— Está
bem — disse Lloyd com a voz séria. — Terei o maior cuidado.
Rous
dirigiu-se a Flaring.
— Compreendeu
tudo? — perguntou.
— No que
me diz respeito, compreendi — respondeu Flaring. — Pretende
realmente ir para o outro lado?
Rous fez
um gesto afirmativo.
— Naturalmente.
Não adianta esperar mais, deixando que a iniciativa continue nas
mãos do inimigo.
— Boa
sorte! — disse Flaring.
Rous
examinou o círculo luminoso. A curvatura mais baixa deste ficava
cerca de metro e meio acima do solo, a altura exata que permitia a
Rous olhá-lo sem maior esforço.
— Não
sou nenhum atleta — murmurou Rous. — Preciso de alguma coisa em
que possa subir para entrar no círculo.
Lloyd teve
uma idéia. Um dos armários que guarneciam o quarto foi colocado de
lado e empurrado para junto do círculo luminoso. Rous subiu e foi-se
aproximando do círculo.
— Tentarei
dar-lhe um sinal, quando estiver do outro lado — disse,
dirigindo-se a Lloyd. — Portanto, não se assuste se de repente
surgir um raio. Passe-me as armas.
Lloyd
entregou-lhe o projetor mental e um pequeno desintegrador. Rous
guardou-os e começou a penetrar no círculo.
Flaring
mantinha-se de lado, de maneira a enxergar apenas a parte lateral do
círculo. A visão que se ofereceu a Lloyd foi fantástica e
apavorante. Rous enfiou a cabeça no círculo, mas esta não apareceu
do outro lado.
Ao que
parecia, Rous não precisou fazer qualquer esforço. Trinta segundos
depois, desapareceu.
6
Rous
esperara deparar-se com a mesma resistência acontecida durante a
penetração do maço de cigarros e do sofá. Mas com ele deu-se
exatamente o contrário. Mal enfiou a cabeça no círculo, vendo
diante de si não o quadro com que estava familiarizado, mas um
confuso tremeluzir, uma força de sucção apoderou-se dele, o
arrastou e o deixou cair.
Rous
gritou de susto. Não esperava cair em algum lugar, depois de passar
pelo círculo.
Abriu os
olhos e viu que estava deitado em chão firme. A sensação da queda
fora apenas uma peça pregada por seus nervos.
Levantou-se.
Seguindo um velho hábito, procurou verificar se a gravitação à
qual estava exposto era diferente daquela reinante na Terra ou no
planeta Mirsal, mas não constatou qualquer diferença.
Depois
examinou os arredores.
O que mais
lhe chamou a atenção foi o fato de que não havia um horizonte
propriamente dito. O campo de visão era circular, conforme seria de
esperar, mas em vez do horizonte havia uma impenetrável escuridão.
Rous calculou que dois quilômetros o separavam daquele tal
“horizonte”.
O conjunto
parecia o trecho de um palco iluminado pelos holofotes. O resto
estava mergulhado na escuridão.
Rous olhou
para cima. Viu um céu azul-pálido, coberto por nuvens finas e
transparentes. Admirou-se, pois notou que as nuvens não se moviam.
O chão do
círculo estava pavimentado com grandes placas de pedra de formato
irregular. Nenhuma delas tinha menos de trezentos metros quadrados.
Nas junções das pedras viam-se faixas escuras, semelhantes aos
pontos de solda de material plástico. Rous lembrou-se dos ladrilhos
que Rosita acreditara ter visto ao olhar pela primeira vez através
do círculo luminoso.
As
máquinas, que por ocasião das observações realizadas no quarto de
Lloyd assim lhes pareceram, eram um conjunto de construções
gigantescas e estranhas. O cálculo de Rous não fora errado;
qualquer dessas construções poderia comparar-se tranqüilamente com
os maiores edifícios da Terra. Pelos cálculos de Rous, a altura
média dos mesmos devia chegar a quinhentos metros.
O mais
estranho era o formato das construções que, segundo parecia a Rous,
correspondiam ao Finalismo levado às últimas conseqüências.
Viu-se
diante de um dos gigantescos edifícios e contemplou a parede cheia
de curvaturas, reentrâncias e saliências. Estava convencido de que
cada uma dessas curvaturas, reentrâncias e saliências preencheria
uma finalidade bem definida.
Não havia
janela, a não ser que se quisesse dar esta designação às
estranhas aberturas que surgiam, em grande número, nos mais diversos
lugares da parede.
O edifício
era cinza-escuro. Essa cor lhe dava um aspecto sombrio, que não
combinava com o céu de inverno azul-pálido, com suas nuvenzinhas
transparentes e imóveis.
Perto do
lugar em que saíra, Rous encontrou o maço de cigarros, a lata de
conserva e o sofá que foram atirados através do círculo. O sofá
continuava na mesma posição em que Lloyd e ele o haviam empurrado:
de pernas para cima.
Rous olhou
para trás. Procurou localizar o círculo condutor, ou ao menos
aquilo que daqui se poderia ver do mesmo.
Por um
instante sentiu-se imobilizado pelo pavor: constatou que atrás dele
o chão era plano como à sua frente.
Mas logo
descobriu o ligeiro tremeluzir que surgia poucos metros atrás dele,
pouco acima do solo, estendendo-se numa elipse inclinada até a
altura de três metros.
Do lado em
que se encontrava o círculo era diferente e — mais importante —
era mais difícil de ser encontrado. Rous empurrou o sofá para junto
da extremidade inferior da elipse, a fim de encontrá-la o mais
depressa possível, assim que isso se tornasse necessário.
Não
procurou atravessá-la. O simples fato de sua existência provava que
o caminho de volta sempre lhe estaria aberto. Além disso, não tinha
tempo a perder.
Procurou
localizar os pontos que ele e Lloyd acreditavam resultar de defeitos
da imagem e logo os encontrou. Estavam bem adiante, junto ao
“horizonte”
que de todos os lados fechava o “palco”.
Do lugar
em que se encontrava, não pareciam muito mais nítidos que do quarto
de Lloyd. Foi caminhando para examiná-los de perto.
Teve a
impressão de que o chão por onde caminhava era de uma dureza sem
par. Depois de algum tempo seus pés começaram a doer a cada passo
dado. Rous parou, abaixou-se e passou a examinar o material de que
eram feitas as grandes placas de formato irregular. Abriu um canivete
o procurou arranhar a superfície de uma das placas. Teve que
reconhecer que o material era mais resistente que a lâmina do
canivete, e isso significava alguma coisa...
Uma vez
que a caminhada tornou-se muito difícil, levou cerca de uma hora
para percorrer um quilômetro e meio que o separavam do mais próximo
dos pontos que pretendia examinar. Mas antes de chegar lá notou que
o objeto em direção ao qual se deslocava era apenas uma estátua.
A estátua
colorida representava um homenzinho moreno que nem sequer chegava à
altura do queixo de Rous.
O
homenzinho trazia manchas claras no rosto, que pareciam sinais de
varíola. Sua roupa estava remendada em vários lugares, e os sapatos
pareciam empoeirados. O artista registrara todas essas
características.
Rous
procurou descobrir de que era feita a estátua. Ao primeiro relance
de olhos, teve a impressão de ser genuína: a carne era feita de
carne, as roupas de tecido. Mas quando tocou a manta que o homenzinho
usava, sentiu ser uma pedra dura e fria, que não conseguiu mover um
milímetro sequer.
Rous parou
e fitou a estranha figura. Quanto mais refletia, mais se convencia de
que o artista desconhecido havia reproduzido um habitante do mundo
Mirsal II. Aquele homenzinho não teria chamado a atenção de
ninguém em Fillinan ou em qualquer outra cidade mirsalense, se
tivesse vida.
Por alguns
segundos Rous, suspeitando, pensou de modo esquisito: “Será
que os próprios mirsalenses são os inimigos invisíveis? Será que
os dois milhões de desaparecidos são apenas os atores de uma grande
manobra de camuflagem, que não tem outra finalidade senão nos
enganar e, se possível, fazer com que nós nos retirássemos dessa
área?”
Rous
voltou a arquivar suas suspeitas. Eram suposições verdadeiramente
idiotas.
Mirsal II
encontrava-se no estágio inicial da Astronáutica. Nem desconfiara
da presença dos terranos em Mirsal III, onde o misterioso
desaparecimento de gente fora observado pela primeira vez. Até então
nenhuma nave mirsalense conseguira aproximar-se de Mirsal III, quanto
mais pousar lá. Além disso, era de se supor que por enquanto Mirsal
II ainda não sabia da chegada dos três agentes, e mesmo assim os
homens começaram a desaparecer enquanto Rous e seus companheiros se
aproximavam da aldeia de Keyloghal.
Não; os
mirsalenses eram inocentes. Rous não teve outra alternativa senão
supor que, só por coincidência, os habitantes desse mundo tinham
certa semelhança com os de Mirsal III.
Olhou em
torno. O “horizonte”
negro, que fora a primeira coisa que notara depois de ter surgido
ali, só se encontrava a cerca de quinhentos metros de distância.
Interessava-se pelo mesmo. Queria olhá-lo e verificar por que motivo
não havia nada para além. Lançou um último olhar para a estátua.
E estacou
de susto...
Tinha
certeza absoluta de que o homenzinho estava com os olhos bem abertos
quando o vira pela primeira vez. Notara a estranha coloração
violeta, que também era uma característica da raça principal dos
mirsalenses. Agora, na posição em que o homem mantinha os olhos,
nem poderia ver-lhe a íris. Parecia que suas pálpebras estavam se
fechando de cansaço. Trazia os olhos semicerrados.
Rous
parou. Uma terrível suspeita surgiu em sua mente. Olhou atentamente
para o homenzinho imóvel. Não podia ver que as pálpebras
continuavam a se fechar, porque o “fenômeno”
era muito lento. Mas dali a mais quinze minutos, percebeu que os
olhos estavam fechados de vez.
Rous
sentiu-se tão perplexo que mais algum tempo passou antes que pudesse
ter uma idéia nítida da profusão de sugestões confusas que lhe
enchiam a mente: aquilo não era uma estátua. O homem estava vivo.
Mas que
tipo de vida levava! Todos os movimentos do corpo pareciam ser mil
vezes mais lentos que o normal. Rous não percebera nele o menor
sinal de respiração; mas era impossível que o homem não
respirasse, já que era capaz de mover as pálpebras.
Rous
pensou, calculando rapidamente: “Quanto
tempo demora uma piscada de olhos? Com toda certeza menos de um
décimo de segundo. Admitamos que sejam cinco centésimos de segundo.
Ainda admitamos que o ato de abaixar as pálpebras corresponda a
metade de uma piscadela. Seria um fenômeno que normalmente durava
0,025 segundos. E aqui o homem levara 30 minutos para completar o
movimento.”
Dali
resultava um fator de conversão de 72.000. Em outras palavras, as
atividades biológicas do homem que Rous julgara uma estátua eram
setenta e duas mil vezes mais lentas que as desenvolvidas em
condições normais, isso se suas suposições fossem corretas e não
tivesse sido vítima de uma ilusão dos sentidos.
Não era
de admirar que não se percebesse nenhum outro movimento. Era bem
possível que naquele momento o homem estivesse prestes a virar a
cabeça ou levantar a perna para andar. Mas um movimento que para
Rous duraria um segundo, para ele demoraria vinte horas e seria tão
lento que não poderia ser percebido.
Havia
outro detalhe. O homem não poderia notar a presença de Rous. Quando
muito, para ele, o tenente era uma sombra fugaz, que se movia de um
lado para outro com a velocidade de um projétil de fuzil e nem
poderia ser nitidamente percebido com o olhar.
Rous
refletiu sobre se poderia fazer alguma coisa pelo infeliz. Talvez
pudesse carregá-lo até o sofá e levá-lo de volta a Mirsal através
da elipse tremeluzente. Já não havia a menor dúvida de que Rous
tinha diante de si um dos dois milhões de seres que, nos últimos
quinze dias, haviam desaparecido.
Rous
desistiu de seu intento. Ainda não pretendia voltar. Queria examinar
o “horizonte”
e verificar o que havia atrás do mesmo. Quando voltasse, poderia
levar esse homem, ou qualquer outro, pois todos eles estavam na mesma
situação infeliz.
Correu. De
tão nervoso que estava, esqueceu-se de que o chão era muito duro. A
dor que sentiu nos pés lembrou-o disso. O fato lhe trouxe à mente
mais uma idéia: a aparente dureza do material, que até então
sentira, era apenas mais uma conseqüência da modificação da
dimensão temporal. Qualquer porção de matéria, como por exemplo a
manta que o infeliz mirsalense estava usando, levava um tempo
infinito para ceder à pressão do dedo de Rous. Esse tempo sofria um
aumento de mais de setenta mil vezes. O dedo de Rous só agia sobre o
material por um período infinitamente menor.
O material
não tinha tempo para ceder ou desviar-se, e Rous teve a impressão
de ter tocado numa coisa extremamente dura.
A mesma
coisa acontecia com o chão em que pisava. Provavelmente o material
de que era feito não passava de um plástico igual a qualquer outro.
Mas na dimensão temporal deste mundo mais lento, o pé de Rous
tocava esse material com a velocidade de um foguete interestelar. E
todos sabem que para alguém que cai numa piscina de grande altura —
ou seja, com uma velocidade elevada — até mesmo a água mole
transforma-se numa massa extremamente dura.
Rous
dominou a dor e, dez minutos depois, venceu os quinhentos metros que
ainda o separavam do “horizonte”.
A parede,
que dava forma ao “horizonte”,
não era feita de matéria, mas apesar disso tinha a
impenetrabilidade de um campo defensivo potentíssimo. A mão de Rous
tocou em alguma coisa que ele não pôde ver e foi detida. Rous
aumentou a pressão, mas o obstáculo escuro não cedeu.
Chegara ao
fim do mundo!
Enquanto
ainda refletia sobre o caminho que devia tomar, Rous notou alguma
coisa que talvez poderia proporcionar a explicação do estranho
fenômeno.
O conjunto
de lentes do campo defensivo só conseguia abranger uma pequena seção
desse mundo. Por mais que se girasse e deslocasse o gerador, a imagem
permanecia a mesma. O conjunto de lentes só possibilitava o acesso a
este mundo por uma área extremamente limitada, que era precisamente
aquela que podia ser vista pelas duas lentes.
“É
uma conclusão lógica”,
pensou Rous. Face a isso, o “horizonte”
escuro e curvo não era uma propriedade daquele mundo. Apenas
resultava dos limites postos ao alcance das lentes. O “horizonte”
não existia neste mundo; fora colocado naquele lugar pelas lentes.
Rous tinha certeza de que um habitante deste mundo, que aparecesse
por acaso, nem o perceberia.
Voltou.
Passou por várias “figuras”
que pareciam estátuas e resolveu levar aquelas que se encontrassem
mais próximas do sofá e do ponto de saída reluzente. O caminho era
longo e, nas estranhas condições que reinavam aqui, tornava-se
bastante penoso.
Pelo que
Rous pôde ver, todas as pessoas que se achavam por ali eram
mirsalenses. Nenhuma das figuras media mais de metro e meio; e o
número de homens, mulheres e crianças, era aproximadamente igual.
Por fim,
Rous aproximou-se da parede dos fundos do edifício junto ao qual
surgira horas antes. Viu pouco acima do solo uma das estranhas
aberturas, e refletiu sobre se devia entrar no edifício.
Já estava
quase decidido, quando ouviu um estranho ruído.
De início
parecia um zumbido fraco, que durante um minuto conservou a mesma
força, para aumentar lentamente depois. Após cinco minutos atingiu
uma força que fez os ouvidos de Rous doerem. Depois decresceu com
uma lentidão incrível. Quando Rous tirou as mãos de cima dos
ouvidos, vinte minutos se haviam passado desde que ouvira o ruído
pela primeira vez. Alguma coisa, vinda não se sabe de onde,
continuava a retumbar e a zumbir por aquele estranho mundo.
Rous não
conseguiu identificar o ruído. E não se interessou por isso. Mas
sentiu o perigo que estava ligado ao mesmo. Não sabia por quê, mas
teve a idéia de que não deveria esperar mais. Uma ameaça se
aproximava. A visita ao edifício teria de ficar para outra
oportunidade.
Correu o
mais rápido que seus pés doloridos lhe permitiam. Dobrou à
esquerda e contornou o gigantesco edifício, para chegar o quanto
antes ao lugar em que poderia regressar para Mirsal.
Enquanto
se desviava dos obstáculos representados pelas ramificações, pelos
anexos e pelas saliências do edifício, viu um vulto imóvel na
sombra de dois objetos em formato de flecha.
Esteve a
ponto de prosseguir na sua corrida, pois pensava se tratar de mais um
mirsalense seqüestrado que levava sua vida lenta na penumbra. Mas
notou que esse vulto era maior que os que havia observado até então.
Virou-se e entrou entre as duas colunas.
Seus olhos
estavam ofuscados pela claridade reinante sob o céu azul-pálido.
Por enquanto só viu que o vulto diante de si era uns vinte
centímetros mais alto que os demais. Depois descobriu que, ao
contrário dos mirsalenses, tinha cabelo negro e longo. Depois os
olhos se acostumaram à escuridão e viu que se tratava de Rosita
Peres.
Rous
dominou a surpresa com a determinação de um homem que sabe que uma
ameaça estranha e mortal está no seu encalço. Procurou fazer
Rosita passar entre as duas colunas, mas só o conseguiu depois de
deixá-la cair para a frente, segurar sua cintura e carregá-la como
um pedaço de pau.
Rosita não
demonstrou a menor reação, pois estava submetida ao mesmo aumento
da dimensão temporal que os demais mirsalenses. Não dobrou o corpo,
como faria qualquer pessoa que estivesse sendo transportada por essa
forma. Continuou dura como se fosse de pedra, facilitando o trabalho
de Rous.
Rous
apressou-se, mas era claro que agora avançava mais devagar que
antes. O sofá, que lhe servia de orientação, ficava a duzentos
metros. Mas com a carga que o tenente agora transportava, esses
duzentos metros se transformavam numa eternidade.
Levou um
susto tremendo quando junto ao sofá um vulto surgiu do nada e, ao
contrário da lentidão reinante neste mundo, agitava os braços e
emitia sons estridentes, que Rous não compreendia.
Rous
parou, mas o vulto foi se aproximando. Sentiu-se aliviado ao notar
que era Fellmer Lloyd. Seus gritos tornavam-se inteligíveis quando
se aproximou.
— Venha
depressa! O perigo está chegando.
— Ajude-me!
— gritou Rous. — Encontrei Rosita.
Lloyd
chegou ao lugar onde se encontrava Rous. De tão preocupado que
andava, ainda não se dera ao trabalho de olhar em torno.
Agora, já
sabendo que Rous estava em segurança, olhou para os lados. Rous
notou que o mutante levou um susto.
— Meu
Deus! — murmurou. — Que coisa estranha...
— Ajude!
— interrompeu Rous com a voz impaciente. — Não temos tempo para
ficar admirados.
Como
carregassem em dois, o transporte de Rosita tornou-se muito mais
fácil.
Dali a
poucos minutos, chegaram ao sofá e à elipse inclinada e
tremeluzente que ficava junto ao mesmo.
— Quem
está do outro lado? — perguntou Rous. — É Flaring?
Lloyd fez
um gesto afirmativo.
— Pedi-lhe
que ficasse de vigia — respondeu.
— Venha.
Vamos levar Rosita em primeiro lugar.
A operação
não foi nada difícil. A psicóloga continuava dura como uma tábua.
Empurraram-na para dentro da elipse reluzente e a viram desaparecer.
Depois
Lloyd penetrou na elipse. Muito nervoso, Rous ficou impressionado ao
ver as pernas de Lloyd desaparecerem aos poucos e a invisibilidade ir
tomando conta de seu corpo. Dali a mais um instante, Lloyd havia
desaparecido de todo.
Rous
seguiu-o imediatamente. Desta vez não sentiu nada: nem a resistência
quando da penetração inicial, nem a sucção que logo depois
surgira. Subiu pela elipse e depois de um ligeiro susto viu-se sobre
o armário que havia sido empurrado para junto do círculo luminoso.
Rosita já
despertara de sua imobilidade. Reconheceu Flaring e perguntou-lhe,
muito espantada, o que havia acontecido. A única coisa que Flaring
pôde fazer foi dobrar o indicador. Não sabia de nada.
Depois fez
algumas perguntas a Lloyd e Rous. Porém estes repeliram-nas com um
gesto.
— Lloyd,
você não tinha dito que existe uma ameaça?
O mutante
apontou para o círculo luminoso.
— Olhe —
disse.
Rous fitou
o círculo. Mesmo sem usar os panos, viu que o campo de visão
aumentara. Os limites do campo permaneciam inalterados: continuava a
ver as mesmas coisas de antes. Apenas, a imagem se tornara maior. O
sofá, por exemplo, já não era um ponto difícil de ser
identificado, mas transformara-se num traço muito largo. Os
gigantescos edifícios apresentavam-se maiores e ninguém mais
acreditaria que as manchas escuras que representavam os mirsalenses
imobilizados fossem simples defeitos de imagem.
— Aproximou-se,
não é? — indagou Rous.
— Sim —
confirmou Lloyd. — Houve um salto enorme e, de repente, os objetos
se apresentaram com o tamanho aumentado.
— E daí
o senhor conclui que existe algum perigo?
Lloyd
ergueu os ombros.
— É
preferível sermos cautelosos — respondeu. — Não acredito mais
que os movimentos repentinos da imagem tenham sua causa nas
oscilações do gerador. É possível que realmente alguma coisa se
aproxime de nós. Pelo que vimos até agora, devemos fazer o possível
para que este mundo estranho fique bem longe.
Rous lhe
deu razão.
— Provavelmente
haverá outro ataque — disse, dirigindo-se a Flaring. — O senhor
será informado quando o pânico surgir em algum lugar?
— Naturalmente
— respondeu Flaring.
— Todos
os canais de comunicação vão ter a este hotel.
— Será
que alguém poderia fazer o favor de explicar... — começou Rosita.
Rous
repeliu-a com um gesto.
— Agora
não, minha filha. Lloyd, prossiga nas suas observações e avise
quando a imagem se aproximar. Transmitirei uma mensagem à Drusus.
Lloyd fez
que sim. Ajeitou os panos por cima da cabeça e colocou-se à frente
do círculo luminoso. Rous arranjou uma placa-matriz do
hipercomunicador, na qual pudesse redigir a mensagem destinada a
Rhodan.
Mal
começara o trabalho, a porta abriu-se violentamente. Um dos
ordenanças de Flaring entrou.
— Houve
um ataque, comissário! A estação telegráfica de Fregnaat deixou
de transmitir.
Rous
levantou a cabeça.
— Onde
fica Fregnaat? — perguntou.
— Na
direção sudoeste — respondeu Flaring apressadamente.
— Seus
postos ficam bem próximos um do outro para que se possa verificar em
que direção se desenvolve o ataque?
— Ficam.
Temos uma estação telegráfica a cada quinze quilômetros, em
média, isso numa série de linhas que irradiam a partir de Fillinan.
— Muito
bem. Mantenha-se sempre a par.
O
ordenança retirou-se depressa. Dois minutos depois, voltou.
— O
ataque prossegue em direção a Fillinan! — disse. — Mais duas
estações foram silenciadas. Além disso...
— Além
disso o quê? — perguntou Flaring.
— Além
disso as estações que ficam em torno de Kovan também estão
falhando. E essa frente também se desloca na direção de Fillinan.
Flaring
lançou um olhar perplexo para Rous.
— O que
vamos fazer? — disse em tom queixoso.
Rous
mentalmente fez seus cálculos.
“As
estações de Flaring ficam a uma distância de cerca de quinze
quilômetros. Em cinco minutos, no máximo, duas estações foram
silenciadas, numa ação que procedia de Fregnaat. Isso corresponde a
uma velocidade de cerca de duzentos e quarenta quilômetros por
hora...”
O tenente
dirigiu-se ao ordenança.
— Procure
averiguar a largura da frente de avanço. E verifique também se ela
mantém uma velocidade constante. A que distância fica Kovan?
— Quinze
mil quilômetros.
— Muito
bem. Avise assim que haja qualquer novidade.
O
ordenança retirou-se. Rous lançou um olhar sério para Flaring e
disse:
— O
senhor tem uma tarefa muito difícil pela frente. Teremos de evacuar
cem mil pessoas da área ameaçada. Para isso dispomos apenas de três
horas. O senhor acha que seria capaz de preparar cem mil pessoas para
a evacuação sem que haja um pânico entre o resto da população?
Flaring
parecia surpreso.
— Pretende...
pretende evacuar cem mil homens...
Rous
interrompeu-o com um gesto.
— É
isso mesmo que pretendemos fazer. Por ora não se preocupe com isso.
Acha que conseguirá reunir as cem mil pessoas?
Flaring
levantou a mão.
— Muito
bem; pode começar. Dentro de uma hora, no máximo, poderemos dar
início ao embarque.
— Ao
embarque? — murmurou Flaring sem compreender nada. — O senhor
dispõe de navios?
Rous
empurrou-o pela porta.
— Não
faça perguntas — disse. — É preferível agir. Não temos tempo
a perder.
Flaring
saiu correndo. Rous dirigiu-se a Lloyd e ordenou:
— Pare
com isso e venha para cá. Temos coisa mais importante a fazer. Pegue
o microcomunicador e transmita o S.O.S. à Drusus e à Arc-Koor,
ordenou Rous. — Peça que ambas as naves pousem imediatamente.
Transmita uma indicação exata da posição de Fillinan. O tempo é
escasso.
7
Perry
Rhodan começava a agir...
Poucos
minutos depois de ter recebido o pedido de socorro de Rous, as duas
naves gigantescas já se haviam posto em movimento. Os trinta milhões
de quilômetros que as separavam de Mirsal II foram percorridos em
menos de trinta minutos. É bem verdade que o pouso consumiu outros
trinta minutos. Dessa forma, passou-se uma hora entre a expedição
da mensagem de S.O.S. e o pouso das gigantescas naves espaciais nas
proximidades da cidade de Fillinan.
Nesse meio
tempo Rous havia transmitido outras informações. Tornava-se
necessário envolver os subúrbios do sudoeste de Fillinan com um
potente campo defensivo. Rous pretendia repetir a manobra por meio da
qual os três haviam salvo há poucos dias o mirsalense na Alameda
dos Reis. Era certo que os geradores das duas naves tinham potência
suficiente para envolver uma cidade inteira num campo defensivo. Esta
ação se tornava necessária caso, conforme pretendia Rous, devesse
ser salvo um número de pessoas que pudesse ser abrigado nos dois
gigantes espaciais.
Rous e
seus companheiros encontravam-se no local quando a Drusus pousou nas
imediações da cidade. Trouxera todo o material que havia coletado.
Ordenara à polícia que bloqueasse a área de pouso, a fim de que o
embarque pudesse ser realizado rapidamente.
Avaliara
mal a mentalidade dos mirsalenses. Aqueles homenzinhos, que por sua
própria natureza não eram muito valentes e ainda se sentiam mais
amedrontados pelos ataques dos invisíveis, nem pensaram em
contemplar as gigantescas naves. Saíram correndo, tomados de pavor,
e com eles correram os policiais que haviam sido postados ali para
manter livre a área de pouso. Rous entrou em contato com Rhodan.
Este concordou com o procedimento sugerido por aquele e aprovou o
plano que previa a salvação do maior número possível de
habitantes da cidade. Talamon, comandante da nave Arc-Koor, que havia
pousado ao sul da cidade, recebeu instruções para ativar os
geradores de campos defensivos de sua nave com a potência máxima,
dando um formato tal ao campo, para que cerca de metade dos subúrbios
do lado sudoeste fosse abrangida.
A Drusus
fez a mesma coisa. Meia hora após o pouso das duas naves, toda a
área habitada de Fillinan se encontrava sob uma abóbada energética
impenetrável que, segundo esperava Rous, teria potência suficiente
para deter o ataque do inimigo.
Na sala de
rádio da Drusus foram captados os sinais transmitidos pelas estações
telegráficas de Flaring. Ficaram sabendo que, vindo de Fregnaat, a
frente de ataque inimiga tinha uma largura de duzentos e cinqüenta
quilômetros até quatrocentos quilômetros, e a vinda de Kovan
alcançava seiscentos quilômetros.
Se a
velocidade de deslocamento das duas frentes não sofresse um aumento
considerável, haveria esperança de concluir as manobras de embarque
antes que o ataque atingisse a cidade.
Uma hora
após o pouso, Flaring apareceu com o primeiro grupo de mirsalenses.
O grupo era formado por quinze mil pessoas, entre homens, mulheres e
crianças. O comissário informou que havia nomeado um representante
que estava levando outro grupo à Arc-Koor. Pelo que declarou
Flaring, mais setenta mil mirsalenses aguardavam nas ruas da cidade o
momento de serem embarcados.
Nos
arrabaldes voltou a reinar a calma, depois que o pânico provocado
pelo surgimento das duas naves-gigante se amortecera.
O embarque
prosseguia regularmente; sob a direção de Flaring, que contava com
o apoio de seu representante e dos oficiais das duas naves que
possuíam senso de organização. Enquanto isso, Rhodan dispendia
algum tempo em ouvir um relato minucioso oferecido pelos três
agentes colocados em Mirsal II.
*
* *
— Acabo
de explicar os fatos que vivemos e presenciamos. Agora, gostaria de
dar minha opinião pessoal a este respeito — disse Marcel Rous,
concluindo sua exposição.
Rhodan
concordou com um sorriso.
— Vamos
logo! — pediu a Rous. — Estou curioso.
O tenente
principiou:
— O
inimigo que enfrentamos, seja lá quem for, ataca a partir de outra
dimensão. Não vive em nosso Universo espaço-temporal.
“Em
segundo lugar, os ataques que desfechou em Mirsal II não são tão
perigosos para os terranos como para os nativos do planeta. Isso dá
o que pensar. Poder-se-ia, por exemplo, definir uma estrutura
peculiar, para cada ponto da Galáxia, e admitir que os pontos mais
expostos ao ataque do inimigo são aqueles cuja estrutura mais se
assemelha à que prevalece para este. Se continuarmos fiéis a esta
imagem, poderemos concluir que a estrutura peculiar dos terranos
difere tanto da dos mirsalenses, que nós só somos atingidos por
ataques desfechados com uma violência extraordinária. Este fato
pode ser comprovado, por exemplo, com o acontecido a Miss Peres.
“Em
terceiro lugar, os objetos sem vida sofreram um processo de
envelhecimento durante o ataque. Exatamente o contrário acontece com
as pessoas que desaparecem no momento das operações. Já ouviu o
relato de Miss Peres. Pelos nossos cálculos ficou vários dias no
mundo do inimigo, mas ela mesma teve a impressão de só ter estado
fora uns quatro ou cinco segundos, apenas o suficiente para olhar em
torno de si.
“É
desse efeito, ou seja, da aceleração do tempo para os objetos sem
vida e seu retardamento para os seres vivos, que decorre
provavelmente o fato de que homens e animais desaparecem, enquanto os
objetos sem vida permanecem no mesmo lugar. Quando, conforme já
relatei, tentei atravessar o conjunto de lentes, passei pela mesma
experiência. Esperava sentir idêntica resistência surgida no
instante da penetração do maço de cigarros, da lata de conserva e
do sofá. Acontece que o efeito foi exatamente o contrário.
“Em vez
de uma resistência, houve uma espécie de sucção. Para criar uma
imagem plausível, poderíamos estabelecer comparação com um
sistema de cargas positivas e negativas. Se admitirmos que homens e
animais possuem uma carga positiva e os objetos inanimados uma carga
negativa, poderemos imaginar que, ao lançar-se ao ataque, o inimigo
não faz outra coisa senão empurrar uma placa com carga negativa
pelo terreno. Todos os objetos de carga positiva serão atraídos e
desaparecerão, enquanto os dotados de carga negativa serão
repelidos. Peço-lhe que não...”
— Que
não interprete esta imagem em sentido literal — completou Rhodan
com um gesto de assentimento. — Está bem. Posso imaginar
perfeitamente que na verdade ninguém “empurra
uma placa”
pelo solo. Prossiga, tenente Rous.
— Não
sabemos qual é o papel que as plantas, também dotadas de vida
orgânica, desempenham no processo. De qualquer maneira, não são
atingidas pelos ataques.
“Em
quarto e último lugar: a única coisa que podemos fazer é criar
lentes formadas por campos defensivos e introduzir algumas pessoas no
mundo do inimigo. Já sabemos que o campo de ação aberto pelas
lentes é limitado. Não podemos atravessar os “horizontes”.
Enquanto isso o inimigo evidentemente não sofre nenhuma limitação
em seu mundo. Nós...”
— Um
momento. Das suas observações não se deduz que um dos nossos
homens que penetre pelas lentes de campo defensivo conserva sua
dimensão temporal? Em outras palavras, essa pessoa não se movimenta
setenta e duas mil vezes mais depressa que o inimigo?
— Era
exatamente o que eu pretendia dizer — respondeu Rous em tom
animado. — Seremos muito mais rápidos que o inimigo. Durante o
tempo que ele gasta para respirar uma única vez poderemos libertar
todos os prisioneiros... mais precisamente, apenas aqueles que se
encontrarem dentro de nosso raio de ação.
— Os
prisioneiros ficam submetidos à dimensão temporal do mundo inimigo,
não é?
— Isso
mesmo. É como já disse: Miss Peres teve a impressão de só ter
passado uns quatro ou cinco segundos por lá. Só quem penetra
através do conjunto de lentes goza da vantagem da rapidez. Por assim
dizer, carrega sua própria dimensão temporal. Portanto, poderemos
realizar investigações e libertar alguns prisioneiros; só isso.
Dentro do círculo no qual pude mover-me, devia haver cerca de cem
prisioneiros. Acontece que só de Mirsal II desapareceram mais de
milhões de pessoas nestes últimos dias. A esse número devemos
acrescentar todos os habitantes de Mirsal III. Não os vi em parte
alguma. Provavelmente se encontravam atrás do “horizonte”.
— Não
se preocupe por causa da superioridade do inimigo. Já nos vimos
várias vezes em situações de que parecia não haver qualquer
saída. O simples fato de ainda existirmos prova que encontramos um
certo tipo de saída.
“Não se
esqueça de que somos homens do planeta Terra, Rous. Não tenho a
menor dúvida de que solucionaremos também este problema, sem que
isso nos custe o pescoço.
“Obrigado.”
*
* *
Trinta
minutos depois dessa palestra a sala de rádio constatou que as duas
frentes de ataque do inimigo, vindas do sudoeste e do norte, haviam
aumentado a velocidade.
Dos cem
mil mirsalenses que Flaring havia preparado para a evacuação,
cinqüenta mil já tinham sido embarcados.
Os
mirsalenses mantinham-se calmos. Estavam amedrontados com o tamanho
das naves e tinham medo do que lhes aconteceria caso não se movessem
com suficiente rapidez.
*
* *
Pouco
antes das dezessete horas, tempo de bordo, as duas frentes de ataque
atingiram a cidade. Naquele momento, Rhodan encontrava-se na sala de
comando da Drusus. Os aparelhos registraram a súbita solicitação
dos campos defensivos, provocada pelo impacto sofrido pelos mesmos.
Dali a poucos segundos, ouviu-se a voz nervosa e amedrontada de
Talamon pelo telecomunicador:
— Os
geradores queimarão se não decolarmos imediatamente.
Rhodan
viu-lhe o rosto dominado pelo pânico na pequena tela do
telecomunicador.
— Os
campos agüentarão — respondeu com a voz fria. — Aquilo que
acabamos de ver acontece duas vezes por hora quando nos encontramos
no espaço. Controle seus nervos e cuide para que o embarque se
processe em ordem. A hora da decolagem será determinada por mim.
O rosto
amedrontado de Talamon desapareceu. Rhodan voltou a dedicar sua
atenção aos instrumentos de registro.
Constantemente
chegavam informações sobre o prosseguimento da evacuação. A
Drusus estava inteiramente lotada; mas na Arc-Koor ainda havia lugar
para muita gente.
Rhodan
suspirou aliviado.
Dali a
alguns minutos, os campos atingidos sofreram outro impacto, muito
mais violento que o primeiro. Por alguns segundos os geradores quase
falharam sob a violência do ataque.
Mas
aqueles segundos se passaram e o que ficou para trás foi somente o
medo de Talamon, que neste meio tempo já se transformara em
histeria.
— Leve
os homens para bordo! — gritou Rhodan em tom grosseiro. — E
aguarde minhas ordens para decolar. Não acredito que o Grande
Império tenha enviado um calhambeque, cujos campos defensivos falhem
ao primeiro susto.
A ironia
indisfarçada produziu seus efeitos. Dali em diante Talamon ficou
quieto.
*
* *
Rous,
Rosita e Lloyd, que dominavam a língua dos mirsalenses, ajudaram
Flaring nas operações de embarque. Pouco depois que o segundo
ataque fizera os geradores trabalhar ao máximo de sua capacidade,
levaram para bordo da Drusus o que restava dos sessenta mil
mirsalenses que deveriam ser abrigados na mesma.
— Pronto;
isso está liquidado — murmurou Flaring.
— Ainda
bem; entre — pediu Rous. — Acho que partiremos a qualquer
momento.
Flaring
fitou-o com uma expressão de espanto.
— Eu? —
sacudiu a cabeça. — Prefiro ficar aqui. Meu lugar é junto àquela
gente que está esperando seu fim.
Rous
assustou-se.
— Não
seja idiota, Flaring. O senhor não pode fazer nada por eles. Assim
que tudo tenha passado, voltaremos. O senhor ainda terá muita coisa
a fazer.
Flaring
levantou o braço e baixou-o lentamente, num gesto de negação.
— Não;
ficarei — respondeu. — Talvez ainda estejamos vivos quando o
ataque terminar; talvez não...
Rous viu
que estava falando sério e sentiu que quaisquer palavras que
visassem demovê-lo dessa resolução seriam inúteis. Apesar disso
insistiu:
— Da
segunda vez que nos encontramos eu lhe disse que o senhor é um homem
honesto, Flaring. Garanto-lhe que não nos esqueceremos de Mirsal.
Voltaremos com armas melhores. E então...
Nesse
instante, a voz de Rhodan saiu da comporta de carga, que se
encontrava aberta:
— Todos
os tripulantes a bordo. Decolagem de urgência, dentro de quatro
minutos. Todos os tripulantes a bordo.
Rous
estremeceu. Se Rhodan marcava uma decolagem para dentro de quatro
minutos, a situação devia ser mais que crítica.
A rampa
começou a deslocar-se em direção ao corpo da nave. Rous, que se
encontrava junto a Flaring e próximo da mesma, saltou.
— Venha
conosco! — gritou para Flaring.
Mas
Flaring voltou a baixar o braço. Fez uma mesura para cada um dos
três agentes, voltou-se e, andando de cabeça erguida, dirigiu-se
para a cidade.
Era um
homenzinho valente que caminhava para a destruição.
*
* *
O terceiro
ataque provocara uma pane em um dos geradores da Drusus e em três da
Arc-Koor. Rhodan sabia que não poderia perder nem um segundo. O
quarto ataque representaria a destruição das duas naves.
Exatamente
quatro minutos depois do primeiro aviso, os dois gigantes dispararam
para o céu, neutralizando, por meio dos campos antigravitacionais, a
pressão resultante da aceleração.
As duas
naves ainda se destacavam perfeitamente contra o céu azul quando as
duas frentes de ataque, que já não eram detidas por qualquer campo
defensivo, irromperam sobre a cidade. Dentro de poucos segundos, um
milhão e meio de mirsalenses desapareceram. Ou, mais precisamente,
um milhão e meio menos cem mil.
Entre os
desaparecidos estava certo comissário de polícia chamado Flaring.
Não sentiu a desgraça que se abateu sobre ele. Viu um ligeiro
tremeluzir branco-acinzentado, e ressurgiu num mundo que nunca havia
visto.
8
As duas
hipernaves saíram sem qualquer incidente de Mirsal II e avançaram
rapidamente até a altura do quarto planeta do sistema de Mirsal.
Durante o vôo, a sala de rádio da Drusus constatou que os sinais
emitidos pela Gazela, que havia levado Rous e seus companheiros para
Mirsal II, se tornavam cada vez mais débeis. Depois de meia hora,
cessaram por completo.
O plano de
Rhodan falhara.
O inimigo
levara a Gazela. Mas os sinais de rádio emitidos no espaço em que a
mesma se encontrava não atingiam a Drusus. A nave de reconhecimento
estava perdida, tal qual o Girino que tempos atrás pousara em Mirsal
III.
*
* *
Rhodan já
tomara sua decisão antes de pousar em Mirsal II. Uma vez concluída
essa tarefa, iria a Árcon e teria um encontro com o
computador-regente, a fim de discutir as questões que ainda
permaneciam em aberto.
O
dispositivo positrônico da Drusus confirmou que isso não
representaria qualquer risco para Rhodan. O regente via-se diante de
um perigo que não conseguiria dominar sem auxílio de Perry. Era o
perigo representado pelo inimigo invisível, para o qual, segundo
parecia, era fácil despovoar um planeta dentro de poucas horas. O
computador precisava de um aliado. O cérebro positrônico acreditava
que, como praticamente não dispusesse de quaisquer informações
sobre a Terra, esse aliado só poderia ser Rhodan.
O
computador era ininfluenciável e objetivo. Não seria tomado por
problemas psicológicos caso confessasse a Rhodan ter alguns trunfos
suficientes que colocasse fora de ação o inimigo invisível. Porém
ele não os tinha...
Rhodan
sabia disso. Pretendia extrair da situação atual algumas vantagens
para a Terra. O computador-regente estaria disposto a fazer
concessões ao aliado. Perry pretendia fazer com que essas
concessões, por sua própria natureza, protegessem a Terra para além
da guerra com os invisíveis.
Enquanto
as duas naves saíam do sistema de Mirsal, Rhodan explicou a Talamon,
comandante da Arc-Koor, que pretendia dirigir-se a Árcon. O
superpesado, que se sentia ainda um tanto temeroso depois dos sustos
sofridos em Mirsal II, não fez o menor comentário. Mas seu rosto
revelava que a decisão de Rhodan o surpreendia, e que estava
convencido de que o computador-regente não acederia ao pedido de
Rhodan, que pretendia o acesso ao coração do Império dos
Arcônidas.
Acontece
que Talamon estava cometendo um engano; não conhecia os detalhes da
situação.
A mensagem
de telecomunicação que Rhodan enviou ao regente foi simplesmente
esta:
Colhi
informações valiosas sobre o inimigo invisível. Indispensável
conferenciarmos sobre os passos que se seguirão e interpretarmos
indicações já obtidas. Drusus e Arc-Koor estão a caminho de
Árcon. Solicitamos permissão de entrada e designação de
audiência.
Com a
velocidade peculiar as máquinas positrônicas o regente refletiu
sobre as vantagens e desvantagens da proposta de Rhodan. Dentro de
dois milésimos de segundo preparou sua resposta.
O teor foi
o seguinte:
Concordo.
Pouse com ambas as naves. Estarei à sua disposição assim que
chegar.
É bem
verdade que a rápida concordância foi uma surpresa até mesmo para
Perry Rhodan.
Começou a
desconfiar. A rapidez da resposta permitia duas conclusões
diferentes. O regente de Árcon realmente poderia estar numa situação
gravíssima face à atuação do inimigo invisível; ou então
estaria realizando um jogo falso, a fim de dominar o mais poderoso
dos seus concorrentes.
A Drusus
foi colocada em estado de alarma antes que entrasse em transição,
quando se encontrava a apenas cem unidades astronômicas de Mirsal.
Rhodan avisou a Arc-Koor de que acabara de receber permissão de
ingresso em Árcon.
*
* *
Perry
mandou que a Drusus se aproximasse o mais possível — ou seja,
pouco mais de quinhentos metros do envoltório da outra nave — e
fez com que as duas naves se aproximassem nessa formação do anel
exterior de fortificações. Rhodan teve a impressão de que, se o
regente pretendesse capturá-lo, desistiria de seu intento assim que
percebesse que teria de perder a mais potente de suas naves. A
Arc-Koor seria o penhor da segurança pessoal de Rhodan.
O primeiro
anel de fortificações foi atravessado sem o menor incidente.
Mantendo sempre a menor distância possível, as duas naves avançaram
velozmente em direção ao centro do sistema.
Árcon
estava situado no grupo estelar M-13 e era formado por três planetas
que gravitavam em torno da estrela central numa órbita idêntica.
Essa disposição fora criada artificialmente. Originariamente só
havia um planeta nessa órbita, que era Árcon I. Com o
desenvolvimento progressivo, o planeta natal dos arcônidas tornou-se
muito pequeno. Sua tecnologia permitiu-lhes movimentar outros
planetas do sistema e colocá-los na mesma órbita de Árcon I.
Cada um
dos três mundos preenchia uma função específica. Árcon I era o
mundo residencial dos arcônidas; consistia num maravilhoso jardim
artificial. Árcon II, um planeta bem maior, ficara reservado ao
comércio e à indústria privada. E Árcon III era o mundo da frota
espacial e do computador-regente.
Com a
precisão extrema de que era dotada sua supertecnologia, os arcônidas
fizeram com que o sistema de três planetas fosse estável. A
matemática arcônida sabia tão bem quanto a terrana que isso só
seria possível por meio de uma disposição especial dos três
planetas. Juntamente com o astro central os três mundos formavam
três triângulos eqüiláteros, cujo vértice era formado pelo sol
de Árcon. Nesse sistema fora criada, por meios artificiais, uma
constelação quase idêntica àquela que existe há bilhões de anos
no sistema solar terrano, e é formada por Júpiter com seus dois
grupos de satélites, os troianos.
As duas
naves dirigiram-se a esse sistema tríplice. Seu destino era Árcon
III, o planeta guerreiro, no qual o computador-regente tinha sua
sede.
Rhodan não
desperdiçara tempo. Passara aquelas horas numa espécie de diálogo
com o computador positrônico de bordo, a fim de descobrir qual seria
o procedimento provável do regente durante as negociações.
Teve
prazer em usar uma máquina contra a outra.
Ao ser
consultado, Rhodan deu ordem de pousar. As duas naves desceram lado a
lado pela atmosfera límpida, em que não se via nenhuma nuvem.
Pousaram no planeta bélico, a menos de dois quilômetros da linha na
qual a parede reluzente da gigantesca abóbada energética se erguia
contra o céu branco-azulado.
A nave de
Perry Rhodan continuou de prontidão. Sabia que o regente tinha o
costume de fazer suas visitas esperarem algum tempo. Enquanto isso
todas as posições de combate ficaram guarnecidas, e a sala de rádio
acompanhava as palestras travadas nas proximidades.
Uma hora
passou.
Depois de
uma hora e meia, a Drusus recebeu um chamado. A tela do
telecomunicador que ficava acima do painel de Rhodan iluminou-se. Uma
vez ligada a transmissão da imagem, o rosto de um oficial surgiu na
tela.
— Bem-vindo
em Árcon — disse o arcônida com a voz entediada. — Meu nome é
Drenn. O regente pede que o senhor compareça à sua presença.
Rhodan
confirmou com um gesto.
— Para
mim será uma honra — respondeu. — Como farei para chegar até
ele?
— Eu o
acompanharei — disse Drenn.
— Está
bem; poderia passar por aqui?
Drenn
concordou e suspendeu a palestra.
Rhodan
transmitiu as últimas instruções.
*
* *
Drenn
parecia ser uma espécie de oficial de relações públicas,
encarregado dos contatos entre o regente e o mundo exterior. Quando
seu planador se aproximou da parede reluzente, esta se tornou
transparente, deixando passar o veículo.
Além da
barreira energética estendia-se um terreno liso, coberto por uma
camada de plástico. Bem ao longe Rhodan viu uma construção sem
janelas, de formato cúbico.
— O que
é isso? — perguntou, dirigindo-se a Drenn.
— É o
edifício da recepção — respondeu o arcônida. — Toda pessoa
que tem a honra de falar pessoalmente com o regente é recebida ali.
Visto de
perto, o cubo com suas paredes negras e brilhantes transmitia uma
impressão sombria e imponente. Em nenhuma das paredes Rhodan
descobriu qualquer saliência ou entrada.
Mas Drenn
prosseguiu em direção ao edifício, sem reduzir a velocidade. No
momento exato, uma abertura de cerca de quatro metros de altura e
igual largura surgiu na parede, permitindo que o veículo entrasse no
interior iluminado do edifício.
Drenn
pousou o planador e desligou o motor.
— Desça
e caminhe para a frente! — pediu, dirigindo-se a Rhodan.
Rhodan
obedeceu.
Olhou em
torno. O interior do cubo era formado de uma única sala, que estava
inteiramente vazia. Havia apenas a luminosidade brilhante e ofuscante
que parecia emanar de cada centímetro cúbico do ar puro e límpido.
Depois de
ter dado vinte passos, olhou para trás. Não se surpreendeu ao notar
que Drenn havia desaparecido.
Rhodan
prosseguiu. Quando havia chegado aproximadamente ao centro do recinto
cúbico, uma voz potente soou das alturas.
— Pare,
Rhodan!
Perry
Rhodan obedeceu sem olhar para trás.
Se o
computador-regente estivesse em condições de assimilar impressões
óticas, e se, além disso, soubesse interpretar a mímica humana, se
espantaria. Ficaria assustado com a má impressão que o estranho
cumprimento causara em Rhodan.
Perry
sorriu. Acreditou que conhecia as idéias que os construtores
daquelas instalações deveriam ter quando deram ao cérebro
positrônico a possibilidade de dirigir-se dessa forma aos
visitantes.
“Parece
a voz de um deus irado”,
pensou.
Alguém
que não fosse dotado de tanta autoconfiança como Rhodan teria caído
de joelho diante do timbre dessa voz.
“Os
arcônidas bem que eram inteligentes! Ao montarem essa instalação,
haviam considerado a mentalidade de todos os habitantes da Galáxia...
com exceção da nossa, dos terranos...”,
voltou a refletir.
— Estou
parado — respondeu Rhodan.
Teve
certeza de que havia um microfone que transmitiria sua resposta,
proferida em arcônida, ao regente.
— Sou o
senhor da Galáxia! — voltou a ressoar a voz. — Por algum tempo
você conseguiu privar-me daquilo que de direito me pertence. Estou
disposto a perdoar seu erro, desde que você confesse que agiu
injustamente.
Rhodan
prestou atenção à voz. Parecia diferente; seu timbre era menos
mecânico, mais pessoal do que seria de esperar de uma máquina. Ao
que tudo indicava, os arcônidas sabiam transmitir uma nota humana
aos instrumentos mecânicos.
Quanto ao
mais, fez de conta que não sabia de que o regente estava falando.
— Não
compreendo o que você diz — respondeu.
— Estou
aludindo ao seu mundo natal, Rhodan — explicou o regente. — Todos
os mundos me prestam submissão, e o seu deve proceder da mesma
forma. Até agora você tem resistido. Veio para declarar que está
disposto a submeter-se?
— Não —
respondeu Rhodan. — Não vim para isso.
— Conquistarei
o direito que não me for concedido voluntariamente.
— Você
não tem nenhum direito de assenhorear-se de meu mundo.
— O que
vem a ser o direito? Sou o mais forte, e direito é aquilo que eu
achar conveniente.
— Pois
você deixará de achá-lo conveniente quando resolver recorrer à
violência.
— Por
que não? Em comparação com o Grande Império, seu mundo não passa
de uma partícula de pó.
Rhodan
riu.
— Talvez
você acredite no que está dizendo; mas, se resolver tirar a prova,
sairá decepcionado. Meu mundo é mais poderoso que o velho Árcon.
— Isso é
impossível!
— Não.
Não se esqueça de que não conhece minha raça, e que quase
sessenta anos se passaram desde que estivemos em contato pela última
vez. E em sessenta anos minha raça fez mais que as outras raças em
trezentos.
— O que
são sessenta anos? Para um ser como eu, o tempo não representa
nada. Sou imortal, e para mim um lapso de tempo sempre é igual ao
outro; pouco importa a designação que os mortais usem para o mesmo.
Quer dizer que se recusa a submeter-se?
Rhodan
esquivou-se. Subitamente teve uma idéia que lhe pareceu tão
plausível que estacou.
— Quero
fazer-lhe uma proposta — respondeu. — Vamos iniciar nosso contato
com um diálogo sobre o inimigo comum. Depois poderemos falar sobre
meu mundo. Sempre se deve começar pelo mais importante.
Ao que
parecia, o regente não percebeu a recriminação. Hesitou um pouco e
respondeu:
— Concordo.
Relate o que conseguiu saber.
Rhodan
contou exatamente aquilo que preparara horas antes a bordo da Drusus.
Transmitiu as impressões gerais que seus três agentes haviam
colhido em Mirsal II. Limitou-se a relatar o que havia acontecido,
com exceção da tentativa bem sucedida de penetrar no mundo do
inimigo, realizada por Rous, e de tudo que se relacionava com as
dimensões temporais dos dois universos.
O regente
não soube o que fazer com aqueles dados mínimos.
— É só
isso? — perguntou. — Essas informações não nos fornecem
qualquer meio de agir contra o inimigo.
— Mesmo
que fosse só isto — disse Rhodan em tom de escárnio — não nos
deveríamos esquecer de que quem descobriu esses fatos fomos nós, e
não os seus comandados, que se esconderam atrás das paredes de sua
nave.
Rhodan
sabia que seria impossível ofender o regente, mas talvez seria
conveniente que na memória dele ficasse armazenado o fato de ser a
raça dos terranos mais ativa e arrojada que a dos arcônidas e a dos
saltadores.
— Quer
dizer que não é tudo? — perguntou o regente.
— Não.
Reunimos muitos dados, e queríamos pedir-lhe que os interpretasse.
Não dispomos de meios para isso.
— Concordo
— respondeu o regente. — Instruirei Drenn a recolher as
informações e apresentá-las a mim.
— Eu as
entregarei a Drenn — confirmou Rhodan. — Quer dizer que por
enquanto a palestra está concluída?
— Está.
Pode retirar-se. Drenn o levará de volta à sua nave.
A viagem
até a Drusus durou apenas alguns minutos, mas o tempo foi suficiente
para que Rhodan resumisse suas impressões.
Sentia-se
decepcionado. Imaginara que aquele que governava o Império — mesmo
que fosse apenas uma máquina — seria uma coisa poderosa e
impressionante. O que encontrara? Algo que procurava os efeitos
dramáticos, que procurava causar impressão por meio de exigências
grosseiras e inexeqüíveis e dispensava um tratamento prepotente e
arrogante aos visitantes.
Seria este
o coração do grande Império Arcônida?
*
* *
Drenn já
estava a par do que deveria fazer. Cabia-lhe receber as informações
que haviam sido coletadas. Rhodan entregou-lhe as mesmas na sala de
comando, depois que, conforme fora combinado, se submetera a um teste
psicológico.
Drenn
recebeu o maço enorme de anotações e fitas perfuradas, saiu da
nave, pegou seu planador e voltou à abóbada energética que
abrigava o regente. Rhodan viu-o desaparecer atrás da parede
reluzente. Dali a menos de uma hora, Drenn voltou a aparecer. O
simples fato de ter pedido permissão para entrar na nave e subir à
sala de comando provava que as suposições de Rhodan foram corretas:
Drenn viera para buscá-lo.
— O
regente solicita outra entrevista com o senhor — principiou Drenn.
Rhodan fez
um gesto de recusa.
— O
regente superestima minha capacidade de ficar de pé — respondeu
com a voz tranqüila. — Faz trinta horas que não vejo uma cama.
Acho que bastará entrar em contato comigo pelo telecomunicador.
Poderei poupar-me à canseira de mais uma viagem.
O rosto de
Drenn ficou pálido como cera.
— Não...
não posso fazer uma coisa dessas — gaguejou.
Rhodan fez
um gesto reconfortador.
— É
claro que pode. A iniciativa não é sua. Explique ao regente que me
sinto tão cansado que não posso deixar a nave a esta hora. Poderá
comunicar-se comigo aqui mesmo ou aguardar até que tenha dormido.
Drenn
ficou com a boca escancarada e os olhos arregalados. Levou algum
tempo para balbuciar:
— Darei
o recado. Mas a responsabilidade será sua.
— Naturalmente
— respondeu Rhodan. — Pode retirar-se; não se preocupe.
Drenn saiu
aos tropeções. Depois de algum tempo, Rhodan viu-o entrar no
veículo planador e sair pela terceira vez em direção à abóbada
energética.
Não
demorou que a tela do telecomunicador se acendesse. Rhodan ativou a
recepção e o rosto de Drenn surgiu. Continuava assustado e
incrédulo.
— Pois
não!
— Estou
autorizado a ligá-lo com o regente — disse Drenn. — Está
pronto?
— Estou
pronto, Drenn.
*
* *
A palestra
durou nada menos que uma hora. E Perry Rhodan saiu vencedor.
Obteve o
comando de setenta e cinco por cento da frota de guerra dos
arcônidas. Além disso, o regente lhe garantiu que nenhuma das naves
colocadas à sua disposição seria equipada com robôs. Dali em
diante Árcon III seria uma base independente para a frota que
operaria sob o comando de Perry Rhodan, e continuaria a sê-lo
enquanto o administrador do Império Solar o precisasse.
Além
disso, teria à sua disposição uma série de bases espalhadas por
toda a Galáxia. Os respectivos comandantes receberam instruções
superiores para obedecer às ordens de Perry Rhodan.
— Daí
se conclui — disse Rhodan, dirigindo-se a Baldur Sikermann, o
imediato da Drusus — que por muito tempo o regente nem pensa em
molestar a Terra. A partir de hoje, setenta e cinco por cento da
frota arcônida estão submetidos ao meu comando. Uma vez que em
nenhuma dessas naves poderá ser montado um robô, os respectivos
comandantes não manterão contato direto com o regente e obedecerão
exclusivamente às minhas ordens. Se quiser, até poderei ocupar
Árcon.
Sikermann
foi despertando do torpor.
— Ele
lhe deu tudo isso em troca de nada?
— Não.
A máquina precisa de meu auxílio, pois não sabe como defender-se
do inimigo.
— Ainda
não sabe? Pois nós lhe demos todas as informações.
— Essas
informações não lhe serviram de nada.
— Por
quê?
Rhodan
sentou-se.
— A
primeira palestra que mantive com o regente foi gravada em fita —
respondeu. — Ouça a parte mais importante.
Rhodan
tirou do bolso um pequeno aparelho, colocou-o sobre a mesa de
instrumentos e ligou. Depois de procurar um pouco, encontrou o lugar
correspondente ao trecho a que acabara de referir-se. Sikermann ouviu
a voz de Rhodan:
— ...não
se esqueça de que não conhece minha raça, e que quase sessenta
anos se passaram desde que estivemos em contato pela última vez. E
em sessenta anos minha raça fez mais que as outras raças em
trezentos.
Depois
ouviu-se a resposta do regente:
— O
que são sessenta anos? Para um ser como eu, o tempo não representa
nada. Sou imortal, e para mim um lapso de tempo sempre é igual ao
outro; pouco importa a designação que os mortais usem para o mesmo.
Rhodan
desligou. Sikermann fitou-o como quem não compreendia nada.
— Não
compreendo — murmurou.
— Pois
já deveria ter compreendido. Ao que parece, o ponto básico das
informações que conseguimos reunir sobre o invisível é a
diversidade das dimensões temporais reinantes nos dois universos.
“A
máquina está em condições de medir segundos, minutos ou horas, e
de registrar um lapso de muitos e muitos anos. Sabe calcular com o
tempo, como com quaisquer outros dados numéricos. Mas no momento em
que se deve jogar com dimensões temporais diversas, sua compreensão,
ou seja, a compreensão do imortal, falha por completo.
“Em
resumo, as informações que lhe fornecemos não lhe servem para
nada. Torna-se necessário que lhe seja acrescentado um novo setor,
capaz de calcular com várias dimensões temporais, ou então
dependerá inteiramente de nós. É que entre os cientistas arcônidas
haverá muito poucos que estarão dispostos a afastar-se das suas
telas de imagens fictícias para dedicar-se a esse problema.”
Sikermann
respirou profundamente.
— Quer
dizer que estamos...
— Quer
dizer que estamos fora de perigo — disse Rhodan. — E não é só
isto; pode-se dizer que somos os donos do mundo. Os desconhecidos
devem representar uma ameaça muito séria para o regente, pois do
contrário nunca teria concordado em fazer tamanhas concessões.
*
* *
A Drusus
permaneceu por alguns dias em Árcon III. A submissão de grande
parte da frota arcônida às ordens de Rhodan trazia uma série de
problemas administrativos, cuja solução exigia algum tempo.
Durante
esse tempo Rhodan manteve uma série de palestras com o regente, que
passou a usar um tom muito mais amistoso. Basta dizer que Rhodan
obteve autorização para deixar os cem mil mirsalenses evacuados em
Árcon I até que os mesmos pudessem regressar ao seu mundo de
origem.
Foi a
primeira vez na história que o planeta residencial dos arcônidas
passou a abrigar seres estranhos.
Quanto à
frota arcônida, Rhodan tivera suas dúvidas. Pensou que os
respectivos comandantes talvez relutassem em submeter-se às suas
ordens. Mas teve de constatar que não soubera avaliar corretamente a
mentalidade dos arcônidas. De um lado, face às próprias
características de sua raça, eram tão indolentes que dificilmente
seriam capazes de sentir qualquer emoção; além disso, ao que tudo
indicava, preferiam ser comandados por um homem estranho do que por
uma máquina.
*
* *
A entrega
da frota estava sendo concluída. As unidades que se encontravam no
espaço foram notificadas e mantinham-se em posição de espera.
Rhodan
preparou o grande golpe contra o inimigo invisível.
O regente
voltou a garantir a Rhodan que poderia contar com todos os recursos
do mundo tríplice de Árcon e de suas bases galácticas. Sentiu-se
tranqüilizado pelas repetidas assertivas de Rhodan, de que não
pretendia usar de violência contra Árcon.
Perry não
se iludiu quanto aos efeitos desse tratado de paz. Enquanto ele mesmo
estivesse no espaço, em luta contra os invisíveis, o regente
procuraria recuperar ao menos parte da superioridade anterior. Para
isso poderia construir maior número de naves, ou fazer com que os
saltadores se ligassem mais estreitamente ao Império.
Era bem
verdade que por enquanto o computador estava de “mãos
atadas”.
A Terra encontrava-se em segurança.
Rhodan
pretendia cumprir sua palavra. Nunca empregaria a violência contra o
Império. Aliás, os setenta e cinco por cento da frota arcônida nem
seriam suficientes para isso. Mas, de maneira como andavam as coisas,
haveria de chegar o dia em que o Império não mais conseguiria
manter-se com seus próprios recursos, e então teria chegado a hora
de uma anexação pacífica...
*
* *
*
*
*
Por
enquanto a Terra está a salvo de uma investida de Árcon. Perry
tornou-se comandante de setenta e cinco por cento das naves
arcônidas!
Em
Fortaleza Atlântida, o invisível continua a implantar o terror às
populações galácticas.

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