sábado, 2 de março de 2013

P-051- O Soro da Vida - Kurt Brand [parte 2]


Subitamente sentiu-se perturbada por um impulso mais intenso, vindo da sala contígua.
Isso aconteceu no momento exato em que seus examinadores formularam uma pergunta importante.
Laury Marten recorreu ao meio empregado em todas as estrelas, dizendo que não havia entendido a pergunta. Dessa forma, ganhou tempo para descobrir quem se encontrava na sala contígua e concentrava seus pensamentos sobre ela. Ao mesmo tempo, aproveitou o novo lapso de tempo para formular a resposta.
De repente, tornou-se confiante demais. Os examinadores começaram a ver nela um verdadeiro fenômeno médico. Passou a responder às perguntas por meio dos pensamentos de Man Regg, mas ela o fez de tal forma que apontou como observações menos corretas tudo aquilo que Regg considerava certo, apresentando três argumentos que representavam os pontos mais fracos da série de pesquisas de Man Regg.
Será que Árcon já avançou tanto no campo da pesquisa genética que os estímulos genéticos, os quais até agora não se tornaram conhecidos dos médicos, já passaram à categoria de informações que são do domínio público!? — surpreso, Assa exclamou de modo interrogativo.
Laury Marten respondeu com a maior amabilidade:
Dos dados a respeito de minha pessoa consta a prova de que durante um ano fui assistente de Moguld, que também em Tolimon goza de certa fama.
Acontece que não nos consta que Moguld se ocupe com a biologia da hereditariedade, Arga Slim.
Arga continuou amável como antes.
Será que no Império de Árcon se conhecem todas as pesquisas que já foram realizadas nos mundos dos aras?
Isso não é argumento — falou Assa em tom furioso.
Será que a teoria de Moguld representa um forte argumento, quando este afirma que o segredo da vida eterna se encontra nos cromossomos?
Tolice! — resmungou Assa.
Será que ainda se pode falar em tolice se aumentarmos artificialmente o número dos cromossomos ligados à espécie e obrigarmos os cromossomos adicionais a suspenderem a divisão indireta das células?
Laury Marten sorriu, mas por dentro fervilhava. Naquele instante, Kelisse, Assa e Gelte não passavam de um feixe de receios. Viram que o mais importante dos seus segredos havia sido descoberto. Até esse ponto, haviam refletido sobre o problema, e Laury Marten rogava aos deuses para que um deles refletisse sobre o problema em seu aspecto global, para revelar o processo sofisticado de produção do soro prolongador da vida. Quando isso acontecesse, o problema estaria resolvido. Perry Rhodan ficaria livre da tensão psicológica insuportável causada pelo fato de que Thora, a mulher amada que se encontrava a seu lado, envelhecia a cada dia, enquanto Crest, o amigo arcônida, se transformava num ancião.
Leu novos pensamentos. Eram apenas fragmentos, mas bastaram para que reconhecesse que os três aras que tinha diante de si pretendiam alcançar um prolongamento infinito da vida sem recorrer a qualquer soro. E, ao que parecia, não se encontravam muito longe do objetivo.
Tentou influenciar os aras hipnoticamente para esse fim, mas nesse instante Man Regg veio da sala contígua e felicitou-a.
Lamentou a interrupção. As reflexões dos três médicos aras haviam revelado parte do segredo sobre a maneira pela qual pretendiam alcançar a imortalidade.
Conseguiu enrubescer com o elogio de Man Regg e, ao mesmo tempo, felicitou no seu íntimo o Serviço de Defesa do Sistema Solar por ter forjado seus dados pessoais com tanto cuidado. Enquanto Laury Marten elogiava os homens de Terrânia, John Marshall os repreendia por suas negligências. Ambos não sabiam que o Serviço de Defesa do Sistema Solar nunca teria sido capaz de fornecer dados tão precisos, se não contasse com a cooperação de certos mercadores galácticos.
Os dados sobre Moguld eram corretos. E também era verdade que existia uma estudante de zoologia arcônida chamada Arga Slim. Mas só Rhodan e um comandante dos saltadores sabiam que a verdadeira Arga Slim se encontrava há mais de oito meses numa nave cilíndrica, realizando em mundos distantes estudos zoológicos in loco.
Mais uma vez, Laury teve que realizar uma obra-prima da telepatia, mesmo sob a desconfiança de Assa. Apesar de tudo, conduziu uma conversação especializada fluente, intercalando vez por outra algumas observações científicas de alto gabarito, que deixavam os aras perplexos.
Se John Marshall participasse da palestra, teria colocado uma poderosa barreira mental, para que Laury Marten com seu espírito um tanto infantil não se deslocasse para o terreno das areias movediças.
Sugiro — disse Man Regg, encerrando a reunião — que Arga Slim passe a trabalhar na Divisão de Geomorfismo. Ou será que pensam de forma diferente?
A Divisão de Geomorfismo estudava as alterações trópicas da pele do rosto de inteligências jovens, que muitas vezes adquiria o aspecto envelhecido, apesar do uso do soro prolongador da vida.
Nenhum dos três médicos teve qualquer objeção contra a sugestão do chefe. Nem mesmo Assa.
5



O hipercomunicador instalado no luxuoso escritório de Ixt não representava nada de extraordinário. Era uma das ferramentas de um negociante em grande escala de animais raros. Nos últimos meses fizera várias compras de animais esquisitos pelo rádio, enquanto a nave dos saltadores que os trazia a bordo ainda se encontrava no espaço, a milhares de anos-luz, e muitas vezes levava semanas para chegar a Tolimon.
Naquela manhã, John Marshall esquentou seu hipercomunicador. Futgris estava sentado à sua frente e deveria socorrê-lo com seus conhecimentos especializados se isso se tornasse necessário.
Tulin, um dos agentes de Rohun, lhe contara no dia anterior que Bet, um saltador, se aproximava de Tolimon, com metade da nave cheia de animais dos tipos mais estranhos.
Chamou a Bet-765 pelo hipercomunicador. John Marshall pretendia entrar no negócio a todo vapor. O encontro — que no dia anterior tivera no espaçoporto com Tulin, um ruivo impetuoso — fornecera-lhe estímulo para isso. Uma frase dita ao acaso transformara-se subitamente num impulso muito intenso.
Quanto mais estreitamente a gente colabora com os aras, mais confiantes eles se tornam.
E a experiência de oito meses ensinara a Marshall que a melhor isca para os médicos galácticos eram os animais que ainda não fossem conhecidos em Tolimon.
A Bet-765 respondeu. Na tela, surgiu o rosto de Bet, um saltador jovem e robusto.
Bet sorriu ligeiramente ao ouvir o motivo pelo qual Ixt, um negociante de animais, estabelecido em Trulan, estava entrando em contato com ele.
Tudo que tive de fazer foi carregar os animais de um planeta que em cada canto exala um cheiro diferente. Aposto que nem um único destes animais é conhecido no Império de Árcon. Pretendia fornecer toda a carga aos aras, mas se o senhor me pagar um preço aceitável, eu os vendo ao senhor, Ixt. Um instante! Vou mostrar-lhe meu zoológico de bordo.
A imagem de Bet desapareceu. Logo a seguir, os animais começaram a surgir na tela. John Marshall, que durante as ações desempenhadas em muitos planetas já se acostumara às coisas mais estranhas e monstruosas, reteve a respiração.
Bet tinha uma coleção de monstros terríveis a bordo. Eram lagartos, morcegos gigantes, anfíbios e outros seres que não poderiam ser enquadrados em qualquer categoria.
Ixt lançou um olhar indagador para Futgris. Este também não sabia o que fazer, mas em seus olhos brilhava a chama do entusiasmo.
As negociações consumiram meia hora.
Depois, o negócio tomou um fim. Futgris ficou perplexo quando o chefe voltou a confirmar o preço da compra. Eram 1,3 milhões.
O contato pelo hipercomunicador não foi interrompido.
Enquanto a Bet-765 ainda se encontrava a 5.299 anos-luz do planeta Tolimon, John Marshall catalogou, com o auxílio de Futgris, os animais que se encontravam a bordo da nave cilíndrica de Bet.
Quando o último dos animais acabara de ser fixado fotograficamente, Marshall pediu que até o meio-dia o vendedor lhe entregasse trinta exemplares do catálogo.
Dali a duas horas, os trinta exemplares estavam sobre a mesa de John Marshall. Futgris foi brindado com um elogio todo especial. Depois disso, o ara estaria disposto a fazer pelo chefe tudo que estivesse ao seu alcance. Felicitava-se constantemente por ter resolvido há oito meses entrar para o serviço da firma recém-fundada.

* * *

Divisão de Compras.
Era lá que se encontrava John Marshall. Passara por cima de dezoito instâncias competentes, apontando para seu robô de trabalho, que carregava trinta catálogos. Naquele momento, encontrava-se sentado diante de Kolex, um velho ara, curvado pelos anos, mas que nem por isso deixava de ser uma raposa esperta. Numa atitude de espreita, seus olhos fitavam John Marshall. Deixou que falasse. Sua boca permaneceu fechada, mas seus dedos não ficaram quietos nem por um segundo.
John sabia o que a velha raposa estava fazendo com os dedos, pois lia os pensamentos de Kolex. Estava pondo em polvorosa todos os setores do gigantesco aparelho, que poderiam estar interessados na aquisição de animais desconhecidos.
A palestra estava sendo vista e ouvida em mais de vinte lugares. Apenas o catálogo ainda não havia sido apresentado. O robô de trabalho de Ixt ainda mantinha os exemplares seguros nas mãos de aço, mantendo-se imóvel atrás do chefe.
Kolex comprimiu mais uma tecla para estabelecer outra comunicação. John Marshall conteve-se para não deixar perceber o triunfo. O biomédico Man Regg acabara de ser colocado na linha.
Um catálogo! — pediu Marshall, dirigindo-se ao robô.
Colocou-o exatamente diante da lente de cristal do projetor de campo. No mesmo instante a sala foi escurecida automaticamente. A imagem do primeiro animal foi projetada sobre a tela de radiações com uma dimensão de quatro metros por cinco.
John Marshall armou-se de paciência. A única coisa em que estava interessado eram os pensamentos de Kolex. Enquanto se mantinha de olhos semicerrados, lia-os.
Aquilo que o chefe da Divisão de Compras dos aras ocultava, acabava sendo revelado através dos seus pensamentos. Vivia lutando contra a tendência de irromper em demonstrações de entusiasmo. Estava reprimindo o desejo de levantar-se de um salto para exprimir seu espanto. Fazia mais de oitocentos anos de Tolimon que exercia as funções de chefe da Divisão de Compras, mas em todos esses séculos nunca vira tamanha profusão de coisas terrificantes, novas e extraordinárias.
A projeção durou nada menos que uma hora. Quando terminou, a luz ofuscante do sol voltou a encher a sala.
O mutante de Perry Rhodan disse o preço. Pediu 2,1 milhões. Não se sentiu embaraçado ao indicar a soma. Conhecia os pensamentos de Kolex. E este estava disposto a chegar até lá.
Mas em vez de aceitar a pretensão de Marshall, o ara formulou uma ameaça velada:
Esses seres ainda não chegaram às suas mãos, Ixt. Pelo que diz, o negócio foi fechado pelo hipercomunicador. Acredita que eu teria algum problema em descobrir qual é o saltador que tem essa carga a bordo e negociar diretamente com ele? Posso perfeitamente dar a entender, de forma diplomática, que terá dificuldade se não fizer o negócio conosco...
Era exatamente o que Kolex estava pensando.
John Marshall, sob o disfarce da extraordinária máscara de saltador, respondeu com um sorriso condescendente.
Ora, Kolex, faça-me o favor!
Não disse mais nada.
A atitude de espreita nos olhos de seu interlocutor tornou-se mais intensa. Pediu apressadamente uma ligação com o serviço de vigilância de hipercomunicação.
A ligação foi completada. Um ara prometeu fornecer num instante os dados solicitados.
Mas esse instante não chegou.
O sorriso condescendente de John Marshall tornou-se mais intenso.
Kolex — disse em tom enfático. — Eu sou um saltador. Meu hipercomunicador foi construído pelos saltadores.
Com estas palavras, deu a entender que o serviço de vigilância de hipercomunicações de Tolimon não estava em condições de verificar com quem havia falado.
Quase no mesmo instante, veio a resposta da Divisão de Vigilância de Hipercomunicações, dada em tom modesto, de que não era possível fornecer a informação solicitada.
Kolex ainda teve o atrevimento de formular uma pergunta:
O senhor acha que em Tolimon é permitido o uso de hipercomunicadores desse tipo?
John Marshall resolveu falar grosso:
Será que estou aqui para ser interrogado ou para tratar de negócios? O senhor sabe perfeitamente que os mercadores galácticos negociam com todos os povos do Império; tenho outros interessados além do senhor. Vamos dar a palestra por encerrada. De acordo?
O calor do meio do dia, que chegava a quarenta e cinco graus à sombra, pendia sobre Trulan, quando a Divisão de Compras dos aras e Ixt, o mercador galáctico, fecharam o contrato para o fornecimento de animais, no valor de dois milhões.
Quando John Marshall se despediu de Kolex, os dois se haviam tornado bons amigos.

* * *

Dois dias depois, a Bet-765 pousou no espaçoporto de Trulan. A chegada da nave provocara sensação, pois nunca se vira tamanha quantidade de jaulas transportáveis.
Também em Trulan não faltavam os curiosos. Mas, quando a grande comporta da Bet-765 se abriu, deixando à mostra o depósito F, a multidão fugiu em disparada, e quem possuísse um sentido de olfato humano tapava o nariz e lutava desesperadamente para reprimir as náuseas causadas pelo terrível fedor.
Marshall logo colocou seu aparelho de respiração, respirou profundamente algumas vezes e enxugou o suor que lhe cobria a testa.
A onda olfativa — espalhada como uma densa neblina e reforçada incessantemente pelo cheiro que saía do interior do depósito da Bet-765 — era de intensidade inigualável.
Alguns zoólogos dos aras, que já estavam acostumados a muita coisa em matéria de mau cheiro, haviam desmaiado. Outros fugiam junto com o grupo de curiosos. Só depois de uma hora, quando a onda olfativa penetrante se aproximava inexoravelmente do gigantesco edifício da recepção do espaçoporto, a descarga dos animais pôde ser iniciada.
Kolex, que estava parado ao lado de Marshall junto à grande rampa, viu um monstro de dez metros, com o formato de pólipo, ser agarrado pelos raios de tração que o colocaram atrás da grade energética da jaula destinada ao transporte.
Estes animais respiram oxigênio e espalham um fedor destes! — suspirou Kolex, em tom exaltado. — Tal fato já constitui uma novidade. Diga-me uma coisa: Por que todos esses seres exalam um cheiro tão insuportável?
Se eu soubesse disso — disse John Marshall, bancando o mercador galáctico em toda extensão — não teríamos feito o negócio por dois milhões.
Esta observação fez Kolex lembrar-se de que procurara exercer pressão sobre o mercador de animais. Na intenção de reparar alguma coisa, disse:
Nosso negócio se tornou conhecido em toda cidade, Ixt. Ontem recebi a visita do pessoal do serviço secreto. O senhor já fez alguma coisa contrária às nossas leis no mundo dos aras? O funcionário quis saber com todas as minúcias como foi que fechamos o negócio. Confie em mim, Ixt, e procurarei ajudar. Minha influência junto ao serviço secreto é bem considerada.
John Marshall sentiu um calafrio. Exerceu um controle instantâneo dos pensamentos de Kolex. O chefe da Divisão de Compras dos aras estava dizendo o que pensava.
Eu? — disse Marshall em tom de espanto. — Não me lembro de ter violado qualquer lei. O funcionário não explicou o motivo de sua visita?
Explicou, Ixt. Diz que os dados relativos à sua pessoa não são corretos. É bem verdade que existe um mercador galáctico de animais, mas pelo que dizem este reside em Xylon, no sistema de Hogur. Ixt, quando olho para a beleza que o senhor nos vendeu, meu coração se abre. Mesmo que fosse um agente, faria tudo para ajudá-lo. Confie em mim, saltador!
John Marshall surpreendeu-se porque o chão não se abriu sob seus pés para engoli-lo.
Não poderia deixar de responder a uma observação como esta. Mas nesse exato momento foi atingido pela mensagem telepática de Laury Marten.
Daqui a pouco! — telepatou de volta. — Agora não! Daqui a dez minutos, se for necessário, mas não agora, Laury!
Acontece que encontrei humanos trancados no zoológico, sobre os quais correm boatos entre os saltadores, Marshall. Tenho necessidade absoluta...
Até mesmo um palavrão pode ser transmitido por via telepática. John Marshall não se importou com o fato de que Laury Marten era mulher. Era o chefe do comando, e proibia a perturbação telepática de Laury.
Respirou profundamente.
Fitou Kolex.
Qual foi a expressão que o senhor usou, Kolex? — riu. — Obrigado — prosseguiu. — Não me esquecerei do que o senhor se dispôs a fazer por mim, mas nunca haverá necessidade disso. Todavia, tenho um pedido. Gostaria de saber por que o serviço secreto está interessado na minha pessoa. Eu sou Ixt, logo conclui-se que o tal do Ixt, que se encontra em Xylon, é um trapaceiro.
De qualquer maneira, o senhor nos vendeu o lote de animais mais sensacional do milênio, Ixt — respondeu Kolex num tom que, além de ser ambíguo e reticente, encerrava uma advertência.
Marshall examinou os pensamentos do ara. Não encontrou nada de importante além daquilo que o mesmo lhe dissera. Qual seria então o motivo da advertência inequívoca de Kolex? Estaria agindo por intuição?
* * *

Ao passar por uma ondulação do terreno em que ficava o zoológico continental, Laury Marten viu subitamente uma construção parecida com uma casa de camponeses suecos.
Dirigia-se à grade, atrás da qual eram mantidos os bombos. Tratava-se de seres semelhantes a macacos, que tinham cabeça dupla e, além de possuírem braços curtos em formato humano, sabiam falar, ler e escrever.
O controle de rota de seu veículo fora regulado para essa grade e foi por simples coincidência que conseguiu ver a casa camponesa sueca. A quinhentos metros do lugar em que se encontrava, cercada de alamos prateados, com o telhado de palha que quase tocava o chão, parecia uma lembrança do planeta Terra.
Freou subitamente e imobilizou o veículo. Desceu e aproximou-se da grade energética, enquanto olhava em torno para ver se havia algum frogh por perto.
Até onde alcançava a vista, não via nenhum frogh. Quando Laury esbarrou contra a parede energética e foi atirada para trás uns trinta centímetros, sua decisão havia sido tomada.
Não era apenas telepata. Também possuía o dom da desintegração, que lhe permitia dissolver aglomerações moleculares pela simples força de sua vontade. Essa faculdade incrível lhe permitia transpor paredes compactas e barreiras energéticas, sem que sua vida corresse o menor perigo.
Estendeu a mão em direção à barreira energética invisível, concentrou-se, fez sua vontade atuar sobre uma área reduzida da barreira. Como se o desejo tivesse atravessado uma lente, sentiu a resistência da barreira, reforçou a concentração da mente. Deu um passo amplo e sorriu aliviada. A barreira energética encontrava-se atrás dela. Estava intacta; não deixaria passar mais ninguém.
A parte do zoológico em que se encontrava ficava a mais de duzentos quilômetros da área acessível ao público. Por onde quer que passasse, notava que os aras se esforçavam em manter seus prisioneiros num ambiente que correspondia ao mundo do qual haviam vindo.
A casa de campo sueca da qual Laury se aproximava poderia perfeitamente estar na Suécia. Não havia nada de diferente. Todos os detalhes haviam sido incluídos naquela construção.
Estacou diante dela.
Qual será a idade desta casa?”, pensou, espantada. Sacudiu a cabeça ao ver a maçaneta desajeitada, feita de ferro forjado, e as dobradiças, que tinham quase um centímetro de grossura.
Quando resolveu lançar um olhar para o interior da casa viu um fogo aberto e, pendurado num tripé, um tacho de cobre enegrecido pela fuligem.
Estamos em plena Idade Média”, pensou perplexa e procurou descobrir os habitantes da casa. Mas nem mesmo com suas energias telepáticas conseguiu encontrar qualquer pessoa.
Virou-se apressadamente e voltou a examinar o terreno, para ver se descobria algum dos ligeiros froghs, sempre desconfiados. Sorriu aliviada. Nenhuma das criaturas em formato de cobra estava à vista. Correu em torno da casa. Já agora a construção e os alamos prateados a encobriam.
Passou a andar mais devagar. A trilha estreita, perfeitamente visível, subia por um barranco. Aguardava outra surpresa, mas o quadro que se ofereceu diante de seus olhos obrigou-a a ficar parada.
Perplexa, fitou um edifício construído em estilo asteca. Seriam astecas?
As idéias de Laury Marten desfilaram pelas fases da história.
Os astecas, habitantes indígenas da América Central, foram subjugados por Cortez, de 1.519 a 1.521. Ao mesmo tempo, verificou-se a destruição de sua cultura e o extermínio da religião cruel e sanguinária que praticavam...
Esses dados resumiam tudo que sabia a respeito dos astecas. E agora, a construção que via diante de si — um palácio — lembrava os espetáculos relativos à cultura asteca que conhecia.
Seria o século dezessete?
Será que a casa de campo sueca era do século dezessete?
Subitamente estremeceu. Um homem saiu da grande porta lateral do palácio asteca. Laury Marten sentiu o coração palpitar.
Um homem, que nem desconfiava de sua presença, saíra do palácio e caminhava para o lado esquerdo, em direção à casa achatada que se parecia com a cobertura de um poço.
Como caminhava! Seu passo era majestático. E majestática também eram sua figura e sua postura.
Era alto e de ombros largos. Os cabelos sedosos e brilhantes desciam em cachos escuros. Sentou no muro baixo. A mutante foi caminhando devagar. O homem ainda não a havia notado. De repente, Laury tropeçou. Uma pedra bateu na outra. O silêncio propagou o som.
O homem levantou a cabeça, viu-a, levantou, colocou a mão direita sobre a espada e com a esquerda tirou o chapéu de aba larga. Deu um pequeno passo para trás e executou uma mesura profunda e elegante. Voltou a endireitar o corpo.
E Laury Marten viu-se frente a frente com o conde Rodrigo de Berceo!
Fitou-o boquiaberta, como uma mocinha inexperiente. Era um mestiço. A união do sangue asteca com o sangue espanhol haviam feito do conde Rodrigo um exemplar de beleza masculina.
Como chamejavam seus olhos! E como era altiva a expressão da boca!
O tamanho do nariz era um tanto exagerado, mas era justamente o ligeiro excesso desse órgão que conferia ao rosto másculo o feitio do combatente fogoso, do homem altivo.
O jovem homem sorriu para ela. Laury viu o tremor das narinas e notou o olhar, em que se lia uma veneração extraordinária.
Quem é o senhor? — Laury Marten formulou a pergunta na língua dos aras, falando como uma mocinha tímida.
Sou o conde Rodrigo de Berceo, filho da princesa asteca Uxatelxin e do conde espanhol Juan de Berceo. Nasci no ano da graça de mil seiscentos e cinqüenta e dois e com a idade de vinte e dois anos fui raptado e levado para Tolimon. Deseja mais alguma informação?
Nascido em mil seiscentos e cinqüenta e dois!
A Terra já estava no mês de maio do ano de dois mil e quarenta e dois!
Aquele homem, que tinha o aspecto de pessoa de trinta anos, vivera quatrocentos anos?
Quando Laury Marten teve a idéia de usar suas faculdades telepáticas em relação ao conde Rodrigo, vários minutos haviam sido consumidos em perguntas formuladas e respondidas às pressas, que provocavam um espanto cada vez maior na moça.
Não se cansava de olhá-lo, e à medida que o contemplava familiarizava-se com suas vestes medievais: botas de cano estreito e revirado que chegavam até os quadris, a calça bem justa feita por um material que se parecia com o veludo. O colete curto e sem mangas estava cingido por um cinto largo. O colarinho de renda caía elegantemente por cima do colete. As mangas largas da camisa branca também terminavam em preciosas rendas. O cinturão brilhava e a espada presa a uma corrente de prata balançava de um lado para outro. O chapéu era de aba larga, e o penacho preso ao mesmo era agitado pelo vento.
A pesada corrente de ouro que trazia ao pescoço não parecia uma peça de ostentação. Formava parte integrante da vestimenta do século XVII, tal qual o amuleto que representava o Deus Sol dos astecas.
Laury Marten teve a impressão de que seria um crime investigar os pensamentos do conde Rodrigo. Mas lembrou-se de sua missão; apesar disso, ela o fez com grande relutância. Parecia mudada; não sabia o que estava acontecendo com ela.
Numa fração de segundo enxergou tudo com a maior clareza.
Este homem de trinta anos realmente nascera no México, em 1.652!
Devo avisar Marshall”, foi este seu único pensamento. Enquanto o conde Rodrigo a admirava à distância, conseguiu estabelecer contato com John Marshall, que se encontrava em Trulan.
Mas o contato durou poucos segundos. Marshall só estava disposto a ouvir sua mensagem mais tarde. Acontecia que precisava informá-lo sobre a descoberta que acabara de fazer; procurou convencê-lo da importância do fato. Mas, no mesmo instante, captou sua resposta: uma repreensão áspera. E logo depois John Marshall “desligou”.
Rodrigo pensou que o susto de Laury Marten tivesse sido causado por sua pessoa e pela admiração que estava demonstrando.
Subitamente aquele homem do século XVII ajoelhou-se diante dela, segurou sua mão, comprimiu os lábios contra a mesma, num beijo gentil, e pediu perdão pelo fogo que sentia no coração.
Em qualquer outra oportunidade, essa fala talvez teria provocado um sorriso de compaixão em Laury Marten, filha do século XXI. Mas agora só via nela a homenagem de um homem que receava ter ido longe demais nas manifestações de entusiasmo por uma bela jovem.
Laury Marten não retirou a mão.

* * *

John Marshall encontrou-se no pavilhão dos sonhos com Egmon e Tulin, agentes de Rohun, conforme combinara com este último.
Não poderia haver um ponto de encontro mais discreto que esse local mal-afamado, que era proibido para todo e qualquer ara. Ali se encontrava tudo quanto era entorpecente. Tudo aquilo que o inferno tivesse descoberto para intoxicar o homem, no pavilhão dos sonhos não haveria o menor problema para ser encontrado...
John Marshall fechou a grade de radiações. Há pouco ainda se encontrara num gigantesco salão. Agora, porém, estava invisível para qualquer pessoa que ali penetrasse; tal qual acontecera com ele há pouco, o visitante apenas veria o vazio da gigantesca abóbada.
Deitou no chão. A droga herfnis estava a seu lado. Não tinha a menor intenção de esfregá-la entre as mãos para entregar-se aos efeitos da toxina, que o faria enxergar uma verdadeira orgia de cores.
Sua energia telepática atravessou a grade de radiações e, na entrada principal do edifício, captou os pensamentos dos seres viciados, que acorriam ao lugar à procura de distrações e davam o primeiro passo que os conduziria ao abismo.
A repugnância deixou-o arrepiado. Amaldiçoou a idéia de encontrar-se no Palácio dos Sonhos, quando captou os pensamentos de Tulin e Egmon, que não eram viciados nem sentiam o desejo de brincar com o entorpecente.
Tulin, o impetuoso, cochichou para Egmon:
Como poderemos encontrá-lo num lugar como este?
John Marshall recorreu ao projetor mental e obrigou-os a atravessar o labirinto de cabines de radiações, parando diante da barreira que o protegia.
Abriu a grade de radiações por alguns segundos. Egmon e Tulin olharam-no perplexos, sorriram ao vê-lo deitado no chão e sentaram a seu lado, já que não havia outro lugar em que pudessem acomodar-se.
Os saltadores atiraram alguns grãos no canto. Tulin mandou uma praga junto com eles.
Tenho pena do dinheiro que gastei. Pérolas de sonho; era só o que me faltava para acrescentar aos meus pesadelos.
Marshall não sabia o que eram pérolas de sonho, mas estava interessado nos pesadelos de Tulin.
Meu pesadelo são os novos robôs dos aras que foram colocados nas fábricas de soro, Ixt — explicou em tom contrariado. — Já sabemos por que o clã de Estgal deixou de existir. Os aras sempre inventam novas infâmias para dificultar nosso trabalho. Colocaram robôs de controle entre os robôs de trabalho; por fora uns não se distinguem dos outros, mas o que há dentro dos controladores é de pasmar. São vigias positrônicos. Um alarma vivo. Trabalham tal qual os outros, mas sua tarefa consiste em avisar qualquer incidente ocorrido durante o processo de produção, por mais insignificante que seja. Pelo amor dos deuses, Ixt, será que aqui ninguém pode ouvir-nos?
Ninguém — garantiu Marshall.
Tomara que realmente não haja ninguém — disse Egmon, um homem louro introvertido, e voltou a mergulhar em suas meditações.
Pois bem. O ara que conseguimos subornar fracassou por culpa de um robô de controle, quando procurou roubar o processo de conservação...
Mas este processo não é parte do processo de produção! — interveio John Marshall em tom enérgico.
Tulin cocou a cabeça ruiva.
Pois nesse caso, os espias positrônicos estão em toda parte, Ixt. É verdade! Não podem deixar de estar em toda parte, e com isso nosso negócio, que até agora tem sido tão próspero, foi paralisado. É uma vergonha!
John Marshall não conseguiu achar graça nessas palavras. Não estava interessado em saber se os agentes dos saltadores enganavam os aras ou não. Acontece que a utilização dos robôs de controle também representava o fracasso definitivo de sua missão.
Laury Marten poderia interromper os estudos que estava realizando no zoológico continental. Se os agentes dos saltadores, que já haviam passado por tudo quanto era experiência, confessavam abertamente que no momento estavam com as mãos atadas, o máximo que os dois mutantes poderiam conseguir era que os aras os desmascarassem como seres terranos. E, há mais de cinco decênios, o planeta Terra deixara de existir para o Império Arcônida, tendo sido transformado num sol.
De repente Egmon, que continuava absorto em suas reflexões, levantou a cabeça:
Hoje de noite receberei cinco mil shaks!
John Marshall também levantou a cabeça e fitou Egmon. As palavras que o saltador louro acabara de proferir desmentiam as informações de Tulin.
Este proferiu uma ameaça indisfarçada contra seu irmão de clã:
Egmon, se você...
É com isto! — disse Egmon, tirando do bolso um diapasão, ou melhor, o instrumento que na Terra é designado por este nome. regozijou com o espanto de seus interlocutores. — É bom que os aras tratem de fazer suas diabruras médicas — prosseguiu — e deixem de aventurar-se no terreno da construção de robôs. Os controladores têm um ponto fraco. Os aras ainda não descobriram.
Seu sorriso tornou-se mais acentuado.
Será que hoje em dia ainda se consegue adquirir em Trulan um único diapasão do tipo antiquado?
John Marshall confessou que não estava compreendendo mais nada. Egmon piscou os olhos.
Os controladores têm uma alergia toda especial para o tom da nota si. Não sei o que acontece com seu aparelho positrônico quando ouvem esse tom, mas o fato é que, assim que a nota atinge seu ouvido, caem por terra sem avisar sequer a central sobre o defeito surgido em seu mecanismo. É por isso que hoje de noite receberei os cinco mil shaks.
As pastilhas shaks eram o único remédio contra a doença de ferm, uma alergia traiçoeira provocada pela transição das naves espaciais, que matava dentro de poucos meses.
Você quer dizer que com isso se consegue neutralizar um robô? — Tulin ainda não estava acreditando no que Egmon acabara de dizer. Egmon insistia em sua afirmativa.
Antes que a troca de palavras pudesse degenerar em discussão, Marshall lembrou-os da finalidade do encontro.
Ainda tenho outro motivo que me traz pesadelos — disse Tulin, lançando o olhar para além de John Marshall. — Estamos trabalhando com dezoito agentes, Ixt. Por pouco Egmon não foi preso. Fiquei agüentando a mulher de Huxul durante duas horas. Enquanto isso, Huxul sofreu um acidente. Está internado no hospital. Os aras já devem ter descoberto nosso truque, mas só daqui a dez dias conseguirão despertar Huxul.
Foi atacado? — perguntou Marshall em tom áspero.
Teve uma sensação desconfortável, pois conhecia Tulin. Por algum motivo, que aquele homem de trinta anos nunca chegara a explicar, o mesmo odiava todos os aras e, sempre que usasse os meios mais radicais na luta contra eles, Marshall temia pelo pior.
Não foi atacado — resmungou Tulin. — Apenas recebeu um jato de gerf.
O que vem a ser gerf? — indagou Marshall.
É uma substância que o serviço secreto dos aras também usa nos seus serviços. Quando esse narcótico entra no sangue de alguém, a pessoa dorme durante dez dias e tem de ser alimentada artificialmente, senão...
Para que serve um recurso tão primário? — Marshall sentiu-se tomado de um tremendo nervosismo. Os agentes de Rohun haviam procedido como crianças, e, dessa forma, o perigo tornara-se ainda maior.
A essa hora, o serviço secreto dos aras não poderia deixar de perceber que alguma coisa não estava em ordem com eles.
Pois é... — desta vez foi Egmon, que deu uma risada gostosa. Espantado, Marshall pegou a ficha que este lhe ofereceu.
O que é isto? — perguntou sem desconfiar de nada.
É a prova chegada às mãos dos aras, segundo a qual o senhor não é o mesmo Ixt que reside em Xylon, no sistema de Hogur. Afinal, quem é mesmo o senhor?
Também estou curioso para descobrir isso — interveio Tulin. — Se não soubesse que Rhodan e a Terra não existem mais, diria que o senhor é um ser vindo daquele planeta e...
Felizmente esse sujeito não existe mais e a Terra foi transformada num sol escaldante — retrucou Marshall com o maior cinismo, embora no seu íntimo se sentisse angustiado.
Apressou-se em controlar os pensamentos dos agentes dos saltadores. O resultado do exame deixou-o um pouco mais tranqüilo. Não estavam acreditando em suas próprias insinuações. Fazia mais de cinco decênios que Perry Rhodan desaparecera com a Titan em qualquer lugar do espaço e a Terra se transformara numa fornalha nuclear sob a ação das bombas arcônidas.
Marshall ainda não compreendia por que a ficha que segurava na mão seria tão importante como Egmon queria fazer crer.
Ixt — disse Egmon, falando devagar e em tom cativante. — Se Rohun não nos tivesse pedido que fizéssemos tudo para atender aos seus desejos, eu não teria arriscado uma coisa dessas. A ficha que o senhor tem na mão representa a interpretação positrônica do resultado das investigações sobre sua pessoa, realizadas pelo serviço secreto dos aras.
Devem notar a falta desta ficha! — Marshall sabia de que maneira os aras faziam sua guerra de papéis. O procedimento não era menos complicado e preciso que o seguido na Terra.
Trabalhamos com dezoito agentes, Ixt — ponderou Tulin. — Três deles trabalham no Serviço de Vigilância de Estrangeiros. Em Tolimon, não existe qualquer outro registro sobre sua pessoa. Será que isso não basta?
Subitamente todas as grades de radiações entraram em colapso no interior do pavilhão dos sonhos.
Arcônidas, saltadores, humanóides vindos de mundos distantes, que estavam prestes a entregar-se ao vício, irromperam em ruidosos protestos. Em toda parte, viam-se pessoas embriagadas jogadas no chão. As barreiras energéticas que as tornavam invisíveis haviam desaparecido. A segurança do Palácio dos Sonhos, tão afamada, deixara de existir.
Uma voz retumbante saiu do gigantesco alto-falante:
O Serviço de Vigilância de Estrangeiros dos aras ocupou todas as saídas. Ninguém poderá abandonar o Palácio dos Sonhos.
Tulin e Egmon fitaram John Marshall. Em seus rostos, lia-se uma idéia: desta vez nos agarraram!
Com a maior tranqüilidade, John Marshall enfiou a ficha no bolso e levantou-se. Fez um sinal para os dois agentes dos saltadores. Bem perto deles, um grupo de mercadores galácticos gesticulava exaltadamente. Numa atitude indiferente, John Marshall juntou-se ao grupo. Tulin e Egmon seguiram-no, pois pouco lhes importava em que lugar estivessem no momento em que fossem revistados.
Enquanto Marshall oferecia o aspecto de saltador que escutava atentamente a conversa que se desenvolvia em torno dele, concentrou-se ao máximo para lembrar quantas saídas possuía o Palácio dos Sonhos.
Eram oito!
Controlou rapidamente uma saída após a outra. Quando chegou à quinta, sorriu.
Fez um sinal discreto para que Tulin e Egmon o seguissem.
Caminharam em direção à saída número cinco como pessoas que estivessem entorpecidas. Também esta estava ocupada por seis elementos do serviço secreto. Eram aras armados. Três deles estavam muito contrariados com a missão que tinham que desempenhar. Pois esta lhes estragara o programa daquele dia. Ao projetar o controle, Marshall havia captado sua raiva.
E esses aras já se transformaram em vítimas do projetor mental quando o grupo ainda se encontrava no meio do Palácio dos Sonhos. Marshall passou a agir sobre os três aras bem dispostos para o serviço. Egmon tentou perturbá-lo, mas sua ação não passou da tentativa. Marshall brindou-o com um olhar tão furioso que, de tão assustado, Egmon mudou a cor dos olhos e ficou um passo atrás dos outros.
O projetor mental irradiava ininterruptamente a vontade de Marshall sobre os aras. Transmitiu-lhes a ordem de deixá-los passar depois de fingir um controle rigoroso.
Enquanto em três das saídas, especialmente na principal, o barulho e os protestos se tornavam cada vez mais intensos, os seis aras que se encontravam na saída número cinco praticamente não tinham nada a fazer.
Com uma expressão de curiosidade, fitaram o grupo que se aproximava.
Tulin disse com um suspiro:
Tenho comigo três projetores diferentes. Vou jogá-los fora e...
O senhor não vai jogar fora coisa alguma! — disse Marshall e conseguiu introduzir um intervalo ligeiríssimo no tratamento hipnótico que estava dispensando aos aras.
Tulin calou-se sob a força do olhar de Marshall.
Chegaram à saída número cinco.
Cada um dos mercadores galácticos tornou-se alvo das atenções de dois aras. John Marshall foi revistado por dois funcionários furiosos. Tulin transpirou por todo o corpo. Encontrava-se logo atrás de Marshall e viu a ficha do cérebro positrônico na mão de um dos aras. Lembrou-se dos três radiadores que trazia no bolso.
Naquele instante, as armas passaram às mãos dos aras.
Está tudo no fim”, pensou Tulin. Não se atrevia a respirar. Os aras voltaram a enfiar os radiadores em seu bolso.
Podem passar — rangeu a voz de um dos aras, que ainda os brindou com uma maldição.
Egmon e Tulin alegraram-se, como crianças, por terem conservado a liberdade, embora não compreendessem por que haviam escapado dessa forma.
Vocês querem saber por que o serviço secreto encenou a batida no Palácio dos Sonhos? — perguntou Marshall depois que, do lado de fora, se haviam misturado à multidão.
Não deve ter sido por nossa causa — disse Tulin em tom não muito confiante, lembrando-se dos três radiadores que os aras haviam descoberto ao revistá-lo, sem que, contudo, reagissem ao achado e o prendessem.
Foi por causa de Egmon — disse John Marshall, fitando-os um por um. — Os aras devem ter colocado seus robôs de controle em todos os lugares ao mesmo tempo. Um deles viu quando Egmon pegou a ficha do cérebro positrônico e deu o alarma.
O saltador alto e louro empalideceu. Imaginava as conseqüências de seu ato. Mas Tulin, o ruivo impetuoso, era de um feitio muito diferente. Lançou um olhar desconfiado para Marshall.
Ixt, à medida que o tempo passa o senhor me deixa cada vez mais apavorado. Por que recorre a uma mentira infame como essa para exercer pressão contra nós? Merecemos um tratamento como este?
Tulin tinha motivo de sobra para formular a pergunta. Partia do pressuposto que o negociante dos animais nada sabia da ação em grande escala que haviam lançado contra o serviço secreto dos aras. Por isso mesmo, a afirmativa de que Egmon havia sido observado por um robô de controle quando se encontrava nas proximidades do cérebro positrônico só poderia ser uma mentira rematada.
Cuidado! — cochichou Marshall no último instante.
Mal teve tempo para dedicar sua atenção a um ara do serviço secreto, que podia ser identificado por seu rosto frio de burocrata. Naquele instante, aproximava-se rapidamente, vindo de um lado onde a multidão era mais rala.
Num instante, o ara viu-se diante do saltador louro. O volume do bolso no qual enfiara a mão mostrava que tinha a arma de radiações engatilhada e apontada para Egmon.
Egmon do clã de Rohun... — chiou o ara, estendendo a mão em sua direção.
Num gesto quase automático, John Marshall conseguiu dar uma pancada no braço levantado do ruivo Tulin. Este soltou uma praga típica dos saltadores. Mas logo se sentiu esbaforido, pois a frieza do rosto do ara cedera lugar a uma expressão de amabilidade. O gesto violento da mão terminou numa batidinha no ombro de Egmon, seguida destas palavras:
Tive um prazer imenso em revê-lo. Até a próxima e muitas felicidades.
Despedindo-se com um aceno de cabeça, tirou a mão do bolso em que estava guardada a arma.
Os dois saltadores, perplexos, perguntaram:
Ixt, o senhor é um sujeito medonho. O que fez com o ara para que ele mudasse de atitude tão depressa?
Da próxima vez provavelmente não teremos tanta sorte — disse John Marshall, esquivando-se da pergunta. — Egmon, o senhor já acredita que um robô de controle o viu quando se encontrava diante do cérebro positrônico?
Correram por entre a massa de gente, em direção ao distribuidor que os levou a uma das ruas situadas mais abaixo, onde tomariam qualquer condução que os levasse o mais depressa possível para fora do centro de Trulan. Só depois de alguns minutos, Egmon teve oportunidade para formular sua pergunta:
Por todas as estrelas, Ixt, como foi que o senhor soube disso?
Mais uma vez, John Marshall ficou devendo a resposta.
O que pretende fazer, Egmon?
Egmon resmungou:
Rohun terá de chegar até aqui para me recolher a bordo. Um homem caçado pelos aras sempre acaba capturado. O negócio dos cinco mil shaks caiu na água.
O mutante de Perry Rhodan não pôde deixar de admirar o sangue-frio do agente dos saltadores.
6



Durante dois dias o mutante viveu numa tensão ininterrupta. De um instante para outro, aguardava uma ação fulminante do serviço secreto dos aras. Como nada acontecesse, voltou a acalmar-se.
A segunda visita que fez a Kolex, chefe da Divisão de Compras dos aras, não foi uma simples visita de cortesia. Esperava que aquele homem influente o ajudasse a entrar em contato com o círculo dos médicos galácticos que lidavam com a produção do soro prolongador da vida. Fora justamente por esse motivo que se dirigira em primeiro lugar a Kolex, para oferecer-lhe o lote de animais desconhecidos vindos do planeta do fedor. Pouco lhe interessava o fato de com isso ter feito um bom negócio.
Kolex revelou-se de uma amabilidade cativante. Sua conversa naturalmente girou em torno desses animais.
...a designação não é correta — retificou Kolex. — Só oito exemplares pertencem à classe dos animais. Os demais são inteligências, Ixt. Alguns deles chegam a ser mais inteligentes que nossos froghs. A maior sensação foi esta. O senhor nem imagina quantos elogios tenho recebido por ter arriscado esta compra de dois milhões.
Kolex estava radiante, e seus pensamentos, controlados pelo mutante, eram um hino de louvor a Marshall.
Será que esses estranhos não são uns coitados? — perguntou John.
Com estas palavras tocara num ponto sensível. Kolex protestou. Seu gênio descontrolou-se. Começou a falar em pesquisas, nos diversos fabricantes de soro.
...se não dispusermos de portadores de soro, nossas mãos estarão atadas, Ixt! E o portador de soro tem de ser uma criatura sadia, pois do contrário a doença conduz a um resultado falho. Garanto-lhe uma coisa. Não existe nenhum lugar no Universo em que as inteligências prisioneiras passem tão bem como em nosso zoológico.
Será que as inteligências vindas do planeta do fedor também foram trancadas atrás de grades energéticas?
Kolex manteve-se fiel à verdade.
Por enquanto sim, Ixt. Não posso falar demais a este respeito, mas há uma ordem de âmbito galáctico que nos obriga a agir dessa forma. Nós, os aras, somos verdadeiros artistas na área da medicina, mas não podemos fazer milagres, e... Ixt, não me olhe desse jeito; até parece que quer recriminar-me e desafiar-me. Sei perfeitamente o que está pensando. O senhor deve conhecer a lei do regente positrônico de Árcon tão bem quanto eu... Ixt, quando se trata de algo extremamente importante, até mesmo a violação da lei encontra justificativa.
Hum — respondeu o mutante e leu os pensamentos de Kolex, que pensava incessantemente no soro prolongador da vida. Segundo seus pensamentos, a produção do mesmo dependia de inteligências cujos quocientes intelectuais os incluíssem nas classes C, B e mesmo A. Tal procedimento dos aras transgredia uma das leis mais rigorosas de Árcon. A revelação do crime que estavam cometendo ao abusarem de seres dotados de inteligência elevada, utilizando-os como portadores de soro, poderia significar a destruição total dos mundos dos aras.
O cérebro robotizado de Árcon não conhecia emoções. Sua atuação resumia-se na lógica mais pura, traçada pela programação.
Com suas insinuações, Kolex revelara tantos dados que não poderia deixar de ser considerado um irresponsável. E seus pensamentos revelavam muito mais.
A reunião das duas séries de dados permitiu que Marshall concluísse que o projeto dos aras já passara da fase experimental. O soro prolongador da vida estava sendo fabricado em grandes quantidades.
Tomara que não surja nenhum incidente com o serviço secreto dos aras”, foi tudo que John Marshall desejou depois que se tinha despedido de Kolex e, passando pela Rua do Grande Mo, caminhava em direção à firma.

* * *

Quatro homens do século XVII do planeta Terra viviam no gigantesco zoológico de Tolimon, presos atrás de uma grade energética intransponível.
Laury Marten conhecera todos eles: Mutumbo, um africano supersticioso e Alf Tornsten, o camponês sueco que vivia apaticamente seu dia-a-dia, deprimido pelo fato de que não envelhecia.
A terceira pessoa era Nara, uma mongol velha e gasta, cuja tenda fora erguida atrás da grade. Era uma doente mental incapaz de articular uma palavra sensata.
Mutumbo e Alf Tornsten arranhavam o intercosmo e a língua arcônida. Já o conde Rodrigo de Berceo brilhava nessas línguas. Quando Laury Marten o visitou pela terceira vez às escondidas, conversaram no arcônida dos “primeiros dez mil”.
O palácio asteca encerrava um segredo que representava a felicidade de dois seres humanos: Laury Marten e o conde Rodrigo amavam-se.
Aquilo desabara sobre ela com a força de um dilúvio: foi impetuoso, violento e belo. Os quatro séculos que os separavam eram transpostos pela força do amor.
A mutante bela e apaixonada esquecia constantemente que Perry Rhodan a enviara a Tolimon para cumprir uma missão de cujo êxito dependia a vida de Thora e de Crest. A compaixão transformara-se em amor.
Seu bem-amado contou-lhe que, quando tinha vinte e dois anos, certo dia estava passeando a cavalo quando viu alguma coisa cilíndrica baixar das nuvens. Teve medo e fugiu, mas um pequeno objeto voador alcançou-o e levou-o a bordo. Os saltadores trancaram-no num camarote no qual já se encontravam três humanos: Mutumbo, Alf Tornsten e Nara. Quase não se ocuparam com eles até o momento em que foram descarregados em Trulan, onde passaram a viver no zoológico como se fossem animais.
Laury preferiu não explicar-lhe o significado da palavra zoológico. Mas, por ocasião de sua segunda visita, não se esquecera de perguntar a Rodrigo de Berceo por que nesses quatro séculos só envelhecera alguns anos.
Ao responder, Rodrigo lhe falara num imenso palácio. À medida que se demorava na descrição do mesmo, Laury reconheceu nele o setor X-p. Lá dentro fora apresentado inúmeras vezes a médicos aras. Consumiram alguns dias no exame de seu organismo e finalmente deram-lhe uma injeção de soro prolongador da vida.
Há de chegar o dia em que provarei aos aras, com a minha espada, que não sou nenhum asteca arruinado, mas o conde Rodrigo. Olhe, minha flor, contemple esta lâmina fulgurante, que se tingirá de vermelho com o sangue dos homens que me maltrataram.
Num gesto teatral, que no século XVII talvez representasse um costume da corte, arrancou a espada curta da bainha.

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