Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Oito mil
desterrados querem sobreviver! A segunda
aventura
dos colonos do planeta Fera Cinzenta.
Eram
oito mil homens e mulheres para quem a conquista de um novo mundo não
devia ser empresa difícil. Na terra foram julgados subversivos.
Condenados ao degredo perpétuo, foram embarcados numa gigantesca
nave interestelar.
Ao
chegar ao planeta de destino, a nave destroçou-se durante o pouso.
Dois terços de suas provisões foram inutilizados. Com o que restou,
os degredados construíram uma cidadezinha, à qual deram o nome de
Greenwich.
Assim
começaram a dominar a natureza de seu novo planeta. E poderiam ter
criado um novo paraíso, se não fosse a inimizade entre Mullon, o já
conhecido democrata autêntico, e Hollander, ditador sem
escrúpulos...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Horace
O. Mullon
— Chefe dos democratas autênticos. Sofre dois atentados.
Fraudy
Mullon
— Jovem bióloga; esposa de Mullon.
Milligan
— Técnico da nave Adventurous; tornou-se um democrata autêntico.
Pashen
— Traidor.
W.S.
Hollander
— Inimigo número um de Mullon.
Chellich
— Enviado de Rhodan ao planeta Fera Cinzenta.
Harper,
Glannon
e Cislarczik
— Conspiradores perigosíssimos.
1
Mullon não
fazia muita questão da etiqueta. Mas quando alguém abriu
repentinamente a porta, entrando ruidosamente, sentiu-se um pouco
contrariado. Era Milligan.
— Booster
está doente — exclamou. — É uma doença muito esquisita, chefe.
Mullon
logo se tranqüilizou.
— Onde
está ele?
— Em
casa. Neste instante pretendia...
— Muito
bem. Já avisou o Dr. Flaherty?
— Não,
ainda não. Eu...
— Vá
depressa, homem! Peça a Flaherty que dê uma olhada em Booster.
Provavelmente Fraudy também irá.
Da sala
contígua da pequena casa veio uma voz feminina:
— É
claro que também irei! Milligan, vá correndo à casa de Flaherty!
Milligan
virou-se abruptamente e retirou-se.
Fraudy
saiu do recinto que com certo orgulho batizara de cozinha, embora
desempenhasse outras funções.
— Já
vou — disse, afastando uma mecha de cabelo. — Procure terminar
logo essa lista.
— Às
ordens, senhora general — disse Mullon com um sorriso. — Quando a
senhora voltar, estará pronta.
Fraudy
retirou-se. Mullon voltou a dedicar sua atenção à lista que estava
elaborando no momento em que Milligan entrou.
Quando
pronta, essa lista incluiria tudo de que precisa um grupo de quatro
pessoas numa espécie de viagem de exploração às montanhas da
Região Norte. A Assembléia Popular, da qual Mullon era presidente,
aprovara a proposta deste, que determinava o envio de uma expedição
destinada a explorar as áreas situadas a oeste da cidade de
Greenwich. Mullon afirmara que ninguém poderia garantir a segurança
da cidade enquanto as áreas adjacentes continuassem totalmente
desconhecidas. Todos os membros da Assembléia, com exceção de
alguns adeptos de Hollander, compreenderam essa explicação.
Ficou
decidido que seriam enviadas pelo menos duas expedições. Uma delas
penetraria na área montanhosa do oeste, enquanto a outra avançaria
pela selva da planície, que delimitava a extensa área de cerrados
como uma muralha impenetrável. Apenas um helicóptero fora salvo dos
destroços da Adventurous, a nave que transportara as oito mil
pessoas deportadas da Terra. Por isso as expedições não seriam
realizadas simultaneamente. Em primeiro lugar partiria aquela que
exploraria as montanhas, depois a que teria por missão desbravar a
selva.
O próprio
Mullon fora incumbido de dirigir ambas as expedições. Dedicou-se
com um entusiasmo extraordinário à tarefa de prepará-las.
Todavia,
não conseguiu completar a lista antes que Fraudy regressasse. Mullon
virou-se à sua entrada e espantou-se com a expressão de pavor
desenhada em seu rosto.
— O que
houve?
— Booster
está morto! — exclamou Fraudy. — Foi tudo tão rápido. Oh, meu
Deus!
Mullon
levantou-se de um salto.
— De que
morreu?
— Ninguém
sabe — disse Fraudy entre soluços. — Para Flaherty é um
mistério. Chamou Weeney e Ashbury, mas estes sabem tanto quanto ele.
— Quais
são os sintomas da doença?
Fraudy
enxugou as lágrimas e começou a contar:
— Booster
estava cavando um pedaço de terra. Pretendia fazer uma semeadura. De
repente sentiu os joelhos fraquejarem. De início pensou que fosse
uma manifestação de debilidade, que quase todo mundo experimentou
por causa da rápida mudança de ambiente. Sentou para descansar. Mas
os sintomas não passaram. Quando quis levantar, caiu ao chão.
Gritou, pedindo socorro. Milligan o encontrou e levou para casa.
Nesse meio tempo haviam surgido pústulas azuis na pele de Booster.
“Quando
Flaherty e eu chegamos, mal conseguia falar. E dali a dez minutos
estava morto.”
— O que
fizeram com ele?
— Os
médicos levaram o cadáver para examiná-lo.
Mullon
parecia muito sério.
— Tomara
que a doença não seja contagiosa! — murmurou.
*
* *
Por
enquanto não parecia que fosse. Dois dias se passaram sem que
houvesse notícia de outro caso dessa doença. Mas no terceiro dia
adoeceram dois homens dos quais se sabia que nunca haviam tido o
menor contato com Booster.
No caso
deles, o curso da doença foi bem diferente. No início houve a
manifestação de debilidade, tal qual no caso de Booster, mas as
pústulas azuis só chegaram depois de algumas horas. E, o que era
mais importante: a doença não causara a morte — ao menos por
enquanto. Os doentes se encontravam sob os cuidados dos médicos
Flaherty, Weeney e Ashbury. Haviam sido internados no “hospital”,
que não passava de uma cabana um pouco maior que as outras. Apesar
do pouco espaço existente no “hospital”, este era muito bem
servido de aparelhos.
Os
acontecimentos foram tão inquietantes que Mullon convocou uma
reunião extraordinária da Assembléia Popular, durante a qual seria
apresentado o relato dos médicos.
Estes não
puderam dizer muita coisa. Na Terra haviam sido apenas médicos
clinicantes. Era a primeira vez que se viram obrigados a entrar no
terreno da bacteriologia. E ali enfrentaram graves dificuldades, lace
à complexidade desse ramo da medicina.
Weeney, o
mais jovem dos três médicos, que parecia ser um elemento bastante
interessado, afirmou que havia conseguido identificar e isolar o
germe causador da doença, e fizera uma cultura do mesmo. Mas, na
opinião de Weeney, as experiências até então colhidas indicavam
que o vírus reagia aos antídotos mais poderosos da medicina
terrana, da mesma forma que um elefante reage ao “impacto”
de uma mosca em seu corpo; em outras palavras, a reação era nula.
Era bem verdade, ponderou Weeney, que a pesquisa detalhada do vírus
exigiria ao menos algumas semanas, motivo por que os insucessos
iniciais não justificavam grandes temores.
A
Assembléia Popular decidiu que, apesar da gravidade da situação,
as expedições programadas não sofreriam qualquer adiamento. Por
isso Mullon marcou a partida para a manhã do dia seguinte.
*
* *
Na manhã
do dia seguinte houve mais três casos de doença. Os doentes também
foram levados ao hospital, onde ficaram sob vigilância médica
ininterrupta. Em nenhum deles a doença teve um desenvolvimento
rápido, como em Booster. Naquela altura, Weeney e seus colegas
afirmavam que a morte quase instantânea de Booster representava um
caso excepcional.
Mullon
escolheu as pessoas que deveriam acompanhá-lo na expedição. Eram
Fraudy, sua esposa, Milligan, antigo tripulante da Adventurous, e
Pashen, um ex-adepto entusiástico de Hollander, que compreendera
enfim que os planos do filósofo da natureza apenas poderiam servir
para arruinar os colonos. Na Terra, Pashen fora enfermeiro. Foi por
isso que Mullon o escolheu. Não deveria levar nenhum dos médicos,
pois estes não poderiam ser dispensados de Greenwich. Portanto
decidiu levar apenas um homem que entendia pelo menos um pouco da
arte de curar.
De
madrugada foram colocados no helicóptero os materiais que Mullon
incluíra na lista. Os mais importantes eram os seguintes: provisões
de mantimentos, armas e um pequeno transmissor e receptor de ondas
curtas, que permitiria à expedição comunicar-se com a cidade de
Greenwich.
Mullon
decolou às sete horas, tempo local, quando o horizonte começava a
clarear no nascente. Zumbindo e chiando ao mesmo tempo, o rotor
movido por pequenos propulsores de radiações começou a girar. O
pequeno aparelho balançou ao elevar-se do solo, ganhou altura e,
depois de alguns segundos, desapareceu na semi-escuridão.
*
* *
Ninguém
notou os quatro homens que, postados na extremidade nordeste da
cidadezinha, acompanhavam atentamente a decolagem do helicóptero. Um
deles era um homem baixo e corpulento, que manquejava visivelmente da
perna direita. Walter S. Hollander, antigo chefe da seita dos
filósofos da natureza e inimigo acirrado de Mullon, recuperara-se de
seus ferimentos, mas a rigidez da perna direita continuava como sinal
visível dos mesmos.
— Vamos
embora! — ordenou Hollander. — Dentro de uma hora, no máximo,
será dia claro, e então vocês deverão ter andado o bastante para
que não possam ser vistos de Greenwich. Sabem o que têm a fazer,
não sabem?
— É
claro que sim — disse um dos três. — Esperamos que saiba avaliar
o que está exigindo de nós.
Hollander
fez que sim.
— Sei;
não há dúvida. E a recompensa corresponderá à tarefa. Assim que
Mullon tenha sido eliminado, vocês pertencerão ao círculo dos meus
principais colaboradores. Agora dêem o fora!
Os três
homens cumpriram a ordem: saíram sem despedir-se. Dirigiram-se para
a esquerda, onde depois dos preparativos de decolagem do helicóptero
o capim estava tão pisado que não poderia conservar qualquer
rastro. Uma vez lá, tomaram a direção oeste e poucos minutos
depois desapareceram na luz crepuscular do amanhecer.
Hollander
seguiu-os com os olhos. Era um homem inescrupuloso. Mas quando viu os
três mercenários desaparecerem na semi-escuridão, com os fuzis
roubados a tiracolo, sem que ninguém os perseguisse, teve um
pressentimento do que iria acontecer...
Ninguém
saberia que direção tinham tomado os três homens que furtaram os
fuzis do arsenal. Quando fossem procurá-los — e ao menos um dia se
passaria antes que se iniciassem as buscas — encontrariam uma carta
segundo a qual “três
homens honestos haviam saído por conta própria a fim de explorar os
arredores de Greenwich e dar sua contribuição para a segurança da
cidade”.
Nestas condições não se atribuiria muita importância ao furto,
muito embora o direito de dispor das armas pertencesse exclusivamente
à Assembléia Popular.
Enquanto
isso, os três homens, chamados de Harper, Glannon e Cislarczik,
dominariam Mullon num momento em que este jamais poderia esperar, e
regressariam. Nesse meio tempo, Hollander já teria assumido o poder,
pois Mullon estaria morto.
Se o plano
falhasse... Bem, neste caso alguns homens ficariam de prontidão a
oeste da cidade, e tomariam as necessárias providências para que
nem Harper, nem Glannon, nem Cislarczik jamais regressassem. Com isso
evitariam que um deles pudesse servir de testemunha-chave na acusação
que Mullon viesse a formular contra seu inimigo Hollander.
Não
poderia haver uma falha; no máximo ocorreria um retardamento.
Satisfeito com seus planos, Hollander voltou antes de clarear a fim
de que ninguém pudesse ver de onde ele vinha.
*
* *
Os
primeiros contrafortes da cadeia de montanhas situada ao norte de
Greenwich ficavam a cerca de cem quilômetros da cidade. Mullon, que
pilotava o helicóptero, deixou que o aparelho se deslocasse com
velocidade moderada, a algumas centenas de metros de altura. Dessa
maneira fez com que chegassem ao limite ocidental da mata e
atingissem a estepe, que subia suave em direção ao mundo pedregoso
das montanhas, exatamente ao nascer do sol.
Sob a luz
fulgurante do astro branco-azulado, a visão oferecida aos ocupantes
do helicóptero era magnífica, tanto pela grandeza como pela
solidão. As montanhas, que nenhum olho humano jamais vira de perto,
erguiam-se numa altura infinita em direção ao céu branco-azulado.
As fendas pareciam atingir as profundezas daquele mundo. Nos lugares
em que as encostas apresentavam-se amolecidas, a chuva, o gelo e as
tempestades haviam recortado figuras bizarras, que pareciam
contemplar os grandes desfiladeiros.
Mullon
subiu a quatro mil metros, a fim de ter uma visão melhor dos
promontórios. Sentada a seu lado, Fraudy manipulava a câmara
embutida, que zumbia ao desfilar metro após metro de fita.
Milligan e
Pashen também corriam os olhos pelos arredores. Depois de algum
tempo, Milligan descobriu pontos cinza-claros que se moviam lá
embaixo, deslocando-se em sentido transversal por uma encosta
íngreme. Concluiu que aquelas montanhas não eram totalmente vazias
de vida, como se supusera no início. Nelas haviam animais, e o
simples fato de que os tais pontos podiam ser vistos a olho nu de uma
altura de cerca de dois mil metros significava que deviam ser
grandes.
Mullon,
que era técnico, entendia de helicóptero. Sabia que não poderia
descer muito enquanto não conhecesse os fluxos aerodinâmicos que se
verificassem junto às montanhas.
Levou duas
horas para descobrir quais eram os lugares perigosos, e onde poderia
deslocar-se sem assumir maiores riscos. Desceu e fez a máquina voar
junto ao flanco de uma gigantesca montanha.
Os animais
que Milligan vira haviam desaparecido.
Mullon
conduziu o helicóptero por um desfiladeiro estreito, cujo fundo
ficava a aproximadamente dois mil e quinhentos metros acima do pé
das montanhas, e que se estendia alguns quilômetros em direção ao
noroeste. Suas paredes quase verticais pareciam atingir o céu. Além
do topo da montanha cortada pelo desfiladeiro havia um vale largo e
profundo. Para sua surpresa, Mullon constatou que lá havia uma
vegetação relativamente densa, formada por arbustos e algumas
árvores. O vale corria quase exatamente na direção norte-sul, e a
sombra projetada pela vegetação parecia convidar para a instalação
de um acampamento provisório. Mullon não hesitou: fez a máquina
baixar imediatamente e pousou junto a uma solitária e gigantesca
árvore.
O silêncio
que se espalhou depois que o helicóptero havia pousado era
impressionante.
Uma brisa
suave atravessava o vale e farfalhava nas folhagens dos arbustos; era
o único ruído que se ouvia.
Fraudy
desligou a câmera. Mullon virou a cabeça e disse a Milligan e
Pashen:
— Tirem
as barracas e levantem-nas embaixo da árvore. Acho que passaremos
algum tempo por aqui.
Milligan e
Pashen desenvolveram uma atividade notável.
Fraudy e
Mullon continuaram sentados na cabine. Fraudy lançou os olhos para o
vale luminoso e tremeluzente e murmurou:
— Que
mundo magnífico e estranho!
Mullon,
que tinha menos receptividade para as manifestações de
sentimentalismo, disse:
— É um
mundo maldito, se não encontrarmos água potável por perto.
*
* *
Enquanto
isso Harper, Glannon e Cislarczik passaram algumas horas extremamente
difíceis. Furtar um dos veículos de esteira que haviam sido salvos
dos destroços da Adventurous representaria um risco excessivo. Por
isso teriam de vencer a pé o percurso que Mullon e seus companheiros
haviam percorrido de helicóptero.
Do nascer
do sol em diante, o astro central branco-azulado não parou de
dardejar seus raios escaldantes sobre a planície ligeiramente
inclinada. As coronhas dos fuzis ardiam nas mãos e os cabelos
ficaram tão aquecidos que se sentia cada fio, ao passar a mão pela
cabeça. Os homens respiravam com dificuldade, e as montanhas —
quanto mais eles andavam — pareciam afastar-se em meio ao ar
tremeluzente.
Na
planície coberta de capim havia vez por outra um arbusto ou uma
pequena árvore. Harper, que comandava o trio, logo percebeu que, se
prosseguissem da forma como vinham caminhando, não iriam longe. Por
isso ordenou que os homens descansassem ao menos durante um minuto à
sombra de cada árvore ou arbusto pelo qual passavam. Depois mandava
que atravessassem em marcha rápida o trecho de terra escaldante que
os separava do arbusto ou da árvore seguinte, que geralmente ficava
a algumas centenas de metros.
Dessa
forma avançaram relativamente depressa, mas Harper percebeu que não
agüentariam esse ritmo por mais de duas ou três horas. A pausa que
teriam de fazer depois disso, para recuperar as forças, seria muito
mais longa do que as circunstâncias permitiam.
Harper
percebeu que Hollander os fizera partir no momento errado. Era uma
tolice tentar uma marcha forçada de quarenta quilômetros ou mais,
de dia e numa planície em que quase não havia nenhuma sombra. Para
avançar numa velocidade satisfatória, teriam de marchar à noite.
Lá pelas
oito horas, Harper mandou que o grupo parasse à sombra de uma
árvore.
— Deste
jeito não iremos longe! — afirmou.
— Não
tenho a menor dúvida — respondeu Cislarczik em tom irônico e
olhou em torno. — Não sei como ainda não estou com dois palmos de
língua fora da boca. O que poderemos fazer?
— Esperar
— decidiu Harper. — Esperaremos até o entardecer, quando o calor
não será tão forte.
— Com
isso perderemos quase trinta horas — objetou Glannon.
— E daí?
Antes perder trinta horas que morrer sufocado por este calor.
— Você
tem razão. Podemos tomar um gole de água?
Pegou o
cantil que trazia preso ao cinto. Harper fez um gesto negativo.
— Deixe
de tolices. Ainda precisaremos da água preparada. O rio não deve
ficar muito longe; deveremos ir até lá.
Cislarczik
lançou-lhe um olhar furioso.
— Nem
quero saber se vou precisar ou não da água preparada — disse em
tom áspero. — Estou com sede e não quero caminhar mais um passo
sequer. Por isso vou beber um gole de água do meu cantil.
— Experimente!
— disse Harper.
Cislarczik
conhecera Harper há poucos dias. Não sabia o que se passava em sua
mente quando falava com a voz tão calma e baixa. Retirou o cantil do
cinto, abriu o fecho e encostou o recipiente aos lábios.
No momento
em que sorvia o primeiro gole, o punho de Harper atingiu-o do lado
esquerdo da face. Cislarczik gritou, soltou o cantil e caiu de lado.
— Espere,
seu... — disse em tom furioso.
Louco de
dor, Cislarczik levou algum tempo para enxergar claro.
Avançou.
Era um homem alto e robusto. Tinha certeza de que conseguiria
derrubar o pequeno Harper na primeira investida. Acontece que Harper
possuía uma qualidade que Cislarczik não conhecia: o sangue-frio.
Saltou para o lado, deixou que seu contendor passasse por ele,
segurou-o pela gola, puxou-o para trás e com a “quina”
da mão desferiu pancadas violentas entre as omoplatas.
— Olhe o
cantil! — gritou Glannon que, segundo parecia, só agora estava
compreendendo o que havia acontecido. — Ficará vazio!
Harper
olhou para trás. O cantil de Cislarczik jazia em meio ao capim, a
alguns metros, e o líquido escorria lentamente para o chão
ressequido. Harper levantou-o, virou-o de boca para baixo e deixou
que se esvaziasse de vez.
— Este
já não precisa de qualquer condicionamento — disse em tom
indiferente.
Glannon
engoliu em seco.
— Tem
papel e lápis? — gritou Harper. — Vamos, escreva — pegou uma
pequena bússola e examinou-a — escreva que seguimos na direção
norte-noroeste, para chegar ao rio.
Glannon
fez o que o outro mandou. Só depois, de ter colocado o papel ao lado
de Cislarczik, que jazia inconsciente no solo, teve coragem de dizer:
— Ele
não tem bússola! Como é que pode saber onde fica o norte-noroeste?
Harper deu
de ombros.
— O
problema é dele. Quem o mandou agir como um idiota?
Puseram-se
a caminho, sem dar a menor atenção ao companheiro. Glannon, cuja
alma era muito mais delicada que a de Harper, teve suas preocupações.
Os golpes desferidos em Cislarczik haviam sido violentos e
implacáveis. Se não despertasse antes que os talos de capim pisados
se endireitassem, apagando os rastros, não lhe restaria outra
alternativa senão descer pela planície, em direção a Greenwich.
Mesmo assim, seria perfeitamente possível que não acertasse com a
pequena cidade.
Harper
caminhava vigorosamente, como se o calor não o perturbasse. Glannon
Leve de esforçar-se para segui-lo. A lembrança da água refrescante
dava-lhe um pouco de ânimo.
Depois de
terem caminhado pouco menos de uma hora ouviram um ruído surdo à
sua frente. Dali a pouco viram, bem ao longe, um traço escuro que
cortava a planície. Depois de terem caminhado mais dez minutos
descobriram a nuvem brilhante de vapores que se levantava do leito
profundo do rio encachoeirado, formando um estranho arco-íris.
2
Tiveram
sorte. Enquanto Milligan e Pashen armavam as barracas, Fraudy e
Mullon deram uma grande volta em torno do acampamento e descobriram
um pequeno lago oculto em meio a densas moitas. Esse lago era
alimentado por dois regatos que desciam da encosta que ficava a
oeste. O lago não tinha nenhuma saída. Daí se concluía que o
volume de água se equilibrava exclusivamente pela evaporação e
pela infiltração.
O regato
ficava a poucos metros das barracas. Algumas árvores que cresciam
junto ao córrego cobriam-no com suas copas. Foi por isso que Mullon
não o havia visto do helicóptero.
Assim que
as barracas estavam armadas, Mullon distribuiu as rações do café
da manhã. Podiam também beber à vontade da água do lago
recém-descoberto, que tinha um sabor estranho, mas agradável e
refrescante.
Depois do
almoço Mullon mandou realizar os trabalhos de rotina, necessários
em qualquer acampamento, tais como a coleta de amostras do solo, dos
vegetais e da água, a elaboração de mapas provisórios e a
determinação da posição.
Esses
trabalhos foram concluídos pelo meio-dia. Seguiu-se uma pausa de
duas horas, após a qual — aproximadamente às vinte e duas horas,
ou seja, no início da tarde — Pashen e Mullon partiram no
helicóptero, a fim de percorrer o vale para o norte e o sul e
completar o mapa.
Enquanto
isso, Fraudy elaborou o relatório da expedição, e a única coisa
que Milligan teve que fazer foi montar guarda ao acampamento. Até
então não haviam visto o menor sinal de qualquer tipo de animal,
com exceção de alguns besouros e borboletas. Por isso Milligan
achou que a tarefa não seria muito difícil. Sentou-se à sombra de
uma árvore, encostou-se a um tronco e, instantes depois, adormeceu.
Foi assim
que Fraudy o encontrou dali a uma hora, quando acabara de terminar o
relatório. Não o acordou. Ficou refletindo se havia algo de útil
que pudesse fazer. Finalmente foi ao lago, que descobrira juntamente
com Mullon, na manhã daquele dia.
A sombra
das gigantescas árvores era refrescante. Fraudy encontrou um
pedacinho de terra coberto de capim, na margem do lago, e deitou. O
ar tépido, que se tornara perfeitamente suportável com o efeito
refrescante da evaporação e da sombra, aliadas ao silêncio,
produziram um efeito tranqüilizador.
Fraudy não
resistiu à sonolência.
Subitamente
ouviu um ligeiro ruído. Virou-se abruptamente e sentou. De início
viu apenas a vegetação, cujas folhas poeirentas, expostas aos raios
do sol, se mantinham imóveis. Mas depois de algum tempo voltou a
ouvir o ruído. A menos de um metro do lugar onde Fraudy se
encontrava, os ramos de um arbusto começaram a se mexer.
Fraudy
ficou rígida de pavor. Não trazia nenhuma arma. Esteve a ponto de
levantar-se e sair correndo; mas naquele instante surgiu entre a
folhagem uma cabeça grosseira, do tamanho de um punho fechado.
Fraudy nunca vira coisa igual.
A jovem
permaneceu imóvel. A cabeça foi-se adiantando entre a folhagem,
seguida por um corpo achatado e coberto de escamas. Os grandes olhos
amarelentos do animal pareciam fitar Fraudy. A boca larga e
entreaberta deixava entrever uma fileira de dentes afiados. Apoiado
sobre o corpo achatado, o animal executava movimentos pendulares,
provocando o ruído que despertara a atenção de Fraudy.
“É
uma cobra”,
pensou Fraudy, muito nervosa.
O animal
foi saindo do meio da vegetação e ergueu a parte dianteira do
corpo, até que sua cabeça repugnante executasse os movimentos
pendulares a meio metro do rosto de Fraudy. Esta sentiu o hálito
repugnante do réptil.
“Quem
me dera que Milligan aparecesse! Mas esse idiota está dormindo. Como
é que uma pessoa que está de sentinela pode dormir?”,
pensou, desesperada.
A serpente
continuava a executar os movimentos pendulares. Fraudy esforçou-se
para não acompanhar os movimentos com os olhos. Tinha medo de entrar
numa espécie de transe. Além disso, a serpente poderia perceber os
movimentos dos globos oculares...
Fraudy não
soube por quanto tempo permaneceu sentada, completamente imóvel.
Subitamente
ouviu um leve zumbido, vindo do sul. O ruído cresceu rapidamente, e
Fraudy não demorou em identificar o chiado dos motores do
helicóptero.
“É
Horace que está voltando!”,
pensou satisfeita.
Por alguns
segundos seu coração bateu violentamente, de tão alegre que se
sentia. Mas logo se lembrou de que Mullon não poderia vê-la do
helicóptero, e de que nem pretendia pousar, pois ainda teria de
realizar o levantamento cartográfico da parte norte do vale.
A serpente
não se incomodou com o ruído. Por algum tempo, os movimentos
pendulares tornaram-se mais lentos. Mas quando o zumbido desapareceu
ao norte, o animal retomou o ritmo e passou a fitar sua vítima com
os olhos frios e amarelentos.
Fraudy
sentiu que não agüentaria mais por muito tempo. Não demoraria a
chegar o momento em que cairia, pois os nervos se recusariam a
obedecer e os músculos não conseguiriam sustentar seu peso.
De repente
ouviu uma voz que a chamava, vinda de longe. A voz aproximou-se,
voltou a afastar-se e depois tornou-se clara o suficiente para que
Fraudy conseguisse entender as palavras:
— ...Fraudy!
Mrs. Mullon! Fraudy...!
Era
Milligan, que acabara de acordar e estava procurando Fraudy.
“Tomara
que venha para cá!”,
pensou Fraudy.
Mas
Milligan não chegou mais perto. Os chamados voltaram a afastar-se.
Fraudy
teria de fazer alguma coisa, se quisesse escapar à cobra.
“Será
que uma serpente é muito rápida? Se eu der um pulo para dentro do
mato, talvez não consiga seguir-me...”,
pensou Fraudy, “talvez
seria preferível deixar-me cair para trás, para dentro da água.
Será que as cobras sabem nadar? É claro que sabem, sua bobinha. Há
seis meses você viu uma serpente nadar num rio da Terra. Tanto faz!
Assim é que não pode continuar.”
Muito
lentamente, para que a serpente não percebesse qualquer movimento,
começou a deslocar o peso do corpo para a perna direita. Sentiu uma
dor lancinante no pé, que por pouco não a fez gritar.
“Com
os pés dormentes consigo caminhar no máximo meio metro”,
pensou Fraudy. “Só
me resta deixar-me cair para dentro da água.”
Hesitou,
como se acreditasse que no último instante surgisse algum milagre
que pudesse afastar aquilo que parecia inevitável.
E o
milagre aconteceu!
Subitamente
Fraudy ouviu uma série de ruídos estranhos, vindos da densa
vegetação. Pareciam vozes de criança.
Os
movimentos pendulares da serpente foram ficando cada vez mais lentos,
como se o réptil estivesse prestando atenção aos ruídos. Depois
que a série de ruídos se repetiu várias vezes, Fraudy ouviu o
estalido de galhos e o farfalhar das folhas. Subitamente teve a
impressão de que havia uma sombra a seu lado. A tentação de virar
a cabeça foi grande. Mas a jovem manteve-se imóvel. Seu coração
começou a bater mais depressa quando percebeu que os movimentos
pendulares da serpente cessaram por completo. A parte dianteira do
corpo do réptil tocou o solo e o animal começou a afastar-se para a
esquerda.
Aguardou
até que não ouvisse mais o ruído provocado pelo deslocamento da
serpente.
Depois
deixou-se cair de lado. O sangue penetrou nas pernas e nos pés
dormentes, provocando dores quase insuportáveis. Soltou um gemido e
olhou na direção em que desaparecera a serpente.
O quadro
que se descortinou aos seus olhos era extraordinário. Um pequenino
ser cinza-claro, semelhante aos macacos rhesus
do planeta Terra, balançava-se sobre um galho baixo, próximo ao
lago. O símio contemplava atentamente a serpente que se aproximava
pelo capim em sua direção.
No momento
em que o réptil começou a subir pelo tronco, o macaquinho soltou um
irônico “guê-guê-guê”.
Pulou do galho, e foi parar poucos metros atrás da serpente.
Esta
percebeu que fizera papel de boba e virou-se. O macaquinho manteve-se
imóvel em meio ao capim. A serpente levantou a parte dianteira do
corpo e passou a executar movimentos pendulares, em busca de sua nova
vítima.
O macaco
saltou para o lado. A cabeça grosseira do réptil avançou
vertiginosamente, mas o macaco foi mais rápido; escapou ao ataque.
De um salto aproximou-se da margem do lago. A serpente seguiu-o, e o
mesmo jogo foi repetido. Mais uma vez o símio se manteve imóvel por
algum tempo e subitamente deu um salto; com um movimento rapidíssimo
e extremamente ágil conseguiu escapar mais uma vez à cabeça da
serpente, aproximando-se ainda mais da margem.
O jogo
continuou até que o macaco se visse na ponta de uma pequena
península, que avançava alguns metros lago a dentro. O caminho de
volta estava fechado, já que a península não media mais que um
metro de largura, e a serpente não deixaria escapar a vítima, caso
esta tentasse passar. E do outro lado havia apenas a água do lago.
Fraudy não tinha motivo para acreditar que este macaquinho tivesse
menos pavor do elemento líquido que os indivíduos da mesma espécie
que habitam o planeta Terra.
Apesar de
tudo, o macaco continuava a fitar a serpente com uma expressão de
petulância e curiosidade. Ao que parecia, não estava com medo.
Fraudy viu
que se manteve imóvel até que a serpente se tivesse aproximado a
meio metro de distância. Então Fraudy soltou um grito; o macaco deu
um salto ligeiro em direção ao inimigo e cravou os dentes no
pescoço da serpente, logo atrás da cabeça.
A cobra
agitou o corpo e procurou sacudir o animalzinho que a martirizava ou
atingi-lo com os dentes afiados. Não conseguiu nem uma coisa nem
outra. O macaco continuava grudado a seu corpo. Enquanto executava
movimentos espasmódicos, na tentativa de livrar-se do inimigo, a
serpente aproximava-se cada vez mais da água. A parte dianteira do
corpo debatia-se e chicoteava, sacudindo o macaco cujos pés já
haviam saído do chão.
Fraudy
levantou-se de um salto. Subitamente o macaco soltou o pescoço da
serpente, no momento exato em que o movimento o atirava de volta para
o solo firme. Enquanto isso a serpente, que ficou aliviada do peso
adicional que carregava, escorregou mais um pedaço em direção à
água e caiu pesadamente.
Da terra
firme, o macaco viu o que estava acontecendo a seu inimigo; soltou um
“guê-guê-guê”
exultante.
Após isso
ocorreu uma coisa que provocou um calafrio em Fraudy. A lagoa pareceu
adquirir vida de uma hora para outra. A água agitou-se. Vindas de
todas as direções, pequenas criaturas negras investiram contra a
serpente.
Dali a
alguns segundos, sobrou apenas o esqueleto, que foi afundando
lentamente.
Depois de
ter contemplado o espetáculo excitante, Fraudy sentiu alguém tocar
sua perna. Olhou para trás e viu o pequeno macaco cinza-claro,
fitando-a curiosamente.
Fraudy
abaixou-se para acariciá-lo. O macaco não opôs a menor
resistência. Depois de algum tempo pareceu impacientar-se. Deu um
salto, emitiu outro “guê-guê-guê”
e levantou o braço, como se quisesse apontar o caminho a Fraudy.
Fraudy
seguiu-o. Ao que parecia, o animal ficou muito contente. Entrou numa
moita e subiu num galho alto. Voltou a levantar o braço e apontou na
mesma direção que mostrara antes.
Fraudy
teve a impressão de que pretendia levá-la a algum lugar. Seguiu-o
por algum tempo, esforçando-se para marcar o caminho, a fim de poder
voltar para junto da lagoa.
Mas,
quando o macaquinho saiu da densa vegetação que rodeava o lago numa
extensão de algumas centenas de metros e apontou para a encosta que
ficava a oeste, Fraudy teve a impressão de que já bastava.
Se não
voltasse logo, ela se perderia. Parou. O macaquinho não concordou.
Soltou mais alguns “guê-guê-guê”,
apontou várias vezes na direção em que pretendia levar Fraudy,
demonstrando certa impaciência, e finalmente voltou saltitando para
junto dela. Parou à frente da jovem e levantou os dois braços, como
que numa súplica. Em seus grandes olhos havia uma expressão de
tristeza.
Fraudy não
se comoveu. Ao perceber isso, o macaco saltou algumas vezes em torno
dela, emitiu uma variedade de sons estranhos e acabou afastando-se na
direção oeste. Fraudy conseguiu segui-lo com os olhos até que
chegasse à encosta rochosa. A pedra era da mesma cor cinza-clara do
pêlo do animal, por este motivo a jovem o perdeu de vista.
Um tanto
pensativa, parou, olhou em torno, para ver se não havia outra
serpente por perto. Ficou refletindo sobre o animalzinho que a
salvara. Sabia-se que os macacos em geral, e os macacos rhesus
em particular, costumam desenvolver uma capacidade de comportar-se
como gente que às vezes chega a alcançar dimensões verdadeiramente
espantosas.
Mas a
experiência por que Fraudy passara excedia tudo que já vira. Não
teria a menor dúvida em afirmar que no crânio de seu salvador havia
muito mais massa cinzenta que no dos espécimes terranos.
Voltou-se
para ir à lagoa e de lá ao acampamento. Naquele instante, ouviu um
estalido de galhos. Fraudy estremeceu, apavorada.
Milligan
surgiu, de fuzil na mão, e descobriu Fraudy.
— Graças
a Deus! — suspirou. — Cheguei a pensar que...
A raiva de
Fraudy, provocada pela situação de impotência em que se vira
diante da serpente, já desaparecera.
— Quase
acertou! — respondeu com um sorriso irônico. — Realmente, por
pouco não disse adeus a este belo mundo.
Contou em
palavras ligeiras o que lhe havia acontecido. O embaraço de Milligan
foi-se tornando cada vez mais evidente.
— Se não
tivesse dormido, nada disso teria acontecido! — exclamou
finalmente. — Tomara que Mullon me torça o pescoço.
— Ele
não vai fazer nada disso — falou Fraudy para consolá-lo. —
Ninguém desconfiava de que esta área fosse tão perigosa. Além
disso, eu deveria tê-lo avisado antes de sair.
Milligan
acenou com a cabeça; parecia contrariado.
— Tomara
que Mullon não tenha opinião contrária à sua — disse.
*
* *
E Mullon
não teve outra opinião. Apenas recomendou:
— Já
sabemos qual é a situação. Acho que daqui por diante ninguém
dormirá quando estiver de sentinela — e, olhando para Fraudy,
acrescentou: — E ninguém sairá sem deixar aviso.
Interessou-se
vivamente pela história do macaquinho. Fraudy se lembrava
perfeitamente do lugar em que vira o animal desaparecer no paredão
rochoso. Mullon resolveu explorar a área o quanto antes. O pequenino
salvador de Fraudy era o primeiro representante da classe dos
primatas com que os colonos se defrontavam no planeta Fera Cinzenta.
Fraudy
sugeriu que o macaco fosse chamado de mungo; e a sugestão foi
aceita, já que cabia ao descobridor batizar a criatura descoberta. A
jovem estudara biologia galáctica em Terrânia, e sabia que na Terra
existia um animal com este nome; achou que se “adaptaria”
perfeitamente à criatura recém-descoberta.
Mullon e
Pashen haviam voltado pelas vinte e cinco horas. Seguindo o costume
adotado no planeta, fizeram uma pausa de três horas, que terminaria
pouco antes das vinte e nove horas. Mullon pretendia capturar ainda
naquela noite ao menos um exemplar dos animais negros que habitavam a
lagoa e que vitimaram a serpente em virtude da ação bem orientada
do pequeno mungo.
Na manhã
do dia seguinte procurariam capturar um dos macaquinhos que habitavam
a encosta oeste do vale. Na opinião de Mullon, a missão seria
difícil e demorada.
Mas as
coisas se passaram completamente diferentes do que eles haviam
previsto.
*
* *
Ainda
pelas vinte e cinco horas do mesmo dia, Harper e Glannon prosseguiram
em sua marcha, abandonando o local fresco em que haviam repousado,
situado sob o barranco saliente do rio. Descansaram mais de doze
horas, e não chegaram a ver o menor sinal de Cislarczik.
O sol
ainda ia alto, mas o forte calor já havia passado. Caminharam
vigorosamente e, pelos cálculos de Harper, chegaram a percorrer
cerca de quatro quilômetros e meio por hora, o que não era pouco,
uma vez que o terreno subia e a gravidade era superior em vinte por
cento à da Terra.
Ao que
parecia, Harper não se interessava por Cislarczik. Em compensação,
Glannon preocupava-se com o mesmo. Harper não teve a menor
contemplação com o companheiro.
As horas e
os quilômetros foram ficando para trás. Sob o brilho do sol no
poente perceberam pela primeira vez que as montanhas se encontravam
mais próximas. Depois do pôr do sol, fizeram uma ligeira pausa.
Dali a trinta minutos, prosseguiram na caminhada.
— Não
pense que a noite foi feita para dormir — resmungou para Glannon. —
Amanhã de manhã quero ver as montanhas bem à minha frente.
Glannon
respondeu em tom mordaz:
— Para
mim é indiferente. Cuide para não forçar demasiadamente seus pés.
Harper não
respondeu. Puseram-se em marcha. A bússola luminosa de Harper
indicava-lhes o caminho. Até a meia-noite não houve maiores
contratempos, com exceção de uma sensação de torpor nas pernas. A
terra, que havia absorvido o calor do dia, irradiava-o aos poucos.
Subitamente
começou a esfriar. Para espantar o frio, Harper e Glannon começaram
a andar mais depressa. Mas, à medida que apressavam a marcha, mais
as pernas doíam.
Harper
viu-se obrigado a fazer outra pausa. Passaram este período de
descanso sentados no chão, esfregando as mãos e agitando os braços,
para aquecerem-se.
Depois de
algum tempo prosseguiram.
A marcha
durou quatorze horas. Subitamente viram a primeira luz em meio à
escuridão. Era o brilho dourado dos cumes das montanhas, atingidos
pelos raios do sol nascente.
Começou a
clarear. Os contrafortes da cordilheira estavam tão perto que até
davam a impressão de estarem ao alcance das mãos.
Um vale
coberto de capim cortava a cordilheira na direção leste-oeste. A
entrada desse vale ficava a apenas três ou quatro quilômetros. Era
lá que pretendiam descansar.
Chegaram
ao destino. Acamparam na entrada do vale, num nicho existente na
encosta sul.
Ou melhor,
deixaram-se cair e adormeceram imediatamente.
*
* *
Depois das
três horas de descanso, Milligan procurou levantar-se. Mas seus
joelhos fraquejaram; caiu e ficou estendido no chão. Mullon pensou
que tivesse torcido o tornozelo; procurou levantá-lo.
Mas
Milligan não conseguia manter-se de pé. Estava tão fraco que
tombava assim que o soltassem.
Dali a
meia hora, surgiu o primeiro sintoma da misteriosa doença: as
varicelas azuis.
Imediatamente
Mullon entrou em contato com Greenwich e foi informado de que Weeney
havia conseguido um êxito parcial no combate à doença. Usando um
dos medicamentos trazidos da Terra, conseguira reduzir a atividade do
vírus. Embora os doentes não ficassem curados, a doença entrava
num estado estacionário.
Mullon e
Pashen levaram Milligan ao helicóptero. Mullon levaria o doente a
Greenwich. Mas, quando procurou pôr em movimento a máquina, esta
apenas emitiu um estalido.
Mullon
esforçou-se para encontrar o defeito. Mas, embora fosse técnico e
estivesse muito familiarizado com helicópteros, não conseguiu. O
sol foi descendo em direção ao horizonte, e não se podia cogitar
mais de voar para Greenwich. Face aos desfiladeiros estreitos e às
grandes montanhas, o vôo seria extremamente arriscado. E não devia
assumir o menor risco por se tratar do único helicóptero de que um
grupo de oito mil colonos dispunha.
Além
disso, Mullon não possuía qualquer tipo de iluminação que lhe
permitisse examinar detidamente o mecanismo propulsor.
Teriam de
esperar até o dia seguinte. Acontece que até lá Milligan poderia
estar morto.
Mullon
distribuiu o tempo das sentinelas. O doente teria de ser vigiado
ininterruptamente.
Milligan
conformou-se com seu destino. Estava consciente. Nem mesmo a pane do
helicóptero parecia impressioná-lo. Limitou-se a dizer:
— Não
se preocupe, chefe; as coisas se arranjarão de alguma forma.
Durante o
tempo em que Mullon ficou de sentinela não houve qualquer incidente.
Deixou passar três horas e meia, para que os outros pudessem
descansar mais, já que não se sentia muito cansado. Só depois
disso acordou Fraudy.
Milligan
havia adormecido.
Fraudy
pegou um fuzil e um holofote manual e sentou-se à frente da barraca
em que Milligan estava dormindo. Ao lado de Fraudy havia uma pequena
lâmpada, instalada por Mullon durante seu quarto de sentinela. Essa
lâmpada derramava uma luz débil, atraindo grande quantidade de
besouros e mariposas.
Para
passar o tempo, Fraudy examinou os insetos. Com isso cumpria uma das
finalidades da expedição, uma vez que era perita no assunto.
Dessa
forma as três horas passaram relativamente depressa. Fraudy
continuou sentada no mesmo lugar. Só despertaria Pashen quando
estivesse tão cansada que mal conseguisse ficar com os olhos
abertos. For enquanto estava longe disso. A variedade de besouros e
mariposas que esvoaçavam em torno da luz espantava o tédio.
Apesar do
entusiasmo com que realizava o trabalho, Fraudy percebeu o ligeiro
ruído vindo dos lados da lagoa, que subitamente se propagou através
da folhagem.
Fraudy
deixou cair o besouro brilhante que se encontrava em sua mão, pegou
o holofote, ligou-o e dirigiu o feixe de luz para o lado de onde
viera o ruído.
Seu êxito
foi imediato. O ruído tornou-se mais forte e logo se afastou. O
pequeno ser emitiu alguns sons que pareciam assustados.
Fraudy
desligou o holofote e pôs-se a esperar. Dali a dez minutos, o ruído
voltou a aproximar-se. Fraudy esperou pacientemente até que um
ligeiro baque lhe desse certeza de que a criatura desconhecida, fosse
ela quem fosse, já estivesse sobre o capim que rodeava o
acampamento.
Foi só
então que Fraudy voltou a ligar o holofote. O feixe de luz ofuscante
atingiu um vulto pequeno, coberto de pêlos cinza-claros, que estava
apoiado sobre as patas traseiras, colocando as dianteiras diante dos
olhos, num gesto de pavor.
De lado a
lado a surpresa foi enorme. Quando Fraudy se lembrou de que a luz
deveria incomodar o macaquinho, fez menção de dirigir a luz para
outro lado. Mas o mungo tirou as patas de cima dos olhos, virou-se e
com um salto enorme desapareceu na mata.
Fraudy não
se deu por satisfeita. Lamentava ter espantado o macaquinho. Talvez
fosse o mesmo que a salvara da serpente. Começou a chamar.
Mas o
mungo não dava o ar de sua graça. Mas bastou que Fraudy soltasse
alguns sons que o animal emitira na tarde daquele dia...
— Guê-guê-guê...
brrrr — go-go-go...
E o
resultado foi espantoso! Assim que Fraudy fez uma pequena pausa,
ruídos leves vinham de todos os lados. Dali a pouco seis rostinhos
curiosos e espantados surgiram na luz da lâmpada.
Fraudy
estendeu a mão em direção a um dos mungos. O animalzinho
aproximou-se e olhou Fraudy com uma expressão tão engraçada que a
jovem não pôde deixar de rir.
Alguém
veio por trás e colocou a mão sobre o ombro da jovem.
— Quem
está emitindo esses ruídos estranhos no meio da noite? —
perguntou.
Era
Mullon. Ao que parecia, os mungos não tinham medo dele. Assim que
penetrou na luz da lâmpada, olharam-no com a mesma curiosidade que
haviam demonstrado para com Fraudy.
— Imitei
sua “língua”,
para atraí-lo — explicou Fraudy. — Espantaram-se com o holofote.
— Conseguiu
atrair os bichinhos?
— Você
está vendo.
Um dos
mungos — era o que se aproximara em primeiro lugar — postou-se
diante da entrada da barraca de Milligan e começou a puxar
nervosamente o tecido, dando mostras evidentes de que queria entrar.
— O que
será que ele quer lá dentro? — perguntou Mullon.
— Não
sei — disse Fraudy com uma risada. — Pergunte a ele.
Mullon
inclinou-se sobre o macaquinho. Este continuava puxando o pano da
entrada da barraca com uma força ainda maior. Depois de ligeira
hesitação, Mullon levantou o tecido. O mungo foi entrando
lentamente. Seus companheiros ficaram do lado de fora.
No
interior da barraca a escuridão era completa. Fraudy trouxe a
lâmpada e iluminou o caminho para o mungo. Este já encontrara o
lugar em que se achava o leito. O símio estava agora junto à cabeça
do doente. Olhava ora para Milligan, ora para Mullon, que o havia
seguido.
Fraudy
levantou a luz, para que o rosto de Milligan fosse iluminado.
Milligan mexeu-se e dali a pouco abriu os olhos.
— O que
houve? — perguntou em tom sonolento e confuso.
— O
senhor tem visita — respondeu Mullon.
Milligan
virou o rosto para o lado e viu o macaquinho.
— Ah...
é o tal baixote de hoje de tarde...
— Não
sei se é o mesmo — respondeu Fraudy. — De qualquer maneira, é
igualzinho a ele.
O mungo
seguiu a palestra com a atenção de quem entende cada palavra
pronunciada. Assim que os interlocutores se calaram, saltou para cima
da cama de Milligan e começou a abrir-lhe a camisa. Viu as varicelas
azuis que cobriam a pele do enfermo. O mungo pôs a mãozinha sobre
as marcas da doença, olhou para Fraudy e fez com a voz lamentosa:
— Uuuuh...
ep-ep.
Mullon
inclinou-se para ele.
— Sim,
isto é mau — disse em tom sério, como se entendesse o que o
macaquinho queria dizer.
O mungo
começou a agitar os braços e ficou “gueguejando”.
Mullon não teve a menor dúvida de que aquilo não eram puras
manifestações de emoção; o animal queria dizer alguma coisa.
— Será
que há alguém que possa dar-me umas aulas da língua mungo? —
perguntou meio irônico, meio desesperado.
O mungo
parecia compreender que não estava sendo entendido. Deu um enorme
salto, que surpreendeu Mullon, saindo da cama de Milligan e
dirigindo-se para fora da barraca. Mullon e Fraudy seguiram-no.
Ouviram um grito estridente; quando se encontravam do lado de fora,
os seis mungos haviam desaparecido.
Mullon
cocou a cabeça.
— Gostaria
de saber o que significa isso — disse.
— Acho
que eu sei — respondeu Fraudy. — Querem ajudar Milligan.
Mullon
fitou-a perplexo. Depois começou a rir.
— Você
só pode estar brincando, minha filha. Como é que um bando de
macaquinhos poderia curar um terrano?
— Aguardemos
— disse Fraudy e deu de ombros.
Mullon
sentou-se no chão, ao lado da esposa. Voltaram a ouvir o ruído nas
folhagens, e dentro de um instante os macacos reapareceram.
Traziam
alguma coisa. Carregavam feixes de folhas carnudas, verde-azuladas,
segurando-as entre os dentes. Colocaram as folhas diante de Fraudy,
como se alguém lhes tivesse dado ordens para isso. Cinco dos
macaquinhos recuaram, enquanto o sexto parou à frente de Fraudy e
lhe lançou um olhar de súplica.
— O que
é? — perguntou Fraudy com um sorriso.
O macaco
pegou umas quatro ou cinco folhas, enfiou-as na boca e pôs-se a
mastigar. Depois de algum tempo, parou e olhou em torno, como se
estivesse procurando alguma coisa.
— Quer
um vasilhame para cuspir — conjeturou Mullon.
Mullon foi
buscar uma pequena bacia de plástico, muito limpa, e a colocou à
frente do mungo. Este inclinou-se sobre a mesma e cuspiu um jato
enorme de líquido viscoso e esverdeado. Pegou mais algumas folhas e
as mastigou fortemente.
Os outros
macacos aproximaram-se e ajudaram o companheiro em seu trabalho.
Dentro de pouco tempo as folhas desapareceram e a bacia já estava
pela metade com um mingau verde.
— E
agora? — perguntou Fraudy.
Um dos
mungos tentou levantá-la mas não conseguiu. Fraudy levantou-a. O
mungo voltou a “gueguejar”
e saltou em direção à entrada da barraca de Milligan. Mullon
levantou o pano e deixou que Fraudy e o macaco entrassem. Os outros
macacos ficaram do lado de fora.
Milligan
estava acordado.
— Voltou?
— perguntou com a voz débil.
— Voltou
— respondeu Mullon. — E, ao que parece, desta vez trouxe um
remédio para o senhor.
— O
macaco?
— Isso
mesmo.
Milligan
ergueu-se o mais que pôde. O mungo parou na cabeceira do leito,
refletiu um pouco e saltou para cima do enfermo. Parou junto à
cabeça de Milligan, estendeu cautelosamente o braço e apontou para
sua boca.
— Esta
não! — gritou Mullon apavorado. — Será que você tem que tomar
isso?
O macaco
continuava com os dedinhos junto aos lábios de Milligan, lançando
um olhar bastante expressivo para a bacia que Fraudy segurava.
— Parece
que é isso mesmo que ele quer dizer — disse Milligan. — Passe
para cá; quem sabe se não é bom?
Fraudy
deu-lhe a bacia. Milligan segurou-a com a mão esquerda e, antes que
Fraudy e Mullon pudessem dizer qualquer coisa, colocou-a nos lábios
e sorveu parte de seu conteúdo.
Fez uma
careta.
— Brrrr.
Não foi muito gostoso; tomara que faça efeito.
Ninguém
dera atenção ao pequeno mungo. Este saltara para o chão,
sentou-se, agitou fortemente os braços e fez uma cara como se
tivesse feito uma grande arte.
Milligan
bocejou ruidosamente, — Sinto-me cansado — murmurou. — Acho que
vou dormir mais um pouco.
— É o
que deve fazer — disse Mullon. — O sono faz bem a qualquer
pessoa. Viremos de vez em quando para dar-lhe uma olhada. Saíram; o
mungo ficou saltitando à sua frente. Mullon esperava que fosse
afastar-se com os companheiros. No entanto, ficou sentado a seu lado,
na luz da lâmpada.
— O que
está esperando? — perguntou Mullon em tom de espanto.
— Quer
ver se Milligan realmente ficará curado — respondeu Fraudy.
Mullon
soltou uma risada.
— Você
com essa confiança infinita! Tomara que não sofra uma decepção.
Vou deitar um pouco. Não quer acordar Pashen?
Fraudy
sacudiu a cabeça.
— Ainda
não estou cansada.
Mullon
desapareceu no interior de sua barraca. Fraudy ficou sentada à luz
da lanterna e conversou baixinho com os macacos. Estes “responderam”.
Mas nem ela os compreendia, nem eles a ela.
Mais ou
menos de quinze em quinze minutos, Fraudy olhava o doente, sempre
acompanhada por um dos mungos, que parecia ser o chefe do grupo.
Milligan estava mergulhado num sono profundo e tranqüilo.
Dali a
duas horas, Pashen acordou e saiu da barraca. Sentia-se admirado por
não o terem chamado. Fraudy explicou o que havia acontecido e
pediu-lhe que olhasse regularmente por Milligan. Ainda lhe pediu que
cuidasse dos seis mungos e foi dormir.
*
* *
Quando
Fraudy acordou, ainda estava escuro, mas acima da encosta leste do
vale já surgia uma luz pálida. Pelo menos uma hora e meia se
passaria até o nascer do sol.
Mullon não
estava na barraca. Fraudy ouviu-o conversar em voz baixa com Pashen,
do lado de fora. Levantou e lavou-se numa bacia de plástico
dobrável, que fazia parte do equipamento de qualquer barraca,
juntamente com um reservatório de água de oitenta litros. Depois
saiu.
O quadro
continuava o mesmo. Pashen e Mullon estavam sentados um ao lado do
outro, à frente da barraca de Milligan. A pequena lâmpada
continuava acesa, e os macacos achavam-se agachados em círculo, em
torno dos dois homens.
Assim que
ouviram os passos de Fraudy, os dois homens levantaram-se.
— Milligan
está passando bem — disse Mullon, sem esperar que Fraudy
perguntasse. — Está dormindo profundamente e...
— E...?
— As
manchas azuis desapareceram.
— Não é
possível!
Mullon
confirmou com o rosto sério.
— É
isso mesmo. Parece milagre, mas é verdade.
Fraudy
abaixou-se e acariciou as cabeças dos mungos.
— Temos
que dar-lhes um presente — disse.
Dirigiu-se
à barraca-depósito e começou a revirar-lhe o conteúdo. Não
demorou em voltar. Trazia peças grandes de pano amarelo-vivo.
Mullon
levantou-se abruptamente.
— São
os panos de marcação dos coletes salva-vidas! Será que você ficou
louca, Fraudy?
— De um
único colete salva-vidas — corrigiu Fraudy. — E daí? Será que
por aqui você já viu tanta água no mesmo lugar que se possa
precisar de um colete salva-vidas?
— No
planeta Fera Cinzenta existem oceanos — respondeu Mullon. — E...
— Ora
essa! — interrompeu Fraudy em tom contrariado. — Deixe de ser
pão-duro. Será que você quer que estes macaquinhos saiam daqui sem
recompensa, depois de terem curado Milligan? Em Greenwich temos panos
coloridos de sobra para colocar num colete salva-vidas.
Mullon não
respondeu mais nada. Fraudy ajoelhou-se e entregou os presentes aos
mungos.
Os animais
seguraram o pano com as mãozinhas e encostaram-no aos seus corpos
como quem quer experimentar uma roupa. Fizeram um verdadeiro carnaval
de alegria.
Os olhos
de Fraudy brilharam. Mullon e Pashen ficaram tão surpresos com esta
súbita manifestação de alegria que nem perceberam que a porta da
barraca se abriu. Milligan surgiu.
— Pronto;
estou de volta! — limitou-se a dizer.
Mullon
virou-se abruptamente.
— Como
se sente? — perguntou.
— Nunca
me senti tão bem — respondeu Milligan. — Este remédio é
bárbaro. Gostaria de levar um pouco para os doentes de Greenwich.
Mullon
sorriu.
— Sabe o
que tomou?
Milligan
sacudiu a cabeça.
— Pois
bem, agora já lhe posso dizer. Foi suco de folhas mastigadas...
pelos macacos.
Milligan
arregalou os olhos e sacudiu o corpo.
— Será
mesmo?
Mullon lhe
contou de que maneira fora preparado o estranho remédio...
— Bem...
— começou um pouco desapontado Milligan. — Mas não posso negar
que o efeito foi formidável!
3
Durante a
sessão noturna de “alquimia”
uma única das folhas medicinais verde-azuladas escapara à atividade
mastigatória dos mungos. Mullon usou-a para explicar aos animais que
gostaria de ter mais daquelas folhas. Tentou explicar aos macacos que
no lugar em que morava havia muita gente que contraíra a mesma
doença de Milligan, e que gostaria de curar essa gente.
Os macacos
compreenderam.
Dentro de
uma hora, a quantidade de folhas amontoadas à frente de Mullon era
tamanha que receava não poder transportá-las no helicóptero.
*
* *
A pausa de
vinte horas, esperada por Glannon, não se transformou em realidade.
Depois de dez horas, Harper acordou-o e o obrigou a sorver alguns
goles do cantil.
Glannon
obedeceu e sentiu que, dali a pouco, o cansaço desapareceu e seu
organismo recuperou as forças.
A água
dos cantis continha pequena quantidade de um fortificante altamente
concentrado.
Meia hora
depois de terem tomado a droga maravilhosa, Harper e Glannon
puseram-se a caminho. No início o desfiladeiro entrava em linha reta
pela cordilheira. A subida era íngreme e as encostas elevadas não
deixavam penetrar os raios do sol até o fundo, motivo por que os
dois homens não ficaram expostos ao calor.
Pelo
meio-dia, Harper e Glannon chegaram ao ponto mais elevado do
desfiladeiro. Descansaram um pouco, tomaram mais alguns goles da água
do cantil e prosseguiram em sua marcha. A descida era ainda mais
íngreme que a subida na vertente oposta da montanha e dava para um
pequeno planalto. Os dois homens atravessaram-no em marcha rápida.
Do outro lado penetraram num corte, que parecia levar a outro
desfiladeiro.
Harper não
sabia que no dia anterior Mullon passara com seu helicóptero por
esse desfiladeiro, que desembocava no vale em que Mullon havia
erguido suas barracas.
Ainda não
sabia, mas não demoraria a saber.

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