman ou seu cachorro. Eram os únicos
seres que subiram a bordo depois que a Drusus partira da Terra.
Rhodan
recusou-se a acreditar na possibilidade de que Kulman pudesse ter
modificado suas convicções tão radicalmente e num tempo tão
curto. Por outro lado, não se sabia nada sobre o caráter do
possoncal chamado de Muzel. Era evidente, porém, que um possoncal
não seria capaz de esconder um microtransmissor num lugar
cuidadosamente escolhido, quanto mais ativar o contato do minúsculo
mecanismo de relógio.
Rhodan
refletiu por um instante sobre se a situação mudaria de figura caso
Muzel fosse um robô, mas logo abandonou a idéia. Kulman lhe contara
que Muzel se ferira e sangrou durante a luta com os piratas ou os
saltadores. Um robô não sangra. Além disso, Gucky, o rato-castor,
era o companheiro de folguedos de Muzel. E Gucky possuía faculdades
telepáticas bem desenvolvidas. Se seu novo companheiro fosse um
robô, o fato não lhe teria escapado.
Havia
outra possibilidade. Alguém poderia ter privado Kulman de sua
vontade, impondo-lhe outra. Rhodan não sabia se os saltadores
dispunham de meios para hipnotizar um homem e provocar os necessários
efeitos pós-hipnóticos. De qualquer maneira, esta possibilidade não
poderia ser desprezada.
Resolveu
que Kulman seria apresentado imediatamente aos psicofísicos, que o
examinariam. Os efeitos pós-hipnóticos produzem uma modificação
reduzida, mas inequívoca na atividade mental do indivíduo. Os
psicofísicos descobririam se havia algo de errado com Kulman.
Quando se
encontrava a alguns metros da escotilha da sala de comando, Rhodan
ouviu o som estridente das sereias de alarma. Passou a correr e
chegou no momento exato em que Bell pegava o microfone do sistema de
comunicação de bordo a fim de solicitar-lhe a presença.
Virou-se
e, ao reconhecer Rhodan, baixou a mão que segurava o microfone.
— Encontraram
Atlan — disse sem o menor intróito — na sala do computador. Está
inconsciente. Parece que alguém lhe aplicou um choque.
*
* *
Demorou
meia hora até que o arcônida se recuperasse a ponto de conseguir
falar. Não havia a menor dúvida de que recebera o impacto direto de
uma arma de choque. A energia com que seu corpo fora atingido devia
ser considerável. Na opinião dos médicos, Atlan só teria
recuperado a consciência dentro de seis ou oito horas, se não
fossem os medicamentos que lhe foram aplicados.
As
informações fornecidas por Atlan eram muito escassas. Não vira
nada; apenas ouvira. E os ruídos que conseguira perceber não
permitiam a menor conclusão sobre a identidade do autor do disparo.
Rhodan
apurou que naquele momento vários membros da tripulação se
encontravam nas proximidades do centro de computação, mas nenhum
deles notara qualquer coisa suspeita.
Assim, não
se poderia extrair qualquer conclusão. O ato poderia ter sido
praticado por um dos elementos que se encontravam ali.
Não havia
coisa mais importante a fazer senão seguir as vagas indicações
fornecidas por Atlan. Deviam descobrir o que o desconhecido fora
fazer no centro de computação. Com toda certeza não fora para lá
a fim de atingir o arcônida com a arma de choque. Teria realizado
alguma operação com o computador?
Rhodan
mandou que o mesmo fosse inspecionado. Queria que os matemáticos
responsáveis pelo setor apurassem se alguém trabalhara no
computador fora dos espaços de tempo que haviam sido concedidos,
qual fora o trabalho realizado e quais as informações que a máquina
poderia ter fornecido ao desconhecido.
Enquanto a
inspeção estava sendo realizada, Rhodan lembrou-se do plano que
concebera antes do alarma. Kulman deveria ser examinado.
O agente
ainda estava dormindo, o que era de admirar. Neste meio tempo houvera
uma transição, e a dor provocada pela mesma desperta qualquer
pessoa, por mais profundamente que ela esteja dormindo.
Rhodan
ordenou pessoalmente a Kulman que se submetesse a um exame
psicofísico. Estava interessado em observar a sua reação.
Kulman não
parecia espantar-se muito ao ouvir o que queriam dele. Fez um gesto
de indiferença e disse:
— Naturalmente.
Já contava com isso. É claro que as primeiras suspeitas têm de
recair sobre mim.
— Sinto-me
aliviado em notar que encara a coisa dessa forma — confessou
Rhodan. — Por enquanto ninguém suspeita do senhor. Acontece que
não podemos assumir o menor risco. Na situação em que nos
encontramos, a confiança não basta.
Kulman
sorriu.
— É
claro que não — respondeu.
Dali a
pouco Rhodan ficou sabendo o que o espião fora fazer com o
computador positrônico.
A máquina
havia sido ativada por um desconhecido às 10 horas e 32 minutos,
tempo de bordo, ou seja, cerca de quinze minutos antes que começasse
o tempo oficialmente concedido a Atlan. O chamado comando de
prontidão provavelmente perturbara o desconhecido em seu trabalho e
representara um aviso de que era iminente uma visita ao centro de
computação. Esse sinal costumava ser transmitido à máquina dois
minutos antes do tempo concedido a qualquer pessoa e tinha por fim
erradicar todas as operações combinatórias ou de cálculo que
eventuais usuários anteriores não tivessem concluído, e assim
permitir o pleno funcionamento do computador.
Naturalmente
o desconhecido se escondera e atacara Atlan para concluir
tranqüilamente as operações já iniciadas. Não poderia esperar
uma oportunidade mais favorável. Durante o tempo concedido ao
arcônida não seria de esperar outras visitas, enquanto antes disso
poderia ser perturbado a qualquer momento.
Também
descobriu de que forma as luzes foram apagadas. O espião fizera
desaparecer, pouco acima do chão, um pedaço do cabo-mestre,
provavelmente por meio de um desintegrador. Nem sequer chegara a
ocorrer um curto-circuito.
O ponto
mais alarmante foram os dados que procurou extrair do computador. Os
matemáticos deixaram claro que o espião estava interessado em
conhecer o código utilizado nas hipertransmissões da nave.
As
mensagens de hipercomunicação costumavam ser codificadas, com
raríssimas exceções. Depois de reduzidas a um código, eram
condensadas. Assim, uma mensagem cuja leitura poderia consumir meia
hora seria irradiada numa fração de milésimo de segundo. O código
fora criado por matemáticos terranos, e apresentava diferenças
fundamentais face ao sistema arcônida. Havia uma série de
modificações que dificultavam enormemente, ou talvez tornavam
inteiramente impossível, a decodificação por uma pessoa não
credenciada.
Quer dizer
que o espião queria descobrir o código terrano de hipercomunicação.
Sem dúvida pretendia transmitir a informação, pelo caminho mais
rápido, a seu chefe, que provavelmente seria um agente-robô
estacionado em Árcon. Dessa forma este estaria em condições de
decifrar as mensagens de hipercomunicação da Terra.
Mas, havia
uma pergunta para a qual por enquanto não se encontrava a resposta.
Por que o espião não agira de forma mais discreta? Teria de contar
com a possibilidade de que, depois do ataque a Atlan, o centro de
computação seria examinado, e o comandante da nave procuraria
descobrir o que ali fora fazer o espião. Se tivesse qualquer
conhecimento, por menor que fosse, sobre o funcionamento de um
computador positrônico, chegaria à conclusão de que os terranos
logo teriam conhecimento de seu interesse pelo código de
hipercomunicações. E com isso a informação obtida perderia todo
valor para o espião e para o computador-regente de Árcon, pois era
evidente que o terranos logo substituiriam seu código.
Quais
seriam suas verdadeiras intenções?
4
A Drusus
continuava parada no espaço. Na verdade, não estava propriamente
parada, mas deslocava-se em queda livre, à velocidade da luz, em
direção ao centro da Via Láctea. Mas em comparação com a
velocidade que desenvolvera durante o salto pelo hiperespaço,
podia-se dizer que estava parada.
Até então
Rhodan não quis arriscar-se a realizar outra tentativa. No seu
íntimo estava convencido de que, quando isso acontecesse, mais um
minúsculo transmissor goniométrico entraria em funcionamento, a fim
de revelar sua posição cósmica. Depois o destinatário dos
impulsos registraria mais um ponto no mapa, e começaria a refletir
sobre o possível destino da Drusus.
Rhodan não
pôde deixar de rir ao lembrar-se de que não havia um perigo real,
enquanto não realizasse o salto que o levaria de volta à Terra. Mas
um belo dia esse salto teria que ser realizado. Porém isso só seria
feito depois de encontrado o espião, fosse ele quem fosse.
Suas
reflexões foram interrompidas pelo zumbido do intercomunicador.
Estava
deitado no sofá, em seu camarote, a fim de descansar um pouco,
depois do nervosismo das últimas horas.
“Atlan
por pouco poderia ter capturado o desconhecido. Em certa oportunidade
tive a idéia de que um desconhecido poderia ter entrado na nave a
bordo da Gazela de Wroma. Era possível, mas pouco provável. De
qualquer maneira...”,
pensou.
Moveu uma
pequena chave. O rosto de uma moça esbelta, de cabelos escuros,
surgiu na tela.
— Desculpe
a interrupção, Sir. O Ministro Bell informou-me sobre o lugar em
que poderia encontrá-lo. Acho que o que tenho a dizer é importante.
— Pode
falar, Miss Peres. O exame já foi concluído? O que descobriram a
respeito de Kulman?
— Foi
justamente por isso que entrei em contato com o senhor. Não lhe
posso oferecer um resultado concludente. Não conseguimos progredir.
Há uma barreira em torno do cérebro de Kulman...
— Uma
barreira? O que quer dizer com isso? — Rhodan sentiu sua tensão
aumentar.
A hipótese
que lhe ocorrera em primeiro lugar ameaçava transformar-se em
certeza. Havia algo de errado com Kulman. O que seria?
— Não
me torture, Miss Peres.
— Acho
que seria preferível que o senhor viesse até aqui. Se tentarmos
romper a barreira por meio de um choque, estaremos assumindo um
risco. O senhor sabe...
— Sei,
sim — disse Rhodan. — Não faça nada antes que eu chegue.
Deverei estar aí dentro de dez minutos.
Desligou o
aparelho, refletiu por alguns segundos e comprimiu um botão que
estabelecia a ligação com John Marshall.
— John,
mande André Noir comparecer imediatamente à Divisão Psicológica.
Peça-lhe que se apresse. Obrigado.
Depois
pôs-se a caminho. Mal havia cumprimentado Rosita Peres, quando Noir
chegou.
— O
senhor mandou chamar-me?
— Não
sei se precisaremos de você. Veremos. Conte o que houve, Miss Peres.
Encontravam-se
numa sala cujas paredes haviam sido revestidas com azulejos brancos.
Os cientistas que se encontravam presentes cumprimentaram-nos com
gestos respeitosos. Jost Kulman estava deitado numa espécie de mesa
de operações; mantinha-se imóvel. Mesmo que não estivesse
inconsciente, não poderia esboçar o menor movimento, pois as finas
correias de couro o prendiam. Acima de sua cabeça pairava um
estranho objeto metálico, que lembrava vagamente um aparelho de
raios ultravioletas. Mas não havia dúvida de que era outra coisa.
Do objeto partiam fios que o ligavam a um aparelho de controle que
emitia um ligeiro zumbido.
— Continua
a falar apenas naquilo que já declarou — principiou Peres,
apontando para o homem que parecia estar dormindo. —-Mas temos
certeza de que existe uma barreira hipnótica que bloqueia sua
memória. Na verdade, perdeu a memória, ou melhor, esta foi
substituída por uma artificial. Quer dizer que Kulman mentiu, mas
John Marshall não pode desmascará-lo.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Era o
que eu imaginava. Por que aconteceu isso? Tem alguma explicação
para o fenômeno?
— A
explicação é simples e apavorante — interveio um homem alto, de
jaleco branco. — A lembrança da verdade foi retirada de Kulman.
Este não sabe mais o que realmente lhe aconteceu em Swoofon. Só
sabe aquilo que um desconhecido lhe sugeriu.
Por
enquanto não temos como afirmar com segurança se isso foi realizado
por meios mecânicos. O que desejamos saber é apenas se devemos
restaurar a memória original e autêntica de Kulman pela força, ou
se devemos agir com cautela.
— Queira
explicar-se melhor, Mister Grothe. Qual será o risco que estaremos
assumindo se agirmos pela força?
— Kulman
poderá morrer.
— Não
assumiremos este risco — resolveu Rhodan. — Ainda temos outras
possibilidades.
Dirigiu-se
ao mutante.
— Noir,
tente romper a barreira. Não recorra à violência, pois a vida de
Kulman é muito preciosa para nós; na verdade, não existe nenhuma
vida que não seja preciosa. Procure romper a barreira.
André
Noir confirmou com um gesto. Compreendera. Era um hipno, e como tal
estava em condições de impor sua vontade a outros seres e
transmitir comandos hipnóticos.
Pôs-se a
trabalhar, sem dar a menor atenção aos homens que o rodeavam.
Ninguém o perturbou. Fitavam-no extasiados.
Dali a dez
minutos, Noir descontraiu-se e voltou a cabeça para Rhodan. Seu
rosto parecia cansado; em seus olhos lia-se não só a decepção,
mas também o espanto.
— É
impossível. Não consigo penetrar pela barreira colocada em torno de
seu cérebro. Isso foi feito por um hipno mais forte que eu. Se
tivermos paciência, talvez consigamos.
— Um
hipno mais forte que você? — na voz de Rhodan havia um tom de
incredulidade. — Será que isso pode existir?
Noir fez
um gesto afirmativo.
— Por
que não? É bem verdade que pode tratar-se de um hipno artificial,
de um robô. Se foi assim, restaria saber quem controlava o robô.
Rhodan viu
confirmadas as suspeitas que trazia na mente. Mas desejava saber mais
uma coisa que lhe parecia importante.
— Mais
uma pergunta, Noir. Se Kulman recebeu este tratamento, que o fez
perder a memória, e se esta foi substituída por outra, que serve de
base aos seus atos, nesse caso um telepata poderia penetrar em sua
mente? Em outras palavras, se o novo Kulman soubesse que é um
espião, ele conseguiria ocultar esse fato de Marshall?
— Não —
respondeu Noir. — Em hipótese alguma.
Rhodan
suspirou aliviado.
— Quer
dizer que não é o espião. Era apenas isso que eu queria saber por
enquanto. Prossiga nas suas tentativas, Noir. Precisamos descobrir
quem emitiu a mensagem de alarma, da qual Kulman, segundo afirma, não
tem nenhum conhecimento. Talvez tenha sido o próprio Kulman, e
alguém o privou da possibilidade de recordar o fato. Se foi assim,
ele deve ter tido um motivo sério para pedir que fôssemos buscá-lo
em Swoofon. Precisamos descobrir esse motivo. Quando isso acontecer,
teremos a chave do enigma, e talvez um indício que nos leve ao
espião que se encontra a bordo da Drusus.
Noir
meneou a cabeça.
— Se não
for Kulman, só poderá ser o cachorro.
Um sorriso
ligeiro aflorou aos lábios de Rhodan.
— Muzel?
Não; acho totalmente impossível. Muzel permanece constantemente em
poder de Gucky, e tenho certeza de que nada escapa ao rato-castor.
Mesmo assim, prevenirei Gucky, pois devemos contar com qualquer
eventualidade. De qualquer maneira, o bassê não pode ser
artificial, pois emite impulsos mentais orgânicos. Nenhum robô pode
fazer uma coisa dessas. A única maneira de reconhecer um robô
consiste em verificar se ocorre a ausência de verdadeiros impulsos
mentais. E, se Muzel não é nenhum robô, também não pode ser o
espião, pois não possui a inteligência que seria necessária para
isso.
— Hum —
fez Noir e voltou a fitar Kulman. — Farei o possível. Se conseguir
alguma coisa, avisarei o senhor.
— Será
um favor, Noir — disse Rhodan; cumprimentou seu interlocutor com um
gesto e retirou-se da Divisão Psicológica.
Mergulhado
em suas reflexões, caminhou pelo corredor e entrou no elevador
antigravitacional, que o fez subir alguns andares. Prosseguiu na fita
rolante. Saltou à frente da porta de um camarote, parou um instante
e subitamente abriu a porta.
Gucky
estava sentado, imóvel e ereto, no centro do camarote, e mantinha os
olhos semicerrados, como se refletisse atento sobre alguma coisa.
Evidentemente vira Rhodan, que voltou a fechar a porta, mas não
tomou conhecimento de sua presença. Rhodan, que também dispunha de
capacidade telepática pouco desenvolvida, esforçou-se em vão para
penetrar na mente do rato-castor. Aquele ser versátil colocara uma
barreira em torno de seu cérebro.
— O que
é isso? — perguntou Rhodan em tom de espanto. — Onde está
Muzel?
Quando
notou que Gucky não respondia, prosseguiu:
— Pelo
que ouvi, vocês são muito amigos. Dizem que sempre andam por aí...
Gucky não
respondeu. Fez um movimento quase imperceptível com o dedo da mão
direita e apontou para o teto. Foi o único movimento que executou.
— Está
fazendo um exercício de meditação? — perguntou Rhodan em tom
galhofeiro.
Mais uma
vez apenas conseguiu colher um olhar que quase chegava a ser de
desprezo. Ao que parecia, o rato-castor não estava disposto a
permitir que o perturbassem em sua estranha atividade.
— Fale
logo, senão eu lhe ensino a obedecer! — disse Rhodan em tom de
ameaça.
Gucky
abriu inteiramente um dos olhos e lançou um olhar de recriminação
para Rhodan.
— Não
me distraia! Não vê que procuro concentrar-me?
— Em
quê?
— Nesse
maldito possoncal, que não sabe fazer outra coisa senão enganar-me.
— Não
compreendo — confessou Rhodan. — Onde está Muzel? Não o vejo.
Por que resolveu concentrar-se nele?
— Estamos
brincando de esconder — respondeu Gucky em tom sério. — Uma vez
ele se esconde, outra vez eu. Pensei que para mim fosse simples, já
que sou teleportador e posso usar a telepatia para localizá-lo,
esteja onde estiver. Mas não é nada disso! Esse “sujeito”
sempre encontra um esconderijo, cada qual melhor que o outro. Se não
pudesse captar as fracas emanações de seu cérebro canino,
provavelmente nunca o encontraria.
— Pare
um pouco. Quero fazer algumas perguntas.
— Tem de
ser justamente agora, que estamos numa brincadeira tão gostosa? —
perguntou Gucky, que parecia indignado.
— Sim,
justamente agora, que você está só. A pergunta é a seguinte: Você
consegue comunicar-se com Muzel? Ele fala?
— Não
fala, mas pensa — informou Gucky, que já parecia estar conformado
com a idéia de perder essa partida do jogo. — Leio seus
pensamentos.
— E como
é que ele entende uma mensagem sua?
— Falo
em inglês. Deve ter aprendido essa língua com Kulman. E olhe que
para um cachorro isso representa muita coisa, embora nunca me canse
de dizer que mesmo um cão terrano...
— Quer
dizer que entende o que você diz? E responde através dos
pensamentos, a fim de que você os ouça? Isso é muito interessante.
O que costuma pensar seu amigo bassê quando está só? Acho que você
entende o que quero dizer. Qualquer ser pensa ininterruptamente,
mesmo que não tenha consciência desse processo mental. Será que
com Muzel acontece a mesma coisa?
— Acontece,
sim — respondeu Gucky em tom hesitante, pois não sabia aonde
Rhodan pretendia chegar com sua pergunta. — Pensa
ininterruptamente, embora seus pensamentos sejam pouco numerosos e um
tanto indefinidos. Geralmente costumam ser mais fracos do que os que
surgem em sua mente quando quer comunicar-se comigo. Mas sempre
pensa.
— Ah —
fez Rhodan, que viu confirmada a suposição surgida em sua mente.
Muzel jamais poderia ser um robô. — O que é que ele costuma
pensar?
Gucky
soltou uma risadinha idiota.
— Acho
que seus pensamentos são tolos para um cão bassê. Não pensa em
coelhos ou ratos, em raposas ou na caça. Também não pensa em
lingüiças grelhadas ou carne crua. Nada disso. Sabe o que costuma
pensar?
— Como é
que eu poderia saber? — disse Rhodan em tom impaciente.
Gucky fez
um gesto de assentimento.
— É
mesmo; como é que você poderia saber? Quando está só, os
pensamentos de Muzel só giram em torno da água. Imagina que está
nadando e pegando plâncton. Nem sei o que vem a ser isso...
— O
plâncton é formado por seres minúsculos que bóiam no mar. Serve
de alimento aos caranguejos e peixes pequenos, e também a outros
animais...
— Ah! —
exclamou Gucky e soltou uma gargalhada estridente. — Provavelmente
Muzel costumava caçar caranguejos e não consegue livrar-se da
recordação desses bichos.
Rhodan fez
um gesto afirmativo, mas não disse nada. Em sua testa surgiram rugas
de reflexão, e subitamente seus olhos se estreitaram.
Gucky
acreditou que o interrogatório estivesse concluído. Voltou a fechar
os olhos e subitamente deu um salto de mais de um metro.
— Sei
onde está! — exultou com a voz fina. — Consegui localizá-lo.
Está no convés F, bem em cima de nós, no interior de um depósito.
Um momento; vou buscá-lo.
No mesmo
instante Gucky desapareceu, mas não demorou em materializar-se de
novo. Gemendo baixinho, o bassê saltou de cima de seus braços e
aproximou-se de Rhodan, passando a farejar-lhe as pernas. Abanou
alegremente a cauda.
— Está
gostando de você — anunciou Gucky, que parecia sentir-se muito
feliz com isso. — Os cachorros têm um sentido que lhes permite
saber em quem podem confiar e em quem não podem.
— Fico
muito satisfeito em saber disso — disse Rhodan e abaixou-se. —
Então, bichinho, está gostando daqui? Já fez amizade com Gucky?
Muzel
olhou para Gucky. Houve um silêncio total. Finalmente o rato-castor
exclamou:
— Percebeu?
Acha que você também é muito bacana.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Não
percebi coisa alguma. Será que você quer dizer que ele expediu uma
mensagem telepática? Se fosse assim, eu não poderia deixar de
captá-la, pois as condições são extremamente favoráveis.
O rosto de
Gucky exprimiu espanto.
— Enviou
uma mensagem inequívoca. Será que só eu sou capaz de entendê-lo,
e mais ninguém? Devo ter o mesmo comprimento de onda que ele; só
pode ser isso.
— Tolice!
O motivo deve ser outro. Vamos tentar mais uma vez.
Mas o
resultado da segunda e da terceira tentativa não foi diferente.
Rhodan sentiu que o bassê pensava, mas não o entendeu. De qualquer
maneira, convenceu-se de que o que tinha diante de si não era um
robô, ainda mais que Gucky lhe disse o que haviam comido juntos.
A idéia
de que Muzel pudesse ser um espião, ou mesmo um robô, era tão
absurda que não devia sequer ser considerada.
Um robô
não come carne ou cenouras, nem bebe água.
Despediu-se
com um gesto e saiu para o corredor.
Estava na
hora de iniciar a próxima transição. Devia-se contar com a
possibilidade de que logo após o retorno ao espaço normal o
misterioso espião voltasse a transmitir a posição da nave. O salto
mais uma vez os levaria em direção ao centro da Via Láctea. A
distância a ser percorrida seria de exatamente duzentos anos-luz.
Extensos
preparativos haviam sido tomados.
Vários
operadores de rádio, com aparelhos de radiogoniometria portáteis,
continuavam distribuídos pelos pontos estratégicos da nave.
Mantinham contato direto com a sala de comando, a fim de poderem
transmitir imediatamente os resultados de suas medições
goniométricas. Estes resultados seriam coordenados. Dessa forma a
posição exata do transmissor colocado pelo espião poderia ser
determinada numa questão de segundos.
O Capitão
Farrington mantinha-se em posição junto à sala de comando,
juntamente com um grupo de cinqüenta homens, a fim de agir assim que
fossem fornecidos os resultados das medições goniométricas. Além
do mais, a Drusus entrou em regime de prontidão. Cada tripulante
mantinha-se em seu posto, do qual não poderia retirar-se sem licença
especial.
Rhodan
chegou à sala de comando e cumprimentou Sikermann. Sentados lado a
lado junto aos inúmeros controles, os dois homens aguardavam. A
transição estava iminente. Faltavam apenas alguns segundos...
Sikermann
empurrou a alavanca vermelha para a frente. As estrelas apagaram-se,
e com isso o Universo parecia desaparecer, apenas para voltar a
surgir sob outra configuração. A nave fora trasladada para um ponto
situado a duzentos anos-luz. Notava-se perfeitamente que a profusão
de estrelas se tornara mais densa.
Na sala de
comando reinava um silêncio ansioso.
Era tudo
tal qual fora da primeira vez. Apenas, desta vez Bell permaneceu
tranqüilamente em sua poltrona, sem dar mostras de um otimismo
prematuro.
E teve
razão em agir assim, pois os receios de Rhodan se confirmaram.
Oito
minutos após a transição o alarma soou pela nave. Os resultados
das diversas medições goniométricas foram chegando, e o oficial da
equipe de rádio que se encontrava na sala de comando não levou mais
de trinta segundos para determinar a localização do transmissor.
Achava-se no convés inferior, junto ao eixo norte-sul da nave.
Aquilo
quase chegava a ser uma rotina, e tudo se passou exatamente da mesma
forma como da primeira vez, no sistema de Swaft. Quando Farrington e
seu grupo chegaram ao convés A, não encontraram o menor sinal do
espião. O comando equipado com aspiradores de pó pôs-se a
trabalhar, sem aguardar as ordens de Rhodan. O Laboratório de
Análise teve um serviço a executar, e dentro de meia hora o Major
Hill encontrou o microtransmissor.
O aparelho
era igual ao primeiro: um transmissor rudimentar e unifreqüencial,
equipado com uma minúscula bateria de fusão, extremamente potente,
e um mecanismo de relógio regulável bastante simples.
Apoderaram-se
de mais um transmissor, mas quanto ao mais tudo continuava como
antes.
O rosto de
Rhodan adquiriu a rigidez de uma máscara.
— Ainda
não nos lembramos de uma hipótese — disse de repente em meio ao
silêncio.
Todos os
olhares convergiram sobre ele. Bell inclinou-se para a frente.
— É
perfeitamente possível que o espião tenha subido a bordo antes de
chegarmos ao sistema de Swaft. Talvez se encontre na nave há
bastante tempo e só agora entrou em ação. É o momento mais
favorável, pois seria de supor que voltássemos à Terra com Kulman.
A barreira hipnótica colocada em torno da mente de Kulman tem alguma
ligação com isso.
Bell
sacudiu a cabeça.
— E os
micro transmissores? Só podem ter sido fabricados em Swoofon.
— E daí?
Swoofon não começou a existir apenas há algumas semanas. Há
séculos os swoons trabalham na confecção destes aparelhos.
Bell fez
um gesto de assentimento e manteve-se em silêncio. O argumento era
contundente.
Rhodan
levantou-se.
— A
terceira transição será realizada daqui a duas horas. Antes disso
tenho de fazer uma coisa. Poderei ser encontrado no meu camarote.
Retirou-se
da sala de comando mas, em vez de dirigir-se ao seu camarote, foi ao
de Gucky.
*
* *
Uma esfera
de um quilômetro e meio de diâmetro é um verdadeiro mundo. Alguém
que não conheça seus meandros pode perder-se irremediavelmente na
mesma. Se isso acontecer, vários dias poderão passar-se antes que
seja encontrado.
Não há
necessidade de ressaltar que o imenso espaço existente no interior
da Drusus representava um local de folguedos ideal para Gucky, que
sempre sabia orientar-se. Como pudesse realizar saltos de
teleportação, não tinha a menor dificuldade em transportar-se de
um pólo a outro.
As coisas
não foram nada fáceis para Muzel.
Fazia
pouco tempo que o bassê havia chegado à nave, e o mesmo não
possuía qualquer dom parapsicológico. Sempre que chegava sua vez de
esconder-se, Gucky deixava que saísse do camarote e lhe dava uma boa
dianteira. Vez por outra chegava a levá-lo a algum lugar e voltava
ao camarote.
Havia,
contudo, uma vantagem: Muzel não tinha razões para recear que
desaparecesse no interior da nave ou até morresse de fome. Gucky
sempre o encontrava. Em compensação Muzel perdia invariavelmente;
mas isso não parecia incomodá-lo. Era mais um motivo para que Gucky
se afeiçoasse a ele.
Gucky
abriu a porta e disse:
— Desta
vez esperarei dez minutos, Muzel. Procure um bom lugar e não pense
tanto, pois do contrário logo será encontrado.
O bassê
moveu as perninhas tortas, encostou as orelhas à cabeça e saiu em
disparada pelo corredor afora. Sem a menor hesitação saltou para
dentro de um elevador e deixou que os raios antigravitacionais o
levassem para baixo, em direção ao centro do campo de gravidade.
Desceu
algumas centenas de metros e, ao chegar ao convés C, abandonou o
elevador. Mais uma vez saiu correndo, a fim de ficar o mais longe
possível de Gucky. Era claro que isso não adiantava nada, pois o
rato-castor saberia localizá-lo a algumas centenas de metros, bem
como a dez mil quilômetros. Acontece que o possoncal não sabia
disso.
Dobrou uma
esquina e entrou num corredor estreito. Não sabia para onde ia, mas
isso não lhe importava. Uma das inúmeras portas deveria estar
aberta. Entraria, deitaria bem quietinho e não pensaria em nada. Que
Gucky procurasse até cansar.
Muzel
demorou demais em ver as pernas que surgiram à sua frente. Bateu
contra as mesmas e deu duas cambalhotas.
O pedestre
que andava por ali também se sentiu surpreendido com o encontro.
Cambaleou, praguejou em arcônida e segurou-se na parede. Por pouco
não perde o equilíbrio e cai ao chão. Mas controlou-se com uma
rapidez surpreendente, revelando uma extraordinária presença de
espírito.
Muzel
chegou a voar, de tão forte que fora o impacto. Deu duas
cambalhotas, bateu com as costas contra uma porta e escorregou para o
chão.
Atlan —
era este o caminhante solitário — abaixou-se para examinar o
animal, que evidentemente devia estar ferido. Sentiu-se muito
surpreso ao notar que o possoncal já se mantinha sobre as pernas. Um
arranhão sangrento estava bem visível no pêlo prateado, mas seu
comportamento não indicava que tivesse sofrido qualquer ferimento
interno. Naqueles olhos dourados apenas se lia uma ligeira
recriminação.
Atlan
sacudiu a cabeça, surpreso. Subitamente uma expressão estranha
surgiu em seus olhos. Tratava-se de um misto de suspeita e
curiosidade.
— Sinto
muito; coitadinho — disse, passando a mão pela ferida. Seus dedos
tingiram-se de vermelho, e sentiu a tepidez do sangue, que gotejava
da ferida recente. Fez tudo para que continuasse grudado aos seus
dedos, sem ser removido pelo pêlo sedoso. — Está doendo?
Muzel
choramingou baixinho, como se quisesse responder. Abanava lentamente
a cauda e farejou as pernas de Atlan, que haviam provocado a queda.
Deu um rosnado que significava não estar zangado com esse par de
pernas.
Ao menos
foi essa a interpretação que Atlan deu ao rosnado.
— O que
veio fazer aqui embaixo? — perguntou o arcônida, sacudindo a
cabeça numa suave repreensão. — Está brincando com alguém?
Muzel
voltou a choramingar. De repente parecia sentir dores. Isso não era
de admirar, pois o impacto devia ter sido muito forte. Era um milagre
que o bassê não havia quebrado os ossos.
Antes que
Atlan pudesse refletir a este respeito, Gucky surgiu à sua frente.
Enquanto ainda se encontrava no camarote, procurara localizar Muzel e
fora informado sobre o incidente que provocou algumas especulações
bastante fantasiosas na mente de Atlan. Mas essas especulações
foram desmentidas pelo comportamento de Muzel. Especialmente pelo
sangue quente que saía da ferida.
— Por
que é que você tinha de passear justamente por este corredor,
Atlan? — perguntou o rato-castor em voz estridente, que revelava
uma enorme dose de cólera. — A nave é muito grande, mas...
— Você
quer fazer a gentileza de levar Muzel ao posto médico, onde cuidarão
de sua ferida? — interrompeu-o o imortal. — Eu lhe ficaria muito
grato. Da próxima vez prestarei mais atenção.
Fez um
gesto para Gucky e afastou-se, cuidando sempre para que a mão
direita não tocasse em nada, a fim de não remover o sangue.
Gucky
seguiu-o com o olhar e estreitou os olhos. Procurou em vão romper a
barreira que Atlan erigira em torno de seu cérebro. Nem mesmo o
rato-castor conseguiu descobrir o que o arcônida estava pensando.
Gucky
suspirou e dirigiu-se a Muzel.
— Está
doendo, bichinho? Vamos, eu o levo aos consertadores de ossos. Estes
consertarão sua carcaça.
— Isso
não é necessário, Gucky. Não está doendo mais.
— Nada
de discussões, Muzel. Uma atadura não faz mal a ninguém. Vamos,
segure-se em mim!
Muzel
voltou a choramingar e obedeceu à ordem que acabara de receber.
Quando os dois apareceram na Divisão Médica, o médico-chefe, Dr.
Arnulf Sköldson, quase morreu de susto. Era claro que aquele homem
ligeiramente corpulento, de cabelos cor de palha, conhecia Gucky. Na
Drusus não havia ninguém que não o conhecesse. Mas qualquer pessoa
leva um susto quando de repente vê uma criatura materializar-se à
sua frente.
— Santo
Deus! — exclamou Sköldson, com o rosto pálido, e recuou dois
passos, a fim de segurar-se na mesa.

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