Laury
Marten, uma moça prosaica do século XXI,
amava.
E o amor transformava todas as coisas como que por encanto. Ser
chamada de minha flor, fitar os olhos chamejantes do bem-amado,
sentir o braço forte que a enlaçava, tudo isso fez com que se
sentisse muito feliz. Seus pensamentos moviam-se exclusivamente em
torno do desejo de libertar Rodrigo das garras dos aras.
Rodrigo
não pôde dar uma indicação precisa sobre o dia em que recebera
pela última vez a injeção do soro revitalizador. Pelo calendário
terrano, devia fazer cerca de noventa anos.
E
noventa anos não significavam nada para os aras, que graças aos
recursos de sua medicina muitas vezes viviam mais de oito séculos.
As
informações, que Laury obteve através de Rodrigo, tornavam-se
importantes porque confirmavam o fato de que em X-p estava sendo
fabricado o soro.
Laury
Marten percebia constantemente no íntimo a advertência que lhe
fazia lembrar o motivo de sua vinda a Tolimon. Eram horas de
auto-recriminação e censura. Cada vez que isso acontecia tomava a
decisão de, por ocasião do primeiro contato telepático que
mantivesse com John Marshall, confessar o amor que sentia por Rodrigo
de Berceo.
Até
então, John Marshall ainda não sabia.
*
* *
Laury
desprendeu-se violentamente dos braços de Rodrigo. Passara mais de
duas horas de Tolimon em sua companhia.
Usando
o dom desintegratório de que era dotada, atravessou a barreira
energética e dirigiu-se ao veículo. Naquele instante, a cabeça de
um frogh saiu da fenda comprida e profunda que se encontrava à sua
esquerda e fitou-a com olhos viperinos.
Laury
Marten sentiu-se grudada ao solo. O desespero tomou conta de sua
mente. Tentou em vão captar os pensamentos do frogh. De tão nervosa
que estava, não conseguiu descobrir a freqüência em que funcionava
o cérebro dessa criatura.
— Arga
Slim, os aras estarão muito interessados em saber que a senhora
consegue atravessar uma barreira energética sem que a mesma tenha
sido desativada — disse o frogh com a voz fria.
O
brilho dos olhos dele foi ainda mais frio.
Seu
primeiro impulso foi o de destruir o frogh com seu radiador, mas a
lei de Perry Rhodan, segundo a qual só se devia matar em legítima
defesa, estava por demais enraizada em sua mente.
Encontrava-se
numa situação de legítima defesa, mas a mesma fora provocada por
sua própria negligência. Ainda teve energia para não mentir a si
mesma. Mas sentiu-se exausta; enfiou a mão no bolso e tirou o
concentrado energético. Engoliu-o.
O
efeito foi imediato e tão patente, que o frogh lançou uma pergunta:
— O
que é isso que a senhora acaba de tomar, Arga Slim?
Arga
disse o que era, enquanto procurava desesperadamente descobrir uma
saída.
— Permite
que eu experimente o concentrado?
A
víbora centopéica saiu da fenda no solo, aproximou-se rapidamente,
colocou-se diante de Laury Marten e estendeu um dos braços dotados
de mãos preênseis.
Para
ganhar tempo, Laury entregou um tablete ao frogh. Não acreditava que
fosse adiantar alguma coisa. O frogh engoliu o concentrado e
enrijeceu. A mutante teve medo da cobra-gigante. Enfiou discretamente
a mão no bolso em que se encontrava o radiador. Estava decidida a
matar o frogh.
A
risada penetrante dele a fez recuar alguns passos. A gargalhada do
frogh tornou-se mais sonora. A criatura levantou o terço anterior do
corpo e passou a contemplar a agente de Perry Rhodan a uma altura de
dois metros.
— Eu
lhe meti medo, Arga Slim? Queira desculpar. Apenas pretendia
agradecer-lhe.
— Quer
agradecer pela oportunidade de me entregar aos aras? — disse Laury
em tom furioso.
Sentia
que o frogh estava escarnecendo de sua perplexidade.
— Ora,
Arga Slim! — disse o frogh e sua voz transformou-se num cochicho. —
Nunca falarei sobre isso se amanhã a senhora me trouxer mil tabletes
destes. Se fizer isso por mim, serei o servo mais fiel que a senhora
já teve — a estranha proposta terminou num riso borbulhante.
De
repente, Laury descobriu a disposição de ânimo do frogh. O
concentrado provocara-lhe um estado de euforia; transformara-se num
estimulante, que provocava uma alegria exagerada.
O
estado do frogh tornava-se cada vez mais perturbador. A expressão
viperina desapareceu de seus olhos, que pareciam irradiar uma bondade
quase humana. Voltou a implorar que amanhã ou depois Laury lhe
trouxesse uma quantidade maior do concentrado.
— Posso
pensar nisso, desde que possa confiar em sua discrição, Agzt —
disse Laury.
O
frogh respondeu:
— Posso
até desligar qualquer barreira energética para a senhora, Arga
Slim. Acho que isso já poderia servir de base a um estado de
confiança recíproca.
Ao
anoitecer, quando Laury Marten terminou sua jornada diária no setor
X-p, nenhuma informação do frogh Agzt sobre a travessia da barreira
energética havia sido recebida naquele setor.
Aos
poucos, começou a acreditar que as intenções de Agzt eram
sinceras.
7
John
Marshall acabava de expedir de seu escritório a quinta mensagem de
telecomunicação destinada a Hellgate. Agora estava mudando para a
faixa de Rohun.
Não
tinha o menor receio de que o serviço secreto dos aras pudesse
interceptar sua mensagem. O transmissor especial de que se servia, da
mesma forma que aquele instalado em seu quartel-general na área dos
cortiços, dispunha de dispositivo especial que evitava a escuta,
mesmo que a estação receptora só dispusesse de um
hiper-comunicador comum. Apesar de tudo, Marshall e Rohun acoplaram
um condensador e um deformador de mensagens, uma vez completada a
ligação.
— Rohun,
estou precisando de minha nave. Quem poderia trazê-la até aqui?
Otznam?
O
rosto do comandante dos saltadores transformou-se numa careta.
— Ixt
— disse, prevenindo Marshall — já está na hora de desistir do
jogo perigoso que está realizando com os aras. As notícias que
acabo de receber de Egmon me fizeram envelhecer cem anos. Se as
coisas continuarem nesse ritmo, acabarei figurando na lista dos aras.
O senhor sabe perfeitamente o que significaria isso.
Isso
significaria o desaparecimento total, a morte, a destruição.
Marshall
não se impressionou com o aviso que Rohun acabara de lhe dar.
— Quando
souber que a nave chegou, eu me sentirei muito melhor, Rohun. Quando
poderei contar com a chegada? É Otznam que vai trazê-la, não é?
— Está
certo. Mas não quero que Otznam participe da ação — exigiu
Rohun. — Quando é que o senhor se dignará a explicar as coisas
esquisitas que aconteceram em sua loja quando o tal do Huxul, um ara
do Serviço de Vigilância de Estrangeiros, apareceu com a jaula com
os dois hiobargulus e procurou devolver os animais? Se não tivesse
passado por coisa semelhante com o tal do Huxul, já teria entregado
Otznam a um hospital dos aras para submetê-lo a um exame de sanidade
mental.
Marshall
preferiu não responder. Tranqüilizou o comandante dos saltadores.
— Prometo-lhe
que Otznam não participará da ação, Rohun. Mas acho que poderei
contar com aquilo que o senhor me prometeu, isto é, com sua ajuda
irrestrita quando eu o chamar.
— Ixt,
fique sabendo que não sou nenhum ara, mas um mercador galáctico —
berrou Rohun para dentro do microfone que se encontrava a quarenta
anos-luz. — Otznam partirá imediatamente em sua nave. Há alguns
dias dei uma olhada naquilo: é um verdadeiro couraçado! Onde é que
essas naves são construídas, Ixt?
Mais
uma vez, o mutante fez como se não tivesse entendido.
— Onde
está Tulin, Rohun? Não consigo encontrá-lo aqui em Trulan.
— Está
aqui! — exclamou Rohun. — Mas voltará com Otznam, pois tenho uma
tarefa para ele. O senhor não poderá utilizá-lo na execução de
seu plano.
— Está
com medo? — perguntou John Marshall em tom lacônico.
— Antes
ter medo que transformar-se em cobaia dos aras.
Mais
uma vez, tivera de ouvir uma alusão desse tipo. Agora partira de
Rohun, comandante dos saltadores.
— Cobaia
dos aras! Apesar das leis de Árcon! Fim, Rohun! — disse Marshall
ao mercador galáctico e desligou.
A
mensagem telepática de Laury Marten estava interferindo na palestra
pelo telecomunicador.
Marshall
perscrutou seu interior.
Uma
hora depois, foi transmitida a sexta mensagem condensada de
hipercomunicação destinada a Hellgate, onde Rhodan esperava,
protegido por uma abóbada de aço.
Laury
Marten descobrira uma sala do setor X-p onde estava guardada uma
ampola do soro revitalizador, que dentro em breve seria utilizada
numa experiência.
Quando
Futgris entrou no escritório do chefe, Ixt estava debruçado sobre o
primeiro relatório enviado por Kolex. Este relatório continha
informações sobre a escala intelectual em que deviam ser incluídas
as criaturas por ele vendidas ao zoológico.
Vinte
e uma espécies, totalmente diferentes no aspecto exterior,
pertenciam à escala intelectual A-l.
Era
o grupo ao qual pertenciam os arcônidas, os aras e os mercadores
galácticos.
Quando
levantou os olhos e reconheceu Futgris, John Marshall teve de
recuperar-se do abalo que sofrera.
Sentia-se
como um homem que acabara de cometer um crime. Os seres que, em
virtude de seu aspecto terrificante, haviam sido considerados
animais, possuíam o grau mais elevado de inteligência; e ele os
transformara em peças de exibição do zoológico. Colocara-os nas
mãos dos aras. A exclamação de Rohun ressoava no ouvido de
Marshall:
“Antes
ter medo que transformar-se em cobaia dos aras.”
Lançou
um olhar indagador para Futgris.
O
ara, que admirava e venerava o chefe, procurou ocultar o tremor da
voz:
— Chefe
— disse com os olhos errantes — três funcionários do serviço
secreto querem falar com o senhor.
— Ah,
é? — respondeu John Marshall sem trair o nervosismo. Foi
empurrando para o lado o relatório que acabara de receber de Kolex.
— Convide-os a entrarem, Futgris. Nunca se deve fazer esperar um
funcionário do serviço secreto.
*
* *
Agzt,
o frogh, parou na beira da estrada quando Laury Marten se aproximou
velozmente com seu veículo, freou e desceu. Entregou-lhe uma sacola,
que a mão preênsil segurou avidamente. Examinou o conteúdo.
— Mais
uma vez, apenas cinqüenta cápsulas de concentrado? — perguntou em
tom decepcionado.
Laury,
que perdera todo medo do corrupto monstro viperino, colocou a mão no
pescoço do mesmo. A pele do frogh parecia couro. Laury notou seu
estado eufórico e advertiu-o:
— Em
cada visita eu lhe trarei cinqüenta cápsulas, Agzt; nada mais. Não
quero que este preparado, que é totalmente inofensivo para os aras e
os arcônidas, transforme você num doente ou num viciado. Gaste suas
reservas com muita parcimônia, pois poderá acontecer que vários
dias se passem entre uma visita e outra.
A
sacola com os tabletes estava no interior da enorme mão preênsil. O
frogh saltitava sobre seus inúmeros pés e voltava a asseverar
ininterruptamente que não era nenhum ingrato.
Tal
qual fizera por ocasião de suas visitas anteriores, Laury pediu-lhe
que prestasse atenção e a avisasse imediatamente assim que qualquer
outro veículo se aproximasse desse setor do zoológico. Depois,
recorreu ao dom da desintegração, atravessou a barreira energética
como se esta não existisse e saiu correndo.
Do
alto da elevação pôde ver o palácio asteca. Como sempre, Rodrigo
estava parado junto à enorme entrada principal, mas hoje não abanou
o chapéu de penacho em sua direção.
Olhou-a
sem dizer uma palavra e seu rosto permaneceu imóvel quando Laury se
encontrava diante dele.
— Aconteceu
alguma coisa, querido?
Rodrigo
de Berceo se mantinha rígido.
Seu
olhar vagou ao longe. A boca estava reduzida a um traço e os olhos
chispavam de indignação. Laury enlaçou-o e implorou que falasse.
— Amanhã
terei de ir ao lugar em que estão os aras!
Para
Laury, isso equivaleria ao fim do mundo de Tolimon.
— Não,
Rodrigo! Não é possível! Oh, não... — o desespero apertou-lhe a
garganta. Foi sacudida por um soluço sem lágrimas.
Mas
logo se controlou. E com a calma recuperou a capacidade de
raciocinar. Seu plano estava formado.
— Rodrigo,
quando os aras virão buscá-lo? — perguntou apressadamente.
— Amanhã.
Mas não receie por minha vida. Eu, o conde...
— Amanhã,
quando? De manhã? A que hora?
O
conde Rodrigo de Berceo falava o arcônida e o intercosmo, mas não
tinha conhecimento do que seria “hora”.
Só
depois de muitas perguntas, Laury conseguiu descobrir a hora
aproximada em que Berceo seria levado para submeter-se à
experiência.
— Ouça
— disse e o triunfo estava escrito em seus olhos. — Amanhã os
aras encontrarão esta grade vazia. Fugirei com os quatro humanos que
estão aqui. Vamos pedir aos outros que se preparem.
Laury
Marten não se deu conta de que naquele instante estava renunciando
aos ensinamentos que recebera como agente do Exército dos Mutantes.
Seu plano não era apenas uma obra de diletantismo, mas uma
temeridade, pois obrigaria John Marshall a praticar atos que nunca
teriam entrado nas cogitações desse mutante extremamente ponderado.
Alf
Tornsten, o camponês sueco, foi o primeiro que recusou. Nara, a
velha mongol, nem compreendeu o que a moça desejava e limitou-se a
fazer soar sua risada de louca. Mutumbo, o africano, apenas a brindou
com um palavrão e deixou-a falando só.
Rodrigo
não esperara outra coisa. E comentou de modo altivo:
— Nem
me sentiria bem na presença desses idiotas.
A
moça respondeu com uma frieza na voz:
— Peço-lhe
que procure compreender que, hoje em dia, na Terra, um conde não
vale mais que o mais miserável dos homens. Rodrigo, quatrocentos
anos se passaram, e você terá que dar um salto por cima desse
tempo. Por favor, permita que eu o ajude! Esqueça-se de que é o
conde de Berceo. Comece com isso e...
Mais
uma vez, a moça sucumbiu ao charme do conde, ao seu sorriso e ao seu
amor. Seu beijo a fez calar-se. Sentiu-se segura nos seus braços,
até que a realidade cruel evocasse o amanhã em seu espírito.
— Rodrigo,
você não estará mais aqui amanhã, quando chegarem os aras! —
com essa jura solene despediu-se e, após poucos minutos, seu veículo
corria vertiginosamente em direção ao setor X-p.
Durante
a viagem estabeleceu contato telepático com John Marshall.
— Não
perturbe! —
foi a resposta que captou.
Laury
Marten estava tão preocupada com o destino de Rodrigo que nem
chegara a sentir a agitação furiosa da mente de Marshall.
Como
que num estado de transe penetrou no setor X-p, atravessou os feixes
de luz que a desinfetaram e entrou em seu gabinete. Só viu o médico
ara Assa quando já estava sentada atrás de sua escrivaninha,
olhando desesperadamente para a frente.
— O
que está sentindo, Arga?
A
pergunta a fez estremecer.
— Dor
de cabeça — respondeu.
No
mesmo instante compreendeu que, ao proferir estas palavras,
pronunciara sua sentença de morte.
Nos
mundos pertencentes ao Império de Árcon, quer fossem eles habitados
pelos arcônidas, pelos aras e pelos saltadores, a dor de cabeça era
desconhecida. O cérebro dessas raças tão semelhantes nunca
experimentara esse mal.
Por
outro lado, porém, nesse mesmo instante Laury Marten voltara a
transformar-se na agente de Rhodan.
Não
perdeu o autocontrole. Com o maior sangue-frio, deu jogo à sua
capacidade telepática para revolver a mente de Assa.
Este
revistara o gabinete durante sua ausência.
E
pela segunda vez, mandara espiões atrás dela para descobrir por que
ia tantas vezes ao zoológico.
Não
confiava nela.
E
a esta hora nem acreditava que fosse uma arcônida. Fez reviver suas
lembranças. Aí encontrou Perry Rhodan, os aras, o planeta da
medicina, Aralon, a lua Laros. Sim, depois disso houve a destruição
da Terra, o planeta de Perry Rhodan, e o desaparecimento deste
juntamente com a gigantesca Titan.
De
repente, Assa achou que a suspeita de que essa jovem pudesse manter
contato com Perry Rhodan era ridícula. Mas as dores de cabeça?
Quem
seria essa mulher?
Laury
Marten leu tudo isso num espaço de poucos segundos e controlou seu
procedimento de acordo com esses pensamentos. Partiu para o ataque.
Com um gesto discreto, ligou o aparelho de comunicação audiovisual
e disse:
— Informarei
Man Regg de que o senhor andou revistando este gabinete na minha
ausência.
O
trunfo com que estava jogando era muito perigoso, mas produziu
efeito. O ara gritou sem refletir:
— Como
soube disso? Quem con...? — a última sílaba não chegou a ser
formada. Assa recuperara totalmente o controle de si mesmo.
— Obrigada
— disse Laury Marten com um sorriso, apontando para o audiovisual
ligado. Não havia a menor dúvida de que ao menos cem aras haviam
ouvido o diálogo. Laury Marten não precisaria de outras
testemunhas.
Foi-se
levantando.
— Sei
perfeitamente que não consegui grangear sua simpatia, Assa, mas
possuo bons amigos. Quer que eu lhe diga onde estive hoje no
zoológico? Dessa forma eu lhe pouparia o trabalho de mandar espiões
atrás de mim pela terceira vez...
Soltou
uma risada cristalina quando Assa se retirou com o rosto pálido,
chiando alguma coisa que não conseguiu ouvir direito. Mas leu
pensamentos dele, e estes se resumiam num feixe de receios de que
Laury pudesse realizar sua ameaça de informar Man Regg sobre os
incidentes.
Mas
este já soubera de tudo através da comunicação audiovisual.
Meia
hora depois um robô procurou Assa por ordem de Man Regg e lhe deu
ordem para que deixasse o setor X-p num prazo extremamente curto e se
apresentasse imediatamente para trabalhar em Durrha.
Durrha
figurava no catálogo estelar de Árcon como o planeta que trazia
maior número de sinais de advertência. Era ali que os aras
estudavam as epidemias para as quais ainda não conheciam antídoto.
Quem pusesse os pés naquele mundo, nunca mais sairia dali.
Assa
dirigiu-se ao espaçoporto, acompanhado por dois robôs. Estes robôs
permaneceram a seu lado até o momento em que entrou na nave. Depois
disso, ficaram parados junto à entrada da mesma até o momento da
decolagem. Após o pouso em Durrha, essa nave seria transformada em
sucata.
*
* *
John
Marshall viu os três homens do serviço secreto dos aras chegarem e
saírem.
Tal
qual Huxul e muitos outros, acabaram por ser atingidos pela
combinação entre a telepatia e a ação do projetor mental, feita
pelo chefe dos mutantes. Apesar disso Marshall não se entregou à
ilusão de que o perigo tivesse sido eliminado.
Era
exatamente o contrário. O perigo teria que desabar sobre ele com a
força de uma avalanche assim que ficassem livres da influência
hipnótica. De qualquer maneira, a visita não deixara de trazer sua
vantagem. Marshall ficou sabendo por que o serviço secreto dos aras
o assediava tanto. A destruição dos dados não poderia eliminar a
memória dos dois funcionários, que eram os chefes de Huxul.
Os
três aras tinham vindo unicamente para realizar mais um exame
minucioso de todos os dados ligados à sua pessoa. Pediram os
documentos e pretendiam gravar o modelo das vibrações cerebrais
dele. Porém acabaram retirando-se depois de três horas sem que
tivessem feito o registro. Mas no dia seguinte, pelo meio-dia, a
influência hipnótica devia cessar, e então se dariam conta de que
algo de inexplicável havia acontecido por ocasião da visita ao
estabelecimento de Ixt.
Marshall
sabia perfeitamente que essa conjunção de fatos inexplicáveis
provocaria o grau mais elevado de alarma no serviço secreto dos
aras. E quem ponderasse todos os aspectos dessa situação, chegaria
à conclusão de que a única alternativa que restava ao serviço
secreto era a ação brutal.
Essas
reflexões foram interrompidas por um chamado do sistema de
comunicações locais. Era Otznam, que se encontrava no espaçoporto.
Há poucos minutos havia pousado com a pequena nave de John Marshall.
O mutante esteve a ponto de formular outra pergunta quando Otznam
desligou.
“Pode
deixar”,
pensou e concentrou a mente. Chamou Laury Marten. Esta pretendia
entrar em contato com ele no momento em que exercia sua influência
hipnótica sobre os três aras que se encontravam em seu escritório.
Laury
Marten não respondeu!
Voltou
a tentar, intensificou a concentração de sua mente, e finalmente a
encontrou. Mas desta vez a mutante pediu que não a perturbasse.
Marshall
logo reduziu a intensidade de sua transmissão telepática. Procurou
identificar o que conseguira entender em seu breve contato telepático
com Laury Marten.
O
que estaria ela procurando no setor X-p? A energia telepática da
moça atingira-o com a força de um curto-circuito, não com a
intenção de absorver seus pensamentos, mas de os repelir.
8
O
Setor X-p nunca funcionava em ponto morto.
Isso
resultava do próprio conteúdo de suas atribuições, e os aras
aceitavam a situação com a maior boa vontade. Neste ponto todos
eles pareciam loucos. Em todos eles ardia a chama do desejo de
desvendar os últimos segredos da vida. Mas, embora tantas vezes
acreditassem encontrar-se no limiar do objetivo, sempre se viam
diante de terras novas, ainda desconhecidas, banhadas pela luz do
mistério.
O
trabalho de Laury Marten estava concluído. O episódio com Assa, que
ocorrera há três horas, mergulhou no esquecimento. Rodrigo de
Berceo, o mexicano jovem e altivo, ocupava todos os pensamentos da
moça. Mas naquele instante, devia esquecê-lo para concentrar-se em
seu plano.
Estendida
no leito, com os olhos fechados e as mãos entrelaçadas sob a
cabeça, fez sua energia telepática perambular por todos os recintos
do setor X-p que em sua opinião se destinavam à produção do soro
revitalizador.
“Vamos
à sala seguinte. Três aras. Seus pensamentos? Nada. Outra sala.
Vazia? Não; só havia robôs.”
Apesar
da concentração de sua mente lembrou-se da advertência de Marshall
relativa aos robôs de controle recentemente colocados em serviço.
“Outra
sala...”
As
horas passaram. O sol desceu sob a linha do horizonte. A noite cobriu
o setor X-p e o zoológico continental.
Laury
Marten não desistiu. Procedeu assim para salvar Rodrigo, e poder
aparecer diante de Perry Rhodan. Não queria ser a primeira mulher do
Exército de Mutantes que, por uma questão de amor, falhasse no
desempenho de sua missão.
Nada,
nada... Em todos os lugares, nada.
Não
encontrou a menor indicação sobre o lugar em que poderia encontrar
as informações sobre o processo de fabricação do
soro.
Já
era meia-noite. Laury Marten continuava estendida sobre o leito,
concentrada ao máximo. Não se cansava de procurar. Mas foi em vão.
Estava
banhada em suor. Levantou. Devia entrar em contato com Marshall?
Decidiu
outra coisa. Tomou banho, mudou de roupa e saiu do apartamento.
O
elevador antigravitacional levou-a ao quinto pavimento do subsolo.
Quando procurou abrir a porta que dava para essa área, a mesma não
se movia.
Para
Laury Marten, isso não representava qualquer problema. Possuía o
dom da desintegração. Sabia neutralizar as ligações moleculares,
transformando qualquer parede, fosse qual fosse o material de que era
feita, numa simples nebulosa que atravessava sem a menor dificuldade.
Mantendo-se
no mesmo lugar no interior do elevador, eliminou a barreira
representada pela porta. Depois que a atravessou, esta voltou a
adquirir sua configuração estável.
À
sua frente estendeu-se o corredor monótono, que tinha o mesmo
aspecto em todos os pavimentes e áreas do setor X-p.
Neutralizou
duas barreiras de radiações. O alarma que deveria ter desencadeado
não surgiu. O corredor estendia-se à sua frente, vazio e ameaçador.
Não se perturbou com a solidão, nem com a extensão do caminho que
teve de percorrer. Intensificou seu tato telepático, à procura de
aras. Estes permaneciam atrás das portas pelas quais passava,
debruçados sobre o trabalho. Ninguém deu a menor atenção ao ruído
de seus passos.
Adiante!
Nunca desempenhara uma tarefa com tamanha tranqüilidade.
Subitamente
lembrou-se de Thora, esposa de Perry Rhodan. Antes que ela e John
Marshall partissem para a missão, Perry Rhodan explicara-lhes
objetivamente o que estava em jogo.
De
repente Thora e Crest, os arcônidas, começaram a apresentar sinais
de envelhecimento que não podiam ser detidos por nenhum dos meios
empregados. O preparado produzido na Terra teve um efeito que pouco
durou. Os soros dos arcônidas também não detinham o processo de
envelhecimento. Ele
ou
Aquilo,
o Ser de
Peregrino, o planeta da vida eterna, recusara a ducha celular aos
arcônidas. Ao que tudo indicava, o destino de Thora e Crest estava
selado. Mas logo certos boatos sobre um soro revitalizador, capaz de
prolongar a vida, começaram a circular entre os mercadores
galácticos. Este soro era produzido pelos aras. Com isso Perry
Rhodan recuperou a esperança. Naquele instante, Laury Marten se
encontrava a caminho da sala de paredes grossas onde uma porção
desse soro estava sendo guardada num frasco. E os dois arcônidas
tanto precisavam desse revitalizador.
Bem
longe, uma porta abriu-se. Um ara saiu para o corredor, lançou um
olhar indiferente para a moça e uns dez metros à sua frente entrou
num laboratório.
O
passo da mutante não se tornara mais lento, nem revelava qualquer
insegurança.
Ro-dri-go,
soavam
seus passos. Esse nome dava-lhe uma força imensa. E ela bem que
precisava dessa força.
Aquela
área do setor X-p, situada cinco pavimentos abaixo do solo, abrigava
os centros de pesquisa mais secretos dos aras. Todo o resto era coisa
de segunda ou terceira categoria. Aqui a vida estava guardada em
ampolas. Quem recebesse uma injeção desse soro poderia continuar a
viver; os outros teriam de morrer.
Laury
Marten pôs a mão no bolso. Estava vazio. Acabara de tomar banho,
mudara de roupa e se esquecera de tirar o diapasão do bolso do
jaleco. Por que pensara tanto em Rodrigo? Devia voltar?
Ro-dri-go,
diziam
seus passos. Não voltou. Sentiu que só esta hora lhe poderia trazer
a felicidade.
Teria
de percorrer mais trinta passos.
Mais
dez passos...
Mais
dois! Viu-se diante da porta.
Tateou
com sua energia telepática. O laboratório devia estar vazio, pois
não encontrou impulsos de pensamentos.
A
porta perdeu a coesão molecular. Sob o efeito desintegratório das
energias da mutante transformou-se em um nada. Laury atravessou-a.
Sabia onde estava guardada a ampola. O ara que hoje a guardara ali
era um sujeito pedante. Ao largá-la, ficou refletindo sobre se
realmente esse seria o lugar mais seguro. E Laury absorvera-lhe os
pensamentos como uma esponja.
O
laboratório brilhava na profusão das luzes. Num tom suave, os relês
batiam, as espulas zumbiam, os líquidos pulsavam através de
condutos transparentes, alguma coisa fervia e borbulhava.
A
mutante parou de costas para a porta, que logo recuperou sua coesão
molecular.
Três
robôs estavam observando o curso da experiência.
O
alarma soou na mente de Laury Marten. Qual dos três robôs seria o
controlador?
Pôs
a mão no bolso. Os dedos cingiram a coronha do radiador. Os olhos
procuraram em vão localizar qualquer sinal que distinguisse as
máquinas. Ouviu as juntas metálicas rangerem levemente, viu os
movimentos quase humanos e continuou parada junto à porta.
Teria
de passar por todos os três. A ampola com o soro estava do outro
lado.
“Como
é que fui esquecer o diapasão?”,
pensou, autorecriminando-se. Sabia perfeitamente quanto trabalho
custara fabricar nas oficinas do setor X-p um diapasão que soasse
exatamente a nota si.
De
repente, teve a impressão de que estava vendo o rosto de Rodrigo e
ouvia sua voz, que repetia estas palavras:
— ...mas
amanhã não me darão nenhuma injeção de soro revitalizador. Em
vez disso terei de respirar um gás que precipita o processo de
envelhecimento. O ara, que me disse isso com uma risada, há vários
anos fez a mesma experiência com Nara, a mongol. Quando vieram
buscá-la, era uma moça alegre; quando voltou, transformara-se numa
velha idiota.
Laury
Marten não hesitou mais. Sabia como haviam sido programados os robôs
do setor X-p, e fazia votos de que nessa área não houvesse nenhuma
exceção.
Passou
pelos três homens mecânicos. Estes nem sequer levantaram a cabeça.
Virada
de lado, a mutante estendeu a mão em direção à ampola. Esperara
encontrar um recipiente pequeno. Seus dedos fecharam-se em torno da
ampola quando leu a anotação junto ao suporte. Eram apenas umas
poucas palavras:
Hutwasd
—
C-3
— 0,75 cudd...
Hutwasd
era um dos ocupantes do zoológico dos aras. Com exceção da cabeça,
monstruosa, tinha um aspecto bastante humano. No que dizia respeito à
inteligência, situava-se acima dos homens. Apesar disso, os aras o
haviam enquadrado na categoria C-3, que era aquela na qual também
Rodrigo estava catalogado.
0,75
cudd correspondiam a três centímetros cúbicos.
Laury
Marten não conseguiu prosseguir na leitura. Um dos robôs virara-se
em sua direção.
Era
o controlador!
Em
sua testa metálica achatada, um diafragma abriu-se por uma fração
de segundo, deixando a descoberto uma lente fluorescente dirigida
exatamente sobre Laury.
Naquele
instante, não só o alarma estava soando no setor de Defesa de X-p,
mas até seu retrato estava sendo apresentado. Dentro de alguns
minutos, todos os aras que se encontravam no gigantesco centro de
pesquisas saberiam que a arcônida Arga Slim fora observada quando
estava furtando uma porção do soro secreto.
O
disparo da arma de radiações contra o robô foi um movimento de
puro reflexo. O raio derreteu seu cérebro positrônico. Laury saltou
para o lado, segurando a ampola de soro na mão, e o corpo metálico
caiu ao chão, produzindo um ruído enorme.
O
alarma não estava soando?
O
próximo disparo de Laury Marten desfez o aparelho de comunicação
audiovisual. Laury examinou o teto, enfiou a ampola num bolso
interno, correu em direção à porta, subiu ao armário que se
encontrava junto desta e fez com que o teto perdesse a coesão
molecular. A mutante passou as mãos por este, segurou-se nas bordas
estáveis e puxou o corpo para cima.
Viu-se
diante de um velho ara que tremia que nem vara verde. O homem não
conseguia compreender como a moça conseguiu atravessar o soalho do
laboratório. Laury colocou-se de joelhos e apontou a arma de
radiações para o ara.
— Vire-se!
— gritou. Subiu a uma mesa e, dali, escalou outro armário. Mais
uma vez fez, com que o teto se tornasse “transparente”
e viu-se diante de Sagala, que viera da sala contígua por ter sua
atenção despertada por um ruído.
Laury
Marten só havia visto o chefe do zoológico galáctico uma única
vez e só trocara poucas palavras com ele. Enquanto Laury Marten
apontava-lhe o radiador, Sagala respirava com dificuldade. Naquele
instante era apenas a agente de Rhodan, fria e bem treinada.
— Sagala
— ordenou ao chefe do zoológico, que na escala hierárquica ficava
ainda acima de Man Regg. — Acho que o senhor me ajudará a sair
deste edifício. Ou será que prefere morrer neste instante?
Sagala
não respondeu, não fez o menor movimento, apenas fitou a moça que
estava com a arma na mão.
No
setor X-p, as sereias de alarma continuavam a uivar. Os alto-falantes
transmitiram a advertência do Centro de Defesa:
— Todas
as saídas estão bloqueadas por robôs de combate. Quem se atrever a
sair do setor X-p será destruído.
Num
tom que quase chegava a ser gentil Laury perguntou a Sagala:
— Não
quer ter a bondade de acompanhar-me a uma das saídas? É justamente
na sua presença que me sinto mais segura. Por favor, Sagala!
O
chefe do zoológico cedeu à ameaça da arma. Enquanto passou por
ela, dirigindo-se à porta, chiou:
— A
senhora não irá longe, sua espiã arcônida!
Descreveu
uma curva enorme em torno do lugar em que Laury penetrara pelo
soalho. Não confiava na resistência daquela área. Quando se virou
e viu que a mulher passava tranqüilamente por ali, empalideceu.
Quando
chegou à porta, seu rosto adquiriu a cor da cera, pois Laury Marten
lhe gritara uma advertência:
— Sagala,
antes que o senhor possa dar o alarma, apertarei o gatilho.
Sagala
nem desconfiava de que a moça lia seus pensamentos, mas a
advertência reforçada pela ameaça roubou-lhe o resto de disposição
máscula. Tremendo de covardia saiu para o corredor, seguido de perto
por Laury.
*
* *
John
Marshall sobressaltou-se em meio ao sono profundo.
A
mensagem telepática expedida por Laury Marten atingiu-o com uma
intensidade tremenda.
Quais
seriam as notícias que pretendia dar-lhe?
Uma
fuga através do zoológico? Quem estava com ela? O conde Rodrigo de
Berceo? O que acontecera? Naquele instante, o setor X-p estava
alarmando todo o planeta e mobilizava os guardas do zoológico, os
terríveis froghs.
— Não
poderia deixá-lo na mão, John Marshall. Neste momento estamos
fugindo na direção sul-sudoeste e procuramos mergulhar no deserto
com o carro.
John
Marshall soltou uma praga e vestiu-se apressadamente. Sua partida
parecia agora uma fuga precipitada. Apesar de tudo, não perdeu a
visão de conjunto da situação. Sempre que se lembrava de Laury
Marten, fervia por dentro. O que haveria com essa moça? Estaria
apaixonada por Rodrigo de Berceo? Só agora estava sabendo disso!
— Está
ficando maluca! — desabafou John Marshall, mas esse desabafo em
nada alterava o fato de que o alarma estava soando em todo o planeta
dos aras e todo um mundo estava saindo à caça da mutante Laury
Marten e de Rodrigo.
John
Marshall teria esbravejado ainda mais se soubesse que caminho Laury
Marten havia tomado para sair do setor X-p.
Mal
atingira o pavimento térreo, sempre acompanhada de Sagala, quando
três robôs de combate surgiram diante da saída do elevador
antigravitacional, seguidos por mais de uma dezena de aras muito
exaltados.
— Está
aqui! — gritou Sagala num gesto de desespero, esperando ser morto
pela arcônida, quando subitamente não havia mais ninguém atrás
dele. Graças à sua força desintegradora Laury Marten atravessou as
paredes do setor X-p, atravessou laboratórios e outras instalações,
transformando-se num fantasma para muitos aras, que a viam sair da
parede, atravessar a sala e desaparecer na parede oposta.
Finalmente
atingiu o ar livre, bem longe das saídas vigiadas. Logo encontrou um
veículo à luz das estrelas. Saiu em disparada, penetrando no
zoológico galáctico, em direção ao lugar em que há quatro
séculos seres humanos estavam sendo mantidos presos atrás de grades
de radiações, como se fossem animais.
Agzt,
o frogh que levitava num estado eufórico, desligou a barreira
energética quando viu Laury aproximar-se com o carro. O monstro
viperino, que se agitava numa alegria tumultuosa, nem percebeu que
com isso pronunciara sua sentença de morte. Os froghs, despertados
pelo alarma, acorreram de todos os lados e viram com seus penetrantes
olhos de notívagos que um dos ocupantes do zoológico estava
entrando num carro. Perceberam como a fuga se tornara possível, e a
vida de Agzt cessou.
Laury
Marten acelerou o carro ao máximo, dirigindo-se para sul-sudoeste a
fim de sair do zoológico e mergulhar no deserto juntamente com
Rodrigo.
*
* *
John
Marshall nunca achara o caminho até o espaçoporto de Trulan tão
longo como nessa noite.
Finalmente
chegou ao distribuidor. Marshall saiu ligeiro do trem expresso,
atirou-se no antígravo, abriu caminho entre a confusão de gente e
de inteligências humanóides e por fim se conteve, para não chamar
a atenção em virtude da pressa.
Seu
pequeno veículo espacial, que Otznam acabara de trazer da nave
cilíndrica de Rohun, encontrava-se na extremidade oposta do
espaçoporto de Trulan.
Entrou
no apertado distribuidor. Tratava-se de um sistema de elevadores que
penetrava no subsolo, onde as faixas rolantes se cruzavam em vários
níveis, passando por baixo do campo de pouso nas direções mais
diversas, a fim de que os tripulantes e passageiros das naves
pudessem atingir os veículos espaciais pelo caminho mais rápido.
John
Marshall, o mais antigo dos mutantes de Rhodan, sentiu-se um pouco
mais tranqüilo. No entanto, não deveria pensar no comportamento
incompreensível de Laury Marten.
O
simples fato de que ela se apaixonara por Rodrigo não o abalou; não
podia haver nada que fosse mais humano.
Acontece
que Laury só o informara sobre isso num pedido de socorro
telepático, e era isso que Marshall não compreendia.
Era
um abuso de confiança. Isso mesmo! E quem sabe se a moça ainda lhe
ocultava outras coisas?
Quando
chegou ao fim da estrada deslizante e foi levado para cima por um
elevador antigravitacional, viu-se sozinho. Olhou para todos os lados
e saiu do elevador. Apenas o centro do porto espacial estava inundado
pelas luzes, além das três áreas onde se situavam os gigantescos
estaleiros nos quais podia ser reparada qualquer nave, por maior que
fosse.
John
Marshall enxugou o suor da testa. Mesmo à meia-noite, Tolimon era
uma mundo tão quente que qualquer esforço se transformava num
martírio.
Sem
deter-se e sem ser observado atingiu a pequena nave. Mesmo ao olhar
de uma pessoa desconfiada, a nave pareceria um simples veículo de
passeio. Na verdade, porém, era aquilo que Rohun, com certo exagero,
designara como um couraçado. Era uma nave super-rápida e bem
armada, que possuía a qualidade de poder ser manobrada nas camadas
mais densas da atmosfera com a mesma facilidade com que o era no
espaço vazio.
O
propulsor estava esquentando. A localização, o aparelho de
radiocomunicação, tudo estava entrando em funcionamento. John
Marshall olhou para o relógio. Mais cinco minutos. Depois poderia
decolar.
Três
dos alto-falantes de microfone captaram mensagens.
O
inferno estava às soltas em Tolimon.
O
aparelho de localização confirmou o fato. Tudo quanto era nave
policial estacionada nesse mundo dos aras encontrava-se no ar e
disparou na direção sul-sudoeste.
E
John Marshall teria que penetrar nesse montão de naves empenhadas na
busca, para encontrar Laury Marten e Rodrigo, recolhê-los a bordo e
fugir.
Os
últimos cinco minutos do tempo de aquecimento haviam passado.
Marshall
soltou uma praga e decolou. Estava empenhado numa missão na qual as
chances dele e de Laury Marten eram inferiores a um por cento.
*
* *
— Rodrigo,
guarde a espada! Esse brinquedo me deixa nervosa — pediu Laury
Marten, pela terceira vez, em tom enérgico, enquanto seu veículo
desenvolvia a velocidade máxima, penetrando cada vez mais
profundamente naquele triste deserto de pedra. Descreveu uma curva,
subindo uma imensa encosta, e dobrou repentinamente à esquerda, para
desviar-se de um desfiladeiro.
Com
isso, aproximava-se dos froghs que encetavam a perseguição pelo
sul. A resistência desses monstros viperinos dotados de muita
inteligência a fez suar de medo. Já compreendera que, mais tempo ou
menos tempo, cairia nas garras desses guardas zoológicos, a não ser
que John Marshall viesse em seu auxílio.
Os
froghs ganhavam terreno ininterruptamente. Estavam chegando mais
perto.
— Segure-se,
Rodrigo!
O
filho de um nobre espanhol e de uma princesa asteca, que fora mantido
por quatrocentos anos numa jaula energética, só uma única vez,
quando foi raptado na Terra, tivera oportunidade de entrar em contato
direto com a tecnologia dos mundos de Árcon. Para ele, o veículo em
que se encontrava devia ser uma obra do diabo.
Não
se segurou. Sua reação veio tarde. A cabeça tombou para a frente
no momento em que Laury freou para desviar-se de uma pedra,
descrevendo uma curva arriscada. Rodrigo de Berceo não chegou a
ouvir o grito angustiado de Laury Marten:
— Rodrigo!
O
corpo inconsciente estava pendurado no cinto; a cabeça balançava de
um lado para outro.
A
noite passou. O dia estava raiando em Tolimon. O alvorecer cinzento
surgiu e, também, a mensagem telepática de Marshall.
Queria
que ela lhe desse sua posição.
Laury
Marten não sabia em que ponto do deserto se encontrava.
O
carro estava penetrando num vale estreito. As montanhas gastas pelo
tempo aproximaram-se, transformando o vale num desfiladeiro. Naquele
instante um raio azul-pálido penetrou naquela estreita passagem,
algumas centenas de metros à sua frente. A energia mortífera
gaseificou a rocha.
Eram
as naves policiais dos aras!
A
caçada estava sendo feita também pelo ar.
John
Marshall devia ser capaz de localizar o desprendimento de energia.
Enquanto
o veículo freado começou a derrapar, passando rente ao paredão,
Laury ainda teve sangue-frio para informar Marshall sobre o ataque da
nave dos aras.
— Já
consegui —
foi a resposta.
Poucos
segundos depois, um minúsculo sol surgiu sobre o deserto do planeta
Tolimon. O fogo deste consumiu a nave dos aras cujo raio azul-pálido
só errara a nave de Laury por algumas centenas de metros.
Em
meio a essa orgia de luzes, surgiu a nave de John Marshall, enfiou-se
no vale estreito, sobrevoou a rocha que continuava a fervilhar,
pousou a menos de vinte metros de Laury Marten. Marshall já estava
de pé na pequena comporta, gesticulando para que a moça se
apressasse.
O
conde inconsciente representava uma carga excessiva para Laury
Marten. John Marshall saltou e correu. Tirou o homem inconsciente dos
braços da moça e berrou:
— Vamos
embora!
A
vinte metros do lugar em que se encontravam, a pequena nave
transformou-se numa nuvem gasosa. Um raio energético vindo do céu
cinzento atingiu a nave, chegou a alcançar o carro, onde provocou um
chiado e um borbulhar. Não havia mais nenhum veículo, apenas três
seres humanos, dois dos quais corriam para salvar a vida. Corriam de
volta, na mesma direção da qual vinham os froghs!
9
— Vamos!
—
gritou John Marshall para Laury Marten e Rodrigo. — Os froghs ainda
estão atrás de nós. Este foi o terceiro e...
Viu
a expressão de pavor nos olhos de Laury. Virou-se instantaneamente.
O
quadro com que se deparou apertou-lhe a garganta.
Os
froghs vinham de três lados. Aproximavam-se das vítimas numa
velocidade tresloucada.
O
conde Rodrigo de Berceo, já refeito, passou rapidamente por cima do
barranco e, com a espada desembainhada, correu ao encontro de um dos
froghs.
— Que
idiota! — esbravejou Marshall, e suas armas de impulsos chiaram.
Mas
o quinto frogh ainda estava vivo. E Rodrigo corria em sua direção.
John e Laury não poderiam atirar sem colocar a vida de Rodrigo em
perigo.
— Para
trás! — berrou Marshall num tremendo desespero.
Era
tarde.
Marshall
fechou os olhos. Não queria assistir à morte do conde.
Laury
soltou um grito estridente:
— Está
dando outro golpe de espada.
O
conde Rodrigo de Berceo, nascido em 1.652, no México, estava
provando que era o melhor espadachim de seu século.
O
corpo gigantesco do frogh girou, o monstro soltou um berro, ergueu o
terço anterior do corpo, as oito ou dez “pernas”
dobraram-se e o animal rolou de lado para não se mexer nunca mais.
— Será
que este sujeito ficou maluco? — gemeu Marshall quando viu o conde
Rodrigo de Berceo aproximar-se daquela criatura, para logo em seguida
dar um enorme salto para trás a fim de escapar à boca do frogh que
procurou agarrá-lo.
Foi
o último movimento do inimigo subjugado. John Marshall sentiu a
expressão de felicidade no olhar da mutante. Olhou para Laury.
— Se
este conde soubesse adaptar-se à nossa técnica com a mesma
habilidade com que maneja a espada e emprega sua coragem, talvez
teríamos uma chance de sair vivos disto aqui.
Olhou
Laury Marten.
— Por
que fica mexendo nesse bolso? — perguntou em tom contrariado. A
duração da fuga, a sede que torturava todos eles, as lutas diurnas
e noturnas com os froghs, tudo isso contribuiu para criar uma tensão
extrema.
— Quer
saber o que tenho no bolso? É isto.
Tirou
a grande ampola com o soro revitalizador.
John
Marshall fitou o cilindro de vidro, depois passou a olhar a mutante.
Naquele momento, Rodrigo já voltara a juntar-se a eles. Só então o
telepata conseguiu gaguejar:
— É
só agora que a senhora me conta isso? Santo Deus, Laury Marten, isso
só representa metade do caminho andado? Como pôde esquecer de me
avisar?
Laury
guardou cuidadosamente a ampola e disse:
— Pois
eu lhe transmiti a informação de que conhecia o lugar em que estava
guardado o soro...
— Mas
só agora me comunicou que a senhora já o conseguiu, Laury. É uma
diferença considerável.
Para
remate da confusão, Rodrigo achou que devia assumir o papel de
protetor. Falando em tom enfático, disse:
— Quando
tivermos voltado ao México, Laury levará uma vida digna de sua
condição no castelo dos meus antepassados. Será venerada pelas
damas da corte e pelos pajens, será admirada...
— Coitado...
— interrompeu-o John Marshall, sacudindo a cabeça. — Temos que
prosseguir no nosso caminho. Se não encontrarmos água até hoje de
noite, estaremos perdidos.
*
* *
Já
era noite, e nada de água. As montanhas desérticas irradiavam um
calor igual ao do meio-dia. O ar era seco e escaldante. De todos os
lados, o vento tangia nuvens de pó.
Três
seres humanos cambaleavam através do vale, subiram pesadamente a
primeira montanha, desceram aos tropeções, caíram, voltaram a
pôr-se de pé, começaram a enxergar alucinações, soltavam gritos
nervosos...
Estavam
sendo golpeados pelo deserto selvagem e desolado de Tolimon. E os
golpes eram mais cruéis que os dos aras e dos froghs.
Laury
Marten foi a primeira que ficou parada e caiu. Também Rodrigo caiu
de joelhos. Quando Marshall se virou para ver por que ninguém o
seguia, suas forças também haviam chegado ao fim.
A
sede os enlouquecia. Os lábios rachados e os olhos inflamados
deixavam-nos desesperados. Enquanto cambaleava para trás, Marshall
descobriu a caverna.
Uma
esperança nascida do desespero surgiu em sua mente. Associou a
palavra caverna à idéia de água.
Realmente
encontraram água.
A
poça refletiu a luz da lanterna. Era uma poça de cerca de cinco
centímetros de profundidade e três metros de diâmetro.
— Água!
— balbuciou Rodrigo e deixou-se cair de joelhos para sorver o
líquido. Naquele instante um radiador de impulsos chiou a seu lado e
numa fração de segundo evaporou o líquido da poça.
John
Marshall sentira o mau cheiro e agira sem perda de tempo.
Com
um grito tresloucado, o conde atirou-se sobre o telepata. O punho de
John Marshall teve mais força que o do nobre, pois este ainda
continuava debilitado. Rodrigo caiu sem dizer uma palavra. John
sentiu o olhar desesperado de Laury e logo ouviu seus soluços secos
e desinibidos.
Será
que o fim seria ali, numa caverna cuja temperatura era
suficientemente baixa para restituir a três homens, sem que eles o
percebessem, apenas a força suficiente para que pudessem raciocinar?
“Hipercomunicador”,
cochichou alguma coisa num incerto local do cérebro de Marshall. E,
depois de longa espera, novamente: “Hipercomunicador.”
Acontece
que por ocasião da destruição de sua nave também o
hipercomunicador fora gaseificado. Foi só graças à sua precaução
que estavam equipados ao menos com um bom sortimento de armas de
radiações. Se não as tivesse levado quando pretendia recolher
Laury e Rodrigo, o resultado da caçada dos froghs teria sido bem
diferente.
— Descobri!
— gritou John Marshall. As paredes da caverna devolveram o eco. —
Não perguntem nada... não perguntem nada — cochichou, antes que
pudessem investir contra ele com perguntas. — Preciso
concentrar-me... concentrar-me ao máximo...
Estava
quase louco de sede. Apesar disso, devia transmitir seus impulsos
telepáticos com a potência máxima, devia realizar alguma coisa que
mesmo em condições normais representaria um máximo de desempenho.
Se qualquer processo de mentalização exige certo dispêndio de
energia, o impulso telepático representa um múltiplo dessa energia.
Rohun
teria que ajudá-los. Rohun devia aparecer. Neste instante, Rohun
devia cumprir sua promessa.
Concentração...
Não conseguiu realizá-la.
Dispunha
de um meio de entrar em contato com Rohun, comandante dos saltadores.
O hipercomunicador.
— Só
falta um copo de água, John Marshall. — O martírio da sede
retornara à sua mente, roubando-lhe as últimas reservas de energia.
— Beber, beber apenas um gole de líquido fresco!
Bateu
com as mãos na cabeça. Procurou espantar o martírio da sede.
Concentrar-se. Concentrar-se ao máximo.
Não
desistiu. Perry Rhodan nunca desistira. Não poderia abandonar Perry
Rhodan. Este nunca abandonara seus colaboradores quando se
encontravam em situação difícil.
Agora...
Mas nada, nada. Outra tentativa. Mais outra.
Isso!
O
impulso telepático chegara ao destino. Teria sido bastante forte
para ligar o fantástico aparelho suplementar instalado sob o telhado
de seu alojamento situado num cortiço?
Apalpar...
apalpar em direção a Trulan, para certificar-se de que não se
entregava a qualquer ilusão.
O
hipercomunicador estava funcionando. Tinha certeza. Certeza absoluta.
Novo
impulso energético dirigido ao aparelho suplementar. A regulagem
telepática para a faixa de Rohun.
De
repente, John Marshall sentiu-se forte. Superara a loucura da sede.
Ouviu
a voz do comandante dos saltadores.
Sim,
e agora... agora o aparelho estava processando os impulsos
telepáticos, transformando-os em palavras. O condensador e o
deformador foram intercalados. Nenhum ara seria capaz de acompanhar a
troca de mensagens.
— Irei
até aí, Ixt! — foram estas as últimas palavras de Rohun.
Esperaram.
*
* *
Rohun
estava furioso. Contemplou Otznam e Tulin com os palavrões mais
fortes de seu repertório. John Marshall, Laury Marten e Rodrigo
assistiram à demonstração de fúria sem dizer uma palavra. Otznam
e Tulin nem conseguiram falar.
— Será
que vocês estão sendo cavalgados por todos os demônios das
galáxias? Como puderam trazer essa gente a bordo? Coloquem-nos na
nave auxiliar, e desçam com eles para Tolimon. Quem terá sido o
idiota que concebeu uma idéia como esta?
Mas
para que tantas palavras? Levem-nos de volta para Tolimon. Levem-nos
ao lugar que escolherem, mas não assumam qualquer risco. Não estou
com vontade de ser transformado numa nuvem de gases juntamente com
todas as naves de meu clã. Fora!
Marshall
já se encontrava junto à escotilha quando o saltador o chamou de
volta. O mercador galáctico lutava com o patife que havia dentro
dele.
— Ixt
— disse em tom deprimido. — Mantenho minha palavra. Otznam e
Tulin...
— Está
bem — interrompeu John Marshall. — Se os agentes do senhor nos
levarem sãos e salvos até Tolimon, continuaremos amigos.
Estava
sendo sincero, pois era quem melhor podia avaliar o que o mercador
galáctico arriscara para salvá-los. Seria uma desfaçatez pedir que
Rohun fizesse mais do que isso, pois traria o perigo de ele e seu clã
serem destruídos por um golpe implacável dos aras.
Dali
a pouco, estavam os cinco na pequena nave auxiliar, que os levaria de
volta para Tolimon, um mundo dos aras.
*
* *
Trulan,
capital de Tolimon, estava do lado diurno. Otznam preferiu não
arriscar a aproximação por esse lado.
— O
ar está fervilhando de impulsos de localização — disse em tom
desanimado e apontou para os instrumentos que reagiam constantemente.
Marshall
estava acomodado no assento do co-piloto. Não via nenhuma
possibilidade de pousar sem ser notado. Devia haver outra
circunstância que desencadeara novo alarma no mundo dos aras.
Naquela altura, nem desconfiara de que ele mesmo era o motivo desse
alarma.
Mais
uma vez, Tulin olhou-o de lado. O olhar despertou a atenção do
telepata e fez com que este lesse os pensamentos do agente dos
saltadores.
Por
coincidência, Tulin se encontrava ao lado do comandante Rohun quando
o mercador recebeu o pedido de socorro de Marshall. Nem o comandante
nem ele mesmo haviam reconhecido a voz de Marshall. Apenas a senha
lhes deu certeza de que a mensagem não era uma armadilha.
— O
que houve com o senhor? — indagou o telepata ao agente ruivo.
— Fico
me perguntando todo o tempo onde está o hipercomunicador com que nos
chamou, Ixt. Quando pousamos junto à caverna, o senhor não tinha
nenhum hipercomunicador. Além disso, quando recebemos o chamado, até
parecia que as palavras estivessem sendo pronunciadas por um cérebro
positrônico. O que Rohun e eu ouvimos não foi uma voz humana.
— Aqui
está meu hipercomunicador — mentiu Marshall com o maior
sangue-frio, exibindo seu cronômetro. — Isto é o alto-falante, e
esta saliência pequenina contém o microfone. Nem sempre um
hipercomunicador tem que ser um aparelho gigantesco.
Marshall
sabia perfeitamente que estava usando um blefe infame, mas não tinha
outra alternativa.
Os
dois saltadores arregalaram os olhos.
— O
hipercomunicador está dentro daquilo?
Otznam
não acreditava numa palavra do que Marshall acabara de contar. Este
leu o que pretendia dizer quando surgiu uma nave dos aras e tomou a
direção do ponto em que se encontravam.
— Oba!
— gritou o saltador. — Agora é para valer!
Antes
que Marshall pudesse esboçar qualquer reação, Otznam colocou a
minúscula nave de cabeça para baixo e disparou numa velocidade
infernal em direção ao planeta Tolimon.
Marshall
compreendeu as intenções do agente.
Otznam
dirigia-se ao espaçoporto policial dos aras. O tráfego por ali era
intensíssimo. E esse tráfego era sua única chance de escaparem aos
aparelhos de localização, mergulhando em meio à confusão de naves
que decolavam e pousavam.
A
atmosfera, que já se tornara mais densa, começou a uivar em torno
da nave. Otznam desceu numa velocidade medonha. A nave dos aras que
os perseguia não esperara a manobra e demorara demais para modificar
a rota. O agente dos saltadores ganhou alguns segundos muito
preciosos.
— Preparem-se
para saltar! — gritou John Marshall, dirigindo-se a Laury Marten e
Rodrigo. Tal qual os outros, também o homem do século XVII
estava
enfiado num traje espacial arcônida de boa qualidade. Laury Marten
vivia tentando explicar a Rodrigo o que era um campo de deflexão,
como se voava num traje espacial, o que vinha a ser a gravidade e
como a mesma podia ser neutralizada. O conde não compreendia nada.
— Muito
obrigado, saltadores! — gritou Marshall para Tulin e Otznam quando,
seguindo os companheiros, se enfiou na pequena comporta e fechou-a
atrás de si.
A
cinqüenta quilômetros de altura os três abandonaram a nave.
O
conde Rodrigo de Berceo flutuava entre os outros. Mais uma vez
acreditava que se tratasse de uma arte do demônio quando viu que
pouco acima deles Otznam, o agente dos saltadores, girou a nave e
disparou para o espaço. Desceram na vertical. Marshall e Laury
Marten sabiam que suas presenças podiam ser constatadas pelas
estações de superfície. Quanto mais depressa chegassem até ela,
maiores seriam suas chances.
Rodrigo
se debatia, pendurado num cabo de plástico. Acreditava ter chegado
ao fim da vida e pensava que estava descendo às profundezas do
inferno. Perdera a noção do tempo. Soltou um grito de pavor quando
uma pressão invisível ameaçou esmagá-lo. Nesse instante, Marshall
soltou um “graças
a Deus”.
Pousaram
a menos de um quilômetro do espaçoporto policial e junto a uma
estrada.
— Saiam
dos trajes espaciais! — ordenou Marshall. — Enquanto usarmos
estes trajes, todo mundo desconfiará de nós.
Esconderam
os preciosos trajes arcônidas na moita mais próxima. Marshall
lançou os olhos pela noite, para examinar o espaçoporto policial
profusamente iluminado. Brincava cada vez mais intensamente com a
idéia de arriscar, a partir dali, o salto para Trulan. Laury, que
conhecia seus pensamentos, entusiasmou-se com o plano. Quando disse:
— Dentro
de três horas será dia. Marshall respondeu num tom que quase
chegava a ser ameaçador:
— Nessa
hora, já estaremos em Trulan! Dali a uma hora, haviam chegado ao
espaçoporto policial dos aras mas, por mais que lançassem os olhos
em torno, não descobriram nenhuma nave que pudesse servir aos seus
propósitos.
Finalmente
uma pequena nave-correio surgiu da escuridão e pousou no campo
espacial. Levava dois homens. Um dos aras saiu da nave. O piloto
cochilava no seu assento.
John
Marshall e Laury Marten dividiram a presa. Laury encarregou-se do
ara, que entrou num carro e foi levado ao edifício da administração.
Marshall já estava trabalhando o piloto com seu projetor mental.
Depois disso, o homem não poderia ficar admirado ao ver três
pessoas entrarem no aparelho e pedirem que as levasse a Trulan.
Laury
Marten ficou perplexa com os pensamentos que extraiu do cérebro do
oficial ara.
O
tumulto reinante em Tolimon fora provocado por John Marshall. Era ele
que estava sendo procurado febrilmente pelos aras. Estes dispunham de
provas cabais de que o mutante de forma alguma poderia ser Ixt, o
mercador galáctico.
— Tudo
pronto, Laury Marten! — disse Marshall e levantou-se. — Encareça
ao conde a necessidade de não dizer uma única palavra, aconteça o
que acontecer. Laury, a senhora responde por ele.
Mais
uma vez, caminharam com o conde entre eles. Laury cochichava
ininterruptamente para ele.
Encontraram-se
com três aras. Passaram a menos de três metros. Dois tratamentos
hipnóticos de curta duração influenciaram os médicos galácticos
pela forma desejada. A nave-correio surgiu diante deles. A comporta
estava aberta e a rampa havia sido descida. O piloto nem sequer se
virou quando John Marshall parou junto à comporta interna para
deixar que Rodrigo e Laury Marten passassem à sua frente.
— Tudo
pronto? — perguntou o ara que se encontrava no assento do piloto.
As
escotilhas da comporta fecharam-se com um chiado.
— Tudo
pronto! — respondeu John Marshall com a maior tranqüilidade,
embora tremesse por dentro.
Será
que o serviço de controle do espaçoporto não ficaria desconfiado
ao notar que uma nave decolava sem aviso?
Corriam
atrás da noite que deslizava pelo planeta de Tolimon. Quando Trulan
surgiu à sua frente, o crepúsculo começava a descer sobre a
capital planetária.
Foi
quando o serviço de controle constatou sua presença. Exigiu
informações sobre as características da nave. O piloto identificou
o aparelho. No mesmo instante o ara que se encontrava no setor de
controle do espaçoporto de Trulan demonstrou uma gentileza
extraordinária.
— Reservamos
a posição de estacionamento número onze para o senhor e mandaremos
um carro.
Marshall
e Laury Marten trocaram um olhar ligeiro. Jogariam seu jogo atrevido
até o fim.
Por
que andar se insistiam em levá-los de carro? E onde poderiam estar
mais seguros que num veículo da policia ou do serviço secreto dos
aras?
O
piloto — que fora influenciado apenas no setor da inteligência,
para não se preocupar com o destino do vôo e a identidade dos
passageiros e retornar imediatamente ao espaçoporto policial —
pousou levemente na posição número 11.
O
carro já os esperava.
Os
mutantes não perderam nem um segundo. Submeteram o motorista e o
oficial do serviço secreto à força sugestiva.
Mais
uma vez, Marshall foi o último a entrar, com o radiador de impulsos
engatilhado no bolso.
E
mais uma vez, não aconteceu coisa alguma.
— Aonde
vamos? — perguntou o motorista, virando-se para os passageiros,
enquanto o ara do serviço secreto olhava fixamente para a frente,
sem tomar conhecimento da presença deles.
— Para
a Rua do Grande Mo — respondeu Marshall.
Foi
quando surgiu o incidente com o qual não contavam.
A
central do serviço secreto dos aras chamou justamente o carro em que
iam.
O
motorista e o oficial não reagiram ao chamado.
O
chamado foi repetido. Marshall decidiu levar o atrevimento ao grau de
uma insolência inacreditável.
Obedecendo
à ordem de Marshall, reforçada pelo projetor mental, o motorista
gritou para dentro do microfone:
— Viatura
KK-107 em missão especial. Objetivo tem de ser mantido em segredo,
porque existe perigo de escuta. Voltarei a chamar dentro de meia
hora. Fim.
— Desligue
o transmissor — ordenou Marshall.
O
motorista desligou.
Com
a segurança de um sonâmbulo, o piloto fazia a viatura policial
correr em direção à Rua do Grande Mo. John Marshall não se
interessava nem pela confusão do tráfego, nem pelos movimentos da
multidão. Procurou captar os pensamentos de Futgris, para descobrir
as novidades ocorridas durante sua ausência.
Futgris
não estava mais na loja dos animais.
Não
havia nenhum vendedor por lá!
Em
compensação, havia aras. Eram nove elementos do serviço secreto,
que naquele instante revistavam cuidadosamente o escritório.
“Acabarão
encontrando o novo aparelho de telecomunicação!”, foi esta a
primeira idéia que acudiu a Marshall.
— Onde
devo parar? — perguntou o motorista hipnotizado em meio às suas
reflexões.
— Aqui
não — respondeu Marshall laconicamente. — Novo destino da
viagem: a coluna do Grande Mo.
O
motorista não se espantou. O oficial sentado a seu lado olhava
fixamente para a frente. O projetor mental de Laury Marten
mantinha-os em estado hipnótico.
John
Marshall não via nem ouvia mais nada. Concentrou-se. Pensava em seu
escritório. Pensou na pequena bomba incendiaria que havia no
interior do mesmo. Encontrava-se sobre a escrivaninha e, sem o
envoltório que a camuflava, não era maior que uma noz.
— Deflagrar!
—
ordenaram seus pensamentos.
Aquela
impressão voltou a surgir atrás de sua testa. Era algo de
indefinível; parecia que um contato se fechava.
Marshall
respirava pesadamente; reclinou-se no assento. Tinha certeza de ter
conseguido. Dali a pouco, as sereias de alarma soariam na Rua do
Grande Mo e a casa de animais de Ixt ficaria queimada até os
alicerces. O fato de que, dali a alguns dias, os aras ainda se
esforçariam para descobrir por que aquele fogo, parecendo tão
inofensivo, não pôde ser apagado de forma alguma, não o preocupava
nem um pouco.
Mais
uma vez, a central do serviço secreto dos aras chamou:
— Viatura
KK-107, responda imediatamente e...
De
repente, John Marshall teve um sexto sentido para o perigo.
— Pare!
— disse ao motorista.
O
carro ainda estava andando quando Marshall saltou, puxou Laury Marten
e arrastou Rodrigo. Naquele instante, viu duas viaturas do serviço
policial pararem do outro lado.
Dali
a quatro horas, quando a porta de aço arcônida se fechou atrás
deles, Rodrigo de Berceo contemplou o alojamento de Marshall com um
olhar de desprezo e Laury Marten sorriu pela primeira vez. Naquele
instante, John Marshall sabia perfeitamente que a caçada dos aras
ainda não havia chegado ao fim.
A
pista que tinham deixado era muito nítida.
Esta
pista se chamava Rodrigo de Berceo, o homem que usava botas cujos
canos iam até os quadris, calça apertada no corpo, colete sem
mangas com rendas no decote e chapéu de aba larga encimado por um
penacho balouçante.
Rodrigo
de Berceo levaria os aras ao esconderijo na área dos cortiços.
— Temos
uma bela perspectiva diante de nós — disse Marshall, absorto em
seus pensamentos, e sacudiu a cabeça ao olhar para Laury Marten.
Esta
não resistiu ao olhar. Sentada sobre a cama, baixou a cabeça.
*
* *
Perry
Rhodan aguçou os ouvidos. O hipercomunicador da abóbada de aço de
Hellgate chamou.
Era
outra mensagem de John Marshall.
Desta
vez foi uma mensagem mais longa. À medida que Perry Rhodan ouvia,
seu rosto tornava-se mais sério. Só uma vez exprimiu uma alegria
imensa; foi quando Marshall o informou sobre a ampola de soro.
— E
os saltadores? — perguntou em tom áspero.
John
Marshall não conseguia estabelecer contato com eles. Haviam-se
retirado. O assunto era muito arriscado.
— Nesse
caso irei pessoalmente. Não faça mais nada. Cuide bem do soro.
Agüente até minha chegada, Marshall. Demorarei alguns dias. Fim.
*
* *
*
*
*
John
Marshall e Laury Marten, dois agentes cósmicos enviados a Tolimon —
um
dos mundos dos aras — conseguiram um êxito parcial quando se
apoderaram do soro revitalizador.
Mas
não conseguiram sair de Tolimon.
Mais
uma vez Perry Rhodan se vê obrigado a intervir pessoalmente. Chegará
acompanhado de Gucky, como O
Pseudo.
O
Pseudo, é
este o titulo do próximo volume da série Perry Rhodan.

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