terça-feira, 12 de março de 2013

P-055 - A Sombra do Supercrânio - Kurt Brand [parte 3]


Essas idéias passaram pela cabeça de Lloyd quando mandou que o veículo parasse e desceu em companhia de Kuri e do volatense O-Oftftu-O.
A cem metros dali, a luz colorida que envolvia a fachada do edifício de escritórios dos saltadores lutava para romper as trevas da noite volatense.
Nesse edifício, encontravam-se os dois indivíduos — o hipno e o telepata — que haviam assassinado Ralph Sikeron e que já haviam tentado por várias vezes eliminar o próprio Fellmer Lloyd.
Lloyd pôs a mão no bolso e tirou um instrumento muito pequeno. Sem dizer uma palavra entregou-o a Kuri Oneré. A outra mão apontou para o restaurante onde vários milhares de seres das mais diversas raças comiam ou bebiam alguma coisa enquanto esperavam a partida de suas naves.
É aí que você vai esperar, Kuri. A única coisa que terá a fazer é prestar atenção ao meu chamado. Ainda não sei qual será a mensagem que transmitirei. Leve isto também.
Subitamente seus olhos piscaram. Recuou instintivamente, colocando-se junto à pista.
Com um gesto hesitante, pegou a arma térmica.
E isto, para qualquer eventualidade, Kuri...
Apenas seus olhos sorriam. Revelava mais um segredo, embora no fundo não lhe transmitisse nenhuma novidade. A moça não perguntou se o porte de arma passaria pelo crivo de uma verificação arcônida, caso tivesse de apresentá-lo para provar a legitimidade da posse da arma térmica. Sabia que a licença, emitida em nome de Kuri Oneré, era válida segundo os padrões arcônidas.
Guardou ambas as coisas. O estojo com o rádio já estava escondido junto ao seu corpo.
Se eu não voltar, Kuri... Posteriormente um amigo meu, ou vários amigos, virão a Volat, à minha procura. Você não deixará de reconhecê-los. Quando isso acontecer, diga-lhes o seguinte: “Três toques de sino e a sombra do Supercrânio.” Kuri, você é uma pessoa formidável!
Foi a primeira vez que viu lágrimas nos olhos de uma pessoa pertencente à raça dos mercadores galácticos.
Lançou um olhar pensativo atrás da moça. Viu-a correr através da via expressa, aproveitando uma folga no tráfego, e entrar no restaurante, onde os garçãos robotizados corriam incessantemente de um lado para outro, a fim de servir a alguns milhares de viajantes.
O-Oftftu-O acompanhara tudo sem dizer uma palavra e “ouvira” a palestra através das emanações telepáticas de Lloyd. Suas antenas tremiam de excitação. Subitamente Fellmer Lloyd “ouviu” o habitante primitivo de Volat perguntar:
Quem é você?
O agente cósmico respondeu sem ênfase, falando de coração:
Sou um homem vindo de uma estrela desconhecida, que apenas deseja que os homens de todos os mundos possam viver em paz.
Nem um homem do planeta Terra, nem um arcônida ou um saltador se contentaria com essa resposta. Mas o volatense não formulou outras perguntas. Apenas disse:
Quero comunicar-lhe que a mãe onisciente reza por sua felicidade.
Lloyd tinha passado pela escola de Rhodan, que durante decênios lutara pelo sistema solar. E mesmo com o coração endurecido, não pôde evitar que a emoção tomasse conta de sua alma.

* * *

Além de Fellmer Lloyd, mais vinte homens participavam da operação contra o edifício comercial dos saltadores, situado na via expressa.
O agente dividiu seus homens em três grupos.
O saltador Ghal dirigiu o primeiro desses grupos, e Zintx o segundo. Cinco elementos foram mantidos de reserva por Fellmer Lloyd.
No espaçoporto estava pousada a Dure V, uma nave cilíndrica em cujos gigantescos compartimentos de carga estavam sendo colocados 43.600 couros de gech.
Há poucos minutos Dure-an, comandante dos saltadores, saíra do edifício comercial, com pensamentos nada amistosos. Proferia pragas contra seu agente ganancioso, que não só intermediara a carga que estava recebendo, mas ainda fez com que o comandante, depois de várias horas de discussão, lhe prometesse quinze por cento do produto da venda.
O saltador Dure-an lembrou-se do escritório luxuoso de seu agente. Colocou-se contra todos os saltadores que se haviam fixado no solo, atribuindo-lhes o qualificativo de demônios gananciosos. Naquele instante, Fellmer Lloyd retirou o controle mental do mercador e saiu à procura do agente e de seu escritório.
Pelas indicações de Dure-an, devia ficar no 46o andar.
Mal Lloyd passou a concentrar-se neste ponto, uma série de modelos de vibrações cerebrais passou por ele. Um desses lhe pareceu familiar. Voltou a fixar-se nele.
Naquele momento, teve a impressão de que o planeta Volat iria estourar. O modelo de vibrações cerebrais lhe permitira reconhecer a pessoa.
Encontrara um ser humano; não se tratava de um arcônida ou de um mercador galáctico.
O hipno era um homem do planeta Terra.
Tratava-se de Gregor Tropnow, um dos homens de Perry Rhodan!
Tropnow não percebeu a força que se apoderava de seus pensamentos. Estava empenhado em atar o agente dos mercadores galácticos ainda mais firmemente à sua pessoa, a fim de transformá-lo num instrumento passivo de seus desígnios. A mente de Gregor Tropnow era dominada pelo ódio e pela ganância.
Fellmer Lloyd, que se encontrava 46 pavimentos abaixo dele, diante do imenso edifício dos saltadores, sentiu-se congelado até a medula dos ossos.
O ódio do mutante dirigia-se contra Perry Rhodan.
Lloyd interrompeu a operação mental. Antes de mais nada, teria que dirigir um fato monstruoso. A ameaça de descoberta do planeta Terra era causada por um ser nascido em sua superfície.
Supercrânio... — gemeu no tom de pessoa que acorda de um pesadelo, e enxugou o suor da testa.
Gregor Tropnow era um hipno pertencente ao grupo do finado Supercrânio. Depois da derrota deste, colocou-se à disposição de Perry Rhodan e da Terceira Potência. Apesar das inúmeras operações de que participou como membro do Exército de Mutantes, sempre continuou a ser um elemento sem autodomínio e indigno de qualquer confiança, que não sabia controlar suas próprias forças.
E agora Tropnow se encontrava em Volat! Assassinara Sikeron, juntamente com o outro. Quem seria o outro?
Enquanto os colaboradores de Fellmer Lloyd se espantavam pela falta de instruções, este quebrou a cabeça para descobrir quem poderia ser o outro. Rememorava os detalhes da descrição que lhe fora fornecida pelo ser do mundo de Haspro.
Ninguém viu que suas mãos se fechavam, transformando-se em punhos.
O sócio de Gregor Tropnow, o telepata, acabara de descobri-lo e procurou identificar seus pensamentos. Mas, num tremendo esforço mental, Fellmer conseguiu erigir uma barreira que protegia seus pensamentos. Naquele instante, sentiu a mão do volatense pousada em seu ombro. A energia mental deste fluiu para sua pessoa. Sua resistência cresceu, e logo chegou ao ponto em que pôde desenvolver sua força telepática. Reconheceu Nomo Yatuhin!
O fato de que o segundo traidor também era um ser humano já não poderia abalá-lo. A primeira coisa a fazer seria disfarçar a pista que Nomo Yatuhin acabara de descobrir.
Será que conseguiria repetir a façanha de colocar uma barreira diante dos seus pensamentos? Será que o volatense lhe daria novas forças? Tratava-se de um fenômeno que Lloyd nunca conseguiria explicar ou interpretar.
Lloyd tentou, mas logo suspendeu a operação dirigida contra o edifício de escritórios.
Reconheceu instantaneamente que uma ação desencadeada nesse momento significaria a morte para ele e para seus colaboradores. Antes, teve de constatar as dimensões imensas da organização criada por Tropnow e Yatuhin e conseguiu conhecer-lhe os objetivos.
Ainda bem que Gregor Tropnow, no 46o andar do edifício, estava muito ocupado com o tratamento hipnótico do agente, e havia dado ordem para que, em hipótese alguma, fosse incomodado.
Dali a duas horas, quando Nomo Yatuhin, que tremia por todo o corpo, conseguiu falar com Tropnow, e lhe relatou os dois contatos ligeiros que conseguira estabelecer com Fellmer Lloyd, e que mais uma vez não haviam resultado em nada, o mutante hipno soltou uma praga horrível.
9



Na manhã do dia seguinte, Gregor Tropnow não se sentiu preocupado por ter Fellmer Lloyd aparecido de novo.
Deitado na poltrona em atitude indolente, lançava um olhar presunçoso para o japonês Nomo Yatuhin, que andava de um lado para o outro. Apesar do caráter rebelde, Yatuhin era um tipo bastante instável, que gostava de obedecer e precisava ser mandado, desde que o sócio correspondesse à sua mentalidade.
Gregor Tropnow era um sócio que combinava com ele. Odiava Perry Rhodan pelo mesmo motivo. Os dois deixaram de ser levados a Peregrino, o planeta da vida eterna, onde poderiam receber a ducha celular, que suspendia qualquer tipo de envelhecimento por um prazo ligeiramente superior a seis decênios.
O hipno Tropnow tinha 88 anos, e Yatuhin tinha um ano mais que ele, mas nenhum dos dois aparentava essa idade, e nem se sentiam velhos. Certos medicamentos biológicos, que já faziam parte da farmacologia terrana, haviam realizado esse milagre de conservação da juventude, porém não conseguiam eliminar o processo lento de envelhecimento no interior dos organismos. Já com a ducha celular, que só poderia ser aplicada pelo Ser habitante do planeta Peregrino, nem mesmo o mais leve fenômeno de envelhecimento se verificava dentro de seu prazo de validade. Um belo dia, os preparados desenvolvidos pela medicina terrana falhariam uma vez que as células envelhecidas deixariam de reagir aos mesmos.
Gregor Tropnow espreguiçou-se na poltrona e disse:
Yatuhin, sente. Com essa mania de andar de um lado para outro, você deixará desconfiado até mesmo um saltador imbecil. É preferível que faça um esforço e procure localizar Lloyd. É muito mais duro na queda que Sikeron. Aposto que já nos farejou e...
Yatuhin lançou um olhar de pavor para o hipno. Um sorriso malévolo aflorou aos lábios de Tropnow.
Por duas vezes, Lloyd conseguiu escapar, graças a você. Nomo... — subitamente inclinou-se para a frente e passou a falar aos cochichos: — Obrigarei Rhodan a conceder-me a ducha celular, senão seu Império Solar será destruído. Mas só as estrelas poderão dizer se você também receberá a ducha celular. Parece que você está se acovardando. O que fará quando Rhodan estiver em nosso poder?
Por enquanto nem conseguimos pôr a mão em Fellmer Lloyd — disse o japonês em sua defesa, e com isso trouxe Tropnow de volta do reino dos castelos das nuvens para o chão da realidade.
A observação não impressionou o hipno.
Eu o agarrarei, e quando isso acontecer... Você não me vai dar cabo de Lloyd, conforme fez com Sikeron. Yatuhin, será que ainda não compreendeu que só poderemos contar com a cooperação dos saltadores por um tempo bastante limitado? Um belo dia, os mercadores galácticos não mais se darão por satisfeitos com simples promessas. Farão questão de saber onde fica o planeta cheio de tesouros. O que acontecerá quando tivermos jogado fora o melhor trunfo que podemos lançar contra Rhodan? Será que você não sabe pensar...
Nomo Yatuhin era um telepata. Embora fosse um rebelde muito covarde, não era tolo como Gregor queria fazer crer. Sua voz fria interrompeu a fala do sócio:
Tropnow, pare de brincar com a idéia de deixar-me de lado e trazer Fellmer Lloyd para seu lado. Sabe perfeitamente que poderei desferir alguns golpes contra você.
Maldito espia de pensamentos! — resmungou Gregor Tropnow entre assustado e divertido. — De tanta discussão quase nos esquecemos que o rebento mais jovem de Aser Uxlad deverá aparecer daqui a pouco. Tirr devia dar mais um pouco de atenção a Kuri Oneré.
Para isso, seria bom que o convencesse a parar com as gracinhas que costuma dizer a tudo quanto é moça — disse Yatuhin com uma energia, surpreendente. — Se você tivesse levado isso em consideração, durante o primeiro “tratamento”, não teríamos fracassado com Kuri Oneré, e ela seria hoje a melhor chamariz para pegarmos Fellmer Lloyd.
O hipno fez um gesto de recusa. Estava refletindo sobre outra coisa. Falando a meia voz, disse:
Deixe Lloyd por minha conta, Nomo. Apenas quero que descubra o que significam na Terra as palavras três toques de sino. Preciso saber disso antes de dar início à próxima fase de operações.

* * *

Daqui em diante conseguirei; basta querer — disse Fellmer Lloyd, dirigindo-se a Kuri Oneré.
Seus olhos brilhavam. Virou-se lentamente e fez um gesto de agradecimento em direção a O-Oftftu-O. Devia agradecer a esse habitante primitivo do planeta de Volat por ter encontrado o caminho, e por ter adquirido a capacidade de proteger seu cérebro contra qualquer interferência estranha.
Na última noite, com auxílio do volatense, conseguira duas vezes. De cada uma das duas vezes, O-Oftftu-O colocara sua mão de inseto sobre o ombro de Fellmer, e uma energia invisível fluiu para o interior de sua personalidade.
Nas últimas três horas, Lloyd se esforçara para conseguir com suas próprias energias, e agora já tinha certeza absoluta de que era capaz.
Só se o hipno conseguir alcançar-me — disse.
A maneira de sacudir a cabeça esclarecia o resto.
Por isso, Kuri Oneré estava sentada à sua frente, com o projetor hipnótico na mão, pronta para disparar a arma assim que o rosto de Lloyd se contorcesse.
O saltador Zintx chegou pelo meio-dia. Estava preocupado, mas de outro lado começava a considerar como sua a missão do prebonense.
Começou a falar exaltadamente:
O que vi no edifício de escritórios é realmente inacreditável! No elevador, encontrei-me com Tirr Uxlad. É o filho mais jovem de Aser Uxlad, aquele que, segundo dizem, não suporta as viagens de nave. Quem quiser que acredite nisso! Falo sobre Tirr, porque estou perplexo em vê-lo nesse lugar, quando devia estar no edifício Uxlad, na Praça Thator. Tirr nem reagiu às minhas palavras! Fiz meia-volta, alcancei-o no hall e voltei a falar com ele. Sabem o que aconteceu? Não me reconheceu, e dali em diante eu o segui.
Zintx prosseguiu no seu relato, fornecendo detalhes importantes e secundários. Seguira Tirr Uxlad até o campo de pouso do espaçoporto, entrou atrás dele na Re IX e, sem que ninguém tentasse impedi-lo, conseguiu chegar à sala de comando, cuja escotilha estava aberta. Preferiu não ir mais longe, porque no Grande Império havia uma lei segundo a qual nenhuma pessoa estranha devia entrar na sala de comando de uma nave sem estar devidamente autorizada.
O relato de Zintx havia chegado a esse ponto, quando um pressentimento terrível surgiu na mente de Lloyd. Enquanto este fez um esforço sobre-humano para controlar-se, recorreu à sua capacidade telepática para investigar os pensamentos de Zintx.
O saltador não compreendia o que estava dizendo. As coordenadas que repetia correspondiam a um ponto qualquer na Galáxia. Nem poderia saber que a posição por elas designada correspondia ao setor da Via Láctea onde ficava o sistema solar.
...depois disso as coordenadas e os dados para o salto foram introduzidos na memória do computador, prebonense. com isso, a visita de Tirr Uxlad à Re IX chegou ao fim. Dei o fora antes que ele saísse da sala de comando. Os oficiais que se encontravam presentes deviam considerar normal a atuação de Tirr, pois nenhum deles formulou perguntas a este respeito.
Fellmer Lloyd deixou que Zintx prosseguisse na sua fala, mas não lhe deu atenção.
Defrontava-se com um problema dificílimo: devia chamar a Lotus pelo hiper-rádio, para informá-la sobre a descoberta que acabara de fazer, ou seria preferível agir por conta própria?
Não conseguiu chegar a qualquer decisão. Mas, quanto mais refletia, mais se afastava da idéia de enviar uma mensagem de hiper-rádio à Lotus. Até mesmo uma emissão concentrada envolvia o risco de ser captada pelas estações arcônidas de vigilância, e com isso a busca da Gazela seria reiniciada. Conforme o caso, poderia colocar em perigo a própria Lotus, que seria obrigada a bater em retirada.
Quando Zintx já se encontrava a caminho, a fim de fazer a visita planejada ao edifício comercial dos saltadores, Lloyd compreendeu o que devia fazer.

* * *

Nomo Yatuhin, um japonês que era um telepata de caráter instável, suspendeu o estado de concentração em que se encontrava.
Não estava mais em condições de localizar Fellmer Lloyd. Durante a busca telepática sentia que o agente de Rhodan se achava nas proximidades, mas sempre que pretendia atingir seus pensamentos, sua ação se perdia no vazio. Por algumas vezes, percebeu mesmo que sua força telepática era desviada quando atingia o alvo.
Gregor Tropnow, que perseguia obstinadamente o objetivo de um dia exercer chantagem contra Perry Rhodan a fim de obrigá-lo a conceder-lhe a ducha celular, lançou um olhar furioso para seu comparsa.
O japonês vinha falhando por horas a fio. Mas o hipno, que até pouco tempo atrás, embora a contragosto, se achava a serviço de Rhodan, sabia que o fracasso não era devido exclusivamente à incompetência de Yatuhin. Só encontrava uma explicação: Lloyd devia ter descoberto um meio natural ou artificial de proteger sua mente contra qualquer tipo de interferência telepática. Afinal, por ocasião de seu último ataque a Lloyd, ele mesmo não conseguira atingir o objetivo. Enquanto Lloyd fugia na nave policial roubada, conseguiu atingir sua mente, mas logo perdeu-a, pois o tiro da arma hipnótica, disparado por Kuri Oneré, colocara a vítima num estado de letargia.
Subitamente, percebeu o gesto de alarma de Nomo Yatuhin. O telepata lia os pensamentos de alguém. Em seu rosto, havia uma expressão de espanto, que logo foi substituída pelo susto e pelo pavor.
O hipno não se atrevia a perturbar seu sócio. Muito ansioso, observava as alterações no rosto de Yatuhin.
Estão no edifício! — cochichou Nomo. — Um saltador, seu nome é Zintx, está falando com Killi. Formula perguntas a respeito de Tirr Uxlad e afirma tê-lo visto aqui. E agora está indagando se Jidif esteve por aqui nos últimos dias. Enquanto pergunta, pensa: “Ainda descobrirei as manhas de vocês. E não demorarei em saber o que andaram fazendo com Tirr Uxlad.” Vejam! O idiota do Killi está dizendo a verdade. Informou que Jidif caiu de um táxi aéreo e morreu.
No mesmo instante em que Nomo Yatuhin fez a indicação do local, permitindo que Tropnow descobrisse onde e com quem se encontrava Zintx, um saltador que servia de espia, ele o assumiu e, recorrendo às suas faculdades hipnóticas, impôs-lhe sua vontade.
Enquanto Zintx ainda falava com o funcionário Killi, um poder estranho subjugou sua mente, e isso de forma tão suave e eficiente que Zintx continuava a acreditar que estivesse agindo por sua livre vontade. Nem lhe passou pela cabeça a idéia de se ter transformado no escravo de um hipno.
Ainda bem que o senhor compreende — respondeu Killi em tom bonachão, acreditando que a modificação observada em Zintx apenas fosse uma alteração normal de sua opinião — que não lhe posso dizer mais nada, porque nada sei.
Zintx interrompeu-o com um gesto cordial. A essa hora não passava de um instrumento de Gregor Tropnow.
Vou subir alguns andares, Killi. Eles estão no edifício?
Eles quem?
Os chefes — respondeu Zintx com um sorriso ligeiro. — Saberei encontrar o caminho sozinho. Até logo mais.
Saiu da sala de Killi, que o seguiu com os olhos, perplexo.
Será que Zintx é um dos nossos?”, perguntou a si mesmo. “Engraçado! Por que a conduta desse saltador foi tão agressiva de início?
Gregor Tropnow fez um gesto para seu sócio, o telepata japonês. Parecia pensativo.
Zintx, um dos dezenove colaboradores de Fellmer Lloyd, saiu do escritório situado no 46o andar, a fim de encontrar-se com Lloyd, na residência de O-Oftftu-O. A porta fechou-se devagar atrás dele.
E agora, Nomo? — com esta pergunta o hipno obrigou seu comparsa a pronunciar-se sobre a situação.
Encarregue-se de Lloyd — pediu Yatuhin.
Você nunca vai tomar jeito — respondeu Tropnow em tom contrariado. — Ouviu perfeitamente a ordem que dei a Zintx no momento em que saiu deste escritório. Viu que lhe dei um radiador térmico bem bonitinho. Com esta arma “apagará” Lloyd. E sem o homem de Rhodan, o grupo não valerá mais nada. Se apesar de tudo Fellmer continuar a nos incomodar, darei uma dica à Administração.
Ria e esfregava as mãos.
Não vai prevenir a Re IX? — perguntou Nomo Yatuhin muito surpreso. — Devemos preveni-la, Gregor... Se alguma coisa não der certo, e Zintx não eliminar o agente de Rhodan... Por que não procura impor sua vontade a Fellmer Lloyd? — o nervosismo de Yatuhin refletia-se nas frases inacabadas. I
A Re IX não será prevenida! — esbravejou Gregor. — Será que você precisa mesmo de uma explicação detalhada de cada passo que vamos dar, Nomo? Se eu prevenir a Re IX, Re-gans e seus oficiais se lembrarão das coordenadas e dos dados relativos ao salto, que foram introduzidos no computador por intermédio de Tirr Uxlad. Nesse caso, correremos o risco de que Re-gans possa descobrir o segredo da localização da Terra. E por falar na Terra, você ainda me deve uma resposta. Como é que Jidif ficou sabendo que você e eu somos terranos? Como é que ficou sabendo que Fellmer Lloyd não é nenhum prebonense, mas também é um terrano? A qual dos membros da gananciosa raça dos saltadores, além de Jidif, você dedicou sua perigosíssima confiança?
Procurando proteger-se diante do olhar implacável de Gregor Tropnow, Yatuhin tentou atingir a mente do mesmo. Naquele momento, o hipno estava disposto a transformar seu comparsa numa criatura passiva, que se guiaria exclusivamente pelas ordens que lhe fossem sugestionadas.
Então? — disse Gregor em tom ameaçador, aproximando-se de Nomo.
Este respondeu conforme a verdade:
Só contei a Jidif, naquela noite em que todo mundo estava bêbedo — subitamente uma suspeita surgiu em sua mente. — Jidif caiu do táxi aéreo por causa dos balanços que o mesmo estava dando?
Não foi atirado para fora por causa do balanço — confessou o hipno em tom frio. — Jidif “saiu” espontaneamente.
Disse estas palavras com um sorriso hipócrita, revelando que o mercador galáctico Jidif fora vitimado pelas suas forças hipnóticas.
Com a mesma tranqüilidade que Jidif demonstrou ao descer do táxi aéreo a mais de dois mil metros de altura, Zintx daqui a pouco apontará a arma térmica para Lloyd e puxará o gatilho.
Gregor era um homem que gostava de atingir os objetivos a que se propunha, custasse o que custasse. Com a energia de sempre, conseguia arrebatar o japonês. Nomo era um elemento rebelde, mas seu maior erro consistia na facilidade com que se deixava influenciar. Por isso, o hipno conseguiu dele tudo o que queria, e não teve a menor dificuldade em convencê-lo a abandonar o Exército de Mutantes de Rhodan. Saíram às escondidas de Gefir, um dos planetas do Grande Império situado a 3.759 anos-luz da Terra, a fim de montar sua organização secreta no seio de um poderoso clã dos saltadores.
Uma tarefa que, em condições normais, representaria um problema dificílimo transformou-se num empreendimento simples, graças à energia hipnótica de Tropnow. Uma vez que, além do mais, o traidor fornecia aos saltadores indicações precisas sobre um mundo desconhecido e altamente industrializado, fazendo-as acompanhar da proposta tentadora de, num ataque concentrado, apoderar-se de riquezas incalculáveis.
Era bem verdade que nem Gregor Tropnow nem Nomo Yatuhin pretendiam entregar a Terra aos saltadores. Toda a operação visava a um objetivo bem definido: obrigar Rhodan a proporcionar-lhes a ducha celular que prolongaria suas vidas. Não queriam compreender que essa ducha lhes fora recusada porque não souberam dominar os defeitos graves de seu caráter.
O telepata voltou a concentrar-se. Reencontrara Zintx e lia seus pensamentos, que se achavam sob a influência da sugestão. Além disso, seguia o caminho do saltador.
Acaba de chegar ao edifício em que reside o volatense — informou em tom de cochicho. —Agora está subindo pelo elevador antigravitacional. Acaba de entrar no apartamento. O volatense abriu a porta. Zintx está vendo Fellmer Lloyd...
Naquele instante, um mercador galáctico, um sujeito ainda jovem e um verdadeiro gigante, entrou precipitadamente na sala em que se encontravam os dois traidores e arrancou o telepata do seu estado de concentração.
Fora! — berrou o hipno.
O homem, que se sentiu insultado sem motivo, foi dominado pela raiva. Proferiu a resposta em tom violento e aos gritos:
Lá embaixo, na recepção, elementos estranhos já colocaram fora de ação cinco dos nossos homens!
Com estas palavras o jovem retirou-se, batendo a porta.
Os dois mutantes rebeldes não eram grandes estrategistas. Seus atos obedeciam à inspiração do momento.
Gregor Tropnow praguejou e saiu apressadamente.

* * *

Fellmer assumiu o risco de fazer aquilo que Tropnow, o hipno, julgara impossível: atingiu a mente de Tropnow.
Aguardava o regresso de Zintx. Sabia que este possuía uma arma térmica, e que recebera ordens para matá-lo.
Zintx não conseguiu passar de O-Oftftu-O.
O volatense derrubou-o com a mão de inseto. O saltador caiu ao chão. O golpe do volatense devia ter sido desferido com uma força tremenda. Mal o mercador galáctico tocou o chão, O-Oftftu-O retirou o radiador térmico de seu bolso e amarrou-lhe as mãos.
Dali a alguns minutos Lloyd, Kuri e o volatense saíram da residência deste último. Retiraram-se dessa base de operações, uma vez que os dois mutantes traidores conheciam sua posição.
Zintx ficou para trás, amarrado e ainda inconsciente.
Enquanto desciam pelo elevador antigravitacional, Fellmer Lloyd elaborou seu plano de batalha.
A manobra desviacionista, iniciada há poucos minutos por um grupo de seis homens no edifício de escritórios dos saltadores, ainda estava em pleno andamento. Com a exatidão de um minuto, seus colaboradores entraram em ação com um entusiasmo impetuoso. Lloyd dera instruções expressas aos homens para que, em hipótese alguma, usassem radiadores térmicos ou desferissem golpes mortais com as coronhas das armas. Lloyd ainda esperava poder desmantelar a organização secreta montada pelos dois mutantes sem derramar sangue.
E a ação desencadeada por ele mesmo também seria levada a cabo sem derramamento de sangue.
Estava transmitindo as últimas instruções a Kuri Oneré e O-Oftftu-O. Deveriam esperar seu regresso à frente do grande edifício do espaçoporto. E não deveriam contar com esse regresso antes de decorrida uma hora.
Pretendia mandar para os ares o computador de bordo da nave Re IX. E isso, à plena luz do dia!
Kuri lançou-lhe um olhar de desespero e de súplica. Fellmer Lloyd não deu a menor atenção aos seus pedidos. O volatense seguiu-os discretamente. Parecia não ter nada a ver com a moça e o homem que caminhavam à sua frente. Até então nenhum arcônida ou mercador galáctico havia visto um volatense em contato com um ser pertencente a uma raça estranha. A reserva dos nativos de Volat era proverbial.
Preferiram não recorrer a qualquer meio de transporte. A distância entre o edifício de apartamentos e o espaçoporto não era grande.
Não há um meio de evitar isso? — perguntou Kuri, arriscando uma última tentativa desesperançada.
Não, não posso evitar, da mesma maneira que não pude evitar o sacrifício do grupo de seis homens, Kuri. Dentro de trinta minutos, no máximo, todos terão sido subjugados. Até lá preciso executar a parte principal da minha tarefa, pois então surgirá o momento em que os dois chefes terão tempo de pensar. Esperem aqui...
Não chegou a dizer o resto. Despediu-se de Kuri Oneré com um gesto amável e lançou um olhar discreto para o volatense.
A mãe onisciente reza por você! — foi o pensamento de O-Oftftu-O que captou.
Lloyd acomodou-se tranqüilamente num veículo de alta velocidade, que estabelecia a ligação entre o edifício central do espaçoporto e as naves estacionadas em locais afastados. Indicou o destino ao dispositivo fono-automático.
Nave Re IX.
Quase imperceptivelmente, o veículo positrônico pôs-se em movimento, contornou alguns outros, desviou-se de algumas inteligências estranhas, atingiu o gigantesco campo de pouso. A seguir, disparou na direção do lugar em que estava estacionada a nave cilíndrica do clã dos Re-gans, a Re IX.
Fellmer Lloyd sabia perfeitamente que a ação que ordenara a si mesmo deveria ser designada pelo nome “comando suicida”.
X



A RE IX tinha trezentos metros de comprimento e seu formato era cilíndrico. Tratava-se de uma nave muito bem conservada. Estava estacionada atrás de duas naves esféricas de Árcon, e era flanqueada por vários cargueiros especiais.
Ao chegar perto das naves de Árcon, Fellmer mandou que o veículo parasse. Ao ver que a porta continuava fechada, impedindo-o de sair, compreendeu que faltava pagar a viagem. Enfiou uma moeda no autômato, aguardou o troco e saiu.
As duas naves esféricas arcônidas estavam apoiadas em gigantescas colunas telescópicas. Entre as mesmas, viam-se as rampas de cargas e, nas enormes escotilhas das comportas, os robôs dos arcônidas.
Se não fossem os robôs o império mundial dos arcônidas já se teria esfacelado e se não fosse o computador gigante instalado em Árcon, o Império hoje seria um pomo de discórdia entre os mercadores galácticos e os médicos aras.
Enquanto passava pelas naves, o agente cósmico pensou nisso, não em sua missão.
Não se dirigiu diretamente para a Re IX. Uma pequena nave auxiliar estacionada entre os dois veículos espaciais despertava seu interesse. Passou junto à escotilha, que parecia convidá-lo a entrar, olhou discretamente para seu interior e sorriu satisfeito.
Tratava-se de uma nave superveloz, capaz de atingir a aceleração de 5G, equipada com um potente mecanismo propulsor.
Subitamente Lloyd mudou de direção, como se percebesse que caminhara para o lado errado. A caminho da rampa de carga da Re IX, encontrou-se com três arcônidas e dois saltadores que não se interessaram por sua pessoa.
Olhando por entre as naves, viu o edifício do espaçoporto, que ficava a dez quilômetros. Três naves auxiliares rápidas, vindas dessa direção, aproximavam-se vertiginosamente. Fellmer estava certo de que seus colaboradores se encontravam nas mesmas. Um olhar para o relógio certificou-o de que o comando composto de dez homens estava ocupando suas posições com uma pontualidade absoluta.
O carro em que viajava Ulmin com mais dois homens parou logo atrás dele. Tratava-se de um acontecimento corriqueiro no lugar em que estavam estacionadas as naves.
Lloyd transmitiu mais algumas ordens precisas através de Ulmin. Enquanto Fellmer Lloyd falava, os olhos do mercador galáctico se arregalavam cada vez mais. Depois de algum tempo, irrompeu:
Quer que apenas lhe demos cobertura? Contra quem? Já pensou no que acontecerá se o senhor tiver de enfrentar metade da tripulação da Re IX e...?
Fellmer Lloyd interrompeu-o com um gesto ligeiro. O mutante não apreciava as falas prolongadas ou os gestos grandiosos.
Nos sessenta minutos que se seguirão o senhor e seus companheiros terão muito que fazer. Estejam prevenidos não apenas contra os saltadores vindos do edifício de escritórios. É possível que entre eles haja dois elementos que parecem prebonenses. Procure descobri-los e, quando isso acontecer, submeta-os imediatamente ao bombardeio hipnótico. São os mais perigosos. Preste atenção ao comportamento da tripulação das duas espaçonaves que estão aqui, Ulmin. Não se preocupe com o pessoal da Re IX. A tripulação está de licença na cidade. Há apenas oito pessoas a bordo.
Por todas as estrelas do Armamento — interrompeu-o Ulmin. — Como foi que o senhor soube, prebonense? Sabe ler pensamentos ou coisa que o valha?
Apenas sei calcular a provável ação do inimigo, Ulmin. Será que isso é um milagre?
Depois de ter sido blefado com essa pergunta lacônica, o saltador não soube mais o que dizer. Retirou-se em atitude pensativa.
Todos se sentiam em casa no porto espacial de Kuklon. Por isso, Fellmer Lloyd conseguiu chegar à Re IX sem que ninguém procurasse impedi-lo. Subiu lentamente a rampa que saía do terço posterior da nave, passou pela ampla comporta de carga e viu-se no convés central do veículo espacial de trezentos metros.
Num controle um tanto apressado, constatara a presença de apenas oito membros da tripulação. Teria uma surpresa nada agradável ao descobrir que na verdade eram dez.
O largo corredor central, a principal via de tráfego no interior da espaçonave cilíndrica, estendia-se diante dele, completamente vazio. Concentrando-se ao máximo, usou sua capacidade telepática para tatear todos os recintos.
Ativou seu senso de localização. Vinha quase que espontaneamente, mas no momento o resultado era nulo.
Subitamente, captou alguns pensamentos e, ao mesmo tempo, um modelo de vibrações cerebrais. Um saltador que, segundo a escalação de serviço, devia permanecer a bordo da Re IX, enquanto seus amigos se divertiam no bairro de diversões de Kuklon, praguejava porque o tempo custava a passar. E, naquele momento, o mercador resolveu ir à sala de comando e encurtar a espera num jogo com dois colegas.
Sem apressar-se, Lloyd tirou o projetor hipnótico do bolso. E passou a caminhar mais rápido. Queria chegar à porta juntamente com o saltador que estava saindo do camarote.
Acertou no cálculo, com uma diferença de dois passos.
A porta abriu-se sem o menor ruído e, sem o menor ruído, Lloyd disparou a arma hipnótica, imprimindo-lhe a concentração máxima. O saltador, que nem sequer desconfiava de se encontrar sob influência estranha, recebeu ordem para dirigir-se à sala de comando e levar seus colegas a se entreterem num jogo de azar.
O jovem saltador nem estremeceu. Achou muito natural que o desconhecido caminhasse a seu lado, em direção à sala de comando.
Lloyd procurou calcular suas chances.
Naquele momento, oito tripulantes montavam guarda na Re IX. Três deles eram oficiais, que se encontravam nos camarotes. Descontando a vítima de sua ação hipnótica, e os dois elementos da sala de comando, que dentro de poucos minutos também seriam submetidos ao mesmo tratamento e passariam a agir segundo suas ordens, restariam apenas dois mercadores galácticos aos quais deveria dedicar sua atenção.
O sentido de localização forneceu-lhe os modelos das vibrações cerebrais dos dois homens que se achavam na sala de comando. Procurou captar seus pensamentos. Conversavam a respeito de mulheres e estavam confortavelmente sentados junto ao aparelho de hipercomunicação.
Prossiga e faça com que seus companheiros joguem circir com você! — foi a ordem que irradiou à vítima de sua ação hipnótica. Deixou que o saltador seguisse à sua frente.
A escotilha da sala de comando, que estava aberta, ficava a dez passos.
Depois que o homem hipnotizado desapareceu na sala de comando, o agente cósmico seguiu-o sorrateiramente. Já estava vendo a poltrona do piloto e do co-piloto quando captou a mensagem do sentido de localização.
Dois metros atrás do lugar em que se encontrava, alguma coisa saiu de um camarote. Fellmer Lloyd nem chegou a assustar-se. O modelo deformado de vibrações cerebrais disse-lhe tratar-se de um robô. Apesar disso, a mão dentro do bolso mudou de arma. A coronha do radiador térmico era ligeiramente chanfrada, motivo por que não havia a menor possibilidade de engano.
Ouviu atrás de si o ruído típico dos passos de um homem-máquina. O andar metálico aproximou-se. O robô passou à sua frente.
Será que foi programado para a vigilância? — perguntou o agente cósmico sussurrando.
Tinha a impressão de que havia algo de errado. Sabia por experiência própria que a programação de um robô de construção arcônida é facílima de mudar.
Ao passar por ele, o robô virou a cabeça na qual estava abrigado o cérebro positrônico. O olhar frio da lente brilhante mediu Fellmer Lloyd.
O robô prosseguiu na sua caminhada...
Fellmer Lloyd não o seguiu. Acompanhou a máquina com os olhos e viu-a entrar na sala de comando. O olhar da lente despertara seu instinto, e o mutante confiava nele tanto quanto nas suas capacidades supersensoriais.
Será que o robô desencadeou o alarma?
De qualquer maneira, o alarma não teria chegado à sala de comando. Os dois saltadores que estavam de sentinela, acolheram entusiasticamente a proposta de jogar circir.
Lloyd perscrutou os pensamentos dos três oficiais.
Nenhum perigo o ameaçava daquele lado.
O próximo controle foi dirigido ao saltador na sala de rádio. Estava cochilando.
O oitavo dos homens a bordo achava-se na sala de força, onde examinava o funcionamento do campo de compensação magnética. Era a única pessoa a trabalhar.
Mais uma vez, o controle realizado por Fellmer Lloyd foi muito apressado. Deixou de constatar a presença de dois mercadores galácticos.
Olhou para o relógio. Dispunha de pouco menos de dez minutos. Se até lá não estivesse em condições de mandar para os ares o computador positrônico da Re IX, as perspectivas de sua retirada do interior da espaçonave cilíndrica não seriam nada animadoras.
Voltou a olhar para o relógio. Nove minutos!
Naquele instante, o mutante concebeu outro plano. Contrariando todas as regras que lhe foram incutidas no curso do treinamento rhodaniano, jogaria todas as chances numa só cartada.
O computador positrônico da Re IX não poderia deixar de ser destruído, pois do contrário a existência da Terra logo se tornaria conhecida no Grande Império. Lloyd preferiu nem pensar nas conseqüências que resultariam desse fato.

* * *

Tropnow, o hipno, estava transformado num feixe de emanações gélidas. A raiva e o furor pareciam dominá-lo. Nomo Yatuhin apavorou-se diante das idéias violentas do comparsa e procurou escapar ao mesmo.
O gigantesco edifício que abrigava os escritórios dos saltadores estava transformado numa casa de marimbondos. Para os mercadores galácticos que não pertenciam à organização secreta montada pelos dois mutantes, aquele ataque era incompreensível. No edifício não poderiam ser encontradas coisas de real valor. Já os saltadores, fisgados pelos dois traidores com a promessa de que encontrariam tesouros gigantescos num mundo desconhecido, tinham a impressão de conhecerem o motivo da operação.
Gregor Tropnow e Nomo Yatuhin enxergavam mais longe que os saltadores.
Levaram nada menos que quarenta e três minutos para liquidar o grupo de Fellmer Lloyd. Durante esse tempo, os dois não tiveram oportunidade para pensar, pois no gigantesco edifício, a agitação ainda ia alto e, até a polícia de Árcon foi notificada. Mas logo que a situação tornou-se menos tumultuada, os ex-mutantes começaram a agir mentalmente.
Nunca se chegaria a saber por que o alarma não foi dado logo no início do ataque ao edifício. Gregor Tropnow, o hipno, mantinha um silêncio total. Queria evitar que a perigosíssima polícia arcônida metesse o nariz em sua organização. As brutais ordens de matar, transmitidas por via hipnótica, fizeram com que nenhum dos seis homens que participaram do comando de ataque permanecesse vivo.
Nem ele nem Yatuhin haviam participado fisicamente da luta. Apesar disso, Tropnow era um assassino, pois fizera uso abusivo das suas forças hipnóticas. Os mercadores galácticos, recriminando-se por terem atirado com radiadores térmicos, estavam trêmulos, enquanto aguardavam a chegada da polícia.
Os traidores começaram a agir.
Graças ao seu dom telepático, Nomo conseguiu localizar o saltador Zintx, que se encontrava inconsciente na residência do volatense. Concluiu que Fellmer Lloyd devia ter frustrado seu plano assassino.
Não consigo pegar Lloyd — respondeu Yatuhin diante da insistência de Tropnow.
Corriam em direção ao carro de alta velocidade.
Não estavam sós. Um grupo de trinta combatentes os seguia.
Procure encontrar os homens de Lloyd — chiou Gregor para seu sócio. — Ande depressa, senão não sei... — hesitou. Uma terrível suspeita nasceu em sua mente. — Reviste os arredores da Re IX, Nomo.
Numa fração de segundo, o telepata localizou o mercador galáctico Ulmin. No mesmo instante, os dois traidores atingiram o carro. Ninguém notou a ligeira hesitação. Yatuhin cochichou ao ouvido de Tropnow, que estava com o rosto cinzento, o que acabara de ler nos pensamentos de Ulmin.
Gregor Tropnow, que crescera sob a orientação criminosa do Supercrânio e posteriormente se passou para as fileiras de Perry Rhodan, mostrou que realmente era uma sombra do Supercrânio.
Com a maior frieza, transmitiu outra ordem hipnótica aos seus combatentes. Local da ação: a nave Re IX. Armamento: radiadores térmicos.
O ataque do grupo de seis pessoas contra o edifício dos saltadores fora iniciado há cinqüenta e oito minutos. Levariam sete minutos para chegar ao lugar em que estava pousada a Re IX. Seriam sessenta e cinco minutos ao todo.
E os cálculos de Fellmer Lloyd previam para a ação apenas cinqüenta e cinco minutos!

* * *

Kuri Oneré viu sete veículos de alta velocidade que saíram da área de estacionamento dos saltadores em direção ao porto espacial.
Procurou entrar em contato com Fellmer Lloyd por meio do radiofone guardado num estojo.
Não conseguiu estabelecer comunicação com Lloyd. Não hesitou. Escolheu a faixa de Ulmin. O saltador respondeu imediatamente. Ouviu-o fungar nervosamente, enquanto comunicava o que havia observado.
Está bem — foi a resposta.
Para Kuri a espera infindável começou de novo.

* * *

O robô derretido estava jogado na sala de comando.
O ar achava-se impregnado de vapores metálicos malcheirosos.
Vamos à arma térmica!”, não havia como retirar o revestimento protetor. Por isso resolveu fundi-lo.
Que diabo! — danificara a articulação central.
Não poderia realizar o trabalho sem a mesma.
Os agentes de Perry Rhodan haviam recebido um treinamento ininterrupto de mais de meio século. Não eram especialistas. Eram os maiores sabe-tudo. Conheciam o computador positrônico de uma espaçonave dos saltadores tão bem como o de um veículo espacial dos arcônidas.
Dispensou a articulação central na sua ligação em curto-circuito. A mesma poderia ser realizada por outra forma.
O sentido de localização transmitiu-lhe uma mensagem. Qualquer localização envolvia um perigo. Dois oficiais da Re IX corriam pelo convés central, em direção à sala de comando. A fumaça, saindo em densas nuvens, fê-los correr ainda mais depressa.
O agente cósmico de Rhodan sentiu-se muito feliz com a fumaça, pois não poderia desejar melhor proteção. Envolto em densas nuvens, colocou-se na escotilha aberta e disparou os raios hipnóticos de sua arma contra os oficiais.
Abandonem a nave. Cada um de vocês procurará uma nave arcônida diferente. Tranqüilizem os arcônidas. Não permitam que intervenham nos acontecimentos.
Voltou a colocar-se na frente do computador positrônico. Se tivesse uma bomba, não haveria o menor problema. Mas a energia de sua arma manual não seria suficiente para fundir o gigantesco computador.
Fase jut ao setor de armazenamento V-Zt; do outro lado, ligar jut com fias.”
Lloyd pensava na língua dos arcônidas. Trabalhava como se fosse um especialista desse povo. Faltava a ligação com o condutor principal.
Virou-se instantaneamente. A escotilha já não estava envolta em nuvens de fumaça. Captou modelos deformados de ondas cerebrais e modelos claros. Eram saltadores e robôs que corriam em direção à sala de comando.
Três máquinas de guerra e três membros da tripulação!
Com o maior sangue-frio, Fellmer Lloyd resolveu arriscar a vida.
Ainda dispunha de dez segundos até que a primeira máquina chegasse à sala de comando. Dentro desse tempo, teria de conectar o conduto principal à sua ligação em curto-circuito.
A tecnologia arcônida não conhecia as ligações por fios. O sistema de blocos era muito mais simples.
Mais dois movimentos de mão!
Atrás dele, soaram os passos dos robôs que procediam pelo convés central.
Esteve a ponto de pôr a mão na chave mestra, a fim de retirar a energia contida nos depósitos da popa, quando um raio azul o fez recuar.
Fellmer Lloyd não ouviu seu grito. Os resíduos atávicos do mutante vieram à superfície. O cérebro positrônico do primeiro robô fundiu-se no raio térmico disparado pela arma manual.
Ele, o humano, fora mais rápido que a máquina!
Ligar a chave mestra! Passar a arma térmica da mão direita para a esquerda. Segurar o projetor hipnótico na direita. A esquerda deverá manipular o radiador térmico destinado aos robôs.”
O terceiro homem-máquina caiu por cima do camarada atirado ao solo.
Sem a menor comoção, Fellmer Lloyd deixou que o radiador térmico continuasse a funcionar. E a arma hipnótica também continuou a disparar seu raio.
Abandonem a nave e... — foi a ordem que conseguiu transmitir aos três saltadores. Depois o inferno irrompeu em torno dele, impedindo-o de pensar claramente.
A sala de comando da Re IX media quinze metros por dez.
E de quinze metros por dez foi o tamanho do inferno que desabou.
A energia, que seria necessária para fazer a Re IX disparar pelo espaço, descarregava-se no computador de bordo. O precioso mecanismo transformou-se numa massa de metais derretidos.
Temperaturas de milhares de graus procuraram atingir o arrojado mutante. Este mesmo não soube como conseguiu escapar ao chicotear das cargas em curto-circuito. Com um enorme salto, transpôs o montão de matéria incandescente que se achava bem à frente da escotilha. Os três robôs haviam sido reduzidos a uma massa disforme.
A trinta metros do lugar em que se encontrava, três saltadores submetidos à coação hipnótica corriam desesperadamente para fora da nave. Lloyd não foi menos rápido que eles.
A nave foi sacudida por um baque surdo, que se originara na sala de comando. Lloyd olhou instintivamente para trás e sentiu o temor instalar-se em sua mente.
A ponta da nave estava derretendo.
Com isso, todo o espaçoporto seria colocado em estado de alarma.
Voltou a disparar a arma hipnótica. Um saltador, que se assustara com o solavanco da nave, saiu do setor dos propulsores. Encontrava-se no corredor central.
Lloyd com a arma hipnótica, enquanto ele mesmo descia pela rampa de carga.
Não acreditou no que seus olhos viam.
Quem teria atirado as bombas de neblina?
O mar de névoa agitava-se e deslocava-se lentamente em direção à Re IX.
Procurou atingir Ulmin por meio de seu dom telepático.
Ulmin não existia mais.
Passando ao lado da Re IX, Fellmer correu em direção à pequena nave auxiliar, cuja escotilha continuava aberta. Tentou constantemente entrar em contato com seus combatentes.
Com um enorme susto, captou o último pensamento de um saltador moribundo.
Já passara pela popa da Re IX e não tinha tempo para virar a cabeça. Viu a pequena nave auxiliar com o propulsor superpotente desaparecer em meio à neblina. No mesmo instante, sentiu-se atingido por um tremendo golpe.
Paralisia!”, martelava sua mente.
A paralisia iniciada manifestava-se por meio de um forte tremor. Sentiu o rosto transformar-se em máscara e percebeu que a energia de seus músculos diminuía.
Paralisia; mas preciso! — disse a si mesmo num desespero feroz.
O tiro, disparado por uma arma desconhecida, viera do interior da Re IX. Localização; os modelos de vibrações cerebrais: eram dois saltadores. Logo viu-se envolvido pela neblina.
Fellmer Lloyd chocou-se contra uma parede. A nave auxiliar! Reunindo as últimas forças, enfiou-se na mesma e caiu no assento. Quando se esforçou para fechar a escotilha, soltou um gemido. Os músculos recusavam-se a obedecer.
A paralisia tornava-se cada vez mais intensa.
Vamos embora, para a Gazela!
Voando às cegas, levou a nave neblina adentro.
Fugir! Fugir!
Contorceu-se. Mal conseguia mover os lábios.
Esta não! Esta não!”, pensou em desespero, enquanto a nave corria rumo à selva de Volat, em direção ao lugar em que estava escondida a Gazela.

* * *

Jim Markus, comandante da nave Lotus, que pairava imóvel no espaço a dez anos-luz de Volat, estremeceu quando o decifrador reproduziu o texto da mensagem condensada chegada há dez segundos.
Três toques de sino! Os mutantes Yatuhin e Tropnow são traidores. Estão traindo Rhodan porque não receberam a ducha celular. Fellmer Lloyd.
Os oficiais fitaram Jim Markus. Seu rosto era pálido como cera, e os olhos muito arregalados brilhavam num pavor incontido.

* * *

Dois volatenses caminhavam pela selva, à procura da mãe onisciente. Vinham da periferia da mata. Caminhavam dia e noite. Ao que parecia, não conheciam o cansaço.
Iam em silêncio. Suas antenas não se moviam. Não tinham nada a falar um com o outro. Mas sentiam pena do homem que choramingava nas suas costas. Era Fellmer Lloyd. O corpo, submetido a um estado extremo de paralisia, estava reduzido a uma ruína. Mas o espírito continuava vivaz como sempre. Apesar do tremor que o martirizava, não pensava apenas em si. Naquele instante, formulou uma pergunta telepática, dirigida às duas criaturas que o haviam salvo:
Como souberam que Kuri Oneré também está a caminho do lugar em que se encontra a mãe onisciente?
Mais uma vez, ouviu a mesma resposta:
Nós sabemos, Fellmer Lloyd, nós sabemos.
Era a terceira vez que lhe davam a mesma resposta; por isso preferiu não perguntar mais.

* * *

Em Os Mortos Vivem, título da próxima aventura de Perry Rhodan, um fato inacreditável acontece...

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