domingo, 24 de março de 2013

P-061 - O Robô Espião - Clark Darlton [parte 3]

Outro médico, que estava remexendo um armário, virou-se rapidamente e não compreendeu por que o chefe se assustara tanto. Acreditava que Gucky e Muzel tivessem entrado pela porta.
Não invoque o nome de Deus em vão — disse o rato-castor e apontou para Muzel.
O pobre do cachorro esbarrou na canela de um monstro e deve ter quebrado quase todos os ossos. Tem um pedaço de gaze?
Sköldson logo se recuperou do susto. Gostava muito de animais, e dedicava uma simpatia toda especial aos cachorros bassê. Assim que viu a ferida de Muzel, a compaixão instalou-se em sua mente.
Ora, meu pobre au-au — disse baixinho e abaixou-se, o que não foi nada fácil em virtude do volume de sua barriga. — Onde está o dodói? Será que o cãozinho não morde?
Gucky revirou os olhos e deixou-se cair sobre o traseiro.
Não sei como um homem maduro é capaz de fazer perguntas tão idiotas. Em vez de dizer tolices, seria preferível fazer alguma coisa pelo animal.
Sköldson lançou um olhar de desprezo para Gucky.
Será que você entende de terapêutica psicológica? — levantou-se e dirigiu-se a outro médico. — Behrends, traga as ataduras. Espero que seja um caso leve. Se houver fratura, tiraremos uma radiografia.
Felizmente isso não se tornou necessário. Depois de um exame superficial apurou-se se tratar de uma ferida pouco profunda, sem outras conseqüências. Apenas a pele fora arranhada. Dali a alguns minutos, Muzel saiu do posto médico, com um esparadrapo nas costas, e deixou que Gucky o levasse ao camarote partilhado pelos dois.
O incidente poderia ser esquecido.

* * *

Acontece que Atlan não era da mesma opinião.
Assim que Gucky e Muzel desapareceram, seu comportamento tranqüilo modificou-se por completo. Correu o mais depressa possível para o elevador antigravitacional e dirigiu-se à Divisão de Física, que estava estreitamente ligada ao Laboratório de Análises.
Quando Atlan entrou, o Major Hill lançou-lhe um olhar curioso. Assim que viu o sangue grudado à mão do arcônida, seus olhos arregalaram-se de susto. Levantou-se de um salto.
Meu Deus, Atlan, o senhor está ferido? Será que é grave?
Não acredito — disse o imortal para tranqüilizá-lo. — O que o senhor está vendo não é o meu sangue. Apenas vim para fazer-lhe um pedido. Queria que analisasse este material.
Material? Acreditei que fosse sangue...
Ao que parecia, Hill já não entendia mais nada.
Sim, realmente é sangue. De qualquer maneira, quero pedir-lhe o obséquio de realizar uma cuidadosa análise. Peça à sua divisão que faça o trabalho que teria de realizar se tivesse diante de si uma substância desconhecida, cuja composição deve ser determinada. Não vou responder às suas perguntas, a fim de não influenciar o resultado do trabalho. Peço-lhe que não leve a mal a atitude estranha que estou adotando; tenho motivos para agir assim. Garanto-lhe que estes motivos são de importância vital para todos nós. Posso contar com sua colaboração irrestrita?
O Major Hill confirmou com um gesto e passou a mão pelo jaleco.
É claro que farei o que o senhor está pedindo. Sei que isso corresponde às intenções de Rhodan. Será que ele está informado sobre isso? — apontou para a mão de Atlan. — O que gostaria de saber é se foi ele quem o mandou.
Atlan sacudiu a cabeça.
Não faça perguntas, Hill. Eu lhe peço!
Por um instante Hill deu a impressão de que alguém lhe derramara um balde de água sobre a cabeça, mas logo viu que seria inútil tentar fazer com que Atlan lhe prestasse qualquer informação. Pôs-se a trabalhar com a precisão de uma máquina. O sangue foi removido cuidadosamente da mão do arcônida e colocado em diversos recipientes.
Quanto tempo demorará? — perguntou Atlan.
No mínimo uma hora — respondeu Hill.
Avise-me assim que tenha o resultado. Poderá entrar em contato comigo pelo intercomunicador. Estarei no meu camarote ou no de Rhodan. Ou então na sala de comando. Muito obrigado, Major Hill. Mais uma vez lhe peço: esforce-se ao máximo. O assunto é extremamente importante.
Hill confirmou com um gesto.
Atlan colocou-se sobre a fita transportadora e por coincidência encontrou-se com Rhodan, antes que tivesse tempo para bater à porta de seu camarote.
Olá, bárbaro! Deu para fazer passeios a pé?
Fui ao camarote de Gucky — respondeu Rhodan em tom pensativo. — Não o encontrei.
Atlan aguçou o ouvido.
Quando foi isso?
Há quinze minutos, mais ou menos. Por quê?
Atlan sorriu e relatou o incidente. Não ocultou o fato de que se dirigira ao Major Hill e lhe pedira que realizasse uma cuidadosa análise. Rhodan fitou-o por algum tempo e disse:
Gostaria de fazer-lhe algumas perguntas, Atlan. Poderíamos ir ao meu camarote?
Fica mais próximo que o meu — respondeu o imortal.
Depois de terem fechado a porta, e quando já estavam acomodados nas macias poltronas, Rhodan deu início à palestra, mostrando logo o que mais o interessava:
Você suspeita de Muzel, Atlan?
O arcônida fez que sim.
Suspeito — confessou de pronto. — Continuo a acreditar que o espião é ele. Ninguém consegue ler os pensamentos de Muzel.
Gucky consegue!
Ainda não descobri como fazem para enganar o rato-castor. Nenhum robô consegue irradiar os impulsos mentais de um ser orgânico. Se Muzel fosse um robô, devia ter sido construído segundo princípios inteiramente novos, que tornam impossível a descoberta do fato. Talvez o sangue possa esclarecer alguma coisa.
De qualquer maneira, seria de admirar que sangrasse — objetou Rhodan.
Depois de uma ligeira pausa, Atlan disse:
Já tive oportunidade de conhecer os possoncais. Há dez mil anos já se contavam entre os animais domésticos mais apreciados pelos velhos arcônidas. Foram levados até mesmo nas expedições colonizadoras. Costumavam pegar insetos, ajudavam na caça e eram muito dóceis. Talvez Muzel tenha sido adestrado.
Rhodan sorriu.
Quer dizer que naquela época você os levou à Atlântida? Será que isso confirma a afirmativa que muitos criadores de cachorros fazem a título de gracejo, que o bassê não é um verdadeiro cachorro?
Atlan fitou o amigo com uma expressão de perplexidade.
Existem seres humanos que afirmam isso?
Há — confirmou Rhodan. — E a explicação não é difícil. O bassê é uma criatura obstinada, que tende a levar uma vida psíquica bastante individualista. Fazem exatamente aquilo que ninguém pede que façam. Existem muitas piadas ligadas a essa peculiaridade da raça bassê, mas até hoje ninguém teve a idéia de estabelecer qualquer ligação entre a mesma e uma eventual colonização vinda do espaço. E essa explicação é bastante plausível.
Vejamos o exemplo do gato. Está provado que é o único ser terrano capaz de executar movimentos perfeitos num estado de ausência de gravidade. Se atirarmos um gato para o alto, ele girará o corpo e estenderá as pernas em direção ao solo no momento exato em que vence a ação da gravidade. Para mim isso constitui uma prova de que o gato conhece a ausência da gravidade ou guarda uma lembrança desse estado. Quanto ao bassê...”
Em nossas naves sempre existiram campos antigravitacionais...
Isso mesmo! — confirmou Rhodan. — Era o que eu pretendia dizer. O possoncal não está acostumado ao estado de ausência de gravidade. Tal qual o bassê. O que eu pretendia dizer é que naquele tempo alguns dos seus queridos possoncais fugiram e adquiriram sua independência. O resultado disso é a alma ao mesmo tempo encantadora e misteriosa do bassê, sobre a qual muita gente já quebrou a cabeça em vão.
Essas teorias são um tanto arriscadas, mas não podem ser desprezadas — admitiu Atlan. — Pois bem. Você conhece a raça bassê. Acredita que um desses animais poderia apostar corrida com um galgo?
É claro que não.
Pois bem. Você deveria ter visto Muzel no convés C. Tive a impressão de que uma bala de canhão tivesse atingido minhas pernas, tamanha foi a velocidade desenvolvida por esse animal. Quase chegou a derrubar-me.
Foi? — perguntou Rhodan e estreitou os olhos.
Um possoncal sabe correr, mas não tão depressa como essa criatura.
Este fato não pode servir de prova contra ele — disse Rhodan, sacudindo a cabeça. — Se Gucky pudesse ouvir suas palavras, você teria problemas pela frente.
Aposto... — principiou Atlan, mas logo foi interrompido pelo zumbido do intercomunicador.
Rhodan levantou-se e estabeleceu o contato. O rosto do Major Hill surgiu na tela. Ao que parecia, não estava vendo Atlan.
Desculpe, pensei que Atlan estivesse aí.
Pois ele está aqui. Quer falar com ele?
Gostaria — aguardou até que reconhecesse o rosto de Atlan, que logo se levantara e se colocara à frente da pequena câmera. — Concluímos a análise. O resultado...
Qual é o resultado? — interrompeu Atlan em tom ansioso. — O que vem a ser esse líquido vermelho que se parece com sangue?
A expressão do rosto do Major Hill não se modificou.
O líquido vermelho é sangue, sangue como qualquer outro.
5



Depois de longa permanência na sala de comando Rhodan voltou a seu camarote. No instante em que entrou, sentiu o cheiro estranho que se espalhava pelo recinto. Ficou tentando localizar a fonte do odor, mas não conseguiu. Depois de dez minutos de procura teve a impressão de que o cheiro diminuíra, e dali a mais alguns minutos não o sentiu mais.
Esqueceu-se do incidente, se é que era disso que se tratava.
Uma coisa era certa: Atlan se enganara. Tudo estava em ordem com Muzel. Pelo menos não era nenhum robô. Uma máquina não sangra nem sente dor.
Dirigiu-se ao intercomunicador e chamou a sala de comando. Bell respondeu.
Diga a Sikermann que prepare a próxima transição, ainda em direção ao centro da Via Láctea. Deverá ser realizada dentro de uma hora.
Perfeitamente, Perry. Alguma novidade?
Nada. As medidas de precaução continuam em vigor. Viu Gucky?
Não; não está aqui. Por quê?
Estou à procura dele. Talvez esteja no camarote. Daqui a trinta minutos estarei aí na sala de comando.
Enquanto isso mandarei realizar os cálculos de transição. Tomara que as “pílulas” do espião cósmico acabem logo.
Rhodan desligou o intercomunicador e pôs-se a caminho.
Desta vez encontrou Gucky em seu camarote. Muzel também se achava lá. O bassê estava agachado num canto do sofá. Ao que parecia, não se sentia muito bem. Havia uma expressão de tristeza em seus olhos dourados. Olhou Rhodan com uma expressão que quase chegava a ser de súplica.
Muzel sente dores — disse Gucky a título de cumprimento. — Esse Atlan com os ossos de ferro...
O que é que Muzel foi fazer no convés C? — disse Rhodan, levantando o dedo num gesto ameaçador. — Se quiserem brincar, fiquem pelos hangares. Por lá há espaço que chega.
De repente parou de falar. Sentiu o mesmo cheiro que pouco antes invadira seu camarote. Era um cheiro mau e esquisito, que pensara ter esquecido.
Que cheiro é este, Gucky?
O rato-castor farejou fortemente.
Não sinto nenhum cheiro. Quem sabe se Bell...
Bell não fez coisa alguma — disse Rhodan em tom furioso. — Aqui fede, e no meu camarote também fedia. É estranho.
Passou os olhos pelas paredes e pousou-os sobre os insufladores. Sem dizer uma palavra subiu numa cadeira. Colocou o nariz na corrente de ar que penetrava no camarote e aspirou.
Não havia a menor dúvida.
O cheiro estranho vinha dali.
Até parece que alguém jogou lixo no poço de ventilação — disse enquanto descia da cadeira. — Acho que a equipe da limpeza terá o que fazer. Gostaria de saber quem foi o porcalhão.
Não fui eu! — protestou Gucky. Rhodan olhou-o.
Alguém disse que foi?
Saiu sem dizer uma única palavra; até parecia que se esquecera por que viera. Uma vez na sala de comando, mandou que os poços de ventilação fossem examinados e limpos. Indicou o setor.
Quando o serviço estiver concluído, quero receber informações precisas.
Bell estava sentado perto de Sikermann, que se ocupava com os cálculos.
Do insuflador está saindo mau cheiro? — perguntou com um sorriso. — E logo no camarote de Gucky? Quem sabe se esse “sujeitinho”...
Nada disso! — respondeu Rhodan em tom áspero. — Ele não fez nada disso. Aliás, manifestou a mesma suspeita tola em relação a você. Vamos aguardar.
Bell empalideceu.
Que sem-vergonha! Como se atreve a acusar-me dessa forma? Eu lhe mostrarei uma coisa.
Cuidado, que ele o fará voar.
Bell calou-se; parecia assustado.
Os computadores zumbiam e atiravam os resultados dos cálculos sobre a mesa, à frente de Sikermann. A transição era iminente, mas isso em nada. afetava a vida da nave.
Mais uma vez Farrington estava a postos com seu grupo de busca. Os receptores goniométricos, distribuídos pelos lugares mais diversos, foram ligados. Era perfeitamente possível que desta vez o transmissor entrasse em funcionamento mais cedo.
Dez minutos antes da transição, a Seção Técnica chamou.
Localizamos a causa do fedor.
O que foi?
Lixo.
Que tipo de lixo? Latas de conserva ou cascas de batata?
Ainda não verificamos este ponto. Este material tem uma aparência um tanto indefinida e exala um fedor terrível. Um cadete já sentiu náuseas.
Pegue uma amostra e mande examiná-la. Precisamos descobrir quem anda jogando lixo nos poços de ventilação. Tem alguma idéia sobre o lugar de onde poderia ter sido atirado aquilo?
Na minha opinião não foi atirado. Estava no local, como se alguém o houvesse colocado cuidadosamente.
Rhodan ficou tão perplexo que apenas conseguiu transmitir esta ordem:
Está bem. Mande realizar o exame. Peça ao Major Hill que me informe assim que tenha o resultado — desligou e viu o olhar sorridente de Bell pousado sobre seu rosto. — Qual é o motivo do riso?
Hill não ficará nada satisfeito. Teve de analisar poeira, e agora lhe entregam um lixo fedorento.
Rhodan fez um gesto de pouco caso.
Um analista está acostumado a lidar com coisas desagradáveis — disse em tom tranqüilo.
O momento da transição se aproximava. Faltavam apenas alguns minutos. O intercomunicador voltou a emitir um zumbido. Era o Major Hill.
Caramba! Já terminou?
Hill fez um gesto afirmativo e pôs a mão no nariz. Em seu rosto havia uma expressão de censura.
Isso é coisa do diabo — disse. — A matéria fundamental é simples: carne e cenouras. Mas...
Cenouras? — interrompeu Rhodan. — Continue.
O mingau foi misturado com um tipo de fermento — disse Hill. — Ao que parece, a finalidade deste consiste em apressar a putrefação e a decomposição do material. É esta a causa do cheiro infernal, que infelizmente está enchendo todo o laboratório. Mas o mais estranho é que o fermento é desconhecido à química terrana. Não concluí sua análise, e ainda não posso dar sua fórmula estrutural. Mas não há a menor dúvida de que se trata de uma substância estranha.
Rhodan acenou tranqüilamente com a cabeça.
Então não se pode extrair uma conclusão segura — disse. — A bordo da nave existem vários seres que não nasceram na Terra. É possível que alguns produzam o fermento de forma inteiramente natural.
Pode ser — admitiu o Major Hill.
Rhodan sorriu.
Prossiga no exame do fermento — recomendou. — Quem sabe se não acaba fazendo uma descoberta monumental. Muito obrigado.
A tela apagou-se. Rhodan apoiou a cabeça na mão direita. Seu olhar passou por Atlan e dirigiu-se ao espaço.
Cenouras... — murmurou.
Posso refrescar sua memória? — perguntou Atlan de repente. — As comidas prediletas daquele lindo rato-castor não são cenouras e rabanetes?
Rhodan ergueu a cabeça; parecia surpreso.
É isso mesmo! Agora me lembro que o pessoal da cozinha foi instruído a manter uma provisão de alimento fresco sempre que Gucky se encontre a bordo.
Pois então! Qual é a conclusão que você tira disso?
Rhodan estreitou os olhos e piscou-os ligeiramente. Ao que parecia, não estava falando sério quando respondeu:
É simples. Gucky devorou uma ração excessiva de cenouras. Teve uma indigestão e, como é uma criatura extremamente sensível, dirigiu-se ao poço de ventilação e lá despejou o conteúdo de seu estômago. A conclusão não é correta?
Atlan soltou uma gostosa gargalhada.
Isso mesmo. Acertou em cheio.
Rhodan virou-se e pegou o microfone. No momento em que transmitiu a mensagem que seria ouvida em todos os compartimentos da nave, sua voz não parecia muito alegre.
Um monte de lixo foi encontrado no interior das instalações de ventilação. É possível que uma pessoa não identificada tenha depositado lixo em outra parte. É claro que isso é anti-higiênico, além de representar um perigo para o equipamento de ventilação. Por isso peço-lhes que avisem a sala de comando assim que sintam um cheiro estranho. Desligo.
Atlan lançou-lhe um olhar de censura.
Se isso tem algo a ver com o espião desconhecido, você acaba de preveni-lo — disse.
Rhodan soltou uma risada.
Sua fantasia anda descontrolada. O que é que um espião poderia fazer com um montão de restos de cenouras?
O rosto de Atlan continuou impassível. Lançou um demorado olhar para Rhodan. Finalmente disse:
Eu pagaria qualquer coisa para saber o que você está pensando neste momento.
6



A transição foi realizada conforme se planejara. Cinco minutos depois foi localizado o sinal goniométrico já conhecido. E o minúsculo transmissor era perfeitamente igual aos que haviam sido descobertos antes.
Rhodan não se surpreendeu com o fato.
Talvez seria possível surpreender o espião. Ordenou a Sikermann e Bell que preparassem outra transição na mesma direção, para daqui a duas horas.
Depois levantou-se e saiu, sem dar maiores explicações.
Nos amplos corredores da Drusus reinava o silêncio. Os tripulantes se encontravam nas posições de combate. Ninguém saía do lugar, a não ser que recebesse ordens específicas para isso.
O único ruído era o zumbido das fitas rolantes, que deslizavam incessantemente.
Rhodan marcara a nova transição para as 23:30 h. Até lá teria tempo de sobra para conversar com Gucky sobre o assunto ligado às cenouras.
Preferiu procurá-lo em vez de pedir seu comparecimento à sala de comando. Precisava de um pouco de exercício. Mas não pôde deixar de confessar que se deixara seduzir pela esperança pouco realista de, por algum acaso, encontrar o espião pelo caminho.
Não usou a fita rolante. Caminhando junto à parede, mantinha-se pensativo, com a cabeça abaixada.
O espião começava a enervá-lo, ainda mais que não queria que seus subordinados percebessem o que ia pela sua mente. A pior coisa que pode existir numa nave em perigo é um comandante nervoso, rezava um dos princípios ensinados na Academia de Terrânia. E na opinião de Rhodan, o mestre que o havia formulado era um homem muito inteligente.
Está bem”, pensou, “mas o que adianta tudo isso? Quer estivesse nervoso, quer não estivesse, depois de cada transição o espião transmitiria uma mensagem goniométrica. Estamos puxando a corda com igual força de ambos os lados e não vamos para trás nem para frente. Quanto tempo iria demorar isso? Não temos mais tempo a perder.”
Mergulhado em pensamentos, passou pela escotilha larga dos registros positrônicos. Quando tinha dado mais alguns passos, acreditou ter ouvido alguma coisa.
Parou e olhou para trás.
Não viu nada.
Quem pintou o diabo... — murmurou. — Não devia ter pensado nos meus nervos.
De qualquer maneira, voltou até a escotilha e abriu-a. Entrou e olhou em torno.
Os aparelhos de memorização, dispostos em ferradura, tinham o aspecto de armários. Havia canais invisíveis que os ligavam ao computador positrônico da nave e, a qualquer indagação, forneciam as informações de que um astronauta pudesse precisar para a fixação da rota, para a determinação da posição ou para quaisquer outros fins.
As informações estavam armazenadas nos diversos anexos, em ordem de importância. Aquelas que estavam ao alcance de todos — e que geralmente eram as que, em caso de emergência, teriam de ser fornecidas com a maior rapidez — achavam-se codificadas segundo o sistema transfor. Tratava-se de um sistema mais simples de codificação. As que eram solicitadas com menor freqüência, ou não poderiam ser colocadas ao alcance de qualquer um, estavam concebidas em Sira III ou Hangol. Uma terceira série de informações, as mais confidenciais, estava armazenada no agregado que se situava no centro da ferradura sob o código complicadíssimo e praticamente indecifrável de Fermat.
Estas idéias passaram-lhe ligeiras pela cabeça, antes que visse a luz vermelha de advertência, que se acendera na placa frontal do anexo das informações em Fermat.
Deu alguns passos e leu as letras luminosas: DEFEITO.
O resto foi feito instantaneamente, sem pensar e em gestos automáticos. Bateu com o punho fechado sobre o botão de alarma embutido na parede junto à escotilha. Respirou aliviado quando o som agudo das sereias encheu os corredores.
Dali a alguns segundos, a voz exaltada de Bell saiu dos alto-falantes espalhados por toda parte:
Alarma no centro de memorização do convés C! Capitão Farrington, verifique o que está acontecendo.
Rhodan ficou parado junto à escotilha. O uivo das sereias cessou de repente. Dali a alguns segundos os homens de Farrington, com este na frente, apareceram na curva que o corredor descrevia na junção entre a primeira e a segunda seção.
Enquanto corria, Farrington fez continência.
Bloqueie o centro de memorização, capitão! — ordenou Rhodan. — Ninguém deverá entrar ou sair.
Olhou para o relógio. Eram 22 horas e 35 minutos.
Farrington postou seus homens nos pontos estratégicos. Tinha uma pergunta na ponta da língua: devia ou não mandar trazer os aspiradores de pó. Mas naquele momento Rhodan voltou a falar:
Enviarei alguns matemáticos, que examinarão o conjunto defeituoso. É claro que estes poderão entrar. Entendido?
Lançou mais um olhar para o relógio. Estava prestes a retirar-se, quando se lembrou de outra coisa.
Quanto tempo levou para chegar aqui, Farrington? — perguntou. — Mais precisamente, quanto tempo se passou entre o momento em que ouviu a ordem de Bell e o momento de sua chegada?
No máximo noventa segundos — respondeu Farrington. — O alarma soou às 22:33 h, e quase no mesmo instante ouvimos a ordem de Bell.
Rhodan agradeceu e foi embora.

* * *

O relatório dos matemáticos trouxe notícias desastrosas.
Perry Rhodan convocou à sala de comando todos os oficiais superiores.
Encontramo-nos na iminência de uma catástrofe — disse sem qualquer intróito. — As esperanças de que possamos evitá-la são bastante reduzidas. O espião desconhecido conseguiu retirar do centro de memorização os dados relativos à posição da Terra.
Fez uma ligeira pausa, a fim de estudar os efeitos que suas palavras produziam nos ouvintes. Viu que os rostos se tornavam sombrios. Uma expressão de pavor surgiu nos olhos desses homens, mas logo desapareceu.
Eles não se deixavam intimidar por qualquer coisa.
Devemos contar com a possibilidade de que o segredo que guardávamos com tamanho cuidado não demore a chegar ao conhecimento do chefe do espião, que provavelmente não é outro senão o computador-regente. Permitam que lhes exponha mais alguns detalhes.
Conforme sabem, o desconhecido já obteve do computador positrônico os princípios dos sistemas terranos de codificação. Por isso dispõe dos instrumentos que lhe permitem decifrar qualquer código, mesmo modificado. Quando a modificação é ligeira, a decifração é rápida, quando complicada, será mais lenta.
A posição galáctica da Terra foi armazenada no conjunto Fermat, vale dizer, segundo a variante de código mais complicada que possuímos. O espião levará algumas horas — segundo nossos cálculos umas quatro ou cinco — para decodificar os dados até um ponto em que possa irradiá-los. É o tempo de que dispomos para evitar a catástrofe.
Os senhores hão de compreender que não podemos contar com um êxito seguro. Sob a chefia de Bell e com o auxílio do computador positrônico, alguns dos senhores procurarão fixar as normas de conduta a serem adotadas caso não conseguirmos impedir a revelação da posição de nosso planeta. A partir deste momento, todas as concessões para a utilização da máquina estão canceladas.
Devem partir do pressuposto de que o computador-regente de Árcon não continuará a ser nosso aliado quando descobrir a posição galáctica de nosso mundo. É bem verdade que colocou à nossa disposição a maior parte de sua frota de guerra, para que combatêssemos o inimigo desconhecido, mas é de se supor que essa ordem poderá ser revogada imediatamente.
Portanto, elaborem um plano que preveja a hostilidade do regente; e elaborem-no de tal maneira que, apesar de toda essa confusão, ainda nos reste uma chance.”
Bell escolheu os homens de sua equipe, quinze ao todo. Entre eles havia sete matemáticos, cinco oficiais saídos da Academia, que seguiam a carreira político-governamental, e três técnicos muito familiarizados com a máquina positrônica.
O grupo de Bell retirou-se imediatamente da sala de comando, a fim de iniciar seu trabalho. Os outros oficiais voltaram aos seus postos. Poucas pessoas permaneceram na sala de comando.
Não se pretendia pôr a nave em movimento antes que passasse o tempo de que o espião precisaria para concluir seu trabalho, ou antes que conseguissem prendê-lo.
Atlan, o arcônida, foi o único que não tinha nada a fazer.
Você não admite a possibilidade de o espião irradiar os dados sobre a posição da Terra, tal qual os recebeu, juntamente com o princípio de codificação que já havia extraído do computador? — perguntou, dirigindo-se a Rhodan. — Nesse caso o destinatário da mensagem poderia quebrar a cabeça para decifrá-la.
Rhodan sacudiu a cabeça.
Não acho provável — respondeu. — Se ele possuir um hipertransmissor de maior potência que esses pequenos aparelhos que emitem sinais goniométricos, e não podemos deixar de admitir que ele o possua, pois do contrário não saberia o que fazer com as informações obtidas, nesse caso será um dos pequenos aparelhos, que trabalham com um único código transmitindo a mensagem literal. Evidentemente esse transmissor deve ser um produto arcônida, que funciona com palavras arcônidas ou segundo um código de Árcon. Portanto, nem estará em condições de transmitir uma mensagem modificada de acordo com um código terrano. Além do transmissor precisará de um transformador de código, que lhe permita decifrar os dados e transformá-los segundo seu código. E isso exige tempo. Graças a Deus!
Levantou-se.
Caso não tenha nada a fazer — disse como que ao acaso — venha comigo. Irei ao centro de memorização. Ainda quero examinar alguma coisa por ali.
Quer brincar de detetive? — disse Atlan com um sorriso. — Está bem; irei com você.

* * *

O único acesso ao centro de memorização continuava guardado pelos homens de Farrington. Dois matemáticos enviados por Rhodan ainda estavam examinando o anexo defeituoso.
Já descobriu o defeito? — indagou Rhodan.
Sim senhor. Uma corrente de diodos...
Rhodan interrompeu-o com um gesto.
Receio que não entenderei muito desse tipo de explicação. Prefiro que me diga qual foi a causa do defeito.
A imperícia de quem usou o aparelho — respondeu prontamente o matemático. — O espião deve ser um principiante. Lidou com o anexo como se fosse uma calculadora manual. Provavelmente comprimiu todos os botões, a fim de obter as informações que desejava. Infelizmente, quando efetuou a ligação que produziu o defeito, já havia comprimido o botão correto, e a informação já estava a caminho no momento em que a máquina entrou em pane.
Rhodan acenou ligeiramente com a cabeça. Não se mostrou muito interessado; até parecia que não esperara outra coisa.
Quando surgiu o defeito?
Podemos dar esta informação com a precisão de um segundo — respondeu o matemático em tom orgulhoso. — O momento da pane foi registrado pela máquina: 22 horas, 30 minutos e 14 segundos, tempo de bordo.
Rhodan voltou a acenar com a cabeça. Desta vez parecia muito mais interessado. Chamou o arcônida para o lado.
Com isso surge um novo aspecto — disse. — O alarma foi dado às 22:33 h, quase três minutos depois do momento em que surgiu o defeito. Vim da sala de comando sem usar a fita transportadora, mas não andei devagar. Não poderia ter deixado de ver o espião, se ele tivesse saído pela escotilha.
É verdade? Será que seus cálculos são corretos? — perguntou Atlan.
São tão corretos que já tenho certeza de que no momento em que passei junto à escotilha, o desconhecido ainda se encontrava no interior do centro de memorização. Lembro-me de ter ouvido um ruído; pensei que fosse uma simples impressão, pois estava muito nervoso. Mas agora já tenho certeza de que vinha do anexo Fermat e foi emitido no momento em que surgiu o defeito.
Voltei até a escotilha depois de já ter caminhado um bom pedaço além da mesma. Devo ter refletido por algum tempo se valia a pena dar uma espiada. Finalmente abri a escotilha e dei uma olhada pela sala. Descobri a luz vermelha e aproximei-me para ler as letras luminosas. Depois disso dei o alarma.
Esta hipótese está em harmonia com a seqüência temporal. Conclui-se que o espião não saiu pela escotilha. Precisamos descobrir o buraco pelo qual saiu, uma vez que evidentemente não está mais no centro de memorização.”
Atlan não formulou qualquer objeção. A ironia havia desaparecido de seu rosto inteligente. A caça ao desconhecido começou a fasciná-lo.
Revistaram a sala. Bateram nas paredes, pois era perfeitamente possível que o espião tivesse criado uma saída por meio de um desintegrador e recolocado o revestimento.
Mandaram trazer sondas de ultra-som, a fim de não dependerem exclusivamente do método das batidas. Não encontraram nada.
Subitamente Rhodan teve uma idéia. Lembrou-se do mingau putrefato de cenouras, que as equipes de limpeza haviam encontrado nos poços de ventilação.
Examinou as quatro grades que fechavam as saídas de ar existentes nas paredes. Três delas estavam intactas. Ao que tudo indicava, não haviam sido tiradas do lugar desde o momento da construção.
Mas na quarta grade faltavam os parafusozinhos que a prendiam ao caixilho de plástico. Rhodan segurou a tela e puxou-a. A grade saiu com a maior facilidade.
Oh! — fez Atlan.
Rhodan deitou no chão e enfiou a mão direita na saída de ar. Sua mão chegou ao lugar em que essa saída desembocava no poço quase vertical. Mas não encontrou nada.
Levantou-se e lançou um olhar para o arcônida.
Será que o espião saiu por aí? — perguntou Atlan.
Rhodan fez que sim.
Com isso a coisa muda de figura, não muda? — indagou Atlan em voz baixa, mas profundamente impressionado.
Voltaram ao anexo Fermat, cuja placa frontal de revestimento estava sendo recolocada pelos matemáticos. A luz vermelha apagara-se; o defeito havia sido reparado.
O que é isso? — perguntou Rhodan de repente, apontando para um tracinho branco, que descia verticalmente pela placa, partindo da série de botões de solicitação e chegando quase ao terminal de saída.
O matemático examinou o risco.
É um arranhão — respondeu.
Rhodan já percebera isso.
Já o viu antes?
O matemático sacudiu a cabeça.
Não senhor.
É possível que tenha sido feito pelo espião, não é?
O matemático parecia embaraçado, porque Rhodan o envolvia nesse tipo de indagações. Acenou ligeiramente com a cabeça e disse em voz baixa:
Não há dúvida.
Nesse caso deveria ter usado ao menos uma faca de material bem duro — interveio Atlan. — Esta placa de revestimento é de metal plastificado. Como poderia ter sido arranhada?
O matemático não soube responder. Rhodan sorriu.
É simples — disse. — Tirou um canivete e arranhou a placa, para deixar um sinal. É o que costumam fazer muitos criminosos psicopatas da Terra. É uma mensagem que diz: “Estive aqui”.
Fitou Atlan. O arcônida riu.
É isso mesmo. Deve ter sido assim.
O matemático parecia perplexo. Olhou alternadamente para um e outro dos interlocutores, mas nenhum deles lhe deu uma explicação.
Rhodan e o arcônida retiraram-se do centro de memorização.
Já sabemos quem é — disse Atlan em tom alegre, enquanto subiam na fita rolante.
Acho que sim — respondeu Rhodan.
O que estamos esperando? Basta pormos a mão nele.
Rhodan fez um gesto negativo.
Não acredite que é tão simples assim. No princípio também tive muita certeza. O espião deveria pensar que ninguém suspeitaria dele. Mas neste meio tempo cometeu uma porção de erros. Tenho certeza de que não será fácil encontrá-lo.
Você acha que o rato-castor...
Rhodan levantou a cabeça, sorriu, e não lhe deu nenhuma resposta.

* * *

Ninguém sabia quando seria realizada a próxima transição. A que fora programada havia sido suspensa. Será que Rhodan queria fazer com que o espião se sentisse inseguro?
Bell caminhava em direção a seu camarote para descansar um pouco, quando teve uma idéia. Mudou de direção e caminhou aparentemente ao acaso, até que parou diante de uma porta. Entrou sem bater.
Gucky permaneceu sentado.
Quero ver quando você vai aprender a comportar-se como um cavalheiro — resmungou e lançou um olhar de desprezo para Bell. — Nunca ouviu dizer que se deve bater à porta antes de entrar?
Para quê? — perguntou Bell e franziu o nariz. Acrescentou em tom irônico: — Quem é você para ensinar-me boas maneiras? Aqui fede que nem um chiqueiro.
O rato-castor levantou-se devagar.
Escute aí, gorducho. Em primeiro lugar, aqui não está fedendo; e, se fedesse, você não teria nada com isso. Quem decide se fede ou não fede por aqui sou eu.
De acordo, baixote. Não tenho nada contra isso — olhou em torno. — Aliás, onde está seu amigo Muzel? Dizem que vocês são inseparáveis.
Está com ciúmes? — perguntou Gucky em tom exultante. — Será que também tem alguma coisa contra Muzel?
Tenho muita coisa contra ele — confirmou Bell e viu que o rato-castor já adivinhara seus pensamentos. — Não se pode confiar num bassê; todo mundo sabe disso. Se fosse você, não confiaria tanto nele e...
Espere aí, gorducho! Você é um invejoso. Eu me dou muito bem com Muzel, e não será você quem vai nos separar.
Nunca nos se-pa-ra-re-mos — ironizou Bell entoando em voz desafinada os acordes de uma canção da moda e sorriu. — Mas, para ser exato, o fedor que vinha do poço de ventilação era de cenouras. Não existe a menor dúvida. Então, o que me diz?
Ah? Foi de cenouras? Será que descobriram mais alguma coisa?
Oportunamente Rhodan lhe contará. No momento o ambiente anda bastante carregado na Drusus. O espião roubou as coordenadas da Terra do setor de memorização. Aliás, você ainda não respondeu à minha pergunta: Onde está Muzel?
Na cozinha. Estava com fome e quis andar um pouco. Por quê?
Apenas perguntei por perguntar. Então quis andar um pouco? Resolveu movimentar suas pernas tortas?
Gucky empertigou-se.
Não admito que você ofenda meus amigos. Você já se olhou no espelho de short?
Não... nunca — gaguejou Bell, que foi tomado de surpresa.
Pois olhe. Só assim descobrirá quem tem pernas tortas.
Sem dignar-se de lançar mais um olhar para Bell, o rato-castor saltou para o sofá, enrodilhou-se e fechou os olhos. Dali a alguns segundos, seus roncos davam notícia de que devia ter adormecido.
Bell caminhou em direção à porta.
Um dia essa sua arrogância ainda lhe custará muito caro. Você não perde por esperar. Ainda implorará para que eu brinque com você e lhe acaricie o pêlo. Quando isso acontecer, vou...
Não disse o que pretendia fazer. Retirou-se do camarote.
Foi à cozinha o mais depressa que pôde.
O cozinheiro-chefe aproximou-se e mostrou-se solícito em responder às perguntas do lugar-tenente de Rhodan. Sacudiu resolutamente a cabeça.
Não senhor. Deve haver algum engano. O tal do Muzel não veio buscar carne por aqui. Quem costuma fazer isso é Gucky. Sempre pede ração dupla — disse em tom enfático. — Aliás, faço questão de cumprir o regulamento que proíbe a entrada de animais na cozinha.
E faz muito bem! — disse Bell em tom de elogio e agradeceu.
Um tanto pensativo, dirigiu-se ao seu camarote para dormir um pouco.
Descobrira que não era tão fácil assim imitar o célebre Sherlock Holmes.

* * *

É possível — disse Atlan, dirigindo-se a Rhodan, quando ambos se encontravam na cúpula panorâmica da Drusus, rodeados pela visão majestosa do Universo. Escolheram esse lugar para que ninguém os perturbasse. — Evidentemente essa possibilidade também existe. E não podemos desprezar qualquer hipótese, seja ela qual for.
Rhodan confirmou com um gesto. Estava muito sério.
Pois bem. Vamos fixar alguns pontos. A ocorrência que se verificou no poço de ventilação não constitui nenhuma prova definitiva. Alguém, naturalmente o espião, está interessado em que as suspeitas recaiam em Gucky e Muzel. O arranhão feito com o canivete teve por fim chamar nossa atenção para as instalações de ventilação, e com isso para os menores passageiros da Drusus, que são Gucky e Muzel. Infelizmente ainda não tive oportunidade de ter uma entrevista com Gucky, para interrogá-lo a respeito desse mingau de cenouras. Tenho certeza de que o malfeitor é ele; apenas não quer confessar.
Hum — fez Atlan, abstendo-se de qualquer comentário.
Por alguns segundos Rhodan fitou o infinito. Em algum lugar, a mais de mil anos-luz de distância, a minúscula Terra percorria sua órbita. Por causa dela alguém — sem dúvida o robô-regente de Árcon — introduzira um espião habilíssimo na Drusus. Provavelmente tratava-se de um robô. Quando teria acontecido isso?
As estrelas não lhe deram nenhuma resposta. Mantinham-se no espaço, imóveis e sem qualquer cintilação; parecia que esperavam. Já estavam esperando há milhões de anos.
Esperando o quê? O fim?”, pensou Perry.
Atlan parecia adivinhar os pensamentos de Rhodan.
Esperam pelo começo — disse com o sorriso. — Quem vai esperar pelo fim?
Rhodan retribuiu o sorriso.
Quer saber uma coisa, arcônida? — perguntou, apontando com a mão direita para a profusão de estrelas. — Está vendo esses sóis que irradiam e mantêm seu calor, dando vida aos planetas?
Atlan acenou lentamente com a cabeça. Rhodan aproximou-se e cobriu seus olhos com a mão.
E agora? Ainda está vendo os sóis? Atlan esperou até que Rhodan retirasse a mão. Em seu rosto havia uma expressão de espanto. Sacudiu a cabeça.
É claro que não os vi. Qual é a finalidade da pergunta?
Pois é muito simples. Se realizarmos uma transição — admitamos que vamos saltar em direção à Terra — e mantivermos o espião de Árcon perto de nós, ele não poderá transmitir.
Os olhos infinitamente profundos de Atlan estreitaram-se.
Como pretende conseguir isso?
No momento do salto reunimos os suspeitos em torno de nós. O momento da transição não será anunciado antecipadamente, para que o mecanismo de relógio não possa ser ajustado. Se depois da transição a equipe de goniometria não captar qualquer sinal, teremos certeza de que o traidor se encontra perto de nós. Não poderá transmitir sem provocar suspeitas; mas, sem saber, ele as terá provocado. Então, o que acha?
Você deveria ser detetive, Rhodan. Concordo com você, mas acho preferível anunciar previamente a falsa transição. Quando pretende realizá-la?
Bem, ainda temos o problema dos dados roubados. Pretendia não realizar qualquer transição enquanto não tivéssemos pego o ladrão. Acho que será recomendável rever este ponto.
Atlan mudou de assunto.
O tratamento de Kulman já deu algum resultado?
Infelizmente não. Receio que ainda tenhamos de esperar bastante.
Quer saber o que aconteceu?
Rhodan fez que sim. Atlan inclinou a cabeça para trás, a fim de ver melhor as estrelas.
Pois bem. Exporei uma teoria e tenho certeza absoluta de que esta se aproxima bastante da verdade. Kulman descobriu uma coisa importante em Swoofon, e desencadeou o alarma geral. Só depois surgiu a intervenção dos elementos de Árcon. Uma nova memória foi introduzida em Kulman, e esta o fez esquecer o que realmente havia acontecido. Acreditou que sua substituição fosse um ato de rotina. Ao entrar na nave, trouxe o espião previamente preparado. Assim foi atingido o objetivo que o inimigo tinha em vista, e Kulman não poderia revelar mais nada sobre aquilo que havia descoberto.
Rhodan ouvira atentamente as palavras de Atlan.
Receio que tenha sido isso mesmo. Quer dizer que quando tivermos posto as mãos no espião, ainda teremos outro problema a resolver. Qual foi o motivo do alarma desencadeado por Kulman? O que foi que ele descobriu em Swoofon?
Um sorriso frio surgiu no rosto de Atlan.
Vamos por parte. Em primeiro lugar, realizaremos seu plano. Vamos tapar os olhos do espião, para que ele não possa ver as estrelas...
7



O setor de controle recebeu ordens para preparar a próxima transição. O hipersalto foi marcado para as 5 horas e 30 minutos, tempo de bordo. Atingiria uma distância de trezentos anos-luz, levando diretamente à Terra. Era ao menos o que foi anunciado através do sistema de intercomunicação de bordo.
Rosita Peres e Sköldson, o chefe da equipe médica, ficaram muito espantados quando Rhodan compareceu a sua seção e lhes disse que por ocasião da transição o paciente Kulman deveria permanecer na sala de comando da nave. Formularam algumas objeções, mas não havia o que demovesse Rhodan desse intento. Kulman viu-se livre de uma situação nada invejável e esboçou um sorriso de agradecimento. Estava plenamente convencido de que o trabalho dos médicos e psicólogos seria inútil. Em sua opinião, a idéia de que alguém poderia ter introduzido nele uma nova memória não passava de vaga especulação.
Atlan foi buscar Gucky e Muzel.
Ou melhor, tentou buscá-los, pois não conseguiu encontrar os dois amigos. Não houve outra alternativa senão anunciar pelo sistema de intercomunicação que Gucky e Muzel deveriam comparecer à sala de comando.
Os ponteiros do relógio continuaram a avançar.
Atlan não voltou à sala de comando, mas dirigiu-se ao Laboratório de Análises. Dali foi até ao setor em que eram tratados os doentes. Fez perguntas aparentemente desconexas, e depois subiu à fita rolante para ir à cozinha, onde conversou com o cozinheiro-chefe. Voltou ao camarote de Gucky, e ali permaneceu por dez minutos. Só depois compareceu à sala de comando, onde ocupou seu lugar sem dizer uma palavra.
Rhodan lançou-lhe um olhar indagador, mas não disse nada.
Os ponteiros marcavam 5 horas e 20 minutos.
Como sempre, Farrington se mantinha de prontidão com seu comando equipado com aspiradores de pó. Os rádio-goniômetros portáteis haviam sido distribuídos pelos lugares adequados. Kulman conversou em voz baixa com Bell, e perguntou logo a ele como andavam as coisas. As informações que recebeu não foram muito tranqüilizadoras.
Rhodan olhou para o relógio. No momento em que pretendia dirigir-se ao quadro de comando do intercomunicador, o ar começou a tremeluzir no centro da sala. Gucky materializou-se, juntamente com Muzel. O bassê pulou dos braços do rato-castor, olhou em torno muito espantado e por fim chorou baixinho e dirigiu-se a Kulman, que o cumprimentou com demonstrações efusivas de alegria.
Por que demoraram tanto? — perguntou Rhodan em tom áspero ao rato-castor. — Mandei anunciar...
Estávamos brincando — disse Gucky em tom ressentido e acomodou-se sobre o largo traseiro. Seus olhos castanhos o fitaram com uma expressão tão fiel que Rhodan teve de esforçar-se para não rir. — Muzel fez questão de caminhar mais um pouco pela nave, antes que regressássemos à Terra.
Atlan levantou a cabeça.
Ah! Quer dizer que Muzel só manifestou o desejo de brincar depois que havia sido transmitida a notícia de que iríamos para casa?
Gucky confirmou com um gesto; parecia espantado.
Antes do aviso estávamos dormindo. Tínhamos comido pouco antes.
Naturalmente comeram carne e cenouras?
Mais uma vez Gucky limitou-se a fazer um gesto afirmativo.
O relógio mostrava que faltavam cinco minutos para a transição.
Atlan caminhou a passos largos para um dos cantos da sala de comando e fez sinal para que Gucky se aproximasse. O rato-castor obedeceu. Longe do alcance do ouvido dos outros, o imortal cochichou algumas palavras para Gucky e envolveu seu próprio cérebro por uma barreira, para que ninguém pudesse ter qualquer idéia de seus pensamentos.
Gucky lançou um olhar ligeiro para Kulman, acenou lentamente com a cabeça e voltou ao seu lugar.
Faltava um minuto.
Naquele instante só quatro pessoas a bordo da Drusus sabiam que o salto não os levaria à Terra, mas apenas os faria percorrer mais alguns anos-luz em direção ao centro da Via Láctea. Essas quatro pessoas eram Rhodan, Atlan, Bell e Sikermann.
Cinco horas e trinta minutos!
O salto foi curto, mas ninguém deixou de sentir a dor provocada pela distorção, que não durou mais que três ou quatro segundos. Essa dor se manifestava numa contração acentuada dos nervos do rosto ou do corpo.
Atlan ficou com os olhos bem abertos e registrou um fato estranho, que parecia confirmar suas suspeitas. Kulman não percebeu nada. Continuava a acariciar seu possoncal, como se não houvesse outros problemas a bordo da Drusus. O cão parecia não sentir a dor causada pela transição.
Rhodan mantinha-se na expectativa. A qualquer momento, talvez, o transmissor de sinais goniométricos deveria entrar em ação desde que o espião ainda tivesse tido tempo para livrar-se do aparelho.
Gucky — perguntou Atlan, e até parecia que a pergunta tivesse sido combinada antecipadamente. — Por onde andou com Muzel antes de vir para cá?
Nos hangares. Mais precisamente, no hangar K-37.
Atlan limitou-se a acenar com a cabeça.
De repente Gucky caminhou decididamente em direção a Kulman, plantou-se à frente do mesmo e tomou impulso. O soco de sua pata direita atingiu o traseiro peludo de Muzel, atirando-o para fora do colo de Kulman, que parecia estupefato ao tomar conhecimento da incrível ocorrência.
Bell não compreendia mais nada. Ficou boquiaberto e assim permaneceu. Parecia não entender nada.
Gucky esbravejava:
Seu animal nojento! Miserável!
Procurou desferir outro soco em Muzel, mas desta vez o bassê não foi tomado de surpresa. Com um salto incrível, que quase o levou até o teto da sala de comando, passou por cima de seu companheiro de folguedos, escapando à ação de sua pata.
Naquele momento Rhodan foi o único que deu atenção a Atlan, que segurava uma arma, mais precisamente um pequeno radiador de impulsos térmicos, mas muito potente.
Assim que o possoncal voltou a tocar o chão, o imortal atirou.
A energia fortemente enfeixada atingiu o crânio de Muzel, que se desmanchou em fumaça. Um cheiro repugnante espalhou-se. O cadáver do gracioso bassê jazia no centro da sala de comando.
Gucky desapareceu no mesmo instante. Fizera aquilo que Atlan pedira. Acreditara piamente nas afirmativas do imortal, por mais que isso lhe desgostasse. Agora, que via o corpo desfigurado do amiguinho, preferiu teleportar-se. Provavelmente dirigira-se ao seu camarote.
Kulman levantou-se gritando apavorado. Com os olhos arregalados fitou os restos de Muzel. Sua boca abriu-se e balbuciou alguma coisa. Os circunstantes não demoraram muito em entender sua palavras:
Muzel! Querido Muzel! Atlan o matou... mas o que estou fazendo aqui? O sinal de alarma!... Isso mesmo; a Terra está em perigo... Preciso falar imediatamente com Rhodan!
Atlan acenou para Rhodan e guardou a arma.
Kulman sofreu um choque. Acho que muitas vezes um bom susto vale mais que qualquer psicoterapia. Aposto que Kulman recuperou a memória. Kulman, já sabe por que transmitiu o sinal “três toques de sino”?
O agente acenou lentamente com a cabeça:
Sei. Será que alguma vez fiquei sem saber? Por que matou Muzel? Ele lhe fez alguma coisa?
Atlan dirigiu-se a Rhodan:
Deixe Kulman descansar. Depois de algumas horas de sono, poderá contar o que sabe.
Aguardou a chegada do pessoal da equipe médica, que levou Kulman. Depois prosseguiu:
Foi uma pena eu ter destruído tudo que estava nesse crânio. Não acredito que no resto do corpo descubramos qualquer coisa interessante. Sköldson fez uma radiografia sem que ele o percebesse. Muzel possui tudo que faz parte de um autêntico ser orgânico: um esqueleto, nervos, sangue. Só na cabeça havia uma pequena cápsula. Uma vez que Muzel veio de Swoofon, suponho que essa cápsula tenha sido o robô. O resto não passava de substância biológica. Quer dizer que Muzel não pode ser considerado nem um robô, nem um andróide. Era ambas as coisas ao mesmo tempo.
Voltou a erguer-se.
Aliás, você sabe como ele se traiu?
Não — respondeu Rhodan.
Em tempos idos, quando já era rico, mas ainda não estava carregado de honrarias, costumava caçar com possoncais. São os melhores cães de fila da Galáxia. Encontram qualquer pista e sabem fazer quase tudo. Mas há uma coisa que não fazem: saltar. Sob a gravitação normal um possoncal autêntico não consegue subir mais de trinta centímetros. Acontece que este aqui saltou quase até o teto; pedi a Gucky que o provocasse. Foi assim que Gucky traiu seu melhor amigo que, por pouco, não provoca um perigo terrível para a Terra. Como vê, até mesmo um robô comete enganos.
Naquele instante Farrington chamou.
Alô, sala de comando! Localizamos e inutilizamos o transmissor goniométrico.
Rhodan fez um sinal para Atlan.
Quer dizer que ainda conseguiu colocá-lo. Havia tempo de sobra para isso. Agora já sei por que fez tanta questão de brincar.
Falando para dentro do microfone do intercomunicador, perguntou a Farrington:
Onde foi encontrado o transmissor? A resposta removeu as últimas dúvidas:
No hangar K-37.
Atlan dirigiu-se lentamente ao lado oposto da sala de comando e sentou-se.
Acredito que ainda lhes devo algumas explicações — disse.

* * *

Na opinião de Rhodan, todas as pessoas que se encontravam a bordo da Drusus tinham o direito de ser informadas sobre a situação. Por isso mandou ligar a instalação geral de intercomunicação. Foi como no dia anterior, quando Atlan havia contado a história da Atlântida.
Todos os ocupantes da nave podiam ver e ouvir o que estava acontecendo na sala de comando.
Atlan fez um gesto de cumprimento em direção às câmeras e aos microfones ocultos.
Mister Kulman, acho que o senhor ainda não está dormindo. Por isso quero pedir-lhe que também participe do esclarecimento do caso. Afinal, o principal interessado é o senhor, pois foi depois de sua volta à Drusus que surgiu o misterioso espião. As escotilhas da nave não foram abertas, exceto no momento em que a Gazela saiu e voltou a entrar. Não havia outra alternativa. O espião era o senhor ou Muzel; ou então o espia deveria ter subido a bordo com um dos dois.
Minhas primeiras suspeitas recaíram no senhor, Kulman. Constatamos a presença da barreira hipnótica, e por isso não estava eliminada a possibilidade de que o senhor estivesse distribuindo os minúsculos transmissores de sinais goniométricos. Acontece que depois de ter sido entregue aos cuidados da Divisão Psicológica, o senhor já não poderia ser considerado o autor de tais atos. Miss Peres asseverou que o senhor não saiu da mesa de operações, enquanto os pequenos transmissores continuavam a aparecer e eram prontamente encontrados. Com isso o senhor foi excluído. Portanto, só restava Muzel.
Mas quem há de desconfiar de que um possoncal possa cometer tamanha traição? A inteligência desse animal não é suficientemente desenvolvida para reagir a um bloqueio hipnótico. Seria totalmente impossível. Por isso só restou a suposição absurda de que Muzel fosse um robô. Acontece que muitos fatos falavam contra essa hipótese. O senhor viu Muzel sangrar, se bem que não tenhamos condições de saber se esse fato foi gravado em sua memória real, ou se lhe foi sugerido. Ainda havemos de descobrir isso. Seja como for, eu mesmo vi Muzel sangrar, e mandei analisar o sangue em nosso laboratório. Não restava a menor dúvida: o sangue de Muzel era sangue autêntico de possoncal.
Ainda acontecia que Gucky se mantinha constantemente em companhia de Muzel. Todos conhecemos a elevada capacidade telepática do rato-castor. Se Muzel fosse um robô, Gucky teria descoberto o fato logo no primeiro contato. Entretanto Muzel pensava como um ser orgânico e semi-inteligente. E pensava na água e nos microrganismos que bóiam na superfície. A conclusão era uma só: Muzel não era nenhum robô, pois um robô não possui cérebro, ou ao menos não possui nenhum cérebro pelo qual um telepata possa orientar-se. Com isso Muzel foi excluído do rol dos suspeitos, até o momento em que descobrimos o estranho mingau de cenouras.
Gucky é o único ser a bordo que come cenouras frescas. O resto da tripulação alimenta-se quase exclusivamente de conservas, que são baratas e não exigem muito espaço. Já Gucky não pode parar de roer alguma coisa. Uma vez que se havia afeiçoado a Muzel, deu-lhe parte das suas cenouras, embora devorasse pessoalmente a maior quantidade da ração dupla. Muzel comia praticamente qualquer coisa, inclusive cenouras. Gucky acreditava que o possoncal deveria ter uma predileção toda especial por essa iguaria.
O que é que um robô poderia fazer com alimentos orgânicos? Não podendo aproveitá-los, teve de livrar-se dos mesmos. E foi o que Muzel fez. Despejou o conteúdo de seu estômago nos poços de ventilação. Embora Muzel fosse principalmente um ser orgânico, sua digestão não funcionava muito bem. Seus... bem, seus construtores deram um jeito. Tinham de contar com a possibilidade de que o robô Muzel voltasse a expelir o alimento ingerido. Por isso implantaram em seu organismo uma glândula que impregnava o bolo alimentar de fermento de arconidizim, a fim de apressar a digestão ao máximo. Ninguém teria dado pelo fato, se Muzel tivesse despejado sua carga em outro lugar, mais precisamente no lugar adequado. Acontece que escolheu as instalações de ventilação. Foi o seu primeiro engano. Mas o erro definitivo foi cometido no centro de memorização.
Enquanto a Drusus se mantinha em estado de prontidão, Muzel introduziu-se sorrateiramente no recinto e furtou as coordenadas da Terra. Seus conhecimentos sobre a maneira de lidar com aparelhos positrônicos, especialmente os terranos, eram praticamente nulos. Por isso danificou a máquina. Houve outro detalhe. Seu tamanho não lhe permitia atingir as chaves situadas na parte superior da máquina. Teve de saltar. Com isso arranhou a chapa de revestimento. A unha de um verdadeiro possoncal não seria capaz de arranhar uma chapa de metal plastificado. Acontece que Muzel era um robô. E suas unhas eram feitas de metal plastificado, com o que lhes foi conferida maior agilidade que a das unhas comuns, já que teriam de efetuar manipulações bastante complicadas.
Mal terminou seu trabalho, Rhodan, o comandante, apareceu. Não sabemos se a fuga pelo sistema de ventilação estava nos planos de Muzel. De qualquer maneira, não há dúvida de que o caminho fora preparado antecipadamente, já que os parafusos da grade haviam sido removidos.
Seu cérebro robotizado concluiu que Rhodan o notaria, se saísse pela escotilha. Conforme veremos, Muzel tinha dois cérebros. Por isso procurou fugir pelo caminho costumeiro. O sistema de canais de ventilação parecia especialmente talhado para ele. Os tubos lhe permitiam atingir num instante qualquer ponto da nave. Serviam também para esconder-se e obrigar Gucky a procurá-lo. Este não iria quebrar a cabeça para descobrir como o bassê conseguira deslocar-se tão depressa. É bem possível que Gucky, um teleportador, não seja dotado do sentido normal do tempo para os deslocamentos feitos a pé.
Quanto ao segundo cérebro de Muzel. Os construtores do espião quase perfeito não haviam esquecido nenhum detalhe. Sabiam que temos telepatas, que logo teriam identificado um robô. Por isso Muzel teria de irradiar impulsos mentais autênticos.
Provavelmente nunca descobriremos de quem foi o cérebro implantado no crânio do possoncal. Pelas indicações de Gucky parece ter o cérebro pequeno de um animal aquático, talvez um peixe ou uma medusa...”
Atlan calou-se, espantado.
Alguém começou a rir a bandeiras despregadas.
Era Reginald Bell, que se encontrava de pé ao lado de Rhodan. Suas gargalhadas eram tão fortes e gostosas que contagiaram a quase todos. Dali a pouco metade da tripulação ria, sem saber qual era o motivo da alegria de Bell.
Finalmente ficou quieto, ao que parece porque sentiu falta de ar.
Permite uma pergunta? — disse Atlan em tom cortês. — Qual é o motivo da hilaridade do cavalheiro? Não me lembro de...
Por pouco Bell não irrompe novamente numa série de gargalhadas. Falando com dificuldade, foi dizendo:
Quando penso que... ah, ah, ah... que Gucky dormiu todo este tempo com uma medusa... hi, hi, hi... e lhe deu cenouras para comer...
Voltou a irromper em gargalhadas.
Atlan aguardou tranqüilamente, e sem revelar a menor comoção, que a calma se restabelecesse. Depois prosseguiu:
Kulman não sabia de nada. Acreditava que já conhecia o Muzel há semanas ou mesmo meses, mas é bem possível que ontem o tenha visto pela primeira vez. Os desconhecidos deram-lhe outra memória, agindo por ordem de Árcon; acredito que este ponto não comporta a menor dúvida. Kulman foi obrigado a esquecer o motivo do alarma e a levar Muzel para bordo da Drusus ou de outra nave que um dia voltaria à Terra.
Assim que houve uma ligeira pausa, Rhodan perguntou:
E os pequenos transmissores goniométricos?
Ah, sim... — disse Atlan, como se só agora se lembrasse disso. — Muzel tinha cerca de cento e cinqüenta aparelhos desse tipo na barriga. Teríamos de dar muitos saltos por aí para nos apoderarmos de todos. Em cada transição gastava apenas um deles. Estavam guardados numa espécie de depósito. Bastava que Muzel executasse determinado movimento para que um dos transmissores fosse introduzido num tubinho que terminava na boca. Enquanto o aparelho era expelido do depósito, o mecanismo era regulado automaticamente para o momento exato.
Muzel agiu da seguinte maneira: depois de cada transição, afastava-se de Gucky dizendo que estava com vontade de brincar, “cuspia” o transmissor em algum lugar e esperava que Gucky o procurasse. Tudo correu perfeitamente, sem provocar a menor suspeita.
Apenas por ocasião da última transição, que foi previamente anunciada e, conforme se dizia, nos levaria à Terra, Muzel expeliu o transmissor antecipadamente. Gucky, que ouvira o aviso, lhe comunicara que durante o salto deveria permanecer na sala de comando. E durante a transição notei outro detalhe...”
Atlan sorriu ligeiramente e olhou para os restos do espião, que estavam guardados numa caixa, para serem submetidos a um cuidadoso exame.
Enquanto todos, inclusive Gucky, sofriam a dor da transição, Muzel manteve-se impassível. Não sentiu nada, absolutamente nada. Acontece que um possoncal é um ser orgânico como qualquer outro. Não poderia deixar de sentir a dor. Quando notei esse fato, tive certeza absoluta: Muzel era o espião.
Acredito — disse Rhodan em meio ao silêncio que se estabeleceu de repente — que dentro em breve teremos de ajustar contas com alguém.
Com quem? — perguntou Bell com a voz tensa, enquanto Atlan continuava a sorrir.
Com o computador-regente de Árcon. Espero que isto não fira a sensibilidade de meu amigo Atlan.
Atlan fez que não.
Acho que já lhe disse que para mim esses dois ou três milhões de toneladas de lata não são nenhum arcônida. Faça o que melhor lhe aprouver com o regente. Para mim isso é totalmente indiferente.
Rhodan sabia que tinha duas tarefas importantíssimas pela frente. Não poderia deixar de voltar a Swoofon. A Terra não poderia dar-se ao luxo de permitir que em suas imediações existisse um mundo cuja maravilhosa técnica microscópica estava ao inteiro dispor dos arcônidas e dos saltadores.
Nessa oportunidade lembrou-se de que ainda não ouvira o relato autêntico de Kulman. Isso devia ser feito assim que o agente despertasse do sono profundo em que estava mergulhado.
A segunda tarefa consistia em lembrar ao computador-regente de Árcon que um acordo havia sido concluído, e que ele, Rhodan, de forma alguma aceitava a “interpretação” que o robô regente estava dando a esse acordo. Teria de fazer o possível para que compreendesse que sem o auxílio dos terranos seria fatalmente derrotado na luta contra o inimigo vindo de outra dimensão temporal, pois uma máquina não tem a sensação do tempo, e esse fato iria reverter em prejuízo de Árcon.
Mas a mais difícil das tarefas era representada pelos seres atemporais, que naquela hora deveriam estar escondidos em algum lugar, aguardando o momento para atacar.
Continuavam a representar o perigo mais grave. E Rhodan levava esse perigo muito a sério.
Voltou a fitar Atlan, e depois dirigiu-se a Sikermann.
Modifique a rota da Drusus, levando-a em direção ao sistema de Swaft. Anunciarei o momento da transição assim que tivermos ouvido o relato de Kulman. Até lá... bem, quanto a mim, até lá vou dormir um pouco. Recomendo que todos aqueles que não se encontrem em serviço façam o mesmo. Até logo mais.
Bell seguiu-o com os olhos.
Eu também deveria dormir — resmungou um tanto contrariado. — Mas antes disso quero conversar com Gucky. Acho que agora, depois de perder seu amigo, precisa de alguém que o console.
Quando já se encontrava junto à porta, Atlan disse atrás dele:
Caso daqui a pouco o senhor precise de consolo, não deixe de me avisar...
Bell fez como se não tivesse entendido a advertência velada que havia nas palavras de Atlan.



* * *
* *
*





Daqui por diante, o computador-regente de Árcon terá de agir de forma diferente, se quiser prosseguir em suas tentativas de descobrir a posição galáctica da Terra. Em Os Anões Azuis, as surpresas se multiplicam.

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