quinta-feira, 28 de março de 2013

P-063 - Os Microtécnicos - Clark Darlton [parte 2]


Quem? — perguntou Gucky. — Os swoons?
Não, os aparelhos que estão fabricando. Mal se consegue vê-los a olho nu.
Eles sabem construir transmissores que podem ser guardados no buraco de uma agulha — disse Kulman. — Vi verdadeiras maravilhas. Se fosse contar...
Um momento! — disse Sengu, que não permitia que sua atenção se dispersasse. — As instalações que ficam embaixo de nós são gigantescas. Não consigo vê-las de uma só vez. Se continuarmos a usar este método, a busca demorará alguns meses. Será que Rhodan pode esperar tanto?
É claro que não — disse Gucky, fitando a rocha com uma expressão de inveja. Tal qual Kulman, via a rocha e nada mais. Tudo que ficava abaixo da mesma era invisível aos seus olhos.
Wuriu Sengu, o espia japonês, continuou:
Têm estradas de ferro que ligam os diversos bairros da cidade e transportam as mercadorias. Para onde, Kulman?
Para as cidades situadas na superfície — informou o agente. — E para os espaçoportos. É lá que são negociadas; em Swoofon praticamente não se produzem alimentos. Ainda não consegui descobrir como viviam os swoons antes que fossem descobertos pelos saltadores. Até hoje ninguém me disse.
Acredito — disse o japonês — que as ruas sejam bastante largas. E os edifícios também. Acho que deveríamos fazer uma visita à cidade. Parece que não teremos dificuldade em deslocar-nos.
Acontece que as entradas para as cidades subterrâneas são muito estreitas — disse Kulman. — Já tentei.
Vamos teleportar — disse Gucky com um súbito interesse. — Não haverá o menor problema. Apenas, preciso conhecer a distância, pois do contrário poderemos materializar-nos em plena rocha.
Mantiveram-se em silêncio, enquanto o rato-castor captava por via telepática os impulsos mentais dos seres que viviam embaixo da superfície, a fim de estabelecer a localização exata. Enquanto isso Sengu procurou um lugar em que pudessem aparecer sem enfrentar maiores riscos. O melhor local que encontrou foi uma praça central, na qual infelizmente o tráfego de veículos era muito intenso.
Eles já sabem o que aconteceu — disse Gucky depois de algum tempo. — O funcionamento de seu sistema de comunicação é excelente. Mas os fatos em nada alteraram seu estilo de vida. Fazem de conta que não aconteceu nada.
Daqui a pouco vão arregalar os olhos — anunciou Sengu, enquanto segurava o braço do rato-castor. — Vamos, Kulman; o que está esperando? Gucky já pode saltar.
E Gucky saltou.

* * *

O vulto do saltador Drog deslocava-se cautelosamente pelo túnel de dois metros de altura que ligava os dois laboratórios. Pisou sem o menor cuidado sobre os minúsculos trilhos. Os grupos de reparos dos swoons teriam bastante trabalho.
O túnel estava bem iluminado, e o funcionamento do sistema de condicionamento de ar era impecável. A brisa fresca não permitia que ninguém se sentisse sufocado no subsolo.
Drog praguejava baixinho. Tinha de mover-se com a máxima cautela, pois do contrário a gravitação reduzida faria com que fosse atirado para cima. Bastava que suas pernas desenvolvessem um pouco de energia a mais, para que sua cabeça batesse no teto. Isso já lhe havia acontecido uma vez, por isso costumava andar com a maior cautela.
Tinha uma tarefa a cumprir, e ele a cumpriria. Afinal, não permaneceria para sempre neste planeta maluco, habitado por estranhas criaturas de tamanho reduzido, conhecidas como os swoons, os melhores microtécnicos do cosmos.
O túnel descreveu uma curva e começou a subir levemente. O centro de projetos, lugar em que deveria encontrar-se com Markas, não estava muito longe. Ainda hoje chegariam a uma decisão sobre se o projeto logo seria levado avante ou não.
Que diabo! Tenho de percorrer o trajeto a pé, porque os comboios são pequenos e frágeis demais para transportar-me”, pensou.
Na superfície não havia maiores problemas, pois a gravitação reduzida favorecia a locomoção. Mas ali embaixo as coisas eram diferentes.
Drog voltou a praguejar. A barba bem cuidada revelava que era um saltador, ao passo que o jaleco branco o identificava como médico ou cientista. Acontece que os únicos médicos eram os aras; logo, Drog era um técnico dos saltadores. Em seus olhos não se notava a costumeira impetuosidade dos mercadores galácticos. Além disso, os traços de astúcia e especulação estavam quase totalmente ausentes. Nos olhos de Drog brilhava apenas “um pouquinho de futuro”, como diria Bell.
Aos pés de Drog, os trilhos voltaram a correr na vertical, e o túnel tornou-se mais largo. Havia vários desvios, conforme costuma acontecer junto às estações. O teto tornou-se mais elevado e as luzes mais numerosas. Drog conseguiu enxergar melhor.
Não demoraria a chegar ao destino.
Parou por alguns segundos para presenciar os trabalhos de carga de um trem que se encontrava junto a uma rampa. A locomotiva, que não tinha mais de um metro de comprimento e menos de cinqüenta centímetros de altura, puxava uns vinte vagões.
Na cabine viam-se dois swoons, que não se perturbaram com a presença do saltador. Faziam o trem avançar a intervalos regulares, e paravam até que a fita condutora enchesse mais um vagão. Drog não pôde ver o que estava sendo transportado. Por certo seriam produtos da fábrica mais próxima. Talvez minúsculos aparelhos de televisão. Drog sabia que as telas desses aparelhos não eram maiores que a unha de um dedo humano, isto sem falar nas câmaras, que poderiam ser montadas perfeitamente na pedra de um anel.
Prosseguiu até chegar a uma área livre, cercada por edifícios baixos. Para os swoons eram construções respeitáveis. Mas Drog teve a impressão de tratar-se de simples barracos.
Num dos edifícios haviam arrancado várias paredes e os tetos de alguns pavimentos, para dar lugar a Drog. Ali o saltador podia andar livremente, sem recear a toda hora que sua cabeça pudesse bater em algo.
Entrou na sala e com um suspiro de alívio sentou-se numa banqueta, que originariamente fora uma cama de casal dos swoons. A pequena mesa havia sido fabricada sob encomenda.
Markas já se encontrava presente. Embaixo do solo, a cor amarela de sua pele parecia pálida e doentia, muito embora à luz do sol a cor dos swoons não fosse muito diferente dessa.
A pequena criatura estava sentada sobre a mesa e estudava alguns papéis que eram maiores que ele. Parecia haver alguns pontos obscuros, que gostaria de ver esclarecidos.
Drog levantou-se, foi a uma prateleira embutida na parede e pegou uma caixinha. Tratava-se do costumeiro tradutor eletrônico, indispensável a qualquer tipo de comunicação entre os swoons e os saltadores.
Colocou-o sobre a mesa e voltou a sentar.
Então, Markas, examinou os desenhos? O que acha?
Antes de formar um juízo definitivo, gostaria de fazer uma pergunta, saltador. O aparelho se destina a finalidades bélicas?
Drog sacudiu a cabeça; parecia indignado.
De forma alguma, Markas! Apenas servirá para localizar nossas frotas mercantes. Já lhe expliquei que...
O senhor me disse que isto representava um progresso na navegação espacial — confirmou o pequeno swoon sem abalar-se. — É claro que não posso formar um juízo sobre a veracidade de suas informações. Não me resta outra alternativa senão confiar na sua afirmativa. Conforme sabe, qualquer material de guerra só pode ser fabricado com licença expressa do regente. Não pretendo violar esta regra.
Por dentro Drog fervia de raiva, mas nem pensou em demonstrá-la. Os swoons eram criaturas difíceis, que se melindravam por qualquer coisa. Quem quisesse conquistar sua benevolência, teria de derramar-lhes bajulações. Não havia outra alternativa.
Em toda a Galáxia não existe ninguém que seja capaz de construir este aparelho a não ser vocês, Markas. Certas peças são tão pequenas que qualquer outra criatura só poderia manipulá-las com um microscópio. Vocês não precisam de um microscópio para enxergá-las. Só vocês podem ajudar-nos. Saberemos recompensá-los condignamente.
Não é só disso que se trata — asseverou o swoon em tom enérgico e com um orgulho indisfarçável. — O senhor ainda não respondeu à minha pergunta relativa ao robô regente.
É claro que o regente não tem nenhuma objeção à construção deste aparelho, que passará a ser produzido em série, caso se consagre na prática. Não sei o que poderia ter contra isso?!
Hum — fez Markas e dirigiu seus olhos salientes sobre o saltador. — Será que o senhor pode explicar por que o regente mandou isolar o sistema de Swaft e confiscou todas as naves dos saltadores estacionadas em Swoofon?
Drog empalideceu. A ponta da barba começou a tremer.
O quê? — exclamou. — O que foi que o senhor disse? Então Árcon... Não é possível!
Pois veja com seus próprios olhos — disse Markas e saltou da mesa. Desceu devagar a apoiou-se sobre os seis membros. Saltitou em direção à parede, onde se via um pequeno quadro de comando. Uma tela, que começava a meio metro do solo, cobria uma área de cerca de um metro quadrado. — Temos uma ligação direta para Swatran, a capital.
A tela começou a iluminar-se. Drog teve de abaixar-se para enxergar melhor.
Aqui o senhor vê parte do espaçoporto — falou Markas.
As imagens projetadas sobre a lâmina convexa adquiriram contornos nítidos, oferecendo uma visão bastante real dos objetos. Só se via parte das gigantescas esferas espaciais dos arcônidas. Alguns dos robôs de combate haviam sido desembarcados e montavam guarda, com as armas energéticas levantadas, prontas para disparar. Fora disso, o campo de pouso parecia deserto.
As câmeras giraram, abrangendo outro setor do espaçoporto.
Como vê — prosseguiu Markas em tom indiferente — as peças de artilharia dos couraçados espaciais estão apontadas para as naves dos saltadores, que por isso mesmo não têm a menor possibilidade de evadir-se. Árcon ordenou que nenhuma nave poderá decolar. Além disso, o inspetor Rhodan anunciou...
Como é mesmo o nome do inspetor? — exclamou Drog, estreitando os olhos. — Rhodan?
Isso mesmo. O senhor o conhece?
O nome não me parece estranho — disse Drog, revirando desesperadamente a memória. — Gostaria de saber onde já o ouvi.
Refletiu por alguns segundos e sacudiu a cabeça.
Se não estou enganado, o nome Rhodan está ligado a certos acontecimentos que provocaram muita agitação. Mas isso já faz muito tempo. Bem, ainda hei de me lembrar — levantou os olhos. — Os arcônidas deram qualquer informação sobre o motivo das medidas por eles adotadas?
O pequeno swoon atravessou a sala e pôs-se a lidar com os controles de um pequeno transmissor. Executou um estranho movimento com os quatro membros superiores, como se quisesse dizer: Por que dirige esta pergunta a mim?
Pensei que o senhor soubesse — disse. — É bem possível que Árcon não concorde inteiramente com o aparelho que nos foi encomendado.
Por que não haveria de concordar?
Pois com ele, os inimigos de Árcon seriam... — começou o saltador num momento de irreflexão, mas logo reconheceu seu erro. — O que quero dizer é que...
Obrigado — disse o swoon com uma ligeira satisfação na voz. — O senhor acaba de trair-se. Sei perfeitamente que no íntimo seu povo nos despreza, e só nos trata de igual para igual porque precisa dos nossos préstimos. Os swoons são os melhores micromecânicos do...
Não há ninguém que não saiba apreciar este fato, e ninguém preza os swoons tanto quanto nós — disse Drog em tom patético, mas sem muita convicção. — Os mal entendidos surgem em qualquer tipo de relacionamento, e um bom amigo sempre deve procurar esclarecê-los.
É o que estou fazendo — respondeu Markas, girando os olhos, gesto que equivalia a um aceno de cabeça.
Voltou a manipular os controles. Depois de algum tempo, uma pequena tela iluminou-se, e nela surgiu o rosto de outro swoon. O tradutor eletrônico de Drog ainda estava em funcionamento, motivo por que pôde acompanhar a palestra.
Há alguma novidade, Habrog?
O swoon que aparecia na tela fez um gesto afirmativo.
Há, sim, Markas. Árcon está à procura de um criminoso e tem motivo para supor que ele se encontra em Swoofon. Dizem que é um saltador.
Hum — fez Markas e lançou um olhar para Drog. — O que foi que esse saltador fez?
Sobre isso não temos nenhuma informação — respondeu Habrog. — Os decanos de Swatran falaram com o inspetor de Árcon, mas a única coisa que conseguiram saber foi que estão à procura de um criminoso. Deram-se por satisfeitos com isso. Não temos nada a ver com o caso.
Ainda bem — disse Markas, encerrando a palestra e desligando o aparelho. Lentamente virou o rosto em direção a Drog: — Não é impossível que se trate desse goniômetro, saltador. Enquanto não tiver certeza a este respeito...
Acontece que já pagamos uma entrada, Markas — falou Drog, esticando as palavras. — O senhor não pode romper o contrato! Além disso, garanto-lhe que não temos nada a ver com o criminoso procurado.
Markas hesitou um pouco. De repente disse:
Está bem; acredito no que está dizendo. Tomarei todas as providências para que o primeiro modelo seja construído e experimentado o quanto antes. Acho que concordarão em colocar uma das suas naves à nossa disposição, para a realização da experiência. Basta montarmos o novo goniômetro na mesma, sairmos para o espaço e mandar saltar outra nave com o compensador ligado. É isto que o senhor quer?
Exatamente — respondeu Drog em tom alegre e levantou-se. Já estava com as costas doloridas. — Posso voltar à superfície e comunicar aos meus chefes que o senhor manifestou sua concordância definitiva?
Perfeitamente — disse o swoon em tom compenetrado. — Pode fazer isso.
Ao chegar à porta, Drog perguntou:
Já tem alguma idéia sobre o lugar em que será fabricado o aparelho? Não seria conveniente concentrar a produção numa única instalação?
Isso já foi previsto nos nossos planos, saltador.
O rosto de Drog iluminou-se.
Suponho que seja aqui.
Não, será duas horas de vôo ao norte. Depois de estudarmos os planos que o senhor nos entregou, julgamos conveniente instalar a fábrica num local isolado. Todas as peças serão fabricadas lá. De resto, tudo que for necessário poderá ser trazido de outro lugar. Temos uma linha ferroviária subterrânea.
Drog parecia um tanto decepcionado, mas nem pensou em dar vazão à sua contrariedade.
Muito bem. Nesse caso eu me instalarei por lá. Conforme já é do seu conhecimento, fui nomeado chefe de construção do projeto.
Quem foi que o nomeou? — perguntou Markas em tom indiferente.
Não obteve resposta, pois apenas viu as costas largas de Drog desaparecerem pela porta, que ocupava dois pavimentos do edifício.
Dali a dois segundos, as sereias de alarma soaram em seu setor.
3



Assim que se materializaram, uma força irresistível comprimiu-os contra o solo.
Gucky teve mais sorte, pois ainda conseguiu manter-se de pé no corredor baixo. Sengu e Kulman, porém, tiveram que abaixar-se e foram parar em posição agachada.
Tivemos azar — disse Kulman, esfregando a nuca. — Viemos parar num canal de transporte. Sinto os trilhos.
Raramente erro nos cálculos — disse Gucky em tom indiferente. — Mas desta vez aconteceu.
É o que estamos vendo — disse o japonês em tom distraído, esforçando-se para orientar-se. Fitou a parede abaulada do túnel, que foi atravessada por seus olhos. — Esta área é muito interessante!
Gostaria de saber o que existe de interessante por aqui?! — indagou Gucky admirado. — Estamos embaixo da terra, e é só.
Este túnel não é o único — objetou Sengu, sem diminuir a concentração. Sentado e encostado à parede, fitava a rocha em frente. — Deve haver uma rede completa de túneis deste tipo, que liga as cidades e as fábricas. Se não tivesse estado na superfície, chegaria à conclusão de que os swoons vivem exclusivamente no subsolo.
É o que acontece com algumas de suas nações — observou Kulman, que afinal devia estar informado sobre isso. — São especialmente aquelas que vivem nas áreas mais afastadas do equador. Além disso, as fábricas costumam ser construídas sob a superfície. Muitas vezes tive a impressão de que os swoons procediam assim para eliminar qualquer possibilidade de espionagem.
É um motivo bem plausível — disse Sengu, passando a concentrar-se em outro setor daquele reino subterrâneo. — Dificilmente alguém poderia molestá-los por aqui. Até nós tivemos dificuldade em chegar ao lugar em que nos encontramos.
Os olhos de Gucky já se haviam acostumado à escuridão, que não chegava a ser completa porque ao longe havia uma luz no teto. Parecia que essa iluminação era considerada suficiente para esse trecho dos trilhos. Provavelmente nem se contava com a possibilidade de que pessoas não autorizadas pudessem andar pelos túneis.
De repente, Gucky teve a impressão de estar ouvindo um ruído.
Aguçou o ouvido na direção da lâmpada, que ficava pelo menos a uns trezentos metros. Naquela direção, o túnel descrevia uma curva. Na verdade, ouviu um ligeiro sussurro e teve a impressão de que os trilhos tremiam sob seus pés.
Um trem está chegando! — disse Sengu de repente, lançando os olhos pelo túnel. — Está a uns dois quilômetros, mas desenvolve uma velocidade bastante elevada. Vamos embora, Gucky. Temos de saltar.
Para onde? — perguntou Gucky com a voz tranqüila. — O trem chegará até aqui antes que eu termine meus cálculos. E não vou arriscar-me a saltar para um cano de esgoto ou para um alto-forno. Tivemos sorte em parar neste túnel.
Mas o trem...
Ele não nos fará nada — prometeu o rato-castor. — Os swoons são indivíduos pequenos e suas locomotivas não devem ser muito grandes. Se necessário, deterei o trem com a mão esquerda. Mas isso não é necessário. Afinal, para que serve minha capacidade telecinética? Sengu, avise-me quando estiver na hora.
Está na hora — disse Sengu, que viu a luz do teto apagar-se. — O trem aproxima-se numa velocidade considerável. A máquina de tração é grande; tem mais de um metro de comprimento. Será que você consegue detê-la?
Gucky já havia segurado objetos muito maiores. Certa vez, fizera um caça espacial de propulsão atômica descrever acrobacias no ar, contra a vontade do piloto.
Esse Sengu sabe muito bem que consigo deter uma locomotiva de brinquedo...”, pensou o rato-castor.

* * *

Rulf-On, que há dez anos percorria regularmente o trecho entre as fábricas da área norte e a cidade de Gorla, abaixou devagar a chave, para que o trem desenvolvesse a velocidade máxima. Tinha diante de si mais de duzentos quilômetros. Evidentemente que as unidades de medida dos swoons eram outras, diferentes das dos terranos ou dos arcônidas, mas a extensão do trecho, devidamente convertida, corresponderia a essa distância.
Havia mais uma curva, e depois dela haveria uma reta que chegava quase até o ponto de destino.
Rulf-On lançou um olhar sobre o velocímetro e estacou.
Caramba, o que estaria havendo de errado? A esta hora, a velocidade deveria ser muito maior. Entretanto cai rápida e assustadoramente. Uma pane no interior desse túnel estreito seria um acontecimento nada agradável! — comentou admirado.
Rulf-On puxou a alavanca do acelerador para trás e voltou a empurrá-la para a potência máxima. Nesse instante, a energia deveria fluir dentro da máquina e o trem daria um verdadeiro salto para a frente.
Mas nada disso aconteceu!
Pelo contrário. O trem parou e começou a andar para trás. Não ia com muita velocidade e parecia mover-se a contragosto.
Foi por puro acaso que naquele instante Rulf-On olhou para a frente. Teve a impressão de, na luz forte da locomotiva, perceber uma sombra gigantesca deitada nos trilhos. Não, não era apenas uma sombra, mas várias. Talvez três.
Pelo tamanho só poderiam ser dos saltadores ou mercadores galácticos. O que é que estes poderiam procurar aqui embaixo? E como vieram parar neste lugar? O túnel levava diretamente para Gorla. Será que os saltadores — se é que realmente eram seres desta raça — rastejaram até aqui? Por quê? Muitos deles podiam andar à vontade pelas fábricas subterrâneas. Por que estariam dando tamanha volta?
É claro que Rulf-On não encontrou resposta a estas perguntas, ainda mais que se defrontava com outro problema, que evidentemente havia de interessá-lo muito mais: por que de repente o trem passou a andar em marcha à ré?
Infelizmente não conseguiu resolver nem mesmo este problema, pois, dali a poucos minutos, chocou-se com um trem de carga que se deslocava na direção em que ele seguira antes. Felizmente o cargueiro mal começara a sair do lugar. De qualquer maneira, o choque foi tão violento que Rulf-On perdeu os sentidos e só os recuperou bem mais tarde, no hospital.
Perguntaram-lhe por que andara em marcha à ré.
Mas a mesma pergunta, ele já havia formulado em vão a si mesmo.

* * *

Não sei se a melhor solução foi esta — disse Sengu.
O que poderíamos fazer? — perguntou Gucky, um tanto sentido. — Vocês deveriam ficar satisfeitos por não terem sido atropelados por este veículo dos “pepinos”.
Afinal, a única coisa que eu poderia fazer era mandá-lo de volta.
Deste jeito nunca chegaremos ao ponto que queremos — interveio Kulman. — Precisamos conversar com os cientistas dos swoons, para descobrir alguma coisa sobre o aparelho que pretendem fabricar. Podemos apresentar-nos como delegados do Império.
Será que não somos? — indagou Gucky, que parecia estar indignado. — Estamos agindo por conta de Rhodan, um dos representantes do Império de Árcon.
Está bem; vamos agir — disse Sengu. — A estação da qual partiu este comboio fica a três quilômetros daqui. Vamos rastejar para lá?
Agradeço — disse Kulman sem fazer um movimento. Olhou para Gucky.
O rato-castor suspirou.
Procurarei estabelecer a localização exata do ponto de destino; depois saltaremos. Não gosto de passeios prolongados, ainda mais nas circunstâncias em que nos encontramos.
Dali a cinco minutos, materializaram-se em meio a uma imensa área de oficinas, iluminada por fortes lâmpadas. Em todos os lugares viam-se edifícios, cujos telhados chegavam a tocar a rocha. Considerando o tamanho reduzido dos swoons, concluía-se que estas instalações subterrâneas representavam um projeto gigantesco. Havia verdadeiras estradas, onde veículos dos mais diversos tipos corriam velozmente de um lado para outro. As fitas transportadoras traziam os swoons aos locais de trabalho e levavam-nos para casa. Os numerosos entroncamentos mostravam que havia um tráfego intenso entre a estação, as cidades e as fábricas vizinhas. Tudo aquilo parecia um brinquedo superdimensionado, construído bem embaixo da superfície.
Nunca estive aqui embaixo — disse Kulman. — Não quiseram mostrar-me o caminho para suas fábricas.
Isso é perfeitamente compreensível — disse Sengu. — Têm medo de que uns gigantes como nós pisemos em suas instalações. Afinal, temos aproximadamente seis vezes o tamanho deles, o que já é alguma coisa.
Tenho apenas três vezes o tamanho deles — disse Gucky. Ao que parecia, sentia-se um tanto contrariado. — Tomara que não se espantem quando me virem. Por enquanto só devem conhecer os arcônidas e os saltadores.
Suas presenças já haviam sido notadas.
Seria de supor que o aparecimento repentino daqueles três seres deveria provocar uma tremenda agitação, ainda mais que não havia qualquer ligação direta com a superfície.
Entretanto os swoons mantiveram uma atitude relativamente calma.
Alguns deles saltaram das fitas transportadoras e desapareceram nos edifícios mais próximos. Outros aproximaram-se e, muito curiosos, pararam a uma distância adequada, olhando-os como se nunca tivessem visto um ser humano. Nos seus rostos não se lia o pânico, mas apenas a sede do conhecimento. Via-se que gostariam de saber o que aqueles seres que, segundo acreditavam, eram saltadores, vieram fazer por ali.
Um swoon um pouco maior — deveria ter seus trinta e cinco centímetros — adiantou-se e sinalizou com os quatro braços. Kulman pegou o tradutor eletrônico e abaixou-se. Levantou cuidadosamente o swoon, que parecia ocupar posição de destaque, pois seus semelhantes demonstravam certo respeito para com ele.
Assim que o swoon estava bem acomodado no braço de Kulman, este começou a falar:
Quero oferecer-lhe meus respeitosos cumprimentos. Peço perdão se os assustamos. Um motivo muito importante obrigou-nos a entrar aqui sem prévio aviso.
Por onde entraram? — indagou o swoon. — O elevador está parado há várias horas, por falta de energia. Não podem ter vindo...
Descobrimos outro caminho — disse Kulman, esquivando-se a uma resposta direta. — Quem procura um criminoso não pode desprezar nenhuma possibilidade. Suponho que já esteja informado sobre a ação que o Império vem desenvolvendo neste planeta.
Apenas ligeiramente — disse o swoon, demonstrando tristeza. — Só sei que algumas naves pousaram no planeta e bloquearam-no. Não conheço os motivos.
Estamos à procura de um homem — explicou Kulman. — Este sujeito só pode encontrar-se em Swoofon. Ele é o motivo das medidas por nós adotadas. Assim que o encontrarmos, tudo poderá seguir seu curso normal. Será que poderia apresentar-nos a um dos principais técnicos ou cientistas da cidade? Precisamos de algumas informações que o senhor talvez não possa nem queira dar.
Sou engenheiro de rádio; não ocupo nenhum posto dirigente. Talvez fosse preferível levá-los primeiro ao prefeito. Ele poderá providenciar o resto.
E os elevadores de carga? — lembrou Kulman.
O swoon parecia sorrir.
As comunicações na cidade continuam a funcionar. O defeito atingiu apenas os elevadores que nos ligam à superfície. Peço-lhes que se dirijam para aqueles portões.
Kulman e Sengu caminharam à frente. Na retaguarda, ia Gucky. Seguia tranquilamente pela rua de um metro de largura, tendo sempre o cuidado de não entrar em contato direto com nenhum dos swoons que o fitavam com olhos curiosos.
Gucky penetrou nos pensamentos dos swoons, mas não descobriu nada de novo. Eram inofensivos. Apenas estavam espantados e mostravam-se curiosos para saber o que aqueles enormes estranhos vieram fazer em seu reino subterrâneo. Lá na superfície as coisas eram diferentes. Mas esperavam que ao menos aqui embaixo esses gigantes fossem deixá-los em paz.
Os elevadores ficam ali — disse o swoon que se encontrava nos braços de Kulman, apontando em direção a uma parede. — Daqui a poucos minutos estaremos na cidade.
Esta previsão se concretizou. Na cabine do elevador, cabia uma pessoa de cada vez. Gucky seguiu por último, juntamente com o swoon. O rato-castor leu os pensamentos de seu pequeno acompanhante e teve o desprazer de descobrir que acreditavam que fosse uma espécie de cão de fila. O swoon não concebia a idéia de que poderia tratar-se de um ser inteligente.
Gucky ficou muito aborrecido. Resolveu que oportunamente preencheria de forma bastante enfática esta lacuna cultural dos swoons.
Ao contrário do que acontecia na extensa área da fábrica, na cidade o tráfego era bastante intenso. As ruas relativamente estreitas estavam cheias de carros e pedestres. O swoon que acompanhava o grupo não teve outra alternativa senão alarmar a polícia, que bloqueou as ruas que conduziam à residência do prefeito. Os pedestres recolheram-se às casas. Os veículos estacionados retiraram-se às pressas.
O caminho já está livre — disse o swoon, voltando ao braço de Kulman. Parecia que gostava do lugar. — O prefeito já foi avisado. Caso estejam interessados em saber meu nome, sou Waff, da equipe de engenharia.
É muito longe, Waff? — perguntou Kulman.
Levaremos apenas alguns minutos para chegar à casa do prefeito. Tomem cuidado para não danificar nada. Procurem caminhar no meio da rua. O prefeito está à espera de vocês no jardim.
No jardim? — perguntou Sengu. — Aqui embaixo existem jardins?
Não se esqueça — disse Kulman em tom indiferente — de que o tradutor eletrônico reproduz apenas o sentido literal das palavras. Os swoons não conhecem um prefeito no sentido que nós atribuímos ao termo. E a palavra jardim talvez não seja a designação adequada para uma simples reprodução artificial do mundo existente na superfície. Provavelmente encontraremos apenas rochas nuas e um areal. De qualquer maneira, será uma recordação da natureza de Swoofon; e é tudo que se poderá desejar.
Esta previsão confirmou-se.
Atravessaram um “portão” de cerca de cinqüenta centímetros de largura e um metro de altura, e chegaram ao jardim do prefeito. Depararam-se com um céu azul estranho e verificaram que apenas se tratava de uma imitação fiel. Até o sol estava presente. Um pequeno regato descrevia curvas em meio a uma área arenosa entremeada de rochas “íngremes”. Aquela área livre era cercada pelos muros das casas vizinhas.
O prefeito, um swoon pequeno e franzino, já os esperava. Sentado num minúsculo banco, fitava-os com os olhos curiosos.
A palestra que se seguiu foi conduzida principalmente por Kulman. Afinal, era ele quem possuía mais experiência com os habitantes de Swoofon.
Sengu acomodou-se numa rocha, que para o prefeito deveria ser uma espécie de elevação com visão panorâmica, enquanto Gucky se manteve bem quieto junto ao regato, sem tirar os olhos do swoon. Sua mente trabalhava intensamente. Sentiu-se dominado por uma simpatia inexplicável pelos graciosos swoons. Se dependesse dele, teria levado para a Drusus dois ou três desses seres.
Naquele momento, nada indicava que os swoons se interessassem em sair de sua cidade. Sentiam-se bem sob a superfície. Ali realizavam um trabalho que lhes proporcionava um certo conforto, uma relativa opulência e, principalmente, o respeito das outras inteligências do Império.
Kulman também estava sentado numa pedra e conversava com o prefeito. Procurou explicar ao mesmo que estavam à procura de um homem impossível de ser descrito, porque mudava constantemente de aspecto. Às vezes se parecia com um arcônida ou um ara. Era um mestre exímio na arte de mascarar-se e modificava seu aspecto exterior à vontade. Seu objetivo, asseverou Kulman com o rosto mais sério deste mundo, consistia em dominar a Galáxia.
Evidentemente terei muito prazer em ajudar, mas não sei o que este homem estaria fazendo em Swoofon. De qualquer maneira, acho que os senhores não demorarão em concluir sua tarefa neste planeta, pois aqui existem muito poucos humanóides. Não levarão muito tempo para examiná-los.
Somos da mesma opinião — disse Kulman e fez de conta que se sentia aliviado. — Acontece que em Swoofon um fugitivo teria ótimas oportunidades para esconder-se nas cidades subterrâneas. Seria muito difícil visitar todas elas. Já tivemos de enfrentar um problema para chegar até aqui.
Como conseguiram? — perguntou o swoon.
Tivemos sorte — disse Kulman. — Peço-lhe que me diga como posso saber onde existem saltadores nestas cidades e fábricas subterrâneas.
O swoon entrou no assunto.
Por aqui vive um único saltador. Trata-se de um técnico chamado Drog. Já está aqui há muitos anos e por isso dificilmente poderia ser a pessoa que estão procurando. Não é verdade?
Não há dúvida. Mas não queremos excluir nenhum saltador. Onde podemos encontrar o tal do Drog? Talvez ele possa fornecer-nos alguma indicação.
Geralmente encontra-se nas fábricas. Quem poderá ajudá-los neste ponto é Waff, que conhece Markas.
Quem é Markas?
É um dos nossos cientistas mais competentes na área da microeletrônica. Lida diretamente com Drog e com os outros saltadores que negociam conosco. Acho que não posso fazer mais nada pelos senhores. Por favor, acompanhem Waff. Aliás... — hesitou um pouco. Um brilho estranho surgiu em seus olhos. — É estranho... Outros saltadores devem ter penetrado na cidade. Um dos nossos comboios sofreu um acidente bastante estranho. Foi detido por algum processo de teledireção e enviado de volta à estação. Quase houve um desastre. O maquinista diz ter visto dois ou três saltadores no túnel.
Lançou um olhar atento para Kulman, mas este soube dominar-se muito bem.
Hum... Talvez estejamos na pista correta — disse. — Perguntaremos a Markas se conhece algum amigo do tal do Drog. Queira aceitar nossos respeitos, senhor prefeito. Ficaríamos satisfeitos se graças a seu auxílio conseguíssemos...
A despedida prolongou-se por dez minutos, durante os quais foram trocadas fórmulas de cortesia. Finalmente conseguiram retirar-se. O caminho de volta ao elevador transformou-se numa verdadeira sensação para os habitantes da cidade, mas devido ao apoio eficiente da polícia os três visitantes e Waff não demoraram em chegar ao destino.
Desceram pelo elevador.
Na praça, da qual partiam as estradas que davam para as fábricas, Waff disse:
Quero pedir-lhes que esperem aqui. Se me acompanharem, a confusão será tremenda. Procurarei Markas e o trarei para cá.
Gucky leu nos pensamentos do engenheiro e descobriu que estava dizendo a verdade. Fez um sinal quase imperceptível para Kulman.
Esperaremos — disse Kulman e sentou-se numa pilha de chapas de plástico. Seguiu Waff com os olhos e disse: — Não sei o que estamos fazendo por aqui. Procuramos uma pessoa que não existe.
Gucky deitou no chão de concreto.
Não. Buscamos alguma coisa que existe — retificou com a voz aguda e exaltada. — Estamos catando o swoon e o saltador que lidam com o goniômetro de compensação. Você descobriu a pista, Kulman. Procure não perdê-la.
Todos os indícios apontam para esta cidade, Gucky — respondeu Kulman, falando devagar. — Quando estive no planeta, falei com alguns técnicos que trabalhavam na superfície. Afirmaram-me que o “homem” que dá as ordens reside aqui e vai muitas vezes a Gorla. Talvez seja o tal do Drog, talvez seja outro. Os mesmos técnicos me disseram também que um conjunto de cavernas completamente novo, ao qual não têm acesso, deverá abrigar as novas instalações. Não tenho a menor idéia sobre o andamento dos trabalhos.
Não será difícil descobrir, Kulman. Sou telepata e os pensamentos de um saltador ou de um swoon não são nenhum segredo para mim.
O rato-castor olhou na direção do edifício em cujo interior Waff havia desaparecido.
Estão chegando.
Sengu e Kulman viram Waff surgir na porta em companhia de um swoon franzino; para as condições reinantes no planeta a porta era muito alta. Um homem vinha atrás deles. Devia ser Drog.
Gucky manteve-se imóvel, à espreita. Já estava captando os impulsos mentais dos indivíduos que se aproximavam. Fez um sinal quase imperceptível para Kulman.
Ouvi dizer que os senhores estão atrás de um criminoso — disse Drog, assim que se viu à frente do grupo. — Meu nome é Drog. Já me encontro em Swoofon há dez anos, por conta de meu clã. Não tenho nada a ver com a pessoa que estão procurando.
Ninguém afirmou que tivesse — respondeu Kulman. — Não suspeitamos do senhor. Acontece que fomos incumbidos de fazer uma investigação geral. Caso as indicações que o senhor acaba de fornecer correspondam ao resultado das pesquisas a serem realizadas, o senhor evidentemente estará acima de quaisquer suspeitas.
Kulman fez de conta que a palestra estava concluída. Mas o saltador sentiu-se tão aliviado que viu naquilo uma agradável quebra da monotonia. Sorriu.
Já querem retirar-se? Contem o que há de novo no Império.
Kulman teve a impressão de que Drog queria evitar a todo custo que o swoon que atendia pelo nome de Markas pudesse dizer alguma coisa.
Por que Árcon mandou isolar e ocupar um mundo pacífico como este?
Sinto muito, mas não posso informar os motivos. Por favor, volte para seu trabalho. O senhor devia estar ocupado, não é?
Gucky não se movia. Em seus fiéis olhos surgiu um lampejo de satisfação.
Não estava fazendo nada de importante — disse Drog com uma risada. Até parecia que a idéia de que pudesse estar ocupado o divertia. — Uma pausa não faz mal a ninguém.
Markas abriu caminho junto a Drog e dirigiu as atenções para sua pessoa. Falou alto em sua língua, e o tradutor eletrônico transmitiu sua mensagem em voz clara:
Meu nome é Markas. Sou o cientista que dirige este setor. Tenho algumas perguntas, e ficar-lhes-ei muito grato se quiserem responder. Trata-se de...
Gucky interrompeu-o com a voz estridente:
Não viemos para responder às suas perguntas, swoon — Kulman e Sengu lançaram um olhar perplexo para o pequeno rato-castor.
Por que resolvera intervir na palestra? Por que o swoon não deveria formular perguntas? Mas quando notaram o olhar de Gucky, que parecia pedir que não se intrometessem, resolveram ficar calados.
Estamos à procura de um criminoso e não temos nada a ver com os seus problemas — prosseguiu o rato-castor. — Poderia ter a gentileza de mostrar o caminho que conduz aos elevadores?
Markas mostrava-se visivelmente decepcionado; já Drog estava contente, e mal conseguiu disfarçar sua satisfação. Estava radiante, e lançou um olhar de triunfo para Markas. Seus olhos pareciam dizer: Viu como esses encarregados do Império são pessoas muito arrogantes?
Como queira — soou a voz no tradutor eletrônico.
Além de decepcionado, Markas sentia-se muito ofendido. Os estranhos não demonstravam o necessário respeito por sua pessoa e, por isso mesmo, não havia motivo para perder tempo com eles.
Queiram seguir-me — falou em tom indiferente.
Drog deu de ombros.
Talvez tenham sorte e encontrem o criminoso, seja ele quem for. Peço licença para retirar-me.
Pois não — disse Kulman, que já começava a desconfiar do motivo que levara Gucky a intervir na palestra de forma tão afrontosa.
O rato-castor certamente conseguira descobrir uma coisa importante e não queria que se falasse a este respeito na presença do saltador.
Fique à vontade — completou. Drog afastou-se, abaixou-se um pouco e desapareceu pela porta do edifício que ficava à sua frente. Podia ficar tranqüilo. Os enviados de Árcon eram arrogantes a ponto de não se interessarem pelo que um pequeno swoon tinha a dizer. Markas acabara de levar um fora. E, pelo que ele, Drog, conhecia dos swoons, poderia afirmar que o cientista não faria outra tentativa de falar sobre o goniômetro de compensação.
Markas, que caminhava à frente do grupo, disse aos seus acompanhantes:
Não sei quando os elevadores que levam à superfície voltarão a funcionar. Até lá poderão considerar-se hóspedes da cidade. Waff cuidará dos senhores — ao que parecia, não tinha a menor vontade de perder seu precioso tempo com aqueles desconhecidos. — Acho que não temos mais nada a falar.
Pois o senhor está muito enganado — disse Kulman. — Tenho certeza de que este nosso companheiro — apontou para Gucky — gostaria de fazer-lhe algumas perguntas. Não é verdade, Gucky?
O rato-castor fez um gesto afirmativo e olhou em torno.
Onde poderíamos conversar bem à vontade, Markas? — abaixou-se e levantou o swoon. — Desculpe minha grosseria, mas a presença do saltador obrigou-me a cometê-la. Explicarei tudo.
Quem é você? — perguntou Markas. — Não é nenhum humanóide.
Não sou mesmo. Até um cego vê isso — disse Gucky e apontou para a estação ferroviária, na qual desembocavam inúmeros túneis. — Poderia ser lá?
Andando bem abaixados, penetraram alguns metros do túnel. Kulman disse:
O que pretende fazer, Gucky? Não venha me dizer que quer ir a Gorla a pé.
Tenho o aspecto de quem gosta de caminhar? — perguntou o rato-castor em tom irônico. — Não perderemos tempo; logo estaremos ao ar livre. Markas é o homem, bem, o swoon, que procuramos. É o cientista responsável pelo projeto do goniômetro de compensação. Acredito que contará tudo que sabe a este respeito.
Waff e Markas fitaram-se com um ar de perplexidade, pois o tradutor eletrônico reproduzira fielmente o sentido das palavras de Gucky. Depois de algum tempo Markas gaguejou:
Como foi que o senhor... como foi que você soube?
Sou telepata — disse Gucky. — Vamos ver como devemos fazer para saltar à superfície.
Ao contrário da teleportação para as profundezas desconhecidas, o salto para a superfície foi uma brincadeira. Por isso, demorou menos de dois minutos até que os dois homens, os dois swoons e Gucky se vissem em pleno deserto, sob os raios do sol que já se aproximava da linha do horizonte. Logo após a rematerialização procuraram orientar-se.
Nesse instante, o rádio de pulso de Sengu emitiu um zumbido. O fato de que o som cresceu e diminuiu três vezes significava que a mensagem era da maior importância.
4



O cargueiro interestelar Ramo VII era comandado por Alban, um arcônida do clã dos Ozol. Fazia vários decênios que Alban conduzia sua nave cilíndrica pelas rotas mais ou menos conhecidas, realizando a troca de mercadorias por ordem de Árcon. Desta vez levara sua carga ao sistema de Swaft, onde deveria trocar a mesma por importantes peças microeletrônicas.
Era a primeira vez que Alban estava em Swoofon. Mas o estranho planeta, com os habitantes ainda mais estranhos, já lhe era conhecido através dos catálogos arcônidas e dos relatos dos saltadores. Não poderia deixar de confessar que se sentia curioso para ver pessoalmente os swoons.
Tanto maior foi sua surpresa quando, no momento em que efetuava a transição que o levaria do hiperespaço ao espaço normal, foi detido por uma nave esférica. Evidentemente conhecia o tipo, pois os girinos eram modelos arcônidas.
De início, Alban nem pensou em obedecer à ordem que na sua opinião constituía um absurdo total. Afinal, seu cargueiro era uma nave do Império. Ninguém tinha o direito de detê-la. Mas quando viu um pálido feixe energético passar rente à proa de sua nave, decidiu outra coisa. Ligou os campos gravitacionais e desacelerou o suficiente para que o girino pudesse encostar. Imediatamente um comando subiu a bordo da Ramo VII e pediu que o levassem ao comandante.
Alban aguardou os piratas, que foi como chamou aquelas pessoas, na sala de comando. Não se esquecera de colocar um radiador no cinto do uniforme. Isso reforçava sua autoconfiança.
No primeiro instante, sentiu-se perplexo ao reconhecer dois saltadores e um arcônida, que foram conduzidos à sala de comando pelos tripulantes de sua nave. Já não compreendia mais nada.
Qual é a finalidade de sua viagem ao sistema de Swaft? — perguntou o arcônida em tom áspero. — Qual é seu porto de matrícula?
Alban teve de esforçar-se para não perder o autodomínio.
Sou Alban, comandante da Ramo VII. Meu porto de matrícula é Árcon II. O que lhe deu na cabeça para deter-me? Quem é o senhor?
Quem faz perguntas somos nós, Alban. Limite-se a responder. Infelizmente não podemos permitir que pouse em Swoofon. Ninguém poderá perturbar a ação que estamos desenvolvendo nesse planeta. Swoofon está completamente bloqueado e é considerado área interditada.
Posso saber o motivo?
Infelizmente não, Alban. Apenas cumprimos um pedido do enviado do regente. Nossa frota recebeu ordens para deslocar-se para este local. Também viemos de Árcon.
Alban sacudiu a cabeça.
Não compreendo. Também venho diretamente de Árcon, onde recebi ordens para trocar certos produtos por outros fabricados pelos swoons. O negócio foi fechado há muito tempo. E agora vêm os senhores e me dizem que não posso pousar! Há algo de errado nisso.
Os dois saltadores e o arcônida há tempo tinham a mesma impressão, mas evidentemente não iriam transmiti-la ao seu interlocutor. As ordens do regente não admitiam qualquer tipo de oposição.
Não podemos decidir sobre isso, Alban. Apenas lhe pedimos que retorne. Se preferir, pode esperar fora do sistema.
Não tenho tempo para isso! — disse Alban, sacudindo a cabeça num gesto obstinado. — Voltarei a Árcon e solicitarei uma entrevista com o regente. Talvez ele me informe por que motivo uma ordem tão importante como a que me foi dada é anulada de uma hora para outra. Posso pedir-lhes que se retirem de minha nave?
Aguardou pacientemente que os três homens saíssem de bordo. Depois mudou de rota e efetuou uma transição, em direção a Árcon.
A raiva de que se sentia possuído era tamanha que esqueceu todas as etiquetas.
Teria algumas perguntas a fazer ao gigantesco computador positrônico, que era o regente do Império. E não teria papas na língua.

* * *

Os conceitos do tempo e do espaço, ligados ao da distância, já pertenciam ao passado. Cinco horas após ter sido detido perto de Swoofon, o arcônida já se encontrava na sala de recepção do regente de Árcon.
Uma hora depois, o receptor de hiper-comunicação da Drusus emitiu um sinal c uma voz mecânica disse que desejava falar com Rhodan. O operador de rádio que estava de plantão recorreu ao intercomunica-dor, a fim de transferir a ligação para a sala de comando, e avisou o imediato, uma vez que Sikermann achava-se de folga. Rhodan também não se encontrava na sala de comando: estava dormindo. A curta noite de Swoofon estava chegando ao fim; o novo dia já ia raiando ao leste.
No momento em que ouviu o sinal do telecomunicador, Rhodan teve um pressentimento de que teria de tomar uma grande decisão. Já aguardara por este momento, mas sentia-se grato ao destino por lhe ter concedido uma noite de descanso.
Aqui fala Rhodan. O que houve, Major van Aafen?
A sala de rádio anuncia uma mensagem de hipercomunicação. Vem de Árcon. Quer que a ligação seja transferida para seu camarote?
Irei até aí, major. Faça o favor de avisar Bell e Crest. Peça-lhes que compareçam à sala de rádio. Diga-lhes que devem apressar-se.
Vestiu ligeiro o uniforme, e saiu para o corredor mergulhado numa penumbra. O elevador antigravitacional mais próximo levou-o ao corredor circular. Dali a vinte segundos, entrou na sala de rádio.
Teve de dar mais cinqüenta passos para colocar-se à frente da tela de hipercomunicação, na qual se destacava, firme e nítida, a imagem do regente, uma gigantesca esfera metálica que descansava sobre uma superfície plana. Seria inútil formular conjecturas sobre as dimensões prováveis daquela figura.
Pode fazer a ligação — disse Rhodan, dirigindo-se ao operador de rádio.
Está feita.
Rhodan recuou um passo para que a câmera pudesse focalizá-lo. Sabia que o regente podia vê-lo, tal qual ele o via.
Deseja falar comigo, regente?
Você me enganou. Solicitou o apoio de uma frota de guerra para assaltar um sistema solar inofensivo. Eu supunha que se tratasse de uma ação dirigida contra nosso inimigo invisível, que nos tem atingido, vindo de outro plano temporal. Mas, em vez disso, você está perturbando nosso comércio com um mundo pacífico. Não compreendo por que solicitou o envio de uma frota de guerra, pois apenas a sua já bastava para solucionar problemas até mais difíceis. Acredito que queira envolver-me numa coisa pela qual não quer assumir a responsabilidade exclusiva.
Fizemos um acordo, regente — respondeu Rhodan em tom frio e respirou aliviado quando viu Crest e Bell entrarem na sala de rádio.
Preferia que houvesse testemunhas enquanto falava com o computador-regente.
Segundo esse tratado, posso dispor incondicionalmente de seu poderio, desde que precise dele e lhe faça uma solicitação nesse sentido. Muito bem; você atendeu ao meu pedido e enviou Talamon. E agora vem me dizer que eu violei o acordo. Como posso entender uma coisa dessas?
Você entende perfeitamente, terrano. Nosso acordo referia-se apenas à luta contra os invisíveis. Não o autorizava a interferir nos assuntos internos de Árcon. E é o que está fazendo.
Uma desconfiança começou a surgir na mente de Rhodan. Por que o regente estava tão interessado em que Swoofon fosse deixado em paz? Será que sabia do projeto do goniômetro de compensação, que lhe permitiria descobrir a posição da Terra? Será que o aparelho estava sendo construído por ordem do regente?
Nosso acordo não se restringiu à luta contra os invisíveis, regente. Teve em vista uma colaboração em todos os setores. Se for violado sob qualquer aspecto, ficará sem efeito.
Minha opinião é diferente, Rhodan. Devemos cumprir o acordo, tendo sempre em vista o que diz respeito aos invisíveis. Por isso, peço-lhe que se retire de Swoofon e não interfira nas nossas rotas vitais de comércio. Darei ordem a Talamon para que retorne imediatamente a Árcon. Os invisíveis poderão voltar a atacar a qualquer momento. E quando isso acontecer devemos estar preparados, Rhodan.
Você sabe perfeitamente que o perigo que ameaça a Via Láctea é extremamente grave. Um plano temporal diferente está penetrando no nosso. Em muitos pontos, já existe uma interseção entre as duas dimensões. Os invisíveis existem em outra dimensão temporal, vivem segundo seus padrões, que são muito mais lentos que os nossos. Se não conseguirmos expulsá-los, deixaremos de existir. Será que você já se esqueceu disso, terrano? Seu mundo também está ameaçado; pouco importa onde fique.”
Sei perfeitamente, regente — respondeu Rhodan, lançando um olhar tranqüilizador para Crest e Bell. — Estamos criando uma arma contra os seres da outra dimensão temporal. Conseguiremos penetrar em seu reino e estabelecer contato com eles. Não pense que ficamos inativos. A atuação que desenvolvemos em Swoofon é necessária. Do contrário não me teria lançado na mesma. Então; qual é sua decisão?
Você já a conhece. Talamon voltará para Árcon, e você abandonará o sistema de Swaft.
Rhodan acenou lentamente com a cabeça.
Está bem; mas antes tenho de resolver um assunto particular. Depois de solucioná-lo, Swoofon será liberado e todas as naves. Voltarei a entrar em contato com você, regente. De qualquer maneira, nossos aparelhos levam à conclusão de que dentro em breve haverá outro ataque dos invisíveis. Espero que seja o último.
Um assunto particular?
Isso mesmo: Você entendeu o que eu disse — respondeu Rhodan e fez um sinal ao operador de rádio.
A imagem do regente desapareceu da tela, pois o contato foi interrompido de repente. Bell suspirou e disse:
Você não acha que está sendo muito duro com ele?
Com o regente? — perguntou Rhodan em tom de espanto. — Desde quando você tem compaixão com um computador? Ainda me lembro do tempo em que...
Sim. Isso foi naquele tempo. Mas tive a impressão de que hoje o robô se mostrou muito acessível. De qualquer maneira, já teve de conformar-se com uma grande perda de prestígio.
Bell tem razão — interveio Crest. — Se um belo dia o regente perdesse a paciência e renunciasse do acordo que celebrou conosco, seríamos prejudicados.
Rhodan soltou uma estrondosa gargalhada.
Ora, Crest! Você só pode estar brincando. Afinal, foi o regente que manifestou o desejo de celebrar o acordo. Não terá pressa em renunciá-lo, enquanto existir o perigo invisível vindo de outra dimensão temporal. Pelo menos já sei que não está sendo muito sincero conosco. Quer descobrir a posição da Terra e para isso recorre a tudo quanto é truque. Acredito que o maior truque que está usando seja Swoofon. Bem, vamos fazer-lhe a vontade. Vou deixá-lo fabricar o goniômetro de compensação.
Não pretende destruir os planos, Perry? — perguntou Bell assim que se recuperou da surpresa.
Rhodan sacudiu a cabeça.
Não. Um belo dia seriam elaborados outros planos. Ninguém consegue deter a evolução; já falamos a este respeito. Pelo menos já sei que o regente sabe da existência desse goniômetro. Teremos de ser mais espertos que o regente, os saltadores e os swoons reunidos. Venha comigo, Crest. Quero fazer-lhe algumas perguntas. Bell, procure entrar em contato com Gucky. Diga-lhe que deve voltar imediatamente com Sengu e Kulman, mesmo que não tenha conseguido nada de positivo.
Sim senhor! — Bell fez uma continência exagerada e dirigiu-se ao operador de rádio. Rhodan e Crest dirigiram-se à sala de comando.
Dali a dez minutos, Gucky materializou-se no interior da Drusus, juntamente com dois swoons, e logo voltou a desaparecer sem qualquer explicação, para buscar Kulman e Sengu. Depois disse em tom de triunfo:
O Tenente Gucky acaba de retornar de sua missão juntamente com os mutantes Sengu e Kulman. Trouxe dois desertores do inimigo: o engenheiro Waff e Markas, chefe da equipe científica que trabalha com o projeto do goniômetro de compensação.
Agachou-se sobre as patas traseiras e fitou Rhodan, Bell, Crest e os oficiais da Drusus. Encontrava-se entre os dois swoons que pareciam “pepinos maduros”; um sorriso cobria seus rostos esquisitos. Parecia realmente que haviam brotado no chão metálico da sala de comando e apenas esperavam que alguém os colhesse.
Gucky assustou-se quando os homens soltaram uma estrondosa gargalhada, que não foi maliciosa, antes cordial e amistosa.
Era claro que a gargalhada de Bell foi a mais forte e a mais demorada.
Markas ofereceu o relato, e o quadro foi se completando.
Como sempre, Crest mantinha-se em silêncio num dos cantos da sala. A seu lado estava Atlan, cujos olhos, que pareciam olhar para além do tempo, simbolizavam reflexão. Gucky acomodou-se no sofá e ficou com os olhos semicerrados. Waff, o pequeno swoon, estava sentado em seu braço e contemplou as pessoas ali reunidas com uma expressão de interesse.
Rhodan, Bell, Marshall e Kulman estavam sentados em torno de uma mesa sobre a qual estava sentado Markas, que respondia com a maior solicitude a todas as perguntas que lhe eram dirigidas, falando para dentro do tradutor eletrônico. Não compreendia tudo que acontecia em torno dele, nem desconfiava das circunstâncias que causavam tamanha dor de cabeça a Rhodan. Limitou-se a dizer o que sabia.
...de forma que resolvemos utilizar um setor até então abandonado do enorme recinto, para que oportunamente pudesse ser iniciada a fabricação em série do novo goniômetro. Os trabalhos de construção da fábrica estão em pleno andamento. Assim que o modelo experimental tenha sido testado, a produção poderá ter início.
Em que região fica a fábrica? — Rhodan empurrou um mapa para o swoon. — Aqui fica Swatran, a maior cidade do planeta. O senhor consegue orientar-se?
O swoon olhou para o mapa; hesitou um pouco.
Praticamente não conheço a superfície, porque tenho vivido principalmente no subsolo, onde nasci. Mas acho que poderei orientar-me com base nas ferrovias subterrâneas registradas no mapa. Pelo que diz, Kulman obteve as respectivas informações durante sua permanência no planeta — passou o minúsculo braço com os dedos supersensíveis pelo mapa. — Isto deve ser a cidade de Gorla. Esta é a linha que a liga à minha cidade. É mais ou menos aqui — seu braço escorregou para o norte — que fica o lugar em que está sendo instalada a fábrica de goniômetros.
Onde estão os planos de fabricação do aparelho? — perguntou Rhodan.
Estão trancados num cofre, no meu escritório. Drog e eu somos as únicas pessoas que têm a chave. Aliás, são duas chaves. Ele tem uma e eu tenho outra. O cofre só pode ser aberto com as duas chaves.
Rhodan acenou com a cabeça.

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