domingo, 24 de março de 2013

P-061 - O Robô Espião - Clark Darlton [parte 1]

Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Um robô também comete enganos...
Especialmente quando tem dois cérebros.


Apesar das hábeis manobras realizadas no espaço galático, o trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma nova geração de homens surgiu.
E, da mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma os terra-nos são os soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante... A luta contra o invisível, por ora, ficou suspensa.
Perry aguarda notícias dos agentes cósmicos enviados a diversos lugares. O administrador do Império Solar quer ser informado a respeito do invisível...
Nesse momento, a Drusus recebe uma mensagem que indica situação de alarma: um robô espião começava a agir!






= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Comandante da Drusus.

Atlan — O arcônida imortal que esclarece a dúvida.

Jost Kulman — Micrótico do Exército de Mutantes.

Gucky — O rato-castor mutante.

Muzel — Um possoncal: animal semelhante a um cão bassê.
1



O silêncio reinava entre os ocupantes da Drusus, nave capitania da frota terrana. O gigantesco veículo espacial esférico mantinha-se em posição de espera, a trinta anos-luz da Terra. Aguardava o primeiro sinal de um novo ataque vindo de outra dimensão temporal.
Os oficiais de patente mais elevada da Drusus tinham ouvido diretamente as palavras de Atlan, enquanto os outros participaram do acontecimento através das telas instaladas nos seus alojamentos ou postos de trabalho.
O relato empolgante e bem estruturado de Atlan fizera desfilar um capítulo da história dos primórdios da Terra. Era o capítulo relativo ao continente legendário da Atlântida e aos seus habitantes.
Tornava-se muito difícil libertar-se do impacto produzido pelas palavras de Atlan. Durante milênios a Terra conhecera uma única indicação relativa à existência daquele continente fantástico. Tratava-se de ligeira alusão encontrada numa obra de Platão. Centenas de pessoas de fantasia muito viva procuraram extrair das palavras de Platão mais do que o filósofo dissera. E centenas de pessoas desse tipo procuraram em quase todas as partes da Terra os vestígios da Atlântida. Várias teorias acerca da catástrofe que teria causado a destruição daquele continente chegaram a ser formuladas.
E enquanto acontecia tudo isso, havia na Terra um homem que estaria em condições de pôr fim a todas as especulações, um homem que poderia ter desvendado o mistério, se quisesse.
Era Atlan, o arcônida, o imortal. Pertencia à família altamente conceituada dos Gonozal que, ao tempo em que partira de seu mundo, imperava em Árcon. Atlan era muito venerado pelos subordinados, tanto que estes deram seu nome a um continente do planeta situado num sistema solar recém-descoberto.
O que valiam diante disso os esforços dos filólogos, que com grande zelo haviam construído da raiz indo-germânica ti ou tia o equivalente de carregar, motivo por que viam em Atlas o homem que sustentava a Terra? Será que tudo não passava de uma semelhança de palavras entre as quais não havia a menor relação?
O relato de Atlan daria uma verdadeira manchete, se o encarássemos sob o ponto de vista dos redatores e repórteres dos veículos de comunicação. Mas era mais do que isso. Provava que o misterioso desconhecido, que vivia no mundo artificial denominado Peregrino, já reconhecera há dez mil anos da contagem de tempo terrana os imensos perigos que o inimigo, vindo de outro plano temporal, representava para a Galáxia. E desde então procurava meios de enfrentá-lo.
Procurava meios! A palavra procurar assumia um significado profundo para quem considerasse os recursos imensos de que dispunha o ser do planeta Peregrino, que não tivera a menor dificuldade em remover qualquer outro perigo.
O imortal do planeta Peregrino incumbira Atlan de enfrentar o ser misterioso vindo de um outro “ambiente” temporal. Se nos guiássemos pela lógica humana, chegaríamos à conclusão de que o grande desconhecido do planeta Peregrino não estava em condições de enfrentá-lo só.
E, se este ser não estivesse em condições de enfrentá-lo, quem poderia estar?

* * *

Perry Rhodan levantou-se e disse em voz calma e objetiva:
Eu lhe agradeço, Atlan. Seu relato foi altamente elucidativo, se bem que não deixou de ser um tanto deprimente. Mas espero que nós, enriquecidos com sua experiência, consigamos realizar a tarefa que lhe foi atribuída pelo desconhecido.
Um sorriso ligeiro surgiu no rosto de Atlan, já totalmente recuperado.
Minhas experiências não servirão para muita coisa, Rhodan. Naquela época limitei-me a desferir golpes no escuro, conforme vocês costumam dizer.
Nunca se deve desistir — respondeu Rhodan, retribuindo o sorriso. — Você já conhece o ditado: quem não arrisca não petisca. Na situação em que nos encontramos, esse adágio pode ter uma conotação ridícula. Mas, em qualquer caso, aquele que sem desânimo entra numa empresa tem melhores condições de sair vitorioso.
Atlan fez um gesto afirmativo. — É verdade. Conheço a Humanidade há muito tempo. E conheço muitos exemplos onde a fé, que na verdade não passa de uma certa obstinação associada a uma convicção alógica, tem removido montanhas. Esta qualidade só é encontrada nos terranos. As outras raças sentem dificuldades imensas quando devem saltar por cima da própria sombra.
Depois levantou a cabeça e estendeu a mão a Rhodan.
Então, bárbaro, vamos tentar!
Rhodan riu.
Tenho a impressão de que o arcônida aprendeu muita coisa com os bárbaros. Se não fosse assim, a esta hora já teria desistido, e passaria a assumir uma atitude passiva.
O sorriso de Atlan parecia exprimir certa dor.
Você atingiu meu ponto vulnerável, Rhodan. Mas a esta hora já sou obrigado a acreditar que meu povo se transformou num bando de sonhadores idiotas.
Há exceções — ponderou Rhodan. — Por enquanto Árcon não está perdido.
Atlan confirmou com um gesto.
Vamos...
Foi interrompido pelo zumbido do intercomunicador. Uma voz clara e áspera disse:
Operador de rádio número dois chamando o comandante! Operador de rádio número dois chamando o comandante!
Com um salto, Rhodan colocou-se à frente do painel principal do piloto.
Comandante falando! O que houve? — perguntou para dentro do microfone, depois de ter ligado para a transmissão.
Um aviso importante da Central dos Agentes de Terrânia. A mensagem veio através da estação retransmissora que fica na direção de Rigel.
Rhodan hesitou um instante. Contemplando os rostos dos oficiais ali reunidos, disse:
Um momento. Irei até a sala de rádio.
Sorriu para Atlan e retirou-se. Atlan continuava no mesmo lugar e fitava a porta fechada.
Basta falar no diabo.... — começou a falar com o espírito cheio de pressentimentos, mas não concluiu.

* * *

Gucky não se deu ao trabalho de ouvir diretamente o relato de Atlan. Estava sentado em seu pequeno camarote e estremeceu quando a tela se apagou e o rosto do arcônida desapareceu.
Gucky era o único rato-castor existente a bordo da Drusus. Na verdade, era o único rato-castor da Via Láctea, desde que se deixassem de fora os habitantes do planeta Vagabundo, que gravitava em torno de um sol vermelho-púrpura, perdido em algum lugar na amplidão do cosmos.
Tinha cerca de um metro de altura e seu pêlo era marrom. Sua cabeça parecia ser de um gigantesco rato, e a cauda era achatada como a de um castor. Possuía ao menos três faculdades extraordinárias. Sabia ler pensamentos, sendo um ótimo telepata. Era capaz de desmaterializar-se para no mesmo instante reaparecer em outro lugar; em outras palavras: um exímio teleportador. Por fim, era um telecineta, isto é, sabia mover a matéria exclusivamente com a força de seu cérebro.
Por isso não era de admirar que Gucky fosse bastante chegado a Rhodan, além de um dos membros mais proeminentes do exército terrano de mutantes.
Reginald Bell, o representante de Rhodan e seu amigo mais íntimo, entrou no camarote sem bater. Retirara-se do recinto em que estava sendo realizada a reunião dos oficiais assim que Atlan terminou seu relato. Dirigiu-se imediatamente para junto do rato-castor, ao qual estava ligado pelos laços de uma amizade notável. Para qualquer outra pessoa a camaradagem deveria parecer bastante estranha, pois os dois viviam se desentendendo.
Gucky já sentira sua aproximação e sacudiu a cabeça.
Você nunca será um gentleman, Bell — disse num inglês impecável.
Quem não conhecesse o rato-castor, ficaria apalermado ao ouvi-lo falar naquele tom. Acontece que a inteligência do rato-castor era muito maior que a de um homem normal.
Já imaginou se eu estivesse mudando de roupa?
Bell não pôde deixar de sorrir. Quando não estava em missão, Gucky andava sem roupa. Face ao seu pêlo espesso não havia necessidade de um uniforme ou mesmo de vestes íntimas. Por isso não haveria nada demais se alguém surpreendesse Gucky no momento em que estivesse mudando de roupa.
Suas piadas fedem tanto quanto um saco de batatas que ficasse guardado por três decênios embaixo de uma cama — disse Bell sem a menor comoção.
Não me fale em batatas! — pediu Gucky, que sentia um apetite tremendo toda vez que alguém lhe falava em hortaliças frescas. — Se não parar, teleportarei você para outro lado da nave e o deixarei num lavatório abandonado, onde ninguém o encontrará tão cedo. Ou então deixo-o num recinto ainda menor.
Não faça isso, Gucky — disse Bell em tom contemporizador — Quero falar com você.
Pois fale! — pediu o rato-castor e afastou-se para o lado, a fim de que Bell pudesse sentar-se na cama. — Meus ouvidos estão preparados, embora já estejam doendo. Devo confessar que esse arcônida possui uma elevada dose de fantasia. Bem que gostaria de ser assim...
Bell arregalou os olhos.
Não venha me dizer que você acredita que Atlan inventou essa história relativa à Atlântida! Ora, meu caro, se Rhodan souber disso...
Não saberá, desde que você cale a boca — disse Gucky, resmungando ameaçadoramente. — Não se esqueça do lavatório em que poderei deixá-lo.
De mim ninguém saberá nada — apressou-se Bell em asseverar e acrescentou: — Acontece que achei a história de Atlan muito interessante e elucidativa.
Eu também — confessou Gucky e coçou demoradamente as costas.
Bell suspirou e cedeu ao pedido implícito nesse gesto. Aproximou-se do rato-castor e começou a acariciar seu pêlo. Não havia nada que deixasse o pequenino mais feliz.
Mas quanto ao mais — disse Bell, olhando para o teto — isto já começa a ficar enjoado. Estamos parados no espaço com uma nave-gigante e esperamos. Você poderia dizer o que estamos esperando?
Vou perguntar a Rhodan.
Se acredita que este lhe contará alguma coisa, está muito enganado, baixinho.
Não seja tão arrogante, gorducho — disse Gucky, adotando o mesmo tom de voz, pois seus freqüentes contatos com Bell lhe haviam proporcionado um vocabulário bem interessante. — Aliás, eu estou me dando muito bem com esta boa vida. Mas uma pessoa que nunca faz nada não precisa descansar.
Bell parou de acariciar o pêlo do rato-castor e empertigou-se.
Será que você quer dizer que eu...
Não se esqueça do lavatório! — advertiu Gucky em tom suave.
Bell suspirou e resmungou:
Não sei por que vim para cá. Em vez de descansar, tenho de ouvir ameaças. Quem mantém contato com seres semi-inteligentes só colhe aborrecimentos.
Apressou-se em voltar a acariciar o pêlo de Gucky, pois enquanto fazia isso sentia uma relativa segurança.
Espero que você saiba levar a brincadeira na esportiva, pequenino.
É claro que sei, gorducho — asseverou Gucky em tom leal e exibiu o dente roedor.
Este lhe servia para mastigar o alimento — hortaliças frescas, de preferência cenouras — e ainda para exibir seus sorrisos. E quando Gucky sorria, via de regra não havia nada a recear. Bell suspirou aliviado.
Por alguns segundos um silêncio reconfortador espalhou-se pelo camarote. Esse silêncio só foi interrompido, de vez em quando, por um grunhido de satisfação de Gucky, que soube aproveitar até o fim a disposição de acariciá-lo que seu amigo vinha manifestando.
Mas subitamente o encanto foi interrompido.
Ouviu-se um zumbido, e uma voz muito conhecida disse:
Alô, Gucky. Por acaso Bell está aí?
É Rhodan! — disse Bell, levantando-se sobressaltado para mover uma chave.
Depois respondeu para dentro do microfone do sistema de intercomunicação de bordo:
Sim, estou no camarote de Gucky. O que houve, Perry?
Logo mais direi. Venha à sala de comando! Mas não demore; apresse-se.
O rosto de Bell parecia ser uma única interrogação.
Será que você poderia fazer o favor de dar uma definição mais precisa da diferença sutil que deve existir entre os conceitos de andar e de apressar-se?
Olá! — disse Gucky, que continuava na cama que durante o dia lhe servia de sofá. — Que linguagem rebuscada o gorducho está usando hoje!
Ao que parecia, Rhodan não estava de bom humor.
Não podemos perder tempo, Bell. Espero-o exatamente dentro de dois minutos na sala de comando. Gucky conseguirá chegar mais depressa, se não tiver de trazer você!
Bell colocou a mão na chave, como se quisesse desligar, mas antes disso formulou a pergunta:
Quer dizer que...
Isso mesmo — disse Rhodan, respondendo à pergunta que não chegara a ser completada. — Isto quer dizer que a espera chegou ao fim.
Um ligeiro estalido mostrou que a comunicação chegara ao fim.
Gucky escorregou do sofá e colocou-se ao lado de Bell, segurando-lhe a mão.
Vamos embora, gorducho — chilreou em tom alegre.
Dali a alguns segundos o ar começou a tremeluzir, e Gucky e Bell desapareceram.
No mesmo instante os dois materializaram-se na sala de comando da Drusus.

* * *

Rhodan aguardou até que se fizesse silêncio. Alguns dos oficiais que meia hora antes haviam ouvido o relato de Atlan também se encontravam presentes. Um deles era Baldur Sikermann, Primeiro-Tenente e imediato da Drusus; seu substituto, o Major Teldje van Aaafen e o Capitão Hubert Gorlat, oficial de segurança da nave.
A tripulação era composta de duas mil pessoas, inclusive os oficiais. O número não era de admirar, já que se tratava de uma nave de um quilômetro e meio de diâmetro.
Nos hangares da gigantesca nave estavam guardados quarenta Girinos, naves de sessenta metros de diâmetro, que poderiam ser bem tripuladas em caso de necessidade. Juntamente com a Titan e a General Pounder, que eram do mesmo tipo, a Drusus era a maior nave do Império Solar. Árcon era o único mundo que poderia dispor de algo igual.
Acabamos de receber uma mensagem de hiper-rádio vinda da Terra — disse Rhodan em meio ao silêncio carregado de expectativa. — Não tenho certeza se tem algo a ver com nossa tarefa propriamente dita, mas mesmo que isso não seja o caso, não poderemos deixar de atender ao pedido.
Bell, um pouco afastado, perguntou:
Que pedido é este?
Havia um tom de estranheza em sua voz. E com toda razão.
Um ligeiro sorriso surgiu no rosto de Rhodan.
Vou ler a mensagem. Já devem saber que o texto chegou aos nossos receptores em estado condensado e linguagem codificada. Por isso não houve perigo de que alguém pudesse captá-lo, ou pudesse, com base na mesma, determinar a posição da Terra.

Chamando a nave Drusus! Sinal de emergência três toques de sino expedido pelo agente Jost Kulman, que se encontra em Swoofon, sistema de Swaft. Quer que alguém vá buscá-lo imediatamente. Não forneceu detalhes.

A mensagem foi expedida pela central de Terrânia. Na minha opinião devemos atendê-la, dirigindo-nos a Swoofon. Alguém quer formular uma indagação?”
Foi tudo muito rápido; ninguém tinha uma pergunta preparada. Onde ficava Swoofon? Quem vivia lá? O que acontecera com Kulman? E quem era ele? Seriam estas perguntas apropriadas para serem formuladas numa situação como esta, ou será que havia outras, mais importantes?
Bell manifestou-se. Estava credenciado para isso.
Será que Kulman não poderia ter dito qual era seu problema?
Rhodan fez um gesto de condescendência.
É claro que poderia ter dito; acontece que não disse. Mais alguma pergunta?
Quem ocupará nossa posição quando nos dirigirmos a Swaft? Com nossa saída haverá uma lacuna no sistema de vigilância, que deve ser mantido intacto.
Dificilmente — disse Rhodan, sacudindo a cabeça. — O que fizemos foi apenas reforçar a frente de observações. Se sairmos dela, a mesma voltará ao normal.
Neste caso não tenho outras perguntas.
Rhodan fez um sinal para Sikermann e olhou em torno.
Não há mais nada a esclarecer? Bem, era o que eu esperava. Assim que houver o revezamento das sentinelas, saltaremos em direção a Swaft e daremos uma olhada por aquelas bandas. É bem possível que depois da mensagem de Kulman alguma coisa tenha mudado por lá. Não pretendo entrar numa armadilha. Portanto, preparem-se para algumas horas de serviço bem cansativo. Peço que Reginald Bell e o Capitão Gorlat permaneçam na sala de comando. Quero tomar todas as precauções. Muito obrigado.
Manteve-se imóvel e esperou até que todos tivessem saído, com exceção de Gorlat e Bell. Ninguém deu atenção a Gucky, encolhido no sofá. Rhodan pelo menos fez de conta que não estava vendo o rato-castor.
Swaft é um sol relativamente desconhecido — principiou. — Dá vida a seu segundo planeta, denominado Swoofon. Este planeta é habitado por uma raça muito estranha, conhecida como os swoons. Dizem que são excelentes mecânicos e técnicos. Ou, para sermos mais exatos, são excelentes micromecânicos. Seus olhos enxergam melhor que nossos microscópios. Sua especialidade consiste na construção de mini-máquinas, que um homem normal dificilmente descobre a olho nu. É este o motivo principal de termos enviado o agente Jost Kulman a Swoofon.
Se não me engano, Kulman pertence ao Exército de Mutantes — observou Gorlat, o oficial de segurança.
Rhodan confirmou com um gesto.
Kulman é nosso micrótico. Possui a capacidade espantosa de modificar à vontade a focalização de seu globo ocular, obtendo uma visualização aumentada. Por isso consegue reconhecer e identificar objetos de dimensões microscópicas, independentemente de qualquer recurso técnico.
Rhodan olhou para o relógio.
Preciso fornecer ao setor de navegação os dados relativos a Swaft. O sistema fica a pouco menos de mil anos-luz de nosso sol. Se ligarmos os compensadores estruturais, podemos arriscar o percurso num único salto, sem que haja o menor perigo de que alguém descubra a posição da Terra.
Ainda bem que temos esses compensadores — disse Gorlat com um sorriso de satisfação. — Sem eles um salto no espaço nunca poderia ser mantido em segredo. Seria horrível.
E, o que é pior: a localização dos planetas iria ser facilitada — observou Bell.
Para nós isso seria uma verdadeira calamidade — constatou Rhodan. — Afinal, a melhor arma que possuímos é o segredo da posição galáctica da Terra. Os arcônidas e os saltadores já andaram fazendo de tudo para descobri-lo. Realmente, o compensador estrutural representa uma felicidade para nós. Os rastreadores estruturais não servem de nada para os arcônidas quando não haja o que possa ser rastreado.
Despediu-se com um gesto e retirou-se da sala de comando.
Os outros seguiram seu exemplo, dirigindo-se aos seus postos.
Só Gucky continuou no sofá. Achou que seria conveniente tirar um cochilo.
* * *

A Drusus materializou-se, vinda do nada. A estrela Swaft surgiu como um sol reluzente. O segundo planeta ficava entre esse sol e a nave, que se mantinha imóvel. Havia retornado ao Universo normal sem provocar o menor abalo no contínuo espaço-temporal.
Uma das Gazelas foi preparada para decolar.
Tratava-se de uma nave de reconhecimento de primeira ordem, que tinha o formato de disco e media dezoito metros de altura e trinta de diâmetro. Seu alcance estava limitado a quinhentos anos-luz; era capaz de realizar saltos pelo hiperespaço até uma distância de cinco anos-luz.
O comandante designado por Rhodan foi Fron Wroma, um capitão africano, piloto muito competente. Seria acompanhado por dois cadetes e pelo sargento Redkens, da equipe de rádio.
No momento, Swoofon se encontrava a duas horas-luz e Rhodan deu ordem de decolar.
Uma escotilha abriu-se silenciosamente na zona equatorial da Drusus, e dela saiu rapidamente uma sombra prateada que se precipitou no espaço. Acelerando sempre, tomou a direção do planeta ainda distante.
Depois, a espera longa e tediosa teria início na Drusus.
Dali a duas horas o sargento Redkens transmitiu uma mensagem:
O agente Kulman não responde. Onde poderemos encontrá-lo?
Rhodan fitou Sikermann com os olhos semicerrados. Este encontrava-se a seu lado, a fim de que os controles da nave nunca ficassem desguarnecidos. Ninguém contara com a possibilidade de que, depois de emitir o sinal de emergência e pedir que viessem buscá-lo, Kulman se mantivesse em silêncio. Segundo os catálogos dos arcônidas, Swoofon era um mundo pacífico e inofensivo. Por isso mesmo dificilmente Kulman se teria defrontado com algum perigo. Talvez uma informação importantíssima provocara o pedido de revezamento.
E agora mantinha-se em silêncio, embora não pudesse ter deixado de ouvir o pedido de transmissão do raio-vetor, emitido pela Gazela.
Havia algo de errado naquilo...
Rhodan falou para dentro do microfone:
Prossiga. Tente a localização goniométrica, Redkens! Kulman não poderá deixar de responder. Espero receber notícias positivas dentro de dez minutos.
O tráfego de rádio era conduzido pelo sistema de hipertransmissão, com o que se evitava a perda de tempo ligada às ondas de rádio, excessivamente lentas. A possibilidade de interceptação da mensagem tornava-se remota. E ninguém conseguiria entender a mensagem codificada, a não ser que dispusesse do dispositivo de distorção.
Voltarei a chamar — prometeu Redkens e desligou.
Rhodan ficou à espera. Enquanto isso Fron Wroma aproximou-se lentamente da face noturna do planeta silencioso. Viu poucas luzes; lembrou-se de que os swoons viviam principalmente sob a superfície. Haviam construído apenas umas poucas cidades na zona equatorial da crosta de seu mundo, que era tão estéril que nem mesmo as plantas mais primitivas poderiam ali crescer. Um dos aspectos mais estranhos de Swoofon consistia justamente na ausência de qualquer vegetação.
Redkens transmitiu ininterruptamente o sinal de chamada destinado a Kulman e manteve-se em recepção. Só mesmo se o diabo tivesse suas mãos naquilo o agente deixaria de ouvi-los.
Acontece que o diabo não interferiu de forma alguma.
Quando o prazo de dez minutos estava para terminar, o sargento estremeceu.
Simples sinais Morse saíram do alto-falante; ao que parecia, não tinham o menor sentido. A antena goniométrica girou automaticamente, indicando a direção em que devia ficar o respectivo emissor.
Quarenta e cinco graus, direita, trinta graus.
Redkens forneceu os dados com a maior tranqüilidade, enquanto Wroma desviava a Gazela para a direita. A superfície do planeta aproximou-se. A luz tornou-se mais forte, pois o veículo espacial se aproximava da face diurna do planeta. A tela de luz infravermelha mostrava um deserto desolado, cheio de pedras, no qual dificilmente poderia existir qualquer forma de vida.
Será que Kulman estaria lá, esperando por ele?
Os sinais Morse tornavam-se cada vez mais fortes.
Atravessaram um planalto. Se a meia-luz ali reinante não os enganasse, o mutante deveria estar entre duas elevações, num vale estreito e profundo. Ninguém sabia explicar como Kulman fora parar lá. Nem Wroma nem Redkens imaginariam que esse mistério nunca poderia ser explicado...
A Gazela baixou e passou rente à parede rochosa, dirigindo-se ao fundo do vale. Pousou suavemente.
A poucos metros do lugar em que se encontravam, um vulto pouco nítido se destacava contra as montanhas, e abanava o braço para eles.
Irei até lá — disse Wroma e desligou os propulsores. — Fique no interior da comporta de ar e mantenha o radiador térmico preparado para qualquer eventualidade. Não quero expor-me a uma surpresa desagradável. Não estou gostando nem um pouco desta história.
Será que há algo de errado? — perguntou o operador de rádio e sacudiu a cabeça. — O sinal goniométrico é correto!
A responsabilidade é minha — disse o africano, encerrando o diálogo.
Dirigiu-se à comporta, que ficava próxima ao lugar em que se encontrava.
Redkens iria segui-lo, mantendo o radiador pronto para disparar. Sabia muito bem que num caso como este a cautela nunca pode ser excessiva.
A escotilha abriu-se com um baque surdo. A atmosfera um tanto carregada do planeta penetrou na comporta. E com ela veio o grito de alívio de um homem:
Meu Deus! Quanto tempo ainda terei de esperar?
Kulman, o micrótico do Exército de Mutantes, caminhou em direção a Wroma, que o aguardava na escotilha aberta. Fitava-o com os olhos semicerrados. Redkens, que se mantinha atrás dele, já ia baixar a arma, quando uma pequena sombra fugaz surgiu atrás de Kulman.
Venha, Muzel! — chamou Kulman, virando a cabeça.
Wroma viu a “sombra” e arregalou os olhos para enxergar melhor. Não tinha a menor dúvida de que o homem que se encontrava à sua frente era Kulman. A identidade do agente não comportava a menor dúvida. Mas de quem seria aquela “sombra”?
Muzel — fosse lá quem fosse ele — obedeceu prontamente. Assim que Kulman o chamou, aproximou-se correndo e, como um menino bem-educado, parou junto ao pé esquerdo do agente.
Wroma ouviu Redkens gemer atrás dele.
Epa! — gritou o operador de rádio em tom de espanto. — Isso é um cachorrinho bassê!
Kulman já havia chegado ao pé da escada que descia da escotilha.
O agente Kulman anuncia o fim de sua missão. Vieram para buscar-me? Posso entrar?
Wroma inclinou-se para a frente, a fim de enxergar melhor.
E sua bagagem?
Bagagem? A única coisa que tenho comigo é o emissor goniométrico. E Muzel, naturalmente.
Mais uma vez Wroma sentiu-se desconfiado. Qualquer agente possuía sua bagagem, formada de aparelhos e instrumentos muito importantes. E essa bagagem só podia ser abandonada num caso de emergência. E, ao que tudo indicava, aqui não havia nenhuma emergência.
Decidiu que as investigações a este respeito ficariam a cargo de quem de direito.
Vamos logo! Suba a bordo. Mas deixe esse bicho esquisito onde está.
Está se referindo a Muzel? Não vou deixá-lo para trás. Em hipótese alguma. Prefiro ficar aqui com ele.
Como é que um cachorro bassê foi parar em Swoofon? — indagou Redkens, como se nunca tivesse visto um cão dessa raça. — Será que o senhor o trouxe quando veio para cá?
Muzel é um possoncal — disse Kulman com a naturalidade de quem acredita que qualquer astronauta terrano é obrigado a saber o que é um possoncal.
Mas Wroma e Redkens nunca haviam ouvido falar nessa espécie de animal.
Animais desconhecidos não podem ser aceitos a bordo — disse Wroma, um tanto inseguro. — Rhodan nos diria umas boas.
Se é assim, podem ir embora. Não posso deixar Muzel para trás. Esses patifes o matariam.
Que patifes são estes?
Os saltadores. Eles me deram este cachorro e depois tentaram matar-me. Logo vi que eram piratas. Então, como é que vai ficar? Posso levar Muzel ou não?
Wroma olhou para Redkens. Este deu de ombros.
O africano resolveu aceitar a responsabilidade por seu ato sem consultar a Drusus.
O que poderia acontecer se Kulman levasse seu posson... possel... ou fosse lá qual fosse o nome do bicho?”, pensou.
Está bem. Pode trazer o bassê para bordo. Mas tem de ficar preso até que cheguemos à Drusus. Ninguém sabe que tipos de pulga podem existir em Swoofon.
Muzel não tem pulgas — disse Kulman em tom indignado.
Por uma questão de cautela, acrescentou:
Se tiver, podemos pegá-las e matá-las.
As instalações de desinfecção da Drusus poderão cuidar disso — disse Wroma e recuou, para que Kulman pudesse entrar.
Obedecendo prontamente à ordem de Kulman, Muzel subiu com uma habilidade espantosa os degraus da escada e entrou na célula da comporta, abanando o rabo. Finalmente sentou, lançando um olhar de expectativa para os homens.
A escotilha foi fechada.
Leve este cão para a câmara de ar comprimido que fica ao lado e prenda-o — ordenou Wroma ao sargento que se encontrava em sua companhia. — Kulman, faça com que esse seu bastardo acompanhe o sargento.
Kulman estremeceu ao ouvir a ofensa dirigida ao seu companheiro, mas conservou o autocontrole. Inclinando-se para o bassê, disse:
Muzel! Seja bonzinho e acompanhe o titio! Logo irei buscá-lo. Você entendeu? Seu doninho logo irá buscá-lo.
Wroma teve de esforçar-se para não rir. Já vira muito doido, mas o fato de um dos agentes do planeta Terra se entregar a esse tipo de sentimentalismo piegas ultrapassava sua capacidade de compreensão. Redkens fez uma mesura irônica, dirigindo-se a Muzel. O animal era muito inteligente: entendeu o convite e levantou-se, para caminhar pelo corredor em atitude quase majestática.
Wroma quase ficou sem fôlego.
Aquele bassê caminhava! Não saltitava, mas caminhava de verdade.
Kulman seguiu-o com os olhos. Em seu rosto havia um sorriso de orgulho.
Escute, Kulman — disse o africano assim que se viu a sós com o agente na sala de comando e ligou os propulsores. — Já não entendo mais nada. O senhor transmite a mensagem e alarma metade da frota de guerra terrana e, quando chegamos aqui, vemos que se transformou em criador de cachorros. Rhodan ficará muito admirado.
O planeta Swoofon foi mergulhando rapidamente no negrume do cosmos e desapareceu em meio às outras estrelas.
Rhodan? — não havia dúvida de que o espanto de Kulman era genuíno. — O que será que Rhodan quer de mim? Por que mandou buscar-me?
Wroma respirava com dificuldade. Corrigiu a rota.
Por que mandou buscá-lo? Pois o senhor pediu que isso fosse feito.
Kulman contemplou a tela reluzente e disse:
O quê? Eu pedi que viessem buscar-me? — sacudiu a cabeça. — Um de nós está louco, meu caro. Até duas horas atrás nem sonhei com a possibilidade de sair de Swoofon. Só quando recebi seus chamados...
Wroma começou a sentir que seu pressentimento não o enganara.
Alguma coisa não estava certa.
Quase nada estava certo...
2



A Drusus estava a duas horas-luz de Swoofon. Numa rápida manobra a nave de reconhecimento que regressava foi introduzida no gigantesco corpo da nave capitania. Seus ocupantes já haviam sido informados por meio de uma mensagem de rádio transmitida por Redkens que Kulman trouxera mais um passageiro.
Muzel teve de conformar-se em ser tratado como um cachorro igual a qualquer outro: foi colocado sob a ducha de desinfecção. O animal tremeu ao ser submetido a esse procedimento, mas dele saiu incólume.
Já Kulman recebeu instruções para comparecer imediatamente à sala de comando a fim de apresentar seu relatório a Rhodan.
Ele o fez, embora não se sentisse nem um pouco à vontade. Durante o vôo de regresso tivera tempo de sobra para conversar com Wroma e Redkens. Compreendera que em toda aquela história havia uma lacuna, que dificilmente poderia ser preenchida.
Rhodan estendeu a mão a seu agente. Kulman segurou-a e olhou apressadamente em torno. Estava interessado em saber quem mais se encontrava por ali, além de Rhodan e ele mesmo. O Primeiro-Tenente Sikermann estava sentado na poltrona do piloto e realizou mais uma vez os cálculos do primeiro hipersalto, que em hipótese alguma os levaria diretamente à Terra. Reginald Bell achava-se no sofá, ao lado de Gucky, e parecia muito interessado no relato a ser apresentado. Ainda havia Hubert Gorlat e John Marshall, chefe do Exército de Mutantes e superior hierárquico direto de Kulman.
É um público respeitável”, pensou o agente, completamente perplexo. O que queriam? Não se lembrava...
Bem-vindo a bordo da Drusus, Jost Kulman — disse Perry Rhodan e fitou atentamente os olhos do micrótico. — O senhor transmitiu o sinal de alarma. Imediatamente respondemos a seu pedido e viemos buscá-lo. Queira informar por que desejava sair de Swoofon.
Kulman respirou profundamente. Pretendia formular um protesto enérgico, mas logo se lembrou de que John Marshall era telepata. A partir deste instante todos seus pensamentos seriam controlados. Seria inútil tentar enganar os ouvintes.
Swoofon é um mundo pacífico e laborioso. Seus habitantes, os swoons, são criaturas adoráveis, que não me criaram qualquer problema. Vivia com eles e tive livre acesso às suas casas, na medida em que isso era possível sob as condições existentes. O senhor deve saber que a altura dos swoons não ultrapassa trinta centímetros. E é evidente que as construções por eles levantadas se adaptam a esse tamanho. E, uma vez que a maior parte das fábricas fica sob a superfície, infelizmente não consegui penetrar nas mesmas.
Peço-lhe que se pronuncie sobre o motivo do alarma.
Rhodan parecia impaciente. Kulman estremeceu. Marshall levantou-se e lançou um olhar penetrante para o agente.
Nunca dei o alarma — respondeu Kulman. — Há poucas horas recebi o sinal de chamada da Gazela e fui informado de que vieram para me levar. Não sei como explicar o fato. Por acaso receberam um sinal de alarma vindo de Swoofon?
Rhodan estreitou os olhos e fez um gesto afirmativo.
Não existe a menor dúvida, Kulman. E o alarma partiu do senhor! A central de Terrânia voltou a confirmar esse fato a meu pedido. Temos certeza absoluta de que há menos de um dia, tempo terrano, o senhor transmitiu-o e pediu que viéssemos buscá-lo. Se alguém deve explicações, é o senhor, Kulman.
Marshall examinou os pensamentos do agente enquanto este procurava formular a resposta. Não descobriu nada de suspeito. Pelo que o telepata pôde constatar, estava falando apenas a verdade. Nenhuma das palavras que proferira até então era uma mentira. Kulman não dera o alarma, nem pedira que viessem buscá-lo em Swoofon.
Talvez isso tenha alguma ligação com o que aconteceu pouco antes de eu ter recebido o sinal de chamada da Gazela — disse em tom hesitante. — Não sei...
Kulman olhou em torno e ficou satisfeito quando Rhodan apontou para uma poltrona vazia. Suspirou aliviado e acomodou-se. Subitamente sentia-se muito cansado.
Não pense que sou um covarde. Passei com distinção por todos os testes de bravura; além disso, não havia nada a temer em Swoofon. Até me dei muito bem com os saltadores de lá, e cheguei a trocar presentes com muitos deles. Foi assim que recebi Muzel, meu possoncal, ou bassê, como diria o senhor. Os possoncais vivem num mundo distante, nas proximidades de Árcon, e são considerados animais domésticos muito inteligentes e úteis. Caçam os animais daninhos e usam alimentação vegetariana; no entanto, também comem carne. Gostam de brincar e são fáceis de amansar. Em poucas palavras, fiquei satisfeitíssimo quando me deram o animal.
Quando foi isso? — perguntou Rhodan.
Há dois meses — respondeu Kulman depois de uma hesitação quase imperceptível.
Rhodan viu Marshall erguer as sobrancelhas.
Isso mesmo, foi há dois meses. E nestes dois meses Muzel, é este o nome que dei ao bichinho, conquistou minha amizade e minha confiança. Hoje somos amigos inseparáveis.
Será que o senhor não está exagerando um pouco com esse seu amor pelos animais? — perguntou Sikermann em tom irônico, sem dar a menor atenção ao olhar de advertência de Rhodan.
Gucky erguera-se no sofá e fitava Kulman. Ninguém podia adivinhar o que se passava na mente do agente. Nem mesmo Marshall.
Será que há algo de errado em amar os animais? — perguntou Kulman em tom de espanto. — Muzel salvou minha vida, e não há mais ninguém que tenha feito isso. Nem mesmo o senhor, tenente.
Sikermann estremeceu quando Gucky se pôs a rir sem o menor constrangimento. O rato-castor achou que o oficial merecia essa resposta, ainda mais que também se considerava um animal e defendia abertamente a opinião de que certos animais têm um “caráter” mais bem formado que a maior parte dos homens civilizados.
Ninguém tem nada contra a simpatia que dedica ao tal do Muzel — asseverou Rhodan. — Apenas queremos que nos informe logo sobre o acontecimento a que acaba de aludir. Talvez com isso possamos chegar a uma conclusão sobre quem terá transmitido em seu lugar a mensagem de alarma, já que afirma não ter sido o senhor.
Kulman fez um gesto embaraçado e prosseguiu:
Até hoje foi tudo muito bem. Diariamente pousam naves no maior espaçoporto de Swoofon, chamado de Swatran. Dei pouca atenção a elas, pois do contrário não teria tempo para fazer outra coisa. Mas hoje tive minha atenção despertada para uma velha nave cuja tripulação se comportou de forma estranha e pouco civilizada. Logo desconfiei de que deviam ser piratas.
Minha suspeita foi confirmada pelos fatos. Aquela gente procurava briga, e quem estava no seu caminho era eu. Acabara de fazer minhas compras na cidade e pretendia voltar à pequena aldeia na qual morara nesta última semana, quando essa gente começou a provocar-me. Eram uns patifes selvagens e barbudos, com armas de radiação no cinto. Tive a impressão de me encontrar no faroeste americano de anos atrás.
É claro que me defendi, mas eles eram muitos. Não poderia esperar qualquer auxílio dos swoons, pois são muito pequenos e por princípio fogem a toda e qualquer luta. Dependia exclusivamente de mim mesmo. Dei um soco na boca do estômago do primeiro sujeito que se aproximou, fazendo-o cair ao chão. Isso apenas enfureceu ainda mais ou outros. Atacaram como que sob comando.
Fugi o mais depressa que pude e desapareci numa rua lateral. O senhor deve estar lembrado de que a gravitação de Swoofon é apenas de um quarto G. Foi isso que me valeu. Percorri as ruas em largos pulos, saltando sobre as pequenas casas dos nativos, e logo me vi em segurança. Era ao menos o que eu acreditava.
Cheguei à pequena aldeia em que morava, mas não encontrei Muzel. O cachorro havia desaparecido sem deixar o menor vestígio. Só me restava sair à sua procura. Alguém o vira correr para o norte.
No Norte apenas havia desertos, montanhas e planaltos. O que estaria Muzel procurando por lá? Esqueci-me dos piratas de Swatran e fiz um passeio prolongado até uma grande planície. Foi lá que encontrei Muzel. Estava deitado numa pedra chata, dormindo e deixando-se tostar pelo sol. Quando me coloquei à sua frente, acordou, piscou os olhos e fez de conta que não poderia haver nada mais natural do que tirar uma soneca em pleno deserto. Foi então que aconteceu.
Um raio desceu do céu azul e derreteu a rocha a vinte metros do lugar em que nos encontrávamos. Logo após pousou uma pequena nave cilíndrica, que não tinha mais de dez metros de comprimento. Cinco homens saltaram e correram em minha direção. As pistolas e os punhais antiquados que seguravam em atitude ameaçadora deixavam claro que não poderia esperar nada de bom.
Não sei como explicar o caso. Nunca vira essa gente antes do incidente de Swatran, mas fizeram como se tivessem uma velha conta a ajustar comigo. Soltaram berros horríveis e precipitaram-se sobre mim. Foi então que Muzel entrou em ação.”
Kulman fez uma ligeira pausa e observou em torno com um ar de triunfo. Viu olhares curiosos pousados nele. Nos olhos do rato-castor Kulman viu, para sua surpresa, que não havia apenas espanto, mas também uma simpatia indisfarçável; esses olhos emitiam um brilho feliz. O rato-castor mantinha as orelhas de pé e adiantara o dente roedor, a fim de dar testemunho de sua satisfação.
Kulman prosseguiu:
Muzel avançou sobre os cinco sujeitos, dando-me um exemplo, pois não posso deixar de confessar que já perdera a coragem. Com uma mordida arrancou a pistola da mão do homem que vinha na frente; depois ferrou os dentes em sua perna, fazendo-o cair ao chão com um grito de dor. Outro saltador, que ameaçava saltar diretamente em cima de mim, não teve sorte melhor. Desviei-me e pretendia usar os punhos, quando Muzel caiu sobre ele e o mordeu na nuca.
Dei conta do terceiro com meus punhos, enquanto Muzel cuidava do quarto. O quinto deixou cair a arma e saiu correndo que nem um louco. Face à nave que se encontrava pousada nas proximidades, julguei preferível dar o fora. De longe ainda vimos os feridos serem recolhidos. Depois disso a pequena nave decolou e logo desapareceu no céu. Ainda não consegui descobrir o que essa gente queria comigo. Provavelmente nunca saberemos. Mas posso garantir uma coisa: se é que dei o alarma e pedi que viessem buscar-me, não foi por causa deles.”
Ninguém afirmou isso — disse Rhodan. — E tal procedimento representaria uma impossibilidade técnica. Pelo que diz, o ataque ocorreu poucas horas antes do pouso da Gazela. Acontece que a mensagem foi captada ontem pela estação de Terrânia. Onde estava ontem?
A pergunta foi formulada em tom sério e objetivo.
No meu rancho, na aldeia em que resido. Essa aldeia fica a uns duzentos quilômetros de Swatran. Os swoons haviam construído uma residência para mim, que pelos padrões deles era um verdadeiro armazém. No entanto, mal conseguia ficar de pé naquela cabana.
Não chegou a ligar seu hipertransmissor?
Não. Se tivesse ligado, eu saberia.
Talvez soubesse — retificou Rhodan e lançou um olhar para Marshall.
Este confirmou que Kulman estava dizendo a verdade.
Caramba! Qual seria o ponto errado dessa maldita história? Não era possível que Kulman estivesse mentindo e dizendo a verdade ao mesmo tempo. Ou era?”, pensou Perry.
Esse “ou” pôs Rhodan na pista certa. Mas por enquanto ele a guardou para si.
Kulman parecia bastante perturbado. Passou nervosamente a mão pelo cabelo.
Já não compreendo mais nada, Sir. Depois do ataque dos piratas, voltei à aldeia. Muzel estava ferido; mal podia andar. Por isso carreguei-o nos braços e mais tarde tratei de sua ferida. Afinal, o animal salvara minha vida. Já compreendem por que não o quis deixar para trás?
Sem aguardar resposta, acrescentou:
Há umas quatro ou cinco horas ouvi de repente o sinal de meu receptor. Uma voz que me era estranha disse que o chefe me estava esperando e que viriam buscar-me. Naturalmente fiquei surpreso; acreditava que pretendiam retirar-me de Swoofon por motivos táticos. Depois fiquei sabendo que, segundo se diz, eu mesmo teria solicitado o revezamento. O senhor há de compreender que me sinto um tanto confuso.
Compreendemos perfeitamente, Kulman — confirmou Rhodan. — Logo chegaremos ao fim do interrogatório. A Drusus voltará à Terra. Lá seu relatório será examinado e analisado. Acredito que não haverá problemas para o senhor. Uma coisa é certa: alguém, repito, alguém usou seu transmissor para solicitar sua substituição. Mas prossiga no seu relato. Apenas mais algumas perguntas: Para quem trabalham as fábricas dos swoons? Quem são os principais compradores de seus produtos?
Kulman estava prestes a responder, quando o intercomunicador emitiu um zumbido. Rhodan ligou para a recepção. O rosto do oficial da equipe de rádio surgiu na pequena tela que ficava à frente do assento do piloto.
Queira desculpar a interrupção — disse o oficial — mas acho que o assunto é importante. Recebemos sinais transmitidos numa hiperfreqüência totalmente estranha. Trata-se de sinais simples, sem qualquer modulação. Até parece que alguém está interessado em...
De onde vêm os sinais? — indagou Rhodan.
Não conseguimos determinar a posição exata. A transmissão durou apenas alguns segundos; só tivemos tempo de tentar a medição goniométrica com dois receptores próximos um ao outro. A única coisa que sabemos é que, em hipótese alguma, o transmissor fica a mais de dez quilômetros da nave.
Dez quilômetros? — disse Rhodan em tom de espanto.
Apenas por alguns segundos pareceu surpreso e um tanto desorientado.
No momento em que o operador de rádio respondeu “sim senhor”, um sorriso fugaz passou por seu rosto. Até parecia que o estranho incidente, longe de preocupá-lo, representava um divertimento.
Olhou para os oficiais.
Queiram desculpar — disse em tom tranqüilo. — Face ao imprevisto, a continuação do relato de Mr. Kulman evidentemente terá de ficar para uma ocasião mais apropriada. Os senhores ouviram o que aconteceu. E todos hão de compreender que devemos agir com a maior cautela.
Contava-se com a possibilidade de que o transmissor desconhecido, que emitia sinais goniométricos, voltasse a manifestar-se. Operadores de rádio com receptores goniométricos portáteis foram postados em diversos lugares e aguardaram o próximo sinal.
Rhodan deixou o comando da nave provisoriamente a cargo de Reginald Bell e foi à sala de rádio, para examinar os sinais registrados num oscilógrafo.
O oficial de rádio apresentou-lhe os registros. Rhodan viu foi uma curva sinusóide que quase chegava a ser matematicamente exata, modulada com outra curva, tão exata quanto a primeira, mas emitida em baixa freqüência.
Era a imagem parcial de um único sinal. Em outra fita oscilográfica toda a seqüência estava registrada em escala reduzida. Rhodan constatou que os sinais não haviam sido emitidos em intervalos regulares. Verificava-se neles uma distribuição aproximadamente estatística. Esses sinais ainda se distinguiam no comprimento.
O que acha disso? — perguntou Rhodan, dirigindo-se ao oficial. — Acredita que o fenômeno poderia ter uma explicação natural?
O operador de rádio sacudiu a cabeça.
Não senhor. Se é que o entendo bem, o senhor se refere a hiperondas que às vezes surgem quando partículas de poeira cósmica ou objetos maiores colidem com os campos defensivos da nave.
Isso mesmo.
O aspecto do sinal não é este — asseverou o oficial da equipe de rádio. — Nunca seria tão regular como este. O que temos diante de nós são duas ondulações matematicamente perfeitas. É altamente provável que tenham sido emitidas por um transmissor em perfeitas condições.
É altamente provável? Quer dizer que não é certo?
O operador de rádio sorriu.
Naturalmente não podemos afirmar com certeza. Em casos como este nunca pode haver uma certeza absoluta. A probabilidade de que um fenômeno natural possa provocar vibrações tão regulares é extremamente reduzida, mas não deixa de existir.
Rhodan acenou com a cabeça; parecia pensativo.
Será que os intervalos irregulares entre os sinais não são um fato que fala a favor da formação natural destes? — perguntou depois de algum tempo.
Ainda não pensei sobre isso — confessou o oficial. — Sou de opinião que depende exclusivamente da vontade do operador de um transmissor de hipercomunicação emitir os sinais neste ou naquele intervalo.
O senhor acaba de falar em operador — observou Rhodan. — Acontece que talvez se trate de um transmissor automático. Nesse caso seria menos provável que os sinais fossem emitidos em intervalos irregulares, não é?
Seria menos provável — admitiu o operador de rádio. — Mas não seria impossível.
Rhodan sorriu.
Vejo que faz questão de não me tranqüilizar — disse. — Mais uma pergunta: no instante em que foram captados os sinais, constatou-se a presença de algo suspeito nas proximidades da nave?
Não senhor. Não se constatou absolutamente nada.
Rhodan dispôs-se a sair.
Está bem — disse a título de despedida. — Continue atento e avise-me assim que ouvir qualquer novidade.

* * *

Ao sair da sala de rádio, Rhodan encontrou-se com Atlan, o arcônida.
Vejo que estou chegando tarde — disse Atlan. — Já deu uma olhada nos oscilogramas?
Rhodan fez que sim.
Nem precisa entrar. São duas vibrações exatas que, segundo a opinião do operador de rádio, só poderiam ser transmitidas por um emissor.
Uma expressão de desconfiança surgiu no rosto de Atlan.
Qual é sua opinião? — perguntou, esticando as palavras.
Rhodan deu de ombros.
Neste caso não tenho opinião — respondeu. — O operador de rádio entende mais destas coisas que eu. Por isso não vejo motivo para bancar o inteligente.
Compreendo — disse Atlan. — Você se vê numa situação melindrosa: está com pressa, mas tem de agir com cautela. Tem de equilibrar numa mistura exata a pressa e a cautela. É estranho...
Encontravam-se lado a lado sobre a fita rolante que os levava pelo corredor.
O que é estranho? — indagou Rhodan.
Não é nada de importante. Estava pensando que um problema como este seria fácil de resolver, se houvesse uma matemática específica para o caso. A solução mais favorável poderia ser obtida por meio da diferenciação de uma equação e da nulificação do valor extremo; seria simples.
Rhodan fitou-o com uma expressão de espanto.
Atlan, você é um filósofo — disse em tom irônico. — Acontece que no momento não preciso de um filósofo, mas de um criminalista...
Oba! Acha que o caso é tão sério assim?
Rhodan respondeu com outra pergunta:
E você, acha que o caso não é sério?
Atlan fez como quem quer assobiar, e sorriu ligeiramente.
Antes de responder, gostaria de ouvir sua opinião.
Está bem. Na minha opinião há uma pequena chance de que os sinais se tenham formado de maneira natural. Junto a uma grande nave equipada com campos defensivos sempre existem fontes de impulsos hipermagnéticos, que irradiam certos sinais. Durante uma batalha espacial, quando os campos defensivos têm de repelir um tiro após o outro, esses campos muitas vezes se tornam tão intensos que a telecomunicação é paralisada. É bem verdade que as perturbações desse tipo não assumem feitio regular. Portanto, a probabilidade de que não haja motivo para preocupações é extremamente reduzida.
Em segundo lugar, o operador de rádio não conseguiu realizar uma medição goniométrica precisa. Por meio de dois receptores próximos um ao outro apurou que a fonte dos sinais não podia encontrar-se a mais de dez quilômetros da nave, e que ficava na direção do sol Swaft. A indicação é bastante vaga. Talvez os sinais poderiam provir de um ponto bem mais distante, de Swoofon, por exemplo, e não nos digam respeito. Para isso, porém, seria necessário que o operador de rádio tivesse cometido um engano tremendo.”
E você não gosta de admitir que seus homens cometem enganos graves? — interveio Atlan.
Rhodan não respondeu à objeção.
Em terceiro lugar — prosseguiu — evidentemente existe a possibilidade de alguém ter colocado um espião nas proximidades da nave, e que este tenha de informar seu chefe sobre a posição da Drusus. É claro que neste caso a situação seria bastante perigosa, e teríamos de tomar todas as medidas de segurança.
Lançou um olhar para o arcônida.
Minha opinião é esta. Agora não continue a esconder a sua.
Atlan parecia muito alegre.
Sabia que me pouparia muitas palavras se o deixasse falar em primeiro lugar — disse. — Minha opinião é exatamente a mesma que a sua. Há uma pequena probabilidade de que tudo não passe de um simples acaso, e uma probabilidade muito maior de que haja um espião por perto.
O que me deixa admirado é o fato de que nossos instrumentos não localizem nada nas proximidades da nave — disse Rhodan com uma expressão contrariada.
Posso explicar o fato. Caso se trate realmente de um espião, este não se encontra nas proximidades da nave, mas no seu interior.
Rhodan decidiu permanecer por cinco horas no mesmo lugar. Se dentro desse prazo o transmissor de sinais goniométricos não voltasse a emitir sinais, partiria para o hiperespaço, percorrendo numa única transição duzentos anos-luz em direção ao centro da Galáxia.
Se o emissor não voltasse a transmitir qualquer sinal, teriam sido vítimas de engano, e não haveria nada que objetar ao regresso à Terra. A principal tarefa do emissor de sinais goniométricos, se é que este existia, deveria consistir em transmitir sinais do ponto final de cada transição, a fim de que o receptor pudesse traçar a rota da nave.
Rhodan lembrou-se de que em outra oportunidade já fugira dos arcônidas que o perseguiam, em direção ao centro da Via Láctea. Se o espião que, segundo acreditava Atlan, se encontrava a bordo da nave, estivesse trabalhando para o computador-regente de Árcon, este receberia pela segunda vez, depois de sessenta anos, a informação de que uma nave terrana se deslocava em direção ao centro da Galáxia. A máquina possuía uma capacidade extraordinária de raciocinar logicamente. Contaria com a possibilidade de que Rhodan, quando se sentia ameaçado, fugia sem fornecer a menor indicação sobre a posição de seu mundo.
Perry divertia-se com a idéia de que talvez uma segunda fuga em direção ao centro da Galáxia pudesse fazer o computador-regente vacilar em suas conclusões. Quem sabe se não acabaria acreditando que a Terra realmente poderia ser encontrada nesse setor...

* * *

Bell viu Baldur Sikermann introduzir as coordenadas do salto no computador de pilotagem e disse:
Acho que ainda temos um pouco de tempo, não temos?
Algumas horas. No momento os riscos ligados a um salto seriam muito elevados. Se a bordo da Drusus existir um transmissor que comunica nossa posição a alguém...
Acho que tudo não passa de acaso — disse Bell e acomodou-se numa poltrona, perto de Sikermann. — Não acha?
Antes que Sikermann pudesse responder, uma voz aguda cortou-lhe a palavra. Gucky escorregara do sofá, arrastou-se até a porta e abriu-a sem tocá-la. Gostava de usar suas capacidades telecinéticas para seu conforto.
Vou dar uma olhada no tal do Muzel — anunciou e saiu caminhando pelo corredor. — Quem ouve Kulman deve pensar que bassê é um modelo de obediência...
O que pretende fazer, Gucky? — perguntou Bell. — Deixe o cachorro em paz.
O bicho já foi desinfetado; portanto, não poderei trazer pulgas de lá, se é isso que o preocupa — disse Gucky, piscando os olhos castanhos. — Quem sabe se ele pode coçar meu pêlo?
Mal acabou de pronunciar estas palavras, desapareceu. A porta fechou-se automaticamente.
Bell fitou-a.
Tomara que não faça bobagens — observou.
Por enquanto Gucky nem estava pensando nisso.
Teleportou-se para o setor de desinfecção, que ficava nas proximidades da comporta principal. Chegou justamente na hora de poder perguntar aos químicos que retornavam de seu serviço onde haviam deixado Muzel. O segundo salto colocou-o diretamente no compartimento que viria a ser o camarote de Kulman.
O agente ainda se encontrava na sala dos tripulantes, mas poderia chegar a qualquer momento. O animal estranho, ao qual Kulman se referira em termos tão elogiosos, estava deitado junto da porta. Gucky materializou-se a dois metros do cão e deixou-se cair sobre as patas traseiras. Examinou atento o bassê, que parecia dormir profundamente.
Gucky expediu seus impulsos mentais, procurando penetrar suavemente no cérebro daquele ser estranho. Kulman afirmara que Muzel não tinha bastante inteligência para comunicar-se. Era claro que o bassê não sabia falar. Mas se possuísse um mínimo de inteligência deveria pensar...
Que absurdo! — balbuciou o rato- castor.
Realmente, Muzel estava pensando. De início Gucky sentiu-se surpreso ao perceber que aquele cachorro, que geralmente era considerado um animal da terra, sonhava com a água e com plânctons que boiavam nela. Mas logo se lembrou de que mesmo os seres mais inteligentes, como o homem, costumam sonhar com as coisas mais absurdas. Geralmente as manifestações de consciência verificadas durante o sono são totalmente diversas das que se verificam no estado de vigília.
Por que Muzel não poderia sonhar com o plâncton?”, pensou absorto.
Os pensamentos eram confusos e indefinidos, mas não havia dúvida de que eram pensamentos. Gucky sentiu-se um pouco mais tranqüilo, por saber que poderia fazer alguma coisa com aquele animal. Então passou a dedicar sua atenção ao aspecto exterior.
O companheiro de Kulman realmente se parecia com um bassê. As esquisitas orelhas penduradas não constituíam a única característica que lembrava o fiel quadrúpede terrano, que os entendidos de nosso planeta costumavam designar tanto com o nome de bassê como com o de cão rasteiro. Gucky não era nenhum entendido no assunto. Para ele um bassê era um bassê, quer tivesse pernas tortas, quer não. Os belos olhos cor de ouro formavam um contraste notável com o pêlo cinza-prateado; naquele instante o animal os abriu, como se durante o sono tivesse sentido a chegada de Gucky.
Este sorriu e exibiu o dente roedor. Enquanto isso telepatava intensamente:
Olá, Muzel! Meu nome é Gucky; sou seu amigo. Vamos brincar de esconder?
Não houve nenhuma reação da qual Gucky pudesse concluir que Muzel recebera e compreendera sua mensagem telepática. Pelo contrário; nos olhos dourados de Muzel lia-se uma espécie de espanto enorme pelo fato de que existia um rato-castor daquele tamanho. De início Gucky chegou mesmo a ter a impressão de ler neles uma expressão de pavor, mas evidentemente isso podia ser um simples engano.
Mas há os impulsos mentais...”, pensou o animal mutante.
Continuavam a ser fracos e indefinidos, mas sua presença era incontestável. O tal do Muzel sabia pensar, embora não fosse propriamente um telepata capaz de captar os pensamentos alheios. A conversa até então não passava de um monólogo.
Talvez entenda o inglês”, pensou Gucky. “Afinal, Kulman deve ter falado com ele.
Meu nome é Gucky — disse, falando devagar e acentuando as palavras. — Sou seu amigo, Muzel. Vamos brincar de esconder?
Teve a impressão de que Muzel estava prestando atenção às suas palavras.
O bassê fitou o rato-castor. Um brilho amistoso surgiu em seus olhos. Subitamente o cérebro de Gucky captou a resposta, debilmente transmitida.
Seu nome é Gucky. Vamos brincar de esconder. O que significa isso?
O rato-castor sentiu-se tão feliz que por pouco não acariciou Muzel. Conseguira estabelecer contato. Acabara de encontrar um companheiro de brincadeira.
É simples, Muzel. Um de nós terá um minuto para esconder-se em qualquer lugar no interior da nave. E o outro terá de procurá-lo. Se não conseguir encontrá-lo dentro de dez minutos, terá perdido a partida. Você nunca brincou de esconder?
Não; nunca.
Então está na hora! — asseverou Gucky. — É muito divertido. Será que está cansado demais?
Muzel bocejou ao ser lembrado da idéia de cansaço, espreguiçou-se e levantou. Saltitou em direção a Gucky e farejou o mesmo.
Você cheira muito bem.
O rato-castor ficou tão perplexo que não soube o que responder. “Então cheirava bem”, pensou admirado.
Até então ninguém havia dito isso, se bem que por outro lado ninguém havia afirmado que Gucky cheirasse mal.
Onde está Kulman?
Gucky sentiu-se pego de surpresa.
Deve chegar a qualquer momento, Muzel. Infelizmente está demorando porque... bem, porque...
Gucky refletiu se devia contar ao bassê o que havia acontecido.
Bem, ficou com fome e está comendo — prosseguiu, sentindo-se satisfeito porque o cão não sabia ler pensamentos. — Você não está com vontade de comer?
Parecia que Muzel se assustara.
Por que ele se assustou quando alguém perguntava se estava com apetite?”, pensou indagando-se.

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