terça-feira, 12 de março de 2013

P-054 - O Duelo - K. H. Scheer [parte 1]



Autor
K. H. SCHEER



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
O prisioneiro do Serviço Solar de Segurança lança mão de seus trunfos secretos; a segunda aventura de Atlan!

Apesar das hábeis manobras realizadas no espaço galático, o trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria ocorrido no ano de 1984.
Uma nova geração de homens surgiu.
E, da mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma os terra-nos são os soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante.
Mas Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não está disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes cósmicos — todos eles mutantes do célebre exército — continuam a ser instruídos no sentido de, em quaisquer circunstâncias, manter em sigilo sua origem terrana.
Atlan vê aproximar-se a realização de seus desejos. Só um obstáculo interpõe-se em seu caminho: Perry Rhodan, o administrador do Império Solar.



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Atlan — O personagem principal que conta a história em primeira pessoa. Trata-se de um prisioneiro arcônida.

Marlis Gentner — Uma estudante de olhos escuros nascida em Vênus.

Gunter Viesspahn — Um colono barbudo de gestos grosseiros.

Perry Rhodan — Administrador do Império Solar.
1



Foram muito gentis, amáveis e, dentro dos limites das suas normas de serviço, até se mostraram tolerantes. E isso significava alguma coisa, quando se tratava de membros da defesa solar.
Muitos deles eram cientistas uniformizados. Outros, soldados da frota espacial, calejados nas lutas. Conforme explicaram, haviam arriscado tudo pela Terra.
Para eles, eu era um ser totalmente estranho, tanto sob o aspecto biológico como do ponto de vista político-social. Nunca chegaram a empregar a expressão “raça estranha”, fato que só concorria para confirmar minha opinião relativa ao grau de amadurecimento ético da Humanidade. Já não eram intolerantes como antigamente, quando perseguiam pessoas que adotavam crenças diferentes das suas e executavam os adversários políticos. Haviam amadurecido, mas isso não os impedia de verem um inimigo em minha pessoa.
Não temos absolutamente nada contra o senhor, meu caro — declarou o general Kosnow em tom jovial.
Por isso, formulei uma pergunta inteiramente lógica: por que não me deixavam ir em paz? Quando me lembrei do sorriso azedo de Kosnow, senti a preocupação fermentar em minha mente. Só nos raros momentos de equilíbrio psíquico esse fato me divertia.
Era claro que não poderiam soltar-me, depois que eu irrompera em seu círculo de vida em circunstâncias tão misteriosas.
Não sabiam nada a respeito da minha cúpula pressurizada, situada nas profundezas do Oceano Atlântico. Por outro lado, não lhes revelei que no ano de 1.971 resolvera colocar-me em segurança, porque temia a irrupção de uma guerra nuclear.
Dali a sessenta e nove anos, quando as instalações médicas robotizadas de minha base me despertaram do estado de hibernação biológica, tive de constatar que não houve guerra.
Pude ver o que a Humanidade havia realizado dentro desses sessenta e nove anos.
Recorrendo a todos os meios de que consegui lançar mão, cheguei a Terrânia, onde travei conhecimento com o homem mais importante da fase recente da história.
Seu nome era Perry Rhodan. Durante o tempo em que eu dormira, ele havia criado um pequeno império planetário, ao qual dera o nome de Império Solar.
Na Galáxia habitada, ninguém parecia desconfiar de que na pessoa de Rhodan surgira um conquistador audacioso e cheio de astúcia.
Levei algum tempo para avaliar aquele homem. E isso quase chegou a transformar-se na minha perdição.
Embora conhecesse a dureza, a pertinácia e a capacidade de ação dos humanos, não dei o devido valor a Rhodan.
Tentei fugir numa pequena espaçonave do tipo jato espacial, pois, após um longo afastamento, tinha vontade de chegar em casa. Esperei por muito, muito tempo que o desenvolvimento tecnológico dos humanos chegasse ao estágio da navegação espacial.
Quando finalmente conseguiram, cometi a tolice de fugir para as profundezas do oceano. Dessa forma, perdi a oportunidade representada pelo grande salto.
Quando por ocasião do primeiro vôo tripulado à Lua, Rhodan descobriu o cruzador danificado dos arcônidas. Naquela oportunidade, uma ação precipitada me fez perder a maior chance de minha existência.
Enquanto eu estava mergulhado no profundo sono biológico, o antigo major da Força Espacial adquiriu o saber arcônida e realizou seus projetos com base no mesmo.
Quem cruza nestas condições o caminho de um homem, que há decênios vê o próprio sentido da vida em tudo quanto é dificuldade e risco, quase sempre se expõe a uma catástrofe.
Fugi! Entrei numa nave espacial pilotada pelo próprio Rhodan. Em Hellgate, houve o duelo no deserto.
Ele me mandou prender e algemar. Durante a luta tive uma oportunidade de matá-lo. O motivo por que não o fiz, mas preferi errar o alvo, constituiu parte substancial das minhas reflexões autocríticas do momento.
Por que não o matei? Teria sido porque antes ele me ajudara a sair da nave em chamas?
Não. Esse motivo não tinha qualquer fundamento lógico. O homem que resolve poupar seu inimigo não está certo de que este venha a adotar o mesmo modo de agir quando surgir uma situação idêntica.
Apesar disso, senti que devia ser-lhe grato. Poupei sua vida de propósito e avisei-o pelo rádio de que agora estávamos quites. Poucas horas depois iria arrepender-me do gesto.
Após a salvação realizada no último instante, ele me fez contemplar a boca de sua arma. Fiquei sabendo que, entre nós, surgira uma estranha amizade fundada no ódio.
Admirei-o a contragosto. Ele, que se considerava imortal, mas que poderia ser atingido com tamanha facilidade, via em mim um objeto de estudo muito interessante.
Rhodan era muito inteligente e experimentado nas coisas da vida e talvez até desconfiasse de que eu não fosse um verdadeiro arcônida. Provavelmente, foi só por isso que me mandou levar à Terra num cruzador leve. E desde o dia 10 de maio de 2.040 estou detido neste planeta, como prisioneiro da defesa solar.
Meu relacionamento com essa gente transformou-se numa tragicomédia de primeira categoria. Evidentemente sabiam muito bem que a vida de seu ídolo estivera em minhas mãos. E também sabiam que eu não era um verdadeiro inimigo da Humanidade.
Os homens da defesa solar eram psicólogos. Por isso, meu comportamento colocava-os diante de uma verdadeira muralha de enigmas, cuja solução dificilmente seria possível para quem não possuísse a chave adequada.
Quem tinha a chave era eu; também sobre este ponto estavam informados. Não haveria nada mais natural que procurar arrancar-me esse conhecimento.
Quando foram buscar-me para realizar o primeiro interrogatório, tive um pouco de medo. Talvez poderiam reincidir nos seus antigos vícios.
Pensava num tratamento grosseiro. À porta da sala em que seria realizado o interrogatório, minha lembrança muito viva me mostrara coisas feitas em tempos passados, por homens ainda não humanizados.
Não me fizeram nada. Os cientistas uniformizados apenas puderam ameaçar-me com seus rostos zangados o que, uma vez vencido o primeiro choque, quase nem chegou a impressionar-me.
Há dias estávamos brincando uns com os outros. Recorreram a todos os truques puramente psicológicos que conheciam. Tive de prestar muita atenção. Mas, afinal, eu era um conhecedor mais profundo da mente. Não dispunham das mesmas experiências que eu, nem estavam informados sobre as coisas que eu mesmo experimentara pessoalmente no correr do tempo.
Era um paradoxo que eu, um arcônida, conhecesse os homens melhor do que eles mesmos se conheciam. Para mim, o fato de que vezes seguidas me ofereciam oportunidade de deixá-los perplexos com o volume das minhas experiências representava uma fonte de divertimento.
Era esta a situação quando vieram buscar-me no dia 16 de junho de 2.040, para o vigésimo segundo interrogatório psicológico.
2



O tenente Tombe Gmuna era o oficial de escolta. Eu gostava do africano, sempre risonho, que costumava demonstrar uma franqueza reconfortante.
Cederam-me uma pequena casa, situada nas proximidades do centro administrativo de Terrânia. Não tinha janelas gradeadas ou outras instalações convencionais destinadas a evitar a fuga.
Possuía três robôs de serviço que funcionavam impecavelmente. Mas nem mesmo estes poderiam ajudar-me a vencer a barreira energética de minha “prisão”.
A cerca radiante tinha cinco metros de altura. Não poderia saltar sobre ela, nem teria outro meio de vencê-la. As instalações energéticas e de comando ficavam fora da área circular delimitada pela mesma. Via perfeitamente a casinha do transformador com o projetor que criava o campo energético circular, mas não poderia atingi-la.
Sempre que levado para fora através de uma abertura feita por uma série de manipulações, era acompanhado ao menos por três homens do serviço de defesa. Portavam armas, cujo efeito era relativamente inofensivo, mas muito doloroso. Durante o tempo em que estive preso, nunca quis assumir o risco de entrar em contato com o fulgurante raio energético desencadeado pelo choque.
Desta vez, o tenente Gmuna trazia uma pistola de verdade no cinto do uniforme. Notei que se tratava de um radiador de impulsos térmicos, cujos efeitos eram mortais.
Seu rosto franco parecia um tanto matreiro. Os olhos escuros exprimiam certa dose de contrariedade. Ao ver meu olhar recriminador, disse em tom seco:
São ordens, almirante.
Desde que ficaram sabendo que já exercera as funções de comandante de uma frota arcônida, passaram a dar-me o tratamento de Sir ou almirante. Nos últimos dias, fiquei refletindo sobre a espécie de truque psicológico que estaria ligado a esse procedimento. Será que pensavam que com isso conseguiriam levar-me para seu lado?
Não fazia muita questão do título. Há muito tempo que dirigira uma poderosa flotilha do comando de colonização arcônida. Porém não conseguia pensar no fato sem que uma sensação de desalento se apossasse de mim. E a melancolia de meu espírito nunca cessava.
Que ordem, Gmuna? — perguntei.
É a arma de impulsos — disse com um gesto de contrariedade. — Chegou outro homem. Daqui em diante, seu oficial de escolta terá que levar um radiador.
Olhei-o da cabeça aos pés. Demorou um pouco até que seu rosto se descontraísse.
Bem, não podemos fazer nada. Não pense na tolice de querer fugir. O senhor conseguiu isso uma vez, mas não vai repetir o ato.
Daquela vez me tornei invisível — afirmei.
O senhor gosta de um esclarecimento total, não é?
Limitei-me a fazer um gesto afirmativo e fiz um esforço para não demonstrar a inquietação que me atormentava.
O tenente abriu a porta do carro oficial muito simples. Sentei no banco do meio, bastante desconfortável. Gmuna ocupou o lugar ao lado do motorista. Atrás de mim, os pesados radiadores de choque dos dois soldados me ameaçavam. Era uma escolta digna de um antigo almirante, que já desistira de pensar no passado grandioso.
Durante os vinte e um interrogatórios pelos quais já passei, haviam apresentado provas cabais de que os dados relativos aos arcônidas, constantes da Enciclopédia Terrânia, correspondiam à verdade. De acordo com esses dados, meu povo venerando se encontrava num estágio de degenerescência física e mental que o tornava incapaz de enfrentar as adversidades da vida. Não compreendi como isso poderia ter acontecido num espaço de tempo tão curto.
De qualquer maneira os homens da defesa solar quebraram minha arrogância nascida do sentimento de superioridade. Mas não conseguiram roubar minha altivez. Afinal, mesmo um Perry Rhodan aprendera com os cientistas de meu povo. Se nossa nave exploradora não tivesse realizado um pouso de emergência na lua terrana, nos idos de 1.971, a navegação espacial interestelar não surgiria na Terra.
Ninguém poderia privar-me da consciência desses fatos. Aliás, nem pretendiam negar que fomos seus mestres.
Era bem verdade que em alguns pontos pareciam ter ultrapassado os arcônidas. Mostraram-me algumas naves espaciais construídas e equipadas na Terra, cujos detalhes estruturais me deixaram perplexo.
Foram estes os meios que utilizavam para torturar-me. Já não eram primitivos a ponto de encostar ferro em brasa aos meus pés.
O jovem Tombe Gmuna era um exemplo frisante do novo comportamento do homem. Era tolerante, de mente limpa, e sempre estava disposto a reconhecer as qualidades de outro ser. Tomara uma atitude tão franca para comigo que não pude deixar de identificá-lo com a nova espécie de homem.
Eram os tipos arrojados de conquistadores, que meu povo também possuíra no período áureo. Isso parecia pertencer ao passado, e essa circunstância me precipitava num caos psíquico. Já me encontrava longe de casa há tanto tempo que não estava em condições de formar opinião própria sobre o que realmente teria acontecido.
A arma mais eficiente utilizada contra mim foi a alusão constantemente repetida ao gigantesco robô que, segundo diziam, administrava o império estelar criado por meus antepassados.
Para ser sincero comigo mesmo, tive de perguntar-me por que estava empenhando todos os meus anseios e minha capacidade de ação em chegar aos três planetas sincronizados de Árcon, apesar de tudo que teria acontecido.
Seria o sentimento que os homens designavam como saudade? Em pessoas do meu tipo uma manifestação do inconsciente como esta seria um fato inconcebível. Afinal, sempre conseguira controlar-me, desde o momento em que deixara minha nave capitania, a fim de pisar pela primeira vez no planeta verde, a Terra.
Talvez os numerosos amigos de verdade encontrados entre os humanos nem permitiriam que pudesse sofrer um repentino acesso de saudades.
Provavelmente, o desejo de ir para casa, acontecesse o que acontecesse, nascera principalmente do orgulho ferido. Foi terrível ter de constatar, assim que despertei do profundo sono biológico, que os pequenos bárbaros do planeta Terra já se haviam tornado adultos.
A essa hora, só sentia o desejo de verificar pessoalmente se as informações que o serviço de defesa fornecera sobre meu povo correspondiam à verdade. Se isso acontecesse, talvez voltaria para estender a mão a Rhodan e selar o pacto de amizade com o mesmo.
Enquanto o veículo se deslocava em direção às instalações não muito distantes do serviço de defesa, pensei em Perry Rhodan. Estava desaparecido há cerca de trinta dias. Gmuna fizera algumas observações, segundo as quais Rhodan voltara a arriscar muita coisa. De qualquer maneira, no momento, meu inimigo mais implacável não se encontrava na Terra.
Meu inimigo? Soltei uma risadinha ao analisar o conceito. Sim, fora meu inimigo até o momento em que dera ordem ao seu robô para que me desse água. Quando isso aconteceu, percebi que nunca mais conseguiria matá-lo.
Gmuna levou-me ao elevador antigravitacional mais próximo. Os jovens lidavam com o artefato como se tivessem passado por uma evolução tecnológica milenar. Tudo aquilo se transformara numa coisa natural. Ao que parecia, nem chegaram a refletir sobre o tempo que os cientistas de meu povo dispenderam no controle das forças gravitacionais. Eles, os humanos, simplesmente receberam a tecnologia de nosso povo.
Quando pensava nesses detalhes, lutei contra a sensação de raiva que começava apossar-se de mim. Seria bom que não se esquecessem de quem eles tinham diante de si. Quem lhes dava o direito de mandar conduzir-me por um grupo de soldados armados, como se fosse um criminoso? Era este detalhe que não me permitia fazer vistas grossas para tudo, num gesto de verdadeira generosidade.
Se tivessem mais experiência, nunca teriam a idéia de algemar ou vigiar um homem como eu. Minha palavra lhes bastaria.
Mas, ao que tudo indicava, não conheciam o elevado código de honra da velha frota arcônida.
Por isso, cometeram o erro de minar constantemente a disposição de revelar integralmente os fatos, que vez por outra surgia em minha mente. Despertaram todo o volume de resistências desencadeadas pelas sensações do subconsciente. Achei preferível não informá-los sobre este detalhe.
Parei por um instante no corredor do 86o pavimento, prestando atenção aos últimos ecos do trovão causado pela decolagem de uma grande espaçonave. Para mim não poderia haver ruído mais agradável. Olhei para Gmuna.
É uma nave da classe Império? — perguntei em tom curioso.
É a nave Drusus, almirante. O chefe solicitou sua presença pelo hiper-rádio. Caso o oficial de artilharia aperte os botões, ela poderá causar o fim do mundo.
Seu entusiasmo mais que compreensível me fez rir. O coração de um jovem não poderia deixar de bater mais aceleradamente quando uma gigantesca esfera espacial de 1.500 metros de diâmetro disparava em direção ao espaço.
Dali a alguns segundos, as portas de correr blindadas abriram-se. Entrei nas salas de trabalho do setor especial da defesa solar.
Como de costume, havia mais de dez pessoas. Já as conhecia.
Na minha escala de avaliação, o general Kosnow ocupava um lugar todo especial. Conforme Gmuna certa vez cochichara ao meu ouvido, este homem seria muito velho. Talvez pertencesse ao grupo de oficiais de grande mérito, que juntamente com Perry Rhodan haviam criado e desenvolvido a antiga Terceira Potência. Dizia-se que Perry Rhodan tinha a possibilidade de proporcionar um prolongamento biomédico da vida aos homens que julgasse dignos desse benefício. Não possuía a menor idéia sobre a maneira pela qual conseguia isso. Em nenhum dos homens pertencentes ao círculo de seus colaboradores mais chegados, percebera qualquer fenômeno que, segundo as minhas concepções, pudesse contribuir para a estabilização biológica e a renovação constante das células.
De qualquer maneira, não podia deixar de haver um núcleo de verdade nesses boatos, pois Perry Rhodan não envelhecera.
Quando vi o homem baixo, parei imediatamente.
Virou em minha direção o rosto que chamava a atenção pela pele lisa e pela ausência quase completa de barba, que parecia dominado por dois olhos azuis. Aparentava ser tão corriqueiro e inofensivo que não poderia deixar de despertar desde logo minha desconfiança. Seria este o homem novo, do qual Gmuna me havia falado?
Se fosse eu quem estivesse no comando, teria dado ordem para que o jovem oficial usasse uma arma realmente mortífera. Isto não concorreu para tornar o desconhecido mais simpático aos meus olhos.
O general Kosnow levantou-se atrás da enorme escrivaninha. Cumprimentou-me com um gesto de cabeça.
Como vai, almirante?
Inclinei a cabeça num gesto comedido, esforçando-me para demonstrar certa dignidade.
Permita que lhe apresente o marechal-solar Allan D. Mercant, almirante.
Cuidado! Perigo!”, sinalizou meu supercérebro. Senti nitidamente os impulsos telepáticos expedidos pela mente do marechal.
Minha memória fotográfica entrou em funcionamento. Allan D. Mercant? O nome não me era estranho. Lembrei-me de tê-lo lido na Enciclopédia Terrânia. Segundo os dados constantes da mesma, em 1.971 Mercant fora chefe de um serviço secreto de âmbito mundial, conhecido pelo nome Conselho Internacional de Defesa.
Depois que Rhodan regressou da Lua, o chefe do CID passou a simpatizar com o major. Posteriormente passou a trabalhar com exclusividade para Rhodan. E, agora aquele homenzinho ocupava o posto de marechal-solar. Provavelmente exercia as funções de chefe do Serviço Solar de Segurança. Tinha certeza absoluta de que Rhodan não poderia ter encontrado melhor elemento para desempenhar as funções.
Mercant, que além do mais parecia dispor de faculdades telepáticas limitadas, também se levantou. O gesto com que me cumprimentou foi um tanto desajeitado, mas não deixei que esse fato me iludisse. Mercant correspondia àquilo que meus antepassados costumavam designar como o punhal de ponta envenenada: de aspecto inofensivo, era uma mortífera arma de ataque.
Muito prazer. Por favor, não se esforce em vão, Sir — disse em tom formal. — Já houve telepatas melhores que o senhor que tentaram romper minha psique. Estou em condições de bloquear o conteúdo da minha mente.
O homenzinho de cabeça quase totalmente calva, que usava óculos antiquados de aros de ouro, parecia embaraçado.
Queira desculpar — disse Mercant em tom lamentoso, mas seus olhos claros falavam uma linguagem diferente...
Percebi que minha avaliação fora correta. Sua conduta aparente era apenas a máscara que ele usava. Tinha certeza absoluta de que não sofria complexos de inferioridade.
Por outro lado, não podia haver a menor dúvida sobre suas qualidades psicológicas. Se Rhodan o havia escolhido para chefiar uma entidade importantíssima como a defesa solar, Mercant devia ser dotado de uma capacidade extraordinária.
Faça o favor de sentar — disse em tom amável.
Sua mão apontou gentilmente para uma cadeira confortável, colocada à frente das escrivaninhas dispostas em ferradura. Sentei.
Raras vezes estivera tão atento. Se não estava muito enganado, a tática que Mercant usaria durante o interrogatório seria muito diferente daquela empregada por seus subordinados.
Foi como eu esperava. Começou instantaneamente, em forma de assalto. O fato de que não recorria a palavras supérfluas constituía uma vantagem.
O senhor está na Terra pelo menos há setenta anos, almirante — principiou com a voz tranqüila.
Esforçei-me ao máximo para manter o autocontrole. Como poderia saber disso? Mantive-me em silêncio.
Tive o trabalho de examinar alguns documentos antigos da OTAN — disse com um sorriso. — Em abril de 1.970, o chefe científico de um instituto de pesquisas particular empregou um certo Olaf Peterson, que assinou um contrato. Esse homem foi o senhor. Após quatro meses, passou a chefiar um setor próprio. Ali desenvolveu num tempo espantosamente curto um aparelho chamado projetor de campos estruturais, destinado a campos de compressão que exigem um elevado desempenho energético. Num artigo escrito pelo senhor, diz-se que o mesmo poderia substituir perfeitamente as câmaras de combustão convencionais e os bocais de jato submetidos a uma solicitação térmica excessiva. Dali a mais três meses, o senhor passou a ocupar-se com a elaboração de um minirreator destinado ao abastecimento de energia para as espaçonaves. Tratava-se de um reator de fusão dotado de controle automático capaz de fornecer quinhentos quilowatts por hora. Estes fatos são um tanto surpreendentes, não são?
Mercant fitou-me com uma expressão de curiosidade. Percebi que seria inútil negar.
É verdade — disse em tom de tédio. — Naquela época, usava o nome de Olaf Peterson. Pretendia apoiar os bárbaros nos seus esforços desesperados de conquistar o espaço. A gente se assustava ao ver os problemas que os aborreciam. Quanto a mim, apenas utilizei dados publicamente expostos nos museus de meu povo.
Fiquei satisfeito ao notar o choque causado nos homens que me ouviam atentamente. Por pouco, não soltei uma estrondosa gargalhada. Mercant parecia divertir-se.
Obrigado pela franqueza, almirante.
Não há por quê, Sir. Um homem inteligente não continua a mentir quando percebe que está irremediavelmente desmascarado.
O chefe de segurança fez um gesto pensativo. Repentinamente mudou de assunto.
Acreditamos que o senhor seja um agente cósmico no desempenho de missão independente. Crest e Thora, nossos amigos arcônidas, não sabem nada a seu respeito. Uma coisa é certa. O senhor veio à Terra por simples acaso.
Não diga! — respondi.
Um sorriso disfarçado surgiu no rosto de Kosnow. Havia uma pequena dose de malícia em seus olhos. Ao que parecia, gostava de ver Mercant sofrer um pequeno revés.
Qual é sua idade, almirante? — foi a pergunta seguinte.
Procure adivinhar.
Estavam se aproximando de meu segredo. O chefe de defesa seguira um caminho bem diferente. Seus dedos brincavam nervosamente com uma velha espátula feita de marfim.
É o que faremos — prometeu em tom gentil. — O senhor tem um aspecto surpreendentemente jovem. Diria que calculo sua idade em trinta e cinco anos. Como podemos harmonizar essa circunstância com sua presença prolongada na Terra? Além disso, segundo as informações de que dispomos, um oficial da frota arcônida que ocupa o alto posto do senhor nunca tem menos de quarenta anos da contagem de tempo terrana. Ninguém se torna almirante aos trinta anos.
O senhor está com toda razão — disse em tom sério.
Descansou a espátula com uma lentidão acintosa. Senti que teve de esforçar-se para manter o autocontrole.
Prepare-se!”, foi a mensagem transmitida por meu cérebro. Sabia o que viria em seguida.
O senhor possui um aparelho muito estranho, almirante. Atendendo a seus pedidos, deixamos de abrir o envoltório em forma de ovo. Ainda insiste na afirmativa de que não se trata de uma arma?
Perfeitamente.
O senhor ponderou que o aparelho tinha alguma relação com seu bem-estar físico. Uma vez que não lhe pretendemos fazer mal, não lhe tiramos o mesmo. Mas isso pode mudar, almirante!
Se até então ninguém me ameaçara, Allan D. Mercant o estava fazendo.
Pensei nas terríveis cicatrizes que trazia na região do estômago, devidas exclusivamente ao ativador celular a que Mercant acabara de aludir.
Envolvi-me num silêncio total. A situação parecia tornar-se desagradável para os psicólogos que se encontravam presentes.
O chefe do serviço de defesa não se deixou perturbar. Desconfiei até onde pretendia chegar. Era mais que perigoso.
Trouxe alguns cálculos logísticos — acrescentou em tom casual. — Supondo que esse aparelho realmente assume uma importância vital para o senhor, e que sempre deve ser trazido junto ao seu corpo, os matemáticos concluíram que, no curso de seu passado bastante agitado, o senhor deve ter sido obrigado várias vezes a engolir o micro conjunto. O fato explicaria as suas numerosas cicatrizes. Foi só por isso que acreditei nas suas declarações, segundo as quais o senhor não deve ser separado do aparelho. Evidentemente essa circunstância nos leva a tirar conclusões da maior gravidade.
E daí? — perguntei em tom irônico.
O senhor se encontra na Terra há muito mais tempo do que está disposto a confessar. Verificaremos os nomes com que tem aparecido no curso da história da Humanidade.
Fique à vontade. Não terá muita sorte.
Tornou-se um pouco mais impaciente.
Atlan, o senhor deveria dizer a verdade. Um homem com a sua inteligência já teria percebido que não adianta negar os fatos. O que espera conseguir com isso?
Quero ir para casa — disse em tom tranqüilo.
O senhor sabe perfeitamente que não podemos aceder a esse desejo. Por aí pensasse que a Terra foi destruída e que Perry Rhodan está morto. Se permitíssemos que o senhor fosse ao sistema de Árcon, isso representaria um perigo para a Humanidade.
Se as informações que me forneceram sobre a decadência do Império de Árcon correspondem à realidade, não direi uma palavra.
O senhor não seria capaz disso. Árcon está sendo governado por um regente robotizado. Além disso, achamos sua pretensão um tanto absurda. Como poderíamos acreditar na sua promessa, se até aqui se obstina em manter silêncio sobre os fatos?
Allan D. Mercant era muito inteligente. Mas, nem ele mesmo se dera conta de que minha palavra representaria muito mais que uma simples promessa. Chamei sua atenção para essa circunstância.
As informações que possuímos sobre as concepções morais dos oficiais da frota arcônida são muito escassas, Sir. Os tempos estão mudados. Diga francamente quem é, de onde veio, quando veio e por que veio. Depois poderemos falar sobre o resto. Por enquanto, o senhor é um “fator” desconhecido, que pode ser totalmente inofensivo, mas também pode ser muito perigoso.
No meu íntimo confessei que seu raciocínio era claro e lógico. Apesar disso, não estava disposto a revelar de uma hora para outra meu grande segredo. Provavelmente não acreditariam em mim, o que tornaria minha situação ainda pior.
Além desse raciocínio, o orgulho bastante ferido ainda me impedia de revelar os fatos. Afinal, quem eram esses terranos? Meus antepassados viram neles selvagens do tempo da Idade da Pedra, e agora um cientista e comandante de esquadra arcônida recebia deles um péssimo tratamento.
Senti que me aproximava de um dilema. Já não conseguia vencer a fraqueza determinada por fatores raciais. Meu supercérebro dizia que os terranos eram amigos, mas minha memória fotográfica revelava o pequeno número de amigos que havia encontrado entre eles.
O senhor me ofendeu — respondi em tom áspero. — Se não quiser confiar na minha palavra, não terá outra alternativa senão manter-me preso. Recuso-me a depor.
É um direito que as leis terranas me conferem.
Voltamos à estaca zero, Sir — observou o general Kosnow.
Sabia o que queriam dizer. Os homens mais capazes do serviço de defesa já haviam percebido por ocasião dos interrogatórios anteriores que em certo estágio um curto-circuito emocional ocorria em minha mente, Até agora, Kosnow sempre suspendera o inquérito ao chegar a este ponto.
Mercant não se afastou da regra. Levantou-se, cumprimentou-me com um gesto da cabeça e disse:
Pois não; fique à vontade, almirante. Hoje de tarde voltaremos a conversar. Até lá disporemos de outros dados sobre sua pessoa. Se houver qualquer prova de que desenvolveu alguma atividade de agente, terá de enfrentar um tribunal. O senhor não está com a ficha muito limpa, senhor Atlan.
Este modo de falar fez com que ele fechasse desesperadamente os olhos. Já se tornavam muito menos corteses, o que não lhes poderia levar a mal. Perguntei seriamente a mim mesmo o que faria se estivesse em seu lugar. Talvez não fosse tão tolerante para com um misterioso desconhecido.
Mercant saiu. O general Kosnow seguiu-o com um olhar pensativo. Depois que a porta se fechou, virou a cabeça para mim.
O traço em torno dos seus lábios parecia exprimir preocupação.
O senhor ainda não conhece Mercant, Sir — disse em tom de súplica. — Por que insiste em não falar? Está certo; dar-lhe-emos mais algumas horas para refletir. Concorda em conversar também hoje com os estudantes do último semestre?
Controlei-me para não revelar minha alegria. Desde o dia 12 de maio de 2.040, surgira o hábito de levar-me todos os dias ao grande auditório da Academia Espacial, onde as novas gerações de cientistas me faziam inúmeras perguntas. Geralmente tratava-se de problemas médico-biológicos ou de questões de tática colonial solucionadas no curso da política expansionista dos arcônidas.
Os estudantes de engenharia estavam curiosos para saber que tipos de propulsores e máquinas usávamos naquele tempo, enquanto os astronautas esperavam que confirmasse a exatidão de longos cálculos relativos a hipersaltos.
Os futuros oficiais da Frota Espacial Estratégica estavam interessados em conhecer a forma pela qual os colonizadores arcônidas costumavam tratar os povos estranhos.
As discussões eram agradáveis. Na verdade, o interesse pelo passado grandioso de meu venerável povo me deixava feliz.
Mais uma vez concordei, embora hoje nem pensasse em utilizar o saber imenso armazenado na minha memória fotográfica no benefício exclusivo dos estudantes da academia.
Meus cálculos incluíam um fator, que nas últimas semanas fora incluído na categoria dos desconhecidos. Tratava-se de um ser humano, cujas reações constituiriam a chave negativa ou positiva da minha equação: uma jovem estudante de cosmobiologia chamada Marlis Gentner, que não nascera na Terra.
Marlis era descendente dos colonos que pousaram em Vênus cerca de sessenta anos atrás. Evidentemente orgulhava-se dos seus antepassados, que conseguiram arrancar da selva de Vênus tudo de que o homem precisa para sua subsistência.
Sabia que entre os colonos de Vênus e os terranos existiam certas tensões. Para mim, as ligeiras divergências eram normais e inevitáveis. A história grandiosa de meu povo demonstrara repetidas vezes que, uma vez vencidas as dificuldades iniciais, toda colônia anseia pelo autogoverno.
As conseqüências sempre são desagradáveis para ambas as partes. É bem verdade que os problemas econômicos e sócio-políticos podem ser solucionados satisfatoriamente através de negociações. Mas, até o momento do acordo definitivo, sempre existe uma diferença de princípios e de concepções.
Marlis Gentner era uma defensora ardorosa da justiça. Em sua opinião, o jovem Estado venusiano fora prejudicado em seu desenvolvimento. Não lhe expliquei que os colonos sempre são dessa opinião. Um pioneiro inteiramente satisfeito constitui um fenômeno impossível.
Travei conhecimento com ela no dia 15 de maio, durante uma preleção. Poucos dias depois, ela dissera numa discussão pública que minha prisão constituía uma indignidade.
Há três dias resolvi colocar todas as chances numa carta. Num cochicho informei-a sobre o lugar em que havia escondido meu equipamento especial.
Em princípios de maio, quando cheguei a Terrânia, tive o cuidado de guardar adequadamente os aparelhos que assumiam importância vital para mim. Por ocasião de minha fuga precipitada na nave espacial de Rhodan, parte dos micro instrumentos havia ficado para trás.
Se conseguisse apossar-me de certa cápsula, os dias de prisão teriam chegado ao fim. Meus cálculos eram inatacáveis. Não havia a menor possibilidade de falha, desde que o fator desconhecido representado por Marlis Gentner reagisse de forma positiva.
Os dois guardas armados voltaram a aparecer. Num gesto rotineiro, apontaram para a porta atrás da qual havia um elevador que conduzia ao heliporto situado na cobertura do edifício.
Ainda bem! Um ato de rotina sempre embota a mente, adormecendo o sentimento de vigilância. Até mesmo Tombe Gmuna, sempre desconfiado, não suspeitou de nada quando penetrou ao meu lado no campo energético.
Livres da ação da gravidade, subimos ao lugar em que o aparelho de rotores do serviço de defesa nos aguardava.
A maior e a mais importante das academias espaciais do Império Solar ficava fora da área do gigantesco espaçoporto.
Bem longe dali, ao leste, vi as coberturas reluzentes dos arranha-céus. Terrânia, a capital da Terra e do pequeno império planetário, fundada há sessenta anos, já tinha mais de 14 milhões de habitantes.
Era uma cidade que impressionava o observador. Por certo, ocuparia um lugar de destaque na Galáxia, assim que as inteligências da Via Láctea a conhecessem. Por enquanto, Perry Rhodan ainda se fingia de morto. Mas, na minha opinião, isso não duraria muito.
Não poderia deixar de ser descoberta durante a missão arriscada que estava executando. Quando isso acontecesse, preferia não estar na Terra. Meu lugar era no palácio de cristal de Árcon I, o mundo que dominava o Universo conhecido.
Ao entrar na máquina, lembrei-me de como meu auxílio discreto seria útil para a Humanidade. Deveria ter explicado aos homens do serviço de defesa que eu, Atlan, estava imbuído da intenção honesta de, a partir de Árcon, apoiar a Humanidade em ascensão?
Ninguém teria acreditado nas minhas palavras, ainda mais que segundo a opinião oficial todos os arcônidas eram degenerados. Não podia conformar-me. Precisava ir para casa, custasse o que custasse.
3



Minha preleção sobre a política colonial arcônida e a psicologia das raças estranhas durou duas horas.
A seguir, os estudantes de várias especialidades apresentaram-se para discutir o assunto. Era a hora da descontração e do descanso.
Marlis Gentner, uma moça alta, de cabelos escuros e um jeito obstinado, resolvera não participar da guerra de palavras. Interpretei sua surpreendente reserva como um sinal positivo, o que evidentemente poderia ser um raciocínio errôneo.
Várias vezes vi seu rosto surgir entre muitos outros como se fosse uma mancha branca. Uma ocasião tive a impressão de que me examinava com os olhos críticos de psiquiatra.
Sempre que pensava nela, experimentava um sentimento de carinhosa simpatia. Quase chegava a sentir vergonha por tê-la induzido a trair sua raça.
Seria a doença infantil de todos os pioneiros; não havia a menor dúvida. E fora injusto da minha parte deixar de esclarecê-la a este respeito. Ainda acontecia que não se podia pensar numa ligação entre a moça e minha pessoa.
Era jovem, bela e inteligente. Já eu era um homem muito velho, que não tinha o direito de atar a venusiana, que mal começava a despertar para a vida.
Enquanto respondia às indagações dos universitários, meu sexto sentido lógico, que geralmente funcionava de forma impecável, me disse que por enquanto não havia acontecido nada. Além disso não pretendia recorrer ao auxílio de Marlis para prejudicar a Humanidade. Apenas desejava ir para casa. Queria escapar à vergonha da prisão. Era só isso.
Ao meio-dia e dez, o tenente Gmuna interrompeu a longa discussão. Encontrava-se entre os estudantes, dos quais alguns falavam excitadamente, enquanto outros ouviam em silêncio. Naquele momento, discutiam se uma raça mais desenvolvida no terreno técnico e científico tem o direito de enquadrar os habitantes dos mundos primitivos no seu esquema colonizador.
Os prós e os contras esquentavam os ânimos jovens. Diverti-me ao notar como a juventude mergulhava num tema que já ocupara as cabeças dirigentes do Império Arcônida.
A inquietação que começava a tomar conta de mim, me fez ficar nervoso e distraído. Esforcei-me ao máximo para dar respostas claras e objetivas. Se procedesse de outra forma, Gmuna desconfiaria imediatamente.
Demorou alguns minutos até que eu visse Marlis ao meu lado. Gmuna não poderia impedir que, durante a discussão tão animada, vez por outra, alguém esbarrasse em mim. Todos os dias tinham sido a mesma coisa: queriam ver de perto o estranho vindo das profundezas da Via Láctea.
Subitamente, vi os olhos de Marlis. Eram grandes e escuros que nem um lago nas montanhas, em cujo fundo arde um fogo eterno. Esses olhos continuavam a indagar, e a perscrutar. Percebi lutar consigo mesma, uma circunstância que provava que os objetos os quais eu precisava se encontravam em seu poder.
Só deveria olhar ligeiramente para ela.
Naquele instante, Gmuna estava empurrando os estudantes para trás. A moça aproveitou a oportunidade.
Ouvi sua voz, que soava baixo e abafada.
O senhor me escreverá?
Fiz um gesto quase imperceptível com a cabeça. A tensão psíquica quase chegava a dilacerar-me. Mercant prometera interrogar-me de novo durante a tarde. Poderia haver cenas muito desagradáveis.
Faça o favor de afastar-se — berrou Gmuna a plenos pulmões. — Do contrário nunca mais ouvirá uma preleção.
Darei notícias — disse apressadamente, dirigindo-me à moça.
Não lutará contra minha gente?
Dou-lhe minha palavra, Marlis. Preciso ir para casa. Procure compreender!
Encontramo-nos em Port Vênus. Interromperei os meus estudos. Combinado?
Senti um nó na garganta. De repente, a tensão abandonou-a. Brindou-me com um sorriso franco. Embaixo de sua pasta, surgiu um recipiente chato de cerca de 20 centímetros de comprimento. Agarrei-o apressadamente, mas ninguém notou o gesto.
Com um ligeiro movimento da mão, introduzi o estojo sob a blusa folgada. Senti as duas ventosas entrarem em contato com a pele através da camisa.
Mais uma vez parecia uma pessoa estranha entre os jovens que discutiam, e que finalmente abandonavam o campo.
O tenente Gmuna aproximou-se furioso. Sorri tranqüilamente para ele. Marlis desaparecera. Provavelmente fizera muito mais pela Humanidade do que poderia imaginar naquele instante. Quanto a mim, estava decidido a não voltar para a grade energética.
Meu equipamento de emergência não oferecia grandes possibilidades. Quando me encontrasse no interior da casa hermeticamente fechada, o defletor de ondas luminosas não me poderia ser útil.
Faça o favor de acompanhar-me — disse Gmuna em voz bastante alta. — A partir de amanhã mandarei isolar seu lugar. Assim não é possível.
Quando comecei a rir, Gmuna contorceu o rosto numa expressão de contrariedade.
O senhor sabe perfeitamente que todas as simpatias estão do seu lado. Não pense em tolices. É verdade: amanhã mandarei fechar o auditório.
Gmuna nem parecia desconfiar de que essa decisão vinha tarde. Olhei para trás para ver Marlis mais uma vez, mas não consegui descobri-la. Provavelmente, a esta hora, já se estaria recriminando pesadamente. Não tive possibilidade de apoiar sua ação numa conversa franca e prolongada. A moça só me conhecia das discussões.
Gmuna empurrou-me para a saída. Os dois guardas reapareceram.
Pegamos o pequeno elevador comum que ficava atrás da parede de comandos do moderno auditório. Lancei um ligeiro olhar para as câmeras de televisão embutidas. As minhas preleções costumavam ser transmitidas, pois a sala não comportava mais de mil pessoas.
Fomos para a cobertura, onde Gmuna havia estacionado o helicóptero. Naquele instante, minha calma e equilíbrio interior tornaram-se completos.
Na cobertura, pedirão autógrafos a você”, avisou meu sexto sentido. Quase cheguei a confirmar com um gesto. Até então, sempre fora assim. Os estudantes são uma turma bastante engenhosa. Sabiam como pregar uma peça às autoridades.
Comecei a preparar-me para a fuga.
Quando saímos do elevador, não consegui ver a larga área de concreto do heliporto de cobertura. Mais de mil universitários haviam comparecido para ver uma criatura misteriosa como eu.
Eram os estudantes que não conseguiram entrar no auditório. Com certeza não ficaram muito satisfeitos em assistir à palestra pela televisão, principalmente porque dessa forma não poderiam intervir nos debates. E agora possibilitariam minha fuga.
Os guardas de Gmuna avançaram com os fuzis atravessados. Não conseguiram afastar as pessoas, geralmente jovens, vindas de todos os continentes da Terra e dos diversos planetas habitados. Antes que Gmuna se desse conta do que estava acontecendo, nos vimos rodeados por gente excitada falando em altas vozes.
Olhei para o arco assimétrico do portão, sob o qual começavam as diversas faixas transportadoras da via elevada. Precisava atingi-lo.
Alguém entregou-me um grande quadro, no qual identifiquei, para meu espanto, minha própria pessoa. Canetas foram tiradas dos bolsos. Autógrafos foram solicitados. Contra minha vontade vi-me transformado numa espécie de ídolo. Eu, que fora tão comum, transformara-me numa figura conhecida de todos. Não gostei disso, pois o fato me traria problemas bastante difíceis.
Gmuna distribuiu cotoveladas, até que dois gigantes risonhos o seguraram pelos braços. O estojo metálico, que poucos segundos antes se encontrara preso à minha pele, já se achava no bolso externo de minha blusa. Seria fácil abrir o fecho magnético e tatear até encontrar o defletor de ondas luminosas, um artefato achatado.
Quando Gmuna conseguiu respirar e alguns representantes da polícia comum acudiram correndo, minha hora havia chegado.
Bem atrás de mim, ficava a parede de concreto na qual se abriam os poços dos elevadores. Quase todos os estudantes que participavam da manifestação de protesto estavam à minha frente. Teria de passar pelos poucos mantidos junto à parede sem que estes o percebessem.
Aguardei calmamente até que Gmuna voltasse a soprar o apito. Apertei a chave do instrumento para baixo.
De uma hora para outra o defletor de ondas luminosas tornou-me invisível aos olhos comuns. Via tudo, mas para os outros desaparecera de uma hora para outra.
O campo de deflexão adaptava-se automaticamente aos contornos de meu corpo.
Dei mais três saltos para trás e passei por alguns estudantes enfurecidos. Foi quando vi o rosto perplexo de Gmuna.
Há poucos segundos ainda era a própria encarnação da calma; mas agora sentia-me tangido pelos acontecimentos. Evidentemente desencadeariam o alarma geral. Se ainda me achasse no espaçoporto, a fuga seria impossível. Mas, na situação em que me encontrava por certo conseguiria mergulhar no formigueiro da gigantesca Terrânia.
Contornei o compacto grupo de estudantes e vi algumas aberturas em meio à massa, que me permitiram avançar mais um pouco.
Ouvi um trovão atrás de mim. Parei em meio ao salto e virei-me apressadamente. Não era possível que Gmuna, tomado de pânico, estivesse atirando contra aquela gente.
Não, não estava atirando. Em compensação, o ar aquecido pelos raios do sol estava entrecortado por dedos luminosos das forças atômicas liberadas.
Tombe Gmuna atirava para o alto, provocando a fuga desabalada dos estudantes assustados. O jovem tenente do serviço de defesa sabia como agir numa emergência. Esperava que a confusão me proporcionasse alguns minutos de vantagem. E agora conseguira fazer-se ouvir com uma rapidez surpreendente, além do que emitira um sinal de alarma inconfundível.
Reprimi uma praga, orientei-me ligeiramente e voltei a correr.
Cheguei ao grande portão que ficava junto à beira da cobertura antes dos grupos de estudantes. Aqui começavam as faixas transportadoras que, apoiadas em elegantes colunas de sustentação, passavam por cima de toda a cidade de Terrânia.
Perto de algumas moças que gritavam a plenos pulmões saltei para a fita de baixa velocidade. Dali passei com alguns saltos rápidos para a via expressa que se deslocava a cinqüenta quilômetros por hora. Em virtude da série de saltos precipitados, caí pesadamente sobre o piso elástico. Continuei deitado, observando os arredores.
A fita movimentava-se a uma velocidade um tanto elevada. Afastava-me do foco dos acontecimentos mais rapidamente do que Gmuna poderia gostar.
Antes de ser carregado para a curva ampla situada entre o edifício da academia e um dos edifícios da administração, vi alguns helicópteros da polícia aérea surgirem ruidosamente.
A grande caçada estava começando. Se conseguissem agarrar-me de novo, meu jogo estaria perdido.
Tive o cuidado de não entrar em contato com as raras pessoas que se encontravam sobre a fita transportadora. Escolhera este meio de fuga não tanto por sua rapidez, mas principalmente porque oferecia uma garantia quase absoluta contra a descoberta. Evidentemente os passageiros, que se valiam desse meio de transporte rápido, não se moviam sobre o mesmo. Quem conseguisse colocar-se sobre a fita ficava parado, para resistir à pressão do vento. Nem sequer se arriscava a utilizar a comunicação direta.
Logo depois, desliguei meu espírito. Que procurassem à vontade. Continuaria invisível enquanto o microcarregador fornecesse energia.
Prestei muita atenção aos grandes painéis luminosos que avisavam os passageiros com a necessária antecedência sobre o lugar onde deveriam sair da fita para encontrar esta ou aquela estação.
Quando vi à grande distância a inscrição “Campo de Pouso”, modifiquei meu plano original. Face à reação surpreendentemente rápida de Gmuna, a penetração na área do grande espaçoporto, além de perigosa, seria inútil. Se estivesse no lugar de Kosnow, a esta hora já teria emitido uma proibição geral de decolagem.
Passei pela ramificação. Meu destino era a grande estação ferroviária. Os grandes comboios de longa distância raras vezes eram utilizados pelos viajantes. Não teria dificuldade em encontrar lugar num vagão de carga.
Sentei, cruzei os braços por cima dos joelhos e ri alto e alegre para o vento.
A correnteza de ar era tépida. Refrescava muito pouco. A próxima chuva fora anunciada para a noite seguinte.
Tirei o estojo do bolso e retirei o pequeno projetor mental. Era uma versão reduzida da arma psicológica altamente eficiente, cujas emanações eliminavam o pensamento consciente. O aparelho não era perigoso, nem prejudicava a saúde. Não pretendia matar nem ferir esses bárbaros selvagens, mas tão bem-sucedidos, que habitavam o planeta Terra.
Deram-me um tratamento decente. Uma moça de sua raça chegara mesmo a apaixonar-se por mim. Por que não confiavam em mim? As coisas poderiam ser muito mais simples e os riscos menores. Prometi a mim mesmo que depois de chegar a Árcon nunca mencionaria a Terra, o Império Solar ou o nome de Perry Rhodan. Esta palavra de honra foi dada a mim mesmo segundo o sagrado código de honra da frota espacial dos arcônidas. Não poderia voltar atrás, mesmo que mais tarde viesse a desejá-lo. Decidi justamente fazer esse juramento para evitar que fatores sentimentais posteriores pudessem demover-me do meu intento. Estava indissoluvelmente ligado ao mesmo.
Livre da carga das auto-recriminações e com o pensamento voltado para Marlis Gentner, preparei-me para saltar para a fita mais lenta. Precisava dar certo. Não poderia esbarrar em ninguém.
Bem à minha frente vi, em letras luminosas menores, a expressão “Estação de Carga”.
Por certo, a área também seria bloqueada, mas não com o mesmo cuidado do aeroporto intercontinental. Em Terrânia, dificilmente havia alguém que usasse as antiquadas vias férreas.
4



Minha fuga no trem de carga foi um verdadeiro martírio. Abri sem hesitar a porta de correr de uma pesada locomotiva atômica, que recebera o sinal de partida no momento em que estava chegando à estação. Pouco me importava a que lugar da Ásia ou da Europa estaria destinado o trem. A única coisa que me interessava era sair de Terrânia quanto antes, a fim de escapar à operação de busca em grande escala.
Exausto, escondi-me no transformador da gigantesca locomotiva, mas dez minutos após a partida o trem foi detido. O serviço de defesa agira com uma rapidez inacreditável.
Dali em diante, comecei com o jogo arriscado. Os policiais empenhados na busca sabiam que teriam de procurar uma criatura invisível. O problema seria praticamente insolúvel pelos meios naturais. Por isso, o trem ficou parado durante duas horas em pleno deserto, até que chegasse um comando especial com instrumentos de localização.
O lugar mais seguro para esconder-me continuava a ser o transformador, onde a corrente de 30 mil volts gerada pelos reatores seria convertida para a voltagem com que trabalhava a máquina.
Uma vez que me encontrava muito próximo aos trilhos condutores de energia, os campos energéticos por eles gerados superavam bastante as débeis irradiações de meu defletor de ondas luminosas. Face a isso, a localização energética seria impossível.
Acontece que tive de pagar por essa vantagem com um perigo constante para minha vida. Saltitava entre os condutores reluzentes e, muito excitado, procurava calcular a que distância poderia saltar um raio que transformaria meu corpo numa massa carbonizada.
Foram minutos terríveis. A sala de transformadores só foi submetida a uma busca ligeira.
Depois que a composição partiu, percebi que avançava cada vez mais pelo desolado deserto do Gobi Central. Os vagões de carga estavam vazios. Concluí que o trem se destinava a um lugar em que os mesmos seriam carregados.
As horas foram passando. Desenvolvendo uma velocidade de 200 km/h, a composição correu vertiginosamente pela China Ocidental, até que as montanhas do maciço do Himalaia surgissem à nossa frente.

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