segunda-feira, 11 de março de 2013

P-052 - O Pseudo - Clark Darlton [parte 2]

Você tem um torrão de açúcar para qualquer remédio, por mais amargo que seja — disse. — Mas quero que me prometa que Bell nunca ficará sabendo disso.
Já prometi — confirmou Rhodan.
Está bem. Os aras não voarão, mas vão capturar o idiota do rato-castor que estão seguindo. Daqui a pouco, deverão chegar. Aliás, estão com um medo tremendo de você.
Não é de admirar. Estão pensando no couraçado que posso chamar a qualquer momento. O regente robotizado deve ter tomado medidas muito enérgicas nos últimos 56 anos. Só assim posso explicar o medo que essa gente tem de Árcon.
Já chegaram! — cochichou Gucky, e acrescentou por via telepática: — E agora, senhoras e senhores, terão a oportunidade de ver Gucky, a estrela de fama mundial, no papel do idiota. O show vai começar.
Realmente começou.
Alguém bateu à porta. Rhodan voltou a exibir sua cara pretensiosa de arcônida, fez um gesto preguiçoso para Gucky e disse de maneira suficientemente alta para ser ouvido do lado de fora.
Gucky, dê uma olhada para ver quem se atreve desta vez a perturbar meu sossego. Ao que tudo indica, Tolimon é um planeta muito tumultuado, ou então estão ansiosos para que eu inicie imediatamente as minhas investigações.
Gucky arrastou-se até a porta, fez uma cara desavergonhadamente ingênua e abriu. A mesura que executou foi muito esquisita. Três homens entraram no recinto. Não deram a menor atenção ao rato-castor, embora seus pensamentos girassem exclusivamente em torno do mesmo. Adiantaram-se alguns passos e pararam diante de Rhodan. Inclinaram-se num gesto de veneração.
Pedimos muitas desculpas — disse o homem do meio, puxando o paletó colorido numa atitude de embaraço. — Talvez estejamos sendo importunos, mas...
Não os chamei; logo, só podem ser importunos — confirmou Rhodan numa tranqüila arrogância, que provavelmente teria causado pavor em qualquer dos seus amigos. Gucky continuava a fazer mesuras, para que ninguém pudesse ver seu rosto risonho.
Trata-se... trata-se dum convite do governo — prosseguiu o ara, que parecia mais assustado que embaraçado. — Hoje será realizada uma recepção de gala para o alto inspetor de Árcon. Queremos pedir sua presença.
Rhodan examinou os pensamentos da pessoa que lhe dirigira a palavra e descobriu a intenção de seqüestrar Gucky enquanto estivesse ausente do hotel. Um comando especial de captura já estava a caminho. Reclinou-se ligeiramente e fez como se tivesse que refletir.
O chefe do governo também comparecerá à recepção? — indagou.
Naturalmente, meu senhor. Foi ele que deu a idéia, e sentir-se-á muito honrado se o senhor quiser participar da recepção.
Quando será?
Bem... naturalmente virão buscá-lo, meu senhor. Logo após o pôr do sol.
Muito bem. Comparecerei. E meu criado?
O ara parecia assustado.
Seu criado? O que quer dizer com isso?
Também está convidado?
É claro que não. Só personalidades de categoria elevada comparecerão à recepção. Ninguém levará seu criado.
Ah, sim. Nesse caso meu criado ficará no hotel.
Os três enviados conseguiram dominar-se muito bem. Não fizeram nenhum gesto que pudesse revelar o contentamento provocado pela decisão que Rhodan acabara de anunciar. Em compensação, os pensamentos recônditos deles eram dos mais triunfantes.
Gucky, que se mantinha junto à porta, parecia ter esquecido seu triste papel. O rato-castor percebeu que tinha de esforçar-se para manter o dente roedor sob controle e reprimir a alegria que a brincadeira começava a causar-lhe. Afinal, não era todos os dias que capturavam “pessoas” para fins de internamento num zoológico. Ao que tudo indicava, já se esquecera do aborrecimento que essa perspectiva lhe causara dez minutos antes.
O carro chegará pontualmente — disse o ara que se encontrava no centro do grupo. A seguir, os enviados retiraram-se em meio a inúmeras mesuras, lançando um olhar guloso sobre o rato-castor.
Gucky fechou a porta e riu baixinho.
Hi-hi, que idiotas. Já estão me vendo na sua rede.
E você entrará na rede deles — enfatizou Rhodan. — Não se esqueça do que combinamos. Irei à festa, mas ficarei apenas uma hora. Usarei uma desculpa qualquer para despedir-me e voltarei imediatamente ao hotel. Faço votos de que até lá os seus seqüestradores tenham concluído sua tarefa com pleno êxito. Permaneceremos em contato. Naturalmente darei pela sua falta e darei o alarma. Vejamos o que acontece depois disso.
O que pode acontecer? Aquela gente não saberá de nada e procurará inventar uma desculpa.
Em compensação acho que você ficará sabendo de alguma coisa. Talvez você entre em contato com as mesmas pessoas que perseguiram Marshall e talvez tenham chegado a capturá-lo.
Veremos — disse Gucky. — Apenas quero avisar uma coisa. Se tentarem trancar-me numa jaula, darei o fora.
Talvez você possa dar o fora antes disso, Gucky. Tudo depende das circunstâncias.
Hum — fez o rato-castor e subiu para o sofá baixinho que se encontrava num canto. — Veremos. De qualquer maneira hoje você terá o mais tolo dos ratos-castores de todo o Universo.
Faço votos de que seja assim — disse Rhodan com um sorriso e voltou a esforçar-se para localizar Marshall e Laury Marten.

* * *

Depois de Rhodan ter saído, Gucky viu-se só e começou a preparar-se para a aventura que o esperava. A rigor, não via no acontecimento uma aventura, mas antes uma brincadeira, no que não deixava de ter sua razão. A expedição de captura não lhe traria maiores perigos, desde que se mostrasse bastante submisso e estúpido.
Os primeiros impulsos surgiram menos de dez minutos depois. O seqüestro sem dúvida fora bem preparado e estava sendo realizado com o consentimento dos escalões mais elevados do governo, o que não era de admirar. Para os aras estabelecidos em Tolimon não havia problema mais importante que a obtenção de seres vivos adequados às suas experiências. O zoológico desempenhava uma função puramente de acessório, pois destinava-se como atração e ponto de encontro de turistas que trouxessem dinheiro.
Cinco homens exibiram suas credenciais ao dono do hotel. Gucky seguiu a palestra com o maior interesse e voltou a certificar-se de que a porta não estava trancada. Subiu ao sofá e estendeu-se confortavelmente sobre o mesmo, agindo exatamente da forma como um criado costuma agir quando o senhor não está em casa. Ao menos muitos criados costumavam agir dessa forma.
Fechou os olhos e fez de conta que estava dormindo.
Os cinco homens pararam diante da porta e prepararam-se para arrombar a fechadura caso a vítima não se dispusesse a abrir. Mas um deles fez uma tentativa e constatou que a porta não estava trancada.
Que animal ingênuo! — cochichou e foi entrando. — Para mim não serviria como criado; é muito leviano e estúpido.
Você verá uma coisa!”, pensou Gucky e continuou a fazer de conta que dormia profundamente. “Não tenha a menor dúvida! Basta esperar.”
A alegria que a perspectiva lhe causava fez com que se empenhasse ainda mais na execução do seu papel. Esperou calmamente que os cinco homens entrassem e fez de conta que estava acordando. Piscou os olhos castanhos, abriu-os de vez e contemplou os intrusos com uma expressão de espanto. Viu que um deles carregava um radiador de impulsos, que era um artefato mortífero. Contavam com alguma resistência. Bem, estavam enganados.
Boa noite — disse Gucky com a voz aguda. — Infelizmente meu senhor, o alto inspetor, saiu. Posso ser-lhes útil em alguma coisa?
Um dos captores de animais foi à porta e saiu para o corredor. Um instante depois, voltou com uma caixa gradeada. Um sorriso gentil brilhava em seu rosto astucioso.
Não queremos falar com seu amo — disse em tom suave. Provavelmente estava interessado em captar a confiança de Gucky. — Apenas queremos pedir que venha conosco.
Para onde? — perguntou Gucky com a cara mais inocente do Universo. — Não posso sair do hotel sem licença de meu dono.
Seu dono já foi avisado — disse outro dos aras com ligeira recriminação na voz. — É claro que concorda em que você seja apresentado ao Conselho Científico de Tolimon, que nunca teve oportunidade de examinar um animal inteligente como você.
Querem levar-me numa jaula? — disse Gucky, apontando com cara de nojo para a caixa gradeada. — Acham que sou alguma fera?
Bem... é... é por causa do povo — gaguejou outro e adiantou-se rapidamente, para segurar o “objeto de experiências” tão cobiçado, pela nuca. — Não queremos que seja molestado.
Gucky esforçou-se para não explodir. Em condições normais, aquele sujeito desavergonhado teria sido atirado para o teto por meio da energia telecinética. Mas nada lhe aconteceu. Um tanto assustado e totalmente desorientado, o rato-castor ficou agachado sobre o sofá e não ofereceu a menor resistência quando foi levantado.
É um lindo exemplar — disse um dos homens e abriu a caixa. — Enfie-o logo nesta jaula, antes que mude de idéia. O inspetor acreditará que saiu e se perdeu pela cidade.
Um impulso bastante violento colocou Gucky no interior da jaula, cuja porta logo se fechou. Os captores já se sentiam seguros, e deixaram cair as máscaras.
Vamos embora logo! — disse um deles em tom apressado. — Quando esse arcônida voltar, não deverá encontrar qualquer pista.
Vocês não disseram que o inspetor está a par? — chiou Gucky, fingindo-se de assustado. — Não acham que estão me dispensando um tratamento bastante estranho?
Cale a boca! — gritou um dos aras, o que representou outra provação dura para Gucky. Seria fácil libertar-se, mas não devia fazê-lo. Devia bancar o fraco, a criatura incrivelmente estúpida. Como é que Rhodan foi exigir uma coisa dessas?
Os homens cobriram a jaula com um pano preto e saíram do quarto. Uma vez no corredor, foram andando mais depressa, passaram pelo hall de recepção sem que ninguém os detivesse e saíram à rua. Gucky sentiu que a jaula foi colocada num carro com um movimento nada suave. Poucos segundos depois, o veículo foi colocado em movimento. Os homens não diziam mais nada, mas seus pensamentos eram bastante reveladores para Gucky.
Foi levado ao Ministério Zoológico. Sabia que o zôo era uma instituição estatal submetida a um ministério especial, no qual trabalhavam principalmente médicos e cientistas. Talvez também houvesse alguns psicólogos. Ali seria examinado e interrogado, antes de ser levado para a área cercada.
Área cercada! Gucky sorriu, a fim de aplacar a cólera. Para ele não havia o menor perigo, mas ficar bancando o idiota... E logo Gucky, que sempre encontrara o maior prazer em demonstrar sua superioridade às inteligências humanóides. E agora via-se obrigado...
Era de estourar!
A viagem foi bastante demorada. Pelos pensamentos de seus acompanhantes concluiu que o museu ficava na área periférica da cidade, onde esperavam realizar as experiências necessárias sem que ninguém os perturbasse. Ainda constatou que as intenções de quem concebera o seqüestro no fundo não eram más. Desconfiavam de que o inspetor jamais cederia espontaneamente seu criado tão engraçadinho, mas estavam loucos para trancafiar esse exemplar raro e semi-inteligente no zoológico. Um rato-castor que sabia falar seria uma verdadeira sensação. Talvez conseguissem mesmo saber onde ficava o planeta de origem desse animal tão estranho. Uma coluna dessas criaturas seria...
Os aras se perdiam nas suas fantasias. Gucky bem que estava satisfeito por estar oculto sob o pano negro. Só assim ninguém via seu sorriso galhofeiro.
Ainda mostraria algo a eles. Logo que pudesse.

* * *

Para Rhodan não foi muito fácil acompanhar o seqüestro de Gucky enquanto conversava com os políticos mais influentes de Tolimon. Não demorou muito. Logo se despediu. Desculpou-se com o cansaço da viagem, dizendo que precisava repousar. Uma vez que, naquela altura, o comando de captura já se apoderara do rato-castor, não lhe opuseram maiores dificuldades. O carro levou-o de volta ao hotel.
Conforme o programa, sentiu falta de seu criado e perguntou ao pessoal do hotel se não o haviam visto. Mas todos, inclusive o gerente, afirmavam de pés juntos que não haviam notado nada de suspeito.
Rhodan aguardou mais trinta minutos; depois avisou a polícia. Esclareceu que seu criado não costumava sair de hotel sem permissão. Exigiu energicamente uma operação de busca para localizar a criatura desaparecida.
A polícia prometeu fazer o que estivesse ao seu alcance. Era claro que estava mentindo; agia de comum acordo com os seqüestradores.
A seguir Rhodan deitou na cama, depois de ter trancado a porta e colocado o radiador de impulsos portátil embaixo do travesseiro.
Voltou a dedicar-se à tarefa, bastante difícil face à potência reduzida de suas faculdades telepáticas, de localizar os impulsos mentais de Marshall, sem esquecer o contato com Gucky.
Naquele instante Gucky encontrava-se diante dos seus examinadores.

* * *

A sala reluzia de limpeza.
As luzes ofuscantes embutidas no teto branco iluminavam até o último canto, não permitindo que surgisse qualquer sombra. Atrás da mesa em ferradura, estavam sentados treze homens de capas brancas, que era o traje profissional dos aras. Todos os olhares estavam dirigidos para o pequeno prisioneiro, que os contemplava com o rosto muito ingênuo. Nos fundos da sala dois homens equipados com radiadores paralisantes mantinham-se à espreita. Vigiavam a única saída da sala.
O homem que se encontrava no centro usava barba. Daí concluía-se que era um mercador galático. Inclinou-se para a frente e lançou um olhar penetrante sobre Gucky.
Você é o criado do inspetor de Árcon? — perguntou.
Sou, sim — piou Gucky, assustado, embora sua alma estivesse fervendo. — Meu senhor lhes dirá o que acha do procedimento de quem seqüestra seu criado.
Nós perguntamos e você responde! — interromperam-no. — Onde aprendeu o arcônida? Será que em seu planeta nativo falavam a língua do Império?
Foi meu senhor que me ensinou.
Quer dizer que sua língua não é esta?
É claro que não. Costumamos comunicar-nos por meio de uma série de assobios melódicos. Um tom extremamente agudo, por exemplo, indica uma grande excitação, enquanto um zumbido...
E seu planeta nativo? — interrompeu o barbudo, que não parecia estar muito interessado na linguagem de assobios dos ratos-castores. — Você pode descrever a situação do mesmo?
Gucky acenou com a cabeça; parecia muito seguro de si.
Naturalmente. Um pouco à direita do saco de carvão.
Heim? — o barbudo inclinou-se para a frente, com os olhos arregalados. Seu rosto era de interrogação. — O saco de carvão? O que vem a ser isso?
Gucky leu os pensamentos de seu interlocutor e percebeu que os aras costumam designar as nuvens escuras como poeira de absorção. Mas não tinha a menor intenção de ajudá-los. Que quebrassem a cabeça para descobrir o sentido da expressão terrana, que para eles era totalmente desconhecida.
Um saco de carvão — disse em tom solene — é um saco de carvão. Será que me exprimi com suficiente clareza?
O barbudo sacudiu a cabeça.
Precisamos de dados mais exatos. Vamos apagar a luz e mostraremos um mapa estelar visto de Tolimon. Você nos mostrará onde fica seu planeta nativo.
A escuridão tomou conta da sala e a imagem reduzida, mas exata, do céu estrelado, surgiu no teto. Muito satisfeito, Gucky percebeu que as áreas escuras estavam fielmente reproduzidas. Soltou um grito de triunfo e apontou para o alto.
Ali, o saco de carvão. É à direita do mesmo.
Quinze pares de olhos fitaram a projeção à procura do saco de carvão, sem que soubessem o que era um saco de carvão. Mas suas reflexões logo foram interrompidas por um assobio estridente de Gucky, que soltou uma exclamação:
Não, é o outro! Ali à esquerda, no canto! — depois de uma ligeira pausa: — É possível que seja o do meio. Não sabia que existem tantos sacos de carvão.
Provavelmente os sacos de que você fala são as nuvens de absorção — conjeturou cautelosamente o barbudo. — É claro que sua raça não dispõe de qualquer treinamento científico, mas de qualquer forma vocês possuem certo quociente intelectual.
O que é isso? — perguntou Gucky, levantando uma das orelhas. — Nunca me disseram que nós temos uma coisa dessas.
Dois ou três dos aras riram às escondidas. Houve uma ligeira pausa, que Gucky aproveitou para pensar intensamente:
Ei, Rhodan. Está ouvindo? Isto não é divertido a valer?
A resposta surpreendeu Gucky.
Deixe de palhaçadas e procure descobrir alguma coisa a respeito de Marshall e Laury. Use de habilidade, formulando certas perguntas...
Como é que um idiota como eu pode usar de habilidade...?
Rhodan não enviou nenhuma resposta, pois o barbudo interrompeu a palestra mental.
Como é que você foi parar em mãos dos arcônidas? Foram buscá-lo no seu mundo?
Gucky deixou cair a orelha.
Quem dera que eu soubesse... Faz tanto tempo!
Quanto tempo?
As luzes voltaram a acender-se, mas a projeção do céu noturno não desapareceu do teto. Subitamente, a voz do barbudo demonstrou muito interesse. Gucky percebeu que essa seria a chance de levar os pensamentos dos inquisidores ao tema que o interessava.
Quanto tempo? — murmurou, fitando os olhos dirigidos para ele com uma expressão de ingenuidade. — Devem ser algumas centenas de anos.
Você já é tão velho?
Velho por quê? — perguntou Gucky com um enorme espanto na voz. — Sou um jovem, sou um rapaz, se me permitem essa palavra. As moças de todos os mundos que o inspetor e eu costumamos visitar...
O barbudo não estava interessado nas moças. Tinha outros problemas.
Será que no seu mundo todos atingem essa idade?
Naturalmente. Vocês não chegam aos mil anos?
O barbudo respirava com dificuldade. Arregalou os olhos para o rato-castor. Os outros aras também pareciam muito assustados. Seus pensamentos estavam cheios de perguntas tão diversificadas que Gucky não pôde absorvê-los todos ao mesmo tempo. Fazia votos de que Rhodan estivesse escutando e ajudasse.
Mil anos...? — o barbudo esforçou-se para aparentar calma. — Descobriram algum elixir que prolonga a vida?
Foi a vez de Gucky mostrar-se espantado.
Um elixir? Para quê? Mil anos bastam, especialmente para mim, que sou um simples criado. Depois de minha morte meu senhor, o inspetor, terá de procurar outro criado, e depois...
O quê? — berraram dois ou três aras ao mesmo tempo, enquanto empalideceram visivelmente. — Seu amo também vive tanto tempo? Não é arcônida?
Gucky sentiu que quase chegara a cometer um erro. Esforçou-se para adquirir um aspecto ainda mais estúpido.
O que poderia ser se não isso? — perguntou em tom ingênuo.
O barbudo não respondeu. Pensou: “Será que anteriormente alguém veio a Tolimon e roubou o soro, tal qual fez esse saltador que conseguiu escapar? Ou a moça que estava com ele? Ou será que outras inteligências realizaram pesquisas e chegaram ao mesmo resultado?
Gucky suspirou aliviado. Era a primeira indicação relativa a Marshall. Acontece que, ao que tudo indicava, os próprios aras não sabiam onde o mesmo se encontrava naquele instante. Quer dizer que toda a encenação fora inútil. Ou será que não?
Você, que acompanha o inspetor para todos os lados, tem visto muita coisa nesta Galáxia — voltou a falar o barbudo. — Vocês costumam visitar todos os mundos do Império e, conforme diz, vêm fazendo isso há vários séculos. Já encontraram algum mundo habitado por humanóides cujo grau de evolução fica no nível C?
Gucky aguçou o ouvido. O mundo ao qual se referia era a Terra! A Terra, com a classificação que lhe caberia há duzentos ou trezentos anos. Categoria C. Foi no século XVII que uma das naves por acaso encontrou a Terra e raptou alguns homens, que foram trancados no zoológico, onde ainda viviam. Apenas o conde Rodrigo de Berceo conseguira fugir com o auxílio de Marshall.
Humanóides do nível de evolução C? — repetiu Gucky e parecia refletir atentamente. Depois de algum tempo, sacudiu a cabeça. — Não; tenho certeza que nunca encontramos um mundo destes. Por quê? Será que este mundo existe?
Mais uma vez não obteve resposta, mas os pensamentos dos aras revelaram o que precisava saber.
Sim, um mundo destes já existiu, há algumas centenas de anos. Haviam-no encontrado e por uma série de circunstâncias infelizes as coordenadas foram perdidas. Todavia, haviam trazido quatro exemplares daquela raça primitiva, que receberam o soro revitalizador e foram trancados no zoológico. Um deles fugira. Malditos saltadores! Que interesse poderiam ter naquele prisioneiro? Seria por causa do elixir da vida? Só pensavam em negócios...
Não houve a menor indicação sobre o lugar em que Marshall se encontrava no momento. Os aras haviam perdido as pistas dos fugitivos. Parecia que tinham desaparecido da superfície de Tolimon.
Gucky aproveitou a pausa e “chamou” Rhodan:
Está ouvindo, chefe? Estamos bem perto, não é? Não podemos chegar mais perto. Já posso dar o fora?
Nada disso, meu caro! O que pensarão esses caras se você se dissolver no ar sem mais aquela? Aguarde outra oportunidade.
Está bem; vou aguardar. Mas não aguardarei muito tempo. Prefiro procurar Marshall e Laury numa série de saltos de teleportação que cubra todo o planeta. Antes isso que ser considerado o maior idiota do Universo. Fim. A coisa vai continuar...
Se Gucky pensava que poderia descobrir outra coisa, estava enganado.
Acho que podemos dispensar o teste de inteligência — disse o barbudo, dirigindo-se aos colegas. — Sugiro que seja incluído na classe C. Só falta o exame médico, que fica marcado para amanhã. Ei, guarda! Leve o prisioneiro à jaula.
Dirigindo-se a Gucky, acrescentou:
Aqui você será tratado muito bem.
Com estas palavras levantou-se, dando o sinal para a debandada geral. Não deu mais um olhar sequer para o rato-castor e parecia tê-lo esquecido por completo. Gucky viu os dois guardas aproximarem-se e sentiu quando o seguraram pelos braços e o levaram. Não deu a menor atenção a isso. Ainda notava o barbudo, que o tratara com tamanho desprezo, vendo nele apenas um animal mais evoluído.
Pensou fazendo uma reflexão: “Quem sabe se amanhã a situação será tão favorável, se é que ainda estarei aqui. Uma pequena lição não lhe faria mal. O importante é que a suspeita não caia em mim.
O que poderia fazer? Não dispunha de muito tempo.
Gucky não era nenhum hipno; não podia impor sua vontade a ninguém. Mas dominava muito bem a telecinese, e com ela poderia fazer alguma coisa.
Ao lado do barbudo caminhava outro ara, que conversava animadamente com os colegas. Subitamente enfiou a mão no bolso. Uma expressão de espanto surgiu em seu rosto, tirou uma tesoura e cortou a longa barba grisalha do chefe da comissão de investigações. O movimento foi tão rápido que ninguém pôde impedi-lo, especialmente o homem que o executara. Também o chefe geral ficou tão perplexo ao ver a dignidade de seus anos cair ao chão que pisou nela antes de compreender o que havia acontecido.
Estacou repentinamente e viu o colega desavergonhado guardar a tesoura, após o quê, começou a tremer por todo o corpo.
Gragnor! — berrou com uma voz terrificante o homem que já não era barbudo. — O que é que o senhor está pensando? Será que ficou louco? Irei...
Misericórdia, Kluhg! — choramingou o barbeiro improvisado, totalmente abatido, e caiu de joelhos. — Não sei como pôde acontecer uma coisa destas. O espírito mau deve ter segurado minha mão e...
Quando muito o espírito mau perturbou sua inteligência. Está dispensado. Providenciarei para que seja devidamente punido — a mão tateou sobre os restos da barba. — A divisão de laboratório ficará satisfeita em receber um novo objeto de experiências...
Virou-se de repente e saiu andando, deixando para trás Gragnor, totalmente demolido, e os outros aras, que não cabiam em si de espanto.
Gucky deixou que o levassem; não ofereceu a menor resistência. Ficou com os lábios cerrados. O rosto parecia o de um pobre pecador que está sendo levado ao cadafalso sem reconhecer a menor parcela de culpa.
A cela era um cubículo com um banco de madeira, uma mesa frágil e uma abertura gradeada, que devia ser o fim de um conduto de ventilação. Quando os dois guardas trancaram a porta do lado de fora, a luz apagou-se.
Gucky suspirou e procurou localizar Rhodan; logo descobriu os impulsos mentais do chefe. Poucos segundos depois, materializou-se no quarto de hotel.
Faça o que quiser, mas não voltarei àquele buraco — disse a Rhodan, que estava mudando de roupa. — Quero que esses idiotas quebrem a cabeça para descobrir como fiz para fugir.
Rhodan não se perturbou. Vestiu o pijama.
Nem quero que você volte. Descobrimos tudo que eles sabem. Uma coisa é certa: nossos agentes não estão em suas mãos. Marshall e Laury devem encontrar-se em algum lugar neste planeta ou então... estão mortos. O fato de que não conseguimos captar nenhum pensamento deles deixa-me bastante preocupado.
Amanhã iniciarei a busca — prometeu Gucky e bocejou ao ver o sofá do qual os seqüestradores o haviam retirado. — Seria ridículo se não conseguíssemos descobrir nenhuma pista.

* * *

Depois da noite tranqüila e do desjejum reforçado, Rhodan se fez anunciar às autoridades e disse que pretendia realizar uma inspeção na administração do zoológico.
Quando o carro chegou para levar Rhodan ao centro da cidade, Gucky deu início à busca.
Saiu do hotel e ficou passeando pela rua, vestido apenas na sua pele natural. Trulan era um ponto de encontro de todas as raças da Galáxia, e por isso não era de admirar que ninguém lhe desse muita atenção. Naquela confusão de criaturas estranhas, o rato-castor não despertava maior atenção que a provocada por um bassê peludo numa exposição de cães. Havia os berenícios, que eram quadrúpedes com corpo de inseto provido de uma blindagem formada por placas quadráticas, que demonstravam certa predileção pelas cores vivas; os respiradores de cloro de Gradosima, que se moviam em trajes espaciais fechados e tratavam os transeuntes com uma arrogância assustadora. Gucky também se encontrou com os gatos-panteras do sistema de Sagitário; fugiu apressadamente, pois não sabia como os mesmos reagiriam diante de sua figura.
Os aras e os saltadores não lhe davam a menor atenção. Para eles, a visão de inteligências estranhas não tinha nada de extraordinário, e poucos deles haviam posto os olhos no criado pessoal do inspetor.
Gucky mantinha a mente em recepção, a fim de sondar os pensamentos de todos os seres que encontrava pelo caminho. Encontrou muita coisa que numa situação diferente o teria divertido bastante, mas hoje não tinha tempo para isso. Uma única vez intrometeu-se nos assuntos internos de Tolimon. Foi quando descobriu intenções assassinas num ara muito robusto. O sujeito pretendia matar a esposa. Gucky obrigou o homem, por via telecinética, a dar uma vigorosa bofetada no oficial de patrulha mais próximo, o que levou este a prender o ara.
Por enquanto o preso não poderia transformar suas intenções em realidade, e quando fosse solto a raiva que sentia pela esposa provavelmente já teria se desvanecido.
Satisfeito com a boa ação que acabara de praticar, Gucky prosseguiu em sua caminhada.
Chegou às áreas mais pobres e começou a sentir os pezinhos. Não tinha a menor predileção por passeios extensos. Gostaria de teleportar-se para o telhado de uma das casas, a fim de recuperar-se da canseira. Mas não havia a menor dúvida de que um rato-castor voador provocaria certo escândalo. Por isso continuou a arrastar os pés, até encontrar lugar num restaurante.
Se Marshall dispusesse de um esconderijo na cidade, este deveria ficar na área dos cortiços, onde seria mais fácil mergulhar na multidão. E Marshall não poderia dispensar um esconderijo, pois não sabia colocar-se em segurança por meio de um salto, conforme costumava fazer Gucky.
Quase todas as mesas estavam ocupadas, mas Gucky teve sorte. Encontrou lugar junto à parede. Pediu um prato de legumes e um suco de frutas. Só comia carne quando alguém o obrigasse a isso.
Alguns dos freqüentadores lançaram olhares curiosos em sua direção. Já haviam visto muitas criaturas estranhas, mas nunca se tinham deparado com um rato-castor. Gucky respondeu com um sorriso gentil; leu apenas uma curiosidade inocente nos pensamentos dos outros. Passou a dedicar-se às verduras e frutas de Tolimon, que lhe causavam um agrado extraordinário. Era outra coisa bem diferente que as eternas cenouras, que já o deixavam enjoado face às constantes apostas em que costumava ganhá-las.
O sol brilhava e espalhava seus raios tépidos. Nenhuma nuvem cobria o céu azul, que lembrava o do planeta Terra. Por um instante Gucky esqueceu suas preocupações, até que um incidente despertou sua atenção.
Na mesa ao lado alguns aras juntaram-se e puseram-se a cochichar, apontando nervosamente para a rua, onde dois transeuntes muito estranhos deviam ter despertado sua atenção.
Gucky procurou enxergar melhor.
Eram duas criaturas de ao menos seis metros de altura, que se pareciam com gigantescos vermes. O que mais chamava a atenção eram as numerosas pernas, muito curtas, sobre as quais se locomoviam à maneira das centopéias terranas. O terço anterior do corpo estava levantado. Possuíam cabeça de inseto e, logo abaixo da mesma, dois vigorosos braços preênseis.
Eram froghs!
Os aras os usavam como guardas do zoológico. Se um dos ocupantes tentasse a fuga, os froghs entravam em ação. Usando todas as pernas, chegavam a atingir a velocidade de duzentos quilômetros por hora. Marshall transmitira informações a respeito desses guardas depois que ele, Laury e o conde libertado haviam escapado à sua perseguição.
O que estariam fazendo os froghs na cidade, e logo neste bairro mal-afamado?
Gucky levantou-se um pouco para contemplar as estranhas inteligências mais de perto. Sabia que eram capazes de falar. Logo, em sua mente havia pensamentos lógicos.
Gucky “ligou” a telepatia.
Estavam à procura de três humanos. Era um saltador, que lhes causara muitas dificuldades, uma bela mulher que roubara um recipiente de vidro com o elixir da vida e um prisioneiro fugido, que havia sido retirado do zoológico pelas pessoas já referidas.
Eram Marshall, Laury e o conde!
Gucky acabara de descobrir a pista!

* * *

Tratar de qualquer assunto com as autoridades sempre é uma coisa muito enfadonha; Rhodan descobriu isso durante a primeira hora. O Ministério Zoológico, situado na periferia da cidade, era uma verdadeira mina de atas e formulários. Os registros abrangiam cada uma das regiões em que se dividia o parque natural situado na estepe e cercado por montanhas. Havia dados sobre a origem, modo de vida, hábitos e características médicas de cada ocupante do zoológico. Também as experiências realizadas com todos eles haviam sido registradas com a maior precisão.
Rhodan realizou um exame por amostragem e, quanto ao mais, exibiu uma arrogância tão irritante que a raiva dos tolimonenses por Árcon crescia a cada minuto. Estava convencido que um eventual sucessor seu não teria vida nada fácil no planeta. No entanto, os funcionários mantiveram uma cortesia inalterada, embora por dentro desejassem que o espia nojento fosse para as profundezas do inferno.
Pelo meio-dia, fez uma pausa e pediu que o carro o levasse à cantina dos funcionários do ministério. Reservaram-lhe uma mesa, na qual poderia tomar sua refeição sem que ninguém o perturbasse. E, em virtude do caráter interestelar de Trulan, serviram-lhe uma coisa realmente comestível.
Estava na hora de entrar em contato com Gucky. Procurou e logo sentiu os sinais que lhe chegavam. Não era muito fácil concentrar-se em meio aos numerosos freqüentadores da cantina, que o contemplavam com uma expressão de respeito.
Sim, Gucky, tenho o contato. O que houve?
Encontrei a pista. Dois froghs estão à procura de Marshall. Acreditam que se encontre na cidade. Conhecem o lugar em que costumava permanecer.
Onde está você?
Na área dos cortiços. Será que Marshall já morou aqui?
Procure descobrir. Talvez consiga alguma indicação.
Combinado, mestre. Como vai você?
Obrigado. Sinto-me satisfeito por não ser um funcionário público.
No cérebro de Rhodan, surgiu a imagem do dente roedor de Gucky, o que significava que o mesmo se divertia a valer. Depois disso o contato telepático cessou.

* * *

Os dois froghs deslocavam-se velozmente pelas ruas sinuosas. Gucky teve que esforçar-se ao máximo para segui-los no seu andar arrastado. Praguejou violentamente porque não lhe era permitido teleportar-se. Se o fizesse, não poderia deixar de chamar a atenção. Em todos os lugares os transeuntes, atemorizados pela visão dos guardas do zoológico, comprimiam-se contra as paredes dos prédios e suspiravam aliviados depois que os froghs passavam. Ao que tudo indicava ninguém tinha a consciência tranqüila, mas Gucky não conseguiu descobrir por que todo mundo temia as centopéias. Talvez o simples aspecto dos froghs incomodasse as pessoas.
Subitamente os froghs pararam.
Gucky não entendia sua língua, mas podia ler seus pensamentos, que não dependiam da linguagem. Por isso conseguiu acompanhar a conversa que se desenrolava do outro lado da rua.
Se nossas informações são corretas, deve ser por aqui.
Vamos dar uma olhada e perguntar aos moradores dos prédios. Talvez um deles tenha visto os três.
Está bem. Começarei por esta coisa. Você pode pegar o outro lado.
Separaram-se.
Gucky parou. Seus pêlos arrepiaram-se quando um dos froghs atravessou a rua estreita, lançou-lhe um ligeiro olhar desconfiado e desapareceu num dos prédios, para iniciar a busca.
Deviam ter encontrado uma pista de Marshall, embora Gucky tivesse certeza de que o Chefe dos mutantes não se encontrava nas proximidades, pois do contrário teria captado seus impulsos mentais. Provavelmente a pista que os froghs estavam seguindo era falsa.
Mas, por que não realizar as investigações por sua própria conta?
Não hesitou. Desmaterializou-se, pois esperava que os poucos transeuntes estivessem ocupados em observar os froghs e por isso não lhe dariam a menor atenção. Concentrou-se num trajeto reduzido e viu-se num quarto escassamente mobiliado, bem às costas de uma mulher pobremente vestida, que mexia numa panela.
Deu outro salto, subindo mais um andar.
Nada.
Depois de ter dado vinte saltos, acabou num depósito desabitado. Aproveitou a oportunidade para descansar um pouco. Evidentemente aquela busca ao acaso não passava de absurdo rematado. Mas Marshall e a moça ainda há pouco deviam ter morado numa casa situada naquela rua, a não ser que os froghs fossem uns idiotas.
Gucky suspirou e deu outro salto.
Uma hora depois, materializou-se numa mansarda situada no décimo quinto andar. Estava vazia e, ao que tudo indicava, ninguém morava ali, pois o armário estava aberto e nele não havia qualquer peça de roupa. A cama desarrumada não tinha lençóis. Do outro lado ainda havia dois sofás. Parecia que tinham sido colocados no quarto depois dos outros móveis. Gucky sentiu um cheiro familiar.
Gucky lançou os olhos em torno e já ia retirar-se, quando subitamente estacou.
Sobre uma penteadeira rústica havia um copo quebrado. Ao lado deste, havia um vidrinho.
Os olhos de Gucky estreitaram-se quando caminhou em direção à penteadeira, segurou o vidrinho entre as patas e o cheirou. Faltava-lhe a tampa, mas ainda se via um pouquinho de líquido amarelo no fundo.
Gucky farejou, silvou satisfeito, hesitou um instante, e derramou os pingos que ainda havia no vidro sobre o peito peludo. Voltou a colocar o vidro sobre a penteadeira, refletiu mais um pouco e foi à janela. Sorriu e atirou-o para fora.
O vidro não caiu verticalmente para a rua. Foi atingido pelos fluxos de energia telecinética que o arrastaram em direção ao céu azul. Subiu tão alto que Gucky não o via mais. Só depois disso recuou da janela.
Sabia que o vidrinho não resistiria à queda. Ninguém conseguiria identificar os fragmentos, ainda mais que o vidro não continha nenhuma indicação de procedência.
Essas mulheres levianas! — chilreou em tom contrariado. Refestelou-se com o perfume do pêlo de seu peito e revirou os olhos de prazer. — Não há a menor dúvida: é o perfume predileto de Laury. Foi muita gentileza sua deixar essa lembrança para mim. Quer dizer que moraram aqui.
Começou a revistar o quarto.
Só se sobressaltou quando os impulsos mentais se tornaram mais nítidos. Alguém subia pela escada. E agora rastejava pelo corredor e parava diante da porta.
Seria Marshall?
Não, não era Marshall. Era um frogh. Gucky ainda reconheceu a identidade do ser, que se encontrava lá fora, em tempo de dar um salto e colocar-se em segurança. A porta aberta do armário escondia-o dos olhares do monstro, que foi entrando bem devagar enquanto lançava os olhos traiçoeiros em torno.
Gucky olhou cautelosamente por trás da porta e estremeceu. Não era possível. Como é que a natureza tão bondosa podia criar um monstro daqueles? Em comparação com ele, os horríveis porcos rastejantes de Vênus eram criaturas verdadeiramente adoráveis. O Universo estava cheio de seres dos mais estranhos. Todavia, o frogh, além do mais, para usarmos uma expressão suave, possuía uma expressão pouco amistosa. E isso o tornava muito antipático.
Acontece que Gucky não gostava nem um pouco das criaturas antipáticas de sua época. E, para dar uma demonstração evidente dessa aversão, muitas vezes esquecia a cautela que devia guardar.
Esperou que o frogh fechasse a porta. Depois, saiu de trás do armário e perguntou em tom gentil:
Está procurando alguma coisa?
O frogh virou-se abruptamente. Por pouco o movimento não o faz perder o equilíbrio. Arregalou os olhos e abriu as garras, fitando a aparição inesperada como se fosse um fantasma. Ao que tudo indicava, não sabia o que fazer com o rato-castor, embora no zoológico já tivesse tido oportunidade de sobra para conhecer semi-inteligências dos tipos mais variados.
O que... quem...? — balbuciou numa língua que Gucky só compreendeu em virtude de sua capacidade telepática.
Quero saber o que está fazendo aqui. — repetiu Gucky, utilizando-se da língua arcônida, que todos compreendiam. — Isto aqui é minha residência.
Ao que parecia, o frogh estava recuperando o autocontrole.
Venho por ordem do governo — anunciou. — Recentemente um saltador ocupou este quarto?
Quem foi que lhe meteu isso na cabeça? E quem é o senhor?
O verme-inseto fez uma cara tão espantada que Gucky soltou uma gostosa gargalhada. Isso parecia provocar ainda mais a fúria daquela criatura sem senso de humor. Soltou um chiado e avançou para o rato-castor, estendendo os braços preênseis como se quisesse estrangulá-lo.
Eu sou um frogh, seu bicho nojento. Se não estou muito enganado, seu lugar é no zoológico. Não permitirei que fique em liberdade. Vou levá-lo.
Mantenha distância! — advertiu Gucky e recuou um passo, para não entrar em contato com aquela massa horrível. — Quanto ao zoológico, você vai sofrer uma decepção. É verdade que não temos muita intimidade, mas podemos continuar a tratar-nos por você. Mais uma coisa. Faça o favor de responder às minhas perguntas, sua chaminé ambulante.
Ao que parecia, o frogh estava acostumado a ser tratado com mais respeito e temor. Dificilmente compreenderia que alguém pudesse adotar um comportamento desses em sua presença. Respirava com dificuldade.
Você vai se arrepender, seu bicho nojento! — ao que parecia era este seu insulto predileto. — Ainda hoje será apresentado à administração do zoológico. Sabe o que acontecerá depois disso?
Isso não me interessa nem um pouco — respondeu Gucky sem abalar-se. — Se você não responder imediatamente às minhas perguntas, eu o atiro contra a parede e depois o farei voar pela janela.
O frogh começou a tremer por todo o corpo, e havia muita massa para tremer. O verme enchia quase todo o quarto. Com um grande interesse, Gucky percebeu que o corpo em forma de cobra começou a adquirir uma tonalidade rosada. Aquela devia ser a cor da pele de um jovem tenente no momento em que o recruta lhe recomenda que ele mesmo engraxe suas botas.
Seu miserável! — chiou o furioso guardador do zoológico. — Você se atreve...
Você está atrás de um saltador — prosseguiu Gucky sem demonstrar o menor respeito. — Por que justamente aqui? Responda, senão você vai ver o que é bom.
O rato-castor estava percebendo a impaciência do verme gigante. Além disso, sentiu que a essa altura não poderia recuar. O frogh teria que ser eliminado de qualquer maneira. Antes devia fazê-lo contar o que sabia.
O saltador? — perguntou o frogh. — O que sabe a respeito do saltador que estou procurando?
Quem faz perguntas sou eu! Entendido? Quem lhe deu esta pista?
O frogh não estava disposto a revelar seu segredo, mas felizmente pensou no caso. Para Gucky, isso foi suficiente.
Ah, então é isso! — disse em tom tranqüilo. — Foi outro saltador que lhes contou. Vocês o torturaram? Morreu? Vocês são assassinos! Acontece que ele lhes contou uma mentira, pois neste quarto não há ninguém a não ser eu.
O frogh lançou um olhar de pavor sobre o rato-castor, que estava extraindo os pensamentos de sua mente. Seus impulsos mentais tornaram-se cada vez mais confusos, até convergirem na intenção de apoderar-se do inimigo medonho que tinha diante de si.
O frogh deu um passo rápido para a frente e estendeu o braço em direção a Gucky. Não soube exatamente o que lhe aconteceu, mas sentiu-se atingido por uma força invisível que o atirou contra a penteadeira. Caiu ao chão, mas logo voltou a levantar-se.
Mais uma vez precipitou-se sobre Gucky, mas ao que tudo indicava o rato-castor já estava cansado da discussão. Engajou toda a energia telecinética de que dispunha, levantou o frogh deixando-o suspenso no centro do quarto.
A centopéia apavorada começou a emitir silvos agudos, enquanto seu corpo adquiriu uma cor violeta. As inúmeras pernas balançavam desesperadamente no ar, à procura de apoio.
Mas o susto ainda aumentou quando se viu planar em direção à janela, que se abriu como que pela mão de um fantasma. Lá embaixo ficavam as pedras duras do calçamento.
Gucky não perdeu mais tempo. Sabia tudo que o frogh sabia, e o guardador implacável do zoológico fazia por merecer a morte. Marshall estava com os agentes dos saltadores, que haviam instalado uma central secreta em Tolimon. Ali encontrava-se relativamente seguro.
O frogh passou pela janela, por mais que se esforçasse para segurar-se no peitoril.
E foi assim que os habitantes do bairro pobre de Trulan tiveram oportunidade de presenciar um espetáculo inacreditável. Viram um frogh voador. Aquela criatura detestada saiu planando elegantemente da janela da mansarda, descreveu uma ou duas piruetas perfeitas, subiu verticalmente até chegar aos trezentos metros de altura. Por fim, caiu na vertical.
A queda provocou a sensação que era de esperar, embora o mistério da centopéia voadora nunca tivesse sido solucionado.
Enquanto ocorria o acidente, Gucky saltava para o quarto do hotel, onde esperou por Rhodan, que já fora informado telepaticamente sobre os acontecimentos.
O círculo em torno de Marshall e seus companheiros fechava-se cada vez mais.
Era só uma questão de tempo, e seriam encontrados.
Gucky esticou-se sobre a cama e fechou os olhos.
Subitamente foi atingido por um impulso mental, claro e intenso, que lhe martelava a consciência, despertando-o num instante.
Era um impulso que estava chegando com uma força extraordinária:
Pelas nebulosas da Galáxia! Se Rhodan não aparecer logo, essa gente ainda acaba tirando minha última camisa...!
Gucky assobiou uma melodia desafinada e entrou em contato com Marshall.
3



A sala estava mergulhada na penumbra. A única luz provinha de uma lâmpada muito fraca e de alguns raios de sol que penetravam obliquamente pela pequena janela gradeada.
Cinco pessoas estavam reunidas em torno da tosca mesa de madeira. Ao que tudo indicava, formavam dois grupos distintos, pois os dois homens robustos e barbudos estavam sentados lado a lado e contemplavam os três restantes com uma expressão pouco amistosa.
John Marshall leu os pensamentos dos saltadores barbudos e sabia que dali em diante a sociedade não seria mais tão fácil e barata. A alma dos mercadores galácticos despertara nos aliados, e para ela até mesmo a amizade não passava de um negócio.
Ao lado de John, via-se Laury Marten, uma moça de vinte e três anos que era filha dos mutantes Arme Sloane e Ralf Marten. Herdara dos pais o dom da telepatia, mas, além disso, era uma desintegradora. Graças às suas energias mentais podia modificar a estrutura molecular da matéria sólida, o que lhe permitia atravessar muralhas e paredes. A descendência japonesa do pai deixara vestígios em seu rosto. E foram justamente os olhos em forma de amêndoa que tanto cativaram o conde Rodrigo de Berceo.
Rodrigo era filho de uma princesa asteca e de um membro da nobreza espanhola. Fazia quase trezentos anos que vivia no zoológico de Tolimon. No século XVII fora seqüestrado com mais três homens terrenos por uma nave espacial. O misterioso elixir da vida conferira-lhe a imortalidade. Sua figura imponente não poderia deixar de impressionar Laury. Até um cego não deixaria de ver que os dois estavam apaixonados. E foi graças a isso que Rodrigo conseguiu fugir do zoológico.
Não havia dúvida de que sua vestimenta era um tanto estranha. A costureira do zoológico a fizera como uma réplica exata das roupagens do século XVII. As botas de cano revirado que iam até os quadris escondiam as calças justas, enquanto um cinto largo cingia o colete curto e sem mangas. A gola larga da camisa cobria a parte superior da jaqueta com suas rendas. Carregava constantemente a bainha com a espada bem afiada. O chapéu de aba larga com o penacho balouçante descansava no colo. Sobre o colete brilhava uma corrente de ouro com o amuleto do deus do sol dos astecas.
Ninguém convencia Rodrigo de desistir de suas vestimentas estranhas e da arma branca. Isso já havia dado origem a complicações, pois o conde era um homem corajoso e esquentado, que sabia prezar a honra e a altivez.
Estava acariciando a mão de Laury.
Tenha calma, meu amor, mostraremos uma coisa a eles. Conseguimos livrar-nos dos froghs e também saberemos enfrentar essas almas de mercadores.
Marshall lançou-lhe um olhar de advertência. Sentia-se arrasado. A espera por qualquer notícia de Rhodan era interminável, e a idéia dos perigos que constantemente o espreitavam desgastava suas energias. A partir do momento em que haviam abandonado seu alojamento no bairro pobre da cidade nunca mais se sentira seguro. O pior era que, conforme revelava a palestra que estavam mantendo, já não podiam confiar nos saltadores.
Fez um gesto para o mais idoso dos saltadores.
Está bem, Berzan, podemos conversar sobre a oferta que você acaba de formular. Vocês estão metidos na mesma enrascada que nós, e por isso temos uma base para negociar. Se nos entregarem às autoridades, vocês trairão a si mesmos. Isso não resolveria nada, nem para vocês, nem para nós. Os aras são inimigos nossos e de vocês. Vocês querem dinheiro para continuar a ajudar-nos. Acontece que não temos dinheiro. Mas dentro de poucos dias, poderemos dar-lhes mais do que vocês conseguiriam gastar, mesmo que vivessem mais cem anos.
Berzan, um velho de barba grisalha, piscou os olhos astuciosos.
Onde é que vocês vão arranjar esse dinheiro? — indagou. — Quem me garante que não estão mentindo? Tulin e Egmon já nos preveniram. Dizem que vocês sabem ler pensamentos.
Quer afirmar que eu sou um telepata? Isso é ridículo! Se fosse, já saberia há tempo da traição que estão planejando. Nesse caso teria vindo até aqui para pedir auxílio? Não, Berzan, a informação de seus amigos é um absurdo.
Foi o que eu lhes disse, meu caro. Mas, seja como for, pedimos um pagamento mais condigno, pois correremos um grande perigo se lhes dermos proteção. Metade do planeta está atrás de vocês. A polícia segue todas as pistas. É bem possível que uma delas os traga até aqui, e se isso acontecer o trabalho de algumas décadas terá sido em vão.
Se aparecerem, vocês poderão contar com nosso auxílio — disse Marshall, mas sabia perfeitamente que as preocupações do saltador eram totalmente justificadas. — Dentro de mais alguns dias ficarão livres de nós.
O mais jovem dos dois saltadores inclinou-se para a frente e fitou Marshall.
Para onde pretendem ir? E quem lhes arranjará o dinheiro de uma hora para outra?
Marshall leu os pensamentos de Rodrigo: a impaciência crescia a cada segundo que passava. Não demoraria muito, e o conde impetuoso saltaria sobre os dois chantagistas de espada em punho. E isso não poderia acabar bem para ele, pois os saltadores estavam armados com radiadores de impulsos.
Faran, vocês terão de satisfazer-se com o fato de que ficaremos aqui até a chegada de nosso elemento de ligação, que trará o dinheiro. Tenham mais um pouco de paciência — virando-se para o conde, disse: — Você também, Rodrigo.
Os dois homens já eram bons amigos, e costumavam deixar de lado todo e qualquer formalismo. E o conde conhecia os dons telepáticos de Marshall e Laury. Por isso tirou a mão da espada, acenou lentamente com a cabeça e, usando o espanhol, por cautela disse:
Bem que gostaria de espetá-los, mas se você preferir, não ponho a mão neles.
O que é que ele está dizendo? — perguntou Berzan em tom desconfiado.
Ele acredita que nosso elemento de ligação deve aparecer ainda hoje.
Tomara — resmungou Berzan e levantou os olhos para a janela. — Vamos sair, mas não pense em tolices. A casa está muito bem vigiada. Qualquer tentativa de fuga seria inútil, pois alarmaríamos imediatamente a polícia de Trulan. Dispomos de outros esconderijos além deste, e por isso não encontrariam nossa pista. Mas não deixariam de pegar vocês.
Levantou-se juntamente com Faran e saiu da sala. A porta fechou-se com um baque. Uma chave pesada girou na fechadura.
Estavam sós.
Pelos deuses do sol de minha mãe! — disse Rodrigo, tremendo por todo o corpo. — Por que não damos uma lição a esses gananciosos ladrões estelares?
Porque temos de ser mais inteligentes que eles — preveniu Marshall, dando alguns passos pela sala. — Quem dera que soubesse em que área de Trulan nos encontramos. Trouxeram-nos para cá no meio da noite.
Pelo que sei, estamos num subúrbio — interveio Laury, que até então se mantivera calada. Segurou a mão fina do conde e lançou-lhe um olhar de ternura. — Para nós não importa o lugar em que estejamos. Até aqui podemos ser felizes, não é mesmo?
Marshall parou abruptamente.
Laury! — disse em tom áspero. — Não tenho nada contra sua felicidade, mas antes de mais nada temos de entregar o soro a Rhodan. A paixão de vocês roubou-nos todas as chances de conseguir a fórmula do elixir.
Em compensação temos uma amostra do soro maravilhoso — respondeu a moça, enrubescendo e batendo levemente no cinto do uniforme. — É verdade que é apenas um pequeno frasco, mas não deixa de ser uma amostra. É bem possível que nossos cientistas consigam analisá-la.
Se conseguirmos chegar a eles com a amostra — objetou Marshall. De repente mudou de assunto. — Por que não recebemos nenhuma notícia de Rhodan? Não compreendo.
Até agora quase não tivemos oportunidade de emitir impulsos mentais mais intensos, John. Quase nunca ficamos a sós e constantemente tivemos de fugir. Nossos impulsos mergulham no oceano de outros, emitidos pelos habitantes de Trulan. Além disso, a capacidade telepática de Rhodan é pouco intensa. Se pensarmos com maior concentração, talvez consigamos estabelecer contato. Rhodan já deve estar em Tolimon. Afinal, oito dias se passaram desde nosso último pedido de socorro — concluiu Laury.
Isso mesmo. A seguir, o transmissor entrou em pane — disse Marshall em tom amargo. — Vamos aproveitar o tempo para chamar Rhodan. Talvez tenhamos sorte. Quando os saltadores voltarem, será tarde. Nem de noite nos deixam em paz.
É verdade! — suspirou Rodrigo em tom amargurado e estreitou Laury ao seu corpo.
Seus lábios encontraram-se num beijo fugaz. Marshall praguejou e voltou-se discretamente, dizendo:
Rodrigo, quem sabe se você não quer ter a gentileza de deixar Laury em paz por um instante? Ela deve concentrar-se, a não ser que queiramos passar o resto dos nossos dias neste buraco. Mesmo que Rhodan fique dia e noite na “escuta”, para receber nossos impulsos, ele nunca conseguirá captá-los se estes não o atingirem em feixes compactos. Terá de identificar nossos impulsos em meio a milhares, e isso nunca será possível se não nos concentrarmos nele. Nem mesmo Gucky conseguiria, se estivesse aqui. Infelizmente não está.
Laury desprendeu-se suavemente dos braços do homem amado.
Ele tem razão, Rod. Nosso amor pode ficar para depois. O que importa no momento é nossa segurança e a entrega do soro. Se não o conseguirmos, tudo que fizemos terá sido em vão.
Marshall virou-se.
A senhora é uma mocinha muito sensata. Isso me dá novas esperanças.
Rodrigo levantou-se e franziu a testa.
Se você não fosse meu amigo, John, eu deveria ficar zangado com você. Mas reconheço que devemos dar atenção antes de mais nada à nossa tarefa. O que vou fazer enquanto vocês estiverem telepatizando?
Marshall suspirou aliviado e sorriu.
Nada, Rod. Sente naquela cama e fique refletindo. Se preferir pode dormir. Laury e eu pensaremos na nossa situação, com o máximo de concentração e em todas as direções. Quem dera que soubéssemos em que área de Trulan nos encontramos! Isso facilitaria nosso trabalho.
O conde sentou cerimoniosamente. A espada impedia-lhe os movimentos, mas não sabia separar-se da arma.
Vou dormir, pois estou cansado. Acordem-me assim que haja alguma novidade.
Estendeu-se sobre a cama. Logo se ouviram seus roncos regulares.
Marshall e Laury concentraram-se na tarefa.

* * *

Rhodan dispensou o carro e foi imediatamente ao hotel.
Ainda encontrou Gucky.
Já estava na hora de você chegar — disse este. — Marshall está aguardando auxílio de nossa parte. Já conheço a direção; é claro que não tenho meios de avaliar a distância. Terei de saltar.
Isso seria muito perigoso — respondeu Rhodan. — Também consegui estabelecer contato e prometi que apareceríamos dentro em breve. Tive muito trabalho para recusar o convite do presidente para uma visita ao zoológico. Pretendia ir até lá hoje de noite, para que dispuséssemos de todo o dia de amanhã para a inspeção. Quase chego a ter a impressão de que querem fazer amizade com o pretenso inspetor. Ao que tudo indica, não estão com a consciência muito tranqüila.
Como poderíamos encontrar Marshall se eu não saltar? — perguntou Gucky sem responder às palavras de Rhodan. — Terei que teleportar-me. No momento em que os impulsos chegarem, só precisaremos examinar a última parte do trajeto.
E eu? Vou ficar no hotel?
É claro que sim.
O rosto de Rhodan assumiu uma expressão séria no momento em que disse:
Meu caro, receio que você não esteja avaliando corretamente a situação. É verdade que cheguei aqui com um disfarce excelente, e até agora ninguém desconfia de nada. Mas tive oportunidade de ouvir a conversa de dois oficiais. O governo de Tolimon dirigiu uma consulta oficial para Árcon, a fim de descobrir se o inspetor Tristol realmente existe. Acho que não preciso explicar o que isso significa.
Também Gucky tornou-se muito sério.
A resposta já chegou?
É claro que não. O registrador de Árcon não funciona com tanta rapidez, mas tenho certeza de que o regente robotizado já deve ter percebido alguma coisa. Não podemos demorar muito em dar o fora. Por isso prefiro acompanhá-lo.
Vamos tentar os saltos de teleportação em conjunto?
É claro que não. Tomarei um táxi, de preferência um dos veículos aéreos mais rápidos, e seguirei suas etapas de deslocamento. Permaneceremos em contato; quanto a Marshall, basta que ele continue a pensar normalmente. Agora não o perderemos mais. Talvez acreditem que vou realizar uma inspeção durante a qual prefiro permanecer incógnito. Ninguém se atreverá a impedir-me.
Gucky suspirou e escorregou para fora da cama.
Marshall, está ouvindo? — pensou. — Avançaremos na sua direção. Continue a pensar. Para mim é indiferente que pense em salsichas bem quentinhas ou em cenouras. Se preferirem podem contar piadas. O que importa é que continuem acordados. Entendido?
Entendido! — foi a resposta que veio duplicada. Laury também estava pensando. — Apressem-se. Estão trazendo dinheiro para dar aos saltadores?
O pêlo da nuca de Gucky arrepiou-se.
Dinheiro para esses gatunos?
Rhodan resolveu intervir.
Distraia os saltadores até que nós nos encontremos com vocês. Saberei lidar com essa gente.
Gucky deu de ombros e colocou seu uniforme na mala de Rhodan.
Você e sua política de pacificação. Ela ainda lhe trará muitos problemas.
Não trará mais problemas que sua predileção pelas demonstrações de capacidade que você gosta de realizar no lugar errado. Sugiro que você nem apareça enquanto estivermos negociando com os agentes dos saltadores. Afinal, um certo rato-castor já penetrou na consciência dos saltadores de forma pouco agradável. Não estou interessado em reavivar a lembrança dessa aparição.
Isso não passa de uma vingança mesquinha — indignou-se Gucky. — Depois de fazer o papel de idiota por tanto tempo ainda tenho que manter-me de lado quando nossos amigos vão ser libertados. O que é que miss Laury vai pensar de mim? E mesmo esse conde esquisito que foi libertado do zoológico? Nada disso; irei com você.
Rhodan ergueu as sobrancelhas, num gesto de espanto.
Você é um sujeito muito decidido, pequeninho. Você quer colocar todo o grupo em perigo?
Isso não! Mas se minha aparição não despertou nenhuma lembrança entre os aras, isso provavelmente também não deverá acontecer com os saltadores, que por certo nunca ouviram falar do planeta Terra ou de Gucky. Acho que sua precaução é exagerada.
Rhodan era homem de não recuar em suas decisões, mas sabia ceder vez ou outra diante de um argumento mais forte. Para que deixar Gucky ainda mais aborrecido? Provavelmente o rato-castor estava com a razão: ninguém se lembraria de sua figura. Já fazia muito tempo.
Concordou com um aceno de cabeça.
Está bem, Gucky. Você ganhou. Trabalharemos em conjunto.
O rato-castor não demonstrou sua satisfação; era muito inteligente para isso. Limitou-se a esboçar um sorriso alegre e ajudou seu chefe a fazer a mala, exibindo logo o rosto do servo fiel.
Oh, meu chefe e senhor — chiou em tom teatral, inclinando-se até quase tocar o chão com a cabeça. — Quer que carregue as malas para fora, ou prefere que as teleporte até nossa boa nave Koos-Nor?
Pode teleportar, verme miserável — respondeu Rhodan no mesmo tom teatral e esperou que Gucky desaparecesse juntamente com a mala. Aproveitou o tempo para examinar os instrumentos de controle remoto, que trazia no bolso. Ainda não desconfiava da importância que os mesmos viriam a desempenhar ainda antes do pôr do sol.
Gucky voltou e informou:
Tudo em ordem a bordo. A nave permanece no espaçoporto, sem que ninguém a tocasse ou a molestasse. Apenas notei alguns cruzadores ligeiros, que se postaram discretamente nas proximidades.
É estranho — murmurou Perry Rhodan. — Realmente, é muito estranho. Não é possível que já tenham recebido notícias de Árcon. Se tiverem, ainda deverão estar na suposição de que existe um inspetor chamado Tristol. Não demonstrarão abertamente sua desconfiança.
E se demonstrarem? — resmungou Gucky cheio de impaciência. — O que estamos esperando? Quero conhecer o tal do conde Rodi... ri... rigo.
Rodrigo — corrigiu Rhodan. — É um membro da velha nobreza espanhola do século dezessete. Na sua época, era um homem bastante conhecido. Mas é bom que tenha cuidado. O sujeito é muito esquentado e talvez chegue mesmo a ser um pouco supersticioso. Não brinque com ele. Em sua era, um nobre vingava qualquer ofensa com um duelo mortal. E tenho lá minhas dúvidas quanto suas habilidades no manejo da espada.
Por que está falando em ofensa? — perguntou Gucky perplexo. — Nem pensei em ofendê-lo, apenas pretendo mexer um pouco com ele...
Pois terá uma surpresa — profetizou Rhodan e caminhou em direção à porta. — Vamos embora; não temos tempo a perder. Dentro de três ou quatro horas estará escuro, e até lá precisamos encontrá-lo.
Pode ficar tranqüilo! — disse Gucky com um sorriso e caminhou atrás do seu senhor.
Uma vez no corredor, voltou a transformar-se no criado submisso. Com uma cara ingênua e estúpida, esforçou-se para acompanhar Rhodan, o que só conseguiu em parte. Gucky só recuperou a desvantagem porque Rhodan pediu um táxi aéreo, o que o fez esperar na rua.
Você bem que poderia andar um pouco mais devagar — fungou o rato-castor, quando se viu diante do hotel, ao lado de Rhodan. Um veículo de cabine desceu silenciosamente sobre o gramado muito bem tratado. — Da próxima vez, vou me teleportar e farei com que você corra atrás de mim.
Não se atreva a fazer uma coisa dessas — preveniu-o Rhodan e entrou na cabine. Gucky seguiu-o. O piloto assustou-se quando viu o uniforme do inspetor e por pouco não afunda embaixo do painel de controle de seu veículo aéreo.
E agora faça o favor de calar a boca e comportar-se como um criado submisso, pois do contrário esta será a última vez em que trabalhamos juntos.
A ameaça telepática deixou Gucky tão assustado que o rato-castor se recolheu silenciosamente no assento traseiro e bloqueou seus pensamentos. Rhodan desconfiava de que os mesmos não seriam muito lisonjeiros para sua pessoa, mas no momento isso não importava nem um pouco. Era necessário dar uma ducha fria na petulância de Gucky.
Voe devagar e exatamente na direção norte — ordenou ao piloto junto ao qual se sentara. — Só modifique a rota quando eu mandar. Não voe muito alto. Quero examinar a cidade com toda a calma.
Farei o que ordenar, venerando inspetor.
Rhodan não respondeu. Olhou para a frente, enquanto a nave subia a cinqüenta metros de altura. Nessa altitude, não havia nenhuma torre ou arranha-céu, motivo por que não existia o risco de colisão.
Os impulsos mentais de Laury já haviam silenciado. Só Marshall continuava a “transmitir”. Pensava em tudo quanto fosse possível para manter-se acordado, embora fosse dia claro. Rhodan concluiu que os fugitivos deveriam estar por demais cansados.
Não é necessário saltar — disse a Gucky, usando a língua inglesa para que o piloto não o entendesse. — Continuaremos a voar nesta direção até que os impulsos venham de baixo. Nesse instante, estaremos sobre o lugar em que Marshall se encontra.
E foi o que fizeram.

* * *

O conde Rodrigo acordou quando Marshall o sacudiu. Laury estava sentada esfregando os olhos.
Estão exatamente em cima de nós. São Gucky e Rhodan — Marshall apontou para o teto. — Encontramo-nos numa casa solitária situada na periferia da cidade. Está cercada por um grande parque. Deve ser um dos quartéis-generais dos saltadores.
Gucky também veio? — Laury acordou imediatamente. — Que sorte! Gucky é o maior herói que já vi.
A estima de que o rato-castor gozava junto às criaturas do sexo feminino era bem conhecida, mas Rodrigo ainda não sabia quem era Gucky. Levantou-se devagar, lançando um olhar de espanto para Laury.
Que herói é este? — perguntou, esticando as palavras. Sua mão aproximou-se instintivamente da espada. — Se alguém tem o direito de protegê-la, sou eu. Será que tenho um rival no seu coração?
Marshall exibiu um ligeiro sorriso e lançou um olhar de advertência para Laury.
Tenha cuidado com Gucky — disse apressadamente. — Laury tem razão: realmente é um herói. Não conheço nenhuma mulher que não goste dele. Não sei por que Laury devia ser uma exceção. Você terá de conformar-se com este fato, Rod.
Jamais — disse Rodrigo, levantando-se e caminhando furiosamente de um lado para outro. — Jamais tolerarei a existência de um rival. Terá que bater-se comigo em duelo.
Você levará a pior — preveniu Marshall com a cara mais séria do mundo. Sabia que Gucky estava acompanhando a palestra e esperava que o encontro do rato-castor com Rod lhe proporcionasse uma pequena distração. — Gucky é um dos melhores mutantes que temos.
Mais um desses sujeitos dotados de capacidades supersensoriais? — perguntou o conde em tom de decepção. — Ao que parece, muita coisa mudou na Terra. O mundo está sendo governado por feiticeiros.
Aguardemos — disse Marshall e voltou a concentrar-se.
Também Laury parecia ter esquecido o conde. Entrara em contato com Rhodan.
Pousaremos com o planador bem perto da casa — anunciou Rhodan. — Não precisamos do piloto. O que devo fazer com ele?
Traga-o com você — respondeu Marshall. — Fugiremos com o táxi aéreo e trancaremos o ara nesta casa. É muito simples.
E os saltadores que estão vigiando vocês? Bem, aparecerei na minha qualidade oficial de inspetor. Isso os intimidará.
Talvez já tenham ido embora.
Talvez.
Mais quinze minutos passaram-se. Mantiveram a ligação telepática, mas não estabeleceram mais nenhum contato direto. O conde Rodrigo mantinha um silêncio obstinado e, vez por outra, lançava um olhar sombrio para Marshall.
Assustaram-se quando de repente a porta abriu-se violentamente e Berzan penetrou no recinto em que estavam presos.
É o inspetor de Árcon! — fungou. — Pousou no parque e está caminhando em direção a casa. Vocês têm uma idéia do que deseja de nós?
Marshall manteve a calma; acenou lentamente com a cabeça.
Talvez, Berzan, talvez. Nesta hora não seria conveniente se chegássemos a um acordo?
Pois foi o que fizemos o tempo todo — retrucou o saltador, que fez uma cara um tanto assustada. — É claro que não dissemos ao arcônida que vocês estavam aqui. Como é que ele ficou sabendo da presença de vocês?
Isso mesmo — disse Marshall com a maior tranqüilidade. — Como poderia saber?
Rodrigo parecia convencido de que, naquele instante, somente uma demonstração de bravura poderia convencer a querida Laury de que ele era o único cavaleiro digno de seu coração. Num movimento fulminante tirou a espada da bainha, adiantou-se alguns passos e colocou a ponta afiada sobre o peito de Berzan, que ficou perplexo.
Patife miserável! — exclamou em tom dramático e decidido. — Você muda de opinião tão depressa, como o vento que infla as velas muda de direção. Pois é bom que saiba que podemos fazer a mesma coisa. Daqui por diante, dispensamos a proteção de seu clã; logo, não receberão qualquer paga. E, quanto ao inspetor, traga-o à nossa presença. Rápido, senão lhe farei cócegas com minha espada.
Espere aí! — interveio Marshall. — É preferível que Berzan nos leve para cima. Iremos juntos para cumprimentar o ilustre visitante.
O saltador preferira não sacar a arma. Não tinha a intenção de fechar aquela fonte de dinheiro, que parecia tão promissora. Naquele momento a visita do arcônida representava um perigo para todos. Depois que esse perigo tivesse passado, veriam adiante...
Sem preocupar-se com Rodrigo, virou-se, abriu a porta e caminhou à frente dos outros. Marshall e os outros seguiram-no. Sabiam qual era a surpresa que aguardava os saltadores, e também sabiam que a situação desagradável em que se encontravam logo chegaria ao fim.
Infelizmente se esqueciam da circunstância desfavorável, que já estragara muitos cálculos bem elaborados.
Era a circunstância que geralmente costuma ser designada como o acaso.
4



Glogol, inspetor-chefe do Império de Árcon, encontrava-se numa viagem de rotina. Naquele instante, aproximava-se do sistema solar da estrela de Revnur, a fim de visitar o segundo planeta, denominado Tolimon.
Estava acompanhado de dois cruzadores pesados, que dariam a necessária ênfase às exigências que viesse a formular. Glogol, acompanhado apenas de alguns criados e da tripulação habitual, viajava num iate de luxo que tinha uma espantosa semelhança com certa nave designada pelo nome Koos-Nor.
Glogol era um arcônida das classes dominantes. Suas enormes faculdades mentais e sua capacidade de decisão levaram o regente robotizado a confiar nele. Era alto, tinha cabelos brancos e olhos avermelhados: tinha exatamente o aspecto de Rhodan no seu disfarce atual. O vistoso uniforme também era uma duplicata do de Perry.
Fez um sinal ao telegrafista.
Entre em contato com Tolimon. Anuncie nossa visita. Quero uma recepção de chefe de Estado, um alojamento condigno e um corpo de criados. Os representantes do governo devem comparecer ao espaçoporto.
Perfeitamente, inspetor — respondeu o telegrafista solícito e desapareceu na sala de rádio. Menos de dois minutos depois, voltou com uma expressão de enorme espanto.
Inspetor...! — gaguejou assustado. — As autoridades espaciais de Tolimon querem falar com o senhor antes de conceder a permissão de pousar.
Glogol levou quase dez segundos sem conseguir proferir uma única palavra; depois disso quase explodiu.
O quê? Querem recusar obediência às ordens de um inspetor? Será que os aras querem revoltar-se de novo? Que insolência!
Dizem que se trata da medida VB-17 — interrompeu o telegrafista sem compreender nada.
O comportamento de Glogol mudou de um instante para o outro.
Por que não disse isso logo, seu idiota? É claro que com isso as coisas mudam de figura — levantou-se. — Vamos logo; mostre onde fica o microfone.
Glogol não estava muito versado em assuntos técnicos, mas afinal isso não fazia parte de sua profissão. De qualquer maneira, viu na tela o rosto de um ara que lhe lançava um olhar desconfiado. O espanto era sincero.
Será que o senhor realmente é um arcônida? — gaguejou o homem na tela, como se tivesse esperado outra coisa. — Por que será que nos mandam dois inspetores ao mesmo tempo?
Glogol parecia ter levado um choque. Desconfiou imediatamente.
Dois inspetores? O que quer dizer com isso?
Desde ontem o inspetor Tristol encontra-se em Tolimon, senhor. Recebeu instruções de inspecionar a administração do zoológico.
Ah, é? — disse Glogol e inclinou a cabeça. — Tristol? — parecia refletir. Subitamente um sorriso brincou em torno de seus lábios. — Espero que esse Tristol esteja presente no espaçoporto quando minhas naves pousarem.
No momento, está realizando um vôo de inspeção. Não temos meios de entrar em contato com ele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html