segunda-feira, 18 de março de 2013

P-057 - O Atentado - Kurt Mahr [parte 3]

Meu Deus — disse. — Esta nave dispõe de uma instalação eficientíssima de intercomunicações. Por que será que Hollander não pega um microfone e lhe diz o que quer de senhor?
Até então Mullon nunca havia quebrado a cabeça sobre isso. Logo concluiu que se Hollander — já de posse de todas as instalações, inclusive as de intercomunicação — enviava um mensageiro, ainda não aprendera a usar o complicado sistema de comunicações da nave. A não ser que o mesmo tivesse sido destruído durante a luta.
Mas Mullon achou que este ponto não era muito importante. O que lhe interessava saber era se Hollander cumpriria sua ameaça e consideraria a resposta negativa com um motim, para lançar seu ataque.
O’Bannon recebeu instruções para ir ao convés F em companhia de quatro homens armados, a fim de assumir seu posto na área XIV, setor 1, seção g.
Seis homens armados esconderam-se na sala dos tripulantes. O conduto de ventilação corria pelo centro da parede dos fundos. O ar saía pelos “poros” do material, motivo por que não havia nenhuma abertura. Sem dúvida, os homens de Hollander abririam caminho com seus desintegradores, no momento em que recebessem ordem de atacar.
Mullon resolveu fazer um plano de ataque. Partiu da suposição de que Hollander ainda acreditava que os democratas não possuíssem qualquer armamento. Em sua opinião não poderia saber que quase a metade dos tripulantes que restavam se havia juntado a ele. Se é que os filósofos da natureza poderiam sentir-se livres de perigo, seria nessa hora. Assim que se lançassem ao ataque saberiam que os democratas estavam armados, ou ao menos parte deles, e dali em diante Hollander mandaria guarnecer as posições mais importantes.
A idéia para o golpe partiu de Milligan que, embora não fosse oficial, acabou revelando-se um excelente estrategista. Na opinião de Milligan o ponto mais crítico da nave não era a sala de comando, mas a de máquinas, isso especialmente face aos planos que Hollander ainda poderia ter em relação à Adventurous. Quem controlasse a sala de máquinas poderia fazer com que as ordens dadas pela sala de comando fossem ou não executadas.
Hollander sabia disso. Uma boa quantidade de pessoas devia estar vigiando a sala de máquinas. Mas o simples fato de Hollander preferir atacar a sala de máquinas, depois de ter se apoderado da sala de comande, parecia indicar que não dava à mesma importância que realmente merecia. Milligan achava que na sala de máquinas haveria sentinelas, mas não muitas. Acreditava que uns poucos homens bem armados teriam uma boa chance, ainda mais que o grande número de máquinas dificultava o controle do recinto.
Mullon deixou-se convencer. Mais do que isso, assumiu pessoalmente o comando do grupo que se dirigiu à sala de máquinas. Esse grupo era formado por três homens: Mullon, Milligan e o sargento Brennan. Este último estava armado com um desintegrador, enquanto Milligan e Mullon levavam microrradiadores.
O que preocupava Mullon era o fato de que, durante o avanço em direção à sala de máquinas, seria praticamente impossível manter contato com seu grupo. Milligan tentara utilizar uma das linhas do intercomunicador, que partia da sala dos tripulantes, mas não foi bem sucedido. Mullon colocou o destino dos democratas autênticos nas mãos de Wolley, que foi nomeado seu representante, e garantiu que voltaria o mais rápido possível.
Não pôde despedir-se de Fraudy, que estava ocupada com a mudança das mulheres para os setores mais afastados.
7



O’Bannon conduziu os quatro homens pelo tumulto das mulheres em mudança, levando-os à seção K. Ali, mandou que entrassem num dos elevadores secundários que ligavam algumas áreas de conveses, subindo e descendo alguns pavimentes.
O’Bannon foi o primeiro a entrar no poço. A sucção suave do campo antigravitacional levou-o para cima. Seus homens seguiram-no.
Pela primeira vez O’Bannon deu-se conta de que uma boa memória é um verdadeiro tesouro. Desde que ingressara na Associação dos Democratas Autênticos, trabalhava em estreita cooperação com Mullon, funcionando na diretoria da entidade. Por isso conheceu muita gente; e, como tivesse boa memória, não se esqueceu de nenhum deles.
Conhecia todos os quatro mil que haviam sido condenados em Terrânia, tanto os homens como as mulheres. E sentia-se grato por isso. Se não fosse assim, poderia facilmente ver-se numa situação em que não saberia dizer se o homem à sua frente era um democrata ou um filósofo da natureza.
O’Bannon resolveu sugerir o uso de um distintivo. Nem todos tinham memória tão boa quanto ele.
O’Bannon e seu grupo foram passando pela área I do convés E e pela área XV do convés F. Cada um dos grandes conveses dividia-se em quinze áreas, e cada uma delas tinha seis metros e meio de altura, e assim podia abrigar dois pavimentos. As áreas dos conveses eram numeradas de “cima” para “baixo”, sendo que estas designações correspondiam à posição normal da nave no campo de pouso ou à situação criada pelo campo de gravitação artificial ativado durante o vôo.
Depois de chegar à área XV, O’Bannon deixou-se escorregar para fora do poço do elevador. Pediu aos seus homens para aguardarem e avançou lentamente por um corredor que partia do elevador, até chegar ao limite da seção I.
Os compartimentos situados à direita e à esquerda do corredor serviam para abrigar a carga.
O’Bannon voltou para junto de seu grupo, depois de ter descoberto que ninguém se encontrava no pavimento XV.
Saltou para dentro do elevador antigravitacional e deixou-se levar para baixo juntamente com seus parceiros. Examinou cuidadosamente o elevador. Estava muito bem iluminado e podia ser visto perfeitamente até o lugar em que terminava no pavimento V. O’Bannon sentiu-se tranqüilizado ao notar que estava vazio.
A seção K do décimo quarto pavimento também estava vazia. Passou pelas seções I e H, chegando ao limite da seção G, sem que ninguém procurasse impedi-lo. Ainda não havia visto nenhum dos homens de Hollander.
Prosseguiu sistematicamente na busca. Sabia que a seção G media 50 metros de comprimento e tinha uma largura média de duzentos metros. Essa área de cerca de dez mil metros quadrados, dividida em dois pavimentes, estava entrecortada por uma série de corredores largos e estreitos. Atrás de qualquer canto destes, poderia surgir um filósofo da natureza. Instruiu seus homens a manterem as armas prontas para disparar.
Se houvesse um encontro, deveriam evitar que um dos inimigos escapasse e revelasse aos companheiros o avanço que os quatro fizeram.
Quando O’Bannon, pelos seus cálculos, havia revistado aproximadamente metade da seção, ouviu um ruído estranho à sua frente.
Pediu que dois dos homens ficassem para trás e avançou cuidadosamente com os outros dois. Seguiram o ruído e acabaram entrando num corredor secundário, onde o ruído parecia mais forte.
Mais à frente o corredor parecia envolto em neblina. O’Bannon procurou farejar e constatou que a neblina não passava de uma fumaça ordinária.
Dali a pouco, viu a abertura da qual saía a fumaça. Era uma escotilha aberta. Numa pausa entre os estranhos ruídos ouviu alguém tossir e gritar.
O’Bannon não tinha a menor idéia do que estaria acontecendo além da escotilha. Quando notou que a fumaça se tornava cada vez mais densa, dificultando a visão, arriscou-se a avançar até a escotilha e dar uma olhada pela mesma.
Viu vultos que se moviam junto à parede oposta. Alguém gritou:
Atenção!
Um raio fino e ofuscante atravessou a sala e o ruído que havia chamado a atenção de O’Bannon encheu a sala. Dali a pouco, novas nuvens de fumaça envolveram a cena.
O’Bannon vira bastante. Os homens de Hollander estavam fazendo uma abertura para penetrar no conduto de ventilação. As ferramentas que usavam para isso eram radiadores térmicos. Tinham que enfeixar os raios muito estreitamente para não queimar toda a parede, e os raios assim concentrados provocavam o ruído, semelhante ao que se ouvia quando alguém rasgava fazenda.
Não sabia por que os homens não usavam desintegradores. O funcionamento destes era quase totalmente silencioso e não provocava fumaça. O’Bannon concluiu que Hollander ainda não conseguira apoderar-se de um número suficiente de desintegradores para equipar todos os homens.
Além disso, todos que trabalhavam junto ao conduto de ventilação pareciam sentir-se em segurança. Apesar do barulho que provocavam não haviam colocado nenhuma sentinela.
O’Bannon reuniu seus homens e abrigou-se num pequeno depósito situado junto ao grande salão, atravessado pelo conduto de ventilação. A escotilha foi aberta apenas o suficiente para permitir a visão sobre o corredor. O’Bannon esperava que Hollander enviasse um mensageiro assim que chegasse a hora de lançar o ataque. E O’Bannon preferia não agir antes disso.

* * *

O primeiro trecho do caminho que levava à sala de máquinas foi percorrido sem o menor problema. Era mais do que Mullon esperava.
Milligan sugerira penetrar na sala de máquinas a partir do recinto em que ficavam os tanques de hidrogênio. A matéria de apoio, que servia ao funcionamento dos propulsores corpusculares, em vôo normal, era o hidrogênio atômico. Milhões de metros cúbicos do mesmo eram guardados em gigantescos tanques, em ambiente super-refrigerado e em estado líquido. Condutos resistentes corriam dos tanques para os motores corpusculares. Esses condutos, por sua vez, eram ladeados por estreitos passadiços, que permitiam a inspeção e os reparos.
Milligan acreditava que os homens de Hollander provavelmente ainda não teriam notado os passadiços que ficavam na parte superior das paredes da sala de máquinas ou, se os tivessem descoberto, não lhes dessem maior importância.
Mullon mantinha-se constantemente na periferia da nave, ou seja, nos setores I ou K, embora isso representasse um caminho mais longo. Os democratas autênticos haviam sido alojados nos conveses C a E, e dentro destes nos setores 9, 10, 1 e 2. Os alojamentos dos filósofos da natureza ficavam nos mesmos conveses, apenas nos setores 4, 5, 6 e 7.
O barulho em torno de Mullon e seu grupe só cessou quando estes pegaram o elevador antigravitacional e atravessaram a linha divisória entre o convés C e o convés B, situado mais abaixo. É bem verdade que ali teriam de ficar com os olhos bem abertos. Provavelmente Hollander estaria esperando um ataque à sala de máquinas.
Com Milligan à frente, o grupo foi penetrando pelo pavimento central, avançando da seção externa em direção ao eixo da nave. Ao atingir a seção E, Milligan descreveu uma curva para a esquerda. Passaram por um estreito corredor secundário e chegaram a uma longa parede que apresentava poucas escotilhas. Em compensação liam-se de espaço a espaço estes dizeres, escritos em letras brilhantes: Atenção! Combustível.
À primeira vista percebia-se que não havia filósofos da natureza nessa área. Milligan abriu uma das escotilhas e deixou que seus companheiros passassem pela mesma.
Depararam-se com um quadro impressionante. O recinto era circular e tinha um diâmetro de cerca de oitenta metros. Parecia atingir uma profundidade estonteante. Mullon teve a impressão de que o estreito passadiço no qual desembocava a escotilha ficava praticamente no centro do enorme cilindro.
A forma do recinto era determinada pelo tanque abrigado no mesmo. Pelo visto, o gigantesco recipiente, que preenchia quase cem por cento do recinto, era feito de plástico metalizado que emitia um brilho fosco. O espaço entre a amurada do passadiço e a parede do tanque era apenas o suficiente para que um homem que tivesse braços muito compridos pudesse tocá-lo.
Milligan dirigiu-se para a direita. Mal acabara de dar o primeiro passo, tropeçou. Segurou-se na amurada, olhou em torno muito perplexo e indagou:
O que foi isso? O senhor percebeu? Brennan não havia percebido nada, porém Mullon sentira perfeitamente.
Até parece que foi um terremoto leve — confirmou. — Conheço isto. Lá em Seattle a terra costuma tremer vez por outra. Mas será que por aqui pode haver terremotos?
Milligan sacudiu a cabeça.
Não sei. Tomara que isso não acabe num desastre.
Mullon prosseguiu cautelosamente. O abalo não se repetiu.
Contornaram a metade do tanque e viram que do lado oposto havia tubos de vários metros de diâmetro, que atravessavam a parede. Junto a cada um desses tubos corria um passadiço metálico estreito, que podia ser atingido por meio de um pequeno elevador antigravitacional ou de uma escada.
Milligan desceu ao passadiço situado mais embaixo. Mullon e Brennan seguiram-no. Assim que alcançaram Milligan, este abriu um pouco a escotilha através da qual o tubo penetrava no recinto ao lado.
Tudo em ordem — cochichou. — Não vejo ninguém.
Abriu a escotilha de vez e passou pela mesma. Uma série de ruídos indefiníveis passou pela abertura. Era o barulho do conjunto de máquinas, trabalhando a toda força. Mullon viu que Milligan se mantinha abrigado atrás de uma coluna e olhava em torno.
Mandou que Brennan seguisse à frente. Aguardou até que este chegasse à coluna e seguiu-o.
Ficou surpreendido ao constatar que os tubos de combustível passavam muito acima do piso da sala de máquinas. Calculou a altura em pelo menos trinta metros. A altura total da sala devia corresponder ao dobro disso. Lá nos fundos havia uma confusão formada por série de conjuntos enormes e de formato estranho, parte dos quais tomava toda a altura do recinto.
Mullon não teve tempo de deleitar-se com a impressão.
Tinha que prestar atenção aos homens de Hollander — e estes estavam lá embaixo.
Mullon não deu atenção ao rosto contrariado de Milligan. Apenas viu que lá embaixo ao menos cinqüenta homens desenvolviam uma atividade febril. Corriam de um lado para outro e gritavam comandos. Na frente de um dos conjuntos menores, estava um homem de uniforme esfarrapado, vigiado por dois guardas armados.
Mullon procurou descobrir o que os homens de Hollander estavam fazendo lá embaixo, mas não conseguiu. Perguntou a Milligan.
O grande conversor está quebrado — disse Milligan em tom contrariado. — Provavelmente foi danificado quando atacaram nossos homens. Precisam consertá-lo. O homem que lhes dá as respectivas instruções é Stokes, um dos oficiais da equipe técnica.
Mullon logo percebeu que vantagem representaria a libertação do oficial da equipe técnica. Talvez fosse o único entre os ainda vivos que era capaz de dar as informações necessárias ao reparo de um aparelho importante.
Depois de passar por uma coluna que seguia uns dez metros sem oferecer o menor abrigo, descobriu seu término junto a um tubo vertical, servindo de elevador antigravitacional. O poço corria obliquamente, passando por um dos grandes canhões e atingia o chão perto do lugar onde se encontrava o oficial algemado. A dificuldade consistia em atravessar os dez metros sem ser visto. Na opinião de Mullon, o resto seria fácil. Os poucos homens, que passavam apressadamente de um lado para outro, estavam armados. Além disso, o elemento surpresa desempenharia um papel importante. Por fim, o oficial da equipe técnica era um homem tão importante que os filósofos da natureza não se arriscariam a atirar depois que Mullon e seus homens o tivessem libertado.
Milligan não se impressionou com os dez metros.
Posso dar um jeito nisso — disse. — Brennan, dê-me o desintegrador.
Brennan entregou-lhe a pequena arma. Milligan apontou para um lugar situado nos fundos da sala. Puxou o gatilho. Um raio fino e claro saiu do cano, atingiu o alvo e no mesmo instante fez com que a chapa de revestimento de um dos aparelhos se desprendesse. A peça caiu ao chão, provocando um barulho infernal.
Nenhum dos homens de Hollander havia notado o disparo ligeiro e seguro. Mas o barulho fê-los voltarem a cabeça. Alguém gritou algumas ordens. Dez dos homens ocupados com os reparos do conversor separaram-se dos outros e correram para o lugar de onde viera o ruído, a fim de verificar por que a chapa se desprendera. Os demais seguiram-nos com os olhos.
É agora! — cochichou Milligan. Nenhum dos homens que se encontravam lá embaixo notou o grupo que atravessou o passadiço, às pressas, mas cuidadosamente, para não provocar nenhum ruído. Antes que os homens de Hollander descobrissem por que a chapa havia caído, o grupo desapareceu no poço do elevador antigravitacional.
Mullon foi o primeiro que, atingido pela sucção do campo antigravitacional, chegou à saída inferior do poço. Viu que esta era ampla, e que qualquer pessoa, que por acaso olhasse nessa direção, vê-la-ia imediatamente.
Havia duas possibilidades. Podia apoiar-se na parede e esperar um momento favorável, ou avançar imediatamente.
Mullon optou pela última afirmativa.
Vamos! — gritou para seus homens.
Saltou suavemente para o chão e, ainda correndo, eliminou com um tiro o guarda que vigiava o prisioneiro. Ouviu um chiado pouco acima de seu ombro. Era a salva disparada por Milligan, que atingiu outro guarda.
Os demais ficaram estarrecidos. E antes que estes tivessem tempo de desviar os olhos dos dez homens que examinavam a chapa caída e percebessem o que se passava, Mullon puxara o prisioneiro para junto de si e o arrastava em direção ao elevador antigravitacional.
Milligan e Brennan davam-lhes cobertura. Nenhum dos homens de Hollander julgara necessário andar com a arma na mão. Seus radiadores estavam guardados nos bolsos ou presos aos cintos.
Venham para cá! — gritou Milligan para os homens.
Obedeceram com certa relutância. Milligan percebera logo que o maior perigo residia no fato de estarem os homens espalhados pela sala. Por isso reuniu-os num grupo compacto.
Atirem as armas no chão! — ordenou Milligan.
Alguns obedeceram. Alguém que se encontrava nos fundos gritou:
Parem, seus idiotas! Somos muito mais que eles. Atirem, seus covardes!
Mas Milligan estava atento a tudo. O homem ainda não acabara de proferir a última palavra, quando um disparo passou junto à sua cabeça. Ele desviou-se, tropeçou e caiu.
Ninguém seguiu sua ordem. Todos obedeceram a Milligan. As armas foram caindo ao chão.
O homem, que se encontrava nos fundos, voltou a pôr-se de pé. Ao ver que os outros haviam capitulado, também atirou fora sua arma. Abriu caminho entre os demais e só parou quando Milligan levantou a pistola num gesto de advertência.
Atire, seu idiota! — gritou com a voz zangada. — Quem vai consertar o conversor?
Milligan deu de ombros. Não estava interessado nisso.
Ah, quer dizer que você não se importa? — esbravejou o filósofo da natureza. — Se Hollander fizer a Adventurous entrar em transição daqui a meia hora, estaremos todos perdidos. Isso também não lhe interessa?
Milligan voltou-se para Mullon.
Como é que a Adventurous pode entrar em transição com um conversor danificado?
Pois é justamente isso! — disse o homem em tom exaltado. — As avarias são apenas parciais. O transformador de fases ainda trabalha com sessenta por cento de sua potência.
Mullon voltou-se para o oficial da equipe técnica que acabara de libertar.
O que significa isso?
O oficial soltou uma risada contrariada.
Antes de mais nada, acontece que Hollander é um tolo. Pensa que estou exagerando as avarias do conversor para criar problemas. Fixou o momento da transição para obrigar-me a trabalhar depressa. Quanto ao mais, Suttney está com a razão. As avarias do conversor são apenas parciais. Talvez possa resistir a uma transição, talvez não. Mas procure explicar isso a Hollander!
Mullon olhou em torno. Milligan e Brennan continuavam com as armas levantadas, mantendo os filósofos da natureza sob controle. Mullon sabia que não poderia confiar neles.
De quanto tempo ainda dispomos, Suttney? — perguntou Mullon, dirigindo-se ao homem que estava parado à frente de Milligan.
Suttney olhou para o relógio.
Vinte e oito minutos.
Quanto tempo durarão os reparos? — perguntou Mullon ao oficial da equipe técnica.
Mais ou menos o mesmo tempo. Se Hollander não conceder um prazo maior, nossa situação será bastante difícil.
Mullon só hesitou um instante.
Preste atenção, Suttney — disse. — Vamos reparar juntos o conversor. Milligan pode ajudar um pouco, pois é técnico. Talvez consigamos antes que Hollander entre em transição. Depois veremos o resto. Combinado?
Suttney parecia contrariado.
Naturalmente. Afinal, nossa vida está em jogo.
Mullon fez um sinal para que os filósofos da natureza se afastassem para um lado. Quando se encontravam suficientemente longe do montão de armas jogadas ao chão, assumiu o lugar de Milligan e pediu que este fosse ao conversor juntamente com o oficial da equipe técnica.
Vamos começar, gente! — gritou. — Precisamos terminar dentro de vinte minutos.
Os filósofos da natureza puseram-se a trabalhar com uma pressa notável, sob a direção de Milligan e do oficial da equipe técnica. Enquanto isso, Mullon ficou refletindo para descobrir uma maneira de impedir a execução do perigoso plano de Hollander.
8



O’Bannon e seus homens não tiveram de esperar muito tempo. A julgar pelos ruídos, os filósofos acabavam de concluir o trabalho que vinham executando na parede porosa do conduto de ventilação. Nesse instante, O’Bannon viu pela escotilha entreaberta que um homem se aproximava pelo corredor. Passou pelo esconderijo de O’Bannon e penetrou no recinto contíguo.
O’Bannon ouviu-lhe a voz forte e exaltada. Abriu de vez a escotilha e saiu. Aproximou-se da entrada da sala contígua e ouviu o que se falava lá dentro.
Dentro de meia hora tudo deverá estar terminado — disse alguém em tom enérgico.
Isto só será possível se Mullon e seus auxiliares mais importantes estiverem reunidos no mesmo lugar — respondeu outro homem. — O que é que Hollander está pensando?
Não faço a menor idéia. Só sei que dentro de meia hora entraremos em transição. E vocês sabem perfeitamente quais são os efeitos da mesma. Se não terminarem ou não desaparecerem em tempo, os democratas cairão em cima de vocês assim que passar a dor da transição.
Muito bem. Faremos o possível. Quando é que Hackney deve atacar?
Daqui a cinco minutos. Sairá do corredor radial, avançando do setor cinco diretamente para o setor um. Se vocês chegarem ao mesmo tempo à sala de oficiais, Mullon estará entre dois fogos.
Se é que está por lá.
Se não estiver, prendam aqueles que encontrarem. Comecem logo! Não temos tempo a perder.
O’Bannon ouviu o ruído de passos.
Do lado de dentro ouviu outros passos, que se aproximavam da escotilha. O’Bannon, que se mantivera deitado no chão, levantou-se. Não teve tempo para esconder-se.
O homem que trouxera a ordem de ataque de Hollander voltou para o corredor sem desconfiar de nada. Só descobriu O’Bannon quando já se encontrava lado a lado com ele.
O’Bannon não lhe deu tempo para soltar um grito de advertência. Saltou sobre ele e apertou-lhe a garganta até que ficasse inconsciente.
Lá dentro, onde os filósofos da natureza continuavam ocupados em penetrar no conduto de ventilação a fim de descer ao convés E, ninguém notou o incidente. O’Bannon levou o prisioneiro ao esconderijo onde estavam seus companheiros. O homem de Hollander foi amarrado e amordaçado. Deixaram-no ali mesmo. Depois o grupo de O’Bannon penetrou na peça contígua, que os filósofos da natureza acabavam de deixar através do conduto de ventilação.
O buraco aberto na parede mal permitia a passagem de um homem. Mullon olhou para dentro do canal de ventilação e descobriu pequenos degraus de metal plastificado, colocados em fila vertical, quarenta centímetros um acima do outro.
O’Bannon já havia concebido seu plano. Desceria por ali com dois dos seus homens, enquanto os outros dois ficariam na abertura, a fim de pegar os filósofos da natureza que lhe escapassem.
A descida decorreu sem qualquer incidente. Os sete ou oito homens, que Hollander havia enviado para caírem nas costas dos democratas, faziam tamanho barulho que O’Bannon e seus companheiros não tiveram necessidade de tomar maiores precauções para não serem descobertos.
Deviam estar passando pela altura dos conveses F e E, quando mais embaixo surgiu uma luminosidade ofuscante. Dali a alguns segundos, uma nuvem de ar quente subiu pelo conduto. O’Bannon quase não conseguia respirar.
Os filósofos da natureza estavam começando a trabalhar na parede do tubo de ventilação. Haviam chegado à altura da sala dos tripulantes do convés F.
O’Bannon sabia que levariam pelo menos quinze minutos para fazer uma abertura. Trabalhavam com radiadores térmicos, que só poderiam ser usados a uma distância segura e com raios finíssimos. Além disso, teriam de esperar até que a parede, especialmente na parte próxima à abertura, esfriasse o suficiente para permitir passagem.
Apesar disso, O’Bannon se apressou. Desceu o bastante para que pudesse enxergar o inimigo que se achava postado mais acima, poucos degraus abaixo do lugar em que se encontrava anteriormente, à luz de um radiador térmico. O inimigo dedicava toda atenção aos homens que lá embaixo tentavam romper a parede.
O’Bannon não perdeu mais tempo. Desceu o mais que podia, inclinou-se para a frente e encostou o cano de sua arma ao ombro do inimigo desprevenido.
Tire o dedo do gatilho — ordenou em voz suficientemente alta para ser ouvido. — Passe para cá essa pistola, meu filho. Vamos logo!
O filósofo da natureza obedeceu, perplexo e apavorado. O’Bannon tirou-lhe a arma e cochichou ao seu ouvido:
Agora vá na minha frente e suba. Lá perto do buraco há gente esperando por você.
O’Bannon segurou-se com a mão esquerda nos degraus. Enfiara no bolso a arma de que acabara de apoderar-se e mantinha seu próprio radiador na mão direita. Os disparos de radiações, cuja luz fulgurante chegava lá embaixo, permitiam que o inimigo surpreendido visse que já não tinha a menor chance.
Foi subindo devagar.
O’Bannon continuou a descer. Surpreendeu mais três filósofos da natureza. Tirou as armas dos mesmos e mandou que subissem. Seus bolsos estavam enchendo.
Nesse meio tempo, os outros inimigos haviam conseguido abrir um buraco na parede. A luz da sala dos tripulantes iluminou o interior do conduto. Mais ao longe ouviam-se gritos, o chiado dos tiros de radiações e, vez por outra, a voz de comando de Wolley.
Na sala dos tripulantes, rugia a luta.
Os filósofos da natureza que se encontravam no tubo de ventilação estavam impacientes. Em torno da abertura, a parede ainda estava incandescente, e ao que tudo indicava Wolley não percebera o que se passava nas suas costas.
O’Bannon resolveu arriscar uma jogada decisiva. Disparou um tiro de radiação pelo conduto inferior e gritou:
Rendam-se! Descobrimos seu plano. Já prendemos quatro dos seus. Vocês não têm outra chance.
Por algum tempo não se ouviu nada além do ruído da luta que se desenvolvia na sala dos tripulantes. O’Bannon viu que o homem que se encontrava mais próximo a ele começou a mexer-se. Sua mão desceu para o cinto e voltou a subir com a arma.
O’Bannon inclinou-se bem para a frente, virou o radiador que trazia na mão e golpeou antes que o inimigo pudesse fazer pontaria. A pesada coronha atingiu o punho do outro. Com um grito, o homem deixou cair a arma. O’Bannon viu-a descer ruidosamente pelo conduto.
Menos um! — gritou. — Desistam! Rápido, que somos pessoas impacientes.
Talvez o problema não fosse resolvido tão depressa se lá embaixo uma cabeça calva não aparecesse na abertura, cujas bordas já haviam esfriado, e se todos não tivessem ouvido a voz exultante de Wolley:
É O’Bannon? Já chegaram? Expulsamos o pessoal de Hollander. Será que já podemos recepcionar os outros?
Com isso, os filósofos da natureza desistiram. Wolley mandou que atirassem as armas pelo buraco e fossem entrando um após o outro. O’Bannon viu que tudo correu sem o menor incidente. Voltou a subir com seu grupo.
Dali a alguns minutos chegaram ao convés F, onde os que haviam ficado para trás estavam amarrando o último dos prisioneiros.
O’Bannon estacou quando viu que só havia três.
Mandei quatro prisioneiros. Onde está o outro?
Os dois homens não sabiam nada.
Por aqui só saíram três — asseveraram.
Acredito — trovejou O’Bannon. — Quero saber onde foi parar o quarto.
Os dois homens que haviam entrado no conduto juntamente com O’Bannon garantiram que quatro filósofos da natureza haviam passado por eles. Uma vez que não haviam dado com o quarto no caminho de volta, só restava uma possibilidade: passara pelo convés F e continuara a subir.
Vamos embora! — gritou O’Bannon. — Temos de ir atrás dele. Quem sabe lá o que está tramando?
Os prisioneiros não poderiam fugir. Não havia motivo para preocupar-se com eles. O’Bannon voltou a entrar no conduto com os quatro homens e subiu o mais depressa que pôde.
Ainda não havia galgado dez degraus quando viu uma luz ofuscante mais em cima. Sem reduzir a velocidade, gritou para seus homens:
Tomem cuidado! O sujeito está armado. Tenta abrir uma saída mais em cima. Se nos ouvir chegar, atirará.
O’Bannon subia tão depressa que quase ficou sem fôlego. Quando devia ter alcançado uns duzentos metros, viu a silhueta do homem à luz de um disparo.
O’Bannon reuniu as forças que lhe restavam. Pouco lhe importava que os outros ficassem para trás.
O homem descobriu-o antes que se aproximasse a menos de dez metros.
Fique onde está, senão atiro! — gritou.
A voz parecia nervosa e insegura. Em compensação O’Bannon sentia-se bastante calmo.
Usou seu truque.
Escute aí! — gritou. — Você sabe que dentro de dois ou três minutos Hollander entrará em transição. Já pensou no que lhe acontecerá depois disso?
O homem parecia refletir.
O que poderá acontecer? — perguntou temeroso.
Por alguns segundos você ficará em péssimo estado mental — disse O’Bannon. — Perderá o domínio dos seus músculos. Fatalmente soltará o degrau que está segurando e, quando a transição acabar, cairá pelo conduto abaixo... Acontece que o conduto chega até o convés B. Sabe lá quantos metros representa isso?
O filósofo da natureza não respondeu. O’Bannon aproveitou a oportunidade para subir mais alguns degraus. Desta vez não ouviu nenhuma advertência.
Não faça tolices! — disse enquanto subia, e procurou dar um tom sugestivo à voz. — Ajudá-lo-ei a romper a parede. Antes ser preso pelos democratas que cair de uma altura de oitocentos metros.
O homem não se moveu. Deixou que O’Bannon se aproximasse a uma distância de três degraus. O’Bannon chegou a ouvir sua respiração apressada.
Não faça tolice! — disse O’Bannon em tom tranqüilo. — Se acha que deve atirar, atire contra a parede.
Alguma coisa passou acima de O’Bannon. Num movimento instintivo, este se comprimiu contra a parede. Um metro acima de sua cabeça surgiu uma luminosidade ofuscante. O’Bannon entesou o corpo para mudar de lugar e escapar ao segundo disparo, tal qual escapou ao primeiro.
Percebeu que o disparo não fora dirigido contra ele. Um feixe estreito de luz azulada encheu o conduto. O homem que se encontrava acima dele seguira sua recomendação e estava atirando contra a parede.
O’Bannon subiu os últimos degraus que o separavam do filósofo da natureza.
Isto! — fungou. — Em dois terminaremos mais depressa. Vamos!
Revezaram-se nos disparos térmicos dirigidos contra a parede. A abertura foi aumentando.
O truque com que O’Bannon havia surpreendido o filósofo da natureza na verdade não era nenhum truque. A transição estava iminente.
Teriam de atravessar a parede, pois do contrário estariam perdidos.
Conseguiram. Os homens do grupo de O’Bannon, que vinham atrás, ajudaram. Aumentaram a abertura até que pudessem saltar pela mesma sem tocar as bordas incandescentes.
Viram-se num gigantesco depósito, onde havia uma quantidade enorme de grandes máquinas, cobertas por lonas ou guardadas em engradados. O’Bannon viu que uma delas tinha certa semelhança com um canhão. Como precisasse de tudo que se parecesse com um canhão, examinou o engradado em que o aparelho estava guardado e começou a soltar os grampos.
No momento em que estava puxando o terceiro sentiu uma dor lancinante.
Os contornos dos objetos apagaram-se e perdeu o controle dos músculos.
Transição! — gritou alguém.

* * *

Depois de quinze minutos Mullon tornou a perguntar se os reparos poderiam ser concluídos no prazo fixado.
Milligan e Stokes, o oficial da equipe técnica, não se limitavam mais a dar ordens. Eles mesmos puseram mãos à obra. Stokes saiu do grande tubo de cabos em que estivera trabalhando e sacudiu a cabeça.
É impossível — disse. — Um dos orifícios atravessa todo o aparelho. O conversor deveria ser desmontado. Mas acredito que gastaríamos, num conserto provisório, uma hora.
Mullon acenou com a cabeça, como se não esperasse outra informação.
Pois bem — disse. — Nesse caso vamos pedir um adiamento a Hollander. Suttney!
Pois não.
Pare de trabalhar e venha comigo. Precisamos fazer com que Hollander adie a transição.
Suttney enxugou o suor da testa.
Não adianta — respondeu em tom contrariado. — Ele não vai adiar.
Não importa — respondeu Mullon em tom enérgico. — De qualquer maneira tentaremos. Venha comigo.
Pediu a um dos homens que subisse ao convés E e avisasse aos democratas de que iria à sala de comando para negociar com Hollander. O mensageiro foi um filósofo da natureza desarmado. Era duvidoso que realmente fosse desincumbir-se da tarefa.
Mas Mullon não tinha outra chance.
Pôs-se a caminho em companhia de Suttney. Já havia concebido seu plano. Usaria Stokes como uma espécie de refém durante as negociações com Hollander. Tal qual os demais ocupantes da nave, Hollander precisava de ao menos um homem vivo que entendesse alguma coisa da complicada técnica astronáutica.
Ao que tudo indicava, Hollander não havia sido avisado da visita de Mullon. Encontrava-se diante do painel principal, juntamente com um prisioneiro e alguns de seus homens. No momento em que a escotilha se abriu, olhou para o lado.
Quando reconheceu Mullon, arregalou os olhos. Empurrou seus homens para o lado e aproximou-se de Mullon. Num gesto dramático estendeu as mãos, sorriu e disse:
Mullon, quer dizer que resolveu colocar-se à disposição do Conselho dos Colonos Associados Livres? Garanto que esse gesto voluntário pesará a seu favor. Farão...
Farão coisa alguma! — interrompeu Mullon em tom zangado. — Nada será feito, a não ser que o senhor adie a transição.
Hollander estacou, deixou cair as mãos e lançou um olhar sombrio para Mullon.
Por quê? — perguntou laconicamente.
Porque até o momento fixado pelo senhor, o conversor não poderá ser suficientemente reparado.
O que quer dizer com suficientemente reparado? A única coisa que quero fazer é realizar a transição, e isso o aparelho há de agüentar. Tenho certeza de que Stokes está exagerando.
Está exagerando coisa alguma! — gritou Mullon. — A nave explodirá se o senhor realizar o salto.
Hollander parecia refletir. Subitamente virou-se e caminhou em direção aos instrumentos de localização.
Venha cá, Mullon! — disse. — Quero mostrar-lhe uma coisa.
Mullon seguiu Hollander. Este apontou para uma tela que brilhava num tom verde, na qual havia uma série de pontinhos claros.
Está vendo isto? — perguntou Hollander.
Sim; o que é? — inquiriu Mullon.
Não temos certeza. Mas devem ser naves espaciais. Talvez estejam nos chamando, mas não podemos ouvir, pois o receptor não está funcionando. É quase certo que são naves de patrulhamento da frota terrana. Desde a conquista da sala de comando as comunicações entre a Adventurous e a Terra estão interrompidas. Em Terrânia devem ter desconfiado e enviado alguns cruzadores para cima de nós. Nós os observamos há várias horas. Por certo também já notaram nossa presença, apenas preferem ser cautelosos. Estão desconfiados.
Se esperarmos mais algum tempo, eles se aproximarão. Nos últimos minutos, a distância diminuiu bastante. O senhor acredita que estou disposto a deixar que eles me capturem e me coloquem mais uma vez na presença dos juizes, apenas porque Stokes demora demais em reparar o conversor? Nada disso, meu caro. Vamos saltar, e é agora. Prefiro morrer a ser capturado pela segunda vez.”
Mullon manteve-se tranqüilo.
Pensa só no senhor! — respondeu. — E as oito mil pessoas que se encontram aqui não o preocupam nem um pouco? Hollander sorriu.
Não — respondeu em tom brutal.
Virou-se, sem dar mais a menor atenção a Mullon.
Gire a chave — ordenou a um dos seus homens, que se encontrava junto ao painel principal. — Vamos saltar agora.
Não! — gritou Mullon. — Não façam o que ele está dizendo. Morreremos no mesmo instante em que o senhor mover essa chave.
Hollander nem sequer olhou para trás. Mullon foi recuando devagar em direção ao pequeno painel do hipertransmissor.
O homem que se encontrava junto ao painel principal hesitou.
Vai obedecer, ou terei de substituí-lo? — perguntou Hollander em tom áspero.
Ninguém deu a menor atenção a Mullon. Este continuou a caminhar de costas e só parou quando sentiu atrás de si os botões e as chaves do hipertransmissor.
Neste meio tempo o homem que se encontrava junto ao painel principal havia tomado uma decisão. Subitamente moveu a chave.
Mullon viu uma neblina surgir diante de seus olhos. Os contornos da sala desfizeram-se, e uma dor cruciante invadiu todo o corpo.

* * *

O’Bannon não sabia quanto tempo costuma durar uma transição, mas esta, talvez, foi terrivelmente longa. E não sabia nada sobre as complicações que surgiram na sala de máquinas, ou do perigo que a Adventurous atravessara naqueles segundos.
No momento em que a dor desapareceu e a sala voltou a adquirir seus contornos normais, continuou a trabalhar no engradado em que estava guardado o aparelho com o formato de canhão. Enquanto isso os outros cuidavam do prisioneiro.
Depois de alguns minutos, O’Bannon retirou a estranha máquina e leu a inscrição que se encontrava atrás do cano. Viu tratar-se de uma máquina de desmatamento. Por enquanto não tinha a menor idéia do que seria desmatado e de que forma aquele aparelho desempenharia sua tarefa. Mas resolveu descobrir o quanto antes. Para isso começou a mexer nos botões. Tomou cuidado para que nenhum dos homens ficasse à frente do “canhão”.
Por algum tempo a atividade de O’Bannon não produziu o menor efeito. Nenhuma das luzinhas coloridas, que sem dúvida serviam para controlar a máquina, se iluminou.
Finalmente lembrou-se de que, provavelmente, teria de comprimir em primeiro lugar o botão cujo letreiro dizia “força”.
Comprimiu o botão e, no mesmo instante, uma luz verde acendeu-se. O’Bannon criou coragem. Apertou outro botão, cujo letreiro dizia “intensidade mínima”. No mesmo instante, aconteceu uma coisa estranha.
O ar começou a tremeluzir à frente do canhão. Num instante, a faixa de ar quente avançou até a parede oposta. O’Bannon sentiu-se envolto numa nuvem de calor e o suor começou porejar por todo o corpo.
Deixou os botões na posição em que se encontravam e contornou o canhão. Colocou cautelosamente a mão esquerda dentro da faixa de ar superaquecido, mas logo a retirou com um grito de dor. As costas da mão ficaram cobertas de bolhas.
Bastante exaltado e sem dar a menor atenção à dor que o afligia, voltou para junto do pequeno painel e comprimiu o botão junto ao qual se lia “intensidade máxima”. Aconteceu aquilo que esperara. O tremeluzir aumentou e a temperatura no interior do depósito subiu rapidamente. Na parede contra a qual era dirigido o canhão, começaram a surgir bolhas.
O’Bannon pegou um dos enormes grampos de plástico retirados do engradado e colocou-o dentro do raio expelido pela mesma. O metal começou a chiar e se desmanchou em grandes pingos azuis, que caíram ao chão e endureceram imediatamente.
Desligou a máquina. Já não pôde ocultar o triunfo.
Com isto aqui conquistaremos a nave, rapazes! — gritou entusiasmado. — E mais algumas que apareçam. Tudo depende de tirarmos o canhão daqui e o levarmos à sala de comando.
Os homens participaram de seu entusiasmo.
Levaram o canhão até a escotilha. O’Bannon tentou abri-la, mas não conseguiu. A escotilha não reagia a qualquer das tentativas de aproximação realizadas por O’Bannon.
Este perdeu a paciência e fundiu o mecanismo com seu radiador. Depois a escotilha tombou, dando passagem aos cinco homens juntamente com o canhão.
Viram que do lado de fora a escotilha trazia uma placa na qual se lia “lacrado”. Foi por isso que O’Bannon não conseguiu abrir sua fechadura. O’Bannon chegou à conclusão de que havia por ali várias máquinas que só deveriam ser entregues aos colonos após o pouso.
A seguir, não houve problemas. Unindo suas forças, os homens transportaram o canhão ao elevador central mais próximo. Agora, que dispunham de uma arma tão eficiente, não tinham a menor dúvida em usá-la.
Desceram ao convés E.
Ali souberam que, pouco antes da transição, Mullon fora procurar Hollander na sala de comando, para negociar. O mensageiro de Mullon transmitira o recado.
O’Bannon não perdeu tempo. Reuniu seu pequeno grupo de combatentes e, levando o canhão, avançou até o convés C, dirigindo-se à sala de comando.

* * *

Mullon percebeu que a dor provocada pela transição estava desaparecendo. Viu que os objetos voltavam a assumir seus contornos normais, e procurou atingir as chaves às quais se agarrara antes da transição.
Foi a primeira pessoa na sala de comando que recuperou os sentidos.
Deu uma boa olhada no painel que tinha diante de si. O letreiro era simples e facilmente compreensível. Havia um botão com a inscrição “entrada de energia” e uma chave junto à qual se lia “pronto para transmitir”. Além disso, notou uma porção de botões destinados a orientar as antenas e condensar as mensagens. Sem que ninguém o percebesse, Mullon comprimiu os botões e moveu a alavanca destinada ao suprimento máximo de energia. Ficou satisfeito ao notar que duas luzes de controle se acenderam. O transmissor estava em perfeitas condições. Só faltava pegar o microfone e falar, ou comprimir um dos botões que ocasionava a transmissão de sinais codificados preestabelecidos.
Mullon virou-se. Ainda chegou a ver Hollander erguer-se com um gemido e dirigir-se ao prisioneiro uniformizado.
O que foi isso?
O prisioneiro, que ainda estava um tanto confuso, sacudiu a cabeça.
Não sei — gemeu. — Só sei que foi a transição mais longa pela qual já passei. Olhe — disse, apontando para a única tela que estava funcionando. — Veja onde saímos.
Hollander fitou a tela.
Onde foi? — perguntou em tom ingênuo.
Aí que está. Não sei. Não vejo uma única constelação conhecida. Tenho certeza quase absoluta de que nem mesmo um astronauta experimentado conseguiria orientar-se aqui.
Por alguns segundos Hollander parecia perplexo. Dirigiu-se às instalações de localização. Ao ver a tela verde, seu rosto iluminou-se.
Pelo menos uma coisa conseguimos — exclamou. — As naves desapareceram.
Virou-se de novo. Seu olhar caiu sobre Mullon. Só agora parecia lembrar-se da presença do democrata autêntico.
Ah, Mullon! — disse, esticando as palavras. — Como vê, superamos a transição. Não sabemos onde saímos, mas estamos todos vivos e bem dispostos. Agora só lhe resta entregar-se. O Conselho dos Colonos Associados Livres o julgará.
Mullon continuou a aparentar calma. Mantinha os dois braços voltados para trás, e ninguém poderia ver que tinha as mãos sobre dois botões muito importantes.
O senhor está enganado, Hollander — respondeu com um sorriso. — Não me entregarei. Graças à sua teimosia o senhor nos meteu numa situação que poderá representar a morte para todos. Apesar do conversor danificado o senhor fez realizar uma transição que terminou no desconhecido. Não sabemos se nesta área existem mundos habitáveis. Mesmo que existam, não sei como fará para encontrá-los em meio às inúmeras estrelas.
Hollander, o senhor é um idiota, e um idiota perigoso. Está com medo de que as naves-patrulhas da Terra voltem a agarrar o senhor e seu bando de gângsteres. Acontece que eu sinto medo de que oito mil pessoas tenham de morrer por causa de sua idiotice.
Há pouco o senhor me disse que o receptor foi destruído. Acontece que o transmissor está funcionando. E acabo de ligá-lo. Basta comprimir um botão para que uma mensagem codificada seja irradiada para todos os setores do espaço. Haverá pelo menos uma nave terrana que a captará. Com isso, a Terra saberá onde saímos e virá em nosso auxílio. Sinto muito, Hollander, mas seu medo puramente pessoal terá que ceder diante do interesse geral.”
Hollander empalideceu. Quis dizer alguma coisa e deu um passo à frente, como se quisesse precipitar-se sobre Mullon. Mas não disse nada e parou.
Mullon entesou os braços enquanto a palma da mão comprimiu fortemente os dois botões. Ouviu-se um leve zumbido, que em meio ao silêncio reinante na sala tornou-se nítido. Foi o único sinal de que o transmissor estava funcionando.
Mullon deixou cair os braços.
Muito bem — disse. — Agora poderá colocar-me diante de seu ridículo Conselho dos Colonos Associados Livres. Isto se conseguir agarrar-me vivo.
Uma vez que Suttney o acompanhara à sala de comando, ninguém se dera ao trabalho de revistá-lo para verificar se trazia armas. E Mullon tinha um microrradiador no bolso.
Quando Hollander despertou do torpor, Mullon já segurava a arma. Sabia que de qualquer maneira estaria perdido. Havia muitos filósofos da natureza na sala de comando. Só tinha um par de olhos, e não sabia o que se passava atrás dele.
Mas podia manter Hollander sob controle. Este só se encontrava a sete ou oito metros dele. Enquanto visse o cano do microrradiador apontado para ele, pensaria duas vezes antes de dar ordem de atacar Mullon.
Isso não lhe adiantará nada, Mullon! — exclamou. — Guarde a arma e se entregue.
Mullon sacudiu a cabeça.
Não, Hollander. Esta arma está apontada para o senhor. Mesmo que seja atingido por dez disparos ao mesmo tempo, ainda terei forças para puxar o gatilho. Se quiser continuar a viver...
Não! — berrou Hollander aflito. — Não atirem, seus idiotas!
Estas palavras foram dirigidas a alguns homens que haviam sacado as armas e as estavam apontando para as costas de Mullon.
Este sentiu um calafrio.
Só lhe restava uma chance mínima, se o mensageiro que saíra da sala de máquinas tivesse chegado a Wolley e O’Bannon, e estes resolvessem fazer alguma coisa para libertá-lo.
Por enquanto o jogo havia chegado a um ponto morto. Nenhum dos dois lados podia executar qualquer movimento. Os homens de Hollander conservaram a calma e voltaram a guardar as armas. Hollander e Mullon fitaram-se frente a frente.
Alguns instantes se passaram. Cada minuto parecia uma eternidade. Mullon perdeu a sensação do tempo. Quando soube que se mantivera durante quarenta e cinco minutos diante do painel do hipertransmissor e não tirara os olhos de Hollander por um instante sequer, sentiu-se muito espantado.
Mas tudo isso não adiantou nada. Hollander ganhou o jogo por causa de um truque.
Atrás de Mullon alguém soltou um grito estridente. Depois do silêncio prolongado e enervante que reinara na sala de comando, o ruído foi tão inesperado e apavorante que Mullon se abaixou instintivamente e virou a cabeça.
Ouviu-se um baque. A tensão, que mantivera todo o mundo preso, desfez-se num único grito histérico.
Mullon compreendeu que fora enganado. Com um enorme pulo afastou-se do painel... saltou no instante exato. Dez disparos de radiações térmicas passaram pouco acima de sua cabeça e transformaram o aparelho de hipercomunicação numa massa fumegante de metal, vidro e plástico.
O ombro de Mullon bateu contra um pequeno painel. No mesmo instante, girou o corpo e abrigou-se atrás do mesmo. A trincheira era puramente simbólica, pois o painel ficava no meio da sala e os homens de Hollander estavam espalhados por todos os lados.
Mullon feriu dois destes que se encontravam perto dele e, mais uma vez, saltou para o lado. Os disparos escaldantes vieram apenas com uma fração de segundo de atraso. O painel entrou em incandescência e se desmanchou.
Mullon passou em meio a um grupo de pessoas que, de tão assustadas e receosas de atingirem um dos seus, não usaram suas armas. O radiador de Mullon expelia raios energéticos fortemente enfeixados para todos os cantos. Mullon não pretendia matar ninguém. A arma foi regulada para a abertura mínima. As feridas produzidas pela mesma geralmente não seriam mortais, a não ser que atingissem o coração ou o cérebro.
Mullon conseguiu livrar-se dos inimigos por um instante. Alcançou a parede na qual estava embutido o painel principal, encostou-se à mesma e repeliu os que o seguiam.
Deu um enorme salto, “pousou” de barriga e arrastou-se alguns metros pelo soalho liso. Uma coisa quente atingiu seu ombro, mas a dor logo passou. O tiro apenas o havia atingido de raspão.
Mullon compreendeu que a única chance que tinha era sua mobilidade.
Corria, atirava, saltava, atirava, rolava pelo chão, voltava a atirar, arrastou-se de bruços e sentiu que respirava com dificuldade e sua vista começava a escurecer.
Em meio ao zumbido que sentiu, ouviu uma voz exaltada:
Estão chegando! Vamos dar o fora!
Não sabia quem estava chegando, quem devia dar o fora e por que fugiam. Com um último e débil impulso, enfiou-se sob um outro painel astronáutico onde permaneceu imóvel.
Ouviu gritos, pisadas, ordens furiosas e um ruído semelhante ao de um maçarico. Subitamente reconheceu a voz que de uma hora para outra fez desaparecer toda dor e cansaço. Quem tivesse ouvido uma vez os berros de O’Bannon, não deixaria de reconhecê-los em meio a milhares de vozes.
Mullon ergueu-se. Viu que na sala de comando, que parecia envolta em neblina, havia vários feridos estendidos no chão. Mullon dirigiu-se à escotilha principal. Estava bem aberta. Notou homens correrem apressadamente à frente da mesma, tomando a direita.
Mais uma vez, ouviu a voz potente de O’Bannon, agora mais perto. Mullon alcançou a escotilha, segurou-se com ambas as mãos para vencer a fraqueza e saiu para o corredor circular.
Pouco adiante, no lugar em que um dos corredores principais desembocava na galeria, viu a figura larga, maciça e inconfundível de O’Bannon. Tinha diante de si um objeto parecido com um canhão da Guerra Civil.
Mullon não percebeu que o ar estava superaquecido e que mal conseguia respirar. Notou O’Bannon, e viu que este lhe fazia um sinal.
O’Bannon e seus homens avançaram para o corredor circular, empurrando o canhão antediluviano.
Agora, que sabia estar em segurança, já que O’Bannon se encontrava à entrada da sala de comando e ninguém mais conseguiria impedi-lo de ocupar a mesma, Mullon cedeu à fraqueza.
Perdeu os sentidos.
9



Santo Deus! — disse uma voz retumbante. — Parece que este sujeito não quer mais acordar.
Mullon reconheceu a voz, mas teve de esforçar-se para abrir os olhos. Finalmente conseguiu. Viu o rosto de O’Bannon pouco acima do seu, e ao lado dele os olhos radiantes de Fraudy.
Graças a Deus! — disse O’Bannon. — Já estávamos pensando...
Mullon ergueu-se abruptamente. Sentiu uma dor lancinante no ombro e sua vista se turvou; mas conseguiu dominar a fraqueza.
O que houve? — perguntou. — A sala de comando...
Sim, a sala de comando está em nosso poder — interrompeu O’Bannon. — Há dois dias; é o tempo que você está inconsciente. A situação é a seguinte: os filósofos da natureza foram derrotados. Hollander e seus colaboradores mais importantes estão em nossas mãos. Hollander está gravemente ferido, mas escapará com vida.
Poderíamos dar-nos por satisfeitos. Mas há um detalhe. Os propulsores estão praticamente inutilizados. No momento em que Hollander executou o hipersalto, houve uma pequena explosão na sala de máquinas. Felizmente Stokes recomendara aos homens que se abrigassem a tempo. O conversor foi destruído; mal e mal conseguiu realizar esta transição. E, face à inutilização do aparelho, a Adventurous conservou apenas dez por cento de sua capacidade de manobra. Não podemos ir para a direita, nem para a esquerda, apenas para a frente. Um pouso será uma questão bastante problemática. Nem sequer poderemos escolher um lugar para pousar. Quando encontrarmos um planeta, teremos de dirigir-nos ao lugar ao qual a gravitação nos estiver levando.
São estas as notícias desagradáveis. Mas também tenho algumas novidades agradáveis. Em princípio, os filósofos da natureza concordaram em colaborar conosco. É bem verdade que Hollander não foi consultado; ainda está inconsciente. Os tripulantes foram libertados.
Segundo: a Adventurous encontra-se a apenas algumas” horas-luz de uma gigante estrela branco-azulada. O observatório constatou que esta tem uma infinidade de planetas. Quer dizer que tivemos sorte, pois não teremos necessidade de perder tempo e procurar. É claro que a estrela é totalmente desconhecida. Mas isso não é nenhuma tragédia, desde que encontremos um lugar no qual possamos pousar.
Ainda: a luta contra Hollander e seus homens não causou qualquer derramamento de sangue. Houve uma porção de bolhas produzidas por queimaduras, mas nem um único morto. Aliás, quero contar-lhe uma coisa. Num dos depósitos encontrei um canhão. Ei, não está prestando atenção...”
O’Bannon entusiasmara-se com suas palavras, e por isso nem percebera que, depois de ter ouvido as coisas mais importantes, Mullon se dirigira para Fraudy. Quando notou alguma coisa, O’Bannon viu que os dois estavam abraçados.
Está bem — resmungou enquanto se dirigia à porta. — Voltarei mais tarde.

* * *

A única tela que continuava a funcionar mostrava a massa cinza-clara de um gigantesco planeta. O limite entre a zona diurna e noturna desenhava-se nitidamente sobre uma camada impenetrável de nuvens.
As análises haviam sido concluídas. Mullon sabia que a atmosfera desse mundo continha oxigênio, nitrogênio e outros gases, quase na mesma proporção da atmosfera terrana.
O gigantesco sol branco-azulado ficava a seis milhões de quilômetros. Era a mesma distância que separava Plutão do sol terrano. Mas a potência do gigantesco astro bastava para aquecer a superfície do planeta no zênite até cinqüenta graus, conforme se constatara por meio dos instrumentos de precisão.
Teremos calor de sobra — suspirou Mullon. — Não acredito que precisemos preocupar-nos com a calefação.
Os resultados continuaram a chegar. O planeta, ainda sem nome, percorria uma órbita apenas ligeiramente excêntrica. No curso do ano planetário, a distância do astro central só sofria uma modificação insignificante. E cada ano planetário durava cerca de cento e setenta dos terranos. A inclinação do eixo do planeta em relação ao plano da órbita era pouco superior a dez graus. Dali se concluía que as estações do ano seriam pouco pronunciadas.
Finalmente, a última informação: a gravitação na superfície era de aproximadamente 1,2G. Uma pessoa que na Terra pesasse setenta quilos, aqui teria um peso de oitenta e quatro quilos.
Mullon ficou satisfeito. O planeta tinha um diâmetro de cerca de quarenta mil quilômetros. Por isso, certamente, não apresentava uma gravitação mais elevada porque sua densidade era extremamente reduzida.
Além de Mullon e de algumas pessoas que lhe serviam de elementos de ligação, haviam comparecido à sala de comando todos os membros da antiga tripulação que entendiam alguma coisa de astronavegação. O de graduação mais elevada era um primeiro-tenente. Este confessou que nunca pilotara sozinho uma nave de grandes dimensões, mas prometeu fazer tudo que estivesse ao seu alcance.
Os colonos haviam sido informados de que, conforme as circunstâncias, o pouso poderia terminar em desastre. Na nave, reinava um profundo silêncio. Os homens reuniram-se nos compartimentos coletivos e mantinham os olhos fixos nas telas que ainda funcionavam.
A Adventurous inclinou-se preguiçosamente para o lado, dirigindo para o planeta o conjunto de bocais que funcionava melhor.
A altitude foi diminuindo. Alguém leu as indicações em voz monótona.
O planeta desconhecido já havia crescido para além das bordas da tela. A nave baixou sobre uma área extensa, que apresentava uma coloração verde. Na extremidade superior da tela, o verde desmanchou-se num cinza-reluzente, que assumiu os contornos de rochas. Na extremidade inferior da tela surgiu abruptamente um verde-marrom, que provavelmente correspondia às florestas.
Mullon sentiu-se fascinado diante do panorama.
Procurou localizar algum indício de vida inteligente, mas não o descobriu. Em vez disso, descobriu um rio, que se estendia em curvas sinuosas pela planície verde-clara.
Seria bom — disse a meia voz — se pudéssemos pousar perto do rio.
Stokes compreendeu. Virou-se para Mullon e disse:
Só podemos rezar, Mullon! Nesta altura, só Deus tem alguma influência sobre nossos propulsores.
Mullon sentiu que a nave estremecia e, por um instante, perdeu o equilíbrio. Stokes levantou a cabeça.
A antigravitação está falhando — disse em tom seco. — Tomara que o gerador agüente até que cheguemos lá embaixo.
Mullon sabia que a massa da nave, que estava sendo atraída pelo planeta, só em pequena parte repousava sobre o impulso dos bocais dos jatos de partículas. A sustentação resultava principalmente de um campo de gravitação artificial, que neutralizava parcialmente a gravitação do planeta e fazia com que a nave descesse lentamente.

* * *

Dali a oito minutos, o gerador antigravitacional deixou de funcionar por completo. A velocidade da queda da nave, que nessa altura só podia contar com os propulsores danificados, subiu vertiginosamente para cem metros por segundo... e não parou de subir.
Stokes levantou-se e enxugou o suor da testa. A ausência da gravidade, que se fez sentir desde que o gerador antigravitacional entrou em pane, ergueu-o do piso e fê-lo subir ao teto. Stokes parecia não se importar com isso.
Mas Mullon teve de esforçar-se para não gritar de medo. A ausência de gravidade causava uma sensação apavorante de queda livre. Além disso, a distância entre a nave e a superfície do planeta já se reduzira a um ponto tal que os contornos do solo pareciam aproximar-se vertiginosamente.
Vinte e um mil metros! — gritou uma voz apavorada.
Mullon fez um movimento mais forte. O impulso resultante do mesmo fê-lo perder o apoio e atravessar a sala.
Dali a um segundo, sentiu-se atingido por um força intensa que o atirou ao solo. Quase inconsciente, ouviu os homens gritarem:
O gerador está funcionando. Atenção! Vamos pousar.
Do ponto em que Mullon se encontrava, as cenas que se seguiram pareciam um pesadelo. Como estivesse deitado no chão, só via a extremidade superior da tela. Constatou que a velocidade com que a superfície se aproximara estava diminuindo. Depois viu que os contornos do solo começavam a girar. Pôs a cabeça bem para trás e sentiu-se tonto. Ouviu Stokes soltar um grito estridente. Tanto poderia ser um grito de pavor como de triunfo.
De qualquer maneira, logo após aconteceu um terrível solavanco. Ouviram-se alguns estalos. Mullon encolheu a cabeça, pois receava que o teto desabasse sobre ele.
Mas não aconteceu coisa alguma. Os estalos foram diminuindo; finalmente ouviu-se apenas um leve crepitar, como se as paredes opusessem resistência à pressão que as forçava para baixo e procurassem erguer-se.
Finalmente alguém disse em voz tranqüila:
Chegamos, minha gente.

* * *

De qualquer maneira, o pouso terminara em desastre.
A Adventurous estava quase que totalmente destruída. Mas a nave auxiliar, de formato esférico, com sessenta metros de diâmetro e equipada apenas com um propulsor corpuscular interplanetário, continuava intacta. A comporta pela qual teria de sair da nave ainda estava funcionando.
Metade da carga da Adventurous fora destruída. Algumas máquinas preciosas estavam inutilizadas, enquanto outras teriam de ser submetidas a reparos.
Havia muitos feridos. Felizmente ninguém morrera.
Mullon — cuja posição de chefe, depois da união entre os democratas e os filósofos da natureza, foi reconhecida até mesmo pelos membros da antiga tripulação — providenciou para que a nave fosse descarregada o mais rápido possível. A maior parte dos guindastes automáticos continuava intacta: homens, máquinas e provisões saíram da nave em largas esteiras transportadoras.
O rio avistado ficava a apenas um quilômetro e meio.
Mullon mandou que os bens descarregados fossem levados até meia distância do rio. Com as peças que continuavam intactas mandou construir casas. O impacto destruíra pouco menos de metade dessas peças. Por enquanto todo mundo viveria bastante apertado. Uma casa destinada a cinco pessoas tinha que abrigar dez.
Mas isso não importava. Ninguém iria sentir o desconforto.
Mullon postou uma fileira de sentinelas em torno da aldeia que já crescia rapidamente. Ninguém sabia dos perigos que os ameaçariam nesse mundo. Todo cuidado seria pouco.
A colaboração entre os democratas autênticos e os filósofos da natureza funcionou muito bem. Todos haviam compreendido que, para controlar a situação, teriam de manter-se unidos.
Hollander, que já recuperara a consciência e estava sendo submetido a um tratamento intenso, manteve-se em silêncio. Mullon tinha certeza de que sua ambição doentia conseguira ceder ante a catástrofe.
Assim que se pusesse de pé, voltaria a criar problemas.

* * *

A planície em que a Adventurous realizara seu pouso malogrado estava coberta por uma ampla área de capim. Subia suavemente do leste para o oeste. A uns cem quilômetros de distância, os cumes das montanhas galgavam o céu branco-azulado, e ao leste, a uma distância ainda maior, começava a massa sombria da mata virgem.
O rio descia das montanhas e desaparecia na mata. Em virtude da inclinação da planície, a correnteza era extremamente forte, apesar das numerosas curvas. Era um rio jovem e indômito.
Quatro dias de quarenta horas já se haviam passado. A aldeia estava consolidada. Mullon conseguira superar a maior dificuldade: inserir os antigos tripulantes da nave entre os colonos. Afinal não fora tão difícil. Eram poucos os oficiais que achavam que se devia continuar a tratar os colonos como degredados. Mullon ressaltou a situação em que todos se encontravam, tanto os tripulantes como os degredados, e conseguiu romper a resistência dos mais obstinados sem que surgisse qualquer malquerença.
A aldeia foi batizada com o nome de Greenwich. O motivo era óbvio: a palavra green — verde — provinha da cor do capim que cobria a planície. Além disso, o nome Greenwich estava ligado a certas tradições. E foi graças à tradição que se convencionou que o meridiano zero passaria pela casa de Mullon.
As sentinelas, que Mullon postara num círculo amplo em torno de Greenwich, haviam observado rebanhos de animais gigantescos. Os mesmos nunca se aproximavam o suficiente para poderem ser vistos detalhadamente. Mas, ao que tudo indicava, eram maiores que elefantes.
Em certa manhã, quando o crepúsculo cobria a terra, houve uma enorme excitação. O chão começou a tremer e as sentinelas vieram correndo para avisar que um rebanho dos gigantescos animais se aproximava.
Mullon mandou que os homens se postassem ao sul da aldeia. Os animais aproximavam-se ruidosamente, numa espécie de trote. Mullon observou-os pelo binóculo. As pernas massudas tinham quase dois metros de altura. A seguir, começava o tronco maciço, mas elegante e quase esbelto. Tinha pelo menos dez metros de comprimento. Na frente do tronco via-se um pescoço de comprimento inacreditável e em cima do pescoço uma pequenina cabeça. Os olhos ficavam cerca de doze metros acima do solo.
Felizmente não houve nenhum confronto. O rebanho descreveu uma curva em torno da aldeia e desapareceu em direção ao norte. As sentinelas voltaram aos seus postos, e em Greenwich havia um novo tema de conversa: as elefantogirafas ou girafantes. Ainda não haviam resolvido que nome dar aos bichos.

* * *

Mullon fez um inventário de todos os objetos que poderiam ser usados, ou colocados em condições de sê-lo, por meio de reparos não muito extensos. O resultado não foi tão assustador, como seria de se esperar face ao pouso malogrado da Adventurous.
Além da nave auxiliar, com a qual Mullon não poderia fazer muita coisa, havia uma série de veículos de rodas ou de esteira, todos equipados com pequenos e potentes motores de fusão. Eram de grande durabilidade. Havia uma porção de máquinas agrícolas e toneladas de sementes. No terreno científico a biblioteca da Adventurous poderia satisfazer a qualquer consulta.
Havia ainda instrumentos para a determinação das variações de temperatura a longo prazo, cronômetros interestelares destinados à determinação da duração exata do dia e o equipamento náutico necessário à determinação da posição. O campo magnético do planeta poderia ser medido com os magnetômetros, o que permitia a fixação exata do eixo norte-sul.
Os medicamentos e os equipamentos eram tantos que, na opinião dos médicos, que se encontravam entre os colonos, daria possibilidade de montar dois hospitais muito eficientes.
Ainda havia um helicóptero. Originariamente eram dez, mas só um resistiu ao pouso. Esse helicóptero era um veículo de múltiplas finalidades. As hélices podiam ser retiradas e guardadas, caso em que o veículo se transformaria num automóvel ou num barco, conforme o meio pelo qual tivesse que deslocar-se.
Mullon tinha certeza de que os equipamentos técnicos e científicos seriam suficientes para garantir a sobrevivência da colônia. No entanto, devia-se ter cuidado para que as pessoas não perdessem o conteúdo especial de sua personalidade, pois, se isso acontecesse, dentro de poucas gerações os colonos regrediriam à barbárie, apesar de toda a tecnologia.
Mullon já desistira da esperança de que sua hipermensagem pudesse ter sido captada e que a Terra conhecesse a posição da Adventurous.
Estamos sós — declarou numa reunião realizada no sétimo dia após o pouso. — Provavelmente a maior parte de vocês não vê nisso qualquer vantagem, ao menos por enquanto. Os homens e as mulheres são aproximadamente em número igual. Somos jovens. Por que não poderíamos povoar um grande mundo?
Mas não devemos esquecer uma coisa. Não dispomos do amparo representado por bilhões de seres humanos que habitam a Terra. Não devemos negligenciar os dons do espírito. Não nos encontramos na mesma situação dos pioneiros que há duzentos anos ou mais colonizaram o oeste dos Estados Unidos. Estes precisavam percorrer no máximo alguns milhares de quilômetros para reencontrar a civilização. Acontece que nós estamos completamente isolados. Em vez de milhares de quilômetros teríamos de vencer milhares de anos-luz, e não dispomos de meios para isto.
Assim, é importante que permaneçamos unidos. Nunca se esqueçam de que só poderemos sobreviver se nosso pequeno grupo não se dividir em subgrupos marcados pelas diferenças de opinião e de concepção filosófica. Não se ponham a trabalhar estupidamente, apenas para realizar o máximo. Sempre pensem no que pretendem realizar, e por quê. Promovam debates, leiam os livros que trouxemos conosco. Mantenham suas mentes ativas. E não se cansem.”

* * *

O novo mundo recebeu o nome de Fera Cinzenta. A fera cinzenta constava no escudo do novo planeta: era um girafante.
Mullon enviara patrulhas, que se deslocavam ora em veículos de esteira, ora no helicóptero, a fim de procurarem qualquer indício de vida inteligente.
Ao que parecia, no planeta Fera Cinzenta não havia seres inteligentes. Não encontraram o menor vestígio.
As únicas criaturas inteligentes que existiam em Fera Cinzenta eram os habitantes da aldeia de Greenwich.
E por enquanto estes se sentiam muito satisfeitos com isso.

* * *

Mullon não sabia que ao anoitecer um dos participantes da reunião deixou a aldeia às escondidas, caminhou para o sul e começou a cavar o chão a alguns quilômetros de Greenwich. Retirou do buraco uma caixa de plástico que continha um traje. Do lado esquerdo desse traje, na altura do peito, havia em vez do bolso uma série de botões. O homem misterioso vestiu-o, comprimiu um dos botões e subiu ao ar. Voou rapidamente acima da planície e, dali a duas horas, chegou a um disco elíptico. Uma escotilha abriu-se, e o homem voou para dentro do objeto. Após alguns minutos o disco decolou. Mais alguns minutos, e iniciou a transição a dois milhões de quilômetros do planeta Fera Cinzenta. Quase no mesmo instante, alcançou o sistema solar terrano.
A mensagem de Mullon fora captada. Ao apertar o botão, havia expedido a mensagem que dizia: “Ataque de naves inimigas, pedimos ajuda.” Imediatamente um cruzador de patrulhamento saiu em auxílio da Adventurous e, sem que as pessoas a bordo da mesma soubessem, constatou que não havia o menor sinal de ataque de naves inimigas.
O comandante do cruzador extraiu do fato a única conclusão viável: alguém que se encontrava a bordo da nave que transportava os colonos comprimira ao acaso qualquer dos botões, no intuito de chamar a atenção de alguma nave terrana.
Uma nave acompanhou a Adventurous. Sabia-se perfeitamente que algo de anormal devia ter acontecido a bordo da mesma, uma vez que o rastreamento estrutural revelou que esta foi parar a alguns milhares de anos-luz da área de Rigel.
O cruzador manteve-se de prontidão enquanto a Adventurous se dispunha a pousar. Notou a falha do gerador antigravitacional e suas conseqüências e esteve prestes a segurar a nave dos colonos com um raio de tração para evitar sua queda. Porém, nesse instante, o gerador voltou a funcionar.
Tudo isso foi feito sem que ninguém o percebesse. Uma ordem terminante transmitida ao comandante do cruzador-patrulha dizia que os colonos em hipótese alguma deveriam descobrir que a Terra não havia perdido sua pista.
O comandante mandou que cinco homens descessem numa nave auxiliar do tipo Gazela. Um deles participou da reunião durante a qual Mullon proferiu seu memorável discurso. A fala foi gravada em microfita.

* * *

Pouco depois Perry ouviu a mesma.
Nunca pensaria que este rapaz fosse capaz de tanta coisa — confessou em tom de surpresa para Bell. — Está se transformando num político altamente capacitado; em todos os sentidos.
O agente secreto de Rhodan conversara com alguns colonos e descobrira o que havia acontecido durante o vôo da Adventurous. Rhodan e Bell foram informados sobre os papéis desempenhados por Hollander e Mullon.
Assim até ficou melhor do que eu imaginava — disse Rhodan em tom pensativo. — Pelo menos saberemos como um pequeno grupo de pessoas reagirá quando deixado a sós e com poucos recursos em meio à imensidão do espaço.



* * *
* *
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Num Estado altamente civilizado como o Império Solar, a pena de morte deixou de existir.
Os autores do atentado foram banidos da Terra e perderam a cidadania terrana. Assim, transformaram-se em colonos interestelares. Será que os 8.000 banidos conseguirão sobreviver?...
Em Ataque do Invisível, próxima aventura de Rhodan, novas emoções irão surgir.

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