Havia
outra pessoa que se deslocava naquele mesmo instante pelas encostas
rochosas, sempre na direção oeste. Era Cislarczik.
Os golpes
desferidos por Harper deixaram-no inconsciente apenas por duas horas.
Ao despertar, encontrou o cantil vazio e o bilhete de Glannon.
Daquele
momento em diante Cislarczik não pensou em outra coisa senão na
maneira de castigar Harper.
Seguiu o
rastro ainda bem visível deixado por Harper e Glannon, e encontrou o
rio. Acampou meio quilômetro abaixo do lugar em que eles
descansaram. Quando voltou a pôr-se a caminho, percebeu a pista
deixada pelos dois. Seguiu-a enquanto pôde vê-la. Dormiu durante a
noite e, na manhã seguinte, esforçou-se para avançar o mais
depressa possível, a fim de que o capim pisado não se levantasse e
apagasse o rastro de Harper e Glannon. Sabia perfeitamente que do
lugar em que se encontrava nunca conseguiria chegar a Greenwich
enquanto não possuísse uma bússola. Por isso precisava encontrar
Harper e apoderar-se da bússola.
Cislarczik
voltou a ver os dois homens no instante em que tomavam os primeiros
goles de água com fortificante para logo depois penetrarem no
desfiladeiro.
Àquela
hora já havia marchado cerca de dez horas, praticamente sem fazer
uma pausa.
Sem
interessar-se pelas numerosas reentrâncias da rocha, subiu pelo
desfiladeiro e atingiu o ponto culminante. Naquele instante, viu
Harper e Glannon saírem para o pequeno planalto.
Fez mais
uma pausa, desta vez de três horas, e iniciou a descida. Ao
escurecer chegou à entrada do segundo desfiladeiro. Dali em diante,
não precisaria seguir qualquer pista, pois sabia que Harper e
Glannon não poderiam ter tomado outro caminho. Por isso prosseguiu
no escuro.
*
* *
Por
enquanto Mullon não se interessou pelos peixes negros da lagoa. Os
mungos eram muito mais importantes.
Depois que
Milligan se levantara, os seis mungos, que já haviam admirado seus
presentes, acharam que não teriam mais nada a fazer por ali. Por
isso deram a entender que desejavam seguir seu caminho.
Tal qual
da primeira vez, um deles tentou levar Fraudy. Enquanto seus
companheiros já saltitavam mais à frente, ficou para trás e
apontou para a encosta oeste do vale.
Mullon
esperava este momento. Pashen recebera instruções para acompanhar
Fraudy e descobrir o habitat dos mungos. O local deveria ser marcado,
para que Mullon pudesse atingi-lo com o helicóptero, assim que o
aparelho tivesse sido reparado.
Por isso
Fraudy e Pashen seguiram os mungos. Mullon receara que os macaquinhos
não apreciassem a companhia deste último, pois, ao que tudo
indicava, seu coração pertencia a Fraudy. Mas o mungo que lhes
apontou o caminho não demonstrou a menor hesitação.
Saltava à
frente e, sempre que a distância entre ele e a dupla que o seguia
chegava a uns trinta metros, parava um pouco e estendia o braço, a
fim de indicar a direção em que deveriam prosseguir.
Mullon e
Milligan puseram-se a examinar o helicóptero.
O trabalho
não foi fácil.
Várias
horas se passaram, sem que conseguissem nada.
Fraudy e
Pashen voltaram de tarde. Haviam encontrado o abrigo dos macacos,
onde foram bem recebidos. Fraudy disse que nesse abrigo, situado bem
acima do vale, numa grota que penetrava profundamente na encosta
oeste, havia cerca de cem mungos. Se compreendera bem os gestos dos
animais, este abrigo não era o único. Ao que parecia havia outros,
situados em diversos lugares, inclusive na encosta leste.
Enquanto
Fraudy conversava com os mungos, Pashen havia marcado a entrada da
grota. Disse que no lugar onde esta desembocava na encosta do vale
havia uma pequena saliência na rocha, e que um piloto bem treinado
talvez pudesse ali pousar.
Mullon
ficou satisfeito com o resultado da excursão. Pretendia tirar
proveito da amizade dos mungos, em benefício do pequeno núcleo de
colonização. Para isso precisava saber onde encontrar os macacos,
quando precisasse deles. Mullon resolveu procurar outros abrigos de
mungos.
Acontece
que o exame do mecanismo de propulsão do helicóptero não produziu
resultados satisfatórios, muito embora Pashen, que afirmava entender
alguma coisa de reatores de fusão, participasse do trabalho. Mullon
concluiu que, por ocasião do pouso forçado da Adventurous, o
reator, ou algum dos seus acessórios vitais, deveria ter sido
danificado e começasse a falhar justamente agora, quando mais
precisavam do aparelho.
As
perspectivas que se abriam face a isso eram tudo, menos animadoras. O
ponto em que se encontravam ficava a uns cento e trinta quilômetros
de Greenwich. E cem quilômetros dessa distância teriam de ser
percorridos sobre a estepe, que de dia era fustigada pelo sol e de
noite tornava-se gélida.
O fato de
que o transmissor de ondas curtas ainda funcionava era prova de que o
reator propriamente dito estava intacto, pois era este que fornecia a
respectiva energia.
Mullon
avisou Greenwich sobre a pane ocorrida com o helicóptero. Apesar
disso não teria outra alternativa senão reparar o aparelho ou
voltar a pé. Passou a acreditar cada vez mais na segunda solução,
à medida que o dia avançava.
Enquanto
isso Fraudy e Milligan saíram para pescar um dos monstros negros da
lagoa, que no dia anterior haviam dado cabo da serpente. Conseguiram
seu intento com uma rapidez espantosa — isso depois de se lembrarem
de pegar alguns alimentos concentrados no acampamento. Mal haviam
atirado as conservas à água, a lagoa começou a ferver e as sombras
negras dos peixes carnívoros aproximaram-se de todos os lados.
A única
coisa que Milligan teve que fazer foi jogar a rede e recolhê-la.
Pegou dez monstros negros. Para espanto de Fraudy, não se pareciam
com peixes, mas antes com pequenos crocodilos. Tinham quatro tocos de
perna, barbatanas tortas e uma cabeça estreita e alongada, tomada
quase exclusivamente pela boca. Fraudy teve certeza de que se tratava
de uma variedade de peixes do planeta Fera Cinzenta, ou melhor, de
uma espécie que estava prestes a realizar a transição da vida
aquática pouco desenvolvida para a vida mais aperfeiçoada dos seres
que habitam a superfície.
Quando
Fraudy e Milligan regressaram com a presa, Pashen e Mullon ainda não
haviam conseguido reparar o helicóptero, embora não tivessem feito
nenhuma pausa, trabalhando ininterruptamente.
O dia foi
chegando ao fim. Mullon resignou-se e foi deitar-se depois de ter
destacado Fraudy e Milligan para os primeiros quartos de sentinela.
Pretendia permanecer mais uns três ou quatro dias nesse vale, para
explorar os arredores. Três ou quatro dias eram um tempo longo. Mas
depois das tentativas fracassadas daquele dia, teve suas dúvidas se
conseguiriam ou não reparar o helicóptero até a hora do regresso a
Greenwich.
*
* *
Cislarczik
viu-se favorecido pelo silêncio que reinava no interior do profundo
desfiladeiro. Se houvesse qualquer ruído, não teria ouvido as vozes
baixas dos dois homens que conversavam a apenas vinte metros de
distância.
Afastou-se
uns cem metros e foi dormir num nicho existente na rocha.
Amanhã
seria o dia de Harper.
Cislarczik
não sentia a menor raiva de Glannon. Harper era o homem ao qual
deviam ser debitados os males que sofrerá. Glannon sempre se
mostrara amável e solícito para com ele. Não pretendia fazer
Glannon pagar pelo que Harper lhe fizera.
*
* *
Na manhã
do dia seguinte, quando começava a clarear, Mullon subiu no
helicóptero para prosseguir no exame de seu mecanismo. O repouso
prolongado não só lhe restituíra as forças, mas também lhe
incutira a convicção de que as avarias seriam reparadas, fossem
quais fossem.
O último
quarto de sentinela coubera a Pashen, mas este afirmou que não se
sentia cansado e subiu ao mecanismo de propulsão do helicóptero,
onde se encontrava Mullon.
Ainda não
se havia passado meia hora quando Pashen soltou um grito de triunfo.
— Descobri!
Mullon foi
ao lugar em que ele se encontrava.
— Descobriu
o quê? — perguntou, mal disfarçando o nervosismo.
— Está
aqui! — respondeu Pashen apressadamente. — É um vazamento no
sistema de alimentação de combustível.
Apontou
para um tubo capilar que ligava o pequeno reservatório de hidrogênio
à cápsula do reator. Num ponto via-se um pinguinho de orvalho.
O reator
de fusão trabalhava com hidrogênio atômico liquefeito. Este
combustível, congelado à baixa temperatura, era guardado num
pequeno tanque e, conforme as necessidades, conduzido pelos tubos
capilares às câmaras de reação.
O orvalho
provava que naquele lugar, havia um vazamento do tubo capilar. O
reator não recebia quantidade suficiente de combustível. Ainda
estava em condições de fornecer energia para o transmissor, mas o
mecanismo de propulsão deixava de atender às solicitações que lhe
eram feitas, pois havia um dispositivo de segurança que fazia com
que o rotor não começasse a girar se o reator não estivesse em
condições de suprir a energia a um vôo seguro.
— Santo
Deus! — disse Mullon em tom de espanto. — Como foi encontrar uma
coisinha destas?
Pashen deu
de ombros. Um largo sorriso cobria seu rosto.
— Nunca
pensava que pudesse haver qualquer avaria no sistema capilar —
respondeu. — Foi por um simples acaso que vi a umidade.
Os tubos
capilares se achavam dentre as peças de reposição existentes em
qualquer helicóptero. Em poucos instantes, o tubo defeituoso foi
trocado. Mullon entrou na cabine e comprimiu o botão de arranque. O
rotor começou a girar, como se nunca tivesse havido qualquer
defeito.
*
* *
Ainda de
manhã, Glannon e Harper chegaram a um lugar do desfiladeiro do qual
podiam ver boa parte do vale que se estendia na direção norte-sul.
Nesse lugar os paredões de rocha, que reduziam o desfiladeiro a uma
largura não superior a dez metros, afastavam-se, formando uma ampla
abertura. Naquele lugar uma fenda estreita e profunda dividia o
desfiladeiro em dois caminhos, um dos quais se dirigia ao noroeste,
enquanto o outro continuava na direção oeste.
Harper
acreditava que no primeiro dia Mullon tivesse montado acampamento
nesse vale, onde talvez ainda se achasse. Mas não encontrou o menor
sinal desse acampamento. Do desfiladeiro não se via o pé de
fruta-pão junto ao qual haviam sido levantadas as barracas. Mas
qualquer um chegaria à conclusão de que Mullon acamparia num lugar
em que a vegetação pudesse proporcionar uma boa sombra. E o vale
que Harper e Glannon viam diante de si possuía essa vantagem, ao
contrário de todos os outros vales que os dois haviam visto ou
atravessado.
— Ficaremos
aqui — decidiu Harper. — Se ainda estiverem por lá, acabaremos
ouvindo o helicóptero.
Acomodaram-se
da melhor forma possível entre as pedras que se amontoavam junto à
grota e olharam fixamente para o vale.
Depois de
duas ou três horas, Harper subitamente aguçou o ouvido. Ouviu um
leve zumbido, vindo do vale. Dali a pouco, as batidas características
do rotor puderam ser percebidas.
— Olhe!
— exclamou Glannon, apontando com o braço.
Bem ao
longe, junto à vegetação verde-cinza que cobria o fundo do vale,
um ponto se movia.
— É o
helicóptero! — exclamou Harper. — Nós os descobrimos.
Viu a
máquina tomar a direção leste e subir pela encosta do vale. Vez
por outra desaparecia atrás de uma saliência da rocha, para
reaparecer em seguida. Na opinião de Harper, mantinha-se a uma
distância perigosamente reduzida da encosta; ao que parecia, estava
procurando alguma coisa por lá.
De repente
Harper viu o helicóptero descrever uma curva fechada; aproximou-se
vertiginosamente da encosta rochosa e desapareceu. Dali em diante, o
zumbido se tornou muito mais fraco.
Não havia
a menor dúvida: naquele lugar existia uma fenda na rocha, e Mullon
fizera o helicóptero entrar na mesma. Depois de mais algum tempo, o
ruído do motor cessou por completo: Mullon acabara de pousar.
Glannon
fez menção de levantar-se de um salto, mas Harper segurou-o.
— Espere!
— ordenou. — Por ali o caminho é muito perigoso. Teremos que
escalar este paredão e descer pelo outro lado... se é que isso se
torne possível. Talvez Mullon não demore em levantar vôo de novo.
Glannon
aguçou o ouvido. Mantiveram-se imóveis e em silêncio. Só depois
de quase uma hora Harper levantou-se e resmungou:
— Vamos
embora! É provável que ainda demore no lugar em que se encontra.
Pegaram os
fuzis e puseram-se a caminho.
Por um
simples acaso Glannon virou-se no momento em que saíam do lugar em
que haviam acampado, olhando para o desfiladeiro.
Estacou de
susto. Um homem alto, de ombros largos, saía da semi-escuridão
reinante no desfiladeiro.
Era
Cislarczik.
*
* *
Ao
despertar, Cislarczik percebeu que não agüentaria por muito tempo,
a não ser que conseguisse tirar a água preparada de Harper para
tomar alguns goles. Confiara demais em suas forças. Tinha o corpo
praticamente todo dolorido.
Teve de
reunir as últimas reservas de energia e apelar para o ódio que
sentia por Harper, a fim de não continuar deitado e dormindo.
Levantou-se cambaleante, pegou o fuzil e dirigiu-se a passo inseguro
para a saída do desfiladeiro.
Conseguiu
chegar ao alargamento do desfiladeiro, mais ou menos no mesmo
instante em que Harper e Glannon descobriram o helicóptero.
Prosseguiu
devagar e depois de algum tempo viu os dois homens que perseguia
entre as rochas, no lugar onde descansavam. Cislarczik teve de manter
uma distância tamanha que não lhe permitiria uma pontaria segura.
Teria de esperar até que os outros se levantassem.
Isso
aconteceu depois de uma longa hora. Cislarczik saiu de trás da pedra
que lhe servira de esconderijo e seguiu-os lentamente.
Foi nesse
momento que Glannon se virou e o descobriu.
É claro
que Harper notou imediatamente o gesto estranho de Glannon. Também
se virou, mas sua reação, ao reconhecer Cislarczik, foi muito mais
rápida que a de Glannon.
A reação
de Cislarczik não foi menos rápida. Já Glannon se mantinha imóvel
como uma estátua em meio ao teatro das operações.
— Saia
daí, seu idiota! — gritou Cislarczik. — Você está na linha de
fogo.
Com estas
palavras a figura de Glannon ganhou vida. Saltou para o lado e
deixou-se cair dentro de um pequeno nicho do paredão rochoso.
Harper viu
o cano da arma de Cislarczik surgir por trás da rocha. Esperou
pacientemente até que pudesse ver a mão que segurava a parte
inferior do cano. Foi então que disparou. Não atingiu a mão, mas o
cano da arma. O fuzil foi arrancado das mãos de Cislarczik. Harper
viu-o redemoinhar pelo ar e cair na grota, atrás de Cislarczik.
Harper
levantou-se de um salto.
— Agora
irei buscá-lo! — gritou para Cislarczik.
Viu que
este procurava mudar para outro abrigo. Parou. No momento em que o
corpo gigantesco de Cislarczik surgiu por um segundo entre dois
blocos de pedra, atirou sem a menor hesitação.
O homem
alvejado ergueu-se com um grito de dor. Harper viu-o aparecer atrás
do bloco de pedra, agitando os braços, como se tivesse de
esforçar-se para conservar o equilíbrio. Finalmente caiu para trás
e precipitou-se nas profundidades da grota.
Harper não
perdeu tempo.
— Vamos
embora! — gritou para Glannon. — Acho que os tiros foram ouvidos.
Glannon
saiu do esconderijo. Os dois homens correram ofegantes pelo
desfiladeiro, e só pararam a um quilômetro do lugar em que
Cislarczik caíra no precipício.
*
* *
De início
Mullon se dirigira para a encosta oeste do vale, onde no dia anterior
Fraudy e Pashen haviam descoberto e assinalado o abrigo dos mungos.
Conseguiu pousar sem problemas na pequena saliência da rocha. A
recepção que os mungos proporcionaram a Mullon e Milligan foi tão
entusiástica como a de Fraudy e Pashen, no dia anterior.
Nesse
ínterim, Mullon teve uma idéia que, segundo acreditava, lhe
permitiria achar sem maior perda de tempo os outros abrigos de
mungos. Era provável que, além de seu abrigo, os animais
conhecessem outros que se encontrassem nas redondezas. Por isso
bastaria convencer um deles a acompanhá-los no helicóptero, e
seguir as indicações que este fornecesse durante o vôo.
Os
entendimentos sobre este ponto prolongaram-se por muito tempo. Mas
quando os mungos compreenderam de que se tratava, todos se mostraram
dispostos a embarcar no helicóptero. O “chefe”
teve de impor sua autoridade para escolher um dos voluntários.
Por
estranho que pudesse parecer, o mungo que acompanharia Mullon não
tinha medo do ruído provocado pelo helicóptero. Parecia uma criança
que ainda não tivesse suficiente compreensão das coisas para sentir
medo. O balanço da máquina deu-lhe um prazer enorme, mas Mullon não
teve a menor dificuldade em lembrar-lhe que não viera apenas por
prazer.
O mungo
fez dirigir o helicóptero para a encosta leste, e apontava com
tamanha insistência para uma fenda em que mal caberia o helicóptero,
que até se tinha a impressão de que ali deveria ficar outro abrigo
de mungos.
Realmente
foi assim. Um grupo de vinte mungos vivia num canto escuro dessa
fenda. Observaram atentamente a máquina que pousava, mas não
demonstravam o menor medo. E, depois que o “companheiro”
de Mullon explicou em sua estranha linguagem, feita de chiados e
balidos, qual era a natureza da visita, proporcionaram uma recepção
condigna aos estranhos.
Os mungos
encontrados nesse lugar eram mais retraídos que os que Mullon e
Milligan haviam encontrado do outro lado do vale. De início Mullon
acreditou que eles os considerassem como estranhos, enquanto que com
os outros os terranos já tiveram alguns contatos. Mas havia um fato
esquisito: o mungo que os acompanhara até lá também parecia
sentir-se tomado pela mesma inquietação. Quando Mullon fez menção
de retirar-se a fim de procurar outros abrigos de mungos, o macaco
segurou-o pelo braço e soltou por várias vezes um som que parecia
um “guê-guê”.
Mullon não
sabia o que significava isso e procurou entrar no helicóptero, mas o
mungo fez o que pôde para retê-lo. Apontou várias vezes pela
parede rochosa acima e disse numa seqüência rápida:
— Guê-guê...
guê-guê... guê-guê...
— O que
será que ele tem? — perguntou Milligan.
— Não
sei — respondeu Mullon. — Quem sabe se lá em cima existe outro
abrigo de mungos?
Milligan
lançou os olhos encosta acima.Viu que era íngreme, mas sua escalada
não era impossível. Havia muitas saliências e reentrâncias que
poderiam proporcionar apoio às mãos e aos pés.
— Vamos
subir ali? — perguntou Milligan.
— Isso
mesmo; vamos embora.
O mungo
parecia entusiasmado quando viu que conseguira seu intento. Saltou à
frente juntamente com outro animal, pertencente ao grupo que habitava
nessa fenda, apontando um caminho seguro que levava ao topo do
paredão.
Lá em
cima encontraram um platô, cortado por uma fenda larga. Mullon
avançou até a borda da fenda e, para seu espanto, viu o
desfiladeiro pelo qual viera três dias antes com o helicóptero.
E viu
outra coisa!
Distinguiu
Harper e Glannon, sem reconhecê-los, e Cislarczik, no momento em que
este partia para o ataque. Viu Harper defender-se, e ouviu o grito de
pavor que Cislarczik soltou ao cair no precipício.
Milligan
estava deitado ao lado de Mullon.
— Não
compreendo — resmungou. — O que será que essa gente veio fazer
aqui? E por que estão se matando?
— Hum —
fez Mullon. — Também não sei exatamente do que se trata, mas
basta um pouco de fantasia para construirmos uma história.
— Qual é
a história?
— Não
se esqueça de Hollander. É possível que ele veja na situação
atual a melhor oportunidade de eliminar-me. Bem, ainda saberemos...
Olhe! Os dois estão descendo. Se andarmos depressa, ainda poderemos
pegá-los.
Regressaram
ao abrigo dos mungos, colocaram seu acompanhante a bordo do
helicóptero e decolaram. Com o maior cuidado, Mullon conduziu a
máquina para fora da fenda e foi para a direita, em direção à
saída do desfiladeiro.
— Prepare
seu fuzil! — ordenou a Milligan. — Não sabemos o que essa gente
está tramando.
*
* *
Harper
ouviu o ruído do helicóptero quando este entrou no desfiladeiro,
vindo do lado oeste.
— É
Mullon! — gritou para Glannon. — Esconda-se.
Enfiaram-se
atrás de blocos de pedra. O helicóptero passou a pouca altitude. De
seu esconderijo viu Mullon, que pilotava a máquina, e Milligan, que
mantinha o fuzil na mão. Ao que parecia, nenhum dos dois havia visto
os homens no seu esconderijo.
Depois o
aparelho desapareceu numa curva fechada do desfiladeiro. Por algum
tempo o ruído permaneceu no mesmo nível, mas logo voltou,
tornando-se cada vez mais forte.
Para sua
surpresa Harper notou que o helicóptero havia subido uns duzentos
metros, encontrando-se mais ou menos na altura da montanha na qual
estava recortado o desfiladeiro. Quais seriam as intenções de
Mullon? Será que pretendia conseguir uma visão melhor?
Harper
escondeu-se à sombra da rocha que escolhera como esconderijo e não
fez o menor movimento. Por uma verdadeira eternidade o helicóptero
parecia manter-se imóvel, mas subitamente desceu com um chiado.
“Ele
me descobriu”,
pensou Harper, muito assustado.
O aparelho
pousou a uns vinte metros do lugar em que Harper e Glannon estavam
escondidos. Harper viu que só havia um homem na cabine; era Mullon.
Não se
interessou pelo paradeiro do segundo homem. De qualquer maneira, o
homem, que ele pretendia matar, encontrava-se à sua frente. Viu que
Mullon ainda teria de travar o helicóptero, para que não pudesse
escorregar montanha abaixo. Levantou-se e apontou a arma.
Neste
momento, ouviu uma voz dura às suas costas:
— Deixe
cair a arma e levante as mãos.
Harper
obedeceu.
— Você
também! — ordenou a voz.
Perto de
Mullon outro fuzil caiu ao chão; era o de Glannon. Harper virou-se e
viu Milligan.
— É
você! — disse em tom furioso.
— Vá
andando em direção do helicóptero! — ordenou Milligan.
Trêmulo
de raiva, Harper obedeceu.
Mullon
esperava-o com o rosto sério, de arma apontada. Na mão direita,
segurava algumas fitas de plástico. Atirou-as para Harper e disse:
— Amarre
as mãos de seu cúmplice. Glannon, que também se aproximara, não
ofereceu a menor resistência quando Harper lhe amarrou as mãos.
Este teve as mãos amarradas por Milligan. Depois disso os dois foram
colocados no helicóptero.
— Quem
foi que os mandou? — perguntou Mullon antes de decolar.
— Ninguém
— murmurou Harper.
— Por
que procurou atirar em mim?
— Porque
não gosto do senhor. Mullon fitou-o com uma expressão séria.
— Está
bem; para mim é indiferente — disse em tom tranqüilo. — Se
quiser, continue a afirmar o que acaba de dizer. Mas não se esqueça
de que em Greenwich existem pessoas que sabem fazer falar até mesmo
a pessoa mais obstinada.
*
* *
Naquele
mesmo dia, a expedição pôs-se a caminho. Mullon avisara Greenwich
sobre o incidente e anunciara seu regresso, pelo caminho mais rápido,
a fim de que as investigações contra Glannon e Harper — neste
meio tempo os dois haviam revelado seu nome — pudessem ser
iniciadas imediatamente.
Os dois
prisioneiros continuaram a afirmar que haviam saído por iniciativa
própria a fim de matar Mullon, que, para eles, representava um
perigo à colônia. Relataram o incidente havido com Cislarczik,
segundo a verdade dos fatos, e Mullon teve de reconhecer que neste
ponto haviam agido em legítima defesa.
Mullon não
tinha a menor dúvida de que os três, ou seja, Harper, Glannon e
Cislarczik haviam sido aliciados por Hollander. Disse isso
francamente a Harper e Glannon; a única resposta consistiu num
sorriso de escárnio.
Enquanto
isso, Milligan e Fraudy esforçavam-se para convencer alguns dos
mungos a irem com eles. Conseguiram depois de demoradas negociações.
Cinco mungos declararam-se dispostos a voar para Greenwich em sua
companhia.
O
helicóptero decolou no fim da tarde. Mullon deixara para trás uma
das barracas com o respectivo equipamento, a fim de poder abrigar os
dois prisioneiros no veículo. Poderiam levar estes objetos quando os
mungos fossem trazidos de volta.
IV
Pela
primeira vez Greenwich conheceu uma verdadeira sensação. A notícia
de que alguém pretendera assassinar Mullon pelas costas provocou uma
verdadeira onda de indignação. Era difícil saber onde essa
indignação era verdadeira e onde era fingida. Não havia dúvida de
que boa parte dos colonos eram adeptos de Hollander, e estes
certamente se sentiam tristes porque Mullon escapara com vida.
A
Assembléia Popular ouviu os autores do atentado antes de tomar
conhecimento dos resultados da expedição. Harper e Glannon
continuavam a afirmar que haviam agido por iniciativa própria.
O’Bannon, amigo de Mullon há muitos anos, pediu à Assembléia que
não acreditasse nessa pseudo-confissão. Sugeriu que os prisioneiros
fossem trancados até que se mostrassem dispostos a revelar o nome da
pessoa que os incumbira de praticar o crime.
Mas
O’Bannon não soube o que responder à objeção de que uma simples
suspeita não justificava tal procedimento. Para completar a farsa,
Hollander levantou-se e propôs que O’Bannon fosse repreendido. Os
prisioneiros haviam feito uma confissão cabal, e não havia o menor
motivo para continuar a interrogá-los. A única tarefa da Assembléia
Popular consistia em proferir sentenças. O planeta Fera Cinzenta
ainda não possuía uma constituição propriamente dita. Por isso as
três tarefas do governo democrático, ou seja, as dos poderes
legislativo, executivo e judiciário, estavam a cargo da Assembléia
Popular.
O’Bannon
não foi repreendido, mas a segunda parte da proposta de Hollander
foi aprovada. Depois de algumas horas de debates, condenaram Harper a
cinco anos de prisão, e Glannon a três.
Num
procedimento bem prático, os dois foram presos nos destroços da
nave Adventurous. Depois levaram-nos de helicóptero a um lugar que
só por esta forma poderia ser atingido. Os dois prisioneiros
receberam água, mantimentos e outras provisões para várias semanas
e foram deixados a sós. Poderiam dar um sinal caso um deles
adoecesse ou sofresse um acidente.
Para
Mullon essa sentença foi decepcionante. Esperara poder arrancar a
máscara de Hollander. Não conseguira. No entanto, compreendia
perfeitamente que Harper e Glannon preferissem cumprir uma longa pena
de prisão a fazer uma confissão completa e expor-se à vingança de
Hollander e seus adeptos.
*
* *
Foi só no
dia seguinte que a Assembléia Popular tomou conhecimento dos demais
resultados alcançados pela expedição de Mullon. O ponto mais
importante foi a descoberta da raça semi-inteligente dos mungos e do
remédio contra as pústulas azuis.
Na noite
anterior, Mullon convencera os mungos a preparar as folhas da maneira
já conhecida. O remédio assim produzido foi dado aos doentes, cujo
número já havia crescido para vinte e dois. O êxito foi tão
fulminante como o que três dias antes se verificara com Milligan. O
Dr. Weeney disse que estaria em condições de produzir um soro,
assim que conhecessem a composição do remédio produzido pelos
mungos. Aliás, constatou-se que as mesmas folhas, mastigadas por
homens em vez de macacos, não produziam o menor efeito. Na saliva
dos macaquinhos devia haver algum agente que, juntamente com as
substâncias existentes nas folhas verde-azuladas, curava a doença.
Houve
outra coisa que Mullon não se dispôs a relatar tão prontamente,
por não ter certeza absoluta de que suas suposições eram corretas.
Tratava-se da capacidade parapsicológica dos macaquinhos que,
segundo parecia, conseguiam perceber o perigo antes que os sentidos
humanos notassem qualquer coisa. Relatou os três acontecimentos que
lhe haviam incutido essa convicção: a salvação de Fraudy, quando
a mesma se defrontava com a serpente, o fornecimento do remédio que
curou a doença de Milligan e a advertência face à presença de
Harper e Glannon.
A
Assembléia Popular constituiu uma comissão, cuja finalidade
consistia unicamente em estudar a língua dos mungos.
Ao que
parecia, a palavra “guê-guê”,
que o mungo usara ao prevenir Mullon diante da presença de Harper e
Glannon, parecia significar inimigo, maldade ou perigo. Foi a
primeira palavra da língua dos mungos que os homens haviam
aprendido.
Além
disso, a Assembléia Popular chegou à conclusão de que, face ao
êxito da primeira expedição de Mullon, este deveria partir o
quanto antes para a segunda.
Não havia
qualquer circunstância especial que recomendasse a pressa. Os
guardas postados em torno de Greenwich haviam observado manadas
gigantescas dos monstros cinzentos, que pareciam um misto de girafas
e elefantes. Vinham do leste e, até então, felizmente sempre
passaram a uma distância segura da cidadezinha. Segundo os cálculos
dos guardas, via de regra cada manada contava umas mil cabeças.
Greenwich
estaria praticamente indefesa se uma dessas manadas se deslocasse
exatamente em direção da cidade. As únicas armas dos colonos
seriam os fuzis e as pistolas. Além disso, possuíam um pequeno
arsenal de armas energéticas, formado por radiadores e
desintegradores portáteis, que antes pertenciam aos tripulantes da
Adventurous. Eram muito eficientes, mas seu número era extremamente
reduzido.
Por isso,
além da exploração da planície, ainda caberia à segunda
expedição descobrir a origem das gigantescas manadas e procurar
encontrar uma maneira de manter os girafantes
afastados de Greenwich.
Depois de
um descanso de dois dias, Mullon pôs-se a caminho na direção
leste. Desta vez Hollander não mandou nenhum assassino atrás dele.
Mas tomou outras providências...
*
* *
Mullon
escolheu a mesma tripulação: sua esposa, Fraudy Mullon, Milligan e
Pashen. Preferira não levar nenhum mungo, embora este talvez lhe
pudesse prestar bons serviços. Era quase certo que o mungo, um
habitante das montanhas, não se desse bem com o clima quente e úmido
das zonas baixas.
O
helicóptero levou menos de trinta minutos para vencer os oitenta
quilômetros que separavam a cidade da extremidade da mata virgem. O
acampamento foi montado nas proximidades da parede verde. De lá se
fariam as primeiras tentativas de penetração, que talvez
permitissem adquirir uma idéia dos perigos guardados pela penumbra
da mata.
Logo
constatou uma coisa. Se nas montanhas o calor era quase insuportável,
aqui o mormaço úmido o era muito mais.
Os únicos
animais encontrados nos primeiros dias foram insetos, aranhas e
diversas espécies de vermes.
Os
mosquitos representavam um verdadeiro martírio. Atacavam o pequeno
acampamento em enormes enxames. Mullon experimentou uma série de
produtos, mas Milligan acabou espantando os “bandos
cantantes”
com a fumaça de um único cigarro, e isso de forma tão duradoura
que os quatro exploradores tiveram algumas horas de sossego.
Passaram
uma noite longa e tranqüila no acampamento. Ao amanhecer, Mullon
decolou com o helicóptero e passou rente às copas das árvores,
deslocando-se na direção leste.
O quadro
que se oferecia aos quatro ocupantes do aparelho era ao mesmo tempo
monótono e impressionante. Até onde alcançava a vista, não se
enxergava outra coisa senão a cobertura verde-cinza das árvores,
que brilhava aos raios do sol.
O
helicóptero sobrevoou pequenos cursos d’água que serpeavam em
meio à mata e via de regra corriam para o leste. Mais adiante
uniam-se e, depois de uma série de bifurcações, formavam um
gigantesco rio que também ia para o leste e cinqüenta metros
adiante desembocava em outro, que tinha a mesma largura. Dali em
diante, o único nome adequado que se poderia dar a essa massa d’água
era rio-mar. Abaixo da desembocadura do primeiro rio, sua largura
chegava a mais de dez quilômetros. Parecia uma torrente primitiva,
no sentido em que essa palavra era usada no linguajar da história
diluviana da Terra.
No rio
havia numerosas ilhas, e em uma ; delas Mullon pousou o helicóptero.
Era por volta de meio-dia. A vegetação, que cobria a pequena área
de areia e lama ressequida, era escassa. Havia somente duas árvores
de grande porte, uma em cada extremidade da ilha comprida e estreita.
Entre elas viam-se arbustos e capim.
Mullon
mandou montar as barracas e avisou que o lugar serviria de base de
operações. A pequena expedição encontrava-se a mais de
quatrocentos quilômetros de Greenwich, dos quais trezentos e vinte
estavam cobertos pela mata impenetrável. Mullon não se arriscou a
avançar mais para o leste, pois ainda estava lembrado da pane que o
helicóptero sofrera durante a primeira expedição. Um grupo de
pessoas sadias e armadas ainda poderia, se necessário, percorrer
trezentos e vinte quilômetros de mata virgem, desde que dispusesse
de tempo para isso.
Enquanto
Milligan e Pashen montavam as barracas, Mullon e Fraudy examinaram a
ilha. Verificaram que nela só havia uma forma de vida animal:
algumas rãs que se alojaram na vegetação que crescia junto à
água.
Por ser
bióloga, Fraudy interessou-se vivamente por esses animais. Mullon
regressou ao lugar onde estavam sendo levantadas as barracas, para
ajudar Milligan e Pashen. Passou por um arbusto que trazia nas pontas
dos galhos flores branco-pálidas, que emitiam um brilho estranho.
Ficou admirado por não ter notado o fato quando antes passara por
ali. Aproximou-se e procurou arrancar uma das flores.
Enquanto
os dedos começavam a fechar-se em torno do caule, sentiu um
formigamento quase doloroso na mão e recuou assustado. Quis fazer
outra tentativa, mas nesse instante Milligan gritou:
— Olhe
só, chefe! A ilha está cheia de fogos-de-santelmo!
Mullon
olhou em torno e viu que nas pontas dos talos de capim e nos outros
arbustos havia as mesmas flores. Levantou as mãos e notou que nas
pontas dos dedos surgiam pequenas chamas azuladas.
Olhou para
cima. No céu límpido e branco-azulado não se via o menor sinal de
trovoada ou de qualquer outra coisa que pudesse dar origem ao
estranho fenômeno. Sentiu que seus cabelos arrepiavam-se. O ar devia
estar carregado de eletricidade. De onde viria a mesma?
Mullon
olhou para os lados. Perto da ilha em que se encontravam havia outras
ilhas formadas por bancos de areia e depósitos de lama. Em algumas
delas também havia arbustos e capim. Se nelas também; existisse o
fogo-de-santelmo,
Mullon não; poderia deixar de vê-lo, pois as chamas brancas
despertavam a atenção de qualquer pessoa.
Ao que
parecia, a eletrificação do ar estava restrita apenas àquela ilha.
“É
inexplicável! Um fogo-de-santelmo que se restringe a uma área de
cem metros quadrados no máximo, enquanto nos arredores não dá o
menor sinal de sua existência, não é um fenômeno natural; foi
provocado artificialmente”,
pensava um tanto atordoado. “Alguém
criou um campo eletrostático em cima da ilha, dando causa ao
surgimento do fogo-de-santelmo.”
A idéia
provocou calafrios em Mullon. A criação de um campo eletrostático
em plena atmosfera exigia conhecimentos e tecnologia que não
ficariam para trás daqueles que se encontravam na Terra.
“Onde
estará o inimigo? E será realmente um inimigo? Qual será seu
objetivo?”,
indagava-se mentalmente.
Uma das
idéias começou a impor-se obstinadamente ao espírito de Mullon. O
pequeno reator de fusão do helicóptero precisava da energia
fornecida por uma pequena bateria para ser posto em movimento. O que
seria feito da bateria a essa hora? Teria sofrido alguma influência
do campo eletrostático?
Mullon
pôs-se a correr. Enquanto saltava para dentro da cabine do
helicóptero, chamou Milligan e Pashen. Enfiou-se no assento do
piloto e procurou acionar os motores.
Seus
receios confirmaram-se integralmente. O indicador de carga da bateria
nem reagiu. Nenhuma das numerosas luzes de controle se acendeu, e
quando foi ligado o transmissor, este permaneceu mudo.
Milligan,
que se encontrava do lado de fora, gritou:
— O
fogo-de-santelmo está desaparecendo, chefe. Agora não vejo mais
nenhum.
Mullon
recostou-se no assento, num gesto de resignação.
“Cheguei
tarde”,
pensou, “muito
tarde. As baterias estão descarregadas.”
Em
Greenwich havia numerosos aparelhos que permitiam a carga rápida de
uma bateria. Acontece que Greenwich ficava a quatrocentos
quilômetros, e não havia sequer a possibilidade de transmitir um
aviso sobre a existência do problema.
Mullon
desceu. Face ao seu rosto abatido, Milligan concluiu que alguma coisa
devia ter acontecido. Mullon relatou em palavras ligeiras do que se
tratava.
— E
agora? — perguntou Milligan perplexo.
Mullon deu
de ombros.
— Não
tenho a menor idéia. Em minha opinião será preferível passarmos a
noite aqui. Talvez o inimigo resolva dar as caras. Talvez possamos
obrigá-lo a reparar o dano. Se isso não acontecer, voltaremos a pé.
Fez um
gesto de desânimo em direção à margem do rio, onde se levantava a
“parede”
impenetrável da mata.
Milligan
lançou os olhos para lá.
— Acha
que conseguiremos?
— Acredito
que sim. De qualquer maneira, temos de conseguir, a não ser que
queiramos morrer de fome.
Fraudy,
que se mantinha ocupada com as pequenas rãs, não percebera os
fogos-de-santelmo, nem tivera notícia do contratempo com as baterias
do helicóptero. Na sua exaltação avançara até a beira da água.
Sentada lá, com uma das rãs gosmentas e marrom-escuras na mão,
ouviu subitamente um ruído na água.
Assustada,
ergueu-se abruptamente e deixou cair a rã. No entanto, seus pés não
encontraram suficiente apoio no solo fofo do íngreme barranco...
escorregou até que seus pés ficassem na água.
Uma cabeça
larga e feia, com uma boca enorme, surgiu bem à sua frente. Era um
crocodilo. Fraudy viu que o animal a observava, como quem avalia sua
presa, e se dispôs a dar um salto em direção à margem para
agarrá-la.
Fraudy
soltou um grito estridente, a fim de avisar Mullon e os outros homens
do grupo.
O grito
fez os homens correrem em direção ao barranco. E Milligan teve
bastante presença de espírito para levar o fuzil, que se encontrava
nas proximidades do helicóptero.
Enquanto
Mullon e Pashen gritavam e atiravam pedras para espantar o animal,
conseguindo desviar-lhe a atenção, pelo menos por alguns segundos,
da presa que pretendia abocanhar, Milligan aproximou-se
cautelosamente, ajoelhou atrás de um arbusto e fez pontaria. O
primeiro tiro teria de ser mortal, pois a cabeça do crocodilo se
encontrava a menos de três metros de Fraudy.
O tiro
disparado por Milligan foi totalmente inesperado. Mullon e Pashen
encolheram-se, enquanto Fraudy soltou um grito.
Milligan
acertara no olho esquerdo do animal. Este empinou o corpo, que se
aproximou mais dois metros da margem e ficou imóvel em meio às
camadas de lama que rodeavam a ilha.
Fraudy
saiu da lama, na qual afundara até os tornozelos, e subiu o
barranco, pálida e trêmula, mas com um sorriso nos lábios. Mullon
abraçou-a.
— Foi
por pouco — murmurou.
— E isso
aconteceu apenas por causa da minha imprudência — confessou
Fraudy.
Virou-se e
fitou o crocodilo abatido.
— Como é
grande! — disse. — Será que poderiam trazê-lo para terra?
Gostaria de examiná-lo.
Mullon
concordou com uma risada. Milligan desceu o barranco, segurou o
focinho pontudo do animal e procurou puxá-lo, mas só o conseguiu
com a ajuda de Pashen e Mullon.
Depois que
a presa se encontrava em terra firme, constataram que media doze
metros e meio, um tamanho que seus parentes terranos só alcançam em
casos excepcionais. De resto era semelhante aos mesmos, exceto quanto
à disposição das escamas.
Fraudy
logo se pôs a examinar o animal. Trabalhou com tamanha disposição
que, quando Mullon lhe disse que o helicóptero não estava em
condições de voar, apenas respondeu:
— Paciência,
iremos a pé.
Pashen e
Milligan receberam ordem para tirar o couro do animal e conservá-lo,
para que não se estragasse. Era uma tarefa difícil para aqueles
dois homens, que até então só haviam visto crocodilos nos jardins
zoológicos.
Quando
examinou o gigantesco focinho do animal, Fraudy fez uma descoberta
surpreendente. Bem atrás, quase na goela, descobriu alguma coisa que
se parecia com um pedaço de tecido azul. Arrancou-o com o auxílio
de Milligan e estendeu-o ao sol.
Realmente
parecia ser um pano, embora não fosse possível descobrir a
tessitura. Estava embebido de água e pesava muito.
— O
crocodilo comeu um cadáver — disse Mullon em tom de escárnio. —
E um pedaço da roupa ficou preso na sua goela.
Fraudy
levava suas pesquisas a sério.
— Quem
dera que por aqui existisse um laboratório — disse. — Gostaria
de saber o que é isto.
Mullon
pegou a peça, examinou-a de perto e disse:
— Ora! É
um pedaço de pano. O que poderia ser se não isto?
Fraudy
zangou-se.
— Como é
que um pedaço de pano veio parar neste lugar?
— Talvez
esse rio seja o mesmo que passa por Greenwich. E é perfeitamente
cabível que por lá alguém tenha atirado um pedaço de roupa velha
na água, e que este tenha parado na boca do crocodilo — disse
Mullon.
A
explicação era razoável. Mas tinha um defeito: roubou uma ilusão
de Fraudy. Esta sentiu-se tão contrariada que dali em diante não
deu mais a menor atenção àquele pedaço de “pano”.
E isso foi
um erro!
Dali a
duas horas, percebeu-se que o pedaço de pano azul havia
desaparecido. Fraudy pensou que um dos dois homens o tivesse
guardado. Mas Milligan e Pashen não sabiam de nada.
A ilha foi
revistada metro por metro, mas o pano continuou desaparecido.
— Quem
sabe se foi levado pelo vento? — conjeturou Milligan.
— Alguém
percebeu a mais leve brisa que seja depois que chegamos aqui? —
perguntou Fraudy em tom zangado.
Depois de
mais de uma hora de buscas, não tiveram outra alternativa senão
admitir que a peça de pano azul não se encontrava mais na ilha.
Podiam formular hipóteses sobre o motivo de seu desaparecimento —
e as de Fraudy representavam um verdadeiro prodígio de fantasia e
imaginação...
*
* *
O sol ia
descendo. Tiveram pouco descanso, pois o exame do crocodilo prendeu
as atenções de todos.
Fraudy
anotou cuidadosamente o que havia encontrado e não disfarçou seu
orgulho por ter descoberto, examinado e classificado um animal
totalmente desconhecido.
Depois do
jantar Mullon distribuiu os quartos de sentinela. Explicou aos homens
o que importava:
— Admitamos
que nos encontremos diante de um inimigo ou de um curioso. Este não
poderá fazer nada enquanto não conseguir ver-nos de perto.
Provavelmente aproveitará a noite para atravessar o rio e dar uma
olhada. Por isso, devemos ficar com os olhos bem abertos.
Procuraremos negociar com os desconhecidos ou capturar certo número
de prisioneiros, que possamos libertar em troca do reparo de nossas
baterias.
Milligan
fez um gesto de aprovação.
— Como
serão estes desconhecidos? — perguntou Pashen.
Mullon
retribuiu seu olhar irônico.
— Dê
livre curso à sua fantasia, Pashen — respondeu.
*
* *
No meio da
noite, Mullon ergueu-se sobressaltado. Pelos seus cálculos ainda não
passara mais de uma hora depois que despertara Milligan.
Por que
acordara?
Ergueu-se
sobre os cotovelos e saiu rastejando devagar, para não acordar
Fraudy. Quando baixou o pano que fechava a barraca, ouviu alguém
gemer para o lado da água.
— Milligan!
— chamou em voz baixa.
A resposta
foi outro gemido.
Mullon
pegou o fuzil e rastejou até o lugar em que Milligan se postara.
Depois de ter avançado uns três metros, um fenômeno estranho
prendeu sua atenção e o fez parar.
Sobre a
água do rio, que corria com um ligeiro murmúrio, uma série de
chamas azuis tremeluziam. Eram parecidas aos fogos-de-santelmo que
observara durante o dia, mas eram azuis e cinco vezes maiores.
As chamas
azuis pareciam aproximar-se pelo rio. Naquele instante, começavam a
chegar à ilha e subiam ao lugar em que Milligan montava guarda.
“Milligan!
O que teria acontecido com ele?”,
pensou, interrogando-se.
Mullon deu
um passo para a frente. Naquele instante alguma coisa macia, mas
irresistível, desceu sobre ele, embargou-lhe o passo e comprimiu-o
contra o chão. Procurou levantar-se, mas a força misteriosa que o
comprimia contra o solo era mais forte.
Respirava
com dificuldade. Procurou gritar por socorro, mas apenas conseguiu
emitir um gemido inarticulado, igual ao de Milligan, que ele ouvira
pouco antes.
Mullon
percebeu que as chamas azuladas caminhavam em sua direção. Ouviu um
grito abafado, vindo da barraca de Fraudy. Depois disso a pressão
exercida contra seu corpo tornou-se tão intensa que perdeu os
sentidos.

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