— Há
algo de errado em nossas teorias — disse Baldur Sikermann, lançando
um olhar de dúvida para Rhodan. — Conversei demoradamente com o
capitão Gorlat.
O
capitão Hubert Gorlat era o oficial de segurança da Drusus.
Tratava-se de um tipo corriqueiro de cabelos ruivos, estatura mediana
e gestos enérgicos. Sua profissão ensinara-lhe a refletir bastante
antes de tomar qualquer decisão, a fim de não se arriscar a cometer
um erro.
Rhodan
olhou para além de Crest e pôs os olhos em Gorlat.
— Tem
alguma idéia? — perguntou em tom de curiosidade.
— Talvez
não chegue a ser uma idéia, e desde logo quero prevenir contra
qualquer conclusão apressada. Constatamos que as naves dos
invisíveis nunca foram vistas e só raramente foram localizadas
pelos instrumentos. Acho que este fato pode ser admitido como certo.
— Correto
— concordou Rhodan.
Disfarçou
sua curiosidade, muito embora já desconfiasse do que estava para
vir.
— Dali
se conclui com segurança — prosseguiu Gorlat — que os
desconhecidos também sabem tornar invisível a matéria inorgânica.
Fiquei indagando a mim mesmo por que ainda não fizeram isso com
nossos robôs. Por enquanto só aprisionaram homens, se é que
podemos designar seu ato por esta palavra.
Rhodan
acenou lentamente com a cabeça e esteve a ponto de dizer alguma
coisa, quando o som estridente das campainhas encheu a nave. Ao mesmo
tempo as sereias começaram a uivar do lado de fora.
Alarma!
A
reunião de Rhodan com seu grupo acontecia na sala de comando da
Drusus. A K-13 estava nas imediações, pronta para decolar. Fazia
poucos minutos que Perry e seus acompanhantes haviam retornado da
expedição de reconhecimento e procuraram Sikermann e a oficialidade
da nave a fim de discutir a situação.
E
agora estava soando o alarma!
Rhodan
foi o primeiro que atingiu a comporta aberta, pois a forma do alarma
revelara que o ataque vinha da superfície, e não do espaço.
Outras
três naves auxiliares mantinham-se juntas à K-13. Não se via
nenhum dos tripulantes. Os canhões de radiações dirigiram-se
ameaçadoramente contra as muralhas da cidade e os portões abertos.
Os revestimentos da comporta da Drusus deslizaram para o lado, os
canos em espiral das pesadas armas de impulsos saíram e dirigiram-se
contra a cidade.
Mas
onde estava o inimigo?
Sikermann
achava-se ao lado de Rhodan. Ofegante, respirava com dificuldade.
— Onde
estão nossos robôs?
— Estão
vasculhando a cidade — respondeu Rhodan. — Por enquanto não
encontraram vivalma.
Sikermann
apontou para a frente.
— Não
está ouvindo? Na cidade estão atirando. O alarma foi desencadeado
pelos robôs. Devem ter encontrado algum inimigo. A sala de rádio
perdeu contato com alguns dos robôs de guerra.
— Ras
Tschubai, venha comigo — disse Rhodan, segurando o africano pelo
braço. — Não, mais ninguém. Vamos saltar, Ras!
— Para
onde?
— Para
a praça do mercado, no centro da cidade. Temos de verificar o que
aconteceu. Não se esqueça de uma coisa, Ras: ao menor ataque dos
invisíveis, salte imediatamente. Não interessa para onde; o
importante será darmos o fora, nossa única salvação.
Sikermann
disse mais algumas coisas, mas suas palavras foram dirigidas ao ar
tremeluzente. Rhodan e o africano já haviam desaparecido.
Materializaram-se
na cidade. Por um longo instante viram-se sós e abandonados na ampla
praça. As fachadas das habitações pareciam ameaçá-los de todos
os lados, mas Rhodan sabia que o terrível inimigo não estava
escondido nas residências.
Talvez
estivesse bem à sua frente, sem que o vissem. Não poderiam vê-lo,
pois era invisível e sabia “camuflar”
sua mente.
— Ali,
os robôs — gritou Tschubai e segurou o braço de Rhodan para poder
saltar assim que a situação o exigisse. — Abriram fogo. Contra
quem será? Não vejo nada.
Rhodan
lançou um olhar espantado para o lado oposto da praça, onde
desembocava uma rua larga. Nela, dez robôs de guerra deslocavam-se
para trás, disparando com todas as armas. Os raios energéticos
derretiam o calçamento e a fachada dos edifícios. Pingos de pedra
liquefeita de tamanho fora do comum caíam ao chão, formavam poças
e endureciam. Rhodan chegou a ver uma sombra fugaz que se contorceu
sob os efeitos de um raio de impulsos energéticos mas que
desapareceu logo em seguida. O inimigo invisível mantinha uma
atitude passiva. Não revidava.
— Por
que será que os robôs estão fugindo? — perguntou Ras Tschubai,
que tremia por todo o corpo.
Rhodan
fingiu não perceber.
— Devem
ter sido atacados, Ras. Não sei...
Rhodan
estacou. Sobressaltou-se quando subitamente teve de reconhecer que a
teoria do capitão Gorlat tinha fundamento.
O
primeiro dos robôs desmanchou-se no ar.
No
princípio desapareceu a parte inferior. Suas armas continuavam a
disparar, mas subitamente apagaram-se. Por instantes, a parte
superior do corpo flutuou no ar, dois metros acima do solo,
aparentemente sem o menor apoio, mas logo se tornou invisível,
juntamente com a cabeça.
“Quer
dizer que os inimigos sabem levar
também
os robôs, até aqui considerados invencíveis, ao seu reino
fantasmagórico, do qual não se conhece o caminho de volta”,
conjecturou Rhodan.
Os
robôs que sobravam recuavam, combatendo sempre.
Uma
coisa era certa: haviam reconhecido o inimigo e procuravam
destruí-lo. Não dispunham de outras armas além dos radiadores. Não
tinham culpa se estas não servissem para muita coisa.
Outro
colosso de arconita desapareceu.
— Se
os invisíveis continuarem a avançar, destruirão todos os nossos
robôs; bem, destruir talvez não seja a expressão correta. Eles os
levarão ao seu reino invisível — Rhodan falara em tom calmo e
objetivo, como se o perigo não os rodeasse. — Gostaria de saber
como são as coisas por lá.
— Onde?
— perguntou Tschubai, que fitava incessantemente os robôs em
marcha, um dos quais se dissolvia naquele exato momento.
Rhodan
não respondeu. Tinha outro problema.
— Temos
que detê-los. Se atingirem nossas naves, também as levarão.
Acontece que não sei como poderíamos parar sua marcha. Vamos voltar
à Drusus, Tschubai.
Baldur
Sikermann, que ainda se encontrava na comporta aberta, suspirou
aliviado quando viu Rhodan.
— A
Arc-Koor enviou uma breve mensagem. Talamon ainda não entrou em
transição. Continua neste sistema. Fez uma estranha descoberta, e
quer informar o regente de Árcon sobre a mesma. Espera que com isso
obtenha permissão de ajudar-nos na luta contra os invisíveis.
— Uma
descoberta? — perguntou Rhodan. — Não disse do que se tratava?
— Infelizmente
não. Oportunamente voltará a entrar em contato conosco. Conseguiu
alguma coisa, Sir?
Rhodan
deu de ombros.
— Depende
de como se queira encarar a coisa, Sikermann. Os invisíveis estão
atacando nossos robôs. Receio que tenhamos de ir embora.
— E
os robôs? Pretende sacrificar cem máquinas de guerra de primeira
qualidade?
— Receio
que a maior parte delas já tenha sido sacrificada, Sikermann. Fomos
muito otimistas. Se ficarmos aqui por muito tempo, estaremos perdidos
juntamente com nossas naves, e nem sei como será o fim que nos
espera. Talvez nos desmanchemos pura e simplesmente, ou então nos
tornaremos invisíveis e continuaremos a viver como fantasmas. Vamos
logo, Sikermann, dê o alarma de decolagem. Mande que os Girinos
entrem na Drusus. Quando isso tiver sido feito, decolaremos.
— Para
onde?
— Sei
lá! — Rhodan começou a aborrecer-se consigo mesmo, por não se
controlar. Teria de manter o autocontrole, pois do contrário
perderia a capacidade de avaliar a situação. Naquele momento
precisava desesperadamente conservar a cabeça fria. — Entraremos
numa órbita de Mirsal III.
Distância
de dois minutos-luz. Manter o hiper-rádio sempre ligado. Informe-me
assim que Talamon volte a chamar. Estarei no meu camarote.
Afastou-se
sem dizer mais uma única palavra.
Ras
Tschubai seguiu-o com os olhos e encontrou o olhar de Sikermann.
O
primeiro-tenente pigarreou em tom embaraçado.
— Nunca
vi Rhodan assim — disse depois de algum tempo.
O
africano concordou com ele.
Os
Girinos entraram nos hangares da Drusus que, naquele mesmo instante,
fechou as comportas. Os dois últimos robôs se defendiam contra
inimigos que saíam pelos portões da cidade. A enorme nave esférica
disparou em direção ao céu límpido e logo mergulhou nas
profundezas do espaço.
Quando
o intercomunicador soou, Sikermann franziu a testa. Ligou com um
gesto contrariado.
— O
que houve? Tenho que fazer com a pilotagem...
— Aqui
fala do hangar. Tenente Worma. Um dos Girinos não está a bordo.
Sikermann
quase ficou sem fala.
— O
quê? — disse todo esbaforido. — Pois estavam todos.
— A
K-7 está faltando. O comandante é o tenente Rous. Acho que havia
recebido ordens de ficar do lado de fora, mas fui avisado pelo
intercomunicador de controle de decolagem que todos os Girinos
estavam a bordo...
— Que
porcaria! — gritou Sikermann, esquecendo a boa educação. — Quem
vai contar isso ao chefe? Este já tem tantas preocupações...
É
claro que o tenente Worma não sabia responder a esta pergunta.
Desligou.
Sikermann
entrou em contato com a sala de rádio.
— Está
em contato com a K-7, Stern?
O
israelense demorou alguns segundos, depois respondeu:
— Sinto
muito. Não consegui estabelecer comunicação.
Sikermann
lançou um olhar obstinado sobre os controles e as telas, enquanto
Mirsal III
mergulhava
cada vez mais profundamente no espaço.
O
tenente Rous devia estar em qualquer lugar, lá embaixo. Se é que
ainda existia...
Marcel
Rous sabia perfeitamente que estava infringindo todas as ordens
quando empurrou a alavanca de aceleração da K-7 para o máximo e
disparou espaço afora, numa trajetória parabólica. Mas também
sabia que Rhodan nunca lhe teria dado permissão para procurar os
homens desaparecidos. Isso não decorria da insensibilidade de
Rhodan, mas apenas do desejo inquebrantável de, em hipótese alguma,
revelar a posição da Terra.
Um
único prisioneiro que se encontrasse em poder do inimigo acarretava
esse perigo. E o inimigo já possuía três prisioneiros. E, se
conseguisse apoderar-se da K-7, seriam quinze.
E
era bem possível que um dos quinze se dispusesse a falar.
Marcel
Rous viu a Drusus desaparecer atrás de si quando seguiu a curvatura
da superfície do planeta e voltou a mergulhar na sombra da face
noturna.
Todos
os campos defensivos haviam sido ativados; a sala de rádio não
estava funcionando; a K-7 achava-se isolada do mundo exterior.
Marcel
Rous tinha certeza de que seus tripulantes se voltariam contra ele se
soubessem que estava contrariando as ordens de Rhodan. O fato de que
o tenente apenas pretendia correr em auxílio dos três companheiros
desaparecidos não modificaria a situação.
Não
foi difícil reencontrar a cidade onde haviam ficado os dois robôs.
Estavam intactos na praça do mercado, esperando. Marcel pousou junto
a eles e recolheu-os a bordo. Ouviu atentamente seu relato.
— Nada
de anormal — disse R-2 em tom indiferente. — Não houve qualquer
ataque contra nós. Não encontramos o menor vestígio do cadete
Becker e dos outros homens. Revistamos todas as casas dos arredores.
A cidade está desabitada.
Marcel
perguntou:
— E
as sombras? Viram alguma sombra?
— Não
senhor. A cidade está desabitada.
Rous
praguejou baixinho e mandou os robôs ao hangar. Depois deu ordem
para que o pequeno planador fosse preparado.
Os
planadores tinham pouco menos de três metros de comprimento.
Trabalhavam com base em campos antigravitacionais. Tinham lugar para
dois homens e não se prestavam a longos vôos pelo espaço, porque
não conseguiam ultrapassar a velocidade da luz. Mas eram os veículos
ideais para os vôos de reconhecimento.
Marcel
Rous escolheu um patrício, o cadete Debruque, para acompanhá-lo.
De
certa forma, Debruque podia ser considerado um esquisitão, embora
fosse um companheiro agradável. Dedicava seu tempo livre à arte
ainda não extinta da pintura, e sentia um prazer imenso em retratar
seus companheiros, se bem que estes afirmassem que não se
reconheciam nos quadros. Isso não era de admirar, porque seguia o
estilo da pintura abstrata.
Os
dois homens mal conseguiram acomodar-se na cabine apertada. Rous
pediu ao companheiro que não tocasse no equipamento de rádio. Deu
ordem à K-7 para que o aguardasse no solo, e só em caso de
emergência decolasse para entrar em órbita. O planador saiu em
disparada da escotilha bem aberta e logo desacelerou, para sobrevoar
as ruas bem iluminadas da cidade a apenas dois metros de altura.
Marcel
Rous sentia-se seguro. Sabia que bastava mover uma alavanca para que
disparasse espaço afora. Nenhum invisível conseguiria alcançá-lo
tão depressa.
Subiu
o suficiente para ver os quartos dos aposentos, que via de regra
estavam bem iluminados. Às vezes, quando acreditava ter visto um
movimento, parava. Mas todas as vezes acabou decepcionado. Os quartos
estavam abandonados.
Durante
duas horas percorreram a cidade em todas as direções. Rous
convenceu-se de que por ali não havia um único ser vivo, com
exceção dele mesmo e de seus companheiros.
Os
invisíveis já deviam ter batido em retirada, pois do contrário há
muito o teriam atacado e seqüestrado.
Decepcionado
por não ter encontrado o menor vestígio dos companheiros, voltou à
praça do mercado.
O
que viu assustou-o tanto que ficou quase petrificado, não
conseguindo fazer outra coisa senão arregalar os olhos em direção
ao lugar em que estivera a K-7.
O
Girino havia desaparecido.
*
* *
— Rous
deve ter enlouquecido! — gritou Sikermann em tom furioso. — Se eu
conseguir agarrá-lo, poderá preparar-se para uma boa lição.
Deitado
em sua cama, Rhodan olhou para a tela em que aparecia o rosto de
Sikermann.
— Não
sei se o senhor algum dia tornará a vê-lo, Sikermann — disse em
tom tranqüilo. — Conhece os motivos de seu procedimento?
— Não
tenho a menor idéia. Deve ter enlouquecido.
— Não
acredito. Tenho a impressão de que pretendia libertar os três
tripulantes de sua nave, por mais tresloucada que possa parecer essa
pretensão. Achou que está apenas cumprindo seu dever, embora esteja
desobedecendo às minhas ordens. Aguardemos para ver o que consegue,
se é que vai conseguir alguma coisa. Mais novidades?
— Nenhuma
— respondeu Sikermann um tanto perplexo. — Atingimos a órbita
determinada pelo senhor.
Rhodan
levantou-se e fez um gesto para Sikermann.
— Se
precisar de mim, estarei no camarote de Marshall.
Não
esperou que a tela se apagasse. Saiu para o corredor, deixou que o
elevador o levasse a outro pavimento. Dali a alguns minutos, entrou
no camarote do telepata, que já registrara mentalmente sua
aproximação e por isso não se surpreendeu ao ver Rhodan.
— Tenho
de tomar uma decisão — disse Rhodan, assim que se acomodou. —
Devo continuar nesta posição desesperada, ou será preferível
retornar à Terra? Qual é sua opinião?
Marshall
parecia assustar-se.
— Será
que o senhor quer desistir, chefe? Logo agora que Rous desapareceu
com uma nave...
— Não
é isso que torna difícil a decisão — disse Rhodan, corrigindo a
idéia de seu mutante. — O cuidado exagerado do regente me fez
perder a vontade de tirar as castanhas do fogo a favor de Árcon.
Porém receio que um dia os invisíveis poderão descobrir a Terra...
— Com
isso a decisão já deve ter sido tomada — disse Marshall.
— É
o que acaba de dizer, Marshall. Chame os outros mutantes.
Manteve-se
em silêncio até que todos estivessem reunidos no pequeno camarote:
o japonês Tama Yokida, que ainda não tivera oportunidade de
aproveitar suas faculdades; Ras Tschubai, que o salvara; Ralf Marten,
cujas tentativas até então não haviam dado resultado; e Gucky, que
parecia ter um respeito tremendo pelo inimigo.
Marshall
manteve-se junto à porta.
— O
Exército de Mutantes está pronto — disse, fazendo uma constatação
supérflua.
Rhodan
levantou a cabeça. Em seus olhos havia um brilho amistoso e uma
ligeira esperança, quando fitou seus velhos amigos.
— Acho
que nunca nos defrontamos com uma crise como esta — principiou;
parecia olhar para além dos homens. — Pelo que diz o regente, o
inimigo invisível já despovoou sistemas solares inteiros, sem que
fosse possível fazer qualquer coisa. Nem quero imaginar o que
acontecerá se os desconhecidos descobrirem a Terra. Por isso mesmo
não posso realizar meu plano primitivo, que previa nosso regresso
para Terrânia.
“É
possível que um dos invisíveis se encontre a bordo da Drusus. Não
temos a menor possibilidade de verificar se isso é verdade, pois a
telepatia está falhando. Portanto, não temos outra alternativa:
precisamos ficar aqui, até descobrirmos e desmascararmos o inimigo.
Só podemos cogitar do regresso à Terra quando tivermos certeza
absoluta de que os invisíveis abandonaram este sistema. Nem me
atrevo a acreditar na possibilidade de destruirmos o inimigo.”
Gucky
deixou pender o lábio inferior, com o que seu rosto matreiro
adquiriu uma expressão muito triste.
— Por
que tivemos de encontrar-nos logo com espíritos invisíveis? Bem que
poderiam ser monstros, saltadores ou coisa que o valha. Estes eu vejo
e posso atirá-los no sol mais próximo. Mas lidar com seres
invisíveis... Brrrr....
— Saberemos
como lidar com eles — disse Tama Yokida com a voz tranqüila. —
Sempre conseguimos livrar-nos de todos os perigos.
— É
fácil dizer isso — Rhodan parecia um tanto cético. —
Ficar-lhe-ia muito grato se pudesse dar-nos ao menos uma dica de como
podemos agir.
— Infelizmente
não posso — confessou Tama cabisbaixo.
De
uma hora para outra sua confiança parecia ter desaparecido.
— Vamos
resumir — prosseguiu Rhodan. — Os invisíveis despovoam planetas
e não se interessam pela matéria inorgânica encontrada nos mesmos.
Nem chegam a tocar nas plantas; apenas querem saber dos animais e dos
humanos. Só depois de terem sido atacados repetidas vezes pelos
nossos robôs, passaram a defender-se. Assim provaram que sabem usar
seus poderes sobre a matéria inorgânica. Acho que isso torna
evidente que esvaziam os planetas para uma finalidade bem definida.
Precisam de humanos e animais para alguma coisa. Mas não precisam da
matéria inorgânica, pois só a destroem a fim de defender-se.
— E
qual é a conclusão final? — perguntou Marshall.
— Ainda
é cedo para extrairmos uma conclusão. Por enquanto só podemos
registrar os fatos e formular suposições. A única coisa certa é
que não podemos enfrentar os invisíveis, a não ser que queiramos
expor-nos à derrota. Mas, além disso, temos certeza de que não
conseguem pegar nenhum teleportador, se este saltar em tempo.
— Para
nós as coisas estão boas — chilreou Gucky, olhando para Ras
Tschubai.
O
africano não respondeu. Olhava ininterruptamente para Rhodan.
— Se
eu fosse você, não me gabaria — disse Rhodan, dirigindo-se a
Gucky. — Caso eu resolva enviar um grupo de reconhecimento a Mirsal
III,
o
mesmo seria formado por teleportadores.
Gucky
sentou-se em cima da grossa cauda e fungou:
— Então
é isso! Bem que deveria ter imaginado. Mas não conte comigo! Não
luto contra fantasmas espaciais. É preferível que Ras vá. Quando
os invisíveis o virem, seu aspecto bastará para meter-lhes medo.
— Se
você for, eles talvez se traiam pelas risadas — contraveio o
africano. — Mas é claro que estou disposto a ir, caso seja
imprescindível, chefe.
Rhodan
sabia que Gucky também não se recusaria a cumprir a ordem. Podia
confiar nos seus mutantes.
— Talvez
seja necessário, se Rous não voltar. Não quero arriscar a perda de
uma nave — ouviu-se um zumbido e Rhodan virou-se para a tela.
Sikermann olhou para dentro do camarote. Parecia exaltado. — O que
houve?
— Talamon
chamou. Quer falar com o senhor.
— Pois
transfira a ligação, Sikermann. O imediato confirmou com um gesto
de cabeça e desapareceu. Por alguns segundos, pontos e círculos
coloridos correram sobre a tela. Aos poucos assumiram contornos
definidos, que se transformaram num rosto.
Era
o superpesado.
Seu
rosto parecia zangado, mas nele se notava uma satisfação
inconfundível.
— Rhodan,
é o senhor?
— Pode
falar, Talamon.
— Não
o vejo. Ligue a câmara...
— Não
estou na sala de rádio, Talamon. Fale, pois do contrário perderemos
segundos preciosos. Por que não voltou a Árcon, conforme ordenou o
regente?
— Obtive
permissão para ficar mais dez segundos, porque descobri uma coisa
estranha. Gostaria de informá-lo a este respeito.
— O
que foi que descobriu?
— Uma
nave desconhecida, Rhodan. Uma nave muito pequena. É achatada na
parte traseira. Afasta-se do sistema a velocidade reduzida. O
propulsor chamejante faz supor que se trate de um foguete rudimentar
de combustível líquido, do tipo que os arcônidas costumavam usar
na fase inicial da astronáutica. Acontece que isso já faz várias
dezenas de milênios.
Rhodan
manteve-se imóvel em sua cadeira. Fitou Talamon e lamentou que a
comunicação visual fosse apenas unilateral. Depois de alguns
segundos, indagou em voz fraca:
— Será
que se trata de uma nave dos invisíveis?
Talamon
hesitou um pouco.
— Foi
o que acreditei, no início, mas agora já não posso imaginar que
seja assim. Os seres, que sabem tornar-se invisíveis, devem ter
desenvolvido uma tecnologia que está ao menos no mesmo nível da
nossa. Não posso imaginar que rastejem pelo espaço em foguetes de
combustível líquido, para serem alcançados facilmente. Com pouca
velocidade nunca conseguiriam atingir outros sistemas.
— É
verdade — admitiu Rhodan a contragosto.
No
íntimo, preferia que Talamon tivesse descoberto, e com certeza, uma
nave dos invisíveis.
— Mas
quem poderia ser? Os habitantes de Mirsal III
não
conhecem a navegação espacial.
— Estou
quebrando a cabeça sobre isso e não consigo encontrar nenhuma
resposta. Será que você poderia dar um pulo até aqui? Estou
seguindo o foguete numa distância adequada e não o perco de vista.
Rhodan
hesitou um pouco.
Marcel
Rous continuava na superfície de Mirsal III,
onde
cumpria uma missão desesperada, ou ao menos tentava cumpri-la.
“Poderia
deixar para trás o valente oficial?”,
pensou Perry.
Sem
dúvida, o cadete violara suas ordens, mas os motivos que o fizeram
agir assim eram honrados e altruístas. Em casos como este Rhodan
costumava ser condescendente. Se estivesse no lugar do francês,
dificilmente teria agido de forma diferente.
Tomou
sua decisão.
— Estarei
aí dentro de pouquíssimo tempo. Comunique sua posição exata a meu
piloto. Ainda tenho que resolver um pequeno assunto.
A
tela apagou-se e Sikermann entrou na linha.
Rhodan
liquidou o “pequeno
assunto”.
— Vamos
pousar mais uma vez, Sikermann. Apenas por dez segundos. Depois
decolaremos e seguiremos o curso que vá ter à posição que lhe for
indicada por Talamon. Entendido?
— Mas...
— Nada
de objeções, Sikermann. Sei perfeitamente o que estou fazendo. Dê
partida e pouse em qualquer lugar da superfície de Mirsal III.
O
rosto espantado de Sikermann desapareceu da tela.
— Era
só o que faltava! — suspirou Gucky.
Espionara
mais uma vez, e sabia quais eram os planos de Rhodan.
Enquanto
a Drusus se precipitava em direção ao planeta e preparava um pouso
apressado, Rhodan disse:
— Tama
Yokida e Gucky saltarão para fora da nave assim que tocarmos o solo.
Irei para junto de Talamon com a Drusus e voltaremos quanto antes.
Gucky, você sabe perfeitamente que nem você nem Tama correm
qualquer perigo. Mantenham ininterruptamente o contato físico, para
que possam teleportar-se a qualquer momento. Nada lhes poderá
acontecer. Manteremos contato telepático, Gucky. Seu elemento de
ligação mental será Marshall. Tudo entendido?
Tama
confirmou com um gesto. Gucky resmungou:
— Gostaria
de saber por que se fala tanto sobre isso. Uma coisinha desta se
liquida sem muito espalhafato.
Acontece
que o lábio inferior ainda pendia muito para baixo, o que fazia com
que suas palavras não parecessem muito convincentes.
A
Drusus pousou e voltou a decolar dentro de dez segundos.
Gucky
e Tama Yokida já não se encontravam a bordo.
*
* *
Marcel
Rous teve a impressão de que alguém lhe golpeara violentamente a
cabeça e chegou a sentir fisicamente a dor.
Teria
sua nave decolado sem ele? Era bem verdade que dera ordem para isso,
mas nunca acreditara seriamente que o deixariam num aperto destes. Se
surgisse algum perigo, deveriam decolar; foi o que disse. Teria
havido algum perigo? Não havia o menor vestígio do mesmo. Mas, para
um inimigo como aquele que estavam enfrentando, isso não significava
nada.
Circulou
várias vezes com a nave planadora em torno do lugar em que estivera
a K-7. Estava desaparecida sem deixar o menor sinal de sua
existência.
Debruque
disse em tom tranqüilo:
— Agora
estamos a sós neste planeta de fantasmas. O que vamos fazer? Sugiro
que saiamos à procura da Drusus.
Isso
não seria difícil, pois o planador dispunha de um equipamento de
rádio. Se Rhodan permanecesse mais algum tempo no sistema, acabaria
captando sua mensagem. Mas...
Marcel
Rous sacudiu obstinadamente a cabeça.
— Ainda
não atingimos nosso objetivo, Debruque. Vamos desistir sem mais nem
menos? E quanto à K-7, essa gente que se encontra na sala de comando
nos deve uma explicação. E pretendo obtê-la.
— Onde?
— perguntou o cadete com a mesma tranqüilidade de antes.
Marcel
Rous não respondeu. Deixou que a nave subisse um pouco, acelerou e
dirigiu-se à cidade mais próxima, cujas luzes começaram a varar o
crepúsculo dali a alguns minutos.
Quando
já tinha descido e passava rente ao calçamento irregular, disse:
— Procuraremos
em tudo quanto é lugar, Debruque. Se não os encontrarmos, deveremos
dar com uma pista dos desconhecidos. Talvez tenham descoberto um
método de desviar os raios de luz, mas devem ter um corpo. E é ali
que reside minha última esperança.
— Não
compreendo, tenente.
Um
sorriso obstinado surgiu no rosto de Rous.
— Não
se preocupe. Eu mesmo ainda não compreendi muito bem. Quando chegar
o momento, hei de me lembrar de alguma coisa.
— Tomara
— resmungou o cadete e passou a dedicar sua atenção às ruas
vazias.
Estavam
agora firmemente decididos a descobrir a pista que os levaria para
junto dos desconhecidos.
Mas
os dois homens sofreram uma decepção.
A
cidade havia sido abandonada não apenas pelos seres vivos, mas
talvez também pelos invisíveis.
Não
sofreram um único ataque. Na próxima cidade deram uma volta e
saltaram. Mantinham-se sempre preparados para correr à pequenina
nave e decolar imediatamente. Talvez não conseguissem, mas a
proximidade da nave dava-lhes um sentido de segurança.
Mas
também nessa cidade não houve nenhum ataque.
Mergulharam
nos raios do sol nascente e iniciaram a busca na face diurna do
planeta. Aqui o trabalho foi mais fácil e rápido. O estranho eram
as luzes acesas nas ruas abandonadas, e as luzes que não se apagavam
nas residências desertas. Não havia ninguém que pudesse
desligá-las.
Mas
os invisíveis também haviam desaparecido.
Marcel
Rous não desistiu. Pousou em todas as cidades, em todas as povoações
e até diante de casas isoladas no campo. E o que encontrava era
sempre a mesma coisa: residências abandonadas, estábulos vazios, um
silêncio infinito e solitário.
Começou
a acreditar que os invisíveis haviam abandonado o planeta Mirsal
III,
depois
que nele não havia mais nenhuma criatura viva.
A
invasão estava concluída, mas ninguém tomava posse do mundo
conquistado.
“Por
que foi conquistado?”,
perguntou-se mentalmente.
*
* *
Tama
Yokida seguiu a Drusus com os olhos. Dentro de alguns segundos, a
gigantesca esfera transformou-se num pontinho minúsculo que
desapareceu no azul do céu. O japonês ainda segurava a mão de
Gucky.
O
rato-castor olhou para a Drusus. Preferiu examinar atentamente os
arredores. Sabia que o invisível não poderia surpreendê-lo. Certa
vez, já sentira sua aproximação e tomara suas precauções. E
agora estava firmemente decidido a teleportar-se juntamente com Tama
ao menor sinal de perigo. Em hipótese alguma os fantasmas
conseguiriam pegá-lo.
Gucky
constatou satisfeito que seu medo instintivo face ao misterioso e ao
desconhecido estava desaparecendo. Se necessário, saberia como
escapar. E essa certeza fez com que o rato-castor recuperasse o ânimo
e a coragem que todo mundo estava acostumado a ver nele.
E
a mudança de disposição de Gucky transmitiu-se ao japonês.
— Agora
tudo depende de nós — cochichou este. — Aqui ninguém poderá
fazer nada por nós. Se formos atacados, você terá que agir
depressa, Gucky.
— Ninguém
sabe ser tão rápido quanto eu — asseverou Gucky bastante
orgulhoso. Olhou em torno. — Largaram-nos nestas montanhas, em vez
de deixar-nos numa cidade. Mas por que não começar nossas
investigações aqui mesmo? Talvez os desconhecidos tenham esquecido
algum ermitão que vive nas cavernas. Nesse caso descobriremos o que
aconteceu.
O
japonês não compartilhava a esperança de Gucky, mas não se
esforçou para convencê-lo do contrário, como costumam fazer as
pessoas tolas e convencidas. Tama estava convencido de que a origem
de todo o ódio e dos problemas da Terra residia no fato de os homens
sempre se esforçarem a fim de obrigar aqueles que pensam de forma
diferente a adotarem suas idéias.
Para
não andar muito, Gucky realizou alguns saltos juntamente com Tama.
Deslocavam-se por trechos que podiam ser abrangidos pela vista. Assim
conseguiam vencer distâncias consideráveis sem se cansarem.
Já
estava escurecendo quando chegaram à beira do planalto e olharam
para uma ampla planície, em cujo centro havia uma cidade grande.
Notaram perfeitamente que as luzes estavam acesas. Mas nada se movia.
Até
então Tama não soltara a mão de Gucky por um instante sequer.
— Vamos
dar uma olhada na cidade? — perguntou, já que perdera todo o medo
dos desconhecidos. — Talvez encontremos alguma indicação.
— Gostaria
de saber onde ficou esse tenente maluco — disse Gucky sem responder
ao japonês. — Não pode ter-se dissolvido no ar juntamente com o
Girino.
— Pode,
sim, Gucky — disse Tama, manifestando um receio. — Já vimos
provas de que os invisíveis sabem tornar a matéria invisível.
— Será
que conseguem fazer isso com uma nave inteira? — perguntou Gucky em
tom de dúvida.
Tama
deu de ombros.
— Devemos
contar com esta possibilidade.
Naquela
hora não imaginavam que estavam chegando muito perto da terrível
verdade.
*
* *
Rhodan
atingiu com a Drusus a posição que lhe fora indicada por Talamon. A
Arc-Koor encontrava-se a pelo menos duas horas-luz de Mirsal III,
tendo-se
aproximado bastante do sol amarelo. Rhodan registrou o fato sem dizer
uma palavra, mas em hipótese alguma ignoraria o mesmo.
Viu
o segundo fenômeno estranho ao deparar-se com o misterioso foguete,
que procurava afastar-se do sistema solar a uma velocidade que não
excedia a quinhentos quilômetros por segundo.
Pretendia
sair do sistema; e vinha do sol.
Mal
Rhodan estabeleceu o contato, o superpesado apareceu na tela, não se
fazendo esperar.
— Ainda
bem que chegou, Rhodan. Neste meio tempo tive uma palestra com o
regente. Quando o informei sobre o foguete rudimentar e manifestei a
suspeita de que poderia tratar-se de uma nave dos desconhecidos,
obtive permissão para continuar aqui com a Arc-Koor.
— Será
que o regente adotou a mesma opinião que você? — indagou Rhodan
num tom de verdadeiro espanto. — Acho impossível.
— Por
quê?
— O
computador pensa com muita lógica. Nunca admitiria que os
desconhecidos correm de estrela para estrela em foguetes movidos a
combustível líquido.
Um
sorriso largo cobriu o rosto de Talamon.
— Não
sei o que acredita o regente. Ele me deu ordem para examinar o
foguete, mas proceder com muita cautela. Para isso seu apoio, Rhodan,
será extremamente valioso.
Perry
lançou um olhar para a outra tela. O pequeno foguete não se deixava
perturbar: prosseguia na mesma rota, em direção a um destino
desconhecido. Rhodan acreditou ter descoberto uma coisa: esse destino
era Mirsal III,
o
mundo despovoado. O que poderia procurar lá?
— O
que vamos fazer, Talamon?
— Vamos
deter o foguete por meio de campos magnéticos...
— Sem
qualquer advertência?
— Por
que não?
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Prefiro
tentar antes estabelecer contato pelo rádio. Sabe, Talamon, não sou
da mesma opinião que você; não acredito que este foguete seja uma
nave dos desconhecidos. Minha teoria é totalmente diversa.
— Estou
curioso para saber qual é a sua...
— Dentro
de poucos minutos, poderei fornecer-lhe os cálculos precisos de rota
de meu robô de navegação. Mas basta pensar numa coisa. O foguete
está saindo do sistema solar e dirige-se a Mirsal III.
Da
velocidade reduzida conclui-se que seus ocupantes não podem ficar
dando muitas voltas, pois com isso perderiam muito tempo. Portanto o
foguete só pode vir do segundo planeta do sistema.
— Isso
não é possível! — disse Talamon com uma risada. — O segundo
planeta de Mirsal não é habitado.
— Consta
que não é habitado — retificou Rhodan em tom tranqüilo. — E
isso é uma diferença. Os arcônidas não se deram ao trabalho de
revistar todos os planetas de cada sistema, além do que, os
catálogos já são antiquados. Não devemos esquecer-nos disso. De
qualquer maneira, estou convencido de que essa nave primitiva vem de
Mirsal II.
Talamon
refletiu por algum tempo e acenou com a cabeça.
— Talvez
sua suposição seja correta, Rhodan. O que se concluiria dali?
— Várias
coisas, segundo acredito. No mínimo devemos admitir que surgiu mais
uma raça que tenta conquistar o espaço. Não sei quem são os
habitantes de Mirsal II,
mas
o certo é que se trata de seres civilizados de categoria superior.
Precisam de nosso auxílio, e não deveríamos assustá-los com um
campo magnético. Vamos chamá-los pelo rádio; talvez respondam.
Talamon
concordou. Mas antes que Rhodan pudesse transmitir as respectivas
instruções à sala de rádio, chegaram os dados da sala de
navegação.
O
computador já havia concluído sem margem de erro que a rota do
foguete correspondia à suposição de Rhodan. Vinha do segundo
planeta do sol Mirsal e procurava atingir o terceiro planeta. Já
devia estar a caminho há alguns dias e só chegaria a Mirsal III
dentro
de algumas semanas, a não ser que aumentasse a velocidade.
“Seria
um foguete explorador, que se dirigia ao planeta vizinho?”,
indagou-se Rhodan.
Não
encontrou qualquer resposta certa; ficou limitado às suposições.
Face a isso, julgou ainda mais importante entrar em contato com os
desconhecidos.
Dirigiu-se
à sala de rádio e controlou pessoalmente o trabalho dos homens que
se encontravam ali. Mas, por mais que estes se esforçassem para
obter alguma resposta às indagações irradiadas, os receptores da
Drusus permaneceram mudos. Os construtores do foguete nunca haviam
inventado as comunicações pelo rádio, ou então não queriam
entrar em comunicação com os dois gigantes surgidos de repente do
nada.
O
objeto de aço prosseguiu obstinadamente na sua trajetória.
— Não
adianta — disse Talamon, que já começava a impacientar-se. —
Precisamos pará-lo. Quer que eu os recolha a bordo, ou você prefere
cuidar disso?
Rhodan
hesitou por um momento e voltou a contemplar o misterioso objeto de
seus esforços.
A
visão recordava aquilo que lhe acontecera há sete decênios, quando
ele mesmo venceu num foguete igual a esse a distância, então
considerada incomensurável, que separava a Terra da Lua. Aquele
objeto prateado que se deslocava a menos de dois quilômetros de
distância representava uma recordação. Mas, para os que o haviam
construído, representava o início do futuro. Deviam sentir-se mais
ou menos da mesma forma que ele, Rhodan, se sentira na época em que
vira pela primeira vez a gigantesca nave esférica dos arcônidas,
que realizara um pouso de emergência na Lua. Deviam experimentar os
mesmos receios que ele experimentara naquela oportunidade.
Seus
destinos eram perfeitamente iguais.
— Cuidarei
disso — disse, respondendo à pergunta de Talamon.
Dali
a algumas horas, Marcel Rous e Debruque tiveram cem por cento de
certeza: em Mirsal III
não
havia mais nenhum habitante. O planeta havia sido abandonado tanto
pelos antigos habitantes como pelos invasores, cuja tarefa parecia
estar concluída.
Não
sofreram qualquer ataque e podiam deslocar-se à vontade pelas
cidades ou pelo campo. Encontraram um robô de combate da Drusus que
vagava ao acaso, continuando a esforçar-se para descobrir o inimigo.
Gucky
e Tama fizeram constatação idêntica à de Rous e Debruque.
Efetuaram saltos de teleportação ao acaso, e não encontraram
ninguém. Nem mesmo se depararam com as terríveis sombras. Nenhum
impulso mental havia ainda chegado ao cérebro de Gucky. Mas quando o
primeiro aconteceu, a surpresa foi enorme. Porém não houve motivo
para pânico.
O
último salto levou os dois mutantes ao cume de uma montanha
defendida por uma poderosa fortaleza, que lembrava os velhos castelos
europeus da Idade Média. Para as condições reinantes nesse
planeta, devia representar uma importantíssima fortificação. Sem
dúvida, costumava ser habitada pelos soberanos que governavam as
terras circundantes. Agora estava abandonada sob os raios dardejantes
do sol.
Gucky
manteve-se parado e rijo no meio do grande pátio do castelo e
levantou o olhar para as ameias. Tama encontrava-se a seu lado. Já
não segurava a mão de Gucky.
— Por
aqui não há ninguém — murmurou o japonês em tom inseguro. —
Não vejo nada.
Gucky
não respondeu. Dirigia sua audição para uma direção bem
definida, encostando as orelhas à cabeça. Tama teve sua atenção
despertada para o fato e lançou os olhos para a ponte movediça, que
passava por cima do fosso profundo.
— O
que houve, Gucky?
O
rato-castor respondeu sem demonstrar a menor comoção:
— Há
alguém por aqui. Não tenho certeza de quem seja, mas sei que não
se trata de um invisível. Os impulsos do desconhecido são mais
confusos, menos precisos. Acredito que seja...
— Olhe!
— exclamou Tama e apontou ligeiramente para o lado, onde uma enorme
torre formava a peça angular do bloco que constituía o castelo. —
O que é isso?
Gucky
seguiu a direção do braço. O sol caiu num objeto metálico que
produziu reflexos ofuscantes. Gucky fechou os olhos e voltou a
abri-los lentamente.
Só
se via metade do objeto, já que a outra metade estava sendo
encoberta pela torre. Tratava-se de algo metálico de formato cônico,
que jazia imóvel no chão.
— Vamos
até lá, Tama.
O
japonês seguiu-o em atitude hesitante, com a mão sobre a arma.
Antes
que atingissem a torre e conseguissem enxergar totalmente o objeto
brilhante, Gucky disse:
— É
o tenente Marcel Rous. Está revistando o castelo juntamente com
outro homem.
Gucky
concentrou-se para o salto, que se guiaria pelos impulsos mentais.
Subitamente desmaterializou-se juntamente com o japonês.
Naquele
instante Marcel Rous e Debruque estavam penetrando num enorme salão,
vazio como os demais. As armas e outros pertences estavam encostados
às paredes revestidas de madeira. Numa lareira aberta ardiam os
restos de uma fogueira. Um resto de água evaporava-se num recipiente
de cobre. Ainda há poucas horas deveria haver gente por ali. Mas
depois essas pessoas foram levadas para um local indeterminado.
Para
onde?
Marcel
Rous lançou um olhar pensativo para a mesa comprida, sobre a qual se
viam canecos e pratos de madeira. Parecia que um grupo alegre estava
celebrando uma festa, no momento em que a desgraça ocorreu.
Marcel
Rous estremeceu quando viu a luz tremeluzir entre o lugar em que se
encontrava e a extremidade da mesma. Logo notou os dois vultos que se
materializavam. Estendeu rapidamente a mão e cingiu o braço de
Debruque.
— Não
atire! É gente nossa. São mutantes.
Gucky
e Tama surgiram diante dele.
— Debruque,
o senhor deve estar vendo esse castelo como um filme do faroeste —
observou Gucky em tom contrariado, passando os olhos pelo salão
vazio. — Onde deixou sua nave, Rous?
O
tenente já se recuperara da surpresa.
— O
senhor nos encontrou muito depressa — disse para ganhar tempo. —
O planeta está deserto. Revistamos tudo e não encontramos vivalma.
— Foi
um trabalho muito bonito — elogiou o rato-castor em tom sarcástico.
— Para isso não precisaria ter fugido. O que acha que o chefe vai
dizer? E a K-7? Ah, o senhor não sabe? As coisas estão ficando cada
vez “melhores”.
— Apenas
quis ajudar meus companheiros desaparecidos — disse Marcel em tom
obstinado. — Rhodan não me pode proibir que faça isto. Bem, a K-7
desapareceu. Seria preferível que vocês me ajudassem a encontrá-la.
— Nestas
duas horas revistamos toda a superfície de Mirsal III,
mas
não vimos o menor sinal de um Girino.
— Será
que os invisíveis levaram a nave?
— Devem
ter alguma coisa a ver com isso — confirmou Gucky, e arrastou-se em
atitude resoluta em direção à saída, que levava para um largo
corredor. — Vamos dar uma olhada no castelo. Ainda espero encontrar
um mirsalense abandonado. E tenho a impressão de que por aqui há
um.
— Aqui
no castelo? — perguntou Rous em tom de dúvida. — Andamos por
toda parte.
— Será?
— perguntou Gucky e ordenou os impulsos mentais que atingiam sua
mente, e que se tornavam cada vez mais fortes. Para o rato-castor,
parecia que alguém estava despertando de um sono profundo e voltava
a pensar.
— Você
esteve nos subterrâneos? Uma vez que a parte oficial da palestra
havia chegado ao fim, Gucky voltou a usar o você, conforme era usual
no grupo.
Rous
sacudiu lentamente a cabeça e seguiu Gucky, que já se encontrava no
corredor. Desceram pelos largos degraus de pedra. Tama e Debruque iam
na retaguarda.
À
medida que desciam, a escuridão aumentava. Felizmente Marcel possuía
uma lanterna potente. Já deviam encontrar-se sob a superfície de
Mirsal III,
mas
continuavam a descer. Parecia que os degraus levavam ao centro do
planeta, ou ao menos penetravam profundamente na montanha sobre a
qual fora erguido o castelo.
Finalmente
os degraus chegaram ao fim. O corredor avançava em linha reta. O ar
era abafado, pois havia grandes dificuldades para ser renovado. Mais
adiante ouviu-se um ruído.
Gucky
continuou a avançar impassivelmente.
— Não
se preocupem; é um prisioneiro. Os invisíveis certamente não o
encontraram.
Viram-se
diante de uma porta feita de pedra.
— Saltarei
para o interior do recinto atrás desta porta — sugeriu Gucky, mas
Tama segurou-o pelo braço.
— Por
quê, Gucky? Por que não vamos logo? Deixe-me abrir a porta.
O
rato-castor desconfiou do verdadeiro motivo daquele pedido e
concordou com um gesto.
“Por
que não dar uma oportunidade para que Tama se distinga?”, pensou.
O
japonês tentou a telecinese, mas não conseguiu arrombar a fechadura
metálica. Recorreu a um meio mais rigoroso. Tama adiantou-se
ligeiramente e pegou o radiador térmico. Com um raio bem concentrado
derreteu a fechadura. O calor liberado com o fenômeno chegou até a
ser agradável naquele ambiente frio.
A
pesada tranca começou a derreter. Finalmente os restos da mesma
caíram ao chão, juntamente com alguns grampos e correntes. O
mutante suspirou aliviado; recuou e deixou que os outros passassem.
Gucky
conseguiu abrir a porta para dentro. Esta girou pesadamente nos
gonzos, e acabou cedendo.
Os
três homens olharam tensamente para o calabouço, por cima dos olhos
de Gucky.
A
princípio, não viram ninguém. As correntes encontravam-se jogadas
junto às argolas embutidas na parede, por cima dos solitários
leitos de palha. As tigelas de madeira davam mostras de que ali já
houvera prisioneiros, que viviam em condições desumanas.
— É
lá adiante — cochichou Gucky e foi caminhando à frente dos
outros.
Só
agora os outros viram.
O
calabouço não estava inteiramente vazio. Um prisioneiro ficara para
trás. Deitado sobre a palha meia apodrecida, fitou-os com os olhos
arregalados, nos quais se lia o pavor. As roupas esfarrapadas davam
mostras de que fora preso em condições dramáticas. O braço
direito numa tipóia ensangüentada confirmava essa suposição.
— Este
homem não sabe de nada — disse Gucky, que perscrutara os
pensamentos do prisioneiro. — Está aqui há algumas semanas, e
aguarda a sentença. Provavelmente os invisíveis nem chegaram a
examinar este subterrâneo. Se não o tivéssemos encontrado,
morreria de fome.
Com
o auxílio de Tama, as correntes de ferro foram arrebentadas
imediatamente. O miralense, que media um metro e meio de altura,
ficou petrificado. Talvez acreditasse que sua hora havia soado, e
qualquer reação seria inútil. Gaguejou algumas palavras. Gucky
compreendeu, mas não respondeu, embora também dispusesse de uma
reduzida capacidade hipnótica. Caso o rato-castor quisesse, não
teria maiores dificuldades em comunicar-se.
Dali
a dez minutos, o grupo estava reunido no pátio do castelo.
Espantavam os últimos resquícios do calafrio que lhes sacudia o
corpo. De repente, Marcel Rous perguntou:
— O
que vamos fazer? A nave planadora é muito pequena para levar todos.
Será que devemos separar-nos?
— Por
quê? — perguntou Gucky em tom de espanto. — Não existe um
transmissor em sua nave? Pois então. Vamos entrar em contato com
Rhodan e pedir que venha buscar-nos. Esperaremos aqui no castelo.
O
tenente parecia deprimido.
— O
que será que o chefe vai dizer quando eu voltar sem a K-7?
O
rosto de Gucky não traiu a menor emoção.
— Não
demoraremos a descobrir, tenente. Se fosse o senhor, não me
alegraria muito por rever Rhodan. Fique pensando numa boa desculpa.
Farei o contato com a Drusus.
Tama
ficou cuidando do prisioneiro libertado, enquanto Gucky e Debruque
entraram na nave auxiliar, a fim de chamar a Drusus.
*
* *
A
mão, que se dirigia ao intercomunicador, parou a meio caminho.
Rhodan não chegou a executar o movimento.
Seus
olhos viram algo que não precisava de explicação.
A
bordo da Arc-Koor, Talamon viu a mesma coisa.
A
popa do pequeno foguete, que parecia imobilizado entre os dois
gigantescos veículos esféricos, começou a desmanchar-se. De início
parecia que um tremeluzir quase invisível envolvia a ponta prateada
e obtusa. Depois esta começou a desaparecer, como se resvalasse
relutantemente para uma
outra dimensão. A
horrível transformação foi progredindo centímetro após
centímetro; mas a progressão foi contínua e ininterrupta.
Mais
uma vez os invisíveis estavam atacando.
Rhodan
levantou-se de um salto e correu para a sala de rádio.
— Talamon!
— gritou e esperou que o rosto largo do superpesado surgisse na
tela. — Você viu?
— Vi
tão bem quanto você, Rhodan. O que vamos fazer?
Com
um movimento apressado, Rhodan afastou os cabelos castanho-escuros da
testa.
— Bem
que gostaria de saber!
Surgiu
uma pequena pausa, durante a qual mais um centímetro do foguete foi
devorado pelo poder invisível. Diante do rádio, David Stern
subitamente ficou agitando os braços.
Rhodan
soltou os fones e disse:
— Um
instante, Talamon. O que houve, Stern?
— Estão
transmitindo sinais! — exclamou o operador de rádio. — Os
ocupantes do foguete estão chamando. Não consigo entender a
mensagem, mas não há a menor dúvida de que provém do foguete.
— O
senhor ouviu, Talamon — disse Rhodan, voltando a dirigir-se à
tela. — E agora? Como poderíamos protegê-los contra o ataque dos
invisíveis, se não sabemos como atacá-los?
— Vamos
dar-lhes cobertura de fogo — respondeu Talamon em tom lacônico e
zangado. — Envolvemos o pequeno foguete com um cinturão de raios
energéticos. Só se estivermos lidando com o demônio isso não dará
resultado.
— Está
certo! — respondeu Rhodan. — Permaneceremos em contato.
Sem
aguardar resposta, Rhodan correu para a sala de comando e transmitiu
as instruções que se tornavam necessárias. Menos de trinta
segundos se haviam passado desde o início do ataque desfechado pelos
invisíveis. Quase um metro da popa já havia desaparecido. Rhodan
admirou-se de que demorasse tanto, mas ficou apavorado ao notar que o
processo começava a entrar num ritmo mais acelerado. Antes que sua
ordem de abrir fogo chegasse aos postos de combate, o foguete havia
encurtado dois metros.
A
distância entre a Arc-Koor e a Drusus era inferior a três
quilômetros. Entre as duas naves pairava o pequeno foguete, que
estava sendo atacado pelos invisíveis. O inimigo medonho devia
encontrar-se entre os dois couraçados. Para não exporem suas naves
a qualquer perigo, Talamon e Rhodan subiram um pouco, a fim de que o
alvo ficasse embaixo deles.
As
baterias abriram fogo e foi um inferno...
Um
anel chamejante circulou o pequeno foguete. Este se mantinha imóvel,
como que envolto numa auréola criada pela tecnologia moderna, que
trazia coisas boas e más. Os raios de impulsos percorriam o trecho
desimpedido que os separava do alvo; não havia nada que se
interpusesse no seu caminho. Os atacantes não eram apenas
invisíveis, mas também imateriais.
Simplesmente
não
existiam, mas estavam ali.
Com
os olhos semicerrados, Rhodan contemplou o estranho fenômeno. Três
metros da popa do foguete já se haviam tornado invisíveis.
Rhodan
ativou os raios antigravitacionais, formando o respectivo campo, cuja
ação atingiria qualquer tipo de matéria. Mas as telas de
localização não registraram a presença de partícula nenhuma
entre a Drusus e o foguete. Não havia qualquer espécie de matéria
entre ambos.
— Voltei
a sentir impulsos mentais — cochichou John Marshall, que se
mantinha logo atrás de Rhodan, acompanhando o espetáculo em
silêncio. — Estes impulsos vão e voltam como as ondas do mar. Às
vezes são fortes, mas totalmente incompreensíveis. Poder-se-ia
pensar que um aparelho de distorção foi intercalado nos mesmos. Mas
isso é impossível.
— Nada
é impossível! — murmurou Rhodan e viu mais um metro da popa do
foguete sumir. — Estamos impotentes. Não podemos auxiliá-los.
Levantou-se
e dirigiu-se a David Stern. Talamon não estava na tela, mas Rhodan
viu um arcônida sentado diante do equipamento de rádio da Arc-Koor.
— Chame
Talamon! — pediu Rhodan. O arcônida confirmou com um gesto e
desapareceu. Dali a cinco segundos, o rosto do superpesado surgiu na
tela.
— Sim,
Rhodan?
— Não
adianta. Não temos nenhuma arma com a qual possamos lutar contra os
invisíveis. Não podemos auxiliar a tripulação do foguete.
— Caramba!
Que perigo isso não representa! Que seres serão estes, que nem se
defendem, mas contra os quais não podemos fazer nada?
Rhodan
deu de ombros.
— Pelo
que diz o regente de Árcon, já há dez anos o mesmo procura vencer
os invisíveis. É claro que nós não poderíamos fazê-lo num dia.
Talamon
passou a mão pela barba. Em seus olhos brilhou algo que parecia
medo, mas procurou não trair sua fraqueza.
— O
senhor tem os mutantes, Rhodan!
Havia
nesta afirmação algo que revelava ao mesmo tempo a impotência do
superpesado e dos arcônidas. E indiretamente também revelava a
impotência do gigantesco centro de computação de Árcon.
— De
que servem os mutantes, se os mesmos não conseguem ver, sentir ou
imaginar o inimigo? Como é que um teleportador pode atingir certo
alvo que nem sequer existe? Ele apenas saltará no vazio. Os
invisíveis nem sequer irradiam verdadeiros pensamentos, que
permitissem a localização goniométrica. Como é que um telecineta
pode agarrar alguma coisa que não existe? Não, Talamon; devemos
dar-nos por vencidos.
— Ora,
Rhodan! — a voz de Talamon parecia amargurada e desesperada. —
Será que vamos desistir? A existência da Via Láctea depende de
nós!
Rhodan
lançou um olhar de esguelha para a tela da sala de comando. Viu que
o inferno chamejante de energia estava fechado. Não havia mais nada
que pudesse atingir o pequeno foguete sem ser destruído. Tudo teria
de dissolver-se, com a força concentrada dos raios energéticos. E
do foguete só restavam vinte metros.
— Não,
Talamon, não vamos desistir. Apenas, perdemos a luta pelo foguete.
Os valentes astronautas de Mirsal II
tiveram
de pagar com a vida a tentativa de atingir o planeta vizinho. E nós
estamos a seu lado e nada podemos fazer por eles. São capazes de
pensar que nós somos os agressores implacáveis.
— Se
é que perceberam alguma coisa do ataque! — disse Talamon.
— Se
não tivessem percebido, não teriam emitido mensagens de socorro.
— Será
que realmente pediram socorro? — perguntou o superpesado em tom de
dúvida. — Ninguém soube interpretar os sinais. Aliás, já
silenciaram.
Rhodan
acenou lentamente com a cabeça.
— Vamos
suspender o fogo de barragem. Apenas estamos desperdiçando energia.
Rhodan
viu que os invisíveis já estavam atingindo a proa do foguete. Mais
alguns segundos, e a vítima foi totalmente devorada.
Nas
telas da Drusus, o ponto que representava o foguete ia diminuindo.
Enfim desaparecendo por completo.
O
pequeno foguete de quarenta metros de comprimento, carregado de
esperança de um futuro melhor, deixara de existir.
— Bem,
não sabemos o que aconteceu com os seres que se encontravam a bordo
do foguete. Será que realmente morreram? Ou apenas se tornaram
invisíveis aos nossos olhos e indetectáveis pelos nossos
instrumentos. Gostaria de fazer mais uma pergunta importante: Será
que este foguete é o único que decolou de Mirsal II?
— Foi
justamente por isso que mandaram que eu esperasse.
— Isso
mesmo, Talamon. Faremos uma visita a Mirsal II
e...
Alguém
o interrompeu. A voz exaltada de Sikermann veio da sala de comando.
— Localizações
em direção de Mirsal II.
Deve
ser uma frota inteira.
Rhodan
lançou um ligeiro olhar para Talamon.
— Um
momento — disse em tom indiferente. Com alguns saltos, pôs-se ao
lado de Sikermann. — O que houve? Onde?
E
ele mesmo viu.
As
telas de localização mostravam ao menos cinqüenta pontos que se
moviam lentamente. Seus tamanhos já haviam crescido o suficiente
para que pudessem ser registrados nas telas óticas. Alguns
movimentos permitiram a transformação. Em vez de uma série de
pontos, dali a alguns segundos minúsculos foguetes surgiram na tela
abaulada. Rhodan viu ao primeiro relance de olhos se tratar de
foguetes do mesmo tipo daquele que acabara de desmaterializar-se
diante de seus olhos.
— Ao
que parece, estão fugindo — murmurou. — Talvez Mirsal II
também
esteja sendo atacado pelos invisíveis. Sikermann! Prepare uma
transição ligeira em direção a Mirsal III.
Precisamos
pegar Gucky e Tama. Tentaremos encontrar a K-7. Depois voltaremos
para cá. Rápido! Transição dentro de cinco minutos.
Não
aguardou a confirmação do imediato; retornou à sala de rádio.
— Espere
aqui mesmo, Talamon! — disse; o tom de sua voz soara como uma
ordem. — Vou buscar meu pessoal que se encontra em Mirsal III
e
voltarei para cá. Falaremos em conjunto com o regente.
— Está
bem, Rhodan; esperarei.
Rhodan
suspirou aliviado. Pela primeira vez seu rosto descontraiu-se um
pouco, enquanto dizia:
— Não
se preocupe, Talamon; conseguiremos. Não levaremos dez anos para
desmascarar os invisíveis. Basta que tenhamos um pequeno ponto de
apoio; uma vez obtido este, devemos explorá-lo. Antes de mais nada,
precisaremos saber quem são eles e de onde vêm. Acho que este é o
problema mais premente. De onde vieram? De que parte da Via Láctea
são originários? Quando soubermos disso...
— O
que acontecerá se tiverem vindo de outra Via Láctea?
— Será
que o senhor realmente acredita nessa possibilidade?
— Será
que existe algo que seja impossível? — perguntou de seu turno o
superpesado.
Rhodan
preferiu não responder. Sabia perfeitamente que não existiam
impossibilidades. Estas já haviam deixado de existir.
Despediu-se
com um ligeiro movimento de cabeça e voltou para junto de Sikermann.
— Tudo
pronto?
— Faltam
trinta segundos — respondeu o imediato e falou próximo do
intercomunicador, a fim de melhor transmitir suas instruções aos
tripulantes. — Dentro de vinte e cinco segundos, realizaremos uma
transição de duas horas-luz.
Rhodan
sentou e fez um sinal para Marshall.
— Entre
imediatamente em contato com Gucky. Não podemos perder tempo.
— Mais
dez segundos — disse Sikermann em tom indiferente.
Com
um nervosismo cada vez mais intenso, Talamon fitou o espaço vazio em
que pouco antes se encontrara a imensa Drusus. Dois minutos haviam
passado desde a transição.
“Quanto
tempo levaria Rhodan para trazer seus homens que se encontravam em
Mirsal III?”,
pensou
o superpesado.
Talamon
poderia ser tudo, menos medroso. Durante milênios seu clã comboiara
as naves mercantes dos saltadores, e enfrentara muitas dificuldades.
Nos últimos decênios, o ambiente no Império tornou-se mais pacato,
muito embora a guerra ininterrupta com os piratas nunca chegasse ao
fim.
Não;
até então Talamon não conhecera o medo. Mas desde ontem sabia o
que significava o medo. O encontro com o perigo invisível
sacudira
e despertara sua mente.
O
som estridente das campainhas de alarma arrancou-o de seus pesadelos.
— Setor
18-b-9! Alarma! — gritou uma voz nos seus ouvidos. Vinha do
intercomunicador. — O engenheiro-chefe está desaparecendo...
Parecia
que o coração de Talamon queria saltar do peito. Seu rosto perdeu a
cor.
— Quem
esta falando?
— O
tenente Rab-Ort, da divisão técnica. Ele só existe da cintura para
cima.
— Quem?
— O
engenheiro-chefe Morlag. Suas pernas tornaram-se invisíveis.
Talamon
empurrou violentamente uma chave e berrou para dentro do microfone:
— Transição
a curta distância! Dentro de cinco segundos...
A
Arc-Koor desmaterializou-se.
Talamon
não se preocupou com a navegação, que ficou a cargo de seus
oficiais. Levantou-se de um salto, saiu para o corredor e
precipitou-se para o interior do elevador antigravitacional. Trinta
segundos depois da transição chegou ao setor 18-b-9 e estacou junto
a porta bem aberta.
Não
acreditava no que seus olhos viam.
O
tenente Rab-Ort estava encostado a um painel de controle, pálido
como cera e tremendo que nem vara verde. Os olhos arregalados de
pavor daquele arcônida relativamente jovem fitavam o homem deformado
e estendido no chão.
Estava
morto.
Talamon
sabia que um trecho de mais de três horas-luz o separava do local do
ataque. Os invisíveis não conseguiriam localizar tão depressa a
nova posição da Arc-Koor; era ao menos o que esperava. Portanto,
teria tempo.
O
homem estendido no chão era o engenheiro-chefe Morlag. A boca e os
olhos estavam abertos. Davam mostras do imenso pavor que se apossara
dele no último segundo de vida, e da dor cruciante que devia ter
atravessado seu corpo.
— O
que houve? — perguntou Talamon com a voz débil. — Rab-Ort,
procure controlar-se! Todos os detalhes são importantes. Qualquer
indicação poderá elucidar nossa situação.
O
superpesado sentiu que subitamente se tornava frio e objetivo. O
temor havia desaparecido; só restava a vontade férrea de dar uma
pequenina indicação a Rhodan.
— Fale
logo! Não podemos perder um segundo sequer! O que aconteceu no
momento da transição?
O
corpo do arcônida descontraiu-se. A calma que irradiava de Talamon
estendia-se a ele. Com a voz débil disse:
— Morlag
estava de pé ali, quando começou. Olhei por acaso e vi que suas
pernas se tornavam invisíveis. Ao que parecia, ele mesmo não
percebeu nada, pois continuou tranqüilamente no seu trabalho.
Tinha-se a impressão de que estava flutuando no ar, sem pés.
— Continue!
— pediu Talamon em tom impaciente. — Fale logo!
— Gritei
alguma coisa para ele. Olhou pelo corpo abaixo e soltou um grito de
pavor. Foi então que dei o alarma. Dominado pelo pânico, Morlag
corria desesperada-mente de um lado para outro. Conseguia correr,
embora suas pernas tivessem desaparecido quase por completo. Mas
parecia que seus movimentos eram pesados, como se caminhasse numa
lama invisível.
— Ah!
— exclamou Talamon.
O
cérebro do superpesado registrou a primeira indicação.
— Depois
veio a transição. Subitamente Morlag soltou um grito de dor. Vi que
a parte invisível de seu corpo fez o possível para não soltar
a
parte visível. Sim, foi isso mesmo. Os invisíveis procuraram
segurá-lo, mas a transição foi mais forte. Os invisíveis tiveram
de soltá-lo, mas isso só aconteceu dali a um segundo. Nunca me
esquecerei do grito de morte de Morlag.
O
arcônida cobriu o rosto com as mãos e pôs-se a soluçar. Talamon
aguardou pacientemente; sabia que, se estivesse no lugar dele, não
agiria de outra forma.
Além
disso, aquilo que via lhe dizia bastante. Na verdade, contava o resto
da história. Morlag, que antes media dois metros de comprimento,
tinha agora dois metros e meio.
Sem
dizer mais uma palavra, Talamon retirou-se.
Voltou
à sala de comando. Mantendo a mão pousada na alavanca de transição,
aguardava impaciente o retorno de Rhodan.
*
* *
David
Stern captou as mensagens de socorro de Debruque e, dali a cinco
minutos, localizou o castelo. A nave desembarcou um Girino, que
recolheu os homens juntamente com Gucky. E o mirsalense libertado —
provavelmente o único que restava de seu povo — foi colocado em
segurança.
Da
K-7 não se via o menor sinal. Rhodan assistira ao desaparecimento do
foguete de Mirsal II,
e
desistiu de toda esperança de reencontrar o Girino. Fora levado
pelos invisíveis.
Assim
que a manobra de recolhimento do Girino foi concluída, Stern
anunciou a nova posição da Arc-Koor. Rhodan modificou a rota de
transição e a Drusus efetuou o salto.
Suspirou
aliviado quando viu a grande esfera espacial dos arcônidas surgir a
menos de um segundo-luz. O rosto do superpesado fitou-o das telas.
Talamon
relatou o que havia acontecido. Quando soube da morte cruel do
arcônida, o rosto de Rhodan tornou-se duro e fechado. Mas não se
esqueceu de nenhum detalhe e procurou tirar suas conclusões. Sua voz
parecia embaraçada quando disse:
— Quer
dizer que uma transição só resolve a situação se é realizada em
tempo. Não devemos esquecer isto. Entre em contato com Árcon,
Talamon. Quero falar com o regente.
Talamon
fez um gesto afirmativo e transmitiu as ordens necessárias. Quando a
semi-esfera de aço surgiu nas telas da Arc-Koor e da Drusus, o rosto
de Perry parecia controlado e indiferente. A conversa ficou a cargo
de Rhodan.
— Já
tivemos o primeiro encontro com os invisíveis, regente. O planeta
Mirsal III
foi
despovoado. Não conseguimos impedi-lo. Dos nossos cálculos
cibernético-psicológicos resulta com alguma segurança que o
próximo objetivo dos desconhecidos será Mirsal II.
Pelos
catálogos de Árcon, esse planeta é desabitado. Todavia, temos
provas de que o mesmo é povoado por uma raça que se encontra nos
estágios iniciais da navegação espacial.
— Não
posso proibir que você faça o que entender — disse a voz mecânica
do computador. — Mas Talamon levará a Arc-Koor de volta para
Árcon.
— Não!
— disse Rhodan em tom áspero. — Talamon ficará comigo, para
tentarmos juntos vencer os invisíveis. Só assumirei o risco se
contar com o apoio do Império. É uma questão de princípio,
regente.
— Não
podemos arriscar levianamente uma nave como a Arc-Koor...
— Será
que você só tem uma nave? — perguntou Rhodan em tom sarcástico.
— Será que por causa de uma nave você vai arriscar a existência
da Via Láctea?
O
computador decidiu numa questão de segundos.
— Está
bem, Rhodan. A Arc-Koor ficará com você.
— Assumirei
o comando sobre a Arc-Koor, regente. Talamon ficará submetido a mim.
— Não
posso...
— Pode,
sim, regente! Talamon deseja obedecer a mim. Não é possível que a
ação seja dirigida simultaneamente por dois comandantes de igual
graduação. Só uma pessoa pode mandar, regente.
Mais
uma vez, o computador não levou mais de um segundo para realizar
todos os cálculos e anunciar o resultado.
— Sua
exigência foi aceita, Rhodan. A Arc-Koor está submetida a seu
comando. E atrás de você está todo o poderio de Árcon.
Liberte-nos da ameaça dos invisíveis, Rhodan!
— O
que acontecerá depois disso, regente?
Desta
vez, a resposta foi dada sem a menor hesitação.
— Conversaremos
sobre a união de Árcon e da Terra.
Rhodan
confirmou com um gesto. Em seus olhos surgiram um brilho quase
imperceptível, que revelava o triunfo secreto do terrano. Estava
prestes a atingir o objetivo tão ansiado. Mas antes disso seria
necessário derrotar os invisíveis.
— Voltaremos
a chamar quando deixarmos Mirsal II,
regente,
seja qual for o resultado. Assim que precisar de auxílio, avisarei.
— Basta
ordenar, Rhodan — disse a voz indiferente do computador.
Depois
a tela apagou-se.
Por
alguns segundos reinou o silêncio; a seguir, Rhodan fitou os olhos
de Talamon, nos quais se via uma expressão de expectativa. De
repente sorriu, e o superpesado também exibiu um sorriso de alívio.
— Meus
parabéns — disse Talamon.
Rhodan
ainda estava sorrindo quando respondeu:
— Vamos
aguardar para ver se realmente mereço parabéns. De qualquer
maneira, nos próximos dias dificilmente teremos motivos para
alegrar-nos. Horas difíceis virão, velho amigo. Mas a idéia de
podermos contar com o poderio de Árcon facilitará nossa tarefa.
De
repente fitou para além de Talamon, encontrando o olhar indagador de
Sikermann.
— Siga
as instruções que eu der ao meu imediato, Talamon. As coordenadas
valem para os dois.
— Iremos
diretamente para Mirsal II?
—
perguntou o superpesado.
— Sim,
diretamente. Se conseguirmos tornar visível o perigo invisível, o
mesmo já terá perdido seu aspecto apavorante. É o que devemos
tentar. Até logo mais, Talamon.
— Até
logo mais — respondeu o superpesado.
Sua
voz parecia embaraçada, embora os olhos estivessem sorrindo.
Rhodan
voltou à sala de comando. Encontrou John Marshall.
— Então,
Marshall? Como vai o mirsalense libertado?
John
Marshall deu de ombros.
— Não
sabe contar nada que nos possa interessar, pois estava encarcerado há
muitos dias. Sinto muito, chefe, mas sua história não nos fará
avançar um passo.
— Nada
sabe contar... — enfatizou Rhodan e transmitiu suas instruções a
Sikermann. — Em Mirsal II
encontraremos
as pistas de que precisamos.
Sikermann
retirou do pequeno computador de pilotagem as coordenadas já
calculadas. Estas foram transmitidas à Arc-Koor.
Gucky
escorregou do sofá e aproximou-se, caminhando com as pernas abertas.
Parou à frente de Marshall e Rhodan.
— Esse
Talamon está com um medo terrível — chilreou com a voz melosa.
Rhodan
viu que a Drusus se aproximava do segundo planeta do sistema. A
Arc-Koor seguiu-a, conforme fora combinado. Rhodan baixou a cabeça
para fitar Gucky. Seus olhos tremiam ligeiramente.
— Ah,
é? — disse, inclinando-se um pouco na direção do rato-castor. —
E você?
Gucky
espantou-se com a pergunta. Bastante embaraçado, passou a mão nos
pêlos marrom-avermelhados. Subitamente uma expressão de triunfo
surgiu em seus olhos leais. O dente roedor fez sua aparição, dando
mostras do excelente humor de seu dono.
— Eu?
— repetiu Gucky, esticando a palavra e deslocando-se em direção
ao sofá. — O que poderia estar acontecendo comigo? Afinal, não
sou nenhum superpesado.
Dito
isto, saltou para o sofá, deitou-se e não quis ver mais nada do
mundo que o rodeava.
Marshall
sorriu.
Acontece
que Rhodan já se havia esquecido de Gucky. Seus olhos estavam
pousados na tela, onde Mirsal II ainda não passava de uma
estrelinha.
Era
uma estrela para a qual os invisíveis estendiam as mãos.
*
* *
*
*
*
O
ataque do invisível
representa
um perigo que exige a união de todas as inteligências da Via
Láctea...
O
que terá acontecido com os mirsalenses? Onde está o cadete Becker?
Em
O
Regresso do Nada, próximo
título da série, as emoções continuam.

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