segunda-feira, 25 de março de 2013

P-062 - Os Anões Azuis - Kurt Mahr [parte 3]

Quando recuperou a consciência viu-se deitado no chão liso, firme e frio, de um amplo recinto, em que reinava uma semi-escuridão. Percebeu os contornos vagos de objetos estranhos que se encontravam nas proximidades.
Procurou erguer o corpo, mas no momento em que executou o primeiro movimento a mesma pressão que sentira antes desceu sobre ele e comprimiu-o contra o chão. A pressão foi diminuindo e cessou de todo assim que parou de fazer movimentos.
Estou preso”, pensou Mullon. “Quem foi que me prendeu? E onde estão os companheiros?
Chamou-os pelo nome. Uma voz vinda da penumbra respondeu.
Milligan, onde está você?
Aqui, chefe! — respondeu Milligan. — Estou deitado no chão e não consigo fazer qualquer movimento.
Comigo está acontecendo a mesma coisa — disse Mullon. — Onde estamos?
Mullon explicou que também não tinha a menor idéia. Depois pediu que Milligan lhe contasse o que havia acontecido.
De repente vi algumas luzes azuladas sobre a água. Moviam-se que nem fogos-fátuos sobre uma turfeira. Procurei levantar-me para acordar o senhor, pois as luzes vinham em direção à ilha. Mas assim que ergui o corpo um pouco, alguma coisa caiu sobre mim, apertou-me contra o solo e me travou a voz. Não consegui emitir qualquer som. Devo ter desmaiado poucos segundos depois.
Foi exatamente a mesma coisa que aconteceu comigo — disse Mullon. — Gostaria de saber o que me prende ao solo.
Fez outra tentativa para levantar-se, mas ainda desta vez não foi bem sucedido. Alguma coisa atirava-se sobre ele assim que executava qualquer movimento e só saía quando se mantinha imóvel.
Naquela penumbra, Mullon deveria ter percebido aquilo que o comprimia contra o chão, se é que havia alguma coisa perceptível. Aquela força devia ser invisível por natureza, ou então tratava-se de algo que possuía o dom de tornar-se invisível.
Mullon lembrou-se dos fogos-de-santelmo. Estivera convencido de que sobre a ilha se espalhara um campo elétrico. E qualquer campo energético, seja qual for sua natureza, é invisível.
Será que se trata de algo semelhante? Talvez de um campo gravitacional cujas linhas periféricas correm pouco acima do solo e me comprimem assim que procuro erguer-me?”, pensou assustado.
A hipótese era plausível.
Mas, santo Deus, que seres possuem energias desse tipo e lidam com elas como uma criança que brinca com uma bola?”, indagou-se mentalmente.
Depois de algum tempo, mais uma voz foi ouvida na semi-escuridão. Era Fraudy. Não teve de experimentar o choque de sentir-se só em meio à escuridão. Mullon e Milligan responderam imediatamente aos seus chamados.
Dali a quinze minutos, Pashen também recuperou os sentidos. Picaram sabendo que os quatro ocupantes da ilha foram atingidos da mesma forma. Todos eles, com exceção de Milligan, ouviram gemidos, saíram da barraca, viram as chamas azuis e foram comprimidos ao solo por uma força; tremenda e invisível. Depois perderam os sentidos.
E, naquele instante, a situação dos quatro era idêntica. Nenhum deles conseguia levantar o corpo. Ao menor movimento, aquela força misteriosa — ou fosse lá o que fosse — descia sobre eles, tornando-os incapazes de mexer um dedo.
Só nos resta uma coisa: esperar —, disse Mullon depois de algum tempo. — Não é de supor que nos tenham trazido a este lugar para deixar-nos morrer de fome na escuridão. Haverá de chegar a hora em que aparecerá alguém para cuidar de nós, e então poderemos formular nossas queixas.

* * *

A hora esperada por Mullon demorou uma eternidade.
Enquanto isso, os prisioneiros conversavam e procuravam adivinhar que recinto: era aquele no qual se encontravam. Os contornos, que conseguiam enxergar, eram vagos e estranhos, não permitindo qualquer conclusão.
Depois de longas horas, quando os prisioneiros estavam formulando conjeturas sobre as dimensões do recinto, escutaram um chiado vindo dos fundos da sala. Os prisioneiros ficaram em silêncio e ouviram o ruído aproximar-se. Mullon acreditou ver uma luminosidade azul-pálida vinda de longe. Foi só o que observou.
Naquele instante, algumas lâmpadas acenderam-se em cima dele, mergulhando a cena numa luz branca e ofuscante.
Mullon fechou os olhos. Voltou a abri-los lentamente e descobriu, quase exatamente em cima de sua cabeça, uma das fontes de luz. Era uma esfera de vidro de meio metro de diâmetro com um fio incandescente no centro.
Uma lâmpada incandescente! Meu Deus, é isso mesmo: uma lâmpada incandescente no planeta da Fera Cinzenta! — balbuciou Mullon.
Nesse instante, Fraudy gritou:
Olhe nosso pano azul!
Mullon virou o rosto. Fraudy encontrava-se a poucos metros de distância, e perto dela um pedaço de pano azul, igual ao que haviam retirado da boca do crocodilo, pairava pouco acima do solo. Mantinha um movimento trêmulo ininterrupto, e sua cor cambiava rapidamente do violeta-escuro ao azul-turquesa. Os chiados que haviam ouvido antes provinham dali.
Perplexo, Mullon ergueu o corpo. Nem se deu conta de que já não havia qualquer pressão que o impedisse de fazê-lo. Sentou e fitou os estranhos objetos azuis que dançavam em torno dele.
Estendeu cautelosamente a mão e procurou pegar um deles. Não houve a menor resistência. Deslizou por cima da mão de Mullon e manteve-se imóvel por algum tempo. Depois afastou-se, voltou a entrar na dança e passou a emitir seus chiados.
Mullon olhou em torno. Milligan, Pashen e Fraudy estavam cercados dos objetos azuis, tal qual ele. Também se haviam erguido e procuravam compreender o que acontecia em torno deles. A julgar pela expressão de seus rostos, entendiam tanto quanto Mullon.
O que é isso? — gritou Milligan desesperado.
A resposta era patente e Mullon a teve na ponta da língua. Mas era tão terrível que preferiu não proferi-la.
Esses seres azuis haviam atacado a ilha e, depois de recorrerem a um misterioso campo energético, capturaram quatro prisioneiros. Conseguiram de alguma forma levá-los a esse recinto, cheio de estranhos objetos e iluminado por lâmpadas incandescentes de feitio antiquado.
De qualquer maneira, os panos azuis eram uma forma de vida, e uma forma de vida que dificilmente poderia ser mais estranha. Não havia a menor dúvida de que se tratava de seres inteligentes.
Mullon fitou-os e não descobriu outra coisa senão aquilo que já vira quando haviam arrancado o pano da boca do crocodilo. Não havia qualquer estrutura orgânica, muito menos tinham membros ou qualquer coisa que pudesse ser comparada com braços ou pernas. Ao que parecia, os corpos eram formados de uma massa homogênea. E o formato era variável e irregular; eram elásticos. Nenhum dos seres estranhos se parecia com o outro, e nenhum deles apresentava uma forma fixa. Tudo parecia fluir e deslizar: tanto os corpos como as formas e as cores.
Era um espetáculo irritante e fascinante ao mesmo tempo.
Eles não nos farão nada — exclamou Fraudy de repente. — Afinal, salvamos um deles, que se encontrava na boca do crocodilo.
5



Fraudy teve razão. O comportamento dos seres azuis era estranho, mas não hostil. Às vezes até chegava a parecer que esses seres executavam sua dança para apaziguar os prisioneiros e permitir que se recuperassem do susto.
O desaparecimento do campo gravitacional, que até a pouco os mantivera presos ao solo, era outra prova de que não havia o menor perigo. Ninguém pretendia deter os homens pela força.
Apesar disso, Mullon viu uma tarefa dificílima à sua frente. Aquilo que imaginara até então parecia lógico, mas não havia qualquer certeza de que fosse verdadeiro. De forma alguma se poderia admitir que os seres azuis se sentissem ligados às leis fundamentais da lógica terrana. Para ele o desaparecimento do campo gravitacional parecia um sinal de amizade, mas para os seres azuis poderia ser exatamente o contrário.
Venham cá! — ordenou aos companheiros. — Alguém tem uma arma?
Milligan trazia sua pistola; Pashen também. O fuzil de Milligan caíra ao chão no momento em que a ilha foi atacada. Provavelmente ainda se encontrava no mesmo lugar.
Antes de mais nada — disse Mullon — precisamos descobrir onde estamos, como podemos sair daqui, o que esses sujeitos azuis querem fazer conosco e se estão em condições de reparar nosso helicóptero. O resto é secundário.
No momento em que os ex-prisioneiros se levantaram e se ajuntaram, os panos azuis pararam de dançar. Reunidos num grupo compacto, pairavam uns cinco centímetros acima do solo e o único movimento que executavam era um tremor quase invisível. O chiado tornara-se mais fraco, e as mudanças de cor eram menos freqüentes. Parecia que estavam confabulando.
É verdade — suspirou Milligan. — Mas como poderemos descobrir tudo isso?
Acho que não será difícil descobrir a saída desta sala — disse Mullon. — Pois bem; sairemos e daremos uma olhada lá fora. Acho que viemos parar em plena selva. De qualquer maneira, tenho plena certeza de que não nos encontramos na ilha. Acredito...
Olhe! — interrompeu-o Fraudy em tom exaltado. — Estão indo embora, não... pararam!
O grupo de seres azuis pusera-se em movimento e se afastara uns dez metros, passando entre dois aparelhos estranhos. Estacaram e dois deles voltaram, como se quisessem pedir aos humanos que os seguissem.
Pois bem, vamos andando! — decidiu Mullon. — Querem mostrar-nos alguma coisa.
Os seres azuis moviam-se bem mais depressa que os humanos. Avançavam alguns metros, esperavam até que os homens os tivessem alcançado, e reiniciavam o jogo.
Dessa forma, Mullon e seus companheiros foram conduzidos através da sala. Tratava-se de um gigantesco recinto quadrangular de cinqüenta metros de comprimento e trinta de largura. A altura do teto devia ser de cerca de quatro metros. Ao que parecia, a única finalidade daquela sala consistia em abrigar os estranhos aparelhos, cuja finalidade os homens não conseguiram descobrir, nem mesmo à luz das lâmpadas.
No fim do salão, havia várias saídas. Não existiam portas. Levavam a corredores tão profusamente iluminados quanto o salão. Os seres azuis escolheram a saída do meio. Entraram num corredor que tinha pouco menos de dois metros de altura, e que depois de algum tempo começou a aumentar suavemente.
Mullon caminhava à frente do grupo. Foi o primeiro a ver uma mancha cinzenta, que parecia corresponder à saída do corredor. Sentiu uma lufada de ar quente e úmido, vinda da frente.
Dali a alguns minutos, perceberam que a mancha cinzenta não era outra coisa senão a claridade do amanhecer. Perceberam também que o corredor terminava na encosta de uma colina coberta apenas de pequenos arbustos, que se erguia em meio à mata fumegante.
A colina tinha uns cinqüenta metros de altura, e a saída do corredor ficava a pouco mais de trinta metros da base. Mal e mal permitia que se pudesse enxergar acima das copas das árvores. Bem longe, ao leste, Mullon viu uma faixa azul que cortava a massa compacta da mata. Era um rio. Seria o mesmo em que ficava a ilha?
Mullon olhou em torno e descobriu várias outras saídas, que terminavam no flanco da colina. Ao que parecia, os seres azuis haviam construído uma verdadeira cidade subterrânea.
Mullon esteve a ponto de chamar a atenção dos companheiros para o rio que acabara de descobrir, quando verdadeiros bandos de seres azuis apareceram nas outras saídas e se reuniram ao grupo que conduzira os humanos a partir do pavilhão subterrâneo. Deveriam ser uns duzentos ao todo. Pairavam pouco acima dos arbustos e Mullon receava que, se fossem ocorrer hostilidades, estas deveriam verificar-se naquele instante.
Mas os seres azuis mantiveram-se calmos. Mullon pôde dirigir-se aos companheiros e conferenciar sobre a melhor maneira de atingir o rio que atravessava a mata.
Subitamente sentiu-se levantado. No primeiro momento assustou-se, pois a sensação que teve foi a da queda livre. Viu que subitamente pairava no ar, e que uma força invisível o mantinha a cerca de cinco metros de altura.
Os companheiros fitaram-no apavorados.
O que é isso? — gritou Milligan. — Devo atirar, chefe?
Não — gritou Mullon. — Deixe sua pistola onde está. Acredito que...
Nesse instante, Fraudy soltou um grito de pavor. Cambaleou e esteve a ponto de cair, mas no mesmo instante foi levantada, subiu e veio parar ao lado de Mullon.
O que é isso? — gritou muito assustada. — O que estão fazendo conosco?
Calma! — disse Mullon com uma risada. — Provavelmente querem levar-nos até o rio.
Como? Por cima das árvores? Mullon fez que sim.
Estes seres dispõem de forças extraordinárias. O mesmo campo gravitacional usado para manter-nos presos ao solo agora nos levanta. Precisam apenas empurrar-nos por cima da mata, ou coisa que o valha.
Milligan também perdeu o apoio dos pés e foi subindo. Pashen foi o último a ser levantado. Milligan riu:
Aqui estamos reunidos. E agora?
Os seres azuis também se puseram em movimento. Deslocando-se num grupo compacto, desceram pela colina e penetraram na mata. A vegetação espessa não representava qualquer obstáculo ao deslocamento daqueles vultos minúsculos.
Lá vão eles — gritou Milligan. — O que será de nós?
Mal acabara de pronunciar a última palavra, e Mullon teve a impressão de que alguém o empurrava. Deslocando-se pelo ar, afastou-se da colina e passou por cima das copas das árvores. Olhou para trás e viu que seus companheiros estavam sendo movidos pela mesma força misteriosa.
A velocidade do deslocamento foi crescendo rapidamente. Mullon sentiu o vento assobiar em seus cabelos. Não pôde deixar de sentir uma admiração profunda pela capacidade extraordinária dos pequenos seres azuis, que lá embaixo se deslocavam pela mata e transportavam seus prisioneiros pelo ar.
Como será que conseguem fazer isso?”, pensou o democrata.
Mullon teve uma idéia. O único lugar em que vira aparelhos era o pavilhão subterrâneo, e estes não lhe pareciam apropriados à geração de um campo gravitacional. Face a isso, podia-se perfeitamente supor que o campo não era gerado por qualquer máquina, mas pelos próprios corpos dos seres azuis. Por certo a estrutura da matéria de que eram feitos capacitava-os a criarem campos elétricos e gravitacionais e projetá-los para qualquer lugar que desejassem. Portanto, tratava-se antes de uma capacidade telecinética que de um avanço tecnológico.
Dentro de meia hora, aproximadamente, Mullon e seus companheiros chegaram ao rio. Pela largura devia ser o mesmo em que ficava a ilha onde haviam acampado, se bem que não vissem nada da tal ilha.
No momento em que chegavam à margem, os anões azuis saíam da mata, lá embaixo. Haviam-se deslocado com a mesma velocidade através da selva, acompanhando Mullon e seus companheiros, que “voavam”.
Dali em diante acompanharam o rio, na direção sudeste. Pelos cálculos de Mullon, a distância entre a colina sob a qual moravam os seres azuis e a ilha em que estava guardado o helicóptero devia ser de cem quilômetros no mínimo.
Verificou-se que seus cálculos haviam sido corretos. Em pouco menos de duas horas, grande número de ilhas de todos os tamanhos surgiu junto à margem direita do rio. Na maior delas o helicóptero descansava pacificamente sob o sol.
Para os anões azuis, a água não representava nenhum obstáculo. Dali a poucos segundos, Mullon e seus companheiros “pousaram” na ilha, tão suavemente como haviam sido erguidos na colina.
Enquanto isso, os seres azuis formaram um círculo em torno do helicóptero. Ao que parecia, sabiam que era nele que se concentrava o interesse dos humanos. O crocodilo que Fraudy mandara cortar no dia anterior continuava no mesmo lugar.
Tremendo de curiosidade, Mullon subiu ao helicóptero.
Será que os seres azuis o haviam reparado?”, pensou ansioso. “Não; não tinham feito nada disso.”
Mullon procurou dar partida, mas o resultado foi o mesmo do dia anterior. O ponteiro indicador da carga da bateria não se moveu, nenhuma luz se acendeu e o transmissor não emitiu o mais leve zumbido.
Mullon sentiu-se decepcionado. Abaixou-se e abriu a portinhola atrás da qual se encontravam as baterias. Removeu os contatos e retirou uma caixinha. Saiu do helicóptero, levando-a.
Nada — disse em tom contrariado. — Vejamos o que os azuis acham disso.
Colocou a bateria no chão, bem na frente dos seres azuis, que pairavam em torno do helicóptero, formando um círculo amplo. Não sabia se estas criaturas compreenderiam do que se tratava. Mal colocou a bateria no chão, um bando de seres azuis precipitou-se sobre a mesma como se quisesse desmontá-la.
Pelo que Mullon viu, não tocaram na caixa uma única vez; apenas se aproximavam a poucos centímetros da mesma. Mas, depois de algum tempo, pareciam ter tomado uma decisão. Retiraram-se, chiaram por algum tempo, bastante exaltados e, ao que parecia, esforçaram-se para convencer seus companheiros a agruparem-se da mesma maneira como haviam atravessado o rio.
Antes que qualquer dos quatro humanos tivesse tempo para dizer qualquer coisa, sentiram-se levantados de novo e foram postos em movimento em direção à margem direita do rio. Mullon olhou para trás e viu que a bateria também estava sendo levada. Planava atrás deles.
Num vôo vertiginoso, regressaram à colina dos seres luminosos. Os azuis desapareceram num dos corredores, depois de terem “pousado” seus passageiros suavemente. Mullon seguiu-os, juntamente com seus companheiros, carregando a bateria sob o braço.
Voltaram ao pavilhão no qual haviam despertado horas antes. Os seres azuis reuniram-se à frente de um objeto em formato de caixa, que cobria uma área de cerca de vinte metros quadrados e chegava quase até o teto.
A caixa era feita de metal. Uma porta de cerca de um metro de altura abriu-se — ao que tudo indicava automaticamente — assim que Mullon se viu à frente da mesma. Naquele instante, uma luz se acendeu no interior do cubo gigante.
Mullon passou de quatro pela pequena porta, seguido por Milligan. Lá dentro viram um disco circular de três metros e meio de diâmetro, feito de plástico transparente. Esse disco descansava sobre um eixo apoiado de ambos os lados nas paredes da caixa. Em dois lugares, certos objetos se encostavam ao disco; pareciam contatos de fricção. Desses contatos e do próprio disco, junto ao eixo, pendiam fios cujas pontas tocavam o chão.
Mullon examinou o aparelho.
É uma máquina eletrostática — disse. — É uma máquina eletrostática de tamanho gigante.
Milligan não sabia o que significava isso. Mullon explicou:
Trata-se de um aparelho que produz a tensão elétrica através da separação de dois campos. Há duzentos anos foram realizadas as primeiras experiências no campo da eletricidade, por meio desse tipo de máquina. Ela pode servir perfeitamente como gerador. Geralmente a tensão chega a vários milhares, e por vezes até dezenas de milhares de volts. É bem verdade que a potência é muito reduzida. Mas acredito que com este aparelho gigante talvez se consiga chegar a meio ampère.
Será que com isso conseguiremos carregar as baterias?
Acho que sim. Resta saber quem se dispõe a girar a máquina.
Até parecia que os seres azuis que se encontravam do lado de fora haviam lido seus pensamentos. Subitamente a roda transparente começou a girar. Dentro de poucos segundos, atingiu a velocidade aproximada de duas rotações por segundo. Mullon pegou cautelosamente dois dos fios isolados que tocavam o chão e encostou suas pontas, onde o metal aparecia por baixo do isolamento. Logo notaram uma enorme faísca.
É fantástico! — disse Milligan em tom de espanto.
Mullon fez um gesto afirmativo. Deixou cair os dois fios e lançou um olhar pensativo para a enorme máquina.
Quer dizer — disse como se estivesse falando consigo mesmo — que por aqui os geradores de corrente alternada ainda são desconhecidos. Seus corpos são capazes de irradiar campos elétricos e gravitacionais, e por isso têm condições de realizar verdadeiros malabarismos. Mas só sabem gerar corrente com máquinas eletrostáticas do tempo dos nossos avós.
Que criaturas estranhas!

* * *

Dali a cinco horas, a bateria estava carregada.
Agora podemos montá-la no helicóptero e trazer as outras, para que também sejam carregadas — disse Mullon. — Como poderíamos explicar-lhes que temos de voltar à ilha?
Mal acabara de falar, os seres azuis puseram-se em movimento em direção à saída do pavilhão. Tal qual da outra vez, subiram até a saída das instalações subterrâneas, e foram parar no flanco da colina.
Não é necessário todos irem à ilha — disse Mullon. — Fraudy e Milligan poderão ficar aqui. Pashen irá comigo e me ajudará a montar a bateria.
Está bem — resmungou Pashen. — Mas não sei o que pretende fazer se as criaturas azuis levarem os quatro!?
Naquele instante, aconteceu uma coisa estranha. O grupo de anões azuis dividiu-se. Metade dos pequenos seres, ou seja, cerca de cem, desapareceu nas diversas aberturas existentes no flanco da colina. Os outros permaneceram no local.
Mullon sentiu-se levantado; Pashen seguiu-o de perto. Por um ou dois minutos pairaram imóveis, a uns cinco metros de altura; depois as criaturas azuis foram descendo pela colina e desapareceram na mata, arrastando Pashen e Mullon.
Fraudy e Milligan ficaram para trás.
Mullon sentiu o susto até a medula dos ossos. O que acabara de acontecer transformara em certeza a suposição que já lhe acudira várias vezes: sempre que refletia sobre a maneira de explicar alguma coisa aos seres azuis, estes faziam exatamente o que desejava, antes que pudesse dizer uma palavra ou esboçar um gesto.
Eram telepatas.
Além da capacidade telecinética, graças à qual seus corpos podiam irradiar campos energéticos, ainda possuíam o dom parapsicológico da telepatia.
Começou a sentir medo das criaturas azuis. Não eram apenas muito estranhas; com os dons extraordinários que dispunham, cada criatura dessas era muito superior ao homem.
O problema era inteiramente diferente do dos mungos. Estes eram uma espécie primitiva e semi-inteligente, cuja única vantagem face aos homens consistia na existência do sexto sentido, que lhes permitia perceber qualquer perigo antes que os cinco sentidos humanos pudessem constatar sua presença.
Já aqui, tratava-se de inteligência estranha, mas bastante desenvolvida. Mullon compreendeu que dali em diante uma das tarefas mais importantes da colônia consistiria em manter a paz com os anões azuis, e levá-los por meios amistosos a colaborar com os humanos.
Estas idéias atravessaram sua cabeça enquanto planava por cima da mata, juntamente com Pashen e a bateria carregada.

* * *

Depois de duas horas de vôo chegaram à ilha. Pashen e Mullon foram colocados no solo e logo se puseram a montar a bateria.
Mullon permaneceu no assento do piloto, a fim de controlar os diversos indicadores de funcionamento, enquanto Pashen se ajoelhou, empurrou a bateria para o lugar e voltou a ligar os contatos.
Mullon viu que as luzes de controle se acendiam e ouviu o zumbido do transmissor.
Que ruído formidável!
Pashen, que continuava ajoelhado, murmurou:
E olhe que já acreditávamos que pelo resto da vida teríamos de vestir-nos com folhas e comer carne de crocodilo, não é?
Fechou a tampa da caixa da bateria e levantou-se. Ao que parecia, tinha os pés dormentes por ter trabalhado durante tanto tempo de joelhos. Levantou-se com um gemido, cambaleou, desviou-se de Mullon e caiu pesadamente de lado.
Ora essa! — disse num gemido.
Segurava um pequeno alicate na mão direita, e apoiara-se nessa mão para amortecer a queda. Ao desviar-se de Mullon, para não cair em cima do mesmo, virara-se para trás. Com isso, o alicate arranhou o painel de controle do transmissor.
Mullon levantou-se de um salto. Com um ligeiro relance de olhos, percebeu que o alicate causara um dano considerável. Alguns dos botões haviam sido arrancados, a chapa do painel estava amassada e a lâmpada principal de controle deixara de emitir sua luz verde: em seu lugar havia uma abertura negra. O zumbido do transmissor cessara.
Que diabo! — exclamou Mullon.
Viu que Pashen cambaleava.
O que houve?
Pashen pôs a mão na cabeça e gemeu.
Bati com a cabeça — resmungou. — Está doendo de verdade.
Sente e espere até que se sinta melhor! — ordenou Mullon.
Estava zangado, mas reconheceu que dificilmente poderia culpar Pashen. Este se levantara e escorregara; apenas isso. Era bem verdade que em virtude do pequeno acontecimento o transmissor do helicóptero estava inutilizado.
Bem”, pensou Mullon, “dentro de poucas horas estaremos em casa, e então poderemos montar outro transmissor no helicóptero.”
Sinto tanto... — gaguejou Pashen depois de algum tempo.
Não falemos mais nisso. Não teve nenhuma culpa.
Obrigado — murmurou Pashen.
Mullon voltou a ocupar o assento do piloto. Inclinou-se para fora da carlinga e gritou:
Agora poderemos mover-nos com nossos próprios recursos. Voaremos até a colina.
Pashen fitou-o perplexo. E a perplexidade transformou-se em pavor quando viu que os anões azuis obedeceram: entraram em forma, atravessaram o rio e iniciaram o caminho de volta.
Mullon deu partida e fez com que o helicóptero se precipitasse para o alto. Num vôo rápido, o aparelho passou por cima do rio. Agora deslocava-se vinte metros acima das copas das árvores, na direção noroeste.
O senhor acaba de falar com as criaturas azuis — disse Pashen, depois de ter dominado o pavor. — Acha que elas o entendem?
Parece que sim — respondeu Mullon. — Não viu que logo se puseram a caminho?
Mas como... acredita que já aprenderam o inglês?
Mullon deu de ombros. Não tinha a intenção de contar o que sabia, enquanto não tivesse sido realizada uma série de testes que tornasse patente a capacidade parapsicológica dos seres azuis aos olhos de todo mundo.
Não sei — respondeu. — Apenas notei que me entendem.
Mullon pousou o helicóptero numa área muito pequena de chão plano, junto à entrada que conduzia à sala de máquinas. As baterias foram descarregadas e levadas ao pavilhão.
Só depois de concluído esse serviço regressaram os cem anões azuis que haviam levado Pashen e Mullon até a ilha. Pelos seus movimentos nervosos, seu chiado e a constante mudança de cor concluía-se que se sentiam bastante chocados com o fato de haver alguém que se deslocava mais rapidamente que eles. No entanto, também desta vez não houve qualquer gesto inamistoso. O nervosismo dos seres azuis parecia antes uma manifestação de alegria.
Mullon pediu a Fraudy que carregasse as baterias uma após a outra.
Mullon e Pashen realizaram mais um vôo à ilha, a fim de levantar as barracas e levá-las à colina. O democrata autêntico pretendia passar ao menos mais uma noite junto às criaturas azuis.
Ao que parecia, os azuis não tinham nenhuma objeção; pelo contrário, ajudaram com seus dons telecinéticos a fincar as estacas no chão pedregoso e a levantar as varetas, sem que ninguém tivesse pedido.
Assim que começou a escurecer, desapareceram no interior da colina em que residiam e não foram vistos até a manhã do dia seguinte.
Depois do jantar, Mullon distribuiu os quartos de sentinela. Os que não foram destacados para o primeiro quarto deitaram imediatamente, já que durante o dia praticamente não tiveram nenhum descanso.
Mullon assumira o primeiro quarto, e tivera bons motivos para isso. Pretendia examinar o transmissor do helicóptero e, se possível, repará-lo. O fato de fazer cerca de sessenta horas que nenhuma notícia sobre o paradeiro da expedição chegava a Greenwich deixou-o bastante preocupado.
Mullon conhecia Hollander, e por isso teve boas razões para supor que teria aproveitado esse período para levar avante seus objetivos.
A Assembléia Popular, que não deixava de ser um órgão democrático, era mantida principalmente graças à poderosa vontade de seu presidente. O’Bannon e Wolley eram homens inteligentes que, se necessário, saberiam dirigir a Assembléia segundo os desígnios de Mullon, mas não estariam em condições de enfrentar um homem como Hollander.
Deixou o fuzil no lugar em que se instalara para assumir seu quarto de sentinela e subiu ao lugar onde se encontrava o helicóptero. Abriu a cabine, entrou e ligou as luzes internas, a fim de verificar a extensão das avarias.
Retirou cautelosamente os botões que não haviam sido atingidos pelo alicate e também a placa de revestimento do painel. Teve a impressão de que nunca conseguiria entender a confusão de fios que se cruzavam em todos os sentidos, ainda mais que não era muito entendido na área da técnica de alta freqüência. Mas depois de uma hora de trabalho incessante, teve uma idéia geral dos circuitos, e chegou mesmo a acreditar que estaria em condições de reparar o transmissor.
Descansou um pouco e voltou ao trabalho. Retirou da caixa presa ao chão, junto ao assento do piloto, as ferramentas de que precisava, e pôs-se a unir os fios rompidos, a fim de que pudessem ser ligados novamente aos contatos dos botões.
Ouviu um ruído muito fraco atrás de si. Virou-se abruptamente. O rosto de Pashen olhava para dentro da cabine. Mullon não o ouvira chegar. Estava parado sobre a escada que levava à cabine, e fitava Mullon.
Que susto o senhor me deu! — disse Mullon. — O que veio fazer por aqui?
Estou à procura de um homem que abandonou seu posto — respondeu Pashen.
Mullon sentiu-se perplexo.
Não seja ridículo! Tenho coisa mais importante a fazer que contar os mosquitos.
Pashen sacudiu a cabeça.
O senhor não precisará mais do transmissor, Mullon — disse com a voz abafada.
Subitamente Mullon teve um pressentimento tão apavorante que levou alguns segundos para recuperar a fala.
Por quê?
O rosto de Pashen contorceu-se num sorriso zombeteiro.
Ainda não descobriu?
Preciso ganhar tempo”, pensou Mullon, “ganhar tempo. É possível que alguém ouça nossa conversa e venha até aqui. É bem provável que Pashen tenha trazido sua pistola.”
Acho que já descobri — disse com a voz zangada. — Já devia ter notado há tempos, não é?
Pashen parecia disposto a conversar.
Acha mesmo? Onde deveria ter percebido?
Nas montanhas. Houve um vazamento nos tubos capilares. E um tubo capilar exposto a uma pressão excessiva pode romper-se, mas não vazar.
Pashen acenou com a cabeça; seu rosto manteve-se impassível.
O senhor sabe observar muito bem — observou. — Mas infelizmente não faz suas observações no devido tempo.
Pois é — suspirou Mullon. — Tem toda razão. Hollander quis ter certeza de que Harper e seus cúmplices me encontrariam nas montanhas. Por isso, você danificou o helicóptero; não queria que voássemos. Quando acreditava que Harper já se tivesse aproximado o bastante e precisava de um sinal para encontrar-nos, teve a amabilidade de encontrar o vazamento do tubo capilar e reparou o aparelho. Não foi isso?
Exatamente — respondeu Pashen.
É claro que o transmissor também não foi destruído por acaso — prosseguiu Mullon com a voz tranqüila. — O senhor teria de evitar que eu me comunicasse com Greenwich. Por que será? Isso não teria modificado coisa alguma nos seus planos.
Nos meus planos não — confessou Pashen — mas nos de Hollander. Hollander é a única pessoa que pode saber da existência dos anões azuis; mais ninguém.
Ah — fez Mullon. — Acredita que quer tirar proveito dos seres azuis?
Quando souber o que aconteceu com o senhor certamente fará isso mesmo.
O que é que o senhor tem a ganhar com a traição que está praticando?
Pashen deu de ombros.
Hollander sabe recompensar os que o ajudam. É bom que saiba que o regime democrático terá chegado ao fim quando Hollander assumir o poder.
Não tenho a menor dúvida — respondeu Mullon em tom irônico. — Qual será sua recompensa? Não poderá dar-lhe dinheiro. O que poderia ser?
Talvez ele me nomeie governador. Serei a primeira pessoa a merecer uma recompensa de Hollander.
Mullon fez que sim.
Um belo dia ele se sentirá incomodado com sua presença, porque o senhor sabe demais. E mandará alguém matá-lo, tal qual mandou a você que me matasse.
Pashen sacudiu a mão esquerda, o que provava que a direita estava ocupada; provavelmente estaria segurando a pistola.
Será que não aparece ninguém?”, pensou Mullon.
A vida tem seus riscos — respondeu Pashen em tom tranqüilo. — Foi um prazer conversar com o senhor, Mr. Mullon. Mas não posso prosseguir na palestra; o dever me chama. Acho que o senhor compreende.
Com uma rapidez que Mullon nunca esperava, Pashen levantou a mão direita...
E essa mão segurava a pistola!
Mullon levantou-se abruptamente e procurou atirar-se para o lado. Mas Pashen seguia seus movimentos. Mullon viu um raio pálido à sua frente, sentiu uma pancada no peito e perdeu os sentidos.
Pashen levou quatro segundos para arrastar o corpo flácido de Mullon para fora da cabine e deixá-lo cair ao chão. Os olhos muito abertos e sua imobilidade ao tocar o solo pareciam provar que Mullon estava morto.
No momento em que Pashen fechava a cabine, os primeiros gritos exaltados soaram no lugar em que se encontravam as barracas. Pashen deu partida e decolou. O aparelho subiu como uma flecha e, depois de atingir a altitude de quinhentos metros, dirigiu-se para o oeste.
Pashen acreditava que o vôo noturno não lhe causaria qualquer problema. A bússola indicaria o caminho, e o suprimento de energia seria suficiente para manter o helicóptero no ar pelo resto da noite, se a escuridão não lhe permitisse encontrar a cidade ou outro local de pouso.
6



Ao recuperar os sentidos, Mullon sentiu-se tão cansado que o simples esforço de lembrar-se do lugar em que se encontrava e da maneira como viera parar ali lhe causava dores e quase o fez desmaiar de novo.
Teve a impressão de ver através de uma cortina fina um rosto que lhe parecia conhecido.
Era o rosto de Fraudy. Estava mudado. As faces estavam flácidas e os olhos bem afundados nas covas encontravam-se injetados de vermelho.
Fraudy! — disse Mullon num cochicho.
A cortina desapareceu. Os contornos do rosto de Fraudy tornavam-se mais nítidos à medida que ela se aproximava.
O quê... onde estou?
Você está em segurança — respondeu Fraudy em tom carinhoso, com lágrimas nos olhos — na minha barraca.
Subitamente notou um movimento. Uma corrente de ar passou pelo rosto febril de Mullon. Um vulto alto e largo entrou no seu campo de visão. Mullon reconheceu-o: era Milligan.
Tudo em ordem, Madame — disse o mais baixo que isso lhe era possível com sua voz áspera. — Os azuis estão chegando pelo caminho mais rápido. Ora, veja! O chefe acordou?
Subitamente, num assomo de dor, a lembrança voltou à mente de Mullon. Pashen... o helicóptero... Hollander!
Há quanto tempo estou deitado aqui? — perguntou.
Há bastante tempo — respondeu Fraudy em tom carinhoso.
Quero saber o tempo exato.
Vinte e três dias. Mullon soltou um gemido.
O que aconteceu?
Você não deve falar tanto — cochichou Fraudy. — Ainda está muito doente.
Faça o favor de dizer! — implorou Mullon. — Preciso saber!
Fraudy hesitou.
Por favor!
Nós o encontramos próximo do local onde estivera pousado o helicóptero — respondeu Fraudy. — Você havia sido atingido bem no coração. Estava morto! Pashen tinha desaparecido com o helicóptero. Nós o levamos até as barracas. No mesmo instante, apareceram os anões azuis. Pareciam chamas que saíram dos corredores; emitiam uma fosforescência em meio à escuridão. Compreenderam imediatamente o que havia acontecido. Cuidaram de você. Removeram a bala e passaram a aplicar-lhe um tratamento. Deram a entender que provavelmente conseguiriam salvá-lo.
Não sei como fizeram, mas o fato é que depois de poucas horas você começou a respirar e seus olhos se abriram. Depois adormeceu. Os azuis continuaram a cuidar de você. Deram-lhe alimento líquido, pairavam no ar em torno de você, e a cada dia que passava seu aspecto melhorava. Devem possuir capacidades inacreditáveis no terreno da medicina. Hoje você acordou pela primeira vez. É só.”
Não aconteceu mais nada? — insistiu Mullon. — Pashen... Hollander...
Fraudy sacudiu a cabeça.
Nada. Vivemos exclusivamente em companhia dos anões azuis.
Nesse caso tudo está bem... oooh! Recostou-se e adormeceu.

* * *

Mais trinta dias se passaram; e os dias do planeta Fera Cinzenta tinham cerca de quarenta horas.
O tratamento aplicado pelos anões azuis fez a cura de Mullon progredir a olhos vistos. Não via o que estavam fazendo com ele. Esvoaçavam a seu lado, mas nunca chegaram a tocá-lo. Foi recuperando as forças. Cinco dias depois de ter acordado pela primeira vez conseguiu levantar e dar alguns passos.
Dali em diante os progressos foram rápidos. E a recuperação foi devida menos à arte médica dos anões azuis que ao desejo ardente de Mullon, que queria voltar para Greenwich e verificar o que estava ocorrendo.
Ficou espantado ao saber que Fraudy conseguira estabelecer uma espécie de contato com os anões azuis. Manifestara esse desejo, e essas criaturas a entenderam graças às suas faculdades telepáticas.
Fraudy ficara sabendo que os azuis se comunicavam de três maneiras distintas: pela telepatia, pela mudança de cor e pelo chiado. Cada uma dessas maneiras preenchia uma finalidade própria.
A telepatia era a forma usual de comunicação, da mesma forma que a linguagem falada é o meio de comunicação dos terranos. O jogo de cores exprimia uma espécie de valorização que o transmissor da comunicação atribuía à sua mensagem. Se, por exemplo, alguém comunicasse por via telepática que a mata era grande, essa comunicação era acompanhada de certa coloração do corpo de quem a transmitia, a fim de anunciar a opinião individual do mesmo. Se o fato de que a mata era grande lhe agradava, seu corpo brilhava num azul-turquesa; se lhe desagradava, assumia uma coloração violeta. Se o fato não lhe causava nenhuma impressão, seu corpo continuava com a coloração azul de sempre.
Já o chiado tinha por fim indicar a importância que o indivíduo dava a sua mensagem. Conforme o grau de importância que o mesmo atribuía à comunicação de que a mata era grande, emitia um chiado forte ou fraco, ou nenhum.
Era esta a exteriorização da linguagem dos azuis. Uma coisa era certa: se os humanos não conseguissem criar faculdades telepáticas num indivíduo de sua espécie ou ensinar a escrita aos anões, a comunicação sempre seria incompleta. Tudo que os anões quisessem comunicar aos humanos teria de ficar restrito a mensagens fragmentárias sobre assuntos facilmente compreensíveis. No entanto, os azuis sabiam identificar os pensamentos dos humanos.
Era bem verdade que mesmo essa identificação tinha seus limites. A lógica humana era estranha aos anões, e era evidente que só sabiam interpretar os pensamentos que correspondiam à sua lógica. Os outros pensamentos não estavam ao alcance de seu entendimento.
Assim, por exemplo, a idéia de que um homem tem medo de outro lhes era incompreensível, da mesma forma que uma explicação lógica do jogo de cores de seus corpos reluzentes estava fora do alcance do entendimento dos humanos. Era bem verdade que o motivo disso residia antes na diferença dos estilos de vida que na discrepância das estruturas lógicas das duas espécies. Fraudy descobrira que seus dons telecinéticos só poderiam ser utilizados se um número considerável desses seres se reunisse. Um anão sozinho mal conseguiria levantar uma pedrinha. Por isso, descobriram há muito que só uma união estreita representava um estilo de vida adequado e conveniente.
Portanto formavam um clã estreitamente ligado, em cujo seio nunca havia conflitos. Era claro que tal fato exercera certa influência sobre suas maneiras de pensar. Assim, a idéia de que alguém pudesse ter medo de outro indivíduo da mesma espécie era-lhes completamente estranha.
Fraudy ainda não conseguira descobrir se além do clã que habitava o subsolo da colina, e que contava cerca de mil membros, existiam outros indivíduos da mesma espécie. Muito menos conseguiu saber qual era o relacionamento dos diversos clãs porventura existentes. Os azuis não conseguiram entender a pergunta que ela formulara a este respeito. Por isso, Fraudy achou que provavelmente os que residiam por ali eram os únicos indivíduos da espécie existentes nos arredores, e talvez mesmo em todo o planeta da Fera Cinzenta.
A tecnologia dos anões azuis desenvolvera-se com base nos seus dons telecinéticos. A lei da alavanca, por exemplo, ainda não chegara a ser descoberta. Sempre que tinham de levantar um objeto pesado, os azuis recorriam à capacidade telecinética de seus corpos e criavam um campo gravitacional.
Face a isso, as máquinas e os aparelhos propriamente ditos eram raros e primitivos. Os anões viam-se praticamente impotentes quando surgia algum problema técnico que não pudesse ser resolvido com os meios telecinéticos.
Assim, por exemplo, durante séculos iluminaram suas residências por meio de archotes. Tinham uma compreensão intuitiva dos segredos da eletricidade. Acontece que um campo elétrico projetado em determinada direção não pode ser utilizado na produção da corrente elétrica, tal qual acontece, por exemplo, com uma trovoada.
Os estudos sobre as diversas maneiras de produzir eletricidade resultaram nas primitivas máquinas eletrostáticas. Embaixo da colina havia uma sala na qual estavam montadas cem máquinas desse tipo. Vários dos seres azuis mantinham-nas em constante rotação, produzindo a corrente que fazia brilhar as lâmpadas incandescentes.
Fraudy também descobrira que os anões azuis nunca tiveram intenções hostis para com os quatro humanos.
Na noite em que Mullon fora assassinado, acorreram espontaneamente. Os pensamentos agitados de Fraudy os haviam despertado. O fato de terem interrompido seu sono para ajudar Mullon devia ser considerado um enorme sacrifício, pois para os anões azuis o sono e a renovação de forças ligada ao mesmo representavam um verdadeiro culto praticado a bem da comunidade. O costume de dormir regularmente só era abandonado quando surgia algo de importância extrema.
Foi só isso que Fraudy conseguiu descobrir, ou melhor, deduzir ou adivinhar com base nos fatos ocorridos. Face às enormes dificuldades de comunicação entre os humanos e os anões azuis, essas deduções representavam muita coisa. Cada detalhe que se conseguira descobrir confirmava a existência de um enorme abismo que se abria entre as duas espécies, tornando evidente que haveria necessidade de uma paciência infinita para aproximá-las. Por fim, revelava a imensa variedade de formas de vida que o Criador pôs no mundo.

* * *

Depois de trinta dias Mullon estava recuperado o bastante para que pudesse marcar para a manhã do dia seguinte a partida em direção a Greenwich. Os azuis comunicaram que teriam muito prazer em transportar os três humanos por cima da mata.
Não podemos esperar que sejamos recebidos de braços abertos — disse Mullon, dirigindo-se a Fraudy e Milligan. — Tenho certeza de que neste meio tempo Hollander conseguiu ocupar um lugar de destaque. Sabemos perfeitamente o que isso significa.
Admitamos a pior das hipóteses. Suponhamos que Hollander tenha dissolvido a Assembléia Popular e assumido o poder juntamente com seus adeptos. Sabe que estou morto, mas deve contar com a possibilidade de que vocês voltem a aparecer. Pashen deve tê-lo informado sobre as capacidades dos anões azuis. Portanto, a esta hora já sabe que vocês não dependeriam de uma marcha forçada para vencer os trezentos quilômetros de selva. Vocês são perigosos, pois são as únicas pessoas que podem provar que Pashen contou uma mentira.
Daí se conclui que procurará capturá-los. Sem dúvida terá colocado uma fileira de sentinelas entre a cidade de Greenwich e a borda da mata. Por isso, devemos deslocar-nos bem para o norte ou para o sul a fim de contornar essas sentinelas e, se possível, alcançar Greenwich pelo oeste.
Quando tivermos chegado a Greenwich, veremos o que podemos fazer. Acredito que Hollander ainda não tenha conseguido o pleno controle da situação, ou que deseja ganhar tempo para consolidar o regime por ele criado. Se não fosse assim, já teria aparecido por aqui. Seja como for, temos dificuldades pela frente.”

* * *

O vôo foi rápido e não houve qualquer incidente. Mullon e seus companheiros saíram da mata num ponto situado a quatrocentos quilômetros de Greenwich. A cidade ficava na direção sudoeste. Não descobriram qualquer sentinela de Hollander.
Sem interromper a viagem, os anões azuis transportaram seus passageiros até um ponto situado trinta quilômetros a noroeste da cidade. A poucas centenas de metros dali passava o rio que mais abaixo atravessava Greenwich. Os barrancos salientes do mesmo ofereciam boa proteção contra o helicóptero que Hollander provavelmente estaria enviando para todos os lados, a fim de procurar Milligan e Fraudy.
Assim que viram seus protegidos em segurança, os anões azuis despediram-se. Mais precisamente, executaram uma bela dança, chiavam e faziam seus corpos amorfos brilharem num fulgurante azul-turquesa.
Por estranho que possa parecer, dois deles permaneceram junto a Mullon e seu grupo. Ao que tudo indicava, deveriam manter contato entre os humanos e a colina habitada pelos anões azuis. Mullon sentiu-se muito satisfeito e pediu a Fraudy, que já aprendera a transmitir seus pensamentos aos anões, que lhes exprimisse seus agradecimentos.
O resto do dia passou numa espera enervante e tediosa. Assim que escurecesse, Milligan se poria a caminho em direção a Greenwich, a fim de verificar o que havia acontecido nesse meio tempo. Na pior das hipóteses — ou seja, se Hollander dominasse a cidade e ele, Milligan, não pudesse aparecer por lá — teria pela frente uma marcha de sessenta quilômetros, trinta de ida e trinta de volta. Por isso, dormiu quase todo o resto do dia, para estar em boa forma durante a noite.
Mal o sol se pôs, Milligan começou sua maratona. Logo no início da caminhada teria que vencer uma das etapas mais difíceis: a travessia do rio caudaloso. Milligan guardou seus equipamentos mais importantes — ou seja, a pistola e a bússola — de tal forma que não pudessem ser atingidas pela água. Penetrou na torrente e deixou que esta o arrastasse. Depois, por meio de braçadas bem dadas, nadou em direção à margem oposta. Atingiu-a uns quinhentos metros abaixo do lugar em que se encontravam Mullon e Fraudy.
Ao sair da água, orientou-se por meio da bússola e pôs-se em marcha à velocidade de seis quilômetros por hora, que era verdadeiramente espantosa para as condições climáticas reinantes naquele planeta. Calculou essa velocidade porque dentro de cinco horas, durante as quais não descansara uma única vez, viu emergir da escuridão a massa negra da pequena cidade, na qual se viam raríssimas luzes.
Deitou no capim e descansou alguns minutos. Passou a rastejar, a fim de aproximar-se da cidade. Sabia que O’Bannon morava numa das casas situadas na periferia norte da cidade. Se conseguisse entrar em contato com O’Bannon teria feito muito mais do que ousaria esperar. Mas, isso só seria possível se o velho amigo de Mullon ainda se encontrasse em liberdade.
Quando estava a uns trinta metros da primeira casa, Mullon ouviu alguém pigarrear. Comprimiu o corpo contra o solo e, olhando de baixo para cima, procurou ver à luz mortiça das estrelas quem se encontrava à sua frente.
Dali a pouco, descobriu os contornos de um homem que se mantinha imóvel a poucos metros da casa, com um fuzil nas costas.
Milligan continuou a rastejar em direção ao homem. Não sabia quem era. Podia ser um elemento ligado a Mullon ou a Hollander. De qualquer maneira, teria de passar por ele se quisesse alcançar a casa de O’Bannon.
Milligan ainda não havia chegado a qualquer conclusão sobre o que deveria fazer, quando ouviu o ruído de passos vindos da esquerda.
É você, Suttney? — perguntou a sentinela que se encontrava junto à casa.
Sim, sou eu; tudo em ordem.
O enigma estava resolvido. Milligan sabia que Suttney era um dos homens ligados a Hollander. Portanto, a sentinela também devia pertencer ao mesmo grupo.
O frio está de rachar — resmungou a sentinela. — Gostaria de saber por que temos de ficar aqui. Milligan e a esposa de Mullon nunca poderiam vir para estes lados.
Temos de ficar aqui justamente por que você pensa assim — explicou Suttney.
Acontece que Milligan e aquela mulher não são menos inteligentes que você.
Ora...
Está bem. Dê o fora e trate de dormir.
A sentinela afastou-se sem uma palavra de despedida. Suttney ocupou seu lugar.
Milligan já sabia o que fazer. Descreveu uma curva muito ampla e aproximou-se de Suttney, vindo de trás. Uma ligeira brisa fez o capim farfalhar, abafando qualquer ruído causado por Milligan. Este levantou-se por trás de Suttney, tirou a pistola e encostou-a ao corpo do vigia.
Fique bem quieto! — sussurrou Milligan. — Abra bem os braços.
Apavorado, obedeceu imediatamente, sem dizer uma palavra. Milligan tirou o fuzil que Suttney trazia ao ombro.
Vamos embora; marche!
Suttney hesitou um pouco, mas Milligan não estava disposto a perder tempo. Desferiu uma coronhada de fuzil nas costas de Suttney. Este cambaleou e instintivamente soltou um grito de dor. Milligan segurou-o pela gola do uniforme e virou o rosto em sua direção.
Preste atenção, meu filho! — disse. — Faça isso mais uma vez, e uma coisa nada agradável lhe acontecerá. Não preciso de você. Afinal, há por aí muitas outras sentinelas que poderão contar o que preciso saber.
Dali em diante Suttney caminhou docilmente e por algum tempo manteve um silêncio total.
Milligan seguiu para o nordeste e contou os passos, a fim de orientar-se mais tarde.
Assim que a cidade havia desaparecido, dirigiu-se a Suttney:
Agora você vai contar direitinho o que aconteceu nestes trinta e cinco dias. E não se esqueça de continuar a andar. Temos um passeio muito longo pela frente.

* * *

Pouco antes do nascer do sol, Milligan surgiu cambaleante na margem do rio, bem em frente ao lugar em que Mullon e Fraudy se encontravam acampados. Fez menção de realizar a travessia a nado. Mas Mullon viu que estava exausto e gritou:
Deite e descanse um pouco. Depois o senhor contará tudo.
Não tinha a menor certeza se realmente havia tempo para esperar; só Milligan poderia saber. Mas, como este obedeceu imediatamente e se deitou para descansar, concluiu que realmente não havia acontecido nada que exigisse muita pressa.
Milligan descansou duas horas. Depois caminhou rio acima e atravessou a corrente da mesma forma que fizera no dia anterior.
Conte logo! — pediu Mullon.
Milligan respirou profundamente.
Bem, aconteceu mais ou menos aquilo que era de esperar — principiou Milligan. — Pashen teve bastante inteligência para pousar o helicóptero a alguma distância de Greenwich. Ele o fez antes do nascer do sol. Depois conseguiu aproximar-se de Hollander e relatou-lhe o que havia acontecido. Hollander compreendeu imediatamente que sua hora havia chegado. Seus homens, restavam algumas centenas nos quais poderia confiar plenamente, saquearam o arsenal e cercaram todas as casas antes que os habitantes acordassem. Hollander arrancou-os da cama e proclamou o estado de emergência. Não indicou qualquer motivo para isso. Algumas pessoas procuraram resistir, mas evidentemente não poderiam ter a menor chance. Os que se opuseram foram presos: entre eles estão O’Bannon, Wolley e mais alguns conhecidos nossos. Hollander trancou-os nos destroços da espaçonave. E mandou soltar Harper e Glannon.
Depois Hollander criou a chamada milícia de segurança, formada por quinhentos homens. Os membros dessa milícia eram as únicas pessoas que poderiam portar armas. Escolheu homens que combinavam com ele.
Nenhum deles poderia aparecer publicamente no planeta Terra.
É claro que houve outras pessoas que aderiram a Hollander, provavelmente para evitar dificuldades. Hollander mantém um regime de terror na cidade e está esperando por mim e por Mrs. Mullon. Assim que consiga prender-nos, quer fazer uma visita aos anões azuis. O homem por mim interrogado não sabia quem ou o que vinham a ser esses anões azuis. Limitou-se a dizer que Hollander manifestava um interesse extraordinário por eles. Acho que é só.”
Mullon acenou com a cabeça; parecia pensativo.
Quem foi que lhe contou isso?
Foi Suttney. Consegui agarrá-lo quando estava de sentinela. Toquei-o dez quilômetros pela estepe afora e interroguei-o. Depois eu o girei, deixando-o tonto a ponto de não saber mais para onde andar. As outras sentinelas devem ter saído à sua procura quando chegou a hora do revezamento, mas dificilmente poderão tê-lo encontrado antes do amanhecer. Levei-o na direção nordeste, para que não pensem que nosso esconderijo fica no noroeste.
Com um sorriso triste, Mullon disse:
Você merece uma condecoração, Milligan. Assim que a Assembléia Popular possa exercer suas atribuições, formularei uma proposta para que a mesma lhe seja concedida.
Milligan riu.
Obrigado; prefiro um cigarro. Os meus acabaram.
Mullon atendeu ao pedido. Depois dirigiu-se a Fraudy.
Hollander nem sequer se deu ao trabalho de guardar as aparências da legalidade. Isso lhe custará a cabeça, assim que estejamos em condições de tomar nossas medidas contra ele.
Fraudy confirmou com um gesto.
O que vamos fazer? — perguntou.
Temos de voltar para junto dos azuis ,— decidiu Mullon. — Precisamos preveni-los contra Hollander; além disso, representam nossa única salvação. Será que você poderia explicar isto aos dois?
Fraudy concentrou-se por algum tempo e passou a transmitir seus pensamentos para as duas criaturas que haviam ficado nas proximidades. Dali a trinta minutos, os azuis se deslocaram rio acima e desapareceram na direção leste. Fraudy disse:
Não acredito que tenham entendido textualmente tudo que procurei transmitir-lhes. Mas tenho certeza de que compreenderam que existe um perigo para eles e para nós.
Acha que virão buscar-nos?
Fraudy deu de ombros.
Talvez. Ninguém sabe o que se passa em suas mentes.

* * *

O longo dia correu sem maiores novidades.
O sol ia baixando. Mullon e Fraudy conversavam sobre os planos que o primeiro concebera, enquanto Milligan estava sentado atrás deles, na penumbra projetada pelo barranco, e limpava o fuzil que tomara de Suttney.
Subitamente Mullon ouviu-o levantar-se e soltar um grito de advertência. Num gesto instintivo Mullon rolou para o lado e olhou para a margem oposta.
Bem em cima do barranco viam-se os contornos de um homem que se destacavam nitidamente contra a luz do sol no poente. Mullon ficou perplexo ao ver que o estranho levantava os braços e fazia sinais. Ao que parecia, não estava armado. Pelo menos não tinha fuzil.
Milligan, fique de prontidão! — ordenou Mullon sem olhar para Milligan.
Depois gritou para o desconhecido:
O que deseja?
O desconhecido colocou as mãos em concha à frente da boca e respondeu:
Não quero nada. Passei por acaso.
Venha cá! — ordenou Mullon.
O desconhecido obedeceu. Era um nadador ainda mais exímio que Milligan.
Saiu da água completamente ensopado, mas com um sorriso alegre nos lábios.
Como vejo, estão escondidos — disse. — Por isso tenho motivo para acreditar que não são elementos ligados a Hollander. Meu Deus, Mullon, é o senhor?!
Parecia assustado. Mullon fez que sim.
Sim, sou eu mesmo. Como vê, não estou morto. Quem é você?
Meu nome é Chellich. Acredito que nunca tenha ouvido falar a meu respeito. Antigamente costumava andar na esteira de Mestre Hollander. Mas aquilo que está fazendo agora me causa repugnância. Por isso resolvi afastar-me dele.
Aonde pretende ir?
Quero ir para o nordeste. Passei por lá de helicóptero. Tive oportunidade de dar umas voltas, já que Hollander me deu ordem para procurar Mrs. Mullon e Milligan.
O que pretende fazer por lá?
No nordeste existem florestas, florestas de verdade, não esta selva que fica ao leste. Sou do Maine. Como deve saber, é um Estado situado na costa do Atlântico. Sei pegar um urso a unha, naturalmente apenas um urso-coati. Saberei arranjar-me. Além de tudo tenho uma pistola.
Tirou a arma que trazia no bolso e atirou-a para Mullon. Este pegou-a e perguntou em tom de espanto:
O que quer que faça com isto?
Ora — disse Milligan com um sorriso — se fosse o senhor, não acreditaria numa única palavra dita por este maldito Chellich. Aposto que o senhor concorda comigo!
Agora a coisa já mudou de figura — contornou Mullon, sorrindo.
O que pretende fazer? — perguntou Chellich.
O sorriso de Mullon reforçou-se.
Ainda não tenho certeza sobre se o senhor tem agora alguma coisa com isso.
É verdade — reconheceu Chellich. — Apenas perguntei porque gostaria de acompanhá-los. Em grupo estarei melhor que sozinho. Por isso eu lhe ficaria muito grato se conseguisse superar essa desconfiança. Espero que não se oponha a que eu durma um pouco. Sinto-me exausto.
Sem dizer mais uma palavra, levantou-se, caminhou um pouco rio abaixo e se deitou. Dali a pouco a respiração regular provou que, apesar da dureza da rocha em que estava deitado, realmente tinha adormecido.

* * *

Não conseguiram chegar a um acordo sobre Chellich. Milligan disse sem rodeios que, se dependesse dele, o mandaria embora imediatamente.
Não havia dúvida de que o caminho mais seguro era este. Mas aquele jovem conseguira captar a confiança de Mullon, e o democrata autêntico foi de opinião que não assumiria maiores riscos se o levasse para junto dos azuis — isso evidentemente se eles se mostrassem dispostos a transportar mais um homem. Bastaria ficar com a pistola de Chellich. Que mal poderia fazer se não tivesse nenhuma arma?
Fraudy foi da mesma opinião. Milligan foi derrotado na votação. Todavia, consolou-se com o fato de que na situação em que se encontravam um homem a mais poderia representar uma vantagem considerável. Na verdade, não desconfiava de Chellich, mas acreditava que, ao confiar nele, assumia uma risco excessivo.
Logo após o pôr do sol Chellich levantou-se e aproximou-se do grupo.
Boa noite — disse em tom amável. — Já chegaram a uma decisão?
Já — respondeu Mullon. — Poderá ir conosco, desde que nossos meios de transporte o permitam.
Chellich ergueu as sobrancelhas.
Seus meios de transporte? — perguntou em tom de surpresa. — O senhor ainda dispõe de algum meio de transporte?
Mullon fez que sim.
Espero que dentro em pouco tenha oportunidade de vê-lo.
Mal acabara de pronunciar a última palavra, alguma coisa veio descendo; uma luz azul e tremeluzente desceu pelo barranco e pairou imóvel pouco acima do solo. Eram os anões azuis que haviam voltado.
Mullon observou Chellich. Viu que este se sentia espantado diante do quadro.
Fraudy contou os anões.
Mais ou menos cento e cinqüenta — disse, dirigindo-se a Mullon. — Acho que não poderão levar Chellich.
Procure descobrir — pediu Mullon.
Foi para junto de Chellich. Este continuava a fitar as figuras trêmulas, luminosas e dançantes.
O que é isso? — perguntou, assim que ouviu Mullon aproximar-se.
São nossos “duendes” — respondeu Mullon com um sorriso. — Aliás, vim para dar-lhe uma notícia desagradável.
O que é?
Estes cento e cinqüenta... “duendes” não serão capazes de transportar quatro pessoas. O senhor terá de ficar aqui, por enquanto, se estiver de acordo.
Quer dizer que mandará seus “duendes” novamente para cá, a fim de levar-me? — perguntou Chellich.
Isso mesmo.
Quanto tempo deverá demorar?
Não posso dizer. Esses seres são tão estranhos...
Quer dizer que são seres? — interrompeu Chellich em tom violento. — Não venha me dizer que são seres inteligentes.
É claro que são. Mas deixe-me concluir. Estes seres são tão estranhos que não se pode prever nenhum dos seus atos. Até agora eles nos têm prestado todos os favores de que precisamos, sem esperar qualquer recompensa. Um instante, Fraudy está chegando.
Não poderão levar mais de três pessoas — disse Fraudy em tom exaltado. — Mas estão dispostos a enviar um mensageiro, para que imediatamente venha um pequeno grupo para buscar Mr. Chellich.
Ouviu? — perguntou Mullon. Chellich fez um gesto afirmativo.
Está bem; concordo. Ou melhor: fico-lhe muito grato. Esperarei aqui mesmo, não é?
Perfeitamente. Neste caso virão buscá-lo dentro de menos que três horas.
Muito bem. Será que realmente se pode confiar nesses... bem, como deverei chamá-los?
Hum — fez Mullon e lançou um olhar pensativo sobre o bando dançante de anões azuis.
Acabara de ter uma idéia. Logo descobriria se Chellich era um traidor ou um homem honesto.
Vou contar-lhe uma coisa — disse depois de algum tempo. — Estes seres são telepatas. Sabem ler pensamentos. Se estiver tramando alguma coisa, será preferível dar o fora antes que venham buscá-lo.
Chellich riu.
Está bem — disse. — Minha avó costumava contar esse tipo de história.
Mullon colocou a mão sobre seu ombro.
Acontece que estou falando sério — disse. — Não me importa que histórias sua avó lhe tenha contado.
Chellich lançou-lhe um olhar perplexo, enquanto Mullon se preparava para partir juntamente com Fraudy e Milligan.
Subitamente viu os três subirem ao ar, atingirem a borda do barranco e desaparecerem. À sua frente, planavam os anões azuis, que escondiam a luz tremeluzente de seus corpos no capim alto da estepe.
Por algum tempo. Chellich manteve-se imóvel e perplexo. A luminosidade e os chiados já haviam desaparecido à distância. Subitamente sacudiu a cabeça e murmurou:
Caramba! Se eu contar isso ao Capitão Blailey, ele dirá que tomei muita cachaça em Greenwich. Bem, vejamos!
Sentou-se sob um barranco saliente, tirou o relógio de pulso e virou o fundo de plástico para cima. Depois de comprimir o botão de ajuste dos ponteiros disse a meia voz:
Sunny Maid, Sunny Maid, Sunny Maid.
Dali a alguns segundos, uma voz fina e metálica saiu do interior do relógio:
O senhor nos fez esperar bastante. É Blailey que está falando. Transmita logo!
Conforme o combinado, Chellich respondeu:
Perdão; não conheço nenhuma pessoa com este nome.
Vá para o inferno! Pois bem: Sunny Maid é a moça mais bonita de Kansas City. Fale logo!
Com um sorriso nos lábios, Chellich deu início ao relato.
Contou que vencera em três dias de marcha forçada os cem quilômetros que separavam a gazela da cidade de Greenwich, onde viera parar em meio ao caos. Não teve a menor dificuldade em ocultar sua verdadeira identidade, pois a cidade estava virada de pernas para o ar. Teve de esforçar-se ao máximo para não dizer a Hollander quem era e explicar-lhe que bastaria uma única palavra sua para que a tropa de choque o prendesse e o transportasse à Terra, onde seria julgado.
Nos cinco dias passados em Greenwich, descobrira tudo que poderia ser útil. Acompanhara as buscas destinadas a localizar Suttney, a sentinela desaparecida, e viu quando este foi encontrado.
Prosseguindo no relato, disse que logo após isso saiu em busca dos dois desaparecidos, e que em vez de dois encontrara três.
Finalmente relatou o que acabara de assistir junto ao rio.
O senhor não pode estar falando sério — resmungou Blailey. — Deve ter tomado demais dessa horrível cachaça servida pelos colonos.
Foi o que pensei. Acontece que “a história” durou dez minutos, e durante esse tempo belisquei várias vezes o meu braço.
Está bem; quer dizer que virão buscá-lo?
Sim senhor.
Pois deixe que o levem e oportunamente volte a entrar em contato conosco. Boa sorte. Fim.
Chellich voltou a virar o relógio e colocou-o no pulso. Depois encostou-se ao barranco do rio e esperou.

* * *

No interior da nave de reconhecimento de longo curso, do tipo gazela, que estava pousada a oeste, em meio às montanhas, o Capitão Blailey transmitiu uma mensagem condensada de telecomunicação. A nave retransmissora, que se mantinha imóvel no espaço, a uma unidade astronômica do planeta Fera Cinzenta, retransmitiu a mensagem em direção à Terra. Dali a uma hora, Blailey recebeu a resposta. Seu teor foi o seguinte:

Prossiga nas observações. Por enquanto abstenha-se de intervir. Continue a informar regularmente.

A mensagem concluía com o sinal codificado que indicava ter ela sido elaborada pelo próprio Rhodan. Blailey assobiou entre os dentes.
Sim senhor! Rhodan! — disse em tom de espanto. — Parece que tem um interesse todo especial por essa história do planeta Fera Cinzenta.
Retornou a seu lugar e deixou-se cair na poltrona articulada.
Pensando bem — murmurou em voz baixa — este Mullon é um homem de verdade. Provavelmente conseguirá resolver a confusão sem que tenhamos de intervir.
Virou-se para o operador de rádio.
Não durma, Lowell! — disse. — Sunny Maid poderá voltar a chamar a qualquer momento.




* * *
* *
*





Talvez com o auxílio dos anões azuis, os democratas consigam derrubar a ditadura de Hollander... Rhodan, por enquanto, não quer intervir.
Em Os Microtécnicos, próximo volume da série, novas e inesquecíveis aventuras!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html