— Você
tem um torrão de açúcar para qualquer remédio, por mais amargo
que seja — disse. — Mas quero que me prometa que Bell nunca
ficará sabendo disso.
— Já
prometi — confirmou Rhodan.
— Está
bem. Os aras não voarão, mas vão capturar o idiota do rato-castor
que estão seguindo. Daqui a pouco, deverão chegar. Aliás, estão
com um medo tremendo de você.
— Não
é de admirar. Estão pensando no couraçado que posso chamar a
qualquer momento. O regente robotizado deve ter tomado medidas muito
enérgicas nos últimos 56 anos. Só assim posso explicar o medo que
essa gente tem de Árcon.
— Já
chegaram! — cochichou Gucky, e acrescentou por via telepática: —
E
agora, senhoras e senhores, terão a oportunidade de ver Gucky, a
estrela de fama mundial, no papel do idiota. O show vai começar.
Realmente
começou.
Alguém
bateu à porta. Rhodan voltou a exibir sua cara pretensiosa de
arcônida, fez um gesto preguiçoso para Gucky e disse de maneira
suficientemente alta para ser ouvido do lado de fora.
— Gucky,
dê uma olhada para ver quem se atreve desta vez a perturbar meu
sossego. Ao que tudo indica, Tolimon é um planeta muito tumultuado,
ou então estão ansiosos para que eu inicie imediatamente as minhas
investigações.
Gucky
arrastou-se até a porta, fez uma cara desavergonhadamente ingênua e
abriu. A mesura que executou foi muito esquisita. Três homens
entraram no recinto. Não deram a menor atenção ao rato-castor,
embora seus pensamentos girassem exclusivamente em torno do mesmo.
Adiantaram-se alguns passos e pararam diante de Rhodan. Inclinaram-se
num gesto de veneração.
— Pedimos
muitas desculpas — disse o homem do meio, puxando o paletó
colorido numa atitude de embaraço. — Talvez estejamos sendo
importunos, mas...
— Não
os chamei; logo, só podem ser importunos — confirmou Rhodan numa
tranqüila arrogância, que provavelmente teria causado pavor em
qualquer dos seus amigos. Gucky continuava a fazer mesuras, para que
ninguém pudesse ver seu rosto risonho.
— Trata-se...
trata-se dum convite do governo — prosseguiu o ara, que parecia
mais assustado que embaraçado. — Hoje será realizada uma recepção
de gala para o alto inspetor de Árcon. Queremos pedir sua presença.
Rhodan
examinou os pensamentos da pessoa que lhe dirigira a palavra e
descobriu a intenção de seqüestrar Gucky enquanto estivesse
ausente do hotel. Um comando especial de captura já estava a
caminho. Reclinou-se ligeiramente e fez como se tivesse que refletir.
— O
chefe do governo também comparecerá à recepção? — indagou.
— Naturalmente,
meu senhor. Foi ele que deu a idéia, e sentir-se-á muito honrado se
o senhor quiser participar da recepção.
— Quando
será?
— Bem...
naturalmente virão buscá-lo, meu senhor. Logo após o pôr do sol.
— Muito
bem. Comparecerei. E meu criado?
O
ara parecia assustado.
— Seu
criado? O que quer dizer com isso?
— Também
está convidado?
— É
claro que não. Só personalidades de categoria elevada comparecerão
à recepção. Ninguém levará seu criado.
— Ah,
sim. Nesse caso meu criado ficará no hotel.
Os
três enviados conseguiram dominar-se muito bem. Não fizeram nenhum
gesto que pudesse revelar o contentamento provocado pela decisão que
Rhodan acabara de anunciar. Em compensação, os pensamentos
recônditos deles eram dos mais triunfantes.
Gucky,
que se mantinha junto à porta, parecia ter esquecido seu triste
papel. O rato-castor percebeu que tinha de esforçar-se para manter o
dente roedor sob controle e reprimir a alegria que a brincadeira
começava a causar-lhe. Afinal, não era todos os dias que capturavam
“pessoas”
para fins de internamento num zoológico. Ao que tudo indicava, já
se esquecera do aborrecimento que essa perspectiva lhe causara dez
minutos antes.
— O
carro chegará pontualmente — disse o ara que se encontrava no
centro do grupo. A seguir, os enviados retiraram-se em meio a
inúmeras mesuras, lançando um olhar guloso sobre o rato-castor.
Gucky
fechou a porta e riu baixinho.
— Hi-hi,
que idiotas. Já estão me vendo na sua rede.
— E
você entrará na rede deles — enfatizou Rhodan. — Não se
esqueça do que combinamos. Irei à festa, mas ficarei apenas uma
hora. Usarei uma desculpa qualquer para despedir-me e voltarei
imediatamente ao hotel. Faço votos de que até lá os seus
seqüestradores tenham concluído sua tarefa com pleno êxito.
Permaneceremos em contato. Naturalmente darei pela sua falta e darei
o alarma. Vejamos o que acontece depois disso.
— O
que pode acontecer? Aquela gente não saberá de nada e procurará
inventar uma desculpa.
— Em
compensação acho que você ficará sabendo de alguma coisa. Talvez
você entre em contato com as mesmas pessoas que perseguiram Marshall
e talvez tenham chegado a capturá-lo.
— Veremos
— disse Gucky. — Apenas quero avisar uma coisa. Se tentarem
trancar-me numa jaula, darei o fora.
— Talvez
você possa dar o fora antes disso, Gucky. Tudo depende das
circunstâncias.
— Hum
— fez o rato-castor e subiu para o sofá baixinho que se encontrava
num canto. — Veremos. De qualquer maneira hoje você terá o mais
tolo dos ratos-castores de todo o Universo.
— Faço
votos de que seja assim — disse Rhodan com um sorriso e voltou a
esforçar-se para localizar Marshall e Laury Marten.
*
* *
Depois
de Rhodan ter saído, Gucky viu-se só e começou a preparar-se para
a aventura que o esperava. A rigor, não via no acontecimento uma
aventura, mas antes uma brincadeira, no que não deixava de ter sua
razão. A expedição de captura não lhe traria maiores perigos,
desde que se mostrasse bastante submisso e estúpido.
Os
primeiros impulsos surgiram menos de dez minutos depois. O seqüestro
sem dúvida fora bem preparado e estava sendo realizado com o
consentimento dos escalões mais elevados do governo, o que não era
de admirar. Para os aras estabelecidos em Tolimon não havia problema
mais importante que a obtenção de seres vivos adequados às suas
experiências. O zoológico desempenhava uma função puramente de
acessório, pois destinava-se como atração e ponto de encontro de
turistas que trouxessem dinheiro.
Cinco
homens exibiram suas credenciais ao dono do hotel. Gucky seguiu a
palestra com o maior interesse e voltou a certificar-se de que a
porta não estava trancada. Subiu ao sofá e estendeu-se
confortavelmente sobre o mesmo, agindo exatamente da forma como um
criado costuma agir quando o senhor não está em casa. Ao menos
muitos criados costumavam agir dessa forma.
Fechou
os olhos e fez de conta que estava dormindo.
Os
cinco homens pararam diante da porta e prepararam-se para arrombar a
fechadura caso a vítima não se dispusesse a abrir. Mas um deles fez
uma tentativa e constatou que a porta não estava trancada.
— Que
animal ingênuo! — cochichou e foi entrando. — Para mim não
serviria como criado; é muito leviano e estúpido.
“Você
verá uma coisa!”,
pensou Gucky e continuou a fazer de conta que dormia profundamente.
“Não
tenha a menor dúvida! Basta esperar.”
A
alegria que a perspectiva lhe causava fez com que se empenhasse ainda
mais na execução do seu papel. Esperou calmamente que os cinco
homens entrassem e fez de conta que estava acordando. Piscou os olhos
castanhos, abriu-os de vez e contemplou os intrusos com uma expressão
de espanto. Viu que um deles carregava um radiador de impulsos, que
era um artefato mortífero. Contavam com alguma resistência. Bem,
estavam enganados.
— Boa
noite — disse Gucky com a voz aguda. — Infelizmente meu senhor, o
alto inspetor, saiu. Posso ser-lhes útil em alguma coisa?
Um
dos captores de animais foi à porta e saiu para o corredor. Um
instante depois, voltou com uma caixa gradeada. Um sorriso gentil
brilhava em seu rosto astucioso.
— Não
queremos falar com seu amo — disse em tom suave. Provavelmente
estava interessado em captar a confiança de Gucky. — Apenas
queremos pedir que venha conosco.
— Para
onde? — perguntou Gucky com a cara mais inocente do Universo. —
Não posso sair do hotel sem licença de meu dono.
— Seu
dono já foi avisado — disse outro dos aras com ligeira
recriminação na voz. — É claro que concorda em que você seja
apresentado ao Conselho Científico de Tolimon, que nunca teve
oportunidade de examinar um animal inteligente como você.
— Querem
levar-me numa jaula? — disse Gucky, apontando com cara de nojo para
a caixa gradeada. — Acham que sou alguma fera?
— Bem...
é... é por causa do povo — gaguejou outro e adiantou-se
rapidamente, para segurar o “objeto
de experiências”
tão cobiçado, pela nuca. — Não queremos que seja molestado.
Gucky
esforçou-se para não explodir. Em condições normais, aquele
sujeito desavergonhado teria sido atirado para o teto por meio da
energia telecinética. Mas nada lhe aconteceu. Um tanto assustado e
totalmente desorientado, o rato-castor ficou agachado sobre o sofá e
não ofereceu a menor resistência quando foi levantado.
— É
um lindo exemplar — disse um dos homens e abriu a caixa. —
Enfie-o logo nesta jaula, antes que mude de idéia. O inspetor
acreditará que saiu e se perdeu pela cidade.
Um
impulso bastante violento colocou Gucky no interior da jaula, cuja
porta logo se fechou. Os captores já se sentiam seguros, e deixaram
cair as máscaras.
— Vamos
embora logo! — disse um deles em tom apressado. — Quando esse
arcônida voltar, não deverá encontrar qualquer pista.
— Vocês
não disseram que o inspetor está a par? — chiou Gucky,
fingindo-se de assustado. — Não acham que estão me dispensando um
tratamento bastante estranho?
— Cale
a boca! — gritou um dos aras, o que representou outra provação
dura para Gucky. Seria fácil libertar-se, mas não devia fazê-lo.
Devia bancar o fraco, a criatura incrivelmente estúpida. Como é que
Rhodan foi exigir uma coisa dessas?
Os
homens cobriram a jaula com um pano preto e saíram do quarto. Uma
vez no corredor, foram andando mais depressa, passaram pelo hall de
recepção sem que ninguém os detivesse e saíram à rua. Gucky
sentiu que a jaula foi colocada num carro com um movimento nada
suave. Poucos segundos depois, o veículo foi colocado em movimento.
Os homens não diziam mais nada, mas seus pensamentos eram bastante
reveladores para Gucky.
Foi
levado ao Ministério Zoológico. Sabia que o zôo era uma
instituição estatal submetida a um ministério especial, no qual
trabalhavam principalmente médicos e cientistas. Talvez também
houvesse alguns psicólogos. Ali seria examinado e interrogado, antes
de ser levado para a área cercada.
Área
cercada! Gucky sorriu, a fim de aplacar a cólera. Para ele não
havia o menor perigo, mas ficar bancando o idiota... E logo Gucky,
que sempre encontrara o maior prazer em demonstrar sua superioridade
às inteligências humanóides. E agora via-se obrigado...
Era
de estourar!
A
viagem foi bastante demorada. Pelos pensamentos de seus acompanhantes
concluiu que o museu ficava na área periférica da cidade, onde
esperavam realizar as experiências necessárias sem que ninguém os
perturbasse. Ainda constatou que as intenções de quem concebera o
seqüestro no fundo não eram más. Desconfiavam de que o inspetor
jamais cederia espontaneamente seu criado tão engraçadinho, mas
estavam loucos para trancafiar esse exemplar raro e semi-inteligente
no zoológico. Um rato-castor que sabia falar seria uma verdadeira
sensação. Talvez conseguissem mesmo saber onde ficava o planeta de
origem desse animal tão estranho. Uma coluna dessas criaturas
seria...
Os
aras se perdiam nas suas fantasias. Gucky bem que estava satisfeito
por estar oculto sob o pano negro. Só assim ninguém via seu sorriso
galhofeiro.
Ainda
mostraria algo a eles. Logo que pudesse.
*
* *
Para
Rhodan não foi muito fácil acompanhar o seqüestro de Gucky
enquanto conversava com os políticos mais influentes de Tolimon. Não
demorou muito. Logo se despediu. Desculpou-se com o cansaço da
viagem, dizendo que precisava repousar. Uma vez que, naquela altura,
o comando de captura já se apoderara do rato-castor, não lhe
opuseram maiores dificuldades. O carro levou-o de volta ao hotel.
Conforme
o programa, sentiu falta de seu criado e perguntou ao pessoal do
hotel se não o haviam visto. Mas todos, inclusive o gerente,
afirmavam de pés juntos que não haviam notado nada de suspeito.
Rhodan
aguardou mais trinta minutos; depois avisou a polícia. Esclareceu
que seu criado não costumava sair de hotel sem permissão. Exigiu
energicamente uma operação de busca para localizar a criatura
desaparecida.
A
polícia prometeu fazer o que estivesse ao seu alcance. Era claro que
estava mentindo; agia de comum acordo com os seqüestradores.
A
seguir Rhodan deitou na cama, depois de ter trancado a porta e
colocado o radiador de impulsos portátil embaixo do travesseiro.
Voltou
a dedicar-se à tarefa, bastante difícil face à potência reduzida
de suas faculdades telepáticas, de localizar os impulsos mentais de
Marshall, sem esquecer o contato com Gucky.
Naquele
instante Gucky encontrava-se diante dos seus examinadores.
*
* *
A
sala reluzia de limpeza.
As
luzes ofuscantes embutidas no teto branco iluminavam até o último
canto, não permitindo que surgisse qualquer sombra. Atrás da mesa
em ferradura, estavam sentados treze homens de capas brancas, que era
o traje profissional dos aras. Todos os olhares estavam dirigidos
para o pequeno prisioneiro, que os contemplava com o rosto muito
ingênuo. Nos fundos da sala dois homens equipados com radiadores
paralisantes mantinham-se à espreita. Vigiavam a única saída da
sala.
O
homem que se encontrava no centro usava barba. Daí concluía-se que
era um mercador galático. Inclinou-se para a frente e lançou um
olhar penetrante sobre Gucky.
— Você
é o criado do inspetor de Árcon? — perguntou.
— Sou,
sim — piou Gucky, assustado, embora sua alma estivesse fervendo. —
Meu senhor lhes dirá o que acha do procedimento de quem seqüestra
seu criado.
— Nós
perguntamos e você responde! — interromperam-no. — Onde aprendeu
o arcônida? Será que em seu planeta nativo falavam a língua do
Império?
— Foi
meu senhor que me ensinou.
— Quer
dizer que sua língua não é esta?
— É
claro que não. Costumamos comunicar-nos por meio de uma série de
assobios melódicos. Um tom extremamente agudo, por exemplo, indica
uma grande excitação, enquanto um zumbido...
— E
seu planeta nativo? — interrompeu o barbudo, que não parecia estar
muito interessado na linguagem de assobios dos ratos-castores. —
Você pode descrever a situação do mesmo?
Gucky
acenou com a cabeça; parecia muito seguro de si.
— Naturalmente.
Um pouco à direita do saco de carvão.
— Heim?
— o barbudo inclinou-se para a frente, com os olhos arregalados.
Seu rosto era de interrogação. — O saco de carvão? O que vem a
ser isso?
Gucky
leu os pensamentos de seu interlocutor e percebeu que os aras
costumam designar as nuvens escuras como poeira de absorção. Mas
não tinha a menor intenção de ajudá-los. Que quebrassem a cabeça
para descobrir o sentido da expressão terrana, que para eles era
totalmente desconhecida.
— Um
saco de carvão — disse em tom solene — é um saco de carvão.
Será que me exprimi com suficiente clareza?
O
barbudo sacudiu a cabeça.
— Precisamos
de dados mais exatos. Vamos apagar a luz e mostraremos um mapa
estelar visto de Tolimon. Você nos mostrará onde fica seu planeta
nativo.
A
escuridão tomou conta da sala e a imagem reduzida, mas exata, do céu
estrelado, surgiu no teto. Muito satisfeito, Gucky percebeu que as
áreas escuras estavam fielmente reproduzidas. Soltou um grito de
triunfo e apontou para o alto.
— Ali,
o saco de carvão. É à direita do mesmo.
Quinze
pares de olhos fitaram a projeção à procura do saco de carvão,
sem que soubessem o que era um saco de carvão. Mas suas reflexões
logo foram interrompidas por um assobio estridente de Gucky, que
soltou uma exclamação:
— Não,
é o outro! Ali à esquerda, no canto! — depois de uma ligeira
pausa: — É possível que seja o do meio. Não sabia que existem
tantos sacos de carvão.
— Provavelmente
os sacos de que você fala são as nuvens de absorção —
conjeturou cautelosamente o barbudo. — É claro que sua raça não
dispõe de qualquer treinamento científico, mas de qualquer forma
vocês possuem certo quociente intelectual.
— O
que é isso? — perguntou Gucky, levantando uma das orelhas. —
Nunca me disseram que nós temos uma coisa dessas.
Dois
ou três dos aras riram às escondidas. Houve uma ligeira pausa, que
Gucky aproveitou para pensar intensamente:
— Ei,
Rhodan. Está ouvindo? Isto não é divertido a valer?
A
resposta surpreendeu Gucky.
— Deixe
de palhaçadas e procure descobrir alguma coisa a respeito de
Marshall e Laury. Use de habilidade, formulando certas perguntas...
— Como
é que um idiota como eu pode usar de habilidade...?
Rhodan
não enviou nenhuma resposta, pois o barbudo interrompeu a palestra
mental.
— Como
é que você foi parar em mãos dos arcônidas? Foram buscá-lo no
seu mundo?
Gucky
deixou cair a orelha.
— Quem
dera que eu soubesse... Faz tanto tempo!
— Quanto
tempo?
As
luzes voltaram a acender-se, mas a projeção do céu noturno não
desapareceu do teto. Subitamente, a voz do barbudo demonstrou muito
interesse. Gucky percebeu que essa seria a chance de levar os
pensamentos dos inquisidores ao tema que o interessava.
— Quanto
tempo? — murmurou, fitando os olhos dirigidos para ele com uma
expressão de ingenuidade. — Devem ser algumas centenas de anos.
— Você
já é tão velho?
— Velho
por quê? — perguntou Gucky com um enorme espanto na voz. — Sou
um jovem, sou um rapaz, se me permitem essa palavra. As moças de
todos os mundos que o inspetor e eu costumamos visitar...
O
barbudo não estava interessado nas moças. Tinha outros problemas.
— Será
que no seu mundo todos atingem essa idade?
— Naturalmente.
Vocês não chegam aos mil anos?
O
barbudo respirava com dificuldade. Arregalou os olhos para o
rato-castor. Os outros aras também pareciam muito assustados. Seus
pensamentos estavam cheios de perguntas tão diversificadas que Gucky
não pôde absorvê-los todos ao mesmo tempo. Fazia votos de que
Rhodan estivesse escutando e ajudasse.
— Mil
anos...? — o barbudo esforçou-se para aparentar calma. —
Descobriram algum elixir que prolonga a vida?
Foi
a vez de Gucky mostrar-se espantado.
— Um
elixir? Para quê? Mil anos bastam, especialmente para mim, que sou
um simples criado. Depois de minha morte meu senhor, o inspetor, terá
de procurar outro criado, e depois...
— O
quê? — berraram dois ou três aras ao mesmo tempo, enquanto
empalideceram visivelmente. — Seu amo também vive tanto tempo? Não
é arcônida?
Gucky
sentiu que quase chegara a cometer um erro. Esforçou-se para
adquirir um aspecto ainda mais estúpido.
— O
que poderia ser se não isso? — perguntou em tom ingênuo.
O
barbudo não respondeu. Pensou: “Será
que anteriormente alguém veio a Tolimon e roubou o soro, tal qual
fez esse saltador que conseguiu escapar? Ou a moça que estava com
ele? Ou será que outras inteligências realizaram pesquisas e
chegaram ao mesmo resultado?”
Gucky
suspirou aliviado. Era a primeira indicação relativa a Marshall.
Acontece que, ao que tudo indicava, os próprios aras não sabiam
onde o mesmo se encontrava naquele instante. Quer dizer que toda a
encenação fora inútil. Ou será que não?
— Você,
que acompanha o inspetor para todos os lados, tem visto muita coisa
nesta Galáxia — voltou a falar o barbudo. — Vocês costumam
visitar todos os mundos do Império e, conforme diz, vêm fazendo
isso há vários séculos. Já encontraram algum mundo habitado por
humanóides cujo grau de evolução fica no nível C?
Gucky
aguçou o ouvido. O mundo ao qual se referia era a Terra! A Terra,
com a classificação que lhe caberia há duzentos ou trezentos anos.
Categoria C. Foi no século XVII
que
uma das naves por acaso encontrou a Terra e raptou alguns homens, que
foram trancados no zoológico, onde ainda viviam. Apenas o conde
Rodrigo de Berceo conseguira fugir com o auxílio de Marshall.
— Humanóides
do nível de evolução C? — repetiu Gucky e parecia refletir
atentamente. Depois de algum tempo, sacudiu a cabeça. — Não;
tenho certeza que nunca encontramos um mundo destes. Por quê? Será
que este mundo existe?
Mais
uma vez não obteve resposta, mas os pensamentos dos aras revelaram o
que precisava saber.
Sim,
um mundo destes já existiu, há algumas centenas de anos. Haviam-no
encontrado e por uma série de circunstâncias infelizes as
coordenadas foram perdidas. Todavia, haviam trazido quatro exemplares
daquela raça primitiva, que receberam o soro revitalizador e foram
trancados no zoológico. Um deles fugira. Malditos saltadores! Que
interesse poderiam ter naquele prisioneiro? Seria por causa do elixir
da vida? Só pensavam em negócios...
Não
houve a menor indicação sobre o lugar em que Marshall se encontrava
no momento. Os aras haviam perdido as pistas dos fugitivos. Parecia
que tinham desaparecido da superfície de Tolimon.
Gucky
aproveitou a pausa e “chamou”
Rhodan:
— Está
ouvindo, chefe? Estamos bem perto, não é? Não podemos chegar mais
perto. Já posso dar o fora?
— Nada
disso, meu caro! O que pensarão esses caras se você se dissolver no
ar sem mais aquela? Aguarde outra oportunidade.
— Está
bem; vou aguardar. Mas não aguardarei muito tempo. Prefiro procurar
Marshall e Laury numa série de saltos de teleportação que cubra
todo o planeta. Antes isso que ser considerado o maior idiota do
Universo. Fim. A coisa vai continuar...
Se
Gucky pensava que poderia descobrir outra coisa, estava enganado.
— Acho
que podemos dispensar o teste de inteligência — disse o barbudo,
dirigindo-se aos colegas. — Sugiro que seja incluído na classe C.
Só falta o exame médico, que fica marcado para amanhã. Ei, guarda!
Leve o prisioneiro à jaula.
Dirigindo-se
a Gucky, acrescentou:
— Aqui
você será tratado muito bem.
Com
estas palavras levantou-se, dando o sinal para a debandada geral. Não
deu mais um olhar sequer para o rato-castor e parecia tê-lo
esquecido por completo. Gucky viu os dois guardas aproximarem-se e
sentiu quando o seguraram pelos braços e o levaram. Não deu a menor
atenção a isso. Ainda notava o barbudo, que o tratara com tamanho
desprezo, vendo nele apenas um animal mais evoluído.
Pensou
fazendo uma reflexão: “Quem
sabe se amanhã a situação será tão favorável, se é que ainda
estarei aqui. Uma pequena lição não lhe faria mal. O importante é
que a suspeita não caia em mim.”
O
que poderia fazer? Não dispunha de muito tempo.
Gucky
não era nenhum hipno; não podia impor sua vontade a ninguém. Mas
dominava muito bem a telecinese, e com ela poderia fazer alguma
coisa.
Ao
lado do barbudo caminhava outro ara, que conversava animadamente com
os colegas. Subitamente enfiou a mão no bolso. Uma expressão de
espanto surgiu em seu rosto, tirou uma tesoura e cortou a longa barba
grisalha do chefe da comissão de investigações. O movimento foi
tão rápido que ninguém pôde impedi-lo, especialmente o homem que
o executara. Também o chefe geral ficou tão perplexo ao ver a
dignidade de seus anos cair ao chão que pisou nela antes de
compreender o que havia acontecido.
Estacou
repentinamente e viu o colega desavergonhado guardar a tesoura, após
o quê, começou a tremer por todo o corpo.
— Gragnor!
— berrou com uma voz terrificante o homem que já não era barbudo.
— O que é que o senhor está pensando? Será que ficou louco?
Irei...
— Misericórdia,
Kluhg! — choramingou o barbeiro improvisado, totalmente abatido, e
caiu de joelhos. — Não sei como pôde acontecer uma coisa destas.
O espírito mau deve ter segurado minha mão e...
— Quando
muito o espírito mau perturbou sua inteligência. Está dispensado.
Providenciarei para que seja devidamente punido — a mão tateou
sobre os restos da barba. — A divisão de laboratório ficará
satisfeita em receber um novo objeto de experiências...
Virou-se
de repente e saiu andando, deixando para trás Gragnor, totalmente
demolido, e os outros aras, que não cabiam em si de espanto.
Gucky
deixou que o levassem; não ofereceu a menor resistência. Ficou com
os lábios cerrados. O rosto parecia o de um pobre pecador que está
sendo levado ao cadafalso sem reconhecer a menor parcela de culpa.
A
cela era um cubículo com um banco de madeira, uma mesa frágil e uma
abertura gradeada, que devia ser o fim de um conduto de ventilação.
Quando os dois guardas trancaram a porta do lado de fora, a luz
apagou-se.
Gucky
suspirou e procurou localizar Rhodan; logo descobriu os impulsos
mentais do chefe. Poucos segundos depois, materializou-se no quarto
de hotel.
— Faça
o que quiser, mas não voltarei àquele buraco — disse a Rhodan,
que estava mudando de roupa. — Quero que esses idiotas quebrem a
cabeça para descobrir como fiz para fugir.
Rhodan
não se perturbou. Vestiu o pijama.
— Nem
quero que você volte. Descobrimos tudo que eles sabem. Uma coisa é
certa: nossos agentes não estão em suas mãos. Marshall e Laury
devem encontrar-se em algum lugar neste planeta ou então... estão
mortos. O fato de que não conseguimos captar nenhum pensamento deles
deixa-me bastante preocupado.
— Amanhã
iniciarei a busca — prometeu Gucky e bocejou ao ver o sofá do qual
os seqüestradores o haviam retirado. — Seria ridículo se não
conseguíssemos descobrir nenhuma pista.
*
* *
Depois
da noite tranqüila e do desjejum reforçado, Rhodan se fez anunciar
às autoridades e disse que pretendia realizar uma inspeção na
administração do zoológico.
Quando
o carro chegou para levar Rhodan ao centro da cidade, Gucky deu
início à busca.
Saiu
do hotel e ficou passeando pela rua, vestido apenas na sua pele
natural. Trulan era um ponto de encontro de todas as raças da
Galáxia, e por isso não era de admirar que ninguém lhe desse muita
atenção. Naquela confusão de criaturas estranhas, o rato-castor
não despertava maior atenção que a provocada por um bassê
peludo numa exposição de cães. Havia os berenícios,
que eram quadrúpedes com corpo de inseto provido de uma blindagem
formada por placas quadráticas, que demonstravam certa predileção
pelas cores vivas; os respiradores de cloro de Gradosima,
que se moviam em trajes espaciais fechados e tratavam os transeuntes
com uma arrogância assustadora. Gucky também se encontrou com os
gatos-panteras do sistema de Sagitário; fugiu apressadamente, pois
não sabia como os mesmos reagiriam diante de sua figura.
Os
aras e os saltadores não lhe davam a menor atenção. Para eles, a
visão de inteligências estranhas não tinha nada de extraordinário,
e poucos deles haviam posto os olhos no criado pessoal do inspetor.
Gucky
mantinha a mente em recepção, a fim de sondar os pensamentos de
todos os seres que encontrava pelo caminho. Encontrou muita coisa que
numa situação diferente o teria divertido bastante, mas hoje não
tinha tempo para isso. Uma única vez intrometeu-se nos assuntos
internos de Tolimon. Foi quando descobriu intenções assassinas num
ara muito robusto. O sujeito pretendia matar a esposa. Gucky obrigou
o homem, por via telecinética, a dar uma vigorosa bofetada no
oficial de patrulha mais próximo, o que levou este a prender o ara.
Por
enquanto o preso não poderia transformar suas intenções em
realidade, e quando fosse solto a raiva que sentia pela esposa
provavelmente já teria se desvanecido.
Satisfeito
com a boa ação que acabara de praticar, Gucky prosseguiu em sua
caminhada.
Chegou
às áreas mais pobres e começou a sentir os pezinhos. Não tinha a
menor predileção por passeios extensos. Gostaria de teleportar-se
para o telhado de uma das casas, a fim de recuperar-se da canseira.
Mas não havia a menor dúvida de que um rato-castor voador
provocaria certo escândalo. Por isso continuou a arrastar os pés,
até encontrar lugar num restaurante.
Se
Marshall dispusesse de um esconderijo na cidade, este deveria ficar
na área dos cortiços, onde seria mais fácil mergulhar na multidão.
E Marshall não poderia dispensar um esconderijo, pois não sabia
colocar-se em segurança por meio de um salto, conforme costumava
fazer Gucky.
Quase
todas as mesas estavam ocupadas, mas Gucky teve sorte. Encontrou
lugar junto à parede. Pediu um prato de legumes e um suco de frutas.
Só comia carne quando alguém o obrigasse a isso.
Alguns
dos freqüentadores lançaram olhares curiosos em sua direção. Já
haviam visto muitas criaturas estranhas, mas nunca se tinham deparado
com um rato-castor. Gucky respondeu com um sorriso gentil; leu apenas
uma curiosidade inocente nos pensamentos dos outros. Passou a
dedicar-se às verduras e frutas de Tolimon, que lhe causavam um
agrado extraordinário. Era outra coisa bem diferente que as eternas
cenouras, que já o deixavam enjoado face às constantes apostas em
que costumava ganhá-las.
O
sol brilhava e espalhava seus raios tépidos. Nenhuma nuvem cobria o
céu azul, que lembrava o do planeta Terra. Por um instante Gucky
esqueceu suas preocupações, até que um incidente despertou sua
atenção.
Na
mesa ao lado alguns aras juntaram-se e puseram-se a cochichar,
apontando nervosamente para a rua, onde dois transeuntes muito
estranhos deviam ter despertado sua atenção.
Gucky
procurou enxergar melhor.
Eram
duas criaturas de ao menos seis metros de altura, que se pareciam com
gigantescos vermes. O que mais chamava a atenção eram as numerosas
pernas, muito curtas, sobre as quais se locomoviam à maneira das
centopéias terranas. O terço anterior do corpo estava levantado.
Possuíam cabeça de inseto e, logo abaixo da mesma, dois vigorosos
braços preênseis.
Eram
froghs!
Os
aras os usavam como guardas do zoológico. Se um dos ocupantes
tentasse a fuga, os froghs entravam em ação. Usando todas as
pernas, chegavam a atingir a velocidade de duzentos quilômetros por
hora. Marshall transmitira informações a respeito desses guardas
depois que ele, Laury e o conde libertado haviam escapado à sua
perseguição.
O
que estariam fazendo os froghs na cidade, e logo neste bairro
mal-afamado?
Gucky
levantou-se um pouco para contemplar as estranhas inteligências mais
de perto. Sabia que eram capazes de falar. Logo, em sua mente havia
pensamentos lógicos.
Gucky
“ligou”
a telepatia.
Estavam
à procura de três humanos. Era um saltador, que lhes causara muitas
dificuldades, uma bela mulher que roubara um recipiente de vidro com
o elixir da vida e um prisioneiro fugido, que havia sido retirado do
zoológico pelas pessoas já referidas.
Eram
Marshall, Laury e o conde!
Gucky
acabara de descobrir a pista!
*
* *
Tratar
de qualquer assunto com as autoridades sempre é uma coisa muito
enfadonha; Rhodan descobriu isso durante a primeira hora. O
Ministério Zoológico, situado na periferia da cidade, era uma
verdadeira mina de atas e formulários. Os registros abrangiam cada
uma das regiões em que se dividia o parque natural situado na estepe
e cercado por montanhas. Havia dados sobre a origem, modo de vida,
hábitos e características médicas de cada ocupante do zoológico.
Também as experiências realizadas com todos eles haviam sido
registradas com a maior precisão.
Rhodan
realizou um exame por amostragem e, quanto ao mais, exibiu uma
arrogância tão irritante que a raiva dos tolimonenses por Árcon
crescia a cada minuto. Estava convencido que um eventual sucessor seu
não teria vida nada fácil no planeta. No entanto, os funcionários
mantiveram uma cortesia inalterada, embora por dentro desejassem que
o espia nojento fosse para as profundezas do inferno.
Pelo
meio-dia, fez uma pausa e pediu que o carro o levasse à cantina dos
funcionários do ministério. Reservaram-lhe uma mesa, na qual
poderia tomar sua refeição sem que ninguém o perturbasse. E, em
virtude do caráter interestelar de Trulan, serviram-lhe uma coisa
realmente comestível.
Estava
na hora de entrar em contato com Gucky. Procurou e logo sentiu os
sinais que lhe chegavam. Não era muito fácil concentrar-se em meio
aos numerosos freqüentadores da cantina, que o contemplavam com uma
expressão de respeito.
— Sim,
Gucky, tenho o contato. O que houve?
— Encontrei
a pista. Dois froghs estão à procura de Marshall. Acreditam que se
encontre na cidade. Conhecem o lugar em que costumava permanecer.
— Onde
está você?
— Na
área dos cortiços. Será que Marshall já morou aqui?
— Procure
descobrir. Talvez consiga alguma indicação.
— Combinado,
mestre. Como vai você?
— Obrigado.
Sinto-me satisfeito por não ser um funcionário público.
No
cérebro de Rhodan, surgiu a imagem do dente roedor de Gucky, o que
significava que o mesmo se divertia a valer. Depois disso o contato
telepático cessou.
*
* *
Os
dois froghs deslocavam-se velozmente pelas ruas sinuosas. Gucky teve
que esforçar-se ao máximo para segui-los no seu andar arrastado.
Praguejou violentamente porque não lhe era permitido teleportar-se.
Se o fizesse, não poderia deixar de chamar a atenção. Em todos os
lugares os transeuntes, atemorizados pela visão dos guardas do
zoológico, comprimiam-se contra as paredes dos prédios e suspiravam
aliviados depois que os froghs passavam. Ao que tudo indicava ninguém
tinha a consciência tranqüila, mas Gucky não conseguiu descobrir
por que todo mundo temia as centopéias. Talvez o simples aspecto dos
froghs incomodasse as pessoas.
Subitamente
os froghs pararam.
Gucky
não entendia sua língua, mas podia ler seus pensamentos, que não
dependiam da linguagem. Por isso conseguiu acompanhar a conversa que
se desenrolava do outro lado da rua.
— Se
nossas informações são corretas, deve ser por aqui.
— Vamos
dar uma olhada e perguntar aos moradores dos prédios. Talvez um
deles tenha visto os três.
— Está
bem. Começarei por esta coisa. Você pode pegar o outro lado.
Separaram-se.
Gucky
parou. Seus pêlos arrepiaram-se quando um dos froghs atravessou a
rua estreita, lançou-lhe um ligeiro olhar desconfiado e desapareceu
num dos prédios, para iniciar a busca.
Deviam
ter encontrado uma pista de Marshall, embora Gucky tivesse certeza de
que o Chefe dos mutantes não se encontrava nas proximidades, pois do
contrário teria captado seus impulsos mentais. Provavelmente a pista
que os froghs estavam seguindo era falsa.
Mas,
por que não realizar as investigações por sua própria conta?
Não
hesitou. Desmaterializou-se, pois esperava que os poucos transeuntes
estivessem ocupados em observar os froghs e por isso não lhe dariam
a menor atenção. Concentrou-se num trajeto reduzido e viu-se num
quarto escassamente mobiliado, bem às costas de uma mulher
pobremente vestida, que mexia numa panela.
Deu
outro salto, subindo mais um andar.
Nada.
Depois
de ter dado vinte saltos, acabou num depósito desabitado. Aproveitou
a oportunidade para descansar um pouco. Evidentemente aquela busca ao
acaso não passava de absurdo rematado. Mas Marshall e a moça ainda
há pouco deviam ter morado numa casa situada naquela rua, a não ser
que os froghs fossem uns idiotas.
Gucky
suspirou e deu outro salto.
Uma
hora depois, materializou-se numa mansarda situada no décimo quinto
andar. Estava vazia e, ao que tudo indicava, ninguém morava ali,
pois o armário estava aberto e nele não havia qualquer peça de
roupa. A cama desarrumada não tinha lençóis. Do outro lado ainda
havia dois sofás. Parecia que tinham sido colocados no quarto depois
dos outros móveis. Gucky sentiu um cheiro familiar.
Gucky
lançou os olhos em torno e já ia retirar-se, quando subitamente
estacou.
Sobre
uma penteadeira rústica havia um copo quebrado. Ao lado deste, havia
um vidrinho.
Os
olhos de Gucky estreitaram-se quando caminhou em direção à
penteadeira, segurou o vidrinho entre as patas e o cheirou.
Faltava-lhe a tampa, mas ainda se via um pouquinho de líquido
amarelo no fundo.
Gucky
farejou, silvou satisfeito, hesitou um instante, e derramou os pingos
que ainda havia no vidro sobre o peito peludo. Voltou a colocar o
vidro sobre a penteadeira, refletiu mais um pouco e foi à janela.
Sorriu e atirou-o para fora.
O
vidro não caiu verticalmente para a rua. Foi atingido pelos fluxos
de energia telecinética que o arrastaram em direção ao céu azul.
Subiu tão alto que Gucky não o via mais. Só depois disso recuou da
janela.
Sabia
que o vidrinho não resistiria à queda. Ninguém conseguiria
identificar os fragmentos, ainda mais que o vidro não continha
nenhuma indicação de procedência.
— Essas
mulheres levianas! — chilreou em tom contrariado. Refestelou-se com
o perfume do pêlo de seu peito e revirou os olhos de prazer. — Não
há a menor dúvida: é o perfume predileto de Laury. Foi muita
gentileza sua deixar essa lembrança para mim. Quer dizer que moraram
aqui.
Começou
a revistar o quarto.
Só
se sobressaltou quando os impulsos mentais se tornaram mais nítidos.
Alguém subia pela escada. E agora rastejava pelo corredor e parava
diante da porta.
Seria
Marshall?
Não,
não era Marshall. Era um frogh. Gucky ainda reconheceu a identidade
do ser, que se encontrava lá fora, em tempo de dar um salto e
colocar-se em segurança. A porta aberta do armário escondia-o dos
olhares do monstro, que foi entrando bem devagar enquanto lançava os
olhos traiçoeiros em torno.
Gucky
olhou cautelosamente por trás da porta e estremeceu. Não era
possível. Como é que a natureza tão bondosa podia criar um monstro
daqueles? Em comparação com ele, os horríveis porcos rastejantes
de Vênus eram criaturas verdadeiramente adoráveis. O Universo
estava cheio de seres dos mais estranhos. Todavia, o frogh, além do
mais, para usarmos uma expressão suave, possuía uma expressão
pouco amistosa. E isso o tornava muito antipático.
Acontece
que Gucky não gostava nem um pouco das criaturas antipáticas de sua
época. E, para dar uma demonstração evidente dessa aversão,
muitas vezes esquecia a cautela que devia guardar.
Esperou
que o frogh fechasse a porta. Depois, saiu de trás do armário e
perguntou em tom gentil:
— Está
procurando alguma coisa?
O
frogh virou-se abruptamente. Por pouco o movimento não o faz perder
o equilíbrio. Arregalou os olhos e abriu as garras, fitando a
aparição inesperada como se fosse um fantasma. Ao que tudo
indicava, não sabia o que fazer com o rato-castor, embora no
zoológico já tivesse tido oportunidade de sobra para conhecer
semi-inteligências dos tipos mais variados.
— O
que... quem...? — balbuciou numa língua que Gucky só compreendeu
em virtude de sua capacidade telepática.
— Quero
saber o que está fazendo aqui. — repetiu Gucky, utilizando-se da
língua arcônida, que todos compreendiam. — Isto aqui é minha
residência.
Ao
que parecia, o frogh estava recuperando o autocontrole.
— Venho
por ordem do governo — anunciou. — Recentemente um saltador
ocupou este quarto?
— Quem
foi que lhe meteu isso na cabeça? E quem é o senhor?
O
verme-inseto fez uma cara tão espantada que Gucky soltou uma gostosa
gargalhada. Isso parecia provocar ainda mais a fúria daquela
criatura sem senso de humor. Soltou um chiado e avançou para o
rato-castor, estendendo os braços preênseis como se quisesse
estrangulá-lo.
— Eu
sou um frogh, seu bicho nojento. Se não estou muito enganado, seu
lugar é no zoológico. Não permitirei que fique em liberdade. Vou
levá-lo.
— Mantenha
distância! — advertiu Gucky e recuou um passo, para não entrar em
contato com aquela massa horrível. — Quanto ao zoológico, você
vai sofrer uma decepção. É verdade que não temos muita
intimidade, mas podemos continuar a tratar-nos por você. Mais uma
coisa. Faça o favor de responder às minhas perguntas, sua chaminé
ambulante.
Ao
que parecia, o frogh estava acostumado a ser tratado com mais
respeito e temor. Dificilmente compreenderia que alguém pudesse
adotar um comportamento desses em sua presença. Respirava com
dificuldade.
— Você
vai se arrepender, seu bicho nojento! — ao que parecia era este seu
insulto predileto. — Ainda hoje será apresentado à administração
do zoológico. Sabe o que acontecerá depois disso?
— Isso
não me interessa nem um pouco — respondeu Gucky sem abalar-se. —
Se você não responder imediatamente às minhas perguntas, eu o
atiro contra a parede e depois o farei voar pela janela.
O
frogh começou a tremer por todo o corpo, e havia muita massa para
tremer. O verme enchia quase todo o quarto. Com um grande interesse,
Gucky percebeu que o corpo em forma de cobra começou a adquirir uma
tonalidade rosada. Aquela devia ser a cor da pele de um jovem tenente
no momento em que o recruta lhe recomenda que ele mesmo engraxe suas
botas.
— Seu
miserável! — chiou o furioso guardador do zoológico. — Você se
atreve...
— Você
está atrás de um saltador — prosseguiu Gucky sem demonstrar o
menor respeito. — Por que justamente aqui? Responda, senão você
vai ver o que é bom.
O
rato-castor estava percebendo a impaciência do verme gigante. Além
disso, sentiu que a essa altura não poderia recuar. O frogh teria
que ser eliminado de qualquer maneira. Antes devia fazê-lo contar o
que sabia.
— O
saltador? — perguntou o frogh. — O que sabe a respeito do
saltador que estou procurando?
— Quem
faz perguntas sou eu! Entendido? Quem lhe deu esta pista?
O
frogh não estava disposto a revelar seu segredo, mas felizmente
pensou no caso. Para Gucky, isso foi suficiente.
— Ah,
então é isso! — disse em tom tranqüilo. — Foi outro saltador
que lhes contou. Vocês o torturaram? Morreu? Vocês são assassinos!
Acontece que ele lhes contou uma mentira, pois neste quarto não há
ninguém a não ser eu.
O
frogh lançou um olhar de pavor sobre o rato-castor, que estava
extraindo os pensamentos de sua mente. Seus impulsos mentais
tornaram-se cada vez mais confusos, até convergirem na intenção de
apoderar-se do inimigo medonho que tinha diante de si.
O
frogh deu um passo rápido para a frente e estendeu o braço em
direção a Gucky. Não soube exatamente o que lhe aconteceu, mas
sentiu-se atingido por uma força invisível que o atirou contra a
penteadeira. Caiu ao chão, mas logo voltou a levantar-se.
Mais
uma vez precipitou-se sobre Gucky, mas ao que tudo indicava o
rato-castor já estava cansado da discussão. Engajou toda a energia
telecinética de que dispunha, levantou o frogh deixando-o suspenso
no centro do quarto.
A
centopéia apavorada começou a emitir silvos agudos, enquanto seu
corpo adquiriu uma cor violeta. As inúmeras pernas balançavam
desesperadamente no ar, à procura de apoio.
Mas
o susto ainda aumentou quando se viu planar em direção à janela,
que se abriu como que pela mão de um fantasma. Lá embaixo ficavam
as pedras duras do calçamento.
Gucky
não perdeu mais tempo. Sabia tudo que o frogh sabia, e o guardador
implacável do zoológico fazia por merecer a morte. Marshall estava
com os agentes dos saltadores, que haviam instalado uma central
secreta em Tolimon. Ali encontrava-se relativamente seguro.
O
frogh passou pela janela, por mais que se esforçasse para segurar-se
no peitoril.
E
foi assim que os habitantes do bairro pobre de Trulan tiveram
oportunidade de presenciar um espetáculo inacreditável. Viram um
frogh voador. Aquela criatura detestada saiu planando elegantemente
da janela da mansarda, descreveu uma ou duas piruetas perfeitas,
subiu verticalmente até chegar aos trezentos metros de altura. Por
fim, caiu na vertical.
A
queda provocou a sensação que era de esperar, embora o mistério da
centopéia voadora nunca tivesse sido solucionado.
Enquanto
ocorria o acidente, Gucky saltava para o quarto do hotel, onde
esperou por Rhodan, que já fora informado telepaticamente sobre os
acontecimentos.
O
círculo em torno de Marshall e seus companheiros fechava-se cada vez
mais.
Era
só uma questão de tempo, e seriam encontrados.
Gucky
esticou-se sobre a cama e fechou os olhos.
Subitamente
foi atingido por um impulso mental, claro e intenso, que lhe
martelava a consciência, despertando-o num instante.
Era
um impulso que estava chegando com uma força extraordinária:
— Pelas
nebulosas da Galáxia! Se Rhodan não aparecer logo, essa gente ainda
acaba tirando minha última camisa...!
Gucky
assobiou uma melodia desafinada e entrou em contato com Marshall.
3
A
sala estava mergulhada na penumbra. A única luz provinha de uma
lâmpada muito fraca e de alguns raios de sol que penetravam
obliquamente pela pequena janela gradeada.
Cinco
pessoas estavam reunidas em torno da tosca mesa de madeira. Ao que
tudo indicava, formavam dois grupos distintos, pois os dois homens
robustos e barbudos estavam sentados lado a lado e contemplavam os
três restantes com uma expressão pouco amistosa.
John
Marshall leu os pensamentos dos saltadores barbudos e sabia que dali
em diante a sociedade não seria mais tão fácil e barata. A alma
dos mercadores galácticos despertara nos aliados, e para ela até
mesmo a amizade não passava de um negócio.
Ao
lado de John, via-se Laury Marten, uma moça de vinte e três anos
que era filha dos mutantes Arme Sloane e Ralf Marten. Herdara dos
pais o dom da telepatia, mas, além disso, era uma desintegradora.
Graças às suas energias mentais podia modificar a estrutura
molecular da matéria sólida, o que lhe permitia atravessar muralhas
e paredes. A descendência japonesa do pai deixara vestígios em seu
rosto. E foram justamente os olhos em forma de amêndoa que tanto
cativaram o conde Rodrigo de Berceo.
Rodrigo
era filho de uma princesa asteca e de um membro da nobreza espanhola.
Fazia quase trezentos anos que vivia no zoológico de Tolimon. No
século XVII
fora
seqüestrado com mais três homens terrenos por uma nave espacial. O
misterioso elixir da vida conferira-lhe a imortalidade. Sua figura
imponente não poderia deixar de impressionar Laury. Até um cego não
deixaria de ver que os dois estavam apaixonados. E foi graças a isso
que Rodrigo conseguiu fugir do zoológico.
Não
havia dúvida de que sua vestimenta era um tanto estranha. A
costureira do zoológico a fizera como uma réplica exata das
roupagens do século XVII.
As
botas de cano revirado que iam até os quadris escondiam as calças
justas, enquanto um cinto largo cingia o colete curto e sem mangas. A
gola larga da camisa cobria a parte superior da jaqueta com suas
rendas. Carregava constantemente a bainha com a espada bem afiada. O
chapéu de aba larga com o penacho balouçante descansava no colo.
Sobre o colete brilhava uma corrente de ouro com o amuleto do deus do
sol dos astecas.
Ninguém
convencia Rodrigo de desistir de suas vestimentas estranhas e da arma
branca. Isso já havia dado origem a complicações, pois o conde era
um homem corajoso e esquentado, que sabia prezar a honra e a altivez.
Estava
acariciando a mão de Laury.
— Tenha
calma, meu amor, mostraremos uma coisa a eles. Conseguimos livrar-nos
dos froghs e também saberemos enfrentar essas almas de mercadores.
Marshall
lançou-lhe um olhar de advertência. Sentia-se arrasado. A espera
por qualquer notícia de Rhodan era interminável, e a idéia dos
perigos que constantemente o espreitavam desgastava suas energias. A
partir do momento em que haviam abandonado seu alojamento no bairro
pobre da cidade nunca mais se sentira seguro. O pior era que,
conforme revelava a palestra que estavam mantendo, já não podiam
confiar nos saltadores.
Fez
um gesto para o mais idoso dos saltadores.
— Está
bem, Berzan, podemos conversar sobre a oferta que você acaba de
formular. Vocês estão metidos na mesma enrascada que nós, e por
isso temos uma base para negociar. Se nos entregarem às autoridades,
vocês trairão a si mesmos. Isso não resolveria nada, nem para
vocês, nem para nós. Os aras são inimigos nossos e de vocês.
Vocês querem dinheiro para continuar a ajudar-nos. Acontece que não
temos dinheiro. Mas dentro de poucos dias, poderemos dar-lhes mais do
que vocês conseguiriam gastar, mesmo que vivessem mais cem anos.
Berzan,
um velho de barba grisalha, piscou os olhos astuciosos.
— Onde
é que vocês vão arranjar esse dinheiro? — indagou. — Quem me
garante que não estão mentindo? Tulin e Egmon já nos preveniram.
Dizem que vocês sabem ler pensamentos.
— Quer
afirmar que eu sou um telepata? Isso é ridículo! Se fosse, já
saberia há tempo da traição que estão planejando. Nesse caso
teria vindo até aqui para pedir auxílio? Não, Berzan, a informação
de seus amigos é um absurdo.
— Foi
o que eu lhes disse, meu caro. Mas, seja como for, pedimos um
pagamento mais condigno, pois correremos um grande perigo se lhes
dermos proteção. Metade do planeta está atrás de vocês. A
polícia segue todas as pistas. É bem possível que uma delas os
traga até aqui, e se isso acontecer o trabalho de algumas décadas
terá sido em vão.
— Se
aparecerem, vocês poderão contar com nosso auxílio — disse
Marshall, mas sabia perfeitamente que as preocupações do saltador
eram totalmente justificadas. — Dentro de mais alguns dias ficarão
livres de nós.
O
mais jovem dos dois saltadores inclinou-se para a frente e fitou
Marshall.
— Para
onde pretendem ir? E quem lhes arranjará o dinheiro de uma hora para
outra?
Marshall
leu os pensamentos de Rodrigo: a impaciência crescia a cada segundo
que passava. Não demoraria muito, e o conde impetuoso saltaria sobre
os dois chantagistas de espada em punho. E isso não poderia acabar
bem para ele, pois os saltadores estavam armados com radiadores de
impulsos.
— Faran,
vocês terão de satisfazer-se com o fato de que ficaremos aqui até
a chegada de nosso elemento de ligação, que trará o dinheiro.
Tenham mais um pouco de paciência — virando-se para o conde,
disse: — Você também, Rodrigo.
Os
dois homens já eram bons amigos, e costumavam deixar de lado todo e
qualquer formalismo. E o conde conhecia os dons telepáticos de
Marshall e Laury. Por isso tirou a mão da espada, acenou lentamente
com a cabeça e, usando o espanhol, por cautela disse:
— Bem
que gostaria de espetá-los, mas se você preferir, não ponho a mão
neles.
— O
que é que ele está dizendo? — perguntou Berzan em tom
desconfiado.
— Ele
acredita que nosso elemento de ligação deve aparecer ainda hoje.
— Tomara
— resmungou Berzan e levantou os olhos para a janela. — Vamos
sair, mas não pense em tolices. A casa está muito bem vigiada.
Qualquer tentativa de fuga seria inútil, pois alarmaríamos
imediatamente a polícia de Trulan. Dispomos de outros esconderijos
além deste, e por isso não encontrariam nossa pista. Mas não
deixariam de pegar vocês.
Levantou-se
juntamente com Faran e saiu da sala. A porta fechou-se com um baque.
Uma chave pesada girou na fechadura.
Estavam
sós.
— Pelos
deuses do sol de minha mãe! — disse Rodrigo, tremendo por todo o
corpo. — Por que não damos uma lição a esses gananciosos ladrões
estelares?
— Porque
temos de ser mais inteligentes que eles — preveniu Marshall, dando
alguns passos pela sala. — Quem dera que soubesse em que área de
Trulan nos encontramos. Trouxeram-nos para cá no meio da noite.
— Pelo
que sei, estamos num subúrbio — interveio Laury, que até então
se mantivera calada. Segurou a mão fina do conde e lançou-lhe um
olhar de ternura. — Para nós não importa o lugar em que
estejamos. Até aqui podemos ser felizes, não é mesmo?
Marshall
parou abruptamente.
— Laury!
— disse em tom áspero. — Não tenho nada contra sua felicidade,
mas antes de mais nada temos de entregar o soro a Rhodan. A paixão
de vocês roubou-nos todas as chances de conseguir a fórmula do
elixir.
— Em
compensação temos uma amostra do soro maravilhoso — respondeu a
moça, enrubescendo e batendo levemente no cinto do uniforme. — É
verdade que é apenas um pequeno frasco, mas não deixa de ser uma
amostra. É bem possível que nossos cientistas consigam analisá-la.
— Se
conseguirmos chegar a eles com a amostra — objetou Marshall. De
repente mudou de assunto. — Por que não recebemos nenhuma notícia
de Rhodan? Não compreendo.
— Até
agora quase não tivemos oportunidade de emitir impulsos mentais mais
intensos, John. Quase nunca ficamos a sós e constantemente tivemos
de fugir. Nossos impulsos mergulham no oceano de outros, emitidos
pelos habitantes de Trulan. Além disso, a capacidade telepática de
Rhodan é pouco intensa. Se pensarmos com maior concentração,
talvez consigamos estabelecer contato. Rhodan já deve estar em
Tolimon. Afinal, oito dias se passaram desde nosso último pedido de
socorro — concluiu Laury.
— Isso
mesmo. A seguir, o transmissor entrou em pane — disse Marshall em
tom amargo. — Vamos aproveitar o tempo para chamar Rhodan. Talvez
tenhamos sorte. Quando os saltadores voltarem, será tarde. Nem de
noite nos deixam em paz.
— É
verdade! — suspirou Rodrigo em tom amargurado e estreitou Laury ao
seu corpo.
Seus
lábios encontraram-se num beijo fugaz. Marshall praguejou e
voltou-se discretamente, dizendo:
— Rodrigo,
quem sabe se você não quer ter a gentileza de deixar Laury em paz
por um instante? Ela deve concentrar-se, a não ser que queiramos
passar o resto dos nossos dias neste buraco. Mesmo que Rhodan fique
dia e noite na “escuta”,
para receber nossos impulsos, ele nunca conseguirá captá-los se
estes não o atingirem em feixes compactos. Terá de identificar
nossos impulsos em meio a milhares, e isso nunca será possível se
não nos concentrarmos nele. Nem mesmo Gucky conseguiria, se
estivesse aqui. Infelizmente não está.
Laury
desprendeu-se suavemente dos braços do homem amado.
— Ele
tem razão, Rod. Nosso amor pode ficar para depois. O que importa no
momento é nossa segurança e a entrega do soro. Se não o
conseguirmos, tudo que fizemos terá sido em vão.
Marshall
virou-se.
— A
senhora é uma mocinha muito sensata. Isso me dá novas esperanças.
Rodrigo
levantou-se e franziu a testa.
— Se
você não fosse meu amigo, John, eu deveria ficar zangado com você.
Mas reconheço que devemos dar atenção antes de mais nada à nossa
tarefa. O que vou fazer enquanto vocês estiverem telepatizando?
Marshall
suspirou aliviado e sorriu.
— Nada,
Rod. Sente naquela cama e fique refletindo. Se preferir pode dormir.
Laury e eu pensaremos na nossa situação, com o máximo de
concentração e em todas as direções. Quem dera que soubéssemos
em que área de Trulan nos encontramos! Isso facilitaria nosso
trabalho.
O
conde sentou cerimoniosamente. A espada impedia-lhe os movimentos,
mas não sabia separar-se da arma.
— Vou
dormir, pois estou cansado. Acordem-me assim que haja alguma
novidade.
Estendeu-se
sobre a cama. Logo se ouviram seus roncos regulares.
Marshall
e Laury concentraram-se na tarefa.
*
* *
Rhodan
dispensou o carro e foi imediatamente ao hotel.
Ainda
encontrou Gucky.
— Já
estava na hora de você chegar — disse este. — Marshall está
aguardando auxílio de nossa parte. Já conheço a direção; é
claro que não tenho meios de avaliar a distância. Terei de saltar.
— Isso
seria muito perigoso — respondeu Rhodan. — Também consegui
estabelecer contato e prometi que apareceríamos dentro em breve.
Tive muito trabalho para recusar o convite do presidente para uma
visita ao zoológico. Pretendia ir até lá hoje de noite, para que
dispuséssemos de todo o dia de amanhã para a inspeção. Quase
chego a ter a impressão de que querem fazer amizade com o pretenso
inspetor. Ao que tudo indica, não estão com a consciência muito
tranqüila.
— Como
poderíamos encontrar Marshall se eu não saltar? — perguntou Gucky
sem responder às palavras de Rhodan. — Terei que teleportar-me. No
momento em que os impulsos chegarem, só precisaremos examinar a
última parte do trajeto.
— E
eu? Vou ficar no hotel?
— É
claro que sim.
O
rosto de Rhodan assumiu uma expressão séria no momento em que
disse:
— Meu
caro, receio que você não esteja avaliando corretamente a situação.
É verdade que cheguei aqui com um disfarce excelente, e até agora
ninguém desconfia de nada. Mas tive oportunidade de ouvir a conversa
de dois oficiais. O governo de Tolimon dirigiu uma consulta oficial
para Árcon, a fim de descobrir se o inspetor Tristol realmente
existe. Acho que não preciso explicar o que isso significa.
Também
Gucky tornou-se muito sério.
— A
resposta já chegou?
— É
claro que não. O registrador de Árcon não funciona com tanta
rapidez, mas tenho certeza de que o regente robotizado já deve ter
percebido alguma coisa. Não podemos demorar muito em dar o fora. Por
isso prefiro acompanhá-lo.
— Vamos
tentar os saltos de teleportação em conjunto?
— É
claro que não. Tomarei um táxi, de preferência um dos veículos
aéreos mais rápidos, e seguirei suas etapas de deslocamento.
Permaneceremos em contato; quanto a Marshall, basta que ele continue
a pensar normalmente. Agora não o perderemos mais. Talvez acreditem
que vou realizar uma inspeção durante a qual prefiro permanecer
incógnito. Ninguém se atreverá a impedir-me.
Gucky
suspirou e escorregou para fora da cama.
— Marshall,
está ouvindo? —
pensou. — Avançaremos
na sua direção. Continue a pensar. Para mim é indiferente que
pense em salsichas bem quentinhas ou em cenouras. Se preferirem podem
contar piadas. O que importa é que continuem acordados. Entendido?
— Entendido!
—
foi a resposta que veio duplicada. Laury também estava pensando. —
Apressem-se.
Estão trazendo dinheiro para dar aos saltadores?
O
pêlo da nuca de Gucky arrepiou-se.
— Dinheiro
para esses gatunos?
Rhodan
resolveu intervir.
— Distraia
os saltadores até que nós nos encontremos com vocês. Saberei lidar
com essa gente.
Gucky
deu de ombros e colocou seu uniforme na mala de Rhodan.
— Você
e sua política de pacificação. Ela ainda lhe trará muitos
problemas.
— Não
trará mais problemas que sua predileção pelas demonstrações de
capacidade que você gosta de realizar no lugar errado. Sugiro que
você nem apareça enquanto estivermos negociando com os agentes dos
saltadores. Afinal, um certo rato-castor já penetrou na consciência
dos saltadores de forma pouco agradável. Não estou interessado em
reavivar a lembrança dessa aparição.
— Isso
não passa de uma vingança mesquinha — indignou-se Gucky. —
Depois de fazer o papel de idiota por tanto tempo ainda tenho que
manter-me de lado quando nossos amigos vão ser libertados. O que é
que miss Laury vai pensar de mim? E mesmo esse conde esquisito que
foi libertado do zoológico? Nada disso; irei com você.
Rhodan
ergueu as sobrancelhas, num gesto de espanto.
— Você
é um sujeito muito decidido, pequeninho. Você quer colocar todo o
grupo em perigo?
— Isso
não! Mas se minha aparição não despertou nenhuma lembrança entre
os aras, isso provavelmente também não deverá acontecer com os
saltadores, que por certo nunca ouviram falar do planeta Terra ou de
Gucky. Acho que sua precaução é exagerada.
Rhodan
era homem de não recuar em suas decisões, mas sabia ceder vez ou
outra diante de um argumento mais forte. Para que deixar Gucky ainda
mais aborrecido? Provavelmente o rato-castor estava com a razão:
ninguém se lembraria de sua figura. Já fazia muito tempo.
Concordou
com um aceno de cabeça.
— Está
bem, Gucky. Você ganhou. Trabalharemos em conjunto.
O
rato-castor não demonstrou sua satisfação; era muito inteligente
para isso. Limitou-se a esboçar um sorriso alegre e ajudou seu chefe
a fazer a mala, exibindo logo o rosto do servo fiel.
— Oh,
meu chefe e senhor — chiou em tom teatral, inclinando-se até quase
tocar o chão com a cabeça. — Quer que carregue as malas para
fora, ou prefere que as teleporte até nossa boa nave Koos-Nor?
— Pode
teleportar, verme miserável — respondeu Rhodan no mesmo tom
teatral e esperou que Gucky desaparecesse juntamente com a mala.
Aproveitou o tempo para examinar os instrumentos de controle remoto,
que trazia no bolso. Ainda não desconfiava da importância que os
mesmos viriam a desempenhar ainda antes do pôr do sol.
Gucky
voltou e informou:
— Tudo
em ordem a bordo. A nave permanece no espaçoporto, sem que ninguém
a tocasse ou a molestasse. Apenas notei alguns cruzadores ligeiros,
que se postaram discretamente nas proximidades.
— É
estranho — murmurou Perry Rhodan. — Realmente, é muito estranho.
Não é possível que já tenham recebido notícias de Árcon. Se
tiverem, ainda deverão estar na suposição de que existe um
inspetor chamado Tristol. Não demonstrarão abertamente sua
desconfiança.
— E
se demonstrarem? — resmungou Gucky cheio de impaciência. — O que
estamos esperando? Quero conhecer o tal do conde Rodi... ri... rigo.
— Rodrigo
— corrigiu Rhodan. — É um membro da velha nobreza espanhola do
século dezessete. Na sua época, era um homem bastante conhecido.
Mas é bom que tenha cuidado. O sujeito é muito esquentado e talvez
chegue mesmo a ser um pouco supersticioso. Não brinque com ele. Em
sua era, um nobre vingava qualquer ofensa com um duelo mortal. E
tenho lá minhas dúvidas quanto suas habilidades no manejo da
espada.
— Por
que está falando em ofensa? — perguntou Gucky perplexo. — Nem
pensei em ofendê-lo, apenas pretendo mexer um pouco com ele...
— Pois
terá uma surpresa — profetizou Rhodan e caminhou em direção à
porta. — Vamos embora; não temos tempo a perder. Dentro de três
ou quatro horas estará escuro, e até lá precisamos encontrá-lo.
— Pode
ficar tranqüilo! — disse Gucky com um sorriso e caminhou atrás do
seu senhor.
Uma
vez no corredor, voltou a transformar-se no criado submisso. Com uma
cara ingênua e estúpida, esforçou-se para acompanhar Rhodan, o que
só conseguiu em parte. Gucky só recuperou a desvantagem porque
Rhodan pediu um táxi aéreo, o que o fez esperar na rua.
— Você
bem que poderia andar um pouco mais devagar — fungou o rato-castor,
quando se viu diante do hotel, ao lado de Rhodan. Um veículo de
cabine desceu silenciosamente sobre o gramado muito bem tratado. —
Da próxima vez, vou me teleportar e farei com que você corra atrás
de mim.
— Não
se atreva a fazer uma coisa dessas — preveniu-o Rhodan e entrou na
cabine. Gucky seguiu-o. O piloto assustou-se quando viu o uniforme do
inspetor e por pouco não afunda embaixo do painel de controle de seu
veículo aéreo.
— E
agora faça o favor de calar a boca e comportar-se como um criado
submisso, pois do contrário esta será a última vez em que
trabalhamos juntos.
A
ameaça telepática deixou Gucky tão assustado que o rato-castor se
recolheu silenciosamente no assento traseiro e bloqueou seus
pensamentos. Rhodan desconfiava de que os mesmos não seriam muito
lisonjeiros para sua pessoa, mas no momento isso não importava nem
um pouco. Era necessário dar uma ducha fria na petulância de Gucky.
— Voe
devagar e exatamente na direção norte — ordenou ao piloto junto
ao qual se sentara. — Só modifique a rota quando eu mandar. Não
voe muito alto. Quero examinar a cidade com toda a calma.
— Farei
o que ordenar, venerando inspetor.
Rhodan
não respondeu. Olhou para a frente, enquanto a nave subia a
cinqüenta metros de altura. Nessa altitude, não havia nenhuma torre
ou arranha-céu, motivo por que não existia o risco de colisão.
Os
impulsos mentais de Laury já haviam silenciado. Só Marshall
continuava a “transmitir”.
Pensava em tudo quanto fosse possível para manter-se acordado,
embora fosse dia claro. Rhodan concluiu que os fugitivos deveriam
estar por demais cansados.
— Não
é necessário saltar — disse a Gucky, usando a língua inglesa
para que o piloto não o entendesse. — Continuaremos a voar nesta
direção até que os impulsos venham de baixo. Nesse instante,
estaremos sobre o lugar em que Marshall se encontra.
E
foi o que fizeram.
*
* *
O
conde Rodrigo acordou quando Marshall o sacudiu. Laury estava sentada
esfregando os olhos.
— Estão
exatamente em cima de nós. São Gucky e Rhodan — Marshall apontou
para o teto. — Encontramo-nos numa casa solitária situada na
periferia da cidade. Está cercada por um grande parque. Deve ser um
dos quartéis-generais dos saltadores.
— Gucky
também veio? — Laury acordou imediatamente. — Que sorte! Gucky é
o maior herói que já vi.
A
estima de que o rato-castor gozava junto às criaturas do sexo
feminino era bem conhecida, mas Rodrigo ainda não sabia quem era
Gucky. Levantou-se devagar, lançando um olhar de espanto para Laury.
— Que
herói é este? — perguntou, esticando as palavras. Sua mão
aproximou-se instintivamente da espada. — Se alguém tem o direito
de protegê-la, sou eu. Será que tenho um rival no seu coração?
Marshall
exibiu um ligeiro sorriso e lançou um olhar de advertência para
Laury.
— Tenha
cuidado com Gucky — disse apressadamente. — Laury tem razão:
realmente é um herói. Não conheço nenhuma mulher que não goste
dele. Não sei por que Laury devia ser uma exceção. Você terá de
conformar-se com este fato, Rod.
— Jamais
— disse Rodrigo, levantando-se e caminhando furiosamente de um lado
para outro. — Jamais tolerarei a existência de um rival. Terá que
bater-se comigo em duelo.
— Você
levará a pior — preveniu Marshall com a cara mais séria do mundo.
Sabia que Gucky estava acompanhando a palestra e esperava que o
encontro do rato-castor com Rod lhe proporcionasse uma pequena
distração. — Gucky é um dos melhores mutantes que temos.
— Mais
um desses sujeitos dotados de capacidades supersensoriais? —
perguntou o conde em tom de decepção. — Ao que parece, muita
coisa mudou na Terra. O mundo está sendo governado por feiticeiros.
— Aguardemos
— disse Marshall e voltou a concentrar-se.
Também
Laury parecia ter esquecido o conde. Entrara em contato com Rhodan.
— Pousaremos
com o planador bem perto da casa — anunciou
Rhodan. — Não
precisamos do piloto. O que devo fazer com ele?
— Traga-o
com você —
respondeu Marshall. — Fugiremos
com o táxi aéreo e trancaremos o ara nesta casa. É muito simples.
— E
os saltadores que estão vigiando vocês? Bem, aparecerei na minha
qualidade oficial de inspetor. Isso os intimidará.
— Talvez
já tenham ido embora.
— Talvez.
Mais
quinze minutos passaram-se. Mantiveram a ligação telepática, mas
não estabeleceram mais nenhum contato direto. O conde Rodrigo
mantinha um silêncio obstinado e, vez por outra, lançava um olhar
sombrio para Marshall.
Assustaram-se
quando de repente a porta abriu-se violentamente e Berzan penetrou no
recinto em que estavam presos.
— É
o inspetor de Árcon! — fungou. — Pousou no parque e está
caminhando em direção a casa. Vocês têm uma idéia do que deseja
de nós?
Marshall
manteve a calma; acenou lentamente com a cabeça.
— Talvez,
Berzan, talvez. Nesta hora não seria conveniente se chegássemos a
um acordo?
— Pois
foi o que fizemos o tempo todo — retrucou o saltador, que fez uma
cara um tanto assustada. — É claro que não dissemos ao arcônida
que vocês estavam aqui. Como é que ele ficou sabendo da presença
de vocês?
— Isso
mesmo — disse Marshall com a maior tranqüilidade. — Como poderia
saber?
Rodrigo
parecia convencido de que, naquele instante, somente uma demonstração
de bravura poderia convencer a querida Laury de que ele era o único
cavaleiro digno de seu coração. Num movimento fulminante tirou a
espada da bainha, adiantou-se alguns passos e colocou a ponta afiada
sobre o peito de Berzan, que ficou perplexo.
— Patife
miserável! — exclamou em tom dramático e decidido. — Você muda
de opinião tão depressa, como o vento que infla as velas muda de
direção. Pois é bom que saiba que podemos fazer a mesma coisa.
Daqui por diante, dispensamos a proteção de seu clã; logo, não
receberão qualquer paga. E, quanto ao inspetor, traga-o à nossa
presença. Rápido, senão lhe farei cócegas com minha espada.
— Espere
aí! — interveio Marshall. — É preferível que Berzan nos leve
para cima. Iremos juntos para cumprimentar o ilustre visitante.
O
saltador preferira não sacar a arma. Não tinha a intenção de
fechar aquela fonte de dinheiro, que parecia tão promissora. Naquele
momento a visita do arcônida representava um perigo para todos.
Depois que esse perigo tivesse passado, veriam adiante...
Sem
preocupar-se com Rodrigo, virou-se, abriu a porta e caminhou à
frente dos outros. Marshall e os outros seguiram-no. Sabiam qual era
a surpresa que aguardava os saltadores, e também sabiam que a
situação desagradável em que se encontravam logo chegaria ao fim.
Infelizmente
se esqueciam da circunstância desfavorável, que já estragara
muitos cálculos bem elaborados.
Era
a circunstância que geralmente costuma ser designada como o acaso.
4
Glogol,
inspetor-chefe do Império de Árcon, encontrava-se numa viagem de
rotina. Naquele instante, aproximava-se do sistema solar da estrela
de Revnur, a fim de visitar o segundo planeta, denominado Tolimon.
Estava
acompanhado de dois cruzadores pesados, que dariam a necessária
ênfase às exigências que viesse a formular. Glogol, acompanhado
apenas de alguns criados e da tripulação habitual, viajava num iate
de luxo que tinha uma espantosa semelhança com certa nave designada
pelo nome Koos-Nor.
Glogol
era um arcônida das classes dominantes. Suas enormes faculdades
mentais e sua capacidade de decisão levaram o regente robotizado a
confiar nele. Era alto, tinha cabelos brancos e olhos avermelhados:
tinha exatamente o aspecto de Rhodan no seu disfarce atual. O vistoso
uniforme também era uma duplicata do de Perry.
Fez
um sinal ao telegrafista.
— Entre
em contato com Tolimon. Anuncie nossa visita. Quero uma recepção de
chefe de Estado, um alojamento condigno e um corpo de criados. Os
representantes do governo devem comparecer ao espaçoporto.
— Perfeitamente,
inspetor — respondeu o telegrafista solícito e desapareceu na sala
de rádio. Menos de dois minutos depois, voltou com uma expressão de
enorme espanto.
— Inspetor...!
— gaguejou assustado. — As autoridades espaciais de Tolimon
querem falar com o senhor antes de conceder a permissão de pousar.
Glogol
levou quase dez segundos sem conseguir proferir uma única palavra;
depois disso quase explodiu.
— O
quê? Querem recusar obediência às ordens de um inspetor? Será que
os aras querem revoltar-se de novo? Que insolência!
— Dizem
que se trata da medida VB-17 — interrompeu o telegrafista sem
compreender nada.
O
comportamento de Glogol mudou de um instante para o outro.
— Por
que não disse isso logo, seu idiota? É claro que com isso as coisas
mudam de figura — levantou-se. — Vamos logo; mostre onde fica o
microfone.
Glogol
não estava muito versado em assuntos técnicos, mas afinal isso não
fazia parte de sua profissão. De qualquer maneira, viu na tela o
rosto de um ara que lhe lançava um olhar desconfiado. O espanto era
sincero.
— Será
que o senhor realmente é um arcônida? — gaguejou o homem na tela,
como se tivesse esperado outra coisa. — Por que será que nos
mandam dois inspetores ao mesmo tempo?
Glogol
parecia ter levado um choque. Desconfiou imediatamente.
— Dois
inspetores? O que quer dizer com isso?
— Desde
ontem o inspetor Tristol encontra-se em Tolimon, senhor. Recebeu
instruções de inspecionar a administração do zoológico.
— Ah,
é? — disse Glogol e inclinou a cabeça. — Tristol? — parecia
refletir. Subitamente um sorriso brincou em torno de seus lábios. —
Espero que esse Tristol esteja presente no espaçoporto quando minhas
naves pousarem.
— No
momento, está realizando um vôo de inspeção. Não temos meios de
entrar em contato com ele.

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