— Meu
Deus — disse. — Esta nave dispõe de uma instalação
eficientíssima de intercomunicações. Por que será que Hollander
não pega um microfone e lhe diz o que quer de senhor?
Até então
Mullon nunca havia quebrado a cabeça sobre isso. Logo concluiu que
se Hollander — já de posse de todas as instalações, inclusive as
de intercomunicação — enviava um mensageiro, ainda não aprendera
a usar o complicado sistema de comunicações da nave. A não ser que
o mesmo tivesse sido destruído durante a luta.
Mas Mullon
achou que este ponto não era muito importante. O que lhe interessava
saber era se Hollander cumpriria sua ameaça e consideraria a
resposta negativa com um motim, para lançar seu ataque.
O’Bannon
recebeu instruções para ir ao convés F em companhia de quatro
homens armados, a fim de assumir seu posto na área XIV,
setor
1, seção g.
Seis
homens armados esconderam-se na sala dos tripulantes. O conduto de
ventilação corria pelo centro da parede dos fundos. O ar saía
pelos “poros”
do material, motivo por que não havia nenhuma abertura. Sem dúvida,
os homens de Hollander abririam caminho com seus desintegradores, no
momento em que recebessem ordem de atacar.
Mullon
resolveu fazer um plano de ataque. Partiu da suposição de que
Hollander ainda acreditava que os democratas não possuíssem
qualquer armamento. Em sua opinião não poderia saber que quase a
metade dos tripulantes que restavam se havia juntado a ele. Se é que
os filósofos da natureza poderiam sentir-se livres de perigo, seria
nessa hora. Assim que se lançassem ao ataque saberiam que os
democratas estavam armados, ou ao menos parte deles, e dali em diante
Hollander mandaria guarnecer as posições mais importantes.
A idéia
para o golpe partiu de Milligan que, embora não fosse oficial,
acabou revelando-se um excelente estrategista. Na opinião de
Milligan o ponto mais crítico da nave não era a sala de comando,
mas a de máquinas, isso especialmente face aos planos que Hollander
ainda poderia ter em relação à Adventurous. Quem controlasse a
sala de máquinas poderia fazer com que as ordens dadas pela sala de
comando fossem ou não executadas.
Hollander
sabia disso. Uma boa quantidade de pessoas devia estar vigiando a
sala de máquinas. Mas o simples fato de Hollander preferir atacar a
sala de máquinas, depois de ter se apoderado da sala de comande,
parecia indicar que não dava à mesma importância que realmente
merecia. Milligan achava que na sala de máquinas haveria sentinelas,
mas não muitas. Acreditava que uns poucos homens bem armados teriam
uma boa chance, ainda mais que o grande número de máquinas
dificultava o controle do recinto.
Mullon
deixou-se convencer. Mais do que isso, assumiu pessoalmente o comando
do grupo que se dirigiu à sala de máquinas. Esse grupo era formado
por três homens: Mullon, Milligan e o sargento Brennan. Este último
estava armado com um desintegrador, enquanto Milligan e Mullon
levavam microrradiadores.
O que
preocupava Mullon era o fato de que, durante o avanço em direção à
sala de máquinas, seria praticamente impossível manter contato com
seu grupo. Milligan tentara utilizar uma das linhas do
intercomunicador, que partia da sala dos tripulantes, mas não foi
bem sucedido. Mullon colocou o destino dos democratas autênticos nas
mãos de Wolley, que foi nomeado seu representante, e garantiu que
voltaria o mais rápido possível.
Não pôde
despedir-se de Fraudy, que estava ocupada com a mudança das mulheres
para os setores mais afastados.
7
O’Bannon
conduziu os quatro homens pelo tumulto das mulheres em mudança,
levando-os à seção K. Ali, mandou que entrassem num dos elevadores
secundários que ligavam algumas áreas de conveses, subindo e
descendo alguns pavimentes.
O’Bannon
foi o primeiro a entrar no poço. A sucção suave do campo
antigravitacional levou-o para cima. Seus homens seguiram-no.
Pela
primeira vez O’Bannon deu-se conta de que uma boa memória é um
verdadeiro tesouro. Desde que ingressara na Associação dos
Democratas Autênticos, trabalhava em estreita cooperação com
Mullon, funcionando na diretoria da entidade. Por isso conheceu muita
gente; e, como tivesse boa memória, não se esqueceu de nenhum
deles.
Conhecia
todos os quatro mil que haviam sido condenados em Terrânia, tanto os
homens como as mulheres. E sentia-se grato por isso. Se não fosse
assim, poderia facilmente ver-se numa situação em que não saberia
dizer se o homem à sua frente era um democrata ou um filósofo da
natureza.
O’Bannon
resolveu sugerir o uso de um distintivo. Nem todos tinham memória
tão boa quanto ele.
O’Bannon
e seu grupo foram passando pela área I
do
convés E e pela área XV
do
convés F. Cada um dos grandes conveses dividia-se em quinze áreas,
e cada uma delas tinha seis metros e meio de altura, e assim podia
abrigar dois pavimentos. As áreas dos conveses eram numeradas de
“cima”
para “baixo”,
sendo que estas designações correspondiam à posição normal da
nave no campo de pouso ou à situação criada pelo campo de
gravitação artificial ativado durante o vôo.
Depois de
chegar à área XV,
O’Bannon
deixou-se escorregar para fora do poço do elevador. Pediu aos seus
homens para aguardarem e avançou lentamente por um corredor que
partia do elevador, até chegar ao limite da seção I.
Os
compartimentos situados à direita e à esquerda do corredor serviam
para abrigar a carga.
O’Bannon
voltou para junto de seu grupo, depois de ter descoberto que ninguém
se encontrava no pavimento XV.
Saltou
para dentro do elevador antigravitacional e deixou-se levar para
baixo juntamente com seus parceiros. Examinou cuidadosamente o
elevador. Estava muito bem iluminado e podia ser visto perfeitamente
até o lugar em que terminava no pavimento V.
O’Bannon
sentiu-se tranqüilizado ao notar que estava vazio.
A seção
K do décimo quarto pavimento também estava vazia. Passou pelas
seções I
e
H, chegando ao limite da seção G, sem que ninguém procurasse
impedi-lo. Ainda não havia visto nenhum dos homens de Hollander.
Prosseguiu
sistematicamente na busca. Sabia que a seção G media 50 metros de
comprimento e tinha uma largura média de duzentos metros. Essa área
de cerca de dez mil metros quadrados, dividida em dois pavimentes,
estava entrecortada por uma série de corredores largos e estreitos.
Atrás de qualquer canto destes, poderia surgir um filósofo da
natureza. Instruiu seus homens a manterem as armas prontas para
disparar.
Se
houvesse um encontro, deveriam evitar que um dos inimigos escapasse e
revelasse aos companheiros o avanço que os quatro fizeram.
Quando
O’Bannon, pelos seus cálculos, havia revistado aproximadamente
metade da seção, ouviu um ruído estranho à sua frente.
Pediu que
dois dos homens ficassem para trás e avançou cuidadosamente com os
outros dois. Seguiram o ruído e acabaram entrando num corredor
secundário, onde o ruído parecia mais forte.
Mais à
frente o corredor parecia envolto em neblina. O’Bannon procurou
farejar e constatou que a neblina não passava de uma fumaça
ordinária.
Dali a
pouco, viu a abertura da qual saía a fumaça. Era uma escotilha
aberta. Numa pausa entre os estranhos ruídos ouviu alguém tossir e
gritar.
O’Bannon
não tinha a menor idéia do que estaria acontecendo além da
escotilha. Quando notou que a fumaça se tornava cada vez mais densa,
dificultando a visão, arriscou-se a avançar até a escotilha e dar
uma olhada pela mesma.
Viu vultos
que se moviam junto à parede oposta. Alguém gritou:
— Atenção!
Um raio
fino e ofuscante atravessou a sala e o ruído que havia chamado a
atenção de O’Bannon encheu a sala. Dali a pouco, novas nuvens de
fumaça envolveram a cena.
O’Bannon
vira bastante. Os homens de Hollander estavam fazendo uma abertura
para penetrar no conduto de ventilação. As ferramentas que usavam
para isso eram radiadores térmicos. Tinham que enfeixar os raios
muito estreitamente para não queimar toda a parede, e os raios assim
concentrados provocavam o ruído, semelhante ao que se ouvia quando
alguém rasgava fazenda.
Não sabia
por que os homens não usavam desintegradores. O funcionamento destes
era quase totalmente silencioso e não provocava fumaça. O’Bannon
concluiu que Hollander ainda não conseguira apoderar-se de um número
suficiente de desintegradores para equipar todos os homens.
Além
disso, todos que trabalhavam junto ao conduto de ventilação
pareciam sentir-se em segurança. Apesar do barulho que provocavam
não haviam colocado nenhuma sentinela.
O’Bannon
reuniu seus homens e abrigou-se num pequeno depósito situado junto
ao grande salão, atravessado pelo conduto de ventilação. A
escotilha foi aberta apenas o suficiente para permitir a visão sobre
o corredor. O’Bannon esperava que Hollander enviasse um mensageiro
assim que chegasse a hora de lançar o ataque. E O’Bannon preferia
não agir antes disso.
* * *
O primeiro
trecho do caminho que levava à sala de máquinas foi percorrido sem
o menor problema. Era mais do que Mullon esperava.
Milligan
sugerira penetrar na sala de máquinas a partir do recinto em que
ficavam os tanques de hidrogênio. A matéria de apoio, que servia ao
funcionamento dos propulsores corpusculares, em vôo normal, era o
hidrogênio atômico. Milhões de metros cúbicos do mesmo eram
guardados em gigantescos tanques, em ambiente super-refrigerado e em
estado líquido. Condutos resistentes corriam dos tanques para os
motores corpusculares. Esses condutos, por sua vez, eram ladeados por
estreitos passadiços, que permitiam a inspeção e os reparos.
Milligan
acreditava que os homens de Hollander provavelmente ainda não teriam
notado os passadiços que ficavam na parte superior das paredes da
sala de máquinas ou, se os tivessem descoberto, não lhes dessem
maior importância.
Mullon
mantinha-se constantemente na periferia da nave, ou seja, nos setores
I
ou
K, embora isso representasse um caminho mais longo. Os democratas
autênticos haviam sido alojados nos conveses C a E, e dentro destes
nos setores 9, 10, 1 e 2. Os alojamentos dos filósofos da natureza
ficavam nos mesmos conveses, apenas nos setores 4, 5, 6 e 7.
O barulho
em torno de Mullon e seu grupe só cessou quando estes pegaram o
elevador antigravitacional e atravessaram a linha divisória entre o
convés C e o convés B, situado mais abaixo. É bem verdade que ali
teriam de ficar com os olhos bem abertos. Provavelmente Hollander
estaria esperando um ataque à sala de máquinas.
Com
Milligan à frente, o grupo foi penetrando pelo pavimento central,
avançando da seção externa em direção ao eixo da nave. Ao
atingir a seção E, Milligan descreveu uma curva para a esquerda.
Passaram por um estreito corredor secundário e chegaram a uma longa
parede que apresentava poucas escotilhas. Em compensação liam-se de
espaço a espaço estes dizeres, escritos em letras brilhantes:
Atenção!
Combustível.
À
primeira vista percebia-se que não havia filósofos da natureza
nessa área. Milligan abriu uma das escotilhas e deixou que seus
companheiros passassem pela mesma.
Depararam-se
com um quadro impressionante. O recinto era circular e tinha um
diâmetro de cerca de oitenta metros. Parecia atingir uma
profundidade estonteante. Mullon teve a impressão de que o estreito
passadiço no qual desembocava a escotilha ficava praticamente no
centro do enorme cilindro.
A forma do
recinto era determinada pelo tanque abrigado no mesmo. Pelo visto, o
gigantesco recipiente, que preenchia quase cem por cento do recinto,
era feito de plástico metalizado que emitia um brilho fosco. O
espaço entre a amurada do passadiço e a parede do tanque era apenas
o suficiente para que um homem que tivesse braços muito compridos
pudesse tocá-lo.
Milligan
dirigiu-se para a direita. Mal acabara de dar o primeiro passo,
tropeçou. Segurou-se na amurada, olhou em torno muito perplexo e
indagou:
— O que
foi isso? O senhor percebeu? Brennan não havia percebido nada, porém
Mullon sentira perfeitamente.
— Até
parece que foi um terremoto leve — confirmou. — Conheço isto. Lá
em Seattle a terra costuma tremer vez por outra. Mas será que por
aqui pode haver terremotos?
Milligan
sacudiu a cabeça.
— Não
sei. Tomara que isso não acabe num desastre.
Mullon
prosseguiu cautelosamente. O abalo não se repetiu.
Contornaram
a metade do tanque e viram que do lado oposto havia tubos de vários
metros de diâmetro, que atravessavam a parede. Junto a cada um
desses tubos corria um passadiço metálico estreito, que podia ser
atingido por meio de um pequeno elevador antigravitacional ou de uma
escada.
Milligan
desceu ao passadiço situado mais embaixo. Mullon e Brennan
seguiram-no. Assim que alcançaram Milligan, este abriu um pouco a
escotilha através da qual o tubo penetrava no recinto ao lado.
— Tudo
em ordem — cochichou. — Não vejo ninguém.
Abriu a
escotilha de vez e passou pela mesma. Uma série de ruídos
indefiníveis passou pela abertura. Era o barulho do conjunto de
máquinas, trabalhando a toda força. Mullon viu que Milligan se
mantinha abrigado atrás de uma coluna e olhava em torno.
Mandou que
Brennan seguisse à frente. Aguardou até que este chegasse à coluna
e seguiu-o.
Ficou
surpreendido ao constatar que os tubos de combustível passavam muito
acima do piso da sala de máquinas. Calculou a altura em pelo menos
trinta metros. A altura total da sala devia corresponder ao dobro
disso. Lá nos fundos havia uma confusão formada por série de
conjuntos enormes e de formato estranho, parte dos quais tomava toda
a altura do recinto.
Mullon não
teve tempo de deleitar-se com a impressão.
Tinha que
prestar atenção aos homens de Hollander — e estes estavam lá
embaixo.
Mullon não
deu atenção ao rosto contrariado de Milligan. Apenas viu que lá
embaixo ao menos cinqüenta homens desenvolviam uma atividade febril.
Corriam de um lado para outro e gritavam comandos. Na frente de um
dos conjuntos menores, estava um homem de uniforme esfarrapado,
vigiado por dois guardas armados.
Mullon
procurou descobrir o que os homens de Hollander estavam fazendo lá
embaixo, mas não conseguiu. Perguntou a Milligan.
— O
grande conversor está quebrado — disse Milligan em tom
contrariado. — Provavelmente foi danificado quando atacaram nossos
homens. Precisam consertá-lo. O homem que lhes dá as respectivas
instruções é Stokes, um dos oficiais da equipe técnica.
Mullon
logo percebeu que vantagem representaria a libertação do oficial da
equipe técnica. Talvez fosse o único entre os ainda vivos que era
capaz de dar as informações necessárias ao reparo de um aparelho
importante.
Depois de
passar por uma coluna que seguia uns dez metros sem oferecer o menor
abrigo, descobriu seu término junto a um tubo vertical, servindo de
elevador antigravitacional. O poço corria obliquamente, passando por
um dos grandes canhões e atingia o chão perto do lugar onde se
encontrava o oficial algemado. A dificuldade consistia em atravessar
os dez metros sem ser visto. Na opinião de Mullon, o resto seria
fácil. Os poucos homens, que passavam apressadamente de um lado para
outro, estavam armados. Além disso, o elemento surpresa
desempenharia um papel importante. Por fim, o oficial da equipe
técnica era um homem tão importante que os filósofos da natureza
não se arriscariam a atirar depois que Mullon e seus homens o
tivessem libertado.
Milligan
não se impressionou com os dez metros.
— Posso
dar um jeito nisso — disse. — Brennan, dê-me o desintegrador.
Brennan
entregou-lhe a pequena arma. Milligan apontou para um lugar situado
nos fundos da sala. Puxou o gatilho. Um raio fino e claro saiu do
cano, atingiu o alvo e no mesmo instante fez com que a chapa de
revestimento de um dos aparelhos se desprendesse. A peça caiu ao
chão, provocando um barulho infernal.
Nenhum dos
homens de Hollander havia notado o disparo ligeiro e seguro. Mas o
barulho fê-los voltarem a cabeça. Alguém gritou algumas ordens.
Dez dos homens ocupados com os reparos do conversor separaram-se dos
outros e correram para o lugar de onde viera o ruído, a fim de
verificar por que a chapa se desprendera. Os demais seguiram-nos com
os olhos.
— É
agora! — cochichou Milligan. Nenhum dos homens que se encontravam
lá embaixo notou o grupo que atravessou o passadiço, às pressas,
mas cuidadosamente, para não provocar nenhum ruído. Antes que os
homens de Hollander descobrissem por que a chapa havia caído, o
grupo desapareceu no poço do elevador antigravitacional.
Mullon foi
o primeiro que, atingido pela sucção do campo antigravitacional,
chegou à saída inferior do poço. Viu que esta era ampla, e que
qualquer pessoa, que por acaso olhasse nessa direção, vê-la-ia
imediatamente.
Havia duas
possibilidades. Podia apoiar-se na parede e esperar um momento
favorável, ou avançar imediatamente.
Mullon
optou pela última afirmativa.
— Vamos!
— gritou para seus homens.
Saltou
suavemente para o chão e, ainda correndo, eliminou com um tiro o
guarda que vigiava o prisioneiro. Ouviu um chiado pouco acima de seu
ombro. Era a salva disparada por Milligan, que atingiu outro guarda.
Os demais
ficaram estarrecidos. E antes que estes tivessem tempo de desviar os
olhos dos dez homens que examinavam a chapa caída e percebessem o
que se passava, Mullon puxara o prisioneiro para junto de si e o
arrastava em direção ao elevador antigravitacional.
Milligan e
Brennan davam-lhes cobertura. Nenhum dos homens de Hollander julgara
necessário andar com a arma na mão. Seus radiadores estavam
guardados nos bolsos ou presos aos cintos.
— Venham
para cá! — gritou Milligan para os homens.
Obedeceram
com certa relutância. Milligan percebera logo que o maior perigo
residia no fato de estarem os homens espalhados pela sala. Por isso
reuniu-os num grupo compacto.
— Atirem
as armas no chão! — ordenou Milligan.
Alguns
obedeceram. Alguém que se encontrava nos fundos gritou:
— Parem,
seus idiotas! Somos muito mais que eles. Atirem, seus covardes!
Mas
Milligan estava atento a tudo. O homem ainda não acabara de proferir
a última palavra, quando um disparo passou junto à sua cabeça. Ele
desviou-se, tropeçou e caiu.
Ninguém
seguiu sua ordem. Todos obedeceram a Milligan. As armas foram caindo
ao chão.
O homem,
que se encontrava nos fundos, voltou a pôr-se de pé. Ao ver que os
outros haviam capitulado, também atirou fora sua arma. Abriu caminho
entre os demais e só parou quando Milligan levantou a pistola num
gesto de advertência.
— Atire,
seu idiota! — gritou com a voz zangada. — Quem vai consertar o
conversor?
Milligan
deu de ombros. Não estava interessado nisso.
— Ah,
quer dizer que você não se importa? — esbravejou o filósofo da
natureza. — Se Hollander fizer a Adventurous entrar em transição
daqui a meia hora, estaremos todos perdidos. Isso também não lhe
interessa?
Milligan
voltou-se para Mullon.
— Como é
que a Adventurous pode entrar em transição com um conversor
danificado?
— Pois é
justamente isso! — disse o homem em tom exaltado. — As avarias
são apenas parciais. O transformador de fases ainda trabalha com
sessenta por cento de sua potência.
Mullon
voltou-se para o oficial da equipe técnica que acabara de libertar.
— O que
significa isso?
O oficial
soltou uma risada contrariada.
— Antes
de mais nada, acontece que Hollander é um tolo. Pensa que estou
exagerando as avarias do conversor para criar problemas. Fixou o
momento da transição para obrigar-me a trabalhar depressa. Quanto
ao mais, Suttney está com a razão. As avarias do conversor são
apenas parciais. Talvez possa resistir a uma transição, talvez não.
Mas procure explicar isso a Hollander!
Mullon
olhou em torno. Milligan e Brennan continuavam com as armas
levantadas, mantendo os filósofos da natureza sob controle. Mullon
sabia que não poderia confiar neles.
— De
quanto tempo ainda dispomos, Suttney? — perguntou Mullon,
dirigindo-se ao homem que estava parado à frente de Milligan.
Suttney
olhou para o relógio.
— Vinte
e oito minutos.
— Quanto
tempo durarão os reparos? — perguntou Mullon ao oficial da equipe
técnica.
— Mais
ou menos o mesmo tempo. Se Hollander não conceder um prazo maior,
nossa situação será bastante difícil.
Mullon só
hesitou um instante.
— Preste
atenção, Suttney — disse. — Vamos reparar juntos o conversor.
Milligan pode ajudar um pouco, pois é técnico. Talvez consigamos
antes que Hollander entre em transição. Depois veremos o resto.
Combinado?
Suttney
parecia contrariado.
— Naturalmente.
Afinal, nossa vida está em jogo.
Mullon fez
um sinal para que os filósofos da natureza se afastassem para um
lado. Quando se encontravam suficientemente longe do montão de armas
jogadas ao chão, assumiu o lugar de Milligan e pediu que este fosse
ao conversor juntamente com o oficial da equipe técnica.
— Vamos
começar, gente! — gritou. — Precisamos terminar dentro de vinte
minutos.
Os
filósofos da natureza puseram-se a trabalhar com uma pressa notável,
sob a direção de Milligan e do oficial da equipe técnica. Enquanto
isso, Mullon ficou refletindo para descobrir uma maneira de impedir a
execução do perigoso plano de Hollander.
8
O’Bannon
e seus homens não tiveram de esperar muito tempo. A julgar pelos
ruídos, os filósofos acabavam de concluir o trabalho que vinham
executando na parede porosa do conduto de ventilação. Nesse
instante, O’Bannon viu pela escotilha entreaberta que um homem se
aproximava pelo corredor. Passou pelo esconderijo de O’Bannon e
penetrou no recinto contíguo.
O’Bannon
ouviu-lhe a voz forte e exaltada. Abriu de vez a escotilha e saiu.
Aproximou-se da entrada da sala contígua e ouviu o que se falava lá
dentro.
— Dentro
de meia hora tudo deverá estar terminado — disse alguém em tom
enérgico.
— Isto
só será possível se Mullon e seus auxiliares mais importantes
estiverem reunidos no mesmo lugar — respondeu outro homem. — O
que é que Hollander está pensando?
— Não
faço a menor idéia. Só sei que dentro de meia hora entraremos em
transição. E vocês sabem perfeitamente quais são os efeitos da
mesma. Se não terminarem ou não desaparecerem em tempo, os
democratas cairão em cima de vocês assim que passar a dor da
transição.
— Muito
bem. Faremos o possível. Quando é que Hackney deve atacar?
— Daqui
a cinco minutos. Sairá do corredor radial, avançando do setor cinco
diretamente para o setor um. Se vocês chegarem ao mesmo tempo à
sala de oficiais, Mullon estará entre dois fogos.
— Se é
que está por lá.
— Se não
estiver, prendam aqueles que encontrarem. Comecem logo! Não temos
tempo a perder.
O’Bannon
ouviu o ruído de passos.
Do lado de
dentro ouviu outros passos, que se aproximavam da escotilha.
O’Bannon, que se mantivera deitado no chão, levantou-se. Não teve
tempo para esconder-se.
O homem
que trouxera a ordem de ataque de Hollander voltou para o corredor
sem desconfiar de nada. Só descobriu O’Bannon quando já se
encontrava lado a lado com ele.
O’Bannon
não lhe deu tempo para soltar um grito de advertência. Saltou sobre
ele e apertou-lhe a garganta até que ficasse inconsciente.
Lá
dentro, onde os filósofos da natureza continuavam ocupados em
penetrar no conduto de ventilação a fim de descer ao convés E,
ninguém notou o incidente. O’Bannon levou o prisioneiro ao
esconderijo onde estavam seus companheiros. O homem de Hollander foi
amarrado e amordaçado. Deixaram-no ali mesmo. Depois o grupo de
O’Bannon penetrou na peça contígua, que os filósofos da natureza
acabavam de deixar através do conduto de ventilação.
O buraco
aberto na parede mal permitia a passagem de um homem. Mullon olhou
para dentro do canal de ventilação e descobriu pequenos degraus de
metal plastificado, colocados em fila vertical, quarenta centímetros
um acima do outro.
O’Bannon
já havia concebido seu plano. Desceria por ali com dois dos seus
homens, enquanto os outros dois ficariam na abertura, a fim de pegar
os filósofos da natureza que lhe escapassem.
A descida
decorreu sem qualquer incidente. Os sete ou oito homens, que
Hollander havia enviado para caírem nas costas dos democratas,
faziam tamanho barulho que O’Bannon e seus companheiros não
tiveram necessidade de tomar maiores precauções para não serem
descobertos.
Deviam
estar passando pela altura dos conveses F e E, quando mais embaixo
surgiu uma luminosidade ofuscante. Dali a alguns segundos, uma nuvem
de ar quente subiu pelo conduto. O’Bannon quase não conseguia
respirar.
Os
filósofos da natureza estavam começando a trabalhar na parede do
tubo de ventilação. Haviam chegado à altura da sala dos
tripulantes do convés F.
O’Bannon
sabia que levariam pelo menos quinze minutos para fazer uma abertura.
Trabalhavam com radiadores térmicos, que só poderiam ser usados a
uma distância segura e com raios finíssimos. Além disso, teriam de
esperar até que a parede, especialmente na parte próxima à
abertura, esfriasse o suficiente para permitir passagem.
Apesar
disso, O’Bannon se apressou. Desceu o bastante para que pudesse
enxergar o inimigo que se achava postado mais acima, poucos degraus
abaixo do lugar em que se encontrava anteriormente, à luz de um
radiador térmico. O inimigo dedicava toda atenção aos homens que
lá embaixo tentavam romper a parede.
O’Bannon
não perdeu mais tempo. Desceu o mais que podia, inclinou-se para a
frente e encostou o cano de sua arma ao ombro do inimigo
desprevenido.
— Tire o
dedo do gatilho — ordenou em voz suficientemente alta para ser
ouvido. — Passe para cá essa pistola, meu filho. Vamos logo!
O filósofo
da natureza obedeceu, perplexo e apavorado. O’Bannon tirou-lhe a
arma e cochichou ao seu ouvido:
— Agora
vá na minha frente e suba. Lá perto do buraco há gente esperando
por você.
O’Bannon
segurou-se com a mão esquerda nos degraus. Enfiara no bolso a arma
de que acabara de apoderar-se e mantinha seu próprio radiador na mão
direita. Os disparos de radiações, cuja luz fulgurante chegava lá
embaixo, permitiam que o inimigo surpreendido visse que já não
tinha a menor chance.
Foi
subindo devagar.
O’Bannon
continuou a descer. Surpreendeu mais três filósofos da natureza.
Tirou as armas dos mesmos e mandou que subissem. Seus bolsos estavam
enchendo.
Nesse meio
tempo, os outros inimigos haviam conseguido abrir um buraco na
parede. A luz da sala dos tripulantes iluminou o interior do conduto.
Mais ao longe ouviam-se gritos, o chiado dos tiros de radiações e,
vez por outra, a voz de comando de Wolley.
Na sala
dos tripulantes, rugia a luta.
Os
filósofos da natureza que se encontravam no tubo de ventilação
estavam impacientes. Em torno da abertura, a parede ainda estava
incandescente, e ao que tudo indicava Wolley não percebera o que se
passava nas suas costas.
O’Bannon
resolveu arriscar uma jogada decisiva. Disparou um tiro de radiação
pelo conduto inferior e gritou:
— Rendam-se!
Descobrimos seu plano. Já prendemos quatro dos seus. Vocês não têm
outra chance.
Por algum
tempo não se ouviu nada além do ruído da luta que se desenvolvia
na sala dos tripulantes. O’Bannon viu que o homem que se encontrava
mais próximo a ele começou a mexer-se. Sua mão desceu para o cinto
e voltou a subir com a arma.
O’Bannon
inclinou-se bem para a frente, virou o radiador que trazia na mão e
golpeou antes que o inimigo pudesse fazer pontaria. A pesada coronha
atingiu o punho do outro. Com um grito, o homem deixou cair a arma.
O’Bannon viu-a descer ruidosamente pelo conduto.
— Menos
um! — gritou. — Desistam! Rápido, que somos pessoas impacientes.
Talvez o
problema não fosse resolvido tão depressa se lá embaixo uma cabeça
calva não aparecesse na abertura, cujas bordas já haviam esfriado,
e se todos não tivessem ouvido a voz exultante de Wolley:
— É
O’Bannon? Já chegaram? Expulsamos o pessoal de Hollander. Será
que já podemos recepcionar os outros?
Com isso,
os filósofos da natureza desistiram. Wolley mandou que atirassem as
armas pelo buraco e fossem entrando um após o outro. O’Bannon viu
que tudo correu sem o menor incidente. Voltou a subir com seu grupo.
Dali a
alguns minutos chegaram ao convés F, onde os que haviam ficado para
trás estavam amarrando o último dos prisioneiros.
O’Bannon
estacou quando viu que só havia três.
— Mandei
quatro prisioneiros. Onde está o outro?
Os dois
homens não sabiam nada.
— Por
aqui só saíram três — asseveraram.
— Acredito
— trovejou O’Bannon. — Quero saber onde foi parar o quarto.
Os dois
homens que haviam entrado no conduto juntamente com O’Bannon
garantiram que quatro filósofos da natureza haviam passado por eles.
Uma vez que não haviam dado com o quarto no caminho de volta, só
restava uma possibilidade: passara pelo convés F e continuara a
subir.
— Vamos
embora! — gritou O’Bannon. — Temos de ir atrás dele. Quem sabe
lá o que está tramando?
Os
prisioneiros não poderiam fugir. Não havia motivo para preocupar-se
com eles. O’Bannon voltou a entrar no conduto com os quatro homens
e subiu o mais depressa que pôde.
Ainda não
havia galgado dez degraus quando viu uma luz ofuscante mais em cima.
Sem reduzir a velocidade, gritou para seus homens:
— Tomem
cuidado! O sujeito está armado. Tenta abrir uma saída mais em cima.
Se nos ouvir chegar, atirará.
O’Bannon
subia tão depressa que quase ficou sem fôlego. Quando devia ter
alcançado uns duzentos metros, viu a silhueta do homem à luz de um
disparo.
O’Bannon
reuniu as forças que lhe restavam. Pouco lhe importava que os outros
ficassem para trás.
O homem
descobriu-o antes que se aproximasse a menos de dez metros.
— Fique
onde está, senão atiro! — gritou.
A voz
parecia nervosa e insegura. Em compensação O’Bannon sentia-se
bastante calmo.
Usou seu
truque.
— Escute
aí! — gritou. — Você sabe que dentro de dois ou três minutos
Hollander entrará em transição. Já pensou no que lhe acontecerá
depois disso?
O homem
parecia refletir.
— O que
poderá acontecer? — perguntou temeroso.
— Por
alguns segundos você ficará em péssimo estado mental — disse
O’Bannon. — Perderá o domínio dos seus músculos. Fatalmente
soltará o degrau que está segurando e, quando a transição acabar,
cairá pelo conduto abaixo... Acontece que o conduto chega até o
convés B. Sabe lá quantos metros representa isso?
O filósofo
da natureza não respondeu. O’Bannon aproveitou a oportunidade para
subir mais alguns degraus. Desta vez não ouviu nenhuma advertência.
— Não
faça tolices! — disse enquanto subia, e procurou dar um tom
sugestivo à voz. — Ajudá-lo-ei a romper a parede. Antes ser preso
pelos democratas que cair de uma altura de oitocentos metros.
O homem
não se moveu. Deixou que O’Bannon se aproximasse a uma distância
de três degraus. O’Bannon chegou a ouvir sua respiração
apressada.
— Não
faça tolice! — disse O’Bannon em tom tranqüilo. — Se acha que
deve atirar, atire contra a parede.
Alguma
coisa passou acima de O’Bannon. Num movimento instintivo, este se
comprimiu contra a parede. Um metro acima de sua cabeça surgiu uma
luminosidade ofuscante. O’Bannon entesou o corpo para mudar de
lugar e escapar ao segundo disparo, tal qual escapou ao primeiro.
Percebeu
que o disparo não fora dirigido contra ele. Um feixe estreito de luz
azulada encheu o conduto. O homem que se encontrava acima dele
seguira sua recomendação e estava atirando contra a parede.
O’Bannon
subiu os últimos degraus que o separavam do filósofo da natureza.
— Isto!
— fungou. — Em dois terminaremos mais depressa. Vamos!
Revezaram-se
nos disparos térmicos dirigidos contra a parede. A abertura foi
aumentando.
O truque
com que O’Bannon havia surpreendido o filósofo da natureza na
verdade não
era nenhum
truque. A transição estava iminente.
Teriam de
atravessar a parede, pois do contrário estariam perdidos.
Conseguiram.
Os homens do grupo de O’Bannon, que vinham atrás, ajudaram.
Aumentaram a abertura até que pudessem saltar pela mesma sem tocar
as bordas incandescentes.
Viram-se
num gigantesco depósito, onde havia uma quantidade enorme de grandes
máquinas, cobertas por lonas ou guardadas em engradados. O’Bannon
viu que uma delas tinha certa semelhança com um canhão. Como
precisasse de tudo que se parecesse com um canhão, examinou o
engradado em que o aparelho estava guardado e começou a soltar os
grampos.
No momento
em que estava puxando o terceiro sentiu uma dor lancinante.
Os
contornos dos objetos apagaram-se e perdeu o controle dos músculos.
— Transição!
— gritou alguém.
* * *
Depois de
quinze minutos Mullon tornou a perguntar se os reparos poderiam ser
concluídos no prazo fixado.
Milligan e
Stokes, o oficial da equipe técnica, não se limitavam mais a dar
ordens. Eles mesmos puseram mãos à obra. Stokes saiu do grande tubo
de cabos em que estivera trabalhando e sacudiu a cabeça.
— É
impossível — disse. — Um dos orifícios atravessa todo o
aparelho. O conversor deveria ser desmontado. Mas acredito que
gastaríamos, num conserto provisório, uma hora.
Mullon
acenou com a cabeça, como se não esperasse outra informação.
— Pois
bem — disse. — Nesse caso vamos pedir um adiamento a Hollander.
Suttney!
— Pois
não.
— Pare
de trabalhar e venha comigo. Precisamos fazer com que Hollander adie
a transição.
Suttney
enxugou o suor da testa.
— Não
adianta — respondeu em tom contrariado. — Ele não vai adiar.
— Não
importa — respondeu Mullon em tom enérgico. — De qualquer
maneira tentaremos. Venha comigo.
Pediu a um
dos homens que subisse ao convés E e avisasse aos democratas de que
iria à sala de comando para negociar com Hollander. O mensageiro foi
um filósofo da natureza desarmado. Era duvidoso que realmente fosse
desincumbir-se da tarefa.
Mas Mullon
não tinha outra chance.
Pôs-se a
caminho em companhia de Suttney. Já havia concebido seu plano.
Usaria Stokes como uma espécie de refém durante as negociações
com Hollander. Tal qual os demais ocupantes da nave, Hollander
precisava de ao menos um homem vivo que entendesse alguma coisa da
complicada técnica astronáutica.
Ao que
tudo indicava, Hollander não havia sido avisado da visita de Mullon.
Encontrava-se diante do painel principal, juntamente com um
prisioneiro e alguns de seus homens. No momento em que a escotilha se
abriu, olhou para o lado.
Quando
reconheceu Mullon, arregalou os olhos. Empurrou seus homens para o
lado e aproximou-se de Mullon. Num gesto dramático estendeu as mãos,
sorriu e disse:
— Mullon,
quer dizer que resolveu colocar-se à disposição do Conselho dos
Colonos Associados Livres? Garanto que esse gesto voluntário pesará
a seu favor. Farão...
— Farão
coisa alguma! — interrompeu Mullon em tom zangado. — Nada será
feito, a não ser que o senhor adie a transição.
Hollander
estacou, deixou cair as mãos e lançou um olhar sombrio para Mullon.
— Por
quê? — perguntou laconicamente.
— Porque
até o momento fixado pelo senhor, o conversor não poderá ser
suficientemente reparado.
— O que
quer dizer com suficientemente reparado? A única coisa que quero
fazer é realizar a transição, e isso o aparelho há de agüentar.
Tenho certeza de que Stokes está exagerando.
— Está
exagerando coisa alguma! — gritou Mullon. — A nave explodirá se
o senhor realizar o salto.
Hollander
parecia refletir. Subitamente virou-se e caminhou em direção aos
instrumentos de localização.
— Venha
cá, Mullon! — disse. — Quero mostrar-lhe uma coisa.
Mullon
seguiu Hollander. Este apontou para uma tela que brilhava num tom
verde, na qual havia uma série de pontinhos claros.
— Está
vendo isto? — perguntou Hollander.
— Sim; o
que é? — inquiriu Mullon.
— Não
temos certeza. Mas devem ser naves espaciais. Talvez estejam nos
chamando, mas não podemos ouvir, pois o receptor não está
funcionando. É quase certo que são naves de patrulhamento da frota
terrana. Desde a conquista da sala de comando as comunicações entre
a Adventurous e a Terra estão interrompidas. Em Terrânia devem ter
desconfiado e enviado alguns cruzadores para cima de nós. Nós os
observamos há várias horas. Por certo também já notaram nossa
presença, apenas preferem ser cautelosos. Estão desconfiados.
“Se
esperarmos mais algum tempo, eles se aproximarão. Nos últimos
minutos, a distância diminuiu bastante. O senhor acredita que estou
disposto a deixar que eles me capturem e me coloquem mais uma vez na
presença dos juizes, apenas porque Stokes demora demais em reparar o
conversor? Nada disso, meu caro. Vamos saltar, e é agora. Prefiro
morrer a ser capturado pela segunda vez.”
Mullon
manteve-se tranqüilo.
— Pensa
só no senhor! — respondeu. — E as oito mil pessoas que se
encontram aqui não o preocupam nem um pouco? Hollander sorriu.
— Não —
respondeu em tom brutal.
Virou-se,
sem dar mais a menor atenção a Mullon.
— Gire a
chave — ordenou a um dos seus homens, que se encontrava junto ao
painel principal. — Vamos saltar agora.
— Não!
— gritou Mullon. — Não façam o que ele está dizendo.
Morreremos no mesmo instante em que o senhor mover essa chave.
Hollander
nem sequer olhou para trás. Mullon foi recuando devagar em direção
ao pequeno painel do hipertransmissor.
O homem
que se encontrava junto ao painel principal hesitou.
— Vai
obedecer, ou terei de substituí-lo? — perguntou Hollander em tom
áspero.
Ninguém
deu a menor atenção a Mullon. Este continuou a caminhar de costas e
só parou quando sentiu atrás de si os botões e as chaves do
hipertransmissor.
Neste meio
tempo o homem que se encontrava junto ao painel principal havia
tomado uma decisão. Subitamente moveu a chave.
Mullon viu
uma neblina surgir diante de seus olhos. Os contornos da sala
desfizeram-se, e uma dor cruciante invadiu todo o corpo.
* * *
O’Bannon
não sabia quanto tempo costuma durar uma transição, mas esta,
talvez, foi terrivelmente longa. E não sabia nada sobre as
complicações que surgiram na sala de máquinas, ou do perigo que a
Adventurous atravessara naqueles segundos.
No momento
em que a dor desapareceu e a sala voltou a adquirir seus contornos
normais, continuou a trabalhar no engradado em que estava guardado o
aparelho com o formato de canhão. Enquanto isso os outros cuidavam
do prisioneiro.
Depois de
alguns minutos, O’Bannon retirou a estranha máquina e leu a
inscrição que se encontrava atrás do cano. Viu tratar-se de uma
máquina de desmatamento. Por enquanto não tinha a menor idéia do
que seria desmatado e de que forma aquele aparelho desempenharia sua
tarefa. Mas resolveu descobrir o quanto antes. Para isso começou a
mexer nos botões. Tomou cuidado para que nenhum dos homens ficasse à
frente do “canhão”.
Por algum
tempo a atividade de O’Bannon não produziu o menor efeito. Nenhuma
das luzinhas coloridas, que sem dúvida serviam para controlar a
máquina, se iluminou.
Finalmente
lembrou-se de que, provavelmente, teria de comprimir em primeiro
lugar o botão cujo letreiro dizia “força”.
Comprimiu
o botão e, no mesmo instante, uma luz verde acendeu-se. O’Bannon
criou coragem. Apertou outro botão, cujo letreiro dizia “intensidade
mínima”. No mesmo instante, aconteceu uma coisa estranha.
O ar
começou a tremeluzir à frente do canhão. Num instante, a faixa de
ar quente avançou até a parede oposta. O’Bannon sentiu-se envolto
numa nuvem de calor e o suor começou porejar por todo o corpo.
Deixou os
botões na posição em que se encontravam e contornou o canhão.
Colocou cautelosamente a mão esquerda dentro da faixa de ar
superaquecido, mas logo a retirou com um grito de dor. As costas da
mão ficaram cobertas de bolhas.
Bastante
exaltado e sem dar a menor atenção à dor que o afligia, voltou
para junto do pequeno painel e comprimiu o botão junto ao qual se
lia “intensidade máxima”. Aconteceu aquilo que esperara. O
tremeluzir aumentou e a temperatura no interior do depósito subiu
rapidamente. Na parede contra a qual era dirigido o canhão,
começaram a surgir bolhas.
O’Bannon
pegou um dos enormes grampos de plástico retirados do engradado e
colocou-o dentro do raio expelido pela mesma. O metal começou a
chiar e se desmanchou em grandes pingos azuis, que caíram ao chão e
endureceram imediatamente.
Desligou a
máquina. Já não pôde ocultar o triunfo.
— Com
isto aqui conquistaremos a nave, rapazes! — gritou entusiasmado. —
E mais algumas que apareçam. Tudo depende de tirarmos o canhão
daqui e o levarmos à sala de comando.
Os homens
participaram de seu entusiasmo.
Levaram o
canhão até a escotilha. O’Bannon tentou abri-la, mas não
conseguiu. A escotilha não reagia a qualquer das tentativas de
aproximação realizadas por O’Bannon.
Este
perdeu a paciência e fundiu o mecanismo com seu radiador. Depois a
escotilha tombou, dando passagem aos cinco homens juntamente com o
canhão.
Viram que
do lado de fora a escotilha trazia uma placa na qual se lia
“lacrado”. Foi por isso que O’Bannon não conseguiu abrir sua
fechadura. O’Bannon chegou à conclusão de que havia por ali
várias máquinas que só deveriam ser entregues aos colonos após o
pouso.
A seguir,
não houve problemas. Unindo suas forças, os homens transportaram o
canhão ao elevador central mais próximo. Agora, que dispunham de
uma arma tão eficiente, não tinham a menor dúvida em usá-la.
Desceram
ao convés E.
Ali
souberam que, pouco antes da transição, Mullon fora procurar
Hollander na sala de comando, para negociar. O mensageiro de Mullon
transmitira o recado.
O’Bannon
não perdeu tempo. Reuniu seu pequeno grupo de combatentes e, levando
o canhão, avançou até o convés C, dirigindo-se à sala de
comando.
* * *
Mullon
percebeu que a dor provocada pela transição estava desaparecendo.
Viu que os objetos voltavam a assumir seus contornos normais, e
procurou atingir as chaves às quais se agarrara antes da transição.
Foi a
primeira pessoa na sala de comando que recuperou os sentidos.
Deu uma
boa olhada no painel que tinha diante de si. O letreiro era simples e
facilmente compreensível. Havia um botão com a inscrição “entrada
de energia” e uma chave junto à qual se lia “pronto para
transmitir”. Além disso, notou uma porção de botões destinados
a orientar as antenas e condensar as mensagens. Sem que ninguém o
percebesse, Mullon comprimiu os botões e moveu a alavanca destinada
ao suprimento máximo de energia. Ficou satisfeito ao notar que duas
luzes de controle se acenderam. O transmissor estava em perfeitas
condições. Só faltava pegar o microfone e falar, ou comprimir um
dos botões que ocasionava a transmissão de sinais codificados
preestabelecidos.
Mullon
virou-se. Ainda chegou a ver Hollander erguer-se com um gemido e
dirigir-se ao prisioneiro uniformizado.
— O que
foi isso?
O
prisioneiro, que ainda estava um tanto confuso, sacudiu a cabeça.
— Não
sei — gemeu. — Só sei que foi a transição mais longa pela qual
já passei. Olhe — disse, apontando para a única tela que estava
funcionando. — Veja onde saímos.
Hollander
fitou a tela.
— Onde
foi? — perguntou em tom ingênuo.
— Aí
que está. Não sei. Não vejo uma única constelação conhecida.
Tenho certeza quase absoluta de que nem mesmo um astronauta
experimentado conseguiria orientar-se aqui.
Por alguns
segundos Hollander parecia perplexo. Dirigiu-se às instalações de
localização. Ao ver a tela verde, seu rosto iluminou-se.
— Pelo
menos uma coisa conseguimos — exclamou. — As naves desapareceram.
Virou-se
de novo. Seu olhar caiu sobre Mullon. Só agora parecia lembrar-se da
presença do democrata autêntico.
— Ah,
Mullon! — disse, esticando as palavras. — Como vê, superamos a
transição. Não sabemos onde saímos, mas estamos todos vivos e bem
dispostos. Agora só lhe resta entregar-se. O Conselho dos Colonos
Associados Livres o julgará.
Mullon
continuou a aparentar calma. Mantinha os dois braços voltados para
trás, e ninguém poderia ver que tinha as mãos sobre dois botões
muito importantes.
— O
senhor está enganado, Hollander — respondeu com um sorriso. —
Não me entregarei. Graças à sua teimosia o senhor nos meteu numa
situação que poderá representar a morte para todos. Apesar do
conversor danificado o senhor fez realizar uma transição que
terminou no desconhecido. Não sabemos se nesta área existem mundos
habitáveis. Mesmo que existam, não sei como fará para encontrá-los
em meio às inúmeras estrelas.
“Hollander,
o senhor é um idiota, e um idiota perigoso. Está com medo de que as
naves-patrulhas da Terra voltem a agarrar o senhor e seu bando de
gângsteres. Acontece que eu sinto medo de que oito mil pessoas
tenham de morrer por causa de sua idiotice.
“Há
pouco o senhor me disse que o receptor foi destruído. Acontece que o
transmissor está funcionando. E acabo de ligá-lo. Basta comprimir
um botão para que uma mensagem codificada seja irradiada para todos
os setores do espaço. Haverá pelo menos uma nave terrana que a
captará. Com isso, a Terra saberá onde saímos e virá em nosso
auxílio. Sinto muito, Hollander, mas seu medo puramente pessoal terá
que ceder diante do interesse geral.”
Hollander
empalideceu. Quis dizer alguma coisa e deu um passo à frente, como
se quisesse precipitar-se sobre Mullon. Mas não disse nada e parou.
Mullon
entesou os braços enquanto a palma da mão comprimiu fortemente os
dois botões. Ouviu-se um leve zumbido, que em meio ao silêncio
reinante na sala tornou-se nítido. Foi o único sinal de que o
transmissor estava funcionando.
Mullon
deixou cair os braços.
— Muito
bem — disse. — Agora poderá colocar-me diante de seu ridículo
Conselho dos Colonos Associados Livres. Isto se conseguir agarrar-me
vivo.
Uma vez
que Suttney o acompanhara à sala de comando, ninguém se dera ao
trabalho de revistá-lo para verificar se trazia armas. E Mullon
tinha um microrradiador no bolso.
Quando
Hollander despertou do torpor, Mullon já segurava a arma. Sabia que
de qualquer maneira estaria perdido. Havia muitos filósofos da
natureza na sala de comando. Só tinha um par de olhos, e não sabia
o que se passava atrás dele.
Mas podia
manter Hollander sob controle. Este só se encontrava a sete ou oito
metros dele. Enquanto visse o cano do microrradiador apontado para
ele, pensaria duas vezes antes de dar ordem de atacar Mullon.
— Isso
não lhe adiantará nada, Mullon! — exclamou. — Guarde a arma e
se entregue.
Mullon
sacudiu a cabeça.
— Não,
Hollander. Esta arma está apontada para o senhor. Mesmo que seja
atingido por dez disparos ao mesmo tempo, ainda terei forças para
puxar o gatilho. Se quiser continuar a viver...
— Não!
— berrou Hollander aflito. — Não atirem, seus idiotas!
Estas
palavras foram dirigidas a alguns homens que haviam sacado as armas e
as estavam apontando para as costas de Mullon.
Este
sentiu um calafrio.
Só lhe
restava uma chance mínima, se o mensageiro que saíra da sala de
máquinas tivesse chegado a Wolley e O’Bannon, e estes resolvessem
fazer alguma coisa para libertá-lo.
Por
enquanto o jogo havia chegado a um ponto morto. Nenhum dos dois lados
podia executar qualquer movimento. Os homens de Hollander conservaram
a calma e voltaram a guardar as armas. Hollander e Mullon fitaram-se
frente a frente.
Alguns
instantes se passaram. Cada minuto parecia uma eternidade. Mullon
perdeu a sensação do tempo. Quando soube que se mantivera durante
quarenta e cinco minutos diante do painel do hipertransmissor e não
tirara os olhos de Hollander por um instante sequer, sentiu-se muito
espantado.
Mas tudo
isso não adiantou nada. Hollander ganhou o jogo por causa de um
truque.
Atrás de
Mullon alguém soltou um grito estridente. Depois do silêncio
prolongado e enervante que reinara na sala de comando, o ruído foi
tão inesperado e apavorante que Mullon se abaixou instintivamente e
virou a cabeça.
Ouviu-se
um baque. A tensão, que mantivera todo o mundo preso, desfez-se num
único grito histérico.
Mullon
compreendeu que fora enganado. Com um enorme pulo afastou-se do
painel... saltou no instante exato. Dez disparos de radiações
térmicas passaram pouco acima de sua cabeça e transformaram o
aparelho de hipercomunicação numa massa fumegante de metal, vidro e
plástico.
O ombro de
Mullon bateu contra um pequeno painel. No mesmo instante, girou o
corpo e abrigou-se atrás do mesmo. A trincheira era puramente
simbólica, pois o painel ficava no meio da sala e os homens de
Hollander estavam espalhados por todos os lados.
Mullon
feriu dois destes que se encontravam perto dele e, mais uma vez,
saltou para o lado. Os disparos escaldantes vieram apenas com uma
fração de segundo de atraso. O painel entrou em incandescência e
se desmanchou.
Mullon
passou em meio a um grupo de pessoas que, de tão assustadas e
receosas de atingirem um dos seus, não usaram suas armas. O radiador
de Mullon expelia raios energéticos fortemente enfeixados para todos
os cantos. Mullon não pretendia matar ninguém. A arma foi regulada
para a abertura mínima. As feridas produzidas pela mesma geralmente
não seriam mortais, a não ser que atingissem o coração ou o
cérebro.
Mullon
conseguiu livrar-se dos inimigos por um instante. Alcançou a parede
na qual estava embutido o painel principal, encostou-se à mesma e
repeliu os que o seguiam.
Deu um
enorme salto, “pousou” de barriga e arrastou-se alguns metros
pelo soalho liso. Uma coisa quente atingiu seu ombro, mas a dor logo
passou. O tiro apenas o havia atingido de raspão.
Mullon
compreendeu que a única chance que tinha era sua mobilidade.
Corria,
atirava, saltava, atirava, rolava pelo chão, voltava a atirar,
arrastou-se de bruços e sentiu que respirava com dificuldade e sua
vista começava a escurecer.
Em meio ao
zumbido que sentiu, ouviu uma voz exaltada:
— Estão
chegando! Vamos dar o fora!
Não sabia
quem estava chegando, quem devia dar o fora e por que fugiam. Com um
último e débil impulso, enfiou-se sob um outro painel astronáutico
onde permaneceu imóvel.
Ouviu
gritos, pisadas, ordens furiosas e um ruído semelhante ao de um
maçarico. Subitamente reconheceu a voz que de uma hora para outra
fez desaparecer toda dor e cansaço. Quem tivesse ouvido uma vez os
berros de O’Bannon, não deixaria de reconhecê-los em meio a
milhares de vozes.
Mullon
ergueu-se. Viu que na sala de comando, que parecia envolta em
neblina, havia vários feridos estendidos no chão. Mullon dirigiu-se
à escotilha principal. Estava bem aberta. Notou homens correrem
apressadamente à frente da mesma, tomando a direita.
Mais uma
vez, ouviu a voz potente de O’Bannon, agora mais perto. Mullon
alcançou a escotilha, segurou-se com ambas as mãos para vencer a
fraqueza e saiu para o corredor circular.
Pouco
adiante, no lugar em que um dos corredores principais desembocava na
galeria, viu a figura larga, maciça e inconfundível de O’Bannon.
Tinha diante de si um objeto parecido com um canhão da Guerra Civil.
Mullon não
percebeu que o ar estava superaquecido e que mal conseguia respirar.
Notou O’Bannon, e viu que este lhe fazia um sinal.
O’Bannon
e seus homens avançaram para o corredor circular, empurrando o
canhão antediluviano.
Agora, que
sabia estar em segurança, já que O’Bannon se encontrava à
entrada da sala de comando e ninguém mais conseguiria impedi-lo de
ocupar a mesma, Mullon cedeu à fraqueza.
Perdeu os
sentidos.
9
— Santo
Deus! — disse uma voz retumbante. — Parece que este sujeito não
quer mais acordar.
Mullon
reconheceu a voz, mas teve de esforçar-se para abrir os olhos.
Finalmente conseguiu. Viu o rosto de O’Bannon pouco acima do seu, e
ao lado dele os olhos radiantes de Fraudy.
— Graças
a Deus! — disse O’Bannon. — Já estávamos pensando...
Mullon
ergueu-se abruptamente. Sentiu uma dor lancinante no ombro e sua
vista se turvou; mas conseguiu dominar a fraqueza.
— O que
houve? — perguntou. — A sala de comando...
— Sim, a
sala de comando está em nosso poder — interrompeu O’Bannon. —
Há dois dias; é o tempo que você está inconsciente. A situação
é a seguinte: os filósofos da natureza foram derrotados. Hollander
e seus colaboradores mais importantes estão em nossas mãos.
Hollander está gravemente ferido, mas escapará com vida.
“Poderíamos
dar-nos por satisfeitos. Mas há um detalhe. Os propulsores estão
praticamente inutilizados. No momento em que Hollander executou o
hipersalto, houve uma pequena explosão na sala de máquinas.
Felizmente Stokes recomendara aos homens que se abrigassem a tempo. O
conversor foi destruído; mal e mal conseguiu realizar esta
transição. E, face à inutilização do aparelho, a Adventurous
conservou apenas dez por cento de sua capacidade de manobra. Não
podemos ir para a direita, nem para a esquerda, apenas para a frente.
Um pouso será uma questão bastante problemática. Nem sequer
poderemos escolher um lugar para pousar. Quando encontrarmos um
planeta, teremos de dirigir-nos ao lugar ao qual a gravitação nos
estiver levando.
“São
estas as notícias desagradáveis. Mas também tenho algumas
novidades agradáveis. Em princípio, os filósofos da natureza
concordaram em colaborar conosco. É bem verdade que Hollander não
foi consultado; ainda está inconsciente. Os tripulantes foram
libertados.
“Segundo:
a Adventurous encontra-se a apenas algumas” horas-luz de uma
gigante estrela branco-azulada. O observatório constatou que esta
tem uma infinidade de planetas. Quer dizer que tivemos sorte, pois
não teremos necessidade de perder tempo e procurar. É claro que a
estrela é totalmente desconhecida. Mas isso não é nenhuma
tragédia, desde que encontremos um lugar no qual possamos pousar.
“Ainda:
a luta contra Hollander e seus homens não causou qualquer
derramamento de sangue. Houve uma porção de bolhas produzidas por
queimaduras, mas nem um único morto. Aliás, quero contar-lhe uma
coisa. Num dos depósitos encontrei um canhão. Ei, não está
prestando atenção...”
O’Bannon
entusiasmara-se com suas palavras, e por isso nem percebera que,
depois de ter ouvido as coisas mais importantes, Mullon se dirigira
para Fraudy. Quando notou alguma coisa, O’Bannon viu que os dois
estavam abraçados.
— Está
bem — resmungou enquanto se dirigia à porta. — Voltarei mais
tarde.
* * *
A única
tela que continuava a funcionar mostrava a massa cinza-clara de um
gigantesco planeta. O limite entre a zona diurna e noturna
desenhava-se nitidamente sobre uma camada impenetrável de nuvens.
As
análises haviam sido concluídas. Mullon sabia que a atmosfera desse
mundo continha oxigênio, nitrogênio e outros gases, quase na mesma
proporção da atmosfera terrana.
O
gigantesco sol branco-azulado ficava a seis milhões de quilômetros.
Era a mesma distância que separava Plutão do sol terrano. Mas a
potência do gigantesco astro bastava para aquecer a superfície do
planeta no zênite até cinqüenta graus, conforme se constatara por
meio dos instrumentos de precisão.
— Teremos
calor de sobra — suspirou Mullon. — Não acredito que precisemos
preocupar-nos com a calefação.
Os
resultados continuaram a chegar. O planeta, ainda sem nome, percorria
uma órbita apenas ligeiramente excêntrica. No curso do ano
planetário, a distância do astro central só sofria uma modificação
insignificante. E cada ano planetário durava cerca de cento e
setenta dos terranos. A inclinação do eixo do planeta em relação
ao plano da órbita era pouco superior a dez graus. Dali se concluía
que as estações do ano seriam pouco pronunciadas.
Finalmente,
a última informação: a gravitação na superfície era de
aproximadamente 1,2G. Uma pessoa que na Terra pesasse setenta quilos,
aqui teria um peso de oitenta e quatro quilos.
Mullon
ficou satisfeito. O planeta tinha um diâmetro de cerca de quarenta
mil quilômetros. Por isso, certamente, não apresentava uma
gravitação mais elevada porque sua densidade era extremamente
reduzida.
Além de
Mullon e de algumas pessoas que lhe serviam de elementos de ligação,
haviam comparecido à sala de comando todos os membros da antiga
tripulação que entendiam alguma coisa de astronavegação. O de
graduação mais elevada era um primeiro-tenente. Este confessou que
nunca pilotara sozinho uma nave de grandes dimensões, mas prometeu
fazer tudo que estivesse ao seu alcance.
Os colonos
haviam sido informados de que, conforme as circunstâncias, o pouso
poderia terminar em desastre. Na nave, reinava um profundo silêncio.
Os homens reuniram-se nos compartimentos coletivos e mantinham os
olhos fixos nas telas que ainda funcionavam.
A
Adventurous inclinou-se preguiçosamente para o lado, dirigindo para
o planeta o conjunto de bocais que funcionava melhor.
A altitude
foi diminuindo. Alguém leu as indicações em voz monótona.
O planeta
desconhecido já havia crescido para além das bordas da tela. A nave
baixou sobre uma área extensa, que apresentava uma coloração
verde. Na extremidade superior da tela, o verde desmanchou-se num
cinza-reluzente, que assumiu os contornos de rochas. Na extremidade
inferior da tela surgiu abruptamente um verde-marrom, que
provavelmente correspondia às florestas.
Mullon
sentiu-se fascinado diante do panorama.
Procurou
localizar algum indício de vida inteligente, mas não o descobriu.
Em vez disso, descobriu um rio, que se estendia em curvas sinuosas
pela planície verde-clara.
— Seria
bom — disse a meia voz — se pudéssemos pousar perto do rio.
Stokes
compreendeu. Virou-se para Mullon e disse:
— Só
podemos rezar, Mullon! Nesta altura, só Deus tem alguma influência
sobre
nossos propulsores.
Mullon
sentiu que a nave estremecia e, por um instante, perdeu o equilíbrio.
Stokes levantou a cabeça.
— A
antigravitação está falhando — disse em tom seco. — Tomara que
o gerador agüente até que cheguemos lá embaixo.
Mullon
sabia que a massa da nave, que estava sendo atraída pelo planeta, só
em pequena parte repousava sobre o impulso dos bocais dos jatos de
partículas. A sustentação resultava principalmente de um campo de
gravitação artificial, que neutralizava parcialmente a gravitação
do planeta e fazia com que a nave descesse lentamente.
* * *
Dali a
oito minutos, o gerador antigravitacional deixou de funcionar por
completo. A velocidade da queda da nave, que nessa altura só podia
contar com os propulsores danificados, subiu vertiginosamente para
cem metros por segundo... e não parou de subir.
Stokes
levantou-se e enxugou o suor da testa. A ausência da gravidade, que
se fez sentir desde que o gerador antigravitacional entrou em pane,
ergueu-o do piso e fê-lo subir ao teto. Stokes parecia não se
importar com isso.
Mas Mullon
teve de esforçar-se para não gritar de medo. A ausência de
gravidade causava uma sensação apavorante de queda livre. Além
disso, a distância entre a nave e a superfície do planeta já se
reduzira a um ponto tal que os contornos do solo pareciam
aproximar-se vertiginosamente.
— Vinte
e um mil metros! — gritou uma voz apavorada.
Mullon fez
um movimento mais forte. O impulso resultante do mesmo fê-lo perder
o apoio e atravessar a sala.
Dali a um
segundo, sentiu-se atingido por um força intensa que o atirou ao
solo. Quase inconsciente, ouviu os homens gritarem:
— O
gerador está funcionando. Atenção! Vamos pousar.
Do ponto
em que Mullon se encontrava, as cenas que se seguiram pareciam um
pesadelo. Como estivesse deitado no chão, só via a extremidade
superior da tela. Constatou que a velocidade com que a superfície se
aproximara estava diminuindo. Depois viu que os contornos do solo
começavam a girar. Pôs a cabeça bem para trás e sentiu-se tonto.
Ouviu Stokes soltar um grito estridente. Tanto poderia ser um grito
de pavor como de triunfo.
De
qualquer maneira, logo após aconteceu um terrível solavanco.
Ouviram-se alguns estalos. Mullon encolheu a cabeça, pois receava
que o teto desabasse sobre ele.
Mas não
aconteceu coisa alguma. Os estalos foram diminuindo; finalmente
ouviu-se apenas um leve crepitar, como se as paredes opusessem
resistência à pressão que as forçava para baixo e procurassem
erguer-se.
Finalmente
alguém disse em voz tranqüila:
— Chegamos,
minha gente.
* * *
De
qualquer maneira, o pouso terminara em desastre.
A
Adventurous estava quase que totalmente destruída. Mas a nave
auxiliar, de formato esférico, com sessenta metros de diâmetro e
equipada apenas com um propulsor corpuscular interplanetário,
continuava intacta. A comporta pela qual teria de sair da nave ainda
estava funcionando.
Metade da
carga da Adventurous fora destruída. Algumas máquinas preciosas
estavam inutilizadas, enquanto outras teriam de ser submetidas a
reparos.
Havia
muitos feridos. Felizmente ninguém morrera.
Mullon —
cuja posição de chefe, depois da união entre os democratas e os
filósofos da natureza, foi reconhecida até mesmo pelos membros da
antiga tripulação — providenciou para que a nave fosse
descarregada o mais rápido possível. A maior parte dos guindastes
automáticos continuava intacta: homens, máquinas e provisões
saíram da nave em largas esteiras transportadoras.
O rio
avistado ficava a apenas um quilômetro e meio.
Mullon
mandou que os bens descarregados fossem levados até meia distância
do rio. Com as peças que continuavam intactas mandou construir
casas. O impacto destruíra pouco menos de metade dessas peças. Por
enquanto todo mundo viveria bastante apertado. Uma casa destinada a
cinco pessoas tinha que abrigar dez.
Mas isso
não importava. Ninguém iria sentir o desconforto.
Mullon
postou uma fileira de sentinelas em torno da aldeia que já crescia
rapidamente. Ninguém sabia dos perigos que os ameaçariam nesse
mundo. Todo cuidado seria pouco.
A
colaboração entre os democratas autênticos e os filósofos da
natureza funcionou muito bem. Todos haviam compreendido que, para
controlar a situação, teriam de manter-se unidos.
Hollander,
que já recuperara a consciência e estava sendo submetido a um
tratamento intenso, manteve-se em silêncio. Mullon tinha certeza de
que sua ambição doentia conseguira ceder ante a catástrofe.
Assim que
se pusesse de pé, voltaria a criar problemas.
* * *
A planície
em que a Adventurous realizara seu pouso malogrado estava coberta por
uma ampla área de capim. Subia suavemente do leste para o oeste. A
uns cem quilômetros de distância, os cumes das montanhas galgavam o
céu branco-azulado, e ao leste, a uma distância ainda maior,
começava a massa sombria da mata virgem.
O rio
descia das montanhas e desaparecia na mata. Em virtude da inclinação
da planície, a correnteza era extremamente forte, apesar das
numerosas curvas. Era um rio jovem e indômito.
Quatro
dias de quarenta horas já se haviam passado. A aldeia estava
consolidada. Mullon conseguira superar a maior dificuldade: inserir
os antigos tripulantes da nave entre os colonos. Afinal não fora tão
difícil. Eram poucos os oficiais que achavam que se devia continuar
a tratar os colonos como degredados. Mullon ressaltou a situação em
que todos se encontravam, tanto os tripulantes como os degredados, e
conseguiu romper a resistência dos mais obstinados sem que surgisse
qualquer malquerença.
A aldeia
foi batizada com o nome de Greenwich. O motivo era óbvio: a palavra
green
— verde — provinha da cor do capim que cobria a planície. Além
disso, o nome Greenwich estava ligado a certas tradições. E foi
graças à tradição que se convencionou que o meridiano zero
passaria pela casa de Mullon.
As
sentinelas, que Mullon postara num círculo amplo em torno de
Greenwich, haviam observado rebanhos de animais gigantescos. Os
mesmos nunca se aproximavam o suficiente para poderem ser vistos
detalhadamente. Mas, ao que tudo indicava, eram maiores que
elefantes.
Em certa
manhã, quando o crepúsculo cobria a terra, houve uma enorme
excitação. O chão começou a tremer e as sentinelas vieram
correndo para avisar que um rebanho dos gigantescos animais se
aproximava.
Mullon
mandou que os homens se postassem ao sul da aldeia. Os animais
aproximavam-se ruidosamente, numa espécie de trote. Mullon
observou-os pelo binóculo. As pernas massudas tinham quase dois
metros de altura. A seguir, começava o tronco maciço, mas elegante
e quase esbelto. Tinha pelo menos dez metros de comprimento. Na
frente do tronco via-se um pescoço de comprimento inacreditável e
em cima do pescoço uma pequenina cabeça. Os olhos ficavam cerca de
doze metros acima do solo.
Felizmente
não houve nenhum confronto. O rebanho descreveu uma curva em torno
da aldeia e desapareceu em direção ao norte. As sentinelas voltaram
aos seus postos, e em Greenwich havia um novo tema de conversa: as
elefantogirafas
ou girafantes.
Ainda não haviam resolvido que nome dar aos bichos.
* * *
Mullon fez
um inventário de todos os objetos que poderiam ser usados, ou
colocados em condições de sê-lo, por meio de reparos não muito
extensos. O resultado não foi tão assustador, como seria de se
esperar face ao pouso malogrado da Adventurous.
Além da
nave auxiliar, com a qual Mullon não poderia fazer muita coisa,
havia uma série de veículos de rodas ou de esteira, todos equipados
com pequenos e potentes motores de fusão. Eram de grande
durabilidade. Havia uma porção de máquinas agrícolas e toneladas
de sementes. No terreno científico a biblioteca da Adventurous
poderia satisfazer a qualquer consulta.
Havia
ainda instrumentos para a determinação das variações de
temperatura a longo prazo, cronômetros interestelares destinados à
determinação da duração exata do dia e o equipamento náutico
necessário à determinação da posição. O campo magnético do
planeta poderia ser medido com os magnetômetros, o que permitia a
fixação exata do eixo norte-sul.
Os
medicamentos e os equipamentos eram tantos que, na opinião dos
médicos, que se encontravam entre os colonos, daria possibilidade de
montar dois hospitais muito eficientes.
Ainda
havia um helicóptero. Originariamente eram dez, mas só um resistiu
ao pouso. Esse helicóptero era um veículo de múltiplas
finalidades. As hélices podiam ser retiradas e guardadas, caso em
que o veículo se transformaria num automóvel ou num barco, conforme
o meio pelo qual tivesse que deslocar-se.
Mullon
tinha certeza de que os equipamentos técnicos e científicos seriam
suficientes para garantir a sobrevivência da colônia. No entanto,
devia-se ter cuidado para que as pessoas não perdessem o conteúdo
especial de sua personalidade, pois, se isso acontecesse, dentro de
poucas gerações os colonos regrediriam à barbárie, apesar de toda
a tecnologia.
Mullon já
desistira da esperança de que sua hipermensagem pudesse ter sido
captada e que a Terra conhecesse a posição da Adventurous.
— Estamos
sós — declarou numa reunião realizada no sétimo dia após o
pouso. — Provavelmente a maior parte de vocês não vê nisso
qualquer vantagem, ao menos por enquanto. Os homens e as mulheres são
aproximadamente em número igual. Somos jovens. Por que não
poderíamos povoar um grande mundo?
“Mas não
devemos esquecer uma coisa. Não dispomos do amparo representado por
bilhões de seres humanos que habitam a Terra. Não devemos
negligenciar os dons do espírito. Não nos encontramos na mesma
situação dos pioneiros que há duzentos anos ou mais colonizaram o
oeste dos Estados Unidos. Estes precisavam percorrer no máximo
alguns milhares de quilômetros para reencontrar a civilização.
Acontece que nós estamos completamente isolados. Em vez de milhares
de quilômetros teríamos de vencer milhares de anos-luz, e não
dispomos de meios para isto.
“Assim,
é importante que permaneçamos unidos. Nunca se esqueçam de que só
poderemos sobreviver se nosso pequeno grupo não se dividir em
subgrupos marcados pelas diferenças de opinião e de concepção
filosófica. Não se ponham a trabalhar estupidamente, apenas para
realizar o máximo. Sempre pensem no que pretendem realizar, e por
quê. Promovam debates, leiam os livros que trouxemos conosco.
Mantenham suas mentes ativas. E não se cansem.”
* * *
O novo
mundo recebeu o nome de Fera Cinzenta. A fera cinzenta constava no
escudo do novo planeta: era um girafante.
Mullon
enviara patrulhas, que se deslocavam ora em veículos de esteira, ora
no helicóptero, a fim de procurarem qualquer indício de vida
inteligente.
Ao que
parecia, no planeta Fera Cinzenta não havia seres inteligentes. Não
encontraram o menor vestígio.
As únicas
criaturas inteligentes que existiam em Fera Cinzenta eram os
habitantes da aldeia de Greenwich.
E por
enquanto estes se sentiam muito satisfeitos com isso.
* * *
Mullon não
sabia que ao anoitecer um dos participantes da reunião deixou a
aldeia às escondidas, caminhou para o sul e começou a cavar o chão
a alguns quilômetros de Greenwich. Retirou do buraco uma caixa de
plástico que continha um traje. Do lado esquerdo desse traje, na
altura do peito, havia em vez do bolso uma série de botões. O homem
misterioso vestiu-o, comprimiu um dos botões e subiu ao ar. Voou
rapidamente acima da planície e, dali a duas horas, chegou a um
disco elíptico. Uma escotilha abriu-se, e o homem voou para dentro
do objeto. Após alguns minutos o disco decolou. Mais alguns minutos,
e iniciou a transição a dois milhões de quilômetros do planeta
Fera Cinzenta. Quase no mesmo instante, alcançou o sistema solar
terrano.
A mensagem
de Mullon fora captada. Ao apertar o botão, havia expedido a
mensagem que dizia: “Ataque
de naves inimigas, pedimos ajuda.”
Imediatamente um cruzador de patrulhamento saiu em auxílio da
Adventurous e, sem que as pessoas a bordo da mesma soubessem,
constatou que não havia o menor sinal de ataque de naves inimigas.
O
comandante do cruzador extraiu do fato a única conclusão viável:
alguém que se encontrava a bordo da nave que transportava os colonos
comprimira ao acaso qualquer dos botões, no intuito de chamar a
atenção de alguma nave terrana.
Uma nave
acompanhou a Adventurous. Sabia-se perfeitamente que algo de anormal
devia ter acontecido a bordo da mesma, uma vez que o rastreamento
estrutural revelou que esta foi parar a alguns milhares de anos-luz
da área de Rigel.
O cruzador
manteve-se de prontidão enquanto a Adventurous se dispunha a pousar.
Notou a falha do gerador antigravitacional e suas conseqüências e
esteve prestes a segurar a nave dos colonos com um raio de tração
para evitar sua queda. Porém, nesse instante, o gerador voltou a
funcionar.
Tudo isso
foi feito sem que ninguém o percebesse. Uma ordem terminante
transmitida ao comandante do cruzador-patrulha dizia que os colonos
em hipótese alguma deveriam descobrir que a Terra não havia perdido
sua pista.
O
comandante mandou que cinco homens descessem numa nave auxiliar do
tipo Gazela. Um deles participou da reunião durante a qual Mullon
proferiu seu memorável discurso. A fala foi gravada em microfita.
* * *
Pouco
depois Perry ouviu a mesma.
— Nunca
pensaria que este rapaz fosse capaz de tanta coisa — confessou em
tom de surpresa para Bell. — Está se transformando num político
altamente capacitado; em todos os sentidos.
O agente
secreto de Rhodan conversara com alguns colonos e descobrira o que
havia acontecido durante o vôo da Adventurous. Rhodan e Bell foram
informados sobre os papéis desempenhados por Hollander e Mullon.
— Assim
até ficou melhor do que eu imaginava — disse Rhodan em tom
pensativo. — Pelo menos saberemos como um pequeno grupo de pessoas
reagirá quando deixado a sós e com poucos recursos em meio à
imensidão do espaço.
* * *
* *
*
Num
Estado altamente civilizado como o Império Solar, a pena de morte
deixou de existir.
Os
autores do atentado foram banidos da Terra e perderam a cidadania
terrana. Assim, transformaram-se em colonos interestelares. Será que
os 8.000 banidos conseguirão sobreviver?...
Em
Ataque
do Invisível, próxima
aventura de Rhodan, novas emoções irão surgir.

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