quinta-feira, 21 de março de 2013

P-060 - Fortaleza Atlântida - K. H. Scheer [parte 1]


Autor
KURT BRAND



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN

O invisível já foi derrotado —
mas há 10 mil anos e por Atlan...

Apesar das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma os terra-nos são os soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante...
O perigo que se apresenta para toda a Galáxia ainda não foi afastado. Atlan, o almirante arcônida, conta o que viveu, quando da primeira aparição desses seres fantásticos...




= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Atlan — Grande herói arcônida. Perry vai necessitar de sua ajuda.

Perry Rhodan — Administrador do Império Solar.

Tarts — Mestre de Atlan.

Capitão Feltif — Governador militar de Atlântida.

Grun — Físico e matemático arcônida.

1



Àquele homem de estatura mediana e aspecto simples que usava as platinas de comandante da frota espacial chamava-se Hubert Gorlat. Parecia cortês e gentil, mas essa circunstância não faria esquecer o distintivo do serviço de segurança que usava na manga esquerda do uniforme.
O senhor está com uma ótima aparência — disse com um sorriso.
Tive vontade de rir; fiquei refletindo sobre se estaria aludindo à minha pessoa, ou ao uniforme muito bem talhado que estava usando.
Lancei um olhar perscrutador pelo corpo abaixo, sacudi o pó que se prendera ao tecido verde-pálido da perna da calça e olhei-o, franzindo a testa.
O senhor acha, comandante?
Sem dúvida — apressou-se meu interlocutor em responder. — Acho que já estava na hora de fabricar-lhe uma roupa especial.
Senti-me um tanto decepcionado. Então admirara meu uniforme! Esses terranos sempre deram muito valor ao aspecto exterior de seus semelhantes. Não havia motivo para que eu fizesse uma exceção.
Hubert Gorlat pigarreou. O olhar que lançou sobre o relógio foi um sinal mais que evidente. Fiz como se não tivesse percebido. Confessei a mim mesmo que provavelmente não teria submetido sua paciência a uma prova mais dura, se soubesse ser um pouco mais diplomático.
Sabia por que motivo o haviam enviado. Gorlat era o oficial de segurança do supercouraçado espacial Drusus, que há três dias pousara no grande espaçoporto de Terrânia, ao que parece depois de uma viagem cheia de aventuras.
Com a Drusus também voltara à Terra o homem que estava ansioso para ver.
O fato de que cerca de quatro meses atrás eu o vencera e o tivera em meu poder bajulava minha vaidade.
Perry Rhodan, o primeiro administrador de um minúsculo reino planetário, que num acesso de megalomania fora por ele batizado com o nome grandiloqüente de Império Solar, tivera de enfrentar-me na sala de espadas do museu terrano de Vênus; na ocasião eu o derrubara com a imitação fiel de uma grande espada germânica.
Tudo acabara bem. No último instante reconheci que seria um absurdo ferir gravemente esse terrano extraordinário, quanto mais matá-lo. Ainda sobraria muita gente que poderia frustrar minha fuga, que de qualquer maneira já se tornara ilusória.
O comandante Gorlat pertencia à classe das pessoas frias e sempre atentas, incapazes de desistir de um empreendimento, que desde o início do século XXI traçavam os rumos da história terrana.
Embora se mostrasse um tanto desajeitado no trato com as inteligências não-terranas, Gorlat sabia agir acertadamente no momento adequado. Para mim já não havia a menor dúvida de que esses terranos audaciosos, que nunca recuavam diante de qualquer risco, estavam prestes a conquistar, passo a passo, a Galáxia. Para isso se valeriam de uma mistura genial de astúcia, coragem pessoal e capacidade técnico-científica.
Eles o faziam devagar, numa ação muito bem controlada. Vez por outra lançavam uma enorme concentração de forças em alguma operação, para desaparecer logo após sem deixar o menor vestígio.
A rigor, podia-se dizer que travavam uma série de guerrilhas cósmicas. E sempre faziam a questão de não magoar qualquer ser vivo que tivesse disposições amistosas para com eles, e de tratar o inimigo de tal forma que, ao proceder à avaliação lógica da situação, o mesmo poderia ficar aborrecido, mas nunca se sentiria dominado por um ódio mortal.
Foi o que aconteceu comigo quando despertei de minha longa hibernação no leito do oceano e subi à superfície da Terra.
Acreditara que no ano de 1.971 tinha havido uma guerra atômica. Essa suposição revelara-se inteiramente falsa.
Perry Rhodan, que conhecera como simples major da Força Espacial dos Estados Unidos, superara suas próprias limitações. Para mim foi doloroso constatar que construíra o poderio da Terra com base nos conhecimentos de minha raça venerável.
Se não fosse a supertecnologia dos arcônidas, hoje, quando nos encontramos no mês de outubro do ano de 2.040, Rhodan já teria sido esquecido. Provavelmente o relato de suas façanhas apenas estaria guardado em certos arquivos. Afinal, fora o comandante da primeira expedição lunar tripulada.
Quando compreendi que ele era a mola propulsora do desenvolvimento vertiginoso da Astronáutica terrana, fiz o possível para voltar quanto antes a Árcon.
Minha fuga malogrou por duas vezes; e de ambas as vezes fora esse bárbaro alto e de olhos cinzentos que fizera fracassar meus planos através de sua atuação pessoal.
Depois de minha prisão, realizada na capital do planeta colonial Vênus, Rhodan desaparecera de uma hora para outra. O Tenente Gmuna, um membro do Corpo Especial de Defesa Psicológica, que era meu acompanhante e vigilante, deixara escapar algumas observações. De acordo com estas, certas inteligências galácticas, que supunham que Perry Rhodan estivesse morto, acabaram descobrindo que o mesmo ainda se encontrava no mundo dos vivos.
Com isso, o jogo de esconder por ele encenado se tornara inútil. No entanto, não se poderia deixar de reconhecer que o mesmo lhe rendera bons dividendos.
Durante 56 anos esse bárbaro arrojado soubera incutir em todos os seres pensantes que habitavam os mundos estranhos a idéia de que a Terra havia sido destruída num ataque de grande envergadura, vindo das profundezas do espaço, e de que ele, Rhodan, fora morto nessa oportunidade.
Utilizara a pausa assim conquistada para realizar um trabalho febril de construção. Ele e os humanos das novas gerações haviam criado coisas verdadeiramente inconcebíveis. Não tive outra alternativa senão confessar que os terranos nada ficavam a dever ao meu povo. Certamente até dispunham de mais energia e resolução, qualidades cuja falta algumas vezes senti durante minha atividade como almirante e chefe de uma esquadrilha da força espacial.
E Rhodan, esse personagem legendário e cercado de mistério, voltara a surgir na Terra. Imaginava perfeitamente o que devia ter feito nestes últimos quatro meses. Eu havia sido preso em fins de junho de 2.040, em Port Vênus.
No momento em que, poucos minutos atrás, o comandante Gorlat entrou no apartamento luxuoso, dei-me conta de que a decisão final sobre meu destino se aproximava.
Rhodan não pertencia à classe das pessoas que costumam adiar indefinidamente os problemas desagradáveis. Talvez se dirigiria a mim no seu tom ofensivo e ligeiramente irônico, para formular algumas perguntas, às quais só poderia responder com um sim ou um não.
Apesar de tudo, acreditava ter uma boa chance. Se realmente havia sido descoberto, já não teria qualquer motivo para proibir meu regresso ao sistema de Árcon.
Fechei os olhos ao recordar os três planetas. Saíra de lá há dez mil anos, segundo a contagem terrana do tempo. Pretendera passar apenas algumas semanas no distante sistema solar, mas tudo acabou saindo muito diferente do que eu esperava.
Tornara-me imortal. Um golpe do destino que não conseguia compreender traçara-me a trilha a seguir e me obrigara a errar pelos séculos afora.
O comandante H. Gorlat voltou a pigarrear. Despertei das minhas meditações. Desta vez estava disposto a dar a devida atenção ao olhar que lançava sobre o relógio.
O senhor não tem muito tempo, não é verdade? — principiei.
Gorlat suspirou aliviado. Abandonou sua postura rígida.
Sim senhor; é isso mesmo. Permita que lhe peça...
Tive que adivinhar o que pretendia pedir. E nem haveria necessidade de dizer o que era. Era claro que Rhodan queria falar pessoalmente comigo.
Levantei-me da confortável poltrona e caminhei tranqüilamente em direção às amplas janelas de minha sala. O apartamento ficava no 108o andar de um edifício recém-construído, em que foram instalados os serviços de um ministério criado também há pouco tempo.
O homem que chefiava esse setor dos serviços governamentais era conhecido como o Ministro de Colonização Extra-solar. Para os funcionários era o MCE.
Haviam colocado à minha disposição um amplo apartamento, de cuja sacada tinha uma visão admirável sobre o espaço-porto, a pequena distância, e dos arrabaldes de Terrânia, uma metrópole de 14 milhões de habitantes, em contínua expansão.
Do lago salgado de Goshun, que ficava nas proximidades, não se via mais nada. Os palácios de concreto, verdadeiros arrojos da arquitetura, fechavam a visão.
O pequeno lago já não assumia a menor importância, ainda mais que sua água muito salgada nunca contribuíra para a florescência que se verificara no antigo deserto de Gobi.
Já fazia trinta anos que a tecnologia terrana conseguia controlar as condições meteorológicas em suas linhas gerais. Face às chuvas programadas, o deserto se transformara numa paisagem verdejante. Não era pouca coisa que o antigo astronauta e piloto de experiências Perry Rhodan conseguira extrair daquele solo. De qualquer maneira, bastava para criar uma espécie de psicose de angústia em pessoas do meu tipo. O que seria do Grande Império que vivia sob a hegemonia de Árcon, se continuasse cego e passivo diante das atividades dos terranos?
Esta indagação me fez recordar meu verdadeiro objetivo. Estava farto da hospitalidade dos humanos. A prisão a que ficara submetido nos últimos meses apenas reforçara meu desejo ardente de voltar para casa o quanto antes.
Virei-me e encostei-me ao peitoril da janela. Gorlat parecia cada vez mais nervoso. Examinei-o atentamente.
Ele recebera instruções para manter uma atitude cortês e discreta. Se eu estivesse em seu lugar, já teria dito algumas palavras francas. No entanto, esperava que eu, o prisioneiro, houvesse por bem atender à sua solicitação. Era um bom sinal para mim. Ao que parecia, já se mostravam mais dispostos a dialogar.
Comandante, o senhor sabe que formulei um requerimento escrito dirigido ao chefe da Defesa Psicológica? E também sabe que nesse requerimento pedi minha alta?
Gorlat estava informado. Fez uma mesura formal.
Logo depois de nosso pouso na Terra o General Kosnow entrou em contato com o administrador. É justamente por isso que solicitam sua presença a bordo da Drusus o mais cedo possível.
O tom de sua voz tornara-se um pouco mais enérgico. Além disso, usara o verbo solicitar, e não pedir. Estava na hora de sair.
Coloquei o cinto bordado de ouro com as pistolas oficiais. Enfiei no coldre uma imitação fiel de uma arma de impulsos. Ainda não haviam concordado em dar-me uma arma verdadeira.
Aliás, era só graças ao meu amigo e protetor, o Tenente Gmuna, um homem de pele escura, que usava o uniforme do Império Solar. Ele reclamara tanto sobre minhas roupas de paisano, que acabei concordando. Apenas, exigi que me fosse permitido usar sobre o peito do uniforme, muito vistoso e elegante, o símbolo de Árcon.
Meu desejo foi cumprido: o símbolo dos três planetas foi bordado sobre o uniforme. Mas sobre os ombros trazia platinas terranas. Ainda me lembrava do sorriso insolente de Gmuna, quando prendeu às minhas ombreiras os distintivos com os dois cometas prateados. Provavelmente ele mesmo achara bastante esquisito que um comandante de flotilha dos arcônidas fosse distinguido com as platinas de um general terrano.
Dali em diante, Gmuna passou a fazer continência em poses exageradas, em todas as oportunidades próprias e impróprias, até que um dia o joguei para dentro de uma banheira cheia de água, sem dizer uma única palavra.
Enfiei o boné de talhe arrojado sobre a cabeça e passei por Gorlat, dirigindo-me à porta. Este logo ficou em posição de sentido.
Os robôs sentinelas postados do lado de fora levantaram as armas móveis neles embutidas e também ficaram em posição de sentido. Quer dizer que a via crucis iria começar de novo. Ao que parecia, divertiam-se exibindo suas boas maneiras toda vez que eu aparecia.
Gmuna estava esperando junto ao elevador antigravitacional. Seu rosto estreito parecia arrogante. Além disso, estava reclinado à parede numa posição tão relaxada, que tive de esforçar-me para não soltar uma gargalhada. Desde o dia em que o jovem africano quase morrera afogado na minha banheira, fazia questão de exibir um comportamento extremamente negligente.
Ei! — disse a título de cumprimento. — Então já chegou, paizinho?
Parei à sua frente e baixei os olhos sobre o rosto sorridente. Depois que eu o chamara algumas vezes de meu filho, ele passara a chamar-me de paizinho.
Por mais que me esforçasse, não pude deixar de achar os terranos cada vez mais simpáticos. Eram tão francos e autênticos! Faziam aquilo que os membros de minha raça nunca conseguiram fazer: agiam de forma tal que qualquer um sabia o que teria de esperar deles.
Às vezes suas maneiras descontraídas quase chegavam a ser insultuosas, mas quem os conhecesse mais de perto concluiria que um homem como o Tenente Gmuna é dotado de um humor revitalizante.
Um dia destes eu o atirarei no lago salgado, meu filho — prometi em tom solene.
Está bem, paizinho — disse, esticando as palavras. — Mas antes mandarei enxugar essa poça d’água com um canhão energético.
O comandante Gorlat pigarreou levemente. Parecia sentir-se constrangido.
O chefe está esperando! — anunciou, embora todo mundo já soubesse.
Deixei-me cair para dentro do campo antigravitacional. Um helicóptero da frota terrana já nos esperava no heliporto da cobertura do edifício.
2



Voamos cerca de vinte quilômetros, antes de chegarmos ao lugar em que estava pousada a Drusus.
Assim que o helicóptero decolou, vi a curvatura superior da esfera que formava o supercouraçado. Mas minha suposição de chegar em poucos segundos ao local revelou-se falsa. A ilusão ótica foi tamanha que logo desisti de calcular o tempo.
Aquela esfera azulada e reluzente tornara-se cada vez mais gigantesca, até que nos sobrepujasse, muito embora estivéssemos voando a uma altitude de quinhentos metros.
Quando nos encontrávamos a apenas algumas centenas de metros do lugar, já não pude abranger com a vista toda a curvatura da Drusus. Depois que o helicóptero pousou, entramos num carro e percorremos mais algumas centenas de metros embaixo do corpo da nave apoiada sobre colunas telescópicas tremendamente grossas até chegarmos à comporta situada na região polar.
Lutei para manter a compostura, mas ao que parecia, não consegui de todo. Evidentemente o comandante Gorlat sabia que no tempo em que me encontrava no serviço ativo da frota de Árcon estes gigantes espaciais ainda não existiam. Aproveitou a oportunidade para infligir-me uma pequena derrota moral.
É a nave capitania da frota terrana — disse como que por acaso. — A Drusus tem mil e quinhentos metros de diâmetro. Entrou em serviço há poucos meses. Quando começa a disparar, mundos inteiros são destruídos.
Escotilhas redondas de aço arcônida, de um metro de espessura, abriram-se. Seguiu-se uma comporta de ar, e depois dela mais duas escotilhas duplas. No interior da câmara de pressão vi os fios condutores dos grandes projetores de campo energético. Ao que parecia, poderiam, num caso de perigo extremo, isolar a sala de comando.
As realizações que os terranos conseguiram levar a efeito a partir do ano de 1.971 eram inacreditáveis. Naquele ano, Rhodan viajara à Lua num miserável mini-foguete; e agora mandava construir super-naves que não tinham igual nos setores conhecidos da Galáxia.
As maiores unidades com que contávamos eram as naves da classe Império, cujo diâmetro não excedia os oitocentos metros. Evidentemente Rhodan valera-se de um estratagema psicológico de primeiríssima ordem ao convocar-me justamente para bordo da Drusus. Poderia perfeitamente ter solicitado meu comparecimento ao palácio que servia de sede ao governo.
Cheguei a desconfiar fortemente de que me levaram de propósito em ziguezague através da gigantesca nave, a fim de transmitir uma impressão de seu tamanho.
A sala de comando era um gigantesco pavimento de teto abaulado, telas de imagem da altura de uma casa e uma profusão apavorante de instrumentos. Já estava familiarizado com a maior parte destes. Foram copiados diretamente de nós, ou seja, dos arcônidas.
Mas alguns dos instrumentos me eram completamente estranhos. Provavelmente tratava-se de novas criações.
Rhodan mandara perfilar a oficialidade da Drusus na sala de comando. Tive uma recepção digna do Imperador de Árcon.
Rhodan encontrava-se no fim da longa fileira de homens que faziam continência sem dizer uma palavra. Eram audazes os rostos desses terranos notáveis e carregados de uma energia inacreditável, cujos antepassados ainda chegara a conhecer no estado de selvagens da Idade da Pedra.
Cuidado; é um truque psicológico”, advertiu meu cérebro extra. “Querem corroer seu moral.
Não tive a menor necessidade de prestar atenção à advertência do meu setor de lógica, pois já estava moralmente arrasado. Um oficial experimentado da força espacial que se vê diante de um supercouraçado como este não pode deixar de experimentar um sentimento de inferioridade.
Enquanto caminhava diante daqueles homens totalmente desconhecidos, toquei meu boné uma única vez, a título de cumprimento. Senti-me humilhado por essa demonstração de poderio e disciplina. Uma pessoa de meu tipo costuma ser extremamente sensível a esse tipo de espetáculo, e era claro que Rhodan não ignorava este fato.
Naquele instante meu único apoio de ordem psicológica consistia no fato de trazer o distintivo da frota arcônida no uniforme terrano que estava envergando.
Os pioneiros de meu venerável povo já haviam carregado esse distintivo para as profundezas da Galáxia numa época em que os antepassados de Rhodan ainda lançavam olhares estúpidos para nossos cruzadores ligeiros de reconhecimento. Eu mesmo usara esse distintivo quando pela primeira vez pousara na Terra, então ainda um planeta selvagem, onde seres imundos, de pele vermelha, se arrastavam na poeira à minha frente.
Essas idéias só permaneceram em meu cérebro por alguns segundos. Quando me vi diante do chefe do sistema solar e fitei-lhe os olhos cinzentos recuperei o autocontrole. Meu sorriso exprimia uma ironia genuína. Já não precisava representar para dissimular o susto que ameaçava dominar-me.
Perry Rhodan não usava boné de serviço. Por isso tirei meu boné e o atirei para o capitão do serviço de defesa que me seguia. Rhodan tinha meu tamanho, mas devia pesar uns dez quilos menos que eu. No entanto, já tivera oportunidade de experimentar a rapidez, a agilidade e a resistência daquele homem.
Mas o principal era sua inteligência perspicaz. Percebera que seu estratagema psicológico tivera um sucesso apenas parcial. Pôs-se a rir baixinho. Seus oficiais enfileirados pareciam bonecos de pau.
Bom dia, arcônida — disse com sua voz forte e profunda. — Acho que este é nosso primeiro encontro oficial, não é?
Franziu a testa e lançou-me um olhar irônico. Mais uma vez tive de lutar com o orgulho desarrazoado que era uma das características de minha raça. Só a custo consegui controlar-me.
Olá, bárbaro — respondi em tom condescendente. — É mesmo o primeiro encontro... Da última vez que nos encontramos você estava deitado à minha frente, com a ponta da minha espada encostada à sua garganta. Tive pena de você.
Um homem de ombros largos e cabelos ruivos cortados à escovinha respirou profundamente. Estava ao lado de Rhodan e exibia os distintivos de general. Ao que parecia, refletia sobre o que deveria dizer.
Lancei para ele um olhar petulante e Rhodan disse em tom alegre:
Este é Reginald Bell, Ministro da Segurança do Império Solar e Chefe da Patrulha Espacial Terrana.
Ah, é? — respondi. — É um prazer. Acho que li alguma coisa a seu respeito na “Enciclopédia Terrana”, mas não sei mais nada... Queira desculpar.
O homem ruivo soltou um estranho chiado. Afastou-se de punhos cerrados e sem dizer uma única palavra. Aquilo me divertia. Esse Reginald Bell acompanhara Rhodan, quando Perry partira pela primeira vez para conquistar o espaço.
Rhodan apresentou seus oficiais um por um. Alguns deles me fitavam com olhos curiosos, outros pareciam desconfiados, e um terceiro grupo dava mostras de um certo respeito.
A parte fotográfica de minha memória logo registrou os nomes. Aqueles homens ficariam admirados mais tarde, quando me dirigisse a eles sem a menor dificuldade.
Assim que a pequena cerimônia chegou ao fim, o serviço normal de bordo foi reiniciado. Um certo Primeiro-Tenente Sikermann gritou algumas ordens numa voz extremamente potente. Os homens, geralmente ainda jovens, afastaram-se. Vi-me a sós com Rhodan.
Por alguns segundos fitamo-nos em silêncio. Éramos como fogo e água. No entanto, entre nós haviam surgido ligações que já não poderiam ser ignoradas.
Rhodan apontou algumas confortáveis poltronas que ficavam junto a um autômato de bebidas. Com um nervosismo cada vez maior, constatei que a Drusus estava sendo preparada para a decolagem. Em algum lugar ouviu-se um ribombar surdo. Máquinas entraram em funcionamento. Tomamos lugar nas poltronas.
Pensei que Rhodan fosse dizer alguma coisa sobre aqueles ruídos inconfundíveis. Mas aquele homem difícil de compreender costumava desferir incessantemente seus golpes.
Da próxima vez em que deixar sua abóbada pressurizada situada nas proximidades dos Açores, faça o favor de não se esquecer de desligar o equipamento automático de defesa. Seus robôs quase destruíram um submarino mercante.
Fitou-me com um sorriso franco no rosto. Senti as batidas de meu coração.
Está bem; vamos falar com franqueza — prosseguiu em tom mais sério. — Já sabemos por onde andou. Provavelmente dormiu durante alguns séculos naquela cúpula de aço. Uma vez que celebramos um acordo em Vênus, tomei todas as providências para que ninguém tocasse em seu abrigo.
Levei algum tempo para compreender que mais uma vez devia sentir-me grato a Rhodan.
Obrigado! — disse com certo esforço.
Não há de quê — respondeu. — Acredito que você deve guardar muitas lembranças lá embaixo. Não estou interessado no equipamento técnico, pois o mesmo não pode ser melhor que o que possuímos hoje. Há dez mil anos, quando você veio à Terra, Árcon não estava mais avançado cientificamente do que hoje, é claro.
Cerrei fortemente os olhos. Acabara de privar-me do último elemento que me poderia proporcionar certo apoio psicológico. Era isso mesmo: passara muitos séculos nossa abóbada, mergulhado num profundo sono biomédico.
Não quero ofendê-lo — prosseguiu. Seu rosto estreito parecia contrariado, mas franco. — Está na hora de apresentarmos nossos trunfos. Estou preocupado com certas coisas, almirante.
Estas palavras lacônicas bastaram para descontrair minha mente. Seria inútil mentir para Rhodan. Já sabia de tudo. Naquele instante tive a impressão de ser atingido por uma onda tépida. A impulsividade que era uma das características de minha raça levou a melhor.
Está preocupado? — repeti. Rhodan lançou-me um olhar atento.
Finalmente fez um gesto afirmativo.
Isso mesmo. Meu jogo de esconder chegou ao fim. Um superpesado me reconheceu e informou o computador-regente de Árcon, em cuja existência você não quer acreditar. Bem, isso não importa. O que importa é que, em todas as áreas povoadas da Via Láctea, forças desconhecidas e pavorosas estão agindo. E essas forças dirigem-se a todos, inclusive contra seu povo. Devemos parar de humilhar-nos reciprocamente.
Senti-me perplexo. Senti que Rhodan estava dizendo a verdade. O setor de lógica de meu cérebro não entrou em funcionamento.
Antes que tivesse tempo de dizer qualquer coisa, Rhodan inclinou-se para a frente e colocou a mão direita sobre meu joelho.
Preste atenção, arcônida! Você formulou um requerimento escrito. Depois de ter passado alguns milênios na Terra, está ansioso para voltar para casa. Você estava isolado, pois não dispunha de nenhuma nave espacial capaz de desenvolver velocidade superior à da luz. Esperou por um tempo imenso até que chegasse a hora em que os homens dominassem a navegação espacial. Essa hora já chegou. Sei perfeitamente que você nunca nos prejudicou. Ou melhor, até nos auxiliou.
Respondi com um gesto automático. Fora isso mesmo. Fiz o possível para introduzir meu supersaber arcônida aos poucos nos cérebros humanos. Não agira por altruísmo. Apenas pretendia ir para casa.
Você ainda não acredita que sua raça degenerou física e psiquicamente? — perguntou Rhodan.
Estremeci. Ali estava novamente aquela idéia odienta, que eu não conseguia aceitar como verdade.
Não é possível! — asseverei. — Ceda-me uma Gazela, que irei a Árcon para verificar o que está acontecendo. Voltarei em seguida. Dou-lhe minha palavra.
Senti meus olhos arderem. Senti que a decisão estava para ser tomada.
Acredito em você — disse. — Acontece que não pode partir.
Por que não? — disse em tom exaltado. — Você foi reconhecido. Não há mais ninguém que acredite em sua morte.
Não se trata disso. Acontece que o Grande Império vem sendo governado por um gigantesco autômato. E as decisões da máquina são implacáveis. Anda à procura de arcônidas que ainda sejam capazes de desenvolver certa atividade, que são obrigados a realizar expedições punitivas sob seu controle. O regente não o deixaria partir. E não quero perdê-lo. Procure compreender! Seu mundo passou a ser a Terra.
Mantive-me num silêncio obstinado, até que meu cérebro extra transmitiu, para minha enorme surpresa, a seguinte mensagem:
Acredite nele! Está dizendo a verdade. Afinal, faz dez mil anos terranos que você não pisa em Árcon.”
Relutei em aceitar o impulso psíquico vindo do setor de lógica de meu cérebro. Mas bem no íntimo imaginava que Rhodan nunca falara com tamanha franqueza como naqueles minutos.
Faço-lhe uma proposta, almirante. Provarei com numerosas mensagens radiofônicas originais do regente, filmes autênticos, gravações em fita e outros elementos que o Império Arcônida que você conhece deixou de existir. Os indivíduos de sua raça estão “dormindo”. Só se preocupam com as belas artes, as sutilezas filosóficas e as invejinhas ridículas.
O Imperador não passa de uma figura decorativa. Não teve sequer poder suficiente para que eu e os homens que me acompanhavam entrassem no sistema, muito embora nossas intenções fossem as melhores possíveis. Isso aconteceu há cerca de sessenta anos. E, hoje em dia, o poder do computador-regente se acha consolidado a tal ponto que nenhum indivíduo conseguirá vencê-lo. Seus couraçados, parte dos quais opera automaticamente, parte por meio de povos subjugados, chegaram literalmente a exterminar a população de muitos planetas coloniais rebelados. O Grande Império desmoronará se aquela máquina continuar a exercer o poder. Ainda acontece que no momento o regente se encontra numa situação ainda mais difícil que a nossa. Celebrei um acordo com o computador. O regente concedeu-me poderes ilimitados sobre a frota arcônida. Estou autorizado a solicitar grandes unidades e utilizá-las segundo meu juízo. Pense bem, Atlan!”
Senti-me apavorado. O rosto de Rhodan estava muito vermelho. Nunca vira aquele calculista frio e ironizador espirituoso de tal forma. Já descobrira o ódio, o desprezo, o temor e a raiva incontida em seus olhos brilhantes, mas nunca o desespero. Senti-me perplexo.
Um rugido tremendo fez estremecer a gigantesca nave. Ergui-me lentamente, Rhodan reclinou-se, como quem quer descontrair-se.
São os dezoito propulsores instalados na protuberância da zona equatorial da nave — explicou. — Decolaremos dentro de dez minutos. Você poderá ir conosco.
A saudade pelas amplidões do espaço ameaçou dominar-me. Mal conseguia recordar a sensação que se experimenta ao estar sentado atrás dos controles de uma grande nave.
E meus escassos pertences? — perguntei cautelosamente.
Já estão a bordo. Gmuna me pediu que lhe transmitisse suas recomendações. Você enfeitiçou aquele rapaz?
Percebi que trazia um sorriso tranqüilo e descontraído no rosto. Rhodan compreendeu. A rigidez de seu rosto cessou. Lançou um olhar pensativo para suas mãos longas. Começou a falar sem levantar a cabeça.
Um dia eu o mandarei ao sistema de Árcon, Atlan. Por enquanto isso seria muito perigoso para um imortal.
Fechou um dos olhos e lançou um olhar insistente sobre o ponto em que o uniforme cobria o ativador de vibrações celulares que trazia pendurado ao peito.
Deixe de caçoadas — disse em tom contrariado.
Rhodan riu baixinho.
Nós já nos conhecemos, não é? Pois permita que lhe diga que, face à sua programação, o computador de Árcon já está começando a violar o tratado que celebrou comigo. Você é engenheiro energético, não é?
É minha segunda especialidade — confirmei discretamente.
Qual seria a finalidade da pergunta? Não demorei em saber.
Pois bem; nesse caso você sabe como essa máquina terá de reagir. Instalamos uma seção de psicologia de robôs. E essa seção chegou à conclusão de que o regente age segundo uma programação antiquada. É incapaz de compreender a nova situação, mas golpeia com uma violência tremenda. Se condescende em entrar em acordo comigo, que sou considerado um terrano perigoso, é porque se vê numa situação difícil; provavelmente tão difícil quanto a nossa. Você terá oportunidade de assistir a filmes e falar com certas inteligências que confirmarão minhas informações. Vamos aguardar.
Levantou-se devagar e espreguiçou o corpo. Examinei-o atentamente.
Por que me falou em suas preocupações, bárbaro?
Um sorriso franco surgiu em seu rosto. Era este o Rhodan que eu conhecia.
Garanto-lhe que não é porque queira desistir. Tenho bons dentes, arcônida, e estou acostumado a morder fortemente. Acontece que não gosto de ter um inimigo pelas costas. Você já me deu bastante trabalho com suas tentativas idiotas de fuga, que quase chegaram a ser bem sucedidas.
Sacudiu a cabeça e ignorou meu sorriso irônico. Será que acreditava realmente que eu me daria por satisfeito com uma explicação desse tipo? Provavelmente não conseguia esquecer nossas experiências vividas em comum.
Quanto a mim, não sabia exatamente por que sentia certa inclinação para com este terrano. Tentamos seriamente matar um ao outro, mas agora parecia que dependíamos um do outro.
Gritou algumas ordens através da sala de comando. O rugido das máquinas aumentou. Além disso, surgiu um zumbido grave, que me fez concluir que os conversores termais do supercouraçado haviam sido ligados.
Enquanto ainda refletia sobre o tipo de armamento da nave, esta decolou. Preferi não me espantar com isso. Por certo Rhodan sabia o que estava fazendo.
Olhei para a galeria das telas. Só se via a incandescência branca das massas de ar altamente comprimido. Dali a alguns segundos, apareceu o negrume do espaço Contemplei extasiado as estrelas que apareciam no campo de visão. A Drusus desenvolvia uma aceleração inacreditável.
A lua terrana encontrava-se numa posição favorável. Mas pude contemplar a foice luminosa apenas por alguns segundos.
Seis minutos depois, ouvi algumas informações vindas da sala de máquinas. A nave estava penetrando numa faixa de velocidade relativista, do que resultava uma diminuição da velocidade com o mesmo dispêndio de energia.
Vi Rhodan comprimir a chave vermelha da injeção de matéria energética. O ribombar dos propulsores tornou-se ainda mais intenso. Dentro de dez minutos aproximamo-nos da velocidade da luz.
Não parava de me admirar. Será que essa nave realmente fora construída num estaleiro terrano?
Rhodan voltou. Bocejou e acomodou-se em sua poltrona.
Fácil, não é? — disse com uma risada. — Se me lembro de nossa primeira viagem à Lua! A aceleração de 12 G por pouco não nos esmaga. E agora estamos acelerando a quinhentos quilômetros por segundo ao quadrado, e isso ainda quando nos aproximamos da velocidade da luz. Assumiremos uma posição de espera a cerca de vinte horas-luz da órbita de Plutão. Ali pararemos. Espero que dentro em breve recebamos notícias dos agentes que enviei para o espaço. Quando isso acontecer, quero estar preparado para a luta. Olhou para o relógio.
Muito bem. Vamos comer alguma coisa. Depois mostrar-lhe-ei as provas. Você se admirará com o que está acontecendo nos mundos de Árcon. Tenente Sikermann!
O imediato da Drusus aproximou-se.
Faça o favor de preparar a transição a pequena distância.
O cosmonauta de cabelos escuros fez continência. Afastou-se sem dizer uma palavra. Examinei-o atentamente.
Você pode confiar em sua gente, bárbaro — disse, esticando as palavras. — Será que também pode confiar em mim?
Rhodan comprimiu lentamente um dos botões do autômato de bebidas e esperou que o líquido borbulhante surgisse na abertura. Só depois olhou para mim.
Você é muito velho, Atlan. Chegou a conhecer Wallenstein?
Estremeci. As recordações surgiram no mesmo instante.
Quer dizer que conheceu. Muito bem, arcônida; eu também conheço minha gente.
Enquanto a gigantesca nave ultramoderna atravessava o sistema solar com velocidade próxima à da luz, lembrei-me de outro personagem histórico: o general que usava o nome de Godofredo Henrique, Conde de Pappenheim.
Estive presente quando em 1.631 conquistou a cidade de Magdeburgo, sob o comando do marechal imperial Tilly.
Conhecia os homens de Pappenheim, e Rhodan também parecia saber quem eram eles. Sempre se podia confiar nos subordinados daquele oficial de cavalaria, fossem quais fossem os problemas com que se defrontavam.
Rhodan ofereceu-me uma bebida quente.
É um caldo quente, mas é muito gostoso — disse. — Será que pode contar-nos alguma coisa de seu passado agitado? Enquanto esperarmos, haverá tempo de sobra para isso. E a tripulação desta nave de guerra está ansiosa para ter um contato mais estreito com você. Os boatos mais absurdos andam correndo por aí.
Suspirei, estiquei as pernas e descansei a cabeça no encosto macio.
Os terranos eram assim! Quem não fosse morto por eles, poderia tê-los no futuro como excelentes amigos.
Dali a dez minutos, foi realizada a transição. Senti o choque ligeiro da rematerialização total e o silêncio incrível do hiperespaço.
Poucos segundos depois, fui tomado pela dor provocada pelo mergulho. Quando consegui enxergar de novo, o sol chamejante havia desaparecido das telas. Procurei localizá-lo, mas quando consegui vi que o mesmo se havia transformado numa estrelinha entre inúmeras outras.
Gemi baixinho e esfreguei a cabeça dolorida com ambas as mãos. Rhodan fitou-me atentamente. Fazia de conta que nada tinha acontecido.
Você terá de voltar a acostumar-se com isso, meu caro. Quantas vezes acha que saltamos nestes últimos meses? Está bem; tome seu caldo.
3



Tive tempo e tranqüilidade para recuperar-me do profundo choque moral que acabara de sofrer.
Durante a apresentação de provas, que durou sete horas, usei todos os meus conhecimentos e minha psicologia para descobrir qualquer inexatidão nos filmes sonoros e nas mensagens radiofônicas que me foram apresentadas.
Não consegui. Aquilo que Perry Rhodan me mostrara, primeiro de forma discreta, e depois de algum tempo com uma franqueza brutal, representara um choque tremendo para mim.
Vi qual era o comportamento dos arcônidas nascidos muito tempo depois de mim. Já não eram as figuras altas e robustas que meu tempo conhecera.
Os descendentes posteriores de meu venerável povo eram antes dignos de compaixão que de admiração. Já não possuíam nenhuma das qualidades que costumávamos considerar um atributo normal deles.
Os jogos fictícios, que pelo seu absurdo demonstravam uma decadência total e uma incapacidade absoluta de enfrentar a vida, as pequeninas intrigas tramadas entre as famílias que já não dispunham de nenhum poder, o comportamento pouco másculo dos mais altos dignitários, oficiais e cientistas não permitiam qualquer dúvida sobre a veracidade das afirmativas de Rhodan.
Estava com a razão: não era este o Império Arcônida em que esperara integrar-me. Os homens do meu tipo já haviam deixado de existir no sistema de três planetas.
Agora compreendia por que, quando da ocasião de nosso primeiro encontro, Rhodan dissera em tom de compaixão que seria capaz de derrotar com uma de suas mãos cem sujeitos do meu tipo.
Depois de ter controlado várias vezes as fotografias, não me espantei com essas palavras um tanto grosseiras.
Sentia-me muito triste e deprimido. Mas o que me sacudia por dentro não era apenas a saudade daquilo que pertencia irremediavelmente ao passado e nunca mais voltaria.
Um perigo tremendo se aproximava! Experimentara o som e a imagem do chamado computador gigante, que gostava de ser chamado de Grande Regente.
Não havia dúvida de que cerca de quatro mil anos depois de minha partida de Árcon foram notados os primeiros sinais da degenerescência que se iniciava.
Os técnicos e cientistas mais competentes de meu povo construíram uma gigantesca máquina e lhe deram a incumbência de, no momento em que o governo falhasse, assumir o poder no Império Estelar dos Arcônidas.
E foi o que aconteceu. Mas os fatos não se desenrolaram pela forma que os grandes homens do Império desejariam.
Ao que tudo indicava, o computador-regente dava uma interpretação totalmente errônea a certos itens de sua programação. Ainda acontecia que as situações existentes há seis mil anos já estavam superadas, mas o computador continuava a agir como se as mesmas ainda prevalecessem.
Minha indignação não se dirigiu contra a máquina relativamente inocente, que por certo teria de agir dentro dos limites de sua programação.
Meu desprezo total voltou-se aos nossos descendentes, que permitiram que o Império se corrompesse e na sua ânsia incontida pelo prazer esqueciam os problemas mais importantes...
Sem dúvida o computador-regente era dotado de uma série de programações especiais, que colocariam em funcionamento seu setor de segurança assim que surgissem indícios de alguma modificação no estado de decadência. Tudo dependia de uma ação vigorosa!
Sem dúvida Perry Rhodan encontrava-se no caminho certo. Apenas, não conseguia compreender por que considerara minhas tentativas de fuga não apenas uma tolice, mas um procedimento extremamente perigoso.
Depois da apresentação à oficialidade, Rhodan me acompanhara em pessoa ao grande camarote, no qual ainda me encontrava. As enormes máquinas da Drusus já haviam sido desligadas. Estávamos praticamente imobilizados no espaço interestelar.
Não sabia o que Rhodan esperava. Mas não tinha dúvida de que a espera se relacionava com a situação de emergência, a respeito da qual não me fornecera maiores detalhes.
Olhei para o relógio. Passara quatro horas imerso em reflexões. Já era tempo de voltar a encontrar-me a mim mesmo. No momento em que comprimi o botão do videofone, já não tinha a menor dúvida de que passara a pertencer à raça dos terranos. Se quisesse fazer alguma coisa pelo meu povo, teria de juntar-me incondicionalmente a Rhodan e aos humanos. Só com o auxílio deles seria possível eliminar o tumor chamado computador-regente e pôr ordem no Império.
A grande tela de meu camarote exibiu o rosto largo do imediato.
O senhor chamou? — perguntou. Aproximei-me da objetiva.
Mr. Sikermann, será que poderia fazer o favor de verificar se é possível falar com Perry Rhodan?
O imediato franziu a testa. Ao que parecia, estava admirado por eu ter lembrado seu nome.
Ele já o espera. Quer informá-lo sobre certas coisas.
Senti que meus olhos se umedeciam. Era um sinal de nervosismo.
Prefiro não ouvir mais nada — respondi em tom de desânimo. — O que fiquei sabendo basta.
Não se trata de Árcon, mas dos acontecimentos verificados nos últimos meses. Supomos que o senhor esteja interessado em conhecê-los.
A sensação de letargia que ia tomando conta de mim cessou. Essas palavras eram mais animadoras.
Onde poderei encontrar seu chefe?
Mandarei alguém aí para buscá-lo.
A tela apagou-se. Alguns minutos depois surgiu um tenente jovem de cabelos escuros.
Mr. David Stern? — indaguei, dirigindo-me a ele. O tenente ficou perplexo. Seu rosto avermelhou-se de tão embaraçado que se sentiu. Senti-me muito satisfeito com a memória fotográfica.
Sim... sim senhor. Recebi ordem para levá-lo...
Já sei. Fico-lhe muito grato — disse, interrompendo-o. — Vamos andando? Não é nada difícil a gente perder-se neste labirinto de corredores, salas e andares.
Quando entrei nesta nave pela primeira vez, quase morri de fome — disse David em tom cordato. — Foi uma coisa horrível. Fizeram-nos correr até que, totalmente exaustos, descobríssemos o corredor principal. Lá em cima alguém me observou Juntamente com mais três tenentes pelo aparelho de videofone. Toda a tripulação divertiu-se à nossa custa.
Sorri. Era uma atitude típica de um terrano. O pessoal cosmonáutico da Terra passava por um aprendizado muito duro, para dar provas de seu valor.
Stern levou apenas cinco minutos para levar-me à sala de informações, situada logo atrás da sala de comando. Ele estava equipado com os mais diversos equipamentos destinados à orientação geral.
Rhodan já se achava presente. Alguns oficiais da nave limitaram-se a me cumprimentar com um aceno de cabeça. Mostravam-se muito menos formais que há algumas horas.
Rhodan fitou-me atentamente. Parecia dar-se por satisfeito com meu sorriso débil.
Já está novamente em forma, gladiador? — perguntou.
Fiz um gesto afirmativo. Rhodan pegou uma caixa alongada e colocou em minhas mãos.
É uma arma de impulsos muito bonita, fabricada pela indústria terrana — disse em tom indiferente. — É claro que o tanque de reação está carregado. Atire seu modelo na lixeira mais próxima.
Deu-me as costas. Abri a caixa. Realmente encontrei uma belíssima arma de impulsos.
Coloquei-a no cinto e entreguei a imitação a David Stern.
Poderia fazer o favor de cuidar disto para mim? — perguntei em voz baixa.
OK; isso está liquidado — disse Rhodan em tom objetivo. — Sente e dê uma olhada no que descobrimos neste meio tempo. Você pode imaginar que existe um poder desconhecido que despovoa planetas inteiros?
Não acreditei no que acabara de ouvir.
Despovoa planetas?
Acenou a cabeça com uma expressão pensativa. Uma ruga surgiu entre suas sobrancelhas.
Sei que pode parecer estranho. Marquei encontro com um emissário do computador-regente no terceiro planeta do sol Mirsal, que fica no centro da Via Láctea, a 14.480 anos-luz da Terra. Esforcei-me para ocultar nossa posição galáctica, e até o momento consegui. Ninguém sabe onde poderá encontrar o planeta Terra.
É mais um motivo para não permitir que eu vá a Árcon, não é? — observei num tom ligeiramente irônico.
Não há dúvida — confirmou Rhodan em tom franco. — Acontece que um belo dia acabaremos sendo descobertos. Mas fiquemos por ora nos planetas do sol Mirsal. Quando chegamos lá, o de número três achava-se praticamente despovoado. Todos os objetos inorgânicos estavam intactos; apenas as inteligências humanóides e os animais haviam desaparecido. Tivemos que travar uma batalha estranha contra naves espaciais desconhecidas. Até hoje não descobrimos contra quem estávamos lutando. Além disso, não faço a menor idéia de como as terríveis salvas de artilharia disparadas pela Drusus não causaram o menor efeito ao atravessarem aquelas naves, que eram invisíveis, mas haviam sido localizadas sem a menor sombra de dúvida.
O planeta Mirsal II também era habitado. Chegamos na hora exata para ver as inteligências que viviam ali desaparecerem diante dos nossos olhos, dissolvendo-se no nada. O computador ficou tão preocupado que me concedeu o comando sobre seu novo supercouraçado, a nave Arc-Koor. Não sabíamos o que fazer. Nem mesmo os mutantes encontraram a explicação do fenômeno. Não tive outra alternativa senão colocar a bordo o maior número possível de mirsalenses e partir o quanto antes. Descarreguei essa gente em Árcon, mas fui perseguido pelas naves fantasmas. Só consegui salvar-me pela transição. A situação é esta, e por enquanto não sabemos como contorná-la. Pretendo... ei, o que há com você, Atlan?”
Rhodan levantou-se de um salto e sacudiu meus ombros. Apenas senti a pressão forte de seus dedos. Minha visão se turvara com a irrupção repentina das lembranças guardadas em minha memória fotográfica.
Mal percebi o vulto de Rhodan. Seus gritos ressoavam em meus ouvidos como se fossem trovões. Era uma manifestação de minha memória fotográfica, que durante o relato de Rhodan reagira contra a vontade consciente.
Senti-me dominado pelo pânico, que me fazia submergir e me arrastava numa enorme vaga. Levei alguns segundos para voltar a enxergar claramente.
Rhodan estava de pé, bem à minha frente. Seus lábios estavam reduzidos a um traço.
Senti minhas mãos tremerem. Alguém pediu que mandassem um médico.
Sabe algo a respeito dos desconhecidos? — perguntou Rhodan em tom exaltado. — Fale logo! Estes acontecimentos evocaram-lhe alguma lembrança?
Uma lembrança? — gaguejei. — Meu caro, essa história data de cerca de dez mil anos do calendário terrano.
Faça o favor de contar — pediu o Tenente Stern.
Acenei lentamente com a cabeça. Minha memória fotográfica quase chegava a comprimir-me com o peso das recordações.
Rhodan não perdeu mais tempo. Sabia como eram as pessoas da minha raça, e imaginava o que estaria sofrendo.
Levaram-me ao elevador antigravitacional. Fomos parar na enorme sala dos tripulantes da Drusus.
Enquanto ainda me esforçava para recuperar o autocontrole e reprimir a excitação que agitava minha mente, a sala se encheu de gente. Vi muitos homens que nunca havia visto antes.
Rhodan sentou-se a meu lado.
Muito bem; podemos começar — disse. — Já que o assunto é importante, será conveniente que toda a tripulação esteja presente. Talvez as experiências colhidas por você possam proporcionar uma visão clara da situação. Já se sente melhor? Está com uma aparência de doente.
Procurei sorrir. Minha cabeça doía.
Será difícil — principiei. — Meu passado está ligado a muitas concepções expressas através do vocabulário arcônida. Por isso converterei as indicações de tempo e distância para as equivalentes terranas. Também terei que dar outra designação às máquinas, armas, graduação dos oficiais e muitas outras coisas. Assim mesmo não será nada fácil.
Olhei em torno. A enorme sala estava apinhada de ouvintes. De onde teria vindo tanta gente? Tive a impressão de que uma mão invisível envolvera meu cérebro em algodão. Era quase incapaz de pensar em termos de presente.
Minha memória fotográfica, estimulada pelo relato de Rhodan, apossara-se de minha mente.
Alguém ofereceu-me um caneco de plástico.
Tome. Isto o deixará mais calmo. O que andaram fazendo com ele? — a pergunta foi dirigida a Rhodan e, ao que tudo indicava, era um médico que a havia pronunciado.
As palavras começaram a aflorar espontaneamente. Foi a primeira vez em muitos milênios que me pus a contar alguma coisa. Nunca imaginaria que isso teria de acontecer justamente a bordo de um super-couraçado terrano.
Fiz um relato muito minucioso. Só assim poderia fazer os ouvintes compreenderem como tudo acontecera. Recorri exclusivamente a concepções corriqueiras, que pudessem ser compreendidas por todos. Seria inútil designar o mecanismo de propulsão dos terranos pelo equivalente arcônida tsohlt-tarrk, ou chamar um comandante de cruzador de vere’athor.
Esqueci-me de que me encontrava na sala dos tripulantes da Drusus. Em minha imaginação o tempo corria para trás. De repente me vi de novo no couraçado da classe Império Tosoma, e trazia no bolso as ordens do Grande Conselho de Árcon.
Minha visão turvou-se. Cedi voluntariamente à pressão do meu setor de memorização. Iniciei meu relato...
4



...que me seja permitido recomendar a Vossa Alteza que não dê um tratamento por demais suave aos colonos vindos das camadas mais baixas do povo, que andam constantemente rebelados. As medidas por mim adotadas tinham por fim dar ao Imperador um novo mundo povoado por colonos fiéis e sempre dispostos a servi-lo. Quanto a ti, augusto Príncipe de Cristal, quero que minha atuação sirva de modelo...
Obrigado! — disse, interrompendo o oficial que fazia a leitura. — Já basta. Os conselhos de Amonar apenas podem aumentar a turbulência. Há mais alguma coisa?
O Capitão Tarts, comandante da Tosoma, nave capitania de minha esquadrilha, enrolou o escrito e atirou-o sobre a luxuosa escrivaninha.
Chegara há quatro dias ao segundo planeta daquele pequeno sol amarelento descoberto por uma nave exploradora comandada por Larsaf.
Em homenagem ao comandante, esse mundo foi batizado de Larsa. Tratava-se de um astro muito jovem, coberto por pântanos fumegantes e cheio de florestas e mares enlameados. Pelo que se dizia, nossos colonos se haviam dado bem com o clima quente e úmido. Mas, ao que parecia, não davam-se tão bem com a regência do administrador Amonar.
Há vinte dias o Grande Conselho de Árcon me ordenara pelo hiper-rádio que regressasse da área em que estava servindo e me dirigisse com uma força expedicionária ao segundo planeta do sol Larsaf. Minha missão seria verificar qual era o significado de uma desesperada mensagem de rádio expedida por um habitante daquele mundo solitário, um colono de nome Tonth.
A mensagem falava em excessos inconcebíveis e crueldades desnecessárias do administrador Amonar, um membro da insignificante família dos Cicol.
Realizei quatro transições para vencer a grande distância de 34 mil anos-luz, e não demorei em pousar no grande espaçoporto de Larsa II com a Tosoma e os cruzadores pesados Assor e Paito.
Bastou uma ligeira investigação para eu verificar que Amonar havia ultrapassado gravemente suas atribuições. Vi se tratar de um homem duro, injusto e dominado por uma ambição doentia. Ao que parecia, estava interessado exclusivamente em granjear fama e dignidade para si e sua família.
Transformara aquele mundo selvagem e deserto numa colônia-modelo. Mandara construir cidades e campos de pouso espaciais e ordenara a construção de um centro de computação de proporções tão grandes que fiquei profundamente espantado.
Amonar pagara sua fama com o sangue de nossos colonos. Os técnicos e cientistas mais eminentes encontrados entre os colonos foram utilizados exclusivamente para aperfeiçoar o autômato. Quase cheguei a ter a impressão de que Amonar estava empenhado em construir um Estado naquele sistema solar afastado.
Utilizei as tropas de meu experimentado grupo de combate e golpeei duramente quando os soldados de Amonar procuraram defender seu soberano. Durante a luta, foram utilizadas certas armas que o administrador adquirira dos saltadores sem o conhecimento do Grande Conselho e mandara instalar na fortaleza de seu computador.
Fazia um dia que eu o prendera e o mandara a Árcon sob forte escolta. Sua última tentativa de fazer-me mudar de idéia correspondia à petição escrita que o Capitão Tarts acabara de ler.
A peça era composta das frases usuais. Era um misto de submissão e de sutilezas escritas por um homem que sabia perfeitamente que eu pertencia à dinastia reinante. Há três períodos o Imperador que decidia os destinos do Grande Império saía da família dos Gonozal.
Ergui-me lentamente da poltrona automática, cujo acabamento luxuoso e mecanismo sofisticado davam prova evidente de que Amonar estava menos interessado no bem-estar dos colonos que em si mesmo. Desde que o Grande Conselho decidiu investir-me no comando de uma esquadrilha de combate, assistira uma única vez a uma série de desmandos desse tipo. Naquela oportunidade, um arcônida tentara fundar, com o apoio de uma raça de lagartos estranha ao nosso povo, um reino dentro de nosso Império. Fora minha primeira batalha. Não gostava de rememorar esses fatos.
No caso de Amonar houvera menos derramamento de sangue. Meu relato destinado ao Grande Conselho e a meu venerável tio, o Imperador Gonozal VII, fora enviado com a nave-correio. Esperava minha breve dispensa dessa missão, já que não pertencia às minhas atribuições construir mundos coloniais. Só intervinha quando havia desordens.
O edifício da administração, levantado por ordem de Amonar, era o palácio mais suntuoso da capital, à qual dera o nome de Amonaris, em homenagem à sua pessoa. Uma vez que, apesar das injustiças por ele cometidas, fizera grandes realizações, não estava disposto a modificar o nome da cidade. De qualquer maneira, passado algum tempo, ninguém mais ligaria esse nome à pessoa.
Tarts, um velho e experimentado comandante de couraçado, estava de pé, em silêncio, à frente da pomposa escrivaninha, cujas chaves se destinavam ao controle de importantes centros de comando e instalações de defesa. Amonar tomara suas providências; apenas, chegamos um tanto cedo. Seus grandes planos não puderam ser realizados.
Tinha certeza de que o colonizador enviado para Árcon seria condenado à eliminação de seu centro volitivo.
Tirei do ombro a grande capa com os distintivos da dinastia reinante e a coloquei cuidadosamente sobre o encosto alto da poltrona. Sentia-me mais à vontade no uniforme singelo da frota arcônida.
Caminhei lentamente em direção à parede energética transparente. Amonar a mandara instalar, em vez das janelas regulamentares feitas de plástico blindado.
Parei diante da muralha transparente, toquei-a ligeiramente com o dedo e aguardei que o sistema de climatização altamente sensível reagisse ao calor de minha mão. Uma lufada de ar fresco saiu ruidosamente de vários bocais escondidos.
São instalações muito caras para a sede de um simples funcionário colonial, Atlan — disse o Capitão Tarts. — Uma delegação de colonos está esperando lá fora. Um certo Tonth solicita uma audiência.
É o homem que expediu aquela mensagem ao Conselho — expliquei. — Deve ser um elemento corajoso. De onde é?
Tarts examinou uma lista.
De Visal IV, Alteza.
Para você sou apenas Atlan, mestre — respondi com um sorriso. — Então vem de Visal IV. Hum... É um antigo mundo colonial, que já está superpovoado. Pelo que dizem, uns quinhentos milhões de habitantes terão de emigrar.
As naves do Departamento de Colonização desembarcaram dois milhões neste planeta. Entre eles houve uns vinte mil técnicos e cientistas das mais diversas especialidades. As tropas de vigilância são de Árcon. Este planeta está muito bem equipado.
Voltei à escrivaninha e sentei-me.
Deixe-os entrar. Tomara que não me venham com pedidos aos quais não possa atender.
Os olhos vermelhos de Tarts pareciam sorrir. Caminhou lentamente em direção à porta; face à sua idade avançada, seus movimentos já se tornaram um tanto pesados. Comprimi o botão do mecanismo de abertura. Amonar garantira-se muito bem contra eventuais surpresas.
As duas placas metálicas deslizaram. Lá fora uma das temidas tormentas de Larsa II estava começando. Veio tão depressa que tive de recorrer à iluminação artificial. Quando o primeiro relâmpago ofuscante correu pelo céu, a parede energética automática acionou o dispositivo de obscurecimento.
Lembrei-me dos tripulantes dos cruzadores que deixara em órbitas bem afastadas. Provavelmente seus ocupantes não podiam ver a superfície desse planeta coberto de nuvens. Apenas as três unidades mais pesadas de minha pequena esquadrilha estavam estacionadas no espaçoporto. Eram suficientes para causar um tremendo impacto.
Cinco colonos entraram. Usavam roupas simples e grosseiras. Suas figuras eram altas e robustas.
São arcônidas puros”, avisou meu segundo cérebro, que fora ativado com licença do Conselho Médico, depois de minha promoção ao posto de almirante.
Os cinco homens ajoelharam-se e esconderam os rostos nas mãos.
Levantem-se — ordenei, bastante constrangido. — Amonar exigia esse gesto de submissão?
Isso mesmo, Alteza — confirmou um homem velho de cabelos curtos e brancos.
Você é o colono Tonth? — perguntei.
O velho inclinou a cabeça.
Sou eu mesmo, Alteza. Viemos para exprimir nossos agradecimentos pelo pronto auxílio. Arrisquei a vida ao penetrar às escondidas na estação de rádio e irradiar a mensagem. Logo a seguir, fugi para as florestas, uma vez que as instalações automáticas haviam registrado as vibrações de meu corpo. Um técnico me preveniu, motivo por que preferi refugiar-me na selva. Mas agora já podemos ficar tranqüilos.
Conversei durante mais de uma hora com aqueles colonos experimentados. Depois da palestra convenci-me de que o segundo planeta do pequeno sol Larsaf oferecia ótimas perspectivas para o futuro.
Os imigrantes vindos de um planeta de clima muito úmido haviam encontrado um ambiente bastante favorável. O solo virgem era extremamente fértil e, ao que tudo indicava, as riquezas minerais do planeta eram consideráveis.
Tive a idéia de fazer de Larsa II um entreposto colonial, mas logo me lembrei de que o braço do Império teria certas dificuldades em penetrar nesta área afastada da parte conhecida da Galáxia. Por isso preferi não formular a sugestão perante aqueles homens, pois seria um tanto prematura.
Depois de outra série de agradecimentos exagerados, surgiu a pergunta que já esperara. Uma audiência com pessoas do povo nunca chega ao fim sem que seja formulado um pedido.
O Capitão Tarts sorriu. Ao que parecia, já sabia de que se tratava. Provavelmente os colonos quiseram transformá-lo em seu porta-voz.
Existem por aqui cinqüenta mil imigrantes vindos de Zakreb V, Alteza. Foram trazidos contra sua vontade. Pedem sua transferência para outro planeta, porque não suportam o clima reinante aqui. Já houve numerosas mortes. Os zakrebenses precisam de ar mais frio e seco, Alteza. Além disso, sentem falta da luz do sol. As temperaturas reinantes aqui são muito elevadas para eles.
Olhei para Tarts. Este acenou quase imperceptivelmente com a cabeça. Isso significava que as informações deviam ser corretas.
Sinto muito, Tonth, mas não posso transportar essa gente em meus cruzadores. Não disponho de naves de emigrantes.
Não poderia realizar ao menos uma viagem curta dentro do mesmo sistema solar? Pelo que nos consta, o terceiro mundo apresenta condições favoráveis à vida desses seres. Não haveria nenhum problema, Alteza. Ou prefere que morram aos poucos.
Evidentemente meu desejo não era este. Além disso, tinha o dever de prestar ajuda aos colonos que se encontrassem em dificuldades. Minha missão era esta.
Tarts falou, tentando aclarear a situação:
No terceiro mundo deste sol já se desenvolveu uma forma autóctone de vida. É bem verdade que os seres que o habitam se encontram num grau de inteligência extremamente baixo, mas são arconóides. E a lei não permite o desalojamento de inteligências que respirem oxigênio.
Apenas quando se trate de inteligências que já tenham atingido o grau C — ponderou rapidamente um outro colono.
E qual é o grau dos habitantes do terceiro planeta? — perguntei em tom curioso.
No máximo A-3, Alteza. Já estive lá.
Trata-se de selvagens primitivos, que ainda usam instrumentos de pedra. Nem sequer sabem perfurar seus machados. Os cabos ainda costumam ser amarrados.
Isso bastava. A lei não proibia a ocupação de planetas desse tipo, pois a experiência havia ensinado que as criaturas subdesenvolvidas só podem tirar proveito de uma colonização bem planejada.
Levantei-me e encerrei a audiência.
Darei uma olhada no número três — prometi. — De qualquer maneira tomarei todas as providências para que os cinqüenta mil zakrebenses possam estabelecer-se em outro local. Podem retirar-se.
Caminhando de costas, os colonos saíram da sala. Tarts suspirou e desligou o gravador de fita, tirando a cassete para fins de arquivamento.
Novos problemas — disse em tom contrariado. — Não sei qual foi o idiota que me aconselhou a ingressar na frota!
A guarda foi revezada diante da porta de meu gabinete. Ouviam-se perfeitamente as ordens enérgicas dos oficiais. Minha esquadrilha era uma unidade de elite da frota imperial. Bastava que surgisse em qualquer lugar, para que todas as revoltas chegassem ao fim.
Amanhã daremos uma olhada em Larsa III — disse. — Há mais alguma novidade para hoje?
Uma recepção provincial em casa de Trento. O local poderá ficar bastante alegre. Trento é o matemático-chefe do centro de pesquisa local. Pelo que dizem, é uma das cabeças mais lúcidas do Império. Consta que já pertenceu ao Conselho.
Era só o que faltava — resmunguei. — Tomara que nos dispensem logo desta missão. Para meu gosto este mundo é muito quente e úmido. Mas, ao que parece, o povo de Visal IV dá-se muito bem com o mesmo.
Com exceção de cinqüenta mil arcônidas puros vindos de Zakreb V — disse o velho comandante em tom de advertência. — Você terá que tomar sua decisão a este respeito antes que chegue um novo funcionário.
Coloquei a capa sobre o braço e desliguei os controles da pomposa escrivaninha. Para mim o caso estava encerrado. Não tinha mais nada a fazer em Larsa II.

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