Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Um robô
também comete enganos...
Especialmente
quando tem dois cérebros.
Apesar
das hábeis manobras realizadas no espaço galático, o trabalho pelo
poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo,
realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto,
pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram
insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta
e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que
teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma
nova geração de homens surgiu.
E, da
mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até
transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou,
formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e
Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se
prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou
jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No
sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa
forma os terra-nos são os soberanos incontestes de um pequeno reino
planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse
reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa
frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer
atacante... A luta contra o invisível, por ora, ficou suspensa.
Perry
aguarda notícias dos agentes cósmicos enviados a diversos lugares.
O administrador do Império Solar quer ser informado a respeito do
invisível...
Nesse
momento, a Drusus recebe uma mensagem que indica situação de
alarma: um robô espião começava a agir!
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Comandante da Drusus.
Atlan
— O arcônida imortal que esclarece a dúvida.
Jost
Kulman
— Micrótico do Exército de Mutantes.
Gucky
— O rato-castor mutante.
Muzel
— Um possoncal: animal semelhante a um cão bassê.
1
O silêncio
reinava entre os ocupantes da Drusus, nave capitania da frota
terrana. O gigantesco veículo espacial esférico mantinha-se em
posição de espera, a trinta anos-luz da Terra. Aguardava o primeiro
sinal de um novo ataque vindo de outra dimensão temporal.
Os
oficiais de patente mais elevada da Drusus tinham ouvido diretamente
as palavras de Atlan, enquanto os outros participaram do
acontecimento através das telas instaladas nos seus alojamentos ou
postos de trabalho.
O relato
empolgante e bem estruturado de Atlan fizera desfilar um capítulo da
história dos primórdios da Terra. Era o capítulo relativo ao
continente legendário da Atlântida e aos seus habitantes.
Tornava-se
muito difícil libertar-se do impacto produzido pelas palavras de
Atlan. Durante milênios a Terra conhecera uma única indicação
relativa à existência daquele continente fantástico. Tratava-se de
ligeira alusão encontrada numa obra de Platão. Centenas de pessoas
de fantasia muito viva procuraram extrair das palavras de Platão
mais do que o filósofo dissera. E centenas de pessoas desse tipo
procuraram em quase todas as partes da Terra os vestígios da
Atlântida. Várias teorias acerca da catástrofe que teria causado a
destruição daquele continente chegaram a ser formuladas.
E enquanto
acontecia tudo isso, havia na Terra um homem que estaria em condições
de pôr fim a todas as especulações, um homem que poderia ter
desvendado o mistério, se quisesse.
Era Atlan,
o arcônida, o imortal. Pertencia à família altamente conceituada
dos Gonozal que, ao tempo em que partira de seu mundo, imperava em
Árcon. Atlan era muito venerado pelos subordinados, tanto que estes
deram seu nome a um continente do planeta situado num sistema solar
recém-descoberto.
O que
valiam diante disso os esforços dos filólogos, que com grande zelo
haviam construído da raiz indo-germânica ti ou tia o equivalente de
carregar, motivo por que viam em Atlas o homem que sustentava a
Terra? Será que tudo não passava de uma semelhança de palavras
entre as quais não havia a menor relação?
O relato
de Atlan daria uma verdadeira manchete, se o encarássemos sob o
ponto de vista dos redatores e repórteres dos veículos de
comunicação. Mas era mais do que isso. Provava que o misterioso
desconhecido, que vivia no mundo artificial denominado Peregrino, já
reconhecera há dez mil anos da contagem de tempo terrana os imensos
perigos que o inimigo, vindo de outro plano temporal, representava
para a Galáxia. E desde então procurava meios de enfrentá-lo.
Procurava
meios! A palavra procurar assumia um significado profundo para quem
considerasse os recursos imensos de que dispunha o ser do planeta
Peregrino, que não tivera a menor dificuldade em remover qualquer
outro perigo.
O imortal
do planeta Peregrino incumbira Atlan de enfrentar o ser misterioso
vindo de um outro “ambiente” temporal. Se nos guiássemos pela
lógica humana, chegaríamos à conclusão de que o grande
desconhecido do planeta Peregrino não estava em condições de
enfrentá-lo só.
E, se este
ser não estivesse em condições de enfrentá-lo, quem poderia
estar?
*
* *
Perry
Rhodan levantou-se e disse em voz calma e objetiva:
— Eu lhe
agradeço, Atlan. Seu relato foi altamente elucidativo, se bem que
não deixou de ser um tanto deprimente. Mas espero que nós,
enriquecidos com sua experiência, consigamos realizar a tarefa que
lhe foi atribuída pelo desconhecido.
Um sorriso
ligeiro surgiu no rosto de Atlan, já totalmente recuperado.
— Minhas
experiências não servirão para muita coisa, Rhodan. Naquela época
limitei-me a desferir golpes no escuro, conforme vocês costumam
dizer.
— Nunca
se deve desistir — respondeu Rhodan, retribuindo o sorriso. —
Você já conhece o ditado: quem não arrisca não petisca. Na
situação em que nos encontramos, esse adágio pode ter uma
conotação ridícula. Mas, em qualquer caso, aquele que sem desânimo
entra numa empresa tem melhores condições de sair vitorioso.
Atlan fez
um gesto afirmativo. — É verdade. Conheço a Humanidade há muito
tempo. E conheço muitos exemplos onde a fé, que na verdade não
passa de uma certa obstinação associada a uma convicção alógica,
tem removido montanhas. Esta qualidade só é encontrada nos
terranos. As outras raças sentem dificuldades imensas quando devem
saltar por cima da própria sombra.
Depois
levantou a cabeça e estendeu a mão a Rhodan.
— Então,
bárbaro, vamos tentar!
Rhodan
riu.
— Tenho
a impressão de que o arcônida aprendeu muita coisa com os bárbaros.
Se não fosse assim, a esta hora já teria desistido, e passaria a
assumir uma atitude passiva.
O sorriso
de Atlan parecia exprimir certa dor.
— Você
atingiu meu ponto vulnerável, Rhodan. Mas a esta hora já sou
obrigado a acreditar que meu povo se transformou num bando de
sonhadores idiotas.
— Há
exceções — ponderou Rhodan. — Por enquanto Árcon não está
perdido.
Atlan
confirmou com um gesto.
— Vamos...
Foi
interrompido pelo zumbido do intercomunicador. Uma voz clara e áspera
disse:
— Operador
de rádio número dois chamando o comandante! Operador de rádio
número dois chamando o comandante!
Com um
salto, Rhodan colocou-se à frente do painel principal do piloto.
— Comandante
falando! O que houve? — perguntou para dentro do microfone, depois
de ter ligado para a transmissão.
— Um
aviso importante da Central dos Agentes de Terrânia. A mensagem veio
através da estação retransmissora que fica na direção de Rigel.
Rhodan
hesitou um instante. Contemplando os rostos dos oficiais ali
reunidos, disse:
— Um
momento. Irei até a sala de rádio.
Sorriu
para Atlan e retirou-se. Atlan continuava no mesmo lugar e fitava a
porta fechada.
— Basta
falar no diabo.... — começou a falar com o espírito cheio de
pressentimentos, mas não concluiu.
*
* *
Gucky não
se deu ao trabalho de ouvir diretamente o relato de Atlan. Estava
sentado em seu pequeno camarote e estremeceu quando a tela se apagou
e o rosto do arcônida desapareceu.
Gucky era
o único rato-castor existente a bordo da Drusus. Na verdade, era o
único rato-castor da Via Láctea, desde que se deixassem de fora os
habitantes do planeta Vagabundo, que gravitava em torno de um sol
vermelho-púrpura, perdido em algum lugar na amplidão do cosmos.
Tinha
cerca de um metro de altura e seu pêlo era marrom. Sua cabeça
parecia ser de um gigantesco rato, e a cauda era achatada como a de
um castor. Possuía ao menos três faculdades extraordinárias. Sabia
ler pensamentos, sendo um ótimo telepata. Era capaz de
desmaterializar-se para no mesmo instante reaparecer em outro lugar;
em outras palavras: um exímio teleportador. Por fim, era um
telecineta, isto é, sabia mover a matéria exclusivamente com a
força de seu cérebro.
Por isso
não era de admirar que Gucky fosse bastante chegado a Rhodan, além
de um dos membros mais proeminentes do exército terrano de mutantes.
Reginald
Bell, o representante de Rhodan e seu amigo mais íntimo, entrou no
camarote sem bater. Retirara-se do recinto em que estava sendo
realizada a reunião dos oficiais assim que Atlan terminou seu
relato. Dirigiu-se imediatamente para junto do rato-castor, ao qual
estava ligado pelos laços de uma amizade notável. Para qualquer
outra pessoa a camaradagem deveria parecer bastante estranha, pois os
dois viviam se desentendendo.
Gucky já
sentira sua aproximação e sacudiu a cabeça.
— Você
nunca será um gentleman,
Bell — disse num inglês impecável.
Quem não
conhecesse o rato-castor, ficaria apalermado ao ouvi-lo falar naquele
tom. Acontece que a inteligência do rato-castor era muito maior que
a de um homem normal.
— Já
imaginou se eu estivesse mudando de roupa?
Bell não
pôde deixar de sorrir. Quando não estava em missão, Gucky andava
sem roupa. Face ao seu pêlo espesso não havia necessidade de um
uniforme ou mesmo de vestes íntimas. Por isso não haveria nada
demais se alguém surpreendesse Gucky no momento em que estivesse
mudando de roupa.
— Suas
piadas fedem tanto quanto um saco de batatas que ficasse guardado por
três decênios embaixo de uma cama — disse Bell sem a menor
comoção.
— Não
me fale em batatas! — pediu Gucky, que sentia um apetite tremendo
toda vez que alguém lhe falava em hortaliças frescas. — Se não
parar, teleportarei você para outro lado da nave e o deixarei num
lavatório abandonado, onde ninguém o encontrará tão cedo. Ou
então deixo-o num recinto ainda menor.
— Não
faça isso, Gucky — disse Bell em tom contemporizador — Quero
falar com você.
— Pois
fale! — pediu o rato-castor e afastou-se para o lado, a fim de que
Bell pudesse sentar-se na cama. — Meus ouvidos estão preparados,
embora já estejam doendo. Devo confessar que esse arcônida possui
uma elevada dose de fantasia. Bem que gostaria de ser assim...
Bell
arregalou os olhos.
— Não
venha me dizer que você acredita que Atlan inventou essa história
relativa à Atlântida! Ora, meu caro, se Rhodan souber disso...
— Não
saberá, desde que você cale a boca — disse Gucky, resmungando
ameaçadoramente. — Não se esqueça do lavatório em que poderei
deixá-lo.
— De mim
ninguém saberá nada — apressou-se Bell em asseverar e
acrescentou: — Acontece que achei a história de Atlan muito
interessante e elucidativa.
— Eu
também — confessou Gucky e coçou demoradamente as costas.
Bell
suspirou e cedeu ao pedido implícito nesse gesto. Aproximou-se do
rato-castor e começou a acariciar seu pêlo. Não havia nada que
deixasse o pequenino mais feliz.
— Mas
quanto ao mais — disse Bell, olhando para o teto — isto já
começa a ficar enjoado. Estamos parados no espaço com uma
nave-gigante e esperamos. Você poderia dizer o que estamos
esperando?
— Vou
perguntar a Rhodan.
— Se
acredita que este lhe contará alguma coisa, está muito enganado,
baixinho.
— Não
seja tão arrogante, gorducho — disse Gucky, adotando o mesmo tom
de voz, pois seus freqüentes contatos com Bell lhe haviam
proporcionado um vocabulário bem interessante. — Aliás, eu estou
me dando muito bem com esta boa vida. Mas uma pessoa que nunca faz
nada não precisa descansar.
Bell parou
de acariciar o pêlo do rato-castor e empertigou-se.
— Será
que você quer dizer que eu...
— Não
se esqueça do lavatório! — advertiu Gucky em tom suave.
Bell
suspirou e resmungou:
— Não
sei por que vim para cá. Em vez de descansar, tenho de ouvir
ameaças. Quem mantém contato com seres semi-inteligentes só colhe
aborrecimentos.
Apressou-se
em voltar a acariciar o pêlo de Gucky, pois enquanto fazia isso
sentia uma relativa segurança.
— Espero
que você saiba levar a brincadeira na esportiva, pequenino.
— É
claro que sei, gorducho — asseverou Gucky em tom leal e exibiu o
dente roedor.
Este lhe
servia para mastigar o alimento — hortaliças frescas, de
preferência cenouras — e ainda para exibir seus sorrisos. E quando
Gucky sorria, via de regra não havia nada a recear. Bell suspirou
aliviado.
Por alguns
segundos um silêncio reconfortador espalhou-se pelo camarote. Esse
silêncio só foi interrompido, de vez em quando, por um grunhido de
satisfação de Gucky, que soube aproveitar até o fim a disposição
de acariciá-lo que seu amigo vinha manifestando.
Mas
subitamente o encanto foi interrompido.
Ouviu-se
um zumbido, e uma voz muito conhecida disse:
— Alô,
Gucky. Por acaso Bell está aí?
— É
Rhodan! — disse Bell, levantando-se sobressaltado para mover uma
chave.
Depois
respondeu para dentro do microfone do sistema de intercomunicação
de bordo:
— Sim,
estou no camarote de Gucky. O que houve, Perry?
— Logo
mais direi. Venha à sala de comando! Mas não demore; apresse-se.
O rosto de
Bell parecia ser uma única interrogação.
— Será
que você poderia fazer o favor de dar uma definição mais precisa
da diferença sutil que deve existir entre os conceitos de andar e de
apressar-se?
— Olá!
— disse Gucky, que continuava na cama que durante o dia lhe servia
de sofá. — Que linguagem rebuscada o gorducho está usando hoje!
Ao que
parecia, Rhodan não estava de bom humor.
— Não
podemos perder tempo, Bell. Espero-o exatamente dentro de dois
minutos na sala de comando. Gucky conseguirá chegar mais depressa,
se não tiver de trazer você!
Bell
colocou a mão na chave, como se quisesse desligar, mas antes disso
formulou a pergunta:
— Quer
dizer que...
— Isso
mesmo — disse Rhodan, respondendo à pergunta que não chegara a
ser completada. — Isto quer dizer que a espera chegou ao fim.
Um ligeiro
estalido mostrou que a comunicação chegara ao fim.
Gucky
escorregou do sofá e colocou-se ao lado de Bell, segurando-lhe a
mão.
— Vamos
embora, gorducho — chilreou em tom alegre.
Dali a
alguns segundos o ar começou a tremeluzir, e Gucky e Bell
desapareceram.
No mesmo
instante os dois materializaram-se na sala de comando da Drusus.
*
* *
Rhodan
aguardou até que se fizesse silêncio. Alguns dos oficiais que meia
hora antes haviam ouvido o relato de Atlan também se encontravam
presentes. Um deles era Baldur Sikermann, Primeiro-Tenente e imediato
da Drusus; seu substituto, o Major Teldje van Aaafen e o Capitão
Hubert Gorlat, oficial de segurança da nave.
A
tripulação era composta de duas mil pessoas, inclusive os oficiais.
O número não era de admirar, já que se tratava de uma nave de um
quilômetro e meio de diâmetro.
Nos
hangares da gigantesca nave estavam guardados quarenta Girinos, naves
de sessenta metros de diâmetro, que poderiam ser bem tripuladas em
caso de necessidade. Juntamente com a Titan e a General Pounder, que
eram do mesmo tipo, a Drusus era a maior nave do Império Solar.
Árcon era o único mundo que poderia dispor de algo igual.
— Acabamos
de receber uma mensagem de hiper-rádio vinda da Terra — disse
Rhodan em meio ao silêncio carregado de expectativa. — Não tenho
certeza se tem algo a ver com nossa tarefa propriamente dita, mas
mesmo que isso não seja o caso, não poderemos deixar de atender ao
pedido.
Bell, um
pouco afastado, perguntou:
— Que
pedido é este?
Havia um
tom de estranheza em sua voz. E com toda razão.
Um ligeiro
sorriso surgiu no rosto de Rhodan.
— Vou
ler a mensagem. Já devem saber que o texto chegou aos nossos
receptores em estado condensado e linguagem codificada. Por isso não
houve perigo de que alguém pudesse captá-lo, ou pudesse, com base
na mesma, determinar a posição da Terra.
Chamando
a nave Drusus! Sinal de emergência três toques de sino expedido
pelo agente Jost Kulman, que se encontra em Swoofon, sistema de
Swaft. Quer que alguém vá buscá-lo imediatamente. Não forneceu
detalhes.
“A
mensagem foi expedida pela central de Terrânia. Na minha opinião
devemos atendê-la, dirigindo-nos a Swoofon. Alguém quer formular
uma indagação?”
Foi tudo
muito rápido; ninguém tinha uma pergunta preparada. Onde ficava
Swoofon? Quem vivia lá? O que acontecera com Kulman? E quem era ele?
Seriam estas perguntas apropriadas para serem formuladas numa
situação como esta, ou será que havia outras, mais importantes?
Bell
manifestou-se. Estava credenciado para isso.
— Será
que Kulman não poderia ter dito qual era seu problema?
Rhodan fez
um gesto de condescendência.
— É
claro que poderia ter dito; acontece que não disse. Mais alguma
pergunta?
— Quem
ocupará nossa posição quando nos dirigirmos a Swaft? Com nossa
saída haverá uma lacuna no sistema de vigilância, que deve ser
mantido intacto.
— Dificilmente
— disse Rhodan, sacudindo a cabeça. — O que fizemos foi apenas
reforçar a frente de observações. Se sairmos dela, a mesma voltará
ao normal.
— Neste
caso não tenho outras perguntas.
Rhodan fez
um sinal para Sikermann e olhou em torno.
— Não
há mais nada a esclarecer? Bem, era o que eu esperava. Assim que
houver o revezamento das sentinelas, saltaremos em direção a Swaft
e daremos uma olhada por aquelas bandas. É bem possível que depois
da mensagem de Kulman alguma coisa tenha mudado por lá. Não
pretendo entrar numa armadilha. Portanto, preparem-se para algumas
horas de serviço bem cansativo. Peço que Reginald Bell e o Capitão
Gorlat permaneçam na sala de comando. Quero tomar todas as
precauções. Muito obrigado.
Manteve-se
imóvel e esperou até que todos tivessem saído, com exceção de
Gorlat e Bell. Ninguém deu atenção a Gucky, encolhido no sofá.
Rhodan pelo menos fez de conta que não estava vendo o rato-castor.
— Swaft
é um sol relativamente desconhecido — principiou. — Dá vida a
seu segundo planeta, denominado Swoofon. Este planeta é habitado por
uma raça muito estranha, conhecida como os swoons. Dizem que são
excelentes mecânicos e técnicos. Ou, para sermos mais exatos, são
excelentes micromecânicos. Seus olhos enxergam melhor que nossos
microscópios. Sua especialidade consiste na construção de
mini-máquinas, que um homem normal dificilmente descobre a olho nu.
É este o motivo principal de termos enviado o agente Jost Kulman a
Swoofon.
— Se não
me engano, Kulman pertence ao Exército de Mutantes — observou
Gorlat, o oficial de segurança.
Rhodan
confirmou com um gesto.
— Kulman
é nosso micrótico. Possui a capacidade espantosa de modificar à
vontade a focalização de seu globo ocular, obtendo uma visualização
aumentada. Por isso consegue reconhecer e identificar objetos de
dimensões microscópicas, independentemente de qualquer recurso
técnico.
Rhodan
olhou para o relógio.
— Preciso
fornecer ao setor de navegação os dados relativos a Swaft. O
sistema fica a pouco menos de mil anos-luz de nosso sol. Se ligarmos
os compensadores estruturais, podemos arriscar o percurso num único
salto, sem que haja o menor perigo de que alguém descubra a posição
da Terra.
— Ainda
bem que temos esses compensadores — disse Gorlat com um sorriso de
satisfação. — Sem eles um salto no espaço nunca poderia ser
mantido em segredo. Seria horrível.
— E, o
que é pior: a localização dos planetas iria ser facilitada —
observou Bell.
— Para
nós isso seria uma verdadeira calamidade — constatou Rhodan. —
Afinal, a melhor arma que possuímos é o segredo da posição
galáctica da Terra. Os arcônidas e os saltadores já andaram
fazendo de tudo para descobri-lo. Realmente, o compensador estrutural
representa uma felicidade para nós. Os rastreadores estruturais não
servem de nada para os arcônidas quando não haja o que possa ser
rastreado.
Despediu-se
com um gesto e retirou-se da sala de comando.
Os outros
seguiram seu exemplo, dirigindo-se aos seus postos.
Só Gucky
continuou no sofá. Achou que seria conveniente tirar um cochilo.
*
* *
A Drusus
materializou-se, vinda do nada. A estrela Swaft surgiu como um sol
reluzente. O segundo planeta ficava entre esse sol e a nave, que se
mantinha imóvel. Havia retornado ao Universo normal sem provocar o
menor abalo no contínuo espaço-temporal.
Uma das
Gazelas foi preparada para decolar.
Tratava-se
de uma nave de reconhecimento de primeira ordem, que tinha o formato
de disco e media dezoito metros de altura e trinta de diâmetro. Seu
alcance estava limitado a quinhentos anos-luz; era capaz de realizar
saltos pelo hiperespaço até uma distância de cinco anos-luz.
O
comandante designado por Rhodan foi Fron Wroma, um capitão africano,
piloto muito competente. Seria acompanhado por dois cadetes e pelo
sargento Redkens, da equipe de rádio.
No
momento, Swoofon se encontrava a duas horas-luz e Rhodan deu ordem de
decolar.
Uma
escotilha abriu-se silenciosamente na zona equatorial da Drusus, e
dela saiu rapidamente uma sombra prateada que se precipitou no
espaço. Acelerando sempre, tomou a direção do planeta ainda
distante.
Depois, a
espera longa e tediosa teria início na Drusus.
Dali a
duas horas o sargento Redkens transmitiu uma mensagem:
— O
agente Kulman não responde. Onde poderemos encontrá-lo?
Rhodan
fitou Sikermann com os olhos semicerrados. Este encontrava-se a seu
lado, a fim de que os controles da nave nunca ficassem
desguarnecidos. Ninguém contara com a possibilidade de que, depois
de emitir o sinal de emergência e pedir que viessem buscá-lo,
Kulman se mantivesse em silêncio. Segundo os catálogos dos
arcônidas, Swoofon era um mundo pacífico e inofensivo. Por isso
mesmo dificilmente Kulman se teria defrontado com algum perigo.
Talvez uma informação importantíssima provocara o pedido de
revezamento.
E agora
mantinha-se em silêncio, embora não pudesse ter deixado de ouvir o
pedido de transmissão do raio-vetor, emitido pela Gazela.
Havia algo
de errado naquilo...
Rhodan
falou para dentro do microfone:
— Prossiga.
Tente a localização goniométrica, Redkens! Kulman não poderá
deixar de responder. Espero receber notícias positivas dentro de dez
minutos.
O tráfego
de rádio era conduzido pelo sistema de hipertransmissão, com o que
se evitava a perda de tempo ligada às ondas de rádio,
excessivamente lentas. A possibilidade de interceptação da mensagem
tornava-se remota. E ninguém conseguiria entender a mensagem
codificada, a não ser que dispusesse do dispositivo de distorção.
— Voltarei
a chamar — prometeu Redkens e desligou.
Rhodan
ficou à espera. Enquanto isso Fron Wroma aproximou-se lentamente da
face noturna do planeta silencioso. Viu poucas luzes; lembrou-se de
que os swoons viviam principalmente sob a superfície. Haviam
construído apenas umas poucas cidades na zona equatorial da crosta
de seu mundo, que era tão estéril que nem mesmo as plantas mais
primitivas poderiam ali crescer. Um dos aspectos mais estranhos de
Swoofon consistia justamente na ausência de qualquer vegetação.
Redkens
transmitiu ininterruptamente o sinal de chamada destinado a Kulman e
manteve-se em recepção. Só mesmo se o diabo tivesse suas mãos
naquilo o agente deixaria de ouvi-los.
Acontece
que o diabo não interferiu de forma alguma.
Quando o
prazo de dez minutos estava para terminar, o sargento estremeceu.
Simples
sinais Morse saíram do alto-falante; ao que parecia, não tinham o
menor sentido. A antena goniométrica girou automaticamente,
indicando a direção em que devia ficar o respectivo emissor.
— Quarenta
e cinco graus, direita, trinta graus.
Redkens
forneceu os dados com a maior tranqüilidade, enquanto Wroma desviava
a Gazela para a direita. A superfície do planeta aproximou-se. A luz
tornou-se mais forte, pois o veículo espacial se aproximava da face
diurna do planeta. A tela de luz infravermelha mostrava um deserto
desolado, cheio de pedras, no qual dificilmente poderia existir
qualquer forma de vida.
Será que
Kulman estaria lá, esperando por ele?
Os sinais
Morse tornavam-se cada vez mais fortes.
Atravessaram
um planalto. Se a meia-luz ali reinante não os enganasse, o mutante
deveria estar entre duas elevações, num vale estreito e profundo.
Ninguém sabia explicar como Kulman fora parar lá. Nem Wroma nem
Redkens imaginariam que esse mistério nunca poderia ser explicado...
A Gazela
baixou e passou rente à parede rochosa, dirigindo-se ao fundo do
vale. Pousou suavemente.
A poucos
metros do lugar em que se encontravam, um vulto pouco nítido se
destacava contra as montanhas, e abanava o braço para eles.
— Irei
até lá — disse Wroma e desligou os propulsores. — Fique no
interior da comporta de ar e mantenha o radiador térmico preparado
para qualquer eventualidade. Não quero expor-me a uma surpresa
desagradável. Não estou gostando nem um pouco desta história.
— Será
que há algo de errado? — perguntou o operador de rádio e sacudiu
a cabeça. — O sinal goniométrico é correto!
— A
responsabilidade é minha — disse o africano, encerrando o diálogo.
Dirigiu-se
à comporta, que ficava próxima ao lugar em que se encontrava.
Redkens
iria segui-lo, mantendo o radiador pronto para disparar. Sabia muito
bem que num caso como este a cautela nunca pode ser excessiva.
A
escotilha abriu-se com um baque surdo. A atmosfera um tanto carregada
do planeta penetrou na comporta. E com ela veio o grito de alívio de
um homem:
— Meu
Deus! Quanto tempo ainda terei de esperar?
Kulman, o
micrótico do Exército de Mutantes, caminhou em direção a Wroma,
que o aguardava na escotilha aberta. Fitava-o com os olhos
semicerrados. Redkens, que se mantinha atrás dele, já ia baixar a
arma, quando uma pequena sombra fugaz surgiu atrás de Kulman.
— Venha,
Muzel! — chamou Kulman, virando a cabeça.
Wroma viu
a “sombra”
e arregalou os olhos para enxergar melhor. Não tinha a menor dúvida
de que o homem que se encontrava à sua frente era Kulman. A
identidade do agente não comportava a menor dúvida. Mas de quem
seria aquela “sombra”?
Muzel —
fosse lá quem fosse ele — obedeceu prontamente. Assim que Kulman o
chamou, aproximou-se correndo e, como um menino bem-educado, parou
junto ao pé esquerdo do agente.
Wroma
ouviu Redkens gemer atrás dele.
— Epa! —
gritou o operador de rádio em tom de espanto. — Isso é um
cachorrinho bassê!
Kulman já
havia chegado ao pé da escada que descia da escotilha.
— O
agente Kulman anuncia o fim de sua missão. Vieram para buscar-me?
Posso entrar?
Wroma
inclinou-se para a frente, a fim de enxergar melhor.
— E sua
bagagem?
— Bagagem?
A única coisa que tenho comigo é o emissor goniométrico. E Muzel,
naturalmente.
Mais uma
vez Wroma sentiu-se desconfiado. Qualquer agente possuía sua
bagagem, formada de aparelhos e instrumentos muito importantes. E
essa bagagem só podia ser abandonada num caso de emergência. E, ao
que tudo indicava, aqui não havia nenhuma emergência.
Decidiu
que as investigações a este respeito ficariam a cargo de quem de
direito.
— Vamos
logo! Suba a bordo. Mas deixe esse bicho esquisito onde está.
— Está
se referindo a Muzel? Não vou deixá-lo para trás. Em hipótese
alguma. Prefiro ficar aqui com ele.
— Como é
que um cachorro bassê foi parar em Swoofon? — indagou Redkens,
como se nunca tivesse visto um cão dessa raça. — Será que o
senhor o trouxe quando veio para cá?
— Muzel
é um possoncal — disse Kulman com a naturalidade de quem acredita
que qualquer astronauta terrano é obrigado a saber o que é um
possoncal.
Mas Wroma
e Redkens nunca haviam ouvido falar nessa espécie de animal.
— Animais
desconhecidos não podem ser aceitos a bordo — disse Wroma, um
tanto inseguro. — Rhodan nos diria umas boas.
— Se é
assim, podem ir embora. Não posso deixar Muzel para trás. Esses
patifes o matariam.
— Que
patifes são estes?
— Os
saltadores. Eles me deram este cachorro e depois tentaram matar-me.
Logo vi que eram piratas. Então, como é que vai ficar? Posso levar
Muzel ou não?
Wroma
olhou para Redkens. Este deu de ombros.
O africano
resolveu aceitar a responsabilidade por seu ato sem consultar a
Drusus.
“O
que poderia acontecer se Kulman levasse seu posson... possel... ou
fosse lá qual fosse o nome do bicho?”,
pensou.
— Está
bem. Pode trazer o bassê para bordo. Mas tem de ficar preso até que
cheguemos à Drusus. Ninguém sabe que tipos de pulga podem existir
em Swoofon.
— Muzel
não tem pulgas — disse Kulman em tom indignado.
Por uma
questão de cautela, acrescentou:
— Se
tiver, podemos pegá-las e matá-las.
— As
instalações de desinfecção da Drusus poderão cuidar disso —
disse Wroma e recuou, para que Kulman pudesse entrar.
Obedecendo
prontamente à ordem de Kulman, Muzel subiu com uma habilidade
espantosa os degraus da escada e entrou na célula da comporta,
abanando o rabo. Finalmente sentou, lançando um olhar de expectativa
para os homens.
A
escotilha foi fechada.
— Leve
este cão para a câmara de ar comprimido que fica ao lado e prenda-o
— ordenou Wroma ao sargento que se encontrava em sua companhia. —
Kulman, faça com que esse seu bastardo acompanhe o sargento.
Kulman
estremeceu ao ouvir a ofensa dirigida ao seu companheiro, mas
conservou o autocontrole. Inclinando-se para o bassê, disse:
— Muzel!
Seja bonzinho e acompanhe o titio! Logo irei buscá-lo. Você
entendeu? Seu doninho logo irá buscá-lo.
Wroma teve
de esforçar-se para não rir. Já vira muito doido, mas o fato de um
dos agentes do planeta Terra se entregar a esse tipo de
sentimentalismo piegas ultrapassava sua capacidade de compreensão.
Redkens fez uma mesura irônica, dirigindo-se a Muzel. O animal era
muito inteligente: entendeu o convite e levantou-se, para caminhar
pelo corredor em atitude quase majestática.
Wroma
quase ficou sem fôlego.
Aquele
bassê caminhava! Não saltitava, mas caminhava de verdade.
Kulman
seguiu-o com os olhos. Em seu rosto havia um sorriso de orgulho.
— Escute,
Kulman — disse o africano assim que se viu a sós com o agente na
sala de comando e ligou os propulsores. — Já não entendo mais
nada. O senhor transmite a mensagem e alarma metade da frota de
guerra terrana e, quando chegamos aqui, vemos que se transformou em
criador de cachorros. Rhodan ficará muito admirado.
O planeta
Swoofon foi mergulhando rapidamente no negrume do cosmos e
desapareceu em meio às outras estrelas.
— Rhodan?
— não havia dúvida de que o espanto de Kulman era genuíno. — O
que será que Rhodan quer de mim? Por que mandou buscar-me?
Wroma
respirava com dificuldade. Corrigiu a rota.
— Por
que mandou buscá-lo? Pois o senhor pediu que isso fosse feito.
Kulman
contemplou a tela reluzente e disse:
— O quê?
Eu pedi que viessem buscar-me? — sacudiu a cabeça. — Um de nós
está louco, meu caro. Até duas horas atrás nem sonhei com a
possibilidade de sair de Swoofon. Só quando recebi seus chamados...
Wroma
começou a sentir que seu pressentimento não o enganara.
Alguma
coisa não estava certa.
Quase nada
estava certo...
2
A Drusus
estava a duas horas-luz de Swoofon. Numa rápida manobra a nave de
reconhecimento que regressava foi introduzida no gigantesco corpo da
nave capitania. Seus ocupantes já haviam sido informados por meio de
uma mensagem de rádio transmitida por Redkens que Kulman trouxera
mais um passageiro.
Muzel teve
de conformar-se em ser tratado como um cachorro igual a qualquer
outro: foi colocado sob a ducha de desinfecção. O animal tremeu ao
ser submetido a esse procedimento, mas dele saiu incólume.
Já Kulman
recebeu instruções para comparecer imediatamente à sala de comando
a fim de apresentar seu relatório a Rhodan.
Ele o fez,
embora não se sentisse nem um pouco à vontade. Durante o vôo de
regresso tivera tempo de sobra para conversar com Wroma e Redkens.
Compreendera que em toda aquela história havia uma lacuna, que
dificilmente poderia ser preenchida.
Rhodan
estendeu a mão a seu agente. Kulman segurou-a e olhou apressadamente
em torno. Estava interessado em saber quem mais se encontrava por
ali, além de Rhodan e ele mesmo. O Primeiro-Tenente Sikermann estava
sentado na poltrona do piloto e realizou mais uma vez os cálculos do
primeiro hipersalto, que em hipótese alguma os levaria diretamente à
Terra. Reginald Bell achava-se no sofá, ao lado de Gucky, e parecia
muito interessado no relato a ser apresentado. Ainda havia Hubert
Gorlat e John Marshall, chefe do Exército de Mutantes e superior
hierárquico direto de Kulman.
“É
um público respeitável”,
pensou o agente, completamente perplexo. O que queriam? Não se
lembrava...
— Bem-vindo
a bordo da Drusus, Jost Kulman — disse Perry Rhodan e fitou
atentamente os olhos do micrótico. — O senhor transmitiu o sinal
de alarma. Imediatamente respondemos a seu pedido e viemos buscá-lo.
Queira informar por que desejava sair de Swoofon.
Kulman
respirou profundamente. Pretendia formular um protesto enérgico, mas
logo se lembrou de que John Marshall era telepata. A partir deste
instante todos seus pensamentos seriam controlados. Seria inútil
tentar enganar os ouvintes.
— Swoofon
é um mundo pacífico e laborioso. Seus habitantes, os swoons, são
criaturas adoráveis, que não me criaram qualquer problema. Vivia
com eles e tive livre acesso às suas casas, na medida em que isso
era possível sob as condições existentes. O senhor deve saber que
a altura dos swoons não ultrapassa trinta centímetros. E é
evidente que as construções por eles levantadas se adaptam a esse
tamanho. E, uma vez que a maior parte das fábricas fica sob a
superfície, infelizmente não consegui penetrar nas mesmas.
— Peço-lhe
que se pronuncie sobre o motivo do alarma.
Rhodan
parecia impaciente. Kulman estremeceu. Marshall levantou-se e lançou
um olhar penetrante para o agente.
— Nunca
dei o alarma — respondeu Kulman. — Há poucas horas recebi o
sinal de chamada da Gazela e fui informado de que vieram para me
levar. Não sei como explicar o fato. Por acaso receberam um sinal de
alarma vindo de Swoofon?
Rhodan
estreitou os olhos e fez um gesto afirmativo.
— Não
existe a menor dúvida, Kulman. E o alarma partiu do senhor! A
central de Terrânia voltou a confirmar esse fato a meu pedido. Temos
certeza absoluta de que há menos de um dia, tempo terrano, o senhor
transmitiu-o e pediu que viéssemos buscá-lo. Se alguém deve
explicações, é o senhor, Kulman.
Marshall
examinou os pensamentos do agente enquanto este procurava formular a
resposta. Não descobriu nada de suspeito. Pelo que o telepata pôde
constatar, estava falando apenas a verdade. Nenhuma das palavras que
proferira até então era uma mentira. Kulman não dera o alarma, nem
pedira que viessem buscá-lo em Swoofon.
— Talvez
isso tenha alguma ligação com o que aconteceu pouco antes de eu ter
recebido o sinal de chamada da Gazela — disse em tom hesitante. —
Não sei...
Kulman
olhou em torno e ficou satisfeito quando Rhodan apontou para uma
poltrona vazia. Suspirou aliviado e acomodou-se. Subitamente
sentia-se muito cansado.
— Não
pense que sou um covarde. Passei com distinção por todos os testes
de bravura; além disso, não havia nada a temer em Swoofon. Até me
dei muito bem com os saltadores de lá, e cheguei a trocar presentes
com muitos deles. Foi assim que recebi Muzel, meu possoncal, ou
bassê, como diria o senhor. Os possoncais vivem num mundo distante,
nas proximidades de Árcon, e são considerados animais domésticos
muito inteligentes e úteis. Caçam os animais daninhos e usam
alimentação vegetariana; no entanto, também comem carne. Gostam de
brincar e são fáceis de amansar. Em poucas palavras, fiquei
satisfeitíssimo quando me deram o animal.
— Quando
foi isso? — perguntou Rhodan.
— Há
dois meses — respondeu Kulman depois de uma hesitação quase
imperceptível.
Rhodan viu
Marshall erguer as sobrancelhas.
— Isso
mesmo, foi há dois meses. E nestes dois meses Muzel, é este o nome
que dei ao bichinho, conquistou minha amizade e minha confiança.
Hoje somos amigos inseparáveis.
— Será
que o senhor não está exagerando um pouco com esse seu amor pelos
animais? — perguntou Sikermann em tom irônico, sem dar a menor
atenção ao olhar de advertência de Rhodan.
Gucky
erguera-se no sofá e fitava Kulman. Ninguém podia adivinhar o que
se passava na mente do agente. Nem mesmo Marshall.
— Será
que há algo de errado em amar os animais? — perguntou Kulman em
tom de espanto. — Muzel salvou minha vida, e não há mais ninguém
que tenha feito isso. Nem mesmo o senhor, tenente.
Sikermann
estremeceu quando Gucky se pôs a rir sem o menor constrangimento. O
rato-castor achou que o oficial merecia essa resposta, ainda mais que
também se considerava um animal e defendia abertamente a opinião de
que certos animais têm um “caráter”
mais bem formado que a maior parte dos homens civilizados.
— Ninguém
tem nada contra a simpatia que dedica ao tal do Muzel — asseverou
Rhodan. — Apenas queremos que nos informe logo sobre o
acontecimento a que acaba de aludir. Talvez com isso possamos chegar
a uma conclusão sobre quem terá transmitido em seu lugar a mensagem
de alarma, já que afirma não ter sido o senhor.
Kulman fez
um gesto embaraçado e prosseguiu:
— Até
hoje foi tudo muito bem. Diariamente pousam naves no maior
espaçoporto de Swoofon, chamado de Swatran. Dei pouca atenção a
elas, pois do contrário não teria tempo para fazer outra coisa. Mas
hoje tive minha atenção despertada para uma velha nave cuja
tripulação se comportou de forma estranha e pouco civilizada. Logo
desconfiei de que deviam ser piratas.
“Minha
suspeita foi confirmada pelos fatos. Aquela gente procurava briga, e
quem estava no seu caminho era eu. Acabara de fazer minhas compras na
cidade e pretendia voltar à pequena aldeia na qual morara nesta
última semana, quando essa gente começou a provocar-me. Eram uns
patifes selvagens e barbudos, com armas de radiação no cinto. Tive
a impressão de me encontrar no faroeste americano de anos atrás.
“É
claro que me defendi, mas eles eram muitos. Não poderia esperar
qualquer auxílio dos swoons, pois são muito pequenos e por
princípio fogem a toda e qualquer luta. Dependia exclusivamente de
mim mesmo. Dei um soco na boca do estômago do primeiro sujeito que
se aproximou, fazendo-o cair ao chão. Isso apenas enfureceu ainda
mais ou outros. Atacaram como que sob comando.
“Fugi o
mais depressa que pude e desapareci numa rua lateral. O senhor deve
estar lembrado de que a gravitação de Swoofon é apenas de um
quarto G. Foi isso que me valeu. Percorri as ruas em largos pulos,
saltando sobre as pequenas casas dos nativos, e logo me vi em
segurança. Era ao menos o que eu acreditava.
“Cheguei
à pequena aldeia em que morava, mas não encontrei Muzel. O cachorro
havia desaparecido sem deixar o menor vestígio. Só me restava sair
à sua procura. Alguém o vira correr para o norte.
“No
Norte apenas havia desertos, montanhas e planaltos. O que estaria
Muzel procurando por lá? Esqueci-me dos piratas de Swatran e fiz um
passeio prolongado até uma grande planície. Foi lá que encontrei
Muzel. Estava deitado numa pedra chata, dormindo e deixando-se tostar
pelo sol. Quando me coloquei à sua frente, acordou, piscou os olhos
e fez de conta que não poderia haver nada mais natural do que tirar
uma soneca em pleno deserto. Foi então que aconteceu.
“Um raio
desceu do céu azul e derreteu a rocha a vinte metros do lugar em que
nos encontrávamos. Logo após pousou uma pequena nave cilíndrica,
que não tinha mais de dez metros de comprimento. Cinco homens
saltaram e correram em minha direção. As pistolas e os punhais
antiquados que seguravam em atitude ameaçadora deixavam claro que
não poderia esperar nada de bom.
“Não
sei como explicar o caso. Nunca vira essa gente antes do incidente de
Swatran, mas fizeram como se tivessem uma velha conta a ajustar
comigo. Soltaram berros horríveis e precipitaram-se sobre mim. Foi
então que Muzel entrou em ação.”
Kulman fez
uma ligeira pausa e observou em torno com um ar de triunfo. Viu
olhares curiosos pousados nele. Nos olhos do rato-castor Kulman viu,
para sua surpresa, que não havia apenas espanto, mas também uma
simpatia indisfarçável; esses olhos emitiam um brilho feliz. O
rato-castor mantinha as orelhas de pé e adiantara o dente roedor, a
fim de dar testemunho de sua satisfação.
Kulman
prosseguiu:
— Muzel
avançou sobre os cinco sujeitos, dando-me um exemplo, pois não
posso deixar de confessar que já perdera a coragem. Com uma mordida
arrancou a pistola da mão do homem que vinha na frente; depois
ferrou os dentes em sua perna, fazendo-o cair ao chão com um grito
de dor. Outro saltador, que ameaçava saltar diretamente em cima de
mim, não teve sorte melhor. Desviei-me e pretendia usar os punhos,
quando Muzel caiu sobre ele e o mordeu na nuca.
“Dei
conta do terceiro com meus punhos, enquanto Muzel cuidava do quarto.
O quinto deixou cair a arma e saiu correndo que nem um louco. Face à
nave que se encontrava pousada nas proximidades, julguei preferível
dar o fora. De longe ainda vimos os feridos serem recolhidos. Depois
disso a pequena nave decolou e logo desapareceu no céu. Ainda não
consegui descobrir o que essa gente queria comigo. Provavelmente
nunca saberemos. Mas posso garantir uma coisa: se é que dei o alarma
e pedi que viessem buscar-me, não foi por causa deles.”
— Ninguém
afirmou isso — disse Rhodan. — E tal procedimento representaria
uma impossibilidade técnica. Pelo que diz, o ataque ocorreu poucas
horas antes do pouso da Gazela. Acontece que a mensagem foi captada
ontem pela estação de Terrânia. Onde estava ontem?
A pergunta
foi formulada em tom sério e objetivo.
— No meu
rancho, na aldeia em que resido. Essa aldeia fica a uns duzentos
quilômetros de Swatran. Os swoons haviam construído uma residência
para mim, que pelos padrões deles era um verdadeiro armazém. No
entanto, mal conseguia ficar de pé naquela cabana.
— Não
chegou a ligar seu hipertransmissor?
— Não.
Se tivesse ligado, eu saberia.
— Talvez
soubesse — retificou Rhodan e lançou um olhar para Marshall.
Este
confirmou que Kulman estava dizendo a verdade.
“Caramba!
Qual seria o ponto errado dessa maldita história? Não era possível
que Kulman estivesse mentindo e dizendo a verdade ao mesmo tempo. Ou
era?”,
pensou Perry.
Esse “ou”
pôs Rhodan na pista certa. Mas por enquanto ele a guardou para si.
Kulman
parecia bastante perturbado. Passou nervosamente a mão pelo cabelo.
— Já
não compreendo mais nada, Sir. Depois do ataque dos piratas, voltei
à aldeia. Muzel estava ferido; mal podia andar. Por isso carreguei-o
nos braços e mais tarde tratei de sua ferida. Afinal, o animal
salvara minha vida. Já compreendem por que não o quis deixar para
trás?
Sem
aguardar resposta, acrescentou:
— Há
umas quatro ou cinco horas ouvi de repente o sinal de meu receptor.
Uma voz que me era estranha disse que o chefe me estava esperando e
que viriam buscar-me. Naturalmente fiquei surpreso; acreditava que
pretendiam retirar-me de Swoofon por motivos táticos. Depois fiquei
sabendo que, segundo se diz, eu mesmo teria solicitado o revezamento.
O senhor há de compreender que me sinto um tanto confuso.
— Compreendemos
perfeitamente, Kulman — confirmou Rhodan. — Logo chegaremos ao
fim do interrogatório. A Drusus voltará à Terra. Lá seu relatório
será examinado e analisado. Acredito que não haverá problemas para
o senhor. Uma coisa é certa: alguém, repito, alguém usou seu
transmissor para solicitar sua substituição. Mas prossiga no seu
relato. Apenas mais algumas perguntas: Para quem trabalham as
fábricas dos swoons? Quem são os principais compradores de seus
produtos?
Kulman
estava prestes a responder, quando o intercomunicador emitiu um
zumbido. Rhodan ligou para a recepção. O rosto do oficial da equipe
de rádio surgiu na pequena tela que ficava à frente do assento do
piloto.
— Queira
desculpar a interrupção — disse o oficial — mas acho que o
assunto é importante. Recebemos sinais transmitidos numa
hiperfreqüência totalmente estranha. Trata-se de sinais simples,
sem qualquer modulação. Até parece que alguém está interessado
em...
— De
onde vêm os sinais? — indagou Rhodan.
— Não
conseguimos determinar a posição exata. A transmissão durou apenas
alguns segundos; só tivemos tempo de tentar a medição goniométrica
com dois receptores próximos um ao outro. A única coisa que sabemos
é que, em hipótese alguma, o transmissor fica a mais de dez
quilômetros da nave.
— Dez
quilômetros? — disse Rhodan em tom de espanto.
Apenas por
alguns segundos pareceu surpreso e um tanto desorientado.
No momento
em que o operador de rádio respondeu “sim
senhor”,
um sorriso fugaz passou por seu rosto. Até parecia que o estranho
incidente, longe de preocupá-lo, representava um divertimento.
Olhou para
os oficiais.
— Queiram
desculpar — disse em tom tranqüilo. — Face ao imprevisto, a
continuação do relato de Mr. Kulman evidentemente terá de ficar
para uma ocasião mais apropriada. Os senhores ouviram o que
aconteceu. E todos hão de compreender que devemos agir com a maior
cautela.
Contava-se
com a possibilidade de que o transmissor desconhecido, que emitia
sinais goniométricos, voltasse a manifestar-se. Operadores de rádio
com receptores goniométricos portáteis foram postados em diversos
lugares e aguardaram o próximo sinal.
Rhodan
deixou o comando da nave provisoriamente a cargo de Reginald Bell e
foi à sala de rádio, para examinar os sinais registrados num
oscilógrafo.
O oficial
de rádio apresentou-lhe os registros. Rhodan viu foi uma curva
sinusóide que quase chegava a ser matematicamente exata, modulada
com outra curva, tão exata quanto a primeira, mas emitida em baixa
freqüência.
Era a
imagem parcial de um único sinal. Em outra fita oscilográfica toda
a seqüência estava registrada em escala reduzida. Rhodan constatou
que os sinais não haviam sido emitidos em intervalos regulares.
Verificava-se neles uma distribuição aproximadamente estatística.
Esses sinais ainda se distinguiam no comprimento.
— O que
acha disso? — perguntou Rhodan, dirigindo-se ao oficial. —
Acredita que o fenômeno poderia ter uma explicação natural?
O operador
de rádio sacudiu a cabeça.
— Não
senhor. Se é que o entendo bem, o senhor se refere a hiperondas que
às vezes surgem quando partículas de poeira cósmica ou objetos
maiores colidem com os campos defensivos da nave.
— Isso
mesmo.
— O
aspecto do sinal não é este — asseverou o oficial da equipe de
rádio. — Nunca seria tão regular como este. O que temos diante de
nós são duas ondulações matematicamente perfeitas. É altamente
provável que tenham sido emitidas por um transmissor em perfeitas
condições.
— É
altamente provável? Quer dizer que não é certo?
O operador
de rádio sorriu.
— Naturalmente
não podemos afirmar com certeza. Em casos como este nunca pode haver
uma certeza absoluta. A probabilidade de que um fenômeno natural
possa provocar vibrações tão regulares é extremamente reduzida,
mas não deixa de existir.
Rhodan
acenou com a cabeça; parecia pensativo.
— Será
que os intervalos irregulares entre os sinais não são um fato que
fala a favor da formação natural destes? — perguntou depois de
algum tempo.
— Ainda
não pensei sobre isso — confessou o oficial. — Sou de opinião
que depende exclusivamente da vontade do operador de um transmissor
de hipercomunicação emitir os sinais neste ou naquele intervalo.
— O
senhor acaba de falar em operador — observou Rhodan. — Acontece
que talvez se trate de um transmissor automático. Nesse caso seria
menos provável que os sinais fossem emitidos em intervalos
irregulares, não é?
— Seria
menos provável — admitiu o operador de rádio. — Mas não seria
impossível.
Rhodan
sorriu.
— Vejo
que faz questão de não me tranqüilizar — disse. — Mais uma
pergunta: no instante em que foram captados os sinais, constatou-se a
presença de algo suspeito nas proximidades da nave?
— Não
senhor. Não se constatou absolutamente nada.
Rhodan
dispôs-se a sair.
— Está
bem — disse a título de despedida. — Continue atento e avise-me
assim que ouvir qualquer novidade.
*
* *
Ao sair da
sala de rádio, Rhodan encontrou-se com Atlan, o arcônida.
— Vejo
que estou chegando tarde — disse Atlan. — Já deu uma olhada nos
oscilogramas?
Rhodan fez
que sim.
— Nem
precisa entrar. São duas vibrações exatas que, segundo a opinião
do operador de rádio, só poderiam ser transmitidas por um emissor.
Uma
expressão de desconfiança surgiu no rosto de Atlan.
— Qual é
sua opinião? — perguntou, esticando as palavras.
Rhodan deu
de ombros.
— Neste
caso não tenho opinião — respondeu. — O operador de rádio
entende mais destas coisas que eu. Por isso não vejo motivo para
bancar o inteligente.
— Compreendo
— disse Atlan. — Você se vê numa situação melindrosa: está
com pressa, mas tem de agir com cautela. Tem de equilibrar numa
mistura exata a pressa e a cautela. É estranho...
Encontravam-se
lado a lado sobre a fita rolante que os levava pelo corredor.
— O que
é estranho? — indagou Rhodan.
— Não é
nada de importante. Estava pensando que um problema como este seria
fácil de resolver, se houvesse uma matemática específica para o
caso. A solução mais favorável poderia ser obtida por meio da
diferenciação de uma equação e da nulificação do valor extremo;
seria simples.
Rhodan
fitou-o com uma expressão de espanto.
— Atlan,
você é um filósofo — disse em tom irônico. — Acontece que no
momento não preciso de um filósofo, mas de um criminalista...
— Oba!
Acha que o caso é tão sério assim?
Rhodan
respondeu com outra pergunta:
— E
você, acha que o caso não é sério?
Atlan fez
como quem quer assobiar, e sorriu ligeiramente.
— Antes
de responder, gostaria de ouvir sua opinião.
— Está
bem. Na minha opinião há uma pequena chance de que os sinais se
tenham formado de maneira natural. Junto a uma grande nave equipada
com campos defensivos sempre existem fontes de impulsos
hipermagnéticos, que irradiam certos sinais. Durante uma batalha
espacial, quando os campos defensivos têm de repelir um tiro após o
outro, esses campos muitas vezes se tornam tão intensos que a
telecomunicação é paralisada. É bem verdade que as perturbações
desse tipo não assumem feitio regular. Portanto, a probabilidade de
que não haja motivo para preocupações é extremamente reduzida.
“Em
segundo lugar, o operador de rádio não conseguiu realizar uma
medição goniométrica precisa. Por meio de dois receptores próximos
um ao outro apurou que a fonte dos sinais não podia encontrar-se a
mais de dez quilômetros da nave, e que ficava na direção do sol
Swaft. A indicação é bastante vaga. Talvez os sinais poderiam
provir de um ponto bem mais distante, de Swoofon, por exemplo, e não
nos digam respeito. Para isso, porém, seria necessário que o
operador de rádio tivesse cometido um engano tremendo.”
— E você
não gosta de admitir que seus homens cometem enganos graves? —
interveio Atlan.
Rhodan não
respondeu à objeção.
— Em
terceiro lugar — prosseguiu — evidentemente existe a
possibilidade de alguém ter colocado um espião nas proximidades da
nave, e que este tenha de informar seu chefe sobre a posição da
Drusus. É claro que neste caso a situação seria bastante perigosa,
e teríamos de tomar todas as medidas de segurança.
Lançou um
olhar para o arcônida.
— Minha
opinião é esta. Agora não continue a esconder a sua.
Atlan
parecia muito alegre.
— Sabia
que me pouparia muitas palavras se o deixasse falar em primeiro lugar
— disse. — Minha opinião é exatamente a mesma que a sua. Há
uma pequena probabilidade de que tudo não passe de um simples acaso,
e uma probabilidade muito maior de que haja um espião por perto.
— O que
me deixa admirado é o fato de que nossos instrumentos não localizem
nada nas proximidades da nave — disse Rhodan com uma expressão
contrariada.
— Posso
explicar o fato. Caso se trate realmente de um espião, este não se
encontra nas proximidades da nave, mas no seu interior.
Rhodan
decidiu permanecer por cinco horas no mesmo lugar. Se dentro desse
prazo o transmissor de sinais goniométricos não voltasse a emitir
sinais, partiria para o hiperespaço, percorrendo numa única
transição duzentos anos-luz em direção ao centro da Galáxia.
Se o
emissor não voltasse a transmitir qualquer sinal, teriam sido
vítimas de engano, e não haveria nada que objetar ao regresso à
Terra. A principal tarefa do emissor de sinais goniométricos, se é
que este existia, deveria consistir em transmitir sinais do ponto
final de cada transição, a fim de que o receptor pudesse traçar a
rota da nave.
Rhodan
lembrou-se de que em outra oportunidade já fugira dos arcônidas que
o perseguiam, em direção ao centro da Via Láctea. Se o espião
que, segundo acreditava Atlan, se encontrava a bordo da nave,
estivesse trabalhando para o computador-regente de Árcon, este
receberia pela segunda vez, depois de sessenta anos, a informação
de que uma nave terrana se deslocava em direção ao centro da
Galáxia. A máquina possuía uma capacidade extraordinária de
raciocinar logicamente. Contaria com a possibilidade de que Rhodan,
quando se sentia ameaçado, fugia sem fornecer a menor indicação
sobre a posição de seu mundo.
Perry
divertia-se com a idéia de que talvez uma segunda fuga em direção
ao centro da Galáxia pudesse fazer o computador-regente vacilar em
suas conclusões. Quem sabe se não acabaria acreditando que a Terra
realmente poderia ser encontrada nesse setor...
*
* *
Bell viu
Baldur Sikermann introduzir as coordenadas do salto no computador de
pilotagem e disse:
— Acho
que ainda temos um pouco de tempo, não temos?
— Algumas
horas. No momento os riscos ligados a um salto seriam muito elevados.
Se a bordo da Drusus existir um transmissor que comunica nossa
posição a alguém...
— Acho
que tudo não passa de acaso — disse Bell e acomodou-se numa
poltrona, perto de Sikermann. — Não acha?
Antes que
Sikermann pudesse responder, uma voz aguda cortou-lhe a palavra.
Gucky escorregara do sofá, arrastou-se até a porta e abriu-a sem
tocá-la. Gostava de usar suas capacidades telecinéticas para seu
conforto.
— Vou
dar uma olhada no tal do Muzel — anunciou e saiu caminhando pelo
corredor. — Quem ouve Kulman deve pensar que bassê é um modelo de
obediência...
— O que
pretende fazer, Gucky? — perguntou Bell. — Deixe o cachorro em
paz.
— O
bicho já foi desinfetado; portanto, não poderei trazer pulgas de
lá, se é isso que o preocupa — disse Gucky, piscando os olhos
castanhos. — Quem sabe se ele pode coçar meu pêlo?
Mal acabou
de pronunciar estas palavras, desapareceu. A porta fechou-se
automaticamente.
Bell
fitou-a.
— Tomara
que não faça bobagens — observou.
Por
enquanto Gucky nem estava pensando nisso.
Teleportou-se
para o setor de desinfecção, que ficava nas proximidades da
comporta principal. Chegou justamente na hora de poder perguntar aos
químicos que retornavam de seu serviço onde haviam deixado Muzel. O
segundo salto colocou-o diretamente no compartimento que viria a ser
o camarote de Kulman.
O agente
ainda se encontrava na sala dos tripulantes, mas poderia chegar a
qualquer momento. O animal estranho, ao qual Kulman se referira em
termos tão elogiosos, estava deitado junto da porta. Gucky
materializou-se a dois metros do cão e deixou-se cair sobre as patas
traseiras. Examinou atento o bassê, que parecia dormir
profundamente.
Gucky
expediu seus impulsos mentais, procurando penetrar suavemente no
cérebro daquele ser estranho. Kulman afirmara que Muzel não tinha
bastante inteligência para comunicar-se. Era claro que o bassê não
sabia falar. Mas se possuísse um mínimo de inteligência deveria
pensar...
— Que
absurdo! — balbuciou o rato- castor.
Realmente,
Muzel estava pensando. De início Gucky sentiu-se surpreso ao
perceber que aquele cachorro, que geralmente era considerado um
animal da terra, sonhava com a água e com plânctons que boiavam
nela. Mas logo se lembrou de que mesmo os seres mais inteligentes,
como o homem, costumam sonhar com as coisas mais absurdas. Geralmente
as manifestações de consciência verificadas durante o sono são
totalmente diversas das que se verificam no estado de vigília.
“Por
que Muzel não poderia sonhar com o plâncton?”,
pensou absorto.
Os
pensamentos eram confusos e indefinidos, mas não havia dúvida de
que eram pensamentos. Gucky sentiu-se um pouco mais tranqüilo, por
saber que poderia fazer alguma coisa com aquele animal. Então passou
a dedicar sua atenção ao aspecto exterior.
O
companheiro de Kulman realmente se parecia com um bassê. As
esquisitas orelhas penduradas não constituíam a única
característica que lembrava o fiel quadrúpede terrano, que os
entendidos de nosso planeta costumavam designar tanto com o nome de
bassê como com o de cão rasteiro. Gucky não era nenhum entendido
no assunto. Para ele um bassê era um bassê, quer tivesse pernas
tortas, quer não. Os belos olhos cor de ouro formavam um contraste
notável com o pêlo cinza-prateado; naquele instante o animal os
abriu, como se durante o sono tivesse sentido a chegada de Gucky.
Este
sorriu e exibiu o dente roedor. Enquanto isso telepatava
intensamente:
— Olá,
Muzel! Meu nome é Gucky; sou seu amigo. Vamos brincar de esconder?
Não houve
nenhuma reação da qual Gucky pudesse concluir que Muzel recebera e
compreendera sua mensagem telepática. Pelo contrário; nos olhos
dourados de Muzel lia-se uma espécie de espanto enorme pelo fato de
que existia um rato-castor daquele tamanho. De início Gucky chegou
mesmo a ter a impressão de ler neles uma expressão de pavor, mas
evidentemente isso podia ser um simples engano.
“Mas
há os impulsos mentais...”,
pensou o animal mutante.
Continuavam
a ser fracos e indefinidos, mas sua presença era incontestável. O
tal do Muzel sabia pensar, embora não fosse propriamente um telepata
capaz de captar os pensamentos alheios. A conversa até então não
passava de um monólogo.
“Talvez
entenda o inglês”,
pensou Gucky. “Afinal,
Kulman deve ter falado com ele.”
— Meu
nome é Gucky — disse, falando devagar e acentuando as palavras. —
Sou seu amigo, Muzel. Vamos brincar de esconder?
Teve a
impressão de que Muzel estava prestando atenção às suas palavras.
O bassê
fitou o rato-castor. Um brilho amistoso surgiu em seus olhos.
Subitamente o cérebro de Gucky captou a resposta, debilmente
transmitida.
— Seu
nome é Gucky. Vamos brincar de esconder. O que significa isso?
O
rato-castor sentiu-se tão feliz que por pouco não acariciou Muzel.
Conseguira estabelecer contato. Acabara de encontrar um companheiro
de brincadeira.
— É
simples, Muzel. Um de nós terá um minuto para esconder-se em
qualquer lugar no interior da nave. E o outro terá de procurá-lo.
Se não conseguir encontrá-lo dentro de dez minutos, terá perdido a
partida. Você nunca brincou de esconder?
— Não;
nunca.
— Então
está na hora! — asseverou Gucky. — É muito divertido. Será que
está cansado demais?
Muzel
bocejou ao ser lembrado da idéia de cansaço, espreguiçou-se e
levantou. Saltitou em direção a Gucky e farejou o mesmo.
— Você
cheira muito bem.
O
rato-castor ficou tão perplexo que não soube o que responder.
“Então
cheirava bem”,
pensou admirado.
Até então
ninguém havia dito isso, se bem que por outro lado ninguém havia
afirmado que Gucky cheirasse mal.
— Onde
está Kulman?
Gucky
sentiu-se pego de surpresa.
— Deve
chegar a qualquer momento, Muzel. Infelizmente está demorando
porque... bem, porque...
Gucky
refletiu se devia contar ao bassê o que havia acontecido.
— Bem,
ficou com fome e está comendo — prosseguiu, sentindo-se satisfeito
porque o cão não sabia ler pensamentos. — Você não está com
vontade de comer?
Parecia
que Muzel se assustara.
“Por
que ele se assustou quando alguém perguntava se estava com
apetite?”,
pensou indagando-se.

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