Autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
O
invisível já foi derrotado —
mas
há 10 mil anos e por Atlan...
Apesar
das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o trabalho
pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo,
realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto,
pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram
insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta
e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que
teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma
nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em outros
tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo
terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar.
Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os
mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são
utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de
substâncias minerais.
No
sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa
forma os terra-nos são os soberanos incontestes de um pequeno reino
planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse
reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa
frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer
atacante...
O
perigo que se apresenta para toda a Galáxia ainda não foi afastado.
Atlan, o almirante arcônida, conta o que viveu, quando da primeira
aparição desses seres fantásticos...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Atlan
— Grande herói arcônida. Perry vai necessitar de sua ajuda.
Perry
Rhodan
— Administrador do Império Solar.
Tarts
— Mestre de Atlan.
Capitão
Feltif
— Governador militar de Atlântida.
Grun
— Físico e matemático arcônida.
1
Àquele
homem de estatura mediana e aspecto simples que usava as platinas de
comandante da frota espacial chamava-se Hubert Gorlat. Parecia cortês
e gentil, mas essa circunstância não faria esquecer o distintivo do
serviço de segurança que usava na manga esquerda do uniforme.
— O
senhor está com uma ótima aparência — disse com um sorriso.
Tive
vontade de rir; fiquei refletindo sobre se estaria aludindo à minha
pessoa, ou ao uniforme muito bem talhado que estava usando.
Lancei um
olhar perscrutador pelo corpo abaixo, sacudi o pó que se prendera ao
tecido verde-pálido da perna da calça e olhei-o, franzindo a testa.
— O
senhor acha, comandante?
— Sem
dúvida — apressou-se meu interlocutor em responder. — Acho que
já estava na hora de fabricar-lhe uma roupa especial.
Senti-me
um tanto decepcionado. Então admirara meu uniforme! Esses terranos
sempre deram muito valor ao aspecto exterior de seus semelhantes. Não
havia motivo para que eu fizesse uma exceção.
Hubert
Gorlat pigarreou. O olhar que lançou sobre o relógio foi um sinal
mais que evidente. Fiz como se não tivesse percebido. Confessei a
mim mesmo que provavelmente não teria submetido sua paciência a uma
prova mais dura, se soubesse ser um pouco mais diplomático.
Sabia por
que motivo o haviam enviado. Gorlat era o oficial de segurança do
supercouraçado espacial Drusus, que há três dias pousara no grande
espaçoporto de Terrânia, ao que parece depois de uma viagem cheia
de aventuras.
Com a
Drusus também voltara à Terra o homem que estava ansioso para ver.
O fato de
que cerca de quatro meses atrás eu o vencera e o tivera em meu poder
bajulava minha vaidade.
Perry
Rhodan, o primeiro administrador de um minúsculo reino planetário,
que num acesso de megalomania fora por ele batizado com o nome
grandiloqüente de Império Solar, tivera de enfrentar-me na sala de
espadas do museu terrano de Vênus; na ocasião eu o derrubara com a
imitação fiel de uma grande espada germânica.
Tudo
acabara bem. No último instante reconheci que seria um absurdo ferir
gravemente esse terrano extraordinário, quanto mais matá-lo. Ainda
sobraria muita gente que poderia frustrar minha fuga, que de qualquer
maneira já se tornara ilusória.
O
comandante Gorlat pertencia à classe das pessoas frias e sempre
atentas, incapazes de desistir de um empreendimento, que desde o
início do século XXI traçavam os rumos da história terrana.
Embora se
mostrasse um tanto desajeitado no trato com as inteligências
não-terranas, Gorlat sabia agir acertadamente no momento adequado.
Para mim já não havia a menor dúvida de que esses terranos
audaciosos, que nunca recuavam diante de qualquer risco, estavam
prestes a conquistar, passo a passo, a Galáxia. Para isso se
valeriam de uma mistura genial de astúcia, coragem pessoal e
capacidade técnico-científica.
Eles o
faziam devagar, numa ação muito bem controlada. Vez por outra
lançavam uma enorme concentração de forças em alguma operação,
para desaparecer logo após sem deixar o menor vestígio.
A rigor,
podia-se dizer que travavam uma série de guerrilhas cósmicas. E
sempre faziam a questão de não magoar qualquer ser vivo que tivesse
disposições amistosas para com eles, e de tratar o inimigo de tal
forma que, ao proceder à avaliação lógica da situação, o mesmo
poderia ficar aborrecido, mas nunca se sentiria dominado por um ódio
mortal.
Foi o que
aconteceu comigo quando despertei de minha longa hibernação no
leito do oceano e subi à superfície da Terra.
Acreditara
que no ano de 1.971 tinha havido uma guerra atômica. Essa suposição
revelara-se inteiramente falsa.
Perry
Rhodan, que conhecera como simples major da Força Espacial dos
Estados Unidos, superara suas próprias limitações. Para mim foi
doloroso constatar que construíra o poderio da Terra com base nos
conhecimentos de minha raça venerável.
Se não
fosse a supertecnologia dos arcônidas, hoje, quando nos encontramos
no mês de outubro do ano de 2.040, Rhodan já teria sido esquecido.
Provavelmente o relato de suas façanhas apenas estaria guardado em
certos arquivos. Afinal, fora o comandante da primeira expedição
lunar tripulada.
Quando
compreendi que ele era a mola propulsora do desenvolvimento
vertiginoso da Astronáutica terrana, fiz o possível para voltar
quanto antes a Árcon.
Minha fuga
malogrou por duas vezes; e de ambas as vezes fora esse bárbaro alto
e de olhos cinzentos que fizera fracassar meus planos através de sua
atuação pessoal.
Depois de
minha prisão, realizada na capital do planeta colonial Vênus,
Rhodan desaparecera de uma hora para outra. O Tenente Gmuna, um
membro do Corpo Especial de Defesa Psicológica, que era meu
acompanhante e vigilante, deixara escapar algumas observações. De
acordo com estas, certas inteligências galácticas, que supunham que
Perry Rhodan estivesse morto, acabaram descobrindo que o mesmo ainda
se encontrava no mundo dos vivos.
Com isso,
o jogo de esconder por ele encenado se tornara inútil. No entanto,
não se poderia deixar de reconhecer que o mesmo lhe rendera bons
dividendos.
Durante 56
anos esse bárbaro arrojado soubera incutir em todos os seres
pensantes que habitavam os mundos estranhos a idéia de que a Terra
havia sido destruída num ataque de grande envergadura, vindo das
profundezas do espaço, e de que ele, Rhodan, fora morto nessa
oportunidade.
Utilizara
a pausa assim conquistada para realizar um trabalho febril de
construção. Ele e os humanos das novas gerações haviam criado
coisas verdadeiramente inconcebíveis. Não tive outra alternativa
senão confessar que os terranos nada ficavam a dever ao meu povo.
Certamente até dispunham de mais energia e resolução, qualidades
cuja falta algumas vezes senti durante minha atividade como almirante
e chefe de uma esquadrilha da força espacial.
E Rhodan,
esse personagem legendário e cercado de mistério, voltara a surgir
na Terra. Imaginava perfeitamente o que devia ter feito nestes
últimos quatro meses. Eu havia sido preso em fins de junho de 2.040,
em Port Vênus.
No momento
em que, poucos minutos atrás, o comandante Gorlat entrou no
apartamento luxuoso, dei-me conta de que a decisão final sobre meu
destino se aproximava.
Rhodan não
pertencia à classe das pessoas que costumam adiar indefinidamente os
problemas desagradáveis. Talvez se dirigiria a mim no seu tom
ofensivo e ligeiramente irônico, para formular algumas perguntas, às
quais só poderia responder com um sim ou um não.
Apesar de
tudo, acreditava ter uma boa chance. Se realmente havia sido
descoberto, já não teria qualquer motivo para proibir meu regresso
ao sistema de Árcon.
Fechei os
olhos ao recordar os três planetas. Saíra de lá há dez mil anos,
segundo a contagem terrana do tempo. Pretendera passar apenas algumas
semanas no distante sistema solar, mas tudo acabou saindo muito
diferente do que eu esperava.
Tornara-me
imortal. Um golpe do destino que não conseguia compreender
traçara-me a trilha a seguir e me obrigara a errar pelos séculos
afora.
O
comandante H. Gorlat voltou a pigarrear. Despertei das minhas
meditações. Desta vez estava disposto a dar a devida atenção ao
olhar que lançava sobre o relógio.
— O
senhor não tem muito tempo, não é verdade? — principiei.
Gorlat
suspirou aliviado. Abandonou sua postura rígida.
— Sim
senhor; é isso mesmo. Permita que lhe peça...
Tive que
adivinhar o que pretendia pedir. E nem haveria necessidade de dizer o
que era. Era claro que Rhodan queria falar pessoalmente comigo.
Levantei-me
da confortável poltrona e caminhei tranqüilamente em direção às
amplas janelas de minha sala. O apartamento ficava no 108o
andar de um edifício recém-construído, em que foram instalados os
serviços de um ministério criado também há pouco tempo.
O homem
que chefiava esse setor dos serviços governamentais era conhecido
como o Ministro de Colonização Extra-solar. Para os funcionários
era o MCE.
Haviam
colocado à minha disposição um amplo apartamento, de cuja sacada
tinha uma visão admirável sobre o espaço-porto, a pequena
distância, e dos arrabaldes de Terrânia, uma metrópole de 14
milhões de habitantes, em contínua expansão.
Do lago
salgado de Goshun, que ficava nas proximidades, não se via mais
nada. Os palácios de concreto, verdadeiros arrojos da arquitetura,
fechavam a visão.
O pequeno
lago já não assumia a menor importância, ainda mais que sua água
muito salgada nunca contribuíra para a florescência que se
verificara no antigo deserto de Gobi.
Já fazia
trinta anos que a tecnologia terrana conseguia controlar as condições
meteorológicas em suas linhas gerais. Face às chuvas programadas, o
deserto se transformara numa paisagem verdejante. Não era pouca
coisa que o antigo astronauta e piloto de experiências Perry Rhodan
conseguira extrair daquele solo. De qualquer maneira, bastava para
criar uma espécie de psicose de angústia em pessoas do meu tipo. O
que seria do Grande Império que vivia sob a hegemonia de Árcon, se
continuasse cego e passivo diante das atividades dos terranos?
Esta
indagação me fez recordar meu verdadeiro objetivo. Estava farto da
hospitalidade dos humanos. A prisão a que ficara submetido nos
últimos meses apenas reforçara meu desejo ardente de voltar para
casa o quanto antes.
Virei-me e
encostei-me ao peitoril da janela. Gorlat parecia cada vez mais
nervoso. Examinei-o atentamente.
Ele
recebera instruções para manter uma atitude cortês e discreta. Se
eu estivesse em seu lugar, já teria dito algumas palavras francas.
No entanto, esperava que eu, o prisioneiro, houvesse por bem atender
à sua solicitação. Era um bom sinal para mim. Ao que parecia, já
se mostravam mais dispostos a dialogar.
— Comandante,
o senhor sabe que formulei um requerimento escrito dirigido ao chefe
da Defesa Psicológica? E também sabe que nesse requerimento pedi
minha alta?
Gorlat
estava informado. Fez uma mesura formal.
— Logo
depois de nosso pouso na Terra o General Kosnow entrou em contato com
o administrador. É justamente por isso que solicitam sua presença a
bordo da Drusus o mais cedo possível.
O tom de
sua voz tornara-se um pouco mais enérgico. Além disso, usara o
verbo solicitar, e não pedir. Estava na hora de sair.
Coloquei o
cinto bordado de ouro com as pistolas oficiais. Enfiei no coldre uma
imitação fiel de uma arma de impulsos. Ainda não haviam concordado
em dar-me uma arma verdadeira.
Aliás,
era só graças ao meu amigo e protetor, o Tenente Gmuna, um homem de
pele escura, que usava o uniforme do Império Solar. Ele reclamara
tanto sobre minhas roupas de paisano, que acabei concordando. Apenas,
exigi que me fosse permitido usar sobre o peito do uniforme, muito
vistoso e elegante, o símbolo de Árcon.
Meu desejo
foi cumprido: o símbolo dos três planetas foi bordado sobre o
uniforme. Mas sobre os ombros trazia platinas terranas. Ainda me
lembrava do sorriso insolente de Gmuna, quando prendeu às minhas
ombreiras os distintivos com os dois cometas prateados. Provavelmente
ele mesmo achara bastante esquisito que um comandante de flotilha dos
arcônidas fosse distinguido com as platinas de um general terrano.
Dali em
diante, Gmuna passou a fazer continência em poses exageradas, em
todas as oportunidades próprias e impróprias, até que um dia o
joguei para dentro de uma banheira cheia de água, sem dizer uma
única palavra.
Enfiei o
boné de talhe arrojado sobre a cabeça e passei por Gorlat,
dirigindo-me à porta. Este logo ficou em posição de sentido.
Os robôs
sentinelas postados do lado de fora levantaram as armas móveis neles
embutidas e também ficaram em posição de sentido. Quer dizer que a
via
crucis
iria começar de novo. Ao que parecia, divertiam-se exibindo suas
boas maneiras toda vez que eu aparecia.
Gmuna
estava esperando junto ao elevador antigravitacional. Seu rosto
estreito parecia arrogante. Além disso, estava reclinado à parede
numa posição tão relaxada, que tive de esforçar-me para não
soltar uma gargalhada. Desde o dia em que o jovem africano quase
morrera afogado na minha banheira, fazia questão de exibir um
comportamento extremamente negligente.
— Ei! —
disse a título de cumprimento. — Então já chegou, paizinho?
Parei à
sua frente e baixei os olhos sobre o rosto sorridente. Depois que eu
o chamara algumas vezes de meu filho, ele passara a chamar-me de
paizinho.
Por mais
que me esforçasse, não pude deixar de achar os terranos cada vez
mais simpáticos. Eram tão francos e autênticos! Faziam aquilo que
os membros de minha raça nunca conseguiram fazer: agiam de forma tal
que qualquer um sabia o que teria de esperar deles.
Às vezes
suas maneiras descontraídas quase chegavam a ser insultuosas, mas
quem os conhecesse mais de perto concluiria que um homem como o
Tenente Gmuna é dotado de um humor revitalizante.
— Um dia
destes eu o atirarei no lago salgado, meu filho — prometi em tom
solene.
— Está
bem, paizinho — disse, esticando as palavras. — Mas antes
mandarei enxugar essa poça d’água com um canhão energético.
O
comandante Gorlat pigarreou levemente. Parecia sentir-se
constrangido.
— O
chefe está esperando! — anunciou, embora todo mundo já soubesse.
Deixei-me
cair para dentro do campo antigravitacional. Um helicóptero da frota
terrana já nos esperava no heliporto da cobertura do edifício.
2
Voamos
cerca de vinte quilômetros, antes de chegarmos ao lugar em que
estava pousada a Drusus.
Assim que
o helicóptero decolou, vi a curvatura superior da esfera que formava
o supercouraçado. Mas minha suposição de chegar em poucos segundos
ao local revelou-se falsa. A ilusão ótica foi tamanha que logo
desisti de calcular o tempo.
Aquela
esfera azulada e reluzente tornara-se cada vez mais gigantesca, até
que nos sobrepujasse, muito embora estivéssemos voando a uma
altitude de quinhentos metros.
Quando nos
encontrávamos a apenas algumas centenas de metros do lugar, já não
pude abranger com a vista toda a curvatura da Drusus. Depois que o
helicóptero pousou, entramos num carro e percorremos mais algumas
centenas de metros embaixo do corpo da nave apoiada sobre colunas
telescópicas tremendamente grossas até chegarmos à comporta
situada na região polar.
Lutei para
manter a compostura, mas ao que parecia, não consegui de todo.
Evidentemente o comandante Gorlat sabia que no tempo em que me
encontrava no serviço ativo da frota de Árcon estes gigantes
espaciais ainda não existiam. Aproveitou a oportunidade para
infligir-me uma pequena derrota moral.
— É a
nave capitania da frota terrana — disse como que por acaso. — A
Drusus tem mil e quinhentos metros de diâmetro. Entrou em serviço
há poucos meses. Quando começa a disparar, mundos inteiros são
destruídos.
Escotilhas
redondas de aço arcônida, de um metro de espessura, abriram-se.
Seguiu-se uma comporta de ar, e depois dela mais duas escotilhas
duplas. No interior da câmara de pressão vi os fios condutores dos
grandes projetores de campo energético. Ao que parecia, poderiam,
num caso de perigo extremo, isolar a sala de comando.
As
realizações que os terranos conseguiram levar a efeito a partir do
ano de 1.971 eram inacreditáveis. Naquele ano, Rhodan viajara à Lua
num miserável mini-foguete; e agora mandava construir super-naves
que não tinham igual nos setores conhecidos da Galáxia.
As maiores
unidades com que contávamos eram as naves da classe Império, cujo
diâmetro não excedia os oitocentos metros. Evidentemente Rhodan
valera-se de um estratagema psicológico de primeiríssima ordem ao
convocar-me justamente para bordo da Drusus. Poderia perfeitamente
ter solicitado meu comparecimento ao palácio que servia de sede ao
governo.
Cheguei a
desconfiar fortemente de que me levaram de propósito em ziguezague
através da gigantesca nave, a fim de transmitir uma impressão de
seu tamanho.
A sala de
comando era um gigantesco pavimento de teto abaulado, telas de imagem
da altura de uma casa e uma profusão apavorante de instrumentos. Já
estava familiarizado com a maior parte destes. Foram copiados
diretamente de nós, ou seja, dos arcônidas.
Mas alguns
dos instrumentos me eram completamente estranhos. Provavelmente
tratava-se de novas criações.
Rhodan
mandara perfilar a oficialidade da Drusus na sala de comando. Tive
uma recepção digna do Imperador de Árcon.
Rhodan
encontrava-se no fim da longa fileira de homens que faziam
continência sem dizer uma palavra. Eram audazes os rostos desses
terranos notáveis e carregados de uma energia inacreditável, cujos
antepassados ainda chegara a conhecer no estado de selvagens da Idade
da Pedra.
“Cuidado;
é um truque psicológico”,
advertiu meu cérebro extra. “Querem
corroer seu moral.”
Não tive
a menor necessidade de prestar atenção à advertência do meu setor
de lógica, pois já estava moralmente arrasado. Um oficial
experimentado da força espacial que se vê diante de um
supercouraçado como este não pode deixar de experimentar um
sentimento de inferioridade.
Enquanto
caminhava diante daqueles homens totalmente desconhecidos, toquei meu
boné uma única vez, a título de cumprimento. Senti-me humilhado
por essa demonstração de poderio e disciplina. Uma pessoa de meu
tipo costuma ser extremamente sensível a esse tipo de espetáculo, e
era claro que Rhodan não ignorava este fato.
Naquele
instante meu único apoio de ordem psicológica consistia no fato de
trazer o distintivo da frota arcônida no uniforme terrano que estava
envergando.
Os
pioneiros de meu venerável povo já haviam carregado esse distintivo
para as profundezas da Galáxia numa época em que os antepassados de
Rhodan ainda lançavam olhares estúpidos para nossos cruzadores
ligeiros de reconhecimento. Eu mesmo usara esse distintivo quando
pela primeira vez pousara na Terra, então ainda um planeta selvagem,
onde seres imundos, de pele vermelha, se arrastavam na poeira à
minha frente.
Essas
idéias só permaneceram em meu cérebro por alguns segundos. Quando
me vi diante do chefe do sistema solar e fitei-lhe os olhos cinzentos
recuperei o autocontrole. Meu sorriso exprimia uma ironia genuína.
Já não precisava representar para dissimular o susto que ameaçava
dominar-me.
Perry
Rhodan não usava boné de serviço. Por isso tirei meu boné e o
atirei para o capitão do serviço de defesa que me seguia. Rhodan
tinha meu tamanho, mas devia pesar uns dez quilos menos que eu. No
entanto, já tivera oportunidade de experimentar a rapidez, a
agilidade e a resistência daquele homem.
Mas o
principal era sua inteligência perspicaz. Percebera que seu
estratagema psicológico tivera um sucesso apenas parcial. Pôs-se a
rir baixinho. Seus oficiais enfileirados pareciam bonecos de pau.
— Bom
dia, arcônida — disse com sua voz forte e profunda. — Acho que
este é nosso primeiro encontro oficial, não é?
Franziu a
testa e lançou-me um olhar irônico. Mais uma vez tive de lutar com
o orgulho desarrazoado que era uma das características de minha
raça. Só a custo consegui controlar-me.
— Olá,
bárbaro — respondi em tom condescendente. — É mesmo o primeiro
encontro... Da última vez que nos encontramos você estava deitado à
minha frente, com a ponta da minha espada encostada à sua garganta.
Tive pena de você.
Um homem
de ombros largos e cabelos ruivos cortados à escovinha respirou
profundamente. Estava ao lado de Rhodan e exibia os distintivos de
general. Ao que parecia, refletia sobre o que deveria dizer.
Lancei
para ele um olhar petulante e Rhodan disse em tom alegre:
— Este é
Reginald Bell, Ministro da Segurança do Império Solar e Chefe da
Patrulha Espacial Terrana.
— Ah, é?
— respondi. — É um prazer. Acho que li alguma coisa a seu
respeito na “Enciclopédia
Terrana”,
mas não sei mais nada... Queira desculpar.
O homem
ruivo soltou um estranho chiado. Afastou-se de punhos cerrados e sem
dizer uma única palavra. Aquilo me divertia. Esse Reginald Bell
acompanhara Rhodan, quando Perry partira pela primeira vez para
conquistar o espaço.
Rhodan
apresentou seus oficiais um por um. Alguns deles me fitavam com olhos
curiosos, outros pareciam desconfiados, e um terceiro grupo dava
mostras de um certo respeito.
A parte
fotográfica de minha memória logo registrou os nomes. Aqueles
homens ficariam admirados mais tarde, quando me dirigisse a eles sem
a menor dificuldade.
Assim que
a pequena cerimônia chegou ao fim, o serviço normal de bordo foi
reiniciado. Um certo Primeiro-Tenente Sikermann gritou algumas ordens
numa voz extremamente potente. Os homens, geralmente ainda jovens,
afastaram-se. Vi-me a sós com Rhodan.
Por alguns
segundos fitamo-nos em silêncio. Éramos como fogo e água. No
entanto, entre nós haviam surgido ligações que já não poderiam
ser ignoradas.
Rhodan
apontou algumas confortáveis poltronas que ficavam junto a um
autômato de bebidas. Com um nervosismo cada vez maior, constatei que
a Drusus estava sendo preparada para a decolagem. Em algum lugar
ouviu-se um ribombar surdo. Máquinas entraram em funcionamento.
Tomamos lugar nas poltronas.
Pensei que
Rhodan fosse dizer alguma coisa sobre aqueles ruídos inconfundíveis.
Mas aquele homem difícil de compreender costumava desferir
incessantemente seus golpes.
— Da
próxima vez em que deixar sua abóbada pressurizada situada nas
proximidades dos Açores, faça o favor de não se esquecer de
desligar o equipamento automático de defesa. Seus robôs quase
destruíram um submarino mercante.
Fitou-me
com um sorriso franco no rosto. Senti as batidas de meu coração.
— Está
bem; vamos falar com franqueza — prosseguiu em tom mais sério. —
Já sabemos por onde andou. Provavelmente dormiu durante alguns
séculos naquela cúpula de aço. Uma vez que celebramos um acordo em
Vênus, tomei todas as providências para que ninguém tocasse em seu
abrigo.
Levei
algum tempo para compreender que mais uma vez devia sentir-me grato a
Rhodan.
— Obrigado!
— disse com certo esforço.
— Não
há de quê — respondeu. — Acredito que você deve guardar muitas
lembranças lá embaixo. Não estou interessado no equipamento
técnico, pois o mesmo não pode ser melhor que o que possuímos
hoje. Há dez mil anos, quando você veio à Terra, Árcon não
estava mais avançado cientificamente do que hoje, é claro.
Cerrei
fortemente os olhos. Acabara de privar-me do último elemento que me
poderia proporcionar certo apoio psicológico. Era isso mesmo:
passara muitos séculos nossa abóbada, mergulhado num profundo sono
biomédico.
— Não
quero ofendê-lo — prosseguiu. Seu rosto estreito parecia
contrariado, mas franco. — Está na hora de apresentarmos nossos
trunfos. Estou preocupado com certas coisas, almirante.
Estas
palavras lacônicas bastaram para descontrair minha mente. Seria
inútil mentir para Rhodan. Já sabia de tudo. Naquele instante tive
a impressão de ser atingido por uma onda tépida. A impulsividade
que era uma das características de minha raça levou a melhor.
— Está
preocupado? — repeti. Rhodan lançou-me um olhar atento.
Finalmente
fez um gesto afirmativo.
— Isso
mesmo. Meu jogo de esconder chegou ao fim. Um superpesado me
reconheceu e informou o computador-regente de Árcon, em cuja
existência você não quer acreditar. Bem, isso não importa. O que
importa é que, em todas as áreas povoadas da Via Láctea, forças
desconhecidas e pavorosas estão agindo. E essas forças dirigem-se a
todos, inclusive contra seu povo. Devemos parar de humilhar-nos
reciprocamente.
Senti-me
perplexo. Senti que Rhodan estava dizendo a verdade. O setor de
lógica de meu cérebro não entrou em funcionamento.
Antes que
tivesse tempo de dizer qualquer coisa, Rhodan inclinou-se para a
frente e colocou a mão direita sobre meu joelho.
— Preste
atenção, arcônida! Você formulou um requerimento escrito. Depois
de ter passado alguns milênios na Terra, está ansioso para voltar
para casa. Você estava isolado, pois não dispunha de nenhuma nave
espacial capaz de desenvolver velocidade superior à da luz. Esperou
por um tempo imenso até que chegasse a hora em que os homens
dominassem a navegação espacial. Essa hora já chegou. Sei
perfeitamente que você nunca nos prejudicou. Ou melhor, até nos
auxiliou.
Respondi
com um gesto automático. Fora isso mesmo. Fiz o possível para
introduzir meu supersaber arcônida aos poucos nos cérebros humanos.
Não agira por altruísmo. Apenas pretendia ir para casa.
— Você
ainda não acredita que sua raça degenerou física e psiquicamente?
— perguntou Rhodan.
Estremeci.
Ali estava novamente aquela idéia odienta, que eu não conseguia
aceitar como verdade.
— Não é
possível! — asseverei. — Ceda-me uma Gazela, que irei a Árcon
para verificar o que está acontecendo. Voltarei em seguida. Dou-lhe
minha palavra.
Senti meus
olhos arderem. Senti que a decisão estava para ser tomada.
— Acredito
em você — disse. — Acontece que não pode partir.
— Por
que não? — disse em tom exaltado. — Você foi reconhecido. Não
há mais ninguém que acredite em sua morte.
— Não
se trata disso. Acontece que o Grande Império vem sendo governado
por um gigantesco autômato. E as decisões da máquina são
implacáveis. Anda à procura de arcônidas que ainda sejam capazes
de desenvolver certa atividade, que são obrigados a realizar
expedições punitivas sob seu controle. O regente não o deixaria
partir. E não quero perdê-lo. Procure compreender! Seu mundo passou
a ser a Terra.
Mantive-me
num silêncio obstinado, até que meu cérebro extra transmitiu, para
minha enorme surpresa, a seguinte mensagem:
“Acredite
nele! Está dizendo a verdade. Afinal, faz dez mil anos terranos que
você não pisa em Árcon.”
Relutei em
aceitar o impulso psíquico vindo do setor de lógica de meu cérebro.
Mas bem no íntimo imaginava que Rhodan nunca falara com tamanha
franqueza como naqueles minutos.
— Faço-lhe
uma proposta, almirante. Provarei com numerosas mensagens
radiofônicas originais do regente, filmes autênticos, gravações
em fita e outros elementos que o Império Arcônida que você conhece
deixou de existir. Os indivíduos de sua raça estão “dormindo”.
Só se preocupam com as belas artes, as sutilezas filosóficas e as
invejinhas ridículas.
“O
Imperador não passa de uma figura decorativa. Não teve sequer poder
suficiente para que eu e os homens que me acompanhavam entrassem no
sistema, muito embora nossas intenções fossem as melhores
possíveis. Isso aconteceu há cerca de sessenta anos. E, hoje em
dia, o poder do computador-regente se acha consolidado a tal ponto
que nenhum indivíduo conseguirá vencê-lo. Seus couraçados, parte
dos quais opera automaticamente, parte por meio de povos subjugados,
chegaram literalmente a exterminar a população de muitos planetas
coloniais rebelados. O Grande Império desmoronará se aquela máquina
continuar a exercer o poder. Ainda acontece que no momento o regente
se encontra numa situação ainda mais difícil que a nossa. Celebrei
um acordo com o computador. O regente concedeu-me poderes ilimitados
sobre a frota arcônida. Estou autorizado a solicitar grandes
unidades e utilizá-las segundo meu juízo. Pense bem, Atlan!”
Senti-me
apavorado. O rosto de Rhodan estava muito vermelho. Nunca vira aquele
calculista frio e ironizador espirituoso de tal forma. Já descobrira
o ódio, o desprezo, o temor e a raiva incontida em seus olhos
brilhantes, mas nunca o desespero. Senti-me perplexo.
Um rugido
tremendo fez estremecer a gigantesca nave. Ergui-me lentamente,
Rhodan reclinou-se, como quem quer descontrair-se.
— São
os dezoito propulsores instalados na protuberância da zona
equatorial da nave — explicou. — Decolaremos dentro de dez
minutos. Você poderá ir conosco.
A saudade
pelas amplidões do espaço ameaçou dominar-me. Mal conseguia
recordar a sensação que se experimenta ao estar sentado atrás dos
controles de uma grande nave.
— E meus
escassos pertences? — perguntei cautelosamente.
— Já
estão a bordo. Gmuna me pediu que lhe transmitisse suas
recomendações. Você enfeitiçou aquele rapaz?
Percebi
que trazia um sorriso tranqüilo e descontraído no rosto. Rhodan
compreendeu. A rigidez de seu rosto cessou. Lançou um olhar
pensativo para suas mãos longas. Começou a falar sem levantar a
cabeça.
— Um dia
eu o mandarei ao sistema de Árcon, Atlan. Por enquanto isso seria
muito perigoso para um imortal.
Fechou um
dos olhos e lançou um olhar insistente sobre o ponto em que o
uniforme cobria o ativador de vibrações celulares que trazia
pendurado ao peito.
— Deixe
de caçoadas — disse em tom contrariado.
Rhodan riu
baixinho.
— Nós
já nos conhecemos, não é? Pois permita que lhe diga que, face à
sua programação, o computador de Árcon já está começando a
violar o tratado que celebrou comigo. Você é engenheiro energético,
não é?
— É
minha segunda especialidade — confirmei discretamente.
Qual seria
a finalidade da pergunta? Não demorei em saber.
— Pois
bem; nesse caso você sabe como essa máquina terá de reagir.
Instalamos uma seção de psicologia de robôs. E essa seção chegou
à conclusão de que o regente age segundo uma programação
antiquada. É incapaz de compreender a nova situação, mas golpeia
com uma violência tremenda. Se condescende em entrar em acordo
comigo, que sou considerado um terrano perigoso, é porque se vê
numa situação difícil; provavelmente tão difícil quanto a nossa.
Você terá oportunidade de assistir a filmes e falar com certas
inteligências que confirmarão minhas informações. Vamos aguardar.
Levantou-se
devagar e espreguiçou o corpo. Examinei-o atentamente.
— Por
que me falou em suas preocupações, bárbaro?
Um sorriso
franco surgiu em seu rosto. Era este o Rhodan que eu conhecia.
— Garanto-lhe
que não é porque queira desistir. Tenho bons dentes, arcônida, e
estou acostumado a morder fortemente. Acontece que não gosto de ter
um inimigo pelas costas. Você já me deu bastante trabalho com suas
tentativas idiotas de fuga, que quase chegaram a ser bem sucedidas.
Sacudiu a
cabeça e ignorou meu sorriso irônico. Será que acreditava
realmente que eu me daria por satisfeito com uma explicação desse
tipo? Provavelmente não conseguia esquecer nossas experiências
vividas em comum.
Quanto a
mim, não sabia exatamente por que sentia certa inclinação para com
este terrano. Tentamos seriamente matar um ao outro, mas agora
parecia que dependíamos um do outro.
Gritou
algumas ordens através da sala de comando. O rugido das máquinas
aumentou. Além disso, surgiu um zumbido grave, que me fez concluir
que os conversores termais do supercouraçado haviam sido ligados.
Enquanto
ainda refletia sobre o tipo de armamento da nave, esta decolou.
Preferi não me espantar com isso. Por certo Rhodan sabia o que
estava fazendo.
Olhei para
a galeria das telas. Só se via a incandescência branca das massas
de ar altamente comprimido. Dali a alguns segundos, apareceu o
negrume do espaço Contemplei extasiado as estrelas que apareciam no
campo de visão. A Drusus desenvolvia uma aceleração inacreditável.
A lua
terrana encontrava-se numa posição favorável. Mas pude contemplar
a foice luminosa apenas por alguns segundos.
Seis
minutos depois, ouvi algumas informações vindas da sala de
máquinas. A nave estava penetrando numa faixa de velocidade
relativista, do que resultava uma diminuição da velocidade com o
mesmo dispêndio de energia.
Vi Rhodan
comprimir a chave vermelha da injeção de matéria energética. O
ribombar dos propulsores tornou-se ainda mais intenso. Dentro de dez
minutos aproximamo-nos da velocidade da luz.
Não
parava de me admirar. Será que essa nave realmente fora construída
num estaleiro terrano?
Rhodan
voltou. Bocejou e acomodou-se em sua poltrona.
— Fácil,
não é? — disse com uma risada. — Se me lembro de nossa primeira
viagem à Lua! A aceleração de 12 G por pouco não nos esmaga. E
agora estamos acelerando a quinhentos quilômetros por segundo ao
quadrado, e isso ainda quando nos aproximamos da velocidade da luz.
Assumiremos uma posição de espera a cerca de vinte horas-luz da
órbita de Plutão. Ali pararemos. Espero que dentro em breve
recebamos notícias dos agentes que enviei para o espaço. Quando
isso acontecer, quero estar preparado para a luta. Olhou para o
relógio.
— Muito
bem. Vamos comer alguma coisa. Depois mostrar-lhe-ei as provas. Você
se admirará com o que está acontecendo nos mundos de Árcon.
Tenente Sikermann!
O imediato
da Drusus aproximou-se.
— Faça
o favor de preparar a transição a pequena distância.
O
cosmonauta de cabelos escuros fez continência. Afastou-se sem dizer
uma palavra. Examinei-o atentamente.
— Você
pode confiar em sua gente, bárbaro — disse, esticando as palavras.
— Será que também pode confiar em mim?
Rhodan
comprimiu lentamente um dos botões do autômato de bebidas e esperou
que o líquido borbulhante surgisse na abertura. Só depois olhou
para mim.
— Você
é muito velho, Atlan. Chegou a conhecer Wallenstein?
Estremeci.
As recordações surgiram no mesmo instante.
— Quer
dizer que conheceu. Muito bem, arcônida; eu também conheço minha
gente.
Enquanto a
gigantesca nave ultramoderna atravessava o sistema solar com
velocidade próxima à da luz, lembrei-me de outro personagem
histórico: o general que usava o nome de Godofredo Henrique, Conde
de Pappenheim.
Estive
presente quando em 1.631 conquistou a cidade de Magdeburgo, sob o
comando do marechal imperial Tilly.
Conhecia
os homens de Pappenheim, e Rhodan também parecia saber quem eram
eles. Sempre se podia confiar nos subordinados daquele oficial de
cavalaria, fossem quais fossem os problemas com que se defrontavam.
Rhodan
ofereceu-me uma bebida quente.
— É um
caldo quente, mas é muito gostoso — disse. — Será que pode
contar-nos alguma coisa de seu passado agitado? Enquanto esperarmos,
haverá tempo de sobra para isso. E a tripulação desta nave de
guerra está ansiosa para ter um contato mais estreito com você. Os
boatos mais absurdos andam correndo por aí.
Suspirei,
estiquei as pernas e descansei a cabeça no encosto macio.
Os
terranos eram assim! Quem não fosse morto por eles, poderia tê-los
no futuro como excelentes amigos.
Dali a dez
minutos, foi realizada a transição. Senti o choque ligeiro da
rematerialização total e o silêncio incrível do hiperespaço.
Poucos
segundos depois, fui tomado pela dor provocada pelo mergulho. Quando
consegui enxergar de novo, o sol chamejante havia desaparecido das
telas. Procurei localizá-lo, mas quando consegui vi que o mesmo se
havia transformado numa estrelinha entre inúmeras outras.
Gemi
baixinho e esfreguei a cabeça dolorida com ambas as mãos. Rhodan
fitou-me atentamente. Fazia de conta que nada tinha acontecido.
— Você
terá de voltar a acostumar-se com isso, meu caro. Quantas vezes acha
que saltamos nestes últimos meses? Está bem; tome seu caldo.
3
Tive tempo
e tranqüilidade para recuperar-me do profundo choque moral que
acabara de sofrer.
Durante a
apresentação de provas, que durou sete horas, usei todos os meus
conhecimentos e minha psicologia para descobrir qualquer inexatidão
nos filmes sonoros e nas mensagens radiofônicas que me foram
apresentadas.
Não
consegui. Aquilo que Perry Rhodan me mostrara, primeiro de forma
discreta, e depois de algum tempo com uma franqueza brutal,
representara um choque tremendo para mim.
Vi qual
era o comportamento dos arcônidas nascidos muito tempo depois de
mim. Já não eram as figuras altas e robustas que meu tempo
conhecera.
Os
descendentes posteriores de meu venerável povo eram antes dignos de
compaixão que de admiração. Já não possuíam nenhuma das
qualidades que costumávamos considerar um atributo normal deles.
Os jogos
fictícios, que pelo seu absurdo demonstravam uma decadência total e
uma incapacidade absoluta de enfrentar a vida, as pequeninas intrigas
tramadas entre as famílias que já não dispunham de nenhum poder, o
comportamento pouco másculo dos mais altos dignitários, oficiais e
cientistas não permitiam qualquer dúvida sobre a veracidade das
afirmativas de Rhodan.
Estava com
a razão: não era este o Império Arcônida em que esperara
integrar-me. Os homens do meu tipo já haviam deixado de existir no
sistema de três planetas.
Agora
compreendia por que, quando da ocasião de nosso primeiro encontro,
Rhodan dissera em tom de compaixão que seria capaz de derrotar com
uma de suas mãos cem sujeitos do meu tipo.
Depois de
ter controlado várias vezes as fotografias, não me espantei com
essas palavras um tanto grosseiras.
Sentia-me
muito triste e deprimido. Mas o que me sacudia por dentro não era
apenas a saudade daquilo que pertencia irremediavelmente ao passado e
nunca mais voltaria.
Um perigo
tremendo se aproximava! Experimentara o som e a imagem do chamado
computador gigante, que gostava de ser chamado de Grande Regente.
Não havia
dúvida de que cerca de quatro mil anos depois de minha partida de
Árcon foram notados os primeiros sinais da degenerescência que se
iniciava.
Os
técnicos e cientistas mais competentes de meu povo construíram uma
gigantesca máquina e lhe deram a incumbência de, no momento em que
o governo falhasse, assumir o poder no Império Estelar dos
Arcônidas.
E foi o
que aconteceu. Mas os fatos não se desenrolaram pela forma que os
grandes homens do Império desejariam.
Ao que
tudo indicava, o computador-regente dava uma interpretação
totalmente errônea a certos itens de sua programação. Ainda
acontecia que as situações existentes há seis mil anos já estavam
superadas, mas o computador continuava a agir como se as mesmas ainda
prevalecessem.
Minha
indignação não se dirigiu contra a máquina relativamente
inocente, que por certo teria de agir dentro dos limites de sua
programação.
Meu
desprezo total voltou-se aos nossos descendentes, que permitiram que
o Império se corrompesse e na sua ânsia incontida pelo prazer
esqueciam os problemas mais importantes...
Sem dúvida
o computador-regente era dotado de uma série de programações
especiais, que colocariam em funcionamento seu setor de segurança
assim que surgissem indícios de alguma modificação no estado de
decadência. Tudo dependia de uma ação vigorosa!
Sem dúvida
Perry Rhodan encontrava-se no caminho certo. Apenas, não conseguia
compreender por que considerara minhas tentativas de fuga não apenas
uma tolice, mas um procedimento extremamente perigoso.
Depois da
apresentação à oficialidade, Rhodan me acompanhara em pessoa ao
grande camarote, no qual ainda me encontrava. As enormes máquinas da
Drusus já haviam sido desligadas. Estávamos praticamente
imobilizados no espaço interestelar.
Não sabia
o que Rhodan esperava. Mas não tinha dúvida de que a espera se
relacionava com a situação de emergência, a respeito da qual não
me fornecera maiores detalhes.
Olhei para
o relógio. Passara quatro horas imerso em reflexões. Já era tempo
de voltar a encontrar-me a mim mesmo. No momento em que comprimi o
botão do videofone, já não tinha a menor dúvida de que passara a
pertencer à raça dos terranos. Se quisesse fazer alguma coisa pelo
meu povo, teria de juntar-me incondicionalmente a Rhodan e aos
humanos. Só com o auxílio deles seria possível eliminar o tumor
chamado computador-regente e pôr ordem no Império.
A grande
tela de meu camarote exibiu o rosto largo do imediato.
— O
senhor chamou? — perguntou. Aproximei-me da objetiva.
— Mr.
Sikermann, será que poderia fazer o favor de verificar se é
possível falar com Perry Rhodan?
O imediato
franziu a testa. Ao que parecia, estava admirado por eu ter lembrado
seu nome.
— Ele já
o espera. Quer informá-lo sobre certas coisas.
Senti que
meus olhos se umedeciam. Era um sinal de nervosismo.
— Prefiro
não ouvir mais nada — respondi em tom de desânimo. — O que
fiquei sabendo basta.
— Não
se trata de Árcon, mas dos acontecimentos verificados nos últimos
meses. Supomos que o senhor esteja interessado em conhecê-los.
A sensação
de letargia que ia tomando conta de mim cessou. Essas palavras eram
mais animadoras.
— Onde
poderei encontrar seu chefe?
— Mandarei
alguém aí para buscá-lo.
A tela
apagou-se. Alguns minutos depois surgiu um tenente jovem de cabelos
escuros.
— Mr.
David Stern? — indaguei, dirigindo-me a ele. O tenente ficou
perplexo. Seu rosto avermelhou-se de tão embaraçado que se sentiu.
Senti-me muito satisfeito com a memória fotográfica.
— Sim...
sim senhor. Recebi ordem para levá-lo...
— Já
sei. Fico-lhe muito grato — disse, interrompendo-o. — Vamos
andando? Não é nada difícil a gente perder-se neste labirinto de
corredores, salas e andares.
— Quando
entrei nesta nave pela primeira vez, quase morri de fome — disse
David em tom cordato. — Foi uma coisa horrível. Fizeram-nos correr
até que, totalmente exaustos, descobríssemos o corredor principal.
Lá em cima alguém me observou Juntamente com mais três tenentes
pelo aparelho de videofone. Toda a tripulação divertiu-se à nossa
custa.
Sorri. Era
uma atitude típica de um terrano. O pessoal cosmonáutico da Terra
passava por um aprendizado muito duro, para dar provas de seu valor.
Stern
levou apenas cinco minutos para levar-me à sala de informações,
situada logo atrás da sala de comando. Ele estava equipado com os
mais diversos equipamentos destinados à orientação geral.
Rhodan já
se achava presente. Alguns oficiais da nave limitaram-se a me
cumprimentar com um aceno de cabeça. Mostravam-se muito menos
formais que há algumas horas.
Rhodan
fitou-me atentamente. Parecia dar-se por satisfeito com meu sorriso
débil.
— Já
está novamente em forma, gladiador? — perguntou.
Fiz um
gesto afirmativo. Rhodan pegou uma caixa alongada e colocou em minhas
mãos.
— É uma
arma de impulsos muito bonita, fabricada pela indústria terrana —
disse em tom indiferente. — É claro que o tanque de reação está
carregado. Atire seu modelo na lixeira mais próxima.
Deu-me as
costas. Abri a caixa. Realmente encontrei uma belíssima arma de
impulsos.
Coloquei-a
no cinto e entreguei a imitação a David Stern.
— Poderia
fazer o favor de cuidar disto para mim? — perguntei em voz baixa.
— OK;
isso está liquidado — disse Rhodan em tom objetivo. — Sente e dê
uma olhada no que descobrimos neste meio tempo. Você pode imaginar
que existe um poder desconhecido que despovoa planetas inteiros?
Não
acreditei no que acabara de ouvir.
— Despovoa
planetas?
Acenou a
cabeça com uma expressão pensativa. Uma ruga surgiu entre suas
sobrancelhas.
— Sei
que pode parecer estranho. Marquei encontro com um emissário do
computador-regente no terceiro planeta do sol Mirsal, que fica no
centro da Via Láctea, a 14.480 anos-luz da Terra. Esforcei-me para
ocultar nossa posição galáctica, e até o momento consegui.
Ninguém sabe onde poderá encontrar o planeta Terra.
— É
mais um motivo para não permitir que eu vá a Árcon, não é? —
observei num tom ligeiramente irônico.
— Não
há dúvida — confirmou Rhodan em tom franco. — Acontece que um
belo dia acabaremos sendo descobertos. Mas fiquemos por ora nos
planetas do sol Mirsal. Quando chegamos lá, o de número três
achava-se praticamente despovoado. Todos os objetos inorgânicos
estavam intactos; apenas as inteligências humanóides e os animais
haviam desaparecido. Tivemos que travar uma batalha estranha contra
naves espaciais desconhecidas. Até hoje não descobrimos contra quem
estávamos lutando. Além disso, não faço a menor idéia de como as
terríveis salvas de artilharia disparadas pela Drusus não causaram
o menor efeito ao atravessarem aquelas naves, que eram invisíveis,
mas haviam sido localizadas sem a menor sombra de dúvida.
“O
planeta Mirsal II também era habitado. Chegamos na hora exata para
ver as inteligências que viviam ali desaparecerem diante dos nossos
olhos, dissolvendo-se no nada. O computador ficou tão preocupado que
me concedeu o comando sobre seu novo supercouraçado, a nave
Arc-Koor. Não sabíamos o que fazer. Nem mesmo os mutantes
encontraram a explicação do fenômeno. Não tive outra alternativa
senão colocar a bordo o maior número possível de mirsalenses e
partir o quanto antes. Descarreguei essa gente em Árcon, mas fui
perseguido pelas naves fantasmas. Só consegui salvar-me pela
transição. A situação é esta, e por enquanto não sabemos como
contorná-la. Pretendo... ei, o que há com você, Atlan?”
Rhodan
levantou-se de um salto e sacudiu meus ombros. Apenas senti a pressão
forte de seus dedos. Minha visão se turvara com a irrupção
repentina das lembranças guardadas em minha memória fotográfica.
Mal
percebi o vulto de Rhodan. Seus gritos ressoavam em meus ouvidos como
se fossem trovões. Era uma manifestação de minha memória
fotográfica, que durante o relato de Rhodan reagira contra a vontade
consciente.
Senti-me
dominado pelo pânico, que me fazia submergir e me arrastava numa
enorme vaga. Levei alguns segundos para voltar a enxergar claramente.
Rhodan
estava de pé, bem à minha frente. Seus lábios estavam reduzidos a
um traço.
Senti
minhas mãos tremerem. Alguém pediu que mandassem um médico.
— Sabe
algo a respeito dos desconhecidos? — perguntou Rhodan em tom
exaltado. — Fale logo! Estes acontecimentos evocaram-lhe alguma
lembrança?
— Uma
lembrança? — gaguejei. — Meu caro, essa história data de cerca
de dez mil anos do calendário terrano.
— Faça
o favor de contar — pediu o Tenente Stern.
Acenei
lentamente com a cabeça. Minha memória fotográfica quase chegava a
comprimir-me com o peso das recordações.
Rhodan não
perdeu mais tempo. Sabia como eram as pessoas da minha raça, e
imaginava o que estaria sofrendo.
Levaram-me
ao elevador antigravitacional. Fomos parar na enorme sala dos
tripulantes da Drusus.
Enquanto
ainda me esforçava para recuperar o autocontrole e reprimir a
excitação que agitava minha mente, a sala se encheu de gente. Vi
muitos homens que nunca havia visto antes.
Rhodan
sentou-se a meu lado.
— Muito
bem; podemos começar — disse. — Já que o assunto é importante,
será conveniente que toda a tripulação esteja presente. Talvez as
experiências colhidas por você possam proporcionar uma visão clara
da situação. Já se sente melhor? Está com uma aparência de
doente.
Procurei
sorrir. Minha cabeça doía.
— Será
difícil — principiei. — Meu passado está ligado a muitas
concepções expressas através do vocabulário arcônida. Por isso
converterei as indicações de tempo e distância para as
equivalentes terranas. Também terei que dar outra designação às
máquinas, armas, graduação dos oficiais e muitas outras coisas.
Assim mesmo não será nada fácil.
Olhei em
torno. A enorme sala estava apinhada de ouvintes. De onde teria vindo
tanta gente? Tive a impressão de que uma mão invisível envolvera
meu cérebro em algodão. Era quase incapaz de pensar em termos de
presente.
Minha
memória fotográfica, estimulada pelo relato de Rhodan, apossara-se
de minha mente.
Alguém
ofereceu-me um caneco de plástico.
— Tome.
Isto o deixará mais calmo. O que andaram fazendo com ele? — a
pergunta foi dirigida a Rhodan e, ao que tudo indicava, era um médico
que a havia pronunciado.
As
palavras começaram a aflorar espontaneamente. Foi a primeira vez em
muitos milênios que me pus a contar alguma coisa. Nunca imaginaria
que isso teria de acontecer justamente a bordo de um super-couraçado
terrano.
Fiz um
relato muito minucioso. Só assim poderia fazer os ouvintes
compreenderem como tudo acontecera. Recorri exclusivamente a
concepções corriqueiras, que pudessem ser compreendidas por todos.
Seria inútil designar o mecanismo de propulsão dos terranos pelo
equivalente arcônida tsohlt-tarrk,
ou chamar um comandante de cruzador de vere’athor.
Esqueci-me
de que me encontrava na sala dos tripulantes da Drusus. Em minha
imaginação o tempo corria para trás. De repente me vi de novo no
couraçado da classe Império Tosoma, e trazia no bolso as ordens do
Grande Conselho de Árcon.
Minha
visão turvou-se. Cedi voluntariamente à pressão do meu setor de
memorização. Iniciei meu relato...
4
— ...que
me seja permitido recomendar a Vossa Alteza que não dê um
tratamento por demais suave aos colonos vindos das camadas mais
baixas do povo, que andam constantemente rebelados. As medidas por
mim adotadas tinham por fim dar ao Imperador um novo mundo povoado
por colonos fiéis e sempre dispostos a servi-lo. Quanto a ti,
augusto Príncipe de Cristal, quero que minha atuação sirva de
modelo...
— Obrigado!
— disse, interrompendo o oficial que fazia a leitura. — Já
basta. Os conselhos de Amonar apenas podem aumentar a turbulência.
Há mais alguma coisa?
O Capitão
Tarts, comandante da Tosoma, nave capitania de minha esquadrilha,
enrolou o escrito e atirou-o sobre a luxuosa escrivaninha.
Chegara há
quatro dias ao segundo planeta daquele pequeno sol amarelento
descoberto por uma nave exploradora comandada por Larsaf.
Em
homenagem ao comandante, esse mundo foi batizado de Larsa. Tratava-se
de um astro muito jovem, coberto por pântanos fumegantes e cheio de
florestas e mares enlameados. Pelo que se dizia, nossos colonos se
haviam dado bem com o clima quente e úmido. Mas, ao que parecia, não
davam-se tão bem com a regência do administrador Amonar.
Há vinte
dias o Grande Conselho de Árcon me ordenara pelo hiper-rádio que
regressasse da área em que estava servindo e me dirigisse com uma
força expedicionária ao segundo planeta do sol Larsaf. Minha missão
seria verificar qual era o significado de uma desesperada mensagem de
rádio expedida por um habitante daquele mundo solitário, um colono
de nome Tonth.
A mensagem
falava em excessos inconcebíveis e crueldades desnecessárias do
administrador Amonar, um membro da insignificante família dos Cicol.
Realizei
quatro transições para vencer a grande distância de 34 mil
anos-luz, e não demorei em pousar no grande espaçoporto de Larsa II
com a Tosoma e os cruzadores pesados Assor e Paito.
Bastou uma
ligeira investigação para eu verificar que Amonar havia
ultrapassado gravemente suas atribuições. Vi se tratar de um homem
duro, injusto e dominado por uma ambição doentia. Ao que parecia,
estava interessado exclusivamente em granjear fama e dignidade para
si e sua família.
Transformara
aquele mundo selvagem e deserto numa colônia-modelo. Mandara
construir cidades e campos de pouso espaciais e ordenara a construção
de um centro de computação de proporções tão grandes que fiquei
profundamente espantado.
Amonar
pagara sua fama com o sangue de nossos colonos. Os técnicos e
cientistas mais eminentes encontrados entre os colonos foram
utilizados exclusivamente para aperfeiçoar o autômato. Quase
cheguei a ter a impressão de que Amonar estava empenhado em
construir um Estado naquele sistema solar afastado.
Utilizei
as tropas de meu experimentado grupo de combate e golpeei duramente
quando os soldados de Amonar procuraram defender seu soberano.
Durante a luta, foram utilizadas certas armas que o administrador
adquirira dos saltadores sem o conhecimento do Grande Conselho e
mandara instalar na fortaleza de seu computador.
Fazia um
dia que eu o prendera e o mandara a Árcon sob forte escolta. Sua
última tentativa de fazer-me mudar de idéia correspondia à petição
escrita que o Capitão Tarts acabara de ler.
A peça
era composta das frases usuais. Era um misto de submissão e de
sutilezas escritas por um homem que sabia perfeitamente que eu
pertencia à dinastia reinante. Há três períodos o Imperador que
decidia os destinos do Grande Império saía da família dos Gonozal.
Ergui-me
lentamente da poltrona automática, cujo acabamento luxuoso e
mecanismo sofisticado davam prova evidente de que Amonar estava menos
interessado no bem-estar dos colonos que em si mesmo. Desde que o
Grande Conselho decidiu investir-me no comando de uma esquadrilha de
combate, assistira uma única vez a uma série de desmandos desse
tipo. Naquela oportunidade, um arcônida tentara fundar, com o apoio
de uma raça de lagartos estranha ao nosso povo, um reino dentro de
nosso Império. Fora minha primeira batalha. Não gostava de
rememorar esses fatos.
No caso de
Amonar houvera menos derramamento de sangue. Meu relato destinado ao
Grande Conselho e a meu venerável tio, o Imperador Gonozal VII, fora
enviado com a nave-correio. Esperava minha breve dispensa dessa
missão, já que não pertencia às minhas atribuições construir
mundos coloniais. Só intervinha quando havia desordens.
O edifício
da administração, levantado por ordem de Amonar, era o palácio
mais suntuoso da capital, à qual dera o nome de Amonaris, em
homenagem à sua pessoa. Uma vez que, apesar das injustiças por ele
cometidas, fizera grandes realizações, não estava disposto a
modificar o nome da cidade. De qualquer maneira, passado algum tempo,
ninguém mais ligaria esse nome à pessoa.
Tarts, um
velho e experimentado comandante de couraçado, estava de pé, em
silêncio, à frente da pomposa escrivaninha, cujas chaves se
destinavam ao controle de importantes centros de comando e
instalações de defesa. Amonar tomara suas providências; apenas,
chegamos um tanto cedo. Seus grandes planos não puderam ser
realizados.
Tinha
certeza de que o colonizador enviado para Árcon seria condenado à
eliminação de seu centro volitivo.
Tirei do
ombro a grande capa com os distintivos da dinastia reinante e a
coloquei cuidadosamente sobre o encosto alto da poltrona. Sentia-me
mais à vontade no uniforme singelo da frota arcônida.
Caminhei
lentamente em direção à parede energética transparente. Amonar a
mandara instalar, em vez das janelas regulamentares feitas de
plástico blindado.
Parei
diante da muralha transparente, toquei-a ligeiramente com o dedo e
aguardei que o sistema de climatização altamente sensível reagisse
ao calor de minha mão. Uma lufada de ar fresco saiu ruidosamente de
vários bocais escondidos.
— São
instalações muito caras para a sede de um simples funcionário
colonial, Atlan — disse o Capitão Tarts. — Uma delegação de
colonos está esperando lá fora. Um certo Tonth solicita uma
audiência.
— É o
homem que expediu aquela mensagem ao Conselho — expliquei. — Deve
ser um elemento corajoso. De onde é?
Tarts
examinou uma lista.
— De
Visal IV, Alteza.
— Para
você sou apenas Atlan, mestre — respondi com um sorriso. — Então
vem de Visal IV. Hum... É um antigo mundo colonial, que já está
superpovoado. Pelo que dizem, uns quinhentos milhões de habitantes
terão de emigrar.
— As
naves do Departamento de Colonização desembarcaram dois milhões
neste planeta. Entre eles houve uns vinte mil técnicos e cientistas
das mais diversas especialidades. As tropas de vigilância são de
Árcon. Este planeta está muito bem equipado.
Voltei à
escrivaninha e sentei-me.
— Deixe-os
entrar. Tomara que não me venham com pedidos aos quais não possa
atender.
Os olhos
vermelhos de Tarts pareciam sorrir. Caminhou lentamente em direção
à porta; face à sua idade avançada, seus movimentos já se
tornaram um tanto pesados. Comprimi o botão do mecanismo de
abertura. Amonar garantira-se muito bem contra eventuais surpresas.
As duas
placas metálicas deslizaram. Lá fora uma das temidas tormentas de
Larsa II estava começando. Veio tão depressa que tive de recorrer à
iluminação artificial. Quando o primeiro relâmpago ofuscante
correu pelo céu, a parede energética automática acionou o
dispositivo de obscurecimento.
Lembrei-me
dos tripulantes dos cruzadores que deixara em órbitas bem afastadas.
Provavelmente seus ocupantes não podiam ver a superfície desse
planeta coberto de nuvens. Apenas as três unidades mais pesadas de
minha pequena esquadrilha estavam estacionadas no espaçoporto. Eram
suficientes para causar um tremendo impacto.
Cinco
colonos entraram. Usavam roupas simples e grosseiras. Suas figuras
eram altas e robustas.
“São
arcônidas puros”,
avisou meu segundo cérebro, que fora ativado com licença do
Conselho Médico, depois de minha promoção ao posto de almirante.
Os cinco
homens ajoelharam-se e esconderam os rostos nas mãos.
— Levantem-se
— ordenei, bastante constrangido. — Amonar exigia esse gesto de
submissão?
— Isso
mesmo, Alteza — confirmou um homem velho de cabelos curtos e
brancos.
— Você
é o colono Tonth? — perguntei.
O velho
inclinou a cabeça.
— Sou eu
mesmo, Alteza. Viemos para exprimir nossos agradecimentos pelo pronto
auxílio. Arrisquei a vida ao penetrar às escondidas na estação de
rádio e irradiar a mensagem. Logo a seguir, fugi para as florestas,
uma vez que as instalações automáticas haviam registrado as
vibrações de meu corpo. Um técnico me preveniu, motivo por que
preferi refugiar-me na selva. Mas agora já podemos ficar tranqüilos.
Conversei
durante mais de uma hora com aqueles colonos experimentados. Depois
da palestra convenci-me de que o segundo planeta do pequeno sol
Larsaf oferecia ótimas perspectivas para o futuro.
Os
imigrantes vindos de um planeta de clima muito úmido haviam
encontrado um ambiente bastante favorável. O solo virgem era
extremamente fértil e, ao que tudo indicava, as riquezas minerais do
planeta eram consideráveis.
Tive a
idéia de fazer de Larsa II um entreposto colonial, mas logo me
lembrei de que o braço do Império teria certas dificuldades em
penetrar nesta área afastada da parte conhecida da Galáxia. Por
isso preferi não formular a sugestão perante aqueles homens, pois
seria um tanto prematura.
Depois de
outra série de agradecimentos exagerados, surgiu a pergunta que já
esperara. Uma audiência com pessoas do povo nunca chega ao fim sem
que seja formulado um pedido.
O Capitão
Tarts sorriu. Ao que parecia, já sabia de que se tratava.
Provavelmente os colonos quiseram transformá-lo em seu porta-voz.
— Existem
por aqui cinqüenta mil imigrantes vindos de Zakreb V, Alteza. Foram
trazidos contra sua vontade. Pedem sua transferência para outro
planeta, porque não suportam o clima reinante aqui. Já houve
numerosas mortes. Os zakrebenses precisam de ar mais frio e seco,
Alteza. Além disso, sentem falta da luz do sol. As temperaturas
reinantes aqui são muito elevadas para eles.
Olhei para
Tarts. Este acenou quase imperceptivelmente com a cabeça. Isso
significava que as informações deviam ser corretas.
— Sinto
muito, Tonth, mas não posso transportar essa gente em meus
cruzadores. Não disponho de naves de emigrantes.
— Não
poderia realizar ao menos uma viagem curta dentro do mesmo sistema
solar? Pelo que nos consta, o terceiro mundo apresenta condições
favoráveis à vida desses seres. Não haveria nenhum problema,
Alteza. Ou prefere que morram aos poucos.
Evidentemente
meu desejo não era este. Além disso, tinha o dever de prestar ajuda
aos colonos que se encontrassem em dificuldades. Minha missão era
esta.
Tarts
falou, tentando aclarear a situação:
— No
terceiro mundo deste sol já se desenvolveu uma forma autóctone de
vida. É bem verdade que os seres que o habitam se encontram num grau
de inteligência extremamente baixo, mas são arconóides. E a lei
não permite o desalojamento de inteligências que respirem oxigênio.
— Apenas
quando se trate de inteligências que já tenham atingido o grau C —
ponderou rapidamente um outro colono.
— E qual
é o grau dos habitantes do terceiro planeta? — perguntei em tom
curioso.
— No
máximo A-3, Alteza. Já estive lá.
Trata-se
de selvagens primitivos, que ainda usam instrumentos de pedra. Nem
sequer sabem perfurar seus machados. Os cabos ainda costumam ser
amarrados.
Isso
bastava. A lei não proibia a ocupação de planetas desse tipo, pois
a experiência havia ensinado que as criaturas subdesenvolvidas só
podem tirar proveito de uma colonização bem planejada.
Levantei-me
e encerrei a audiência.
— Darei
uma olhada no número três — prometi. — De qualquer maneira
tomarei todas as providências para que os cinqüenta mil zakrebenses
possam estabelecer-se em outro local. Podem retirar-se.
Caminhando
de costas, os colonos saíram da sala. Tarts suspirou e desligou o
gravador de fita, tirando a cassete para fins de arquivamento.
— Novos
problemas — disse em tom contrariado. — Não sei qual foi o
idiota que me aconselhou a ingressar na frota!
A guarda
foi revezada diante da porta de meu gabinete. Ouviam-se perfeitamente
as ordens enérgicas dos oficiais. Minha esquadrilha era uma unidade
de elite da frota imperial. Bastava que surgisse em qualquer lugar,
para que todas as revoltas chegassem ao fim.
— Amanhã
daremos uma olhada em Larsa III — disse. — Há mais alguma
novidade para hoje?
— Uma
recepção provincial em casa de Trento. O local poderá ficar
bastante alegre. Trento é o matemático-chefe do centro de pesquisa
local. Pelo que dizem, é uma das cabeças mais lúcidas do Império.
Consta que já pertenceu ao Conselho.
— Era só
o que faltava — resmunguei. — Tomara que nos dispensem logo desta
missão. Para meu gosto este mundo é muito quente e úmido. Mas, ao
que parece, o povo de Visal IV dá-se muito bem com o mesmo.
— Com
exceção de cinqüenta mil arcônidas puros vindos de Zakreb V —
disse o velho comandante em tom de advertência. — Você terá que
tomar sua decisão a este respeito antes que chegue um novo
funcionário.
Coloquei a
capa sobre o braço e desliguei os controles da pomposa escrivaninha.
Para mim o caso estava encerrado. Não tinha mais nada a fazer em
Larsa II.

Nenhum comentário:
Postar um comentário