Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
O
prisioneiro do Serviço Solar de Segurança lança mão de seus
trunfos secretos; a segunda aventura de Atlan!
Apesar
das hábeis manobras realizadas no espaço galático, o trabalho pelo
poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo,
realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto,
pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram
insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta
e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que
teria ocorrido no ano de 1984.
Uma
nova geração de homens surgiu.
E, da
mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até
transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou,
formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e
Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se
prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou
jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No
sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa
forma os terra-nos são os soberanos incontestes de um pequeno reino
planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse
reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa
frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer
atacante.
Mas
Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não está
disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes
cósmicos — todos eles mutantes do célebre exército — continuam
a ser instruídos no sentido de, em quaisquer circunstâncias, manter
em sigilo sua origem terrana.
Atlan
vê aproximar-se a realização de seus desejos. Só um obstáculo
interpõe-se em seu caminho: Perry Rhodan, o administrador do Império
Solar.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Atlan
— O personagem principal que conta a história em primeira pessoa.
Trata-se de um prisioneiro arcônida.
Marlis
Gentner
— Uma estudante de olhos escuros nascida em Vênus.
Gunter
Viesspahn
— Um colono barbudo de gestos grosseiros.
Perry
Rhodan
— Administrador do Império Solar.
1
Foram
muito gentis, amáveis e, dentro dos limites das suas normas de
serviço, até se mostraram tolerantes. E isso significava alguma
coisa, quando se tratava de membros da defesa solar.
Muitos
deles eram cientistas uniformizados. Outros, soldados da frota
espacial, calejados nas lutas. Conforme explicaram, haviam arriscado
tudo pela Terra.
Para eles,
eu era um ser totalmente estranho, tanto sob o aspecto biológico
como do ponto de vista político-social. Nunca chegaram a empregar a
expressão “raça estranha”, fato que só concorria para
confirmar minha opinião relativa ao grau de amadurecimento ético da
Humanidade. Já não eram intolerantes como antigamente, quando
perseguiam pessoas que adotavam crenças diferentes das suas e
executavam os adversários políticos. Haviam amadurecido, mas isso
não os impedia de verem um inimigo em minha pessoa.
— Não
temos absolutamente nada contra o senhor, meu caro — declarou o
general Kosnow em tom jovial.
Por isso,
formulei uma pergunta inteiramente lógica: por que não me deixavam
ir em paz? Quando me lembrei do sorriso azedo de Kosnow, senti a
preocupação fermentar em minha mente. Só nos raros momentos de
equilíbrio psíquico esse fato me divertia.
Era claro
que não poderiam soltar-me, depois que eu irrompera em seu círculo
de vida em circunstâncias tão misteriosas.
Não
sabiam nada a respeito da minha cúpula pressurizada, situada nas
profundezas do Oceano Atlântico. Por outro lado, não lhes revelei
que no ano de 1.971 resolvera colocar-me em segurança, porque temia
a irrupção de uma guerra nuclear.
Dali a
sessenta e nove anos, quando as instalações médicas robotizadas de
minha base me despertaram do estado de hibernação biológica, tive
de constatar que não houve guerra.
Pude ver o
que a Humanidade havia realizado dentro desses sessenta e nove anos.
Recorrendo
a todos os meios de que consegui lançar mão, cheguei a Terrânia,
onde travei conhecimento com o homem mais importante da fase recente
da história.
Seu nome
era Perry Rhodan. Durante o tempo em que eu dormira, ele havia criado
um pequeno império planetário, ao qual dera o nome de Império
Solar.
Na Galáxia
habitada, ninguém parecia desconfiar de que na pessoa de Rhodan
surgira um conquistador audacioso e cheio de astúcia.
Levei
algum tempo para avaliar aquele homem. E isso quase chegou a
transformar-se na minha perdição.
Embora
conhecesse a dureza, a pertinácia e a capacidade de ação dos
humanos, não dei o devido valor a Rhodan.
Tentei
fugir numa pequena espaçonave do tipo jato espacial, pois, após um
longo afastamento, tinha vontade de chegar em casa. Esperei por
muito, muito tempo que o desenvolvimento tecnológico dos humanos
chegasse ao estágio da navegação espacial.
Quando
finalmente conseguiram, cometi a tolice de fugir para as profundezas
do oceano. Dessa forma, perdi a oportunidade representada pelo grande
salto.
Quando por
ocasião do primeiro vôo tripulado à Lua, Rhodan descobriu o
cruzador danificado dos arcônidas. Naquela oportunidade, uma ação
precipitada me fez perder a maior chance de minha existência.
Enquanto
eu estava mergulhado no profundo sono biológico, o antigo major da
Força Espacial adquiriu o saber arcônida e realizou seus projetos
com base no mesmo.
Quem cruza
nestas condições o caminho de um homem, que há decênios vê o
próprio sentido da vida em tudo quanto é dificuldade e risco, quase
sempre se expõe a uma catástrofe.
Fugi!
Entrei numa nave espacial pilotada pelo próprio Rhodan. Em Hellgate,
houve o duelo no deserto.
Ele me
mandou prender e algemar. Durante a luta tive uma oportunidade de
matá-lo. O motivo por que não o fiz, mas preferi errar o alvo,
constituiu parte substancial das minhas reflexões autocríticas do
momento.
Por que
não o matei? Teria sido porque antes ele me ajudara a sair da nave
em chamas?
Não. Esse
motivo não tinha qualquer fundamento lógico. O homem que resolve
poupar seu inimigo não está certo de que este venha a adotar o
mesmo modo de agir quando surgir uma situação idêntica.
Apesar
disso, senti que devia ser-lhe grato. Poupei sua vida de propósito e
avisei-o pelo rádio de que agora estávamos quites. Poucas horas
depois iria arrepender-me do gesto.
Após a
salvação realizada no último instante, ele me fez contemplar a
boca de sua arma. Fiquei sabendo que, entre nós, surgira uma
estranha amizade fundada no ódio.
Admirei-o
a contragosto. Ele, que se considerava imortal, mas que poderia ser
atingido com tamanha facilidade, via em mim um objeto de estudo muito
interessante.
Rhodan era
muito inteligente e experimentado nas coisas da vida e talvez até
desconfiasse de que eu não fosse um verdadeiro arcônida.
Provavelmente, foi só por isso que me mandou levar à Terra num
cruzador leve. E desde o dia 10 de maio de 2.040 estou detido neste
planeta, como prisioneiro da defesa solar.
Meu
relacionamento com essa gente transformou-se numa tragicomédia de
primeira categoria. Evidentemente sabiam muito bem que a vida de seu
ídolo estivera em minhas mãos. E também sabiam que eu não era um
verdadeiro inimigo da Humanidade.
Os homens
da defesa solar eram psicólogos. Por isso, meu comportamento
colocava-os diante de uma verdadeira muralha de enigmas, cuja solução
dificilmente seria possível para quem não possuísse a chave
adequada.
Quem tinha
a chave era eu; também sobre este ponto estavam informados. Não
haveria nada mais natural que procurar arrancar-me esse conhecimento.
Quando
foram buscar-me para realizar o primeiro interrogatório, tive um
pouco de medo. Talvez poderiam reincidir nos seus antigos vícios.
Pensava
num tratamento grosseiro. À porta da sala em que seria realizado o
interrogatório, minha lembrança muito viva me mostrara coisas
feitas em tempos passados, por homens ainda não humanizados.
Não me
fizeram nada. Os cientistas uniformizados apenas puderam ameaçar-me
com seus rostos zangados o que, uma vez vencido o primeiro choque,
quase nem chegou a impressionar-me.
Há dias
estávamos brincando uns com os outros. Recorreram a todos os truques
puramente psicológicos que conheciam. Tive de prestar muita atenção.
Mas, afinal, eu era um conhecedor mais profundo da mente. Não
dispunham das mesmas experiências que eu, nem estavam informados
sobre as coisas que eu mesmo experimentara pessoalmente no correr do
tempo.
Era um
paradoxo que eu, um arcônida, conhecesse os homens melhor do que
eles mesmos se conheciam. Para mim, o fato de que vezes seguidas me
ofereciam oportunidade de deixá-los perplexos com o volume das
minhas experiências representava uma fonte de divertimento.
Era esta a
situação quando vieram buscar-me no dia 16 de junho de 2.040, para
o vigésimo segundo interrogatório psicológico.
2
O tenente
Tombe Gmuna era o oficial de escolta. Eu gostava do africano, sempre
risonho, que costumava demonstrar uma franqueza reconfortante.
Cederam-me
uma pequena casa, situada nas proximidades do centro administrativo
de Terrânia. Não tinha janelas gradeadas ou outras instalações
convencionais destinadas a evitar a fuga.
Possuía
três robôs de serviço que funcionavam impecavelmente. Mas nem
mesmo estes poderiam ajudar-me a vencer a barreira energética de
minha “prisão”.
A cerca
radiante tinha cinco metros de altura. Não poderia saltar sobre ela,
nem teria outro meio de vencê-la. As instalações energéticas e de
comando ficavam fora da área circular delimitada pela mesma. Via
perfeitamente a casinha do transformador com o projetor que criava o
campo energético circular, mas não poderia atingi-la.
Sempre que
levado para fora através de uma abertura feita por uma série de
manipulações, era acompanhado ao menos por três homens do serviço
de defesa. Portavam armas, cujo efeito era relativamente inofensivo,
mas muito doloroso. Durante o tempo em que estive preso, nunca quis
assumir o risco de entrar em contato com o fulgurante raio energético
desencadeado pelo choque.
Desta vez,
o tenente Gmuna trazia uma pistola de verdade no cinto do uniforme.
Notei que se tratava de um radiador de impulsos térmicos, cujos
efeitos eram mortais.
Seu rosto
franco parecia um tanto matreiro. Os olhos escuros exprimiam certa
dose de contrariedade. Ao ver meu olhar recriminador, disse em tom
seco:
— São
ordens, almirante.
Desde que
ficaram sabendo que já exercera as funções de comandante de uma
frota arcônida, passaram a dar-me o tratamento de Sir ou almirante.
Nos últimos dias, fiquei refletindo sobre a espécie de truque
psicológico que estaria ligado a esse procedimento. Será que
pensavam que com isso conseguiriam levar-me para seu lado?
Não fazia
muita questão do título. Há muito tempo que dirigira uma poderosa
flotilha do comando de colonização arcônida. Porém não conseguia
pensar no fato sem que uma sensação de desalento se apossasse de
mim. E a melancolia de meu espírito nunca cessava.
— Que
ordem, Gmuna? — perguntei.
— É a
arma de impulsos — disse com um gesto de contrariedade. — Chegou
outro homem. Daqui em diante, seu oficial de escolta terá que levar
um radiador.
Olhei-o da
cabeça aos pés. Demorou um pouco até que seu rosto se
descontraísse.
— Bem,
não podemos fazer nada. Não pense na tolice de querer fugir. O
senhor conseguiu isso uma vez, mas não vai repetir o ato.
— Daquela
vez me tornei invisível — afirmei.
— O
senhor gosta de um esclarecimento total, não é?
Limitei-me
a fazer um gesto afirmativo e fiz um esforço para não demonstrar a
inquietação que me atormentava.
O tenente
abriu a porta do carro oficial muito simples. Sentei no banco do
meio, bastante desconfortável. Gmuna ocupou o lugar ao lado do
motorista. Atrás de mim, os pesados radiadores de choque dos dois
soldados me ameaçavam. Era uma escolta digna de um antigo almirante,
que já desistira de pensar no passado grandioso.
Durante os
vinte e um interrogatórios pelos quais já passei, haviam
apresentado provas cabais de que os dados relativos aos arcônidas,
constantes da Enciclopédia Terrânia, correspondiam à verdade. De
acordo com esses dados, meu povo venerando se encontrava num estágio
de degenerescência física e mental que o tornava incapaz de
enfrentar as adversidades da vida. Não compreendi como isso poderia
ter acontecido num espaço de tempo tão curto.
De
qualquer maneira os homens da defesa solar quebraram minha arrogância
nascida do sentimento de superioridade. Mas não conseguiram roubar
minha altivez. Afinal, mesmo um Perry Rhodan aprendera com os
cientistas de meu povo. Se nossa nave exploradora não tivesse
realizado um pouso de emergência na lua terrana, nos idos de 1.971,
a navegação espacial interestelar não surgiria na Terra.
Ninguém
poderia privar-me da consciência desses fatos. Aliás, nem
pretendiam negar que fomos seus mestres.
Era bem
verdade que em alguns pontos pareciam ter ultrapassado os arcônidas.
Mostraram-me algumas naves espaciais construídas e equipadas na
Terra, cujos detalhes estruturais me deixaram perplexo.
Foram
estes os meios que utilizavam para torturar-me. Já não eram
primitivos a ponto de encostar ferro em brasa aos meus pés.
O jovem
Tombe Gmuna era um exemplo frisante do novo comportamento do homem.
Era tolerante, de mente limpa, e sempre estava disposto a reconhecer
as qualidades de outro ser. Tomara uma atitude tão franca para
comigo que não pude deixar de identificá-lo com a nova espécie de
homem.
Eram os
tipos arrojados de conquistadores, que meu povo também possuíra no
período áureo. Isso parecia pertencer ao passado, e essa
circunstância me precipitava num caos psíquico. Já me encontrava
longe de casa há tanto tempo que não estava em condições de
formar opinião própria sobre o que realmente teria acontecido.
A arma
mais eficiente utilizada contra mim foi a alusão constantemente
repetida ao gigantesco robô que, segundo diziam, administrava o
império estelar criado por meus antepassados.
Para ser
sincero comigo mesmo, tive de perguntar-me por que estava empenhando
todos os meus anseios e minha capacidade de ação em chegar aos três
planetas sincronizados de Árcon, apesar de tudo que teria
acontecido.
Seria o
sentimento que os homens designavam como saudade? Em pessoas do meu
tipo uma manifestação do inconsciente como esta seria um fato
inconcebível. Afinal, sempre conseguira controlar-me, desde o
momento em que deixara minha nave capitania, a fim de pisar pela
primeira vez no planeta verde, a Terra.
Talvez os
numerosos amigos de verdade encontrados entre os humanos nem
permitiriam que pudesse sofrer um repentino acesso de saudades.
Provavelmente,
o desejo de ir para casa, acontecesse o que acontecesse, nascera
principalmente do orgulho ferido. Foi terrível ter de constatar,
assim que despertei do profundo sono biológico, que os pequenos
bárbaros do planeta Terra já se haviam tornado adultos.
A essa
hora, só sentia o desejo de verificar pessoalmente se as informações
que o serviço de defesa fornecera sobre meu povo correspondiam à
verdade. Se isso acontecesse, talvez voltaria para estender a mão a
Rhodan e selar o pacto de amizade com o mesmo.
Enquanto o
veículo se deslocava em direção às instalações não muito
distantes do serviço de defesa, pensei em Perry Rhodan. Estava
desaparecido há cerca de trinta dias. Gmuna fizera algumas
observações, segundo as quais Rhodan voltara a arriscar muita
coisa. De qualquer maneira, no momento, meu inimigo mais implacável
não se encontrava na Terra.
Meu
inimigo? Soltei uma risadinha ao analisar o conceito. Sim, fora meu
inimigo até o momento em que dera ordem ao seu robô para que me
desse água. Quando isso aconteceu, percebi que nunca mais
conseguiria matá-lo.
Gmuna
levou-me ao elevador antigravitacional mais próximo. Os jovens
lidavam com o artefato como se tivessem passado por uma evolução
tecnológica milenar. Tudo aquilo se transformara numa coisa natural.
Ao que parecia, nem chegaram a refletir sobre o tempo que os
cientistas de meu povo dispenderam no controle das forças
gravitacionais. Eles, os humanos, simplesmente receberam a tecnologia
de nosso povo.
Quando
pensava nesses detalhes, lutei contra a sensação de raiva que
começava apossar-se de mim. Seria bom que não se esquecessem de
quem eles tinham diante de si. Quem lhes dava o direito de mandar
conduzir-me por um grupo de soldados armados, como se fosse um
criminoso? Era este detalhe que não me permitia fazer vistas grossas
para tudo, num gesto de verdadeira generosidade.
Se
tivessem mais experiência, nunca teriam a idéia de algemar ou
vigiar um homem como eu. Minha palavra lhes bastaria.
Mas, ao
que tudo indicava, não conheciam o elevado código de honra da velha
frota arcônida.
Por isso,
cometeram o erro de minar constantemente a disposição de revelar
integralmente os fatos, que vez por outra surgia em minha mente.
Despertaram todo o volume de resistências desencadeadas pelas
sensações do subconsciente. Achei preferível não informá-los
sobre este detalhe.
Parei por
um instante no corredor do 86o
pavimento, prestando atenção aos últimos ecos do trovão causado
pela decolagem de uma grande espaçonave. Para mim não poderia haver
ruído mais agradável. Olhei para Gmuna.
— É uma
nave da classe Império? — perguntei em tom curioso.
— É a
nave Drusus, almirante. O chefe solicitou sua presença pelo
hiper-rádio. Caso o oficial de artilharia aperte os botões, ela
poderá causar o fim do mundo.
Seu
entusiasmo mais que compreensível me fez rir. O coração de um
jovem não poderia deixar de bater mais aceleradamente quando uma
gigantesca esfera espacial de 1.500 metros de diâmetro disparava em
direção ao espaço.
Dali a
alguns segundos, as portas de correr blindadas abriram-se. Entrei nas
salas de trabalho do setor especial da defesa solar.
Como de
costume, havia mais de dez pessoas. Já as conhecia.
Na minha
escala de avaliação, o general Kosnow ocupava um lugar todo
especial. Conforme Gmuna certa vez cochichara ao meu ouvido, este
homem seria muito velho. Talvez pertencesse ao grupo de oficiais de
grande mérito, que juntamente com Perry Rhodan haviam criado e
desenvolvido a antiga Terceira Potência. Dizia-se que Perry Rhodan
tinha a possibilidade de proporcionar um prolongamento biomédico da
vida aos homens que julgasse dignos desse benefício. Não possuía a
menor idéia sobre a maneira pela qual conseguia isso. Em nenhum dos
homens pertencentes ao círculo de seus colaboradores mais chegados,
percebera qualquer fenômeno que, segundo as minhas concepções,
pudesse contribuir para a estabilização biológica e a renovação
constante das células.
De
qualquer maneira, não podia deixar de haver um núcleo de verdade
nesses boatos, pois Perry Rhodan não envelhecera.
Quando vi
o homem baixo, parei imediatamente.
Virou em
minha direção o rosto que chamava a atenção pela pele lisa e pela
ausência quase completa de barba, que parecia dominado por dois
olhos azuis. Aparentava ser tão corriqueiro e inofensivo que não
poderia deixar de despertar desde logo minha desconfiança. Seria
este o homem novo, do qual Gmuna me havia falado?
Se fosse
eu quem estivesse no comando, teria dado ordem para que o jovem
oficial usasse uma arma realmente mortífera. Isto não concorreu
para tornar o desconhecido mais simpático aos meus olhos.
O general
Kosnow levantou-se atrás da enorme escrivaninha. Cumprimentou-me com
um gesto de cabeça.
— Como
vai, almirante?
Inclinei a
cabeça num gesto comedido, esforçando-me para demonstrar certa
dignidade.
— Permita
que lhe apresente o marechal-solar Allan D. Mercant, almirante.
“Cuidado!
Perigo!”,
sinalizou meu supercérebro. Senti nitidamente os impulsos
telepáticos expedidos pela mente do marechal.
Minha
memória fotográfica entrou em funcionamento. Allan D. Mercant? O
nome não me era estranho. Lembrei-me de tê-lo lido na Enciclopédia
Terrânia. Segundo os dados constantes da mesma, em 1.971 Mercant
fora chefe de um serviço secreto de âmbito mundial, conhecido pelo
nome Conselho Internacional de Defesa.
Depois que
Rhodan regressou da Lua, o chefe do CID passou a simpatizar com o
major. Posteriormente passou a trabalhar com exclusividade para
Rhodan. E, agora aquele homenzinho ocupava o posto de marechal-solar.
Provavelmente exercia as funções de chefe do Serviço Solar de
Segurança. Tinha certeza absoluta de que Rhodan não poderia ter
encontrado melhor elemento para desempenhar as funções.
Mercant,
que além do mais parecia dispor de faculdades telepáticas
limitadas, também se levantou. O gesto com que me cumprimentou foi
um tanto desajeitado, mas não deixei que esse fato me iludisse.
Mercant correspondia àquilo que meus antepassados costumavam
designar como o punhal de ponta envenenada: de aspecto inofensivo,
era uma mortífera arma de ataque.
— Muito
prazer. Por favor, não se esforce em vão, Sir — disse em tom
formal. — Já houve telepatas melhores que o senhor que tentaram
romper minha psique. Estou em condições de bloquear o conteúdo da
minha mente.
O
homenzinho de cabeça quase totalmente calva, que usava óculos
antiquados de aros de ouro, parecia embaraçado.
— Queira
desculpar — disse Mercant em tom lamentoso, mas seus olhos claros
falavam uma linguagem diferente...
Percebi
que minha avaliação fora correta. Sua conduta aparente era apenas a
máscara que ele usava. Tinha certeza absoluta de que não sofria
complexos de inferioridade.
Por outro
lado, não podia haver a menor dúvida sobre suas qualidades
psicológicas. Se Rhodan o havia escolhido para chefiar uma entidade
importantíssima como a defesa solar, Mercant devia ser dotado de uma
capacidade extraordinária.
— Faça
o favor de sentar — disse em tom amável.
Sua mão
apontou gentilmente para uma cadeira confortável, colocada à frente
das escrivaninhas dispostas em ferradura. Sentei.
Raras
vezes estivera tão atento. Se não estava muito enganado, a tática
que Mercant usaria durante o interrogatório seria muito diferente
daquela empregada por seus subordinados.
Foi como
eu esperava. Começou instantaneamente, em forma de assalto. O fato
de que não recorria a palavras supérfluas constituía uma vantagem.
— O
senhor está na Terra pelo menos há setenta anos, almirante —
principiou com a voz tranqüila.
Esforçei-me
ao máximo para manter o autocontrole. Como poderia saber disso?
Mantive-me em silêncio.
— Tive o
trabalho de examinar alguns documentos antigos da OTAN — disse com
um sorriso. — Em abril de 1.970, o chefe científico de um
instituto de pesquisas particular empregou um certo Olaf Peterson,
que assinou um contrato. Esse homem foi o senhor. Após quatro meses,
passou a chefiar um setor próprio. Ali desenvolveu num tempo
espantosamente curto um aparelho chamado projetor de campos
estruturais, destinado a campos de compressão que exigem um elevado
desempenho energético. Num artigo escrito pelo senhor, diz-se que o
mesmo poderia substituir perfeitamente as câmaras de combustão
convencionais e os bocais de jato submetidos a uma solicitação
térmica excessiva. Dali a mais três meses, o senhor passou a
ocupar-se com a elaboração de um minirreator destinado ao
abastecimento de energia para as espaçonaves. Tratava-se de um
reator de fusão dotado de controle automático capaz de fornecer
quinhentos quilowatts por hora. Estes fatos são um tanto
surpreendentes, não são?
Mercant
fitou-me com uma expressão de curiosidade. Percebi que seria inútil
negar.
— É
verdade — disse em tom de tédio. — Naquela época, usava o nome
de Olaf Peterson. Pretendia apoiar os bárbaros nos seus esforços
desesperados de conquistar o espaço. A gente se assustava ao ver os
problemas que os aborreciam. Quanto a mim, apenas utilizei dados
publicamente expostos nos museus de meu povo.
Fiquei
satisfeito ao notar o choque causado nos homens que me ouviam
atentamente. Por pouco, não soltei uma estrondosa gargalhada.
Mercant parecia divertir-se.
— Obrigado
pela franqueza, almirante.
— Não
há por quê, Sir. Um homem inteligente não continua a mentir quando
percebe que está irremediavelmente desmascarado.
O chefe de
segurança fez um gesto pensativo. Repentinamente mudou de assunto.
— Acreditamos
que o senhor seja um agente cósmico no desempenho de missão
independente. Crest e Thora, nossos amigos arcônidas, não sabem
nada a seu respeito. Uma coisa é certa. O senhor veio à Terra por
simples acaso.
— Não
diga! — respondi.
Um sorriso
disfarçado surgiu no rosto de Kosnow. Havia uma pequena dose de
malícia em seus olhos. Ao que parecia, gostava de ver Mercant sofrer
um pequeno revés.
— Qual é
sua idade, almirante? — foi a pergunta seguinte.
— Procure
adivinhar.
Estavam se
aproximando de meu segredo. O chefe de defesa seguira um caminho bem
diferente. Seus dedos brincavam nervosamente com uma velha espátula
feita de marfim.
— É o
que faremos — prometeu em tom gentil. — O senhor tem um aspecto
surpreendentemente jovem. Diria que calculo sua idade em trinta e
cinco anos. Como podemos harmonizar essa circunstância com sua
presença prolongada na Terra? Além disso, segundo as informações
de que dispomos, um oficial da frota arcônida que ocupa o alto posto
do senhor nunca tem menos de quarenta anos da contagem de tempo
terrana. Ninguém se torna almirante aos trinta anos.
— O
senhor está com toda razão — disse em tom sério.
Descansou
a espátula com uma lentidão acintosa. Senti que teve de esforçar-se
para manter o autocontrole.
“Prepare-se!”,
foi a mensagem transmitida por meu cérebro. Sabia o que viria em
seguida.
— O
senhor possui um aparelho muito estranho, almirante. Atendendo a seus
pedidos, deixamos de abrir o envoltório em forma de ovo. Ainda
insiste na afirmativa de que não se trata de uma arma?
— Perfeitamente.
— O
senhor ponderou que o aparelho tinha alguma relação com seu
bem-estar físico. Uma vez que não lhe pretendemos fazer mal, não
lhe tiramos o mesmo. Mas isso pode mudar, almirante!
Se até
então ninguém me ameaçara, Allan D. Mercant o estava fazendo.
Pensei nas
terríveis cicatrizes que trazia na região do estômago, devidas
exclusivamente ao ativador celular a que Mercant acabara de aludir.
Envolvi-me
num silêncio total. A situação parecia tornar-se desagradável
para os psicólogos que se encontravam presentes.
O chefe do
serviço de defesa não se deixou perturbar. Desconfiei até onde
pretendia chegar. Era mais que perigoso.
— Trouxe
alguns cálculos logísticos — acrescentou em tom casual. —
Supondo que esse aparelho realmente assume uma importância vital
para o senhor, e que sempre deve ser trazido junto ao seu corpo, os
matemáticos concluíram que, no curso de seu passado bastante
agitado, o senhor deve ter sido obrigado várias vezes a engolir o
micro conjunto. O fato explicaria as suas numerosas cicatrizes. Foi
só por isso que acreditei nas suas declarações, segundo as quais o
senhor não deve ser separado do aparelho. Evidentemente essa
circunstância nos leva a tirar conclusões da maior gravidade.
— E daí?
— perguntei em tom irônico.
— O
senhor se encontra na Terra há muito mais tempo do que está
disposto a confessar. Verificaremos os nomes com que tem aparecido no
curso da história da Humanidade.
— Fique
à vontade. Não terá muita sorte.
Tornou-se
um pouco mais impaciente.
— Atlan,
o senhor deveria dizer a verdade. Um homem com a sua inteligência já
teria percebido que não adianta negar os fatos. O que espera
conseguir com isso?
— Quero
ir para casa — disse em tom tranqüilo.
— O
senhor sabe perfeitamente que não podemos aceder a esse desejo. Por
aí pensasse que a Terra foi destruída e que Perry Rhodan está
morto. Se permitíssemos que o senhor fosse ao sistema de Árcon,
isso representaria um perigo para a Humanidade.
— Se as
informações que me forneceram sobre a decadência do Império de
Árcon correspondem à realidade, não direi uma palavra.
— O
senhor não seria capaz disso. Árcon está sendo governado por um
regente robotizado. Além disso, achamos sua pretensão um tanto
absurda. Como poderíamos acreditar na sua promessa, se até aqui se
obstina em manter silêncio sobre os fatos?
Allan D.
Mercant era muito inteligente. Mas, nem ele mesmo se dera conta de
que minha palavra representaria muito mais que uma simples promessa.
Chamei sua atenção para essa circunstância.
— As
informações que possuímos sobre as concepções morais dos
oficiais da frota arcônida são muito escassas, Sir. Os tempos estão
mudados. Diga francamente quem é, de onde veio, quando veio e por
que veio. Depois poderemos falar sobre o resto. Por enquanto, o
senhor é um “fator”
desconhecido, que pode ser totalmente inofensivo, mas também pode
ser muito perigoso.
No meu
íntimo confessei que seu raciocínio era claro e lógico. Apesar
disso, não estava disposto a revelar de uma hora para outra meu
grande segredo. Provavelmente não acreditariam em mim, o que
tornaria minha situação ainda pior.
Além
desse raciocínio, o orgulho bastante ferido ainda me impedia de
revelar os fatos. Afinal, quem eram esses terranos? Meus antepassados
viram neles selvagens do tempo da Idade da Pedra, e agora um
cientista e comandante de esquadra arcônida recebia deles um péssimo
tratamento.
Senti que
me aproximava de um dilema. Já não conseguia vencer a fraqueza
determinada por fatores raciais. Meu supercérebro dizia que os
terranos eram amigos, mas minha memória fotográfica revelava o
pequeno número de amigos que havia encontrado entre eles.
— O
senhor me ofendeu — respondi em tom áspero. — Se não quiser
confiar na minha palavra, não terá outra alternativa senão
manter-me preso. Recuso-me a depor.
É um
direito que as leis terranas me conferem.
— Voltamos
à estaca zero, Sir — observou o general Kosnow.
Sabia o
que queriam dizer. Os homens mais capazes do serviço de defesa já
haviam percebido por ocasião dos interrogatórios anteriores que em
certo estágio um curto-circuito emocional ocorria em minha mente,
Até agora, Kosnow sempre suspendera o inquérito ao chegar a este
ponto.
Mercant
não se afastou da regra. Levantou-se, cumprimentou-me com um gesto
da cabeça e disse:
— Pois
não; fique à vontade, almirante. Hoje de tarde voltaremos a
conversar. Até lá disporemos de outros dados sobre sua pessoa. Se
houver qualquer prova de que desenvolveu alguma atividade de agente,
terá de enfrentar um tribunal. O senhor não está com a ficha muito
limpa, senhor Atlan.
Este modo
de falar fez com que ele fechasse desesperadamente os olhos. Já se
tornavam muito menos corteses, o que não lhes poderia levar a mal.
Perguntei seriamente a mim mesmo o que faria se estivesse em seu
lugar. Talvez não fosse tão tolerante para com um misterioso
desconhecido.
Mercant
saiu. O general Kosnow seguiu-o com um olhar pensativo. Depois que a
porta se fechou, virou a cabeça para mim.
O traço
em torno dos seus lábios parecia exprimir preocupação.
— O
senhor ainda não conhece Mercant, Sir — disse em tom de súplica.
— Por que insiste em não falar? Está certo; dar-lhe-emos mais
algumas horas para refletir. Concorda em conversar também hoje com
os estudantes do último semestre?
Controlei-me
para não revelar minha alegria. Desde o dia 12 de maio de 2.040,
surgira o hábito de levar-me todos os dias ao grande auditório da
Academia Espacial, onde as novas gerações de cientistas me faziam
inúmeras perguntas. Geralmente tratava-se de problemas
médico-biológicos ou de questões de tática colonial solucionadas
no curso da política expansionista dos arcônidas.
Os
estudantes de engenharia estavam curiosos para saber que tipos de
propulsores e máquinas usávamos naquele tempo, enquanto os
astronautas esperavam que confirmasse a exatidão de longos cálculos
relativos a hipersaltos.
Os futuros
oficiais da Frota Espacial Estratégica estavam interessados em
conhecer a forma pela qual os colonizadores arcônidas costumavam
tratar os povos estranhos.
As
discussões eram agradáveis. Na verdade, o interesse pelo passado
grandioso de meu venerável povo me deixava feliz.
Mais uma
vez concordei, embora hoje nem pensasse em utilizar o saber imenso
armazenado na minha memória fotográfica no benefício exclusivo dos
estudantes da academia.
Meus
cálculos incluíam um fator, que nas últimas semanas fora incluído
na categoria dos desconhecidos. Tratava-se de um ser humano, cujas
reações constituiriam a chave negativa ou positiva da minha
equação: uma jovem estudante de cosmobiologia chamada Marlis
Gentner, que não nascera na Terra.
Marlis era
descendente dos colonos que pousaram em Vênus cerca de sessenta anos
atrás. Evidentemente orgulhava-se dos seus antepassados, que
conseguiram arrancar da selva de Vênus tudo de que o homem precisa
para sua subsistência.
Sabia que
entre os colonos de Vênus e os terranos existiam certas tensões.
Para mim, as ligeiras divergências eram normais e inevitáveis. A
história grandiosa de meu povo demonstrara repetidas vezes que, uma
vez vencidas as dificuldades iniciais, toda colônia anseia pelo
autogoverno.
As
conseqüências sempre são desagradáveis para ambas as partes. É
bem verdade que os problemas econômicos e sócio-políticos podem
ser solucionados satisfatoriamente através de negociações. Mas,
até o momento do acordo definitivo, sempre existe uma diferença de
princípios e de concepções.
Marlis
Gentner era uma defensora ardorosa da justiça. Em sua opinião, o
jovem Estado venusiano fora prejudicado em seu desenvolvimento. Não
lhe expliquei que os colonos sempre são dessa opinião. Um pioneiro
inteiramente satisfeito constitui um fenômeno impossível.
Travei
conhecimento com ela no dia 15 de maio, durante uma preleção.
Poucos dias depois, ela dissera numa discussão pública que minha
prisão constituía uma indignidade.
Há três
dias resolvi colocar todas as chances numa carta. Num cochicho
informei-a sobre o lugar em que havia escondido meu equipamento
especial.
Em
princípios de maio, quando cheguei a Terrânia, tive o cuidado de
guardar adequadamente os aparelhos que assumiam importância vital
para mim. Por ocasião de minha fuga precipitada na nave espacial de
Rhodan, parte dos micro instrumentos havia ficado para trás.
Se
conseguisse apossar-me de certa cápsula, os dias de prisão teriam
chegado ao fim. Meus cálculos eram inatacáveis. Não havia a menor
possibilidade de falha, desde que o fator desconhecido representado
por Marlis Gentner reagisse de forma positiva.
Os dois
guardas armados voltaram a aparecer. Num gesto rotineiro, apontaram
para a porta atrás da qual havia um elevador que conduzia ao
heliporto situado na cobertura do edifício.
Ainda bem!
Um ato de rotina sempre embota a mente, adormecendo o sentimento de
vigilância. Até mesmo Tombe Gmuna, sempre desconfiado, não
suspeitou de nada quando penetrou ao meu lado no campo energético.
Livres da
ação da gravidade, subimos ao lugar em que o aparelho de rotores do
serviço de defesa nos aguardava.
A maior e
a mais importante das academias espaciais do Império Solar ficava
fora da área do gigantesco espaçoporto.
Bem longe
dali, ao leste, vi as coberturas reluzentes dos arranha-céus.
Terrânia, a capital da Terra e do pequeno império planetário,
fundada há sessenta anos, já tinha mais de 14 milhões de
habitantes.
Era uma
cidade que impressionava o observador. Por certo, ocuparia um lugar
de destaque na Galáxia, assim que as inteligências da Via Láctea a
conhecessem. Por enquanto, Perry Rhodan ainda se fingia de morto.
Mas, na minha opinião, isso não duraria muito.
Não
poderia deixar de ser descoberta durante a missão arriscada que
estava executando. Quando isso acontecesse, preferia não estar na
Terra. Meu lugar era no palácio de cristal de Árcon I, o mundo que
dominava o Universo conhecido.
Ao entrar
na máquina, lembrei-me de como meu auxílio discreto seria útil
para a Humanidade. Deveria ter explicado aos homens do serviço de
defesa que eu, Atlan, estava imbuído da intenção honesta de, a
partir de Árcon, apoiar a Humanidade em ascensão?
Ninguém
teria acreditado nas minhas palavras, ainda mais que segundo a
opinião oficial todos os arcônidas eram degenerados. Não podia
conformar-me. Precisava ir para casa, custasse o que custasse.
3
Minha
preleção sobre a política colonial arcônida e a psicologia das
raças estranhas durou duas horas.
A seguir,
os estudantes de várias especialidades apresentaram-se para discutir
o assunto. Era a hora da descontração e do descanso.
Marlis
Gentner, uma moça alta, de cabelos escuros e um jeito obstinado,
resolvera não participar da guerra de palavras. Interpretei sua
surpreendente reserva como um sinal positivo, o que evidentemente
poderia ser um raciocínio errôneo.
Várias
vezes vi seu rosto surgir entre muitos outros como se fosse uma
mancha branca. Uma ocasião tive a impressão de que me examinava com
os olhos críticos de psiquiatra.
Sempre que
pensava nela, experimentava um sentimento de carinhosa simpatia.
Quase chegava a sentir vergonha por tê-la induzido a trair sua raça.
Seria a
doença infantil de todos os pioneiros; não havia a menor dúvida. E
fora injusto da minha parte deixar de esclarecê-la a este respeito.
Ainda acontecia que não se podia pensar numa ligação entre a moça
e minha pessoa.
Era jovem,
bela e inteligente. Já eu era um homem muito velho, que não tinha o
direito de atar a venusiana, que mal começava a despertar para a
vida.
Enquanto
respondia às indagações dos universitários, meu sexto sentido
lógico, que geralmente funcionava de forma impecável, me disse que
por enquanto não havia acontecido nada. Além disso não pretendia
recorrer ao auxílio de Marlis para prejudicar a Humanidade. Apenas
desejava ir para casa. Queria escapar à vergonha da prisão. Era só
isso.
Ao
meio-dia e dez, o tenente Gmuna interrompeu a longa discussão.
Encontrava-se entre os estudantes, dos quais alguns falavam
excitadamente, enquanto outros ouviam em silêncio. Naquele momento,
discutiam se uma raça mais desenvolvida no terreno técnico e
científico tem o direito de enquadrar os habitantes dos mundos
primitivos no seu esquema colonizador.
Os prós e
os contras esquentavam os ânimos jovens. Diverti-me ao notar como a
juventude mergulhava num tema que já ocupara as cabeças dirigentes
do Império Arcônida.
A
inquietação que começava a tomar conta de mim, me fez ficar
nervoso e distraído. Esforcei-me ao máximo para dar respostas
claras e objetivas. Se procedesse de outra forma, Gmuna desconfiaria
imediatamente.
Demorou
alguns minutos até que eu visse Marlis ao meu lado. Gmuna não
poderia impedir que, durante a discussão tão animada, vez por
outra, alguém esbarrasse em mim. Todos os dias tinham sido a mesma
coisa: queriam ver de perto o estranho vindo das profundezas da Via
Láctea.
Subitamente,
vi os olhos de Marlis. Eram grandes e escuros que nem um lago nas
montanhas, em cujo fundo arde um fogo eterno. Esses olhos continuavam
a indagar, e a perscrutar. Percebi lutar consigo mesma, uma
circunstância que provava que os objetos os quais eu precisava se
encontravam em seu poder.
Só
deveria olhar ligeiramente para ela.
Naquele
instante, Gmuna estava empurrando os estudantes para trás. A moça
aproveitou a oportunidade.
Ouvi sua
voz, que soava baixo e abafada.
— O
senhor me escreverá?
Fiz um
gesto quase imperceptível com a cabeça. A tensão psíquica quase
chegava a dilacerar-me. Mercant prometera interrogar-me de novo
durante a tarde. Poderia haver cenas muito desagradáveis.
— Faça
o favor de afastar-se — berrou Gmuna a plenos pulmões. — Do
contrário nunca mais ouvirá uma preleção.
— Darei
notícias — disse apressadamente, dirigindo-me à moça.
— Não
lutará contra minha gente?
— Dou-lhe
minha palavra, Marlis. Preciso ir para casa. Procure compreender!
— Encontramo-nos
em Port Vênus. Interromperei os meus estudos. Combinado?
Senti um
nó na garganta. De repente, a tensão abandonou-a. Brindou-me com um
sorriso franco. Embaixo de sua pasta, surgiu um recipiente chato de
cerca de 20 centímetros de comprimento. Agarrei-o apressadamente,
mas ninguém notou o gesto.
Com um
ligeiro movimento da mão, introduzi o estojo sob a blusa folgada.
Senti as duas ventosas entrarem em contato com a pele através da
camisa.
Mais uma
vez parecia uma pessoa estranha entre os jovens que discutiam, e que
finalmente abandonavam o campo.
O tenente
Gmuna aproximou-se furioso. Sorri tranqüilamente para ele. Marlis
desaparecera. Provavelmente fizera muito mais pela Humanidade do que
poderia imaginar naquele instante. Quanto a mim, estava decidido a
não voltar para a grade energética.
Meu
equipamento de emergência não oferecia grandes possibilidades.
Quando me encontrasse no interior da casa hermeticamente fechada, o
defletor de ondas luminosas não me poderia ser útil.
— Faça
o favor de acompanhar-me — disse Gmuna em voz bastante alta. — A
partir de amanhã mandarei isolar seu lugar. Assim não é possível.
Quando
comecei a rir, Gmuna contorceu o rosto numa expressão de
contrariedade.
— O
senhor sabe perfeitamente que todas as simpatias estão do seu lado.
Não pense em tolices. É verdade: amanhã mandarei fechar o
auditório.
Gmuna nem
parecia desconfiar de que essa decisão vinha tarde. Olhei para trás
para ver Marlis mais uma vez, mas não consegui descobri-la.
Provavelmente, a esta hora, já se estaria recriminando pesadamente.
Não tive possibilidade de apoiar sua ação numa conversa franca e
prolongada. A moça só me conhecia das discussões.
Gmuna
empurrou-me para a saída. Os dois guardas reapareceram.
Pegamos o
pequeno elevador comum que ficava atrás da parede de comandos do
moderno auditório. Lancei um ligeiro olhar para as câmeras de
televisão embutidas. As minhas preleções costumavam ser
transmitidas, pois a sala não comportava mais de mil pessoas.
Fomos para
a cobertura, onde Gmuna havia estacionado o helicóptero. Naquele
instante, minha calma e equilíbrio interior tornaram-se completos.
“Na
cobertura, pedirão autógrafos a você”,
avisou meu sexto sentido. Quase cheguei a confirmar com um gesto. Até
então, sempre fora assim. Os estudantes são uma turma bastante
engenhosa. Sabiam como pregar uma peça às autoridades.
Comecei a
preparar-me para a fuga.
Quando
saímos do elevador, não consegui ver a larga área de concreto do
heliporto de cobertura. Mais de mil universitários haviam
comparecido para ver uma criatura misteriosa como eu.
Eram os
estudantes que não conseguiram entrar no auditório. Com certeza não
ficaram muito satisfeitos em assistir à palestra pela televisão,
principalmente porque dessa forma não poderiam intervir nos debates.
E agora possibilitariam minha fuga.
Os guardas
de Gmuna avançaram com os fuzis atravessados. Não conseguiram
afastar as pessoas, geralmente jovens, vindas de todos os continentes
da Terra e dos diversos planetas habitados. Antes que Gmuna se desse
conta do que estava acontecendo, nos vimos rodeados por gente
excitada falando em altas vozes.
Olhei para
o arco assimétrico do portão, sob o qual começavam as diversas
faixas transportadoras da via elevada. Precisava atingi-lo.
Alguém
entregou-me um grande quadro, no qual identifiquei, para meu espanto,
minha própria pessoa. Canetas foram tiradas dos bolsos. Autógrafos
foram solicitados. Contra minha vontade vi-me transformado numa
espécie de ídolo. Eu, que fora tão comum, transformara-me numa
figura conhecida de todos. Não gostei disso, pois o fato me traria
problemas bastante difíceis.
Gmuna
distribuiu cotoveladas, até que dois gigantes risonhos o seguraram
pelos braços. O estojo metálico, que poucos segundos antes se
encontrara preso à minha pele, já se achava no bolso externo de
minha blusa. Seria fácil abrir o fecho magnético e tatear até
encontrar o defletor de ondas luminosas, um artefato achatado.
Quando
Gmuna conseguiu respirar e alguns representantes da polícia comum
acudiram correndo, minha hora havia chegado.
Bem atrás
de mim, ficava a parede de concreto na qual se abriam os poços dos
elevadores. Quase todos os estudantes que participavam da
manifestação de protesto estavam à minha frente. Teria de passar
pelos poucos mantidos junto à parede sem que estes o percebessem.
Aguardei
calmamente até que Gmuna voltasse a soprar o apito. Apertei a chave
do instrumento para baixo.
De uma
hora para outra o defletor de ondas luminosas tornou-me invisível
aos olhos comuns. Via tudo, mas para os outros desaparecera de uma
hora para outra.
O campo de
deflexão adaptava-se automaticamente aos contornos de meu corpo.
Dei mais
três saltos para trás e passei por alguns estudantes enfurecidos.
Foi quando vi o rosto perplexo de Gmuna.
Há poucos
segundos ainda era a própria encarnação da calma; mas agora
sentia-me tangido pelos acontecimentos. Evidentemente desencadeariam
o alarma geral. Se ainda me achasse no espaçoporto, a fuga seria
impossível. Mas, na situação em que me encontrava por certo
conseguiria mergulhar no formigueiro da gigantesca Terrânia.
Contornei
o compacto grupo de estudantes e vi algumas aberturas em meio à
massa, que me permitiram avançar mais um pouco.
Ouvi um
trovão atrás de mim. Parei em meio ao salto e virei-me
apressadamente. Não era possível que Gmuna, tomado de pânico,
estivesse atirando contra aquela gente.
Não, não
estava atirando. Em compensação, o ar aquecido pelos raios do sol
estava entrecortado por dedos luminosos das forças atômicas
liberadas.
Tombe
Gmuna atirava para o alto, provocando a fuga desabalada dos
estudantes assustados. O jovem tenente do serviço de defesa sabia
como agir numa emergência. Esperava que a confusão me
proporcionasse alguns minutos de vantagem. E agora conseguira
fazer-se ouvir com uma rapidez surpreendente, além do que emitira um
sinal de alarma inconfundível.
Reprimi
uma praga, orientei-me ligeiramente e voltei a correr.
Cheguei ao
grande portão que ficava junto à beira da cobertura antes dos
grupos de estudantes. Aqui começavam as faixas transportadoras que,
apoiadas em elegantes colunas de sustentação, passavam por cima de
toda a cidade de Terrânia.
Perto de
algumas moças que gritavam a plenos pulmões saltei para a fita de
baixa velocidade. Dali passei com alguns saltos rápidos para a via
expressa que se deslocava a cinqüenta quilômetros por hora. Em
virtude da série de saltos precipitados, caí pesadamente sobre o
piso elástico. Continuei deitado, observando os arredores.
A fita
movimentava-se a uma velocidade um tanto elevada. Afastava-me do foco
dos acontecimentos mais rapidamente do que Gmuna poderia gostar.
Antes de
ser carregado para a curva ampla situada entre o edifício da
academia e um dos edifícios da administração, vi alguns
helicópteros da polícia aérea surgirem ruidosamente.
A grande
caçada estava começando. Se conseguissem agarrar-me de novo, meu
jogo estaria perdido.
Tive o
cuidado de não entrar em contato com as raras pessoas que se
encontravam sobre a fita transportadora. Escolhera este meio de fuga
não tanto por sua rapidez, mas principalmente porque oferecia uma
garantia quase absoluta contra a descoberta. Evidentemente os
passageiros, que se valiam desse meio de transporte rápido, não se
moviam sobre o mesmo. Quem conseguisse colocar-se sobre a fita ficava
parado, para resistir à pressão do vento. Nem sequer se arriscava a
utilizar a comunicação direta.
Logo
depois, desliguei meu espírito. Que procurassem à vontade.
Continuaria invisível enquanto o microcarregador fornecesse energia.
Prestei
muita atenção aos grandes painéis luminosos que avisavam os
passageiros com a necessária antecedência sobre o lugar onde
deveriam sair da fita para encontrar esta ou aquela estação.
Quando vi
à grande distância a inscrição “Campo
de Pouso”,
modifiquei meu plano original. Face à reação surpreendentemente
rápida de Gmuna, a penetração na área do grande espaçoporto,
além de perigosa, seria inútil. Se estivesse no lugar de Kosnow, a
esta hora já teria emitido uma proibição geral de decolagem.
Passei
pela ramificação. Meu destino era a grande estação ferroviária.
Os grandes comboios de longa distância raras vezes eram utilizados
pelos viajantes. Não teria dificuldade em encontrar lugar num vagão
de carga.
Sentei,
cruzei os braços por cima dos joelhos e ri alto e alegre para o
vento.
A
correnteza de ar era tépida. Refrescava muito pouco. A próxima
chuva fora anunciada para a noite seguinte.
Tirei o
estojo do bolso e retirei o pequeno projetor mental. Era uma versão
reduzida da arma psicológica altamente eficiente, cujas emanações
eliminavam o pensamento consciente. O aparelho não era perigoso, nem
prejudicava a saúde. Não pretendia matar nem ferir esses bárbaros
selvagens, mas tão bem-sucedidos, que habitavam o planeta Terra.
Deram-me
um tratamento decente. Uma moça de sua raça chegara mesmo a
apaixonar-se por mim. Por que não confiavam em mim? As coisas
poderiam ser muito mais simples e os riscos menores. Prometi a mim
mesmo que depois de chegar a Árcon nunca mencionaria a Terra, o
Império Solar ou o nome de Perry Rhodan. Esta palavra de honra foi
dada a mim mesmo segundo o sagrado código de honra da frota espacial
dos arcônidas. Não poderia voltar atrás, mesmo que mais tarde
viesse a desejá-lo. Decidi justamente fazer esse juramento para
evitar que fatores sentimentais posteriores pudessem demover-me do
meu intento. Estava indissoluvelmente ligado ao mesmo.
Livre da
carga das auto-recriminações e com o pensamento voltado para Marlis
Gentner, preparei-me para saltar para a fita mais lenta. Precisava
dar certo. Não poderia esbarrar em ninguém.
Bem à
minha frente vi, em letras luminosas menores, a expressão “Estação
de Carga”.
Por certo,
a área também seria bloqueada, mas não com o mesmo cuidado do
aeroporto intercontinental. Em Terrânia, dificilmente havia alguém
que usasse as antiquadas vias férreas.
4
Minha fuga
no trem de carga foi um verdadeiro martírio. Abri sem hesitar a
porta de correr de uma pesada locomotiva atômica, que recebera o
sinal de partida no momento em que estava chegando à estação.
Pouco me importava a que lugar da Ásia ou da Europa estaria
destinado o trem. A única coisa que me interessava era sair de
Terrânia quanto antes, a fim de escapar à operação de busca em
grande escala.
Exausto,
escondi-me no transformador da gigantesca locomotiva, mas dez minutos
após a partida o trem foi detido. O serviço de defesa agira com uma
rapidez inacreditável.
Dali em
diante, comecei com o jogo arriscado. Os policiais empenhados na
busca sabiam que teriam de procurar uma criatura invisível. O
problema seria praticamente insolúvel pelos meios naturais. Por
isso, o trem ficou parado durante duas horas em pleno deserto, até
que chegasse um comando especial com instrumentos de localização.
O lugar
mais seguro para esconder-me continuava a ser o transformador, onde a
corrente de 30 mil volts gerada pelos reatores seria convertida para
a voltagem com que trabalhava a máquina.
Uma vez
que me encontrava muito próximo aos trilhos condutores de energia,
os campos energéticos por eles gerados superavam bastante as débeis
irradiações de meu defletor de ondas luminosas. Face a isso, a
localização energética seria impossível.
Acontece
que tive de pagar por essa vantagem com um perigo constante para
minha vida. Saltitava entre os condutores reluzentes e, muito
excitado, procurava calcular a que distância poderia saltar um raio
que transformaria meu corpo numa massa carbonizada.
Foram
minutos terríveis. A sala de transformadores só foi submetida a uma
busca ligeira.
Depois que
a composição partiu, percebi que avançava cada vez mais pelo
desolado deserto do Gobi Central. Os vagões de carga estavam vazios.
Concluí que o trem se destinava a um lugar em que os mesmos seriam
carregados.
As horas
foram passando. Desenvolvendo uma velocidade de 200 km/h, a
composição correu vertiginosamente pela China Ocidental, até que
as montanhas do maciço do Himalaia surgissem à nossa frente.

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