Outro
médico, que estava remexendo um armário, virou-se rapidamente e não
compreendeu por que o chefe se assustara tanto. Acreditava que Gucky
e Muzel tivessem entrado pela porta.
— Não
invoque o nome de Deus em vão — disse o rato-castor e apontou para
Muzel.
— O
pobre do cachorro esbarrou na canela de um monstro e deve ter
quebrado quase todos os ossos. Tem um pedaço de gaze?
Sköldson
logo se recuperou do susto. Gostava muito de animais, e dedicava uma
simpatia toda especial aos cachorros bassê. Assim que viu a ferida
de Muzel, a compaixão instalou-se em sua mente.
— Ora,
meu pobre au-au — disse baixinho e abaixou-se, o que não foi nada
fácil em virtude do volume de sua barriga. — Onde está o dodói?
Será que o cãozinho não morde?
Gucky
revirou os olhos e deixou-se cair sobre o traseiro.
— Não
sei como um homem maduro é capaz de fazer perguntas tão idiotas. Em
vez de dizer tolices, seria preferível fazer alguma coisa pelo
animal.
Sköldson
lançou um olhar de desprezo para Gucky.
— Será
que você entende de terapêutica psicológica? — levantou-se e
dirigiu-se a outro médico. — Behrends, traga as ataduras. Espero
que seja um caso leve. Se houver fratura, tiraremos uma radiografia.
Felizmente
isso não se tornou necessário. Depois de um exame superficial
apurou-se se tratar de uma ferida pouco profunda, sem outras
conseqüências. Apenas a pele fora arranhada. Dali a alguns minutos,
Muzel saiu do posto médico, com um esparadrapo nas costas, e deixou
que Gucky o levasse ao camarote partilhado pelos dois.
O
incidente poderia ser esquecido.
*
* *
Acontece
que Atlan não era da mesma opinião.
Assim que
Gucky e Muzel desapareceram, seu comportamento tranqüilo
modificou-se por completo. Correu o mais depressa possível para o
elevador antigravitacional e dirigiu-se à Divisão de Física, que
estava estreitamente ligada ao Laboratório de Análises.
Quando
Atlan entrou, o Major Hill lançou-lhe um olhar curioso. Assim que
viu o sangue grudado à mão do arcônida, seus olhos arregalaram-se
de susto. Levantou-se de um salto.
— Meu
Deus, Atlan, o senhor está ferido? Será que é grave?
— Não
acredito — disse o imortal para tranqüilizá-lo. — O que o
senhor está vendo não é o meu sangue. Apenas vim para fazer-lhe um
pedido. Queria que analisasse este material.
— Material?
Acreditei que fosse sangue...
Ao que
parecia, Hill já não entendia mais nada.
— Sim,
realmente é sangue. De qualquer maneira, quero pedir-lhe o obséquio
de realizar uma cuidadosa análise. Peça à sua divisão que faça o
trabalho que teria de realizar se tivesse diante de si uma substância
desconhecida, cuja composição deve ser determinada. Não vou
responder às suas perguntas, a fim de não influenciar o resultado
do trabalho. Peço-lhe que não leve a mal a atitude estranha que
estou adotando; tenho motivos para agir assim. Garanto-lhe que estes
motivos são de importância vital para todos nós. Posso contar com
sua colaboração irrestrita?
O Major
Hill confirmou com um gesto e passou a mão pelo jaleco.
— É
claro que farei o que o senhor está pedindo. Sei que isso
corresponde às intenções de Rhodan. Será que ele está informado
sobre isso? — apontou para a mão de Atlan. — O que gostaria de
saber é se foi ele quem o mandou.
Atlan
sacudiu a cabeça.
— Não
faça perguntas, Hill. Eu lhe peço!
Por um
instante Hill deu a impressão de que alguém lhe derramara um balde
de água sobre a cabeça, mas logo viu que seria inútil tentar fazer
com que Atlan lhe prestasse qualquer informação. Pôs-se a
trabalhar com a precisão de uma máquina. O sangue foi removido
cuidadosamente da mão do arcônida e colocado em diversos
recipientes.
— Quanto
tempo demorará? — perguntou Atlan.
— No
mínimo uma hora — respondeu Hill.
— Avise-me
assim que tenha o resultado. Poderá entrar em contato comigo pelo
intercomunicador. Estarei no meu camarote ou no de Rhodan. Ou então
na sala de comando. Muito obrigado, Major Hill. Mais uma vez lhe
peço: esforce-se ao máximo. O assunto é extremamente importante.
Hill
confirmou com um gesto.
Atlan
colocou-se sobre a fita transportadora e por coincidência
encontrou-se com Rhodan, antes que tivesse tempo para bater à porta
de seu camarote.
— Olá,
bárbaro! Deu para fazer passeios a pé?
— Fui ao
camarote de Gucky — respondeu Rhodan em tom pensativo. — Não o
encontrei.
Atlan
aguçou o ouvido.
— Quando
foi isso?
— Há
quinze minutos, mais ou menos. Por quê?
Atlan
sorriu e relatou o incidente. Não ocultou o fato de que se dirigira
ao Major Hill e lhe pedira que realizasse uma cuidadosa análise.
Rhodan fitou-o por algum tempo e disse:
— Gostaria
de fazer-lhe algumas perguntas, Atlan. Poderíamos ir ao meu
camarote?
— Fica
mais próximo que o meu — respondeu o imortal.
Depois de
terem fechado a porta, e quando já estavam acomodados nas macias
poltronas, Rhodan deu início à palestra, mostrando logo o que mais
o interessava:
— Você
suspeita de Muzel, Atlan?
O arcônida
fez que sim.
— Suspeito
— confessou de pronto. — Continuo a acreditar que o espião é
ele. Ninguém consegue ler os pensamentos de Muzel.
— Gucky
consegue!
— Ainda
não descobri como fazem para enganar o rato-castor. Nenhum robô
consegue irradiar os impulsos mentais de um ser orgânico. Se Muzel
fosse um robô, devia ter sido construído segundo princípios
inteiramente novos, que tornam impossível a descoberta do fato.
Talvez o sangue possa esclarecer alguma coisa.
— De
qualquer maneira, seria de admirar que sangrasse — objetou Rhodan.
Depois de
uma ligeira pausa, Atlan disse:
— Já
tive oportunidade de conhecer os possoncais. Há dez mil anos já se
contavam entre os animais domésticos mais apreciados pelos velhos
arcônidas. Foram levados até mesmo nas expedições colonizadoras.
Costumavam pegar insetos, ajudavam na caça e eram muito dóceis.
Talvez Muzel tenha sido adestrado.
Rhodan
sorriu.
— Quer
dizer que naquela época você os levou à Atlântida? Será que isso
confirma a afirmativa que muitos criadores de cachorros fazem a
título de gracejo, que o bassê não é um verdadeiro cachorro?
Atlan
fitou o amigo com uma expressão de perplexidade.
— Existem
seres humanos que afirmam isso?
— Há —
confirmou Rhodan. — E a explicação não é difícil. O bassê é
uma criatura obstinada, que tende a levar uma vida psíquica bastante
individualista. Fazem exatamente aquilo que ninguém pede que façam.
Existem muitas piadas ligadas a essa peculiaridade da raça bassê,
mas até hoje ninguém teve a idéia de estabelecer qualquer ligação
entre a mesma e uma eventual colonização vinda do espaço. E essa
explicação é bastante plausível.
“Vejamos
o exemplo do gato. Está provado que é o único ser terrano capaz de
executar movimentos perfeitos num estado de ausência de gravidade.
Se atirarmos um gato para o alto, ele girará o corpo e estenderá as
pernas em direção ao solo no momento exato em que vence a ação da
gravidade. Para mim isso constitui uma prova de que o gato conhece a
ausência da gravidade ou guarda uma lembrança desse estado. Quanto
ao bassê...”
— Em
nossas naves sempre existiram campos antigravitacionais...
— Isso
mesmo! — confirmou Rhodan. — Era o que eu pretendia dizer. O
possoncal não está acostumado ao estado de ausência de gravidade.
Tal qual o bassê. O que eu pretendia dizer é que naquele tempo
alguns dos seus queridos possoncais fugiram e adquiriram sua
independência. O resultado disso é a alma ao mesmo tempo
encantadora e misteriosa do bassê, sobre a qual muita gente já
quebrou a cabeça em vão.
— Essas
teorias são um tanto arriscadas, mas não podem ser desprezadas —
admitiu Atlan. — Pois bem. Você conhece a raça bassê. Acredita
que um desses animais poderia apostar corrida com um galgo?
— É
claro que não.
— Pois
bem. Você deveria ter visto Muzel no convés C. Tive a impressão de
que uma bala de canhão tivesse atingido minhas pernas, tamanha foi a
velocidade desenvolvida por esse animal. Quase chegou a derrubar-me.
— Foi? —
perguntou Rhodan e estreitou os olhos.
— Um
possoncal sabe correr, mas não tão depressa como essa criatura.
— Este
fato não pode servir de prova contra ele — disse Rhodan, sacudindo
a cabeça. — Se Gucky pudesse ouvir suas palavras, você teria
problemas pela frente.
— Aposto...
— principiou Atlan, mas logo foi interrompido pelo zumbido do
intercomunicador.
Rhodan
levantou-se e estabeleceu o contato. O rosto do Major Hill surgiu na
tela. Ao que parecia, não estava vendo Atlan.
— Desculpe,
pensei que Atlan estivesse aí.
— Pois
ele está aqui. Quer falar com ele?
— Gostaria
— aguardou até que reconhecesse o rosto de Atlan, que logo se
levantara e se colocara à frente da pequena câmera. — Concluímos
a análise. O resultado...
— Qual é
o resultado? — interrompeu Atlan em tom ansioso. — O que vem a
ser esse líquido vermelho que se parece com sangue?
A
expressão do rosto do Major Hill não se modificou.
— O
líquido vermelho é sangue, sangue como qualquer outro.
5
Depois de
longa permanência na sala de comando Rhodan voltou a seu camarote.
No instante em que entrou, sentiu o cheiro estranho que se espalhava
pelo recinto. Ficou tentando localizar a fonte do odor, mas não
conseguiu. Depois de dez minutos de procura teve a impressão de que
o cheiro diminuíra, e dali a mais alguns minutos não o sentiu mais.
Esqueceu-se
do incidente, se é que era disso que se tratava.
Uma coisa
era certa: Atlan se enganara. Tudo estava em ordem com Muzel. Pelo
menos não era nenhum robô. Uma máquina não sangra nem sente dor.
Dirigiu-se
ao intercomunicador e chamou a sala de comando. Bell respondeu.
— Diga a
Sikermann que prepare a próxima transição, ainda em direção ao
centro da Via Láctea. Deverá ser realizada dentro de uma hora.
— Perfeitamente,
Perry. Alguma novidade?
— Nada.
As medidas de precaução continuam em vigor. Viu Gucky?
— Não;
não está aqui. Por quê?
— Estou
à procura dele. Talvez esteja no camarote. Daqui a trinta minutos
estarei aí na sala de comando.
— Enquanto
isso mandarei realizar os cálculos de transição. Tomara que as
“pílulas”
do espião cósmico acabem logo.
Rhodan
desligou o intercomunicador e pôs-se a caminho.
Desta vez
encontrou Gucky em seu camarote. Muzel também se achava lá. O bassê
estava agachado num canto do sofá. Ao que parecia, não se sentia
muito bem. Havia uma expressão de tristeza em seus olhos dourados.
Olhou Rhodan com uma expressão que quase chegava a ser de súplica.
— Muzel
sente dores — disse Gucky a título de cumprimento. — Esse Atlan
com os ossos de ferro...
— O que
é que Muzel foi fazer no convés C? — disse Rhodan, levantando o
dedo num gesto ameaçador. — Se quiserem brincar, fiquem pelos
hangares. Por lá há espaço que chega.
De repente
parou de falar. Sentiu o mesmo cheiro que pouco antes invadira seu
camarote. Era um cheiro mau e esquisito, que pensara ter esquecido.
— Que
cheiro é este, Gucky?
O
rato-castor farejou fortemente.
— Não
sinto nenhum cheiro. Quem sabe se Bell...
— Bell
não fez coisa alguma — disse Rhodan em tom furioso. — Aqui fede,
e no meu camarote também fedia. É estranho.
Passou os
olhos pelas paredes e pousou-os sobre os insufladores. Sem dizer uma
palavra subiu numa cadeira. Colocou o nariz na corrente de ar que
penetrava no camarote e aspirou.
Não havia
a menor dúvida.
O cheiro
estranho vinha dali.
— Até
parece que alguém jogou lixo no poço de ventilação — disse
enquanto descia da cadeira. — Acho que a equipe da limpeza terá o
que fazer. Gostaria de saber quem foi o porcalhão.
— Não
fui eu! — protestou Gucky. Rhodan olhou-o.
— Alguém
disse que foi?
Saiu sem
dizer uma única palavra; até parecia que se esquecera por que
viera. Uma vez na sala de comando, mandou que os poços de ventilação
fossem examinados e limpos. Indicou o setor.
— Quando
o serviço estiver concluído, quero receber informações precisas.
Bell
estava sentado perto de Sikermann, que se ocupava com os cálculos.
— Do
insuflador está saindo mau cheiro? — perguntou com um sorriso. —
E logo no camarote de Gucky? Quem sabe se esse “sujeitinho”...
— Nada
disso! — respondeu Rhodan em tom áspero. — Ele não fez nada
disso. Aliás, manifestou a mesma suspeita tola em relação a você.
Vamos aguardar.
Bell
empalideceu.
— Que
sem-vergonha! Como se atreve a acusar-me dessa forma? Eu lhe
mostrarei uma coisa.
— Cuidado,
que ele o fará voar.
Bell
calou-se; parecia assustado.
Os
computadores zumbiam e atiravam os resultados dos cálculos sobre a
mesa, à frente de Sikermann. A transição era iminente, mas isso em
nada. afetava a vida da nave.
Mais uma
vez Farrington estava a postos com seu grupo de busca. Os receptores
goniométricos, distribuídos pelos lugares mais diversos, foram
ligados. Era perfeitamente possível que desta vez o transmissor
entrasse em funcionamento mais cedo.
Dez
minutos antes da transição, a Seção Técnica chamou.
— Localizamos
a causa do fedor.
— O que
foi?
— Lixo.
— Que
tipo de lixo? Latas de conserva ou cascas de batata?
— Ainda
não verificamos este ponto. Este material tem uma aparência um
tanto indefinida e exala um fedor terrível. Um cadete já sentiu
náuseas.
— Pegue
uma amostra e mande examiná-la. Precisamos descobrir quem anda
jogando lixo nos poços de ventilação. Tem alguma idéia sobre o
lugar de onde poderia ter sido atirado aquilo?
— Na
minha opinião não foi atirado. Estava no local, como se alguém o
houvesse colocado cuidadosamente.
Rhodan
ficou tão perplexo que apenas conseguiu transmitir esta ordem:
— Está
bem. Mande realizar o exame. Peça ao Major Hill que me informe assim
que tenha o resultado — desligou e viu o olhar sorridente de Bell
pousado sobre seu rosto. — Qual é o motivo do riso?
— Hill
não ficará nada satisfeito. Teve de analisar poeira, e agora lhe
entregam um lixo fedorento.
Rhodan fez
um gesto de pouco caso.
— Um
analista está acostumado a lidar com coisas desagradáveis — disse
em tom tranqüilo.
O momento
da transição se aproximava. Faltavam apenas alguns minutos. O
intercomunicador voltou a emitir um zumbido. Era o Major Hill.
— Caramba!
Já terminou?
Hill fez
um gesto afirmativo e pôs a mão no nariz. Em seu rosto havia uma
expressão de censura.
— Isso é
coisa do diabo — disse. — A matéria fundamental é simples:
carne e cenouras. Mas...
— Cenouras?
— interrompeu Rhodan. — Continue.
— O
mingau foi misturado com um tipo de fermento — disse Hill. — Ao
que parece, a finalidade deste consiste em apressar a putrefação e
a decomposição do material. É esta a causa do cheiro infernal, que
infelizmente está enchendo todo o laboratório. Mas o mais estranho
é que o fermento é desconhecido à química terrana. Não concluí
sua análise, e ainda não posso dar sua fórmula estrutural. Mas não
há a menor dúvida de que se trata de uma substância estranha.
Rhodan
acenou tranqüilamente com a cabeça.
— Então
não se pode extrair uma conclusão segura — disse. — A bordo da
nave existem vários seres que não nasceram na Terra. É possível
que alguns produzam o fermento de forma inteiramente natural.
— Pode
ser — admitiu o Major Hill.
Rhodan
sorriu.
— Prossiga
no exame do fermento — recomendou. — Quem sabe se não acaba
fazendo uma descoberta monumental. Muito obrigado.
A tela
apagou-se. Rhodan apoiou a cabeça na mão direita. Seu olhar passou
por Atlan e dirigiu-se ao espaço.
— Cenouras...
— murmurou.
— Posso
refrescar sua memória? — perguntou Atlan de repente. — As
comidas prediletas daquele lindo rato-castor não são cenouras e
rabanetes?
Rhodan
ergueu a cabeça; parecia surpreso.
— É
isso mesmo! Agora me lembro que o pessoal da cozinha foi instruído a
manter uma provisão de alimento fresco sempre que Gucky se encontre
a bordo.
— Pois
então! Qual é a conclusão que você tira disso?
Rhodan
estreitou os olhos e piscou-os ligeiramente. Ao que parecia, não
estava falando sério quando respondeu:
— É
simples. Gucky devorou uma ração excessiva de cenouras. Teve uma
indigestão e, como é uma criatura extremamente sensível,
dirigiu-se ao poço de ventilação e lá despejou o conteúdo de seu
estômago. A conclusão não é correta?
Atlan
soltou uma gostosa gargalhada.
— Isso
mesmo. Acertou em cheio.
Rhodan
virou-se e pegou o microfone. No momento em que transmitiu a mensagem
que seria ouvida em todos os compartimentos da nave, sua voz não
parecia muito alegre.
— Um
monte de lixo foi encontrado no interior das instalações de
ventilação. É possível que uma pessoa não identificada tenha
depositado lixo em outra parte. É claro que isso é anti-higiênico,
além de representar um perigo para o equipamento de ventilação.
Por isso peço-lhes que avisem a sala de comando assim que sintam um
cheiro estranho. Desligo.
Atlan
lançou-lhe um olhar de censura.
— Se
isso tem algo a ver com o espião desconhecido, você acaba de
preveni-lo — disse.
Rhodan
soltou uma risada.
— Sua
fantasia anda descontrolada. O que é que um espião poderia fazer
com um montão de restos de cenouras?
O rosto de
Atlan continuou impassível. Lançou um demorado olhar para Rhodan.
Finalmente disse:
— Eu
pagaria qualquer coisa para saber o que você está pensando neste
momento.
6
A
transição foi realizada conforme se planejara. Cinco minutos depois
foi localizado o sinal goniométrico já conhecido. E o minúsculo
transmissor era perfeitamente igual aos que haviam sido descobertos
antes.
Rhodan não
se surpreendeu com o fato.
Talvez
seria possível surpreender o espião. Ordenou a Sikermann e Bell que
preparassem outra transição na mesma direção, para daqui a duas
horas.
Depois
levantou-se e saiu, sem dar maiores explicações.
Nos amplos
corredores da Drusus reinava o silêncio. Os tripulantes se
encontravam nas posições de combate. Ninguém saía do lugar, a não
ser que recebesse ordens específicas para isso.
O único
ruído era o zumbido das fitas rolantes, que deslizavam
incessantemente.
Rhodan
marcara a nova transição para as 23:30 h. Até lá teria tempo de
sobra para conversar com Gucky sobre o assunto ligado às cenouras.
Preferiu
procurá-lo em vez de pedir seu comparecimento à sala de comando.
Precisava de um pouco de exercício. Mas não pôde deixar de
confessar que se deixara seduzir pela esperança pouco realista de,
por algum acaso, encontrar o espião pelo caminho.
Não usou
a fita rolante. Caminhando junto à parede, mantinha-se pensativo,
com a cabeça abaixada.
O espião
começava a enervá-lo, ainda mais que não queria que seus
subordinados percebessem o que ia pela sua mente. A pior coisa que
pode existir numa nave em perigo é um comandante nervoso, rezava um
dos princípios ensinados na Academia de Terrânia. E na opinião de
Rhodan, o mestre que o havia formulado era um homem muito
inteligente.
“Está
bem”,
pensou, “mas
o que adianta tudo isso? Quer estivesse nervoso, quer não estivesse,
depois de cada transição o espião transmitiria uma mensagem
goniométrica. Estamos puxando a corda com igual força de ambos os
lados e não vamos para trás nem para frente. Quanto tempo iria
demorar isso? Não temos mais tempo a perder.”
Mergulhado
em pensamentos, passou pela escotilha larga dos registros
positrônicos. Quando tinha dado mais alguns passos, acreditou ter
ouvido alguma coisa.
Parou e
olhou para trás.
Não viu
nada.
— Quem
pintou o diabo... — murmurou. — Não devia ter pensado nos meus
nervos.
De
qualquer maneira, voltou até a escotilha e abriu-a. Entrou e olhou
em torno.
Os
aparelhos de memorização, dispostos em ferradura, tinham o aspecto
de armários. Havia canais invisíveis que os ligavam ao computador
positrônico da nave e, a qualquer indagação, forneciam as
informações de que um astronauta pudesse precisar para a fixação
da rota, para a determinação da posição ou para quaisquer outros
fins.
As
informações estavam armazenadas nos diversos anexos, em ordem de
importância. Aquelas que estavam ao alcance de todos — e que
geralmente eram as que, em caso de emergência, teriam de ser
fornecidas com a maior rapidez — achavam-se codificadas segundo o
sistema transfor.
Tratava-se de um sistema mais simples de codificação. As que eram
solicitadas com menor freqüência, ou não poderiam ser colocadas ao
alcance de qualquer um, estavam concebidas em Sira III ou Hangol. Uma
terceira série de informações, as mais confidenciais, estava
armazenada no agregado que se situava no centro da ferradura sob o
código complicadíssimo e praticamente indecifrável de Fermat.
Estas
idéias passaram-lhe ligeiras pela cabeça, antes que visse a luz
vermelha de advertência, que se acendera na placa frontal do anexo
das informações em Fermat.
Deu alguns
passos e leu as letras luminosas: DEFEITO.
O resto
foi feito instantaneamente, sem pensar e em gestos automáticos.
Bateu com o punho fechado sobre o botão de alarma embutido na parede
junto à escotilha. Respirou aliviado quando o som agudo das sereias
encheu os corredores.
Dali a
alguns segundos, a voz exaltada de Bell saiu dos alto-falantes
espalhados por toda parte:
— Alarma
no centro de memorização do convés C! Capitão Farrington,
verifique o que está acontecendo.
Rhodan
ficou parado junto à escotilha. O uivo das sereias cessou de
repente. Dali a alguns segundos os homens de Farrington, com este na
frente, apareceram na curva que o corredor descrevia na junção
entre a primeira e a segunda seção.
Enquanto
corria, Farrington fez continência.
— Bloqueie
o centro de memorização, capitão! — ordenou Rhodan. — Ninguém
deverá entrar ou sair.
Olhou para
o relógio. Eram 22 horas e 35 minutos.
Farrington
postou seus homens nos pontos estratégicos. Tinha uma pergunta na
ponta da língua: devia ou não mandar trazer os aspiradores de pó.
Mas naquele momento Rhodan voltou a falar:
— Enviarei
alguns matemáticos, que examinarão o conjunto defeituoso. É claro
que estes poderão entrar. Entendido?
Lançou
mais um olhar para o relógio. Estava prestes a retirar-se, quando se
lembrou de outra coisa.
— Quanto
tempo levou para chegar aqui, Farrington? — perguntou. — Mais
precisamente, quanto tempo se passou entre o momento em que ouviu a
ordem de Bell e o momento de sua chegada?
— No
máximo noventa segundos — respondeu Farrington. — O alarma soou
às 22:33 h, e quase no mesmo instante ouvimos a ordem de Bell.
Rhodan
agradeceu e foi embora.
*
* *
O
relatório dos matemáticos trouxe notícias desastrosas.
Perry
Rhodan convocou à sala de comando todos os oficiais superiores.
— Encontramo-nos
na iminência de uma catástrofe — disse sem qualquer intróito. —
As esperanças de que possamos evitá-la são bastante reduzidas. O
espião desconhecido conseguiu retirar do centro de memorização os
dados relativos à posição da Terra.
Fez uma
ligeira pausa, a fim de estudar os efeitos que suas palavras
produziam nos ouvintes. Viu que os rostos se tornavam sombrios. Uma
expressão de pavor surgiu nos olhos desses homens, mas logo
desapareceu.
Eles não
se deixavam intimidar por qualquer coisa.
— Devemos
contar com a possibilidade de que o segredo que guardávamos com
tamanho cuidado não demore a chegar ao conhecimento do chefe do
espião, que provavelmente não é outro senão o computador-regente.
Permitam que lhes exponha mais alguns detalhes.
“Conforme
sabem, o desconhecido já obteve do computador positrônico os
princípios dos sistemas terranos de codificação. Por isso dispõe
dos instrumentos que lhe permitem decifrar qualquer código, mesmo
modificado. Quando a modificação é ligeira, a decifração é
rápida, quando complicada, será mais lenta.
“A
posição galáctica da Terra foi armazenada no conjunto Fermat, vale
dizer, segundo a variante de código mais complicada que possuímos.
O espião levará algumas horas — segundo nossos cálculos umas
quatro ou cinco — para decodificar os dados até um ponto em que
possa irradiá-los. É o tempo de que dispomos para evitar a
catástrofe.
“Os
senhores hão de compreender que não podemos contar com um êxito
seguro. Sob a chefia de Bell e com o auxílio do computador
positrônico, alguns dos senhores procurarão fixar as normas de
conduta a serem adotadas caso não conseguirmos impedir a revelação
da posição de nosso planeta. A partir deste momento, todas as
concessões para a utilização da máquina estão canceladas.
“Devem
partir do pressuposto de que o computador-regente de Árcon não
continuará a ser nosso aliado quando descobrir a posição galáctica
de nosso mundo. É bem verdade que colocou à nossa disposição a
maior parte de sua frota de guerra, para que combatêssemos o inimigo
desconhecido, mas é de se supor que essa ordem poderá ser revogada
imediatamente.
“Portanto,
elaborem um plano que preveja a hostilidade do regente; e elaborem-no
de tal maneira que, apesar de toda essa confusão, ainda nos reste
uma chance.”
Bell
escolheu os homens de sua equipe, quinze ao todo. Entre eles havia
sete matemáticos, cinco oficiais saídos da Academia, que seguiam a
carreira político-governamental, e três técnicos muito
familiarizados com a máquina positrônica.
O grupo de
Bell retirou-se imediatamente da sala de comando, a fim de iniciar
seu trabalho. Os outros oficiais voltaram aos seus postos. Poucas
pessoas permaneceram na sala de comando.
Não se
pretendia pôr a nave em movimento antes que passasse o tempo de que
o espião precisaria para concluir seu trabalho, ou antes que
conseguissem prendê-lo.
Atlan, o
arcônida, foi o único que não tinha nada a fazer.
— Você
não admite a possibilidade de o espião irradiar os dados sobre a
posição da Terra, tal qual os recebeu, juntamente com o princípio
de codificação que já havia extraído do computador? —
perguntou, dirigindo-se a Rhodan. — Nesse caso o destinatário da
mensagem poderia quebrar a cabeça para decifrá-la.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Não
acho provável — respondeu. — Se ele possuir um hipertransmissor
de maior potência que esses pequenos aparelhos que emitem sinais
goniométricos, e não podemos deixar de admitir que ele o possua,
pois do contrário não saberia o que fazer com as informações
obtidas, nesse caso será um dos pequenos aparelhos, que trabalham
com um único código transmitindo a mensagem literal. Evidentemente
esse transmissor deve ser um produto arcônida, que funciona com
palavras arcônidas ou segundo um código de Árcon. Portanto, nem
estará em condições de transmitir uma mensagem modificada de
acordo com um código terrano. Além do transmissor precisará de um
transformador de código, que lhe permita decifrar os dados e
transformá-los segundo seu código. E isso exige tempo. Graças a
Deus!
Levantou-se.
— Caso
não tenha nada a fazer — disse como que ao acaso — venha comigo.
Irei ao centro de memorização. Ainda quero examinar alguma coisa
por ali.
— Quer
brincar de detetive? — disse Atlan com um sorriso. — Está bem;
irei com você.
*
* *
O único
acesso ao centro de memorização continuava guardado pelos homens de
Farrington. Dois matemáticos enviados por Rhodan ainda estavam
examinando o anexo defeituoso.
— Já
descobriu o defeito? — indagou Rhodan.
— Sim
senhor. Uma corrente de diodos...
Rhodan
interrompeu-o com um gesto.
— Receio
que não entenderei muito desse tipo de explicação. Prefiro que me
diga qual foi a causa do defeito.
— A
imperícia de quem usou o aparelho — respondeu prontamente o
matemático. — O espião deve ser um principiante. Lidou com o
anexo como se fosse uma calculadora manual. Provavelmente comprimiu
todos os botões, a fim de obter as informações que desejava.
Infelizmente, quando efetuou a ligação que produziu o defeito, já
havia comprimido o botão correto, e a informação já estava a
caminho no momento em que a máquina entrou em pane.
Rhodan
acenou ligeiramente com a cabeça. Não se mostrou muito interessado;
até parecia que não esperara outra coisa.
— Quando
surgiu o defeito?
— Podemos
dar esta informação com a precisão de um segundo — respondeu o
matemático em tom orgulhoso. — O momento da pane foi registrado
pela máquina: 22 horas, 30 minutos e 14 segundos, tempo de bordo.
Rhodan
voltou a acenar com a cabeça. Desta vez parecia muito mais
interessado. Chamou o arcônida para o lado.
— Com
isso surge um novo aspecto — disse. — O alarma foi dado às 22:33
h, quase três minutos depois do momento em que surgiu o defeito. Vim
da sala de comando sem usar a fita transportadora, mas não andei
devagar. Não poderia ter deixado de ver o espião, se ele tivesse
saído pela escotilha.
— É
verdade? Será que seus cálculos são corretos? — perguntou Atlan.
— São
tão corretos que já tenho certeza de que no momento em que passei
junto à escotilha, o desconhecido ainda se encontrava no interior do
centro de memorização. Lembro-me de ter ouvido um ruído; pensei
que fosse uma simples impressão, pois estava muito nervoso. Mas
agora já tenho certeza de que vinha do anexo Fermat e foi emitido no
momento em que surgiu o defeito.
“Voltei
até a escotilha depois de já ter caminhado um bom pedaço além da
mesma. Devo ter refletido por algum tempo se valia a pena dar uma
espiada. Finalmente abri a escotilha e dei uma olhada pela sala.
Descobri a luz vermelha e aproximei-me para ler as letras luminosas.
Depois disso dei o alarma.
“Esta
hipótese está em harmonia com a seqüência temporal. Conclui-se
que o espião não saiu pela escotilha. Precisamos descobrir o buraco
pelo qual saiu, uma vez que evidentemente não está mais no centro
de memorização.”
Atlan não
formulou qualquer objeção. A ironia havia desaparecido de seu rosto
inteligente. A caça ao desconhecido começou a fasciná-lo.
Revistaram
a sala. Bateram nas paredes, pois era perfeitamente possível que o
espião tivesse criado uma saída por meio de um desintegrador e
recolocado o revestimento.
Mandaram
trazer sondas de ultra-som, a fim de não dependerem exclusivamente
do método das batidas. Não encontraram nada.
Subitamente
Rhodan teve uma idéia. Lembrou-se do mingau putrefato de cenouras,
que as equipes de limpeza haviam encontrado nos poços de ventilação.
Examinou
as quatro grades que fechavam as saídas de ar existentes nas
paredes. Três delas estavam intactas. Ao que tudo indicava, não
haviam sido tiradas do lugar desde o momento da construção.
Mas na
quarta grade faltavam os parafusozinhos que a prendiam ao caixilho de
plástico. Rhodan segurou a tela e puxou-a. A grade saiu com a maior
facilidade.
— Oh! —
fez Atlan.
Rhodan
deitou no chão e enfiou a mão direita na saída de ar. Sua mão
chegou ao lugar em que essa saída desembocava no poço quase
vertical. Mas não encontrou nada.
Levantou-se
e lançou um olhar para o arcônida.
— Será
que o espião saiu por aí? — perguntou Atlan.
Rhodan fez
que sim.
— Com
isso a coisa muda de figura, não muda? — indagou Atlan em voz
baixa, mas profundamente impressionado.
Voltaram
ao anexo Fermat, cuja placa frontal de revestimento estava sendo
recolocada pelos matemáticos. A luz vermelha apagara-se; o defeito
havia sido reparado.
— O que
é isso? — perguntou Rhodan de repente, apontando para um tracinho
branco, que descia verticalmente pela placa, partindo da série de
botões de solicitação e chegando quase ao terminal de saída.
O
matemático examinou o risco.
— É um
arranhão — respondeu.
Rhodan já
percebera isso.
— Já o
viu antes?
O
matemático sacudiu a cabeça.
— Não
senhor.
— É
possível que tenha sido feito pelo espião, não é?
O
matemático parecia embaraçado, porque Rhodan o envolvia nesse tipo
de indagações. Acenou ligeiramente com a cabeça e disse em voz
baixa:
— Não
há dúvida.
— Nesse
caso deveria ter usado ao menos uma faca de material bem duro —
interveio Atlan. — Esta placa de revestimento é de metal
plastificado. Como poderia ter sido arranhada?
O
matemático não soube responder. Rhodan sorriu.
— É
simples — disse. — Tirou um canivete e arranhou a placa, para
deixar um sinal. É o que costumam fazer muitos criminosos psicopatas
da Terra. É uma mensagem que diz: “Estive
aqui”.
Fitou
Atlan. O arcônida riu.
— É
isso mesmo. Deve ter sido assim.
O
matemático parecia perplexo. Olhou alternadamente para um e outro
dos interlocutores, mas nenhum deles lhe deu uma explicação.
Rhodan e o
arcônida retiraram-se do centro de memorização.
— Já
sabemos quem é — disse Atlan em tom alegre, enquanto subiam na
fita rolante.
— Acho
que sim — respondeu Rhodan.
— O que
estamos esperando? Basta pormos a mão nele.
Rhodan fez
um gesto negativo.
— Não
acredite que é tão simples assim. No princípio também tive muita
certeza. O espião deveria pensar que ninguém suspeitaria dele. Mas
neste meio tempo cometeu uma porção de erros. Tenho certeza de que
não será fácil encontrá-lo.
— Você
acha que o rato-castor...
Rhodan
levantou a cabeça, sorriu, e não lhe deu nenhuma resposta.
*
* *
Ninguém
sabia quando seria realizada a próxima transição. A que fora
programada havia sido suspensa. Será que Rhodan queria fazer com que
o espião se sentisse inseguro?
Bell
caminhava em direção a seu camarote para descansar um pouco, quando
teve uma idéia. Mudou de direção e caminhou aparentemente ao
acaso, até que parou diante de uma porta. Entrou sem bater.
Gucky
permaneceu sentado.
— Quero
ver quando você vai aprender a comportar-se como um cavalheiro —
resmungou e lançou um olhar de desprezo para Bell. — Nunca ouviu
dizer que se deve bater à porta antes de entrar?
— Para
quê? — perguntou Bell e franziu o nariz. Acrescentou em tom
irônico: — Quem é você para ensinar-me boas maneiras? Aqui fede
que nem um chiqueiro.
O
rato-castor levantou-se devagar.
— Escute
aí, gorducho. Em primeiro lugar, aqui não está fedendo; e, se
fedesse, você não teria nada com isso. Quem decide se fede ou não
fede por aqui sou eu.
— De
acordo, baixote. Não tenho nada contra isso — olhou em torno. —
Aliás, onde está seu amigo Muzel? Dizem que vocês são
inseparáveis.
— Está
com ciúmes? — perguntou Gucky em tom exultante. — Será que
também tem alguma coisa contra Muzel?
— Tenho
muita coisa contra ele — confirmou Bell e viu que o rato-castor já
adivinhara seus pensamentos. — Não se pode confiar num bassê;
todo mundo sabe disso. Se fosse você, não confiaria tanto nele e...
— Espere
aí, gorducho! Você é um invejoso. Eu me dou muito bem com Muzel, e
não será você quem vai nos separar.
— Nunca
nos se-pa-ra-re-mos — ironizou Bell entoando em voz desafinada os
acordes de uma canção da moda e sorriu. — Mas, para ser exato, o
fedor que vinha do poço de ventilação era de cenouras. Não existe
a menor dúvida. Então, o que me diz?
— Ah?
Foi de cenouras? Será que descobriram mais alguma coisa?
— Oportunamente
Rhodan lhe contará. No momento o ambiente anda bastante carregado na
Drusus. O espião roubou as coordenadas da Terra do setor de
memorização. Aliás, você ainda não respondeu à minha pergunta:
Onde está Muzel?
— Na
cozinha. Estava com fome e quis andar um pouco. Por quê?
— Apenas
perguntei por perguntar. Então quis andar um pouco? Resolveu
movimentar suas pernas tortas?
Gucky
empertigou-se.
— Não
admito que você ofenda meus amigos. Você já se olhou no espelho de
short?
— Não...
nunca — gaguejou Bell, que foi tomado de surpresa.
— Pois
olhe. Só assim descobrirá quem tem pernas tortas.
Sem
dignar-se de lançar mais um olhar para Bell, o rato-castor saltou
para o sofá, enrodilhou-se e fechou os olhos. Dali a alguns
segundos, seus roncos davam notícia de que devia ter adormecido.
Bell
caminhou em direção à porta.
— Um dia
essa sua arrogância ainda lhe custará muito caro. Você não perde
por esperar. Ainda implorará para que eu brinque com você e lhe
acaricie o pêlo. Quando isso acontecer, vou...
Não disse
o que pretendia fazer. Retirou-se do camarote.
Foi à
cozinha o mais depressa que pôde.
O
cozinheiro-chefe aproximou-se e mostrou-se solícito em responder às
perguntas do lugar-tenente de Rhodan. Sacudiu resolutamente a cabeça.
— Não
senhor. Deve haver algum engano. O tal do Muzel não veio buscar
carne por aqui. Quem costuma fazer isso é Gucky. Sempre pede ração
dupla — disse em tom enfático. — Aliás, faço questão de
cumprir o regulamento que proíbe a entrada de animais na cozinha.
— E faz
muito bem! — disse Bell em tom de elogio e agradeceu.
Um tanto
pensativo, dirigiu-se ao seu camarote para dormir um pouco.
Descobrira
que não era tão fácil assim imitar o célebre Sherlock Holmes.
*
* *
— É
possível — disse Atlan, dirigindo-se a Rhodan, quando ambos se
encontravam na cúpula panorâmica da Drusus, rodeados pela visão
majestosa do Universo. Escolheram esse lugar para que ninguém os
perturbasse. — Evidentemente essa possibilidade também existe. E
não podemos desprezar qualquer hipótese, seja ela qual for.
Rhodan
confirmou com um gesto. Estava muito sério.
— Pois
bem. Vamos fixar alguns pontos. A ocorrência que se verificou no
poço de ventilação não constitui nenhuma prova definitiva.
Alguém, naturalmente o espião, está interessado em que as
suspeitas recaiam em Gucky e Muzel. O arranhão feito com o canivete
teve por fim chamar nossa atenção para as instalações de
ventilação, e com isso para os menores passageiros da Drusus, que
são Gucky e Muzel. Infelizmente ainda não tive oportunidade de ter
uma entrevista com Gucky, para interrogá-lo a respeito desse mingau
de cenouras. Tenho certeza de que o malfeitor é ele; apenas não
quer confessar.
— Hum —
fez Atlan, abstendo-se de qualquer comentário.
Por alguns
segundos Rhodan fitou o infinito. Em algum lugar, a mais de mil
anos-luz de distância, a minúscula Terra percorria sua órbita. Por
causa dela alguém — sem dúvida o robô-regente de Árcon —
introduzira um espião habilíssimo na Drusus. Provavelmente
tratava-se de um robô. Quando teria acontecido isso?
As
estrelas não lhe deram nenhuma resposta. Mantinham-se no espaço,
imóveis e sem qualquer cintilação; parecia que esperavam. Já
estavam esperando há milhões de anos.
“Esperando
o quê? O fim?”,
pensou Perry.
Atlan
parecia adivinhar os pensamentos de Rhodan.
— Esperam
pelo começo — disse com o sorriso. — Quem vai esperar pelo fim?
Rhodan
retribuiu o sorriso.
— Quer
saber uma coisa, arcônida? — perguntou, apontando com a mão
direita para a profusão de estrelas. — Está vendo esses sóis que
irradiam e mantêm seu calor, dando vida aos planetas?
Atlan
acenou lentamente com a cabeça. Rhodan aproximou-se e cobriu seus
olhos com a mão.
— E
agora? Ainda está vendo os sóis? Atlan esperou até que Rhodan
retirasse a mão. Em seu rosto havia uma expressão de espanto.
Sacudiu a cabeça.
— É
claro que não os vi. Qual é a finalidade da pergunta?
— Pois é
muito simples. Se realizarmos uma transição — admitamos que vamos
saltar em direção à Terra — e mantivermos o espião de Árcon
perto de nós, ele não poderá transmitir.
Os olhos
infinitamente profundos de Atlan estreitaram-se.
— Como
pretende conseguir isso?
— No
momento do salto reunimos os suspeitos em torno de nós. O momento da
transição não será anunciado antecipadamente, para que o
mecanismo de relógio não possa ser ajustado. Se depois da transição
a equipe de goniometria não captar qualquer sinal, teremos certeza
de que o traidor se encontra perto de nós. Não poderá transmitir
sem provocar suspeitas; mas, sem saber, ele as terá provocado.
Então, o que acha?
— Você
deveria ser detetive, Rhodan. Concordo com você, mas acho preferível
anunciar previamente a falsa transição. Quando pretende realizá-la?
— Bem,
ainda temos o problema dos dados roubados. Pretendia não realizar
qualquer transição enquanto não tivéssemos pego o ladrão. Acho
que será recomendável rever este ponto.
Atlan
mudou de assunto.
— O
tratamento de Kulman já deu algum resultado?
— Infelizmente
não. Receio que ainda tenhamos de esperar bastante.
— Quer
saber o que aconteceu?
Rhodan fez
que sim. Atlan inclinou a cabeça para trás, a fim de ver melhor as
estrelas.
— Pois
bem. Exporei uma teoria e tenho certeza absoluta de que esta se
aproxima bastante da verdade. Kulman descobriu uma coisa importante
em Swoofon, e desencadeou o alarma geral. Só depois surgiu a
intervenção dos elementos de Árcon. Uma nova memória foi
introduzida em Kulman, e esta o fez esquecer o que realmente havia
acontecido. Acreditou que sua substituição fosse um ato de rotina.
Ao entrar na nave, trouxe o espião previamente preparado. Assim foi
atingido o objetivo que o inimigo tinha em vista, e Kulman não
poderia revelar mais nada sobre aquilo que havia descoberto.
Rhodan
ouvira atentamente as palavras de Atlan.
— Receio
que tenha sido isso mesmo. Quer dizer que quando tivermos posto as
mãos no espião, ainda teremos outro problema a resolver. Qual foi o
motivo do alarma desencadeado por Kulman? O que foi que ele descobriu
em Swoofon?
Um sorriso
frio surgiu no rosto de Atlan.
— Vamos
por parte. Em primeiro lugar, realizaremos seu plano. Vamos tapar os
olhos do espião, para que ele não possa ver as estrelas...
7
O setor de
controle recebeu ordens para preparar a próxima transição. O
hipersalto foi marcado para as 5 horas e 30 minutos, tempo de bordo.
Atingiria uma distância de trezentos anos-luz, levando diretamente à
Terra. Era ao menos o que foi anunciado através do sistema de
intercomunicação de bordo.
Rosita
Peres e Sköldson, o chefe da equipe médica, ficaram muito
espantados quando Rhodan compareceu a sua seção e lhes disse que
por ocasião da transição o paciente Kulman deveria permanecer na
sala de comando da nave. Formularam algumas objeções, mas não
havia o que demovesse Rhodan desse intento. Kulman viu-se livre de
uma situação nada invejável e esboçou um sorriso de
agradecimento. Estava plenamente convencido de que o trabalho dos
médicos e psicólogos seria inútil. Em sua opinião, a idéia de
que alguém poderia ter introduzido nele uma nova memória não
passava de vaga especulação.
Atlan foi
buscar Gucky e Muzel.
Ou melhor,
tentou buscá-los, pois não conseguiu encontrar os dois amigos. Não
houve outra alternativa senão anunciar pelo sistema de
intercomunicação que Gucky e Muzel deveriam comparecer à sala de
comando.
Os
ponteiros do relógio continuaram a avançar.
Atlan não
voltou à sala de comando, mas dirigiu-se ao Laboratório de
Análises. Dali foi até ao setor em que eram tratados os doentes.
Fez perguntas aparentemente desconexas, e depois subiu à fita
rolante para ir à cozinha, onde conversou com o cozinheiro-chefe.
Voltou ao camarote de Gucky, e ali permaneceu por dez minutos. Só
depois compareceu à sala de comando, onde ocupou seu lugar sem dizer
uma palavra.
Rhodan
lançou-lhe um olhar indagador, mas não disse nada.
Os
ponteiros marcavam 5 horas e 20 minutos.
Como
sempre, Farrington se mantinha de prontidão com seu comando equipado
com aspiradores de pó. Os rádio-goniômetros portáteis haviam sido
distribuídos pelos lugares adequados. Kulman conversou em voz baixa
com Bell, e perguntou logo a ele como andavam as coisas. As
informações que recebeu não foram muito tranqüilizadoras.
Rhodan
olhou para o relógio. No momento em que pretendia dirigir-se ao
quadro de comando do intercomunicador, o ar começou a tremeluzir no
centro da sala. Gucky materializou-se, juntamente com Muzel. O bassê
pulou dos braços do rato-castor, olhou em torno muito espantado e
por fim chorou baixinho e dirigiu-se a Kulman, que o cumprimentou com
demonstrações efusivas de alegria.
— Por
que demoraram tanto? — perguntou Rhodan em tom áspero ao
rato-castor. — Mandei anunciar...
— Estávamos
brincando — disse Gucky em tom ressentido e acomodou-se sobre o
largo traseiro. Seus olhos castanhos o fitaram com uma expressão tão
fiel que Rhodan teve de esforçar-se para não rir. — Muzel fez
questão de caminhar mais um pouco pela nave, antes que
regressássemos à Terra.
Atlan
levantou a cabeça.
— Ah!
Quer dizer que Muzel só manifestou o desejo de brincar depois que
havia sido transmitida a notícia de que iríamos para casa?
Gucky
confirmou com um gesto; parecia espantado.
— Antes
do aviso estávamos dormindo. Tínhamos comido pouco antes.
— Naturalmente
comeram carne e cenouras?
Mais uma
vez Gucky limitou-se a fazer um gesto afirmativo.
O relógio
mostrava que faltavam cinco minutos para a transição.
Atlan
caminhou a passos largos para um dos cantos da sala de comando e fez
sinal para que Gucky se aproximasse. O rato-castor obedeceu. Longe do
alcance do ouvido dos outros, o imortal cochichou algumas palavras
para Gucky e envolveu seu próprio cérebro por uma barreira, para
que ninguém pudesse ter qualquer idéia de seus pensamentos.
Gucky
lançou um olhar ligeiro para Kulman, acenou lentamente com a cabeça
e voltou ao seu lugar.
Faltava um
minuto.
Naquele
instante só quatro pessoas a bordo da Drusus sabiam que o salto não
os levaria à Terra, mas apenas os faria percorrer mais alguns
anos-luz em direção ao centro da Via Láctea. Essas quatro pessoas
eram Rhodan, Atlan, Bell e Sikermann.
Cinco
horas e trinta minutos!
O salto
foi curto, mas ninguém deixou de sentir a dor provocada pela
distorção, que não durou mais que três ou quatro segundos. Essa
dor se manifestava numa contração acentuada dos nervos do rosto ou
do corpo.
Atlan
ficou com os olhos bem abertos e registrou um fato estranho, que
parecia confirmar suas suspeitas. Kulman não percebeu nada.
Continuava a acariciar seu possoncal, como se não houvesse outros
problemas a bordo da Drusus. O cão parecia não sentir a dor causada
pela transição.
Rhodan
mantinha-se na expectativa. A qualquer momento, talvez, o transmissor
de sinais goniométricos deveria entrar em ação desde que o espião
ainda tivesse tido tempo para livrar-se do aparelho.
— Gucky
— perguntou Atlan, e até parecia que a pergunta tivesse sido
combinada antecipadamente. — Por onde andou com Muzel antes de vir
para cá?
— Nos
hangares. Mais precisamente, no hangar K-37.
Atlan
limitou-se a acenar com a cabeça.
De repente
Gucky caminhou decididamente em direção a Kulman, plantou-se à
frente do mesmo e tomou impulso. O soco de sua pata direita atingiu o
traseiro peludo de Muzel, atirando-o para fora do colo de Kulman, que
parecia estupefato ao tomar conhecimento da incrível ocorrência.
Bell não
compreendia mais nada. Ficou boquiaberto e assim permaneceu. Parecia
não entender nada.
Gucky
esbravejava:
— Seu
animal nojento! Miserável!
Procurou
desferir outro soco em Muzel, mas desta vez o bassê não foi tomado
de surpresa. Com um salto incrível, que quase o levou até o teto da
sala de comando, passou por cima de seu companheiro de folguedos,
escapando à ação de sua pata.
Naquele
momento Rhodan foi o único que deu atenção a Atlan, que segurava
uma arma, mais precisamente um pequeno radiador de impulsos térmicos,
mas muito potente.
Assim que
o possoncal voltou a tocar o chão, o imortal atirou.
A energia
fortemente enfeixada atingiu o crânio de Muzel, que se desmanchou em
fumaça. Um cheiro repugnante espalhou-se. O cadáver do gracioso
bassê jazia no centro da sala de comando.
Gucky
desapareceu no mesmo instante. Fizera aquilo que Atlan pedira.
Acreditara piamente nas afirmativas do imortal, por mais que isso lhe
desgostasse. Agora, que via o corpo desfigurado do amiguinho,
preferiu teleportar-se. Provavelmente dirigira-se ao seu camarote.
Kulman
levantou-se gritando apavorado. Com os olhos arregalados fitou os
restos de Muzel. Sua boca abriu-se e balbuciou alguma coisa. Os
circunstantes não demoraram muito em entender sua palavras:
— Muzel!
Querido Muzel! Atlan o matou... mas o que estou fazendo aqui? O sinal
de alarma!... Isso mesmo; a Terra está em perigo... Preciso falar
imediatamente com Rhodan!
Atlan
acenou para Rhodan e guardou a arma.
— Kulman
sofreu um choque. Acho que muitas vezes um bom susto vale mais que
qualquer psicoterapia. Aposto que Kulman recuperou a memória.
Kulman, já sabe por que transmitiu o sinal “três
toques de sino”?
O agente
acenou lentamente com a cabeça:
— Sei.
Será que alguma vez fiquei sem saber? Por que matou Muzel? Ele lhe
fez alguma coisa?
Atlan
dirigiu-se a Rhodan:
— Deixe
Kulman descansar. Depois de algumas horas de sono, poderá contar o
que sabe.
Aguardou a
chegada do pessoal da equipe médica, que levou Kulman. Depois
prosseguiu:
— Foi
uma pena eu ter destruído tudo que estava nesse crânio. Não
acredito que no resto do corpo descubramos qualquer coisa
interessante. Sköldson fez uma radiografia sem que ele o percebesse.
Muzel possui tudo que faz parte de um autêntico ser orgânico: um
esqueleto, nervos, sangue. Só na cabeça havia uma pequena cápsula.
Uma vez que Muzel veio de Swoofon, suponho que essa cápsula tenha
sido o robô. O resto não passava de substância biológica. Quer
dizer que Muzel não pode ser considerado nem um robô, nem um
andróide. Era ambas as coisas ao mesmo tempo.
Voltou a
erguer-se.
— Aliás,
você sabe como ele se traiu?
— Não —
respondeu Rhodan.
— Em
tempos idos, quando já era rico, mas ainda não estava carregado de
honrarias, costumava caçar com possoncais. São os melhores cães de
fila da Galáxia. Encontram qualquer pista e sabem fazer quase tudo.
Mas há uma coisa que não fazem: saltar. Sob a gravitação normal
um possoncal autêntico não consegue subir mais de trinta
centímetros. Acontece que este aqui saltou quase até o teto; pedi a
Gucky que o provocasse. Foi assim que Gucky traiu seu melhor amigo
que, por pouco, não provoca um perigo terrível para a Terra. Como
vê, até mesmo um robô comete enganos.
Naquele
instante Farrington chamou.
— Alô,
sala de comando! Localizamos e inutilizamos o transmissor
goniométrico.
Rhodan fez
um sinal para Atlan.
— Quer
dizer que ainda conseguiu colocá-lo. Havia tempo de sobra para isso.
Agora já sei por que fez tanta questão de brincar.
Falando
para dentro do microfone do intercomunicador, perguntou a Farrington:
— Onde
foi encontrado o transmissor? A resposta removeu as últimas dúvidas:
— No
hangar K-37.
Atlan
dirigiu-se lentamente ao lado oposto da sala de comando e sentou-se.
— Acredito
que ainda lhes devo algumas explicações — disse.
*
* *
Na opinião
de Rhodan, todas as pessoas que se encontravam a bordo da Drusus
tinham o direito de ser informadas sobre a situação. Por isso
mandou ligar a instalação geral de intercomunicação. Foi como no
dia anterior, quando Atlan havia contado a história da Atlântida.
Todos os
ocupantes da nave podiam ver e ouvir o que estava acontecendo na sala
de comando.
Atlan fez
um gesto de cumprimento em direção às câmeras e aos microfones
ocultos.
— Mister
Kulman, acho que o senhor ainda não está dormindo. Por isso quero
pedir-lhe que também participe do esclarecimento do caso. Afinal, o
principal interessado é o senhor, pois foi depois de sua volta à
Drusus que surgiu o misterioso espião. As escotilhas da nave não
foram abertas, exceto no momento em que a Gazela saiu e voltou a
entrar. Não havia outra alternativa. O espião era o senhor ou
Muzel; ou então o espia deveria ter subido a bordo com um dos dois.
“Minhas
primeiras suspeitas recaíram no senhor, Kulman. Constatamos a
presença da barreira hipnótica, e por isso não estava eliminada a
possibilidade de que o senhor estivesse distribuindo os minúsculos
transmissores de sinais goniométricos. Acontece que depois de ter
sido entregue aos cuidados da Divisão Psicológica, o senhor já não
poderia ser considerado o autor de tais atos. Miss Peres asseverou
que o senhor não saiu da mesa de operações, enquanto os pequenos
transmissores continuavam a aparecer e eram prontamente encontrados.
Com isso o senhor foi excluído. Portanto, só restava Muzel.
“Mas
quem há de desconfiar de que um possoncal possa cometer tamanha
traição? A inteligência desse animal não é suficientemente
desenvolvida para reagir a um bloqueio hipnótico. Seria totalmente
impossível. Por isso só restou a suposição absurda de que Muzel
fosse um robô. Acontece que muitos fatos falavam contra essa
hipótese. O senhor viu Muzel sangrar, se bem que não tenhamos
condições de saber se esse fato foi gravado em sua memória real,
ou se lhe foi sugerido. Ainda havemos de descobrir isso. Seja como
for, eu mesmo vi Muzel sangrar, e mandei analisar o sangue em nosso
laboratório. Não restava a menor dúvida: o sangue de Muzel era
sangue autêntico de possoncal.
“Ainda
acontecia que Gucky se mantinha constantemente em companhia de Muzel.
Todos conhecemos a elevada capacidade telepática do rato-castor. Se
Muzel fosse um robô, Gucky teria descoberto o fato logo no primeiro
contato. Entretanto Muzel pensava como um ser orgânico e
semi-inteligente. E pensava na água e nos microrganismos que bóiam
na superfície. A conclusão era uma só: Muzel não era nenhum robô,
pois um robô não possui cérebro, ou ao menos não possui nenhum
cérebro pelo qual um telepata possa orientar-se. Com isso Muzel foi
excluído do rol dos suspeitos, até o momento em que descobrimos o
estranho mingau de cenouras.
“Gucky é
o único ser a bordo que come cenouras frescas. O resto da tripulação
alimenta-se quase exclusivamente de conservas, que são baratas e não
exigem muito espaço. Já Gucky não pode parar de roer alguma coisa.
Uma vez que se havia afeiçoado a Muzel, deu-lhe parte das suas
cenouras, embora devorasse pessoalmente a maior quantidade da ração
dupla. Muzel comia praticamente qualquer coisa, inclusive cenouras.
Gucky acreditava que o possoncal deveria ter uma predileção toda
especial por essa iguaria.
“O que é
que um robô poderia fazer com alimentos orgânicos? Não podendo
aproveitá-los, teve de livrar-se dos mesmos. E foi o que Muzel fez.
Despejou o conteúdo de seu estômago nos poços de ventilação.
Embora Muzel fosse principalmente um ser orgânico, sua digestão não
funcionava muito bem. Seus... bem, seus construtores deram um jeito.
Tinham de contar com a possibilidade de que o robô Muzel voltasse a
expelir o alimento ingerido. Por isso implantaram em seu organismo
uma glândula que impregnava o bolo alimentar de fermento de
arconidizim,
a fim de apressar a digestão ao máximo. Ninguém teria dado pelo
fato, se Muzel tivesse despejado sua carga em outro lugar, mais
precisamente no lugar adequado. Acontece que escolheu as instalações
de ventilação. Foi o seu primeiro engano. Mas o erro definitivo foi
cometido no centro de memorização.
“Enquanto
a Drusus se mantinha em estado de prontidão, Muzel introduziu-se
sorrateiramente no recinto e furtou as coordenadas da Terra. Seus
conhecimentos sobre a maneira de lidar com aparelhos positrônicos,
especialmente os terranos, eram praticamente nulos. Por isso
danificou a máquina. Houve outro detalhe. Seu tamanho não lhe
permitia atingir as chaves situadas na parte superior da máquina.
Teve de saltar. Com isso arranhou a chapa de revestimento. A unha de
um verdadeiro possoncal não seria capaz de arranhar uma chapa de
metal plastificado. Acontece que Muzel era um robô. E suas unhas
eram feitas de metal plastificado, com o que lhes foi conferida maior
agilidade que a das unhas comuns, já que teriam de efetuar
manipulações bastante complicadas.
“Mal
terminou seu trabalho, Rhodan, o comandante, apareceu. Não sabemos
se a fuga pelo sistema de ventilação estava nos planos de Muzel. De
qualquer maneira, não há dúvida de que o caminho fora preparado
antecipadamente, já que os parafusos da grade haviam sido removidos.
“Seu
cérebro robotizado concluiu que Rhodan o notaria, se saísse pela
escotilha. Conforme veremos, Muzel tinha dois cérebros. Por isso
procurou fugir pelo caminho costumeiro. O sistema de canais de
ventilação parecia especialmente talhado para ele. Os tubos lhe
permitiam atingir num instante qualquer ponto da nave. Serviam também
para esconder-se e obrigar Gucky a procurá-lo. Este não iria
quebrar a cabeça para descobrir como o bassê conseguira deslocar-se
tão depressa. É bem possível que Gucky, um teleportador, não seja
dotado do sentido normal do tempo para os deslocamentos feitos a pé.
“Quanto
ao segundo cérebro de Muzel. Os construtores do espião quase
perfeito não haviam esquecido nenhum detalhe. Sabiam que temos
telepatas, que logo teriam identificado um robô. Por isso Muzel
teria de irradiar impulsos mentais autênticos.
“Provavelmente
nunca descobriremos de quem foi o cérebro implantado no crânio do
possoncal. Pelas indicações de Gucky parece ter o cérebro pequeno
de um animal aquático, talvez um peixe ou uma medusa...”
Atlan
calou-se, espantado.
Alguém
começou a rir a bandeiras despregadas.
Era
Reginald Bell, que se encontrava de pé ao lado de Rhodan. Suas
gargalhadas eram tão fortes e gostosas que contagiaram a quase
todos. Dali a pouco metade da tripulação ria, sem saber qual era o
motivo da alegria de Bell.
Finalmente
ficou quieto, ao que parece porque sentiu falta de ar.
— Permite
uma pergunta? — disse Atlan em tom cortês. — Qual é o motivo da
hilaridade do cavalheiro? Não me lembro de...
Por pouco
Bell não irrompe novamente numa série de gargalhadas. Falando com
dificuldade, foi dizendo:
— Quando
penso que... ah, ah, ah... que Gucky dormiu todo este tempo com uma
medusa... hi, hi, hi... e lhe deu cenouras para comer...
Voltou a
irromper em gargalhadas.
Atlan
aguardou tranqüilamente, e sem revelar a menor comoção, que a
calma se restabelecesse. Depois prosseguiu:
— Kulman
não sabia de nada. Acreditava que já conhecia o Muzel há semanas
ou mesmo meses, mas é bem possível que ontem o tenha visto pela
primeira vez. Os desconhecidos deram-lhe outra memória, agindo por
ordem de Árcon; acredito que este ponto não comporta a menor
dúvida. Kulman foi obrigado a esquecer o motivo do alarma e a levar
Muzel para bordo da Drusus ou de outra nave que um dia voltaria à
Terra.
Assim que
houve uma ligeira pausa, Rhodan perguntou:
— E os
pequenos transmissores goniométricos?
— Ah,
sim... — disse Atlan, como se só agora se lembrasse disso. —
Muzel tinha cerca de cento e cinqüenta aparelhos desse tipo na
barriga. Teríamos de dar muitos saltos por aí para nos apoderarmos
de todos. Em cada transição gastava apenas um deles. Estavam
guardados numa espécie de depósito. Bastava que Muzel executasse
determinado movimento para que um dos transmissores fosse introduzido
num tubinho que terminava na boca. Enquanto o aparelho era expelido
do depósito, o mecanismo era regulado automaticamente para o momento
exato.
“Muzel
agiu da seguinte maneira: depois de cada transição, afastava-se de
Gucky dizendo que estava com vontade de brincar, “cuspia”
o transmissor em algum lugar e esperava que Gucky o procurasse. Tudo
correu perfeitamente, sem provocar a menor suspeita.
“Apenas
por ocasião da última transição, que foi previamente anunciada e,
conforme se dizia, nos levaria à Terra, Muzel expeliu o transmissor
antecipadamente. Gucky, que ouvira o aviso, lhe comunicara que
durante o salto deveria permanecer na sala de comando. E durante a
transição notei outro detalhe...”
Atlan
sorriu ligeiramente e olhou para os restos do espião, que estavam
guardados numa caixa, para serem submetidos a um cuidadoso exame.
— Enquanto
todos, inclusive Gucky, sofriam a dor da transição, Muzel
manteve-se impassível. Não sentiu nada, absolutamente nada.
Acontece que um possoncal é um ser orgânico como qualquer outro.
Não poderia deixar de sentir a dor. Quando notei esse fato, tive
certeza absoluta: Muzel era o espião.
— Acredito
— disse Rhodan em meio ao silêncio que se estabeleceu de repente —
que dentro em breve teremos de ajustar contas com alguém.
— Com
quem? — perguntou Bell com a voz tensa, enquanto Atlan continuava a
sorrir.
— Com o
computador-regente de Árcon. Espero que isto não fira a
sensibilidade de meu amigo Atlan.
Atlan fez
que não.
— Acho
que já lhe disse que para mim esses dois ou três milhões de
toneladas de lata não são nenhum arcônida. Faça o que melhor lhe
aprouver com o regente. Para mim isso é totalmente indiferente.
Rhodan
sabia que tinha duas tarefas importantíssimas pela frente. Não
poderia deixar de voltar a Swoofon. A Terra não poderia dar-se ao
luxo de permitir que em suas imediações existisse um mundo cuja
maravilhosa técnica microscópica estava ao inteiro dispor dos
arcônidas e dos saltadores.
Nessa
oportunidade lembrou-se de que ainda não ouvira o relato autêntico
de Kulman. Isso devia ser feito assim que o agente despertasse do
sono profundo em que estava mergulhado.
A segunda
tarefa consistia em lembrar ao computador-regente de Árcon que um
acordo havia sido concluído, e que ele, Rhodan, de forma alguma
aceitava a “interpretação”
que o robô regente estava dando a esse acordo. Teria de fazer o
possível para que compreendesse que sem o auxílio dos terranos
seria fatalmente derrotado na luta contra o inimigo vindo de outra
dimensão temporal, pois uma máquina não tem a sensação do tempo,
e esse fato iria reverter em prejuízo de Árcon.
Mas a mais
difícil das tarefas era representada pelos seres atemporais, que
naquela hora deveriam estar escondidos em algum lugar, aguardando o
momento para atacar.
Continuavam
a representar o perigo mais grave. E Rhodan levava esse perigo muito
a sério.
Voltou a
fitar Atlan, e depois dirigiu-se a Sikermann.
— Modifique
a rota da Drusus, levando-a em direção ao sistema de Swaft.
Anunciarei o momento da transição assim que tivermos ouvido o
relato de Kulman. Até lá... bem, quanto a mim, até lá vou dormir
um pouco. Recomendo que todos aqueles que não se encontrem em
serviço façam o mesmo. Até logo mais.
Bell
seguiu-o com os olhos.
— Eu
também deveria dormir — resmungou um tanto contrariado. — Mas
antes disso quero conversar com Gucky. Acho que agora, depois de
perder seu amigo, precisa de alguém que o console.
Quando já
se encontrava junto à porta, Atlan disse atrás dele:
— Caso
daqui a pouco o senhor precise de consolo, não deixe de me avisar...
Bell fez
como se não tivesse entendido a advertência velada que havia nas
palavras de Atlan.
*
* *
*
*
*
Daqui
por diante, o computador-regente de Árcon terá de agir de forma
diferente, se quiser prosseguir em suas tentativas de descobrir a
posição galáctica da Terra. Em Os Anões Azuis, as surpresas se
multiplicam.

Nenhum comentário:
Postar um comentário