Glogol
sentiu escapar-lhe a perspectiva de um prazer e reconheceu o perigo
em potencial representado por um falso inspetor. Não havia tempo
para brincadeiras. Precisava agir.
— O
inspetor Tristol é um impostor — disse em tom frio. — Prenda-o.
Pousarei imediatamente. As formalidades ficarão para depois.
Enquanto isso enviarei uma consulta ao regente robotizado.
— Isso
já foi providenciado. Esperamos a resposta ainda hoje. De qualquer
maneira, seria conveniente formular outra consulta, para termos
certeza absoluta.
Glogol
sentiu a desconfiança. Empalideceu. Soltou uma praga, levantou-se e
voltou ao seu gabinete. Pensou:
“Malditos
médicos! Não acreditam que eu seja o verdadeiro inspetor. Bem, hão
de pagar por isso!”
Mas,
por outro lado, não pôde deixar de reconhecer que a desconfiança
ainda era preferível à credulidade e à leviandade.
Nunca
ouvira falar em Tristol, embora o Império só tivesse dez
inspetores. E ele os conhecia todos.
Deu
o alarma. Os dois cruzadores que comboiavam sua nave entraram em
regime de prontidão de combate e penetraram na atmosfera de Tolimon
juntamente com o iate de Glogol.
Quase
no mesmo instante, chegou a Trulan a resposta expedida por Árcon.
Não
existia nenhum inspetor chamado Tristol.
*
* *
Rhodan
e Gucky saíram do táxi aéreo e olharam em torno.
O
parque era formado principalmente por um extenso gramado no qual se
viam alguns arbustos. Só na periferia as árvores isolavam a área
do mundo exterior. A mansão ficava numa rua tranqüila da zona
periférica norte de Trulan.
O
piloto inclinou o corpo, para fora da cabine.
— Quer
que espere pelo senhor, inspetor?
— Você
virá conosco — anunciou Rhodan. — Quero ter certeza de que não
terei de voltar a pé.
— Mas,
senhor... — principiou o piloto em tom de recriminação, mas logo
se viu interrompido por Gucky.
— Desça
logo! Quando meu senhor dá uma ordem, deve-se obedecer sem discutir.
Já ouviu falar no centro de experiências do zoológico? Está com
vontade de terminar seus dias por lá?
O
piloto tremeu por todo o corpo e com um salto arriscado caiu no
capim.
Rhodan
caminhava à frente dos outros. Nada se movia na casa, que parecia
deserta. Os impulsos mentais de Marshall puderam ser captados com
toda nitidez.
— Estamos
saindo, chefe. Os saltadores estão desconfiados e resolveram ir
conosco.
— Saberão
respeitar um inspetor —
respondeu Rhodan.
Quando
se encontravam a vinte metros da casa, a porta abriu-se e um homem
barbudo veio ao seu encontro. Pelo aspecto exterior, poderia ter
cerca de sessenta anos, mas isso não significava nada. Fez um sinal
para trás, como se quisesse evitar que alguém o seguisse. Sozinho e
armado somente com o costumeiro radiador manual preso no coldre, veio
ao encontro do grupo de Rhodan. Por alguns segundos, pousou um olhar
pensativo e espantado sobre Gucky, mas logo voltou a dedicar sua
atenção a Rhodan.
— Inspetor
de Árcon — resmungou. — Vejo que nossos amigos não mentiram.
— Meu
nome é Tristol — disse Rhodan, usando um pouco menos de arrogância
que em outras oportunidades. — O senhor prestou auxílio aos meus
homens e está exigindo uma paga adequada. O senhor receberá a
recompensa assim que estejamos fora de perigo. Acredita em mim?
O
barbudo acenou a cabeça de forma quase imperceptível.
— Meu
nome é Berzan, inspetor. Uma pergunta: o senhor realmente é um
inspetor?
Rhodan
leu a desconfiança no rosto do saltador. Não compreendia a ligação
que poderia existir entre os prisioneiros e aquele arcônida.
— O
senhor tem alguma dúvida? — perguntou Rhodan, fingindo-se de
espantado. — Os espiões de Árcon estão em toda parte. Meus
homens agiram por ordem do regente robotizado. Há alguma coisa de
extraordinário nisso?
Como
por acaso, Berzan colocou a mão sobre a arma, embora não tivesse a
intenção de sacá-la. Gucky logo percebeu o movimento, mas não fez
nada. Porém estava alertado.
— De
fato tudo isso é muito estranho, senhor. Há menos de duas horas, a
polícia de segurança de Trulan deu o alarma. Árcon respondeu à
consulta formulada por Tolimon. Não existe nenhum inspetor chamado
Tristol. Logo, trata-se de um impostor que está sendo procurado. E
não demorará muito até que a polícia encontre a pista que conduz
a esta casa.
Rhodan
reagiu imediatamente à nova situação. Viu o espanto no rosto do
piloto de táxi, mas não se preocupou. Sorriu.
— É
verdade, Berzan. Não sou nenhum inspetor dos arcônidas. Acontece
que o senhor não gosta deles, Berzan. Sei disso. Logo, não tem
nenhum motivo para entregar-me. Os arcônidas e os aras não são
nossos inimigos comuns?
Berzan
não se interessou por esse tipo de conversa.
— Faço
o contrabando de medicamentos; meu negócio é este. O chefe do clã
é Rohun, comandante dos saltadores. Não gosto dos arcônidas, mas
reconheço seu Império. O senhor é um inimigo do Império, e não
posso continuar a colaborar com o senhor ou com seus amigos. Para
usar de franqueza, isso é muito perigoso para mim. Pague sua dívida,
pegue seu pessoal e dê o fora.
Rhodan
ficou surpreso com a sinceridade daquele saltador barbudo, que não
lhe era antipático. Sabia que seria inútil tentar convencê-lo a
adotar outra atitude.
— Muito
bem. O senhor receberá o pagamento a que faz jus. Onde está meu
pessoal?
Berzan
virou-se e fez um sinal em direção à casa.
— Faran,
traga os estranhos; estão livres.
Rhodan
pegou uma sacola com moedas e entregou-a ao velho. Este examinou-a
ligeiramente e soltou um assobio. Estava mais que satisfeito com a
recompensa.
Faran
saiu da casa, seguido por Marshall, Laury e pelo conde.
Berzan
puxou Faran para o lado e falou com ele em voz baixa. Rhodan não
teve tempo para ocupar-se com ele. Sabia que naquele instante não
tinha receio de qualquer traição, se é que em algum momento esta
pudesse ocorrer. Marshall aproximou-se de Rhodan e, muito satisfeito,
apertou-lhe a mão.
— Já
estava chegando ao fim, chefe. Não sei por quanto tempo estaríamos
seguros por aqui. Os saltadores já não tinham vontade de queimar os
dedos. Desculpe, Laury deseja cumprimentá-lo. Além disso, quero
apresentar-lhe o conde Rodrigo de Berceo...
Laury
enrubesceu, pois sabia perfeitamente que Rhodan estava informado de
sua paixão pelo conde. Com um gesto hesitante estendeu-lhe a mão,
que Rhodan pegou com um ligeiro sorriso, retribuindo a pressão dos
dedos.
Só
depois, dedicou sua atenção ao conde.
Rodrigo
tirara o chapéu de aba larga e o sacudia com uma mesura impecável,
que teria honrado qualquer nobre do século XVII.
Depois
adiantou-se e, fazendo outra mesura, declinou seu nome e o de seus
nobres. Asseverou:
— Sinto-me
muito satisfeito em conhecer o grande amigo de minha companheira, e
fico honrado em saber que o senhor, Rho...
— Nada
de nomes! — advertiu Rhodan em tom áspero. — Sou o chefe; apenas
isso.
Rodrigo
ficou corado, mas soube dominar-se muito bem.
— Perdão,
chefe. Quase me esqueço das cautelas que devemos tomar.
Lançou
os olhos em torno, como se estivesse procurando alguma coisa, fitou
ligeiramente o rato-castor e dirigiu-se a Marshall.
— Onde
está esse legendário herói e sedutor de mulheres de que você me
falou? Não o vejo.
— Gucky?
— Sim,
acho que o nome é este. Gostaria de dizer-lhe o que penso dele.
— Ora,
Rod, basta abrir os olhos. Gucky está na sua frente.
Laury
abaixara-se para acariciar o pequeno rato-castor.
— Como
vai, meu amiguinho? — perguntou com o mais gentil dos sorrisos. —
Você seria capaz de imaginar que Rod tem ciúmes de você?
Gucky
não respondeu.
Continuava
perplexo, fitando o conde, que por sua vez arregalava os olhos,
contemplando o rato-castor com uma expressão de incredulidade.
— Ui!
— piou o rato-castor, respirando com dificuldade. — Onde é o
baile de carnaval que esse titio esquisito pretende ir?
O
“titio
esquisito”
compreendeu imediatamente. Recuou dois passos.
— Este
é o tal do Gucky? — perguntou, dirigindo-se a Marshall.
— Quem
poderia ser senão ele?
Rodrigo
estreitou os olhos e voltou a dedicar sua atenção ao rato-castor,
que começava a recuperar-se do espanto.
— Você
é Gucky? — voltou a perguntar Rodrigo, apontando para Gucky.
O
rato-castor descansou o corpo sobre o largo traseiro.
— Alguma
objeção? — perguntou em tom gentil. — Se eu fosse como você,
não andaria fazendo perguntas idiotas. Isso reforça a impressão
que a gente tem ao ver você pela primeira vez.
Num
movimento instantâneo, Rodrigo sacou a espada e recuou dois passos.
— Defenda-se
ou eu o mato ignominiosamente!
Laury
soltou um grito estridente e colocou-se entre os contendores. Rhodan
lançou um olhar para os saltadores. Estes examinaram o conteúdo da
bolsa com o dinheiro e pareciam não estar interessados no que se
passava no parque. Faziam de conta que tinham esquecido tudo que se
passava pelo mundo.
Gucky
começou a gritar de alegria. Saltitava alegremente sobre as
perninhas curtas. O dente roedor solitário brilhava aos raios do
sol.
— Entre
nós só as velhas usam agulhas de crochê desse tamanho! — disse
Gucky com um assobio desafinado. — Eu lhe imporei respeito com a
pata esquerda.
Rodrigo
esqueceu a boa educação.
Com
um grito furioso, saltou sobre o rato-castor, que se limitou a
endireitar ligeiramente o corpo e fitá-lo. No momento em que o conde
pretendia golpeá-lo, sentiu uma pancada no pulso. A dor foi tão
violenta que deixou cair a espada. Para seu espanto, a arma adquiriu
a independência, descreveu uma curva e foi fincar-se numa árvore,
onde ficou tremendo depois de ter penetrado mais de vinte
centímetros.
Rodrigo
ficou perplexo. Fitou ora Gucky, ora a espada que continuava a
balançar.
Gucky
fez um gesto de triunfo e saltitou em direção a Laury, segurando
sua mão.
— Diga
a verdade — disse com um chiado carinhoso. — Você não pode
estar apaixonada por esse palhaço, não é?
Mas
Laury soltou-se da mão dele.
— Você
é um sujeito horrível, Gucky! — disse entre soluços e foi para
junto do homem amado, colocando a mão sobre o ombro do mesmo. —
Não se exalte, Rod. Gucky não tem a intenção de ofendê-lo.
Apenas gosta dessas brincadeiras estúpidas. Perdoe-lhe, se puder.
O
conde Rodrigo provou que sabia ser generoso. Acariciou o braço de
Laury e dirigiu-se ao rato-castor.
— Esse
feitiço foi uma brincadeira deliciosa, Gucky. Quero que
oportunamente você me ensine o truque. Vamos fazer as pazes.
Gucky
segurou a mão do conde entre as patas.
— De
acordo. Quanto ao truque...
Ninguém
dera a menor atenção ao piloto do táxi aéreo, que por ocasião
dos cumprimentos de Berzan soubera da falsa identidade do inspetor. O
ara recuara e, aproveitando-se da confusão geral, entrou na cabine
de seu veículo. Antes que alguém pudesse impedi-lo, subiu na
vertical.
Rhodan
foi o primeiro a perceber. Gucky, o segundo.
— Trarei
o sujeito para cá — sugeriu e começou a concentrar-se sobre o
ligeiro salto. Rhodan, porém, sacudiu a cabeça.
— Deixe
para lá, Gucky. Deixe que ele alarme os habitantes de Trulan. Vamos
dar o fora. Quando aparecerem por aqui, verão que estão procurando
no lugar errado.
Calou-se.
Um terceiro saltador saiu da casa. Era um homem de cabelos ruivos que
usava uma barba enorme e tinha o corpo de campeão de luta livre.
Lançou um olhar perscrutador sobre Rhodan e aproximou-se do grupo.
— Então
o senhor é o falso inspetor? — disse, olhando para o uniforme de
Rhodan como quem contempla um animal raro.
Rhodan
leu os pensamentos de seu interlocutor e ficou assustado.
Não
era nenhuma novidade. Mas soube controlar-se.
— Alguma
objeção, amigo?
— Pelo
contrário — disse o ruivo com uma gostosa gargalhada. — Não
tenho nada a ver com a armadilha em que o senhor se meteu — esperou
até que os outros prestassem atenção às suas palavras. Aquilo que
tinha a dizer interessava a todos. — Sugiro que procure outro
esconderijo, e muito depressa. Há poucos minutos pousou no
espaçoporto de Trulan um iate de luxo acompanhado de dois cruzadores
pesados do Império. O inspetor Glogol terá muito prazer em
encontrar seu colega em Tolimon.
Rhodan
sorriu amavelmente para o ruivo.
— Obrigado
pelo conselho, amigo. Acho que chegou a hora da despedida. Tem mais
algum desejo?
— Não
— disse Tulin em tom áspero. — O único desejo que tenho é que
o senhor dê o fora quanto antes. A polícia não demorará em saber
que um táxi o trouxe até aqui. E não quero que encontrem ninguém
quando aparecerem por aqui. Entendido?
— O
senhor não é muito gentil, mas em compensação apresenta uma
sinceridade reconfortadora — elogiou-o Rhodan e fez um sinal ao seu
grupo. — Venham, meus amigos. Conde, não se esqueça de tirar a
espada da árvore. Temos um longo passeio diante de nós. Portanto,
devemos apressar-nos — cumprimentou os saltadores com um gesto. —
Mais uma vez, muito obrigado pelo auxílio que nos têm prestado. Não
podemos exigir mais que isso. Passem bem.
Um
tanto desorientados, Laury e Rodrigo seguiram Rhodan, que caminhava à
sua frente. Gucky fechava o grupo com seu andar arrastado. Pelos
impulsos mentais que desabavam sobre ele percebeu nitidamente que
Trulan parecia um ninho de marimbondos espantados.
A
caçada já fora iniciada.
*
* *
Quando
os tolimonenses souberam que haviam caído nas malhas de um impostor
atrevido, a vergonha pela humilhação misturou-se à raiva dos
enganados. Os serviços de segurança e de controle de estrangeiros
lançaram mãos de todas as forças disponíveis para capturar o
inspetor, embora não soubessem com que finalidade poderia ter agido
esse personagem desaparecido.
Glogol
contribuiu com suas medidas. Expediu uma mensagem de alarma destinada
ao regente de Árcon. A resposta consistiu no envio de uma frota de
guerra. O espaço em torno de Tolimon foi fechado estrategicamente.
Fortes
unidades militares dirigiram-se ao espaçoporto e, por não
conseguirem penetrar no iate de luxo do falso inspetor, cercaram-no.
Preferiram não destruir a valiosa nave. Nem havia necessidade disso,
pois não havia nenhum tripulante a bordo.
Evidentemente
estavam cometendo um engano, mas isso não fazia a menor diferença.
A
cidade foi revistada pelos quatro cantos. A polícia iniciou as
buscas na área central e foi avançando lentamente em direção aos
distritos periféricos. Quando chegou à mansão dos saltadores, não
encontrou nada de suspeito. Até mesmo o piloto do táxi, trazido às
pressas, ficou perplexo ao ver-se diante de um funcionário
aposentado da administração do zoológico, que se sentia indignado
porque o haviam importunado e disse que iria queixar-se ao governo.
Foram
adiante sem terem conseguido nada.
*
* *
Os
fugitivos atravessaram os primeiros campos cultivados dos subúrbios
e atingiram a proteção de uma pequena floresta, onde fizeram uma
pausa.
O
conde Rodrigo fungava de raiva.
— Por
que temos de nos esconder que nem índios amedrontados? Não dispomos
de armas suficientes para colocá-los em fuga?
— Dispomos
— confirmou Rhodan em tom tranqüilo. — Mas o que adiantaria
isso? Não podemos lutar contra um planeta, e nem estamos
interessados nisso. Já provocamos muitas suspeitas. Temos de dar o
fora sem deixar vestígio. Um dia voltaremos para buscar a fórmula
do elixir da vida, se for necessário. Temos uma amostra do soro;
talvez esta seja suficiente.
— E
como vamos dar o fora daqui? — perguntou Marshall, que conhecia
perfeitamente as condições reinantes em Tolimon. Lembrava-se dos
terríveis froghs e da velocidade com que estes se deslocavam. —
Nossa única possibilidade de fuga está estacionada no espaçoporto.
— É
isso mesmo! — confirmou Rhodan. — Gucky vai até lá para dar uma
olhada e verificar se podemos buscar a nave. Se a tele-direção
ainda estiver funcionando, não haverá problema. Mas preciso saber
se o iate não está preso ao solo. Nesse caso, a decolagem poderia
provocar avarias graves no casco. Gucky terá de soltar as amarras
antes que eu possa trazer a nave.
O
rato-castor apontou as orelhas. Outra missão?
— Irei
imediatamente, chefe.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Tenha
cuidado, meu velho. A cidade está cheia de policiais. E também
estão atrás de você. Em hipótese alguma poderá aparecer.
Dificilmente conseguirá vencer a distância num único salto, pois
não conhecemos a distância exata.
— Basta
concentrar-me na nave. Descreva a sala de comando, Perry. Não tenho
a menor dúvida de que assim...
Rhodan
fechou os olhos. Não teve a menor dificuldade em rememorar o
interior da nave. É claro que Gucky também não tinha a menor
dificuldade. Porém achava que era preferível andar seguro.
— O
painel de instrumentos forma um pequeno semicírculo e, por cima
dele, há cinco telas equipadas com os necessários controles em
forma de botões giratórios. As duas poltronas encontram-se na
frente desse painel, enquanto à direita ficam as instalações de
rádio...
— Já
foi embora — disse Marshall, enquanto o conde Rodrigo soltou um
grito de espanto e murmurou alguma coisa que soava como bruxaria.
Nunca vira um teleportador. Laury manteve-se em silêncio. Estava
sentada no chão macio, junto ao conde. Encontravam-se cercados por
moitas espessas e árvores frondosas. Só se enxergava o céu. O sol
já se aproximava da linha do horizonte. Até parecia que teriam de
passar a noite ao ar livre.
Rhodan
abriu os olhos e observou:
— Tomara
que não erre o salto, aterrissando em meio a um destacamento
policial. Não poderão fazer-lhe nada, mas seria preferível que não
o vissem.
Voltou
a fechar os olhos.
— Gucky,
onde está você? —
pensou intensamente.
Marshall
também captou a resposta telepática do rato-castor.
— O
segundo salto levou-me ao interior da nave. O espaçoporto até
parece um formigueiro; está cheio de soldados e policiais. Neste
instante, o verdadeiro inspetor está aparecendo aqui para examinar a
Koos-Nor. O que devo fazer?
— A
nave está ancorada ou presa de outra forma?
— Nada
disso. Eles nem desconfiam de que temos a tele-direção.
— Excelente
—
transmitiu Rhodan muito satisfeito. — Volte
imediatamente.
Gucky
não se apressou.
Encontrava-se
na pequena sala de comando e, pelo periscópio, acompanhava os
acontecimentos que se desenrolavam no campo de pouso. Sentia-se
absolutamente seguro no interior da nave, mas talvez fosse
conveniente que pudesse levar algumas informações a Rhodan.
Penetrou
cautelosamente nos pensamentos do inspetor, que passeava no seu
uniforme colorido em torno da Koos-Nor, especulando sobre a maneira
pela qual o impostor se poderia ter apoderado desse artefato
especial. Os iates de luxo desse tipo estavam reservados
exclusivamente aos inspetores do Império e às pessoas mais ricas da
classe dominante. Um deles devia ter usado um nome falso. Quem
poderia ter sido?
É
claro que Glogol não encontrou resposta às suas indagações, pois,
por nenhum instante, lhe ocorreu a possibilidade de que o impostor
pudesse ser uma criatura que não pertencesse à raça dos arcônidas.
Com um gesto arrogante, dirigiu-se ao Ministro da Segurança de
Tolimon, que se encontrava a seu lado.
— Já
prenderam o impostor?
O
homem ao qual foram dirigidas essas palavras encolheu-se de susto.
— Ainda
não, senhor inspetor, mas nossos homens estão vasculhando toda a
cidade de Trulan. Ninguém conseguirá escapar. O criminoso deve ter
seus cúmplices em nosso mundo, e nós os encontraremos.
— Não
estou interessado nos cúmplices! — berrou Glogol para o homem, que
parecia petrificado. — Quero desmascarar o patife que se atreveu a
enganar o regente robotizado.
— Naturalmente,
inspetor — o ministro inclinou o corpo. — Já dei as respectivas
instruções. Ele morrerá e...
— Eu
o quero vivo — berrou Glogol fora de si. — Pelas fontes do
planeta do inferno de Hradchir! O que poderei fazer com um impostor
morto? Ele não nos poderia dar nenhuma informação.
O
ministro saiu solícito, animado principalmente pelo desejo de
afastar-se do inspetor. Glogol seguiu-o com os olhos e pensou várias
coisas que Gucky absorveu com o maior prazer.
“Esse
sujeito arrogante é o tipo do arcônida”,
pensou. “Se
bem que é totalmente diferente de Crest e Thora.”
Gucky
pigarreou e viu que Glogol chamou alguns tolimonenses e falou com
eles. Apontou várias vezes para a Koos-Nor.
De
repente, o rato-castor começou a tremer de raiva, pois sua
consciência percebeu as ordens dadas pelo inspetor.
Queria
que técnicos especializados abrissem o casco do iate a maçarico.
Glogol esperava que, no interior da mesma, pudesse encontrar algumas
indicações sobre a identidade de seu possuidor.
Teria
sido simples para Gucky saltar de volta para Rhodan, que acionaria
imediatamente a tele-direção. Mas geralmente Gucky não aceitava as
soluções simples. Preferia complicar as situações, dando um curso
todo especial aos acontecimentos.
Não
gostava do tal do Glogol. Precisava de uma lição, mas era
necessário não despertar suspeitas. O melhor seria expor o inspetor
ao ridículo, pois nesse caso ninguém se preocuparia seriamente com
as causas do incidente.
Gucky
sorriu no momento em que se concentrou e dirigiu suas energias
telecinéticas para o arcônida.
Glogol
ainda estava falando aos técnicos quando subitamente sentiu uma
pressão estranha na altura do estômago. Teve a impressão de que
alguém puxava suas calças de almirante, listradas em cores vivas.
Perplexo, lançou os olhos corpo abaixo, mas não descobriu ninguém
que tivesse tido o atrevimento de despertar sua atenção por essa
forma.
Mas
a força que lhe puxava as calças tornava-se cada vez mais intensa.
Com um estalo, o cinto bordado de ouro rompeu-se, caindo ao chão
juntamente com o coldre da pistola. A arma engatilhada disparou com
um chiado e a força do recuo arremessou-a muito além da beira do
campo de pouso.
Enquanto
isso, a calça de Glogol escorregou e adquiriu sua independência de
uma forma bastante estranha. Descrevendo uma curva graciosa,
desapareceu na direção do complexo de edifícios.
Glogol
usava ceroulas compridas. E um arcônida arrogante de ceroulas é uma
figura ainda mais ridícula que um terrano que use a mesma
vestimenta. A dignidade do inspetor se desvanecera. Arregalando os
olhos e tremendo que nem vara verde, Glogol acompanhou com os olhos a
calça que se afastava pelos ares, calça esta da qual saíra de
forma tão surpreendente, sem que tivesse colaborado no fenômeno. Os
tolimonenses que o cercavam compreendiam tanto — ou tão pouco —
quanto ele, mas confiavam no que viam. E aquilo que tinham diante dos
olhos em nada lembrava um inspetor arcônida. Apenas viam uma figura
ridícula com ceroulas cor-de-rosa e meias furadas. Apenas a túnica
cheia de condecorações lembrava o esplendor da figura de inspetor.
Alguns
dos policiais soltaram estrondosas gargalhadas.
De
início Glogol não ouviu, mas logo seu rosto se tornou vermelho de
raiva. Virou-se furioso e gritou para o grupamento. O resultado foi
bem o contrário do que esperava.
Os
soldados e oficiais, bem como o Ministro da Segurança, que
regressara ao local, e outros representantes do governo, deixaram
cair o medo e as reservas. Um inspetor de ceroulas não os
atemorizava nem lhes inspirava respeito. Era um homem como eles, e um
homem muito esquisito. Tirava as calças sem mais aquela em pleno
campo espacial!
Glogol
cambaleou quando se sentiu atingido pelas gargalhadas. Procurou apoio
e segurou-se num dos criados que constantemente ficavam a seu lado.
— Vocês
pagarão por isso! — gritou com a voz rouca. — Estão ofendendo o
Império. O regente robotizado não deixará que essa vergonha passe
em brancas nuvens. Tomarei todas as providências para que isso não
aconteça.
De
uma hora para outra, transformou-se num homem frio e tranqüilo. A
voz recuperou o tom habitual, embora o tom de arrogância da mesma
não convencesse mais ninguém. Dirigindo-se aos técnicos que se
contorciam de tanto rir, disse:
— Vamos
logo! Ponham-se a trabalhar. Dentro de dez minutos, quero entrar na
nave.
Depois,
ordenou ao criado que tirasse as calças.
*
* *
Gucky
ainda estava sorrindo quando, dez minutos depois da ordem de Rhodan,
voltou a materializar-se no esconderijo situado na floresta. Mal seu
vulto adquiriu os contornos definitivos, caiu no chão de folhas
macias, completamente exausto e quase estourando de tanto rir.
Rhodan, que acompanhara os acontecimentos por via telepática, um
tanto contrafeito, só não interveio nestes porque repentinamente se
dera conta de que poderiam ter conseqüências de grande alcance. Uma
vez abalado o prestígio do inspetor, a fuga de Tolimon se tornaria
muito mais fácil.
Marshall
e Laury também estavam informados sobre os acontecimentos. Apenas o
conde Rodrigo levou um susto quase mortal quando Gucky surgiu
repentinamente em meio ao grupo. O que menos compreendia eram os
sorrisos dos dois homens, de Gucky e da moça.
— O
que aconteceu? — indagou.
Rhodan
explicou. O rosto do nobre também se cobriu com um sorriso alegre.
Ao que tudo indicava, sabia imaginar perfeitamente como devia ser um
conde de cuecas e, face à sua reação, parecia que nem mesmo um
homem terreno do século XVII
infundiria
muito respeito se usasse esse tipo de vestimenta.
— Bem
feito, meu pajem — disse, inclinando-se para Gucky e acariciando-o.
— Os
homens de Trulan ficarão tão alegres que se esquecerão de
procurar-nos.
— Mas
não se esquecerão de nossa nave — disse Rhodan com espírito mais
realista e pegou o aparelho de tele-direção.
— Está
na hora de pensarmos em nossa segurança. Se dermos oportunidade para
Glogol, ele impedirá nossa fuga, apesar da vergonha pela qual
passou. Aliás, neste instante está usando as calças de um dos seus
criados, segundo deduzo através dos pensamentos de alguns dos
circunstantes. Coitado!
— Quem?
O criado? — procurou certificar-se o conde Rodrigo.
— Tolice!
Só pode ser Glogol. As calças que está usando não são listradas
— Marshall sorriu enquanto proferia estas palavras.
Rhodan
girou algumas rodinhas e ponteiros, apontou a antena fininha na
direção do espaçoporto e puxou uma pequena chave, que se movia
facilmente para todos os lados.
A
pequena tela de orientação não se acendeu, pois não se prestava
ao controle numa distância tão reduzida.
— Será
que a nave não será perseguida se decolar de repente? — perguntou
Marshall em tom preocupado. — Nunca conseguiremos embarcar com a
mesma rapidez com que cairão em cima de nós.
Rhodan
dirigiu-se para Laury.
— Entregue-me
a ampola com o soro, Laury. Teremos que apressar-nos, e eu não quero
que a senhora a perca.
Pegou
o frasquinho, contemplou-o atentamente por um instante e enfiou-o no
bolso. Só depois disso respondeu à pergunta de Marshall.
— É
verdade, John. Assim que nossa nave pousar, temos que embarcar e
decolar quanto antes. A polícia a seguirá até aqui. Talvez seria
conveniente se realizássemos uma manobra de despistamento.
Aguardemos para ver o que vai acontecer.
A
Koos-Nor surgiu na periferia da cidade e passou a pouca velocidade
pouco acima das últimas mansões. Dirigia-se diretamente para a
floresta.
Rhodan
viu perfeitamente os três ou quatro pontos reluzentes que se
aproximavam dos lados e procuraram atacar a nave.
— Era
o que eu imaginava — disse. — Gucky, salte para dentro da
Koos-Nor e informe o que puder ver. Dirigirei a nave de acordo com as
indicações que você me fornecer. Entendido?
— Perfeitamente!
— disse o rato-castor e desmaterializou-se.
Perplexo,
o conde Rodrigo fitou o lugar vazio deixado por Gucky e achegou-se a
Laury. Para ele, a telepatia e a teleportação continuavam a ser uma
bruxaria inconcebível, por mais que tentassem explicar-lhe os
segredos desses dons.
— Estou
na sala de comando. Ativei os campos defensivos. Os aras estão
atacando —
Gucky fez uma ligeira pausa. Depois prosseguiu no seu relato: —
Também
liguei o receptor. O inspetor mandou que seus cruzadores entrassem em
ação. Querem destruir a Koos-Nor. O que devo fazer?
Rhodan
moveu a chave do aparelho de tele-direção. Marshall e Laury viram a
nave descrever uma curva fechada e afastar-se em direção ao sol que
já se encontrava no ocaso.
— Avise
assim que avistar o mar, Gucky. Continue na nave, aconteça o que
acontecer. Para você, não haverá o menor perigo.
Sem
que o quisesse, Rhodan falara alto, o que o conde, como não-telepata
que era, apreciou muito. A resposta de Gucky, porém, veio em
silêncio, tornando-se compreensível apenas para Rhodan, Marshall e
Laury:
— Perigo?
O que vem a ser isso?
Rhodan
sorriu, mas logo voltou a assumir um ar sério. Seguiu com os olhos
as naves dos aras, que também corriam em direção ao sol. Uma
surpresa estava reservada para estas.
Dali
a menos de dois minutos, Gucky anunciou:
— O
mar está embaixo de mim.
— Muito
bem —
respondeu Rhodan. — Você
descreverá uma curva elegante e cairá para desaparecer sob a água.
Amarre-se, para que nada lhe aconteça. Será exatamente dentro de
dez segundos.
Gucky
não deu resposta direta, mas Rhodan acompanhou seus pensamentos e
ficou sabendo que o rato-castor havia compreendido e seguia suas
instruções. Mais uma vez, a chave do aparelho de tele-direção foi
acionada. A Koos-Nor, que se encontrava a mais de duzentos
quilômetros de Perry, reagia a qualquer impulso, por mais ligeiro
que fosse. Subiu quase na vertical, ficou parada por um instante e
caiu que nem uma pedra.
Qualquer
observador teria a impressão de que o mecanismo de propulsão e de
direção havia falhado. E vários pares de olhos seguiram os
acontecimentos com um máximo de atenção. Trinta segundos depois,
Glogol ficou sabendo que o iate caíra ao mar juntamente com o
piloto. Com isso, a fuga do falso inspetor fora cortada.
Encontrava-se em algum lugar dentro da cidade.
Trulan
foi fechada estrategicamente. Ninguém podia sair da cidade.
Outra
busca foi iniciada, mais rigorosa que a anterior.
Os
agentes e os contrabandistas que trabalhavam para os mercadores
galácticos passariam daqui para frente por maus momentos.
5
Quando
a Koos-Nor começou a cair, o corpo de Gucky perdeu o peso.
O
rato-castor estava bem seguro no assento do piloto. O método de
mergulhar uma nave espacial nas águas do mar não era novo. Para os
ocupantes não representava nenhum perigo, desde que o casco não
vazasse.
A
nave bateu na superfície da água. Os campos de absorção reduziram
a pressão do impacto a zero no interior da nave.
— A
nave está afundando! —
transmitiu Gucky para Rhodan. Examinou as telas iluminadas, nas quais
o verde foi assumindo tonalidades cada vez mais escuras. Depois de
algum tempo, a tela tornou-se negra. — Já
devo estar bem fundo.
— Vou
deter a nave —
respondeu Rhodan — para
que a pressão não se torne muito intensa. As naves que estavam
atrás de você desapareceram. Se quiser pode voltar para junto de
nós.
— Não
poderia ficar mais um pouco? Aí na floresta estamos completamente
isolados do mundo exterior, mas aqui disponho do receptor. Posso
ouvir as instruções de Glogol. Dessa forma saberemos que medidas
pretendem tomar contra nós.
Rhodan
hesitou um pouco, mas logo pensou:
— Está
bem. Mas dentro de exatamente trinta minutos você deverá estar
aqui.
Gucky
deixou o campo livre e bloqueou seu cérebro. Desatou os cintos e
saltitou alegremente pelo corredor, dirigindo-se à despensa.
Até
mesmo o estômago de um rato-castor vez por outra precisa de um
reforço.
O
rádio estava funcionando a todo volume. Os avisos dos grupos de
busca chegavam ininterruptamente. Conseguiram localizar um
esconderijo de contrabandistas, mas os criminosos lograram fugir sem
serem reconhecidos. Alguém confirmou que Árcon havia enviado certo
número de couraçados que bloqueavam Tolimon. Essa medida parecia
superada, já que a nave do falso inspetor caíra ao mar. Todavia,
sabia-se que o impostor não se encontrava no interior do iate. Ainda
devia encontrar-se em Trulan juntamente com seu estranho criado.
Gucky
cresceu uns cinco centímetros quando ouviu que também estava sendo
citado nos comunicados oficiais.
Subitamente
teve uma idéia.
Por
que não iria deixar os tolimonenses e o tal do Glogol absolutamente
seguros de que ele e Rhodan ainda se encontravam na cidade? Dessa
forma as operações de busca se concentrariam ainda mais em Trulan,
limitando-se a uma área restrita. Dessa forma Rhodan poderia
aguardar calmamente em seu esconderijo até que chegasse a escuridão.
Não
julgou necessário informar Rhodan sobre a decisão que acabara de
tomar. Efetuou um salto cego em direção a Trulan. O fato de que
havia quase quinhentos metros de água acima dele não o incomodava
nem um pouco.
Gucky
rematerializou-se no seu antigo alojamento situado na área dos
cortiços, pois era o lugar que melhor podia evocar em sua lembrança.
Nada havia mudado. Ao que parecia, o frogh que fora morto era a única
criatura que conhecia o esconderijo.
O
rato-castor foi até a janela e olhou para a rua. O lugar parecia
abandonado. Havia apenas viaturas policiais correndo de um lado para
outro, cuspindo verdadeiras legiões de policiais uniformizados, que
penetravam rapidamente nas casas. Era de supor que nem mesmo um rato
lhes poderia escapar.
Gucky
concentrou-se sobre a Praça do Grande Mo, que ficava a cerca de um
quilômetro de distância, e saltou.
A
teleportação era uma capacidade estranha e excelente. Bastava
pensar no ponto de destino, concentrar-se sobre o mesmo e
desmaterializar-se, para vencer a distância sem a menor perda de
tempo. Uma vez no destino, a gente voltava a rematerializar-se.
Foi
o que Gucky fez.
Naturalmente
o salto envolvia um grande risco. Era bem verdade que não havia o
perigo de materializar-se no interior de outra porção de matéria.
Mas se a gente voltasse ao espaço normal no meio de um grupo de
inimigos, e se estes reagissem com suficiente rapidez...
Felizmente
para Gucky, não o fizeram.
O
rato-castor surgiu quase no centro da praça e viu-se rodeado por uma
multidão de paisanos, olhando todos na mesma direção. O exército
patrulhava a área, com as armas engatilhadas nas mãos. Tangendo os
transeuntes para o interior das casas, as viaturas policiais corriam,
com as sereias ligadas, pela larga via principal.
Gucky
espreitou em torno. Encontrou olhares espantados, nos quais a
compreensão começou a despontar aos poucos. Seu retrato devia ter
sido espalhado por todos os cantos juntamente com o do arcônida.
Quando
os primeiros dedos apontaram-no, Gucky começou a correr.
Logo
o inferno ficou às soltas.
As
pessoas corriam atrás dele, balbuciavam palavras desconexas e caíam
por cima de obstáculos surgidos não se sabe de onde. Para Gucky não
foi nada fácil livrar-se dos perseguidores com suas pernas curtas,
ainda mais que a polícia já notara algo de estranho e quis saber a
causa do tumulto.
— É
o criado do falso inspetor! — gritou alguém com a voz rouca e na
corrida derrubou um policial. Por isso outro policial o segurou,
impedindo-o de agarrar o fugitivo. Quando o engano foi esclarecido,
Gucky já se encontrava na extremidade da praça.
O
grito do paisano propagou-se pela multidão. As forças armadas
começaram a agir imediatamente. O bairro foi bloqueado e uma busca
geral foi iniciada.
Gucky
preferiu não desaparecer pura e simplesmente diante das vistas dos
tolimonenses. Deviam ter a impressão de que se escondera no interior
da casa. Alguns saltos curtos não chamavam a atenção de ninguém,
e valia a pena executá-los, mesmo que só o fizessem avançar alguns
metros de cada vez.
Encontrou
um espaço livre e atravessou a rua correndo, passando entre os
veículos em movimento e os policiais exaltados. Antes que alguém
compreendesse o que estava acontecendo, chegou até a frente dos
prédios.
Agora
tinha tempo.
Foi
caminhando tranqüilamente, balançando o corpo, como se nada tivesse
que ver com aquela caçada. Menos de dez segundos depois, voltaram a
descobri-lo. Armas foram levantadas, gritos soaram, comandos foram
berrados. Um oficial aproximou-se correndo.
Gucky
descreveu uma curva elegante para a esquerda e desapareceu numa ampla
porta. Quando viu que não havia mais ninguém por perto,
teleportou-se para o telhado do edifício. Dali observou o resultado
de sua ação por meio da telepatia. Avançou cautelosamente até a
beira do telhado e olhou para baixo.
A
área que se estendia diante da entrada do prédio parecia um campo
de treinamento militar.
A
notícia de sua aparição devia ter corrido com a velocidade do
vento, pois naquele instante um carro aberto, vindo da praça,
aproximou-se velozmente. Os freios chiaram e o inspetor desceu.
Glogol
trouxera uma calça de reserva, pois mais uma vez os circunstantes
contemplaram a figura colorida do almirante da frota espacial dos
arcônidas. Brandindo o radiador, abriu caminho e viu-se diante do
oficial que comandava as buscas.
Gucky
“ouviu”
cada palavra trocada lá embaixo.
— Estava
se referindo ao criado do falso inspetor? Onde está ele?
— Fugiu
para dentro deste prédio. Meus soldados estão à sua procura.
— O
prédio tem alguma saída pelos fundos?
— Todas
as saídas estão sendo vigiadas.
Glogol
pigarreou.
— Avise
assim que consiga pôr as mãos no sujeito. Quero interrogá-lo
pessoalmente.
— Nós
o prenderemos. Não pode estar longe. As pessoas que o viram dizem
que se desloca com muita dificuldade. Trata-se de um animal de
reduzido grau de inteligência, que devia estar no zoológico e
não...
O
oficial não conseguiu prosseguir.
Seu
boné parecia ter sido agarrado por alguma mão mágica: desceu e
cobriu-lhe o rosto. Subitamente viu-se no escuro. Glogol, que não
compreendia mais nada, contemplou a feitiçaria, que naquele instante
não poderia deixar de provocar seu espanto. Mas logo lembrou-se do
que acontecera com sua calça. Olhou cautelosamente para todos os
lados, guardou a pistola e usou ambas as mãos para segurar essa peça
de sua vestimenta.
Parecia
que tudo era possível naquele planeta maluco.
— Deixe
de tolices e procure aquele gatuno!
— disse com uma calma surpreendente e voltou ao carro, deixando-se
cair no assento com uma atitude de alivio. Nada mais lhe poderia
acontecer. — E
não se esqueça: eu o quero vivo.
O
carro afastou-se.
O
oficial pôs o boné em ordem, contemplou-o por alguns segundos,
sacudiu a cabeça e voltou a colocá-lo. Correu para dentro do prédio
suspeito, a fim de animar seus homens a trabalharem com maior
disposição.
Uma
coisa era certa: as pessoas que estavam procurando deviam estar por
aqui.
E
seriam encontradas!
*
* *
Rhodan
olhou para o relógio e franziu a testa.
— Gucky
já devia ter chegado. Os trinta minutos já passaram. Daqui a duas
horas, começará a ficar escuro.
— Deve
estar ouvindo rádio — conjeturou Marshall. — Por isso, não é
de admirar que bloqueie os pensamentos e se esqueça do tempo.
Tudo
estava em silêncio em torno deles. Nos campos e nos prados, não
havia uma única pessoa. As patrulhas policiais que andavam por entre
as mansões de repente desapareceram em direção ao centro da
cidade. Procediam sistematicamente, mas não se interessavam pela
floresta.
— Ao
que parece, realmente acreditam que estamos em Trulan — disse
Rhodan aliviado.
Marshall
fechou os olhos e ficou “em
recepção”.
Não foi fácil cristalizar alguns impulsos definitivos em meio aos
pensamentos que o atingiam e entendê-los. Mas conseguiu.
— Novas
diretivas! — cochichou como que para si mesmo. — Uma das pessoas
procuradas foi vista na Praça do Grande Mo — de repente, abriu os
olhos e fitou Rhodan com uma impressão de espanto. — Foi o criado
do falso inspetor!
Rhodan
suspirou.
— É
Gucky! Só pode ser ele. Seu aspecto é singular; não pode ser
confundido com ninguém.
— A
não ser com outro rato-castor — obtemperou Marshall.
— O
único rato-castor que existe fora de Vagabundo, o planeta do sol
moribundo, é Gucky. Só pode ter sido ele. Saiu da Koos-Nor e andou
fazendo das suas — Rhodan ficou muito sério. — Esperem até que
ele volte, que eu lhe digo o que acho do seu procedimento. É uma...
— Pois
não — piou Gucky com a consciência não muito tranqüila e recuou
quando Rhodan se virou abruptamente em sua direção. — Apenas
quis...
— O
que foi que você quis, Guck? — quando Rhodan omitia o y, isso era
mau sinal. — Vamos logo, fale! Por que não seguiu minhas
instruções?
— Você
mesmo disse em certa ocasião que, se eu conseguir alguma coisa boa
com um procedimento arbitrário, sempre me perdoará.
— Ah,
é? E daí? Isso modifica alguma coisa no fato de você aparecer bem
no centro de Trulan e tocar a polícia para cima de nós?
— Pelo
contrário, chefe, eu a toquei para um lugar em que não estamos.
Para a Praça do Grande Mo...
— Está
bem, está bem! — disse Rhodan para encerrar o debate, pois já
compreendera tudo. — Mas quero que no futuro você me informe sobre
os trabalhos autônomos que pretende realizar. Qual foi o resultado
dos seus esforços?
— Fui
visto no centro da cidade, onde estão revistando casa por casa.
Ninguém pensa nesta floresta.
Rhodan
olhou para a cidade. Não se via mais ninguém na zona periférica.
Os comandos deviam estar a caminho das zonas centrais.
Voltou
a dirigir-se a Gucky.
— Está
bem, meu caro. Vamos fechar um olho.
— Por
que não fecha os dois? — sugeriu Gucky.
Rhodan
sorriu e voltou a sentar.
— Vamos
esperar até que escureça.
*
* *
Depois
do pôr do sol, o tráfego aeroespacial diminuía consideravelmente.
Só vez por outra, uma unidade menor sobrevoava as zonas periféricas
de Trulan e iluminava a área com seus holofotes.
Mesmo
nas altitudes maiores, viam-se de quando em quando as luzes dos
veículos atmosféricos. A frota do Império devia estar estacionada
numa região mais afastada do espaço, a fim de capturar qualquer
fugitivo que conseguisse romper o primeiro anel.
Rhodan
contava com essa possibilidade quando, pela meia-noite, pegou o
aparelho de tele-direção e ligou-o.
O
conde Rodrigo estava dormindo. Laury, que estava deitada a seu lado,
também dormia.
“Aquelas
duas criaturas parecem feitas uma para a outra”,
pensou Rhodan, “mas
várias eras os separam.”
O
que diria Rodrigo da Terra do século vinte e um? Conseguiria
adaptar-se a ela?
Marshall
se mexeu. Estava recostado no tronco de uma árvore. Gucky, que
estava deitado no seu colo, cochilava e murmurava coisas
incompreensíveis. Num momento assobiou baixinho e voltou a
encolher-se.
Rhodan
sorriu. Seus olhos já se haviam acostumado à escuridão. Percebia
todos os detalhes. Os controles do aparelho de tele-direção emitiam
um brilho suave. Lá estava ele com seu grupo, num planeta estranho e
em meio a uma verdadeira malta de habitantes hostis, praticamente sem
armas e contando apenas com a nave de luxo submersa.
Mas
possuía aliados cujo valor excedia qualquer arma. Podia contar com
Gucky, o mutante de três dons, e Marshall, o telepata, seu grande
amigo. Quanto a Laury... bem, no momento não poderia contar muito
com ela, mas afinal ela lhe conseguira o soro. E ainda havia o conde
Rodrigo de Berceo, um homem muito hábil no manejo da espada.
Sem
fazer o menor ruído, o iate de luxo desceu sobre a folhagem e pousou
suavemente na pequena clareira.
Rhodan
aguçou o ouvido para todos os lados e procurou estabelecer contato
com qualquer cérebro que se achasse nas proximidades. Mas, por mais
que se esforçasse, não encontrou nada. Ninguém percebera o
fenômeno.
Deixou
que seus companheiros dormissem e dirigiu-se à pequena nave que,
naquela clareira, tinha o aspecto de uma gigantesca baleia. O
envoltório prateado reluzia sob a luz das estrelas distantes. Estava
molhado com a água do mar.
Rhodan
abriu a escotilha externa. Só após isso, foi acordar os amigos.
Menos
de cinco minutos depois, o planeta mergulhou no espaço e penetrou no
dia eterno do infinito. Tolimon transformou-se numa foice prateada.
Trulan era perfeitamente visível sob a forma de um diadema
cintilante cravado na face noturna do planeta. Ainda continuavam a
procurar o falso inspetor e seu estranho criado.
Rhodan
fixou os controles e virou-se.
— Rodrigo,
a esta hora o senhor não pode fazer nada. Laury lhe mostrará seu
camarote. Procure dormir. Não sabemos o que nos aguarda, e, por isso
mesmo, é preferível que o senhor esteja descansado. Laury também
pode ir para a cama.
Esperou
que os dois se afastassem, acompanhados por um sorriso de Gucky.
Marshall lançou um olhar indagador para Rhodan.
— E
nós?
— Quero
que fiquem aqui até que realizemos a primeira transição. Para isso
precisamos desenvolver a velocidade da luz, que só será atingida
dentro de dez minutos. Esses dez minutos representam a fase mais
crítica do empreendimento. Marshall, ocupe os controles do
desintegrador pesado e destrua qualquer atacante que se aproxime
demais. Desde logo lhe dou permissão para abrir fogo.
Marshall
confirmou com um gesto e dirigiu-se à cabine apertada do comando de
fogo. Gucky seguiu-o com um olhar pensativo.
— E
eu? — lamentou-se. — O que é que eu vou fazer?
— Deite
e aguarde. Observe as telas. Manipule os controles de radar. Vendo
qualquer nave se aproximar, avise-me. Como vê, há muita coisa a
fazer. Se não estou enganado, daqui a pouco vai acontecer muita
coisa.
Rhodan
não estava enganado.
Na
tela de radar, surgiu uma mancha verde e oval, que se aproximava
obliqua-mente à linha de sua trajetória. Os algarismos desfilavam
sobre os quadros luminosos retangulares, fornecendo indicações
sobre a distância, a velocidade e as dimensões do objeto.
Rhodan
parecia pensativo; fez “hum”
e disse:
— E
um cruzador pesado. Será preferível darmos o fora quanto antes. No
momento nossa velocidade é pouco inferior a 0,8 luz. Vai demorar
mais um pouco. Que pena!
— Marshall
pode dar cabo dele — resmungou Gucky.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Muitas
missões já falharam porque os homens que as executavam
superestimaram suas forças e habilidades. Não estou disposto a
assumir este risco. Não estamos em condições de enfrentar um
cruzador pesado. Teremos sorte se nosso campo repulsor agüentar,
isto é, se o cruzador não o estourar na primeira tentativa.
— Não
quero ser estourado. Afinal, não sou nenhuma bolha de sabão —
disse Gucky.
— Não
é mesmo — confirmou Rhodan com o rosto mais sério do mundo.
Examinou os controles. — A velocidade é de 0,89 luz. Daqui a pouco
estará na hora — pegou o microfone do intercomunicador. —
Marshall, espere até que o inimigo abra fogo. Quando isso acontecer,
responda imediatamente.
— Combinado,
chefe — respondeu Marshall tranqüilamente.
A
nave também se tornou perceptível nas telas visuais. Era um dos
veículos esféricos de duzentos metros de diâmetro que Rhodan
incluíra nas unidades da classe Terra.
Rhodan
não tinha o menor interesse em destruir uma nave do Império
Arcônida, que já fora seu aliado e provavelmente voltaria a sê-lo.
0,94
da velocidade da luz. Faltavam poucos segundos.
Gucky
já ligara o receptor. Girou os controles. Subitamente uma voz
potente abafou todos os ruídos. Estava sendo transmitida em todas as
faixas e era evidente que vinha da outra nave, que descrevia uma
curva para adaptar sua rota à do iate.
O
cruzador pesado e a Koos-Nor atravessavam o espaço lado a lado. De
ambos os lados, as peças de artilharia estavam em posição de
disparo, mas o gigante espacial ainda hesitava em partir para o
ataque.
A
voz tornou-se mais nítida.
— ...em
nome do Império intimamos o senhor a fazer cessar imediatamente a
aceleração. Renda-se, pois do contrário abriremos fogo. O regente
do Império quer falar com o senhor. Responda!
Rhodan
fez um sinal para Gucky. O rato-castor confirmou com um gesto e ligou
o transmissor para a faixa adequada.
Então
o cérebro robotizado de Árcon estava interessado em conhecer o
arcônida que se atrevera a desempenhar o papel de inspetor. Rhodan
sorriu, pois compreendia as razões que animavam a lógica do robô
positrônico que controlava um império estelar. Para dar conta da
tarefa quase impossível, a máquina precisava de recursos humanos,
especialmente da iniciativa humana. Um arcônida que conseguisse
enganar todo um mundo para passar por inspetor também seria capaz de
executar tarefas positivas.
Por
isso, o cérebro robotizado dera ordem para que o malfeitor não
fosse morto. Rhodan poderia ficar tranqüilo. Em hipótese alguma o
cruzador pesado abriria fogo.
Assim,
sentiu-se bem mais calmo quando falou ao microfone:
— Mensagem
entendida. Quem é o senhor?
Fazia
questão de ganhar tempo. No momento em que penetrasse no
hiperespaço, estaria irremediavelmente fora do alcance de seus
perseguidores. O compensador já havia sido ligado. Ninguém notaria
o menor abalo do complexo espaço-temporal, portanto não seria
possível localizá-los. O iate de luxo desapareceria nas profundezas
do espaço intergaláctico sem deixar o menor vestígio.
— Aqui
fala RO-867, representante do regente. Renda-se!
Então
era um robô! O cruzador pesado estava sendo dirigido por um robô de
combate dos arcônidas. Isso tornava a situação muito mais fácil,
pois um robô em hipótese alguma poderia afastar-se das diretivas
fornecidas pelo regente. No homem, sempre havia o elemento da
capacidade de decisão, que poderia proporcionar surpresas. Com um
robô, as coisas eram diferentes. Depois de ter reconhecido os
motivos que animavam o regente robotizado, Rhodan percebeu que sua
vida não corria o menor perigo. O robô recebera instruções para
capturá-lo vivo, e ele se ateria rigidamente a essas instruções,
mesmo que dessa forma a presa lhe escapasse.
— Preciso
ter certeza de que o senhor não está blefando, RO-867. Forneça sua
sigla de identificação.
O
estratagema não era muito convincente, pois o velocímetro já
indicava 0,98 luz. Faltavam apenas dez segundos.
— Dou-lhe
mais cinco segundos — disse o alto-falante.
No
mesmo instante, vários relampejos surgiram na zona equatorial da
outra nave.
Os
feixes de raios ofuscantes cruzaram a trajetória da Koos-Nor, mas
não produziram o menor efeito. Rhodan já não tinha tanta certeza:
não sabia se aquilo eram disparos de advertência, ou se era um fogo
mal dirigido.
Colocou
a mão sobre a chave do dispositivo de hipersalto.
Faltavam
dois segundos. Executariam um salto às cegas para outra dimensão.
Voltariam a materializar-se em algum lugar, num raio de cem a
duzentos anos-luz.
— É
tarde, RO-867! — disse com a voz tranqüila e puxou a chave.
O
gigantesco veículo esférico desapareceu. No mesmo segundo, o lugar
em que se encontrava foi ocupado por estranhas constelações, que
antes não se encontravam lá.
Rhodan
examinou uma escala.
— Cento
e vinte e três anos-luz — murmurou. — Conseguimos.
Gucky
escorregou do sofá para o chão. Estava radiante.
— Pois
vamos para a Terra, chefe. Tenho que resolver um assunto com Bell.
Foi por causa dele que em Vênus alguns colonos miseráveis...
— Por
enquanto nem pense na Terra — disse Rhodan, sacudindo a cabeça. —
Temos que esperar mais um pouco. Você sabe o que aconteceu nos
últimos seis decênios? Quem sabe se não estão em condições de
determinar a localização dos saltos, mesmo que o compensador esteja
ligado? Pois então! Se isso acontecesse, eles nos seguiriam e
encontrariam a Terra. Vamos passar algumas semanas no espaço.
Andaremos por aí e procuraremos um planeta isolado. De lá ficaremos
captando os sons do Universo e esperaremos até que a situação
fique mais tranqüila. O procedimento que adotamos em Tolimon deve
despertar algumas lembranças nos bancos de dados do regente
robotizado. Mais dia menos dia, o cérebro se lembrará de Rhodan.
— Um
mundo isolado? — Gucky contorceu a boca e fez desaparecer o dente
roedor. — Onde será isso?
— Em
qualquer lugar — disse Rhodan e partiu para a segunda transição.
*
* *
Depois
de quatro transições executadas a esmo, a Koos-Nor materializou-se
diante de um estranho sistema solar.
Uma
gigantesca estrela vermelha estava acompanhada de um anão azulado
que possuía um planeta próprio. A estrela principal tinha dois.
Um
sistema solar geminado, cujos sóis só distavam poucos minutos-luz
um do outro.
O
receptor de rádio permaneceu mudo. Era quase certo que nessa parte
do Universo não havia seres inteligentes. Por isso, era de supor que
os três planetas não fossem habitados. Por enquanto não se poderia
saber se o ser humano poderia sobreviver em algum deles.
Gucky
lançou um olhar desconfiado para os dois sóis.
Rhodan
leu seus pensamentos. Um sorriso amargo esboçou-se em seu rosto.
— É
isso mesmo, Gucky! Se qualquer desses planetas tiver um ambiente
apropriado, passaremos por aqui nossas férias. Ninguém nos
procurará nesta área. Assim que o ambiente estiver mais tranqüilo
na Via Láctea, rastejaremos de volta à Terra.
O
rosto de Gucky era um modelo de decepção.
— Férias?
Lá embaixo não deve haver cinema, nenhum Bell para chatear, nenhuma
moça...
— Não
diga tolices! — Rhodan parecia contrariado. Ligou o aparelho de
análises espectrais para examinar os três planetas. — Acorde o
pessoal.
Gucky
arrastou-se em direção à porta, olhou para o relógio e virou-se.
— Por
que vamos acordá-los? Nem tiveram tempo para dormir. Ao menos, Laury
e o titio espadachim não tiveram.
Rhodan
levantou a cabeça e lançou um olhar prolongado para o rato-castor.
— Bloqueie
sua mente quando quiser pensar uma coisa dessas, Gucky — disse em
tom sério. — Laury é uma moça decente e o conde também...
— Sim
— disse Gucky e teve a cautela de ir até a porta, abri-la e sair
ao corredor antes de prosseguir. — É uma moça decente, mas também
é uma moça apaixonada.
Depois
de dizer estas palavras, desapareceu.
Rhodan
olhou para a porta fechada e aguardou pacientemente os resultados das
análises espectrais automáticas dos três planetas.
Quando
Marshall entrou na sala de comando, ainda sonolento, a decisão já
havia sido tomada.
A
Koos-Nor deslocava-se à velocidade da luz em direção ao planeta
solitário do sol azul.
— Gucky
falou em férias — disse Marshall. — Será que o senhor estava
falando sério?
— É
mais ou menos isso, John. Serão férias pagas. Ainda não sabemos
quem vai pagar a conta. Faço votos de que não seja eu.
A
porta voltou a abrir-se. Gucky entrou, segurando cautelosamente a
espada do conde. Saltou para o sofá e colocou a arma assassina ao
seu lado.
— Atirou-a
contra mim — murmurou com a voz preocupada. — Este conde é um
homem muito esquentado. Afinal, eu não poderia saber...
— Você
não é telepata? — disse Rhodan com uma recriminação bem
perceptível na voz.
Marshall
disse em tom sarcástico:
— Seu
invejoso de uma figa!
— Hum
— chilreou Gucky e passou a dedicar um interesse surpreendente ao
planeta que se aproximava.
*
* *
*
*
*
O
acaso pode estragar o melhor dos planos.
Foi
o que aconteceu em Tolimon, um dos mundos dos aras, onde Perry
Rhodan, o pretenso inspetor de Árcon, subitamente se confronta com
um fato novo: a existência do inspetor verdadeiro. Perry Rhodan e
seus companheiros conseguiram deixar o perigoso planeta. Acontece que
o mundo em que foram abrigar-se não é menos perigoso que este. Em
Os
Condenados de Isan, Perry
volta a correr novos riscos.

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