A máquina
foi ocupada por dois maquinistas novos, mas isso não representou
qualquer alívio para mim. Preferi não influenciar os homens com o
projetor mental para conseguir ao menos um gole de água e um pouco
de alimento. Se fossem examinados pelos mutantes de Rhodan na estação
de destino, o bloqueio hipnótico não deixaria de ser constatado. E
então já conheceriam o local aproximado em que eu poderia ser
encontrado.
Tive de
suportar as horas que se seguiram num estado de esgotamento total.
Atravessamos várias cadeias montanhosas, até que chegamos à bacia
gigantesca do rio Bramaputra.
O segundo
revezamento representou um risco enorme para mim, pois a máquina
voltou a ser revistada. Ao que parecia, novas ordens haviam chegado
de Terrânia.
Quando
finalmente entramos na grande estação de carga de Calcutá,
cambaleei ao tanque de água mais próximo, sem dar atenção aos
riscos ligados a esse procedimento.
Dali em
diante, o martírio foi diminuindo. No aeroporto da metrópole
indiana, descobri um transportador aéreo destinado a Tel-Aviv. Desta
vez, vi-me obrigado a influenciar o controlador com o projetor
mental, pois dependia de sua cabine pressurizada. Embora o aparelho
desenvolvesse apenas seis vezes a velocidade do som, voava a trinta
quilômetros de altitude. Se permanecesse nos compartimentos de
carga, eu morreria sufocado.
Em
Tel-Aviv, comecei a notar o enfraquecimento progressivo da capacidade
da bateria. Estava na hora de desligar o pequeno defletor de ondas
luminosas.
Por isso,
nem saí do aeroporto de Tel-Aviv. Procurei outra aeronave. Na
cantina do pessoal de superfície, pude saciar a fome que me
martirizava.
Peguei um
pequeno avião-transporte pertencente a uma empresa estatal de
lubrificantes e cheguei a Trípoli. Aí, encontrei o aparelho
particular de um funcionário libanês estacionado no aeroporto.
Quando o
mesmo chegou num helicóptero de ligação, deduzi da palestra que
travou com o piloto que se encontrava numa viagem de serviço, pois
era esperado em Casablanca, onde participaria de uma conferência de
técnicos de irrigação. Tratava-se da construção de uma grande
estação de recalque. O resto não me interessava. A cidade de
Casablanca, situada na costa ocidental da África, era um local muito
favorável para a realização do meu projeto.
Decolamos
ao escurecer. Sentei bem ao lado do libanês, que ficou submetido
totalmente à influência do projetor mental. O piloto também
reagira de acordo com os meus desejos.
Recorri às
abundantes provisões da dispensa de bordo do veículo de luxo para
saciar a fome e a sede e preparei-me para o próximo salto.
As
transmissões de rádio e televisão relativas à minha fuga se
sucediam. Limitei-me a ouvir apenas o que os locutores oficiais
tinham a dizer.
Nunca
ouvira uma descrição tão exata de minha pessoa. A televisão
terrana chegou mesmo a transmitir séries inteiras de fotografias,
com base nas quais até mesmo uma pessoa quase cega conseguiria
reconhecer-me.
Recorriam
a todos os meios para procurar-me, mas do noticiário depreendia-se
sem a menor sombra de dúvida que haviam perdido minha pista. Agora
felicitava-me pela decisão de saltar sobre o trem de carga que
partira naquele momento.
Provavelmente
os matemáticos do serviço de defesa calcularam cada segundo. Se não
pudessem reconstituir exatamente meu roteiro de fuga, os dados finais
não seriam corretos. Por isso, a idéia do trem de carga não
poderia ocorrer-lhes.
Os
aparelhos de localização supereficientes produziram um resultado
negativo. Ao que tudo indicava, supunham que ainda me encontrava em
Terrânia. Para mim, isso era mais que conveniente.
— Pousaremos
dentro de dez minutos, Sir — disse o piloto sem que ninguém lhe
perguntasse. Dera-lhe a ordem correspondente por via hipnótica.
Arrumei a
cabine, guardei os mantimentos não consumidos e ordenei aos dois
homens que esquecessem minha presença.
Sob a luz
fraca do projetor mental, vi que seus rostos se tornavam ainda mais
apáticos. Acabara de aplicar-lhes um poderoso bloqueio hipnótico.
O campo de
pouso de Casablanca continuava mergulhado numa escuridão total.
Havíamos corrido pela noite. Passava pouco das duas horas da
madrugada, bastante cedo para que pudesse prosseguir na execução do
meu projeto.
Poucas
semanas atrás, quando fizera a primeira tentativa, escondera o traje
pressurizado de profundidade numa caverna da costa alcantilada. O
local ficava perto da cidade de Tanger, que poderia ser atingida
antes do amanhecer.
Nosso
piloto preparou o pouso. Vi-o girar os propulsores de radiações
presos às asas, dirigindo os fluxos de partículas para baixo.
Tocamos o
chão suavemente, como se estivéssemos num helicóptero, deslizamos
alguns metros e paramos. Abri a porta, saltei e fechei-a atrás de
mim, antes que o avião começasse a deslizar novamente na pista.
Com alguns
saltos, desapareci na escuridão. Pouco depois, descansei atrás de
um hangar em que não havia ninguém.
Bem longe
dali o funcionário saiu de um pequeno aparelho. Vi que um carro o
esperava. Estava tudo em ordem.
Levei uma
hora para descobrir um meio de prosseguir viagem. Uma pessoa do meu
tipo não recua diante da perspectiva de penetrar na cova do leão.
Aproximei-me
furtivamente do helicóptero ligeiro da guarda costeira e esperei até
que os dois funcionários destacados para o patrulhamento aéreo
aparecessem.
Quando
entraram, já me encontrava no compartimento de carga. Depois da
decolagem, só levei alguns segundos para submetê-los à influência
do projetor mental. O enrijecimento de seus rostos demonstrava que já
não possuíam vontade própria. Esgueirei-me pela estreita porta e
acomodei-me no banco traseiro.
O vôo
levava-nos para o norte. Bem abaixo de nós, brilhavam as ondas
brancas do Atlântico Sul.
— Siga
diretamente pela rota de Tanger — ordenei em voz lacônica. — Se
sua estação de controle fizer qualquer pergunta, diga que notou a
presença de alguns veículos expressos na via expressa litorânea, e
que pretende revistá-los um por um. Entendido?
— Entendido,
Sir — disse o piloto.
O tenente,
que se encontrava a seu lado, olhava para a frente, com uma expressão
apática no rosto.
— Centro
Blanca para patrulha seis, favor responder.
— Patrulha
seis, tenente El Habid. Pode falar.
Quando
ouvi o som do radiofone, estremeci. Se a tripulação recebesse
ordens definidas, que a obrigassem a sair da rota por mim desejada, a
situação poderia complicar-se.
— Atenção,
patrulha seis — soou a voz forte vinda do alto-falante. — Voe
pela linha da costa e procure um iate ligeiro que segue a rota de
Mechra el Hade. O nome da embarcação é Almeria, e usa a bandeira
espanhola. Controle a tripulação e procure encontrar a pessoa que
está sendo procurada. Desligo.
— Entendido,
centro de Blanca. Seguiremos pela linha costeira. Desligo.
O oficial
da patrulha aérea desligou. Examinei o reluzente mapa em relevo
junto ao painel de instrumentos.
A
localidade de Mechra el Hade situava-se entre Casablanca e Tanger,
bem na rota que desejava seguir. Uma vez que a cidade de Tanger
ficava apenas a cerca de 300 quilômetros em linha reta, poderia
checar dentro de trinta minutos.
Transmiti
minhas instruções ao piloto. O transformador do pequeno reator de
fusão que ficava atrás de mim começou a zumbir com mais força. O
rotor, que corria em ponto morto, produziu um matraquear superado
pelo trovejar do propulsor de radiações térmicas.
Voávamos
a 600 km/h em direção ao lugar dos meus sonhos. Não houve nenhum
incidente, até que bem à nossa frente surgissem as luzes da grande
cidade de Tanger.
Mandei que
o piloto se dirigisse para a praia deserta situada entre Tanger e o
subúrbio de Arcila. Saí do aparelho ao sul da Via expressa
litorânea.
Muito
tenso, segui com os olhos a máquina que se afastava, até vê-la
desaparecer na escuridão. Era possível que viessem, a surgir
complicações, se o chefe da patrulha não conseguisse explicar por
que resolvera voar até Tanger. Até lá teria que manter-me num
lugar onde em hipótese alguma pudesse ser encontrado.
Enquanto
pensava assim, meu supercérebro transmitiu uma mensagem formada por
uma única idéia.
“Cansado,
seu idiota!”
Era claro
que estava cansado, mesmo exausto. Nos esconderijos em que me
encontrara até então, poucas vezes consegui dormir de verdade.
Teria de passar o dia na caverna bem camuflada e aguardar a noite
seguinte para prosseguir na execução do meu plano. Se o destino
trabalhasse contra mim, os soldados da patrulha, por mim
influenciados, colocariam a defesa solar na minha pista. No momento,
não sabia como faria nesse caso para voar no meu traje especial pelo
mar aberto até os Açores. Não se devia subestimar a raça ativa
dos terranos.
Cheguei ao
esconderijo pouco antes do amanhecer. A caverna ficava no paredão
entrecortado e batido pelo sol. Ninguém conseguiria vê-lo de cima.
Verifiquei
os equipamentos cuidadosamente guardados, bebi e comi alguma coisa e
deitei-me para dormir.
Meu traje
pressurizado de profundidade estava em perfeita ordem, e também o
equipamento de vôo. Antes de mergulhar num sono pesado, entrecortado
por sonhos terríveis, voltei a refletir sobre meu projeto.
Ninguém
sabia da existência de minha cúpula blindada, situada no fundo do
mar. As máquinas e instrumentos ali instalados permitiam uma
transformação completa de minha pessoa. Era um fator que o serviço
de defesa não poderia incluir em seus planos.
Teria que
descobrir um astronauta terrano que se assemelhasse a mim na estatura
e na expressão do rosto. Quando este homem se encontrasse na minha
base, seria relativamente fácil imitar seu corpo. Depois ocuparia
seu lugar de tripulante num veículo espacial destinado a Vênus.
Ao pensar
no planeta Vênus, tive a impressão de ver Marlis Gentner à minha
frente. Disse que me esperaria em Port Vênus.
No grande
espaçoporto do segundo planeta do sistema solar, costumavam ser
despachadas as naves intergalácticas. Ali talvez conseguisse
encontrar um meio de viajar para o sistema de Vega. Quando me
encontrasse fora da área submetida à influência imediata da Terra,
encontraria um meio de prosseguir.
No sistema
de Vega estavam estacionadas unidades da frota espacial solar. Sem
dúvida conseguiria apoderar-me de uma Gazela de velocidade superior
à da luz, que me levaria para casa.
Para casa!
A idéia de Árcon, do Grande Árcon, me causou um calafrio. O que
poderia fazer se meu povo venerando realmente estivesse degenerado?
“Chamar
Rhodan!”,
disse meu supercérebro. “Voltar
à Terra.”
Bastante
contrariado, virei-me para o outro lado e fechei os olhos com força.
O setor lógico de meu ser poderia adivinhar à vontade. Se
pretendesse voltar à Terra, seria absurdo prosseguir na fuga.
*
* *
A noite
estava escura e não havia uma única estrela no céu. Regulei o
aparelho de absorção de gravidade para 0,1 por cento do valor
terrano.
O campo
energético pressurizado de alta potência de meu traje de
profundidade iluminou-se assim que entrou em contato com as águas
escuras e encapeladas do Atlântico.
Meu vôo
decorrera sem o menor incidente. Mantive-me bem perto da superfície
da água, senão seria praticamente impossível localizar-me por meio
de aparelho.
No momento
em que mergulhei no mar, em algum ponto ao sul da ilha de São
Miguel, meu goniômetro registrou o impacto de impulsos de radar
transmitidos em onda curta, que provavelmente estariam sendo emitidos
por uma aeronave que se deslocava em grande altitude. Quando
desapareci nas águas, o chiado agudo cessou.
Deixei-me
baixar com uma força de 3 G, até que o fundo entrecortado do mar
surgisse embaixo de mim.
Aqui era
tudo silêncio e solidão. Os únicos ruídos que perturbavam o
ambiente solene eram o zumbido do meu transformador e os estalidos
agudos do projetor. A pressão do vibrador de ondas me fez deslizar
sobre as grandes reentrâncias do fosso dos Açores, que começava
neste ponto. Fiz a antena submarina emitir o primeiro sinal de
identificação.
Até
então, a tripulação de robôs de minha cúpula mostrara-se
infalível. E foi também o que aconteceu desta vez. Depois de
emitido o terceiro sinal, ouvi os sons inconfundíveis dos raios
vetores, que indicavam a direção exata. Dentro de poucos minutos,
descobri o fosso profundo em que estava escondida minha edificação
de aço. Desci, parei numa saliência da encosta e contemplei a
montanha de lama que ocultava a forma semi-esférica.
A luz
infravermelha do meu holofote de capacete voltou a atrair os peixes
de formas bizarras que habitavam as águas profundas, e que desde
longos tempos haviam sido meus únicos amigos.
Esperei
até que o raio energético deixasse livre a pequena comporta. A lama
levantada pela turbulência assentou devagar. Quando consegui
enxergar um pouco melhor, percorri as poucas centenas de metros que
me separavam da escotilha aberta.
Antes de
entrar na câmara da comporta, voltei a olhar em torno. Encontrava-me
a 2.852 metros de profundidade. Aqui só poderia ser descoberto por
um submarino, mas estes não costumavam arriscar-se a entrar nas
estreitas fendas do fundo do mar.
Há poucos
meses alguém me havia confundido com um peixe. Hoje o fato parece
engraçado, mas na época foi uma experiência terrível.
Entrei na
comporta, fechei a pesada escotilha blindada de aço arcônida e
aguardei a operação de esvaziamento. Acima de minha cabeça, as
bombas potentes começaram a trabalhar ruidosamente. Logo depois, a
água altamente pressurizada foi recalcada para fora da comporta.
O uivo
produzido pelo ar que penetrava no recinto me fez fechar os olhos,
muito satisfeito. Só agora me encontrava em segurança. Só agora
poderia realmente iniciar a fuga.
O campo
energético pressurizado, que me protegera contra a pressão da água,
foi desativado automaticamente. Uma luz forte penetrou pela escotilha
interna que se abria.
Como
sempre, o rosto de bioplástico de Rico exibia um sorriso gentil.
Numa atitude elegante e ágil, meu criado robotizado penetrou na
comporta.
— Seja
bem-vindo, senhor — disse a voz metálica, à qual não
conseguíramos conferir uma modulação humana.
O fato de
subitamente ser chamado de senhor deixou-me emocionado. Tinha a
impressão de que de uma hora para outra penetrara num mundo
diferente. E era isso mesmo, conforme meu sexto sentido lógico
avisou imediatamente.
Nessa
cúpula dormira muitos anos. Era tão velha quanto boa parte da
história da Humanidade.
Estava
prestes a revelar meu grande segredo perante minha própria mente,
depois que me mantivera calado por semanas a fio, suportando o
martírio íntimo dos inquéritos psicológicos.
Rico
ajudou-me a tirar o desajeitado traje protetor.
— Cansado,
senhor? — perguntou. A voz devia soar preocupada. Mas, mesmo
tratando-se de uma máquina de alta precisão, o robô não era capaz
de dar expressão real a esse tipo de emoção.
— Não —
respondi em tom áspero.
Rico
sorriu. Ninguém conseguiria ofendê-lo.
— Preparei
um banho, senhor.
— Espere
um pouco.
Com o
corpo ereto desci pelo corredor estreito, tomei o elevador
antigravitacional e subi à cúpula abobadada. Parei diante da porta
de aço pintada de vermelho.
Rico não
disse mais nada. Calculara que estava dominado por emoções que um
robô não conseguiria compreender.
Atrás da
porta vermelha ficava meu museu particular. Seu valor era muito
superior ao de um lugar destinado à guarda de objetos antigos. Até
então só subira para lá quando um estado de comoção psíquica me
obrigasse a tanto.
Com as
mãos, acionei a fechadura de impulsos. A escotilha abriu-se
silenciosamente. A luz indireta veio do teto.
A passos
hesitantes penetrei na grande sala, separada por paredes internas.
Ali
estavam depositadas as testemunhas mudas do meu passado, que tanto
interessariam a Allan D. Mercant e que simplesmente resolvi omitir.
Parei
diante da grande espada afiada de ambos os lados, que pertencera a
Carlos, o Corajoso, da Borgonha. Num gesto pensativo, pesei-a com a
mão. Certa noite, quando o duque se encontrava na tenda de campanha,
martirizado pelas dores, pedira-me que lhe desse o golpe de
misericórdia com essa arma.
Minha
intenção era operá-lo, embora suas úlceras de estômago já se
tivessem transformado num câncer. No dia seguinte, Carlos, o
Corajoso, tombou em combate. Vi os confederados embriagados queimarem
a tenda majestosa.
Prossegui,
mergulhado em recordações. Não havia ninguém neste planeta que
estivesse tão bem informado sobre os inúmeros segredos do passado.
E ninguém conhecia melhor as falsificações da história. Não
havia quem soubesse dizer tão bem quanto eu por que o príncipe
Eugênio conseguira infligir uma derrota tão fulminante aos turcos.
O chapéu
de Wallenstein com o penacho surgiu à minha frente. Bem ao lado do
mesmo estava o trabuco que Colombo disparara.
Mais
adiante encontrei a armadura de Ricardo, Coração de Leão. Certa
vez, dissera que eu era seu vassalo mais fiel, e me prometera uma
herdade na Inglaterra.
Sem
querer, sorri ao descobrir a pequena luva de ferro. Joana d’Arc
havia usado a mesma quando juntos tomamos de assalto a fortaleza de
Orleans.
Fui
mergulhando no passado, à medida que andava pela sala repleta de
objetos da história. Sempre gostara de topar repentinamente com uma
testemunha de tempos idos. Não apreciava a ordem rigorosa. Preferia
ser surpreendido.
Ali estava
o canhão de tiro rápido, primitivo mas eficiente, que construíra
juntamente com Leonardo da Vinci. Considerava-o um homem muito
importante, motivo por que lhe ensinei uma porção de coisas.
Bem ao
lado do mesmo, estava o Colt 44 da marinha, cuja coronha usara para
abater o assassino de Abraham Lincoln, infelizmente com um segundo de
atraso.
Enquanto
caminhava entre os objetos, parecia estar mergulhado num sonho.
De
repente, Rico arrastou-me de volta para a realidade áspera.
— O
cérebro o aguarda, senhor.
Caminhando
na ponta dos pés, abandonei a sala do passado. Lá fora, junto da
porta vermelha, dei testemunho de mim mesmo.
Não;
nunca fiz nada que pudesse prejudicar a Humanidade. Sempre me
empenhei em estimular seu desenvolvimento científico e tecnológico,
que um dia a levaria a dominar a navegação espacial.
Naquele
tempo, já tinha o desejo de voltar para casa. Mas, quando um homem
chamado Perry Rhodan deu início à navegação espacial, fui idiota
a ponto de fugir apressadamente para minha fortaleza submarina, a fim
de escapar a uma guerra nuclear que não aconteceu. Dessa forma,
dormi durante a fase mais importante da evolução dos pequenos
bárbaros.
Dali a dez
minutos, vi-me diante da tela diagramada do computador robotizado da
cúpula, que aguardava minha programação.
— Preciso
de uma construção semi-orgânica encerrada num corpo, que se pareça
com um esqueleto humano. Num exame de raios X, deverá ter o aspecto
de um verdadeiro homem. É necessário embutir refletores em forma de
coração e pulmão, a fim de transmitir a imagem perfeita do
organismo humano. Será possível realizar uma construção desse
tipo?
O grande
autômato começou a zumbir. Cinco gerações de técnicos haviam
trabalhado em sua construção.
— Solicito
dados mais precisos, senhor — respondeu o computador.
Com esta
resposta fiquei sabendo que minha própria excursão à superfície
já não correria o risco de transformar-se num fracasso em virtude
da falta de uma simples fotografia de raios X.
5
Nevada
Space Port, era este o nome do maior espaçoporto dos dois
continentes americanos. Dali partiam as espaçonaves destinadas às
luas e aos planetas do sistema solar.
As enormes
naves de longo curso, cujos hiperpropulsores lhes permitiam vencer os
anos-luz em poucos segundos, decolavam em noventa e nove por cento
dos casos de um espaçoporto ainda maior: Terrânia.
De
qualquer maneira, os Nevada Fields, como também costumavam ser
designados, tinham sua história.
Foi dali
que Perry Rhodan decolou em 19 de junho de 1.971, para realizar a
primeira viagem tripulada à Lua, onde viria a descobrir a tripulação
de uma nave exploradora dos arcônidas, que realizara um pouso de
emergência.
Em atitude
pensativa, contemplei o foguete original com o qual Rhodan arriscara,
há sessenta e nove anos, o grande salto. Pelo que diziam,
antigamente a Stardust ficara depositada no deserto de Gobi, até que
Rhodan mandou levá-la ao lugar onde seus primitivos propulsores
atômicos rugiram pela primeira vez.
Não era o
único que se encontrava no grande museu de astronáutica de Nevada
Fields: cerca de duzentos emigrantes deixariam a Terra com destino a
Vênus.
Olhei
discretamente em torno. Entrara em meio a um verdadeiro enxame de
pessoas. Depois das investigações cautelosas por mim realizadas,
resolvi desistir da idéia primitiva de “imitar” um piloto de
nave espacial.
Seria
muito difícil enganar os numerosos amigos e conhecidos de um homem
desse tipo. Lembrei-me dos colonos que diariamente partiam em direção
ao espaço.
Aproximei-me
de um indivíduo louro e robusto que, quando muito, contaria trinta e
oito anos de idade. Tinha a mesma compleição que eu. Uma
investigação mais detida revelou que era o sexto filho de um
lavrador da Alemanha do Norte. Seu nome era Hinrich Volkmar. Viera
sozinho, depois de formular uma série de pedidos de licença para
emigrar.
Hinrich
era meu objetivo. Naquele momento, encontrava-se em um profundo sono
biológico nas profundezas do mar, bem velado pelos meus robôs.
Ordenara a
Rico que dali a um ano, o mais tardar, o acordasse e o largasse na
Espanha, depois de entregar-lhe pedras preciosas no valor de cem mil
solares.
Além
disso, elaborei um relatório escrito destinado a Perry Rhodan e ao
Serviço Solar de Segurança, que poderia ser apresentado por
Hinrich, depois que o mesmo fosse acordado.
Ninguém
poderia acusar o jovem, uma vez que agira sob a influência de meu
projetor mental. Fizera tudo para que não tivesse maiores problemas,
mesmo que eu morresse de uma hora para outra.
Depois do
interrogatório hipnótico realizado no interior de minha cúpula,
armazenei seus dados individuais em minha memória fotográfica. Além
disso, tinha em mãos seus documentos, inclusive a licença de
emigração, que já me haviam permitido penetrar na área reservada.
Não
tivera de mascarar-me muito. Meus robôs especializados apenas
realizaram alguns transplantes de bioplástico e removeram a
coloração avermelhada dos meus olhos.
De resto
nada havia sido mudado em meu corpo. Meu inglês tinha a tonalidade
de um dialeto alemão, e meu comportamento era descontraído, franco
e ingênuo, motivo por que até então ninguém desconfiara de mim.
A bagagem
de Hinrich consistia numa mochila elástica, que continha exatamente
cinqüenta quilos de objetos de uso pessoal. Era o máximo que os
emigrantes poderiam levar, para não sobrecarregar as naves. Pelo que
dizia, no segundo planeta solar estava tudo preparado para receber os
colonos de Vênus.
Se minha
idéia a respeito de Rhodan fosse correta, Perry realmente deveria
ter tomado todas as providências. No contrato de Hinrich, lia-se que
o Império Solar lhe forneceria gratuitamente uma área de cinqüenta
hectares e as máquinas necessárias ao desmatamento, ao preparo do
solo e ao plantio.
Rhodan
elaborara um programa social de alto alcance. A instalação de uma
fazenda em Vênus, realizada por um emigrante terrano, custava cerca
de 150 mil solares ao governo.
Há três
dias transformara-se num homem jovem de cabelos louros, lábios
risonhos e uma grande saudade no coração. Queria sair para o
espaço, dar as costas à mãe-terra e dedicar-se ao trabalho, a fim
de que um belo dia pudesse escrever aos seus: consegui; estou
procurando uma companheira para minha vida. Quanto dinheiro devo
mandar?
Era assim
que pensava o verdadeiro Hinrich Volkmar, e também era assim que
pensavam os outros emigrantes vindos de todos os quadrantes. A nave
transportadora deveria decolar ainda hoje.
Estávamos
no dia 13 de julho de 2.040. Pude realizar um trabalho rápido, mas
meticuloso. Menos de trinta dias se haviam passado a partir de minha
fuga de Terrânia. A ação de busca ainda prosseguia.
Acontece
que, ao que tudo indicava, haviam subestimado os meios de que
dispunha. Naquele momento, felicitava-me a mim mesmo pelo silêncio
obstinado mantido até então, e que impedira a descoberta da cúpula
submarina.
Na opinião
do serviço de defesa, devia ser totalmente impossível que o
fugitivo escapasse à rede armada para sua captura. E seria isso
mesmo, se não possuísse os aparelhos eficientíssimos, cuja
existência era ignorada por meus perseguidores.
No momento
em que cheguei a Nevada Fields, disfarçado em Hinrich, foi realizado
um exame de raios X. Qualquer pessoa só poderia penetrar na área
reservada depois de passar pelas objetivas.
Evidentemente
recorriam a essa medida para neutralizar qualquer ação por mim
concebida. O esqueleto de bioplástico, destinado a enganar o médico
sobre a verdadeira constituição de minha ossatura, foi reconhecido
como genuíno.
Dessa
forma, a partir do dia 11 de julho de 2.040 portava o distintivo
luminoso de cerca de dez centímetros, no qual estavam gravados em
relevo os dados relativos à minha pessoa. Nos fios magnéticos
embutidos, estava armazenada uma série de dados adicionais bem
codificados sob a forma de impulsos, relativos à minha pessoa e às
provas por mim realizadas. Estava tudo na mais perfeita ordem.
Recebi o
número 211. A nave espacial que me levaria a Vênus juntamente com
outros colonos era a Glória. Estava guardada num edifício alongado,
que os funcionários do serviço de emigração, num acesso de humor
feroz, haviam batizado com o nome de casa dos cheiros. O odor
penetrante dos desinfetantes, usados numa profusão exagerada,
impregnava minhas vestes, feitas de fio sintético resistente e
confortável, mas pouco vistoso.
Os colonos
destinados a Vênus eram muito bem equipados, porém não se fazia
questão de que fossem elegantes. O trabalho frio do setor de
colonização não tinha lugar para ganhos extras.
Já
conhecia a nave que me transportaria. Era um pequeno veículo
esférico, de apenas cinqüenta metros de diâmetro, pertencente à
série planetária. Não possuía armas e não estava equipada com
propulsores que lhe permitissem desenvolver velocidade superior à da
luz. Destinava-se exclusivamente ao transporte entre os mundos do
sistema solar.
O vôo até
Vênus duraria oito horas. Era um tempo bastante longo, ainda mais
que as poucas cabines destinadas aos emigrantes só continham filas
de poltronas muito apertadas. As camas ou outros tipos de instalações
confortáveis foram dispensadas. Na opinião das autoridades,
qualquer pessoa poderia permanecer sentada durante oito horas.
A Glória,
uma nave de mais de trinta anos, viajava constantemente entre Vênus
e Terra e vice-versa. Todo segundo dia de cada mês, decolava com uma
carga humana destinada a Vênus, além do quê, transportava boa
quantidade de mercadorias de todas as espécies.
Os
tripulantes dessas naves não gozavam de prestígio muito elevado. Os
astronautas altamente qualificados dos veículos espaciais, que
desenvolviam velocidade superior à da luz, olhavam-nos de cima para
baixo.
Os vaivens
planetários ocupavam aproximadamente o mesmo lugar dos antigos
navios fluviais, que nunca se comparariam a uma embarcação de
alto-mar.
Diverti-me
a valer com a enfatização da diferença. Neste ponto, os terranos
não eram diferentes dos indivíduos de meu povo. E, há menos de
noventa e nove anos, esses bárbaros encantadores se rejubilaram de
admiração quando um Perry Rhodan conseguiu realizar o salto
ridículo até a lua terrana. Não havia como negar que evoluíram
muito depressa. A essa altura, os homens que pilotavam as hipernaves
de longo curso sentiam-se indignados quando se encontravam com uma
dessas lesmas planetárias. Esqueciam-se completamente de que essas
lesmas sempre percorriam o espaço a uma velocidade apenas dez por
cento inferior à da luz.
Ao
meio-dia em ponto, fui ao grande refeitório coletivo, repleto de
emigrantes que riam e discutiam animadamente. Procurei um canto
afastado, devorei um enorme bife com vagens e batatas fritas e
observei com cuidado os arredores.
Eram todos
iguais, esses jovens para quem Vênus, o planeta das selvas,
continuava a ser um paraíso, apesar de todas as informações em
contrário que deveriam ter recebido.
Vi
famílias inteiras dispostas a arriscar o grande salto. Sonhavam com
a aventura e a riqueza, com a independência e com grandes festas na
borda da mata.
Ainda não
conheciam as picadas dos mosquitos venusianos nem os sáurios vorazes
que, com umas poucas pisadas, destruíam suas culturas. E não faziam
uma idéia adequada dos pequenos répteis venenosos e da temperatura
de estufa reinante na superfície do planeta.
Pelas
12:30 h os alto-falantes soaram.
— Colonos
destinados a Vênus, vôo 118. Apresentem-se no portão sul. Levem a
bagagem e mantenham os documentos em suas mãos. Apressem-se.
Era uma
chamada pouco convencional. Cerca de duzentas e cinqüenta pessoas
levantaram-se das cadeiras duras de plástico. Alguns correram
diretamente para o portão norte, onde os funcionários apáticos e
os pilotos sorridentes lhes apontavam o caminho correto.
Foi um
berreiro e uma correria; até se tinha a impressão de que o mundo
estava para acabar. Resolvi entrar na confusão. Dali a alguns
segundos, também estava gritando. Devo portar-me como um emigrante,
era este o meu lema.
Um comando
da policia recebeu-nos sob o sol escaldante do verão.
O sol
provocou-me uma sensação muito desagradável; nos homens do serviço
de segurança não foi tanto. Atrás deles, encontravam-se os
caminhões com as grandes plataformas de carga. Ao que tudo indicava,
seríamos submetidos a outro controle antes que nos levassem à nave
transportadora.
As
mulheres e crianças tiveram permissão para subir imediatamente aos
carros. Apenas os homens enfileiraram-se para esperar. Encontrava-me
no meio da fila formada por emigrantes nervosos. Os homens gritavam
de impaciência. Tudo iria recomeçar.
Meu
equipamento especial, um volume muito reduzido, fora escondido bem
nos fundos da mochila padronizada. Ainda que me obrigassem a abri-la,
teriam que procurar muito para encontrar alguma coisa. Até mesmo o
precioso ativador celular fora retirado juntamente com a corrente.
Não poderia demorar muito em pendurá-lo ao pescoço, pois do
contrário haveria problemas.
— O que
houve? — perguntou um homem baixo e moreno. Virei-me e dei de
ombros.
Era um
mexicano, que queria fugir da Terra com sua família de cinco
pessoas. Seu nome era Miguel Hosta. Não era a primeira vez que nos
encontrávamos. Talvez fosse recomendável entreter uma conversa com
esse terrano cheio de vida.
— Não
faço a menor idéia — disse com uma risada. — Apenas sei que não
deixarei que me mandem de volta. Pelo que dizem, há pouco tempo
retiraram alguém da nave, pouco antes da decolagem. O sujeito tinha
um pouco de febre.
— Santo
Deus! — gemeu o moreno num assomo de desespero. — Acho que também
estou com febre. Será que vão medir?
Os homens
que se encontravam à minha frente e atrás de mim soltaram uma
gargalhada. As piadas e observações dirigidas ao policial que
realizava o exame tornavam-se mordazes, à medida que nos
aproximávamos da mesa improvisada.
O que mais
me incomodava era o aparelho de raios X sobre rodas que, segundo tudo
indicava, realizava um exame “automático” de cada emigrante. Ao
lado da respectiva tela, havia um médico do serviço de defesa.
Assim que fazia um movimento relaxado com a mão, o colono que
acabara de ser submetido ao controle poderia dirigir-se ao carro.
Evidentemente o pretenso exame médico era um absurdo. Não havia
mais nenhuma lista a elaborar.
Estavam
procurando um almirante arcônida que evidentemente não poderia ser
dotado de um esqueleto humano.
Meus olhos
começaram a ficar úmidos, o que provava meu nervosismo. Se o médico
que se encontrava junto ao aparelho prestasse muita atenção, talvez
pudesse notar a diferença mínima no reflexo dos órgãos embutidos
em meu corpo.
“Conserve
a calma!”,
disse meu sexto sentido. Naquele momento, cheguei a odiar o setor de
lógica do meu cérebro.
O homem à
minha frente era um terrano gigantesco do Estado Federal da África.
Colocou-se diante do aparelho com as pernas bem abertas, abriu a
blusa, na altura do peito e pôs o dedo sobre o coração.
— Aqui,
soldados! — berrou a plenos pulmões.
O médico
estremeceu, enquanto um sorriso largo cobriu o rosto do tenente
sentado atrás da mesa. E eu perguntei-me se aquele rapaz de pele
escura já teria ouvido falar nos onze oficiais de Schill fuzilados
pelos soldados de Napoleão.
O médico
fez um gesto para que se calasse. O gigante, que ria às gargalhadas,
correu em direção ao carro. Depois chegou minha vez.
— O
atestado de vacina, por favor — disse o funcionário com a voz
cansada. Quando levantou os olhos, acordou de um instante para o
outro. Pôs a mão na arma.
Lançou-me
um olhar penetrante. Mas finalmente uma expressão de insegurança
surgiu em seus olhos; virou-se para seus soldados.
— Nome?
— perguntou em tom áspero.
Lancei-lhe
um olhar ingênuo.
— Hinrich
Volkmar, senhor tenente — respondi em voz trovejante. — Sou filho
de Pieter Volkmar, inspetor de diques.
O jovem
oficial voltou a sentar. Sem dizer uma palavra apontou com o polegar
em direção ao aparelho de raios X. Sabia perfeitamente que minha
radiografia já fora tirada.
— É uma
semelhança surpreendente, Sir — disse um dos soldados em tom
apressado.
Coloquei-me
diante da tela e tirei a mochila. Desta vez o médico examinou com
maior atenção a imagem projetada pelo aparelho.
— Aí
estão as costelas, Tommey; não existe a menor dúvida — disse com
a garganta ressequida. — Vamos acabar logo com isto, senão terei
uma insolação.
Ainda bem
que o homem sofria tanto com o calor. Não havia examinado a
radioscopia com a atenção devida.
O tenente
lançou mais um olhar perscrutador para minha pessoa, mas, por fim,
soltou um suspiro e colocou o carimbo no formulário.
— Aqui.
Leve isto e guarde bem. O senhor se parece com uma pessoa com a qual
gostaríamos de ter uma conversa. Vamos logo; o próximo.
Esperei
pelo pequeno mexicano, que se sentiu muito satisfeito por passar pelo
exame.
O terrano
de pele negra puxou-nos para cima da plataforma do veículo.
Dirigindo-se a mim, riu e exclamou:
— Ei, o
que queriam de você, meu caro? Venha para junto do meu coração.
Ao que
parecia, o gigante parecia preocupar-se constantemente com o coração.
Apertou-me nos braços e empurrou-me para um lugar vazio. Miguel
Hosta espremeu-se para caber a meu lado.
“São
uns sujeitos formidáveis!”,
disse meu sexto sentido. Desta vez, concordei com o setor lógico de
minha mente. Com gente desse tipo, Rhodan poderia perfeitamente
construir um império estelar.
— Ainda
tenho dois tabletes de chocolate no bolso — disse. — Alguém quer
um pedaço? Perdi o apetite. Estão procurando uma pessoa que se
parece comigo.
Miguel
recusou com um gesto de horror. O homem de pele escura, cujo nome era
Embros Tcheda, aceitou. Sorriu e disse:
— Quer
saber de uma coisa, meu caro? Isso não devia preocupá-lo. Quando
estivermos em Vênus, começaremos vida nova. Você entende de
economia agrícola? O que pretende plantar?
— Ainda
não resolvi. Entendo de EA. Você não?
Embros fez
um gesto negativo e uma careta.
— Muito
bem; nesse caso devíamos tornar-nos vizinhos — disse. — Não
consigo lidar com as bactérias do solo. Você entende do assunto?
— Em
bactérias, sou um cobra. Farei as análises e você dirá o que
devemos plantar.
Tive de
esforçar-me para resistir ao seu vigoroso aperto de mão. Naquele
momento, indaguei a mim mesmo por que estava arriscando a vida para
chegar em casa.
Nas veias
dessa raça humana jovem corria sangue arcônida. Eu mesmo autorizara
vários casamentos entre meus subordinados e mulheres terranas.
Afinal, onde era meu lar?
6
Port Vênus
era uma cidade supermoderna, cuja arquitetura adaptava-se às
exigências desse mundo escaldante fustigado pelas tormentas.
A rotação
de Vênus em tomo de seu eixo polar era bastante lenta. A extensa
zona de penumbra, que ficava no limite entre a face diurna e a
noturna, sofria constantemente os efeitos de terríveis furacões.
Nos momentos em que as povoações humanas se encontravam na zona de
turbulência, as ruas transformavam-se em tubos de compressão, nos
quais as fúrias desencadeadas tocavam um concerto infernal.
Não era
nada simples morar nesse planeta, quanto mais estabelecer-se
comercialmente. Quando a camada de nuvens do segundo mundo solar se
abria para despejar a chuva, a água descia abruptamente, como se
estivesse sendo despejada por baldes. Quem não encontrasse
imediatamente uma elevação poderia ser arrastado nas torrentes.
Port Vênus
ficava num extenso platô de rocha, situado na costa elevada do
oceano equatorial, Era nessa área que talvez se localizasse o centro
de computação que meu povo construíra há muito tempo no planeta
Vênus.
Rhodan
apossara-se da gigantesca máquina e controlava-lhe o funcionamento,
embora de direito isso não lhe coubesse.
Naquele
momento, estaria disposto a conceder-lhe autorização a posteriori.
Afinal, fizera alguma coisa naquele mundo selvático.
Cerca de
oitocentos metros abaixo do platô começava a mata escaldante e
infestada de febres. Não era de surpreender que o Instituto de
Doenças Cósmicas Infecciosas, ocupasse o maior e o mais importante
dos edifícios da cidade. Aqui se travava uma luta encarniçada
contra a natureza poderosa e cruel.
Quase
todas as semanas descobriam-se doenças novas, ainda desconhecidas, e
geralmente contagiosas. Os colonos vindos comigo haviam recebido mais
de trinta vacinas antes de partirem da Terra.
Minha
imunidade era quase completa, pois abastecera-me com os soros
arcônidas.
Fazia
cinco dias que a Glória penetrara na densa atmosfera venusiana, com
os jatos chamejantes. O espaçoporto de Port Vênus ficava a apenas
cinqüenta metros acima do nível do mar. Esse dado nos revelou desde
logo as verdadeiras condições reinantes em Vênus.
Embros
Tcheda, que fez questão de ser o primeiro a sair da nave, por pouco
não morre afogado nas torrentes de água despejadas do céu. Dentro
de poucos segundos, o extenso espaçoporto assumiu o aspecto de um
rio caudaloso.
Com grande
dificuldade conseguimos agarrar Embros. As águas turbilhonantes
quase o arrastaram para perto dos jatos incandescentes de uma nave de
longo curso que estava de partida.
Foi esta a
primeira má impressão. Dali a dez minutos, o céu assumiu o aspecto
“límpido” que era uma característica de Vênus. Raras vezes a
camada de nuvens compactas permitia que se visse o sol.
Os vapores
quentes, que subiam das placas de plástico blindado do revestimento
do espaçoporto, deixavam os homens deprimidos. Até parecia que nos
encontrávamos numa grande lavanderia.
Quando
saímos da comporta constatamos que a temperatura era de exatamente
53,4 graus centígrados. Embora as pessoas que se encontravam ali
fossem superselecionadas e tivessem passado por centenas de testes,
duas mulheres ficaram inconscientes. O calor era suportável, mas não
o elevado teor de umidade do ar. Era ele que tornava o clima
mortífero.
Na linha
do horizonte, via-se a mata virgem. Já a conhecia de tempos idos,
por isso não me envolvi nas mesmas ilusões dos colonos.
Dali a
duas horas, uma frota de potentes helicópteros levou-nos a Port
Vênus. A cidade ficava 850 metros acima do nível do mar. Acontece
que o extenso platô de rocha onde fora construída não oferecia
espaço para o porto espacial.
O exame
dos nossos documentos foi uma cerimônia enervante. Altos
funcionários e oficiais da selva disseram palavras que ora pareciam
patéticas, ora duras. Falava-se constantemente em doenças, feras,
répteis venenosos, preparo do solo e condições climáticas. Meus
amigos vindos pela velha Glória nem sabiam o que os esperava.
Hoje
recebi licença pela primeira vez. Logo após a minha chegada
escrevera algumas linhas, confiando-as ao correio de Vênus que,
segundo tudo indicava, funcionava muito bem.
Por uma
questão de cautela, expedi a carta para a posta-restante. Se Marlis
Gentner já tivesse chegado, provavelmente iria todos os dias à
agência dos correios.
Fiquei
numa espera ansiosa até poucas horas atrás, quando a notícia me
foi entregue em mãos.
Meu velho
amigo Gunter Viesspahn, que chegara a Vênus antes de mim,
convidou-me para dar um giro em Port Vênus.
No momento
em que a carta me foi entregue, um sargento do serviço de segurança
pediu esclarecimento sobre a origem da ligação.
Mostrei-lhe
a carta. Minha explicação, que falava num amigo de escola,
revelara-se bem plausível. Era bem possível que, por aqui, houvesse
um conhecido que imigrara antes de mim.
Encontrava-me
no monotrilho que ligava a sede da administração do espaçoporto
com o centro da cidade. Mesmo com o aparelho de ar condicionado
funcionando perfeitamente, comecei a transpirar. O esqueleto de
bioplástico colado à pele atrapalhava a transpiração. Já estava
na hora de livrar-me desse produto de minha oficina robotizada pois
não voltaria a ser submetido a um exame de raios X.
Meu sexto
sentido prevenia-me sempre quanto ao sargento excessivamente curioso
do serviço de segurança. Por que teria demonstrado tamanho
interesse por uma carta inofensiva?
Teria de
descobrir quanto antes se a operação de busca que visava minha
pessoa também se estendia a Vênus. Era bem possível que, após a
decolagem da Glória, o oficial incumbido do controle em Nevada Space
Port ainda andasse desconfiado. Talvez tivesse expedido um aviso pelo
rádio.
Interrompi
minhas reflexões angustiantes. Se Marlis houvesse realizado um
trabalho bem feito, não teria motivo para preocupações. Poderia ir
para a selva, como colono, a fim de aguardar uma oportunidade
favorável para a fuga. Talvez conseguisse encontrar em Vênus uma
Gazela capaz de desenvolver velocidade superior à da luz, e esta me
levaria ao sistema de Árcon. O raio de ação dos modelos mais
recentes desse tipo de nave era limitado exclusivamente pela
necessidade de revisão periódica dos propulsores.
Saí do
metrô, subindo pela escada rolante. Poucas vezes, vira reunidos no
mesmo lugar terranos com vestes tão diferentes.
A Praça
Tomisenkow, cujo nome homenageava um comandante russo de divisão que
há muitos anos procurara conquistar o planeta para sua pátria, era
o centro de Port Vênus.
Aqui
situavam-se os edifícios amplos e resistentes que abrigavam o
governo colonial venusiano. A rua Nova Iorque praticamente dividia a
cidade. Nela ficavam os escritórios e as lojas.
Neste
mundo quente e úmido, podia-se comprar qualquer coisa. Por muito
tempo acreditara-se que sua atmosfera não continha oxigênio.
Todavia, conseguia-se respirar muito bem no segundo planeta solar,
que parecia esconder-se da estrela-mãe sob uma espessa camada de
nuvens.
Junto à
plataforma houve uma confusão. Dois sujeitos barbudos e pálidos,
que há anos não viam um raio de sol, brigavam por uma questão
fútil.
A
intervenção dos policiais, que acorreram imediatamente, foi
bastante rude. Ameaçaram com os fuzis de choques elétricos e
fizeram dois disparos de advertência para o alto. Os dois elementos
logo se acalmaram.
Os
habitantes do planeta pareciam ser rudes; era uma população
pioneira, que sabia lidar com as armas. Vi muitos colonos caminharem
pelas ruas com os radiadores energéticos a tiracolo. Ao lembrar-me
do ambiente hostil que ameaçava a cidade, compreendi por que os
visitantes andavam tão bem armados.
Peguei um
táxi de modelo antigo movido a turbina de gás, que me tirou da
confusão, levando-me para uma área mais tranqüila. Procurei gravar
as ruas que atravessamos antes de pararmos diante do edifício
imponente do Museu Terrano.
Ao descer,
apalpei os objetos que compunham meu equipamento especial. Carregava
tudo aquilo que antes escondera com tamanho cuidado. Se fosse
obrigado a fugir, não poderia voltar aos alojamentos de imigrantes.
Seria
perigoso carregar as armas. Ainda não havia recebido o respectivo
porte.
O ativador
celular, imprescindível à minha vida, estava pendurado ao peito.
Por dentro do traje pouco elegante usado pelos colonos, levava o
potente defletor de raios luminosos, que era do tipo cujo
funcionamento dependia do microcarregador.
Meu
projetor mental tinha um alcance de dois quilômetros. Guardei a arma
psicológica em forma de bastão no bolso direito da calça.
Paguei e
saí do carro. Caminhei lentamente em direção às pesadas portas
blindadas de plástico de aço do museu. Era ali que meu velho amigo
iria esperar-me.
Inúmeras
pessoas saíam e entravam incessantemente. Notei muitos colonos cujas
vestes grosseiras de fibra sintética os distinguiam dos trajes bem
mais elegantes dos funcionários da instituição.
Dois
policiais em posição descontraída guardavam a larga porta de
entrada. Ao passar por eles, ouvi uma risadinha.
— Ei,
calouro, já está com saudades da Terra?
Virei-me e
fitei os homens que riam de mim. Usavam pesados fuzis de choque e
grandes capacetes de rádio. Ao que parecia, mantinham contato
ininterrupto com a central.
Calouro
era o nome pelo qual me haviam chamado. Era o apelido dos colonos
recém-chegados.
— Aqui
sempre faz tanto calor? — perguntei com a voz queixosa.
Sua risada
tornou-se mais forte. Calei-me e prossegui sem dizer mais uma
palavra. Subitamente vi um homem de cabelo preto e barba ondulante.
Usava roupa de colono e um radiador energético de aspecto
atemorizante.
Reconheceu-me
imediatamente. Entre os fios da barba hirsuta surgiu a boca. Gritou
expressando contentamento.
Senti-me
abalado. Marlis me mandara um sujeito um tanto maluco.
Bateu com
tanta força nos meus ombros que, por vários dias, o local ficou
dolorido. Além disso, aquela fúria em pessoa gritou nomes
carinhosos e felicitações chorosas ao meu ouvido, e isso com
tamanha força que tive medo de ficar surdo.
— Sou
Gunter Viesspahn — disse em voz baixa entre dois gritos. — Vamos
logo; temos que dar o fora.
Segurou-me
pelo braço e saiu cantando a plenos pulmões.
— Abram
caminho, seus vermes ordinários da cidade; não estão vendo que um
homem quer passar? — gritou meu novo amigo para os policiais.
Estes
deram uma resposta impublicável. O tom que se usava por ali era
terrível. Senti-me apavorado, mas logo me lembrei de que isso
constituía uma das características de um jovem planeta colonial.
O barbudo
arrastou-me para dentro do museu em cujo subterrâneo, segundo dizia,
havia um restaurante no qual a temperatura seria bastante agradável.
— Desconfiaram
de você? — perguntou em voz baixa.
— Não
sei. Leram sua carta. Não tive outra alternativa — respondi em tom
apressado.
— Isso é
mau, meu filho. O que contou aos espias?
Ficou
satisfeito com minha explicação. Orientara-me pelas indicações
disfarçadas que lera entre as linhas. De acordo com as mesmas Gunter
Viesspahn chegara a Vênus há dois anos. Era da Frísia, onde nos
conhecêramos há algum tempo.
No local
reinava uma temperatura agradável. Porém não passava de uma
terrível espelunca cheia de colonos, que se divertiam contando
bravatas. Não me senti à vontade.
— Vamos
tomar um purly
e dar o fora — disse Viesspahn. — Não olhe tão desconfiado.
Está tudo em ordem. Marlis está à sua espera. Tomamos todas as
precauções.
Não tinha
muita certeza disso. Essa gente não conhecia a defesa solar. Fiz uma
pergunta lacônica:
— Alguém
sabe que você conhece Marlis?
— Ora
essa! — disse com uma risada. — Acontece que Marlis é minha
irmã.
Vi as
maiores complicações aproximarem-se ainda mais de mim.
Em
Terrânia havia uma Divisão de Logística que contava com as cabeças
mais inteligentes e os computadores mais eficientes do Universo.
Marlis era
uma das estudantes que me haviam visto no dia da fuga. Não havia a
menor dúvida de que o serviço de defesa já teria verificado quem
se encontrava perto de mim quando surgiu a confusão no auditório.
Marlis foi uma delas. Depois interrompeu os estudos e voltou para
Vênus. Era uma das pessoas que defendiam os direitos daquele planeta
e, durante as discussões, dissera publicamente que em sua opinião
minha prisão representava uma indignidade.
Grande
pista... e o general Kosnow não deixaria de percebê-la!
Após
isso, em Nevada Fields suspeitou-se de um homem louro, mas
verificou-se que o mesmo possuía esqueleto humano. E junto a esses
pequenos elementos de suspeita ainda existia outro: após chegar a
Vênus esse homem escreveu uma carta e recebeu resposta.
Se
fizessem uma investigação para apurar se dois colonos chamados
Volkmar e Viesspahn se conheciam na Terra, o resultado só poderia
ser negativo.
A tudo
isso, ainda acrescia que um irmão da estudante Marlis Gentner me
esperara. Se esses elementos fossem concatenados, o serviço de
defesa de Rhodan desferiria seu golpe dentro de uma hora.
Meu
instinto me disse que já estava sendo esperado nos alojamentos dos
imigrantes. Em hipótese alguma, deveria voltar para lá. Meu
esqueleto de bioplástico não resistiria a um exame médico
minucioso.
Lembrei-me
dos policiais equipados com rádio de capacete. Será que na Central
de Defesa de Vênus já sabiam que me encontrara com Viesspahn?
Alguém me teria observado enquanto me dirigia ao museu? Em caso
afirmativo, por que não fora detido?
“Antes
de mais nada procure descobrir seus elementos de ligação”,
disse meu sexto sentido. “Talvez
ainda poderão ajudá-lo.”
Era isso
mesmo! A cada segundo que passava meu nervosismo crescia. Pedi que
saíssemos imediatamente do local.
— Bobagem!
— disse o barbudo em tom indignado. — Quando dois velhos
conhecidos se encontram em Vênus, a primeira coisa que fazem é
procurar o bar mais próximo. Aqui é um ponto de encontro dos
colonos, uma vez que os mesmos costumam freqüentar vez por outra o
museu terrano. Acho que ninguém o seguiu, não é?
Fitou-me
com uma expressão de contrariedade. Sacudi a cabeça e beberiquei o
líquido forte.
— Então,
por que tanta preocupação? — disse Gunter em tom tranqüilizador.
— Afinal, o que foi que você andou fazendo? Marlis não disse uma
palavra.
Apontou
para baixo, como se a Terra ficasse bem a seus pés.
— Isso
não importa — respondi.
— Importa,
sim. Afinal, se você estiver envolvido em algo muito grave, estarei
arriscando o pescoço. O amor fraternal não pode ir tão longe, não
acha? Ao que parece, Marlis anda louquinha por você.
Mais uma
vez a desconfiança começou a brilhar em seus olhos escuros.
— Onde
você nasceu? — perguntei.
Meus
piores receios confirmaram-se. Gunter Viesspahn era um venusiano
genuíno, e eu dissera a um sargento que havíamos sido colegas de
escola na Terra.
Desesperado,
cerrei os olhos. Marlis, por onde andava sua inteligência? Você
errou desde o começo.
Mas tive o
cuidado de não deixar o barbudo ainda mais irritado. No momento em
que acreditasse estar numa situação de perigo real, bateria em
retirada. E eu não poderia dispensar as ligações. Minha observação
cautelosa sobre nossa velha amizade apenas o fez dar de ombros.
— E daí?
Como poderiam saber. Você viajou com documentos falsos, não viajou?
— Naturalmente.
Mas existem alguns aspectos que vocês...
— Bobagem!
Arranjaremos tudo. Você irá à minha fazenda, localizada no rio
Hondo, quinze quilômetros acima das cataratas de Marshall. Lá o rio
se precipita numa profundidade de cinco quilômetros, e sua largura
também é esta. Um quadro inesquecível! Trata-se de uma excelente
região, que fica a pouco mais de duzentos quilômetros ao norte de
Port Vênus. Ali poderá estar tranqüilo até que Marlis descubra
uma nave para você.
Esta
explicação quase me fez desistir da fuga. Se a moça fora
imprudente a ponto de revelar a seu irmão minhas ligações com o
sistema de Vega, poderia entregar os pontos.
De uma
hora para outra, modifiquei meus planos. Seria inútil continuar a
esperar por uma hipernave destinada a Vega. Tentaria sair da cidade
quanto antes.
Pus a mão
no bolso e tirei uma grande pérola. Os olhos de meu interlocutor
começaram a brilhar. Sabia quanto valia o tesouro que tinha na mão.
As pérolas eram uma das raras coisas preciosas que não podiam ser
produzidas sinteticamente.
— Isto
aqui é uma pérola legítima, no valor de cinco mil solares —
disse com uma calma enfática. — Preste atenção, meu caro. Você
descreverá exatamente o lugar em que Marlis está esperando por mim.
Irei até lá sozinho. Enquanto isso você pegará seu avião... você
tem avião, não tem?
— É
claro que sim; todo mundo tem.
— Muito
bem. Você pegará seu avião e irá a algum lugar onde seja fácil
encontrá-lo. Uma vez lá, esperará por mim. Não quero que sejamos
vistos com Marlis.
Fez
algumas objeções, mas não pôde resistir à tentação da pérola.
Acabou descrevendo exatamente um lugar bem afastado, situado na
periferia da cidade, onde um amigo seu possuía um pequeno bar. Não
seria difícil chegar lá.
A essa
hora, só estava interessado em conservar Gunter Viesspahn, para
poder recorrer a ele se precisasse. Para fazer isso, teria que
despedir-me dele em público. Talvez o deixassem em paz.

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