segunda-feira, 25 de março de 2013

P-062 - Os Anões Azuis - Kurt Mahr [parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Oito mil desterrados querem sobreviver! A segunda
aventura dos colonos do planeta Fera Cinzenta.




Eram oito mil homens e mulheres para quem a conquista de um novo mundo não devia ser empresa difícil. Na terra foram julgados subversivos. Condenados ao degredo perpétuo, foram embarcados numa gigantesca nave interestelar.
Ao chegar ao planeta de destino, a nave destroçou-se durante o pouso. Dois terços de suas provisões foram inutilizados. Com o que restou, os degredados construíram uma cidadezinha, à qual deram o nome de Greenwich.
Assim começaram a dominar a natureza de seu novo planeta. E poderiam ter criado um novo paraíso, se não fosse a inimizade entre Mullon, o já conhecido democrata autêntico, e Hollander, ditador sem escrúpulos...





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Horace O. Mullon — Chefe dos democratas autênticos. Sofre dois atentados.

Fraudy Mullon — Jovem bióloga; esposa de Mullon.

Milligan — Técnico da nave Adventurous; tornou-se um democrata autêntico.

Pashen — Traidor.

W.S. Hollander — Inimigo número um de Mullon.

Chellich — Enviado de Rhodan ao planeta Fera Cinzenta.

Harper, Glannon e Cislarczik — Conspiradores perigosíssimos.
1



Mullon não fazia muita questão da etiqueta. Mas quando alguém abriu repentinamente a porta, entrando ruidosamente, sentiu-se um pouco contrariado. Era Milligan.
Booster está doente — exclamou. — É uma doença muito esquisita, chefe.
Mullon logo se tranqüilizou.
Onde está ele?
Em casa. Neste instante pretendia...
Muito bem. Já avisou o Dr. Flaherty?
Não, ainda não. Eu...
Vá depressa, homem! Peça a Flaherty que dê uma olhada em Booster. Provavelmente Fraudy também irá.
Da sala contígua da pequena casa veio uma voz feminina:
É claro que também irei! Milligan, vá correndo à casa de Flaherty!
Milligan virou-se abruptamente e retirou-se.
Fraudy saiu do recinto que com certo orgulho batizara de cozinha, embora desempenhasse outras funções.
Já vou — disse, afastando uma mecha de cabelo. — Procure terminar logo essa lista.
Às ordens, senhora general — disse Mullon com um sorriso. — Quando a senhora voltar, estará pronta.
Fraudy retirou-se. Mullon voltou a dedicar sua atenção à lista que estava elaborando no momento em que Milligan entrou.
Quando pronta, essa lista incluiria tudo de que precisa um grupo de quatro pessoas numa espécie de viagem de exploração às montanhas da Região Norte. A Assembléia Popular, da qual Mullon era presidente, aprovara a proposta deste, que determinava o envio de uma expedição destinada a explorar as áreas situadas a oeste da cidade de Greenwich. Mullon afirmara que ninguém poderia garantir a segurança da cidade enquanto as áreas adjacentes continuassem totalmente desconhecidas. Todos os membros da Assembléia, com exceção de alguns adeptos de Hollander, compreenderam essa explicação.
Ficou decidido que seriam enviadas pelo menos duas expedições. Uma delas penetraria na área montanhosa do oeste, enquanto a outra avançaria pela selva da planície, que delimitava a extensa área de cerrados como uma muralha impenetrável. Apenas um helicóptero fora salvo dos destroços da Adventurous, a nave que transportara as oito mil pessoas deportadas da Terra. Por isso as expedições não seriam realizadas simultaneamente. Em primeiro lugar partiria aquela que exploraria as montanhas, depois a que teria por missão desbravar a selva.
O próprio Mullon fora incumbido de dirigir ambas as expedições. Dedicou-se com um entusiasmo extraordinário à tarefa de prepará-las.
Todavia, não conseguiu completar a lista antes que Fraudy regressasse. Mullon virou-se à sua entrada e espantou-se com a expressão de pavor desenhada em seu rosto.
O que houve?
Booster está morto! — exclamou Fraudy. — Foi tudo tão rápido. Oh, meu Deus!
Mullon levantou-se de um salto.
De que morreu?
Ninguém sabe — disse Fraudy entre soluços. — Para Flaherty é um mistério. Chamou Weeney e Ashbury, mas estes sabem tanto quanto ele.
Quais são os sintomas da doença?
Fraudy enxugou as lágrimas e começou a contar:
Booster estava cavando um pedaço de terra. Pretendia fazer uma semeadura. De repente sentiu os joelhos fraquejarem. De início pensou que fosse uma manifestação de debilidade, que quase todo mundo experimentou por causa da rápida mudança de ambiente. Sentou para descansar. Mas os sintomas não passaram. Quando quis levantar, caiu ao chão. Gritou, pedindo socorro. Milligan o encontrou e levou para casa. Nesse meio tempo haviam surgido pústulas azuis na pele de Booster.
Quando Flaherty e eu chegamos, mal conseguia falar. E dali a dez minutos estava morto.”
O que fizeram com ele?
Os médicos levaram o cadáver para examiná-lo.
Mullon parecia muito sério.
Tomara que a doença não seja contagiosa! — murmurou.

* * *

Por enquanto não parecia que fosse. Dois dias se passaram sem que houvesse notícia de outro caso dessa doença. Mas no terceiro dia adoeceram dois homens dos quais se sabia que nunca haviam tido o menor contato com Booster.
No caso deles, o curso da doença foi bem diferente. No início houve a manifestação de debilidade, tal qual no caso de Booster, mas as pústulas azuis só chegaram depois de algumas horas. E, o que era mais importante: a doença não causara a morte — ao menos por enquanto. Os doentes se encontravam sob os cuidados dos médicos Flaherty, Weeney e Ashbury. Haviam sido internados no “hospital”, que não passava de uma cabana um pouco maior que as outras. Apesar do pouco espaço existente no “hospital”, este era muito bem servido de aparelhos.
Os acontecimentos foram tão inquietantes que Mullon convocou uma reunião extraordinária da Assembléia Popular, durante a qual seria apresentado o relato dos médicos.
Estes não puderam dizer muita coisa. Na Terra haviam sido apenas médicos clinicantes. Era a primeira vez que se viram obrigados a entrar no terreno da bacteriologia. E ali enfrentaram graves dificuldades, lace à complexidade desse ramo da medicina.
Weeney, o mais jovem dos três médicos, que parecia ser um elemento bastante interessado, afirmou que havia conseguido identificar e isolar o germe causador da doença, e fizera uma cultura do mesmo. Mas, na opinião de Weeney, as experiências até então colhidas indicavam que o vírus reagia aos antídotos mais poderosos da medicina terrana, da mesma forma que um elefante reage ao “impacto” de uma mosca em seu corpo; em outras palavras, a reação era nula. Era bem verdade, ponderou Weeney, que a pesquisa detalhada do vírus exigiria ao menos algumas semanas, motivo por que os insucessos iniciais não justificavam grandes temores.
A Assembléia Popular decidiu que, apesar da gravidade da situação, as expedições programadas não sofreriam qualquer adiamento. Por isso Mullon marcou a partida para a manhã do dia seguinte.

* * *

Na manhã do dia seguinte houve mais três casos de doença. Os doentes também foram levados ao hospital, onde ficaram sob vigilância médica ininterrupta. Em nenhum deles a doença teve um desenvolvimento rápido, como em Booster. Naquela altura, Weeney e seus colegas afirmavam que a morte quase instantânea de Booster representava um caso excepcional.
Mullon escolheu as pessoas que deveriam acompanhá-lo na expedição. Eram Fraudy, sua esposa, Milligan, antigo tripulante da Adventurous, e Pashen, um ex-adepto entusiástico de Hollander, que compreendera enfim que os planos do filósofo da natureza apenas poderiam servir para arruinar os colonos. Na Terra, Pashen fora enfermeiro. Foi por isso que Mullon o escolheu. Não deveria levar nenhum dos médicos, pois estes não poderiam ser dispensados de Greenwich. Portanto decidiu levar apenas um homem que entendia pelo menos um pouco da arte de curar.
De madrugada foram colocados no helicóptero os materiais que Mullon incluíra na lista. Os mais importantes eram os seguintes: provisões de mantimentos, armas e um pequeno transmissor e receptor de ondas curtas, que permitiria à expedição comunicar-se com a cidade de Greenwich.
Mullon decolou às sete horas, tempo local, quando o horizonte começava a clarear no nascente. Zumbindo e chiando ao mesmo tempo, o rotor movido por pequenos propulsores de radiações começou a girar. O pequeno aparelho balançou ao elevar-se do solo, ganhou altura e, depois de alguns segundos, desapareceu na semi-escuridão.

* * *

Ninguém notou os quatro homens que, postados na extremidade nordeste da cidadezinha, acompanhavam atentamente a decolagem do helicóptero. Um deles era um homem baixo e corpulento, que manquejava visivelmente da perna direita. Walter S. Hollander, antigo chefe da seita dos filósofos da natureza e inimigo acirrado de Mullon, recuperara-se de seus ferimentos, mas a rigidez da perna direita continuava como sinal visível dos mesmos.
Vamos embora! — ordenou Hollander. — Dentro de uma hora, no máximo, será dia claro, e então vocês deverão ter andado o bastante para que não possam ser vistos de Greenwich. Sabem o que têm a fazer, não sabem?
É claro que sim — disse um dos três. — Esperamos que saiba avaliar o que está exigindo de nós.
Hollander fez que sim.
Sei; não há dúvida. E a recompensa corresponderá à tarefa. Assim que Mullon tenha sido eliminado, vocês pertencerão ao círculo dos meus principais colaboradores. Agora dêem o fora!
Os três homens cumpriram a ordem: saíram sem despedir-se. Dirigiram-se para a esquerda, onde depois dos preparativos de decolagem do helicóptero o capim estava tão pisado que não poderia conservar qualquer rastro. Uma vez lá, tomaram a direção oeste e poucos minutos depois desapareceram na luz crepuscular do amanhecer.
Hollander seguiu-os com os olhos. Era um homem inescrupuloso. Mas quando viu os três mercenários desaparecerem na semi-escuridão, com os fuzis roubados a tiracolo, sem que ninguém os perseguisse, teve um pressentimento do que iria acontecer...
Ninguém saberia que direção tinham tomado os três homens que furtaram os fuzis do arsenal. Quando fossem procurá-los — e ao menos um dia se passaria antes que se iniciassem as buscas — encontrariam uma carta segundo a qual “três homens honestos haviam saído por conta própria a fim de explorar os arredores de Greenwich e dar sua contribuição para a segurança da cidade”. Nestas condições não se atribuiria muita importância ao furto, muito embora o direito de dispor das armas pertencesse exclusivamente à Assembléia Popular.
Enquanto isso, os três homens, chamados de Harper, Glannon e Cislarczik, dominariam Mullon num momento em que este jamais poderia esperar, e regressariam. Nesse meio tempo, Hollander já teria assumido o poder, pois Mullon estaria morto.
Se o plano falhasse... Bem, neste caso alguns homens ficariam de prontidão a oeste da cidade, e tomariam as necessárias providências para que nem Harper, nem Glannon, nem Cislarczik jamais regressassem. Com isso evitariam que um deles pudesse servir de testemunha-chave na acusação que Mullon viesse a formular contra seu inimigo Hollander.
Não poderia haver uma falha; no máximo ocorreria um retardamento. Satisfeito com seus planos, Hollander voltou antes de clarear a fim de que ninguém pudesse ver de onde ele vinha.

* * *

Os primeiros contrafortes da cadeia de montanhas situada ao norte de Greenwich ficavam a cerca de cem quilômetros da cidade. Mullon, que pilotava o helicóptero, deixou que o aparelho se deslocasse com velocidade moderada, a algumas centenas de metros de altura. Dessa maneira fez com que chegassem ao limite ocidental da mata e atingissem a estepe, que subia suave em direção ao mundo pedregoso das montanhas, exatamente ao nascer do sol.
Sob a luz fulgurante do astro branco-azulado, a visão oferecida aos ocupantes do helicóptero era magnífica, tanto pela grandeza como pela solidão. As montanhas, que nenhum olho humano jamais vira de perto, erguiam-se numa altura infinita em direção ao céu branco-azulado. As fendas pareciam atingir as profundezas daquele mundo. Nos lugares em que as encostas apresentavam-se amolecidas, a chuva, o gelo e as tempestades haviam recortado figuras bizarras, que pareciam contemplar os grandes desfiladeiros.
Mullon subiu a quatro mil metros, a fim de ter uma visão melhor dos promontórios. Sentada a seu lado, Fraudy manipulava a câmara embutida, que zumbia ao desfilar metro após metro de fita.
Milligan e Pashen também corriam os olhos pelos arredores. Depois de algum tempo, Milligan descobriu pontos cinza-claros que se moviam lá embaixo, deslocando-se em sentido transversal por uma encosta íngreme. Concluiu que aquelas montanhas não eram totalmente vazias de vida, como se supusera no início. Nelas haviam animais, e o simples fato de que os tais pontos podiam ser vistos a olho nu de uma altura de cerca de dois mil metros significava que deviam ser grandes.
Mullon, que era técnico, entendia de helicóptero. Sabia que não poderia descer muito enquanto não conhecesse os fluxos aerodinâmicos que se verificassem junto às montanhas.
Levou duas horas para descobrir quais eram os lugares perigosos, e onde poderia deslocar-se sem assumir maiores riscos. Desceu e fez a máquina voar junto ao flanco de uma gigantesca montanha.
Os animais que Milligan vira haviam desaparecido.
Mullon conduziu o helicóptero por um desfiladeiro estreito, cujo fundo ficava a aproximadamente dois mil e quinhentos metros acima do pé das montanhas, e que se estendia alguns quilômetros em direção ao noroeste. Suas paredes quase verticais pareciam atingir o céu. Além do topo da montanha cortada pelo desfiladeiro havia um vale largo e profundo. Para sua surpresa, Mullon constatou que lá havia uma vegetação relativamente densa, formada por arbustos e algumas árvores. O vale corria quase exatamente na direção norte-sul, e a sombra projetada pela vegetação parecia convidar para a instalação de um acampamento provisório. Mullon não hesitou: fez a máquina baixar imediatamente e pousou junto a uma solitária e gigantesca árvore.
O silêncio que se espalhou depois que o helicóptero havia pousado era impressionante.
Uma brisa suave atravessava o vale e farfalhava nas folhagens dos arbustos; era o único ruído que se ouvia.
Fraudy desligou a câmera. Mullon virou a cabeça e disse a Milligan e Pashen:
Tirem as barracas e levantem-nas embaixo da árvore. Acho que passaremos algum tempo por aqui.
Milligan e Pashen desenvolveram uma atividade notável.
Fraudy e Mullon continuaram sentados na cabine. Fraudy lançou os olhos para o vale luminoso e tremeluzente e murmurou:
Que mundo magnífico e estranho!
Mullon, que tinha menos receptividade para as manifestações de sentimentalismo, disse:
É um mundo maldito, se não encontrarmos água potável por perto.

* * *

Enquanto isso Harper, Glannon e Cislarczik passaram algumas horas extremamente difíceis. Furtar um dos veículos de esteira que haviam sido salvos dos destroços da Adventurous representaria um risco excessivo. Por isso teriam de vencer a pé o percurso que Mullon e seus companheiros haviam percorrido de helicóptero.
Do nascer do sol em diante, o astro central branco-azulado não parou de dardejar seus raios escaldantes sobre a planície ligeiramente inclinada. As coronhas dos fuzis ardiam nas mãos e os cabelos ficaram tão aquecidos que se sentia cada fio, ao passar a mão pela cabeça. Os homens respiravam com dificuldade, e as montanhas — quanto mais eles andavam — pareciam afastar-se em meio ao ar tremeluzente.
Na planície coberta de capim havia vez por outra um arbusto ou uma pequena árvore. Harper, que comandava o trio, logo percebeu que, se prosseguissem da forma como vinham caminhando, não iriam longe. Por isso ordenou que os homens descansassem ao menos durante um minuto à sombra de cada árvore ou arbusto pelo qual passavam. Depois mandava que atravessassem em marcha rápida o trecho de terra escaldante que os separava do arbusto ou da árvore seguinte, que geralmente ficava a algumas centenas de metros.
Dessa forma avançaram relativamente depressa, mas Harper percebeu que não agüentariam esse ritmo por mais de duas ou três horas. A pausa que teriam de fazer depois disso, para recuperar as forças, seria muito mais longa do que as circunstâncias permitiam.
Harper percebeu que Hollander os fizera partir no momento errado. Era uma tolice tentar uma marcha forçada de quarenta quilômetros ou mais, de dia e numa planície em que quase não havia nenhuma sombra. Para avançar numa velocidade satisfatória, teriam de marchar à noite.
Lá pelas oito horas, Harper mandou que o grupo parasse à sombra de uma árvore.
Deste jeito não iremos longe! — afirmou.
Não tenho a menor dúvida — respondeu Cislarczik em tom irônico e olhou em torno. — Não sei como ainda não estou com dois palmos de língua fora da boca. O que poderemos fazer?
Esperar — decidiu Harper. — Esperaremos até o entardecer, quando o calor não será tão forte.
Com isso perderemos quase trinta horas — objetou Glannon.
E daí? Antes perder trinta horas que morrer sufocado por este calor.
Você tem razão. Podemos tomar um gole de água?
Pegou o cantil que trazia preso ao cinto. Harper fez um gesto negativo.
Deixe de tolices. Ainda precisaremos da água preparada. O rio não deve ficar muito longe; deveremos ir até lá.
Cislarczik lançou-lhe um olhar furioso.
Nem quero saber se vou precisar ou não da água preparada — disse em tom áspero. — Estou com sede e não quero caminhar mais um passo sequer. Por isso vou beber um gole de água do meu cantil.
Experimente! — disse Harper.
Cislarczik conhecera Harper há poucos dias. Não sabia o que se passava em sua mente quando falava com a voz tão calma e baixa. Retirou o cantil do cinto, abriu o fecho e encostou o recipiente aos lábios.
No momento em que sorvia o primeiro gole, o punho de Harper atingiu-o do lado esquerdo da face. Cislarczik gritou, soltou o cantil e caiu de lado.
Espere, seu... — disse em tom furioso.
Louco de dor, Cislarczik levou algum tempo para enxergar claro.
Avançou. Era um homem alto e robusto. Tinha certeza de que conseguiria derrubar o pequeno Harper na primeira investida. Acontece que Harper possuía uma qualidade que Cislarczik não conhecia: o sangue-frio. Saltou para o lado, deixou que seu contendor passasse por ele, segurou-o pela gola, puxou-o para trás e com a “quina” da mão desferiu pancadas violentas entre as omoplatas.
Olhe o cantil! — gritou Glannon que, segundo parecia, só agora estava compreendendo o que havia acontecido. — Ficará vazio!
Harper olhou para trás. O cantil de Cislarczik jazia em meio ao capim, a alguns metros, e o líquido escorria lentamente para o chão ressequido. Harper levantou-o, virou-o de boca para baixo e deixou que se esvaziasse de vez.
Este já não precisa de qualquer condicionamento — disse em tom indiferente.
Glannon engoliu em seco.
Tem papel e lápis? — gritou Harper. — Vamos, escreva — pegou uma pequena bússola e examinou-a — escreva que seguimos na direção norte-noroeste, para chegar ao rio.
Glannon fez o que o outro mandou. Só depois, de ter colocado o papel ao lado de Cislarczik, que jazia inconsciente no solo, teve coragem de dizer:
Ele não tem bússola! Como é que pode saber onde fica o norte-noroeste?
Harper deu de ombros.
O problema é dele. Quem o mandou agir como um idiota?
Puseram-se a caminho, sem dar a menor atenção ao companheiro. Glannon, cuja alma era muito mais delicada que a de Harper, teve suas preocupações. Os golpes desferidos em Cislarczik haviam sido violentos e implacáveis. Se não despertasse antes que os talos de capim pisados se endireitassem, apagando os rastros, não lhe restaria outra alternativa senão descer pela planície, em direção a Greenwich. Mesmo assim, seria perfeitamente possível que não acertasse com a pequena cidade.
Harper caminhava vigorosamente, como se o calor não o perturbasse. Glannon Leve de esforçar-se para segui-lo. A lembrança da água refrescante dava-lhe um pouco de ânimo.
Depois de terem caminhado pouco menos de uma hora ouviram um ruído surdo à sua frente. Dali a pouco viram, bem ao longe, um traço escuro que cortava a planície. Depois de terem caminhado mais dez minutos descobriram a nuvem brilhante de vapores que se levantava do leito profundo do rio encachoeirado, formando um estranho arco-íris.
2



Tiveram sorte. Enquanto Milligan e Pashen armavam as barracas, Fraudy e Mullon deram uma grande volta em torno do acampamento e descobriram um pequeno lago oculto em meio a densas moitas. Esse lago era alimentado por dois regatos que desciam da encosta que ficava a oeste. O lago não tinha nenhuma saída. Daí se concluía que o volume de água se equilibrava exclusivamente pela evaporação e pela infiltração.
O regato ficava a poucos metros das barracas. Algumas árvores que cresciam junto ao córrego cobriam-no com suas copas. Foi por isso que Mullon não o havia visto do helicóptero.
Assim que as barracas estavam armadas, Mullon distribuiu as rações do café da manhã. Podiam também beber à vontade da água do lago recém-descoberto, que tinha um sabor estranho, mas agradável e refrescante.
Depois do almoço Mullon mandou realizar os trabalhos de rotina, necessários em qualquer acampamento, tais como a coleta de amostras do solo, dos vegetais e da água, a elaboração de mapas provisórios e a determinação da posição.
Esses trabalhos foram concluídos pelo meio-dia. Seguiu-se uma pausa de duas horas, após a qual — aproximadamente às vinte e duas horas, ou seja, no início da tarde — Pashen e Mullon partiram no helicóptero, a fim de percorrer o vale para o norte e o sul e completar o mapa.
Enquanto isso, Fraudy elaborou o relatório da expedição, e a única coisa que Milligan teve que fazer foi montar guarda ao acampamento. Até então não haviam visto o menor sinal de qualquer tipo de animal, com exceção de alguns besouros e borboletas. Por isso Milligan achou que a tarefa não seria muito difícil. Sentou-se à sombra de uma árvore, encostou-se a um tronco e, instantes depois, adormeceu.
Foi assim que Fraudy o encontrou dali a uma hora, quando acabara de terminar o relatório. Não o acordou. Ficou refletindo se havia algo de útil que pudesse fazer. Finalmente foi ao lago, que descobrira juntamente com Mullon, na manhã daquele dia.
A sombra das gigantescas árvores era refrescante. Fraudy encontrou um pedacinho de terra coberto de capim, na margem do lago, e deitou. O ar tépido, que se tornara perfeitamente suportável com o efeito refrescante da evaporação e da sombra, aliadas ao silêncio, produziram um efeito tranqüilizador.
Fraudy não resistiu à sonolência.
Subitamente ouviu um ligeiro ruído. Virou-se abruptamente e sentou. De início viu apenas a vegetação, cujas folhas poeirentas, expostas aos raios do sol, se mantinham imóveis. Mas depois de algum tempo voltou a ouvir o ruído. A menos de um metro do lugar onde Fraudy se encontrava, os ramos de um arbusto começaram a se mexer.
Fraudy ficou rígida de pavor. Não trazia nenhuma arma. Esteve a ponto de levantar-se e sair correndo; mas naquele instante surgiu entre a folhagem uma cabeça grosseira, do tamanho de um punho fechado. Fraudy nunca vira coisa igual.
A jovem permaneceu imóvel. A cabeça foi-se adiantando entre a folhagem, seguida por um corpo achatado e coberto de escamas. Os grandes olhos amarelentos do animal pareciam fitar Fraudy. A boca larga e entreaberta deixava entrever uma fileira de dentes afiados. Apoiado sobre o corpo achatado, o animal executava movimentos pendulares, provocando o ruído que despertara a atenção de Fraudy.
É uma cobra”, pensou Fraudy, muito nervosa.
O animal foi saindo do meio da vegetação e ergueu a parte dianteira do corpo, até que sua cabeça repugnante executasse os movimentos pendulares a meio metro do rosto de Fraudy. Esta sentiu o hálito repugnante do réptil.
Quem me dera que Milligan aparecesse! Mas esse idiota está dormindo. Como é que uma pessoa que está de sentinela pode dormir?”, pensou, desesperada.
A serpente continuava a executar os movimentos pendulares. Fraudy esforçou-se para não acompanhar os movimentos com os olhos. Tinha medo de entrar numa espécie de transe. Além disso, a serpente poderia perceber os movimentos dos globos oculares...
Fraudy não soube por quanto tempo permaneceu sentada, completamente imóvel.
Subitamente ouviu um leve zumbido, vindo do sul. O ruído cresceu rapidamente, e Fraudy não demorou em identificar o chiado dos motores do helicóptero.
É Horace que está voltando!”, pensou satisfeita.
Por alguns segundos seu coração bateu violentamente, de tão alegre que se sentia. Mas logo se lembrou de que Mullon não poderia vê-la do helicóptero, e de que nem pretendia pousar, pois ainda teria de realizar o levantamento cartográfico da parte norte do vale.
A serpente não se incomodou com o ruído. Por algum tempo, os movimentos pendulares tornaram-se mais lentos. Mas quando o zumbido desapareceu ao norte, o animal retomou o ritmo e passou a fitar sua vítima com os olhos frios e amarelentos.
Fraudy sentiu que não agüentaria mais por muito tempo. Não demoraria a chegar o momento em que cairia, pois os nervos se recusariam a obedecer e os músculos não conseguiriam sustentar seu peso.
De repente ouviu uma voz que a chamava, vinda de longe. A voz aproximou-se, voltou a afastar-se e depois tornou-se clara o suficiente para que Fraudy conseguisse entender as palavras:
...Fraudy! Mrs. Mullon! Fraudy...!
Era Milligan, que acabara de acordar e estava procurando Fraudy.
Tomara que venha para cá!”, pensou Fraudy.
Mas Milligan não chegou mais perto. Os chamados voltaram a afastar-se.
Fraudy teria de fazer alguma coisa, se quisesse escapar à cobra.
Será que uma serpente é muito rápida? Se eu der um pulo para dentro do mato, talvez não consiga seguir-me...”, pensou Fraudy, “talvez seria preferível deixar-me cair para trás, para dentro da água. Será que as cobras sabem nadar? É claro que sabem, sua bobinha. Há seis meses você viu uma serpente nadar num rio da Terra. Tanto faz! Assim é que não pode continuar.
Muito lentamente, para que a serpente não percebesse qualquer movimento, começou a deslocar o peso do corpo para a perna direita. Sentiu uma dor lancinante no pé, que por pouco não a fez gritar.
Com os pés dormentes consigo caminhar no máximo meio metro”, pensou Fraudy. “Só me resta deixar-me cair para dentro da água.”
Hesitou, como se acreditasse que no último instante surgisse algum milagre que pudesse afastar aquilo que parecia inevitável.
E o milagre aconteceu!
Subitamente Fraudy ouviu uma série de ruídos estranhos, vindos da densa vegetação. Pareciam vozes de criança.
Os movimentos pendulares da serpente foram ficando cada vez mais lentos, como se o réptil estivesse prestando atenção aos ruídos. Depois que a série de ruídos se repetiu várias vezes, Fraudy ouviu o estalido de galhos e o farfalhar das folhas. Subitamente teve a impressão de que havia uma sombra a seu lado. A tentação de virar a cabeça foi grande. Mas a jovem manteve-se imóvel. Seu coração começou a bater mais depressa quando percebeu que os movimentos pendulares da serpente cessaram por completo. A parte dianteira do corpo do réptil tocou o solo e o animal começou a afastar-se para a esquerda.
Aguardou até que não ouvisse mais o ruído provocado pelo deslocamento da serpente.
Depois deixou-se cair de lado. O sangue penetrou nas pernas e nos pés dormentes, provocando dores quase insuportáveis. Soltou um gemido e olhou na direção em que desaparecera a serpente.
O quadro que se descortinou aos seus olhos era extraordinário. Um pequenino ser cinza-claro, semelhante aos macacos rhesus do planeta Terra, balançava-se sobre um galho baixo, próximo ao lago. O símio contemplava atentamente a serpente que se aproximava pelo capim em sua direção.
No momento em que o réptil começou a subir pelo tronco, o macaquinho soltou um irônico “guê-guê-guê”. Pulou do galho, e foi parar poucos metros atrás da serpente.
Esta percebeu que fizera papel de boba e virou-se. O macaquinho manteve-se imóvel em meio ao capim. A serpente levantou a parte dianteira do corpo e passou a executar movimentos pendulares, em busca de sua nova vítima.
O macaco saltou para o lado. A cabeça grosseira do réptil avançou vertiginosamente, mas o macaco foi mais rápido; escapou ao ataque. De um salto aproximou-se da margem do lago. A serpente seguiu-o, e o mesmo jogo foi repetido. Mais uma vez o símio se manteve imóvel por algum tempo e subitamente deu um salto; com um movimento rapidíssimo e extremamente ágil conseguiu escapar mais uma vez à cabeça da serpente, aproximando-se ainda mais da margem.
O jogo continuou até que o macaco se visse na ponta de uma pequena península, que avançava alguns metros lago a dentro. O caminho de volta estava fechado, já que a península não media mais que um metro de largura, e a serpente não deixaria escapar a vítima, caso esta tentasse passar. E do outro lado havia apenas a água do lago. Fraudy não tinha motivo para acreditar que este macaquinho tivesse menos pavor do elemento líquido que os indivíduos da mesma espécie que habitam o planeta Terra.
Apesar de tudo, o macaco continuava a fitar a serpente com uma expressão de petulância e curiosidade. Ao que parecia, não estava com medo.
Fraudy viu que se manteve imóvel até que a serpente se tivesse aproximado a meio metro de distância. Então Fraudy soltou um grito; o macaco deu um salto ligeiro em direção ao inimigo e cravou os dentes no pescoço da serpente, logo atrás da cabeça.
A cobra agitou o corpo e procurou sacudir o animalzinho que a martirizava ou atingi-lo com os dentes afiados. Não conseguiu nem uma coisa nem outra. O macaco continuava grudado a seu corpo. Enquanto executava movimentos espasmódicos, na tentativa de livrar-se do inimigo, a serpente aproximava-se cada vez mais da água. A parte dianteira do corpo debatia-se e chicoteava, sacudindo o macaco cujos pés já haviam saído do chão.
Fraudy levantou-se de um salto. Subitamente o macaco soltou o pescoço da serpente, no momento exato em que o movimento o atirava de volta para o solo firme. Enquanto isso a serpente, que ficou aliviada do peso adicional que carregava, escorregou mais um pedaço em direção à água e caiu pesadamente.
Da terra firme, o macaco viu o que estava acontecendo a seu inimigo; soltou um “guê-guê-guê” exultante.
Após isso ocorreu uma coisa que provocou um calafrio em Fraudy. A lagoa pareceu adquirir vida de uma hora para outra. A água agitou-se. Vindas de todas as direções, pequenas criaturas negras investiram contra a serpente.
Dali a alguns segundos, sobrou apenas o esqueleto, que foi afundando lentamente.
Depois de ter contemplado o espetáculo excitante, Fraudy sentiu alguém tocar sua perna. Olhou para trás e viu o pequeno macaco cinza-claro, fitando-a curiosamente.
Fraudy abaixou-se para acariciá-lo. O macaco não opôs a menor resistência. Depois de algum tempo pareceu impacientar-se. Deu um salto, emitiu outro “guê-guê-guê” e levantou o braço, como se quisesse apontar o caminho a Fraudy.
Fraudy seguiu-o. Ao que parecia, o animal ficou muito contente. Entrou numa moita e subiu num galho alto. Voltou a levantar o braço e apontou na mesma direção que mostrara antes.
Fraudy teve a impressão de que pretendia levá-la a algum lugar. Seguiu-o por algum tempo, esforçando-se para marcar o caminho, a fim de poder voltar para junto da lagoa.
Mas, quando o macaquinho saiu da densa vegetação que rodeava o lago numa extensão de algumas centenas de metros e apontou para a encosta que ficava a oeste, Fraudy teve a impressão de que já bastava.
Se não voltasse logo, ela se perderia. Parou. O macaquinho não concordou. Soltou mais alguns “guê-guê-guê”, apontou várias vezes na direção em que pretendia levar Fraudy, demonstrando certa impaciência, e finalmente voltou saltitando para junto dela. Parou à frente da jovem e levantou os dois braços, como que numa súplica. Em seus grandes olhos havia uma expressão de tristeza.
Fraudy não se comoveu. Ao perceber isso, o macaco saltou algumas vezes em torno dela, emitiu uma variedade de sons estranhos e acabou afastando-se na direção oeste. Fraudy conseguiu segui-lo com os olhos até que chegasse à encosta rochosa. A pedra era da mesma cor cinza-clara do pêlo do animal, por este motivo a jovem o perdeu de vista.
Um tanto pensativa, parou, olhou em torno, para ver se não havia outra serpente por perto. Ficou refletindo sobre o animalzinho que a salvara. Sabia-se que os macacos em geral, e os macacos rhesus em particular, costumam desenvolver uma capacidade de comportar-se como gente que às vezes chega a alcançar dimensões verdadeiramente espantosas.
Mas a experiência por que Fraudy passara excedia tudo que já vira. Não teria a menor dúvida em afirmar que no crânio de seu salvador havia muito mais massa cinzenta que no dos espécimes terranos.
Voltou-se para ir à lagoa e de lá ao acampamento. Naquele instante, ouviu um estalido de galhos. Fraudy estremeceu, apavorada.
Milligan surgiu, de fuzil na mão, e descobriu Fraudy.
Graças a Deus! — suspirou. — Cheguei a pensar que...
A raiva de Fraudy, provocada pela situação de impotência em que se vira diante da serpente, já desaparecera.
Quase acertou! — respondeu com um sorriso irônico. — Realmente, por pouco não disse adeus a este belo mundo.
Contou em palavras ligeiras o que lhe havia acontecido. O embaraço de Milligan foi-se tornando cada vez mais evidente.
Se não tivesse dormido, nada disso teria acontecido! — exclamou finalmente. — Tomara que Mullon me torça o pescoço.
Ele não vai fazer nada disso — falou Fraudy para consolá-lo. — Ninguém desconfiava de que esta área fosse tão perigosa. Além disso, eu deveria tê-lo avisado antes de sair.
Milligan acenou com a cabeça; parecia contrariado.
Tomara que Mullon não tenha opinião contrária à sua — disse.

* * *

E Mullon não teve outra opinião. Apenas recomendou:
Já sabemos qual é a situação. Acho que daqui por diante ninguém dormirá quando estiver de sentinela — e, olhando para Fraudy, acrescentou: — E ninguém sairá sem deixar aviso.
Interessou-se vivamente pela história do macaquinho. Fraudy se lembrava perfeitamente do lugar em que vira o animal desaparecer no paredão rochoso. Mullon resolveu explorar a área o quanto antes. O pequenino salvador de Fraudy era o primeiro representante da classe dos primatas com que os colonos se defrontavam no planeta Fera Cinzenta.
Fraudy sugeriu que o macaco fosse chamado de mungo; e a sugestão foi aceita, já que cabia ao descobridor batizar a criatura descoberta. A jovem estudara biologia galáctica em Terrânia, e sabia que na Terra existia um animal com este nome; achou que se “adaptaria” perfeitamente à criatura recém-descoberta.
Mullon e Pashen haviam voltado pelas vinte e cinco horas. Seguindo o costume adotado no planeta, fizeram uma pausa de três horas, que terminaria pouco antes das vinte e nove horas. Mullon pretendia capturar ainda naquela noite ao menos um exemplar dos animais negros que habitavam a lagoa e que vitimaram a serpente em virtude da ação bem orientada do pequeno mungo.
Na manhã do dia seguinte procurariam capturar um dos macaquinhos que habitavam a encosta oeste do vale. Na opinião de Mullon, a missão seria difícil e demorada.
Mas as coisas se passaram completamente diferentes do que eles haviam previsto.

* * *

Ainda pelas vinte e cinco horas do mesmo dia, Harper e Glannon prosseguiram em sua marcha, abandonando o local fresco em que haviam repousado, situado sob o barranco saliente do rio. Descansaram mais de doze horas, e não chegaram a ver o menor sinal de Cislarczik.
O sol ainda ia alto, mas o forte calor já havia passado. Caminharam vigorosamente e, pelos cálculos de Harper, chegaram a percorrer cerca de quatro quilômetros e meio por hora, o que não era pouco, uma vez que o terreno subia e a gravidade era superior em vinte por cento à da Terra.
Ao que parecia, Harper não se interessava por Cislarczik. Em compensação, Glannon preocupava-se com o mesmo. Harper não teve a menor contemplação com o companheiro.
As horas e os quilômetros foram ficando para trás. Sob o brilho do sol no poente perceberam pela primeira vez que as montanhas se encontravam mais próximas. Depois do pôr do sol, fizeram uma ligeira pausa. Dali a trinta minutos, prosseguiram na caminhada.
Não pense que a noite foi feita para dormir — resmungou para Glannon. — Amanhã de manhã quero ver as montanhas bem à minha frente.
Glannon respondeu em tom mordaz:
Para mim é indiferente. Cuide para não forçar demasiadamente seus pés.
Harper não respondeu. Puseram-se em marcha. A bússola luminosa de Harper indicava-lhes o caminho. Até a meia-noite não houve maiores contratempos, com exceção de uma sensação de torpor nas pernas. A terra, que havia absorvido o calor do dia, irradiava-o aos poucos.
Subitamente começou a esfriar. Para espantar o frio, Harper e Glannon começaram a andar mais depressa. Mas, à medida que apressavam a marcha, mais as pernas doíam.
Harper viu-se obrigado a fazer outra pausa. Passaram este período de descanso sentados no chão, esfregando as mãos e agitando os braços, para aquecerem-se.
Depois de algum tempo prosseguiram.
A marcha durou quatorze horas. Subitamente viram a primeira luz em meio à escuridão. Era o brilho dourado dos cumes das montanhas, atingidos pelos raios do sol nascente.
Começou a clarear. Os contrafortes da cordilheira estavam tão perto que até davam a impressão de estarem ao alcance das mãos.
Um vale coberto de capim cortava a cordilheira na direção leste-oeste. A entrada desse vale ficava a apenas três ou quatro quilômetros. Era lá que pretendiam descansar.
Chegaram ao destino. Acamparam na entrada do vale, num nicho existente na encosta sul.
Ou melhor, deixaram-se cair e adormeceram imediatamente.

* * *

Depois das três horas de descanso, Milligan procurou levantar-se. Mas seus joelhos fraquejaram; caiu e ficou estendido no chão. Mullon pensou que tivesse torcido o tornozelo; procurou levantá-lo.
Mas Milligan não conseguia manter-se de pé. Estava tão fraco que tombava assim que o soltassem.
Dali a meia hora, surgiu o primeiro sintoma da misteriosa doença: as varicelas azuis.
Imediatamente Mullon entrou em contato com Greenwich e foi informado de que Weeney havia conseguido um êxito parcial no combate à doença. Usando um dos medicamentos trazidos da Terra, conseguira reduzir a atividade do vírus. Embora os doentes não ficassem curados, a doença entrava num estado estacionário.
Mullon e Pashen levaram Milligan ao helicóptero. Mullon levaria o doente a Greenwich. Mas, quando procurou pôr em movimento a máquina, esta apenas emitiu um estalido.
Mullon esforçou-se para encontrar o defeito. Mas, embora fosse técnico e estivesse muito familiarizado com helicópteros, não conseguiu. O sol foi descendo em direção ao horizonte, e não se podia cogitar mais de voar para Greenwich. Face aos desfiladeiros estreitos e às grandes montanhas, o vôo seria extremamente arriscado. E não devia assumir o menor risco por se tratar do único helicóptero de que um grupo de oito mil colonos dispunha.
Além disso, Mullon não possuía qualquer tipo de iluminação que lhe permitisse examinar detidamente o mecanismo propulsor.
Teriam de esperar até o dia seguinte. Acontece que até lá Milligan poderia estar morto.
Mullon distribuiu o tempo das sentinelas. O doente teria de ser vigiado ininterruptamente.
Milligan conformou-se com seu destino. Estava consciente. Nem mesmo a pane do helicóptero parecia impressioná-lo. Limitou-se a dizer:
Não se preocupe, chefe; as coisas se arranjarão de alguma forma.
Durante o tempo em que Mullon ficou de sentinela não houve qualquer incidente. Deixou passar três horas e meia, para que os outros pudessem descansar mais, já que não se sentia muito cansado. Só depois disso acordou Fraudy.
Milligan havia adormecido.
Fraudy pegou um fuzil e um holofote manual e sentou-se à frente da barraca em que Milligan estava dormindo. Ao lado de Fraudy havia uma pequena lâmpada, instalada por Mullon durante seu quarto de sentinela. Essa lâmpada derramava uma luz débil, atraindo grande quantidade de besouros e mariposas.
Para passar o tempo, Fraudy examinou os insetos. Com isso cumpria uma das finalidades da expedição, uma vez que era perita no assunto.
Dessa forma as três horas passaram relativamente depressa. Fraudy continuou sentada no mesmo lugar. Só despertaria Pashen quando estivesse tão cansada que mal conseguisse ficar com os olhos abertos. For enquanto estava longe disso. A variedade de besouros e mariposas que esvoaçavam em torno da luz espantava o tédio.
Apesar do entusiasmo com que realizava o trabalho, Fraudy percebeu o ligeiro ruído vindo dos lados da lagoa, que subitamente se propagou através da folhagem.
Fraudy deixou cair o besouro brilhante que se encontrava em sua mão, pegou o holofote, ligou-o e dirigiu o feixe de luz para o lado de onde viera o ruído.
Seu êxito foi imediato. O ruído tornou-se mais forte e logo se afastou. O pequeno ser emitiu alguns sons que pareciam assustados.
Fraudy desligou o holofote e pôs-se a esperar. Dali a dez minutos, o ruído voltou a aproximar-se. Fraudy esperou pacientemente até que um ligeiro baque lhe desse certeza de que a criatura desconhecida, fosse ela quem fosse, já estivesse sobre o capim que rodeava o acampamento.
Foi só então que Fraudy voltou a ligar o holofote. O feixe de luz ofuscante atingiu um vulto pequeno, coberto de pêlos cinza-claros, que estava apoiado sobre as patas traseiras, colocando as dianteiras diante dos olhos, num gesto de pavor.
De lado a lado a surpresa foi enorme. Quando Fraudy se lembrou de que a luz deveria incomodar o macaquinho, fez menção de dirigir a luz para outro lado. Mas o mungo tirou as patas de cima dos olhos, virou-se e com um salto enorme desapareceu na mata.
Fraudy não se deu por satisfeita. Lamentava ter espantado o macaquinho. Talvez fosse o mesmo que a salvara da serpente. Começou a chamar.
Mas o mungo não dava o ar de sua graça. Mas bastou que Fraudy soltasse alguns sons que o animal emitira na tarde daquele dia...
Guê-guê-guê... brrrr — go-go-go...
E o resultado foi espantoso! Assim que Fraudy fez uma pequena pausa, ruídos leves vinham de todos os lados. Dali a pouco seis rostinhos curiosos e espantados surgiram na luz da lâmpada.
Fraudy estendeu a mão em direção a um dos mungos. O animalzinho aproximou-se e olhou Fraudy com uma expressão tão engraçada que a jovem não pôde deixar de rir.
Alguém veio por trás e colocou a mão sobre o ombro da jovem.
Quem está emitindo esses ruídos estranhos no meio da noite? — perguntou.
Era Mullon. Ao que parecia, os mungos não tinham medo dele. Assim que penetrou na luz da lâmpada, olharam-no com a mesma curiosidade que haviam demonstrado para com Fraudy.
Imitei sua “língua”, para atraí-lo — explicou Fraudy. — Espantaram-se com o holofote.
Conseguiu atrair os bichinhos?
Você está vendo.
Um dos mungos — era o que se aproximara em primeiro lugar — postou-se diante da entrada da barraca de Milligan e começou a puxar nervosamente o tecido, dando mostras evidentes de que queria entrar.
O que será que ele quer lá dentro? — perguntou Mullon.
Não sei — disse Fraudy com uma risada. — Pergunte a ele.
Mullon inclinou-se sobre o macaquinho. Este continuava puxando o pano da entrada da barraca com uma força ainda maior. Depois de ligeira hesitação, Mullon levantou o tecido. O mungo foi entrando lentamente. Seus companheiros ficaram do lado de fora.
No interior da barraca a escuridão era completa. Fraudy trouxe a lâmpada e iluminou o caminho para o mungo. Este já encontrara o lugar em que se achava o leito. O símio estava agora junto à cabeça do doente. Olhava ora para Milligan, ora para Mullon, que o havia seguido.
Fraudy levantou a luz, para que o rosto de Milligan fosse iluminado. Milligan mexeu-se e dali a pouco abriu os olhos.
O que houve? — perguntou em tom sonolento e confuso.
O senhor tem visita — respondeu Mullon.
Milligan virou o rosto para o lado e viu o macaquinho.
Ah... é o tal baixote de hoje de tarde...
Não sei se é o mesmo — respondeu Fraudy. — De qualquer maneira, é igualzinho a ele.
O mungo seguiu a palestra com a atenção de quem entende cada palavra pronunciada. Assim que os interlocutores se calaram, saltou para cima da cama de Milligan e começou a abrir-lhe a camisa. Viu as varicelas azuis que cobriam a pele do enfermo. O mungo pôs a mãozinha sobre as marcas da doença, olhou para Fraudy e fez com a voz lamentosa:
Uuuuh... ep-ep.
Mullon inclinou-se para ele.
Sim, isto é mau — disse em tom sério, como se entendesse o que o macaquinho queria dizer.
O mungo começou a agitar os braços e ficou “gueguejando”. Mullon não teve a menor dúvida de que aquilo não eram puras manifestações de emoção; o animal queria dizer alguma coisa.
Será que há alguém que possa dar-me umas aulas da língua mungo? — perguntou meio irônico, meio desesperado.
O mungo parecia compreender que não estava sendo entendido. Deu um enorme salto, que surpreendeu Mullon, saindo da cama de Milligan e dirigindo-se para fora da barraca. Mullon e Fraudy seguiram-no. Ouviram um grito estridente; quando se encontravam do lado de fora, os seis mungos haviam desaparecido.
Mullon cocou a cabeça.
Gostaria de saber o que significa isso — disse.
Acho que eu sei — respondeu Fraudy. — Querem ajudar Milligan.
Mullon fitou-a perplexo. Depois começou a rir.
Você só pode estar brincando, minha filha. Como é que um bando de macaquinhos poderia curar um terrano?
Aguardemos — disse Fraudy e deu de ombros.
Mullon sentou-se no chão, ao lado da esposa. Voltaram a ouvir o ruído nas folhagens, e dentro de um instante os macacos reapareceram.
Traziam alguma coisa. Carregavam feixes de folhas carnudas, verde-azuladas, segurando-as entre os dentes. Colocaram as folhas diante de Fraudy, como se alguém lhes tivesse dado ordens para isso. Cinco dos macaquinhos recuaram, enquanto o sexto parou à frente de Fraudy e lhe lançou um olhar de súplica.
O que é? — perguntou Fraudy com um sorriso.
O macaco pegou umas quatro ou cinco folhas, enfiou-as na boca e pôs-se a mastigar. Depois de algum tempo, parou e olhou em torno, como se estivesse procurando alguma coisa.
Quer um vasilhame para cuspir — conjeturou Mullon.
Mullon foi buscar uma pequena bacia de plástico, muito limpa, e a colocou à frente do mungo. Este inclinou-se sobre a mesma e cuspiu um jato enorme de líquido viscoso e esverdeado. Pegou mais algumas folhas e as mastigou fortemente.
Os outros macacos aproximaram-se e ajudaram o companheiro em seu trabalho. Dentro de pouco tempo as folhas desapareceram e a bacia já estava pela metade com um mingau verde.
E agora? — perguntou Fraudy.
Um dos mungos tentou levantá-la mas não conseguiu. Fraudy levantou-a. O mungo voltou a “gueguejar” e saltou em direção à entrada da barraca de Milligan. Mullon levantou o pano e deixou que Fraudy e o macaco entrassem. Os outros macacos ficaram do lado de fora.
Milligan estava acordado.
Voltou? — perguntou com a voz débil.
Voltou — respondeu Mullon. — E, ao que parece, desta vez trouxe um remédio para o senhor.
O macaco?
Isso mesmo.
Milligan ergueu-se o mais que pôde. O mungo parou na cabeceira do leito, refletiu um pouco e saltou para cima do enfermo. Parou junto à cabeça de Milligan, estendeu cautelosamente o braço e apontou para sua boca.
Esta não! — gritou Mullon apavorado. — Será que você tem que tomar isso?
O macaco continuava com os dedinhos junto aos lábios de Milligan, lançando um olhar bastante expressivo para a bacia que Fraudy segurava.
Parece que é isso mesmo que ele quer dizer — disse Milligan. — Passe para cá; quem sabe se não é bom?
Fraudy deu-lhe a bacia. Milligan segurou-a com a mão esquerda e, antes que Fraudy e Mullon pudessem dizer qualquer coisa, colocou-a nos lábios e sorveu parte de seu conteúdo.
Fez uma careta.
Brrrr. Não foi muito gostoso; tomara que faça efeito.
Ninguém dera atenção ao pequeno mungo. Este saltara para o chão, sentou-se, agitou fortemente os braços e fez uma cara como se tivesse feito uma grande arte.
Milligan bocejou ruidosamente, — Sinto-me cansado — murmurou. — Acho que vou dormir mais um pouco.
É o que deve fazer — disse Mullon. — O sono faz bem a qualquer pessoa. Viremos de vez em quando para dar-lhe uma olhada. Saíram; o mungo ficou saltitando à sua frente. Mullon esperava que fosse afastar-se com os companheiros. No entanto, ficou sentado a seu lado, na luz da lâmpada.
O que está esperando? — perguntou Mullon em tom de espanto.
Quer ver se Milligan realmente ficará curado — respondeu Fraudy.
Mullon soltou uma risada.
Você com essa confiança infinita! Tomara que não sofra uma decepção. Vou deitar um pouco. Não quer acordar Pashen?
Fraudy sacudiu a cabeça.
Ainda não estou cansada.
Mullon desapareceu no interior de sua barraca. Fraudy ficou sentada à luz da lanterna e conversou baixinho com os macacos. Estes “responderam”. Mas nem ela os compreendia, nem eles a ela.
Mais ou menos de quinze em quinze minutos, Fraudy olhava o doente, sempre acompanhada por um dos mungos, que parecia ser o chefe do grupo. Milligan estava mergulhado num sono profundo e tranqüilo.
Dali a duas horas, Pashen acordou e saiu da barraca. Sentia-se admirado por não o terem chamado. Fraudy explicou o que havia acontecido e pediu-lhe que olhasse regularmente por Milligan. Ainda lhe pediu que cuidasse dos seis mungos e foi dormir.

* * *

Quando Fraudy acordou, ainda estava escuro, mas acima da encosta leste do vale já surgia uma luz pálida. Pelo menos uma hora e meia se passaria até o nascer do sol.
Mullon não estava na barraca. Fraudy ouviu-o conversar em voz baixa com Pashen, do lado de fora. Levantou e lavou-se numa bacia de plástico dobrável, que fazia parte do equipamento de qualquer barraca, juntamente com um reservatório de água de oitenta litros. Depois saiu.
O quadro continuava o mesmo. Pashen e Mullon estavam sentados um ao lado do outro, à frente da barraca de Milligan. A pequena lâmpada continuava acesa, e os macacos achavam-se agachados em círculo, em torno dos dois homens.
Assim que ouviram os passos de Fraudy, os dois homens levantaram-se.
Milligan está passando bem — disse Mullon, sem esperar que Fraudy perguntasse. — Está dormindo profundamente e...
E...?
As manchas azuis desapareceram.
Não é possível!
Mullon confirmou com o rosto sério.
É isso mesmo. Parece milagre, mas é verdade.
Fraudy abaixou-se e acariciou as cabeças dos mungos.
Temos que dar-lhes um presente — disse.
Dirigiu-se à barraca-depósito e começou a revirar-lhe o conteúdo. Não demorou em voltar. Trazia peças grandes de pano amarelo-vivo.
Mullon levantou-se abruptamente.
São os panos de marcação dos coletes salva-vidas! Será que você ficou louca, Fraudy?
De um único colete salva-vidas — corrigiu Fraudy. — E daí? Será que por aqui você já viu tanta água no mesmo lugar que se possa precisar de um colete salva-vidas?
No planeta Fera Cinzenta existem oceanos — respondeu Mullon. — E...
Ora essa! — interrompeu Fraudy em tom contrariado. — Deixe de ser pão-duro. Será que você quer que estes macaquinhos saiam daqui sem recompensa, depois de terem curado Milligan? Em Greenwich temos panos coloridos de sobra para colocar num colete salva-vidas.
Mullon não respondeu mais nada. Fraudy ajoelhou-se e entregou os presentes aos mungos.
Os animais seguraram o pano com as mãozinhas e encostaram-no aos seus corpos como quem quer experimentar uma roupa. Fizeram um verdadeiro carnaval de alegria.
Os olhos de Fraudy brilharam. Mullon e Pashen ficaram tão surpresos com esta súbita manifestação de alegria que nem perceberam que a porta da barraca se abriu. Milligan surgiu.
Pronto; estou de volta! — limitou-se a dizer.
Mullon virou-se abruptamente.
Como se sente? — perguntou.
Nunca me senti tão bem — respondeu Milligan. — Este remédio é bárbaro. Gostaria de levar um pouco para os doentes de Greenwich.
Mullon sorriu.
Sabe o que tomou?
Milligan sacudiu a cabeça.
Pois bem, agora já lhe posso dizer. Foi suco de folhas mastigadas... pelos macacos.
Milligan arregalou os olhos e sacudiu o corpo.
Será mesmo?
Mullon lhe contou de que maneira fora preparado o estranho remédio...
Bem... — começou um pouco desapontado Milligan. — Mas não posso negar que o efeito foi formidável!
3



Durante a sessão noturna de “alquimia” uma única das folhas medicinais verde-azuladas escapara à atividade mastigatória dos mungos. Mullon usou-a para explicar aos animais que gostaria de ter mais daquelas folhas. Tentou explicar aos macacos que no lugar em que morava havia muita gente que contraíra a mesma doença de Milligan, e que gostaria de curar essa gente.
Os macacos compreenderam.
Dentro de uma hora, a quantidade de folhas amontoadas à frente de Mullon era tamanha que receava não poder transportá-las no helicóptero.

* * *

A pausa de vinte horas, esperada por Glannon, não se transformou em realidade. Depois de dez horas, Harper acordou-o e o obrigou a sorver alguns goles do cantil.
Glannon obedeceu e sentiu que, dali a pouco, o cansaço desapareceu e seu organismo recuperou as forças.
A água dos cantis continha pequena quantidade de um fortificante altamente concentrado.
Meia hora depois de terem tomado a droga maravilhosa, Harper e Glannon puseram-se a caminho. No início o desfiladeiro entrava em linha reta pela cordilheira. A subida era íngreme e as encostas elevadas não deixavam penetrar os raios do sol até o fundo, motivo por que os dois homens não ficaram expostos ao calor.
Pelo meio-dia, Harper e Glannon chegaram ao ponto mais elevado do desfiladeiro. Descansaram um pouco, tomaram mais alguns goles da água do cantil e prosseguiram em sua marcha. A descida era ainda mais íngreme que a subida na vertente oposta da montanha e dava para um pequeno planalto. Os dois homens atravessaram-no em marcha rápida. Do outro lado penetraram num corte, que parecia levar a outro desfiladeiro.
Harper não sabia que no dia anterior Mullon passara com seu helicóptero por esse desfiladeiro, que desembocava no vale em que Mullon havia erguido suas barracas.
Ainda não sabia, mas não demoraria a saber.

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