segunda-feira, 25 de março de 2013

P-062 - Os Anões Azuis - Kurt Mahr [parte 2]

Havia outra pessoa que se deslocava naquele mesmo instante pelas encostas rochosas, sempre na direção oeste. Era Cislarczik.
Os golpes desferidos por Harper deixaram-no inconsciente apenas por duas horas. Ao despertar, encontrou o cantil vazio e o bilhete de Glannon.
Daquele momento em diante Cislarczik não pensou em outra coisa senão na maneira de castigar Harper.
Seguiu o rastro ainda bem visível deixado por Harper e Glannon, e encontrou o rio. Acampou meio quilômetro abaixo do lugar em que eles descansaram. Quando voltou a pôr-se a caminho, percebeu a pista deixada pelos dois. Seguiu-a enquanto pôde vê-la. Dormiu durante a noite e, na manhã seguinte, esforçou-se para avançar o mais depressa possível, a fim de que o capim pisado não se levantasse e apagasse o rastro de Harper e Glannon. Sabia perfeitamente que do lugar em que se encontrava nunca conseguiria chegar a Greenwich enquanto não possuísse uma bússola. Por isso precisava encontrar Harper e apoderar-se da bússola.
Cislarczik voltou a ver os dois homens no instante em que tomavam os primeiros goles de água com fortificante para logo depois penetrarem no desfiladeiro.
Àquela hora já havia marchado cerca de dez horas, praticamente sem fazer uma pausa.
Sem interessar-se pelas numerosas reentrâncias da rocha, subiu pelo desfiladeiro e atingiu o ponto culminante. Naquele instante, viu Harper e Glannon saírem para o pequeno planalto.
Fez mais uma pausa, desta vez de três horas, e iniciou a descida. Ao escurecer chegou à entrada do segundo desfiladeiro. Dali em diante, não precisaria seguir qualquer pista, pois sabia que Harper e Glannon não poderiam ter tomado outro caminho. Por isso prosseguiu no escuro.

* * *

Por enquanto Mullon não se interessou pelos peixes negros da lagoa. Os mungos eram muito mais importantes.
Depois que Milligan se levantara, os seis mungos, que já haviam admirado seus presentes, acharam que não teriam mais nada a fazer por ali. Por isso deram a entender que desejavam seguir seu caminho.
Tal qual da primeira vez, um deles tentou levar Fraudy. Enquanto seus companheiros já saltitavam mais à frente, ficou para trás e apontou para a encosta oeste do vale.
Mullon esperava este momento. Pashen recebera instruções para acompanhar Fraudy e descobrir o habitat dos mungos. O local deveria ser marcado, para que Mullon pudesse atingi-lo com o helicóptero, assim que o aparelho tivesse sido reparado.
Por isso Fraudy e Pashen seguiram os mungos. Mullon receara que os macaquinhos não apreciassem a companhia deste último, pois, ao que tudo indicava, seu coração pertencia a Fraudy. Mas o mungo que lhes apontou o caminho não demonstrou a menor hesitação.
Saltava à frente e, sempre que a distância entre ele e a dupla que o seguia chegava a uns trinta metros, parava um pouco e estendia o braço, a fim de indicar a direção em que deveriam prosseguir.
Mullon e Milligan puseram-se a examinar o helicóptero.
O trabalho não foi fácil.
Várias horas se passaram, sem que conseguissem nada.
Fraudy e Pashen voltaram de tarde. Haviam encontrado o abrigo dos macacos, onde foram bem recebidos. Fraudy disse que nesse abrigo, situado bem acima do vale, numa grota que penetrava profundamente na encosta oeste, havia cerca de cem mungos. Se compreendera bem os gestos dos animais, este abrigo não era o único. Ao que parecia havia outros, situados em diversos lugares, inclusive na encosta leste.
Enquanto Fraudy conversava com os mungos, Pashen havia marcado a entrada da grota. Disse que no lugar onde esta desembocava na encosta do vale havia uma pequena saliência na rocha, e que um piloto bem treinado talvez pudesse ali pousar.
Mullon ficou satisfeito com o resultado da excursão. Pretendia tirar proveito da amizade dos mungos, em benefício do pequeno núcleo de colonização. Para isso precisava saber onde encontrar os macacos, quando precisasse deles. Mullon resolveu procurar outros abrigos de mungos.
Acontece que o exame do mecanismo de propulsão do helicóptero não produziu resultados satisfatórios, muito embora Pashen, que afirmava entender alguma coisa de reatores de fusão, participasse do trabalho. Mullon concluiu que, por ocasião do pouso forçado da Adventurous, o reator, ou algum dos seus acessórios vitais, deveria ter sido danificado e começasse a falhar justamente agora, quando mais precisavam do aparelho.
As perspectivas que se abriam face a isso eram tudo, menos animadoras. O ponto em que se encontravam ficava a uns cento e trinta quilômetros de Greenwich. E cem quilômetros dessa distância teriam de ser percorridos sobre a estepe, que de dia era fustigada pelo sol e de noite tornava-se gélida.
O fato de que o transmissor de ondas curtas ainda funcionava era prova de que o reator propriamente dito estava intacto, pois era este que fornecia a respectiva energia.
Mullon avisou Greenwich sobre a pane ocorrida com o helicóptero. Apesar disso não teria outra alternativa senão reparar o aparelho ou voltar a pé. Passou a acreditar cada vez mais na segunda solução, à medida que o dia avançava.
Enquanto isso Fraudy e Milligan saíram para pescar um dos monstros negros da lagoa, que no dia anterior haviam dado cabo da serpente. Conseguiram seu intento com uma rapidez espantosa — isso depois de se lembrarem de pegar alguns alimentos concentrados no acampamento. Mal haviam atirado as conservas à água, a lagoa começou a ferver e as sombras negras dos peixes carnívoros aproximaram-se de todos os lados.
A única coisa que Milligan teve que fazer foi jogar a rede e recolhê-la. Pegou dez monstros negros. Para espanto de Fraudy, não se pareciam com peixes, mas antes com pequenos crocodilos. Tinham quatro tocos de perna, barbatanas tortas e uma cabeça estreita e alongada, tomada quase exclusivamente pela boca. Fraudy teve certeza de que se tratava de uma variedade de peixes do planeta Fera Cinzenta, ou melhor, de uma espécie que estava prestes a realizar a transição da vida aquática pouco desenvolvida para a vida mais aperfeiçoada dos seres que habitam a superfície.
Quando Fraudy e Milligan regressaram com a presa, Pashen e Mullon ainda não haviam conseguido reparar o helicóptero, embora não tivessem feito nenhuma pausa, trabalhando ininterruptamente.
O dia foi chegando ao fim. Mullon resignou-se e foi deitar-se depois de ter destacado Fraudy e Milligan para os primeiros quartos de sentinela. Pretendia permanecer mais uns três ou quatro dias nesse vale, para explorar os arredores. Três ou quatro dias eram um tempo longo. Mas depois das tentativas fracassadas daquele dia, teve suas dúvidas se conseguiriam ou não reparar o helicóptero até a hora do regresso a Greenwich.

* * *

Cislarczik viu-se favorecido pelo silêncio que reinava no interior do profundo desfiladeiro. Se houvesse qualquer ruído, não teria ouvido as vozes baixas dos dois homens que conversavam a apenas vinte metros de distância.
Afastou-se uns cem metros e foi dormir num nicho existente na rocha.
Amanhã seria o dia de Harper.
Cislarczik não sentia a menor raiva de Glannon. Harper era o homem ao qual deviam ser debitados os males que sofrerá. Glannon sempre se mostrara amável e solícito para com ele. Não pretendia fazer Glannon pagar pelo que Harper lhe fizera.

* * *

Na manhã do dia seguinte, quando começava a clarear, Mullon subiu no helicóptero para prosseguir no exame de seu mecanismo. O repouso prolongado não só lhe restituíra as forças, mas também lhe incutira a convicção de que as avarias seriam reparadas, fossem quais fossem.
O último quarto de sentinela coubera a Pashen, mas este afirmou que não se sentia cansado e subiu ao mecanismo de propulsão do helicóptero, onde se encontrava Mullon.
Ainda não se havia passado meia hora quando Pashen soltou um grito de triunfo.
Descobri!
Mullon foi ao lugar em que ele se encontrava.
Descobriu o quê? — perguntou, mal disfarçando o nervosismo.
Está aqui! — respondeu Pashen apressadamente. — É um vazamento no sistema de alimentação de combustível.
Apontou para um tubo capilar que ligava o pequeno reservatório de hidrogênio à cápsula do reator. Num ponto via-se um pinguinho de orvalho.
O reator de fusão trabalhava com hidrogênio atômico liquefeito. Este combustível, congelado à baixa temperatura, era guardado num pequeno tanque e, conforme as necessidades, conduzido pelos tubos capilares às câmaras de reação.
O orvalho provava que naquele lugar, havia um vazamento do tubo capilar. O reator não recebia quantidade suficiente de combustível. Ainda estava em condições de fornecer energia para o transmissor, mas o mecanismo de propulsão deixava de atender às solicitações que lhe eram feitas, pois havia um dispositivo de segurança que fazia com que o rotor não começasse a girar se o reator não estivesse em condições de suprir a energia a um vôo seguro.
Santo Deus! — disse Mullon em tom de espanto. — Como foi encontrar uma coisinha destas?
Pashen deu de ombros. Um largo sorriso cobria seu rosto.
Nunca pensava que pudesse haver qualquer avaria no sistema capilar — respondeu. — Foi por um simples acaso que vi a umidade.
Os tubos capilares se achavam dentre as peças de reposição existentes em qualquer helicóptero. Em poucos instantes, o tubo defeituoso foi trocado. Mullon entrou na cabine e comprimiu o botão de arranque. O rotor começou a girar, como se nunca tivesse havido qualquer defeito.

* * *

Ainda de manhã, Glannon e Harper chegaram a um lugar do desfiladeiro do qual podiam ver boa parte do vale que se estendia na direção norte-sul. Nesse lugar os paredões de rocha, que reduziam o desfiladeiro a uma largura não superior a dez metros, afastavam-se, formando uma ampla abertura. Naquele lugar uma fenda estreita e profunda dividia o desfiladeiro em dois caminhos, um dos quais se dirigia ao noroeste, enquanto o outro continuava na direção oeste.
Harper acreditava que no primeiro dia Mullon tivesse montado acampamento nesse vale, onde talvez ainda se achasse. Mas não encontrou o menor sinal desse acampamento. Do desfiladeiro não se via o pé de fruta-pão junto ao qual haviam sido levantadas as barracas. Mas qualquer um chegaria à conclusão de que Mullon acamparia num lugar em que a vegetação pudesse proporcionar uma boa sombra. E o vale que Harper e Glannon viam diante de si possuía essa vantagem, ao contrário de todos os outros vales que os dois haviam visto ou atravessado.
Ficaremos aqui — decidiu Harper. — Se ainda estiverem por lá, acabaremos ouvindo o helicóptero.
Acomodaram-se da melhor forma possível entre as pedras que se amontoavam junto à grota e olharam fixamente para o vale.
Depois de duas ou três horas, Harper subitamente aguçou o ouvido. Ouviu um leve zumbido, vindo do vale. Dali a pouco, as batidas características do rotor puderam ser percebidas.
Olhe! — exclamou Glannon, apontando com o braço.
Bem ao longe, junto à vegetação verde-cinza que cobria o fundo do vale, um ponto se movia.
É o helicóptero! — exclamou Harper. — Nós os descobrimos.
Viu a máquina tomar a direção leste e subir pela encosta do vale. Vez por outra desaparecia atrás de uma saliência da rocha, para reaparecer em seguida. Na opinião de Harper, mantinha-se a uma distância perigosamente reduzida da encosta; ao que parecia, estava procurando alguma coisa por lá.
De repente Harper viu o helicóptero descrever uma curva fechada; aproximou-se vertiginosamente da encosta rochosa e desapareceu. Dali em diante, o zumbido se tornou muito mais fraco.
Não havia a menor dúvida: naquele lugar existia uma fenda na rocha, e Mullon fizera o helicóptero entrar na mesma. Depois de mais algum tempo, o ruído do motor cessou por completo: Mullon acabara de pousar.
Glannon fez menção de levantar-se de um salto, mas Harper segurou-o.
Espere! — ordenou. — Por ali o caminho é muito perigoso. Teremos que escalar este paredão e descer pelo outro lado... se é que isso se torne possível. Talvez Mullon não demore em levantar vôo de novo.
Glannon aguçou o ouvido. Mantiveram-se imóveis e em silêncio. Só depois de quase uma hora Harper levantou-se e resmungou:
Vamos embora! É provável que ainda demore no lugar em que se encontra.
Pegaram os fuzis e puseram-se a caminho.
Por um simples acaso Glannon virou-se no momento em que saíam do lugar em que haviam acampado, olhando para o desfiladeiro.
Estacou de susto. Um homem alto, de ombros largos, saía da semi-escuridão reinante no desfiladeiro.
Era Cislarczik.

* * *

Ao despertar, Cislarczik percebeu que não agüentaria por muito tempo, a não ser que conseguisse tirar a água preparada de Harper para tomar alguns goles. Confiara demais em suas forças. Tinha o corpo praticamente todo dolorido.
Teve de reunir as últimas reservas de energia e apelar para o ódio que sentia por Harper, a fim de não continuar deitado e dormindo. Levantou-se cambaleante, pegou o fuzil e dirigiu-se a passo inseguro para a saída do desfiladeiro.
Conseguiu chegar ao alargamento do desfiladeiro, mais ou menos no mesmo instante em que Harper e Glannon descobriram o helicóptero.
Prosseguiu devagar e depois de algum tempo viu os dois homens que perseguia entre as rochas, no lugar onde descansavam. Cislarczik teve de manter uma distância tamanha que não lhe permitiria uma pontaria segura. Teria de esperar até que os outros se levantassem.
Isso aconteceu depois de uma longa hora. Cislarczik saiu de trás da pedra que lhe servira de esconderijo e seguiu-os lentamente.
Foi nesse momento que Glannon se virou e o descobriu.
É claro que Harper notou imediatamente o gesto estranho de Glannon. Também se virou, mas sua reação, ao reconhecer Cislarczik, foi muito mais rápida que a de Glannon.
A reação de Cislarczik não foi menos rápida. Já Glannon se mantinha imóvel como uma estátua em meio ao teatro das operações.
Saia daí, seu idiota! — gritou Cislarczik. — Você está na linha de fogo.
Com estas palavras a figura de Glannon ganhou vida. Saltou para o lado e deixou-se cair dentro de um pequeno nicho do paredão rochoso.
Harper viu o cano da arma de Cislarczik surgir por trás da rocha. Esperou pacientemente até que pudesse ver a mão que segurava a parte inferior do cano. Foi então que disparou. Não atingiu a mão, mas o cano da arma. O fuzil foi arrancado das mãos de Cislarczik. Harper viu-o redemoinhar pelo ar e cair na grota, atrás de Cislarczik.
Harper levantou-se de um salto.
Agora irei buscá-lo! — gritou para Cislarczik.
Viu que este procurava mudar para outro abrigo. Parou. No momento em que o corpo gigantesco de Cislarczik surgiu por um segundo entre dois blocos de pedra, atirou sem a menor hesitação.
O homem alvejado ergueu-se com um grito de dor. Harper viu-o aparecer atrás do bloco de pedra, agitando os braços, como se tivesse de esforçar-se para conservar o equilíbrio. Finalmente caiu para trás e precipitou-se nas profundidades da grota.
Harper não perdeu tempo.
Vamos embora! — gritou para Glannon. — Acho que os tiros foram ouvidos.
Glannon saiu do esconderijo. Os dois homens correram ofegantes pelo desfiladeiro, e só pararam a um quilômetro do lugar em que Cislarczik caíra no precipício.

* * *

De início Mullon se dirigira para a encosta oeste do vale, onde no dia anterior Fraudy e Pashen haviam descoberto e assinalado o abrigo dos mungos. Conseguiu pousar sem problemas na pequena saliência da rocha. A recepção que os mungos proporcionaram a Mullon e Milligan foi tão entusiástica como a de Fraudy e Pashen, no dia anterior.
Nesse ínterim, Mullon teve uma idéia que, segundo acreditava, lhe permitiria achar sem maior perda de tempo os outros abrigos de mungos. Era provável que, além de seu abrigo, os animais conhecessem outros que se encontrassem nas redondezas. Por isso bastaria convencer um deles a acompanhá-los no helicóptero, e seguir as indicações que este fornecesse durante o vôo.
Os entendimentos sobre este ponto prolongaram-se por muito tempo. Mas quando os mungos compreenderam de que se tratava, todos se mostraram dispostos a embarcar no helicóptero. O “chefe” teve de impor sua autoridade para escolher um dos voluntários.
Por estranho que pudesse parecer, o mungo que acompanharia Mullon não tinha medo do ruído provocado pelo helicóptero. Parecia uma criança que ainda não tivesse suficiente compreensão das coisas para sentir medo. O balanço da máquina deu-lhe um prazer enorme, mas Mullon não teve a menor dificuldade em lembrar-lhe que não viera apenas por prazer.
O mungo fez dirigir o helicóptero para a encosta leste, e apontava com tamanha insistência para uma fenda em que mal caberia o helicóptero, que até se tinha a impressão de que ali deveria ficar outro abrigo de mungos.
Realmente foi assim. Um grupo de vinte mungos vivia num canto escuro dessa fenda. Observaram atentamente a máquina que pousava, mas não demonstravam o menor medo. E, depois que o “companheiro” de Mullon explicou em sua estranha linguagem, feita de chiados e balidos, qual era a natureza da visita, proporcionaram uma recepção condigna aos estranhos.
Os mungos encontrados nesse lugar eram mais retraídos que os que Mullon e Milligan haviam encontrado do outro lado do vale. De início Mullon acreditou que eles os considerassem como estranhos, enquanto que com os outros os terranos já tiveram alguns contatos. Mas havia um fato esquisito: o mungo que os acompanhara até lá também parecia sentir-se tomado pela mesma inquietação. Quando Mullon fez menção de retirar-se a fim de procurar outros abrigos de mungos, o macaco segurou-o pelo braço e soltou por várias vezes um som que parecia um “guê-guê”.
Mullon não sabia o que significava isso e procurou entrar no helicóptero, mas o mungo fez o que pôde para retê-lo. Apontou várias vezes pela parede rochosa acima e disse numa seqüência rápida:
Guê-guê... guê-guê... guê-guê...
O que será que ele tem? — perguntou Milligan.
Não sei — respondeu Mullon. — Quem sabe se lá em cima existe outro abrigo de mungos?
Milligan lançou os olhos encosta acima.Viu que era íngreme, mas sua escalada não era impossível. Havia muitas saliências e reentrâncias que poderiam proporcionar apoio às mãos e aos pés.
Vamos subir ali? — perguntou Milligan.
Isso mesmo; vamos embora.
O mungo parecia entusiasmado quando viu que conseguira seu intento. Saltou à frente juntamente com outro animal, pertencente ao grupo que habitava nessa fenda, apontando um caminho seguro que levava ao topo do paredão.
Lá em cima encontraram um platô, cortado por uma fenda larga. Mullon avançou até a borda da fenda e, para seu espanto, viu o desfiladeiro pelo qual viera três dias antes com o helicóptero.
E viu outra coisa!
Distinguiu Harper e Glannon, sem reconhecê-los, e Cislarczik, no momento em que este partia para o ataque. Viu Harper defender-se, e ouviu o grito de pavor que Cislarczik soltou ao cair no precipício.
Milligan estava deitado ao lado de Mullon.
Não compreendo — resmungou. — O que será que essa gente veio fazer aqui? E por que estão se matando?
Hum — fez Mullon. — Também não sei exatamente do que se trata, mas basta um pouco de fantasia para construirmos uma história.
Qual é a história?
Não se esqueça de Hollander. É possível que ele veja na situação atual a melhor oportunidade de eliminar-me. Bem, ainda saberemos... Olhe! Os dois estão descendo. Se andarmos depressa, ainda poderemos pegá-los.
Regressaram ao abrigo dos mungos, colocaram seu acompanhante a bordo do helicóptero e decolaram. Com o maior cuidado, Mullon conduziu a máquina para fora da fenda e foi para a direita, em direção à saída do desfiladeiro.
Prepare seu fuzil! — ordenou a Milligan. — Não sabemos o que essa gente está tramando.

* * *

Harper ouviu o ruído do helicóptero quando este entrou no desfiladeiro, vindo do lado oeste.
É Mullon! — gritou para Glannon. — Esconda-se.
Enfiaram-se atrás de blocos de pedra. O helicóptero passou a pouca altitude. De seu esconderijo viu Mullon, que pilotava a máquina, e Milligan, que mantinha o fuzil na mão. Ao que parecia, nenhum dos dois havia visto os homens no seu esconderijo.
Depois o aparelho desapareceu numa curva fechada do desfiladeiro. Por algum tempo o ruído permaneceu no mesmo nível, mas logo voltou, tornando-se cada vez mais forte.
Para sua surpresa Harper notou que o helicóptero havia subido uns duzentos metros, encontrando-se mais ou menos na altura da montanha na qual estava recortado o desfiladeiro. Quais seriam as intenções de Mullon? Será que pretendia conseguir uma visão melhor?
Harper escondeu-se à sombra da rocha que escolhera como esconderijo e não fez o menor movimento. Por uma verdadeira eternidade o helicóptero parecia manter-se imóvel, mas subitamente desceu com um chiado.
Ele me descobriu”, pensou Harper, muito assustado.
O aparelho pousou a uns vinte metros do lugar em que Harper e Glannon estavam escondidos. Harper viu que só havia um homem na cabine; era Mullon.
Não se interessou pelo paradeiro do segundo homem. De qualquer maneira, o homem, que ele pretendia matar, encontrava-se à sua frente. Viu que Mullon ainda teria de travar o helicóptero, para que não pudesse escorregar montanha abaixo. Levantou-se e apontou a arma.
Neste momento, ouviu uma voz dura às suas costas:
Deixe cair a arma e levante as mãos.
Harper obedeceu.
Você também! — ordenou a voz.
Perto de Mullon outro fuzil caiu ao chão; era o de Glannon. Harper virou-se e viu Milligan.
É você! — disse em tom furioso.
Vá andando em direção do helicóptero! — ordenou Milligan.
Trêmulo de raiva, Harper obedeceu.
Mullon esperava-o com o rosto sério, de arma apontada. Na mão direita, segurava algumas fitas de plástico. Atirou-as para Harper e disse:
Amarre as mãos de seu cúmplice. Glannon, que também se aproximara, não ofereceu a menor resistência quando Harper lhe amarrou as mãos. Este teve as mãos amarradas por Milligan. Depois disso os dois foram colocados no helicóptero.
Quem foi que os mandou? — perguntou Mullon antes de decolar.
Ninguém — murmurou Harper.
Por que procurou atirar em mim?
Porque não gosto do senhor. Mullon fitou-o com uma expressão séria.
Está bem; para mim é indiferente — disse em tom tranqüilo. — Se quiser, continue a afirmar o que acaba de dizer. Mas não se esqueça de que em Greenwich existem pessoas que sabem fazer falar até mesmo a pessoa mais obstinada.

* * *

Naquele mesmo dia, a expedição pôs-se a caminho. Mullon avisara Greenwich sobre o incidente e anunciara seu regresso, pelo caminho mais rápido, a fim de que as investigações contra Glannon e Harper — neste meio tempo os dois haviam revelado seu nome — pudessem ser iniciadas imediatamente.
Os dois prisioneiros continuaram a afirmar que haviam saído por iniciativa própria a fim de matar Mullon, que, para eles, representava um perigo à colônia. Relataram o incidente havido com Cislarczik, segundo a verdade dos fatos, e Mullon teve de reconhecer que neste ponto haviam agido em legítima defesa.
Mullon não tinha a menor dúvida de que os três, ou seja, Harper, Glannon e Cislarczik haviam sido aliciados por Hollander. Disse isso francamente a Harper e Glannon; a única resposta consistiu num sorriso de escárnio.
Enquanto isso, Milligan e Fraudy esforçavam-se para convencer alguns dos mungos a irem com eles. Conseguiram depois de demoradas negociações. Cinco mungos declararam-se dispostos a voar para Greenwich em sua companhia.
O helicóptero decolou no fim da tarde. Mullon deixara para trás uma das barracas com o respectivo equipamento, a fim de poder abrigar os dois prisioneiros no veículo. Poderiam levar estes objetos quando os mungos fossem trazidos de volta.
IV



Pela primeira vez Greenwich conheceu uma verdadeira sensação. A notícia de que alguém pretendera assassinar Mullon pelas costas provocou uma verdadeira onda de indignação. Era difícil saber onde essa indignação era verdadeira e onde era fingida. Não havia dúvida de que boa parte dos colonos eram adeptos de Hollander, e estes certamente se sentiam tristes porque Mullon escapara com vida.
A Assembléia Popular ouviu os autores do atentado antes de tomar conhecimento dos resultados da expedição. Harper e Glannon continuavam a afirmar que haviam agido por iniciativa própria. O’Bannon, amigo de Mullon há muitos anos, pediu à Assembléia que não acreditasse nessa pseudo-confissão. Sugeriu que os prisioneiros fossem trancados até que se mostrassem dispostos a revelar o nome da pessoa que os incumbira de praticar o crime.
Mas O’Bannon não soube o que responder à objeção de que uma simples suspeita não justificava tal procedimento. Para completar a farsa, Hollander levantou-se e propôs que O’Bannon fosse repreendido. Os prisioneiros haviam feito uma confissão cabal, e não havia o menor motivo para continuar a interrogá-los. A única tarefa da Assembléia Popular consistia em proferir sentenças. O planeta Fera Cinzenta ainda não possuía uma constituição propriamente dita. Por isso as três tarefas do governo democrático, ou seja, as dos poderes legislativo, executivo e judiciário, estavam a cargo da Assembléia Popular.
O’Bannon não foi repreendido, mas a segunda parte da proposta de Hollander foi aprovada. Depois de algumas horas de debates, condenaram Harper a cinco anos de prisão, e Glannon a três.
Num procedimento bem prático, os dois foram presos nos destroços da nave Adventurous. Depois levaram-nos de helicóptero a um lugar que só por esta forma poderia ser atingido. Os dois prisioneiros receberam água, mantimentos e outras provisões para várias semanas e foram deixados a sós. Poderiam dar um sinal caso um deles adoecesse ou sofresse um acidente.
Para Mullon essa sentença foi decepcionante. Esperara poder arrancar a máscara de Hollander. Não conseguira. No entanto, compreendia perfeitamente que Harper e Glannon preferissem cumprir uma longa pena de prisão a fazer uma confissão completa e expor-se à vingança de Hollander e seus adeptos.

* * *

Foi só no dia seguinte que a Assembléia Popular tomou conhecimento dos demais resultados alcançados pela expedição de Mullon. O ponto mais importante foi a descoberta da raça semi-inteligente dos mungos e do remédio contra as pústulas azuis.
Na noite anterior, Mullon convencera os mungos a preparar as folhas da maneira já conhecida. O remédio assim produzido foi dado aos doentes, cujo número já havia crescido para vinte e dois. O êxito foi tão fulminante como o que três dias antes se verificara com Milligan. O Dr. Weeney disse que estaria em condições de produzir um soro, assim que conhecessem a composição do remédio produzido pelos mungos. Aliás, constatou-se que as mesmas folhas, mastigadas por homens em vez de macacos, não produziam o menor efeito. Na saliva dos macaquinhos devia haver algum agente que, juntamente com as substâncias existentes nas folhas verde-azuladas, curava a doença.
Houve outra coisa que Mullon não se dispôs a relatar tão prontamente, por não ter certeza absoluta de que suas suposições eram corretas. Tratava-se da capacidade parapsicológica dos macaquinhos que, segundo parecia, conseguiam perceber o perigo antes que os sentidos humanos notassem qualquer coisa. Relatou os três acontecimentos que lhe haviam incutido essa convicção: a salvação de Fraudy, quando a mesma se defrontava com a serpente, o fornecimento do remédio que curou a doença de Milligan e a advertência face à presença de Harper e Glannon.
A Assembléia Popular constituiu uma comissão, cuja finalidade consistia unicamente em estudar a língua dos mungos.
Ao que parecia, a palavra “guê-guê”, que o mungo usara ao prevenir Mullon diante da presença de Harper e Glannon, parecia significar inimigo, maldade ou perigo. Foi a primeira palavra da língua dos mungos que os homens haviam aprendido.
Além disso, a Assembléia Popular chegou à conclusão de que, face ao êxito da primeira expedição de Mullon, este deveria partir o quanto antes para a segunda.
Não havia qualquer circunstância especial que recomendasse a pressa. Os guardas postados em torno de Greenwich haviam observado manadas gigantescas dos monstros cinzentos, que pareciam um misto de girafas e elefantes. Vinham do leste e, até então, felizmente sempre passaram a uma distância segura da cidadezinha. Segundo os cálculos dos guardas, via de regra cada manada contava umas mil cabeças.
Greenwich estaria praticamente indefesa se uma dessas manadas se deslocasse exatamente em direção da cidade. As únicas armas dos colonos seriam os fuzis e as pistolas. Além disso, possuíam um pequeno arsenal de armas energéticas, formado por radiadores e desintegradores portáteis, que antes pertenciam aos tripulantes da Adventurous. Eram muito eficientes, mas seu número era extremamente reduzido.
Por isso, além da exploração da planície, ainda caberia à segunda expedição descobrir a origem das gigantescas manadas e procurar encontrar uma maneira de manter os girafantes afastados de Greenwich.
Depois de um descanso de dois dias, Mullon pôs-se a caminho na direção leste. Desta vez Hollander não mandou nenhum assassino atrás dele. Mas tomou outras providências...

* * *

Mullon escolheu a mesma tripulação: sua esposa, Fraudy Mullon, Milligan e Pashen. Preferira não levar nenhum mungo, embora este talvez lhe pudesse prestar bons serviços. Era quase certo que o mungo, um habitante das montanhas, não se desse bem com o clima quente e úmido das zonas baixas.
O helicóptero levou menos de trinta minutos para vencer os oitenta quilômetros que separavam a cidade da extremidade da mata virgem. O acampamento foi montado nas proximidades da parede verde. De lá se fariam as primeiras tentativas de penetração, que talvez permitissem adquirir uma idéia dos perigos guardados pela penumbra da mata.
Logo constatou uma coisa. Se nas montanhas o calor era quase insuportável, aqui o mormaço úmido o era muito mais.
Os únicos animais encontrados nos primeiros dias foram insetos, aranhas e diversas espécies de vermes.
Os mosquitos representavam um verdadeiro martírio. Atacavam o pequeno acampamento em enormes enxames. Mullon experimentou uma série de produtos, mas Milligan acabou espantando os “bandos cantantes” com a fumaça de um único cigarro, e isso de forma tão duradoura que os quatro exploradores tiveram algumas horas de sossego.
Passaram uma noite longa e tranqüila no acampamento. Ao amanhecer, Mullon decolou com o helicóptero e passou rente às copas das árvores, deslocando-se na direção leste.
O quadro que se oferecia aos quatro ocupantes do aparelho era ao mesmo tempo monótono e impressionante. Até onde alcançava a vista, não se enxergava outra coisa senão a cobertura verde-cinza das árvores, que brilhava aos raios do sol.
O helicóptero sobrevoou pequenos cursos d’água que serpeavam em meio à mata e via de regra corriam para o leste. Mais adiante uniam-se e, depois de uma série de bifurcações, formavam um gigantesco rio que também ia para o leste e cinqüenta metros adiante desembocava em outro, que tinha a mesma largura. Dali em diante, o único nome adequado que se poderia dar a essa massa d’água era rio-mar. Abaixo da desembocadura do primeiro rio, sua largura chegava a mais de dez quilômetros. Parecia uma torrente primitiva, no sentido em que essa palavra era usada no linguajar da história diluviana da Terra.
No rio havia numerosas ilhas, e em uma ; delas Mullon pousou o helicóptero. Era por volta de meio-dia. A vegetação, que cobria a pequena área de areia e lama ressequida, era escassa. Havia somente duas árvores de grande porte, uma em cada extremidade da ilha comprida e estreita. Entre elas viam-se arbustos e capim.
Mullon mandou montar as barracas e avisou que o lugar serviria de base de operações. A pequena expedição encontrava-se a mais de quatrocentos quilômetros de Greenwich, dos quais trezentos e vinte estavam cobertos pela mata impenetrável. Mullon não se arriscou a avançar mais para o leste, pois ainda estava lembrado da pane que o helicóptero sofrera durante a primeira expedição. Um grupo de pessoas sadias e armadas ainda poderia, se necessário, percorrer trezentos e vinte quilômetros de mata virgem, desde que dispusesse de tempo para isso.
Enquanto Milligan e Pashen montavam as barracas, Mullon e Fraudy examinaram a ilha. Verificaram que nela só havia uma forma de vida animal: algumas rãs que se alojaram na vegetação que crescia junto à água.
Por ser bióloga, Fraudy interessou-se vivamente por esses animais. Mullon regressou ao lugar onde estavam sendo levantadas as barracas, para ajudar Milligan e Pashen. Passou por um arbusto que trazia nas pontas dos galhos flores branco-pálidas, que emitiam um brilho estranho. Ficou admirado por não ter notado o fato quando antes passara por ali. Aproximou-se e procurou arrancar uma das flores.
Enquanto os dedos começavam a fechar-se em torno do caule, sentiu um formigamento quase doloroso na mão e recuou assustado. Quis fazer outra tentativa, mas nesse instante Milligan gritou:
Olhe só, chefe! A ilha está cheia de fogos-de-santelmo!
Mullon olhou em torno e viu que nas pontas dos talos de capim e nos outros arbustos havia as mesmas flores. Levantou as mãos e notou que nas pontas dos dedos surgiam pequenas chamas azuladas.
Olhou para cima. No céu límpido e branco-azulado não se via o menor sinal de trovoada ou de qualquer outra coisa que pudesse dar origem ao estranho fenômeno. Sentiu que seus cabelos arrepiavam-se. O ar devia estar carregado de eletricidade. De onde viria a mesma?
Mullon olhou para os lados. Perto da ilha em que se encontravam havia outras ilhas formadas por bancos de areia e depósitos de lama. Em algumas delas também havia arbustos e capim. Se nelas também; existisse o fogo-de-santelmo, Mullon não; poderia deixar de vê-lo, pois as chamas brancas despertavam a atenção de qualquer pessoa.
Ao que parecia, a eletrificação do ar estava restrita apenas àquela ilha.
É inexplicável! Um fogo-de-santelmo que se restringe a uma área de cem metros quadrados no máximo, enquanto nos arredores não dá o menor sinal de sua existência, não é um fenômeno natural; foi provocado artificialmente”, pensava um tanto atordoado. “Alguém criou um campo eletrostático em cima da ilha, dando causa ao surgimento do fogo-de-santelmo.”
A idéia provocou calafrios em Mullon. A criação de um campo eletrostático em plena atmosfera exigia conhecimentos e tecnologia que não ficariam para trás daqueles que se encontravam na Terra.
Onde estará o inimigo? E será realmente um inimigo? Qual será seu objetivo?”, indagava-se mentalmente.
Uma das idéias começou a impor-se obstinadamente ao espírito de Mullon. O pequeno reator de fusão do helicóptero precisava da energia fornecida por uma pequena bateria para ser posto em movimento. O que seria feito da bateria a essa hora? Teria sofrido alguma influência do campo eletrostático?
Mullon pôs-se a correr. Enquanto saltava para dentro da cabine do helicóptero, chamou Milligan e Pashen. Enfiou-se no assento do piloto e procurou acionar os motores.
Seus receios confirmaram-se integralmente. O indicador de carga da bateria nem reagiu. Nenhuma das numerosas luzes de controle se acendeu, e quando foi ligado o transmissor, este permaneceu mudo.
Milligan, que se encontrava do lado de fora, gritou:
O fogo-de-santelmo está desaparecendo, chefe. Agora não vejo mais nenhum.
Mullon recostou-se no assento, num gesto de resignação.
Cheguei tarde”, pensou, “muito tarde. As baterias estão descarregadas.”
Em Greenwich havia numerosos aparelhos que permitiam a carga rápida de uma bateria. Acontece que Greenwich ficava a quatrocentos quilômetros, e não havia sequer a possibilidade de transmitir um aviso sobre a existência do problema.
Mullon desceu. Face ao seu rosto abatido, Milligan concluiu que alguma coisa devia ter acontecido. Mullon relatou em palavras ligeiras do que se tratava.
E agora? — perguntou Milligan perplexo.
Mullon deu de ombros.
Não tenho a menor idéia. Em minha opinião será preferível passarmos a noite aqui. Talvez o inimigo resolva dar as caras. Talvez possamos obrigá-lo a reparar o dano. Se isso não acontecer, voltaremos a pé.
Fez um gesto de desânimo em direção à margem do rio, onde se levantava a “parede” impenetrável da mata.
Milligan lançou os olhos para lá.
Acha que conseguiremos?
Acredito que sim. De qualquer maneira, temos de conseguir, a não ser que queiramos morrer de fome.
Fraudy, que se mantinha ocupada com as pequenas rãs, não percebera os fogos-de-santelmo, nem tivera notícia do contratempo com as baterias do helicóptero. Na sua exaltação avançara até a beira da água. Sentada lá, com uma das rãs gosmentas e marrom-escuras na mão, ouviu subitamente um ruído na água.
Assustada, ergueu-se abruptamente e deixou cair a rã. No entanto, seus pés não encontraram suficiente apoio no solo fofo do íngreme barranco... escorregou até que seus pés ficassem na água.
Uma cabeça larga e feia, com uma boca enorme, surgiu bem à sua frente. Era um crocodilo. Fraudy viu que o animal a observava, como quem avalia sua presa, e se dispôs a dar um salto em direção à margem para agarrá-la.
Fraudy soltou um grito estridente, a fim de avisar Mullon e os outros homens do grupo.
O grito fez os homens correrem em direção ao barranco. E Milligan teve bastante presença de espírito para levar o fuzil, que se encontrava nas proximidades do helicóptero.
Enquanto Mullon e Pashen gritavam e atiravam pedras para espantar o animal, conseguindo desviar-lhe a atenção, pelo menos por alguns segundos, da presa que pretendia abocanhar, Milligan aproximou-se cautelosamente, ajoelhou atrás de um arbusto e fez pontaria. O primeiro tiro teria de ser mortal, pois a cabeça do crocodilo se encontrava a menos de três metros de Fraudy.
O tiro disparado por Milligan foi totalmente inesperado. Mullon e Pashen encolheram-se, enquanto Fraudy soltou um grito.
Milligan acertara no olho esquerdo do animal. Este empinou o corpo, que se aproximou mais dois metros da margem e ficou imóvel em meio às camadas de lama que rodeavam a ilha.
Fraudy saiu da lama, na qual afundara até os tornozelos, e subiu o barranco, pálida e trêmula, mas com um sorriso nos lábios. Mullon abraçou-a.
Foi por pouco — murmurou.
E isso aconteceu apenas por causa da minha imprudência — confessou Fraudy.
Virou-se e fitou o crocodilo abatido.
Como é grande! — disse. — Será que poderiam trazê-lo para terra? Gostaria de examiná-lo.
Mullon concordou com uma risada. Milligan desceu o barranco, segurou o focinho pontudo do animal e procurou puxá-lo, mas só o conseguiu com a ajuda de Pashen e Mullon.
Depois que a presa se encontrava em terra firme, constataram que media doze metros e meio, um tamanho que seus parentes terranos só alcançam em casos excepcionais. De resto era semelhante aos mesmos, exceto quanto à disposição das escamas.
Fraudy logo se pôs a examinar o animal. Trabalhou com tamanha disposição que, quando Mullon lhe disse que o helicóptero não estava em condições de voar, apenas respondeu:
Paciência, iremos a pé.
Pashen e Milligan receberam ordem para tirar o couro do animal e conservá-lo, para que não se estragasse. Era uma tarefa difícil para aqueles dois homens, que até então só haviam visto crocodilos nos jardins zoológicos.
Quando examinou o gigantesco focinho do animal, Fraudy fez uma descoberta surpreendente. Bem atrás, quase na goela, descobriu alguma coisa que se parecia com um pedaço de tecido azul. Arrancou-o com o auxílio de Milligan e estendeu-o ao sol.
Realmente parecia ser um pano, embora não fosse possível descobrir a tessitura. Estava embebido de água e pesava muito.
O crocodilo comeu um cadáver — disse Mullon em tom de escárnio. — E um pedaço da roupa ficou preso na sua goela.
Fraudy levava suas pesquisas a sério.
Quem dera que por aqui existisse um laboratório — disse. — Gostaria de saber o que é isto.
Mullon pegou a peça, examinou-a de perto e disse:
Ora! É um pedaço de pano. O que poderia ser se não isto?
Fraudy zangou-se.
Como é que um pedaço de pano veio parar neste lugar?
Talvez esse rio seja o mesmo que passa por Greenwich. E é perfeitamente cabível que por lá alguém tenha atirado um pedaço de roupa velha na água, e que este tenha parado na boca do crocodilo — disse Mullon.
A explicação era razoável. Mas tinha um defeito: roubou uma ilusão de Fraudy. Esta sentiu-se tão contrariada que dali em diante não deu mais a menor atenção àquele pedaço de “pano”.
E isso foi um erro!
Dali a duas horas, percebeu-se que o pedaço de pano azul havia desaparecido. Fraudy pensou que um dos dois homens o tivesse guardado. Mas Milligan e Pashen não sabiam de nada.
A ilha foi revistada metro por metro, mas o pano continuou desaparecido.
Quem sabe se foi levado pelo vento? — conjeturou Milligan.
Alguém percebeu a mais leve brisa que seja depois que chegamos aqui? — perguntou Fraudy em tom zangado.
Depois de mais de uma hora de buscas, não tiveram outra alternativa senão admitir que a peça de pano azul não se encontrava mais na ilha. Podiam formular hipóteses sobre o motivo de seu desaparecimento — e as de Fraudy representavam um verdadeiro prodígio de fantasia e imaginação...

* * *

O sol ia descendo. Tiveram pouco descanso, pois o exame do crocodilo prendeu as atenções de todos.
Fraudy anotou cuidadosamente o que havia encontrado e não disfarçou seu orgulho por ter descoberto, examinado e classificado um animal totalmente desconhecido.
Depois do jantar Mullon distribuiu os quartos de sentinela. Explicou aos homens o que importava:
Admitamos que nos encontremos diante de um inimigo ou de um curioso. Este não poderá fazer nada enquanto não conseguir ver-nos de perto. Provavelmente aproveitará a noite para atravessar o rio e dar uma olhada. Por isso, devemos ficar com os olhos bem abertos. Procuraremos negociar com os desconhecidos ou capturar certo número de prisioneiros, que possamos libertar em troca do reparo de nossas baterias.
Milligan fez um gesto de aprovação.
Como serão estes desconhecidos? — perguntou Pashen.
Mullon retribuiu seu olhar irônico.
Dê livre curso à sua fantasia, Pashen — respondeu.

* * *

No meio da noite, Mullon ergueu-se sobressaltado. Pelos seus cálculos ainda não passara mais de uma hora depois que despertara Milligan.
Por que acordara?
Ergueu-se sobre os cotovelos e saiu rastejando devagar, para não acordar Fraudy. Quando baixou o pano que fechava a barraca, ouviu alguém gemer para o lado da água.
Milligan! — chamou em voz baixa.
A resposta foi outro gemido.
Mullon pegou o fuzil e rastejou até o lugar em que Milligan se postara. Depois de ter avançado uns três metros, um fenômeno estranho prendeu sua atenção e o fez parar.
Sobre a água do rio, que corria com um ligeiro murmúrio, uma série de chamas azuis tremeluziam. Eram parecidas aos fogos-de-santelmo que observara durante o dia, mas eram azuis e cinco vezes maiores.
As chamas azuis pareciam aproximar-se pelo rio. Naquele instante, começavam a chegar à ilha e subiam ao lugar em que Milligan montava guarda.
Milligan! O que teria acontecido com ele?”, pensou, interrogando-se.
Mullon deu um passo para a frente. Naquele instante alguma coisa macia, mas irresistível, desceu sobre ele, embargou-lhe o passo e comprimiu-o contra o chão. Procurou levantar-se, mas a força misteriosa que o comprimia contra o solo era mais forte.
Respirava com dificuldade. Procurou gritar por socorro, mas apenas conseguiu emitir um gemido inarticulado, igual ao de Milligan, que ele ouvira pouco antes.
Mullon percebeu que as chamas azuladas caminhavam em sua direção. Ouviu um grito abafado, vindo da barraca de Fraudy. Depois disso a pressão exercida contra seu corpo tornou-se tão intensa que perdeu os sentidos.

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