sábado, 2 de março de 2013

P-051- O Soro da Vida - Kurt Brand [parte 3]


Laury Marten, uma moça prosaica do século XXI, amava. E o amor transformava todas as coisas como que por encanto. Ser chamada de minha flor, fitar os olhos chamejantes do bem-amado, sentir o braço forte que a enlaçava, tudo isso fez com que se sentisse muito feliz. Seus pensamentos moviam-se exclusivamente em torno do desejo de libertar Rodrigo das garras dos aras.
Rodrigo não pôde dar uma indicação precisa sobre o dia em que recebera pela última vez a injeção do soro revitalizador. Pelo calendário terrano, devia fazer cerca de noventa anos.
E noventa anos não significavam nada para os aras, que graças aos recursos de sua medicina muitas vezes viviam mais de oito séculos.
As informações, que Laury obteve através de Rodrigo, tornavam-se importantes porque confirmavam o fato de que em X-p estava sendo fabricado o soro.
Laury Marten percebia constantemente no íntimo a advertência que lhe fazia lembrar o motivo de sua vinda a Tolimon. Eram horas de auto-recriminação e censura. Cada vez que isso acontecia tomava a decisão de, por ocasião do primeiro contato telepático que mantivesse com John Marshall, confessar o amor que sentia por Rodrigo de Berceo.
Até então, John Marshall ainda não sabia.

* * *

Laury desprendeu-se violentamente dos braços de Rodrigo. Passara mais de duas horas de Tolimon em sua companhia.
Usando o dom desintegratório de que era dotada, atravessou a barreira energética e dirigiu-se ao veículo. Naquele instante, a cabeça de um frogh saiu da fenda comprida e profunda que se encontrava à sua esquerda e fitou-a com olhos viperinos.
Laury Marten sentiu-se grudada ao solo. O desespero tomou conta de sua mente. Tentou em vão captar os pensamentos do frogh. De tão nervosa que estava, não conseguiu descobrir a freqüência em que funcionava o cérebro dessa criatura.
Arga Slim, os aras estarão muito interessados em saber que a senhora consegue atravessar uma barreira energética sem que a mesma tenha sido desativada — disse o frogh com a voz fria.
O brilho dos olhos dele foi ainda mais frio.
Seu primeiro impulso foi o de destruir o frogh com seu radiador, mas a lei de Perry Rhodan, segundo a qual só se devia matar em legítima defesa, estava por demais enraizada em sua mente.
Encontrava-se numa situação de legítima defesa, mas a mesma fora provocada por sua própria negligência. Ainda teve energia para não mentir a si mesma. Mas sentiu-se exausta; enfiou a mão no bolso e tirou o concentrado energético. Engoliu-o.
O efeito foi imediato e tão patente, que o frogh lançou uma pergunta:
O que é isso que a senhora acaba de tomar, Arga Slim?
Arga disse o que era, enquanto procurava desesperadamente descobrir uma saída.
Permite que eu experimente o concentrado?
A víbora centopéica saiu da fenda no solo, aproximou-se rapidamente, colocou-se diante de Laury Marten e estendeu um dos braços dotados de mãos preênseis.
Para ganhar tempo, Laury entregou um tablete ao frogh. Não acreditava que fosse adiantar alguma coisa. O frogh engoliu o concentrado e enrijeceu. A mutante teve medo da cobra-gigante. Enfiou discretamente a mão no bolso em que se encontrava o radiador. Estava decidida a matar o frogh.
A risada penetrante dele a fez recuar alguns passos. A gargalhada do frogh tornou-se mais sonora. A criatura levantou o terço anterior do corpo e passou a contemplar a agente de Perry Rhodan a uma altura de dois metros.
Eu lhe meti medo, Arga Slim? Queira desculpar. Apenas pretendia agradecer-lhe.
Quer agradecer pela oportunidade de me entregar aos aras? — disse Laury em tom furioso.
Sentia que o frogh estava escarnecendo de sua perplexidade.
Ora, Arga Slim! — disse o frogh e sua voz transformou-se num cochicho. — Nunca falarei sobre isso se amanhã a senhora me trouxer mil tabletes destes. Se fizer isso por mim, serei o servo mais fiel que a senhora já teve — a estranha proposta terminou num riso borbulhante.
De repente, Laury descobriu a disposição de ânimo do frogh. O concentrado provocara-lhe um estado de euforia; transformara-se num estimulante, que provocava uma alegria exagerada.
O estado do frogh tornava-se cada vez mais perturbador. A expressão viperina desapareceu de seus olhos, que pareciam irradiar uma bondade quase humana. Voltou a implorar que amanhã ou depois Laury lhe trouxesse uma quantidade maior do concentrado.
Posso pensar nisso, desde que possa confiar em sua discrição, Agzt — disse Laury.
O frogh respondeu:
Posso até desligar qualquer barreira energética para a senhora, Arga Slim. Acho que isso já poderia servir de base a um estado de confiança recíproca.
Ao anoitecer, quando Laury Marten terminou sua jornada diária no setor X-p, nenhuma informação do frogh Agzt sobre a travessia da barreira energética havia sido recebida naquele setor.
Aos poucos, começou a acreditar que as intenções de Agzt eram sinceras.

7


John Marshall acabava de expedir de seu escritório a quinta mensagem de telecomunicação destinada a Hellgate. Agora estava mudando para a faixa de Rohun.
Não tinha o menor receio de que o serviço secreto dos aras pudesse interceptar sua mensagem. O transmissor especial de que se servia, da mesma forma que aquele instalado em seu quartel-general na área dos cortiços, dispunha de dispositivo especial que evitava a escuta, mesmo que a estação receptora só dispusesse de um hiper-comunicador comum. Apesar de tudo, Marshall e Rohun acoplaram um condensador e um deformador de mensagens, uma vez completada a ligação.
Rohun, estou precisando de minha nave. Quem poderia trazê-la até aqui? Otznam?
O rosto do comandante dos saltadores transformou-se numa careta.
Ixt — disse, prevenindo Marshall — já está na hora de desistir do jogo perigoso que está realizando com os aras. As notícias que acabo de receber de Egmon me fizeram envelhecer cem anos. Se as coisas continuarem nesse ritmo, acabarei figurando na lista dos aras. O senhor sabe perfeitamente o que significaria isso.
Isso significaria o desaparecimento total, a morte, a destruição.
Marshall não se impressionou com o aviso que Rohun acabara de lhe dar.
Quando souber que a nave chegou, eu me sentirei muito melhor, Rohun. Quando poderei contar com a chegada? É Otznam que vai trazê-la, não é?
Está certo. Mas não quero que Otznam participe da ação — exigiu Rohun. — Quando é que o senhor se dignará a explicar as coisas esquisitas que aconteceram em sua loja quando o tal do Huxul, um ara do Serviço de Vigilância de Estrangeiros, apareceu com a jaula com os dois hiobargulus e procurou devolver os animais? Se não tivesse passado por coisa semelhante com o tal do Huxul, já teria entregado Otznam a um hospital dos aras para submetê-lo a um exame de sanidade mental.
Marshall preferiu não responder. Tranqüilizou o comandante dos saltadores.
Prometo-lhe que Otznam não participará da ação, Rohun. Mas acho que poderei contar com aquilo que o senhor me prometeu, isto é, com sua ajuda irrestrita quando eu o chamar.
Ixt, fique sabendo que não sou nenhum ara, mas um mercador galáctico — berrou Rohun para dentro do microfone que se encontrava a quarenta anos-luz. — Otznam partirá imediatamente em sua nave. Há alguns dias dei uma olhada naquilo: é um verdadeiro couraçado! Onde é que essas naves são construídas, Ixt?
Mais uma vez, o mutante fez como se não tivesse entendido.
Onde está Tulin, Rohun? Não consigo encontrá-lo aqui em Trulan.
Está aqui! — exclamou Rohun. — Mas voltará com Otznam, pois tenho uma tarefa para ele. O senhor não poderá utilizá-lo na execução de seu plano.
Está com medo? — perguntou John Marshall em tom lacônico.
Antes ter medo que transformar-se em cobaia dos aras.
Mais uma vez, tivera de ouvir uma alusão desse tipo. Agora partira de Rohun, comandante dos saltadores.
Cobaia dos aras! Apesar das leis de Árcon! Fim, Rohun! — disse Marshall ao mercador galáctico e desligou.
A mensagem telepática de Laury Marten estava interferindo na palestra pelo telecomunicador.
Marshall perscrutou seu interior.
Uma hora depois, foi transmitida a sexta mensagem condensada de hipercomunicação destinada a Hellgate, onde Rhodan esperava, protegido por uma abóbada de aço.
Laury Marten descobrira uma sala do setor X-p onde estava guardada uma ampola do soro revitalizador, que dentro em breve seria utilizada numa experiência.
Quando Futgris entrou no escritório do chefe, Ixt estava debruçado sobre o primeiro relatório enviado por Kolex. Este relatório continha informações sobre a escala intelectual em que deviam ser incluídas as criaturas por ele vendidas ao zoológico.
Vinte e uma espécies, totalmente diferentes no aspecto exterior, pertenciam à escala intelectual A-l.
Era o grupo ao qual pertenciam os arcônidas, os aras e os mercadores galácticos.
Quando levantou os olhos e reconheceu Futgris, John Marshall teve de recuperar-se do abalo que sofrera.
Sentia-se como um homem que acabara de cometer um crime. Os seres que, em virtude de seu aspecto terrificante, haviam sido considerados animais, possuíam o grau mais elevado de inteligência; e ele os transformara em peças de exibição do zoológico. Colocara-os nas mãos dos aras. A exclamação de Rohun ressoava no ouvido de Marshall:
Antes ter medo que transformar-se em cobaia dos aras.”
Lançou um olhar indagador para Futgris.
O ara, que admirava e venerava o chefe, procurou ocultar o tremor da voz:
Chefe — disse com os olhos errantes — três funcionários do serviço secreto querem falar com o senhor.
Ah, é? — respondeu John Marshall sem trair o nervosismo. Foi empurrando para o lado o relatório que acabara de receber de Kolex. — Convide-os a entrarem, Futgris. Nunca se deve fazer esperar um funcionário do serviço secreto.

* * *

Agzt, o frogh, parou na beira da estrada quando Laury Marten se aproximou velozmente com seu veículo, freou e desceu. Entregou-lhe uma sacola, que a mão preênsil segurou avidamente. Examinou o conteúdo.
Mais uma vez, apenas cinqüenta cápsulas de concentrado? — perguntou em tom decepcionado.
Laury, que perdera todo medo do corrupto monstro viperino, colocou a mão no pescoço do mesmo. A pele do frogh parecia couro. Laury notou seu estado eufórico e advertiu-o:
Em cada visita eu lhe trarei cinqüenta cápsulas, Agzt; nada mais. Não quero que este preparado, que é totalmente inofensivo para os aras e os arcônidas, transforme você num doente ou num viciado. Gaste suas reservas com muita parcimônia, pois poderá acontecer que vários dias se passem entre uma visita e outra.
A sacola com os tabletes estava no interior da enorme mão preênsil. O frogh saltitava sobre seus inúmeros pés e voltava a asseverar ininterruptamente que não era nenhum ingrato.
Tal qual fizera por ocasião de suas visitas anteriores, Laury pediu-lhe que prestasse atenção e a avisasse imediatamente assim que qualquer outro veículo se aproximasse desse setor do zoológico. Depois, recorreu ao dom da desintegração, atravessou a barreira energética como se esta não existisse e saiu correndo.
Do alto da elevação pôde ver o palácio asteca. Como sempre, Rodrigo estava parado junto à enorme entrada principal, mas hoje não abanou o chapéu de penacho em sua direção.
Olhou-a sem dizer uma palavra e seu rosto permaneceu imóvel quando Laury se encontrava diante dele.
Aconteceu alguma coisa, querido?
Rodrigo de Berceo se mantinha rígido.
Seu olhar vagou ao longe. A boca estava reduzida a um traço e os olhos chispavam de indignação. Laury enlaçou-o e implorou que falasse.
Amanhã terei de ir ao lugar em que estão os aras!
Para Laury, isso equivaleria ao fim do mundo de Tolimon.
Não, Rodrigo! Não é possível! Oh, não... — o desespero apertou-lhe a garganta. Foi sacudida por um soluço sem lágrimas.
Mas logo se controlou. E com a calma recuperou a capacidade de raciocinar. Seu plano estava formado.
Rodrigo, quando os aras virão buscá-lo? — perguntou apressadamente.
Amanhã. Mas não receie por minha vida. Eu, o conde...
Amanhã, quando? De manhã? A que hora?
O conde Rodrigo de Berceo falava o arcônida e o intercosmo, mas não tinha conhecimento do que seria “hora”.
Só depois de muitas perguntas, Laury conseguiu descobrir a hora aproximada em que Berceo seria levado para submeter-se à experiência.
Ouça — disse e o triunfo estava escrito em seus olhos. — Amanhã os aras encontrarão esta grade vazia. Fugirei com os quatro humanos que estão aqui. Vamos pedir aos outros que se preparem.
Laury Marten não se deu conta de que naquele instante estava renunciando aos ensinamentos que recebera como agente do Exército dos Mutantes. Seu plano não era apenas uma obra de diletantismo, mas uma temeridade, pois obrigaria John Marshall a praticar atos que nunca teriam entrado nas cogitações desse mutante extremamente ponderado.
Alf Tornsten, o camponês sueco, foi o primeiro que recusou. Nara, a velha mongol, nem compreendeu o que a moça desejava e limitou-se a fazer soar sua risada de louca. Mutumbo, o africano, apenas a brindou com um palavrão e deixou-a falando só.
Rodrigo não esperara outra coisa. E comentou de modo altivo:
Nem me sentiria bem na presença desses idiotas.
A moça respondeu com uma frieza na voz:
Peço-lhe que procure compreender que, hoje em dia, na Terra, um conde não vale mais que o mais miserável dos homens. Rodrigo, quatrocentos anos se passaram, e você terá que dar um salto por cima desse tempo. Por favor, permita que eu o ajude! Esqueça-se de que é o conde de Berceo. Comece com isso e...
Mais uma vez, a moça sucumbiu ao charme do conde, ao seu sorriso e ao seu amor. Seu beijo a fez calar-se. Sentiu-se segura nos seus braços, até que a realidade cruel evocasse o amanhã em seu espírito.
Rodrigo, você não estará mais aqui amanhã, quando chegarem os aras! — com essa jura solene despediu-se e, após poucos minutos, seu veículo corria vertiginosamente em direção ao setor X-p.
Durante a viagem estabeleceu contato telepático com John Marshall.
Não perturbe! — foi a resposta que captou.
Laury Marten estava tão preocupada com o destino de Rodrigo que nem chegara a sentir a agitação furiosa da mente de Marshall.
Como que num estado de transe penetrou no setor X-p, atravessou os feixes de luz que a desinfetaram e entrou em seu gabinete. Só viu o médico ara Assa quando já estava sentada atrás de sua escrivaninha, olhando desesperadamente para a frente.
O que está sentindo, Arga?
A pergunta a fez estremecer.
Dor de cabeça — respondeu.
No mesmo instante compreendeu que, ao proferir estas palavras, pronunciara sua sentença de morte.
Nos mundos pertencentes ao Império de Árcon, quer fossem eles habitados pelos arcônidas, pelos aras e pelos saltadores, a dor de cabeça era desconhecida. O cérebro dessas raças tão semelhantes nunca experimentara esse mal.
Por outro lado, porém, nesse mesmo instante Laury Marten voltara a transformar-se na agente de Rhodan.
Não perdeu o autocontrole. Com o maior sangue-frio, deu jogo à sua capacidade telepática para revolver a mente de Assa.
Este revistara o gabinete durante sua ausência.
E pela segunda vez, mandara espiões atrás dela para descobrir por que ia tantas vezes ao zoológico.
Não confiava nela.
E a esta hora nem acreditava que fosse uma arcônida. Fez reviver suas lembranças. Aí encontrou Perry Rhodan, os aras, o planeta da medicina, Aralon, a lua Laros. Sim, depois disso houve a destruição da Terra, o planeta de Perry Rhodan, e o desaparecimento deste juntamente com a gigantesca Titan.
De repente, Assa achou que a suspeita de que essa jovem pudesse manter contato com Perry Rhodan era ridícula. Mas as dores de cabeça?
Quem seria essa mulher?
Laury Marten leu tudo isso num espaço de poucos segundos e controlou seu procedimento de acordo com esses pensamentos. Partiu para o ataque. Com um gesto discreto, ligou o aparelho de comunicação audiovisual e disse:
Informarei Man Regg de que o senhor andou revistando este gabinete na minha ausência.
O trunfo com que estava jogando era muito perigoso, mas produziu efeito. O ara gritou sem refletir:
Como soube disso? Quem con...? — a última sílaba não chegou a ser formada. Assa recuperara totalmente o controle de si mesmo.
Obrigada — disse Laury Marten com um sorriso, apontando para o audiovisual ligado. Não havia a menor dúvida de que ao menos cem aras haviam ouvido o diálogo. Laury Marten não precisaria de outras testemunhas.
Foi-se levantando.
Sei perfeitamente que não consegui grangear sua simpatia, Assa, mas possuo bons amigos. Quer que eu lhe diga onde estive hoje no zoológico? Dessa forma eu lhe pouparia o trabalho de mandar espiões atrás de mim pela terceira vez...
Soltou uma risada cristalina quando Assa se retirou com o rosto pálido, chiando alguma coisa que não conseguiu ouvir direito. Mas leu pensamentos dele, e estes se resumiam num feixe de receios de que Laury pudesse realizar sua ameaça de informar Man Regg sobre os incidentes.
Mas este já soubera de tudo através da comunicação audiovisual.
Meia hora depois um robô procurou Assa por ordem de Man Regg e lhe deu ordem para que deixasse o setor X-p num prazo extremamente curto e se apresentasse imediatamente para trabalhar em Durrha.
Durrha figurava no catálogo estelar de Árcon como o planeta que trazia maior número de sinais de advertência. Era ali que os aras estudavam as epidemias para as quais ainda não conheciam antídoto. Quem pusesse os pés naquele mundo, nunca mais sairia dali.
Assa dirigiu-se ao espaçoporto, acompanhado por dois robôs. Estes robôs permaneceram a seu lado até o momento em que entrou na nave. Depois disso, ficaram parados junto à entrada da mesma até o momento da decolagem. Após o pouso em Durrha, essa nave seria transformada em sucata.

* * *

John Marshall viu os três homens do serviço secreto dos aras chegarem e saírem.
Tal qual Huxul e muitos outros, acabaram por ser atingidos pela combinação entre a telepatia e a ação do projetor mental, feita pelo chefe dos mutantes. Apesar disso Marshall não se entregou à ilusão de que o perigo tivesse sido eliminado.
Era exatamente o contrário. O perigo teria que desabar sobre ele com a força de uma avalanche assim que ficassem livres da influência hipnótica. De qualquer maneira, a visita não deixara de trazer sua vantagem. Marshall ficou sabendo por que o serviço secreto dos aras o assediava tanto. A destruição dos dados não poderia eliminar a memória dos dois funcionários, que eram os chefes de Huxul.
Os três aras tinham vindo unicamente para realizar mais um exame minucioso de todos os dados ligados à sua pessoa. Pediram os documentos e pretendiam gravar o modelo das vibrações cerebrais dele. Porém acabaram retirando-se depois de três horas sem que tivessem feito o registro. Mas no dia seguinte, pelo meio-dia, a influência hipnótica devia cessar, e então se dariam conta de que algo de inexplicável havia acontecido por ocasião da visita ao estabelecimento de Ixt.
Marshall sabia perfeitamente que essa conjunção de fatos inexplicáveis provocaria o grau mais elevado de alarma no serviço secreto dos aras. E quem ponderasse todos os aspectos dessa situação, chegaria à conclusão de que a única alternativa que restava ao serviço secreto era a ação brutal.
Essas reflexões foram interrompidas por um chamado do sistema de comunicações locais. Era Otznam, que se encontrava no espaçoporto. Há poucos minutos havia pousado com a pequena nave de John Marshall. O mutante esteve a ponto de formular outra pergunta quando Otznam desligou.
Pode deixar”, pensou e concentrou a mente. Chamou Laury Marten. Esta pretendia entrar em contato com ele no momento em que exercia sua influência hipnótica sobre os três aras que se encontravam em seu escritório.
Laury Marten não respondeu!
Voltou a tentar, intensificou a concentração de sua mente, e finalmente a encontrou. Mas desta vez a mutante pediu que não a perturbasse.
Marshall logo reduziu a intensidade de sua transmissão telepática. Procurou identificar o que conseguira entender em seu breve contato telepático com Laury Marten.
O que estaria ela procurando no setor X-p? A energia telepática da moça atingira-o com a força de um curto-circuito, não com a intenção de absorver seus pensamentos, mas de os repelir.
8



O Setor X-p nunca funcionava em ponto morto.
Isso resultava do próprio conteúdo de suas atribuições, e os aras aceitavam a situação com a maior boa vontade. Neste ponto todos eles pareciam loucos. Em todos eles ardia a chama do desejo de desvendar os últimos segredos da vida. Mas, embora tantas vezes acreditassem encontrar-se no limiar do objetivo, sempre se viam diante de terras novas, ainda desconhecidas, banhadas pela luz do mistério.
O trabalho de Laury Marten estava concluído. O episódio com Assa, que ocorrera há três horas, mergulhou no esquecimento. Rodrigo de Berceo, o mexicano jovem e altivo, ocupava todos os pensamentos da moça. Mas naquele instante, devia esquecê-lo para concentrar-se em seu plano.
Estendida no leito, com os olhos fechados e as mãos entrelaçadas sob a cabeça, fez sua energia telepática perambular por todos os recintos do setor X-p que em sua opinião se destinavam à produção do soro revitalizador.
Vamos à sala seguinte. Três aras. Seus pensamentos? Nada. Outra sala. Vazia? Não; só havia robôs.”
Apesar da concentração de sua mente lembrou-se da advertência de Marshall relativa aos robôs de controle recentemente colocados em serviço.
Outra sala...”
As horas passaram. O sol desceu sob a linha do horizonte. A noite cobriu o setor X-p e o zoológico continental.
Laury Marten não desistiu. Procedeu assim para salvar Rodrigo, e poder aparecer diante de Perry Rhodan. Não queria ser a primeira mulher do Exército de Mutantes que, por uma questão de amor, falhasse no desempenho de sua missão.
Nada, nada... Em todos os lugares, nada.
Não encontrou a menor indicação sobre o lugar em que poderia encontrar as informações sobre o processo de fabricação do soro.
Já era meia-noite. Laury Marten continuava estendida sobre o leito, concentrada ao máximo. Não se cansava de procurar. Mas foi em vão.
Estava banhada em suor. Levantou. Devia entrar em contato com Marshall?
Decidiu outra coisa. Tomou banho, mudou de roupa e saiu do apartamento.
O elevador antigravitacional levou-a ao quinto pavimento do subsolo. Quando procurou abrir a porta que dava para essa área, a mesma não se movia.
Para Laury Marten, isso não representava qualquer problema. Possuía o dom da desintegração. Sabia neutralizar as ligações moleculares, transformando qualquer parede, fosse qual fosse o material de que era feita, numa simples nebulosa que atravessava sem a menor dificuldade.
Mantendo-se no mesmo lugar no interior do elevador, eliminou a barreira representada pela porta. Depois que a atravessou, esta voltou a adquirir sua configuração estável.
À sua frente estendeu-se o corredor monótono, que tinha o mesmo aspecto em todos os pavimentes e áreas do setor X-p.
Neutralizou duas barreiras de radiações. O alarma que deveria ter desencadeado não surgiu. O corredor estendia-se à sua frente, vazio e ameaçador. Não se perturbou com a solidão, nem com a extensão do caminho que teve de percorrer. Intensificou seu tato telepático, à procura de aras. Estes permaneciam atrás das portas pelas quais passava, debruçados sobre o trabalho. Ninguém deu a menor atenção ao ruído de seus passos.
Adiante! Nunca desempenhara uma tarefa com tamanha tranqüilidade.
Subitamente lembrou-se de Thora, esposa de Perry Rhodan. Antes que ela e John Marshall partissem para a missão, Perry Rhodan explicara-lhes objetivamente o que estava em jogo.
De repente Thora e Crest, os arcônidas, começaram a apresentar sinais de envelhecimento que não podiam ser detidos por nenhum dos meios empregados. O preparado produzido na Terra teve um efeito que pouco durou. Os soros dos arcônidas também não detinham o processo de envelhecimento. Ele ou Aquilo, o Ser de Peregrino, o planeta da vida eterna, recusara a ducha celular aos arcônidas. Ao que tudo indicava, o destino de Thora e Crest estava selado. Mas logo certos boatos sobre um soro revitalizador, capaz de prolongar a vida, começaram a circular entre os mercadores galácticos. Este soro era produzido pelos aras. Com isso Perry Rhodan recuperou a esperança. Naquele instante, Laury Marten se encontrava a caminho da sala de paredes grossas onde uma porção desse soro estava sendo guardada num frasco. E os dois arcônidas tanto precisavam desse revitalizador.
Bem longe, uma porta abriu-se. Um ara saiu para o corredor, lançou um olhar indiferente para a moça e uns dez metros à sua frente entrou num laboratório.
O passo da mutante não se tornara mais lento, nem revelava qualquer insegurança.
Ro-dri-go, soavam seus passos. Esse nome dava-lhe uma força imensa. E ela bem que precisava dessa força.
Aquela área do setor X-p, situada cinco pavimentos abaixo do solo, abrigava os centros de pesquisa mais secretos dos aras. Todo o resto era coisa de segunda ou terceira categoria. Aqui a vida estava guardada em ampolas. Quem recebesse uma injeção desse soro poderia continuar a viver; os outros teriam de morrer.
Laury Marten pôs a mão no bolso. Estava vazio. Acabara de tomar banho, mudara de roupa e se esquecera de tirar o diapasão do bolso do jaleco. Por que pensara tanto em Rodrigo? Devia voltar?
Ro-dri-go, diziam seus passos. Não voltou. Sentiu que só esta hora lhe poderia trazer a felicidade.
Teria de percorrer mais trinta passos.
Mais dez passos...
Mais dois! Viu-se diante da porta.
Tateou com sua energia telepática. O laboratório devia estar vazio, pois não encontrou impulsos de pensamentos.
A porta perdeu a coesão molecular. Sob o efeito desintegratório das energias da mutante transformou-se em um nada. Laury atravessou-a. Sabia onde estava guardada a ampola. O ara que hoje a guardara ali era um sujeito pedante. Ao largá-la, ficou refletindo sobre se realmente esse seria o lugar mais seguro. E Laury absorvera-lhe os pensamentos como uma esponja.
O laboratório brilhava na profusão das luzes. Num tom suave, os relês batiam, as espulas zumbiam, os líquidos pulsavam através de condutos transparentes, alguma coisa fervia e borbulhava.
A mutante parou de costas para a porta, que logo recuperou sua coesão molecular.
Três robôs estavam observando o curso da experiência.
O alarma soou na mente de Laury Marten. Qual dos três robôs seria o controlador?
Pôs a mão no bolso. Os dedos cingiram a coronha do radiador. Os olhos procuraram em vão localizar qualquer sinal que distinguisse as máquinas. Ouviu as juntas metálicas rangerem levemente, viu os movimentos quase humanos e continuou parada junto à porta.
Teria de passar por todos os três. A ampola com o soro estava do outro lado.
Como é que fui esquecer o diapasão?”, pensou, autorecriminando-se. Sabia perfeitamente quanto trabalho custara fabricar nas oficinas do setor X-p um diapasão que soasse exatamente a nota si.
De repente, teve a impressão de que estava vendo o rosto de Rodrigo e ouvia sua voz, que repetia estas palavras:
...mas amanhã não me darão nenhuma injeção de soro revitalizador. Em vez disso terei de respirar um gás que precipita o processo de envelhecimento. O ara, que me disse isso com uma risada, há vários anos fez a mesma experiência com Nara, a mongol. Quando vieram buscá-la, era uma moça alegre; quando voltou, transformara-se numa velha idiota.
Laury Marten não hesitou mais. Sabia como haviam sido programados os robôs do setor X-p, e fazia votos de que nessa área não houvesse nenhuma exceção.
Passou pelos três homens mecânicos. Estes nem sequer levantaram a cabeça.
Virada de lado, a mutante estendeu a mão em direção à ampola. Esperara encontrar um recipiente pequeno. Seus dedos fecharam-se em torno da ampola quando leu a anotação junto ao suporte. Eram apenas umas poucas palavras:
Hutwasd C-3 — 0,75 cudd...
Hutwasd era um dos ocupantes do zoológico dos aras. Com exceção da cabeça, monstruosa, tinha um aspecto bastante humano. No que dizia respeito à inteligência, situava-se acima dos homens. Apesar disso, os aras o haviam enquadrado na categoria C-3, que era aquela na qual também Rodrigo estava catalogado.
0,75 cudd correspondiam a três centímetros cúbicos.
Laury Marten não conseguiu prosseguir na leitura. Um dos robôs virara-se em sua direção.
Era o controlador!
Em sua testa metálica achatada, um diafragma abriu-se por uma fração de segundo, deixando a descoberto uma lente fluorescente dirigida exatamente sobre Laury.
Naquele instante, não só o alarma estava soando no setor de Defesa de X-p, mas até seu retrato estava sendo apresentado. Dentro de alguns minutos, todos os aras que se encontravam no gigantesco centro de pesquisas saberiam que a arcônida Arga Slim fora observada quando estava furtando uma porção do soro secreto.
O disparo da arma de radiações contra o robô foi um movimento de puro reflexo. O raio derreteu seu cérebro positrônico. Laury saltou para o lado, segurando a ampola de soro na mão, e o corpo metálico caiu ao chão, produzindo um ruído enorme.
O alarma não estava soando?
O próximo disparo de Laury Marten desfez o aparelho de comunicação audiovisual. Laury examinou o teto, enfiou a ampola num bolso interno, correu em direção à porta, subiu ao armário que se encontrava junto desta e fez com que o teto perdesse a coesão molecular. A mutante passou as mãos por este, segurou-se nas bordas estáveis e puxou o corpo para cima.
Viu-se diante de um velho ara que tremia que nem vara verde. O homem não conseguia compreender como a moça conseguiu atravessar o soalho do laboratório. Laury colocou-se de joelhos e apontou a arma de radiações para o ara.
Vire-se! — gritou. Subiu a uma mesa e, dali, escalou outro armário. Mais uma vez fez, com que o teto se tornasse “transparente” e viu-se diante de Sagala, que viera da sala contígua por ter sua atenção despertada por um ruído.
Laury Marten só havia visto o chefe do zoológico galáctico uma única vez e só trocara poucas palavras com ele. Enquanto Laury Marten apontava-lhe o radiador, Sagala respirava com dificuldade. Naquele instante era apenas a agente de Rhodan, fria e bem treinada.
Sagala — ordenou ao chefe do zoológico, que na escala hierárquica ficava ainda acima de Man Regg. — Acho que o senhor me ajudará a sair deste edifício. Ou será que prefere morrer neste instante?
Sagala não respondeu, não fez o menor movimento, apenas fitou a moça que estava com a arma na mão.
No setor X-p, as sereias de alarma continuavam a uivar. Os alto-falantes transmitiram a advertência do Centro de Defesa:
Todas as saídas estão bloqueadas por robôs de combate. Quem se atrever a sair do setor X-p será destruído.
Num tom que quase chegava a ser gentil Laury perguntou a Sagala:
Não quer ter a bondade de acompanhar-me a uma das saídas? É justamente na sua presença que me sinto mais segura. Por favor, Sagala!
O chefe do zoológico cedeu à ameaça da arma. Enquanto passou por ela, dirigindo-se à porta, chiou:
A senhora não irá longe, sua espiã arcônida!
Descreveu uma curva enorme em torno do lugar em que Laury penetrara pelo soalho. Não confiava na resistência daquela área. Quando se virou e viu que a mulher passava tranqüilamente por ali, empalideceu.
Quando chegou à porta, seu rosto adquiriu a cor da cera, pois Laury Marten lhe gritara uma advertência:
Sagala, antes que o senhor possa dar o alarma, apertarei o gatilho.
Sagala nem desconfiava de que a moça lia seus pensamentos, mas a advertência reforçada pela ameaça roubou-lhe o resto de disposição máscula. Tremendo de covardia saiu para o corredor, seguido de perto por Laury.

* * *

John Marshall sobressaltou-se em meio ao sono profundo.
A mensagem telepática expedida por Laury Marten atingiu-o com uma intensidade tremenda.
Quais seriam as notícias que pretendia dar-lhe?
Uma fuga através do zoológico? Quem estava com ela? O conde Rodrigo de Berceo? O que acontecera? Naquele instante, o setor X-p estava alarmando todo o planeta e mobilizava os guardas do zoológico, os terríveis froghs.
Não poderia deixá-lo na mão, John Marshall. Neste momento estamos fugindo na direção sul-sudoeste e procuramos mergulhar no deserto com o carro.
John Marshall soltou uma praga e vestiu-se apressadamente. Sua partida parecia agora uma fuga precipitada. Apesar de tudo, não perdeu a visão de conjunto da situação. Sempre que se lembrava de Laury Marten, fervia por dentro. O que haveria com essa moça? Estaria apaixonada por Rodrigo de Berceo? Só agora estava sabendo disso!
Está ficando maluca! — desabafou John Marshall, mas esse desabafo em nada alterava o fato de que o alarma estava soando em todo o planeta dos aras e todo um mundo estava saindo à caça da mutante Laury Marten e de Rodrigo.
John Marshall teria esbravejado ainda mais se soubesse que caminho Laury Marten havia tomado para sair do setor X-p.
Mal atingira o pavimento térreo, sempre acompanhada de Sagala, quando três robôs de combate surgiram diante da saída do elevador antigravitacional, seguidos por mais de uma dezena de aras muito exaltados.
Está aqui! — gritou Sagala num gesto de desespero, esperando ser morto pela arcônida, quando subitamente não havia mais ninguém atrás dele. Graças à sua força desintegradora Laury Marten atravessou as paredes do setor X-p, atravessou laboratórios e outras instalações, transformando-se num fantasma para muitos aras, que a viam sair da parede, atravessar a sala e desaparecer na parede oposta.
Finalmente atingiu o ar livre, bem longe das saídas vigiadas. Logo encontrou um veículo à luz das estrelas. Saiu em disparada, penetrando no zoológico galáctico, em direção ao lugar em que há quatro séculos seres humanos estavam sendo mantidos presos atrás de grades de radiações, como se fossem animais.
Agzt, o frogh que levitava num estado eufórico, desligou a barreira energética quando viu Laury aproximar-se com o carro. O monstro viperino, que se agitava numa alegria tumultuosa, nem percebeu que com isso pronunciara sua sentença de morte. Os froghs, despertados pelo alarma, acorreram de todos os lados e viram com seus penetrantes olhos de notívagos que um dos ocupantes do zoológico estava entrando num carro. Perceberam como a fuga se tornara possível, e a vida de Agzt cessou.
Laury Marten acelerou o carro ao máximo, dirigindo-se para sul-sudoeste a fim de sair do zoológico e mergulhar no deserto juntamente com Rodrigo.

* * *

John Marshall nunca achara o caminho até o espaçoporto de Trulan tão longo como nessa noite.
Finalmente chegou ao distribuidor. Marshall saiu ligeiro do trem expresso, atirou-se no antígravo, abriu caminho entre a confusão de gente e de inteligências humanóides e por fim se conteve, para não chamar a atenção em virtude da pressa.
Seu pequeno veículo espacial, que Otznam acabara de trazer da nave cilíndrica de Rohun, encontrava-se na extremidade oposta do espaçoporto de Trulan.
Entrou no apertado distribuidor. Tratava-se de um sistema de elevadores que penetrava no subsolo, onde as faixas rolantes se cruzavam em vários níveis, passando por baixo do campo de pouso nas direções mais diversas, a fim de que os tripulantes e passageiros das naves pudessem atingir os veículos espaciais pelo caminho mais rápido.
John Marshall, o mais antigo dos mutantes de Rhodan, sentiu-se um pouco mais tranqüilo. No entanto, não deveria pensar no comportamento incompreensível de Laury Marten.
O simples fato de que ela se apaixonara por Rodrigo não o abalou; não podia haver nada que fosse mais humano.
Acontece que Laury só o informara sobre isso num pedido de socorro telepático, e era isso que Marshall não compreendia.
Era um abuso de confiança. Isso mesmo! E quem sabe se a moça ainda lhe ocultava outras coisas?
Quando chegou ao fim da estrada deslizante e foi levado para cima por um elevador antigravitacional, viu-se sozinho. Olhou para todos os lados e saiu do elevador. Apenas o centro do porto espacial estava inundado pelas luzes, além das três áreas onde se situavam os gigantescos estaleiros nos quais podia ser reparada qualquer nave, por maior que fosse.
John Marshall enxugou o suor da testa. Mesmo à meia-noite, Tolimon era uma mundo tão quente que qualquer esforço se transformava num martírio.
Sem deter-se e sem ser observado atingiu a pequena nave. Mesmo ao olhar de uma pessoa desconfiada, a nave pareceria um simples veículo de passeio. Na verdade, porém, era aquilo que Rohun, com certo exagero, designara como um couraçado. Era uma nave super-rápida e bem armada, que possuía a qualidade de poder ser manobrada nas camadas mais densas da atmosfera com a mesma facilidade com que o era no espaço vazio.
O propulsor estava esquentando. A localização, o aparelho de radiocomunicação, tudo estava entrando em funcionamento. John Marshall olhou para o relógio. Mais cinco minutos. Depois poderia decolar.
Três dos alto-falantes de microfone captaram mensagens.
O inferno estava às soltas em Tolimon.
O aparelho de localização confirmou o fato. Tudo quanto era nave policial estacionada nesse mundo dos aras encontrava-se no ar e disparou na direção sul-sudoeste.
E John Marshall teria que penetrar nesse montão de naves empenhadas na busca, para encontrar Laury Marten e Rodrigo, recolhê-los a bordo e fugir.
Os últimos cinco minutos do tempo de aquecimento haviam passado.
Marshall soltou uma praga e decolou. Estava empenhado numa missão na qual as chances dele e de Laury Marten eram inferiores a um por cento.

* * *

Rodrigo, guarde a espada! Esse brinquedo me deixa nervosa — pediu Laury Marten, pela terceira vez, em tom enérgico, enquanto seu veículo desenvolvia a velocidade máxima, penetrando cada vez mais profundamente naquele triste deserto de pedra. Descreveu uma curva, subindo uma imensa encosta, e dobrou repentinamente à esquerda, para desviar-se de um desfiladeiro.
Com isso, aproximava-se dos froghs que encetavam a perseguição pelo sul. A resistência desses monstros viperinos dotados de muita inteligência a fez suar de medo. Já compreendera que, mais tempo ou menos tempo, cairia nas garras desses guardas zoológicos, a não ser que John Marshall viesse em seu auxílio.
Os froghs ganhavam terreno ininterruptamente. Estavam chegando mais perto.
Segure-se, Rodrigo!
O filho de um nobre espanhol e de uma princesa asteca, que fora mantido por quatrocentos anos numa jaula energética, só uma única vez, quando foi raptado na Terra, tivera oportunidade de entrar em contato direto com a tecnologia dos mundos de Árcon. Para ele, o veículo em que se encontrava devia ser uma obra do diabo.
Não se segurou. Sua reação veio tarde. A cabeça tombou para a frente no momento em que Laury freou para desviar-se de uma pedra, descrevendo uma curva arriscada. Rodrigo de Berceo não chegou a ouvir o grito angustiado de Laury Marten:
Rodrigo!
O corpo inconsciente estava pendurado no cinto; a cabeça balançava de um lado para outro.
A noite passou. O dia estava raiando em Tolimon. O alvorecer cinzento surgiu e, também, a mensagem telepática de Marshall.
Queria que ela lhe desse sua posição.
Laury Marten não sabia em que ponto do deserto se encontrava.
O carro estava penetrando num vale estreito. As montanhas gastas pelo tempo aproximaram-se, transformando o vale num desfiladeiro. Naquele instante um raio azul-pálido penetrou naquela estreita passagem, algumas centenas de metros à sua frente. A energia mortífera gaseificou a rocha.
Eram as naves policiais dos aras!
A caçada estava sendo feita também pelo ar.
John Marshall devia ser capaz de localizar o desprendimento de energia.
Enquanto o veículo freado começou a derrapar, passando rente ao paredão, Laury ainda teve sangue-frio para informar Marshall sobre o ataque da nave dos aras.
Já consegui — foi a resposta.
Poucos segundos depois, um minúsculo sol surgiu sobre o deserto do planeta Tolimon. O fogo deste consumiu a nave dos aras cujo raio azul-pálido só errara a nave de Laury por algumas centenas de metros.
Em meio a essa orgia de luzes, surgiu a nave de John Marshall, enfiou-se no vale estreito, sobrevoou a rocha que continuava a fervilhar, pousou a menos de vinte metros de Laury Marten. Marshall já estava de pé na pequena comporta, gesticulando para que a moça se apressasse.
O conde inconsciente representava uma carga excessiva para Laury Marten. John Marshall saltou e correu. Tirou o homem inconsciente dos braços da moça e berrou:
Vamos embora!
A vinte metros do lugar em que se encontravam, a pequena nave transformou-se numa nuvem gasosa. Um raio energético vindo do céu cinzento atingiu a nave, chegou a alcançar o carro, onde provocou um chiado e um borbulhar. Não havia mais nenhum veículo, apenas três seres humanos, dois dos quais corriam para salvar a vida. Corriam de volta, na mesma direção da qual vinham os froghs!
9



Vamos! — gritou John Marshall para Laury Marten e Rodrigo. — Os froghs ainda estão atrás de nós. Este foi o terceiro e...
Viu a expressão de pavor nos olhos de Laury. Virou-se instantaneamente.
O quadro com que se deparou apertou-lhe a garganta.
Os froghs vinham de três lados. Aproximavam-se das vítimas numa velocidade tresloucada.
O conde Rodrigo de Berceo, já refeito, passou rapidamente por cima do barranco e, com a espada desembainhada, correu ao encontro de um dos froghs.
Que idiota! — esbravejou Marshall, e suas armas de impulsos chiaram.
Mas o quinto frogh ainda estava vivo. E Rodrigo corria em sua direção. John e Laury não poderiam atirar sem colocar a vida de Rodrigo em perigo.
Para trás! — berrou Marshall num tremendo desespero.
Era tarde.
Marshall fechou os olhos. Não queria assistir à morte do conde.
Laury soltou um grito estridente:
Está dando outro golpe de espada.
O conde Rodrigo de Berceo, nascido em 1.652, no México, estava provando que era o melhor espadachim de seu século.
O corpo gigantesco do frogh girou, o monstro soltou um berro, ergueu o terço anterior do corpo, as oito ou dez “pernas” dobraram-se e o animal rolou de lado para não se mexer nunca mais.
Será que este sujeito ficou maluco? — gemeu Marshall quando viu o conde Rodrigo de Berceo aproximar-se daquela criatura, para logo em seguida dar um enorme salto para trás a fim de escapar à boca do frogh que procurou agarrá-lo.
Foi o último movimento do inimigo subjugado. John Marshall sentiu a expressão de felicidade no olhar da mutante. Olhou para Laury.
Se este conde soubesse adaptar-se à nossa técnica com a mesma habilidade com que maneja a espada e emprega sua coragem, talvez teríamos uma chance de sair vivos disto aqui.
Olhou Laury Marten.
Por que fica mexendo nesse bolso? — perguntou em tom contrariado. A duração da fuga, a sede que torturava todos eles, as lutas diurnas e noturnas com os froghs, tudo isso contribuiu para criar uma tensão extrema.
Quer saber o que tenho no bolso? É isto.
Tirou a grande ampola com o soro revitalizador.
John Marshall fitou o cilindro de vidro, depois passou a olhar a mutante. Naquele momento, Rodrigo já voltara a juntar-se a eles. Só então o telepata conseguiu gaguejar:
É só agora que a senhora me conta isso? Santo Deus, Laury Marten, isso só representa metade do caminho andado? Como pôde esquecer de me avisar?
Laury guardou cuidadosamente a ampola e disse:
Pois eu lhe transmiti a informação de que conhecia o lugar em que estava guardado o soro...
Mas só agora me comunicou que a senhora já o conseguiu, Laury. É uma diferença considerável.
Para remate da confusão, Rodrigo achou que devia assumir o papel de protetor. Falando em tom enfático, disse:
Quando tivermos voltado ao México, Laury levará uma vida digna de sua condição no castelo dos meus antepassados. Será venerada pelas damas da corte e pelos pajens, será admirada...
Coitado... — interrompeu-o John Marshall, sacudindo a cabeça. — Temos que prosseguir no nosso caminho. Se não encontrarmos água até hoje de noite, estaremos perdidos.

* * *

Já era noite, e nada de água. As montanhas desérticas irradiavam um calor igual ao do meio-dia. O ar era seco e escaldante. De todos os lados, o vento tangia nuvens de pó.
Três seres humanos cambaleavam através do vale, subiram pesadamente a primeira montanha, desceram aos tropeções, caíram, voltaram a pôr-se de pé, começaram a enxergar alucinações, soltavam gritos nervosos...
Estavam sendo golpeados pelo deserto selvagem e desolado de Tolimon. E os golpes eram mais cruéis que os dos aras e dos froghs.
Laury Marten foi a primeira que ficou parada e caiu. Também Rodrigo caiu de joelhos. Quando Marshall se virou para ver por que ninguém o seguia, suas forças também haviam chegado ao fim.
A sede os enlouquecia. Os lábios rachados e os olhos inflamados deixavam-nos desesperados. Enquanto cambaleava para trás, Marshall descobriu a caverna.
Uma esperança nascida do desespero surgiu em sua mente. Associou a palavra caverna à idéia de água.
Realmente encontraram água.
A poça refletiu a luz da lanterna. Era uma poça de cerca de cinco centímetros de profundidade e três metros de diâmetro.
Água! — balbuciou Rodrigo e deixou-se cair de joelhos para sorver o líquido. Naquele instante um radiador de impulsos chiou a seu lado e numa fração de segundo evaporou o líquido da poça.
John Marshall sentira o mau cheiro e agira sem perda de tempo.
Com um grito tresloucado, o conde atirou-se sobre o telepata. O punho de John Marshall teve mais força que o do nobre, pois este ainda continuava debilitado. Rodrigo caiu sem dizer uma palavra. John sentiu o olhar desesperado de Laury e logo ouviu seus soluços secos e desinibidos.
Será que o fim seria ali, numa caverna cuja temperatura era suficientemente baixa para restituir a três homens, sem que eles o percebessem, apenas a força suficiente para que pudessem raciocinar?
Hipercomunicador”, cochichou alguma coisa num incerto local do cérebro de Marshall. E, depois de longa espera, novamente: “Hipercomunicador.”
Acontece que por ocasião da destruição de sua nave também o hipercomunicador fora gaseificado. Foi só graças à sua precaução que estavam equipados ao menos com um bom sortimento de armas de radiações. Se não as tivesse levado quando pretendia recolher Laury e Rodrigo, o resultado da caçada dos froghs teria sido bem diferente.
Descobri! — gritou John Marshall. As paredes da caverna devolveram o eco. — Não perguntem nada... não perguntem nada — cochichou, antes que pudessem investir contra ele com perguntas. — Preciso concentrar-me... concentrar-me ao máximo...
Estava quase louco de sede. Apesar disso, devia transmitir seus impulsos telepáticos com a potência máxima, devia realizar alguma coisa que mesmo em condições normais representaria um máximo de desempenho. Se qualquer processo de mentalização exige certo dispêndio de energia, o impulso telepático representa um múltiplo dessa energia.
Rohun teria que ajudá-los. Rohun devia aparecer. Neste instante, Rohun devia cumprir sua promessa.
Concentração... Não conseguiu realizá-la.
Dispunha de um meio de entrar em contato com Rohun, comandante dos saltadores. O hipercomunicador.
Só falta um copo de água, John Marshall. — O martírio da sede retornara à sua mente, roubando-lhe as últimas reservas de energia. — Beber, beber apenas um gole de líquido fresco!
Bateu com as mãos na cabeça. Procurou espantar o martírio da sede. Concentrar-se. Concentrar-se ao máximo.
Não desistiu. Perry Rhodan nunca desistira. Não poderia abandonar Perry Rhodan. Este nunca abandonara seus colaboradores quando se encontravam em situação difícil.
Agora... Mas nada, nada. Outra tentativa. Mais outra.
Isso!
O impulso telepático chegara ao destino. Teria sido bastante forte para ligar o fantástico aparelho suplementar instalado sob o telhado de seu alojamento situado num cortiço?
Apalpar... apalpar em direção a Trulan, para certificar-se de que não se entregava a qualquer ilusão.
O hipercomunicador estava funcionando. Tinha certeza. Certeza absoluta.
Novo impulso energético dirigido ao aparelho suplementar. A regulagem telepática para a faixa de Rohun.
De repente, John Marshall sentiu-se forte. Superara a loucura da sede.
Ouviu a voz do comandante dos saltadores.
Sim, e agora... agora o aparelho estava processando os impulsos telepáticos, transformando-os em palavras. O condensador e o deformador foram intercalados. Nenhum ara seria capaz de acompanhar a troca de mensagens.
Irei até aí, Ixt! — foram estas as últimas palavras de Rohun.
Esperaram.

* * *

Rohun estava furioso. Contemplou Otznam e Tulin com os palavrões mais fortes de seu repertório. John Marshall, Laury Marten e Rodrigo assistiram à demonstração de fúria sem dizer uma palavra. Otznam e Tulin nem conseguiram falar.
Será que vocês estão sendo cavalgados por todos os demônios das galáxias? Como puderam trazer essa gente a bordo? Coloquem-nos na nave auxiliar, e desçam com eles para Tolimon. Quem terá sido o idiota que concebeu uma idéia como esta?
Mas para que tantas palavras? Levem-nos de volta para Tolimon. Levem-nos ao lugar que escolherem, mas não assumam qualquer risco. Não estou com vontade de ser transformado numa nuvem de gases juntamente com todas as naves de meu clã. Fora!
Marshall já se encontrava junto à escotilha quando o saltador o chamou de volta. O mercador galáctico lutava com o patife que havia dentro dele.
Ixt — disse em tom deprimido. — Mantenho minha palavra. Otznam e Tulin...
Está bem — interrompeu John Marshall. — Se os agentes do senhor nos levarem sãos e salvos até Tolimon, continuaremos amigos.
Estava sendo sincero, pois era quem melhor podia avaliar o que o mercador galáctico arriscara para salvá-los. Seria uma desfaçatez pedir que Rohun fizesse mais do que isso, pois traria o perigo de ele e seu clã serem destruídos por um golpe implacável dos aras.
Dali a pouco, estavam os cinco na pequena nave auxiliar, que os levaria de volta para Tolimon, um mundo dos aras.

* * *

Trulan, capital de Tolimon, estava do lado diurno. Otznam preferiu não arriscar a aproximação por esse lado.
O ar está fervilhando de impulsos de localização — disse em tom desanimado e apontou para os instrumentos que reagiam constantemente.
Marshall estava acomodado no assento do co-piloto. Não via nenhuma possibilidade de pousar sem ser notado. Devia haver outra circunstância que desencadeara novo alarma no mundo dos aras. Naquela altura, nem desconfiara de que ele mesmo era o motivo desse alarma.
Mais uma vez, Tulin olhou-o de lado. O olhar despertou a atenção do telepata e fez com que este lesse os pensamentos do agente dos saltadores.
Por coincidência, Tulin se encontrava ao lado do comandante Rohun quando o mercador recebeu o pedido de socorro de Marshall. Nem o comandante nem ele mesmo haviam reconhecido a voz de Marshall. Apenas a senha lhes deu certeza de que a mensagem não era uma armadilha.
O que houve com o senhor? — indagou o telepata ao agente ruivo.
Fico me perguntando todo o tempo onde está o hipercomunicador com que nos chamou, Ixt. Quando pousamos junto à caverna, o senhor não tinha nenhum hipercomunicador. Além disso, quando recebemos o chamado, até parecia que as palavras estivessem sendo pronunciadas por um cérebro positrônico. O que Rohun e eu ouvimos não foi uma voz humana.
Aqui está meu hipercomunicador — mentiu Marshall com o maior sangue-frio, exibindo seu cronômetro. — Isto é o alto-falante, e esta saliência pequenina contém o microfone. Nem sempre um hipercomunicador tem que ser um aparelho gigantesco.
Marshall sabia perfeitamente que estava usando um blefe infame, mas não tinha outra alternativa.
Os dois saltadores arregalaram os olhos.
O hipercomunicador está dentro daquilo?
Otznam não acreditava numa palavra do que Marshall acabara de contar. Este leu o que pretendia dizer quando surgiu uma nave dos aras e tomou a direção do ponto em que se encontravam.
Oba! — gritou o saltador. — Agora é para valer!
Antes que Marshall pudesse esboçar qualquer reação, Otznam colocou a minúscula nave de cabeça para baixo e disparou numa velocidade infernal em direção ao planeta Tolimon.
Marshall compreendeu as intenções do agente.
Otznam dirigia-se ao espaçoporto policial dos aras. O tráfego por ali era intensíssimo. E esse tráfego era sua única chance de escaparem aos aparelhos de localização, mergulhando em meio à confusão de naves que decolavam e pousavam.
A atmosfera, que já se tornara mais densa, começou a uivar em torno da nave. Otznam desceu numa velocidade medonha. A nave dos aras que os perseguia não esperara a manobra e demorara demais para modificar a rota. O agente dos saltadores ganhou alguns segundos muito preciosos.
Preparem-se para saltar! — gritou John Marshall, dirigindo-se a Laury Marten e Rodrigo. Tal qual os outros, também o homem do século XVII estava enfiado num traje espacial arcônida de boa qualidade. Laury Marten vivia tentando explicar a Rodrigo o que era um campo de deflexão, como se voava num traje espacial, o que vinha a ser a gravidade e como a mesma podia ser neutralizada. O conde não compreendia nada.
Muito obrigado, saltadores! — gritou Marshall para Tulin e Otznam quando, seguindo os companheiros, se enfiou na pequena comporta e fechou-a atrás de si.
A cinqüenta quilômetros de altura os três abandonaram a nave.
O conde Rodrigo de Berceo flutuava entre os outros. Mais uma vez acreditava que se tratasse de uma arte do demônio quando viu que pouco acima deles Otznam, o agente dos saltadores, girou a nave e disparou para o espaço. Desceram na vertical. Marshall e Laury Marten sabiam que suas presenças podiam ser constatadas pelas estações de superfície. Quanto mais depressa chegassem até ela, maiores seriam suas chances.
Rodrigo se debatia, pendurado num cabo de plástico. Acreditava ter chegado ao fim da vida e pensava que estava descendo às profundezas do inferno. Perdera a noção do tempo. Soltou um grito de pavor quando uma pressão invisível ameaçou esmagá-lo. Nesse instante, Marshall soltou um “graças a Deus”.
Pousaram a menos de um quilômetro do espaçoporto policial e junto a uma estrada.
Saiam dos trajes espaciais! — ordenou Marshall. — Enquanto usarmos estes trajes, todo mundo desconfiará de nós.
Esconderam os preciosos trajes arcônidas na moita mais próxima. Marshall lançou os olhos pela noite, para examinar o espaçoporto policial profusamente iluminado. Brincava cada vez mais intensamente com a idéia de arriscar, a partir dali, o salto para Trulan. Laury, que conhecia seus pensamentos, entusiasmou-se com o plano. Quando disse:
Dentro de três horas será dia. Marshall respondeu num tom que quase chegava a ser ameaçador:
Nessa hora, já estaremos em Trulan! Dali a uma hora, haviam chegado ao espaçoporto policial dos aras mas, por mais que lançassem os olhos em torno, não descobriram nenhuma nave que pudesse servir aos seus propósitos.
Finalmente uma pequena nave-correio surgiu da escuridão e pousou no campo espacial. Levava dois homens. Um dos aras saiu da nave. O piloto cochilava no seu assento.
John Marshall e Laury Marten dividiram a presa. Laury encarregou-se do ara, que entrou num carro e foi levado ao edifício da administração. Marshall já estava trabalhando o piloto com seu projetor mental. Depois disso, o homem não poderia ficar admirado ao ver três pessoas entrarem no aparelho e pedirem que as levasse a Trulan.
Laury Marten ficou perplexa com os pensamentos que extraiu do cérebro do oficial ara.
O tumulto reinante em Tolimon fora provocado por John Marshall. Era ele que estava sendo procurado febrilmente pelos aras. Estes dispunham de provas cabais de que o mutante de forma alguma poderia ser Ixt, o mercador galáctico.
Tudo pronto, Laury Marten! — disse Marshall e levantou-se. — Encareça ao conde a necessidade de não dizer uma única palavra, aconteça o que acontecer. Laury, a senhora responde por ele.
Mais uma vez, caminharam com o conde entre eles. Laury cochichava ininterruptamente para ele.
Encontraram-se com três aras. Passaram a menos de três metros. Dois tratamentos hipnóticos de curta duração influenciaram os médicos galácticos pela forma desejada. A nave-correio surgiu diante deles. A comporta estava aberta e a rampa havia sido descida. O piloto nem sequer se virou quando John Marshall parou junto à comporta interna para deixar que Rodrigo e Laury Marten passassem à sua frente.
Tudo pronto? — perguntou o ara que se encontrava no assento do piloto.
As escotilhas da comporta fecharam-se com um chiado.
Tudo pronto! — respondeu John Marshall com a maior tranqüilidade, embora tremesse por dentro.
Será que o serviço de controle do espaçoporto não ficaria desconfiado ao notar que uma nave decolava sem aviso?
Corriam atrás da noite que deslizava pelo planeta de Tolimon. Quando Trulan surgiu à sua frente, o crepúsculo começava a descer sobre a capital planetária.
Foi quando o serviço de controle constatou sua presença. Exigiu informações sobre as características da nave. O piloto identificou o aparelho. No mesmo instante o ara que se encontrava no setor de controle do espaçoporto de Trulan demonstrou uma gentileza extraordinária.
Reservamos a posição de estacionamento número onze para o senhor e mandaremos um carro.
Marshall e Laury Marten trocaram um olhar ligeiro. Jogariam seu jogo atrevido até o fim.
Por que andar se insistiam em levá-los de carro? E onde poderiam estar mais seguros que num veículo da policia ou do serviço secreto dos aras?
O piloto — que fora influenciado apenas no setor da inteligência, para não se preocupar com o destino do vôo e a identidade dos passageiros e retornar imediatamente ao espaçoporto policial — pousou levemente na posição número 11.
O carro já os esperava.
Os mutantes não perderam nem um segundo. Submeteram o motorista e o oficial do serviço secreto à força sugestiva.
Mais uma vez, Marshall foi o último a entrar, com o radiador de impulsos engatilhado no bolso.
E mais uma vez, não aconteceu coisa alguma.
Aonde vamos? — perguntou o motorista, virando-se para os passageiros, enquanto o ara do serviço secreto olhava fixamente para a frente, sem tomar conhecimento da presença deles.
Para a Rua do Grande Mo — respondeu Marshall.
Foi quando surgiu o incidente com o qual não contavam.
A central do serviço secreto dos aras chamou justamente o carro em que iam.
O motorista e o oficial não reagiram ao chamado.
O chamado foi repetido. Marshall decidiu levar o atrevimento ao grau de uma insolência inacreditável.
Obedecendo à ordem de Marshall, reforçada pelo projetor mental, o motorista gritou para dentro do microfone:
Viatura KK-107 em missão especial. Objetivo tem de ser mantido em segredo, porque existe perigo de escuta. Voltarei a chamar dentro de meia hora. Fim.
Desligue o transmissor — ordenou Marshall.
O motorista desligou.
Com a segurança de um sonâmbulo, o piloto fazia a viatura policial correr em direção à Rua do Grande Mo. John Marshall não se interessava nem pela confusão do tráfego, nem pelos movimentos da multidão. Procurou captar os pensamentos de Futgris, para descobrir as novidades ocorridas durante sua ausência.
Futgris não estava mais na loja dos animais.
Não havia nenhum vendedor por lá!
Em compensação, havia aras. Eram nove elementos do serviço secreto, que naquele instante revistavam cuidadosamente o escritório.
Acabarão encontrando o novo aparelho de telecomunicação!”, foi esta a primeira idéia que acudiu a Marshall.
Onde devo parar? — perguntou o motorista hipnotizado em meio às suas reflexões.
Aqui não — respondeu Marshall laconicamente. — Novo destino da viagem: a coluna do Grande Mo.
O motorista não se espantou. O oficial sentado a seu lado olhava fixamente para a frente. O projetor mental de Laury Marten mantinha-os em estado hipnótico.
John Marshall não via nem ouvia mais nada. Concentrou-se. Pensava em seu escritório. Pensou na pequena bomba incendiaria que havia no interior do mesmo. Encontrava-se sobre a escrivaninha e, sem o envoltório que a camuflava, não era maior que uma noz.
Deflagrar! — ordenaram seus pensamentos.
Aquela impressão voltou a surgir atrás de sua testa. Era algo de indefinível; parecia que um contato se fechava.
Marshall respirava pesadamente; reclinou-se no assento. Tinha certeza de ter conseguido. Dali a pouco, as sereias de alarma soariam na Rua do Grande Mo e a casa de animais de Ixt ficaria queimada até os alicerces. O fato de que, dali a alguns dias, os aras ainda se esforçariam para descobrir por que aquele fogo, parecendo tão inofensivo, não pôde ser apagado de forma alguma, não o preocupava nem um pouco.
Mais uma vez, a central do serviço secreto dos aras chamou:
Viatura KK-107, responda imediatamente e...
De repente, John Marshall teve um sexto sentido para o perigo.
Pare! — disse ao motorista.
O carro ainda estava andando quando Marshall saltou, puxou Laury Marten e arrastou Rodrigo. Naquele instante, viu duas viaturas do serviço policial pararem do outro lado.
Dali a quatro horas, quando a porta de aço arcônida se fechou atrás deles, Rodrigo de Berceo contemplou o alojamento de Marshall com um olhar de desprezo e Laury Marten sorriu pela primeira vez. Naquele instante, John Marshall sabia perfeitamente que a caçada dos aras ainda não havia chegado ao fim.
A pista que tinham deixado era muito nítida.
Esta pista se chamava Rodrigo de Berceo, o homem que usava botas cujos canos iam até os quadris, calça apertada no corpo, colete sem mangas com rendas no decote e chapéu de aba larga encimado por um penacho balouçante.
Rodrigo de Berceo levaria os aras ao esconderijo na área dos cortiços.
Temos uma bela perspectiva diante de nós — disse Marshall, absorto em seus pensamentos, e sacudiu a cabeça ao olhar para Laury Marten.
Esta não resistiu ao olhar. Sentada sobre a cama, baixou a cabeça.

* * *

Perry Rhodan aguçou os ouvidos. O hipercomunicador da abóbada de aço de Hellgate chamou.
Era outra mensagem de John Marshall.
Desta vez foi uma mensagem mais longa. À medida que Perry Rhodan ouvia, seu rosto tornava-se mais sério. Só uma vez exprimiu uma alegria imensa; foi quando Marshall o informou sobre a ampola de soro.
E os saltadores? — perguntou em tom áspero.
John Marshall não conseguia estabelecer contato com eles. Haviam-se retirado. O assunto era muito arriscado.
Nesse caso irei pessoalmente. Não faça mais nada. Cuide bem do soro. Agüente até minha chegada, Marshall. Demorarei alguns dias. Fim.




* * *
* *
*






John Marshall e Laury Marten, dois agentes cósmicos enviados a Tolimon um dos mundos dos aras — conseguiram um êxito parcial quando se apoderaram do soro revitalizador.
Mas não conseguiram sair de Tolimon.
Mais uma vez Perry Rhodan se vê obrigado a intervir pessoalmente. Chegará acompanhado de Gucky, como O Pseudo.
O Pseudo, é este o titulo do próximo volume da série Perry Rhodan.

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