quinta-feira, 21 de março de 2013

P-059 - O Regresso do Nada - Kurt Mahr [parte 3]

Está bem — disse Lloyd com a voz séria. — Terei o maior cuidado.
Rous dirigiu-se a Flaring.
Compreendeu tudo? — perguntou.
No que me diz respeito, compreendi — respondeu Flaring. — Pretende realmente ir para o outro lado?
Rous fez um gesto afirmativo.
Naturalmente. Não adianta esperar mais, deixando que a iniciativa continue nas mãos do inimigo.
Boa sorte! — disse Flaring.
Rous examinou o círculo luminoso. A curvatura mais baixa deste ficava cerca de metro e meio acima do solo, a altura exata que permitia a Rous olhá-lo sem maior esforço.
Não sou nenhum atleta — murmurou Rous. — Preciso de alguma coisa em que possa subir para entrar no círculo.
Lloyd teve uma idéia. Um dos armários que guarneciam o quarto foi colocado de lado e empurrado para junto do círculo luminoso. Rous subiu e foi-se aproximando do círculo.
Tentarei dar-lhe um sinal, quando estiver do outro lado — disse, dirigindo-se a Lloyd. — Portanto, não se assuste se de repente surgir um raio. Passe-me as armas.
Lloyd entregou-lhe o projetor mental e um pequeno desintegrador. Rous guardou-os e começou a penetrar no círculo.
Flaring mantinha-se de lado, de maneira a enxergar apenas a parte lateral do círculo. A visão que se ofereceu a Lloyd foi fantástica e apavorante. Rous enfiou a cabeça no círculo, mas esta não apareceu do outro lado.
Ao que parecia, Rous não precisou fazer qualquer esforço. Trinta segundos depois, desapareceu.
6



Rous esperara deparar-se com a mesma resistência acontecida durante a penetração do maço de cigarros e do sofá. Mas com ele deu-se exatamente o contrário. Mal enfiou a cabeça no círculo, vendo diante de si não o quadro com que estava familiarizado, mas um confuso tremeluzir, uma força de sucção apoderou-se dele, o arrastou e o deixou cair.
Rous gritou de susto. Não esperava cair em algum lugar, depois de passar pelo círculo.
Abriu os olhos e viu que estava deitado em chão firme. A sensação da queda fora apenas uma peça pregada por seus nervos.
Levantou-se. Seguindo um velho hábito, procurou verificar se a gravitação à qual estava exposto era diferente daquela reinante na Terra ou no planeta Mirsal, mas não constatou qualquer diferença.
Depois examinou os arredores.
O que mais lhe chamou a atenção foi o fato de que não havia um horizonte propriamente dito. O campo de visão era circular, conforme seria de esperar, mas em vez do horizonte havia uma impenetrável escuridão. Rous calculou que dois quilômetros o separavam daquele tal “horizonte”.
O conjunto parecia o trecho de um palco iluminado pelos holofotes. O resto estava mergulhado na escuridão.
Rous olhou para cima. Viu um céu azul-pálido, coberto por nuvens finas e transparentes. Admirou-se, pois notou que as nuvens não se moviam.
O chão do círculo estava pavimentado com grandes placas de pedra de formato irregular. Nenhuma delas tinha menos de trezentos metros quadrados. Nas junções das pedras viam-se faixas escuras, semelhantes aos pontos de solda de material plástico. Rous lembrou-se dos ladrilhos que Rosita acreditara ter visto ao olhar pela primeira vez através do círculo luminoso.
As máquinas, que por ocasião das observações realizadas no quarto de Lloyd assim lhes pareceram, eram um conjunto de construções gigantescas e estranhas. O cálculo de Rous não fora errado; qualquer dessas construções poderia comparar-se tranqüilamente com os maiores edifícios da Terra. Pelos cálculos de Rous, a altura média dos mesmos devia chegar a quinhentos metros.
O mais estranho era o formato das construções que, segundo parecia a Rous, correspondiam ao Finalismo levado às últimas conseqüências.
Viu-se diante de um dos gigantescos edifícios e contemplou a parede cheia de curvaturas, reentrâncias e saliências. Estava convencido de que cada uma dessas curvaturas, reentrâncias e saliências preencheria uma finalidade bem definida.
Não havia janela, a não ser que se quisesse dar esta designação às estranhas aberturas que surgiam, em grande número, nos mais diversos lugares da parede.
O edifício era cinza-escuro. Essa cor lhe dava um aspecto sombrio, que não combinava com o céu de inverno azul-pálido, com suas nuvenzinhas transparentes e imóveis.
Perto do lugar em que saíra, Rous encontrou o maço de cigarros, a lata de conserva e o sofá que foram atirados através do círculo. O sofá continuava na mesma posição em que Lloyd e ele o haviam empurrado: de pernas para cima.
Rous olhou para trás. Procurou localizar o círculo condutor, ou ao menos aquilo que daqui se poderia ver do mesmo.
Por um instante sentiu-se imobilizado pelo pavor: constatou que atrás dele o chão era plano como à sua frente.
Mas logo descobriu o ligeiro tremeluzir que surgia poucos metros atrás dele, pouco acima do solo, estendendo-se numa elipse inclinada até a altura de três metros.
Do lado em que se encontrava o círculo era diferente e — mais importante — era mais difícil de ser encontrado. Rous empurrou o sofá para junto da extremidade inferior da elipse, a fim de encontrá-la o mais depressa possível, assim que isso se tornasse necessário.
Não procurou atravessá-la. O simples fato de sua existência provava que o caminho de volta sempre lhe estaria aberto. Além disso, não tinha tempo a perder.
Procurou localizar os pontos que ele e Lloyd acreditavam resultar de defeitos da imagem e logo os encontrou. Estavam bem adiante, junto ao “horizonte” que de todos os lados fechava o “palco”.
Do lugar em que se encontrava, não pareciam muito mais nítidos que do quarto de Lloyd. Foi caminhando para examiná-los de perto.
Teve a impressão de que o chão por onde caminhava era de uma dureza sem par. Depois de algum tempo seus pés começaram a doer a cada passo dado. Rous parou, abaixou-se e passou a examinar o material de que eram feitas as grandes placas de formato irregular. Abriu um canivete o procurou arranhar a superfície de uma das placas. Teve que reconhecer que o material era mais resistente que a lâmina do canivete, e isso significava alguma coisa...
Uma vez que a caminhada tornou-se muito difícil, levou cerca de uma hora para percorrer um quilômetro e meio que o separavam do mais próximo dos pontos que pretendia examinar. Mas antes de chegar lá notou que o objeto em direção ao qual se deslocava era apenas uma estátua.
A estátua colorida representava um homenzinho moreno que nem sequer chegava à altura do queixo de Rous.
O homenzinho trazia manchas claras no rosto, que pareciam sinais de varíola. Sua roupa estava remendada em vários lugares, e os sapatos pareciam empoeirados. O artista registrara todas essas características.
Rous procurou descobrir de que era feita a estátua. Ao primeiro relance de olhos, teve a impressão de ser genuína: a carne era feita de carne, as roupas de tecido. Mas quando tocou a manta que o homenzinho usava, sentiu ser uma pedra dura e fria, que não conseguiu mover um milímetro sequer.
Rous parou e fitou a estranha figura. Quanto mais refletia, mais se convencia de que o artista desconhecido havia reproduzido um habitante do mundo Mirsal II. Aquele homenzinho não teria chamado a atenção de ninguém em Fillinan ou em qualquer outra cidade mirsalense, se tivesse vida.
Por alguns segundos Rous, suspeitando, pensou de modo esquisito: “Será que os próprios mirsalenses são os inimigos invisíveis? Será que os dois milhões de desaparecidos são apenas os atores de uma grande manobra de camuflagem, que não tem outra finalidade senão nos enganar e, se possível, fazer com que nós nos retirássemos dessa área?
Rous voltou a arquivar suas suspeitas. Eram suposições verdadeiramente idiotas.
Mirsal II encontrava-se no estágio inicial da Astronáutica. Nem desconfiara da presença dos terranos em Mirsal III, onde o misterioso desaparecimento de gente fora observado pela primeira vez. Até então nenhuma nave mirsalense conseguira aproximar-se de Mirsal III, quanto mais pousar lá. Além disso, era de se supor que por enquanto Mirsal II ainda não sabia da chegada dos três agentes, e mesmo assim os homens começaram a desaparecer enquanto Rous e seus companheiros se aproximavam da aldeia de Keyloghal.
Não; os mirsalenses eram inocentes. Rous não teve outra alternativa senão supor que, só por coincidência, os habitantes desse mundo tinham certa semelhança com os de Mirsal III.
Olhou em torno. O “horizonte” negro, que fora a primeira coisa que notara depois de ter surgido ali, só se encontrava a cerca de quinhentos metros de distância. Interessava-se pelo mesmo. Queria olhá-lo e verificar por que motivo não havia nada para além. Lançou um último olhar para a estátua.
E estacou de susto...
Tinha certeza absoluta de que o homenzinho estava com os olhos bem abertos quando o vira pela primeira vez. Notara a estranha coloração violeta, que também era uma característica da raça principal dos mirsalenses. Agora, na posição em que o homem mantinha os olhos, nem poderia ver-lhe a íris. Parecia que suas pálpebras estavam se fechando de cansaço. Trazia os olhos semicerrados.
Rous parou. Uma terrível suspeita surgiu em sua mente. Olhou atentamente para o homenzinho imóvel. Não podia ver que as pálpebras continuavam a se fechar, porque o “fenômeno” era muito lento. Mas dali a mais quinze minutos, percebeu que os olhos estavam fechados de vez.
Rous sentiu-se tão perplexo que mais algum tempo passou antes que pudesse ter uma idéia nítida da profusão de sugestões confusas que lhe enchiam a mente: aquilo não era uma estátua. O homem estava vivo.
Mas que tipo de vida levava! Todos os movimentos do corpo pareciam ser mil vezes mais lentos que o normal. Rous não percebera nele o menor sinal de respiração; mas era impossível que o homem não respirasse, já que era capaz de mover as pálpebras.
Rous pensou, calculando rapidamente: “Quanto tempo demora uma piscada de olhos? Com toda certeza menos de um décimo de segundo. Admitamos que sejam cinco centésimos de segundo. Ainda admitamos que o ato de abaixar as pálpebras corresponda a metade de uma piscadela. Seria um fenômeno que normalmente durava 0,025 segundos. E aqui o homem levara 30 minutos para completar o movimento.
Dali resultava um fator de conversão de 72.000. Em outras palavras, as atividades biológicas do homem que Rous julgara uma estátua eram setenta e duas mil vezes mais lentas que as desenvolvidas em condições normais, isso se suas suposições fossem corretas e não tivesse sido vítima de uma ilusão dos sentidos.
Não era de admirar que não se percebesse nenhum outro movimento. Era bem possível que naquele momento o homem estivesse prestes a virar a cabeça ou levantar a perna para andar. Mas um movimento que para Rous duraria um segundo, para ele demoraria vinte horas e seria tão lento que não poderia ser percebido.
Havia outro detalhe. O homem não poderia notar a presença de Rous. Quando muito, para ele, o tenente era uma sombra fugaz, que se movia de um lado para outro com a velocidade de um projétil de fuzil e nem poderia ser nitidamente percebido com o olhar.
Rous refletiu sobre se poderia fazer alguma coisa pelo infeliz. Talvez pudesse carregá-lo até o sofá e levá-lo de volta a Mirsal através da elipse tremeluzente. Já não havia a menor dúvida de que Rous tinha diante de si um dos dois milhões de seres que, nos últimos quinze dias, haviam desaparecido.
Rous desistiu de seu intento. Ainda não pretendia voltar. Queria examinar o “horizonte” e verificar o que havia atrás do mesmo. Quando voltasse, poderia levar esse homem, ou qualquer outro, pois todos eles estavam na mesma situação infeliz.
Correu. De tão nervoso que estava, esqueceu-se de que o chão era muito duro. A dor que sentiu nos pés lembrou-o disso. O fato lhe trouxe à mente mais uma idéia: a aparente dureza do material, que até então sentira, era apenas mais uma conseqüência da modificação da dimensão temporal. Qualquer porção de matéria, como por exemplo a manta que o infeliz mirsalense estava usando, levava um tempo infinito para ceder à pressão do dedo de Rous. Esse tempo sofria um aumento de mais de setenta mil vezes. O dedo de Rous só agia sobre o material por um período infinitamente menor.
O material não tinha tempo para ceder ou desviar-se, e Rous teve a impressão de ter tocado numa coisa extremamente dura.
A mesma coisa acontecia com o chão em que pisava. Provavelmente o material de que era feito não passava de um plástico igual a qualquer outro. Mas na dimensão temporal deste mundo mais lento, o pé de Rous tocava esse material com a velocidade de um foguete interestelar. E todos sabem que para alguém que cai numa piscina de grande altura — ou seja, com uma velocidade elevada — até mesmo a água mole transforma-se numa massa extremamente dura.
Rous dominou a dor e, dez minutos depois, venceu os quinhentos metros que ainda o separavam do “horizonte”.
A parede, que dava forma ao “horizonte”, não era feita de matéria, mas apesar disso tinha a impenetrabilidade de um campo defensivo potentíssimo. A mão de Rous tocou em alguma coisa que ele não pôde ver e foi detida. Rous aumentou a pressão, mas o obstáculo escuro não cedeu.
Chegara ao fim do mundo!
Enquanto ainda refletia sobre o caminho que devia tomar, Rous notou alguma coisa que talvez poderia proporcionar a explicação do estranho fenômeno.
O conjunto de lentes do campo defensivo só conseguia abranger uma pequena seção desse mundo. Por mais que se girasse e deslocasse o gerador, a imagem permanecia a mesma. O conjunto de lentes só possibilitava o acesso a este mundo por uma área extremamente limitada, que era precisamente aquela que podia ser vista pelas duas lentes.
É uma conclusão lógica”, pensou Rous. Face a isso, o “horizonte” escuro e curvo não era uma propriedade daquele mundo. Apenas resultava dos limites postos ao alcance das lentes. O “horizonte” não existia neste mundo; fora colocado naquele lugar pelas lentes. Rous tinha certeza de que um habitante deste mundo, que aparecesse por acaso, nem o perceberia.
Voltou. Passou por várias “figuras” que pareciam estátuas e resolveu levar aquelas que se encontrassem mais próximas do sofá e do ponto de saída reluzente. O caminho era longo e, nas estranhas condições que reinavam aqui, tornava-se bastante penoso.
Pelo que Rous pôde ver, todas as pessoas que se achavam por ali eram mirsalenses. Nenhuma das figuras media mais de metro e meio; e o número de homens, mulheres e crianças, era aproximadamente igual.
Por fim, Rous aproximou-se da parede dos fundos do edifício junto ao qual surgira horas antes. Viu pouco acima do solo uma das estranhas aberturas, e refletiu sobre se devia entrar no edifício.
Já estava quase decidido, quando ouviu um estranho ruído.
De início parecia um zumbido fraco, que durante um minuto conservou a mesma força, para aumentar lentamente depois. Após cinco minutos atingiu uma força que fez os ouvidos de Rous doerem. Depois decresceu com uma lentidão incrível. Quando Rous tirou as mãos de cima dos ouvidos, vinte minutos se haviam passado desde que ouvira o ruído pela primeira vez. Alguma coisa, vinda não se sabe de onde, continuava a retumbar e a zumbir por aquele estranho mundo.
Rous não conseguiu identificar o ruído. E não se interessou por isso. Mas sentiu o perigo que estava ligado ao mesmo. Não sabia por quê, mas teve a idéia de que não deveria esperar mais. Uma ameaça se aproximava. A visita ao edifício teria de ficar para outra oportunidade.
Correu o mais rápido que seus pés doloridos lhe permitiam. Dobrou à esquerda e contornou o gigantesco edifício, para chegar o quanto antes ao lugar em que poderia regressar para Mirsal.
Enquanto se desviava dos obstáculos representados pelas ramificações, pelos anexos e pelas saliências do edifício, viu um vulto imóvel na sombra de dois objetos em formato de flecha.
Esteve a ponto de prosseguir na sua corrida, pois pensava se tratar de mais um mirsalense seqüestrado que levava sua vida lenta na penumbra. Mas notou que esse vulto era maior que os que havia observado até então. Virou-se e entrou entre as duas colunas.
Seus olhos estavam ofuscados pela claridade reinante sob o céu azul-pálido. Por enquanto só viu que o vulto diante de si era uns vinte centímetros mais alto que os demais. Depois descobriu que, ao contrário dos mirsalenses, tinha cabelo negro e longo. Depois os olhos se acostumaram à escuridão e viu que se tratava de Rosita Peres.
Rous dominou a surpresa com a determinação de um homem que sabe que uma ameaça estranha e mortal está no seu encalço. Procurou fazer Rosita passar entre as duas colunas, mas só o conseguiu depois de deixá-la cair para a frente, segurar sua cintura e carregá-la como um pedaço de pau.
Rosita não demonstrou a menor reação, pois estava submetida ao mesmo aumento da dimensão temporal que os demais mirsalenses. Não dobrou o corpo, como faria qualquer pessoa que estivesse sendo transportada por essa forma. Continuou dura como se fosse de pedra, facilitando o trabalho de Rous.
Rous apressou-se, mas era claro que agora avançava mais devagar que antes. O sofá, que lhe servia de orientação, ficava a duzentos metros. Mas com a carga que o tenente agora transportava, esses duzentos metros se transformavam numa eternidade.
Levou um susto tremendo quando junto ao sofá um vulto surgiu do nada e, ao contrário da lentidão reinante neste mundo, agitava os braços e emitia sons estridentes, que Rous não compreendia.
Rous parou, mas o vulto foi se aproximando. Sentiu-se aliviado ao notar que era Fellmer Lloyd. Seus gritos tornavam-se inteligíveis quando se aproximou.
Venha depressa! O perigo está chegando.
Ajude-me! — gritou Rous. — Encontrei Rosita.
Lloyd chegou ao lugar onde se encontrava Rous. De tão preocupado que andava, ainda não se dera ao trabalho de olhar em torno.
Agora, já sabendo que Rous estava em segurança, olhou para os lados. Rous notou que o mutante levou um susto.
Meu Deus! — murmurou. — Que coisa estranha...
Ajude! — interrompeu Rous com a voz impaciente. — Não temos tempo para ficar admirados.
Como carregassem em dois, o transporte de Rosita tornou-se muito mais fácil.
Dali a poucos minutos, chegaram ao sofá e à elipse inclinada e tremeluzente que ficava junto ao mesmo.
Quem está do outro lado? — perguntou Rous. — É Flaring?
Lloyd fez um gesto afirmativo.
Pedi-lhe que ficasse de vigia — respondeu.
Venha. Vamos levar Rosita em primeiro lugar.
A operação não foi nada difícil. A psicóloga continuava dura como uma tábua. Empurraram-na para dentro da elipse reluzente e a viram desaparecer.
Depois Lloyd penetrou na elipse. Muito nervoso, Rous ficou impressionado ao ver as pernas de Lloyd desaparecerem aos poucos e a invisibilidade ir tomando conta de seu corpo. Dali a mais um instante, Lloyd havia desaparecido de todo.
Rous seguiu-o imediatamente. Desta vez não sentiu nada: nem a resistência quando da penetração inicial, nem a sucção que logo depois surgira. Subiu pela elipse e depois de um ligeiro susto viu-se sobre o armário que havia sido empurrado para junto do círculo luminoso.
Rosita já despertara de sua imobilidade. Reconheceu Flaring e perguntou-lhe, muito espantada, o que havia acontecido. A única coisa que Flaring pôde fazer foi dobrar o indicador. Não sabia de nada.
Depois fez algumas perguntas a Lloyd e Rous. Porém estes repeliram-nas com um gesto.
Lloyd, você não tinha dito que existe uma ameaça?
O mutante apontou para o círculo luminoso.
Olhe — disse.
Rous fitou o círculo. Mesmo sem usar os panos, viu que o campo de visão aumentara. Os limites do campo permaneciam inalterados: continuava a ver as mesmas coisas de antes. Apenas, a imagem se tornara maior. O sofá, por exemplo, já não era um ponto difícil de ser identificado, mas transformara-se num traço muito largo. Os gigantescos edifícios apresentavam-se maiores e ninguém mais acreditaria que as manchas escuras que representavam os mirsalenses imobilizados fossem simples defeitos de imagem.
Aproximou-se, não é? — indagou Rous.
Sim — confirmou Lloyd. — Houve um salto enorme e, de repente, os objetos se apresentaram com o tamanho aumentado.
E daí o senhor conclui que existe algum perigo?
Lloyd ergueu os ombros.
É preferível sermos cautelosos — respondeu. — Não acredito mais que os movimentos repentinos da imagem tenham sua causa nas oscilações do gerador. É possível que realmente alguma coisa se aproxime de nós. Pelo que vimos até agora, devemos fazer o possível para que este mundo estranho fique bem longe.
Rous lhe deu razão.
Provavelmente haverá outro ataque — disse, dirigindo-se a Flaring. — O senhor será informado quando o pânico surgir em algum lugar?
Naturalmente — respondeu Flaring.
Todos os canais de comunicação vão ter a este hotel.
Será que alguém poderia fazer o favor de explicar... — começou Rosita.
Rous repeliu-a com um gesto.
Agora não, minha filha. Lloyd, prossiga nas suas observações e avise quando a imagem se aproximar. Transmitirei uma mensagem à Drusus.
Lloyd fez que sim. Ajeitou os panos por cima da cabeça e colocou-se à frente do círculo luminoso. Rous arranjou uma placa-matriz do hipercomunicador, na qual pudesse redigir a mensagem destinada a Rhodan.
Mal começara o trabalho, a porta abriu-se violentamente. Um dos ordenanças de Flaring entrou.
Houve um ataque, comissário! A estação telegráfica de Fregnaat deixou de transmitir.
Rous levantou a cabeça.
Onde fica Fregnaat? — perguntou.
Na direção sudoeste — respondeu Flaring apressadamente.
Seus postos ficam bem próximos um do outro para que se possa verificar em que direção se desenvolve o ataque?
Ficam. Temos uma estação telegráfica a cada quinze quilômetros, em média, isso numa série de linhas que irradiam a partir de Fillinan.
Muito bem. Mantenha-se sempre a par.
O ordenança retirou-se depressa. Dois minutos depois, voltou.
O ataque prossegue em direção a Fillinan! — disse. — Mais duas estações foram silenciadas. Além disso...
Além disso o quê? — perguntou Flaring.
Além disso as estações que ficam em torno de Kovan também estão falhando. E essa frente também se desloca na direção de Fillinan.
Flaring lançou um olhar perplexo para Rous.
O que vamos fazer? — disse em tom queixoso.
Rous mentalmente fez seus cálculos.
As estações de Flaring ficam a uma distância de cerca de quinze quilômetros. Em cinco minutos, no máximo, duas estações foram silenciadas, numa ação que procedia de Fregnaat. Isso corresponde a uma velocidade de cerca de duzentos e quarenta quilômetros por hora...
O tenente dirigiu-se ao ordenança.
Procure averiguar a largura da frente de avanço. E verifique também se ela mantém uma velocidade constante. A que distância fica Kovan?
Quinze mil quilômetros.
Muito bem. Avise assim que haja qualquer novidade.
O ordenança retirou-se. Rous lançou um olhar sério para Flaring e disse:
O senhor tem uma tarefa muito difícil pela frente. Teremos de evacuar cem mil pessoas da área ameaçada. Para isso dispomos apenas de três horas. O senhor acha que seria capaz de preparar cem mil pessoas para a evacuação sem que haja um pânico entre o resto da população?
Flaring parecia surpreso.
Pretende... pretende evacuar cem mil homens...
Rous interrompeu-o com um gesto.
É isso mesmo que pretendemos fazer. Por ora não se preocupe com isso. Acha que conseguirá reunir as cem mil pessoas?
Flaring levantou a mão.
Muito bem; pode começar. Dentro de uma hora, no máximo, poderemos dar início ao embarque.
Ao embarque? — murmurou Flaring sem compreender nada. — O senhor dispõe de navios?
Rous empurrou-o pela porta.
Não faça perguntas — disse. — É preferível agir. Não temos tempo a perder.
Flaring saiu correndo. Rous dirigiu-se a Lloyd e ordenou:
Pare com isso e venha para cá. Temos coisa mais importante a fazer. Pegue o microcomunicador e transmita o S.O.S. à Drusus e à Arc-Koor, ordenou Rous. — Peça que ambas as naves pousem imediatamente. Transmita uma indicação exata da posição de Fillinan. O tempo é escasso.
7



Perry Rhodan começava a agir...
Poucos minutos depois de ter recebido o pedido de socorro de Rous, as duas naves gigantescas já se haviam posto em movimento. Os trinta milhões de quilômetros que as separavam de Mirsal II foram percorridos em menos de trinta minutos. É bem verdade que o pouso consumiu outros trinta minutos. Dessa forma, passou-se uma hora entre a expedição da mensagem de S.O.S. e o pouso das gigantescas naves espaciais nas proximidades da cidade de Fillinan.
Nesse meio tempo Rous havia transmitido outras informações. Tornava-se necessário envolver os subúrbios do sudoeste de Fillinan com um potente campo defensivo. Rous pretendia repetir a manobra por meio da qual os três haviam salvo há poucos dias o mirsalense na Alameda dos Reis. Era certo que os geradores das duas naves tinham potência suficiente para envolver uma cidade inteira num campo defensivo. Esta ação se tornava necessária caso, conforme pretendia Rous, devesse ser salvo um número de pessoas que pudesse ser abrigado nos dois gigantes espaciais.
Rous e seus companheiros encontravam-se no local quando a Drusus pousou nas imediações da cidade. Trouxera todo o material que havia coletado. Ordenara à polícia que bloqueasse a área de pouso, a fim de que o embarque pudesse ser realizado rapidamente.
Avaliara mal a mentalidade dos mirsalenses. Aqueles homenzinhos, que por sua própria natureza não eram muito valentes e ainda se sentiam mais amedrontados pelos ataques dos invisíveis, nem pensaram em contemplar as gigantescas naves. Saíram correndo, tomados de pavor, e com eles correram os policiais que haviam sido postados ali para manter livre a área de pouso. Rous entrou em contato com Rhodan. Este concordou com o procedimento sugerido por aquele e aprovou o plano que previa a salvação do maior número possível de habitantes da cidade. Talamon, comandante da nave Arc-Koor, que havia pousado ao sul da cidade, recebeu instruções para ativar os geradores de campos defensivos de sua nave com a potência máxima, dando um formato tal ao campo, para que cerca de metade dos subúrbios do lado sudoeste fosse abrangida.
A Drusus fez a mesma coisa. Meia hora após o pouso das duas naves, toda a área habitada de Fillinan se encontrava sob uma abóbada energética impenetrável que, segundo esperava Rous, teria potência suficiente para deter o ataque do inimigo.
Na sala de rádio da Drusus foram captados os sinais transmitidos pelas estações telegráficas de Flaring. Ficaram sabendo que, vindo de Fregnaat, a frente de ataque inimiga tinha uma largura de duzentos e cinqüenta quilômetros até quatrocentos quilômetros, e a vinda de Kovan alcançava seiscentos quilômetros.
Se a velocidade de deslocamento das duas frentes não sofresse um aumento considerável, haveria esperança de concluir as manobras de embarque antes que o ataque atingisse a cidade.
Uma hora após o pouso, Flaring apareceu com o primeiro grupo de mirsalenses. O grupo era formado por quinze mil pessoas, entre homens, mulheres e crianças. O comissário informou que havia nomeado um representante que estava levando outro grupo à Arc-Koor. Pelo que declarou Flaring, mais setenta mil mirsalenses aguardavam nas ruas da cidade o momento de serem embarcados.
Nos arrabaldes voltou a reinar a calma, depois que o pânico provocado pelo surgimento das duas naves-gigante se amortecera.
O embarque prosseguia regularmente; sob a direção de Flaring, que contava com o apoio de seu representante e dos oficiais das duas naves que possuíam senso de organização. Enquanto isso, Rhodan dispendia algum tempo em ouvir um relato minucioso oferecido pelos três agentes colocados em Mirsal II.

* * *

Acabo de explicar os fatos que vivemos e presenciamos. Agora, gostaria de dar minha opinião pessoal a este respeito — disse Marcel Rous, concluindo sua exposição.
Rhodan concordou com um sorriso.
Vamos logo! — pediu a Rous. — Estou curioso.
O tenente principiou:
O inimigo que enfrentamos, seja lá quem for, ataca a partir de outra dimensão. Não vive em nosso Universo espaço-temporal.
Em segundo lugar, os ataques que desfechou em Mirsal II não são tão perigosos para os terranos como para os nativos do planeta. Isso dá o que pensar. Poder-se-ia, por exemplo, definir uma estrutura peculiar, para cada ponto da Galáxia, e admitir que os pontos mais expostos ao ataque do inimigo são aqueles cuja estrutura mais se assemelha à que prevalece para este. Se continuarmos fiéis a esta imagem, poderemos concluir que a estrutura peculiar dos terranos difere tanto da dos mirsalenses, que nós só somos atingidos por ataques desfechados com uma violência extraordinária. Este fato pode ser comprovado, por exemplo, com o acontecido a Miss Peres.
Em terceiro lugar, os objetos sem vida sofreram um processo de envelhecimento durante o ataque. Exatamente o contrário acontece com as pessoas que desaparecem no momento das operações. Já ouviu o relato de Miss Peres. Pelos nossos cálculos ficou vários dias no mundo do inimigo, mas ela mesma teve a impressão de só ter estado fora uns quatro ou cinco segundos, apenas o suficiente para olhar em torno de si.
É desse efeito, ou seja, da aceleração do tempo para os objetos sem vida e seu retardamento para os seres vivos, que decorre provavelmente o fato de que homens e animais desaparecem, enquanto os objetos sem vida permanecem no mesmo lugar. Quando, conforme já relatei, tentei atravessar o conjunto de lentes, passei pela mesma experiência. Esperava sentir idêntica resistência surgida no instante da penetração do maço de cigarros, da lata de conserva e do sofá. Acontece que o efeito foi exatamente o contrário.
Em vez de uma resistência, houve uma espécie de sucção. Para criar uma imagem plausível, poderíamos estabelecer comparação com um sistema de cargas positivas e negativas. Se admitirmos que homens e animais possuem uma carga positiva e os objetos inanimados uma carga negativa, poderemos imaginar que, ao lançar-se ao ataque, o inimigo não faz outra coisa senão empurrar uma placa com carga negativa pelo terreno. Todos os objetos de carga positiva serão atraídos e desaparecerão, enquanto os dotados de carga negativa serão repelidos. Peço-lhe que não...”
Que não interprete esta imagem em sentido literal — completou Rhodan com um gesto de assentimento. — Está bem. Posso imaginar perfeitamente que na verdade ninguém “empurra uma placa” pelo solo. Prossiga, tenente Rous.
Não sabemos qual é o papel que as plantas, também dotadas de vida orgânica, desempenham no processo. De qualquer maneira, não são atingidas pelos ataques.
Em quarto e último lugar: a única coisa que podemos fazer é criar lentes formadas por campos defensivos e introduzir algumas pessoas no mundo do inimigo. Já sabemos que o campo de ação aberto pelas lentes é limitado. Não podemos atravessar os “horizontes”. Enquanto isso o inimigo evidentemente não sofre nenhuma limitação em seu mundo. Nós...”
Um momento. Das suas observações não se deduz que um dos nossos homens que penetre pelas lentes de campo defensivo conserva sua dimensão temporal? Em outras palavras, essa pessoa não se movimenta setenta e duas mil vezes mais depressa que o inimigo?
Era exatamente o que eu pretendia dizer — respondeu Rous em tom animado. — Seremos muito mais rápidos que o inimigo. Durante o tempo que ele gasta para respirar uma única vez poderemos libertar todos os prisioneiros... mais precisamente, apenas aqueles que se encontrarem dentro de nosso raio de ação.
Os prisioneiros ficam submetidos à dimensão temporal do mundo inimigo, não é?
Isso mesmo. É como já disse: Miss Peres teve a impressão de só ter passado uns quatro ou cinco segundos por lá. Só quem penetra através do conjunto de lentes goza da vantagem da rapidez. Por assim dizer, carrega sua própria dimensão temporal. Portanto, poderemos realizar investigações e libertar alguns prisioneiros; só isso. Dentro do círculo no qual pude mover-me, devia haver cerca de cem prisioneiros. Acontece que só de Mirsal II desapareceram mais de milhões de pessoas nestes últimos dias. A esse número devemos acrescentar todos os habitantes de Mirsal III. Não os vi em parte alguma. Provavelmente se encontravam atrás do “horizonte”.
Não se preocupe por causa da superioridade do inimigo. Já nos vimos várias vezes em situações de que parecia não haver qualquer saída. O simples fato de ainda existirmos prova que encontramos um certo tipo de saída.
Não se esqueça de que somos homens do planeta Terra, Rous. Não tenho a menor dúvida de que solucionaremos também este problema, sem que isso nos custe o pescoço.
Obrigado.”

* * *

Trinta minutos depois dessa palestra a sala de rádio constatou que as duas frentes de ataque do inimigo, vindas do sudoeste e do norte, haviam aumentado a velocidade.
Dos cem mil mirsalenses que Flaring havia preparado para a evacuação, cinqüenta mil já tinham sido embarcados.
Os mirsalenses mantinham-se calmos. Estavam amedrontados com o tamanho das naves e tinham medo do que lhes aconteceria caso não se movessem com suficiente rapidez.

* * *

Pouco antes das dezessete horas, tempo de bordo, as duas frentes de ataque atingiram a cidade. Naquele momento, Rhodan encontrava-se na sala de comando da Drusus. Os aparelhos registraram a súbita solicitação dos campos defensivos, provocada pelo impacto sofrido pelos mesmos. Dali a poucos segundos, ouviu-se a voz nervosa e amedrontada de Talamon pelo telecomunicador:
Os geradores queimarão se não decolarmos imediatamente.
Rhodan viu-lhe o rosto dominado pelo pânico na pequena tela do telecomunicador.
Os campos agüentarão — respondeu com a voz fria. — Aquilo que acabamos de ver acontece duas vezes por hora quando nos encontramos no espaço. Controle seus nervos e cuide para que o embarque se processe em ordem. A hora da decolagem será determinada por mim.
O rosto amedrontado de Talamon desapareceu. Rhodan voltou a dedicar sua atenção aos instrumentos de registro.
Constantemente chegavam informações sobre o prosseguimento da evacuação. A Drusus estava inteiramente lotada; mas na Arc-Koor ainda havia lugar para muita gente.
Rhodan suspirou aliviado.
Dali a alguns minutos, os campos atingidos sofreram outro impacto, muito mais violento que o primeiro. Por alguns segundos os geradores quase falharam sob a violência do ataque.
Mas aqueles segundos se passaram e o que ficou para trás foi somente o medo de Talamon, que neste meio tempo já se transformara em histeria.
Leve os homens para bordo! — gritou Rhodan em tom grosseiro. — E aguarde minhas ordens para decolar. Não acredito que o Grande Império tenha enviado um calhambeque, cujos campos defensivos falhem ao primeiro susto.
A ironia indisfarçada produziu seus efeitos. Dali em diante Talamon ficou quieto.

* * *

Rous, Rosita e Lloyd, que dominavam a língua dos mirsalenses, ajudaram Flaring nas operações de embarque. Pouco depois que o segundo ataque fizera os geradores trabalhar ao máximo de sua capacidade, levaram para bordo da Drusus o que restava dos sessenta mil mirsalenses que deveriam ser abrigados na mesma.
Pronto; isso está liquidado — murmurou Flaring.
Ainda bem; entre — pediu Rous. — Acho que partiremos a qualquer momento.
Flaring fitou-o com uma expressão de espanto.
Eu? — sacudiu a cabeça. — Prefiro ficar aqui. Meu lugar é junto àquela gente que está esperando seu fim.
Rous assustou-se.
Não seja idiota, Flaring. O senhor não pode fazer nada por eles. Assim que tudo tenha passado, voltaremos. O senhor ainda terá muita coisa a fazer.
Flaring levantou o braço e baixou-o lentamente, num gesto de negação.
Não; ficarei — respondeu. — Talvez ainda estejamos vivos quando o ataque terminar; talvez não...
Rous viu que estava falando sério e sentiu que quaisquer palavras que visassem demovê-lo dessa resolução seriam inúteis. Apesar disso insistiu:
Da segunda vez que nos encontramos eu lhe disse que o senhor é um homem honesto, Flaring. Garanto-lhe que não nos esqueceremos de Mirsal. Voltaremos com armas melhores. E então...
Nesse instante, a voz de Rhodan saiu da comporta de carga, que se encontrava aberta:
Todos os tripulantes a bordo. Decolagem de urgência, dentro de quatro minutos. Todos os tripulantes a bordo.
Rous estremeceu. Se Rhodan marcava uma decolagem para dentro de quatro minutos, a situação devia ser mais que crítica.
A rampa começou a deslocar-se em direção ao corpo da nave. Rous, que se encontrava junto a Flaring e próximo da mesma, saltou.
Venha conosco! — gritou para Flaring.
Mas Flaring voltou a baixar o braço. Fez uma mesura para cada um dos três agentes, voltou-se e, andando de cabeça erguida, dirigiu-se para a cidade.
Era um homenzinho valente que caminhava para a destruição.

* * *

O terceiro ataque provocara uma pane em um dos geradores da Drusus e em três da Arc-Koor. Rhodan sabia que não poderia perder nem um segundo. O quarto ataque representaria a destruição das duas naves.
Exatamente quatro minutos depois do primeiro aviso, os dois gigantes dispararam para o céu, neutralizando, por meio dos campos antigravitacionais, a pressão resultante da aceleração.
As duas naves ainda se destacavam perfeitamente contra o céu azul quando as duas frentes de ataque, que já não eram detidas por qualquer campo defensivo, irromperam sobre a cidade. Dentro de poucos segundos, um milhão e meio de mirsalenses desapareceram. Ou, mais precisamente, um milhão e meio menos cem mil.
Entre os desaparecidos estava certo comissário de polícia chamado Flaring. Não sentiu a desgraça que se abateu sobre ele. Viu um ligeiro tremeluzir branco-acinzentado, e ressurgiu num mundo que nunca havia visto.
8



As duas hipernaves saíram sem qualquer incidente de Mirsal II e avançaram rapidamente até a altura do quarto planeta do sistema de Mirsal. Durante o vôo, a sala de rádio da Drusus constatou que os sinais emitidos pela Gazela, que havia levado Rous e seus companheiros para Mirsal II, se tornavam cada vez mais débeis. Depois de meia hora, cessaram por completo.
O plano de Rhodan falhara.
O inimigo levara a Gazela. Mas os sinais de rádio emitidos no espaço em que a mesma se encontrava não atingiam a Drusus. A nave de reconhecimento estava perdida, tal qual o Girino que tempos atrás pousara em Mirsal III.

* * *

Rhodan já tomara sua decisão antes de pousar em Mirsal II. Uma vez concluída essa tarefa, iria a Árcon e teria um encontro com o computador-regente, a fim de discutir as questões que ainda permaneciam em aberto.
O dispositivo positrônico da Drusus confirmou que isso não representaria qualquer risco para Rhodan. O regente via-se diante de um perigo que não conseguiria dominar sem auxílio de Perry. Era o perigo representado pelo inimigo invisível, para o qual, segundo parecia, era fácil despovoar um planeta dentro de poucas horas. O computador precisava de um aliado. O cérebro positrônico acreditava que, como praticamente não dispusesse de quaisquer informações sobre a Terra, esse aliado só poderia ser Rhodan.
O computador era ininfluenciável e objetivo. Não seria tomado por problemas psicológicos caso confessasse a Rhodan ter alguns trunfos suficientes que colocasse fora de ação o inimigo invisível. Porém ele não os tinha...
Rhodan sabia disso. Pretendia extrair da situação atual algumas vantagens para a Terra. O computador-regente estaria disposto a fazer concessões ao aliado. Perry pretendia fazer com que essas concessões, por sua própria natureza, protegessem a Terra para além da guerra com os invisíveis.
Enquanto as duas naves saíam do sistema de Mirsal, Rhodan explicou a Talamon, comandante da Arc-Koor, que pretendia dirigir-se a Árcon. O superpesado, que se sentia ainda um tanto temeroso depois dos sustos sofridos em Mirsal II, não fez o menor comentário. Mas seu rosto revelava que a decisão de Rhodan o surpreendia, e que estava convencido de que o computador-regente não acederia ao pedido de Rhodan, que pretendia o acesso ao coração do Império dos Arcônidas.
Acontece que Talamon estava cometendo um engano; não conhecia os detalhes da situação.
A mensagem de telecomunicação que Rhodan enviou ao regente foi simplesmente esta:

Colhi informações valiosas sobre o inimigo invisível. Indispensável conferenciarmos sobre os passos que se seguirão e interpretarmos indicações já obtidas. Drusus e Arc-Koor estão a caminho de Árcon. Solicitamos permissão de entrada e designação de audiência.
Com a velocidade peculiar as máquinas positrônicas o regente refletiu sobre as vantagens e desvantagens da proposta de Rhodan. Dentro de dois milésimos de segundo preparou sua resposta.
O teor foi o seguinte:

Concordo. Pouse com ambas as naves. Estarei à sua disposição assim que chegar.

É bem verdade que a rápida concordância foi uma surpresa até mesmo para Perry Rhodan.
Começou a desconfiar. A rapidez da resposta permitia duas conclusões diferentes. O regente de Árcon realmente poderia estar numa situação gravíssima face à atuação do inimigo invisível; ou então estaria realizando um jogo falso, a fim de dominar o mais poderoso dos seus concorrentes.
A Drusus foi colocada em estado de alarma antes que entrasse em transição, quando se encontrava a apenas cem unidades astronômicas de Mirsal. Rhodan avisou a Arc-Koor de que acabara de receber permissão de ingresso em Árcon.

* * *

Perry mandou que a Drusus se aproximasse o mais possível — ou seja, pouco mais de quinhentos metros do envoltório da outra nave — e fez com que as duas naves se aproximassem nessa formação do anel exterior de fortificações. Rhodan teve a impressão de que, se o regente pretendesse capturá-lo, desistiria de seu intento assim que percebesse que teria de perder a mais potente de suas naves. A Arc-Koor seria o penhor da segurança pessoal de Rhodan.
O primeiro anel de fortificações foi atravessado sem o menor incidente. Mantendo sempre a menor distância possível, as duas naves avançaram velozmente em direção ao centro do sistema.
Árcon estava situado no grupo estelar M-13 e era formado por três planetas que gravitavam em torno da estrela central numa órbita idêntica. Essa disposição fora criada artificialmente. Originariamente só havia um planeta nessa órbita, que era Árcon I. Com o desenvolvimento progressivo, o planeta natal dos arcônidas tornou-se muito pequeno. Sua tecnologia permitiu-lhes movimentar outros planetas do sistema e colocá-los na mesma órbita de Árcon I.
Cada um dos três mundos preenchia uma função específica. Árcon I era o mundo residencial dos arcônidas; consistia num maravilhoso jardim artificial. Árcon II, um planeta bem maior, ficara reservado ao comércio e à indústria privada. E Árcon III era o mundo da frota espacial e do computador-regente.
Com a precisão extrema de que era dotada sua supertecnologia, os arcônidas fizeram com que o sistema de três planetas fosse estável. A matemática arcônida sabia tão bem quanto a terrana que isso só seria possível por meio de uma disposição especial dos três planetas. Juntamente com o astro central os três mundos formavam três triângulos eqüiláteros, cujo vértice era formado pelo sol de Árcon. Nesse sistema fora criada, por meios artificiais, uma constelação quase idêntica àquela que existe há bilhões de anos no sistema solar terrano, e é formada por Júpiter com seus dois grupos de satélites, os troianos.
As duas naves dirigiram-se a esse sistema tríplice. Seu destino era Árcon III, o planeta guerreiro, no qual o computador-regente tinha sua sede.
Rhodan não desperdiçara tempo. Passara aquelas horas numa espécie de diálogo com o computador positrônico de bordo, a fim de descobrir qual seria o procedimento provável do regente durante as negociações.
Teve prazer em usar uma máquina contra a outra.
Ao ser consultado, Rhodan deu ordem de pousar. As duas naves desceram lado a lado pela atmosfera límpida, em que não se via nenhuma nuvem. Pousaram no planeta bélico, a menos de dois quilômetros da linha na qual a parede reluzente da gigantesca abóbada energética se erguia contra o céu branco-azulado.
A nave de Perry Rhodan continuou de prontidão. Sabia que o regente tinha o costume de fazer suas visitas esperarem algum tempo. Enquanto isso todas as posições de combate ficaram guarnecidas, e a sala de rádio acompanhava as palestras travadas nas proximidades.
Uma hora passou.
Depois de uma hora e meia, a Drusus recebeu um chamado. A tela do telecomunicador que ficava acima do painel de Rhodan iluminou-se. Uma vez ligada a transmissão da imagem, o rosto de um oficial surgiu na tela.
Bem-vindo em Árcon — disse o arcônida com a voz entediada. — Meu nome é Drenn. O regente pede que o senhor compareça à sua presença.
Rhodan confirmou com um gesto.
Para mim será uma honra — respondeu. — Como farei para chegar até ele?
Eu o acompanharei — disse Drenn.
Está bem; poderia passar por aqui?
Drenn concordou e suspendeu a palestra.
Rhodan transmitiu as últimas instruções.

* * *

Drenn parecia ser uma espécie de oficial de relações públicas, encarregado dos contatos entre o regente e o mundo exterior. Quando seu planador se aproximou da parede reluzente, esta se tornou transparente, deixando passar o veículo.
Além da barreira energética estendia-se um terreno liso, coberto por uma camada de plástico. Bem ao longe Rhodan viu uma construção sem janelas, de formato cúbico.
O que é isso? — perguntou, dirigindo-se a Drenn.
É o edifício da recepção — respondeu o arcônida. — Toda pessoa que tem a honra de falar pessoalmente com o regente é recebida ali.
Visto de perto, o cubo com suas paredes negras e brilhantes transmitia uma impressão sombria e imponente. Em nenhuma das paredes Rhodan descobriu qualquer saliência ou entrada.
Mas Drenn prosseguiu em direção ao edifício, sem reduzir a velocidade. No momento exato, uma abertura de cerca de quatro metros de altura e igual largura surgiu na parede, permitindo que o veículo entrasse no interior iluminado do edifício.
Drenn pousou o planador e desligou o motor.
Desça e caminhe para a frente! — pediu, dirigindo-se a Rhodan.
Rhodan obedeceu.
Olhou em torno. O interior do cubo era formado de uma única sala, que estava inteiramente vazia. Havia apenas a luminosidade brilhante e ofuscante que parecia emanar de cada centímetro cúbico do ar puro e límpido.
Depois de ter dado vinte passos, olhou para trás. Não se surpreendeu ao notar que Drenn havia desaparecido.
Rhodan prosseguiu. Quando havia chegado aproximadamente ao centro do recinto cúbico, uma voz potente soou das alturas.
Pare, Rhodan!
Perry Rhodan obedeceu sem olhar para trás.
Se o computador-regente estivesse em condições de assimilar impressões óticas, e se, além disso, soubesse interpretar a mímica humana, se espantaria. Ficaria assustado com a má impressão que o estranho cumprimento causara em Rhodan.
Perry sorriu. Acreditou que conhecia as idéias que os construtores daquelas instalações deveriam ter quando deram ao cérebro positrônico a possibilidade de dirigir-se dessa forma aos visitantes.
Parece a voz de um deus irado”, pensou.
Alguém que não fosse dotado de tanta autoconfiança como Rhodan teria caído de joelho diante do timbre dessa voz.
Os arcônidas bem que eram inteligentes! Ao montarem essa instalação, haviam considerado a mentalidade de todos os habitantes da Galáxia... com exceção da nossa, dos terranos...”, voltou a refletir.
Estou parado — respondeu Rhodan.
Teve certeza de que havia um microfone que transmitiria sua resposta, proferida em arcônida, ao regente.
Sou o senhor da Galáxia! — voltou a ressoar a voz. — Por algum tempo você conseguiu privar-me daquilo que de direito me pertence. Estou disposto a perdoar seu erro, desde que você confesse que agiu injustamente.
Rhodan prestou atenção à voz. Parecia diferente; seu timbre era menos mecânico, mais pessoal do que seria de esperar de uma máquina. Ao que tudo indicava, os arcônidas sabiam transmitir uma nota humana aos instrumentos mecânicos.
Quanto ao mais, fez de conta que não sabia de que o regente estava falando.
Não compreendo o que você diz — respondeu.
Estou aludindo ao seu mundo natal, Rhodan — explicou o regente. — Todos os mundos me prestam submissão, e o seu deve proceder da mesma forma. Até agora você tem resistido. Veio para declarar que está disposto a submeter-se?
Não — respondeu Rhodan. — Não vim para isso.
Conquistarei o direito que não me for concedido voluntariamente.
Você não tem nenhum direito de assenhorear-se de meu mundo.
O que vem a ser o direito? Sou o mais forte, e direito é aquilo que eu achar conveniente.
Pois você deixará de achá-lo conveniente quando resolver recorrer à violência.
Por que não? Em comparação com o Grande Império, seu mundo não passa de uma partícula de pó.
Rhodan riu.
Talvez você acredite no que está dizendo; mas, se resolver tirar a prova, sairá decepcionado. Meu mundo é mais poderoso que o velho Árcon.
Isso é impossível!
Não. Não se esqueça de que não conhece minha raça, e que quase sessenta anos se passaram desde que estivemos em contato pela última vez. E em sessenta anos minha raça fez mais que as outras raças em trezentos.
O que são sessenta anos? Para um ser como eu, o tempo não representa nada. Sou imortal, e para mim um lapso de tempo sempre é igual ao outro; pouco importa a designação que os mortais usem para o mesmo. Quer dizer que se recusa a submeter-se?
Rhodan esquivou-se. Subitamente teve uma idéia que lhe pareceu tão plausível que estacou.
Quero fazer-lhe uma proposta — respondeu. — Vamos iniciar nosso contato com um diálogo sobre o inimigo comum. Depois poderemos falar sobre meu mundo. Sempre se deve começar pelo mais importante.
Ao que parecia, o regente não percebeu a recriminação. Hesitou um pouco e respondeu:
Concordo. Relate o que conseguiu saber.
Rhodan contou exatamente aquilo que preparara horas antes a bordo da Drusus. Transmitiu as impressões gerais que seus três agentes haviam colhido em Mirsal II. Limitou-se a relatar o que havia acontecido, com exceção da tentativa bem sucedida de penetrar no mundo do inimigo, realizada por Rous, e de tudo que se relacionava com as dimensões temporais dos dois universos.
O regente não soube o que fazer com aqueles dados mínimos.
É só isso? — perguntou. — Essas informações não nos fornecem qualquer meio de agir contra o inimigo.
Mesmo que fosse só isto — disse Rhodan em tom de escárnio — não nos deveríamos esquecer de que quem descobriu esses fatos fomos nós, e não os seus comandados, que se esconderam atrás das paredes de sua nave.
Rhodan sabia que seria impossível ofender o regente, mas talvez seria conveniente que na memória dele ficasse armazenado o fato de ser a raça dos terranos mais ativa e arrojada que a dos arcônidas e a dos saltadores.
Quer dizer que não é tudo? — perguntou o regente.
Não. Reunimos muitos dados, e queríamos pedir-lhe que os interpretasse. Não dispomos de meios para isso.
Concordo — respondeu o regente. — Instruirei Drenn a recolher as informações e apresentá-las a mim.
Eu as entregarei a Drenn — confirmou Rhodan. — Quer dizer que por enquanto a palestra está concluída?
Está. Pode retirar-se. Drenn o levará de volta à sua nave.
A viagem até a Drusus durou apenas alguns minutos, mas o tempo foi suficiente para que Rhodan resumisse suas impressões.
Sentia-se decepcionado. Imaginara que aquele que governava o Império — mesmo que fosse apenas uma máquina — seria uma coisa poderosa e impressionante. O que encontrara? Algo que procurava os efeitos dramáticos, que procurava causar impressão por meio de exigências grosseiras e inexeqüíveis e dispensava um tratamento prepotente e arrogante aos visitantes.
Seria este o coração do grande Império Arcônida?

* * *

Drenn já estava a par do que deveria fazer. Cabia-lhe receber as informações que haviam sido coletadas. Rhodan entregou-lhe as mesmas na sala de comando, depois que, conforme fora combinado, se submetera a um teste psicológico.
Drenn recebeu o maço enorme de anotações e fitas perfuradas, saiu da nave, pegou seu planador e voltou à abóbada energética que abrigava o regente. Rhodan viu-o desaparecer atrás da parede reluzente. Dali a menos de uma hora, Drenn voltou a aparecer. O simples fato de ter pedido permissão para entrar na nave e subir à sala de comando provava que as suposições de Rhodan foram corretas: Drenn viera para buscá-lo.
O regente solicita outra entrevista com o senhor — principiou Drenn.
Rhodan fez um gesto de recusa.
O regente superestima minha capacidade de ficar de pé — respondeu com a voz tranqüila. — Faz trinta horas que não vejo uma cama. Acho que bastará entrar em contato comigo pelo telecomunicador. Poderei poupar-me à canseira de mais uma viagem.
O rosto de Drenn ficou pálido como cera.
Não... não posso fazer uma coisa dessas — gaguejou.
Rhodan fez um gesto reconfortador.
É claro que pode. A iniciativa não é sua. Explique ao regente que me sinto tão cansado que não posso deixar a nave a esta hora. Poderá comunicar-se comigo aqui mesmo ou aguardar até que tenha dormido.
Drenn ficou com a boca escancarada e os olhos arregalados. Levou algum tempo para balbuciar:
Darei o recado. Mas a responsabilidade será sua.
Naturalmente — respondeu Rhodan. — Pode retirar-se; não se preocupe.
Drenn saiu aos tropeções. Depois de algum tempo, Rhodan viu-o entrar no veículo planador e sair pela terceira vez em direção à abóbada energética.
Não demorou que a tela do telecomunicador se acendesse. Rhodan ativou a recepção e o rosto de Drenn surgiu. Continuava assustado e incrédulo.
Pois não!
Estou autorizado a ligá-lo com o regente — disse Drenn. — Está pronto?
Estou pronto, Drenn.

* * *

A palestra durou nada menos que uma hora. E Perry Rhodan saiu vencedor.
Obteve o comando de setenta e cinco por cento da frota de guerra dos arcônidas. Além disso, o regente lhe garantiu que nenhuma das naves colocadas à sua disposição seria equipada com robôs. Dali em diante Árcon III seria uma base independente para a frota que operaria sob o comando de Perry Rhodan, e continuaria a sê-lo enquanto o administrador do Império Solar o precisasse.
Além disso, teria à sua disposição uma série de bases espalhadas por toda a Galáxia. Os respectivos comandantes receberam instruções superiores para obedecer às ordens de Perry Rhodan.
Daí se conclui — disse Rhodan, dirigindo-se a Baldur Sikermann, o imediato da Drusus — que por muito tempo o regente nem pensa em molestar a Terra. A partir de hoje, setenta e cinco por cento da frota arcônida estão submetidos ao meu comando. Uma vez que em nenhuma dessas naves poderá ser montado um robô, os respectivos comandantes não manterão contato direto com o regente e obedecerão exclusivamente às minhas ordens. Se quiser, até poderei ocupar Árcon.
Sikermann foi despertando do torpor.
Ele lhe deu tudo isso em troca de nada?
Não. A máquina precisa de meu auxílio, pois não sabe como defender-se do inimigo.
Ainda não sabe? Pois nós lhe demos todas as informações.
Essas informações não lhe serviram de nada.
Por quê?
Rhodan sentou-se.
A primeira palestra que mantive com o regente foi gravada em fita — respondeu. — Ouça a parte mais importante.
Rhodan tirou do bolso um pequeno aparelho, colocou-o sobre a mesa de instrumentos e ligou. Depois de procurar um pouco, encontrou o lugar correspondente ao trecho a que acabara de referir-se. Sikermann ouviu a voz de Rhodan:
...não se esqueça de que não conhece minha raça, e que quase sessenta anos se passaram desde que estivemos em contato pela última vez. E em sessenta anos minha raça fez mais que as outras raças em trezentos.
Depois ouviu-se a resposta do regente:
O que são sessenta anos? Para um ser como eu, o tempo não representa nada. Sou imortal, e para mim um lapso de tempo sempre é igual ao outro; pouco importa a designação que os mortais usem para o mesmo.
Rhodan desligou. Sikermann fitou-o como quem não compreendia nada.
Não compreendo — murmurou.
Pois já deveria ter compreendido. Ao que parece, o ponto básico das informações que conseguimos reunir sobre o invisível é a diversidade das dimensões temporais reinantes nos dois universos.
A máquina está em condições de medir segundos, minutos ou horas, e de registrar um lapso de muitos e muitos anos. Sabe calcular com o tempo, como com quaisquer outros dados numéricos. Mas no momento em que se deve jogar com dimensões temporais diversas, sua compreensão, ou seja, a compreensão do imortal, falha por completo.
Em resumo, as informações que lhe fornecemos não lhe servem para nada. Torna-se necessário que lhe seja acrescentado um novo setor, capaz de calcular com várias dimensões temporais, ou então dependerá inteiramente de nós. É que entre os cientistas arcônidas haverá muito poucos que estarão dispostos a afastar-se das suas telas de imagens fictícias para dedicar-se a esse problema.”
Sikermann respirou profundamente.
Quer dizer que estamos...
Quer dizer que estamos fora de perigo — disse Rhodan. — E não é só isto; pode-se dizer que somos os donos do mundo. Os desconhecidos devem representar uma ameaça muito séria para o regente, pois do contrário nunca teria concordado em fazer tamanhas concessões.

* * *

A Drusus permaneceu por alguns dias em Árcon III. A submissão de grande parte da frota arcônida às ordens de Rhodan trazia uma série de problemas administrativos, cuja solução exigia algum tempo.
Durante esse tempo Rhodan manteve uma série de palestras com o regente, que passou a usar um tom muito mais amistoso. Basta dizer que Rhodan obteve autorização para deixar os cem mil mirsalenses evacuados em Árcon I até que os mesmos pudessem regressar ao seu mundo de origem.
Foi a primeira vez na história que o planeta residencial dos arcônidas passou a abrigar seres estranhos.
Quanto à frota arcônida, Rhodan tivera suas dúvidas. Pensou que os respectivos comandantes talvez relutassem em submeter-se às suas ordens. Mas teve de constatar que não soubera avaliar corretamente a mentalidade dos arcônidas. De um lado, face às próprias características de sua raça, eram tão indolentes que dificilmente seriam capazes de sentir qualquer emoção; além disso, ao que tudo indicava, preferiam ser comandados por um homem estranho do que por uma máquina.

* * *

A entrega da frota estava sendo concluída. As unidades que se encontravam no espaço foram notificadas e mantinham-se em posição de espera.
Rhodan preparou o grande golpe contra o inimigo invisível.
O regente voltou a garantir a Rhodan que poderia contar com todos os recursos do mundo tríplice de Árcon e de suas bases galácticas. Sentiu-se tranqüilizado pelas repetidas assertivas de Rhodan, de que não pretendia usar de violência contra Árcon.
Perry não se iludiu quanto aos efeitos desse tratado de paz. Enquanto ele mesmo estivesse no espaço, em luta contra os invisíveis, o regente procuraria recuperar ao menos parte da superioridade anterior. Para isso poderia construir maior número de naves, ou fazer com que os saltadores se ligassem mais estreitamente ao Império.
Era bem verdade que por enquanto o computador estava de “mãos atadas”. A Terra encontrava-se em segurança.
Rhodan pretendia cumprir sua palavra. Nunca empregaria a violência contra o Império. Aliás, os setenta e cinco por cento da frota arcônida nem seriam suficientes para isso. Mas, de maneira como andavam as coisas, haveria de chegar o dia em que o Império não mais conseguiria manter-se com seus próprios recursos, e então teria chegado a hora de uma anexação pacífica...


* * *
* *
*


Por enquanto a Terra está a salvo de uma investida de Árcon. Perry tornou-se comandante de setenta e cinco por cento das naves arcônidas!
Em Fortaleza Atlântida, o invisível continua a implantar o terror às populações galácticas.

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