segunda-feira, 18 de março de 2013

P-058 - Ataque do Invisível - Clark Darlton[parte 3]

Há algo de errado em nossas teorias — disse Baldur Sikermann, lançando um olhar de dúvida para Rhodan. — Conversei demoradamente com o capitão Gorlat.
O capitão Hubert Gorlat era o oficial de segurança da Drusus. Tratava-se de um tipo corriqueiro de cabelos ruivos, estatura mediana e gestos enérgicos. Sua profissão ensinara-lhe a refletir bastante antes de tomar qualquer decisão, a fim de não se arriscar a cometer um erro.
Rhodan olhou para além de Crest e pôs os olhos em Gorlat.
Tem alguma idéia? — perguntou em tom de curiosidade.
Talvez não chegue a ser uma idéia, e desde logo quero prevenir contra qualquer conclusão apressada. Constatamos que as naves dos invisíveis nunca foram vistas e só raramente foram localizadas pelos instrumentos. Acho que este fato pode ser admitido como certo.
Correto — concordou Rhodan.
Disfarçou sua curiosidade, muito embora já desconfiasse do que estava para vir.
Dali se conclui com segurança — prosseguiu Gorlat — que os desconhecidos também sabem tornar invisível a matéria inorgânica. Fiquei indagando a mim mesmo por que ainda não fizeram isso com nossos robôs. Por enquanto só aprisionaram homens, se é que podemos designar seu ato por esta palavra.
Rhodan acenou lentamente com a cabeça e esteve a ponto de dizer alguma coisa, quando o som estridente das campainhas encheu a nave. Ao mesmo tempo as sereias começaram a uivar do lado de fora.
Alarma!
A reunião de Rhodan com seu grupo acontecia na sala de comando da Drusus. A K-13 estava nas imediações, pronta para decolar. Fazia poucos minutos que Perry e seus acompanhantes haviam retornado da expedição de reconhecimento e procuraram Sikermann e a oficialidade da nave a fim de discutir a situação.
E agora estava soando o alarma!
Rhodan foi o primeiro que atingiu a comporta aberta, pois a forma do alarma revelara que o ataque vinha da superfície, e não do espaço.
Outras três naves auxiliares mantinham-se juntas à K-13. Não se via nenhum dos tripulantes. Os canhões de radiações dirigiram-se ameaçadoramente contra as muralhas da cidade e os portões abertos. Os revestimentos da comporta da Drusus deslizaram para o lado, os canos em espiral das pesadas armas de impulsos saíram e dirigiram-se contra a cidade.
Mas onde estava o inimigo?
Sikermann achava-se ao lado de Rhodan. Ofegante, respirava com dificuldade.
Onde estão nossos robôs?
Estão vasculhando a cidade — respondeu Rhodan. — Por enquanto não encontraram vivalma.
Sikermann apontou para a frente.
Não está ouvindo? Na cidade estão atirando. O alarma foi desencadeado pelos robôs. Devem ter encontrado algum inimigo. A sala de rádio perdeu contato com alguns dos robôs de guerra.
Ras Tschubai, venha comigo — disse Rhodan, segurando o africano pelo braço. — Não, mais ninguém. Vamos saltar, Ras!
Para onde?
Para a praça do mercado, no centro da cidade. Temos de verificar o que aconteceu. Não se esqueça de uma coisa, Ras: ao menor ataque dos invisíveis, salte imediatamente. Não interessa para onde; o importante será darmos o fora, nossa única salvação.
Sikermann disse mais algumas coisas, mas suas palavras foram dirigidas ao ar tremeluzente. Rhodan e o africano já haviam desaparecido.
Materializaram-se na cidade. Por um longo instante viram-se sós e abandonados na ampla praça. As fachadas das habitações pareciam ameaçá-los de todos os lados, mas Rhodan sabia que o terrível inimigo não estava escondido nas residências.
Talvez estivesse bem à sua frente, sem que o vissem. Não poderiam vê-lo, pois era invisível e sabia “camuflar” sua mente.
Ali, os robôs — gritou Tschubai e segurou o braço de Rhodan para poder saltar assim que a situação o exigisse. — Abriram fogo. Contra quem será? Não vejo nada.
Rhodan lançou um olhar espantado para o lado oposto da praça, onde desembocava uma rua larga. Nela, dez robôs de guerra deslocavam-se para trás, disparando com todas as armas. Os raios energéticos derretiam o calçamento e a fachada dos edifícios. Pingos de pedra liquefeita de tamanho fora do comum caíam ao chão, formavam poças e endureciam. Rhodan chegou a ver uma sombra fugaz que se contorceu sob os efeitos de um raio de impulsos energéticos mas que desapareceu logo em seguida. O inimigo invisível mantinha uma atitude passiva. Não revidava.
Por que será que os robôs estão fugindo? — perguntou Ras Tschubai, que tremia por todo o corpo.
Rhodan fingiu não perceber.
Devem ter sido atacados, Ras. Não sei...
Rhodan estacou. Sobressaltou-se quando subitamente teve de reconhecer que a teoria do capitão Gorlat tinha fundamento.
O primeiro dos robôs desmanchou-se no ar.
No princípio desapareceu a parte inferior. Suas armas continuavam a disparar, mas subitamente apagaram-se. Por instantes, a parte superior do corpo flutuou no ar, dois metros acima do solo, aparentemente sem o menor apoio, mas logo se tornou invisível, juntamente com a cabeça.
Quer dizer que os inimigos sabem levar também os robôs, até aqui considerados invencíveis, ao seu reino fantasmagórico, do qual não se conhece o caminho de volta”, conjecturou Rhodan.
Os robôs que sobravam recuavam, combatendo sempre.
Uma coisa era certa: haviam reconhecido o inimigo e procuravam destruí-lo. Não dispunham de outras armas além dos radiadores. Não tinham culpa se estas não servissem para muita coisa.
Outro colosso de arconita desapareceu.
Se os invisíveis continuarem a avançar, destruirão todos os nossos robôs; bem, destruir talvez não seja a expressão correta. Eles os levarão ao seu reino invisível — Rhodan falara em tom calmo e objetivo, como se o perigo não os rodeasse. — Gostaria de saber como são as coisas por lá.
Onde? — perguntou Tschubai, que fitava incessantemente os robôs em marcha, um dos quais se dissolvia naquele exato momento.
Rhodan não respondeu. Tinha outro problema.
Temos que detê-los. Se atingirem nossas naves, também as levarão. Acontece que não sei como poderíamos parar sua marcha. Vamos voltar à Drusus, Tschubai.
Baldur Sikermann, que ainda se encontrava na comporta aberta, suspirou aliviado quando viu Rhodan.
A Arc-Koor enviou uma breve mensagem. Talamon ainda não entrou em transição. Continua neste sistema. Fez uma estranha descoberta, e quer informar o regente de Árcon sobre a mesma. Espera que com isso obtenha permissão de ajudar-nos na luta contra os invisíveis.
Uma descoberta? — perguntou Rhodan. — Não disse do que se tratava?
Infelizmente não. Oportunamente voltará a entrar em contato conosco. Conseguiu alguma coisa, Sir?
Rhodan deu de ombros.
Depende de como se queira encarar a coisa, Sikermann. Os invisíveis estão atacando nossos robôs. Receio que tenhamos de ir embora.
E os robôs? Pretende sacrificar cem máquinas de guerra de primeira qualidade?
Receio que a maior parte delas já tenha sido sacrificada, Sikermann. Fomos muito otimistas. Se ficarmos aqui por muito tempo, estaremos perdidos juntamente com nossas naves, e nem sei como será o fim que nos espera. Talvez nos desmanchemos pura e simplesmente, ou então nos tornaremos invisíveis e continuaremos a viver como fantasmas. Vamos logo, Sikermann, dê o alarma de decolagem. Mande que os Girinos entrem na Drusus. Quando isso tiver sido feito, decolaremos.
Para onde?
Sei lá! — Rhodan começou a aborrecer-se consigo mesmo, por não se controlar. Teria de manter o autocontrole, pois do contrário perderia a capacidade de avaliar a situação. Naquele momento precisava desesperadamente conservar a cabeça fria. — Entraremos numa órbita de Mirsal III. Distância de dois minutos-luz. Manter o hiper-rádio sempre ligado. Informe-me assim que Talamon volte a chamar. Estarei no meu camarote.
Afastou-se sem dizer mais uma única palavra.
Ras Tschubai seguiu-o com os olhos e encontrou o olhar de Sikermann.
O primeiro-tenente pigarreou em tom embaraçado.
Nunca vi Rhodan assim — disse depois de algum tempo.
O africano concordou com ele.
Os Girinos entraram nos hangares da Drusus que, naquele mesmo instante, fechou as comportas. Os dois últimos robôs se defendiam contra inimigos que saíam pelos portões da cidade. A enorme nave esférica disparou em direção ao céu límpido e logo mergulhou nas profundezas do espaço.
Quando o intercomunicador soou, Sikermann franziu a testa. Ligou com um gesto contrariado.
O que houve? Tenho que fazer com a pilotagem...
Aqui fala do hangar. Tenente Worma. Um dos Girinos não está a bordo.
Sikermann quase ficou sem fala.
O quê? — disse todo esbaforido. — Pois estavam todos.
A K-7 está faltando. O comandante é o tenente Rous. Acho que havia recebido ordens de ficar do lado de fora, mas fui avisado pelo intercomunicador de controle de decolagem que todos os Girinos estavam a bordo...
Que porcaria! — gritou Sikermann, esquecendo a boa educação. — Quem vai contar isso ao chefe? Este já tem tantas preocupações...
É claro que o tenente Worma não sabia responder a esta pergunta. Desligou.
Sikermann entrou em contato com a sala de rádio.
Está em contato com a K-7, Stern?
O israelense demorou alguns segundos, depois respondeu:
Sinto muito. Não consegui estabelecer comunicação.
Sikermann lançou um olhar obstinado sobre os controles e as telas, enquanto Mirsal III mergulhava cada vez mais profundamente no espaço.
O tenente Rous devia estar em qualquer lugar, lá embaixo. Se é que ainda existia...

Marcel Rous sabia perfeitamente que estava infringindo todas as ordens quando empurrou a alavanca de aceleração da K-7 para o máximo e disparou espaço afora, numa trajetória parabólica. Mas também sabia que Rhodan nunca lhe teria dado permissão para procurar os homens desaparecidos. Isso não decorria da insensibilidade de Rhodan, mas apenas do desejo inquebrantável de, em hipótese alguma, revelar a posição da Terra.
Um único prisioneiro que se encontrasse em poder do inimigo acarretava esse perigo. E o inimigo já possuía três prisioneiros. E, se conseguisse apoderar-se da K-7, seriam quinze.
E era bem possível que um dos quinze se dispusesse a falar.
Marcel Rous viu a Drusus desaparecer atrás de si quando seguiu a curvatura da superfície do planeta e voltou a mergulhar na sombra da face noturna.
Todos os campos defensivos haviam sido ativados; a sala de rádio não estava funcionando; a K-7 achava-se isolada do mundo exterior.
Marcel Rous tinha certeza de que seus tripulantes se voltariam contra ele se soubessem que estava contrariando as ordens de Rhodan. O fato de que o tenente apenas pretendia correr em auxílio dos três companheiros desaparecidos não modificaria a situação.
Não foi difícil reencontrar a cidade onde haviam ficado os dois robôs. Estavam intactos na praça do mercado, esperando. Marcel pousou junto a eles e recolheu-os a bordo. Ouviu atentamente seu relato.
Nada de anormal — disse R-2 em tom indiferente. — Não houve qualquer ataque contra nós. Não encontramos o menor vestígio do cadete Becker e dos outros homens. Revistamos todas as casas dos arredores. A cidade está desabitada.
Marcel perguntou:
E as sombras? Viram alguma sombra?
Não senhor. A cidade está desabitada.
Rous praguejou baixinho e mandou os robôs ao hangar. Depois deu ordem para que o pequeno planador fosse preparado.
Os planadores tinham pouco menos de três metros de comprimento. Trabalhavam com base em campos antigravitacionais. Tinham lugar para dois homens e não se prestavam a longos vôos pelo espaço, porque não conseguiam ultrapassar a velocidade da luz. Mas eram os veículos ideais para os vôos de reconhecimento.
Marcel Rous escolheu um patrício, o cadete Debruque, para acompanhá-lo.
De certa forma, Debruque podia ser considerado um esquisitão, embora fosse um companheiro agradável. Dedicava seu tempo livre à arte ainda não extinta da pintura, e sentia um prazer imenso em retratar seus companheiros, se bem que estes afirmassem que não se reconheciam nos quadros. Isso não era de admirar, porque seguia o estilo da pintura abstrata.
Os dois homens mal conseguiram acomodar-se na cabine apertada. Rous pediu ao companheiro que não tocasse no equipamento de rádio. Deu ordem à K-7 para que o aguardasse no solo, e só em caso de emergência decolasse para entrar em órbita. O planador saiu em disparada da escotilha bem aberta e logo desacelerou, para sobrevoar as ruas bem iluminadas da cidade a apenas dois metros de altura.
Marcel Rous sentia-se seguro. Sabia que bastava mover uma alavanca para que disparasse espaço afora. Nenhum invisível conseguiria alcançá-lo tão depressa.
Subiu o suficiente para ver os quartos dos aposentos, que via de regra estavam bem iluminados. Às vezes, quando acreditava ter visto um movimento, parava. Mas todas as vezes acabou decepcionado. Os quartos estavam abandonados.
Durante duas horas percorreram a cidade em todas as direções. Rous convenceu-se de que por ali não havia um único ser vivo, com exceção dele mesmo e de seus companheiros.
Os invisíveis já deviam ter batido em retirada, pois do contrário há muito o teriam atacado e seqüestrado.
Decepcionado por não ter encontrado o menor vestígio dos companheiros, voltou à praça do mercado.
O que viu assustou-o tanto que ficou quase petrificado, não conseguindo fazer outra coisa senão arregalar os olhos em direção ao lugar em que estivera a K-7.
O Girino havia desaparecido.

* * *

Rous deve ter enlouquecido! — gritou Sikermann em tom furioso. — Se eu conseguir agarrá-lo, poderá preparar-se para uma boa lição.
Deitado em sua cama, Rhodan olhou para a tela em que aparecia o rosto de Sikermann.
Não sei se o senhor algum dia tornará a vê-lo, Sikermann — disse em tom tranqüilo. — Conhece os motivos de seu procedimento?
Não tenho a menor idéia. Deve ter enlouquecido.
Não acredito. Tenho a impressão de que pretendia libertar os três tripulantes de sua nave, por mais tresloucada que possa parecer essa pretensão. Achou que está apenas cumprindo seu dever, embora esteja desobedecendo às minhas ordens. Aguardemos para ver o que consegue, se é que vai conseguir alguma coisa. Mais novidades?
Nenhuma — respondeu Sikermann um tanto perplexo. — Atingimos a órbita determinada pelo senhor.
Rhodan levantou-se e fez um gesto para Sikermann.
Se precisar de mim, estarei no camarote de Marshall.
Não esperou que a tela se apagasse. Saiu para o corredor, deixou que o elevador o levasse a outro pavimento. Dali a alguns minutos, entrou no camarote do telepata, que já registrara mentalmente sua aproximação e por isso não se surpreendeu ao ver Rhodan.
Tenho de tomar uma decisão — disse Rhodan, assim que se acomodou. — Devo continuar nesta posição desesperada, ou será preferível retornar à Terra? Qual é sua opinião?
Marshall parecia assustar-se.
Será que o senhor quer desistir, chefe? Logo agora que Rous desapareceu com uma nave...
Não é isso que torna difícil a decisão — disse Rhodan, corrigindo a idéia de seu mutante. — O cuidado exagerado do regente me fez perder a vontade de tirar as castanhas do fogo a favor de Árcon. Porém receio que um dia os invisíveis poderão descobrir a Terra...
Com isso a decisão já deve ter sido tomada — disse Marshall.
É o que acaba de dizer, Marshall. Chame os outros mutantes.
Manteve-se em silêncio até que todos estivessem reunidos no pequeno camarote: o japonês Tama Yokida, que ainda não tivera oportunidade de aproveitar suas faculdades; Ras Tschubai, que o salvara; Ralf Marten, cujas tentativas até então não haviam dado resultado; e Gucky, que parecia ter um respeito tremendo pelo inimigo.
Marshall manteve-se junto à porta.
O Exército de Mutantes está pronto — disse, fazendo uma constatação supérflua.
Rhodan levantou a cabeça. Em seus olhos havia um brilho amistoso e uma ligeira esperança, quando fitou seus velhos amigos.
Acho que nunca nos defrontamos com uma crise como esta — principiou; parecia olhar para além dos homens. — Pelo que diz o regente, o inimigo invisível já despovoou sistemas solares inteiros, sem que fosse possível fazer qualquer coisa. Nem quero imaginar o que acontecerá se os desconhecidos descobrirem a Terra. Por isso mesmo não posso realizar meu plano primitivo, que previa nosso regresso para Terrânia.
É possível que um dos invisíveis se encontre a bordo da Drusus. Não temos a menor possibilidade de verificar se isso é verdade, pois a telepatia está falhando. Portanto, não temos outra alternativa: precisamos ficar aqui, até descobrirmos e desmascararmos o inimigo. Só podemos cogitar do regresso à Terra quando tivermos certeza absoluta de que os invisíveis abandonaram este sistema. Nem me atrevo a acreditar na possibilidade de destruirmos o inimigo.”
Gucky deixou pender o lábio inferior, com o que seu rosto matreiro adquiriu uma expressão muito triste.
Por que tivemos de encontrar-nos logo com espíritos invisíveis? Bem que poderiam ser monstros, saltadores ou coisa que o valha. Estes eu vejo e posso atirá-los no sol mais próximo. Mas lidar com seres invisíveis... Brrrr....
Saberemos como lidar com eles — disse Tama Yokida com a voz tranqüila. — Sempre conseguimos livrar-nos de todos os perigos.
É fácil dizer isso — Rhodan parecia um tanto cético. — Ficar-lhe-ia muito grato se pudesse dar-nos ao menos uma dica de como podemos agir.
Infelizmente não posso — confessou Tama cabisbaixo.
De uma hora para outra sua confiança parecia ter desaparecido.
Vamos resumir — prosseguiu Rhodan. — Os invisíveis despovoam planetas e não se interessam pela matéria inorgânica encontrada nos mesmos. Nem chegam a tocar nas plantas; apenas querem saber dos animais e dos humanos. Só depois de terem sido atacados repetidas vezes pelos nossos robôs, passaram a defender-se. Assim provaram que sabem usar seus poderes sobre a matéria inorgânica. Acho que isso torna evidente que esvaziam os planetas para uma finalidade bem definida. Precisam de humanos e animais para alguma coisa. Mas não precisam da matéria inorgânica, pois só a destroem a fim de defender-se.
E qual é a conclusão final? — perguntou Marshall.
Ainda é cedo para extrairmos uma conclusão. Por enquanto só podemos registrar os fatos e formular suposições. A única coisa certa é que não podemos enfrentar os invisíveis, a não ser que queiramos expor-nos à derrota. Mas, além disso, temos certeza de que não conseguem pegar nenhum teleportador, se este saltar em tempo.
Para nós as coisas estão boas — chilreou Gucky, olhando para Ras Tschubai.
O africano não respondeu. Olhava ininterruptamente para Rhodan.
Se eu fosse você, não me gabaria — disse Rhodan, dirigindo-se a Gucky. — Caso eu resolva enviar um grupo de reconhecimento a Mirsal III, o mesmo seria formado por teleportadores.
Gucky sentou-se em cima da grossa cauda e fungou:
Então é isso! Bem que deveria ter imaginado. Mas não conte comigo! Não luto contra fantasmas espaciais. É preferível que Ras vá. Quando os invisíveis o virem, seu aspecto bastará para meter-lhes medo.
Se você for, eles talvez se traiam pelas risadas — contraveio o africano. — Mas é claro que estou disposto a ir, caso seja imprescindível, chefe.
Rhodan sabia que Gucky também não se recusaria a cumprir a ordem. Podia confiar nos seus mutantes.
Talvez seja necessário, se Rous não voltar. Não quero arriscar a perda de uma nave — ouviu-se um zumbido e Rhodan virou-se para a tela. Sikermann olhou para dentro do camarote. Parecia exaltado. — O que houve?
Talamon chamou. Quer falar com o senhor.
Pois transfira a ligação, Sikermann. O imediato confirmou com um gesto de cabeça e desapareceu. Por alguns segundos, pontos e círculos coloridos correram sobre a tela. Aos poucos assumiram contornos definidos, que se transformaram num rosto.
Era o superpesado.
Seu rosto parecia zangado, mas nele se notava uma satisfação inconfundível.
Rhodan, é o senhor?
Pode falar, Talamon.
Não o vejo. Ligue a câmara...
Não estou na sala de rádio, Talamon. Fale, pois do contrário perderemos segundos preciosos. Por que não voltou a Árcon, conforme ordenou o regente?
Obtive permissão para ficar mais dez segundos, porque descobri uma coisa estranha. Gostaria de informá-lo a este respeito.
O que foi que descobriu?
Uma nave desconhecida, Rhodan. Uma nave muito pequena. É achatada na parte traseira. Afasta-se do sistema a velocidade reduzida. O propulsor chamejante faz supor que se trate de um foguete rudimentar de combustível líquido, do tipo que os arcônidas costumavam usar na fase inicial da astronáutica. Acontece que isso já faz várias dezenas de milênios.
Rhodan manteve-se imóvel em sua cadeira. Fitou Talamon e lamentou que a comunicação visual fosse apenas unilateral. Depois de alguns segundos, indagou em voz fraca:
Será que se trata de uma nave dos invisíveis?
Talamon hesitou um pouco.
Foi o que acreditei, no início, mas agora já não posso imaginar que seja assim. Os seres, que sabem tornar-se invisíveis, devem ter desenvolvido uma tecnologia que está ao menos no mesmo nível da nossa. Não posso imaginar que rastejem pelo espaço em foguetes de combustível líquido, para serem alcançados facilmente. Com pouca velocidade nunca conseguiriam atingir outros sistemas.
É verdade — admitiu Rhodan a contragosto.
No íntimo, preferia que Talamon tivesse descoberto, e com certeza, uma nave dos invisíveis.
Mas quem poderia ser? Os habitantes de Mirsal III não conhecem a navegação espacial.
Estou quebrando a cabeça sobre isso e não consigo encontrar nenhuma resposta. Será que você poderia dar um pulo até aqui? Estou seguindo o foguete numa distância adequada e não o perco de vista.
Rhodan hesitou um pouco.
Marcel Rous continuava na superfície de Mirsal III, onde cumpria uma missão desesperada, ou ao menos tentava cumpri-la.
Poderia deixar para trás o valente oficial?”, pensou Perry.
Sem dúvida, o cadete violara suas ordens, mas os motivos que o fizeram agir assim eram honrados e altruístas. Em casos como este Rhodan costumava ser condescendente. Se estivesse no lugar do francês, dificilmente teria agido de forma diferente.
Tomou sua decisão.
Estarei aí dentro de pouquíssimo tempo. Comunique sua posição exata a meu piloto. Ainda tenho que resolver um pequeno assunto.
A tela apagou-se e Sikermann entrou na linha.
Rhodan liquidou o “pequeno assunto”.
Vamos pousar mais uma vez, Sikermann. Apenas por dez segundos. Depois decolaremos e seguiremos o curso que vá ter à posição que lhe for indicada por Talamon. Entendido?
Mas...
Nada de objeções, Sikermann. Sei perfeitamente o que estou fazendo. Dê partida e pouse em qualquer lugar da superfície de Mirsal III.
O rosto espantado de Sikermann desapareceu da tela.
Era só o que faltava! — suspirou Gucky.
Espionara mais uma vez, e sabia quais eram os planos de Rhodan.
Enquanto a Drusus se precipitava em direção ao planeta e preparava um pouso apressado, Rhodan disse:
Tama Yokida e Gucky saltarão para fora da nave assim que tocarmos o solo. Irei para junto de Talamon com a Drusus e voltaremos quanto antes. Gucky, você sabe perfeitamente que nem você nem Tama correm qualquer perigo. Mantenham ininterruptamente o contato físico, para que possam teleportar-se a qualquer momento. Nada lhes poderá acontecer. Manteremos contato telepático, Gucky. Seu elemento de ligação mental será Marshall. Tudo entendido?
Tama confirmou com um gesto. Gucky resmungou:
Gostaria de saber por que se fala tanto sobre isso. Uma coisinha desta se liquida sem muito espalhafato.
Acontece que o lábio inferior ainda pendia muito para baixo, o que fazia com que suas palavras não parecessem muito convincentes.
A Drusus pousou e voltou a decolar dentro de dez segundos.
Gucky e Tama Yokida já não se encontravam a bordo.

* * *

Marcel Rous teve a impressão de que alguém lhe golpeara violentamente a cabeça e chegou a sentir fisicamente a dor.
Teria sua nave decolado sem ele? Era bem verdade que dera ordem para isso, mas nunca acreditara seriamente que o deixariam num aperto destes. Se surgisse algum perigo, deveriam decolar; foi o que disse. Teria havido algum perigo? Não havia o menor vestígio do mesmo. Mas, para um inimigo como aquele que estavam enfrentando, isso não significava nada.
Circulou várias vezes com a nave planadora em torno do lugar em que estivera a K-7. Estava desaparecida sem deixar o menor sinal de sua existência.
Debruque disse em tom tranqüilo:
Agora estamos a sós neste planeta de fantasmas. O que vamos fazer? Sugiro que saiamos à procura da Drusus.
Isso não seria difícil, pois o planador dispunha de um equipamento de rádio. Se Rhodan permanecesse mais algum tempo no sistema, acabaria captando sua mensagem. Mas...
Marcel Rous sacudiu obstinadamente a cabeça.
Ainda não atingimos nosso objetivo, Debruque. Vamos desistir sem mais nem menos? E quanto à K-7, essa gente que se encontra na sala de comando nos deve uma explicação. E pretendo obtê-la.
Onde? — perguntou o cadete com a mesma tranqüilidade de antes.
Marcel Rous não respondeu. Deixou que a nave subisse um pouco, acelerou e dirigiu-se à cidade mais próxima, cujas luzes começaram a varar o crepúsculo dali a alguns minutos.
Quando já tinha descido e passava rente ao calçamento irregular, disse:
Procuraremos em tudo quanto é lugar, Debruque. Se não os encontrarmos, deveremos dar com uma pista dos desconhecidos. Talvez tenham descoberto um método de desviar os raios de luz, mas devem ter um corpo. E é ali que reside minha última esperança.
Não compreendo, tenente.
Um sorriso obstinado surgiu no rosto de Rous.
Não se preocupe. Eu mesmo ainda não compreendi muito bem. Quando chegar o momento, hei de me lembrar de alguma coisa.
Tomara — resmungou o cadete e passou a dedicar sua atenção às ruas vazias.
Estavam agora firmemente decididos a descobrir a pista que os levaria para junto dos desconhecidos.
Mas os dois homens sofreram uma decepção.
A cidade havia sido abandonada não apenas pelos seres vivos, mas talvez também pelos invisíveis.
Não sofreram um único ataque. Na próxima cidade deram uma volta e saltaram. Mantinham-se sempre preparados para correr à pequenina nave e decolar imediatamente. Talvez não conseguissem, mas a proximidade da nave dava-lhes um sentido de segurança.
Mas também nessa cidade não houve nenhum ataque.
Mergulharam nos raios do sol nascente e iniciaram a busca na face diurna do planeta. Aqui o trabalho foi mais fácil e rápido. O estranho eram as luzes acesas nas ruas abandonadas, e as luzes que não se apagavam nas residências desertas. Não havia ninguém que pudesse desligá-las.
Mas os invisíveis também haviam desaparecido.
Marcel Rous não desistiu. Pousou em todas as cidades, em todas as povoações e até diante de casas isoladas no campo. E o que encontrava era sempre a mesma coisa: residências abandonadas, estábulos vazios, um silêncio infinito e solitário.
Começou a acreditar que os invisíveis haviam abandonado o planeta Mirsal III, depois que nele não havia mais nenhuma criatura viva.
A invasão estava concluída, mas ninguém tomava posse do mundo conquistado.
Por que foi conquistado?”, perguntou-se mentalmente.

* * *

Tama Yokida seguiu a Drusus com os olhos. Dentro de alguns segundos, a gigantesca esfera transformou-se num pontinho minúsculo que desapareceu no azul do céu. O japonês ainda segurava a mão de Gucky.
O rato-castor olhou para a Drusus. Preferiu examinar atentamente os arredores. Sabia que o invisível não poderia surpreendê-lo. Certa vez, já sentira sua aproximação e tomara suas precauções. E agora estava firmemente decidido a teleportar-se juntamente com Tama ao menor sinal de perigo. Em hipótese alguma os fantasmas conseguiriam pegá-lo.
Gucky constatou satisfeito que seu medo instintivo face ao misterioso e ao desconhecido estava desaparecendo. Se necessário, saberia como escapar. E essa certeza fez com que o rato-castor recuperasse o ânimo e a coragem que todo mundo estava acostumado a ver nele.
E a mudança de disposição de Gucky transmitiu-se ao japonês.
Agora tudo depende de nós — cochichou este. — Aqui ninguém poderá fazer nada por nós. Se formos atacados, você terá que agir depressa, Gucky.
Ninguém sabe ser tão rápido quanto eu — asseverou Gucky bastante orgulhoso. Olhou em torno. — Largaram-nos nestas montanhas, em vez de deixar-nos numa cidade. Mas por que não começar nossas investigações aqui mesmo? Talvez os desconhecidos tenham esquecido algum ermitão que vive nas cavernas. Nesse caso descobriremos o que aconteceu.
O japonês não compartilhava a esperança de Gucky, mas não se esforçou para convencê-lo do contrário, como costumam fazer as pessoas tolas e convencidas. Tama estava convencido de que a origem de todo o ódio e dos problemas da Terra residia no fato de os homens sempre se esforçarem a fim de obrigar aqueles que pensam de forma diferente a adotarem suas idéias.
Para não andar muito, Gucky realizou alguns saltos juntamente com Tama. Deslocavam-se por trechos que podiam ser abrangidos pela vista. Assim conseguiam vencer distâncias consideráveis sem se cansarem.
Já estava escurecendo quando chegaram à beira do planalto e olharam para uma ampla planície, em cujo centro havia uma cidade grande. Notaram perfeitamente que as luzes estavam acesas. Mas nada se movia.
Até então Tama não soltara a mão de Gucky por um instante sequer.
Vamos dar uma olhada na cidade? — perguntou, já que perdera todo o medo dos desconhecidos. — Talvez encontremos alguma indicação.
Gostaria de saber onde ficou esse tenente maluco — disse Gucky sem responder ao japonês. — Não pode ter-se dissolvido no ar juntamente com o Girino.
Pode, sim, Gucky — disse Tama, manifestando um receio. — Já vimos provas de que os invisíveis sabem tornar a matéria invisível.
Será que conseguem fazer isso com uma nave inteira? — perguntou Gucky em tom de dúvida.
Tama deu de ombros.
Devemos contar com esta possibilidade.
Naquela hora não imaginavam que estavam chegando muito perto da terrível verdade.

* * *

Rhodan atingiu com a Drusus a posição que lhe fora indicada por Talamon. A Arc-Koor encontrava-se a pelo menos duas horas-luz de Mirsal III, tendo-se aproximado bastante do sol amarelo. Rhodan registrou o fato sem dizer uma palavra, mas em hipótese alguma ignoraria o mesmo.
Viu o segundo fenômeno estranho ao deparar-se com o misterioso foguete, que procurava afastar-se do sistema solar a uma velocidade que não excedia a quinhentos quilômetros por segundo.
Pretendia sair do sistema; e vinha do sol.
Mal Rhodan estabeleceu o contato, o superpesado apareceu na tela, não se fazendo esperar.
Ainda bem que chegou, Rhodan. Neste meio tempo tive uma palestra com o regente. Quando o informei sobre o foguete rudimentar e manifestei a suspeita de que poderia tratar-se de uma nave dos desconhecidos, obtive permissão para continuar aqui com a Arc-Koor.
Será que o regente adotou a mesma opinião que você? — indagou Rhodan num tom de verdadeiro espanto. — Acho impossível.
Por quê?
O computador pensa com muita lógica. Nunca admitiria que os desconhecidos correm de estrela para estrela em foguetes movidos a combustível líquido.
Um sorriso largo cobriu o rosto de Talamon.
Não sei o que acredita o regente. Ele me deu ordem para examinar o foguete, mas proceder com muita cautela. Para isso seu apoio, Rhodan, será extremamente valioso.
Perry lançou um olhar para a outra tela. O pequeno foguete não se deixava perturbar: prosseguia na mesma rota, em direção a um destino desconhecido. Rhodan acreditou ter descoberto uma coisa: esse destino era Mirsal III, o mundo despovoado. O que poderia procurar lá?
O que vamos fazer, Talamon?
Vamos deter o foguete por meio de campos magnéticos...
Sem qualquer advertência?
Por que não?
Rhodan sacudiu a cabeça.
Prefiro tentar antes estabelecer contato pelo rádio. Sabe, Talamon, não sou da mesma opinião que você; não acredito que este foguete seja uma nave dos desconhecidos. Minha teoria é totalmente diversa.
Estou curioso para saber qual é a sua...
Dentro de poucos minutos, poderei fornecer-lhe os cálculos precisos de rota de meu robô de navegação. Mas basta pensar numa coisa. O foguete está saindo do sistema solar e dirige-se a Mirsal III. Da velocidade reduzida conclui-se que seus ocupantes não podem ficar dando muitas voltas, pois com isso perderiam muito tempo. Portanto o foguete só pode vir do segundo planeta do sistema.
Isso não é possível! — disse Talamon com uma risada. — O segundo planeta de Mirsal não é habitado.
Consta que não é habitado — retificou Rhodan em tom tranqüilo. — E isso é uma diferença. Os arcônidas não se deram ao trabalho de revistar todos os planetas de cada sistema, além do que, os catálogos já são antiquados. Não devemos esquecer-nos disso. De qualquer maneira, estou convencido de que essa nave primitiva vem de Mirsal II.
Talamon refletiu por algum tempo e acenou com a cabeça.
Talvez sua suposição seja correta, Rhodan. O que se concluiria dali?
Várias coisas, segundo acredito. No mínimo devemos admitir que surgiu mais uma raça que tenta conquistar o espaço. Não sei quem são os habitantes de Mirsal II, mas o certo é que se trata de seres civilizados de categoria superior. Precisam de nosso auxílio, e não deveríamos assustá-los com um campo magnético. Vamos chamá-los pelo rádio; talvez respondam.
Talamon concordou. Mas antes que Rhodan pudesse transmitir as respectivas instruções à sala de rádio, chegaram os dados da sala de navegação.
O computador já havia concluído sem margem de erro que a rota do foguete correspondia à suposição de Rhodan. Vinha do segundo planeta do sol Mirsal e procurava atingir o terceiro planeta. Já devia estar a caminho há alguns dias e só chegaria a Mirsal III dentro de algumas semanas, a não ser que aumentasse a velocidade.
Seria um foguete explorador, que se dirigia ao planeta vizinho?”, indagou-se Rhodan.
Não encontrou qualquer resposta certa; ficou limitado às suposições. Face a isso, julgou ainda mais importante entrar em contato com os desconhecidos.
Dirigiu-se à sala de rádio e controlou pessoalmente o trabalho dos homens que se encontravam ali. Mas, por mais que estes se esforçassem para obter alguma resposta às indagações irradiadas, os receptores da Drusus permaneceram mudos. Os construtores do foguete nunca haviam inventado as comunicações pelo rádio, ou então não queriam entrar em comunicação com os dois gigantes surgidos de repente do nada.
O objeto de aço prosseguiu obstinadamente na sua trajetória.
Não adianta — disse Talamon, que já começava a impacientar-se. — Precisamos pará-lo. Quer que eu os recolha a bordo, ou você prefere cuidar disso?
Rhodan hesitou por um momento e voltou a contemplar o misterioso objeto de seus esforços.
A visão recordava aquilo que lhe acontecera há sete decênios, quando ele mesmo venceu num foguete igual a esse a distância, então considerada incomensurável, que separava a Terra da Lua. Aquele objeto prateado que se deslocava a menos de dois quilômetros de distância representava uma recordação. Mas, para os que o haviam construído, representava o início do futuro. Deviam sentir-se mais ou menos da mesma forma que ele, Rhodan, se sentira na época em que vira pela primeira vez a gigantesca nave esférica dos arcônidas, que realizara um pouso de emergência na Lua. Deviam experimentar os mesmos receios que ele experimentara naquela oportunidade.
Seus destinos eram perfeitamente iguais.
Cuidarei disso — disse, respondendo à pergunta de Talamon.

Dali a algumas horas, Marcel Rous e Debruque tiveram cem por cento de certeza: em Mirsal III não havia mais nenhum habitante. O planeta havia sido abandonado tanto pelos antigos habitantes como pelos invasores, cuja tarefa parecia estar concluída.
Não sofreram qualquer ataque e podiam deslocar-se à vontade pelas cidades ou pelo campo. Encontraram um robô de combate da Drusus que vagava ao acaso, continuando a esforçar-se para descobrir o inimigo.
Gucky e Tama fizeram constatação idêntica à de Rous e Debruque. Efetuaram saltos de teleportação ao acaso, e não encontraram ninguém. Nem mesmo se depararam com as terríveis sombras. Nenhum impulso mental havia ainda chegado ao cérebro de Gucky. Mas quando o primeiro aconteceu, a surpresa foi enorme. Porém não houve motivo para pânico.
O último salto levou os dois mutantes ao cume de uma montanha defendida por uma poderosa fortaleza, que lembrava os velhos castelos europeus da Idade Média. Para as condições reinantes nesse planeta, devia representar uma importantíssima fortificação. Sem dúvida, costumava ser habitada pelos soberanos que governavam as terras circundantes. Agora estava abandonada sob os raios dardejantes do sol.
Gucky manteve-se parado e rijo no meio do grande pátio do castelo e levantou o olhar para as ameias. Tama encontrava-se a seu lado. Já não segurava a mão de Gucky.
Por aqui não há ninguém — murmurou o japonês em tom inseguro. — Não vejo nada.
Gucky não respondeu. Dirigia sua audição para uma direção bem definida, encostando as orelhas à cabeça. Tama teve sua atenção despertada para o fato e lançou os olhos para a ponte movediça, que passava por cima do fosso profundo.
O que houve, Gucky?
O rato-castor respondeu sem demonstrar a menor comoção:
Há alguém por aqui. Não tenho certeza de quem seja, mas sei que não se trata de um invisível. Os impulsos do desconhecido são mais confusos, menos precisos. Acredito que seja...
Olhe! — exclamou Tama e apontou ligeiramente para o lado, onde uma enorme torre formava a peça angular do bloco que constituía o castelo. — O que é isso?
Gucky seguiu a direção do braço. O sol caiu num objeto metálico que produziu reflexos ofuscantes. Gucky fechou os olhos e voltou a abri-los lentamente.
Só se via metade do objeto, já que a outra metade estava sendo encoberta pela torre. Tratava-se de algo metálico de formato cônico, que jazia imóvel no chão.
Vamos até lá, Tama.
O japonês seguiu-o em atitude hesitante, com a mão sobre a arma.
Antes que atingissem a torre e conseguissem enxergar totalmente o objeto brilhante, Gucky disse:
É o tenente Marcel Rous. Está revistando o castelo juntamente com outro homem.
Gucky concentrou-se para o salto, que se guiaria pelos impulsos mentais. Subitamente desmaterializou-se juntamente com o japonês.
Naquele instante Marcel Rous e Debruque estavam penetrando num enorme salão, vazio como os demais. As armas e outros pertences estavam encostados às paredes revestidas de madeira. Numa lareira aberta ardiam os restos de uma fogueira. Um resto de água evaporava-se num recipiente de cobre. Ainda há poucas horas deveria haver gente por ali. Mas depois essas pessoas foram levadas para um local indeterminado.
Para onde?
Marcel Rous lançou um olhar pensativo para a mesa comprida, sobre a qual se viam canecos e pratos de madeira. Parecia que um grupo alegre estava celebrando uma festa, no momento em que a desgraça ocorreu.
Marcel Rous estremeceu quando viu a luz tremeluzir entre o lugar em que se encontrava e a extremidade da mesma. Logo notou os dois vultos que se materializavam. Estendeu rapidamente a mão e cingiu o braço de Debruque.
Não atire! É gente nossa. São mutantes.
Gucky e Tama surgiram diante dele.
Debruque, o senhor deve estar vendo esse castelo como um filme do faroeste — observou Gucky em tom contrariado, passando os olhos pelo salão vazio. — Onde deixou sua nave, Rous?
O tenente já se recuperara da surpresa.
O senhor nos encontrou muito depressa — disse para ganhar tempo. — O planeta está deserto. Revistamos tudo e não encontramos vivalma.
Foi um trabalho muito bonito — elogiou o rato-castor em tom sarcástico. — Para isso não precisaria ter fugido. O que acha que o chefe vai dizer? E a K-7? Ah, o senhor não sabe? As coisas estão ficando cada vez “melhores”.
Apenas quis ajudar meus companheiros desaparecidos — disse Marcel em tom obstinado. — Rhodan não me pode proibir que faça isto. Bem, a K-7 desapareceu. Seria preferível que vocês me ajudassem a encontrá-la.
Nestas duas horas revistamos toda a superfície de Mirsal III, mas não vimos o menor sinal de um Girino.
Será que os invisíveis levaram a nave?
Devem ter alguma coisa a ver com isso — confirmou Gucky, e arrastou-se em atitude resoluta em direção à saída, que levava para um largo corredor. — Vamos dar uma olhada no castelo. Ainda espero encontrar um mirsalense abandonado. E tenho a impressão de que por aqui há um.
Aqui no castelo? — perguntou Rous em tom de dúvida. — Andamos por toda parte.
Será? — perguntou Gucky e ordenou os impulsos mentais que atingiam sua mente, e que se tornavam cada vez mais fortes. Para o rato-castor, parecia que alguém estava despertando de um sono profundo e voltava a pensar.
Você esteve nos subterrâneos? Uma vez que a parte oficial da palestra havia chegado ao fim, Gucky voltou a usar o você, conforme era usual no grupo.
Rous sacudiu lentamente a cabeça e seguiu Gucky, que já se encontrava no corredor. Desceram pelos largos degraus de pedra. Tama e Debruque iam na retaguarda.
À medida que desciam, a escuridão aumentava. Felizmente Marcel possuía uma lanterna potente. Já deviam encontrar-se sob a superfície de Mirsal III, mas continuavam a descer. Parecia que os degraus levavam ao centro do planeta, ou ao menos penetravam profundamente na montanha sobre a qual fora erguido o castelo.
Finalmente os degraus chegaram ao fim. O corredor avançava em linha reta. O ar era abafado, pois havia grandes dificuldades para ser renovado. Mais adiante ouviu-se um ruído.
Gucky continuou a avançar impassivelmente.
Não se preocupem; é um prisioneiro. Os invisíveis certamente não o encontraram.
Viram-se diante de uma porta feita de pedra.
Saltarei para o interior do recinto atrás desta porta — sugeriu Gucky, mas Tama segurou-o pelo braço.
Por quê, Gucky? Por que não vamos logo? Deixe-me abrir a porta.
O rato-castor desconfiou do verdadeiro motivo daquele pedido e concordou com um gesto.
Por que não dar uma oportunidade para que Tama se distinga?”, pensou.
O japonês tentou a telecinese, mas não conseguiu arrombar a fechadura metálica. Recorreu a um meio mais rigoroso. Tama adiantou-se ligeiramente e pegou o radiador térmico. Com um raio bem concentrado derreteu a fechadura. O calor liberado com o fenômeno chegou até a ser agradável naquele ambiente frio.
A pesada tranca começou a derreter. Finalmente os restos da mesma caíram ao chão, juntamente com alguns grampos e correntes. O mutante suspirou aliviado; recuou e deixou que os outros passassem.
Gucky conseguiu abrir a porta para dentro. Esta girou pesadamente nos gonzos, e acabou cedendo.
Os três homens olharam tensamente para o calabouço, por cima dos olhos de Gucky.
A princípio, não viram ninguém. As correntes encontravam-se jogadas junto às argolas embutidas na parede, por cima dos solitários leitos de palha. As tigelas de madeira davam mostras de que ali já houvera prisioneiros, que viviam em condições desumanas.
É lá adiante — cochichou Gucky e foi caminhando à frente dos outros.
Só agora os outros viram.
O calabouço não estava inteiramente vazio. Um prisioneiro ficara para trás. Deitado sobre a palha meia apodrecida, fitou-os com os olhos arregalados, nos quais se lia o pavor. As roupas esfarrapadas davam mostras de que fora preso em condições dramáticas. O braço direito numa tipóia ensangüentada confirmava essa suposição.
Este homem não sabe de nada — disse Gucky, que perscrutara os pensamentos do prisioneiro. — Está aqui há algumas semanas, e aguarda a sentença. Provavelmente os invisíveis nem chegaram a examinar este subterrâneo. Se não o tivéssemos encontrado, morreria de fome.
Com o auxílio de Tama, as correntes de ferro foram arrebentadas imediatamente. O miralense, que media um metro e meio de altura, ficou petrificado. Talvez acreditasse que sua hora havia soado, e qualquer reação seria inútil. Gaguejou algumas palavras. Gucky compreendeu, mas não respondeu, embora também dispusesse de uma reduzida capacidade hipnótica. Caso o rato-castor quisesse, não teria maiores dificuldades em comunicar-se.
Dali a dez minutos, o grupo estava reunido no pátio do castelo. Espantavam os últimos resquícios do calafrio que lhes sacudia o corpo. De repente, Marcel Rous perguntou:
O que vamos fazer? A nave planadora é muito pequena para levar todos. Será que devemos separar-nos?
Por quê? — perguntou Gucky em tom de espanto. — Não existe um transmissor em sua nave? Pois então. Vamos entrar em contato com Rhodan e pedir que venha buscar-nos. Esperaremos aqui no castelo.
O tenente parecia deprimido.
O que será que o chefe vai dizer quando eu voltar sem a K-7?
O rosto de Gucky não traiu a menor emoção.
Não demoraremos a descobrir, tenente. Se fosse o senhor, não me alegraria muito por rever Rhodan. Fique pensando numa boa desculpa. Farei o contato com a Drusus.
Tama ficou cuidando do prisioneiro libertado, enquanto Gucky e Debruque entraram na nave auxiliar, a fim de chamar a Drusus.

* * *

A mão, que se dirigia ao intercomunicador, parou a meio caminho. Rhodan não chegou a executar o movimento.
Seus olhos viram algo que não precisava de explicação.
A bordo da Arc-Koor, Talamon viu a mesma coisa.
A popa do pequeno foguete, que parecia imobilizado entre os dois gigantescos veículos esféricos, começou a desmanchar-se. De início parecia que um tremeluzir quase invisível envolvia a ponta prateada e obtusa. Depois esta começou a desaparecer, como se resvalasse relutantemente para uma outra dimensão. A horrível transformação foi progredindo centímetro após centímetro; mas a progressão foi contínua e ininterrupta.
Mais uma vez os invisíveis estavam atacando.
Rhodan levantou-se de um salto e correu para a sala de rádio.
Talamon! — gritou e esperou que o rosto largo do superpesado surgisse na tela. — Você viu?
Vi tão bem quanto você, Rhodan. O que vamos fazer?
Com um movimento apressado, Rhodan afastou os cabelos castanho-escuros da testa.
Bem que gostaria de saber!
Surgiu uma pequena pausa, durante a qual mais um centímetro do foguete foi devorado pelo poder invisível. Diante do rádio, David Stern subitamente ficou agitando os braços.
Rhodan soltou os fones e disse:
Um instante, Talamon. O que houve, Stern?
Estão transmitindo sinais! — exclamou o operador de rádio. — Os ocupantes do foguete estão chamando. Não consigo entender a mensagem, mas não há a menor dúvida de que provém do foguete.
O senhor ouviu, Talamon — disse Rhodan, voltando a dirigir-se à tela. — E agora? Como poderíamos protegê-los contra o ataque dos invisíveis, se não sabemos como atacá-los?
Vamos dar-lhes cobertura de fogo — respondeu Talamon em tom lacônico e zangado. — Envolvemos o pequeno foguete com um cinturão de raios energéticos. Só se estivermos lidando com o demônio isso não dará resultado.
Está certo! — respondeu Rhodan. — Permaneceremos em contato.
Sem aguardar resposta, Rhodan correu para a sala de comando e transmitiu as instruções que se tornavam necessárias. Menos de trinta segundos se haviam passado desde o início do ataque desfechado pelos invisíveis. Quase um metro da popa já havia desaparecido. Rhodan admirou-se de que demorasse tanto, mas ficou apavorado ao notar que o processo começava a entrar num ritmo mais acelerado. Antes que sua ordem de abrir fogo chegasse aos postos de combate, o foguete havia encurtado dois metros.
A distância entre a Arc-Koor e a Drusus era inferior a três quilômetros. Entre as duas naves pairava o pequeno foguete, que estava sendo atacado pelos invisíveis. O inimigo medonho devia encontrar-se entre os dois couraçados. Para não exporem suas naves a qualquer perigo, Talamon e Rhodan subiram um pouco, a fim de que o alvo ficasse embaixo deles.
As baterias abriram fogo e foi um inferno...
Um anel chamejante circulou o pequeno foguete. Este se mantinha imóvel, como que envolto numa auréola criada pela tecnologia moderna, que trazia coisas boas e más. Os raios de impulsos percorriam o trecho desimpedido que os separava do alvo; não havia nada que se interpusesse no seu caminho. Os atacantes não eram apenas invisíveis, mas também imateriais.
Simplesmente não existiam, mas estavam ali.
Com os olhos semicerrados, Rhodan contemplou o estranho fenômeno. Três metros da popa do foguete já se haviam tornado invisíveis.
Rhodan ativou os raios antigravitacionais, formando o respectivo campo, cuja ação atingiria qualquer tipo de matéria. Mas as telas de localização não registraram a presença de partícula nenhuma entre a Drusus e o foguete. Não havia qualquer espécie de matéria entre ambos.
Voltei a sentir impulsos mentais — cochichou John Marshall, que se mantinha logo atrás de Rhodan, acompanhando o espetáculo em silêncio. — Estes impulsos vão e voltam como as ondas do mar. Às vezes são fortes, mas totalmente incompreensíveis. Poder-se-ia pensar que um aparelho de distorção foi intercalado nos mesmos. Mas isso é impossível.
Nada é impossível! — murmurou Rhodan e viu mais um metro da popa do foguete sumir. — Estamos impotentes. Não podemos auxiliá-los.
Levantou-se e dirigiu-se a David Stern. Talamon não estava na tela, mas Rhodan viu um arcônida sentado diante do equipamento de rádio da Arc-Koor.
Chame Talamon! — pediu Rhodan. O arcônida confirmou com um gesto e desapareceu. Dali a cinco segundos, o rosto do superpesado surgiu na tela.
Sim, Rhodan?
Não adianta. Não temos nenhuma arma com a qual possamos lutar contra os invisíveis. Não podemos auxiliar a tripulação do foguete.
Caramba! Que perigo isso não representa! Que seres serão estes, que nem se defendem, mas contra os quais não podemos fazer nada?
Rhodan deu de ombros.
Pelo que diz o regente de Árcon, já há dez anos o mesmo procura vencer os invisíveis. É claro que nós não poderíamos fazê-lo num dia.
Talamon passou a mão pela barba. Em seus olhos brilhou algo que parecia medo, mas procurou não trair sua fraqueza.
O senhor tem os mutantes, Rhodan!
Havia nesta afirmação algo que revelava ao mesmo tempo a impotência do superpesado e dos arcônidas. E indiretamente também revelava a impotência do gigantesco centro de computação de Árcon.
De que servem os mutantes, se os mesmos não conseguem ver, sentir ou imaginar o inimigo? Como é que um teleportador pode atingir certo alvo que nem sequer existe? Ele apenas saltará no vazio. Os invisíveis nem sequer irradiam verdadeiros pensamentos, que permitissem a localização goniométrica. Como é que um telecineta pode agarrar alguma coisa que não existe? Não, Talamon; devemos dar-nos por vencidos.
Ora, Rhodan! — a voz de Talamon parecia amargurada e desesperada. — Será que vamos desistir? A existência da Via Láctea depende de nós!
Rhodan lançou um olhar de esguelha para a tela da sala de comando. Viu que o inferno chamejante de energia estava fechado. Não havia mais nada que pudesse atingir o pequeno foguete sem ser destruído. Tudo teria de dissolver-se, com a força concentrada dos raios energéticos. E do foguete só restavam vinte metros.
Não, Talamon, não vamos desistir. Apenas, perdemos a luta pelo foguete. Os valentes astronautas de Mirsal II tiveram de pagar com a vida a tentativa de atingir o planeta vizinho. E nós estamos a seu lado e nada podemos fazer por eles. São capazes de pensar que nós somos os agressores implacáveis.
Se é que perceberam alguma coisa do ataque! — disse Talamon.
Se não tivessem percebido, não teriam emitido mensagens de socorro.
Será que realmente pediram socorro? — perguntou o superpesado em tom de dúvida. — Ninguém soube interpretar os sinais. Aliás, já silenciaram.
Rhodan acenou lentamente com a cabeça.
Vamos suspender o fogo de barragem. Apenas estamos desperdiçando energia.
Rhodan viu que os invisíveis já estavam atingindo a proa do foguete. Mais alguns segundos, e a vítima foi totalmente devorada.
Nas telas da Drusus, o ponto que representava o foguete ia diminuindo. Enfim desaparecendo por completo.
O pequeno foguete de quarenta metros de comprimento, carregado de esperança de um futuro melhor, deixara de existir.
Bem, não sabemos o que aconteceu com os seres que se encontravam a bordo do foguete. Será que realmente morreram? Ou apenas se tornaram invisíveis aos nossos olhos e indetectáveis pelos nossos instrumentos. Gostaria de fazer mais uma pergunta importante: Será que este foguete é o único que decolou de Mirsal II?
Foi justamente por isso que mandaram que eu esperasse.
Isso mesmo, Talamon. Faremos uma visita a Mirsal II e...
Alguém o interrompeu. A voz exaltada de Sikermann veio da sala de comando.
Localizações em direção de Mirsal II. Deve ser uma frota inteira.
Rhodan lançou um ligeiro olhar para Talamon.
Um momento — disse em tom indiferente. Com alguns saltos, pôs-se ao lado de Sikermann. — O que houve? Onde?
E ele mesmo viu.
As telas de localização mostravam ao menos cinqüenta pontos que se moviam lentamente. Seus tamanhos já haviam crescido o suficiente para que pudessem ser registrados nas telas óticas. Alguns movimentos permitiram a transformação. Em vez de uma série de pontos, dali a alguns segundos minúsculos foguetes surgiram na tela abaulada. Rhodan viu ao primeiro relance de olhos se tratar de foguetes do mesmo tipo daquele que acabara de desmaterializar-se diante de seus olhos.
Ao que parece, estão fugindo — murmurou. — Talvez Mirsal II também esteja sendo atacado pelos invisíveis. Sikermann! Prepare uma transição ligeira em direção a Mirsal III. Precisamos pegar Gucky e Tama. Tentaremos encontrar a K-7. Depois voltaremos para cá. Rápido! Transição dentro de cinco minutos.
Não aguardou a confirmação do imediato; retornou à sala de rádio.
Espere aqui mesmo, Talamon! — disse; o tom de sua voz soara como uma ordem. — Vou buscar meu pessoal que se encontra em Mirsal III e voltarei para cá. Falaremos em conjunto com o regente.
Está bem, Rhodan; esperarei.
Rhodan suspirou aliviado. Pela primeira vez seu rosto descontraiu-se um pouco, enquanto dizia:
Não se preocupe, Talamon; conseguiremos. Não levaremos dez anos para desmascarar os invisíveis. Basta que tenhamos um pequeno ponto de apoio; uma vez obtido este, devemos explorá-lo. Antes de mais nada, precisaremos saber quem são eles e de onde vêm. Acho que este é o problema mais premente. De onde vieram? De que parte da Via Láctea são originários? Quando soubermos disso...
O que acontecerá se tiverem vindo de outra Via Láctea?
Será que o senhor realmente acredita nessa possibilidade?
Será que existe algo que seja impossível? — perguntou de seu turno o superpesado.
Rhodan preferiu não responder. Sabia perfeitamente que não existiam impossibilidades. Estas já haviam deixado de existir.
Despediu-se com um ligeiro movimento de cabeça e voltou para junto de Sikermann.
Tudo pronto?
Faltam trinta segundos — respondeu o imediato e falou próximo do intercomunicador, a fim de melhor transmitir suas instruções aos tripulantes. — Dentro de vinte e cinco segundos, realizaremos uma transição de duas horas-luz.
Rhodan sentou e fez um sinal para Marshall.
Entre imediatamente em contato com Gucky. Não podemos perder tempo.
Mais dez segundos — disse Sikermann em tom indiferente.

Com um nervosismo cada vez mais intenso, Talamon fitou o espaço vazio em que pouco antes se encontrara a imensa Drusus. Dois minutos haviam passado desde a transição.
Quanto tempo levaria Rhodan para trazer seus homens que se encontravam em Mirsal III?”, pensou o superpesado.
Talamon poderia ser tudo, menos medroso. Durante milênios seu clã comboiara as naves mercantes dos saltadores, e enfrentara muitas dificuldades. Nos últimos decênios, o ambiente no Império tornou-se mais pacato, muito embora a guerra ininterrupta com os piratas nunca chegasse ao fim.
Não; até então Talamon não conhecera o medo. Mas desde ontem sabia o que significava o medo. O encontro com o perigo invisível sacudira e despertara sua mente.
O som estridente das campainhas de alarma arrancou-o de seus pesadelos.
Setor 18-b-9! Alarma! — gritou uma voz nos seus ouvidos. Vinha do intercomunicador. — O engenheiro-chefe está desaparecendo...
Parecia que o coração de Talamon queria saltar do peito. Seu rosto perdeu a cor.
Quem esta falando?
O tenente Rab-Ort, da divisão técnica. Ele só existe da cintura para cima.
Quem?
O engenheiro-chefe Morlag. Suas pernas tornaram-se invisíveis.
Talamon empurrou violentamente uma chave e berrou para dentro do microfone:
Transição a curta distância! Dentro de cinco segundos...
A Arc-Koor desmaterializou-se.
Talamon não se preocupou com a navegação, que ficou a cargo de seus oficiais. Levantou-se de um salto, saiu para o corredor e precipitou-se para o interior do elevador antigravitacional. Trinta segundos depois da transição chegou ao setor 18-b-9 e estacou junto a porta bem aberta.
Não acreditava no que seus olhos viam.
O tenente Rab-Ort estava encostado a um painel de controle, pálido como cera e tremendo que nem vara verde. Os olhos arregalados de pavor daquele arcônida relativamente jovem fitavam o homem deformado e estendido no chão.
Estava morto.
Talamon sabia que um trecho de mais de três horas-luz o separava do local do ataque. Os invisíveis não conseguiriam localizar tão depressa a nova posição da Arc-Koor; era ao menos o que esperava. Portanto, teria tempo.
O homem estendido no chão era o engenheiro-chefe Morlag. A boca e os olhos estavam abertos. Davam mostras do imenso pavor que se apossara dele no último segundo de vida, e da dor cruciante que devia ter atravessado seu corpo.
O que houve? — perguntou Talamon com a voz débil. — Rab-Ort, procure controlar-se! Todos os detalhes são importantes. Qualquer indicação poderá elucidar nossa situação.
O superpesado sentiu que subitamente se tornava frio e objetivo. O temor havia desaparecido; só restava a vontade férrea de dar uma pequenina indicação a Rhodan.
Fale logo! Não podemos perder um segundo sequer! O que aconteceu no momento da transição?
O corpo do arcônida descontraiu-se. A calma que irradiava de Talamon estendia-se a ele. Com a voz débil disse:
Morlag estava de pé ali, quando começou. Olhei por acaso e vi que suas pernas se tornavam invisíveis. Ao que parecia, ele mesmo não percebeu nada, pois continuou tranqüilamente no seu trabalho. Tinha-se a impressão de que estava flutuando no ar, sem pés.
Continue! — pediu Talamon em tom impaciente. — Fale logo!
Gritei alguma coisa para ele. Olhou pelo corpo abaixo e soltou um grito de pavor. Foi então que dei o alarma. Dominado pelo pânico, Morlag corria desesperada-mente de um lado para outro. Conseguia correr, embora suas pernas tivessem desaparecido quase por completo. Mas parecia que seus movimentos eram pesados, como se caminhasse numa lama invisível.
Ah! — exclamou Talamon.
O cérebro do superpesado registrou a primeira indicação.
Depois veio a transição. Subitamente Morlag soltou um grito de dor. Vi que a parte invisível de seu corpo fez o possível para não soltar a parte visível. Sim, foi isso mesmo. Os invisíveis procuraram segurá-lo, mas a transição foi mais forte. Os invisíveis tiveram de soltá-lo, mas isso só aconteceu dali a um segundo. Nunca me esquecerei do grito de morte de Morlag.
O arcônida cobriu o rosto com as mãos e pôs-se a soluçar. Talamon aguardou pacientemente; sabia que, se estivesse no lugar dele, não agiria de outra forma.
Além disso, aquilo que via lhe dizia bastante. Na verdade, contava o resto da história. Morlag, que antes media dois metros de comprimento, tinha agora dois metros e meio.
Sem dizer mais uma palavra, Talamon retirou-se.
Voltou à sala de comando. Mantendo a mão pousada na alavanca de transição, aguardava impaciente o retorno de Rhodan.

* * *

David Stern captou as mensagens de socorro de Debruque e, dali a cinco minutos, localizou o castelo. A nave desembarcou um Girino, que recolheu os homens juntamente com Gucky. E o mirsalense libertado — provavelmente o único que restava de seu povo — foi colocado em segurança.
Da K-7 não se via o menor sinal. Rhodan assistira ao desaparecimento do foguete de Mirsal II, e desistiu de toda esperança de reencontrar o Girino. Fora levado pelos invisíveis.
Assim que a manobra de recolhimento do Girino foi concluída, Stern anunciou a nova posição da Arc-Koor. Rhodan modificou a rota de transição e a Drusus efetuou o salto.
Suspirou aliviado quando viu a grande esfera espacial dos arcônidas surgir a menos de um segundo-luz. O rosto do superpesado fitou-o das telas.
Talamon relatou o que havia acontecido. Quando soube da morte cruel do arcônida, o rosto de Rhodan tornou-se duro e fechado. Mas não se esqueceu de nenhum detalhe e procurou tirar suas conclusões. Sua voz parecia embaraçada quando disse:
Quer dizer que uma transição só resolve a situação se é realizada em tempo. Não devemos esquecer isto. Entre em contato com Árcon, Talamon. Quero falar com o regente.
Talamon fez um gesto afirmativo e transmitiu as ordens necessárias. Quando a semi-esfera de aço surgiu nas telas da Arc-Koor e da Drusus, o rosto de Perry parecia controlado e indiferente. A conversa ficou a cargo de Rhodan.
Já tivemos o primeiro encontro com os invisíveis, regente. O planeta Mirsal III foi despovoado. Não conseguimos impedi-lo. Dos nossos cálculos cibernético-psicológicos resulta com alguma segurança que o próximo objetivo dos desconhecidos será Mirsal II. Pelos catálogos de Árcon, esse planeta é desabitado. Todavia, temos provas de que o mesmo é povoado por uma raça que se encontra nos estágios iniciais da navegação espacial.
Não posso proibir que você faça o que entender — disse a voz mecânica do computador. — Mas Talamon levará a Arc-Koor de volta para Árcon.
Não! — disse Rhodan em tom áspero. — Talamon ficará comigo, para tentarmos juntos vencer os invisíveis. Só assumirei o risco se contar com o apoio do Império. É uma questão de princípio, regente.
Não podemos arriscar levianamente uma nave como a Arc-Koor...
Será que você só tem uma nave? — perguntou Rhodan em tom sarcástico. — Será que por causa de uma nave você vai arriscar a existência da Via Láctea?
O computador decidiu numa questão de segundos.
Está bem, Rhodan. A Arc-Koor ficará com você.
Assumirei o comando sobre a Arc-Koor, regente. Talamon ficará submetido a mim.
Não posso...
Pode, sim, regente! Talamon deseja obedecer a mim. Não é possível que a ação seja dirigida simultaneamente por dois comandantes de igual graduação. Só uma pessoa pode mandar, regente.
Mais uma vez, o computador não levou mais de um segundo para realizar todos os cálculos e anunciar o resultado.
Sua exigência foi aceita, Rhodan. A Arc-Koor está submetida a seu comando. E atrás de você está todo o poderio de Árcon. Liberte-nos da ameaça dos invisíveis, Rhodan!
O que acontecerá depois disso, regente?
Desta vez, a resposta foi dada sem a menor hesitação.
Conversaremos sobre a união de Árcon e da Terra.
Rhodan confirmou com um gesto. Em seus olhos surgiram um brilho quase imperceptível, que revelava o triunfo secreto do terrano. Estava prestes a atingir o objetivo tão ansiado. Mas antes disso seria necessário derrotar os invisíveis.
Voltaremos a chamar quando deixarmos Mirsal II, regente, seja qual for o resultado. Assim que precisar de auxílio, avisarei.
Basta ordenar, Rhodan — disse a voz indiferente do computador.
Depois a tela apagou-se.
Por alguns segundos reinou o silêncio; a seguir, Rhodan fitou os olhos de Talamon, nos quais se via uma expressão de expectativa. De repente sorriu, e o superpesado também exibiu um sorriso de alívio.
Meus parabéns — disse Talamon.
Rhodan ainda estava sorrindo quando respondeu:
Vamos aguardar para ver se realmente mereço parabéns. De qualquer maneira, nos próximos dias dificilmente teremos motivos para alegrar-nos. Horas difíceis virão, velho amigo. Mas a idéia de podermos contar com o poderio de Árcon facilitará nossa tarefa.
De repente fitou para além de Talamon, encontrando o olhar indagador de Sikermann.
Siga as instruções que eu der ao meu imediato, Talamon. As coordenadas valem para os dois.
Iremos diretamente para Mirsal II? — perguntou o superpesado.
Sim, diretamente. Se conseguirmos tornar visível o perigo invisível, o mesmo já terá perdido seu aspecto apavorante. É o que devemos tentar. Até logo mais, Talamon.
Até logo mais — respondeu o superpesado.
Sua voz parecia embaraçada, embora os olhos estivessem sorrindo.
Rhodan voltou à sala de comando. Encontrou John Marshall.
Então, Marshall? Como vai o mirsalense libertado?
John Marshall deu de ombros.
Não sabe contar nada que nos possa interessar, pois estava encarcerado há muitos dias. Sinto muito, chefe, mas sua história não nos fará avançar um passo.
Nada sabe contar... — enfatizou Rhodan e transmitiu suas instruções a Sikermann. — Em Mirsal II encontraremos as pistas de que precisamos.
Sikermann retirou do pequeno computador de pilotagem as coordenadas já calculadas. Estas foram transmitidas à Arc-Koor.
Gucky escorregou do sofá e aproximou-se, caminhando com as pernas abertas. Parou à frente de Marshall e Rhodan.
Esse Talamon está com um medo terrível — chilreou com a voz melosa.
Rhodan viu que a Drusus se aproximava do segundo planeta do sistema. A Arc-Koor seguiu-a, conforme fora combinado. Rhodan baixou a cabeça para fitar Gucky. Seus olhos tremiam ligeiramente.
Ah, é? — disse, inclinando-se um pouco na direção do rato-castor. — E você?
Gucky espantou-se com a pergunta. Bastante embaraçado, passou a mão nos pêlos marrom-avermelhados. Subitamente uma expressão de triunfo surgiu em seus olhos leais. O dente roedor fez sua aparição, dando mostras do excelente humor de seu dono.
Eu? — repetiu Gucky, esticando a palavra e deslocando-se em direção ao sofá. — O que poderia estar acontecendo comigo? Afinal, não sou nenhum superpesado.
Dito isto, saltou para o sofá, deitou-se e não quis ver mais nada do mundo que o rodeava.
Marshall sorriu.
Acontece que Rhodan já se havia esquecido de Gucky. Seus olhos estavam pousados na tela, onde Mirsal II ainda não passava de uma estrelinha.
Era uma estrela para a qual os invisíveis estendiam as mãos.
* * *
* *
*










O ataque do invisível representa um perigo que exige a união de todas as inteligências da Via Láctea...
O que terá acontecido com os mirsalenses? Onde está o cadete Becker?
Em O Regresso do Nada, próximo título da série, as emoções continuam.

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