— Quem?
— perguntou Gucky. — Os swoons?
— Não,
os aparelhos que estão fabricando. Mal se consegue vê-los a olho
nu.
— Eles
sabem construir transmissores que podem ser guardados no buraco de
uma agulha — disse Kulman. — Vi verdadeiras maravilhas. Se fosse
contar...
— Um
momento! — disse Sengu, que não permitia que sua atenção se
dispersasse. — As instalações que ficam embaixo de nós são
gigantescas. Não consigo vê-las de uma só vez. Se continuarmos a
usar este método, a busca demorará alguns meses. Será que Rhodan
pode esperar tanto?
— É
claro que não — disse Gucky, fitando a rocha com uma expressão de
inveja. Tal qual Kulman, via a rocha e nada mais. Tudo que ficava
abaixo da mesma era invisível aos seus olhos.
Wuriu
Sengu, o espia japonês, continuou:
— Têm
estradas de ferro que ligam os diversos bairros da cidade e
transportam as mercadorias. Para onde, Kulman?
— Para
as cidades situadas na superfície — informou o agente. — E para
os espaçoportos. É lá que são negociadas; em Swoofon praticamente
não se produzem alimentos. Ainda não consegui descobrir como viviam
os swoons antes que fossem descobertos pelos saltadores. Até hoje
ninguém me disse.
— Acredito
— disse o japonês — que as ruas sejam bastante largas. E os
edifícios também. Acho que deveríamos fazer uma visita à cidade.
Parece que não teremos dificuldade em deslocar-nos.
— Acontece
que as entradas para as cidades subterrâneas são muito estreitas —
disse Kulman. — Já tentei.
— Vamos
teleportar — disse Gucky com um súbito interesse. — Não haverá
o menor problema. Apenas, preciso conhecer a distância, pois do
contrário poderemos materializar-nos em plena rocha.
Mantiveram-se
em silêncio, enquanto o rato-castor captava por via telepática os
impulsos mentais dos seres que viviam embaixo da superfície, a fim
de estabelecer a localização exata. Enquanto isso Sengu procurou um
lugar em que pudessem aparecer sem enfrentar maiores riscos. O melhor
local que encontrou foi uma praça central, na qual infelizmente o
tráfego de veículos era muito intenso.
— Eles
já sabem o que aconteceu — disse Gucky depois de algum tempo. —
O funcionamento de seu sistema de comunicação é excelente. Mas os
fatos em nada alteraram seu estilo de vida. Fazem de conta que não
aconteceu nada.
— Daqui
a pouco vão arregalar os olhos — anunciou Sengu, enquanto segurava
o braço do rato-castor. — Vamos, Kulman; o que está esperando?
Gucky já pode saltar.
E Gucky
saltou.
*
* *
O vulto do
saltador Drog deslocava-se cautelosamente pelo túnel de dois metros
de altura que ligava os dois laboratórios. Pisou sem o menor cuidado
sobre os minúsculos trilhos. Os grupos de reparos dos swoons teriam
bastante trabalho.
O túnel
estava bem iluminado, e o funcionamento do sistema de condicionamento
de ar era impecável. A brisa fresca não permitia que ninguém se
sentisse sufocado no subsolo.
Drog
praguejava baixinho. Tinha de mover-se com a máxima cautela, pois do
contrário a gravitação reduzida faria com que fosse atirado para
cima. Bastava que suas pernas desenvolvessem um pouco de energia a
mais, para que sua cabeça batesse no teto. Isso já lhe havia
acontecido uma vez, por isso costumava andar com a maior cautela.
Tinha uma
tarefa a cumprir, e ele a cumpriria. Afinal, não permaneceria para
sempre neste planeta maluco, habitado por estranhas criaturas de
tamanho reduzido, conhecidas como os swoons, os melhores
microtécnicos do cosmos.
O túnel
descreveu uma curva e começou a subir levemente. O centro de
projetos, lugar em que deveria encontrar-se com Markas, não estava
muito longe. Ainda hoje chegariam a uma decisão sobre se o projeto
logo seria levado avante ou não.
“Que
diabo! Tenho de percorrer o trajeto a pé, porque os comboios são
pequenos e frágeis demais para transportar-me”,
pensou.
Na
superfície não havia maiores problemas, pois a gravitação
reduzida favorecia a locomoção. Mas ali embaixo as coisas eram
diferentes.
Drog
voltou a praguejar. A barba bem cuidada revelava que era um saltador,
ao passo que o jaleco branco o identificava como médico ou
cientista. Acontece que os únicos médicos eram os aras; logo, Drog
era um técnico dos saltadores. Em seus olhos não se notava a
costumeira impetuosidade dos mercadores galácticos. Além disso, os
traços de astúcia e especulação estavam quase totalmente
ausentes. Nos olhos de Drog brilhava apenas “um
pouquinho de futuro”,
como diria Bell.
Aos pés
de Drog, os trilhos voltaram a correr na vertical, e o túnel
tornou-se mais largo. Havia vários desvios, conforme costuma
acontecer junto às estações. O teto tornou-se mais elevado e as
luzes mais numerosas. Drog conseguiu enxergar melhor.
Não
demoraria a chegar ao destino.
Parou por
alguns segundos para presenciar os trabalhos de carga de um trem que
se encontrava junto a uma rampa. A locomotiva, que não tinha mais de
um metro de comprimento e menos de cinqüenta centímetros de altura,
puxava uns vinte vagões.
Na cabine
viam-se dois swoons, que não se perturbaram com a presença do
saltador. Faziam o trem avançar a intervalos regulares, e paravam
até que a fita condutora enchesse mais um vagão. Drog não pôde
ver o que estava sendo transportado. Por certo seriam produtos da
fábrica mais próxima. Talvez minúsculos aparelhos de televisão.
Drog sabia que as telas desses aparelhos não eram maiores que a unha
de um dedo humano, isto sem falar nas câmaras, que poderiam ser
montadas perfeitamente na pedra de um anel.
Prosseguiu
até chegar a uma área livre, cercada por edifícios baixos. Para os
swoons eram construções respeitáveis. Mas Drog teve a impressão
de tratar-se de simples barracos.
Num dos
edifícios haviam arrancado várias paredes e os tetos de alguns
pavimentos, para dar lugar a Drog. Ali o saltador podia andar
livremente, sem recear a toda hora que sua cabeça pudesse bater em
algo.
Entrou na
sala e com um suspiro de alívio sentou-se numa banqueta, que
originariamente fora uma cama de casal dos swoons. A pequena mesa
havia sido fabricada sob encomenda.
Markas já
se encontrava presente. Embaixo do solo, a cor amarela de sua pele
parecia pálida e doentia, muito embora à luz do sol a cor dos
swoons não fosse muito diferente dessa.
A pequena
criatura estava sentada sobre a mesa e estudava alguns papéis que
eram maiores que ele. Parecia haver alguns pontos obscuros, que
gostaria de ver esclarecidos.
Drog
levantou-se, foi a uma prateleira embutida na parede e pegou uma
caixinha. Tratava-se do costumeiro tradutor eletrônico,
indispensável a qualquer tipo de comunicação entre os swoons e os
saltadores.
Colocou-o
sobre a mesa e voltou a sentar.
— Então,
Markas, examinou os desenhos? O que acha?
— Antes
de formar um juízo definitivo, gostaria de fazer uma pergunta,
saltador. O aparelho se destina a finalidades bélicas?
Drog
sacudiu a cabeça; parecia indignado.
— De
forma alguma, Markas! Apenas servirá para localizar nossas frotas
mercantes. Já lhe expliquei que...
— O
senhor me disse que isto representava um progresso na navegação
espacial — confirmou o pequeno swoon sem abalar-se. — É claro
que não posso formar um juízo sobre a veracidade de suas
informações. Não me resta outra alternativa senão confiar na sua
afirmativa. Conforme sabe, qualquer material de guerra só pode ser
fabricado com licença expressa do regente. Não pretendo violar esta
regra.
Por dentro
Drog fervia de raiva, mas nem pensou em demonstrá-la. Os swoons eram
criaturas difíceis, que se melindravam por qualquer coisa. Quem
quisesse conquistar sua benevolência, teria de derramar-lhes
bajulações. Não havia outra alternativa.
— Em
toda a Galáxia não existe ninguém que seja capaz de construir este
aparelho a não ser vocês, Markas. Certas peças são tão pequenas
que qualquer outra criatura só poderia manipulá-las com um
microscópio. Vocês não precisam de um microscópio para
enxergá-las. Só vocês podem ajudar-nos. Saberemos recompensá-los
condignamente.
— Não é
só disso que se trata — asseverou o swoon em tom enérgico e com
um orgulho indisfarçável. — O senhor ainda não respondeu à
minha pergunta relativa ao robô regente.
— É
claro que o regente não tem nenhuma objeção à construção deste
aparelho, que passará a ser produzido em série, caso se consagre na
prática. Não sei o que poderia ter contra isso?!
— Hum —
fez Markas e dirigiu seus olhos salientes sobre o saltador. — Será
que o senhor pode explicar por que o regente mandou isolar o sistema
de Swaft e confiscou todas as naves dos saltadores estacionadas em
Swoofon?
Drog
empalideceu. A ponta da barba começou a tremer.
— O quê?
— exclamou. — O que foi que o senhor disse? Então Árcon... Não
é possível!
— Pois
veja com seus próprios olhos — disse Markas e saltou da mesa.
Desceu devagar a apoiou-se sobre os seis membros. Saltitou em direção
à parede, onde se via um pequeno quadro de comando. Uma tela, que
começava a meio metro do solo, cobria uma área de cerca de um metro
quadrado. — Temos uma ligação direta para Swatran, a capital.
A tela
começou a iluminar-se. Drog teve de abaixar-se para enxergar melhor.
— Aqui o
senhor vê parte do espaçoporto — falou Markas.
As imagens
projetadas sobre a lâmina convexa adquiriram contornos nítidos,
oferecendo uma visão bastante real dos objetos. Só se via parte das
gigantescas esferas espaciais dos arcônidas. Alguns dos robôs de
combate haviam sido desembarcados e montavam guarda, com as armas
energéticas levantadas, prontas para disparar. Fora disso, o campo
de pouso parecia deserto.
As câmeras
giraram, abrangendo outro setor do espaçoporto.
— Como
vê — prosseguiu Markas em tom indiferente — as peças de
artilharia dos couraçados espaciais estão apontadas para as naves
dos saltadores, que por isso mesmo não têm a menor possibilidade de
evadir-se. Árcon ordenou que nenhuma nave poderá decolar. Além
disso, o inspetor Rhodan anunciou...
— Como é
mesmo o nome do inspetor? — exclamou Drog, estreitando os olhos. —
Rhodan?
— Isso
mesmo. O senhor o conhece?
— O nome
não me parece estranho — disse Drog, revirando desesperadamente a
memória. — Gostaria de saber onde já o ouvi.
Refletiu
por alguns segundos e sacudiu a cabeça.
— Se não
estou enganado, o nome Rhodan está ligado a certos acontecimentos
que provocaram muita agitação. Mas isso já faz muito tempo. Bem,
ainda hei de me lembrar — levantou os olhos. — Os arcônidas
deram qualquer informação sobre o motivo das medidas por eles
adotadas?
O pequeno
swoon atravessou a sala e pôs-se a lidar com os controles de um
pequeno transmissor. Executou um estranho movimento com os quatro
membros superiores, como se quisesse dizer: Por que dirige esta
pergunta a mim?
— Pensei
que o senhor soubesse — disse. — É bem possível que Árcon não
concorde inteiramente com o aparelho que nos foi encomendado.
— Por
que não haveria de concordar?
— Pois
com ele, os inimigos de Árcon seriam... — começou o saltador num
momento de irreflexão, mas logo reconheceu seu erro. — O que quero
dizer é que...
— Obrigado
— disse o swoon com uma ligeira satisfação na voz. — O senhor
acaba de trair-se. Sei perfeitamente que no íntimo seu povo nos
despreza, e só nos trata de igual para igual porque precisa dos
nossos préstimos. Os swoons são os melhores micromecânicos do...
— Não
há ninguém que não saiba apreciar este fato, e ninguém preza os
swoons tanto quanto nós — disse Drog em tom patético, mas sem
muita convicção. — Os mal entendidos surgem em qualquer tipo de
relacionamento, e um bom amigo sempre deve procurar esclarecê-los.
— É o
que estou fazendo — respondeu Markas, girando os olhos, gesto que
equivalia a um aceno de cabeça.
Voltou a
manipular os controles. Depois de algum tempo, uma pequena tela
iluminou-se, e nela surgiu o rosto de outro swoon. O tradutor
eletrônico de Drog ainda estava em funcionamento, motivo por que
pôde acompanhar a palestra.
— Há
alguma novidade, Habrog?
O swoon
que aparecia na tela fez um gesto afirmativo.
— Há,
sim, Markas. Árcon está à procura de um criminoso e tem motivo
para supor que ele se encontra em Swoofon. Dizem que é um saltador.
— Hum —
fez Markas e lançou um olhar para Drog. — O que foi que esse
saltador fez?
— Sobre
isso não temos nenhuma informação — respondeu Habrog. — Os
decanos de Swatran falaram com o inspetor de Árcon, mas a única
coisa que conseguiram saber foi que estão à procura de um
criminoso. Deram-se por satisfeitos com isso. Não temos nada a ver
com o caso.
— Ainda
bem — disse Markas, encerrando a palestra e desligando o aparelho.
Lentamente virou o rosto em direção a Drog: — Não é impossível
que se trate desse goniômetro, saltador. Enquanto não tiver certeza
a este respeito...
— Acontece
que já pagamos uma entrada, Markas — falou Drog, esticando as
palavras. — O senhor não pode romper o contrato! Além disso,
garanto-lhe que não temos nada a ver com o criminoso procurado.
Markas
hesitou um pouco. De repente disse:
— Está
bem; acredito no que está dizendo. Tomarei todas as providências
para que o primeiro modelo seja construído e experimentado o quanto
antes. Acho que concordarão em colocar uma das suas naves à nossa
disposição, para a realização da experiência. Basta montarmos o
novo goniômetro na mesma, sairmos para o espaço e mandar saltar
outra nave com o compensador ligado. É isto que o senhor quer?
— Exatamente
— respondeu Drog em tom alegre e levantou-se. Já estava com as
costas doloridas. — Posso voltar à superfície e comunicar aos
meus chefes que o senhor manifestou sua concordância definitiva?
— Perfeitamente
— disse o swoon em tom compenetrado. — Pode fazer isso.
Ao chegar
à porta, Drog perguntou:
— Já
tem alguma idéia sobre o lugar em que será fabricado o aparelho?
Não seria conveniente concentrar a produção numa única
instalação?
— Isso
já foi previsto nos nossos planos, saltador.
O rosto de
Drog iluminou-se.
— Suponho
que seja aqui.
— Não,
será duas horas de vôo ao norte. Depois de estudarmos os planos que
o senhor nos entregou, julgamos conveniente instalar a fábrica num
local isolado. Todas as peças serão fabricadas lá. De resto, tudo
que for necessário poderá ser trazido de outro lugar. Temos uma
linha ferroviária subterrânea.
Drog
parecia um tanto decepcionado, mas nem pensou em dar vazão à sua
contrariedade.
— Muito
bem. Nesse caso eu me instalarei por lá. Conforme já é do seu
conhecimento, fui nomeado chefe de construção do projeto.
— Quem
foi que o nomeou? — perguntou Markas em tom indiferente.
Não
obteve resposta, pois apenas viu as costas largas de Drog
desaparecerem pela porta, que ocupava dois pavimentos do edifício.
Dali a
dois segundos, as sereias de alarma soaram em seu setor.
3
Assim que
se materializaram, uma força irresistível comprimiu-os contra o
solo.
Gucky teve
mais sorte, pois ainda conseguiu manter-se de pé no corredor baixo.
Sengu e Kulman, porém, tiveram que abaixar-se e foram parar em
posição agachada.
— Tivemos
azar — disse Kulman, esfregando a nuca. — Viemos parar num canal
de transporte. Sinto os trilhos.
— Raramente
erro nos cálculos — disse Gucky em tom indiferente. — Mas desta
vez aconteceu.
— É o
que estamos vendo — disse o japonês em tom distraído,
esforçando-se para orientar-se. Fitou a parede abaulada do túnel,
que foi atravessada por seus olhos. — Esta área é muito
interessante!
— Gostaria
de saber o que existe de interessante por aqui?! — indagou Gucky
admirado. — Estamos embaixo da terra, e é só.
— Este
túnel não é o único — objetou Sengu, sem diminuir a
concentração. Sentado e encostado à parede, fitava a rocha em
frente. — Deve haver uma rede completa de túneis deste tipo, que
liga as cidades e as fábricas. Se não tivesse estado na superfície,
chegaria à conclusão de que os swoons vivem exclusivamente no
subsolo.
— É o
que acontece com algumas de suas nações — observou Kulman, que
afinal devia estar informado sobre isso. — São especialmente
aquelas que vivem nas áreas mais afastadas do equador. Além disso,
as fábricas costumam ser construídas sob a superfície. Muitas
vezes tive a impressão de que os swoons procediam assim para
eliminar qualquer possibilidade de espionagem.
— É um
motivo bem plausível — disse Sengu, passando a concentrar-se em
outro setor daquele reino subterrâneo. — Dificilmente alguém
poderia molestá-los por aqui. Até nós tivemos dificuldade em
chegar ao lugar em que nos encontramos.
Os olhos
de Gucky já se haviam acostumado à escuridão, que não chegava a
ser completa porque ao longe havia uma luz no teto. Parecia que essa
iluminação era considerada suficiente para esse trecho dos trilhos.
Provavelmente nem se contava com a possibilidade de que pessoas não
autorizadas pudessem andar pelos túneis.
De
repente, Gucky teve a impressão de estar ouvindo um ruído.
Aguçou o
ouvido na direção da lâmpada, que ficava pelo menos a uns
trezentos metros. Naquela direção, o túnel descrevia uma curva. Na
verdade, ouviu um ligeiro sussurro e teve a impressão de que os
trilhos tremiam sob seus pés.
— Um
trem está chegando! — disse Sengu de repente, lançando os olhos
pelo túnel. — Está a uns dois quilômetros, mas desenvolve uma
velocidade bastante elevada. Vamos embora, Gucky. Temos de saltar.
— Para
onde? — perguntou Gucky com a voz tranqüila. — O trem chegará
até aqui antes que eu termine meus cálculos. E não vou arriscar-me
a saltar para um cano de esgoto ou para um alto-forno. Tivemos sorte
em parar neste túnel.
— Mas o
trem...
— Ele
não nos fará nada — prometeu o rato-castor. — Os swoons são
indivíduos pequenos e suas locomotivas não devem ser muito grandes.
Se necessário, deterei o trem com a mão esquerda. Mas isso não é
necessário. Afinal, para que serve minha capacidade telecinética?
Sengu, avise-me quando estiver na hora.
— Está
na hora — disse Sengu, que viu a luz do teto apagar-se. — O trem
aproxima-se numa velocidade considerável. A máquina de tração é
grande; tem mais de um metro de comprimento. Será que você consegue
detê-la?
Gucky já
havia segurado objetos muito maiores. Certa vez, fizera um caça
espacial de propulsão atômica descrever acrobacias no ar, contra a
vontade do piloto.
“Esse
Sengu sabe muito bem que consigo deter uma locomotiva de
brinquedo...”,
pensou o rato-castor.
*
* *
Rulf-On,
que há dez anos percorria regularmente o trecho entre as fábricas
da área norte e a cidade de Gorla, abaixou devagar a chave, para que
o trem desenvolvesse a velocidade máxima. Tinha diante de si mais de
duzentos quilômetros. Evidentemente que as unidades de medida dos
swoons eram outras, diferentes das dos terranos ou dos arcônidas,
mas a extensão do trecho, devidamente convertida, corresponderia a
essa distância.
Havia mais
uma curva, e depois dela haveria uma reta que chegava quase até o
ponto de destino.
Rulf-On
lançou um olhar sobre o velocímetro e estacou.
— Caramba,
o que estaria havendo de errado? A esta hora, a velocidade deveria
ser muito maior. Entretanto cai rápida e assustadoramente. Uma pane
no interior desse túnel estreito seria um acontecimento nada
agradável! — comentou admirado.
Rulf-On
puxou a alavanca do acelerador para trás e voltou a empurrá-la para
a potência máxima. Nesse instante, a energia deveria fluir dentro
da máquina e o trem daria um verdadeiro salto para a frente.
Mas nada
disso aconteceu!
Pelo
contrário. O trem parou e começou a andar para trás. Não ia com
muita velocidade e parecia mover-se a contragosto.
Foi por
puro acaso que naquele instante Rulf-On olhou para a frente. Teve a
impressão de, na luz forte da locomotiva, perceber uma sombra
gigantesca deitada nos trilhos. Não, não era apenas uma sombra, mas
várias. Talvez três.
Pelo
tamanho só poderiam ser dos saltadores ou mercadores galácticos. O
que é que estes poderiam procurar aqui embaixo? E como vieram parar
neste lugar? O túnel levava diretamente para Gorla. Será que os
saltadores — se é que realmente eram seres desta raça —
rastejaram até aqui? Por quê? Muitos deles podiam andar à vontade
pelas fábricas subterrâneas. Por que estariam dando tamanha volta?
É claro
que Rulf-On não encontrou resposta a estas perguntas, ainda mais que
se defrontava com outro problema, que evidentemente havia de
interessá-lo muito mais: por que de repente o trem passou a andar em
marcha à ré?
Infelizmente
não conseguiu resolver nem mesmo este problema, pois, dali a poucos
minutos, chocou-se com um trem de carga que se deslocava na direção
em que ele seguira antes. Felizmente o cargueiro mal começara a sair
do lugar. De qualquer maneira, o choque foi tão violento que Rulf-On
perdeu os sentidos e só os recuperou bem mais tarde, no hospital.
Perguntaram-lhe
por que andara em marcha à ré.
Mas a
mesma pergunta, ele já havia formulado em vão a si mesmo.
*
* *
— Não
sei se a melhor solução foi esta — disse Sengu.
— O que
poderíamos fazer? — perguntou Gucky, um tanto sentido. — Vocês
deveriam ficar satisfeitos por não terem sido atropelados por este
veículo dos “pepinos”.
Afinal, a
única coisa que eu poderia fazer era mandá-lo de volta.
— Deste
jeito nunca chegaremos ao ponto que queremos — interveio Kulman. —
Precisamos conversar com os cientistas dos swoons, para descobrir
alguma coisa sobre o aparelho que pretendem fabricar. Podemos
apresentar-nos como delegados do Império.
— Será
que não somos? — indagou Gucky, que parecia estar indignado. —
Estamos agindo por conta de Rhodan, um dos representantes do Império
de Árcon.
— Está
bem; vamos agir — disse Sengu. — A estação da qual partiu este
comboio fica a três quilômetros daqui. Vamos rastejar para lá?
— Agradeço
— disse Kulman sem fazer um movimento. Olhou para Gucky.
O
rato-castor suspirou.
— Procurarei
estabelecer a localização exata do ponto de destino; depois
saltaremos. Não gosto de passeios prolongados, ainda mais nas
circunstâncias em que nos encontramos.
Dali a
cinco minutos, materializaram-se em meio a uma imensa área de
oficinas, iluminada por fortes lâmpadas. Em todos os lugares viam-se
edifícios, cujos telhados chegavam a tocar a rocha. Considerando o
tamanho reduzido dos swoons, concluía-se que estas instalações
subterrâneas representavam um projeto gigantesco. Havia verdadeiras
estradas, onde veículos dos mais diversos tipos corriam velozmente
de um lado para outro. As fitas transportadoras traziam os swoons aos
locais de trabalho e levavam-nos para casa. Os numerosos
entroncamentos mostravam que havia um tráfego intenso entre a
estação, as cidades e as fábricas vizinhas. Tudo aquilo parecia um
brinquedo superdimensionado, construído bem embaixo da superfície.
— Nunca
estive aqui embaixo — disse Kulman. — Não quiseram mostrar-me o
caminho para suas fábricas.
— Isso é
perfeitamente compreensível — disse Sengu. — Têm medo de que
uns gigantes como nós pisemos em suas instalações. Afinal, temos
aproximadamente seis vezes o tamanho deles, o que já é alguma
coisa.
— Tenho
apenas três vezes o tamanho deles — disse Gucky. Ao que parecia,
sentia-se um tanto contrariado. — Tomara que não se espantem
quando me virem. Por enquanto só devem conhecer os arcônidas e os
saltadores.
Suas
presenças já haviam sido notadas.
Seria de
supor que o aparecimento repentino daqueles três seres deveria
provocar uma tremenda agitação, ainda mais que não havia qualquer
ligação direta com a superfície.
Entretanto
os swoons mantiveram uma atitude relativamente calma.
Alguns
deles saltaram das fitas transportadoras e desapareceram nos
edifícios mais próximos. Outros aproximaram-se e, muito curiosos,
pararam a uma distância adequada, olhando-os como se nunca tivessem
visto um ser humano. Nos seus rostos não se lia o pânico, mas
apenas a sede do conhecimento. Via-se que gostariam de saber o que
aqueles seres que, segundo acreditavam, eram saltadores, vieram fazer
por ali.
Um swoon
um pouco maior — deveria ter seus trinta e cinco centímetros —
adiantou-se e sinalizou com os quatro braços. Kulman pegou o
tradutor eletrônico e abaixou-se. Levantou cuidadosamente o swoon,
que parecia ocupar posição de destaque, pois seus semelhantes
demonstravam certo respeito para com ele.
Assim que
o swoon estava bem acomodado no braço de Kulman, este começou a
falar:
— Quero
oferecer-lhe meus respeitosos cumprimentos. Peço perdão se os
assustamos. Um motivo muito importante obrigou-nos a entrar aqui sem
prévio aviso.
— Por
onde entraram? — indagou o swoon. — O elevador está parado há
várias horas, por falta de energia. Não podem ter vindo...
— Descobrimos
outro caminho — disse Kulman, esquivando-se a uma resposta direta.
— Quem procura um criminoso não pode desprezar nenhuma
possibilidade. Suponho que já esteja informado sobre a ação que o
Império vem desenvolvendo neste planeta.
— Apenas
ligeiramente — disse o swoon, demonstrando tristeza. — Só sei
que algumas naves pousaram no planeta e bloquearam-no. Não conheço
os motivos.
— Estamos
à procura de um homem — explicou Kulman. — Este sujeito só pode
encontrar-se em Swoofon. Ele é o motivo das medidas por nós
adotadas. Assim que o encontrarmos, tudo poderá seguir seu curso
normal. Será que poderia apresentar-nos a um dos principais técnicos
ou cientistas da cidade? Precisamos de algumas informações que o
senhor talvez não possa nem queira dar.
— Sou
engenheiro de rádio; não ocupo nenhum posto dirigente. Talvez fosse
preferível levá-los primeiro ao prefeito. Ele poderá providenciar
o resto.
— E os
elevadores de carga? — lembrou Kulman.
O swoon
parecia sorrir.
— As
comunicações na cidade continuam a funcionar. O defeito atingiu
apenas os elevadores que nos ligam à superfície. Peço-lhes que se
dirijam para aqueles portões.
Kulman e
Sengu caminharam à frente. Na retaguarda, ia Gucky. Seguia
tranquilamente pela rua de um metro de largura, tendo sempre o
cuidado de não entrar em contato direto com nenhum dos swoons que o
fitavam com olhos curiosos.
Gucky
penetrou nos pensamentos dos swoons, mas não descobriu nada de novo.
Eram inofensivos. Apenas estavam espantados e mostravam-se curiosos
para saber o que aqueles enormes estranhos vieram fazer em seu reino
subterrâneo. Lá na superfície as coisas eram diferentes. Mas
esperavam que ao menos aqui embaixo esses gigantes fossem deixá-los
em paz.
— Os
elevadores ficam ali — disse o swoon que se encontrava nos braços
de Kulman, apontando em direção a uma parede. — Daqui a poucos
minutos estaremos na cidade.
Esta
previsão se concretizou. Na cabine do elevador, cabia uma pessoa de
cada vez. Gucky seguiu por último, juntamente com o swoon. O
rato-castor leu os pensamentos de seu pequeno acompanhante e teve o
desprazer de descobrir que acreditavam que fosse uma espécie de cão
de fila. O swoon não concebia a idéia de que poderia tratar-se de
um ser inteligente.
Gucky
ficou muito aborrecido. Resolveu que oportunamente preencheria de
forma bastante enfática esta lacuna cultural dos swoons.
Ao
contrário do que acontecia na extensa área da fábrica, na cidade o
tráfego era bastante intenso. As ruas relativamente estreitas
estavam cheias de carros e pedestres. O swoon que acompanhava o grupo
não teve outra alternativa senão alarmar a polícia, que bloqueou
as ruas que conduziam à residência do prefeito. Os pedestres
recolheram-se às casas. Os veículos estacionados retiraram-se às
pressas.
— O
caminho já está livre — disse o swoon, voltando ao braço de
Kulman. Parecia que gostava do lugar. — O prefeito já foi avisado.
Caso estejam interessados em saber meu nome, sou Waff, da equipe de
engenharia.
— É
muito longe, Waff? — perguntou Kulman.
— Levaremos
apenas alguns minutos para chegar à casa do prefeito. Tomem cuidado
para não danificar nada. Procurem caminhar no meio da rua. O
prefeito está à espera de vocês no jardim.
— No
jardim? — perguntou Sengu. — Aqui embaixo existem jardins?
— Não
se esqueça — disse Kulman em tom indiferente — de que o tradutor
eletrônico reproduz apenas o sentido literal das palavras. Os swoons
não conhecem um prefeito no sentido que nós atribuímos ao termo. E
a palavra jardim talvez não seja a designação adequada para uma
simples reprodução artificial do mundo existente na superfície.
Provavelmente encontraremos apenas rochas nuas e um areal. De
qualquer maneira, será uma recordação da natureza de Swoofon; e é
tudo que se poderá desejar.
Esta
previsão confirmou-se.
Atravessaram
um “portão”
de cerca de cinqüenta centímetros de largura e um metro de altura,
e chegaram ao jardim do prefeito. Depararam-se com um céu azul
estranho e verificaram que apenas se tratava de uma imitação fiel.
Até o sol estava presente. Um pequeno regato descrevia curvas em
meio a uma área arenosa entremeada de rochas “íngremes”.
Aquela área livre era cercada pelos muros das casas vizinhas.
O
prefeito, um swoon pequeno e franzino, já os esperava. Sentado num
minúsculo banco, fitava-os com os olhos curiosos.
A palestra
que se seguiu foi conduzida principalmente por Kulman. Afinal, era
ele quem possuía mais experiência com os habitantes de Swoofon.
Sengu
acomodou-se numa rocha, que para o prefeito deveria ser uma espécie
de elevação com visão panorâmica, enquanto Gucky se manteve bem
quieto junto ao regato, sem tirar os olhos do swoon. Sua mente
trabalhava intensamente. Sentiu-se dominado por uma simpatia
inexplicável pelos graciosos swoons. Se dependesse dele, teria
levado para a Drusus dois ou três desses seres.
Naquele
momento, nada indicava que os swoons se interessassem em sair de sua
cidade. Sentiam-se bem sob a superfície. Ali realizavam um trabalho
que lhes proporcionava um certo conforto, uma relativa opulência e,
principalmente, o respeito das outras inteligências do Império.
Kulman
também estava sentado numa pedra e conversava com o prefeito.
Procurou explicar ao mesmo que estavam à procura de um homem
impossível de ser descrito, porque mudava constantemente de aspecto.
Às vezes se parecia com um arcônida ou um ara. Era um mestre exímio
na arte de mascarar-se e modificava seu aspecto exterior à vontade.
Seu objetivo, asseverou Kulman com o rosto mais sério deste mundo,
consistia em dominar a Galáxia.
— Evidentemente
terei muito prazer em ajudar, mas não sei o que este homem estaria
fazendo em Swoofon. De qualquer maneira, acho que os senhores não
demorarão em concluir sua tarefa neste planeta, pois aqui existem
muito poucos humanóides. Não levarão muito tempo para examiná-los.
— Somos
da mesma opinião — disse Kulman e fez de conta que se sentia
aliviado. — Acontece que em Swoofon um fugitivo teria ótimas
oportunidades para esconder-se nas cidades subterrâneas. Seria muito
difícil visitar todas elas. Já tivemos de enfrentar um problema
para chegar até aqui.
— Como
conseguiram? — perguntou o swoon.
— Tivemos
sorte — disse Kulman. — Peço-lhe que me diga como posso saber
onde existem saltadores nestas cidades e fábricas subterrâneas.
O swoon
entrou no assunto.
— Por
aqui vive um único saltador. Trata-se de um técnico chamado Drog.
Já está aqui há muitos anos e por isso dificilmente poderia ser a
pessoa que estão procurando. Não é verdade?
— Não
há dúvida. Mas não queremos excluir nenhum saltador. Onde podemos
encontrar o tal do Drog? Talvez ele possa fornecer-nos alguma
indicação.
— Geralmente
encontra-se nas fábricas. Quem poderá ajudá-los neste ponto é
Waff, que conhece Markas.
— Quem é
Markas?
— É um
dos nossos cientistas mais competentes na área da microeletrônica.
Lida diretamente com Drog e com os outros saltadores que negociam
conosco. Acho que não posso fazer mais nada pelos senhores. Por
favor, acompanhem Waff. Aliás... — hesitou um pouco. Um brilho
estranho surgiu em seus olhos. — É estranho... Outros saltadores
devem ter penetrado na cidade. Um dos nossos comboios sofreu um
acidente bastante estranho. Foi detido por algum processo de
teledireção e enviado de volta à estação. Quase houve um
desastre. O maquinista diz ter visto dois ou três saltadores no
túnel.
Lançou um
olhar atento para Kulman, mas este soube dominar-se muito bem.
— Hum...
Talvez estejamos na pista correta — disse. — Perguntaremos a
Markas se conhece algum amigo do tal do Drog. Queira aceitar nossos
respeitos, senhor prefeito. Ficaríamos satisfeitos se graças a seu
auxílio conseguíssemos...
A
despedida prolongou-se por dez minutos, durante os quais foram
trocadas fórmulas de cortesia. Finalmente conseguiram retirar-se. O
caminho de volta ao elevador transformou-se numa verdadeira sensação
para os habitantes da cidade, mas devido ao apoio eficiente da
polícia os três visitantes e Waff não demoraram em chegar ao
destino.
Desceram
pelo elevador.
Na praça,
da qual partiam as estradas que davam para as fábricas, Waff disse:
— Quero
pedir-lhes que esperem aqui. Se me acompanharem, a confusão será
tremenda. Procurarei Markas e o trarei para cá.
Gucky leu
nos pensamentos do engenheiro e descobriu que estava dizendo a
verdade. Fez um sinal quase imperceptível para Kulman.
— Esperaremos
— disse Kulman e sentou-se numa pilha de chapas de plástico.
Seguiu Waff com os olhos e disse: — Não sei o que estamos fazendo
por aqui. Procuramos uma pessoa que não existe.
Gucky
deitou no chão de concreto.
— Não.
Buscamos alguma coisa que existe — retificou com a voz aguda e
exaltada. — Estamos catando o swoon e o saltador que lidam com o
goniômetro de compensação. Você descobriu a pista, Kulman.
Procure não perdê-la.
— Todos
os indícios apontam para esta cidade, Gucky — respondeu Kulman,
falando devagar. — Quando estive no planeta, falei com alguns
técnicos que trabalhavam na superfície. Afirmaram-me que o “homem”
que dá as ordens reside aqui e vai muitas vezes a Gorla. Talvez seja
o tal do Drog, talvez seja outro. Os mesmos técnicos me disseram
também que um conjunto de cavernas completamente novo, ao qual não
têm acesso, deverá abrigar as novas instalações. Não tenho a
menor idéia sobre o andamento dos trabalhos.
— Não
será difícil descobrir, Kulman. Sou telepata e os pensamentos de um
saltador ou de um swoon não são nenhum segredo para mim.
O
rato-castor olhou na direção do edifício em cujo interior Waff
havia desaparecido.
— Estão
chegando.
Sengu e
Kulman viram Waff surgir na porta em companhia de um swoon franzino;
para as condições reinantes no planeta a porta era muito alta. Um
homem vinha atrás deles. Devia ser Drog.
Gucky
manteve-se imóvel, à espreita. Já estava captando os impulsos
mentais dos indivíduos que se aproximavam. Fez um sinal quase
imperceptível para Kulman.
— Ouvi
dizer que os senhores estão atrás de um criminoso — disse Drog,
assim que se viu à frente do grupo. — Meu nome é Drog. Já me
encontro em Swoofon há dez anos, por conta de meu clã. Não tenho
nada a ver com a pessoa que estão procurando.
— Ninguém
afirmou que tivesse — respondeu Kulman. — Não suspeitamos do
senhor. Acontece que fomos incumbidos de fazer uma investigação
geral. Caso as indicações que o senhor acaba de fornecer
correspondam ao resultado das pesquisas a serem realizadas, o senhor
evidentemente estará acima de quaisquer suspeitas.
Kulman fez
de conta que a palestra estava concluída. Mas o saltador sentiu-se
tão aliviado que viu naquilo uma agradável quebra da monotonia.
Sorriu.
— Já
querem retirar-se? Contem o que há de novo no Império.
Kulman
teve a impressão de que Drog queria evitar a todo custo que o swoon
que atendia pelo nome de Markas pudesse dizer alguma coisa.
— Por
que Árcon mandou isolar e ocupar um mundo pacífico como este?
— Sinto
muito, mas não posso informar os motivos. Por favor, volte para seu
trabalho. O senhor devia estar ocupado, não é?
Gucky não
se movia. Em seus fiéis olhos surgiu um lampejo de satisfação.
— Não
estava fazendo nada de importante — disse Drog com uma risada. Até
parecia que a idéia de que pudesse estar ocupado o divertia. — Uma
pausa não faz mal a ninguém.
Markas
abriu caminho junto a Drog e dirigiu as atenções para sua pessoa.
Falou alto em sua língua, e o tradutor eletrônico transmitiu sua
mensagem em voz clara:
— Meu
nome é Markas. Sou o cientista que dirige este setor. Tenho algumas
perguntas, e ficar-lhes-ei muito grato se quiserem responder.
Trata-se de...
Gucky
interrompeu-o com a voz estridente:
— Não
viemos para responder às suas perguntas, swoon — Kulman e Sengu
lançaram um olhar perplexo para o pequeno rato-castor.
Por que
resolvera intervir na palestra? Por que o swoon não deveria formular
perguntas? Mas quando notaram o olhar de Gucky, que parecia pedir que
não se intrometessem, resolveram ficar calados.
— Estamos
à procura de um criminoso e não temos nada a ver com os seus
problemas — prosseguiu o rato-castor. — Poderia ter a gentileza
de mostrar o caminho que conduz aos elevadores?
Markas
mostrava-se visivelmente decepcionado; já Drog estava contente, e
mal conseguiu disfarçar sua satisfação. Estava radiante, e lançou
um olhar de triunfo para Markas. Seus olhos pareciam dizer: Viu como
esses encarregados do Império são pessoas muito arrogantes?
— Como
queira — soou a voz no tradutor eletrônico.
Além de
decepcionado, Markas sentia-se muito ofendido. Os estranhos não
demonstravam o necessário respeito por sua pessoa e, por isso mesmo,
não havia motivo para perder tempo com eles.
— Queiram
seguir-me — falou em tom indiferente.
Drog deu
de ombros.
— Talvez
tenham sorte e encontrem o criminoso, seja ele quem for. Peço
licença para retirar-me.
— Pois
não — disse Kulman, que já começava a desconfiar do motivo que
levara Gucky a intervir na palestra de forma tão afrontosa.
O
rato-castor certamente conseguira descobrir uma coisa importante e
não queria que se falasse a este respeito na presença do saltador.
— Fique
à vontade — completou. Drog afastou-se, abaixou-se um pouco e
desapareceu pela porta do edifício que ficava à sua frente. Podia
ficar tranqüilo. Os enviados de Árcon eram arrogantes a ponto de
não se interessarem pelo que um pequeno swoon tinha a dizer. Markas
acabara de levar um fora. E, pelo que ele, Drog, conhecia dos swoons,
poderia afirmar que o cientista não faria outra tentativa de falar
sobre o goniômetro de compensação.
Markas,
que caminhava à frente do grupo, disse aos seus acompanhantes:
— Não
sei quando os elevadores que levam à superfície voltarão a
funcionar. Até lá poderão considerar-se hóspedes da cidade. Waff
cuidará dos senhores — ao que parecia, não tinha a menor vontade
de perder seu precioso tempo com aqueles desconhecidos. — Acho que
não temos mais nada a falar.
— Pois o
senhor está muito enganado — disse Kulman. — Tenho certeza de
que este nosso companheiro — apontou para Gucky — gostaria de
fazer-lhe algumas perguntas. Não é verdade, Gucky?
O
rato-castor fez um gesto afirmativo e olhou em torno.
— Onde
poderíamos conversar bem à vontade, Markas? — abaixou-se e
levantou o swoon. — Desculpe minha grosseria, mas a presença do
saltador obrigou-me a cometê-la. Explicarei tudo.
— Quem é
você? — perguntou Markas. — Não é nenhum humanóide.
— Não
sou mesmo. Até um cego vê isso — disse Gucky e apontou para a
estação ferroviária, na qual desembocavam inúmeros túneis. —
Poderia ser lá?
Andando
bem abaixados, penetraram alguns metros do túnel. Kulman disse:
— O que
pretende fazer, Gucky? Não venha me dizer que quer ir a Gorla a pé.
— Tenho
o aspecto de quem gosta de caminhar? — perguntou o rato-castor em
tom irônico. — Não perderemos tempo; logo estaremos ao ar livre.
Markas é o homem, bem, o swoon, que procuramos. É o cientista
responsável pelo projeto do goniômetro de compensação. Acredito
que contará tudo que sabe a este respeito.
Waff e
Markas fitaram-se com um ar de perplexidade, pois o tradutor
eletrônico reproduzira fielmente o sentido das palavras de Gucky.
Depois de algum tempo Markas gaguejou:
— Como
foi que o senhor... como foi que você soube?
— Sou
telepata — disse Gucky. — Vamos ver como devemos fazer para
saltar à superfície.
Ao
contrário da teleportação para as profundezas desconhecidas, o
salto para a superfície foi uma brincadeira. Por isso, demorou menos
de dois minutos até que os dois homens, os dois swoons e Gucky se
vissem em pleno deserto, sob os raios do sol que já se aproximava da
linha do horizonte. Logo após a rematerialização procuraram
orientar-se.
Nesse
instante, o rádio de pulso de Sengu emitiu um zumbido. O fato de que
o som cresceu e diminuiu três vezes significava que a mensagem era
da maior importância.
4
O
cargueiro interestelar Ramo VII era comandado por Alban, um arcônida
do clã dos Ozol. Fazia vários decênios que Alban conduzia sua nave
cilíndrica pelas rotas mais ou menos conhecidas, realizando a troca
de mercadorias por ordem de Árcon. Desta vez levara sua carga ao
sistema de Swaft, onde deveria trocar a mesma por importantes peças
microeletrônicas.
Era a
primeira vez que Alban estava em Swoofon. Mas o estranho planeta, com
os habitantes ainda mais estranhos, já lhe era conhecido através
dos catálogos arcônidas e dos relatos dos saltadores. Não poderia
deixar de confessar que se sentia curioso para ver pessoalmente os
swoons.
Tanto
maior foi sua surpresa quando, no momento em que efetuava a transição
que o levaria do hiperespaço ao espaço normal, foi detido por uma
nave esférica. Evidentemente conhecia o tipo, pois os girinos eram
modelos arcônidas.
De início,
Alban nem pensou em obedecer à ordem que na sua opinião constituía
um absurdo total. Afinal, seu cargueiro era uma nave do Império.
Ninguém tinha o direito de detê-la. Mas quando viu um pálido feixe
energético passar rente à proa de sua nave, decidiu outra coisa.
Ligou os campos gravitacionais e desacelerou o suficiente para que o
girino pudesse encostar. Imediatamente um comando subiu a bordo da
Ramo VII e pediu que o levassem ao comandante.
Alban
aguardou os piratas, que foi como chamou aquelas pessoas, na sala de
comando. Não se esquecera de colocar um radiador no cinto do
uniforme. Isso reforçava sua autoconfiança.
No
primeiro instante, sentiu-se perplexo ao reconhecer dois saltadores e
um arcônida, que foram conduzidos à sala de comando pelos
tripulantes de sua nave. Já não compreendia mais nada.
— Qual é
a finalidade de sua viagem ao sistema de Swaft? — perguntou o
arcônida em tom áspero. — Qual é seu porto de matrícula?
Alban teve
de esforçar-se para não perder o autodomínio.
— Sou
Alban, comandante da Ramo VII. Meu porto de matrícula é Árcon II.
O que lhe deu na cabeça para deter-me? Quem é o senhor?
— Quem
faz perguntas somos nós, Alban. Limite-se a responder. Infelizmente
não podemos permitir que pouse em Swoofon. Ninguém poderá
perturbar a ação que estamos desenvolvendo nesse planeta. Swoofon
está completamente bloqueado e é considerado área interditada.
— Posso
saber o motivo?
— Infelizmente
não, Alban. Apenas cumprimos um pedido do enviado do regente. Nossa
frota recebeu ordens para deslocar-se para este local. Também viemos
de Árcon.
Alban
sacudiu a cabeça.
— Não
compreendo. Também venho diretamente de Árcon, onde recebi ordens
para trocar certos produtos por outros fabricados pelos swoons. O
negócio foi fechado há muito tempo. E agora vêm os senhores e me
dizem que não posso pousar! Há algo de errado nisso.
Os dois
saltadores e o arcônida há tempo tinham a mesma impressão, mas
evidentemente não iriam transmiti-la ao seu interlocutor. As ordens
do regente não admitiam qualquer tipo de oposição.
— Não
podemos decidir sobre isso, Alban. Apenas lhe pedimos que retorne. Se
preferir, pode esperar fora do sistema.
— Não
tenho tempo para isso! — disse Alban, sacudindo a cabeça num gesto
obstinado. — Voltarei a Árcon e solicitarei uma entrevista com o
regente. Talvez ele me informe por que motivo uma ordem tão
importante como a que me foi dada é anulada de uma hora para outra.
Posso pedir-lhes que se retirem de minha nave?
Aguardou
pacientemente que os três homens saíssem de bordo. Depois mudou de
rota e efetuou uma transição, em direção a Árcon.
A raiva de
que se sentia possuído era tamanha que esqueceu todas as etiquetas.
Teria
algumas perguntas a fazer ao gigantesco computador positrônico, que
era o regente do Império. E não teria papas na língua.
*
* *
Os
conceitos do tempo e do espaço, ligados ao da distância, já
pertenciam ao passado. Cinco horas após ter sido detido perto de
Swoofon, o arcônida já se encontrava na sala de recepção do
regente de Árcon.
Uma hora
depois, o receptor de hiper-comunicação da Drusus emitiu um sinal c
uma voz mecânica disse que desejava falar com Rhodan. O operador de
rádio que estava de plantão recorreu ao intercomunica-dor, a fim de
transferir a ligação para a sala de comando, e avisou o imediato,
uma vez que Sikermann achava-se de folga. Rhodan também não se
encontrava na sala de comando: estava dormindo. A curta noite de
Swoofon estava chegando ao fim; o novo dia já ia raiando ao leste.
No momento
em que ouviu o sinal do telecomunicador, Rhodan teve um
pressentimento de que teria de tomar uma grande decisão. Já
aguardara por este momento, mas sentia-se grato ao destino por lhe
ter concedido uma noite de descanso.
— Aqui
fala Rhodan. O que houve, Major van Aafen?
— A sala
de rádio anuncia uma mensagem de hipercomunicação. Vem de Árcon.
Quer que a ligação seja transferida para seu camarote?
— Irei
até aí, major. Faça o favor de avisar Bell e Crest. Peça-lhes que
compareçam à sala de rádio. Diga-lhes que devem apressar-se.
Vestiu
ligeiro o uniforme, e saiu para o corredor mergulhado numa penumbra.
O elevador antigravitacional mais próximo levou-o ao corredor
circular. Dali a vinte segundos, entrou na sala de rádio.
Teve de
dar mais cinqüenta passos para colocar-se à frente da tela de
hipercomunicação, na qual se destacava, firme e nítida, a imagem
do regente, uma gigantesca esfera metálica que descansava sobre uma
superfície plana. Seria inútil formular conjecturas sobre as
dimensões prováveis daquela figura.
— Pode
fazer a ligação — disse Rhodan, dirigindo-se ao operador de
rádio.
— Está
feita.
Rhodan
recuou um passo para que a câmera pudesse focalizá-lo. Sabia que o
regente podia vê-lo, tal qual ele o via.
— Deseja
falar comigo, regente?
— Você
me enganou. Solicitou o apoio de uma frota de guerra para assaltar um
sistema solar inofensivo. Eu supunha que se tratasse de uma ação
dirigida contra nosso inimigo invisível, que nos tem atingido, vindo
de outro plano temporal. Mas, em vez disso, você está perturbando
nosso comércio com um mundo pacífico. Não compreendo por que
solicitou o envio de uma frota de guerra, pois apenas a sua já
bastava para solucionar problemas até mais difíceis. Acredito que
queira envolver-me numa coisa pela qual não quer assumir a
responsabilidade exclusiva.
— Fizemos
um acordo, regente — respondeu Rhodan em tom frio e respirou
aliviado quando viu Crest e Bell entrarem na sala de rádio.
Preferia
que houvesse testemunhas enquanto falava com o computador-regente.
— Segundo
esse tratado, posso dispor incondicionalmente de seu poderio, desde
que precise dele e lhe faça uma solicitação nesse sentido. Muito
bem; você atendeu ao meu pedido e enviou Talamon. E agora vem me
dizer que eu violei o acordo. Como posso entender uma coisa dessas?
— Você
entende perfeitamente, terrano. Nosso acordo referia-se apenas à
luta contra os invisíveis. Não o autorizava a interferir nos
assuntos internos de Árcon. E é o que está fazendo.
Uma
desconfiança começou a surgir na mente de Rhodan. Por que o regente
estava tão interessado em que Swoofon fosse deixado em paz? Será
que sabia do projeto do goniômetro de compensação, que lhe
permitiria descobrir a posição da Terra? Será que o aparelho
estava sendo construído por ordem do regente?
— Nosso
acordo não se restringiu à luta contra os invisíveis, regente.
Teve em vista uma colaboração em todos os setores. Se for violado
sob qualquer aspecto, ficará sem efeito.
— Minha
opinião é diferente, Rhodan. Devemos cumprir o acordo, tendo sempre
em vista o que diz respeito aos invisíveis. Por isso, peço-lhe que
se retire de Swoofon e não interfira nas nossas rotas vitais de
comércio. Darei ordem a Talamon para que retorne imediatamente a
Árcon. Os invisíveis poderão voltar a atacar a qualquer momento. E
quando isso acontecer devemos estar preparados, Rhodan.
“Você
sabe perfeitamente que o perigo que ameaça a Via Láctea é
extremamente grave. Um plano temporal diferente está penetrando no
nosso. Em muitos pontos, já existe uma interseção entre as duas
dimensões. Os invisíveis existem em outra dimensão temporal, vivem
segundo seus padrões, que são muito mais lentos que os nossos. Se
não conseguirmos expulsá-los, deixaremos de existir. Será que você
já se esqueceu disso, terrano? Seu mundo também está ameaçado;
pouco importa onde fique.”
— Sei
perfeitamente, regente — respondeu Rhodan, lançando um olhar
tranqüilizador para Crest e Bell. — Estamos criando uma arma
contra os seres da outra dimensão temporal. Conseguiremos penetrar
em seu reino e estabelecer contato com eles. Não pense que ficamos
inativos. A atuação que desenvolvemos em Swoofon é necessária. Do
contrário não me teria lançado na mesma. Então; qual é sua
decisão?
— Você
já a conhece. Talamon voltará para Árcon, e você abandonará o
sistema de Swaft.
Rhodan
acenou lentamente com a cabeça.
— Está
bem; mas antes tenho de resolver um assunto particular. Depois de
solucioná-lo, Swoofon será liberado e todas as naves. Voltarei a
entrar em contato com você, regente. De qualquer maneira, nossos
aparelhos levam à conclusão de que dentro em breve haverá outro
ataque dos invisíveis. Espero que seja o último.
— Um
assunto particular?
— Isso
mesmo: Você entendeu o que eu disse — respondeu Rhodan e fez um
sinal ao operador de rádio.
A imagem
do regente desapareceu da tela, pois o contato foi interrompido de
repente. Bell suspirou e disse:
— Você
não acha que está sendo muito duro com ele?
— Com o
regente? — perguntou Rhodan em tom de espanto. — Desde quando
você tem compaixão com um computador? Ainda me lembro do tempo em
que...
— Sim.
Isso foi naquele tempo. Mas tive a impressão de que hoje o robô se
mostrou muito acessível. De qualquer maneira, já teve de
conformar-se com uma grande perda de prestígio.
— Bell
tem razão — interveio Crest. — Se um belo dia o regente perdesse
a paciência e renunciasse do acordo que celebrou conosco, seríamos
prejudicados.
Rhodan
soltou uma estrondosa gargalhada.
— Ora,
Crest! Você só pode estar brincando. Afinal, foi o regente que
manifestou o desejo de celebrar o acordo. Não terá pressa em
renunciá-lo, enquanto existir o perigo invisível vindo de outra
dimensão temporal. Pelo menos já sei que não está sendo muito
sincero conosco. Quer descobrir a posição da Terra e para isso
recorre a tudo quanto é truque. Acredito que o maior truque que está
usando seja Swoofon. Bem, vamos fazer-lhe a vontade. Vou deixá-lo
fabricar o goniômetro de compensação.
— Não
pretende destruir os planos, Perry? — perguntou Bell assim que se
recuperou da surpresa.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Não.
Um belo dia seriam elaborados outros planos. Ninguém consegue deter
a evolução; já falamos a este respeito. Pelo menos já sei que o
regente sabe da existência desse goniômetro. Teremos de ser mais
espertos que o regente, os saltadores e os swoons reunidos. Venha
comigo, Crest. Quero fazer-lhe algumas perguntas. Bell, procure
entrar em contato com Gucky. Diga-lhe que deve voltar imediatamente
com Sengu e Kulman, mesmo que não tenha conseguido nada de positivo.
— Sim
senhor! — Bell fez uma continência exagerada e dirigiu-se ao
operador de rádio. Rhodan e Crest dirigiram-se à sala de comando.
Dali a dez
minutos, Gucky materializou-se no interior da Drusus, juntamente com
dois swoons, e logo voltou a desaparecer sem qualquer explicação,
para buscar Kulman e Sengu. Depois disse em tom de triunfo:
— O
Tenente Gucky acaba de retornar de sua missão juntamente com os
mutantes Sengu e Kulman. Trouxe dois desertores do inimigo: o
engenheiro Waff e Markas, chefe da equipe científica que trabalha
com o projeto do goniômetro de compensação.
Agachou-se
sobre as patas traseiras e fitou Rhodan, Bell, Crest e os oficiais da
Drusus. Encontrava-se entre os dois swoons que pareciam “pepinos
maduros”;
um sorriso cobria seus rostos esquisitos. Parecia realmente que
haviam brotado no chão metálico da sala de comando e apenas
esperavam que alguém os colhesse.
Gucky
assustou-se quando os homens soltaram uma estrondosa gargalhada, que
não foi maliciosa, antes cordial e amistosa.
Era claro
que a gargalhada de Bell foi a mais forte e a mais demorada.
Markas
ofereceu o relato, e o quadro foi se completando.
Como
sempre, Crest mantinha-se em silêncio num dos cantos da sala. A seu
lado estava Atlan, cujos olhos, que pareciam olhar para além do
tempo, simbolizavam reflexão. Gucky acomodou-se no sofá e ficou com
os olhos semicerrados. Waff, o pequeno swoon, estava sentado em seu
braço e contemplou as pessoas ali reunidas com uma expressão de
interesse.
Rhodan,
Bell, Marshall e Kulman estavam sentados em torno de uma mesa sobre a
qual estava sentado Markas, que respondia com a maior solicitude a
todas as perguntas que lhe eram dirigidas, falando para dentro do
tradutor eletrônico. Não compreendia tudo que acontecia em torno
dele, nem desconfiava das circunstâncias que causavam tamanha dor de
cabeça a Rhodan. Limitou-se a dizer o que sabia.
— ...de
forma que resolvemos utilizar um setor até então abandonado do
enorme recinto, para que oportunamente pudesse ser iniciada a
fabricação em série do novo goniômetro. Os trabalhos de
construção da fábrica estão em pleno andamento. Assim que o
modelo experimental tenha sido testado, a produção poderá ter
início.
— Em que
região fica a fábrica? — Rhodan empurrou um mapa para o swoon. —
Aqui fica Swatran, a maior cidade do planeta. O senhor consegue
orientar-se?
O swoon
olhou para o mapa; hesitou um pouco.
— Praticamente
não conheço a superfície, porque tenho vivido principalmente no
subsolo, onde nasci. Mas acho que poderei orientar-me com base nas
ferrovias subterrâneas registradas no mapa. Pelo que diz, Kulman
obteve as respectivas informações durante sua permanência no
planeta — passou o minúsculo braço com os dedos supersensíveis
pelo mapa. — Isto deve ser a cidade de Gorla. Esta é a linha que a
liga à minha cidade. É mais ou menos aqui — seu braço escorregou
para o norte — que fica o lugar em que está sendo instalada a
fábrica de goniômetros.
— Onde
estão os planos de fabricação do aparelho? — perguntou Rhodan.
— Estão
trancados num cofre, no meu escritório. Drog e eu somos as únicas
pessoas que têm a chave. Aliás, são duas chaves. Ele tem uma e eu
tenho outra. O cofre só pode ser aberto com as duas chaves.
Rhodan
acenou com a cabeça.

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