Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Aquele
mundo sofreu um trágico destino de
que
a Terra se livrou no último instante.
Apesar
das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o trabalho
pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo,
realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto,
pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram
insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta
e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que
teria ocorrido no ano de 1984.
Uma
nova geração de homens surgiu.
E,
da mesma forma que em outros tempos, a Terceira Potência evoluiu até
transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou,
formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e
Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se
prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou
jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No
sistema solar, não foram descobertas outras inteligências. Dessa
forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino
planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse
reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa
frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer
atacante.
Mas
Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não está
disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes
cósmicos — todos eles mutantes do célebre exército — continuam
a ser instruídos no sentido de, em quaisquer circunstâncias, manter
em sigilo sua origem terrana.
Em
Isan, os sobreviventes da guerra nuclear, confinados em abrigos
subterrâneos, estão prestes a destruir-se mutuamente. Conseguirá
Rhodan infundir-lhes novas esperanças?
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Marshall
— Chefe
do Exército de Mutantes.
Laury
— A
bela mutante.
Ivsera
— Uma
jovem cientista.
Havan
— Chefe
do abrigo subterrâneo de Fenomat.
Belal
— Chefe
do abrigo subterrâneo de Sallon.
1
Ivsera
lançou um olhar pensativo para a fileira de objetos brilhantes e
reluzentes.
“Devia
estar triste”,
pensou. “Quem
dera que tivesse um único vestido, uma calça ou um casaco!”
Mas
não havia nada disso. Nem vestido, nem calça, nem casaco. Nada além
das poucas peças de roupa que trazia no corpo.
Ivsera
não conseguia ficar triste por isso. Há dias os preciosos aparelhos
estavam parados. E há dias não eram fornecidas peças de roupa
cujas fibras orgânicas pudessem ser convertidas em alimentos
sintéticos. Há dias os ocupantes do abrigo de Fenomat viviam de um
pequeno estoque de provisões, que estaria esgotado amanhã ou
depois.
Virou-se.
Irvin estava atrás dela, encostado a uma mesa, mas com o rosto
sério.
— Está
triste? — perguntou.
Ivsera
sacudiu a cabeça.
— Não.
Já não me importo com mais nada.
— Você
devia avisar Havan, não acha?
Ivsera
lançou um olhar de perplexidade para o jovem.
— Havan?
Já está informado. Há dez dias.
Irvin
empurrou-se da mesa e aproximou-se alguns passos. Usava uma calça
muito curta, que começava abaixo do umbigo e chegava até a metade
da coxa. No abrigo de Fenomat, nenhum homem podia possuir outra roupa
além desta.
— Não
se lembrará — afirmou Irvin.
— Mas...
Irvin
levantou a mão num gesto tranqüilizador.
— Não
há nenhum mas. Acho que não preciso dizer-lhe que tipo de homem é
Havan. Ou será que preciso?
Ivsera
baixou a cabeça.
— Você
não poderia ir em meu lugar e contar-lhe? — perguntou.
Irvin
sacudiu a cabeça.
— Prefiro
não ir. Não ganharia nada com isso. Havan gritaria para mim e
explicaria que a química-chefe lhe devia prestar estas informações
pessoalmente.
Ivsera
respondeu com um suspiro:
— Você
tem razão, Irvin — levantou a cabeça, fitou o jovem e em seu
rosto surgiu um sorriso forçado. — Acho que é preferível
liquidar isto logo.
Irvin
fez um gesto afirmativo.
— Fico
torcendo por você.
Ivsera
abriu a porta e saiu para o corredor. O ar sufocante, morno e
malcheiroso tirou-lhe a respiração. Olhou para os lados e ficou
satisfeita ao notar que ninguém a via.
Caminhou
depressa os cinqüenta metros que a separavam do elevador. Chamou a
cabina, entrou e apertou o botão do pavimento inferior. A cabina
começou a movimentar-se lentamente e aos arrancões, o que era um
sinal de que as válvulas de ar comprimido já não funcionavam bem.
“Nada
está funcionando”,
pensou Ivsera. “A
renovação de ar não funciona, não se encontra nada para comer e
beber.”
Depois
balbuciou:
— Quem
dera que pudéssemos subir! E continuou pensando:
“Subir
para as paragens onde há oito anos não vive mais ninguém. Para as
áreas em que a tormenta tange nuvens de poeira radiativa e cada
pingo de chuva contém uma quantidade de veneno que daria para matar
dez pessoas. Para o lugar em que uma extensão de dez quilômetros de
rocha derretida e vitrificada assinala o ponto zero, local onde a
bomba fora arremessada quando da mais terrível guerra de todos os
tempos.”
Ivsera
procurou calcular quantas pessoas teriam sobrevivido. Seis mil haviam
procurado refúgio no abrigo de Fenomat. Após oito anos, haviam
passado a dez mil. Fenomat era a capital do país, motivo por que num
subúrbio havia outro abrigo, o abrigo de Sallon. Sua capacidade era
igual à do abrigo de Fenomat.
Em
todo o país existia um total de cinco abrigos dessa espécie.
Supondo que o inimigo dispunha de igual número no outro continente,
concluir-se-ia que cerca de cem mil pessoas teriam sobrevivido à
grande guerra de Isan.
Ivsera
pensou admirada: “Cem
mil num total de três bilhões!”
O
elevador parou. A moça abriu a porta.
Do
lado de fora, estendia-se um corredor igual àquele de que Ivsera
acabara de sair. A jovem dirigiu-se para a esquerda, passou por
algumas portas com placas e parou à frente da penúltima delas.
— Havan!
— chamou em voz alta.
Teve
de esforçar-se para pronunciar este nome. Havan era o homem que dois
dias depois da morte de Ofaran acreditara que Ivsera se ligaria a
ele. O homem que lhe causava dificuldades sempre que podia, somente
porque ela lhe dissera que pretendia guardar ao menos um ano de luto
durante o qual viveria só. Falara-lhe também que nem em dez mil
anos um homem como Havan seria capaz de apagar a imagem de Ofaran em
sua memória.
Havan
respondeu em tom mal-humorado:
— Entre!
Ivsera
abriu a porta. Ele estava sentado atrás de uma pesada mesa de
imitação de pedra e olhava para ela. Nenhum músculo de seu rosto
grosseiro e desagradável se contraiu ao reconhecê-la.
— Então,
o que houve? — perguntou.
— Estamos
sem mantimentos — respondeu Ivsera laconicamente.
Havan
empertigou-se.
— Por
que só agora fico sabendo disso? — perguntou.
Os
olhos de Ivsera estreitaram-se.
— Já
avisei a dez dias que estávamos sem matéria-prima.
Havan
respondeu em tom áspero.
— E
daí? — perguntou. — Como membro do Conselho tenho o direito de
ser mantido constantemente a par — bateu com a mão aberta sobre a
mesa. — Se não aprender a cumprir seu dever, mandarei destituí-la.
Vendo
que Havan se esforçava ao máximo para humilhá-la e ofendê-la,
Ivsera recuperou a calma.
— Não
se esqueça de que neste abrigo não cabe exclusivamente ao senhor
decidir sobre as pessoas que devem ocupar os postos — retrucou
tranqüilamente. — Temos um Conselho, e só deixarei meu cargo
quando este decidir assim.
Virou-se,
abriu a porta e saiu. Enquanto fechava a porta atrás de si, ainda
ouviu Havan gritar em tom furioso:
— Por
enquanto, temos um Conselho... Não compreendeu o resto, e nem estava
interessada em compreender.
No
elevador, encontrou-se com Killarog. Tal qual Havan, também era
membro do Conselho. Era um dos elementos mais jovens que participavam
do órgão e, na opinião de Ivsera, era um dos que conseguiram um
pouco de honra e de dignidade naqueles difíceis anos de pós-guerra.
Ivsera
ia passar com um ligeiro cumprimento.
Mas
Killarog parou e segurou-a pelo braço.
— Tem
algum problema? — perguntou em tom lacônico, mas que nem por isso
chegava a ser áspero.
Ivsera
olhou-o.
— Quem
não tem problemas numa época como esta? — perguntou.
Killarog
continuou sério, embora em seus olhos houvesse um brilho de ironia.
— Conforme
sabe — disse em tom propositadamente professoral — sou presidente
da Comissão de Questões Pessoais e Psicológicas. Se alguma coisa a
preocupa, a senhora tem o dever de me informar a respeito.
Enquanto
falava, levantou o dedo. Mas o ar sério logo o abandonou. Voltou a
segurar Ivsera pelo braço e levou-a para o corredor de onde havia
vindo.
— O
que houve, minha filha? Os mantimentos estão no fim? O Conselho sabe
disso há dez dias. Não há motivo para preocupações.
Ivsera
soltou uma risada amarga.
— Acontece
que justamente o presidente da Comissão de Alimentação e Vestuário
não sabe de nada — respondeu.
Killarog
soltou uma gargalhada.
— Havan?
Sabe, sim. Há poucas horas discutimos o assunto.
Ivsera
contou o que havia acontecido. Killarog abriu a porta de seu gabinete
e deixou que entrasse à sua frente. Convidou-a a sentar. Enquanto
caminhava em torno da mesa de imitação de pedra para acomodar-se em
sua poltrona, fez um gesto de desprezo.
— Não
acredite em nada do que Havan lhe disse — exclamou. —
Especialmente quando está falando com a senhora. Além disso, Havan
cairia no ridículo se propusesse ao Conselho a destituição da
senhora.
Contemplou
Ivsera por cima da mesa larga. O olhar tranqüilizou a moça, que
perdeu parte do ressentimento trazido desde que visitara Havan.
— Vamos
mudar de assunto — principiou Killarog de repente. — O que vamos
fazer quando não tivermos mais nada para comer?
Ivsera
fez um gesto de perplexidade.
— Se
soubesse, eu lhe diria — respondeu. — Talvez possamos sair do
abrigo e dar uma olhada lá em cima, para ver se encontramos comida.
Ivsera
proferiu estas palavras em tom casual. Por isso assustou-se quando
Killarog se levantou de repente atrás da mesa, estreitou os olhos e
perguntou:
— Quem
lhe deu esta idéia? A senhora deve saber que não é possível sair
do abrigo.
Ivsera
parecia confusa.
— Desculpe.
Não imaginei que estas palavras pudessem assustá-lo. Ninguém me
deu a idéia; foi exclusivamente minha. Acho que não é tão difícil
a gente lembrar-se desta possibilidade.
Killarog
voltou a sentar e suspirou.
— Esqueça
— murmurou. Parecia cansado e abatido. — Sou eu que lhe peço
desculpas.
Colocou
o rosto nas mãos, e olhou para Ivsera entre os dedos abertos.
— O
fato é — disse, esticando as palavras — que estivemos lá em
cima.
Ivsera
levantou-se de um salto.
— Estiveram...
Killarog
interrompeu-a com um gesto.
— Não
fale tão alto. Ninguém deve saber do caso, senão todo mundo
desejará subir. Foi por isso que fiz a pergunta. Aliás, suas
esperanças não têm fundamento.
Ivsera
quase não conseguiu respirar.
— Por
quê?
— Lá
em cima não há nada para comer. Nem uma batata cresceu nestes oito
anos na área urbana de Fenomat, e numa área de quinhentos
quilômetros em torno da mesma está tudo contaminado. Não
conseguimos ir mais longe.
— Está
certo; mas...
— Não
há nenhum mas! — Killarog levantou-se. De repente seu rosto estava
muito sério. — Quer ver uma coisa, minha filha? Uma coisa
interessante, excitante e... decepcionante?
Ivsera
respondeu com um gesto afirmativo.
— Venha
comigo.
Saíram
do gabinete. Killarog dirigiu-se para a esquerda. Passaram pelo
gabinete de Havan. Antes de chegar à última porta do corredor,
Killarog parou junto à parede cinza-clara. Pegou uma chave, enfiou-a
na fechadura e abriu a porta. Ivsera viu uma sala vazia, com uma
abertura na parede oposta. A luz tinha a mesma tonalidade fria que a
das outras salas.
— Esta
sala não é ocupada por ninguém — disse ele em voz baixa, ao ver
que Ivsera o olhava e hesitava. — Pode entrar sem susto.
Entrou.
Killarog seguiu-a e trancou cuidadosamente a porta. Atravessou a sala
e abriu outra porta.
Com
os olhos arregalados de pavor, Ivsera fitou um corredor estreito e
baixo, que evidentemente não pertencia ao abrigo propriamente dito.
As paredes eram de rocha nua, que mais para o fundo brilhava de
umidade. A cada poucos metros uma barra de metal apoiava o teto.
Uma
lufada de ar frio saiu do corredor, o que constituía uma verdadeira
bênção na atmosfera superaquecida e poluída do abrigo.
Killarog
falou em tom penetrante:
— A
senhora terá que guardar exclusivamente para si tudo que vai ver
daqui por diante. Nem pense em falar com qualquer pessoa a este
respeito. As conseqüências não lhe seriam nada agradáveis.
Ivsera
confirmou com um gesto, sem tirar os olhos do misterioso corredor.
— Irei
na frente — sugeriu Killarog.
Ivsera
deixou-o passar. Seguiu-o e fechou a porta atrás de si. Mais adiante
havia uma série de lâmpadas, cuja luz era suficiente para que se
percebessem os acidentes do terreno.
Killarog
caminhava rapidamente; Ivsera teve de esforçar-se para não ficar
para trás.
O
corredor era mais comprido do que ela acreditara. Andaram durante
quinze minutos e as lâmpadas, que ficavam adiante deles, demoraram
para se aproximarem. Quando Killarog finalmente parou junto à
primeira, haviam caminhado ao menos trinta minutos. Face à
velocidade com que ele marchava, isso significava que haviam
percorrido mais de um quilômetro.
— Pode
andar mais um pouco? — perguntou Killarog em tom preocupado.
Ivsera
fez um gesto afirmativo.
Killarog
continuou a andar. As lâmpadas tornavam-se cada vez mais numerosas.
A luz da última delas, Ivsera descobriu um vulto que parecia estar
deitado, completamente imóvel.
Killarog
pisou com força no chão. O vulto moveu-se. Ivsera viu uma cabeça
levantar-se e um par de olhos desconfiados fitar os recém-chegados.
Ivsera
não se lembrava de ter visto o homem diante do qual Killarog estava
parado. O que chamava a atenção era que vestia roupa completa, e
não apenas a calça curta que os homens deveriam usar.
— Alguma
novidade, Thér? — perguntou Killarog.
Thér
fez que sim.
— Sim.
Estão avançando.
— Quanto
tempo ainda nos resta?
Thér
ergueu os ombros e abriu as mãos.
— Uns
dois ou três dias. O que esta moça veio fazer aqui?
— Quero
que esteja a par de tudo — respondeu Killarog.
Ivsera
recuperou-se do espanto e perguntou:
— Por
que este homem anda por aí com a roupa completa, Killarog? As peças
que carrega inutilmente dariam para produzir ao menos cinco refeições
completas.
Thér
fitou-a perplexo. Killarog soltou uma gargalhada.
— Ela
é nossa nutricionista — explicou, dirigindo-se a Thér. — A
maior parte do que você comeu nestes últimos anos saiu de suas
retortas.
Dirigindo-se
a Ivsera, prosseguiu:
— Sabe
lá o que aconteceria a Thér se tivesse de ficar deitado por aí
quase nu?
— Bem
— disse Ivsera em tom de espanto — ele costuma ficar deitado por
aí?
Killarog
fez que sim.
— Ele
e dois outros. Cada um fica dez horas por dia. Não é nada fácil
agüentar esse tempo.
— O
que ficam fazendo por aqui?
Killarog
apontou para o chão.
— Mostre,
Thér — ordenou.
Thér
levantou-se. Só agora Ivsera viu que havia vários instrumentos
espalhados em torno dele. Viu caixinhas negras com chaves, botões e
escalas.
Dali
a poucos metros o corredor chegava ao fim.
Thér
prendeu um cabo fino a um dos instrumentos. Na outra extremidade do
fio havia um funil igual aos que Ivsera costumava ver nos telefones.
Thér colocou o aparelho propriamente dito no ângulo esquerdo
formado pelo chão e pela parede. Ivsera notou que a caixinha
descansava sobre finos suportes metálicos.
Thér
entregou-lhe o cabo com o funil.
— Ouça
— pediu.
Um
tanto medrosa, Ivsera comprimiu o funil contra o ouvido. Ouviu um
ruído monótono. Depois de alguns minutos ainda não havia ouvido
outra coisa. Fez menção de devolver o funil a Thér. Mas naquele
instante escutou um ribombo surdo que parecia provir de um tambor
enorme e muito distante. O ruído cresceu, chegou ao ponto máximo e
foi diminuindo.
Ivsera
ficou muito assustada. Pretendia indagar sobre a origem do som,
quando voltou a ouvi-lo.
— Ah!
— disse Thér com uma risada furiosa. — Nem precisamos mais do
amplificador. Ouço sem ele.
Ivsera
tirou o funil do ouvido e perguntou:
— O
que é isso?
Killarog
respondeu com outra pergunta:
— Quando
irrompeu a guerra, a senhora ainda era uma menina. Sabe embaixo de
que área de Fenomat nos encontramos?
Ivsera
procurou recordar o que sabia a respeito do abrigo. A entrada
principal ficava sob o centro da cidade, mas as galerias avançavam
vários quilômetros, estendendo-se às vezes para além dos limites
da cidade.
As
galerias principais começavam no centro e corriam em direção ao
norte, leste, sul e oeste. O trecho em que viviam os membros do
Conselho pertencia à galeria principal do leste.
— Acho
que estamos mais ou menos embaixo do subúrbio de Sallon — disse
com a voz tímida.
Killarog
confirmou com um gesto.
— Exatamente.
O ponto em que nos encontramos fica a pouco mais de trezentos metros
da extremidade oeste das galerias do abrigo de Sallon.
Ivsera
procurou compreender as relações que poderiam existir entre esse
fato e o tambor que acabara de ouvir.
— Conforme
já disse — prosseguiu Killarog — estivemos lá em cima com
alguns homens e demos uma olhada pelos arredores. Encontramo-nos com
um grupo de gente estranha. Talvez sejam de Sallon, mas também é
possível que tenham vindo de mais longe. De qualquer maneira,
começaram a atirar assim que nos viram. Tivemos de fugir, pois as
armas de que dispúnhamos eram insuficientes.
Ivsera
parecia assustada.
— E
aqui — disse, apontando para a parede da esquerda — os homens de
Sallon estão tentando atingir o abrigo de Fenomat por baixo. Thér
afirma que dispomos de apenas dois ou três dias para preparar-nos
para visita deles. É o tempo que levarão para chegar aqui.
*
* *
Ivsera
não demorou a compreender. Em sua memória, os habitantes do abrigo
de Sallon continuavam a ser o que haviam sido antes da guerra:
cidadãos comuns que não quiseram a batalha, mas que se sentiam
gratos pelo abrigo que lhes dava proteção.
Killarog
afirmara não haver dúvida de que os estranhos com os quais seu
grupo se havia defrontado eram pessoas vindas de Sallon. Em sua
opinião, numa situação como aquela em que se encontravam, ninguém
se arriscaria a ficar na superfície por mais tempo que o
absolutamente necessário, e o abrigo mais próximo ficava a quase
dois mil quilômetros.
Por
outro lado, os abalos eram evidentes. Thér e seus dois companheiros
os vinham observando há várias semanas. Os instrumentos
ultra-sensíveis registravam as ondas de pressão, certamente
provocadas por explosões. Vinham da direção do abrigo de Sallon e,
no correr das semanas, haviam avançado até as imediações dos
corredores mais afastados do abrigo de Fenomat.
Ivsera
ainda conservou alguma esperança de que as intenções das pessoas
de Sallon talvez não fossem hostis, mas Killarog disse em tom áspero
e lacônico:
— Não
diga isso! É claro que apenas pretendem roubar nossos mantimentos.
Se não encontrarem nada, talvez até resolvam nos comer.
*
* *
Os
prognósticos de Killarog sobre o confronto que se aproximava eram
sombrios.
— O
grupo com que nossos homens se encontraram estava tão bem armado que
parecia um destacamento da polícia secreta. Provavelmente esvaziaram
o grande depósito de Sallon Norte. Enquanto isso, nós possuímos um
total de cinqüenta armas portáteis. Na maior parte trata-se de
pistolas antiquadas. E a munição é muito escassa. Se os habitantes
de Sallon conseguirem introduzir mais de vinte homens em nossas
galerias, sua cabeça-de-ponte estará praticamente garantida. Quanto
ao resto, não adiantará nada ficar pensando.
O
que impressionou Ivsera foi a resposta que Killarog lhe deu quando
perguntou sobre a finalidade da construção da galeria em que Thér
se encontrava de vigia:
— Será
que a senhora ainda não adivinhou? É que nós pretendíamos roubar
os mantimentos dos ocupantes do abrigo de Sallon. Infelizmente
tivemos o azar de que eles não demoraram em ter a mesma idéia, e,
além disso, estão mais bem armados. Mas — levantou a mão e de
repente recuperou o bom humor — se conseguirmos rechaçá-los e
persegui-los, economizaremos um bom tempo de trabalho. E, nesse caso,
os homens de Sallon terão construído uma galeria para nós.
Ela
lançou-lhe um olhar apavorado. Ele riu com uma expressão de
amargura e exclamou:
— A
senhora já devia ter compreendido. Oito anos depois da última
guerra travada em Isan, só nos resta devorarmos ou sermos devorados.
Estas palavras podem ser interpretadas literalmente.
2
Killarog
tinha um plano.
Era
um plano ousado, que envolvia riscos consideráveis. Por isso
precisou de toda a força de persuasão para levar o Conselho a
aceitar a idéia.
O
Conselho concedeu-lhe oito homens que o acompanhariam, nove trajes à
prova de radiações e quase metade das armas do abrigo de Fenomat.
Além disso, segundo as instruções de Killarog, três homens foram
destacados para montar guarda na comporta superior do abrigo. Os três
homens e o grupo de Killarog receberam um radiotransmissor portátil
que dispunha de seu próprio suprimento de energia.
O
objetivo de Killarog era a comporta de superfície do abrigo de
Sallon. Hora do ataque: o momento em que recebesse comunicação pelo
rádio de que os homens de Sallon estavam penetrando na parte
inferior do abrigo de Fenomat.
O
Conselho impôs uma condição a Killarog: se notasse que sua missão
não seria bem sucedida, devia voltar imediatamente. Nesse caso, suas
armas seriam mais necessárias em Fenomat que na comporta de
superfície de Sallon.
Killarog
escolheu os homens que o acompanhariam. Mesmo sendo muito jovem,
gozava de grande prestígio em todos os setores do abrigo. Apesar da
indolência que costumava caracterizar os sobreviventes da grande
guerra de Isan, todos se mostraram dispostos a acompanhá-lo na
missão perigosa.
Três
horas depois da sessão do Conselho, Killarog havia reunido seus
homens. Mas, meia hora antes, Ivsera soubera do plano por intermédio
de Irvin, que era um dos oito escolhidos.
Procurou
Killarog e conseguiu convencê-lo, depois de algum tempo de
discussão, de que teria de acompanhá-lo na expedição, em
substituição a um dos homens. Seu argumento principal foi o
seguinte: se conseguissem penetrar no abrigo de Sallon, deveria haver
alguém capaz de identificar imediatamente tudo que fosse comestível.
Se
Irvin não tivesse intervindo a seu favor, era bem possível que,
apesar do argumento, Ivsera não tivesse conseguido seu intento.
— Leve-a,
Killarog! — recomendou. — Senão essa moça nunca mais terá
sossego. Desisto em favor dela.
Irvin
podia dar-se ao luxo de um gesto deste, pois ele era conhecido como
uma exceção humana ao ambiente de indolência e passividade
generalizada.
Killarog
acabou por concordar. Meio zangado, meio divertido disse:
— Minha
filha, desconfio de que a senhora ainda carrega certas idéias
românticas sobre as regras humanitárias e sobre as qualidades
adoráveis daquela gentinha. Se levar um tiro enquanto estiver
acenando com uma bandeira branca para os ocupantes de Sallon,
atribuirei a infelicidade à sua falta de instinto.
Ivsera
não revelou o verdadeiro motivo de seu gesto. Na verdade, estava
cansada de se manter inativa no abrigo e assistir impassível ao que
acontecia. Era de opinião que, qualquer pessoa que ainda dispusesse
de um pouco de energia, tinha a obrigação de fazer alguma coisa.
Não era necessário que fosse uma coisa bem sucedida. Bastava que a
ação infundisse a convicção de que os sobreviventes da grande
guerra não seriam simples joguetes do destino.
*
* *
Era
noite quando Killarog e seu grupo, depois de uma hora de viagem de
elevador através do poço de dois quilômetros de altura, chegaram à
comporta de superfície do abrigo de Fenomat.
No
interior da comporta, colocaram os trajes à prova de radiações.
Killarog mandou realizar os controles, e Ivsera viu um bom sinal no
fato de que tudo deu certo na primeira verificação.
Ele
fez questão de cercar a saída da comporta de modo áspero e com
ordens proferidas em tom rude, a fim de reprimir qualquer laivo de
sentimentalismo. Para cinco pessoas do grupo de nove era a primeira
vez que nestes oito anos voltavam a pisar na superfície de seu mundo
natal, Isan.
Ao
oeste, pouco acima da linha do horizonte, Ivsera viu a gigantesca
bola vermelha do sol. Procurou recordar, para verificar se Isan havia
mudado depois da guerra. Mas o sol Vilan continuava grande e vermelho
como sempre. Vários pontos da superfície pareciam apresentar
cicatrizes, e a bola vermelha espalhava mais calor que claridade.
O
céu vermelho-escuro estava salpicado de estrelas. Ivsera viu algumas
nebulosas tênues. Sabia que essas nebulosas eram formadas por
estrelas, e que juntamente com estas formavam um sistema designado
pelos astrônomos como a Via Nebulosa.
Ivsera
mal conseguiu controlar o nervosismo. Apelou para a razão e procurou
convencer-se de que mesmo depois de oito anos de vida subterrânea
não havia nada de extraordinário em ver algumas estrelas.
Não
conseguiu. Que nem uma sonâmbula tropeçou pelo deserto de escombros
no qual as bombas e o vento haviam transformado sua altiva cidade,
Fenomat. Killarog teve de adverti-la três vezes para que controlasse
seus sentimentos e se concentrasse na tarefa a cumprir.
*
* *
A
caminhada do poço principal até a comporta de superfície de Sallon
era de oito quilômetros. Há oito anos essa distância teria sido
percorrida num ônibus ou táxi, e não se gastariam mais que poucos
minutos no percurso. Mas, no terreno perigoso e inóspito e com os
pesados trajes espaciais, a caminhada consumiria um dia.
Depois
de quatro horas de marcha, Killarog ordenou o primeiro descanso.
Encontravam-se num setor do deserto de destroços em que, por
estranho que pudesse parecer, o nível de radiações correspondia
apenas à metade dos valores registrados nos demais pontos. Ninguém
sabia explicar o fenômeno, mas de qualquer maneira o lugar era ideal
para um descanso.
Na
linha do horizonte, ao sul, surgiu o primeiro alvor do novo dia. A
cor mortiça de Vilan e a torrente poderosa de luz azul que se
derramava sobre o horizonte, vinda do sul, misturavam-se no céu,
formando uma tonalidade estranha. As estrelas foram empalidecendo sob
a luz de Vilanet, o pequeno sol azul-claro que era a verdadeira
estrela central de Isan.
— Percorremos
aproximadamente metade do caminho — disse Killarog. — Daqui para
diante, teremos de ficar com os olhos bem abertos. Pelo que ouvimos,
devemos concluir que os homens de Sallon não são bobos. É bem
possível que lhes ocorra a idéia de que poderíamos atacá-los por
cima.
Enquanto
a claridade aumentava, Ivsera procurou descobrir em que parte da
antiga cidade se encontravam. Sabia que a meio caminho entre o centro
e o subúrbio de Sallon ficava a rua com as lojas mais caras e
sofisticadas, onde sua mãe costumava fazer compras duas vezes por
ano: no aniversário de seu casamento e no aniversário da própria
Ivsera. Sabia que por ali houvera casas largas, maciças e antigas.
Agora
nem sequer se viam os alicerces. A cidade fora aplainada ao nível do
solo. Blocos de pedra estavam espalhados por todos os lados, mas não
se poderia dizer se eram formados de rocha natural ou se provinham
das paredes das construções.
O
chão estava coberto de capim. Mas que capim! Os talos, que
antigamente eram lindos e esguios, passaram a ser grossos e
desajeitados. Atingiam metade da altura de um homem e formavam
verdadeiras copas.
“É
um fenômeno de mutação”,
pensou Ivsera. “As
radiações produziram alterações na massa genética do capim.”
Não
apenas do mato. Pouco antes de iniciarem a marcha, viram um besouro
gigantesco rastejar entre o capim sobre as longas pernas. Conseguiram
vê-lo, embora o capim lhes chegasse até o umbigo. É que as pernas
do besouro elevavam o corpo alongado e esguio a mais de um metro de
altura, embora estivessem dobradas duas vezes, à maneira dos
insetos. O corpo tinha um metro de comprimento.
O
maior besouro, que existia em Isan antes da guerra, mal poderia
cobrir a palma da mão.
Um
dos homens levantou a arma para matar o monstro repugnante. Mas
Killarog bateu sobre o cano e gritou:
— Pare
com isso, seu idiota! Quer revelar nossa presença com o barulho?
Partindo
do local de descanso, Killarog tomou a direção nordeste. Não
pretendia dirigir-se diretamente a Sallon, porque o risco lhe parecia
ser muito grande. Fez um desvio de duas horas para atingir o abrigo
de Sallon de um lado em que não os esperariam.
Até
então o rádio portátil se mantivera mudo, com exceção da
mensagem ligeira transmitida por Thér:
— Agora
já os ouvimos perfeitamente sem o amplificador. Vocês dispõem no
máximo de cinco ou seis horas. Depois disso estarão aqui. Pelo que
calculo, sairão em algum ponto no pavimento inferior.
Ivsera
lembrou-se de Havan. A idéia de que, se não conseguisse fugir,
seria uma das primeiras pessoas capturadas pelos homens de Sallon,
não a deixava nem um pouco satisfeita, apesar do velho ressentimento
que nutria por aquele homem.
Após
a mensagem de Thér, Killarog insistiu em que se apressassem.
Perguntou várias vezes sobre o bem-estar de Ivsera. Esta, depois que
decidira manobrar seu próprio destino, já não conhecia o cansaço.
Vilanet
subiu pelo céu branco e espalhou um calor que se tornou ainda mais
insuportável, pois, na planície coberta de capim em que antigamente
ficara a cidade, não havia uma única sombra.
Mais
ou menos pelas nove da manhã, depois de outro descanso intercalado
na marcha, Killarog impôs o silêncio total. Era verdade que os
transmissores e receptores embutidos nos capacetes à prova de
radiações funcionavam numa freqüência extremamente elevada. Só
por milagre os homens de Sallon poderiam descobrir essa freqüência
e captar as mensagens. Mas essa possibilidade não podia ser
desprezada.
Killarog
mandou que os membros do grupo só se comunicassem para transmitir
informações de extraordinária importância. Mesmo nesse caso,
deviam evitar na medida do possível a utilização do rádio,
comunicando-se diretamente de capacete a capacete.
O
terreno tornou-se uma ladeira. Ivsera lembrou-se de que o subúrbio
de Sallon ficara na encosta sudoeste de uma colina.
“Ainda
bem que as bombas não conseguiram arrasar as montanhas”,
pensou satisfeita.
Pelo
meio-dia atingiram a linha da cumeeira da colina, sem que tivessem
visto uma única pessoa do abrigo de Sallon, fato que deixou Killarog
muito satisfeito. Já Ivsera ficou desconfiada. Mas, como em relação
à tática do combate de guerrilhas confiasse mais em Killarog que em
si mesma, ficou calada.
A
entrada e, portanto, a comporta de superfície do abrigo de Sallon
era na encosta nordeste da colina. Ao contrário dos demais abrigos,
no de Sallon as entradas secundárias não desciam na vertical em
direção aos corredores do abrigo, mas atravessavam a colina em
sentido horizontal.
A
escotilha de superfície de Sallon era assinalada por uma espécie de
construção de pedra, que se levantava solitária em meio ao
tremeluzir do meio-dia de Vilanet. O ar tremulava sob os raios de
sol. O terreno tinha o aspecto de uma terra que ficara abandonada há
oito anos. No flanco nordeste da colina, o capim era amarelo e um
pouco mais baixo do que o que haviam encontrado na área urbana. A
leste, junto à linha do horizonte, o rio Ovial seguia sinuoso. As
florestas que antigamente haviam marcado seu curso tinham
desaparecido. A estepe estendia-se até onde a vista alcançava.
Killarog
não se interessou pelo singular panorama. Através da lâmina do
visor de seu capacete, Ivsera notou que os olhos dele brilharam
quando viu aquela construção de superfície de Sallon.
— Chegamos!
— disse em voz tão alta que Ivsera, deitada a seu lado, ouviu as
palavras que tinham de atravessar dois capacetes. — Assim que
recebermos o sinal de Thér, daremos nosso golpe.
*
* *
Há
poucas horas num outro lugar de Isan, num ponto não muito distante
de Fenomat, uma nave espacial elíptica pousara em meio à ampla
estepe coberta de capim.
A
tripulação da nave constatou que o solo, o ar e os mares do planeta
continham uma dose perigosa de radiatividade. Em vários pontos da
superfície, notaram vestígios de aglomerações humanas e
descobriram que esse mundo havia sido destruído por uma guerra
nuclear, e que os habitantes deviam ter sido quase todos eliminados.
A
nave elíptica havia pousado num ponto situado numa pequena área em
que a dose de emanações radiativas chegava apenas a um décimo da
média do planeta. Era bem verdade que os quatro tripulantes possuíam
equipamentos protetores de radiações muito mais aperfeiçoados que,
por exemplo, os de Killarog e seu grupo, movendo-se a quinze
quilômetros dali, sem que tivessem notado a presença da nave.
Acontece que o comandante do veículo espacial tinha por hábito
guiar-se em suas decisões pelo princípio da maior segurança e do
menor risco. E, em virtude desse princípio, não pousaria numa área
em que a dose de radiações chegasse a cem rens
por hora, se depois de uma ligeira busca encontraria outra área em
que essa dose estava reduzida pelo quociente dez.
A
nave, que media trinta e cinco por vinte metros, possuía
equipamentos tão sofisticados que, se alguém perguntasse a Killarog
ou a Ivsera, estes só poderiam ter respondido que nunca acreditariam
que uma coisa dessas jamais poderia existir na história das
inteligências galácticas.
Havia
um aparelho que não se incluía nesse equipamento sofisticado,
embora fosse bastante complicado e por certo teria provocado a
admiração de qualquer técnico em alta freqüência de Isan. Era um
localizador de impulsos, que classificava automaticamente segundo a
respectiva freqüência qualquer transmissão captada pelo receptor
acoplado ao aparelho, e ainda fornecia dados à calculadora
eletrônica que, em conformidade com os mesmos, decifrava a
transmissão captada. Caso o material verbal fosse suficiente,
traduzia a mensagem de uma língua estranha para aquela dos
tripulantes da nave.
Dessa
forma, as comunicações entre Killarog e os membros de seu grupo
haviam sido registradas e traduzidas. Constatou-se que a língua de
Isan — ou ao menos a que acabavam de ouvir — apresentava forte
semelhança com outra que, embora não fosse a dos tripulantes,
era-lhes bastante conhecida.
O
comandante da nave aproveitou o tempo de que acreditava poder dispor
para, mediante um aparelho que pertencia à classe das maravilhas da
técnica, aperfeiçoar seus conhecimentos e, principalmente,
familiarizar-se com a língua usada por Killarog e pelos membros de
seu grupo.
*
* *
As
horas passaram numa lentidão insuportável. Vez por outra, Ivsera
percebia que os olhos, dirigidos ininterruptamente sobre a construção
de pedra que dava acesso à comporta de superfície, começaram a
iludi-la, fazendo crer ora que esta se levantava no ar, ora que
afundava no chão.
A
única coisa agradável que aconteceu durante a longa espera foi que
o calor ia diminuindo. Vilanet havia passado pelo zênite e
deslocou-se em direção ao norte. O capim começou a proporcionar um
pouco de sombra.
O
fato de que nem uma única pessoa do abrigo de Sallon apareceu junto
à comporta deixou Ivsera desconfiada. Transmitiu suas suspeitas a
Killarog e, para ser entendida melhor, assumiu um risco, levantando o
capacete.
Killarog
repeliu seus temores com um gesto e sorriu.
— Não
tenha medo, minha filha — disse. — Nas proximidades da comporta
de Fenomat não se viu uma única pessoa num espaço de oito anos.
Por que teríamos de encontrar alguém em Sallon, justamente durante
as poucas horas que estamos aqui?
Ivsera
esteve a ponto de responder que não havia a menor dúvida de que os
ocupantes do abrigo de Sallon eram muito mais ativos que os de
Fenomat. Afinal, há poucos dias um grupo de Fenomat teve que fugir
de certo número de homens de Sallon, bem armados. Sallon não podia
ser comparado com Fenomat.
Mas
preferiu ficar calada. Ainda se sentia constrangida em dar opinião
sobre assuntos que pertenciam exclusivamente aos homens.
Vilanet
baixou em direção ao horizonte e a esfera vermelha de Vilan subiu,
de início fraca, mas tornando-se cada vez mais nítida. As estrelas
começaram a brilhar, e seu número crescia a cada segundo que
passava, até que cobriram o céu noturno como um tecido fino.
Finalmente
Thér deu o sinal. Ivsera ouviu-lhe a voz exaltada no receptor:
— Conseguiram
passar. Saíram no pavimento inferior, conforme esperávamos. Estão
armados até os dentes. Não sabemos por quanto tempo iremos
detê-los. Vejam o que podem fazer por Fenomat.
Essas
palavras não eram muito encorajadoras, mas Killarog não parecia
incomodar-se com isso. Levantou-se e gritou para que todos ouvissem,
mesmo sem o rádio:
— Vamos,
rapazes!
Tropeçavam
mais do que corriam pela suave encosta abaixo. A construção da
comporta de superfície ergueu-se em meio à escuridão. Durante as
últimas horas, já a haviam perdido de vista.
A
edificação não tinha janelas. Não havia meio de verificar se
estava ocupada, ou se realmente o pessoal do abrigo de Sallon não
tinha a menor idéia do que o esperava.
Killarog
não perdeu tempo em verificar. Ivsera achava que isso era uma
leviandade incompreensível. Colocou cargas explosivas de ambos os
lados da pesada porta metálica e, na ânsia de lutar, recuou apenas
alguns passos antes que as mesmas explodissem.
A
porta foi empurrada para dentro. Em meio ao estrondo das explosões,
ouviu-se o ruído das pesadas peças de aço que batiam no chão.
Killarog
avançou em meio à fumaça, com a arma apontada para a frente.
Voltou a ligar o transmissor de capacete e gritou:
— Vamos!
A comporta está vazia! Avante!
Aquele
recinto era menor que o de Fenomat. A escotilha foi aberta sem
dificuldade. Killarog entrou apressado. Pediu aos que vinham por
último que voltassem a fechar a porta.
Killarog
soltou um grito de triunfo quando olhou para a fileira de botões do
elevador e viu que o mesmo se encontrava na altura da comporta.
“Era
o que bastava para abrir a porta que fica do lado oposto do recinto”,
pensou.
Ivsera
viu-o pegar a chave.
— Espere
aí! — gritou. — Pense um pouco antes de precipitar-se na
desgraça. Isto só pode ser uma armadilha. Estivemos aqui o dia todo
e não vimos uma única pessoa; entretanto o elevador está aqui em
cima.
— Que
nada! — interrompeu Killarog em tom áspero. — Não me faça
perder tempo, moça. Daqui a alguns minutos, o abrigo será nosso.
Moveu
a chave e a porta do elevador deslizou para o lado.
Killarog
esteve a ponto de precipitar-se para o interior. Mas, depois de ter
dado um passo, parou como se esbarrasse numa muralha invisível.
Soltou
um grito rouco, levantou a pistola destravada que trazia na mão, e
disparou contra um grupo de homens que se encontravam no elevador, já
com as armas apontadas.
Não
foi longe. Estes logo responderam ao fogo, e Killarog caiu sob as
rajadas cruzadas das pistolas automáticas.
Os
tiros disparados naquele recinto apertado feriram mais cinco dos
homens de Fenomat. Ivsera viu-os cair. Os dois últimos de seus
acompanhantes que permaneceram de pé atiraram as armas ao chão e,
gritando, correram para junto da parede.
Ivsera
ficou parada, com o cano da arma apontada para o chão.
— Parem,
seus idiotas! — gritou em tom furioso para os homens de Sallon. —
Já foi derramado muito sangue. Nós nos entregamos.
Naquele
instante, ouviu a escotilha externa da comporta abrir-se. Virou-se e
viu do lado de fora um segundo grupo de homens de Sallon.
— Tudo
em ordem? — perguntou o que se encontrava à frente.
— Quase
tudo — respondeu um dos homens que se achavam no elevador. — Este
idiota matou Ifers e feriu gravemente Holran. Mas a moça diz que
quer entregar-se.
— A
moça? — disse o homem que estava junto à escotilha e soltou uma
risada. — Será que em Fenomat não existem mais homens?
Ivsera
não respondeu. Sentiu-se tomada de cólera. A cólera dirigia-se
contra Killarog, que com sua cega impetuosidade provocara o desastre.
— Quantos
homens de Fenomat ainda vêm atrás de você? — perguntaram a
Ivsera.
— Nenhum
— respondeu.
— Não
acredito.
— Pois
então não acredite.
— Escute
aí, moça, se você acredita...
— Cale-se!
— ordenou uma voz áspera. — A moça será interrogada lá
embaixo. Vocês ficarão lá fora, até que tenhamos certeza de que
mais ninguém vem de Fenomat. A demora não será muita. Garok avisa
que está progredindo bem.
“Garok”,
pensou Ivsera, “deve
ser o homem que dirige o ataque subterrâneo contra Fenomat.”
Tudo
indicava que quem falara por último na cabina do elevador era o
chefe da turma de superfície. Os outros obedeceram imediatamente. A
entrada da comporta voltou a ser trancada. O segundo grupo retornou
aos lugares de antes.
“— O
capim constitui um ótimo abrigo”
— dissera Killarog.
“Tanto
para os homens de Sallon como para nós”,
completou Ivsera, agora em pensamento.
Killarog
foi arrastado para dentro da cabina, tal qual os feridos. Dois destes
já estavam imóveis. Os dois homens não feridos, que haviam atirado
fora suas armas, foram trazidos atrás dos feridos.
— Entregue
sua arma — disse o chefe do grupo, dirigindo-se a Ivsera.
A
jovem obedeceu sem dizer uma palavra. O homem estendeu a mão. Mas
Ivsera deixou a arma cair ao chão.
Ficou
espantada ao ouvir que o homem ria baixinho.
— É
orgulhosa, hein, moça? Vocês não têm motivo para isso.
Fitou-o
pela primeira vez. Pelo visor do capacete viu um rosto inteligente,
que já não era muito jovem. Ao que parecia, o homem havia perdido
seu sorriso gentil sob a força das circunstâncias.
Ivsera
achou que devia dar uma resposta.
— Se
tivessem feito o que eu queria — disse — talvez a esta hora
teríamos algum motivo para orgulhar-nos.
O
homem fez um gesto sério, mas amável. Depois de fechar a porta do
elevador, comprimiu o botão correspondente a um dos pavimentes
inferiores.
*
* *
O
elevador levou uma hora para chegar ao destino. Por isso Ivsera teve
tempo para refletir sobre sua situação.
Quanto
mais o elevador descia, mais improvável se tornava que Thér ainda
conseguisse alcançá-la com seu transmissor de potência reduzida.
Não mais dera qualquer aviso, e Ivsera não teve a menor dúvida em
ver nisso um mau sinal.
Lembrou-se
do que Killarog lhe dissera sobre as armas à disposição dos homens
de Sallon, em comparação com as que se encontravam no abrigo de
Fenomat. Notou que os homens à sua frente eram mais ativos e
corajosos do que aqueles conhecidos em Fenomat.
Seus
rostos estavam marcados pela fome. Talvez fosse isso que lhes dava
coragem.
Na
metade do caminho, os trajes à prova de radiações foram tirados do
corpo. Ivsera suspirou aliviada quando deixou cair a pesada
vestimenta ombro abaixo.
Ficou
espantada ao notar que os homens de Sallon usavam roupas melhores que
os de Fenomat. Até chegavam a usar mais vestimentas que ela, uma
mulher.
O
homem com quem havia falado começou a falar.
— Meu
nome é Feriar — disse com uma ligeira mesura. — Sinto muito que
tenha sido atingida tão cruelmente pelo destino. Quanto a mim,
apenas pretendia aprisioná-los. Esse homem — apontou para Killarog
— é o único culpado.
Colocara
tamanha ênfase na expressão “quanto
a mim”,
que Ivsera teve sua atenção despertada para o fato. A essa hora já
recuperara a naturalidade.
— Quanto
ao senhor? Quem mais poderia estar ligado a isso?
Feriar
soltou uma risada triste.
— Sou
apenas uma pequena engrenagem do mecanismo. Com o correr dos anos, os
dentes desta engrenagem se desgastaram. Por isso muita gente já se
pergunta se essa engrenagem não deveria ser retirada do mecanismo
para ser substituída por outra, de dentes mais afiados.
Lançou
um olhar indagador para Ivsera, a fim de verificar se havia entendido
a alegoria. Ivsera fez um gesto afirmativo e Feriar prosseguiu em voz
baixa:
— Prepare-se.
Em Sallon, quanto maiores as engrenagens, mais afiados são os
dentes. Nem sempre as coisas serão tão amenas como estão sendo
comigo. Terei de entregá-la assim que chegarmos lá embaixo.
Ivsera
agradeceu com um sorriso. Depois sentou num canto do elevador, sobre
seu traje especial, a fim de suportar melhor o restante da viagem.
Olhava fixamente para a frente. Estava mergulhada em profundas
reflexões.
Um
acordo tácito parecia ter sido estabelecido entre ela e Feriar.
Este, que durante quarenta e cinco minutos não falara com seus
subordinados, agora parecia não ter outra coisa a fazer senão
dar-lhes tudo quanto era ordem, e gritar-lhes quando não as
executavam com a necessária rapidez.
O
elevador continuou a descer.
Ivsera
sondou a situação. O braço estendido de Killarog com a pistola na
mão direita chegava perto de seus pés. Provavelmente não seria
fácil abrir os dedos crispados para tirar-lhe a arma. Além disso,
alguém poderia desconfiar se esta desaparecesse de repente.
À
direita de Ivsera, estava deitado um dos feridos. Achava-se com os
olhos fechados e respirava debilmente. Não conseguira tirar a
pistola do coldre. Encontrava-se pendurada no suporte de plástico na
altura da junção do cano com o cabo.
Depois
de algum tempo, Ivsera sentou de modo a aproximar-se melhor do
ferido. Abaixou-se para examinar o traje sobre a qual estava sentada.
Quando
viu que ninguém estava notando, fez uma terceira investida. Num
movimento rápido, tirou a pistola do coldre e escondeu-a sob o cinto
da jaqueta que constituía a peça principal de sua vestimenta.
“Ninguém
reparou?”,
pensou, indagando-se. “Ninguém?”
Talvez
Feriar. Mas este fez de conta que não havia percebido nada. Apenas
parou de transmitir comandos a seus subordinados.
*
* *
Na
saída do elevador, os prisioneiros foram transferidos a outro grupo
de homens armados. Feriar mal teve tempo para fazer um gesto animador
para Ivsera.
Os
prisioneiros foram tangidos para dentro da galeria que, partindo do
poço do elevador, avançava para o leste.
Marcharam
durante uma hora. Ivsera aprendeu a cerrar os dentes para agüentar o
passo. Felizmente, com o tempo, os soldados também começaram a
cansar-se e passaram a andar mais devagar.
Muita
gente cruzou com o triste grupo. A moça notou que todos eles, tanto
homens como mulheres, estavam mais bem vestidos que as pessoas que
ocupavam o abrigo de Fenomat. Ivsera ficou quebrando a cabeça a este
respeito. Depois de uma série de teorias temerárias, lembrou-se do
motivo que provavelmente seria o mais plausível.
“Os
ocupantes do abrigo de Sallon não dispunham de nenhum químico que
soubesse transformar roupas em alimentos. Por isso não havia
necessidade de desfazer-se das roupas”,
pensou.
Mas
só o diabo poderia saber de que teriam vivido durante todo esse
tempo.
Finalmente
os soldados levaram os três prisioneiros para uma galeria
secundária, mais estreita, que seguia para a esquerda. Avançaram
mais uns cem metros. Pararam diante de uma porta que, ao contrário
das que geralmente são encontradas nos abrigos, quase chegava a ter
a largura de um portal.
As
duas metades deslizaram para o lado sem que qualquer dos soldados
tivesse movido um dedo.
“Provavelmente”,
pensou Ivsera, “o
comandante do abrigo de Sallon se dava ao luxo de um olho mágico e
de mecanismo elétrico que abria a porta.”
Os
soldados enrijeceram assim que a porta se abriu por completo. Ivsera
ouviu uma voz clara e enérgica, que disse em tom rangedor:
— Entrem!
Os
soldados fizeram continência e entraram, acertando o passo. Os
prisioneiros seguiram-nos. Ao que parecia, os dois homens de Fenomat
sentiam medo e curiosidade ao mesmo tempo. Já Ivsera andava
relaxadamente e o mais devagar possível, para mostrar ao povo de
Sallon que nada do que eles possuíam a impressionava.
No
entanto, o homem que infundia tamanho respeito nos soldados não
deixou de impressioná-la. Pelo tom de voz acreditara que encontraria
um tipo de oficial alto e rígido. Mas a figura com que se defrontou
foi a de um homem ainda jovem, pequeno e gordo, em cujo rosto
brilhava uma expressão presunçosa.
Os
soldados pararam diante da enorme mesa, atrás da qual estava
sentado.
— Retirem-se!
— ordenou o gorducho. — Esperem lá fora.
Os
soldados desapareceram. O oficial contemplou um a um os três
prisioneiros.
Só
no caso da jovem parecia satisfeito com o resultado da inspeção.
Sorriu e com um gesto relaxado mandou que os dois homens de Fenomat
se encostassem à parede. Fez outro gesto para dar a entender a
Ivsera que devia aproximar-se, mas esta não reagiu.
Ele
parecia aborrecido.
— Ei,
moça! — gritou. — Aproxime-se.
Ivsera
olhou em torno. Fez de conta que só agora o estava notando.
— Está
falando comigo? — perguntou, aparentemente surpresa.
— Claro
— resmungou o gorducho. — Com quem poderia ser?
Ivsera
não respondeu. Limitou-se a fitá-lo com uma expressão séria. Isso
deixou-o nervoso, e o nervosismo fez aumentar sua raiva.
— Eu
disse que você deve se aproximar! — gritou depois de algum tempo.
Ivsera
não se moveu. Belal levantou-se fungando, saiu de trás da
escrivaninha e fez menção de puxar Ivsera pelo braço.
— Pense
antes de fazer qualquer coisa — recomendou Ivsera tranqüilamente.
— É bem possível que acabe recebendo uma bofetada.
O
gorducho estacou, deixou cair a mão, cerrou os olhos e exclamou:
— Espere
aí, minha filha. Vou domá-la. Guardas!
A
porta abriu-se, e os soldados voltaram a entrar.
— Levem
estes indivíduos. Coloquem-nos no campo de trabalho C. Nos próximos
cinco dias ficarão sem alimento. São muito gordos.
Os
homens de Fenomat não esboçaram a menor resistência ao serem
levados. A porta voltou a fechar-se atrás dos soldados e dos
prisioneiros por eles conduzidos.
O
oficial ficou a sós com Ivsera. Esta receava que não demoraria a
chegar o momento em que teria de fazer uso da arma de que se
apoderara às escondidas.
Ele
sorriu.
— Agora
estamos a sós, moça — disse em voz baixa. — Você sabe o que
isso significa?
— A
única coisa que sei — respondeu Ivsera em tom seco — é que o
Conselho do abrigo de Sallon, ou outro tipo de governo que o senhor
tenha, não deixará de chamá-lo à responsabilidade por violação
das leis da guerra.
O
oficial escutou com uma expressão de espanto no rosto. Finalmente
soltou uma estrondosa gargalhada.
— As
leis de guerra — disse entre os risos — já têm mais de cem
anos. Hoje ninguém mais se lembra delas. Ora essa, moça! Você é
minha, tal qual o abrigo de Sallon. Não existe ninguém que me possa
chamar a responsabilidade.
Ivsera
não pôde deixar de observar:
— Pelo
que vejo, Sallon pertence a um sujeito muito desagradável.
No
mesmo instante, o gorducho perdeu o bom humor. Aproximou-se de Ivsera
e chiou:
— Não
me faça ficar zangado. Estou disposto a oferecer-lhe um estilo de
vida que atualmente nenhuma mulher em Isan desfruta. Por outro lado,
poderei dar-lhe um tipo de vida que faça você lamentar-se de ter
vindo a este mundo. Entendeu?
Ivsera
não perdeu a calma.
— Antes
de mais nada, não me trate de “você”;
trate-me de “senhora”
— respondeu. — Além disso, dispenso o estilo de vida que o
senhor me quer proporcionar. Prefiro estar morta que juntar-me a um
tipo como o senhor.
Não
sabia por quê, mas estava interessada em ofendê-lo. E conseguiu.
O
homem espumou de raiva. Segurando-a pelo braço esquerdo, sacudiu-a
com tamanha violência que os cabelos voaram de um lado para outro.
Pôs-se a gritar:
— Você
vai obedecer. Implorará para que lhe poupe a vida. Até hoje ninguém
se opôs a Belal por mais que alguns minutos.
Face
ao nervosismo do gorducho, Ivsera não teve a menor dificuldade em
tirar a pistola. Empurrou o botão da trava e fez pontaria com toda
calma, a fim de não errar o alvo.
Apenas
cometeu um erro. Avaliou a agilidade do gordo com base no volume de
seu corpo.
Belal
viu a arma, deixou-se cair para o lado e na queda bateu na mão da
jovem, que soltou a pistola. Ivsera gritou de raiva e decepção. Ele
rolou rapidamente pelo chão, pegou a arma e levantou-se com um
sorriso de deboche.
— Então
é isso! — exclamou. — E as leis da guerra? Será que uma
prisioneira pode ameaçar a segurança do abrigo inimigo com uma arma
escondida?
A
moça perdera totalmente o autocontrole:
— Mate-me
logo! — gritou. — Vamos, atire!
Belal
limitou-se a sacudir a cabeça.
— Não,
minha filha. Você continuará a viver.
Ivsera
investiu sobre ele, levantando as mãos para golpeá-lo, mas Belal
empurrou-a para trás com a maior facilidade. A jovem caiu e bateu
com as costas contra a parede.
Até
parecia que Ivsera acionara um contato invisível. No momento do
choque, a porta abriu-se.
Belal,
que até então parecia dedicar todo seu interesse a ela, levantou a
cabeça, espantado.
Ivsera
fitou o homem alto e de vestes estranhas que parou na entrada e,
depois de olhar ligeiramente em torno, penetrou na sala. A porta
voltou a fechar-se atrás dele.
“Este
homem tem olhos brancos”,
pensou Ivsera apavorada. “Quem
já viu um par de olhos desse tipo?”
Os
de Ivsera e de todas as pessoas conhecidas eram avermelhados.
Belal
recuperou o autocontrole.
— Quem
é você? — gritou para o desconhecido. — E como se atreve a
entrar...
O
desconhecido interrompeu-o com um gesto indiferente.
— Não
perca seu tempo, meu caro — respondeu em tom tranqüilo. — Não
me atrevo a coisa alguma. Ouvi sua gritaria lá no corredor, e pensei
que possivelmente alguém estaria precisando de auxílio.
Belal
perdeu o fôlego. O desconhecido teve tempo de inclinar-se sobre
Ivsera e levantá-la antes que Belal recuperasse a fala.
— Espere
aí, rapaz! Logo espantarei essa sua audácia.
Comprimiu
uma fileira de botões presos à escrivaninha. O ruído abafado das
sereias de alarma penetrou pela porta fechada.
O
desconhecido aguçou o ouvido.
— Está
chamando sua gente, gorducho? Ainda bem! Só assim verão que seu
comandante é um velhaco.
— Você
está louco! — gritou Belal em tom histérico. — Daqui a pouco
estará morto.
O
desconhecido acenou com a cabeça.
— Talvez
seja você — respondeu tranqüilamente.
Belal
empalideceu. Sua segurança desvaneceu-se. Apoiou-se sobre a borda da
escrivaninha e perguntou:
— Quem...
quem é você?
— O
que lhe adiantará saber meu nome? — retrucou o desconhecido. —
Pode chamar-me de Perry; é quanto basta.
Naquele
instante, a porta abriu-se. Uma horda de homens armados até os
dentes dispôs-se a penetrar no gabinete.
— Matem-no!
— berrou Belal. — Ele me ofendeu.
Ivsera
viu o desconhecido que se identificara pelo nome de Perry virar-se
abruptamente. Levantou o braço direito, do qual parecia emanar uma
força misteriosa. Os soldados pareciam grudados ao limiar da porta.
Até mesmo a voz esganiçada de Belal morreu.
— Não
se apressem — recomendou o desconhecido com toda a tranqüilidade.
— Belal está mentindo. Molestou esta moça, que é uma prisioneira
de guerra.
Belal
soltou uma risada de deboche. Estava acostumado a não ver levado a
sério qualquer acusação dirigida contra sua pessoa. Tudo que fazia
revertia em proveito imediato do abrigo de Sallon. Dessa idéia
derivava a posição de força que o oficial desfrutava.
Mas,
pela primeira vez, viu seus soldados com os rostos embaraçados. Não
se atreviam a olhar nem para ele, nem para o desconhecido.
— Voltem,
rapazes! — ordenou o desconhecido. — Aqui está sendo julgado um
homem que durante vários anos cometeu crimes e ficou impune.
Ivsera
não acreditou no que seus olhos viam. Os soldados fizeram meia-volta
e retornaram ao corredor. A porta fechou-se atrás deles.
Voltara
a ficar a sós com Belal e o desconhecido chamado Perry.
O
gorducho afundara em sua cadeira, incapaz de pronunciar uma única
palavra.
— Viu?
— disse Perry com um sorriso. — É o que acontece com quem muito
se gaba.
— Isso...
isso... — balbuciou Belal.
— Isso
é impossível? Foi o que você quis dizer? Não, não está havendo
nenhuma bruxaria.
Belal
lembrou-se de ter ouvido uma alusão a qualquer julgamento. Sentiu o
poder apavorante do desconhecido e percebeu que, se não fizesse
alguma coisa, sua vida poderia correr perigo.
— Eu...
eu... poupe minha vida! — implorou. — Não farei nada de que você
não goste.
Perry
soltou uma risada irônica.
— De
repente? Não perca tempo, Belal, e não se preocupe. Poderá ficar
com sua vida imunda. Tirarei a moça daqui e levá-la-ei a Fenomat.
Já que demonstra tamanha boa vontade em fazer-me um favor, eu lhe
darei uma dica. Não ponha as mãos em Fenomat, senão você se
arrependerá.
Ivsera
viu o sorriso de deboche que por uma fração de segundo passou pelo
rosto de Belal. Será que o desconhecido havia visto?
Quase
como um sonho, sentiu Perry segurar sua mão.
— Venha
comigo — disse. — Vamos retirar-nos e deixar nosso amigo a sós
com seus problemas.
A
porta abriu-se. Ivsera e Perry saíram para o corredor. A jovem olhou
para trás e viu que Belal permanecia imóvel atrás de sua
escrivaninha. Ainda continuava paralisado pelo susto ou então era
cauteloso demais para executar qualquer movimento rápido e revelar
suas intenções antes do tempo.
3
Perry
caminhou pelo corredor com a tranqüilidade de quem não tem um único
inimigo em todo o Universo. Algum tempo passou-se até que Ivsera se
recuperasse da surpresa o bastante para falar.
Até
então haviam-se encontrado apenas com alguns homens sem armas, que
os fitaram, mas não esboçaram o menor gesto hostil.
No
corredor principal, as coisas seriam diferentes. Por lá havia mais
soldados que civis.
— O
senhor... — disse Ivsera, trêmula — o senhor acredita que
conseguiremos sair sem sermos molestados?
Perry
virou o rosto em sua direção e sorriu.
— Tenho
certeza — respondeu tranqüilamente.
Foi
só o que disse. E foi pouco para satisfazer a enorme curiosidade de
Ivsera.
— De
onde veio o senhor? Não é nenhum dos ocupantes do abrigo de Sallon,
não é? E ainda menos é de Fenomat. Será que é de Othahey?
Othahey
era o país com que Heyatha entrara em conflito antes que irrompesse
a guerra. E Heyatha era a nação que tinha Fenomat por capital.
Perry
sacudiu a cabeça.
— Não,
não venho de Othahey. Se viesse, não poderia estar tão bem
informado sobre os dois abrigos desta cidade.
Um
pouquinho do velho espírito de contradição de Ivsera voltou a
manifestar-se.
— Não
seria totalmente impossível — respondeu. — Não acredito que os
habitantes de Othahey tenham sido estúpidos a ponto de não manterem
um serviço de espionagem.
Perry
soltou uma risada alegre.
— Talvez
tenha razão. Acontece que realmente não sou de Othahey.
Não
contou de onde tinha vindo.
Dali
a dois minutos, entraram no corredor principal. Perry seguiu para a
direita, em direção ao elevador. Aquilo que Ivsera temera
aconteceu. Com faixas brancas no braço, uma patrulha militar formada
de cinco soldados fortemente armados barrou o caminho de Perry. Este
só parou quando esbarrou no primeiro soldado e além do mais pôs-se
a gritar:
— Seu
pateta! Será que você não sabe sair do caminho?
O
soldado parecia ter senso de humor. Levantou a arma, recuou um passo
e contemplou Perry, que era muito mais alto que ele, dos pés à
cabeça. Finalmente disse com uma risada:
— Queira
desculpar, general. Será que apesar dos pesares o senhor não me
poderia contar quem é o senhor? Ou será que possui algum documento?
Perry
sacudiu a cabeça.
— Não,
meu amigo, não possuo nenhum documento. Seu superior é o capitão
Feriar, não é? Leve-me à presença dele.
Ivsera
sentiu-se espantada, e o soldado também. Em Sallon os soldados não
usavam uniforme. Uma pessoa que não os conhecesse não estaria em
condições de adivinhar quem era o oficial que comandava cada um,
mesmo que conhecesse os homens.
A
patrulha fez meia-volta e, com Perry na ponta, marchou pelo corredor
principal, em direção ao elevador. Ivsera seguiu-os de perto. O
desconhecido passou a infundir-lhe pavor.
O
gabinete de Feriar ficava próximo ao elevador. Quatro soldados
postaram-se junto à porta, enquanto o quinto conduziu Perry e Ivsera
para dentro do pequeno recinto.
Feriar
levantou-se de um salto quando reconheceu Ivsera. Não deu a menor
atenção a Perry.
— Santo
Deus! — disse muito espantado. — Como conseguiu livrar-se tão
depressa de Belal?
Ivsera
fez um gesto e apontou para Perry. Feriar examinou o homem alto à
sua frente.
— Quem
é o senhor? — perguntou em tom desconfiado.
Perry
sorriu.
— Sou
um homem que não possui nenhum documento, mas faz questão de sair
deste abrigo sem ser molestado, e com esta senhorita.
Feriar
respirava com dificuldade.
— Acontece
que é uma prisioneira! — disse, arfando.
Abriu
a boca para chamar os guardas, mas Perry interrompeu-o com um gesto.
— Deixe
de gritaria — disse em tom enérgico. — Pelo que vejo, o senhor é
um homem sensato. Por que vai trabalhar para um sujeito imundo como
esse Belal?
Feriar
ficou com a boca escancarada.
— O
senhor vê que...
— Exatamente.
O senhor sente repugnância pelo governo autocrático de Belal, não
apenas por uma questão de princípio, mas também porque o ditador
vem usando os poderes de que dispõe em proveito próprio — falava
rapidamente, não deixando que Feriar respondesse. — Faço-lhe uma
proposta. Venha comigo a Fenomat. Garanto que nada lhe acontecerá.
Estas
palavras pareceram exercer uma estranha coação sobre Feriar. O tom
de sua voz não demonstrava muita convicção, quando procurou
formular uma objeção:
— Mas
Fenomat está...
— Já
sei. Vamos reconquistar o lugar. Será que a tarefa seria de seu
agrado?
Feriar
fez um gesto afirmativo.
— Muito
bem. Irei com o senhor.
Ivsera
teve a impressão de que estava sonhando. Uma coisa dessas não podia
existir. Um homem solitário e, ao que parecia, desarmado, andava
livremente num abrigo cujo comandante acabara de ofender mortalmente.
Para vencer qualquer obstáculo, apenas dizia algumas palavras e
levava os oficiais à deserção.
Acontece
que era exatamente isso. Feriar pegou a arma e disse aos guardas que
levaria os estranhos de volta para Belal. Depois dirigiu-se para a
direita, onde ficava o elevador.
A
cabina demorou quinze minutos em chegar. Quando a porta se abriu,
estava vazia. Perry deixou que Ivsera e Feriar entrassem antes dele.
Viu este último estender a mão em direção ao botão de cima, e
exclamou:
— É
o contrário, meu amigo. Vamos descer.

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