terça-feira, 12 de março de 2013

P-054 - O Duelo - K. H. Scheer [parte 2]


A máquina foi ocupada por dois maquinistas novos, mas isso não representou qualquer alívio para mim. Preferi não influenciar os homens com o projetor mental para conseguir ao menos um gole de água e um pouco de alimento. Se fossem examinados pelos mutantes de Rhodan na estação de destino, o bloqueio hipnótico não deixaria de ser constatado. E então já conheceriam o local aproximado em que eu poderia ser encontrado.
Tive de suportar as horas que se seguiram num estado de esgotamento total. Atravessamos várias cadeias montanhosas, até que chegamos à bacia gigantesca do rio Bramaputra.
O segundo revezamento representou um risco enorme para mim, pois a máquina voltou a ser revistada. Ao que parecia, novas ordens haviam chegado de Terrânia.
Quando finalmente entramos na grande estação de carga de Calcutá, cambaleei ao tanque de água mais próximo, sem dar atenção aos riscos ligados a esse procedimento.
Dali em diante, o martírio foi diminuindo. No aeroporto da metrópole indiana, descobri um transportador aéreo destinado a Tel-Aviv. Desta vez, vi-me obrigado a influenciar o controlador com o projetor mental, pois dependia de sua cabine pressurizada. Embora o aparelho desenvolvesse apenas seis vezes a velocidade do som, voava a trinta quilômetros de altitude. Se permanecesse nos compartimentos de carga, eu morreria sufocado.
Em Tel-Aviv, comecei a notar o enfraquecimento progressivo da capacidade da bateria. Estava na hora de desligar o pequeno defletor de ondas luminosas.
Por isso, nem saí do aeroporto de Tel-Aviv. Procurei outra aeronave. Na cantina do pessoal de superfície, pude saciar a fome que me martirizava.
Peguei um pequeno avião-transporte pertencente a uma empresa estatal de lubrificantes e cheguei a Trípoli. Aí, encontrei o aparelho particular de um funcionário libanês estacionado no aeroporto.
Quando o mesmo chegou num helicóptero de ligação, deduzi da palestra que travou com o piloto que se encontrava numa viagem de serviço, pois era esperado em Casablanca, onde participaria de uma conferência de técnicos de irrigação. Tratava-se da construção de uma grande estação de recalque. O resto não me interessava. A cidade de Casablanca, situada na costa ocidental da África, era um local muito favorável para a realização do meu projeto.
Decolamos ao escurecer. Sentei bem ao lado do libanês, que ficou submetido totalmente à influência do projetor mental. O piloto também reagira de acordo com os meus desejos.
Recorri às abundantes provisões da dispensa de bordo do veículo de luxo para saciar a fome e a sede e preparei-me para o próximo salto.
As transmissões de rádio e televisão relativas à minha fuga se sucediam. Limitei-me a ouvir apenas o que os locutores oficiais tinham a dizer.
Nunca ouvira uma descrição tão exata de minha pessoa. A televisão terrana chegou mesmo a transmitir séries inteiras de fotografias, com base nas quais até mesmo uma pessoa quase cega conseguiria reconhecer-me.
Recorriam a todos os meios para procurar-me, mas do noticiário depreendia-se sem a menor sombra de dúvida que haviam perdido minha pista. Agora felicitava-me pela decisão de saltar sobre o trem de carga que partira naquele momento.
Provavelmente os matemáticos do serviço de defesa calcularam cada segundo. Se não pudessem reconstituir exatamente meu roteiro de fuga, os dados finais não seriam corretos. Por isso, a idéia do trem de carga não poderia ocorrer-lhes.
Os aparelhos de localização supereficientes produziram um resultado negativo. Ao que tudo indicava, supunham que ainda me encontrava em Terrânia. Para mim, isso era mais que conveniente.
Pousaremos dentro de dez minutos, Sir — disse o piloto sem que ninguém lhe perguntasse. Dera-lhe a ordem correspondente por via hipnótica.
Arrumei a cabine, guardei os mantimentos não consumidos e ordenei aos dois homens que esquecessem minha presença.
Sob a luz fraca do projetor mental, vi que seus rostos se tornavam ainda mais apáticos. Acabara de aplicar-lhes um poderoso bloqueio hipnótico.
O campo de pouso de Casablanca continuava mergulhado numa escuridão total. Havíamos corrido pela noite. Passava pouco das duas horas da madrugada, bastante cedo para que pudesse prosseguir na execução do meu projeto.
Poucas semanas atrás, quando fizera a primeira tentativa, escondera o traje pressurizado de profundidade numa caverna da costa alcantilada. O local ficava perto da cidade de Tanger, que poderia ser atingida antes do amanhecer.
Nosso piloto preparou o pouso. Vi-o girar os propulsores de radiações presos às asas, dirigindo os fluxos de partículas para baixo.
Tocamos o chão suavemente, como se estivéssemos num helicóptero, deslizamos alguns metros e paramos. Abri a porta, saltei e fechei-a atrás de mim, antes que o avião começasse a deslizar novamente na pista.
Com alguns saltos, desapareci na escuridão. Pouco depois, descansei atrás de um hangar em que não havia ninguém.
Bem longe dali o funcionário saiu de um pequeno aparelho. Vi que um carro o esperava. Estava tudo em ordem.
Levei uma hora para descobrir um meio de prosseguir viagem. Uma pessoa do meu tipo não recua diante da perspectiva de penetrar na cova do leão.
Aproximei-me furtivamente do helicóptero ligeiro da guarda costeira e esperei até que os dois funcionários destacados para o patrulhamento aéreo aparecessem.
Quando entraram, já me encontrava no compartimento de carga. Depois da decolagem, só levei alguns segundos para submetê-los à influência do projetor mental. O enrijecimento de seus rostos demonstrava que já não possuíam vontade própria. Esgueirei-me pela estreita porta e acomodei-me no banco traseiro.
O vôo levava-nos para o norte. Bem abaixo de nós, brilhavam as ondas brancas do Atlântico Sul.
Siga diretamente pela rota de Tanger — ordenei em voz lacônica. — Se sua estação de controle fizer qualquer pergunta, diga que notou a presença de alguns veículos expressos na via expressa litorânea, e que pretende revistá-los um por um. Entendido?
Entendido, Sir — disse o piloto.
O tenente, que se encontrava a seu lado, olhava para a frente, com uma expressão apática no rosto.
Centro Blanca para patrulha seis, favor responder.
Patrulha seis, tenente El Habid. Pode falar.
Quando ouvi o som do radiofone, estremeci. Se a tripulação recebesse ordens definidas, que a obrigassem a sair da rota por mim desejada, a situação poderia complicar-se.
Atenção, patrulha seis — soou a voz forte vinda do alto-falante. — Voe pela linha da costa e procure um iate ligeiro que segue a rota de Mechra el Hade. O nome da embarcação é Almeria, e usa a bandeira espanhola. Controle a tripulação e procure encontrar a pessoa que está sendo procurada. Desligo.
Entendido, centro de Blanca. Seguiremos pela linha costeira. Desligo.
O oficial da patrulha aérea desligou. Examinei o reluzente mapa em relevo junto ao painel de instrumentos.
A localidade de Mechra el Hade situava-se entre Casablanca e Tanger, bem na rota que desejava seguir. Uma vez que a cidade de Tanger ficava apenas a cerca de 300 quilômetros em linha reta, poderia checar dentro de trinta minutos.
Transmiti minhas instruções ao piloto. O transformador do pequeno reator de fusão que ficava atrás de mim começou a zumbir com mais força. O rotor, que corria em ponto morto, produziu um matraquear superado pelo trovejar do propulsor de radiações térmicas.
Voávamos a 600 km/h em direção ao lugar dos meus sonhos. Não houve nenhum incidente, até que bem à nossa frente surgissem as luzes da grande cidade de Tanger.
Mandei que o piloto se dirigisse para a praia deserta situada entre Tanger e o subúrbio de Arcila. Saí do aparelho ao sul da Via expressa litorânea.
Muito tenso, segui com os olhos a máquina que se afastava, até vê-la desaparecer na escuridão. Era possível que viessem, a surgir complicações, se o chefe da patrulha não conseguisse explicar por que resolvera voar até Tanger. Até lá teria que manter-me num lugar onde em hipótese alguma pudesse ser encontrado.
Enquanto pensava assim, meu supercérebro transmitiu uma mensagem formada por uma única idéia.
Cansado, seu idiota!
Era claro que estava cansado, mesmo exausto. Nos esconderijos em que me encontrara até então, poucas vezes consegui dormir de verdade. Teria de passar o dia na caverna bem camuflada e aguardar a noite seguinte para prosseguir na execução do meu plano. Se o destino trabalhasse contra mim, os soldados da patrulha, por mim influenciados, colocariam a defesa solar na minha pista. No momento, não sabia como faria nesse caso para voar no meu traje especial pelo mar aberto até os Açores. Não se devia subestimar a raça ativa dos terranos.
Cheguei ao esconderijo pouco antes do amanhecer. A caverna ficava no paredão entrecortado e batido pelo sol. Ninguém conseguiria vê-lo de cima.
Verifiquei os equipamentos cuidadosamente guardados, bebi e comi alguma coisa e deitei-me para dormir.
Meu traje pressurizado de profundidade estava em perfeita ordem, e também o equipamento de vôo. Antes de mergulhar num sono pesado, entrecortado por sonhos terríveis, voltei a refletir sobre meu projeto.
Ninguém sabia da existência de minha cúpula blindada, situada no fundo do mar. As máquinas e instrumentos ali instalados permitiam uma transformação completa de minha pessoa. Era um fator que o serviço de defesa não poderia incluir em seus planos.
Teria que descobrir um astronauta terrano que se assemelhasse a mim na estatura e na expressão do rosto. Quando este homem se encontrasse na minha base, seria relativamente fácil imitar seu corpo. Depois ocuparia seu lugar de tripulante num veículo espacial destinado a Vênus.
Ao pensar no planeta Vênus, tive a impressão de ver Marlis Gentner à minha frente. Disse que me esperaria em Port Vênus.
No grande espaçoporto do segundo planeta do sistema solar, costumavam ser despachadas as naves intergalácticas. Ali talvez conseguisse encontrar um meio de viajar para o sistema de Vega. Quando me encontrasse fora da área submetida à influência imediata da Terra, encontraria um meio de prosseguir.
No sistema de Vega estavam estacionadas unidades da frota espacial solar. Sem dúvida conseguiria apoderar-me de uma Gazela de velocidade superior à da luz, que me levaria para casa.
Para casa! A idéia de Árcon, do Grande Árcon, me causou um calafrio. O que poderia fazer se meu povo venerando realmente estivesse degenerado?
Chamar Rhodan!”, disse meu supercérebro. “Voltar à Terra.”
Bastante contrariado, virei-me para o outro lado e fechei os olhos com força. O setor lógico de meu ser poderia adivinhar à vontade. Se pretendesse voltar à Terra, seria absurdo prosseguir na fuga.

* * *

A noite estava escura e não havia uma única estrela no céu. Regulei o aparelho de absorção de gravidade para 0,1 por cento do valor terrano.
O campo energético pressurizado de alta potência de meu traje de profundidade iluminou-se assim que entrou em contato com as águas escuras e encapeladas do Atlântico.
Meu vôo decorrera sem o menor incidente. Mantive-me bem perto da superfície da água, senão seria praticamente impossível localizar-me por meio de aparelho.
No momento em que mergulhei no mar, em algum ponto ao sul da ilha de São Miguel, meu goniômetro registrou o impacto de impulsos de radar transmitidos em onda curta, que provavelmente estariam sendo emitidos por uma aeronave que se deslocava em grande altitude. Quando desapareci nas águas, o chiado agudo cessou.
Deixei-me baixar com uma força de 3 G, até que o fundo entrecortado do mar surgisse embaixo de mim.
Aqui era tudo silêncio e solidão. Os únicos ruídos que perturbavam o ambiente solene eram o zumbido do meu transformador e os estalidos agudos do projetor. A pressão do vibrador de ondas me fez deslizar sobre as grandes reentrâncias do fosso dos Açores, que começava neste ponto. Fiz a antena submarina emitir o primeiro sinal de identificação.
Até então, a tripulação de robôs de minha cúpula mostrara-se infalível. E foi também o que aconteceu desta vez. Depois de emitido o terceiro sinal, ouvi os sons inconfundíveis dos raios vetores, que indicavam a direção exata. Dentro de poucos minutos, descobri o fosso profundo em que estava escondida minha edificação de aço. Desci, parei numa saliência da encosta e contemplei a montanha de lama que ocultava a forma semi-esférica.
A luz infravermelha do meu holofote de capacete voltou a atrair os peixes de formas bizarras que habitavam as águas profundas, e que desde longos tempos haviam sido meus únicos amigos.
Esperei até que o raio energético deixasse livre a pequena comporta. A lama levantada pela turbulência assentou devagar. Quando consegui enxergar um pouco melhor, percorri as poucas centenas de metros que me separavam da escotilha aberta.
Antes de entrar na câmara da comporta, voltei a olhar em torno. Encontrava-me a 2.852 metros de profundidade. Aqui só poderia ser descoberto por um submarino, mas estes não costumavam arriscar-se a entrar nas estreitas fendas do fundo do mar.
Há poucos meses alguém me havia confundido com um peixe. Hoje o fato parece engraçado, mas na época foi uma experiência terrível.
Entrei na comporta, fechei a pesada escotilha blindada de aço arcônida e aguardei a operação de esvaziamento. Acima de minha cabeça, as bombas potentes começaram a trabalhar ruidosamente. Logo depois, a água altamente pressurizada foi recalcada para fora da comporta.
O uivo produzido pelo ar que penetrava no recinto me fez fechar os olhos, muito satisfeito. Só agora me encontrava em segurança. Só agora poderia realmente iniciar a fuga.
O campo energético pressurizado, que me protegera contra a pressão da água, foi desativado automaticamente. Uma luz forte penetrou pela escotilha interna que se abria.
Como sempre, o rosto de bioplástico de Rico exibia um sorriso gentil. Numa atitude elegante e ágil, meu criado robotizado penetrou na comporta.
Seja bem-vindo, senhor — disse a voz metálica, à qual não conseguíramos conferir uma modulação humana.
O fato de subitamente ser chamado de senhor deixou-me emocionado. Tinha a impressão de que de uma hora para outra penetrara num mundo diferente. E era isso mesmo, conforme meu sexto sentido lógico avisou imediatamente.
Nessa cúpula dormira muitos anos. Era tão velha quanto boa parte da história da Humanidade.
Estava prestes a revelar meu grande segredo perante minha própria mente, depois que me mantivera calado por semanas a fio, suportando o martírio íntimo dos inquéritos psicológicos.
Rico ajudou-me a tirar o desajeitado traje protetor.
Cansado, senhor? — perguntou. A voz devia soar preocupada. Mas, mesmo tratando-se de uma máquina de alta precisão, o robô não era capaz de dar expressão real a esse tipo de emoção.
Não — respondi em tom áspero.
Rico sorriu. Ninguém conseguiria ofendê-lo.
Preparei um banho, senhor.
Espere um pouco.
Com o corpo ereto desci pelo corredor estreito, tomei o elevador antigravitacional e subi à cúpula abobadada. Parei diante da porta de aço pintada de vermelho.
Rico não disse mais nada. Calculara que estava dominado por emoções que um robô não conseguiria compreender.
Atrás da porta vermelha ficava meu museu particular. Seu valor era muito superior ao de um lugar destinado à guarda de objetos antigos. Até então só subira para lá quando um estado de comoção psíquica me obrigasse a tanto.
Com as mãos, acionei a fechadura de impulsos. A escotilha abriu-se silenciosamente. A luz indireta veio do teto.
A passos hesitantes penetrei na grande sala, separada por paredes internas.
Ali estavam depositadas as testemunhas mudas do meu passado, que tanto interessariam a Allan D. Mercant e que simplesmente resolvi omitir.
Parei diante da grande espada afiada de ambos os lados, que pertencera a Carlos, o Corajoso, da Borgonha. Num gesto pensativo, pesei-a com a mão. Certa noite, quando o duque se encontrava na tenda de campanha, martirizado pelas dores, pedira-me que lhe desse o golpe de misericórdia com essa arma.
Minha intenção era operá-lo, embora suas úlceras de estômago já se tivessem transformado num câncer. No dia seguinte, Carlos, o Corajoso, tombou em combate. Vi os confederados embriagados queimarem a tenda majestosa.
Prossegui, mergulhado em recordações. Não havia ninguém neste planeta que estivesse tão bem informado sobre os inúmeros segredos do passado. E ninguém conhecia melhor as falsificações da história. Não havia quem soubesse dizer tão bem quanto eu por que o príncipe Eugênio conseguira infligir uma derrota tão fulminante aos turcos.
O chapéu de Wallenstein com o penacho surgiu à minha frente. Bem ao lado do mesmo estava o trabuco que Colombo disparara.
Mais adiante encontrei a armadura de Ricardo, Coração de Leão. Certa vez, dissera que eu era seu vassalo mais fiel, e me prometera uma herdade na Inglaterra.
Sem querer, sorri ao descobrir a pequena luva de ferro. Joana d’Arc havia usado a mesma quando juntos tomamos de assalto a fortaleza de Orleans.
Fui mergulhando no passado, à medida que andava pela sala repleta de objetos da história. Sempre gostara de topar repentinamente com uma testemunha de tempos idos. Não apreciava a ordem rigorosa. Preferia ser surpreendido.
Ali estava o canhão de tiro rápido, primitivo mas eficiente, que construíra juntamente com Leonardo da Vinci. Considerava-o um homem muito importante, motivo por que lhe ensinei uma porção de coisas.
Bem ao lado do mesmo, estava o Colt 44 da marinha, cuja coronha usara para abater o assassino de Abraham Lincoln, infelizmente com um segundo de atraso.
Enquanto caminhava entre os objetos, parecia estar mergulhado num sonho.
De repente, Rico arrastou-me de volta para a realidade áspera.
O cérebro o aguarda, senhor.
Caminhando na ponta dos pés, abandonei a sala do passado. Lá fora, junto da porta vermelha, dei testemunho de mim mesmo.
Não; nunca fiz nada que pudesse prejudicar a Humanidade. Sempre me empenhei em estimular seu desenvolvimento científico e tecnológico, que um dia a levaria a dominar a navegação espacial.
Naquele tempo, já tinha o desejo de voltar para casa. Mas, quando um homem chamado Perry Rhodan deu início à navegação espacial, fui idiota a ponto de fugir apressadamente para minha fortaleza submarina, a fim de escapar a uma guerra nuclear que não aconteceu. Dessa forma, dormi durante a fase mais importante da evolução dos pequenos bárbaros.
Dali a dez minutos, vi-me diante da tela diagramada do computador robotizado da cúpula, que aguardava minha programação.
Preciso de uma construção semi-orgânica encerrada num corpo, que se pareça com um esqueleto humano. Num exame de raios X, deverá ter o aspecto de um verdadeiro homem. É necessário embutir refletores em forma de coração e pulmão, a fim de transmitir a imagem perfeita do organismo humano. Será possível realizar uma construção desse tipo?
O grande autômato começou a zumbir. Cinco gerações de técnicos haviam trabalhado em sua construção.
Solicito dados mais precisos, senhor — respondeu o computador.
Com esta resposta fiquei sabendo que minha própria excursão à superfície já não correria o risco de transformar-se num fracasso em virtude da falta de uma simples fotografia de raios X.
5



Nevada Space Port, era este o nome do maior espaçoporto dos dois continentes americanos. Dali partiam as espaçonaves destinadas às luas e aos planetas do sistema solar.
As enormes naves de longo curso, cujos hiperpropulsores lhes permitiam vencer os anos-luz em poucos segundos, decolavam em noventa e nove por cento dos casos de um espaçoporto ainda maior: Terrânia.
De qualquer maneira, os Nevada Fields, como também costumavam ser designados, tinham sua história.
Foi dali que Perry Rhodan decolou em 19 de junho de 1.971, para realizar a primeira viagem tripulada à Lua, onde viria a descobrir a tripulação de uma nave exploradora dos arcônidas, que realizara um pouso de emergência.
Em atitude pensativa, contemplei o foguete original com o qual Rhodan arriscara, há sessenta e nove anos, o grande salto. Pelo que diziam, antigamente a Stardust ficara depositada no deserto de Gobi, até que Rhodan mandou levá-la ao lugar onde seus primitivos propulsores atômicos rugiram pela primeira vez.
Não era o único que se encontrava no grande museu de astronáutica de Nevada Fields: cerca de duzentos emigrantes deixariam a Terra com destino a Vênus.
Olhei discretamente em torno. Entrara em meio a um verdadeiro enxame de pessoas. Depois das investigações cautelosas por mim realizadas, resolvi desistir da idéia primitiva de “imitar” um piloto de nave espacial.
Seria muito difícil enganar os numerosos amigos e conhecidos de um homem desse tipo. Lembrei-me dos colonos que diariamente partiam em direção ao espaço.
Aproximei-me de um indivíduo louro e robusto que, quando muito, contaria trinta e oito anos de idade. Tinha a mesma compleição que eu. Uma investigação mais detida revelou que era o sexto filho de um lavrador da Alemanha do Norte. Seu nome era Hinrich Volkmar. Viera sozinho, depois de formular uma série de pedidos de licença para emigrar.
Hinrich era meu objetivo. Naquele momento, encontrava-se em um profundo sono biológico nas profundezas do mar, bem velado pelos meus robôs.
Ordenara a Rico que dali a um ano, o mais tardar, o acordasse e o largasse na Espanha, depois de entregar-lhe pedras preciosas no valor de cem mil solares.
Além disso, elaborei um relatório escrito destinado a Perry Rhodan e ao Serviço Solar de Segurança, que poderia ser apresentado por Hinrich, depois que o mesmo fosse acordado.
Ninguém poderia acusar o jovem, uma vez que agira sob a influência de meu projetor mental. Fizera tudo para que não tivesse maiores problemas, mesmo que eu morresse de uma hora para outra.
Depois do interrogatório hipnótico realizado no interior de minha cúpula, armazenei seus dados individuais em minha memória fotográfica. Além disso, tinha em mãos seus documentos, inclusive a licença de emigração, que já me haviam permitido penetrar na área reservada.
Não tivera de mascarar-me muito. Meus robôs especializados apenas realizaram alguns transplantes de bioplástico e removeram a coloração avermelhada dos meus olhos.
De resto nada havia sido mudado em meu corpo. Meu inglês tinha a tonalidade de um dialeto alemão, e meu comportamento era descontraído, franco e ingênuo, motivo por que até então ninguém desconfiara de mim.
A bagagem de Hinrich consistia numa mochila elástica, que continha exatamente cinqüenta quilos de objetos de uso pessoal. Era o máximo que os emigrantes poderiam levar, para não sobrecarregar as naves. Pelo que dizia, no segundo planeta solar estava tudo preparado para receber os colonos de Vênus.
Se minha idéia a respeito de Rhodan fosse correta, Perry realmente deveria ter tomado todas as providências. No contrato de Hinrich, lia-se que o Império Solar lhe forneceria gratuitamente uma área de cinqüenta hectares e as máquinas necessárias ao desmatamento, ao preparo do solo e ao plantio.
Rhodan elaborara um programa social de alto alcance. A instalação de uma fazenda em Vênus, realizada por um emigrante terrano, custava cerca de 150 mil solares ao governo.
Há três dias transformara-se num homem jovem de cabelos louros, lábios risonhos e uma grande saudade no coração. Queria sair para o espaço, dar as costas à mãe-terra e dedicar-se ao trabalho, a fim de que um belo dia pudesse escrever aos seus: consegui; estou procurando uma companheira para minha vida. Quanto dinheiro devo mandar?
Era assim que pensava o verdadeiro Hinrich Volkmar, e também era assim que pensavam os outros emigrantes vindos de todos os quadrantes. A nave transportadora deveria decolar ainda hoje.
Estávamos no dia 13 de julho de 2.040. Pude realizar um trabalho rápido, mas meticuloso. Menos de trinta dias se haviam passado a partir de minha fuga de Terrânia. A ação de busca ainda prosseguia.
Acontece que, ao que tudo indicava, haviam subestimado os meios de que dispunha. Naquele momento, felicitava-me a mim mesmo pelo silêncio obstinado mantido até então, e que impedira a descoberta da cúpula submarina.
Na opinião do serviço de defesa, devia ser totalmente impossível que o fugitivo escapasse à rede armada para sua captura. E seria isso mesmo, se não possuísse os aparelhos eficientíssimos, cuja existência era ignorada por meus perseguidores.
No momento em que cheguei a Nevada Fields, disfarçado em Hinrich, foi realizado um exame de raios X. Qualquer pessoa só poderia penetrar na área reservada depois de passar pelas objetivas.
Evidentemente recorriam a essa medida para neutralizar qualquer ação por mim concebida. O esqueleto de bioplástico, destinado a enganar o médico sobre a verdadeira constituição de minha ossatura, foi reconhecido como genuíno.
Dessa forma, a partir do dia 11 de julho de 2.040 portava o distintivo luminoso de cerca de dez centímetros, no qual estavam gravados em relevo os dados relativos à minha pessoa. Nos fios magnéticos embutidos, estava armazenada uma série de dados adicionais bem codificados sob a forma de impulsos, relativos à minha pessoa e às provas por mim realizadas. Estava tudo na mais perfeita ordem.
Recebi o número 211. A nave espacial que me levaria a Vênus juntamente com outros colonos era a Glória. Estava guardada num edifício alongado, que os funcionários do serviço de emigração, num acesso de humor feroz, haviam batizado com o nome de casa dos cheiros. O odor penetrante dos desinfetantes, usados numa profusão exagerada, impregnava minhas vestes, feitas de fio sintético resistente e confortável, mas pouco vistoso.
Os colonos destinados a Vênus eram muito bem equipados, porém não se fazia questão de que fossem elegantes. O trabalho frio do setor de colonização não tinha lugar para ganhos extras.
Já conhecia a nave que me transportaria. Era um pequeno veículo esférico, de apenas cinqüenta metros de diâmetro, pertencente à série planetária. Não possuía armas e não estava equipada com propulsores que lhe permitissem desenvolver velocidade superior à da luz. Destinava-se exclusivamente ao transporte entre os mundos do sistema solar.
O vôo até Vênus duraria oito horas. Era um tempo bastante longo, ainda mais que as poucas cabines destinadas aos emigrantes só continham filas de poltronas muito apertadas. As camas ou outros tipos de instalações confortáveis foram dispensadas. Na opinião das autoridades, qualquer pessoa poderia permanecer sentada durante oito horas.
A Glória, uma nave de mais de trinta anos, viajava constantemente entre Vênus e Terra e vice-versa. Todo segundo dia de cada mês, decolava com uma carga humana destinada a Vênus, além do quê, transportava boa quantidade de mercadorias de todas as espécies.
Os tripulantes dessas naves não gozavam de prestígio muito elevado. Os astronautas altamente qualificados dos veículos espaciais, que desenvolviam velocidade superior à da luz, olhavam-nos de cima para baixo.
Os vaivens planetários ocupavam aproximadamente o mesmo lugar dos antigos navios fluviais, que nunca se comparariam a uma embarcação de alto-mar.
Diverti-me a valer com a enfatização da diferença. Neste ponto, os terranos não eram diferentes dos indivíduos de meu povo. E, há menos de noventa e nove anos, esses bárbaros encantadores se rejubilaram de admiração quando um Perry Rhodan conseguiu realizar o salto ridículo até a lua terrana. Não havia como negar que evoluíram muito depressa. A essa altura, os homens que pilotavam as hipernaves de longo curso sentiam-se indignados quando se encontravam com uma dessas lesmas planetárias. Esqueciam-se completamente de que essas lesmas sempre percorriam o espaço a uma velocidade apenas dez por cento inferior à da luz.
Ao meio-dia em ponto, fui ao grande refeitório coletivo, repleto de emigrantes que riam e discutiam animadamente. Procurei um canto afastado, devorei um enorme bife com vagens e batatas fritas e observei com cuidado os arredores.
Eram todos iguais, esses jovens para quem Vênus, o planeta das selvas, continuava a ser um paraíso, apesar de todas as informações em contrário que deveriam ter recebido.
Vi famílias inteiras dispostas a arriscar o grande salto. Sonhavam com a aventura e a riqueza, com a independência e com grandes festas na borda da mata.
Ainda não conheciam as picadas dos mosquitos venusianos nem os sáurios vorazes que, com umas poucas pisadas, destruíam suas culturas. E não faziam uma idéia adequada dos pequenos répteis venenosos e da temperatura de estufa reinante na superfície do planeta.
Pelas 12:30 h os alto-falantes soaram.
Colonos destinados a Vênus, vôo 118. Apresentem-se no portão sul. Levem a bagagem e mantenham os documentos em suas mãos. Apressem-se.
Era uma chamada pouco convencional. Cerca de duzentas e cinqüenta pessoas levantaram-se das cadeiras duras de plástico. Alguns correram diretamente para o portão norte, onde os funcionários apáticos e os pilotos sorridentes lhes apontavam o caminho correto.
Foi um berreiro e uma correria; até se tinha a impressão de que o mundo estava para acabar. Resolvi entrar na confusão. Dali a alguns segundos, também estava gritando. Devo portar-me como um emigrante, era este o meu lema.
Um comando da policia recebeu-nos sob o sol escaldante do verão.
O sol provocou-me uma sensação muito desagradável; nos homens do serviço de segurança não foi tanto. Atrás deles, encontravam-se os caminhões com as grandes plataformas de carga. Ao que tudo indicava, seríamos submetidos a outro controle antes que nos levassem à nave transportadora.
As mulheres e crianças tiveram permissão para subir imediatamente aos carros. Apenas os homens enfileiraram-se para esperar. Encontrava-me no meio da fila formada por emigrantes nervosos. Os homens gritavam de impaciência. Tudo iria recomeçar.
Meu equipamento especial, um volume muito reduzido, fora escondido bem nos fundos da mochila padronizada. Ainda que me obrigassem a abri-la, teriam que procurar muito para encontrar alguma coisa. Até mesmo o precioso ativador celular fora retirado juntamente com a corrente. Não poderia demorar muito em pendurá-lo ao pescoço, pois do contrário haveria problemas.
O que houve? — perguntou um homem baixo e moreno. Virei-me e dei de ombros.
Era um mexicano, que queria fugir da Terra com sua família de cinco pessoas. Seu nome era Miguel Hosta. Não era a primeira vez que nos encontrávamos. Talvez fosse recomendável entreter uma conversa com esse terrano cheio de vida.
Não faço a menor idéia — disse com uma risada. — Apenas sei que não deixarei que me mandem de volta. Pelo que dizem, há pouco tempo retiraram alguém da nave, pouco antes da decolagem. O sujeito tinha um pouco de febre.
Santo Deus! — gemeu o moreno num assomo de desespero. — Acho que também estou com febre. Será que vão medir?
Os homens que se encontravam à minha frente e atrás de mim soltaram uma gargalhada. As piadas e observações dirigidas ao policial que realizava o exame tornavam-se mordazes, à medida que nos aproximávamos da mesa improvisada.
O que mais me incomodava era o aparelho de raios X sobre rodas que, segundo tudo indicava, realizava um exame “automático” de cada emigrante. Ao lado da respectiva tela, havia um médico do serviço de defesa. Assim que fazia um movimento relaxado com a mão, o colono que acabara de ser submetido ao controle poderia dirigir-se ao carro. Evidentemente o pretenso exame médico era um absurdo. Não havia mais nenhuma lista a elaborar.
Estavam procurando um almirante arcônida que evidentemente não poderia ser dotado de um esqueleto humano.
Meus olhos começaram a ficar úmidos, o que provava meu nervosismo. Se o médico que se encontrava junto ao aparelho prestasse muita atenção, talvez pudesse notar a diferença mínima no reflexo dos órgãos embutidos em meu corpo.
Conserve a calma!”, disse meu sexto sentido. Naquele momento, cheguei a odiar o setor de lógica do meu cérebro.
O homem à minha frente era um terrano gigantesco do Estado Federal da África. Colocou-se diante do aparelho com as pernas bem abertas, abriu a blusa, na altura do peito e pôs o dedo sobre o coração.
Aqui, soldados! — berrou a plenos pulmões.
O médico estremeceu, enquanto um sorriso largo cobriu o rosto do tenente sentado atrás da mesa. E eu perguntei-me se aquele rapaz de pele escura já teria ouvido falar nos onze oficiais de Schill fuzilados pelos soldados de Napoleão.
O médico fez um gesto para que se calasse. O gigante, que ria às gargalhadas, correu em direção ao carro. Depois chegou minha vez.
O atestado de vacina, por favor — disse o funcionário com a voz cansada. Quando levantou os olhos, acordou de um instante para o outro. Pôs a mão na arma.
Lançou-me um olhar penetrante. Mas finalmente uma expressão de insegurança surgiu em seus olhos; virou-se para seus soldados.
Nome? — perguntou em tom áspero.
Lancei-lhe um olhar ingênuo.
Hinrich Volkmar, senhor tenente — respondi em voz trovejante. — Sou filho de Pieter Volkmar, inspetor de diques.
O jovem oficial voltou a sentar. Sem dizer uma palavra apontou com o polegar em direção ao aparelho de raios X. Sabia perfeitamente que minha radiografia já fora tirada.
É uma semelhança surpreendente, Sir — disse um dos soldados em tom apressado.
Coloquei-me diante da tela e tirei a mochila. Desta vez o médico examinou com maior atenção a imagem projetada pelo aparelho.
Aí estão as costelas, Tommey; não existe a menor dúvida — disse com a garganta ressequida. — Vamos acabar logo com isto, senão terei uma insolação.
Ainda bem que o homem sofria tanto com o calor. Não havia examinado a radioscopia com a atenção devida.
O tenente lançou mais um olhar perscrutador para minha pessoa, mas, por fim, soltou um suspiro e colocou o carimbo no formulário.
Aqui. Leve isto e guarde bem. O senhor se parece com uma pessoa com a qual gostaríamos de ter uma conversa. Vamos logo; o próximo.
Esperei pelo pequeno mexicano, que se sentiu muito satisfeito por passar pelo exame.
O terrano de pele negra puxou-nos para cima da plataforma do veículo. Dirigindo-se a mim, riu e exclamou:
Ei, o que queriam de você, meu caro? Venha para junto do meu coração.
Ao que parecia, o gigante parecia preocupar-se constantemente com o coração. Apertou-me nos braços e empurrou-me para um lugar vazio. Miguel Hosta espremeu-se para caber a meu lado.
São uns sujeitos formidáveis!”, disse meu sexto sentido. Desta vez, concordei com o setor lógico de minha mente. Com gente desse tipo, Rhodan poderia perfeitamente construir um império estelar.
Ainda tenho dois tabletes de chocolate no bolso — disse. — Alguém quer um pedaço? Perdi o apetite. Estão procurando uma pessoa que se parece comigo.
Miguel recusou com um gesto de horror. O homem de pele escura, cujo nome era Embros Tcheda, aceitou. Sorriu e disse:
Quer saber de uma coisa, meu caro? Isso não devia preocupá-lo. Quando estivermos em Vênus, começaremos vida nova. Você entende de economia agrícola? O que pretende plantar?
Ainda não resolvi. Entendo de EA. Você não?
Embros fez um gesto negativo e uma careta.
Muito bem; nesse caso devíamos tornar-nos vizinhos — disse. — Não consigo lidar com as bactérias do solo. Você entende do assunto?
Em bactérias, sou um cobra. Farei as análises e você dirá o que devemos plantar.
Tive de esforçar-me para resistir ao seu vigoroso aperto de mão. Naquele momento, indaguei a mim mesmo por que estava arriscando a vida para chegar em casa.
Nas veias dessa raça humana jovem corria sangue arcônida. Eu mesmo autorizara vários casamentos entre meus subordinados e mulheres terranas. Afinal, onde era meu lar?
6



Port Vênus era uma cidade supermoderna, cuja arquitetura adaptava-se às exigências desse mundo escaldante fustigado pelas tormentas.
A rotação de Vênus em tomo de seu eixo polar era bastante lenta. A extensa zona de penumbra, que ficava no limite entre a face diurna e a noturna, sofria constantemente os efeitos de terríveis furacões. Nos momentos em que as povoações humanas se encontravam na zona de turbulência, as ruas transformavam-se em tubos de compressão, nos quais as fúrias desencadeadas tocavam um concerto infernal.
Não era nada simples morar nesse planeta, quanto mais estabelecer-se comercialmente. Quando a camada de nuvens do segundo mundo solar se abria para despejar a chuva, a água descia abruptamente, como se estivesse sendo despejada por baldes. Quem não encontrasse imediatamente uma elevação poderia ser arrastado nas torrentes.
Port Vênus ficava num extenso platô de rocha, situado na costa elevada do oceano equatorial, Era nessa área que talvez se localizasse o centro de computação que meu povo construíra há muito tempo no planeta Vênus.
Rhodan apossara-se da gigantesca máquina e controlava-lhe o funcionamento, embora de direito isso não lhe coubesse.
Naquele momento, estaria disposto a conceder-lhe autorização a posteriori. Afinal, fizera alguma coisa naquele mundo selvático.
Cerca de oitocentos metros abaixo do platô começava a mata escaldante e infestada de febres. Não era de surpreender que o Instituto de Doenças Cósmicas Infecciosas, ocupasse o maior e o mais importante dos edifícios da cidade. Aqui se travava uma luta encarniçada contra a natureza poderosa e cruel.
Quase todas as semanas descobriam-se doenças novas, ainda desconhecidas, e geralmente contagiosas. Os colonos vindos comigo haviam recebido mais de trinta vacinas antes de partirem da Terra.
Minha imunidade era quase completa, pois abastecera-me com os soros arcônidas.
Fazia cinco dias que a Glória penetrara na densa atmosfera venusiana, com os jatos chamejantes. O espaçoporto de Port Vênus ficava a apenas cinqüenta metros acima do nível do mar. Esse dado nos revelou desde logo as verdadeiras condições reinantes em Vênus.
Embros Tcheda, que fez questão de ser o primeiro a sair da nave, por pouco não morre afogado nas torrentes de água despejadas do céu. Dentro de poucos segundos, o extenso espaçoporto assumiu o aspecto de um rio caudaloso.
Com grande dificuldade conseguimos agarrar Embros. As águas turbilhonantes quase o arrastaram para perto dos jatos incandescentes de uma nave de longo curso que estava de partida.
Foi esta a primeira má impressão. Dali a dez minutos, o céu assumiu o aspecto “límpido” que era uma característica de Vênus. Raras vezes a camada de nuvens compactas permitia que se visse o sol.
Os vapores quentes, que subiam das placas de plástico blindado do revestimento do espaçoporto, deixavam os homens deprimidos. Até parecia que nos encontrávamos numa grande lavanderia.
Quando saímos da comporta constatamos que a temperatura era de exatamente 53,4 graus centígrados. Embora as pessoas que se encontravam ali fossem superselecionadas e tivessem passado por centenas de testes, duas mulheres ficaram inconscientes. O calor era suportável, mas não o elevado teor de umidade do ar. Era ele que tornava o clima mortífero.
Na linha do horizonte, via-se a mata virgem. Já a conhecia de tempos idos, por isso não me envolvi nas mesmas ilusões dos colonos.
Dali a duas horas, uma frota de potentes helicópteros levou-nos a Port Vênus. A cidade ficava 850 metros acima do nível do mar. Acontece que o extenso platô de rocha onde fora construída não oferecia espaço para o porto espacial.
O exame dos nossos documentos foi uma cerimônia enervante. Altos funcionários e oficiais da selva disseram palavras que ora pareciam patéticas, ora duras. Falava-se constantemente em doenças, feras, répteis venenosos, preparo do solo e condições climáticas. Meus amigos vindos pela velha Glória nem sabiam o que os esperava.
Hoje recebi licença pela primeira vez. Logo após a minha chegada escrevera algumas linhas, confiando-as ao correio de Vênus que, segundo tudo indicava, funcionava muito bem.
Por uma questão de cautela, expedi a carta para a posta-restante. Se Marlis Gentner já tivesse chegado, provavelmente iria todos os dias à agência dos correios.
Fiquei numa espera ansiosa até poucas horas atrás, quando a notícia me foi entregue em mãos.
Meu velho amigo Gunter Viesspahn, que chegara a Vênus antes de mim, convidou-me para dar um giro em Port Vênus.
No momento em que a carta me foi entregue, um sargento do serviço de segurança pediu esclarecimento sobre a origem da ligação.
Mostrei-lhe a carta. Minha explicação, que falava num amigo de escola, revelara-se bem plausível. Era bem possível que, por aqui, houvesse um conhecido que imigrara antes de mim.
Encontrava-me no monotrilho que ligava a sede da administração do espaçoporto com o centro da cidade. Mesmo com o aparelho de ar condicionado funcionando perfeitamente, comecei a transpirar. O esqueleto de bioplástico colado à pele atrapalhava a transpiração. Já estava na hora de livrar-me desse produto de minha oficina robotizada pois não voltaria a ser submetido a um exame de raios X.
Meu sexto sentido prevenia-me sempre quanto ao sargento excessivamente curioso do serviço de segurança. Por que teria demonstrado tamanho interesse por uma carta inofensiva?
Teria de descobrir quanto antes se a operação de busca que visava minha pessoa também se estendia a Vênus. Era bem possível que, após a decolagem da Glória, o oficial incumbido do controle em Nevada Space Port ainda andasse desconfiado. Talvez tivesse expedido um aviso pelo rádio.
Interrompi minhas reflexões angustiantes. Se Marlis houvesse realizado um trabalho bem feito, não teria motivo para preocupações. Poderia ir para a selva, como colono, a fim de aguardar uma oportunidade favorável para a fuga. Talvez conseguisse encontrar em Vênus uma Gazela capaz de desenvolver velocidade superior à da luz, e esta me levaria ao sistema de Árcon. O raio de ação dos modelos mais recentes desse tipo de nave era limitado exclusivamente pela necessidade de revisão periódica dos propulsores.
Saí do metrô, subindo pela escada rolante. Poucas vezes, vira reunidos no mesmo lugar terranos com vestes tão diferentes.
A Praça Tomisenkow, cujo nome homenageava um comandante russo de divisão que há muitos anos procurara conquistar o planeta para sua pátria, era o centro de Port Vênus.
Aqui situavam-se os edifícios amplos e resistentes que abrigavam o governo colonial venusiano. A rua Nova Iorque praticamente dividia a cidade. Nela ficavam os escritórios e as lojas.
Neste mundo quente e úmido, podia-se comprar qualquer coisa. Por muito tempo acreditara-se que sua atmosfera não continha oxigênio. Todavia, conseguia-se respirar muito bem no segundo planeta solar, que parecia esconder-se da estrela-mãe sob uma espessa camada de nuvens.
Junto à plataforma houve uma confusão. Dois sujeitos barbudos e pálidos, que há anos não viam um raio de sol, brigavam por uma questão fútil.
A intervenção dos policiais, que acorreram imediatamente, foi bastante rude. Ameaçaram com os fuzis de choques elétricos e fizeram dois disparos de advertência para o alto. Os dois elementos logo se acalmaram.
Os habitantes do planeta pareciam ser rudes; era uma população pioneira, que sabia lidar com as armas. Vi muitos colonos caminharem pelas ruas com os radiadores energéticos a tiracolo. Ao lembrar-me do ambiente hostil que ameaçava a cidade, compreendi por que os visitantes andavam tão bem armados.
Peguei um táxi de modelo antigo movido a turbina de gás, que me tirou da confusão, levando-me para uma área mais tranqüila. Procurei gravar as ruas que atravessamos antes de pararmos diante do edifício imponente do Museu Terrano.
Ao descer, apalpei os objetos que compunham meu equipamento especial. Carregava tudo aquilo que antes escondera com tamanho cuidado. Se fosse obrigado a fugir, não poderia voltar aos alojamentos de imigrantes.
Seria perigoso carregar as armas. Ainda não havia recebido o respectivo porte.
O ativador celular, imprescindível à minha vida, estava pendurado ao peito. Por dentro do traje pouco elegante usado pelos colonos, levava o potente defletor de raios luminosos, que era do tipo cujo funcionamento dependia do microcarregador.
Meu projetor mental tinha um alcance de dois quilômetros. Guardei a arma psicológica em forma de bastão no bolso direito da calça.
Paguei e saí do carro. Caminhei lentamente em direção às pesadas portas blindadas de plástico de aço do museu. Era ali que meu velho amigo iria esperar-me.
Inúmeras pessoas saíam e entravam incessantemente. Notei muitos colonos cujas vestes grosseiras de fibra sintética os distinguiam dos trajes bem mais elegantes dos funcionários da instituição.
Dois policiais em posição descontraída guardavam a larga porta de entrada. Ao passar por eles, ouvi uma risadinha.
Ei, calouro, já está com saudades da Terra?
Virei-me e fitei os homens que riam de mim. Usavam pesados fuzis de choque e grandes capacetes de rádio. Ao que parecia, mantinham contato ininterrupto com a central.
Calouro era o nome pelo qual me haviam chamado. Era o apelido dos colonos recém-chegados.
Aqui sempre faz tanto calor? — perguntei com a voz queixosa.
Sua risada tornou-se mais forte. Calei-me e prossegui sem dizer mais uma palavra. Subitamente vi um homem de cabelo preto e barba ondulante. Usava roupa de colono e um radiador energético de aspecto atemorizante.
Reconheceu-me imediatamente. Entre os fios da barba hirsuta surgiu a boca. Gritou expressando contentamento.
Senti-me abalado. Marlis me mandara um sujeito um tanto maluco.
Bateu com tanta força nos meus ombros que, por vários dias, o local ficou dolorido. Além disso, aquela fúria em pessoa gritou nomes carinhosos e felicitações chorosas ao meu ouvido, e isso com tamanha força que tive medo de ficar surdo.
Sou Gunter Viesspahn — disse em voz baixa entre dois gritos. — Vamos logo; temos que dar o fora.
Segurou-me pelo braço e saiu cantando a plenos pulmões.
Abram caminho, seus vermes ordinários da cidade; não estão vendo que um homem quer passar? — gritou meu novo amigo para os policiais.
Estes deram uma resposta impublicável. O tom que se usava por ali era terrível. Senti-me apavorado, mas logo me lembrei de que isso constituía uma das características de um jovem planeta colonial.
O barbudo arrastou-me para dentro do museu em cujo subterrâneo, segundo dizia, havia um restaurante no qual a temperatura seria bastante agradável.
Desconfiaram de você? — perguntou em voz baixa.
Não sei. Leram sua carta. Não tive outra alternativa — respondi em tom apressado.
Isso é mau, meu filho. O que contou aos espias?
Ficou satisfeito com minha explicação. Orientara-me pelas indicações disfarçadas que lera entre as linhas. De acordo com as mesmas Gunter Viesspahn chegara a Vênus há dois anos. Era da Frísia, onde nos conhecêramos há algum tempo.
No local reinava uma temperatura agradável. Porém não passava de uma terrível espelunca cheia de colonos, que se divertiam contando bravatas. Não me senti à vontade.
Vamos tomar um purly e dar o fora — disse Viesspahn. — Não olhe tão desconfiado. Está tudo em ordem. Marlis está à sua espera. Tomamos todas as precauções.
Não tinha muita certeza disso. Essa gente não conhecia a defesa solar. Fiz uma pergunta lacônica:
Alguém sabe que você conhece Marlis?
Ora essa! — disse com uma risada. — Acontece que Marlis é minha irmã.
Vi as maiores complicações aproximarem-se ainda mais de mim.
Em Terrânia havia uma Divisão de Logística que contava com as cabeças mais inteligentes e os computadores mais eficientes do Universo.
Marlis era uma das estudantes que me haviam visto no dia da fuga. Não havia a menor dúvida de que o serviço de defesa já teria verificado quem se encontrava perto de mim quando surgiu a confusão no auditório. Marlis foi uma delas. Depois interrompeu os estudos e voltou para Vênus. Era uma das pessoas que defendiam os direitos daquele planeta e, durante as discussões, dissera publicamente que em sua opinião minha prisão representava uma indignidade.
Grande pista... e o general Kosnow não deixaria de percebê-la!
Após isso, em Nevada Fields suspeitou-se de um homem louro, mas verificou-se que o mesmo possuía esqueleto humano. E junto a esses pequenos elementos de suspeita ainda existia outro: após chegar a Vênus esse homem escreveu uma carta e recebeu resposta.
Se fizessem uma investigação para apurar se dois colonos chamados Volkmar e Viesspahn se conheciam na Terra, o resultado só poderia ser negativo.
A tudo isso, ainda acrescia que um irmão da estudante Marlis Gentner me esperara. Se esses elementos fossem concatenados, o serviço de defesa de Rhodan desferiria seu golpe dentro de uma hora.
Meu instinto me disse que já estava sendo esperado nos alojamentos dos imigrantes. Em hipótese alguma, deveria voltar para lá. Meu esqueleto de bioplástico não resistiria a um exame médico minucioso.
Lembrei-me dos policiais equipados com rádio de capacete. Será que na Central de Defesa de Vênus já sabiam que me encontrara com Viesspahn? Alguém me teria observado enquanto me dirigia ao museu? Em caso afirmativo, por que não fora detido?
Antes de mais nada procure descobrir seus elementos de ligação”, disse meu sexto sentido. “Talvez ainda poderão ajudá-lo.”
Era isso mesmo! A cada segundo que passava meu nervosismo crescia. Pedi que saíssemos imediatamente do local.
Bobagem! — disse o barbudo em tom indignado. — Quando dois velhos conhecidos se encontram em Vênus, a primeira coisa que fazem é procurar o bar mais próximo. Aqui é um ponto de encontro dos colonos, uma vez que os mesmos costumam freqüentar vez por outra o museu terrano. Acho que ninguém o seguiu, não é?
Fitou-me com uma expressão de contrariedade. Sacudi a cabeça e beberiquei o líquido forte.
Então, por que tanta preocupação? — disse Gunter em tom tranqüilizador. — Afinal, o que foi que você andou fazendo? Marlis não disse uma palavra.
Apontou para baixo, como se a Terra ficasse bem a seus pés.
Isso não importa — respondi.
Importa, sim. Afinal, se você estiver envolvido em algo muito grave, estarei arriscando o pescoço. O amor fraternal não pode ir tão longe, não acha? Ao que parece, Marlis anda louquinha por você.
Mais uma vez a desconfiança começou a brilhar em seus olhos escuros.
Onde você nasceu? — perguntei.
Meus piores receios confirmaram-se. Gunter Viesspahn era um venusiano genuíno, e eu dissera a um sargento que havíamos sido colegas de escola na Terra.
Desesperado, cerrei os olhos. Marlis, por onde andava sua inteligência? Você errou desde o começo.
Mas tive o cuidado de não deixar o barbudo ainda mais irritado. No momento em que acreditasse estar numa situação de perigo real, bateria em retirada. E eu não poderia dispensar as ligações. Minha observação cautelosa sobre nossa velha amizade apenas o fez dar de ombros.
E daí? Como poderiam saber. Você viajou com documentos falsos, não viajou?
Naturalmente. Mas existem alguns aspectos que vocês...
Bobagem! Arranjaremos tudo. Você irá à minha fazenda, localizada no rio Hondo, quinze quilômetros acima das cataratas de Marshall. Lá o rio se precipita numa profundidade de cinco quilômetros, e sua largura também é esta. Um quadro inesquecível! Trata-se de uma excelente região, que fica a pouco mais de duzentos quilômetros ao norte de Port Vênus. Ali poderá estar tranqüilo até que Marlis descubra uma nave para você.
Esta explicação quase me fez desistir da fuga. Se a moça fora imprudente a ponto de revelar a seu irmão minhas ligações com o sistema de Vega, poderia entregar os pontos.
De uma hora para outra, modifiquei meus planos. Seria inútil continuar a esperar por uma hipernave destinada a Vega. Tentaria sair da cidade quanto antes.
Pus a mão no bolso e tirei uma grande pérola. Os olhos de meu interlocutor começaram a brilhar. Sabia quanto valia o tesouro que tinha na mão. As pérolas eram uma das raras coisas preciosas que não podiam ser produzidas sinteticamente.
Isto aqui é uma pérola legítima, no valor de cinco mil solares — disse com uma calma enfática. — Preste atenção, meu caro. Você descreverá exatamente o lugar em que Marlis está esperando por mim. Irei até lá sozinho. Enquanto isso você pegará seu avião... você tem avião, não tem?
É claro que sim; todo mundo tem.
Muito bem. Você pegará seu avião e irá a algum lugar onde seja fácil encontrá-lo. Uma vez lá, esperará por mim. Não quero que sejamos vistos com Marlis.
Fez algumas objeções, mas não pôde resistir à tentação da pérola. Acabou descrevendo exatamente um lugar bem afastado, situado na periferia da cidade, onde um amigo seu possuía um pequeno bar. Não seria difícil chegar lá.
A essa hora, só estava interessado em conservar Gunter Viesspahn, para poder recorrer a ele se precisasse. Para fazer isso, teria que despedir-me dele em público. Talvez o deixassem em paz.

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