Quando
recuperou a consciência viu-se deitado no chão liso, firme e frio,
de um amplo recinto, em que reinava uma semi-escuridão. Percebeu os
contornos vagos de objetos estranhos que se encontravam nas
proximidades.
Procurou
erguer o corpo, mas no momento em que executou o primeiro movimento a
mesma pressão que sentira antes desceu sobre ele e comprimiu-o
contra o chão. A pressão foi diminuindo e cessou de todo assim que
parou de fazer movimentos.
“Estou
preso”,
pensou Mullon. “Quem
foi que me prendeu? E onde estão os companheiros?”
Chamou-os
pelo nome. Uma voz vinda da penumbra respondeu.
— Milligan,
onde está você?
— Aqui,
chefe! — respondeu Milligan. — Estou deitado no chão e não
consigo fazer qualquer movimento.
— Comigo
está acontecendo a mesma coisa — disse Mullon. — Onde estamos?
Mullon
explicou que também não tinha a menor idéia. Depois pediu que
Milligan lhe contasse o que havia acontecido.
— De
repente vi algumas luzes azuladas sobre a água. Moviam-se que nem
fogos-fátuos
sobre uma turfeira. Procurei levantar-me para acordar o senhor, pois
as luzes vinham em direção à ilha. Mas assim que ergui o corpo um
pouco, alguma coisa caiu sobre mim, apertou-me contra o solo e me
travou a voz. Não consegui emitir qualquer som. Devo ter desmaiado
poucos segundos depois.
— Foi
exatamente a mesma coisa que aconteceu comigo — disse Mullon. —
Gostaria de saber o que me prende ao solo.
Fez outra
tentativa para levantar-se, mas ainda desta vez não foi bem
sucedido. Alguma coisa atirava-se sobre ele assim que executava
qualquer movimento e só saía quando se mantinha imóvel.
Naquela
penumbra, Mullon deveria ter percebido aquilo que o comprimia contra
o chão, se é que havia alguma coisa perceptível. Aquela força
devia ser invisível por natureza, ou então tratava-se de algo que
possuía o dom de tornar-se invisível.
Mullon
lembrou-se dos fogos-de-santelmo. Estivera convencido de que sobre a
ilha se espalhara um campo elétrico. E qualquer campo energético,
seja qual for sua natureza, é invisível.
“Será
que se trata de algo semelhante? Talvez de um campo gravitacional
cujas linhas periféricas correm pouco acima do solo e me comprimem
assim que procuro erguer-me?”,
pensou assustado.
A hipótese
era plausível.
“Mas,
santo Deus, que seres possuem energias desse tipo e lidam com elas
como uma criança que brinca com uma bola?”,
indagou-se mentalmente.
Depois de
algum tempo, mais uma voz foi ouvida na semi-escuridão. Era Fraudy.
Não teve de experimentar o choque de sentir-se só em meio à
escuridão. Mullon e Milligan responderam imediatamente aos seus
chamados.
Dali a
quinze minutos, Pashen também recuperou os sentidos. Picaram sabendo
que os quatro ocupantes da ilha foram atingidos da mesma forma. Todos
eles, com exceção de Milligan, ouviram gemidos, saíram da barraca,
viram as chamas azuis e foram comprimidos ao solo por uma força;
tremenda e invisível. Depois perderam os sentidos.
E, naquele
instante, a situação dos quatro era idêntica. Nenhum deles
conseguia levantar o corpo. Ao menor movimento, aquela força
misteriosa — ou fosse lá o que fosse — descia sobre eles,
tornando-os incapazes de mexer um dedo.
— Só
nos resta uma coisa: esperar —, disse Mullon depois de algum tempo.
— Não é de supor que nos tenham trazido a este lugar para
deixar-nos morrer de fome na escuridão. Haverá de chegar a hora em
que aparecerá alguém para cuidar de nós, e então poderemos
formular nossas queixas.
*
* *
A hora
esperada por Mullon demorou uma eternidade.
Enquanto
isso, os prisioneiros conversavam e procuravam adivinhar que recinto:
era aquele no qual se encontravam. Os contornos, que conseguiam
enxergar, eram vagos e estranhos, não permitindo qualquer conclusão.
Depois de
longas horas, quando os prisioneiros estavam formulando conjeturas
sobre as dimensões do recinto, escutaram um chiado vindo dos fundos
da sala. Os prisioneiros ficaram em silêncio e ouviram o ruído
aproximar-se. Mullon acreditou ver uma luminosidade azul-pálida
vinda de longe. Foi só o que observou.
Naquele
instante, algumas lâmpadas acenderam-se em cima dele, mergulhando a
cena numa luz branca e ofuscante.
Mullon
fechou os olhos. Voltou a abri-los lentamente e descobriu, quase
exatamente em cima de sua cabeça, uma das fontes de luz. Era uma
esfera de vidro de meio metro de diâmetro com um fio incandescente
no centro.
— Uma
lâmpada incandescente! Meu Deus, é isso mesmo: uma lâmpada
incandescente no planeta da Fera Cinzenta! — balbuciou Mullon.
Nesse
instante, Fraudy gritou:
— Olhe
nosso pano azul!
Mullon
virou o rosto. Fraudy encontrava-se a poucos metros de distância, e
perto dela um pedaço de pano azul, igual ao que haviam retirado da
boca do crocodilo, pairava pouco acima do solo. Mantinha um movimento
trêmulo ininterrupto, e sua cor cambiava rapidamente do
violeta-escuro ao azul-turquesa. Os chiados que haviam ouvido antes
provinham dali.
Perplexo,
Mullon ergueu o corpo. Nem se deu conta de que já não havia
qualquer pressão que o impedisse de fazê-lo. Sentou e fitou os
estranhos objetos azuis que dançavam em torno dele.
Estendeu
cautelosamente a mão e procurou pegar um deles. Não houve a menor
resistência. Deslizou por cima da mão de Mullon e manteve-se imóvel
por algum tempo. Depois afastou-se, voltou a entrar na dança e
passou a emitir seus chiados.
Mullon
olhou em torno. Milligan, Pashen e Fraudy estavam cercados dos
objetos azuis, tal qual ele. Também se haviam erguido e procuravam
compreender o que acontecia em torno deles. A julgar pela expressão
de seus rostos, entendiam tanto quanto Mullon.
— O que
é isso? — gritou Milligan desesperado.
A resposta
era patente e Mullon a teve na ponta da língua. Mas era tão
terrível que preferiu não proferi-la.
Esses
seres azuis haviam atacado a ilha e, depois de recorrerem a um
misterioso campo energético, capturaram quatro prisioneiros.
Conseguiram de alguma forma levá-los a esse recinto, cheio de
estranhos objetos e iluminado por lâmpadas incandescentes de feitio
antiquado.
De
qualquer maneira, os panos azuis eram uma forma de vida, e uma forma
de vida que dificilmente poderia ser mais estranha. Não havia a
menor dúvida de que se tratava de seres inteligentes.
Mullon
fitou-os e não descobriu outra coisa senão aquilo que já vira
quando haviam arrancado o pano da boca do crocodilo. Não havia
qualquer estrutura orgânica, muito menos tinham membros ou qualquer
coisa que pudesse ser comparada com braços ou pernas. Ao que
parecia, os corpos eram formados de uma massa homogênea. E o formato
era variável e irregular; eram elásticos. Nenhum dos seres
estranhos se parecia com o outro, e nenhum deles apresentava uma
forma fixa. Tudo parecia fluir e deslizar: tanto os corpos como as
formas e as cores.
Era um
espetáculo irritante e fascinante ao mesmo tempo.
— Eles
não nos farão nada — exclamou Fraudy de repente. — Afinal,
salvamos um deles, que se encontrava na boca do crocodilo.
5
Fraudy
teve razão. O comportamento dos seres azuis era estranho, mas não
hostil. Às vezes até chegava a parecer que esses seres executavam
sua dança para apaziguar os prisioneiros e permitir que se
recuperassem do susto.
O
desaparecimento do campo gravitacional, que até a pouco os mantivera
presos ao solo, era outra prova de que não havia o menor perigo.
Ninguém pretendia deter os homens pela força.
Apesar
disso, Mullon viu uma tarefa dificílima à sua frente. Aquilo que
imaginara até então parecia lógico, mas não havia qualquer
certeza de que fosse verdadeiro. De forma alguma se poderia admitir
que os seres azuis se sentissem ligados às leis fundamentais da
lógica terrana. Para ele o desaparecimento do campo gravitacional
parecia um sinal de amizade, mas para os seres azuis poderia ser
exatamente o contrário.
— Venham
cá! — ordenou aos companheiros. — Alguém tem uma arma?
Milligan
trazia sua pistola; Pashen também. O fuzil de Milligan caíra ao
chão no momento em que a ilha foi atacada. Provavelmente ainda se
encontrava no mesmo lugar.
— Antes
de mais nada — disse Mullon — precisamos descobrir onde estamos,
como podemos sair daqui, o que esses sujeitos azuis querem fazer
conosco e se estão em condições de reparar nosso helicóptero. O
resto é secundário.
No momento
em que os ex-prisioneiros se levantaram e se ajuntaram, os panos
azuis pararam de dançar. Reunidos num grupo compacto, pairavam uns
cinco centímetros acima do solo e o único movimento que executavam
era um tremor quase invisível. O chiado tornara-se mais fraco, e as
mudanças de cor eram menos freqüentes. Parecia que estavam
confabulando.
— É
verdade — suspirou Milligan. — Mas como poderemos descobrir tudo
isso?
— Acho
que não será difícil descobrir a saída desta sala — disse
Mullon. — Pois bem; sairemos e daremos uma olhada lá fora. Acho
que viemos parar em plena selva. De qualquer maneira, tenho plena
certeza de que não nos encontramos na ilha. Acredito...
— Olhe!
— interrompeu-o Fraudy em tom exaltado. — Estão indo embora,
não... pararam!
O grupo de
seres azuis pusera-se em movimento e se afastara uns dez metros,
passando entre dois aparelhos estranhos. Estacaram e dois deles
voltaram, como se quisessem pedir aos humanos que os seguissem.
— Pois
bem, vamos andando! — decidiu Mullon. — Querem mostrar-nos alguma
coisa.
Os seres
azuis moviam-se bem mais depressa que os humanos. Avançavam alguns
metros, esperavam até que os homens os tivessem alcançado, e
reiniciavam o jogo.
Dessa
forma, Mullon e seus companheiros foram conduzidos através da sala.
Tratava-se de um gigantesco recinto quadrangular de cinqüenta metros
de comprimento e trinta de largura. A altura do teto devia ser de
cerca de quatro metros. Ao que parecia, a única finalidade daquela
sala consistia em abrigar os estranhos aparelhos, cuja finalidade os
homens não conseguiram descobrir, nem mesmo à luz das lâmpadas.
No fim do
salão, havia várias saídas. Não existiam portas. Levavam a
corredores tão profusamente iluminados quanto o salão. Os seres
azuis escolheram a saída do meio. Entraram num corredor que tinha
pouco menos de dois metros de altura, e que depois de algum tempo
começou a aumentar suavemente.
Mullon
caminhava à frente do grupo. Foi o primeiro a ver uma mancha
cinzenta, que parecia corresponder à saída do corredor. Sentiu uma
lufada de ar quente e úmido, vinda da frente.
Dali a
alguns minutos, perceberam que a mancha cinzenta não era outra coisa
senão a claridade do amanhecer. Perceberam também que o corredor
terminava na encosta de uma colina coberta apenas de pequenos
arbustos, que se erguia em meio à mata fumegante.
A colina
tinha uns cinqüenta metros de altura, e a saída do corredor ficava
a pouco mais de trinta metros da base. Mal e mal permitia que se
pudesse enxergar acima das copas das árvores. Bem longe, ao leste,
Mullon viu uma faixa azul que cortava a massa compacta da mata. Era
um rio. Seria o mesmo em que ficava a ilha?
Mullon
olhou em torno e descobriu várias outras saídas, que terminavam no
flanco da colina. Ao que parecia, os seres azuis haviam construído
uma verdadeira cidade subterrânea.
Mullon
esteve a ponto de chamar a atenção dos companheiros para o rio que
acabara de descobrir, quando verdadeiros bandos de seres azuis
apareceram nas outras saídas e se reuniram ao grupo que conduzira os
humanos a partir do pavilhão subterrâneo. Deveriam ser uns duzentos
ao todo. Pairavam pouco acima dos arbustos e Mullon receava que, se
fossem ocorrer hostilidades, estas deveriam verificar-se naquele
instante.
Mas os
seres azuis mantiveram-se calmos. Mullon pôde dirigir-se aos
companheiros e conferenciar sobre a melhor maneira de atingir o rio
que atravessava a mata.
Subitamente
sentiu-se levantado. No primeiro momento assustou-se, pois a sensação
que teve foi a da queda livre. Viu que subitamente pairava no ar, e
que uma força invisível o mantinha a cerca de cinco metros de
altura.
Os
companheiros fitaram-no apavorados.
— O que
é isso? — gritou Milligan. — Devo atirar, chefe?
— Não —
gritou Mullon. — Deixe sua pistola onde está. Acredito que...
Nesse
instante, Fraudy soltou um grito de pavor. Cambaleou e esteve a ponto
de cair, mas no mesmo instante foi levantada, subiu e veio parar ao
lado de Mullon.
— O que
é isso? — gritou muito assustada. — O que estão fazendo
conosco?
— Calma!
— disse Mullon com uma risada. — Provavelmente querem levar-nos
até o rio.
— Como?
Por cima das árvores? Mullon fez que sim.
— Estes
seres dispõem de forças extraordinárias. O mesmo campo
gravitacional usado para manter-nos presos ao solo agora nos levanta.
Precisam apenas empurrar-nos por cima da mata, ou coisa que o valha.
Milligan
também perdeu o apoio dos pés e foi subindo. Pashen foi o último a
ser levantado. Milligan riu:
— Aqui
estamos reunidos. E agora?
Os seres
azuis também se puseram em movimento. Deslocando-se num grupo
compacto, desceram pela colina e penetraram na mata. A vegetação
espessa não representava qualquer obstáculo ao deslocamento
daqueles vultos minúsculos.
— Lá
vão eles — gritou Milligan. — O que será de nós?
Mal
acabara de pronunciar a última palavra, e Mullon teve a impressão
de que alguém o empurrava. Deslocando-se pelo ar, afastou-se da
colina e passou por cima das copas das árvores. Olhou para trás e
viu que seus companheiros estavam sendo movidos pela mesma força
misteriosa.
A
velocidade do deslocamento foi crescendo rapidamente. Mullon sentiu o
vento assobiar em seus cabelos. Não pôde deixar de sentir uma
admiração profunda pela capacidade extraordinária dos pequenos
seres azuis, que lá embaixo se deslocavam pela mata e transportavam
seus prisioneiros pelo ar.
“Como
será que conseguem fazer isso?”,
pensou o democrata.
Mullon
teve uma idéia. O único lugar em que vira aparelhos era o pavilhão
subterrâneo, e estes não lhe pareciam apropriados à geração de
um campo gravitacional. Face a isso, podia-se perfeitamente supor que
o campo não era gerado por qualquer máquina, mas pelos próprios
corpos dos seres azuis. Por certo a estrutura da matéria de que eram
feitos capacitava-os a criarem campos elétricos e gravitacionais e
projetá-los para qualquer lugar que desejassem. Portanto, tratava-se
antes de uma capacidade telecinética que de um avanço tecnológico.
Dentro de
meia hora, aproximadamente, Mullon e seus companheiros chegaram ao
rio. Pela largura devia ser o mesmo em que ficava a ilha onde haviam
acampado, se bem que não vissem nada da tal ilha.
No momento
em que chegavam à margem, os anões azuis saíam da mata, lá
embaixo. Haviam-se deslocado com a mesma velocidade através da
selva, acompanhando Mullon e seus companheiros, que “voavam”.
Dali em
diante acompanharam o rio, na direção sudeste. Pelos cálculos de
Mullon, a distância entre a colina sob a qual moravam os seres azuis
e a ilha em que estava guardado o helicóptero devia ser de cem
quilômetros no mínimo.
Verificou-se
que seus cálculos haviam sido corretos. Em pouco menos de duas
horas, grande número de ilhas de todos os tamanhos surgiu junto à
margem direita do rio. Na maior delas o helicóptero descansava
pacificamente sob o sol.
Para os
anões azuis, a água não representava nenhum obstáculo. Dali a
poucos segundos, Mullon e seus companheiros “pousaram”
na ilha, tão suavemente como haviam sido erguidos na colina.
Enquanto
isso, os seres azuis formaram um círculo em torno do helicóptero.
Ao que parecia, sabiam que era nele que se concentrava o interesse
dos humanos. O crocodilo que Fraudy mandara cortar no dia anterior
continuava no mesmo lugar.
Tremendo
de curiosidade, Mullon subiu ao helicóptero.
“Será
que os seres azuis o haviam reparado?”,
pensou ansioso. “Não;
não tinham feito nada disso.”
Mullon
procurou dar partida, mas o resultado foi o mesmo do dia anterior. O
ponteiro indicador da carga da bateria não se moveu, nenhuma luz se
acendeu e o transmissor não emitiu o mais leve zumbido.
Mullon
sentiu-se decepcionado. Abaixou-se e abriu a portinhola atrás da
qual se encontravam as baterias. Removeu os contatos e retirou uma
caixinha. Saiu do helicóptero, levando-a.
— Nada —
disse em tom contrariado. — Vejamos o que os azuis acham disso.
Colocou a
bateria no chão, bem na frente dos seres azuis, que pairavam em
torno do helicóptero, formando um círculo amplo. Não sabia se
estas criaturas compreenderiam do que se tratava. Mal colocou a
bateria no chão, um bando de seres azuis precipitou-se sobre a mesma
como se quisesse desmontá-la.
Pelo que
Mullon viu, não tocaram na caixa uma única vez; apenas se
aproximavam a poucos centímetros da mesma. Mas, depois de algum
tempo, pareciam ter tomado uma decisão. Retiraram-se, chiaram por
algum tempo, bastante exaltados e, ao que parecia, esforçaram-se
para convencer seus companheiros a agruparem-se da mesma maneira como
haviam atravessado o rio.
Antes que
qualquer dos quatro humanos tivesse tempo para dizer qualquer coisa,
sentiram-se levantados de novo e foram postos em movimento em direção
à margem direita do rio. Mullon olhou para trás e viu que a bateria
também estava sendo levada. Planava atrás deles.
Num vôo
vertiginoso, regressaram à colina dos seres luminosos. Os azuis
desapareceram num dos corredores, depois de terem “pousado”
seus passageiros suavemente. Mullon seguiu-os, juntamente com seus
companheiros, carregando a bateria sob o braço.
Voltaram
ao pavilhão no qual haviam despertado horas antes. Os seres azuis
reuniram-se à frente de um objeto em formato de caixa, que cobria
uma área de cerca de vinte metros quadrados e chegava quase até o
teto.
A caixa
era feita de metal. Uma porta de cerca de um metro de altura abriu-se
— ao que tudo indicava automaticamente — assim que Mullon se viu
à frente da mesma. Naquele instante, uma luz se acendeu no interior
do cubo gigante.
Mullon
passou de quatro pela pequena porta, seguido por Milligan. Lá dentro
viram um disco circular de três metros e meio de diâmetro, feito de
plástico transparente. Esse disco descansava sobre um eixo apoiado
de ambos os lados nas paredes da caixa. Em dois lugares, certos
objetos se encostavam ao disco; pareciam contatos de fricção.
Desses contatos e do próprio disco, junto ao eixo, pendiam fios
cujas pontas tocavam o chão.
Mullon
examinou o aparelho.
— É uma
máquina eletrostática — disse. — É uma máquina eletrostática
de tamanho gigante.
Milligan
não sabia o que significava isso. Mullon explicou:
— Trata-se
de um aparelho que produz a tensão elétrica através da separação
de dois campos. Há duzentos anos foram realizadas as primeiras
experiências no campo da eletricidade, por meio desse tipo de
máquina. Ela pode servir perfeitamente como gerador. Geralmente a
tensão chega a vários milhares, e por vezes até dezenas de
milhares de volts. É bem verdade que a potência é muito reduzida.
Mas acredito que com este aparelho gigante talvez se consiga chegar a
meio ampère.
— Será
que com isso conseguiremos carregar as baterias?
— Acho
que sim. Resta saber quem se dispõe a girar a máquina.
Até
parecia que os seres azuis que se encontravam do lado de fora haviam
lido seus pensamentos. Subitamente a roda transparente começou a
girar. Dentro de poucos segundos, atingiu a velocidade aproximada de
duas rotações por segundo. Mullon pegou cautelosamente dois dos
fios isolados que tocavam o chão e encostou suas pontas, onde o
metal aparecia por baixo do isolamento. Logo notaram uma enorme
faísca.
— É
fantástico! — disse Milligan em tom de espanto.
Mullon fez
um gesto afirmativo. Deixou cair os dois fios e lançou um olhar
pensativo para a enorme máquina.
— Quer
dizer — disse como se estivesse falando consigo mesmo — que por
aqui os geradores de corrente alternada ainda são desconhecidos.
Seus corpos são capazes de irradiar campos elétricos e
gravitacionais, e por isso têm condições de realizar verdadeiros
malabarismos. Mas só sabem gerar corrente com máquinas
eletrostáticas do tempo dos nossos avós.
— Que
criaturas estranhas!
*
* *
Dali a
cinco horas, a bateria estava carregada.
— Agora
podemos montá-la no helicóptero e trazer as outras, para que também
sejam carregadas — disse Mullon. — Como poderíamos explicar-lhes
que temos de voltar à ilha?
Mal
acabara de falar, os seres azuis puseram-se em movimento em direção
à saída do pavilhão. Tal qual da outra vez, subiram até a saída
das instalações subterrâneas, e foram parar no flanco da colina.
— Não é
necessário todos irem à ilha — disse Mullon. — Fraudy e
Milligan poderão ficar aqui. Pashen irá comigo e me ajudará a
montar a bateria.
— Está
bem — resmungou Pashen. — Mas não sei o que pretende fazer se as
criaturas azuis levarem os quatro!?
Naquele
instante, aconteceu uma coisa estranha. O grupo de anões azuis
dividiu-se. Metade dos pequenos seres, ou seja, cerca de cem,
desapareceu nas diversas aberturas existentes no flanco da colina. Os
outros permaneceram no local.
Mullon
sentiu-se levantado; Pashen seguiu-o de perto. Por um ou dois minutos
pairaram imóveis, a uns cinco metros de altura; depois as criaturas
azuis foram descendo pela colina e desapareceram na mata, arrastando
Pashen e Mullon.
Fraudy e
Milligan ficaram para trás.
Mullon
sentiu o susto até a medula dos ossos. O que acabara de acontecer
transformara em certeza a suposição que já lhe acudira várias
vezes: sempre que refletia sobre a maneira de explicar alguma coisa
aos seres azuis, estes faziam exatamente o que desejava, antes que
pudesse dizer uma palavra ou esboçar um gesto.
Eram
telepatas.
Além da
capacidade telecinética, graças à qual seus corpos podiam irradiar
campos energéticos, ainda possuíam o dom parapsicológico da
telepatia.
Começou a
sentir medo das criaturas azuis. Não eram apenas muito estranhas;
com os dons extraordinários que dispunham, cada criatura dessas era
muito superior ao homem.
O problema
era inteiramente diferente do dos mungos. Estes eram uma espécie
primitiva e semi-inteligente, cuja única vantagem face aos homens
consistia na existência do sexto sentido, que lhes permitia perceber
qualquer perigo antes que os cinco sentidos humanos pudessem
constatar sua presença.
Já aqui,
tratava-se de inteligência estranha, mas bastante desenvolvida.
Mullon compreendeu que dali em diante uma das tarefas mais
importantes da colônia consistiria em manter a paz com os anões
azuis, e levá-los por meios amistosos a colaborar com os humanos.
Estas
idéias atravessaram sua cabeça enquanto planava por cima da mata,
juntamente com Pashen e a bateria carregada.
*
* *
Depois de
duas horas de vôo chegaram à ilha. Pashen e Mullon foram colocados
no solo e logo se puseram a montar a bateria.
Mullon
permaneceu no assento do piloto, a fim de controlar os diversos
indicadores de funcionamento, enquanto Pashen se ajoelhou, empurrou a
bateria para o lugar e voltou a ligar os contatos.
Mullon viu
que as luzes de controle se acendiam e ouviu o zumbido do
transmissor.
— Que
ruído formidável!
Pashen,
que continuava ajoelhado, murmurou:
— E olhe
que já acreditávamos que pelo resto da vida teríamos de vestir-nos
com folhas e comer carne de crocodilo, não é?
Fechou a
tampa da caixa da bateria e levantou-se. Ao que parecia, tinha os pés
dormentes por ter trabalhado durante tanto tempo de joelhos.
Levantou-se com um gemido, cambaleou, desviou-se de Mullon e caiu
pesadamente de lado.
— Ora
essa! — disse num gemido.
Segurava
um pequeno alicate na mão direita, e apoiara-se nessa mão para
amortecer a queda. Ao desviar-se de Mullon, para não cair em cima do
mesmo, virara-se para trás. Com isso, o alicate arranhou o painel de
controle do transmissor.
Mullon
levantou-se de um salto. Com um ligeiro relance de olhos, percebeu
que o alicate causara um dano considerável. Alguns dos botões
haviam sido arrancados, a chapa do painel estava amassada e a lâmpada
principal de controle deixara de emitir sua luz verde: em seu lugar
havia uma abertura negra. O zumbido do transmissor cessara.
— Que
diabo! — exclamou Mullon.
Viu que
Pashen cambaleava.
— O que
houve?
Pashen pôs
a mão na cabeça e gemeu.
— Bati
com a cabeça — resmungou. — Está doendo de verdade.
— Sente
e espere até que se sinta melhor! — ordenou Mullon.
Estava
zangado, mas reconheceu que dificilmente poderia culpar Pashen. Este
se levantara e escorregara; apenas isso. Era bem verdade que em
virtude do pequeno acontecimento o transmissor do helicóptero estava
inutilizado.
“Bem”,
pensou Mullon, “dentro
de poucas horas estaremos em casa, e então poderemos montar outro
transmissor no helicóptero.”
— Sinto
tanto... — gaguejou Pashen depois de algum tempo.
— Não
falemos mais nisso. Não teve nenhuma culpa.
— Obrigado
— murmurou Pashen.
Mullon
voltou a ocupar o assento do piloto. Inclinou-se para fora da
carlinga e gritou:
— Agora
poderemos mover-nos com nossos próprios recursos. Voaremos até a
colina.
Pashen
fitou-o perplexo. E a perplexidade transformou-se em pavor quando viu
que os anões azuis obedeceram: entraram em forma, atravessaram o rio
e iniciaram o caminho de volta.
Mullon deu
partida e fez com que o helicóptero se precipitasse para o alto. Num
vôo rápido, o aparelho passou por cima do rio. Agora deslocava-se
vinte metros acima das copas das árvores, na direção noroeste.
— O
senhor acaba de falar com as criaturas azuis — disse Pashen, depois
de ter dominado o pavor. — Acha que elas o entendem?
— Parece
que sim — respondeu Mullon. — Não viu que logo se puseram a
caminho?
— Mas
como... acredita que já aprenderam o inglês?
Mullon deu
de ombros. Não tinha a intenção de contar o que sabia, enquanto
não tivesse sido realizada uma série de testes que tornasse patente
a capacidade parapsicológica dos seres azuis aos olhos de todo
mundo.
— Não
sei — respondeu. — Apenas notei que me entendem.
Mullon
pousou o helicóptero numa área muito pequena de chão plano, junto
à entrada que conduzia à sala de máquinas. As baterias foram
descarregadas e levadas ao pavilhão.
Só depois
de concluído esse serviço regressaram os cem anões azuis que
haviam levado Pashen e Mullon até a ilha. Pelos seus movimentos
nervosos, seu chiado e a constante mudança de cor concluía-se que
se sentiam bastante chocados com o fato de haver alguém que se
deslocava mais rapidamente que eles. No entanto, também desta vez
não houve qualquer gesto inamistoso. O nervosismo dos seres azuis
parecia antes uma manifestação de alegria.
Mullon
pediu a Fraudy que carregasse as baterias uma após a outra.
Mullon e
Pashen realizaram mais um vôo à ilha, a fim de levantar as barracas
e levá-las à colina. O democrata autêntico pretendia passar ao
menos mais uma noite junto às criaturas azuis.
Ao que
parecia, os azuis não tinham nenhuma objeção; pelo contrário,
ajudaram com seus dons telecinéticos a fincar as estacas no chão
pedregoso e a levantar as varetas, sem que ninguém tivesse pedido.
Assim que
começou a escurecer, desapareceram no interior da colina em que
residiam e não foram vistos até a manhã do dia seguinte.
Depois do
jantar, Mullon distribuiu os quartos de sentinela. Os que não foram
destacados para o primeiro quarto deitaram imediatamente, já que
durante o dia praticamente não tiveram nenhum descanso.
Mullon
assumira o primeiro quarto, e tivera bons motivos para isso.
Pretendia examinar o transmissor do helicóptero e, se possível,
repará-lo. O fato de fazer cerca de sessenta horas que nenhuma
notícia sobre o paradeiro da expedição chegava a Greenwich
deixou-o bastante preocupado.
Mullon
conhecia Hollander, e por isso teve boas razões para supor que teria
aproveitado esse período para levar avante seus objetivos.
A
Assembléia Popular, que não deixava de ser um órgão democrático,
era mantida principalmente graças à poderosa vontade de seu
presidente. O’Bannon e Wolley eram homens inteligentes que, se
necessário, saberiam dirigir a Assembléia segundo os desígnios de
Mullon, mas não estariam em condições de enfrentar um homem como
Hollander.
Deixou o
fuzil no lugar em que se instalara para assumir seu quarto de
sentinela e subiu ao lugar onde se encontrava o helicóptero. Abriu a
cabine, entrou e ligou as luzes internas, a fim de verificar a
extensão das avarias.
Retirou
cautelosamente os botões que não haviam sido atingidos pelo alicate
e também a placa de revestimento do painel. Teve a impressão de que
nunca conseguiria entender a confusão de fios que se cruzavam em
todos os sentidos, ainda mais que não era muito entendido na área
da técnica de alta freqüência. Mas depois de uma hora de trabalho
incessante, teve uma idéia geral dos circuitos, e chegou mesmo a
acreditar que estaria em condições de reparar o transmissor.
Descansou
um pouco e voltou ao trabalho. Retirou da caixa presa ao chão, junto
ao assento do piloto, as ferramentas de que precisava, e pôs-se a
unir os fios rompidos, a fim de que pudessem ser ligados novamente
aos contatos dos botões.
Ouviu um
ruído muito fraco atrás de si. Virou-se abruptamente. O rosto de
Pashen olhava para dentro da cabine. Mullon não o ouvira chegar.
Estava parado sobre a escada que levava à cabine, e fitava Mullon.
— Que
susto o senhor me deu! — disse Mullon. — O que veio fazer por
aqui?
— Estou
à procura de um homem que abandonou seu posto — respondeu Pashen.
Mullon
sentiu-se perplexo.
— Não
seja ridículo! Tenho coisa mais importante a fazer que contar os
mosquitos.
Pashen
sacudiu a cabeça.
— O
senhor não precisará mais do transmissor, Mullon — disse com a
voz abafada.
Subitamente
Mullon teve um pressentimento tão apavorante que levou alguns
segundos para recuperar a fala.
— Por
quê?
O rosto de
Pashen contorceu-se num sorriso zombeteiro.
— Ainda
não descobriu?
“Preciso
ganhar tempo”,
pensou Mullon, “ganhar
tempo. É possível que alguém ouça nossa conversa e venha até
aqui. É bem provável que Pashen tenha trazido sua pistola.”
— Acho
que já descobri — disse com a voz zangada. — Já devia ter
notado há tempos, não é?
Pashen
parecia disposto a conversar.
— Acha
mesmo? Onde deveria ter percebido?
— Nas
montanhas. Houve um vazamento nos tubos capilares. E um tubo capilar
exposto a uma pressão excessiva pode romper-se, mas não vazar.
Pashen
acenou com a cabeça; seu rosto manteve-se impassível.
— O
senhor sabe observar muito bem — observou. — Mas infelizmente não
faz suas observações no devido tempo.
— Pois é
— suspirou Mullon. — Tem toda razão. Hollander quis ter certeza
de que Harper e seus cúmplices me encontrariam nas montanhas. Por
isso, você danificou o helicóptero; não queria que voássemos.
Quando acreditava que Harper já se tivesse aproximado o bastante e
precisava de um sinal para encontrar-nos, teve a amabilidade de
encontrar o vazamento do tubo capilar e reparou o aparelho. Não foi
isso?
— Exatamente
— respondeu Pashen.
— É
claro que o transmissor também não foi destruído por acaso —
prosseguiu Mullon com a voz tranqüila. — O senhor teria de evitar
que eu me comunicasse com Greenwich. Por que será? Isso não teria
modificado coisa alguma nos seus planos.
— Nos
meus planos não — confessou Pashen — mas nos de Hollander.
Hollander é a única pessoa que pode saber da existência dos anões
azuis; mais ninguém.
— Ah —
fez Mullon. — Acredita que quer tirar proveito dos seres azuis?
— Quando
souber o que aconteceu com o senhor certamente fará isso mesmo.
— O que
é que o senhor tem a ganhar com a traição que está praticando?
Pashen deu
de ombros.
— Hollander
sabe recompensar os que o ajudam. É bom que saiba que o regime
democrático terá chegado ao fim quando Hollander assumir o poder.
— Não
tenho a menor dúvida — respondeu Mullon em tom irônico. — Qual
será sua recompensa? Não poderá dar-lhe dinheiro. O que poderia
ser?
— Talvez
ele me nomeie governador. Serei a primeira pessoa a merecer uma
recompensa de Hollander.
Mullon fez
que sim.
— Um
belo dia ele se sentirá incomodado com sua presença, porque o
senhor sabe demais. E mandará alguém matá-lo, tal qual mandou a
você que me matasse.
Pashen
sacudiu a mão esquerda, o que provava que a direita estava ocupada;
provavelmente estaria segurando a pistola.
“Será
que não aparece ninguém?”,
pensou Mullon.
— A vida
tem seus riscos — respondeu Pashen em tom tranqüilo. — Foi um
prazer conversar com o senhor, Mr. Mullon. Mas não posso prosseguir
na palestra; o dever me chama. Acho que o senhor compreende.
Com uma
rapidez que Mullon nunca esperava, Pashen levantou a mão direita...
E essa mão
segurava a pistola!
Mullon
levantou-se abruptamente e procurou atirar-se para o lado. Mas Pashen
seguia seus movimentos. Mullon viu um raio pálido à sua frente,
sentiu uma pancada no peito e perdeu os sentidos.
Pashen
levou quatro segundos para arrastar o corpo flácido de Mullon para
fora da cabine e deixá-lo cair ao chão. Os olhos muito abertos e
sua imobilidade ao tocar o solo pareciam provar que Mullon estava
morto.
No momento
em que Pashen fechava a cabine, os primeiros gritos exaltados soaram
no lugar em que se encontravam as barracas. Pashen deu partida e
decolou. O aparelho subiu como uma flecha e, depois de atingir a
altitude de quinhentos metros, dirigiu-se para o oeste.
Pashen
acreditava que o vôo noturno não lhe causaria qualquer problema. A
bússola indicaria o caminho, e o suprimento de energia seria
suficiente para manter o helicóptero no ar pelo resto da noite, se a
escuridão não lhe permitisse encontrar a cidade ou outro local de
pouso.
6
Ao
recuperar os sentidos, Mullon sentiu-se tão cansado que o simples
esforço de lembrar-se do lugar em que se encontrava e da maneira
como viera parar ali lhe causava dores e quase o fez desmaiar de
novo.
Teve a
impressão de ver através de uma cortina fina um rosto que lhe
parecia conhecido.
Era o
rosto de Fraudy. Estava mudado. As faces estavam flácidas e os olhos
bem afundados nas covas encontravam-se injetados de vermelho.
— Fraudy!
— disse Mullon num cochicho.
A cortina
desapareceu. Os contornos do rosto de Fraudy tornavam-se mais nítidos
à medida que ela se aproximava.
— O
quê... onde estou?
— Você
está em segurança — respondeu Fraudy em tom carinhoso, com
lágrimas nos olhos — na minha barraca.
Subitamente
notou um movimento. Uma corrente de ar passou pelo rosto febril de
Mullon. Um vulto alto e largo entrou no seu campo de visão. Mullon
reconheceu-o: era Milligan.
— Tudo
em ordem, Madame — disse o mais baixo que isso lhe era possível
com sua voz áspera. — Os azuis estão chegando pelo caminho mais
rápido. Ora, veja! O chefe acordou?
Subitamente,
num assomo de dor, a lembrança voltou à mente de Mullon. Pashen...
o helicóptero... Hollander!
— Há
quanto tempo estou deitado aqui? — perguntou.
— Há
bastante tempo — respondeu Fraudy em tom carinhoso.
— Quero
saber o tempo exato.
— Vinte
e três dias. Mullon soltou um gemido.
— O que
aconteceu?
— Você
não deve falar tanto — cochichou Fraudy. — Ainda está muito
doente.
— Faça
o favor de dizer! — implorou Mullon. — Preciso saber!
Fraudy
hesitou.
— Por
favor!
— Nós o
encontramos próximo do local onde estivera pousado o helicóptero —
respondeu Fraudy. — Você havia sido atingido bem no coração.
Estava morto! Pashen tinha desaparecido com o helicóptero. Nós o
levamos até as barracas. No mesmo instante, apareceram os anões
azuis. Pareciam chamas que saíram dos corredores; emitiam uma
fosforescência em meio à escuridão. Compreenderam imediatamente o
que havia acontecido. Cuidaram de você. Removeram a bala e passaram
a aplicar-lhe um tratamento. Deram a entender que provavelmente
conseguiriam salvá-lo.
“Não
sei como fizeram, mas o fato é que depois de poucas horas você
começou a respirar e seus olhos se abriram. Depois adormeceu. Os
azuis continuaram a cuidar de você. Deram-lhe alimento líquido,
pairavam no ar em torno de você, e a cada dia que passava seu
aspecto melhorava. Devem possuir capacidades inacreditáveis no
terreno da medicina. Hoje você acordou pela primeira vez. É só.”
— Não
aconteceu mais nada? — insistiu Mullon. — Pashen... Hollander...
Fraudy
sacudiu a cabeça.
— Nada.
Vivemos exclusivamente em companhia dos anões azuis.
— Nesse
caso tudo está bem... oooh! Recostou-se e adormeceu.
*
* *
Mais
trinta dias se passaram; e os dias do planeta Fera Cinzenta tinham
cerca de quarenta horas.
O
tratamento aplicado pelos anões azuis fez a cura de Mullon progredir
a olhos vistos. Não via o que estavam fazendo com ele. Esvoaçavam a
seu lado, mas nunca chegaram a tocá-lo. Foi recuperando as forças.
Cinco dias depois de ter acordado pela primeira vez conseguiu
levantar e dar alguns passos.
Dali em
diante os progressos foram rápidos. E a recuperação foi devida
menos à arte médica dos anões azuis que ao desejo ardente de
Mullon, que queria voltar para Greenwich e verificar o que estava
ocorrendo.
Ficou
espantado ao saber que Fraudy conseguira estabelecer uma espécie de
contato com os anões azuis. Manifestara esse desejo, e essas
criaturas a entenderam graças às suas faculdades telepáticas.
Fraudy
ficara sabendo que os azuis se comunicavam de três maneiras
distintas: pela telepatia, pela mudança de cor e pelo chiado. Cada
uma dessas maneiras preenchia uma finalidade própria.
A
telepatia era a forma usual de comunicação, da mesma forma que a
linguagem falada é o meio de comunicação dos terranos. O jogo de
cores exprimia uma espécie de valorização que o transmissor da
comunicação atribuía à sua mensagem. Se, por exemplo, alguém
comunicasse por via telepática que a mata era grande, essa
comunicação era acompanhada de certa coloração do corpo de quem a
transmitia, a fim de anunciar a opinião individual do mesmo. Se o
fato de que a mata era grande lhe agradava, seu corpo brilhava num
azul-turquesa; se lhe desagradava, assumia uma coloração violeta.
Se o fato não lhe causava nenhuma impressão, seu corpo continuava
com a coloração azul de sempre.
Já o
chiado tinha por fim indicar a importância que o indivíduo dava a
sua mensagem. Conforme o grau de importância que o mesmo atribuía à
comunicação de que a mata era grande, emitia um chiado forte ou
fraco, ou nenhum.
Era esta a
exteriorização da linguagem dos azuis. Uma coisa era certa: se os
humanos não conseguissem criar faculdades telepáticas num indivíduo
de sua espécie ou ensinar a escrita aos anões, a comunicação
sempre seria incompleta. Tudo que os anões quisessem comunicar aos
humanos teria de ficar restrito a mensagens fragmentárias sobre
assuntos facilmente compreensíveis. No entanto, os azuis sabiam
identificar os pensamentos dos humanos.
Era bem
verdade que mesmo essa identificação tinha seus limites. A lógica
humana era estranha aos anões, e era evidente que só sabiam
interpretar os pensamentos que correspondiam à sua lógica. Os
outros pensamentos não estavam ao alcance de seu entendimento.
Assim, por
exemplo, a idéia de que um homem tem medo de outro lhes era
incompreensível, da mesma forma que uma explicação lógica do jogo
de cores de seus corpos reluzentes estava fora do alcance do
entendimento dos humanos. Era bem verdade que o motivo disso residia
antes na diferença dos estilos de vida que na discrepância das
estruturas lógicas das duas espécies. Fraudy descobrira que seus
dons telecinéticos só poderiam ser utilizados se um número
considerável desses seres se reunisse. Um anão sozinho mal
conseguiria levantar uma pedrinha. Por isso, descobriram há muito
que só uma união estreita representava um estilo de vida adequado e
conveniente.
Portanto
formavam um clã estreitamente ligado, em cujo seio nunca havia
conflitos. Era claro que tal fato exercera certa influência sobre
suas maneiras de pensar. Assim, a idéia de que alguém pudesse ter
medo de outro indivíduo da mesma espécie era-lhes completamente
estranha.
Fraudy
ainda não conseguira descobrir se além do clã que habitava o
subsolo da colina, e que contava cerca de mil membros, existiam
outros indivíduos da mesma espécie. Muito menos conseguiu saber
qual era o relacionamento dos diversos clãs porventura existentes.
Os azuis não conseguiram entender a pergunta que ela formulara a
este respeito. Por isso, Fraudy achou que provavelmente os que
residiam por ali eram os únicos indivíduos da espécie existentes
nos arredores, e talvez mesmo em todo o planeta da Fera Cinzenta.
A
tecnologia dos anões azuis desenvolvera-se com base nos seus dons
telecinéticos. A lei da alavanca, por exemplo, ainda não chegara a
ser descoberta. Sempre que tinham de levantar um objeto pesado, os
azuis recorriam à capacidade telecinética de seus corpos e criavam
um campo gravitacional.
Face a
isso, as máquinas e os aparelhos propriamente ditos eram raros e
primitivos. Os anões viam-se praticamente impotentes quando surgia
algum problema técnico que não pudesse ser resolvido com os meios
telecinéticos.
Assim, por
exemplo, durante séculos iluminaram suas residências por meio de
archotes. Tinham uma compreensão intuitiva dos segredos da
eletricidade. Acontece que um campo elétrico projetado em
determinada direção não pode ser utilizado na produção da
corrente elétrica, tal qual acontece, por exemplo, com uma trovoada.
Os estudos
sobre as diversas maneiras de produzir eletricidade resultaram nas
primitivas máquinas eletrostáticas. Embaixo da colina havia uma
sala na qual estavam montadas cem máquinas desse tipo. Vários dos
seres azuis mantinham-nas em constante rotação, produzindo a
corrente que fazia brilhar as lâmpadas incandescentes.
Fraudy
também descobrira que os anões azuis nunca tiveram intenções
hostis para com os quatro humanos.
Na noite
em que Mullon fora assassinado, acorreram espontaneamente. Os
pensamentos agitados de Fraudy os haviam despertado. O fato de terem
interrompido seu sono para ajudar Mullon devia ser considerado um
enorme sacrifício, pois para os anões azuis o sono e a renovação
de forças ligada ao mesmo representavam um verdadeiro culto
praticado a bem da comunidade. O costume de dormir regularmente só
era abandonado quando surgia algo de importância extrema.
Foi só
isso que Fraudy conseguiu descobrir, ou melhor, deduzir ou adivinhar
com base nos fatos ocorridos. Face às enormes dificuldades de
comunicação entre os humanos e os anões azuis, essas deduções
representavam muita coisa. Cada detalhe que se conseguira descobrir
confirmava a existência de um enorme abismo que se abria entre as
duas espécies, tornando evidente que haveria necessidade de uma
paciência infinita para aproximá-las. Por fim, revelava a imensa
variedade de formas de vida que o Criador pôs no mundo.
*
* *
Depois de
trinta dias Mullon estava recuperado o bastante para que pudesse
marcar para a manhã do dia seguinte a partida em direção a
Greenwich. Os azuis comunicaram que teriam muito prazer em
transportar os três humanos por cima da mata.
— Não
podemos esperar que sejamos recebidos de braços abertos — disse
Mullon, dirigindo-se a Fraudy e Milligan. — Tenho certeza de que
neste meio tempo Hollander conseguiu ocupar um lugar de destaque.
Sabemos perfeitamente o que isso significa.
“Admitamos
a pior das hipóteses. Suponhamos que Hollander tenha dissolvido a
Assembléia Popular e assumido o poder juntamente com seus adeptos.
Sabe que estou morto, mas deve contar com a possibilidade de que
vocês voltem a aparecer. Pashen deve tê-lo informado sobre as
capacidades dos anões azuis. Portanto, a esta hora já sabe que
vocês não dependeriam de uma marcha forçada para vencer os
trezentos quilômetros de selva. Vocês são perigosos, pois são as
únicas pessoas que podem provar que Pashen contou uma mentira.
“Daí se
conclui que procurará capturá-los. Sem dúvida terá colocado uma
fileira de sentinelas entre a cidade de Greenwich e a borda da mata.
Por isso, devemos deslocar-nos bem para o norte ou para o sul a fim
de contornar essas sentinelas e, se possível, alcançar Greenwich
pelo oeste.
“Quando
tivermos chegado a Greenwich, veremos o que podemos fazer. Acredito
que Hollander ainda não tenha conseguido o pleno controle da
situação, ou que deseja ganhar tempo para consolidar o regime por
ele criado. Se não fosse assim, já teria aparecido por aqui. Seja
como for, temos dificuldades pela frente.”
*
* *
O vôo foi
rápido e não houve qualquer incidente. Mullon e seus companheiros
saíram da mata num ponto situado a quatrocentos quilômetros de
Greenwich. A cidade ficava na direção sudoeste. Não descobriram
qualquer sentinela de Hollander.
Sem
interromper a viagem, os anões azuis transportaram seus passageiros
até um ponto situado trinta quilômetros a noroeste da cidade. A
poucas centenas de metros dali passava o rio que mais abaixo
atravessava Greenwich. Os barrancos salientes do mesmo ofereciam boa
proteção contra o helicóptero que Hollander provavelmente estaria
enviando para todos os lados, a fim de procurar Milligan e Fraudy.
Assim que
viram seus protegidos em segurança, os anões azuis despediram-se.
Mais precisamente, executaram uma bela dança, chiavam e faziam seus
corpos amorfos brilharem num fulgurante azul-turquesa.
Por
estranho que possa parecer, dois deles permaneceram junto a Mullon e
seu grupo. Ao que tudo indicava, deveriam manter contato entre os
humanos e a colina habitada pelos anões azuis. Mullon sentiu-se
muito satisfeito e pediu a Fraudy, que já aprendera a transmitir
seus pensamentos aos anões, que lhes exprimisse seus agradecimentos.
O resto do
dia passou numa espera enervante e tediosa. Assim que escurecesse,
Milligan se poria a caminho em direção a Greenwich, a fim de
verificar o que havia acontecido nesse meio tempo. Na pior das
hipóteses — ou seja, se Hollander dominasse a cidade e ele,
Milligan, não pudesse aparecer por lá — teria pela frente uma
marcha de sessenta quilômetros, trinta de ida e trinta de volta. Por
isso, dormiu quase todo o resto do dia, para estar em boa forma
durante a noite.
Mal o sol
se pôs, Milligan começou sua maratona. Logo no início da caminhada
teria que vencer uma das etapas mais difíceis: a travessia do rio
caudaloso. Milligan guardou seus equipamentos mais importantes — ou
seja, a pistola e a bússola — de tal forma que não pudessem ser
atingidas pela água. Penetrou na torrente e deixou que esta o
arrastasse. Depois, por meio de braçadas bem dadas, nadou em direção
à margem oposta. Atingiu-a uns quinhentos metros abaixo do lugar em
que se encontravam Mullon e Fraudy.
Ao sair da
água, orientou-se por meio da bússola e pôs-se em marcha à
velocidade de seis quilômetros por hora, que era verdadeiramente
espantosa para as condições climáticas reinantes naquele planeta.
Calculou essa velocidade porque dentro de cinco horas, durante as
quais não descansara uma única vez, viu emergir da escuridão a
massa negra da pequena cidade, na qual se viam raríssimas luzes.
Deitou no
capim e descansou alguns minutos. Passou a rastejar, a fim de
aproximar-se da cidade. Sabia que O’Bannon morava numa das casas
situadas na periferia norte da cidade. Se conseguisse entrar em
contato com O’Bannon teria feito muito mais do que ousaria esperar.
Mas, isso só seria possível se o velho amigo de Mullon ainda se
encontrasse em liberdade.
Quando
estava a uns trinta metros da primeira casa, Mullon ouviu alguém
pigarrear. Comprimiu o corpo contra o solo e, olhando de baixo para
cima, procurou ver à luz mortiça das estrelas quem se encontrava à
sua frente.
Dali a
pouco, descobriu os contornos de um homem que se mantinha imóvel a
poucos metros da casa, com um fuzil nas costas.
Milligan
continuou a rastejar em direção ao homem. Não sabia quem era.
Podia ser um elemento ligado a Mullon ou a Hollander. De qualquer
maneira, teria de passar por ele se quisesse alcançar a casa de
O’Bannon.
Milligan
ainda não havia chegado a qualquer conclusão sobre o que deveria
fazer, quando ouviu o ruído de passos vindos da esquerda.
— É
você, Suttney? — perguntou a sentinela que se encontrava junto à
casa.
— Sim,
sou eu; tudo em ordem.
O enigma
estava resolvido. Milligan sabia que Suttney era um dos homens
ligados a Hollander. Portanto, a sentinela também devia pertencer ao
mesmo grupo.
— O frio
está de rachar — resmungou a sentinela. — Gostaria de saber por
que temos de ficar aqui. Milligan e a esposa de Mullon nunca poderiam
vir para estes lados.
— Temos
de ficar aqui justamente por que você pensa assim — explicou
Suttney.
— Acontece
que Milligan e aquela mulher não são menos inteligentes que você.
— Ora...
— Está
bem. Dê o fora e trate de dormir.
A
sentinela afastou-se sem uma palavra de despedida. Suttney ocupou seu
lugar.
Milligan
já sabia o que fazer. Descreveu uma curva muito ampla e aproximou-se
de Suttney, vindo de trás. Uma ligeira brisa fez o capim farfalhar,
abafando qualquer ruído causado por Milligan. Este levantou-se por
trás de Suttney, tirou a pistola e encostou-a ao corpo do vigia.
— Fique
bem quieto! — sussurrou Milligan. — Abra bem os braços.
Apavorado,
obedeceu imediatamente, sem dizer uma palavra. Milligan tirou o fuzil
que Suttney trazia ao ombro.
— Vamos
embora; marche!
Suttney
hesitou um pouco, mas Milligan não estava disposto a perder tempo.
Desferiu uma coronhada de fuzil nas costas de Suttney. Este cambaleou
e instintivamente soltou um grito de dor. Milligan segurou-o pela
gola do uniforme e virou o rosto em sua direção.
— Preste
atenção, meu filho! — disse. — Faça isso mais uma vez, e uma
coisa nada agradável lhe acontecerá. Não preciso de você. Afinal,
há por aí muitas outras sentinelas que poderão contar o que
preciso saber.
Dali em
diante Suttney caminhou docilmente e por algum tempo manteve um
silêncio total.
Milligan
seguiu para o nordeste e contou os passos, a fim de orientar-se mais
tarde.
Assim que
a cidade havia desaparecido, dirigiu-se a Suttney:
— Agora
você vai contar direitinho o que aconteceu nestes trinta e cinco
dias. E não se esqueça de continuar a andar. Temos um passeio muito
longo pela frente.
*
* *
Pouco
antes do nascer do sol, Milligan surgiu cambaleante na margem do rio,
bem em frente ao lugar em que Mullon e Fraudy se encontravam
acampados. Fez menção de realizar a travessia a nado. Mas Mullon
viu que estava exausto e gritou:
— Deite
e descanse um pouco. Depois o senhor contará tudo.
Não tinha
a menor certeza se realmente havia tempo para esperar; só Milligan
poderia saber. Mas, como este obedeceu imediatamente e se deitou para
descansar, concluiu que realmente não havia acontecido nada que
exigisse muita pressa.
Milligan
descansou duas horas. Depois caminhou rio acima e atravessou a
corrente da mesma forma que fizera no dia anterior.
— Conte
logo! — pediu Mullon.
Milligan
respirou profundamente.
— Bem,
aconteceu mais ou menos aquilo que era de esperar — principiou
Milligan. — Pashen teve bastante inteligência para pousar o
helicóptero a alguma distância de Greenwich. Ele o fez antes do
nascer do sol. Depois conseguiu aproximar-se de Hollander e
relatou-lhe o que havia acontecido. Hollander compreendeu
imediatamente que sua hora havia chegado. Seus homens, restavam
algumas centenas nos quais poderia confiar plenamente, saquearam o
arsenal e cercaram todas as casas antes que os habitantes acordassem.
Hollander arrancou-os da cama e proclamou o estado de emergência.
Não indicou qualquer motivo para isso. Algumas pessoas procuraram
resistir, mas evidentemente não poderiam ter a menor chance. Os que
se opuseram foram presos: entre eles estão O’Bannon, Wolley e mais
alguns conhecidos nossos. Hollander trancou-os nos destroços da
espaçonave. E mandou soltar Harper e Glannon.
“Depois
Hollander criou a chamada milícia de segurança, formada por
quinhentos homens. Os membros dessa milícia eram as únicas pessoas
que poderiam portar armas. Escolheu homens que combinavam com ele.
Nenhum
deles poderia aparecer publicamente no planeta Terra.
“É
claro que houve outras pessoas que aderiram a Hollander,
provavelmente para evitar dificuldades. Hollander mantém um regime
de terror na cidade e está esperando por mim e por Mrs. Mullon.
Assim que consiga prender-nos, quer fazer uma visita aos anões
azuis. O homem por mim interrogado não sabia quem ou o que vinham a
ser esses anões azuis. Limitou-se a dizer que Hollander manifestava
um interesse extraordinário por eles. Acho que é só.”
Mullon
acenou com a cabeça; parecia pensativo.
— Quem
foi que lhe contou isso?
— Foi
Suttney. Consegui agarrá-lo quando estava de sentinela. Toquei-o dez
quilômetros pela estepe afora e interroguei-o. Depois eu o girei,
deixando-o tonto a ponto de não saber mais para onde andar. As
outras sentinelas devem ter saído à sua procura quando chegou a
hora do revezamento, mas dificilmente poderão tê-lo encontrado
antes do amanhecer. Levei-o na direção nordeste, para que não
pensem que nosso esconderijo fica no noroeste.
Com um
sorriso triste, Mullon disse:
— Você
merece uma condecoração, Milligan. Assim que a Assembléia Popular
possa exercer suas atribuições, formularei uma proposta para que a
mesma lhe seja concedida.
Milligan
riu.
— Obrigado;
prefiro um cigarro. Os meus acabaram.
Mullon
atendeu ao pedido. Depois dirigiu-se a Fraudy.
— Hollander
nem sequer se deu ao trabalho de guardar as aparências da
legalidade. Isso lhe custará a cabeça, assim que estejamos em
condições de tomar nossas medidas contra ele.
Fraudy
confirmou com um gesto.
— O que
vamos fazer? — perguntou.
— Temos
de voltar para junto dos azuis ,— decidiu Mullon. — Precisamos
preveni-los contra Hollander; além disso, representam nossa única
salvação. Será que você poderia explicar isto aos dois?
Fraudy
concentrou-se por algum tempo e passou a transmitir seus pensamentos
para as duas criaturas que haviam ficado nas proximidades. Dali a
trinta minutos, os azuis se deslocaram rio acima e desapareceram na
direção leste. Fraudy disse:
— Não
acredito que tenham entendido textualmente tudo que procurei
transmitir-lhes. Mas tenho certeza de que compreenderam que existe um
perigo para eles e para nós.
— Acha
que virão buscar-nos?
Fraudy deu
de ombros.
— Talvez.
Ninguém sabe o que se passa em suas mentes.
*
* *
O longo
dia correu sem maiores novidades.
O sol ia
baixando. Mullon e Fraudy conversavam sobre os planos que o primeiro
concebera, enquanto Milligan estava sentado atrás deles, na penumbra
projetada pelo barranco, e limpava o fuzil que tomara de Suttney.
Subitamente
Mullon ouviu-o levantar-se e soltar um grito de advertência. Num
gesto instintivo Mullon rolou para o lado e olhou para a margem
oposta.
Bem em
cima do barranco viam-se os contornos de um homem que se destacavam
nitidamente contra a luz do sol no poente. Mullon ficou perplexo ao
ver que o estranho levantava os braços e fazia sinais. Ao que
parecia, não estava armado. Pelo menos não tinha fuzil.
— Milligan,
fique de prontidão! — ordenou Mullon sem olhar para Milligan.
Depois
gritou para o desconhecido:
— O que
deseja?
O
desconhecido colocou as mãos em concha à frente da boca e
respondeu:
— Não
quero nada. Passei por acaso.
— Venha
cá! — ordenou Mullon.
O
desconhecido obedeceu. Era um nadador ainda mais exímio que
Milligan.
Saiu da
água completamente ensopado, mas com um sorriso alegre nos lábios.
— Como
vejo, estão escondidos — disse. — Por isso tenho motivo para
acreditar que não são elementos ligados a Hollander. Meu Deus,
Mullon, é o senhor?!
Parecia
assustado. Mullon fez que sim.
— Sim,
sou eu mesmo. Como vê, não estou morto. Quem é você?
— Meu
nome é Chellich. Acredito que nunca tenha ouvido falar a meu
respeito. Antigamente costumava andar na esteira de Mestre Hollander.
Mas aquilo que está fazendo agora me causa repugnância. Por isso
resolvi afastar-me dele.
— Aonde
pretende ir?
— Quero
ir para o nordeste. Passei por lá de helicóptero. Tive oportunidade
de dar umas voltas, já que Hollander me deu ordem para procurar Mrs.
Mullon e Milligan.
— O que
pretende fazer por lá?
— No
nordeste existem florestas, florestas de verdade, não esta selva que
fica ao leste. Sou do Maine. Como deve saber, é um Estado situado na
costa do Atlântico. Sei pegar um urso a unha, naturalmente apenas um
urso-coati. Saberei arranjar-me. Além de tudo tenho uma pistola.
Tirou a
arma que trazia no bolso e atirou-a para Mullon. Este pegou-a e
perguntou em tom de espanto:
— O que
quer que faça com isto?
— Ora —
disse Milligan com um sorriso — se fosse o senhor, não acreditaria
numa única palavra dita por este maldito Chellich. Aposto que o
senhor concorda comigo!
— Agora
a coisa já mudou de figura — contornou Mullon, sorrindo.
— O que
pretende fazer? — perguntou Chellich.
O sorriso
de Mullon reforçou-se.
— Ainda
não tenho certeza sobre se o senhor tem agora alguma coisa com isso.
— É
verdade — reconheceu Chellich. — Apenas perguntei porque gostaria
de acompanhá-los. Em grupo estarei melhor que sozinho. Por isso eu
lhe ficaria muito grato se conseguisse superar essa desconfiança.
Espero que não se oponha a que eu durma um pouco. Sinto-me exausto.
Sem dizer
mais uma palavra, levantou-se, caminhou um pouco rio abaixo e se
deitou. Dali a pouco a respiração regular provou que, apesar da
dureza da rocha em que estava deitado, realmente tinha adormecido.
*
* *
Não
conseguiram chegar a um acordo sobre Chellich. Milligan disse sem
rodeios que, se dependesse dele, o mandaria embora imediatamente.
Não havia
dúvida de que o caminho mais seguro era este. Mas aquele jovem
conseguira captar a confiança de Mullon, e o democrata autêntico
foi de opinião que não assumiria maiores riscos se o levasse para
junto dos azuis — isso evidentemente se eles se mostrassem
dispostos a transportar mais um homem. Bastaria ficar com a pistola
de Chellich. Que mal poderia fazer se não tivesse nenhuma arma?
Fraudy foi
da mesma opinião. Milligan foi derrotado na votação. Todavia,
consolou-se com o fato de que na situação em que se encontravam um
homem a mais poderia representar uma vantagem considerável. Na
verdade, não desconfiava de Chellich, mas acreditava que, ao confiar
nele, assumia uma risco excessivo.
Logo após
o pôr do sol Chellich levantou-se e aproximou-se do grupo.
— Boa
noite — disse em tom amável. — Já chegaram a uma decisão?
— Já —
respondeu Mullon. — Poderá ir conosco, desde que nossos meios de
transporte o permitam.
Chellich
ergueu as sobrancelhas.
— Seus
meios de transporte? — perguntou em tom de surpresa. — O senhor
ainda dispõe de algum meio de transporte?
Mullon fez
que sim.
— Espero
que dentro em pouco tenha oportunidade de vê-lo.
Mal
acabara de pronunciar a última palavra, alguma coisa veio descendo;
uma luz azul e tremeluzente desceu pelo barranco e pairou imóvel
pouco acima do solo. Eram os anões azuis que haviam voltado.
Mullon
observou Chellich. Viu que este se sentia espantado diante do quadro.
Fraudy
contou os anões.
— Mais
ou menos cento e cinqüenta — disse, dirigindo-se a Mullon. —
Acho que não poderão levar Chellich.
— Procure
descobrir — pediu Mullon.
Foi para
junto de Chellich. Este continuava a fitar as figuras trêmulas,
luminosas e dançantes.
— O que
é isso? — perguntou, assim que ouviu Mullon aproximar-se.
— São
nossos “duendes”
— respondeu Mullon com um sorriso. — Aliás, vim para dar-lhe uma
notícia desagradável.
— O que
é?
— Estes
cento e cinqüenta... “duendes”
não serão capazes de transportar quatro pessoas. O senhor terá de
ficar aqui, por enquanto, se estiver de acordo.
— Quer
dizer que mandará seus “duendes”
novamente para cá, a fim de levar-me? — perguntou Chellich.
— Isso
mesmo.
— Quanto
tempo deverá demorar?
— Não
posso dizer. Esses seres são tão estranhos...
— Quer
dizer que são seres? — interrompeu Chellich em tom violento. —
Não venha me dizer que são seres inteligentes.
— É
claro que são. Mas deixe-me concluir. Estes seres são tão
estranhos que não se pode prever nenhum dos seus atos. Até agora
eles nos têm prestado todos os favores de que precisamos, sem
esperar qualquer recompensa. Um instante, Fraudy está chegando.
— Não
poderão levar mais de três pessoas — disse Fraudy em tom
exaltado. — Mas estão dispostos a enviar um mensageiro, para que
imediatamente venha um pequeno grupo para buscar Mr. Chellich.
— Ouviu?
— perguntou Mullon. Chellich fez um gesto afirmativo.
— Está
bem; concordo. Ou melhor: fico-lhe muito grato. Esperarei aqui mesmo,
não é?
— Perfeitamente.
Neste caso virão buscá-lo dentro de menos que três horas.
— Muito
bem. Será que realmente se pode confiar nesses... bem, como deverei
chamá-los?
— Hum —
fez Mullon e lançou um olhar pensativo sobre o bando dançante de
anões azuis.
Acabara de
ter uma idéia. Logo descobriria se Chellich era um traidor ou um
homem honesto.
—Vou
contar-lhe uma coisa — disse depois de algum tempo. — Estes seres
são telepatas. Sabem ler pensamentos. Se estiver tramando alguma
coisa, será preferível dar o fora antes que venham buscá-lo.
Chellich
riu.
— Está
bem — disse. — Minha avó costumava contar esse tipo de história.
Mullon
colocou a mão sobre seu ombro.
— Acontece
que estou falando sério — disse. — Não me importa que histórias
sua avó lhe tenha contado.
Chellich
lançou-lhe um olhar perplexo, enquanto Mullon se preparava para
partir juntamente com Fraudy e Milligan.
Subitamente
viu os três subirem ao ar, atingirem a borda do barranco e
desaparecerem. À sua frente, planavam os anões azuis, que escondiam
a luz tremeluzente de seus corpos no capim alto da estepe.
Por algum
tempo. Chellich manteve-se imóvel e perplexo. A luminosidade e os
chiados já haviam desaparecido à distância. Subitamente sacudiu a
cabeça e murmurou:
— Caramba!
Se eu contar isso ao Capitão Blailey, ele dirá que tomei muita
cachaça em Greenwich. Bem, vejamos!
Sentou-se
sob um barranco saliente, tirou o relógio de pulso e virou o fundo
de plástico para cima. Depois de comprimir o botão de ajuste dos
ponteiros disse a meia voz:
— Sunny
Maid, Sunny Maid, Sunny Maid.
Dali a
alguns segundos, uma voz fina e metálica saiu do interior do
relógio:
— O
senhor nos fez esperar bastante. É Blailey que está falando.
Transmita logo!
Conforme o
combinado, Chellich respondeu:
— Perdão;
não conheço nenhuma pessoa com este nome.
— Vá
para o inferno! Pois bem: Sunny Maid é a moça mais bonita de Kansas
City. Fale logo!
Com um
sorriso nos lábios, Chellich deu início ao relato.
Contou que
vencera em três dias de marcha forçada os cem quilômetros que
separavam a gazela da cidade de Greenwich, onde viera parar em meio
ao caos. Não teve a menor dificuldade em ocultar sua verdadeira
identidade, pois a cidade estava virada de pernas para o ar. Teve de
esforçar-se ao máximo para não dizer a Hollander quem era e
explicar-lhe que bastaria uma única palavra sua para que a tropa de
choque o prendesse e o transportasse à Terra, onde seria julgado.
Nos cinco
dias passados em Greenwich, descobrira tudo que poderia ser útil.
Acompanhara as buscas destinadas a localizar Suttney, a sentinela
desaparecida, e viu quando este foi encontrado.
Prosseguindo
no relato, disse que logo após isso saiu em busca dos dois
desaparecidos, e que em vez de dois encontrara três.
Finalmente
relatou o que acabara de assistir junto ao rio.
— O
senhor não pode estar falando sério — resmungou Blailey. — Deve
ter tomado demais dessa horrível cachaça servida pelos colonos.
— Foi o
que pensei. Acontece que “a
história”
durou dez minutos, e durante esse tempo belisquei várias vezes o meu
braço.
— Está
bem; quer dizer que virão buscá-lo?
— Sim
senhor.
— Pois
deixe que o levem e oportunamente volte a entrar em contato conosco.
Boa sorte. Fim.
Chellich
voltou a virar o relógio e colocou-o no pulso. Depois encostou-se ao
barranco do rio e esperou.
*
* *
No
interior da nave de reconhecimento de longo curso, do tipo gazela,
que estava pousada a oeste, em meio às montanhas, o Capitão Blailey
transmitiu uma mensagem condensada de telecomunicação. A nave
retransmissora, que se mantinha imóvel no espaço, a uma unidade
astronômica do planeta Fera Cinzenta, retransmitiu a mensagem em
direção à Terra. Dali a uma hora, Blailey recebeu a resposta. Seu
teor foi o seguinte:
Prossiga
nas observações. Por enquanto abstenha-se de intervir. Continue a
informar regularmente.
A mensagem
concluía com o sinal codificado que indicava ter ela sido elaborada
pelo próprio Rhodan. Blailey assobiou entre os dentes.
— Sim
senhor! Rhodan! — disse em tom de espanto. — Parece que tem um
interesse todo especial por essa história do planeta Fera Cinzenta.
Retornou a
seu lugar e deixou-se cair na poltrona articulada.
— Pensando
bem — murmurou em voz baixa — este Mullon é um homem de verdade.
Provavelmente conseguirá resolver a confusão sem que tenhamos de
intervir.
Virou-se
para o operador de rádio.
— Não
durma, Lowell! — disse. — Sunny Maid poderá voltar a chamar a
qualquer momento.
*
* *
*
*
*
Talvez
com o auxílio dos anões azuis, os democratas consigam derrubar a
ditadura de Hollander... Rhodan, por enquanto, não quer intervir.
Em Os
Microtécnicos, próximo volume da série, novas e inesquecíveis
aventuras!

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