Subitamente
sentiu-se perturbada por um impulso mais intenso, vindo da sala
contígua.
Isso
aconteceu no momento exato em que seus examinadores formularam uma
pergunta importante.
Laury
Marten recorreu ao meio empregado em todas as estrelas, dizendo que
não havia entendido a pergunta. Dessa forma, ganhou tempo para
descobrir quem se encontrava na sala contígua e concentrava seus
pensamentos sobre ela. Ao mesmo tempo, aproveitou o novo lapso de
tempo para formular a resposta.
De
repente, tornou-se confiante demais. Os examinadores começaram a ver
nela um verdadeiro fenômeno médico. Passou a responder às
perguntas por meio dos pensamentos de Man Regg, mas ela o fez de tal
forma que apontou como observações menos corretas tudo aquilo que
Regg considerava certo, apresentando três argumentos que
representavam os pontos mais fracos da série de pesquisas de Man
Regg.
— Será
que Árcon já avançou tanto no campo da pesquisa genética que os
estímulos genéticos, os quais até agora não se tornaram
conhecidos dos médicos, já passaram à categoria de informações
que são do domínio público!? — surpreso, Assa exclamou de modo
interrogativo.
Laury
Marten respondeu com a maior amabilidade:
— Dos
dados a respeito de minha pessoa consta a prova de que durante um ano
fui assistente de Moguld, que também em Tolimon goza de certa fama.
— Acontece
que não nos consta que Moguld se ocupe com a biologia da
hereditariedade, Arga Slim.
Arga
continuou amável como antes.
— Será
que no Império de Árcon se conhecem todas as pesquisas que já
foram realizadas nos mundos dos aras?
— Isso
não é argumento — falou Assa em tom furioso.
— Será
que a teoria de Moguld representa um forte argumento, quando este
afirma que o segredo da vida eterna se encontra nos cromossomos?
— Tolice!
— resmungou Assa.
— Será
que ainda se pode falar em tolice se aumentarmos artificialmente o
número dos cromossomos ligados à espécie e obrigarmos os
cromossomos adicionais a suspenderem a divisão indireta das células?
Laury
Marten sorriu, mas por dentro fervilhava. Naquele instante, Kelisse,
Assa e Gelte não passavam de um feixe de receios. Viram que o mais
importante dos seus segredos havia sido descoberto. Até esse ponto,
haviam refletido sobre o problema, e Laury Marten rogava aos deuses
para que um deles refletisse sobre o problema em seu aspecto global,
para revelar o processo sofisticado de produção do soro prolongador
da vida. Quando isso acontecesse, o problema estaria resolvido. Perry
Rhodan ficaria livre da tensão psicológica insuportável causada
pelo fato de que Thora, a mulher amada que se encontrava a seu lado,
envelhecia a cada dia, enquanto Crest, o amigo arcônida, se
transformava num ancião.
Leu
novos pensamentos. Eram apenas fragmentos, mas bastaram para que
reconhecesse que os três aras que tinha diante de si pretendiam
alcançar um prolongamento infinito da vida sem recorrer a qualquer
soro. E, ao que parecia, não se encontravam muito longe do objetivo.
Tentou
influenciar os aras hipnoticamente para esse fim, mas nesse instante
Man Regg veio da sala contígua e felicitou-a.
Lamentou
a interrupção. As reflexões dos três médicos aras haviam
revelado parte do segredo sobre a maneira pela qual pretendiam
alcançar a imortalidade.
Conseguiu
enrubescer com o elogio de Man Regg e, ao mesmo tempo, felicitou no
seu íntimo o Serviço de Defesa do Sistema Solar por ter forjado
seus dados pessoais com tanto cuidado. Enquanto Laury Marten elogiava
os homens de Terrânia, John Marshall os repreendia por suas
negligências. Ambos não sabiam que o Serviço de Defesa do Sistema
Solar nunca teria sido capaz de fornecer dados tão precisos, se não
contasse com a cooperação de certos mercadores galácticos.
Os
dados sobre Moguld eram corretos. E também era verdade que existia
uma estudante de zoologia arcônida chamada Arga Slim. Mas só Rhodan
e um comandante dos saltadores sabiam que a verdadeira Arga Slim se
encontrava há mais de oito meses numa nave cilíndrica, realizando
em mundos distantes estudos zoológicos in
loco.
Mais
uma vez, Laury teve que realizar uma obra-prima da telepatia, mesmo
sob a desconfiança de Assa. Apesar de tudo, conduziu uma conversação
especializada fluente, intercalando vez por outra algumas observações
científicas de alto gabarito, que deixavam os aras perplexos.
Se
John Marshall participasse da palestra, teria colocado uma poderosa
barreira mental, para que Laury Marten com seu espírito um tanto
infantil não se deslocasse para o terreno das areias movediças.
— Sugiro
— disse Man Regg, encerrando a reunião — que Arga Slim passe a
trabalhar na Divisão de Geomorfismo. Ou será que pensam de forma
diferente?
A
Divisão de Geomorfismo estudava as alterações trópicas da pele do
rosto de inteligências jovens, que muitas vezes adquiria o aspecto
envelhecido, apesar do uso do soro prolongador da vida.
Nenhum
dos três médicos teve qualquer objeção contra a sugestão do
chefe. Nem mesmo Assa.
5
O
hipercomunicador
instalado no luxuoso escritório de Ixt não representava nada de
extraordinário. Era uma das ferramentas de um negociante em grande
escala de animais raros. Nos últimos meses fizera várias compras de
animais esquisitos pelo rádio, enquanto a nave dos saltadores que os
trazia a bordo ainda se encontrava no espaço, a milhares de
anos-luz, e muitas vezes levava semanas para chegar a Tolimon.
Naquela
manhã, John Marshall esquentou seu hipercomunicador. Futgris estava
sentado à sua frente e deveria socorrê-lo com seus conhecimentos
especializados se isso se tornasse necessário.
Tulin,
um dos agentes de Rohun, lhe contara no dia anterior que Bet, um
saltador, se aproximava de Tolimon, com metade da nave cheia de
animais dos tipos mais estranhos.
Chamou
a Bet-765 pelo hipercomunicador. John Marshall pretendia entrar no
negócio a todo vapor. O encontro — que no dia anterior tivera no
espaçoporto com Tulin, um ruivo impetuoso — fornecera-lhe estímulo
para isso. Uma frase dita ao acaso transformara-se subitamente num
impulso muito intenso.
“Quanto
mais estreitamente a gente colabora com os aras, mais confiantes eles
se tornam.”
E
a experiência de oito meses ensinara a Marshall que a melhor isca
para os médicos galácticos eram os animais que ainda não fossem
conhecidos em Tolimon.
A
Bet-765 respondeu. Na tela, surgiu o rosto de Bet, um saltador jovem
e robusto.
Bet
sorriu ligeiramente ao ouvir o motivo pelo qual Ixt, um negociante de
animais, estabelecido em Trulan, estava entrando em contato com ele.
— Tudo
que tive de fazer foi carregar os animais de um planeta que em cada
canto exala um cheiro diferente. Aposto que nem
um
único destes animais é conhecido no Império de Árcon. Pretendia
fornecer toda a carga aos aras, mas se o senhor me pagar um preço
aceitável, eu os vendo ao senhor, Ixt. Um instante! Vou mostrar-lhe
meu zoológico de bordo.
A
imagem de Bet desapareceu. Logo a seguir, os animais começaram a
surgir na tela. John Marshall, que durante as ações desempenhadas
em muitos planetas já se acostumara às coisas mais estranhas e
monstruosas, reteve a respiração.
Bet
tinha uma coleção de monstros terríveis a bordo. Eram lagartos,
morcegos gigantes, anfíbios e outros seres que não poderiam ser
enquadrados em qualquer categoria.
Ixt
lançou um olhar indagador para Futgris. Este também não sabia o
que fazer, mas em seus olhos brilhava a chama do entusiasmo.
As
negociações consumiram meia hora.
Depois,
o negócio tomou um fim. Futgris ficou perplexo quando o chefe voltou
a confirmar o
preço
da compra. Eram 1,3 milhões.
O
contato pelo hipercomunicador não foi interrompido.
Enquanto
a Bet-765 ainda se encontrava a 5.299 anos-luz do planeta Tolimon,
John
Marshall
catalogou, com o auxílio de Futgris, os animais que se encontravam a
bordo
da nave
cilíndrica de Bet.
Quando
o último dos animais acabara de ser fixado fotograficamente,
Marshall pediu que até o meio-dia o vendedor lhe entregasse trinta
exemplares do catálogo.
Dali
a duas horas, os trinta exemplares estavam sobre a mesa de John
Marshall. Futgris foi brindado com um elogio todo especial. Depois
disso, o ara estaria disposto a fazer pelo chefe tudo que estivesse
ao seu alcance. Felicitava-se constantemente por ter resolvido há
oito meses entrar para o serviço da firma recém-fundada.
*
* *
Divisão
de Compras.
Era
lá que se encontrava John Marshall. Passara por cima de dezoito
instâncias competentes, apontando para seu robô de trabalho, que
carregava trinta catálogos. Naquele momento, encontrava-se sentado
diante de Kolex, um velho ara, curvado pelos anos, mas que nem por
isso deixava de ser uma raposa esperta. Numa atitude de espreita,
seus olhos fitavam John Marshall. Deixou que falasse. Sua boca
permaneceu fechada, mas seus dedos não ficaram quietos nem por um
segundo.
John
sabia o que a velha raposa estava fazendo com os dedos, pois lia os
pensamentos de Kolex. Estava pondo em polvorosa todos os setores do
gigantesco aparelho, que poderiam estar interessados na aquisição
de animais desconhecidos.
A
palestra estava sendo vista e ouvida em mais de vinte lugares. Apenas
o catálogo ainda não havia sido apresentado. O robô de trabalho de
Ixt ainda mantinha os exemplares seguros nas mãos de aço,
mantendo-se imóvel atrás do chefe.
Kolex
comprimiu mais uma tecla para estabelecer outra comunicação. John
Marshall conteve-se para não deixar perceber o triunfo. O biomédico
Man Regg acabara de ser colocado na linha.
— Um
catálogo! — pediu Marshall, dirigindo-se ao robô.
Colocou-o
exatamente diante da lente de cristal do projetor de campo. No mesmo
instante a sala foi escurecida automaticamente. A imagem do primeiro
animal foi projetada sobre a tela de radiações com uma dimensão de
quatro metros por cinco.
John
Marshall armou-se de paciência. A única coisa em que estava
interessado eram os pensamentos de Kolex. Enquanto se mantinha de
olhos semicerrados, lia-os.
Aquilo
que o chefe da Divisão de Compras dos aras ocultava, acabava sendo
revelado através dos seus pensamentos. Vivia lutando contra a
tendência de irromper em demonstrações de entusiasmo. Estava
reprimindo o desejo de levantar-se de um salto para exprimir seu
espanto. Fazia mais de oitocentos anos de Tolimon que exercia as
funções de chefe da Divisão de Compras, mas em todos esses séculos
nunca vira tamanha profusão de coisas terrificantes, novas e
extraordinárias.
A
projeção durou nada menos que uma hora. Quando terminou, a luz
ofuscante do sol voltou a encher a sala.
O
mutante de Perry Rhodan disse o preço. Pediu 2,1 milhões. Não se
sentiu embaraçado ao indicar a soma. Conhecia os pensamentos de
Kolex. E este estava disposto a chegar até lá.
Mas
em vez de aceitar a pretensão de Marshall, o ara formulou uma ameaça
velada:
— Esses
seres ainda não chegaram às suas mãos, Ixt. Pelo que diz, o
negócio foi fechado pelo hipercomunicador. Acredita que eu teria
algum problema em descobrir qual é o saltador que tem essa carga a
bordo e negociar diretamente com ele? Posso perfeitamente dar a
entender, de forma diplomática, que terá dificuldade se não fizer
o negócio conosco...
Era
exatamente o que Kolex estava pensando.
John
Marshall, sob o disfarce da extraordinária máscara de saltador,
respondeu com um sorriso condescendente.
— Ora,
Kolex, faça-me o favor!
Não
disse mais nada.
A
atitude de espreita nos olhos de seu interlocutor tornou-se mais
intensa. Pediu apressadamente uma ligação com o serviço de
vigilância de hipercomunicação.
A
ligação foi completada. Um ara prometeu fornecer num instante os
dados solicitados.
Mas
esse instante não chegou.
O
sorriso condescendente de John Marshall tornou-se mais intenso.
— Kolex
— disse em tom enfático. — Eu sou um saltador. Meu
hipercomunicador foi construído pelos saltadores.
Com
estas palavras, deu a entender que o serviço de vigilância de
hipercomunicações de Tolimon não estava em condições de
verificar com quem havia falado.
Quase
no mesmo instante, veio a resposta da Divisão de Vigilância de
Hipercomunicações, dada em tom modesto, de que não era possível
fornecer a informação solicitada.
Kolex
ainda teve o atrevimento de formular uma pergunta:
— O
senhor acha que em Tolimon é permitido o uso de hipercomunicadores
desse tipo?
John
Marshall resolveu falar grosso:
— Será
que estou aqui para ser interrogado ou para tratar de negócios? O
senhor sabe perfeitamente que os mercadores galácticos negociam com
todos os povos do Império; tenho outros interessados além do
senhor. Vamos dar a palestra por encerrada. De acordo?
O
calor do meio do dia, que chegava a quarenta e cinco graus à sombra,
pendia sobre Trulan, quando a Divisão de Compras dos aras e Ixt, o
mercador galáctico, fecharam o contrato para o fornecimento de
animais, no valor de dois milhões.
Quando
John Marshall se despediu de Kolex, os dois se haviam tornado bons
amigos.
*
* *
Dois
dias depois, a Bet-765 pousou no espaçoporto de Trulan. A chegada da
nave provocara sensação, pois nunca se vira tamanha quantidade de
jaulas transportáveis.
Também
em Trulan não faltavam os curiosos. Mas, quando a grande comporta da
Bet-765 se abriu, deixando à mostra o depósito F, a multidão fugiu
em disparada, e quem possuísse um sentido de olfato humano tapava o
nariz e lutava desesperadamente para reprimir as náuseas causadas
pelo terrível fedor.
Marshall
logo colocou seu aparelho de respiração, respirou profundamente
algumas vezes e enxugou o suor que lhe cobria a testa.
A
onda olfativa — espalhada como uma densa neblina e reforçada
incessantemente pelo cheiro que saía do interior do depósito da
Bet-765 — era de intensidade inigualável.
Alguns
zoólogos dos aras, que já estavam acostumados a muita coisa em
matéria de mau cheiro, haviam desmaiado. Outros fugiam junto com o
grupo de curiosos. Só depois de uma hora, quando a onda olfativa
penetrante se aproximava inexoravelmente do gigantesco edifício da
recepção do espaçoporto, a descarga dos animais pôde ser
iniciada.
Kolex,
que estava parado ao lado de Marshall junto à grande rampa, viu um
monstro de dez metros, com o formato de pólipo, ser agarrado pelos
raios de tração que o colocaram atrás da grade energética da
jaula destinada ao transporte.
— Estes
animais respiram oxigênio e espalham um fedor destes! — suspirou
Kolex, em tom exaltado. — Tal fato já constitui uma novidade.
Diga-me uma coisa: Por que todos esses seres exalam um cheiro tão
insuportável?
— Se
eu soubesse disso — disse John Marshall, bancando o mercador
galáctico em toda extensão — não teríamos feito o negócio por
dois milhões.
Esta
observação fez Kolex lembrar-se de que procurara exercer pressão
sobre o mercador de animais. Na intenção de reparar alguma coisa,
disse:
— Nosso
negócio se tornou conhecido em toda cidade, Ixt. Ontem recebi a
visita do pessoal do serviço secreto. O senhor já fez alguma coisa
contrária às nossas leis no mundo dos aras? O funcionário quis
saber com todas as minúcias como foi que fechamos o negócio. Confie
em mim, Ixt, e procurarei ajudar. Minha influência junto ao serviço
secreto é bem considerada.
John
Marshall sentiu um calafrio. Exerceu um controle instantâneo dos
pensamentos de Kolex. O chefe da Divisão de Compras dos aras estava
dizendo o que pensava.
— Eu?
— disse Marshall em tom de espanto. — Não me lembro de ter
violado qualquer lei. O funcionário não explicou o motivo de sua
visita?
— Explicou,
Ixt. Diz que os dados relativos à sua pessoa não são corretos. É
bem verdade que existe um mercador galáctico de animais, mas pelo
que dizem este reside em Xylon, no sistema de Hogur. Ixt, quando olho
para a beleza que o senhor nos vendeu, meu coração se abre. Mesmo
que fosse um agente, faria tudo para ajudá-lo. Confie em mim,
saltador!
John
Marshall surpreendeu-se porque o chão não se abriu sob seus pés
para engoli-lo.
Não
poderia deixar de responder a uma observação como esta. Mas nesse
exato momento foi atingido pela mensagem telepática de Laury Marten.
— Daqui
a pouco! — telepatou
de volta. — Agora
não! Daqui a dez minutos, se for necessário, mas não agora, Laury!
— Acontece
que encontrei humanos trancados no zoológico, sobre os quais correm
boatos entre os saltadores, Marshall. Tenho necessidade absoluta...
Até
mesmo um palavrão pode ser transmitido por via telepática. John
Marshall não se importou com o fato de que Laury Marten era mulher.
Era o chefe do comando, e proibia a perturbação telepática de
Laury.
Respirou
profundamente.
Fitou
Kolex.
— Qual
foi a expressão que o senhor usou, Kolex? — riu. — Obrigado —
prosseguiu. — Não me esquecerei do que o senhor se dispôs a fazer
por mim, mas nunca haverá necessidade disso. Todavia, tenho um
pedido. Gostaria de saber por que o serviço secreto está
interessado na minha pessoa. Eu sou Ixt, logo conclui-se que o tal do
Ixt, que se encontra em Xylon, é um trapaceiro.
— De
qualquer maneira, o senhor nos vendeu o lote de animais mais
sensacional do milênio, Ixt — respondeu Kolex num tom que, além
de ser ambíguo e reticente, encerrava uma advertência.
Marshall
examinou os pensamentos do ara. Não encontrou nada de importante
além daquilo que o mesmo lhe dissera. Qual seria então o motivo da
advertência inequívoca de Kolex? Estaria agindo por intuição?
*
* *
Ao
passar por uma ondulação do terreno em que ficava o zoológico
continental, Laury Marten viu subitamente uma construção parecida
com uma casa de camponeses suecos.
Dirigia-se
à grade, atrás da qual eram mantidos os bombos. Tratava-se de seres
semelhantes a macacos, que tinham cabeça dupla e, além de possuírem
braços curtos em formato humano, sabiam falar, ler e escrever.
O
controle de rota de seu veículo fora regulado para essa grade e foi
por simples coincidência que conseguiu ver a casa camponesa sueca. A
quinhentos metros do lugar em que se encontrava, cercada de alamos
prateados, com o telhado de palha que quase tocava o chão, parecia
uma lembrança do planeta Terra.
Freou
subitamente e imobilizou o veículo. Desceu e aproximou-se da grade
energética, enquanto olhava em torno para ver se havia algum frogh
por perto.
Até
onde alcançava a vista, não via nenhum frogh. Quando Laury esbarrou
contra a parede energética e foi atirada para trás uns trinta
centímetros, sua decisão havia sido tomada.
Não
era apenas telepata. Também possuía o dom da desintegração, que
lhe permitia dissolver aglomerações moleculares pela simples força
de sua vontade. Essa faculdade incrível lhe permitia transpor
paredes compactas e barreiras energéticas, sem que sua vida corresse
o menor perigo.
Estendeu
a mão em direção à barreira energética invisível,
concentrou-se, fez sua vontade atuar sobre uma área reduzida da
barreira. Como se o desejo tivesse atravessado uma lente, sentiu a
resistência da barreira, reforçou a concentração da mente. Deu um
passo amplo e sorriu aliviada. A barreira energética encontrava-se
atrás dela. Estava intacta; não deixaria passar mais ninguém.
A
parte do zoológico em que se encontrava ficava a mais de duzentos
quilômetros da área acessível ao público. Por onde quer que
passasse, notava que os aras se esforçavam em manter seus
prisioneiros num ambiente que correspondia ao mundo do qual haviam
vindo.
A
casa de campo sueca da qual Laury se aproximava poderia perfeitamente
estar na Suécia. Não havia nada de diferente. Todos os detalhes
haviam sido incluídos naquela construção.
Estacou
diante dela.
“Qual
será a idade desta casa?”,
pensou, espantada. Sacudiu a cabeça ao ver a maçaneta desajeitada,
feita de ferro forjado, e as dobradiças, que tinham quase um
centímetro de grossura.
Quando
resolveu lançar um olhar para o interior da casa viu um fogo aberto
e, pendurado num tripé, um tacho de cobre enegrecido pela fuligem.
“Estamos
em plena Idade Média”,
pensou perplexa e procurou descobrir os habitantes da casa. Mas nem
mesmo com suas energias telepáticas conseguiu encontrar qualquer
pessoa.
Virou-se
apressadamente e voltou a examinar o terreno, para ver se descobria
algum dos ligeiros froghs, sempre desconfiados. Sorriu aliviada.
Nenhuma das criaturas em formato de cobra estava à vista. Correu em
torno da casa. Já agora a construção e os alamos prateados a
encobriam.
Passou
a andar mais devagar. A trilha estreita, perfeitamente visível,
subia por um barranco. Aguardava outra surpresa, mas o quadro que se
ofereceu diante de seus olhos obrigou-a a ficar parada.
Perplexa,
fitou um edifício construído em estilo asteca. Seriam astecas?
As
idéias de Laury Marten desfilaram pelas fases da história.
Os
astecas, habitantes indígenas da América Central, foram subjugados
por Cortez, de 1.519 a 1.521. Ao mesmo tempo, verificou-se a
destruição de sua cultura e o extermínio da religião cruel e
sanguinária que praticavam...
Esses
dados resumiam tudo que sabia a respeito dos astecas. E agora, a
construção que via diante de si — um palácio — lembrava os
espetáculos relativos à cultura asteca que conhecia.
Seria
o século dezessete?
Será
que a casa de campo sueca era do século dezessete?
Subitamente
estremeceu. Um homem saiu da grande porta lateral do palácio asteca.
Laury Marten sentiu o coração palpitar.
Um
homem, que nem desconfiava de sua presença, saíra do palácio e
caminhava para o lado esquerdo, em direção à casa achatada que se
parecia com a cobertura de um poço.
Como
caminhava! Seu passo era majestático. E majestática também eram
sua figura e sua postura.
Era
alto e de ombros largos. Os cabelos sedosos e brilhantes desciam em
cachos escuros. Sentou no muro baixo. A mutante foi caminhando
devagar. O homem ainda não a havia notado. De repente, Laury
tropeçou. Uma pedra bateu na outra. O silêncio propagou o som.
O
homem levantou a cabeça, viu-a, levantou, colocou a mão direita
sobre a espada e com a esquerda tirou o chapéu de aba larga. Deu um
pequeno passo para trás e executou uma mesura profunda e elegante.
Voltou a endireitar o corpo.
E
Laury Marten viu-se frente a frente com o conde Rodrigo de Berceo!
Fitou-o
boquiaberta, como uma mocinha inexperiente. Era um mestiço. A união
do sangue asteca com o sangue espanhol haviam feito do conde Rodrigo
um exemplar de beleza masculina.
Como
chamejavam seus olhos! E como era altiva a expressão da boca!
O
tamanho do nariz era um tanto exagerado, mas era justamente o ligeiro
excesso desse órgão que conferia ao rosto másculo o feitio do
combatente fogoso, do homem altivo.
O
jovem homem sorriu para ela. Laury viu o tremor das narinas e notou o
olhar, em que se lia uma veneração extraordinária.
— Quem
é o senhor? — Laury Marten formulou a pergunta na língua dos
aras, falando como uma mocinha tímida.
— Sou
o conde Rodrigo de Berceo, filho da princesa asteca Uxatelxin e do
conde espanhol Juan de Berceo. Nasci no ano da graça de mil
seiscentos e cinqüenta e dois e com a idade de vinte e dois anos fui
raptado e levado para Tolimon. Deseja mais alguma informação?
Nascido
em mil seiscentos e cinqüenta e dois!
A
Terra já estava no mês de maio do ano de dois mil e quarenta e
dois!
Aquele
homem, que tinha o aspecto de pessoa de trinta anos, vivera
quatrocentos anos?
Quando
Laury Marten teve a idéia de usar suas faculdades telepáticas em
relação ao conde Rodrigo, vários minutos haviam sido consumidos em
perguntas formuladas e respondidas às pressas, que provocavam um
espanto cada vez maior na moça.
Não
se cansava de olhá-lo, e à medida que o contemplava
familiarizava-se com suas vestes medievais: botas de cano estreito e
revirado que chegavam até os quadris, a calça bem justa feita por
um material que se parecia com o veludo. O colete curto e sem mangas
estava cingido por um cinto largo. O colarinho de renda caía
elegantemente por cima do colete. As mangas largas da camisa branca
também terminavam em preciosas rendas. O cinturão brilhava e a
espada presa a uma corrente de prata balançava de um lado para
outro. O chapéu era de aba larga, e o penacho preso ao mesmo era
agitado pelo vento.
A
pesada corrente de ouro que trazia ao pescoço não parecia uma peça
de ostentação. Formava parte integrante da vestimenta do século
XVII,
tal
qual o amuleto que representava o Deus Sol dos astecas.
Laury
Marten teve a impressão de que seria um crime investigar os
pensamentos do conde Rodrigo. Mas lembrou-se de sua missão; apesar
disso, ela o fez com grande relutância. Parecia mudada; não sabia o
que estava acontecendo com ela.
Numa
fração de segundo enxergou tudo com a maior clareza.
Este
homem de trinta anos realmente nascera no México, em 1.652!
“Devo
avisar Marshall”,
foi este seu único pensamento. Enquanto o conde Rodrigo a admirava à
distância, conseguiu estabelecer contato com John Marshall, que se
encontrava em Trulan.
Mas
o contato durou poucos segundos. Marshall só estava disposto a ouvir
sua mensagem mais tarde. Acontecia que precisava informá-lo sobre a
descoberta que acabara de fazer; procurou convencê-lo da importância
do fato. Mas, no mesmo instante, captou sua resposta: uma repreensão
áspera. E logo depois John Marshall “desligou”.
Rodrigo
pensou que o susto de Laury Marten tivesse sido causado por sua
pessoa e pela admiração que estava demonstrando.
Subitamente
aquele homem do século XVII
ajoelhou-se
diante dela, segurou sua mão, comprimiu os lábios contra a mesma,
num beijo gentil, e pediu perdão pelo fogo que sentia no coração.
Em
qualquer outra oportunidade, essa fala talvez teria provocado um
sorriso de compaixão em Laury Marten, filha do século XXI.
Mas
agora só via nela a homenagem de um homem que receava ter ido longe
demais nas manifestações de entusiasmo por uma bela jovem.
Laury
Marten não retirou a mão.
*
* *
John
Marshall encontrou-se no pavilhão dos sonhos com Egmon e Tulin,
agentes de Rohun, conforme combinara com este último.
Não
poderia haver um ponto de encontro mais discreto que esse local
mal-afamado, que era proibido para todo e qualquer ara. Ali se
encontrava tudo quanto era entorpecente. Tudo aquilo que o inferno
tivesse descoberto para intoxicar o homem, no pavilhão dos sonhos
não haveria o menor problema para ser encontrado...
John
Marshall fechou a grade de radiações. Há pouco ainda se encontrara
num gigantesco salão. Agora, porém, estava invisível para qualquer
pessoa que ali penetrasse; tal qual acontecera com ele há pouco, o
visitante apenas veria o vazio da gigantesca abóbada.
Deitou
no chão. A droga herfnis
estava a seu lado. Não tinha a menor intenção de esfregá-la entre
as mãos para entregar-se aos efeitos da toxina, que o faria enxergar
uma verdadeira orgia de cores.
Sua
energia telepática atravessou a grade de radiações e, na entrada
principal do edifício, captou os pensamentos dos seres viciados, que
acorriam ao lugar à procura de distrações e davam o primeiro passo
que os conduziria ao abismo.
A
repugnância deixou-o arrepiado. Amaldiçoou a idéia de encontrar-se
no Palácio dos Sonhos, quando captou os pensamentos de Tulin e
Egmon, que não eram viciados nem sentiam o desejo de brincar com o
entorpecente.
Tulin,
o impetuoso, cochichou para Egmon:
— Como
poderemos encontrá-lo num lugar como este?
John
Marshall recorreu ao projetor mental e obrigou-os a atravessar o
labirinto de cabines de radiações, parando diante da barreira que o
protegia.
Abriu
a grade de radiações por alguns segundos. Egmon e Tulin olharam-no
perplexos, sorriram ao vê-lo deitado no chão e sentaram a seu lado,
já que não havia outro lugar em que pudessem acomodar-se.
Os
saltadores atiraram alguns grãos no canto. Tulin mandou uma praga
junto com eles.
— Tenho
pena do dinheiro que gastei. Pérolas de sonho; era só o que me
faltava para acrescentar aos meus pesadelos.
Marshall
não sabia o que eram pérolas de sonho, mas estava interessado nos
pesadelos de Tulin.
— Meu
pesadelo são os novos robôs dos aras que foram colocados nas
fábricas de soro, Ixt — explicou em tom contrariado. — Já
sabemos por que o clã de Estgal deixou de existir. Os aras sempre
inventam novas infâmias para dificultar nosso trabalho. Colocaram
robôs de controle entre os robôs de trabalho; por fora uns não se
distinguem dos outros, mas o que há dentro dos controladores é de
pasmar. São vigias positrônicos. Um alarma vivo. Trabalham tal qual
os outros, mas sua tarefa consiste em avisar qualquer incidente
ocorrido durante o processo de produção, por mais insignificante
que seja. Pelo amor dos deuses, Ixt, será que aqui ninguém pode
ouvir-nos?
— Ninguém
— garantiu Marshall.
— Tomara
que realmente não haja ninguém — disse Egmon, um homem louro
introvertido, e voltou a mergulhar em suas meditações.
— Pois
bem. O ara que conseguimos subornar fracassou por culpa de um robô
de controle, quando procurou roubar o processo de conservação...
— Mas
este processo não é parte do processo de produção! — interveio
John Marshall em tom enérgico.
Tulin
cocou a cabeça ruiva.
— Pois
nesse caso, os espias positrônicos estão em toda parte, Ixt. É
verdade! Não podem deixar de estar em toda parte, e com isso nosso
negócio, que até agora tem sido tão próspero, foi paralisado. É
uma vergonha!
John
Marshall não conseguiu achar graça nessas palavras. Não estava
interessado em saber se os agentes dos saltadores enganavam os aras
ou não. Acontece que a utilização dos robôs de controle também
representava o fracasso definitivo de sua missão.
Laury
Marten poderia interromper os estudos que estava realizando no
zoológico continental. Se os agentes dos saltadores, que já haviam
passado por tudo quanto era experiência, confessavam abertamente que
no momento estavam com as mãos atadas, o máximo que os dois
mutantes poderiam conseguir era que os aras os desmascarassem como
seres terranos. E, há mais de cinco decênios, o planeta Terra
deixara de existir para o Império Arcônida, tendo sido transformado
num sol.
De
repente Egmon, que continuava absorto em suas reflexões, levantou a
cabeça:
— Hoje
de noite receberei cinco mil shaks!
John
Marshall também levantou a cabeça e fitou Egmon. As palavras que o
saltador louro acabara de proferir desmentiam as informações de
Tulin.
Este
proferiu uma ameaça indisfarçada contra seu irmão de clã:
— Egmon,
se você...
— É
com isto! — disse Egmon, tirando do bolso um diapasão, ou melhor,
o instrumento que na Terra é designado por este nome. regozijou com
o espanto de seus interlocutores. — É bom que os aras tratem de
fazer suas diabruras médicas — prosseguiu — e deixem de
aventurar-se no terreno da construção de robôs. Os controladores
têm um ponto fraco. Os aras ainda não descobriram.
Seu
sorriso tornou-se mais acentuado.
— Será
que hoje em dia ainda se consegue adquirir em Trulan um único
diapasão do tipo antiquado?
John
Marshall confessou que não estava compreendendo mais nada. Egmon
piscou os olhos.
— Os
controladores têm uma alergia toda especial para o tom da nota si.
Não sei o que acontece com seu aparelho positrônico quando ouvem
esse tom, mas o fato é que, assim que a nota atinge seu ouvido, caem
por terra sem avisar sequer a central sobre o defeito surgido em seu
mecanismo. É por isso que hoje de noite receberei os cinco mil
shaks.
As
pastilhas shaks
eram o único remédio contra a doença de ferm,
uma alergia traiçoeira provocada pela transição das naves
espaciais, que matava dentro de poucos meses.
— Você
quer dizer que com isso se consegue neutralizar um robô? — Tulin
ainda não estava acreditando no que Egmon acabara de dizer. Egmon
insistia em sua afirmativa.
Antes
que a troca de palavras pudesse degenerar em discussão, Marshall
lembrou-os da finalidade do encontro.
— Ainda
tenho outro motivo que me traz pesadelos — disse Tulin, lançando o
olhar para além de John Marshall. — Estamos trabalhando com
dezoito agentes, Ixt. Por pouco Egmon não foi preso. Fiquei
agüentando a mulher de Huxul durante duas horas. Enquanto isso,
Huxul sofreu um acidente. Está internado no hospital. Os aras já
devem ter descoberto nosso truque, mas só daqui a dez dias
conseguirão despertar Huxul.
— Foi
atacado? — perguntou Marshall em tom áspero.
Teve
uma sensação desconfortável, pois conhecia Tulin. Por algum
motivo, que aquele homem de trinta anos nunca chegara a explicar, o
mesmo odiava todos os aras e, sempre que usasse os meios mais
radicais na luta contra eles, Marshall temia pelo pior.
— Não
foi atacado — resmungou Tulin. — Apenas recebeu um jato de gerf.
— O
que vem a ser gerf? — indagou Marshall.
— É
uma substância que o serviço secreto dos aras também usa nos seus
serviços. Quando esse narcótico entra no sangue de alguém, a
pessoa dorme durante dez dias e tem de ser alimentada
artificialmente, senão...
— Para
que serve um recurso tão primário? — Marshall sentiu-se tomado de
um tremendo nervosismo. Os agentes de Rohun haviam procedido como
crianças, e, dessa forma, o perigo tornara-se ainda maior.
A
essa hora, o serviço secreto dos aras não poderia deixar de
perceber que alguma coisa não estava em ordem com eles.
— Pois
é... — desta vez foi Egmon, que deu uma risada gostosa. Espantado,
Marshall pegou a ficha que este lhe ofereceu.
— O
que é isto? — perguntou sem desconfiar de nada.
— É
a prova chegada às mãos dos aras, segundo a qual o senhor não é o
mesmo Ixt que reside em Xylon, no sistema de Hogur. Afinal, quem é
mesmo o senhor?
— Também
estou curioso para descobrir isso — interveio Tulin. — Se não
soubesse que Rhodan e a Terra não existem mais, diria que o senhor é
um ser vindo daquele planeta e...
— Felizmente
esse sujeito não existe mais e a Terra foi transformada num sol
escaldante — retrucou Marshall com o maior cinismo, embora no seu
íntimo se sentisse angustiado.
Apressou-se
em controlar os pensamentos dos agentes dos saltadores. O resultado
do exame deixou-o um pouco mais tranqüilo. Não estavam acreditando
em suas próprias insinuações. Fazia mais de cinco decênios que
Perry Rhodan desaparecera com a Titan em qualquer lugar do espaço e
a Terra se transformara numa fornalha nuclear sob a ação das bombas
arcônidas.
Marshall
ainda não compreendia por que a ficha que segurava na mão seria tão
importante como Egmon queria fazer crer.
— Ixt
— disse Egmon, falando devagar e em tom cativante. — Se Rohun não
nos tivesse pedido que fizéssemos tudo para atender aos seus
desejos, eu não teria arriscado uma coisa dessas. A ficha que o
senhor tem na mão representa a interpretação positrônica do
resultado das investigações sobre sua pessoa, realizadas pelo
serviço secreto dos aras.
— Devem
notar a falta desta ficha! — Marshall sabia de que maneira os aras
faziam sua guerra de papéis. O procedimento não era menos
complicado e preciso que o seguido na Terra.
— Trabalhamos
com dezoito agentes, Ixt — ponderou Tulin. — Três deles
trabalham no Serviço de Vigilância de Estrangeiros. Em Tolimon, não
existe qualquer outro registro sobre sua pessoa. Será que isso não
basta?
Subitamente
todas as grades de radiações entraram em colapso no interior do
pavilhão dos sonhos.
Arcônidas,
saltadores, humanóides vindos de mundos distantes, que estavam
prestes a entregar-se ao vício, irromperam em ruidosos protestos. Em
toda parte, viam-se pessoas embriagadas jogadas no chão. As
barreiras energéticas que as tornavam invisíveis haviam
desaparecido. A segurança do Palácio dos Sonhos, tão afamada,
deixara de existir.
Uma
voz retumbante saiu do gigantesco alto-falante:
— O
Serviço de Vigilância de Estrangeiros dos aras ocupou todas as
saídas. Ninguém poderá abandonar o Palácio dos Sonhos.
Tulin
e Egmon fitaram John Marshall. Em seus rostos, lia-se uma idéia:
desta vez nos agarraram!
Com
a maior tranqüilidade, John Marshall enfiou a ficha no bolso e
levantou-se. Fez um sinal para os dois agentes dos saltadores. Bem
perto deles, um grupo de mercadores galácticos gesticulava
exaltadamente. Numa atitude indiferente, John Marshall juntou-se ao
grupo. Tulin e Egmon seguiram-no, pois pouco lhes importava em que
lugar estivessem no momento em que fossem revistados.
Enquanto
Marshall oferecia o aspecto de saltador que escutava atentamente a
conversa que se desenvolvia em torno dele, concentrou-se ao máximo
para lembrar quantas saídas possuía o Palácio dos Sonhos.
Eram
oito!
Controlou
rapidamente uma saída após a outra. Quando chegou à quinta,
sorriu.
Fez
um sinal discreto para que Tulin e Egmon o seguissem.
Caminharam
em direção à saída número cinco como pessoas que estivessem
entorpecidas. Também esta estava ocupada por seis elementos do
serviço secreto. Eram aras armados. Três deles estavam muito
contrariados com a missão que tinham que desempenhar. Pois esta lhes
estragara o programa daquele dia. Ao projetar o controle, Marshall
havia captado sua raiva.
E
esses aras já se transformaram em vítimas do projetor mental quando
o grupo ainda se encontrava no meio do Palácio dos Sonhos. Marshall
passou a agir sobre os três aras bem dispostos para o serviço.
Egmon tentou perturbá-lo, mas sua ação não passou da tentativa.
Marshall brindou-o com um olhar tão furioso que, de tão assustado,
Egmon mudou a cor dos olhos e ficou um passo atrás dos outros.
O
projetor mental irradiava ininterruptamente a vontade de Marshall
sobre os aras. Transmitiu-lhes a ordem de deixá-los passar depois de
fingir um controle rigoroso.
Enquanto
em três das saídas, especialmente na principal, o barulho e os
protestos se tornavam cada vez mais intensos, os seis aras que se
encontravam na saída número cinco praticamente não tinham nada a
fazer.
Com
uma expressão de curiosidade, fitaram o grupo que se aproximava.
Tulin
disse com um suspiro:
— Tenho
comigo três projetores diferentes. Vou jogá-los fora e...
— O
senhor não vai jogar fora coisa alguma! — disse Marshall e
conseguiu introduzir um intervalo ligeiríssimo no tratamento
hipnótico que estava dispensando aos aras.
Tulin
calou-se sob a força do olhar de Marshall.
Chegaram
à saída número cinco.
Cada
um dos mercadores galácticos tornou-se alvo das atenções de dois
aras. John Marshall foi revistado por dois funcionários furiosos.
Tulin transpirou por todo o corpo. Encontrava-se logo atrás de
Marshall e viu a ficha do cérebro positrônico na mão de um dos
aras. Lembrou-se dos três radiadores que trazia no bolso.
Naquele
instante, as armas passaram às mãos dos aras.
“Está
tudo no fim”,
pensou Tulin. Não se atrevia a respirar. Os aras voltaram a enfiar
os radiadores em seu bolso.
— Podem
passar — rangeu a voz de um dos aras, que ainda os brindou com uma
maldição.
Egmon
e Tulin alegraram-se, como crianças, por terem conservado a
liberdade, embora não compreendessem por que haviam escapado dessa
forma.
— Vocês
querem saber por que o serviço secreto encenou a batida no Palácio
dos Sonhos? — perguntou Marshall depois que, do lado de fora, se
haviam misturado à multidão.
— Não
deve ter sido por nossa causa — disse Tulin em tom não muito
confiante, lembrando-se dos três radiadores que os aras haviam
descoberto ao revistá-lo, sem que, contudo, reagissem ao achado e o
prendessem.
— Foi
por causa de Egmon — disse John Marshall, fitando-os um por um. —
Os aras devem ter colocado seus robôs de controle em todos os
lugares ao mesmo tempo. Um deles viu quando Egmon pegou a ficha do
cérebro positrônico e deu o alarma.
O
saltador alto e louro empalideceu. Imaginava as conseqüências de
seu ato. Mas Tulin, o ruivo impetuoso, era de um feitio muito
diferente. Lançou um olhar desconfiado para Marshall.
— Ixt,
à medida que o tempo passa o senhor me deixa cada vez mais
apavorado. Por que recorre a uma mentira infame como essa para
exercer pressão contra nós? Merecemos um tratamento como este?
Tulin
tinha motivo de sobra para formular a pergunta. Partia do pressuposto
que o negociante dos animais nada sabia da ação em grande escala
que haviam lançado contra o serviço secreto dos aras. Por isso
mesmo, a afirmativa de que Egmon havia sido observado por um robô de
controle quando se encontrava nas proximidades do cérebro
positrônico só poderia ser uma mentira rematada.
— Cuidado!
— cochichou Marshall no último instante.
Mal
teve tempo para dedicar sua atenção a um ara do serviço secreto,
que podia ser identificado por seu rosto frio de burocrata. Naquele
instante, aproximava-se rapidamente, vindo de um lado onde a multidão
era mais rala.
Num
instante, o ara viu-se diante do saltador louro. O volume do bolso no
qual enfiara a mão mostrava que tinha a arma de radiações
engatilhada e apontada para Egmon.
— Egmon
do clã de Rohun... — chiou o ara, estendendo a mão em sua
direção.
Num
gesto quase automático, John Marshall conseguiu dar uma pancada no
braço levantado do ruivo Tulin. Este soltou uma praga típica dos
saltadores. Mas logo se sentiu esbaforido, pois a frieza do rosto do
ara cedera lugar a uma expressão de amabilidade. O gesto violento da
mão terminou numa batidinha no ombro de Egmon, seguida destas
palavras:
— Tive
um prazer imenso em revê-lo. Até a próxima e muitas felicidades.
Despedindo-se
com um aceno de cabeça, tirou a mão do bolso em que estava guardada
a arma.
Os
dois saltadores, perplexos, perguntaram:
— Ixt,
o senhor é um sujeito medonho. O que fez com o ara para que ele
mudasse de atitude tão depressa?
— Da
próxima vez provavelmente não teremos tanta sorte — disse John
Marshall, esquivando-se da pergunta. — Egmon, o senhor já acredita
que um robô de controle o viu quando se encontrava diante do cérebro
positrônico?
Correram
por entre a massa de gente, em direção ao distribuidor que os levou
a uma das ruas situadas mais abaixo, onde tomariam qualquer condução
que os levasse o mais depressa possível para fora do centro de
Trulan. Só depois de alguns minutos, Egmon teve oportunidade para
formular sua pergunta:
— Por
todas as estrelas, Ixt, como foi que o senhor soube disso?
Mais
uma vez, John Marshall ficou devendo a resposta.
— O
que pretende fazer, Egmon?
Egmon
resmungou:
— Rohun
terá de chegar até aqui para me recolher a bordo. Um homem caçado
pelos aras sempre acaba capturado. O negócio dos cinco mil shaks
caiu na água.
O
mutante de Perry Rhodan não pôde deixar de admirar o sangue-frio do
agente dos saltadores.
6
Durante
dois dias o mutante viveu numa tensão ininterrupta. De um instante
para outro, aguardava uma ação fulminante do serviço secreto dos
aras. Como nada acontecesse, voltou a acalmar-se.
A
segunda visita que fez a Kolex, chefe da Divisão de Compras dos
aras, não foi uma simples visita de cortesia. Esperava que aquele
homem influente o ajudasse a entrar em contato com o círculo dos
médicos galácticos que lidavam com a produção do soro prolongador
da vida. Fora justamente por esse motivo que se dirigira em primeiro
lugar a Kolex, para oferecer-lhe o lote de animais desconhecidos
vindos do planeta do fedor. Pouco lhe interessava o fato de com isso
ter feito um bom negócio.
Kolex
revelou-se de uma amabilidade cativante. Sua conversa naturalmente
girou em torno desses animais.
— ...a
designação não é correta — retificou Kolex. — Só oito
exemplares pertencem à classe dos animais. Os demais são
inteligências, Ixt. Alguns deles chegam a ser mais inteligentes que
nossos froghs. A maior sensação foi esta. O senhor nem imagina
quantos elogios tenho recebido por ter arriscado esta compra de dois
milhões.
Kolex
estava radiante, e seus pensamentos, controlados pelo mutante, eram
um hino de louvor a Marshall.
— Será
que esses estranhos não são uns coitados? — perguntou John.
Com
estas palavras tocara num ponto sensível. Kolex protestou. Seu gênio
descontrolou-se. Começou a falar em pesquisas, nos diversos
fabricantes de soro.
— ...se
não dispusermos de portadores de soro, nossas mãos estarão atadas,
Ixt! E o portador de soro tem de ser uma criatura sadia, pois do
contrário a doença conduz a um resultado falho. Garanto-lhe uma
coisa. Não existe nenhum lugar no Universo em que as inteligências
prisioneiras passem tão bem como em nosso zoológico.
— Será
que as inteligências vindas do planeta do fedor também foram
trancadas atrás de grades energéticas?
Kolex
manteve-se fiel à verdade.
— Por
enquanto sim, Ixt. Não posso falar demais a este respeito, mas há
uma ordem de âmbito galáctico que nos obriga a agir dessa forma.
Nós, os aras, somos verdadeiros artistas na área da medicina, mas
não podemos fazer milagres, e... Ixt, não me olhe desse jeito; até
parece que quer recriminar-me e desafiar-me. Sei perfeitamente o que
está pensando. O senhor deve conhecer a lei do regente positrônico
de Árcon tão bem quanto eu... Ixt, quando se trata de algo
extremamente importante, até mesmo a violação da lei encontra
justificativa.
— Hum
— respondeu o mutante e leu os pensamentos de Kolex, que pensava
incessantemente no soro prolongador da vida. Segundo seus
pensamentos, a produção do mesmo dependia de inteligências cujos
quocientes intelectuais os incluíssem nas classes C, B e mesmo A.
Tal procedimento dos aras transgredia uma das leis mais rigorosas de
Árcon. A revelação do crime que estavam cometendo ao abusarem de
seres dotados de inteligência elevada, utilizando-os como portadores
de soro, poderia significar a destruição total dos mundos dos aras.
O
cérebro robotizado de Árcon não conhecia emoções. Sua atuação
resumia-se na lógica mais pura, traçada pela programação.
Com
suas insinuações, Kolex revelara tantos dados que não poderia
deixar de ser considerado um irresponsável. E seus pensamentos
revelavam muito mais.
A
reunião das duas séries de dados permitiu que Marshall concluísse
que o projeto dos aras já passara da fase experimental. O soro
prolongador da vida estava sendo fabricado em grandes quantidades.
“Tomara
que não surja nenhum incidente com o serviço secreto dos aras”,
foi tudo que John Marshall desejou depois que se tinha despedido de
Kolex e, passando pela Rua do Grande Mo, caminhava em direção à
firma.
*
* *
Quatro
homens do século XVII
do
planeta Terra viviam no gigantesco zoológico de Tolimon, presos
atrás de uma grade energética intransponível.
Laury
Marten conhecera todos eles: Mutumbo, um africano supersticioso e Alf
Tornsten, o camponês sueco que vivia apaticamente seu dia-a-dia,
deprimido pelo fato de que não envelhecia.
A
terceira pessoa era Nara, uma mongol velha e gasta, cuja tenda fora
erguida atrás da grade. Era uma doente mental incapaz de articular
uma palavra sensata.
Mutumbo
e Alf Tornsten arranhavam o intercosmo e a língua arcônida. Já o
conde Rodrigo de Berceo brilhava nessas línguas. Quando Laury Marten
o visitou pela terceira vez às escondidas, conversaram no arcônida
dos “primeiros
dez mil”.
O
palácio asteca encerrava um segredo que representava a felicidade de
dois seres humanos: Laury Marten e o conde Rodrigo amavam-se.
Aquilo
desabara sobre ela com a força de um dilúvio: foi impetuoso,
violento e belo. Os quatro séculos que os separavam eram transpostos
pela força do amor.
A
mutante bela e apaixonada esquecia constantemente que Perry Rhodan a
enviara a Tolimon para cumprir uma missão de cujo êxito dependia a
vida de Thora e de Crest. A compaixão transformara-se em amor.
Seu
bem-amado contou-lhe que, quando tinha vinte e dois anos, certo dia
estava passeando a cavalo quando viu alguma coisa cilíndrica baixar
das nuvens. Teve medo e fugiu, mas um pequeno objeto voador
alcançou-o e levou-o a bordo. Os saltadores trancaram-no num
camarote no qual já se encontravam três humanos: Mutumbo, Alf
Tornsten e Nara. Quase não se ocuparam com eles até o momento em
que foram descarregados em Trulan, onde passaram a viver no zoológico
como se fossem animais.
Laury
preferiu não explicar-lhe o significado da palavra zoológico. Mas,
por ocasião de sua segunda visita, não se esquecera de perguntar a
Rodrigo de Berceo por que nesses quatro séculos só envelhecera
alguns anos.
Ao
responder, Rodrigo lhe falara num imenso palácio. À medida que se
demorava na descrição do mesmo, Laury reconheceu nele o setor X-p.
Lá dentro fora apresentado inúmeras vezes a médicos aras.
Consumiram alguns dias no exame de seu organismo e finalmente
deram-lhe uma injeção de soro prolongador da vida.
— Há
de chegar o dia em que provarei aos aras, com a minha espada, que não
sou nenhum asteca arruinado, mas o conde Rodrigo. Olhe, minha flor,
contemple esta lâmina fulgurante, que se tingirá de vermelho com o
sangue dos homens que me maltrataram.
Num
gesto teatral, que no século XVII
talvez
representasse um costume da corte, arrancou a espada curta da bainha.

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