Essas
idéias passaram pela cabeça de Lloyd quando mandou que o veículo
parasse e desceu em companhia de Kuri e do volatense O-Oftftu-O.
A cem
metros dali, a luz colorida que envolvia a fachada do edifício de
escritórios dos saltadores lutava para romper as trevas da noite
volatense.
Nesse
edifício, encontravam-se os dois indivíduos — o hipno e o
telepata — que haviam assassinado Ralph Sikeron e que já haviam
tentado por várias vezes eliminar o próprio Fellmer Lloyd.
Lloyd pôs
a mão no bolso e tirou um instrumento muito pequeno. Sem dizer uma
palavra entregou-o a Kuri Oneré. A outra mão apontou para o
restaurante onde vários milhares de seres das mais diversas raças
comiam ou bebiam alguma coisa enquanto esperavam a partida de suas
naves.
— É aí
que você vai esperar, Kuri. A única coisa que terá a fazer é
prestar atenção ao meu chamado. Ainda não sei qual será a
mensagem que transmitirei. Leve isto também.
Subitamente
seus olhos piscaram. Recuou instintivamente, colocando-se junto à
pista.
Com um
gesto hesitante, pegou a arma térmica.
— E
isto, para qualquer eventualidade, Kuri...
Apenas
seus olhos sorriam. Revelava mais um segredo, embora no fundo não
lhe transmitisse nenhuma novidade. A moça não perguntou se o porte
de arma passaria pelo crivo de uma verificação arcônida, caso
tivesse de apresentá-lo para provar a legitimidade da posse da arma
térmica. Sabia que a licença, emitida em nome de Kuri Oneré, era
válida segundo os padrões arcônidas.
Guardou
ambas as coisas. O estojo com o rádio já estava escondido junto ao
seu corpo.
— Se eu
não voltar, Kuri... Posteriormente um amigo meu, ou vários amigos,
virão a Volat, à minha procura. Você não deixará de
reconhecê-los. Quando isso acontecer, diga-lhes o seguinte: “Três
toques de sino e a sombra do Supercrânio.”
Kuri, você é uma pessoa formidável!
Foi a
primeira vez que viu lágrimas nos olhos de uma pessoa pertencente à
raça dos mercadores galácticos.
Lançou um
olhar pensativo atrás da moça. Viu-a correr através da via
expressa, aproveitando uma folga no tráfego, e entrar no
restaurante, onde os garçãos robotizados corriam incessantemente de
um lado para outro, a fim de servir a alguns milhares de viajantes.
O-Oftftu-O
acompanhara tudo sem dizer uma palavra e “ouvira”
a palestra através das emanações telepáticas de Lloyd. Suas
antenas tremiam de excitação. Subitamente Fellmer Lloyd “ouviu”
o habitante primitivo de Volat perguntar:
— Quem
é você?
O agente
cósmico respondeu sem ênfase, falando de coração:
— Sou um
homem vindo de uma estrela desconhecida, que apenas deseja que os
homens de todos os mundos possam viver em paz.
Nem um
homem do planeta Terra, nem um arcônida ou um saltador se
contentaria com essa resposta. Mas o volatense não formulou outras
perguntas. Apenas disse:
— Quero
comunicar-lhe que a mãe onisciente reza por sua felicidade.
Lloyd
tinha passado pela escola de Rhodan, que durante decênios lutara
pelo sistema solar. E mesmo com o coração endurecido, não pôde
evitar que a emoção tomasse conta de sua alma.
*
* *
Além de
Fellmer Lloyd, mais vinte homens participavam da operação contra o
edifício comercial dos saltadores, situado na via expressa.
O agente
dividiu seus homens em três grupos.
O saltador
Ghal dirigiu o primeiro desses grupos, e Zintx o segundo. Cinco
elementos foram mantidos de reserva por Fellmer Lloyd.
No
espaçoporto estava pousada a Dure V, uma nave cilíndrica em cujos
gigantescos compartimentos de carga estavam sendo colocados 43.600
couros de gech.
Há poucos
minutos Dure-an, comandante dos saltadores, saíra do edifício
comercial, com pensamentos nada amistosos. Proferia pragas contra seu
agente ganancioso, que não só intermediara a carga que estava
recebendo, mas ainda fez com que o comandante, depois de várias
horas de discussão, lhe prometesse quinze por cento do produto da
venda.
O saltador
Dure-an lembrou-se do escritório luxuoso de seu agente. Colocou-se
contra todos os saltadores que se haviam fixado no solo,
atribuindo-lhes o qualificativo de demônios gananciosos. Naquele
instante, Fellmer Lloyd retirou o controle mental do mercador e saiu
à procura do agente e de seu escritório.
Pelas
indicações de Dure-an, devia ficar no 46o
andar.
Mal Lloyd
passou a concentrar-se neste ponto, uma série de modelos de
vibrações cerebrais passou por ele. Um desses lhe pareceu familiar.
Voltou a fixar-se nele.
Naquele
momento, teve a impressão de que o planeta Volat iria estourar. O
modelo de vibrações cerebrais lhe permitira reconhecer a pessoa.
Encontrara
um ser humano; não se tratava de um arcônida ou de um mercador
galáctico.
O hipno
era um homem do planeta Terra.
Tratava-se
de Gregor Tropnow, um dos homens de Perry Rhodan!
Tropnow
não percebeu a força que se apoderava de seus pensamentos. Estava
empenhado em atar o agente dos mercadores galácticos ainda mais
firmemente à sua pessoa, a fim de transformá-lo num instrumento
passivo de seus desígnios. A mente de Gregor Tropnow era dominada
pelo ódio e pela ganância.
Fellmer
Lloyd, que se encontrava 46 pavimentos abaixo dele, diante do imenso
edifício dos saltadores, sentiu-se congelado até a medula dos
ossos.
O ódio do
mutante dirigia-se contra Perry Rhodan.
Lloyd
interrompeu a operação mental. Antes de mais nada, teria que
dirigir um fato monstruoso. A ameaça de descoberta do planeta Terra
era causada por um ser nascido em sua superfície.
— Supercrânio...
— gemeu no tom de pessoa que acorda de um pesadelo, e enxugou o
suor da testa.
Gregor
Tropnow era um hipno pertencente ao grupo do finado Supercrânio.
Depois da derrota deste, colocou-se à disposição de Perry Rhodan e
da Terceira Potência. Apesar das inúmeras operações de que
participou como membro do Exército de Mutantes, sempre continuou a
ser um elemento sem autodomínio e indigno de qualquer confiança,
que não sabia controlar suas próprias forças.
E agora
Tropnow se encontrava em Volat! Assassinara Sikeron, juntamente com o
outro. Quem seria o outro?
Enquanto
os colaboradores de Fellmer Lloyd se espantavam pela falta de
instruções, este quebrou a cabeça para descobrir quem poderia ser
o outro. Rememorava os detalhes da descrição que lhe fora fornecida
pelo ser do mundo de Haspro.
Ninguém
viu que suas mãos se fechavam, transformando-se em punhos.
O sócio
de Gregor Tropnow, o telepata, acabara de descobri-lo e procurou
identificar seus pensamentos. Mas, num tremendo esforço mental,
Fellmer conseguiu erigir uma barreira que protegia seus pensamentos.
Naquele instante, sentiu a mão do volatense pousada em seu ombro. A
energia mental deste fluiu para sua pessoa. Sua resistência cresceu,
e logo chegou ao ponto em que pôde desenvolver sua força
telepática. Reconheceu Nomo Yatuhin!
O fato de
que o segundo traidor também era um ser humano já não poderia
abalá-lo. A primeira coisa a fazer seria disfarçar a pista que Nomo
Yatuhin acabara de descobrir.
Será que
conseguiria repetir a façanha de colocar uma barreira diante dos
seus pensamentos? Será que o volatense lhe daria novas forças?
Tratava-se de um fenômeno que Lloyd nunca conseguiria explicar ou
interpretar.
Lloyd
tentou, mas logo suspendeu a operação dirigida contra o edifício
de escritórios.
Reconheceu
instantaneamente que uma ação desencadeada nesse momento
significaria a morte para ele e para seus colaboradores. Antes, teve
de constatar as dimensões imensas da organização criada por
Tropnow e Yatuhin e conseguiu conhecer-lhe os objetivos.
Ainda bem
que Gregor Tropnow, no 46o
andar do edifício, estava muito ocupado com o tratamento hipnótico
do agente, e havia dado ordem para que, em hipótese alguma, fosse
incomodado.
Dali a
duas horas, quando Nomo Yatuhin, que tremia por todo o corpo,
conseguiu falar com Tropnow, e lhe relatou os dois contatos ligeiros
que conseguira estabelecer com Fellmer Lloyd, e que mais uma vez não
haviam resultado em nada, o mutante hipno soltou uma praga horrível.
9
Na manhã
do dia seguinte, Gregor Tropnow não se sentiu preocupado por ter
Fellmer Lloyd aparecido de novo.
Deitado na
poltrona em atitude indolente, lançava um olhar presunçoso para o
japonês Nomo Yatuhin, que andava de um lado para o outro. Apesar do
caráter rebelde, Yatuhin era um tipo bastante instável, que gostava
de obedecer e precisava ser mandado, desde que o sócio
correspondesse à sua mentalidade.
Gregor
Tropnow era um sócio que combinava com ele. Odiava Perry Rhodan pelo
mesmo motivo. Os dois deixaram de ser levados a Peregrino, o planeta
da vida eterna, onde poderiam receber a ducha celular, que suspendia
qualquer tipo de envelhecimento por um prazo ligeiramente superior a
seis decênios.
O hipno
Tropnow tinha 88 anos, e Yatuhin tinha um ano mais que ele, mas
nenhum dos dois aparentava essa idade, e nem se sentiam velhos.
Certos medicamentos biológicos, que já faziam parte da farmacologia
terrana, haviam realizado esse milagre de conservação da juventude,
porém não conseguiam eliminar o processo lento de envelhecimento no
interior dos organismos. Já com a ducha celular, que só poderia ser
aplicada pelo Ser habitante do planeta Peregrino, nem mesmo o mais
leve fenômeno de envelhecimento se verificava dentro de seu prazo de
validade. Um belo dia, os preparados desenvolvidos pela medicina
terrana falhariam uma vez que as células envelhecidas deixariam de
reagir aos mesmos.
Gregor
Tropnow espreguiçou-se na poltrona e disse:
— Yatuhin,
sente. Com essa mania de andar de um lado para outro, você deixará
desconfiado até mesmo um saltador imbecil. É preferível que faça
um esforço e procure localizar Lloyd. É muito mais duro na queda
que Sikeron. Aposto que já nos farejou e...
Yatuhin
lançou um olhar de pavor para o hipno. Um sorriso malévolo aflorou
aos lábios de Tropnow.
— Por
duas vezes, Lloyd conseguiu escapar, graças a você. Nomo... —
subitamente inclinou-se para a frente e passou a falar aos cochichos:
— Obrigarei Rhodan a conceder-me a ducha celular, senão seu
Império Solar será destruído. Mas só as estrelas poderão dizer
se você também receberá a ducha celular. Parece que você está se
acovardando. O que fará quando Rhodan estiver em nosso poder?
— Por
enquanto nem conseguimos pôr a mão em Fellmer Lloyd — disse o
japonês em sua defesa, e com isso trouxe Tropnow de volta do reino
dos castelos das nuvens para o chão da realidade.
A
observação não impressionou o hipno.
— Eu o
agarrarei, e quando isso acontecer... Você não me vai dar cabo de
Lloyd, conforme fez com Sikeron. Yatuhin, será que ainda não
compreendeu que só poderemos contar com a cooperação dos
saltadores por um tempo bastante limitado? Um belo dia, os mercadores
galácticos não mais se darão por satisfeitos com simples
promessas. Farão questão de saber onde fica o planeta cheio de
tesouros. O que acontecerá quando tivermos jogado fora o melhor
trunfo que podemos lançar contra Rhodan? Será que você não sabe
pensar...
Nomo
Yatuhin era um telepata. Embora fosse um rebelde muito covarde, não
era tolo como Gregor queria fazer crer. Sua voz fria interrompeu a
fala do sócio:
— Tropnow,
pare de brincar com a idéia de deixar-me de lado e trazer Fellmer
Lloyd para seu lado. Sabe perfeitamente que poderei desferir alguns
golpes contra você.
— Maldito
espia de pensamentos! — resmungou Gregor Tropnow entre assustado e
divertido. — De tanta discussão quase nos esquecemos que o rebento
mais jovem de Aser Uxlad deverá aparecer daqui a pouco. Tirr devia
dar mais um pouco de atenção a Kuri Oneré.
— Para
isso, seria bom que o convencesse a parar com as gracinhas que
costuma dizer a tudo quanto é moça — disse Yatuhin com uma
energia, surpreendente. — Se você tivesse levado isso em
consideração, durante o primeiro “tratamento”,
não teríamos fracassado com Kuri Oneré, e ela seria hoje a melhor
chamariz para pegarmos Fellmer Lloyd.
O hipno
fez um gesto de recusa. Estava refletindo sobre outra coisa. Falando
a meia voz, disse:
— Deixe
Lloyd por minha conta, Nomo. Apenas quero que descubra o que
significam na Terra as palavras três toques de sino. Preciso saber
disso antes de dar início à próxima fase de operações.
*
* *
— Daqui
em diante conseguirei; basta querer — disse Fellmer Lloyd,
dirigindo-se a Kuri Oneré.
Seus olhos
brilhavam. Virou-se lentamente e fez um gesto de agradecimento em
direção a O-Oftftu-O. Devia agradecer a esse habitante primitivo do
planeta de Volat por ter encontrado o caminho, e por ter adquirido a
capacidade de proteger seu cérebro contra qualquer interferência
estranha.
Na última
noite, com auxílio do volatense, conseguira duas vezes. De cada uma
das duas vezes, O-Oftftu-O colocara sua mão de inseto sobre o ombro
de Fellmer, e uma energia invisível fluiu para o interior de sua
personalidade.
Nas
últimas três horas, Lloyd se esforçara para conseguir com suas
próprias energias, e agora já tinha certeza absoluta de que era
capaz.
— Só se
o hipno conseguir alcançar-me — disse.
A maneira
de sacudir a cabeça esclarecia o resto.
Por isso,
Kuri Oneré estava sentada à sua frente, com o projetor hipnótico
na mão, pronta para disparar a arma assim que o rosto de Lloyd se
contorcesse.
O saltador
Zintx chegou pelo meio-dia. Estava preocupado, mas de outro lado
começava a considerar como sua a missão do prebonense.
Começou a
falar exaltadamente:
— O que
vi no edifício de escritórios é realmente inacreditável! No
elevador, encontrei-me com Tirr Uxlad. É o filho mais jovem de Aser
Uxlad, aquele que, segundo dizem, não suporta as viagens de nave.
Quem quiser que acredite nisso! Falo sobre Tirr, porque estou
perplexo em vê-lo nesse lugar, quando devia estar no edifício
Uxlad, na Praça Thator. Tirr nem reagiu às minhas palavras! Fiz
meia-volta, alcancei-o no hall e voltei a falar com ele. Sabem o que
aconteceu? Não me reconheceu, e dali em diante eu o segui.
Zintx
prosseguiu no seu relato, fornecendo detalhes importantes e
secundários. Seguira Tirr Uxlad até o campo de pouso do
espaçoporto, entrou atrás dele na Re IX e, sem que ninguém
tentasse impedi-lo, conseguiu chegar à sala de comando, cuja
escotilha estava aberta. Preferiu não ir mais longe, porque no
Grande Império havia uma lei segundo a qual nenhuma pessoa estranha
devia entrar na sala de comando de uma nave sem estar devidamente
autorizada.
O relato
de Zintx havia chegado a esse ponto, quando um pressentimento
terrível surgiu na mente de Lloyd. Enquanto este fez um esforço
sobre-humano para controlar-se, recorreu à sua capacidade telepática
para investigar os pensamentos de Zintx.
O saltador
não compreendia o que estava dizendo. As coordenadas que repetia
correspondiam a um ponto qualquer na Galáxia. Nem poderia saber que
a posição por elas designada correspondia ao setor da Via Láctea
onde ficava o sistema solar.
— ...depois
disso as coordenadas e os dados para o salto foram introduzidos na
memória do computador, prebonense. com isso, a visita de Tirr Uxlad
à Re IX chegou ao fim. Dei o fora antes que ele saísse da sala de
comando. Os oficiais que se encontravam presentes deviam considerar
normal a atuação de Tirr, pois nenhum deles formulou perguntas a
este respeito.
Fellmer
Lloyd deixou que Zintx prosseguisse na sua fala, mas não lhe deu
atenção.
Defrontava-se
com um problema dificílimo: devia chamar a Lotus pelo hiper-rádio,
para informá-la sobre a descoberta que acabara de fazer, ou seria
preferível agir por conta própria?
Não
conseguiu chegar a qualquer decisão. Mas, quanto mais refletia, mais
se afastava da idéia de enviar uma mensagem de hiper-rádio à
Lotus. Até mesmo uma emissão concentrada envolvia o risco de ser
captada pelas estações arcônidas de vigilância, e com isso a
busca da Gazela seria reiniciada. Conforme o caso, poderia colocar em
perigo a própria Lotus, que seria obrigada a bater em retirada.
Quando
Zintx já se encontrava a caminho, a fim de fazer a visita planejada
ao edifício comercial dos saltadores, Lloyd compreendeu o que devia
fazer.
*
* *
Nomo
Yatuhin, um japonês que era um telepata de caráter instável,
suspendeu o estado de concentração em que se encontrava.
Não
estava mais em condições de localizar Fellmer Lloyd. Durante a
busca telepática sentia que o agente de Rhodan se achava nas
proximidades, mas sempre que pretendia atingir seus pensamentos, sua
ação se perdia no vazio. Por algumas vezes, percebeu mesmo que sua
força telepática era desviada quando atingia o alvo.
Gregor
Tropnow, que perseguia obstinadamente o objetivo de um dia exercer
chantagem contra Perry Rhodan a fim de obrigá-lo a conceder-lhe a
ducha celular, lançou um olhar furioso para seu comparsa.
O japonês
vinha falhando por horas a fio. Mas o hipno, que até pouco tempo
atrás, embora a contragosto, se achava a serviço de Rhodan, sabia
que o fracasso não era devido exclusivamente à incompetência de
Yatuhin. Só encontrava uma explicação: Lloyd devia ter descoberto
um meio natural ou artificial de proteger sua mente contra qualquer
tipo de interferência telepática. Afinal, por ocasião de seu
último ataque a Lloyd, ele mesmo não conseguira atingir o objetivo.
Enquanto Lloyd fugia na nave policial roubada, conseguiu atingir sua
mente, mas logo perdeu-a, pois o tiro da arma hipnótica, disparado
por Kuri Oneré, colocara a vítima num estado de letargia.
Subitamente,
percebeu o gesto de alarma de Nomo Yatuhin. O telepata lia os
pensamentos de alguém. Em seu rosto, havia uma expressão de
espanto, que logo foi substituída pelo susto e pelo pavor.
O hipno
não se atrevia a perturbar seu sócio. Muito ansioso, observava as
alterações no rosto de Yatuhin.
— Estão
no edifício! — cochichou Nomo. — Um saltador, seu nome é Zintx,
está falando com Killi. Formula perguntas a respeito de Tirr Uxlad e
afirma tê-lo visto aqui. E agora está indagando se Jidif esteve por
aqui nos últimos dias. Enquanto pergunta, pensa: “Ainda
descobrirei as manhas de vocês. E não demorarei em saber o que
andaram fazendo com Tirr Uxlad.”
Vejam! O idiota do Killi está dizendo a verdade. Informou que Jidif
caiu de um táxi aéreo e morreu.
No mesmo
instante em que Nomo Yatuhin fez a indicação do local, permitindo
que Tropnow descobrisse onde e com quem se encontrava Zintx, um
saltador que servia de espia, ele o assumiu e, recorrendo às suas
faculdades hipnóticas, impôs-lhe sua vontade.
Enquanto
Zintx ainda falava com o funcionário Killi, um poder estranho
subjugou sua mente, e isso de forma tão suave e eficiente que Zintx
continuava a acreditar que estivesse agindo por sua livre vontade.
Nem lhe passou pela cabeça a idéia de se ter transformado no
escravo de um hipno.
— Ainda
bem que o senhor compreende — respondeu Killi em tom bonachão,
acreditando que a modificação observada em Zintx apenas fosse uma
alteração normal de sua opinião — que não lhe posso dizer mais
nada, porque nada sei.
Zintx
interrompeu-o com um gesto cordial. A essa hora não passava de um
instrumento de Gregor Tropnow.
— Vou
subir alguns andares, Killi. Eles estão no edifício?
— Eles
quem?
— Os
chefes — respondeu Zintx com um sorriso ligeiro. — Saberei
encontrar o caminho sozinho. Até logo mais.
Saiu da
sala de Killi, que o seguiu com os olhos, perplexo.
“Será
que Zintx é um dos nossos?”,
perguntou a si mesmo. “Engraçado!
Por que a conduta desse saltador foi tão agressiva de início?”
Gregor
Tropnow fez um gesto para seu sócio, o telepata japonês. Parecia
pensativo.
Zintx, um
dos dezenove colaboradores de Fellmer Lloyd, saiu do escritório
situado no 46o
andar, a fim de encontrar-se com Lloyd, na residência de O-Oftftu-O.
A porta fechou-se devagar atrás dele.
— E
agora, Nomo? — com esta pergunta o hipno obrigou seu comparsa a
pronunciar-se sobre a situação.
— Encarregue-se
de Lloyd — pediu Yatuhin.
— Você
nunca vai tomar jeito — respondeu Tropnow em tom contrariado. —
Ouviu perfeitamente a ordem que dei a Zintx no momento em que saiu
deste escritório. Viu que lhe dei um radiador térmico bem
bonitinho. Com esta arma “apagará”
Lloyd. E sem o homem de Rhodan, o grupo não valerá mais nada. Se
apesar de tudo Fellmer continuar a nos incomodar, darei uma dica à
Administração.
Ria e
esfregava as mãos.
— Não
vai prevenir a Re IX? — perguntou Nomo Yatuhin muito surpreso. —
Devemos preveni-la, Gregor... Se alguma coisa não der certo, e Zintx
não eliminar o agente de Rhodan... Por que não procura impor sua
vontade a Fellmer Lloyd? — o nervosismo de Yatuhin refletia-se nas
frases inacabadas. I
— A Re
IX não será prevenida! — esbravejou Gregor. — Será que você
precisa mesmo de uma explicação detalhada de cada passo que vamos
dar, Nomo? Se eu prevenir a Re IX, Re-gans e seus oficiais se
lembrarão das coordenadas e dos dados relativos ao salto, que foram
introduzidos no computador por intermédio de Tirr Uxlad. Nesse caso,
correremos o risco de que Re-gans possa descobrir o segredo da
localização da Terra. E por falar na Terra, você ainda me deve uma
resposta. Como é que Jidif ficou sabendo que você e eu somos
terranos? Como é que ficou sabendo que Fellmer Lloyd não é nenhum
prebonense, mas também é um terrano? A qual dos membros da
gananciosa raça dos saltadores, além de Jidif, você dedicou sua
perigosíssima confiança?
Procurando
proteger-se diante do olhar implacável de Gregor Tropnow, Yatuhin
tentou atingir a mente do mesmo. Naquele momento, o hipno estava
disposto a transformar seu comparsa numa criatura passiva, que se
guiaria exclusivamente pelas ordens que lhe fossem sugestionadas.
— Então?
— disse Gregor em tom ameaçador, aproximando-se de Nomo.
Este
respondeu conforme a verdade:
— Só
contei a Jidif, naquela noite em que todo mundo estava bêbedo —
subitamente uma suspeita surgiu em sua mente. — Jidif caiu do táxi
aéreo por causa dos balanços que o mesmo estava dando?
— Não
foi atirado para fora por causa do balanço — confessou o hipno em
tom frio. — Jidif “saiu”
espontaneamente.
Disse
estas palavras com um sorriso hipócrita, revelando que o mercador
galáctico Jidif fora vitimado pelas suas forças hipnóticas.
— Com a
mesma tranqüilidade que Jidif demonstrou ao descer do táxi aéreo a
mais de dois mil metros de altura, Zintx daqui a pouco apontará a
arma térmica para Lloyd e puxará o gatilho.
Gregor era
um homem que gostava de atingir os objetivos a que se propunha,
custasse o que custasse. Com a energia de sempre, conseguia arrebatar
o japonês. Nomo era um elemento rebelde, mas seu maior erro
consistia na facilidade com que se deixava influenciar. Por isso, o
hipno conseguiu dele tudo o que queria, e não teve a menor
dificuldade em convencê-lo a abandonar o Exército de Mutantes de
Rhodan. Saíram às escondidas de Gefir, um dos planetas do Grande
Império situado a 3.759 anos-luz da Terra, a fim de montar sua
organização secreta no seio de um poderoso clã dos saltadores.
Uma tarefa
que, em condições normais, representaria um problema dificílimo
transformou-se num empreendimento simples, graças à energia
hipnótica de Tropnow. Uma vez que, além do mais, o traidor fornecia
aos saltadores indicações precisas sobre um mundo desconhecido e
altamente industrializado, fazendo-as acompanhar da proposta
tentadora de, num ataque concentrado, apoderar-se de riquezas
incalculáveis.
Era bem
verdade que nem Gregor Tropnow nem Nomo Yatuhin pretendiam entregar a
Terra aos saltadores. Toda a operação visava a um objetivo bem
definido: obrigar Rhodan a proporcionar-lhes a ducha celular que
prolongaria suas vidas. Não queriam compreender que essa ducha lhes
fora recusada porque não souberam dominar os defeitos graves de seu
caráter.
O telepata
voltou a concentrar-se. Reencontrara Zintx e lia seus pensamentos,
que se achavam sob a influência da sugestão. Além disso, seguia o
caminho do saltador.
— Acaba
de chegar ao edifício em que reside o volatense — informou em tom
de cochicho. —Agora está subindo pelo elevador antigravitacional.
Acaba de entrar no apartamento. O volatense abriu a porta. Zintx está
vendo Fellmer Lloyd...
Naquele
instante, um mercador galáctico, um sujeito ainda jovem e um
verdadeiro gigante, entrou precipitadamente na sala em que se
encontravam os dois traidores e arrancou o telepata do seu estado de
concentração.
— Fora!
— berrou o hipno.
O homem,
que se sentiu insultado sem motivo, foi dominado pela raiva. Proferiu
a resposta em tom violento e aos gritos:
— Lá
embaixo, na recepção, elementos estranhos já colocaram fora de
ação cinco dos nossos homens!
Com estas
palavras o jovem retirou-se, batendo a porta.
Os dois
mutantes rebeldes não eram grandes estrategistas. Seus atos
obedeciam à inspiração do momento.
Gregor
Tropnow praguejou e saiu apressadamente.
*
* *
Fellmer
assumiu o risco de fazer aquilo que Tropnow, o hipno, julgara
impossível: atingiu a mente de Tropnow.
Aguardava
o regresso de Zintx. Sabia que este possuía uma arma térmica, e que
recebera ordens para matá-lo.
Zintx não
conseguiu passar de O-Oftftu-O.
O
volatense derrubou-o com a mão de inseto. O saltador caiu ao chão.
O golpe do volatense devia ter sido desferido com uma força
tremenda. Mal o mercador galáctico tocou o chão, O-Oftftu-O retirou
o radiador térmico de seu bolso e amarrou-lhe as mãos.
Dali a
alguns minutos Lloyd, Kuri e o volatense saíram da residência deste
último. Retiraram-se dessa base de operações, uma vez que os dois
mutantes traidores conheciam sua posição.
Zintx
ficou para trás, amarrado e ainda inconsciente.
Enquanto
desciam pelo elevador antigravitacional, Fellmer Lloyd elaborou seu
plano de batalha.
A manobra
desviacionista, iniciada há poucos minutos por um grupo de seis
homens no edifício de escritórios dos saltadores, ainda estava em
pleno andamento. Com a exatidão de um minuto, seus colaboradores
entraram em ação com um entusiasmo impetuoso. Lloyd dera instruções
expressas aos homens para que, em hipótese alguma, usassem
radiadores térmicos ou desferissem golpes mortais com as coronhas
das armas. Lloyd ainda esperava poder desmantelar a organização
secreta montada pelos dois mutantes sem derramar sangue.
E a ação
desencadeada por ele mesmo também seria levada a cabo sem
derramamento de sangue.
Estava
transmitindo as últimas instruções a Kuri Oneré e O-Oftftu-O.
Deveriam esperar seu regresso à frente do grande edifício do
espaçoporto. E não deveriam contar com esse regresso antes de
decorrida uma hora.
Pretendia
mandar para os ares o computador de bordo da nave Re IX. E isso, à
plena luz do dia!
Kuri
lançou-lhe um olhar de desespero e de súplica. Fellmer Lloyd não
deu a menor atenção aos seus pedidos. O volatense seguiu-os
discretamente. Parecia não ter nada a ver com a moça e o homem que
caminhavam à sua frente. Até então nenhum arcônida ou mercador
galáctico havia visto um volatense em contato com um ser pertencente
a uma raça estranha. A reserva dos nativos de Volat era proverbial.
Preferiram
não recorrer a qualquer meio de transporte. A distância entre o
edifício de apartamentos e o espaçoporto não era grande.
— Não
há um meio de evitar isso? — perguntou Kuri, arriscando uma última
tentativa desesperançada.
— Não,
não posso evitar, da mesma maneira que não pude evitar o sacrifício
do grupo de seis homens, Kuri. Dentro de trinta minutos, no máximo,
todos terão sido subjugados. Até lá preciso executar a parte
principal da minha tarefa, pois então surgirá o momento em que os
dois chefes terão tempo de pensar. Esperem aqui...
Não
chegou a dizer o resto. Despediu-se de Kuri Oneré com um gesto
amável e lançou um olhar discreto para o volatense.
— A mãe
onisciente reza por você! — foi o pensamento de O-Oftftu-O que
captou.
Lloyd
acomodou-se tranqüilamente num veículo de alta velocidade, que
estabelecia a ligação entre o edifício central do espaçoporto e
as naves estacionadas em locais afastados. Indicou o destino ao
dispositivo fono-automático.
— Nave
Re IX.
Quase
imperceptivelmente, o veículo positrônico pôs-se em movimento,
contornou alguns outros, desviou-se de algumas inteligências
estranhas, atingiu o gigantesco campo de pouso. A seguir, disparou na
direção do lugar em que estava estacionada a nave cilíndrica do
clã dos Re-gans, a Re IX.
Fellmer
Lloyd sabia perfeitamente que a ação que ordenara a si mesmo
deveria ser designada pelo nome “comando
suicida”.
X
A RE IX
tinha trezentos metros de comprimento e seu formato era cilíndrico.
Tratava-se de uma nave muito bem conservada. Estava estacionada atrás
de duas naves esféricas de Árcon, e era flanqueada por vários
cargueiros especiais.
Ao chegar
perto das naves de Árcon, Fellmer mandou que o veículo parasse. Ao
ver que a porta continuava fechada, impedindo-o de sair, compreendeu
que faltava pagar a viagem. Enfiou uma moeda no autômato, aguardou o
troco e saiu.
As duas
naves esféricas arcônidas estavam apoiadas em gigantescas colunas
telescópicas. Entre as mesmas, viam-se as rampas de cargas e, nas
enormes escotilhas das comportas, os robôs dos arcônidas.
Se não
fossem os robôs o império mundial dos arcônidas já se teria
esfacelado e se não fosse o computador gigante instalado em Árcon,
o Império hoje seria um pomo de discórdia entre os mercadores
galácticos e os médicos aras.
Enquanto
passava pelas naves, o agente cósmico pensou nisso, não em sua
missão.
Não se
dirigiu diretamente para a Re IX. Uma pequena nave auxiliar
estacionada entre os dois veículos espaciais despertava seu
interesse. Passou junto à escotilha, que parecia convidá-lo a
entrar, olhou discretamente para seu interior e sorriu satisfeito.
Tratava-se
de uma nave superveloz, capaz de atingir a aceleração de 5G,
equipada com um potente mecanismo propulsor.
Subitamente
Lloyd mudou de direção, como se percebesse que caminhara para o
lado errado. A caminho da rampa de carga da Re IX, encontrou-se com
três arcônidas e dois saltadores que não se interessaram por sua
pessoa.
Olhando
por entre as naves, viu o edifício do espaçoporto, que ficava a dez
quilômetros. Três naves auxiliares rápidas, vindas dessa direção,
aproximavam-se vertiginosamente. Fellmer estava certo de que seus
colaboradores se encontravam nas mesmas. Um olhar para o relógio
certificou-o de que o comando composto de dez homens estava ocupando
suas posições com uma pontualidade absoluta.
O carro em
que viajava Ulmin com mais dois homens parou logo atrás dele.
Tratava-se de um acontecimento corriqueiro no lugar em que estavam
estacionadas as naves.
Lloyd
transmitiu mais algumas ordens precisas através de Ulmin. Enquanto
Fellmer Lloyd falava, os olhos do mercador galáctico se arregalavam
cada vez mais. Depois de algum tempo, irrompeu:
— Quer
que apenas lhe demos cobertura? Contra quem? Já pensou no que
acontecerá se o senhor tiver de enfrentar metade da tripulação da
Re IX e...?
Fellmer
Lloyd interrompeu-o com um gesto ligeiro. O mutante não apreciava as
falas prolongadas ou os gestos grandiosos.
— Nos
sessenta minutos que se seguirão o senhor e seus companheiros terão
muito que fazer. Estejam prevenidos não apenas contra os saltadores
vindos do edifício de escritórios. É possível que entre eles haja
dois elementos que parecem prebonenses. Procure descobri-los e,
quando isso acontecer, submeta-os imediatamente ao bombardeio
hipnótico. São os mais perigosos. Preste atenção ao comportamento
da tripulação das duas espaçonaves que estão aqui, Ulmin. Não se
preocupe com o pessoal da Re IX. A tripulação está de licença na
cidade. Há apenas oito pessoas a bordo.
— Por
todas as estrelas do Armamento — interrompeu-o Ulmin. — Como foi
que o senhor soube, prebonense? Sabe ler pensamentos ou coisa que o
valha?
— Apenas
sei calcular a provável ação do inimigo, Ulmin. Será que isso é
um milagre?
Depois de
ter sido blefado com essa pergunta lacônica, o saltador não soube
mais o que dizer. Retirou-se em atitude pensativa.
Todos se
sentiam em casa no porto espacial de Kuklon. Por isso, Fellmer Lloyd
conseguiu chegar à Re IX sem que ninguém procurasse impedi-lo.
Subiu lentamente a rampa que saía do terço posterior da nave,
passou pela ampla comporta de carga e viu-se no convés central do
veículo espacial de trezentos metros.
Num
controle um tanto apressado, constatara a presença de apenas oito
membros da tripulação. Teria uma surpresa nada agradável ao
descobrir que na verdade eram dez.
O largo
corredor central, a principal via de tráfego no interior da
espaçonave cilíndrica, estendia-se diante dele, completamente
vazio. Concentrando-se ao máximo, usou sua capacidade telepática
para tatear todos os recintos.
Ativou seu
senso de localização. Vinha quase que espontaneamente, mas no
momento o resultado era nulo.
Subitamente,
captou alguns pensamentos e, ao mesmo tempo, um modelo de vibrações
cerebrais. Um saltador que, segundo a escalação de serviço, devia
permanecer a bordo da Re IX, enquanto seus amigos se divertiam no
bairro de diversões de Kuklon, praguejava porque o tempo custava a
passar. E, naquele momento, o mercador resolveu ir à sala de comando
e encurtar a espera num jogo com dois colegas.
Sem
apressar-se, Lloyd tirou o projetor hipnótico do bolso. E passou a
caminhar mais rápido. Queria chegar à porta juntamente com o
saltador que estava saindo do camarote.
Acertou no
cálculo, com uma diferença de dois passos.
A porta
abriu-se sem o menor ruído e, sem o menor ruído, Lloyd disparou a
arma hipnótica, imprimindo-lhe a concentração máxima. O saltador,
que nem sequer desconfiava de se encontrar sob influência estranha,
recebeu ordem para dirigir-se à sala de comando e levar seus colegas
a se entreterem num jogo de azar.
O jovem
saltador nem estremeceu. Achou muito natural que o desconhecido
caminhasse a seu lado, em direção à sala de comando.
Lloyd
procurou calcular suas chances.
Naquele
momento, oito tripulantes montavam guarda na Re IX. Três deles eram
oficiais, que se encontravam nos camarotes. Descontando a vítima de
sua ação hipnótica, e os dois elementos da sala de comando, que
dentro de poucos minutos também seriam submetidos ao mesmo
tratamento e passariam a agir segundo suas ordens, restariam apenas
dois mercadores galácticos aos quais deveria dedicar sua atenção.
O sentido
de localização forneceu-lhe os modelos das vibrações cerebrais
dos dois homens que se achavam na sala de comando. Procurou captar
seus pensamentos. Conversavam a respeito de mulheres e estavam
confortavelmente sentados junto ao aparelho de hipercomunicação.
— Prossiga
e faça com que seus companheiros joguem circir
com você! — foi a ordem que irradiou à vítima de sua ação
hipnótica. Deixou que o saltador seguisse à sua frente.
A
escotilha da sala de comando, que estava aberta, ficava a dez passos.
Depois que
o homem hipnotizado desapareceu na sala de comando, o agente cósmico
seguiu-o sorrateiramente. Já estava vendo a poltrona do piloto e do
co-piloto quando captou a mensagem do sentido de localização.
Dois
metros atrás do lugar em que se encontrava, alguma coisa saiu de um
camarote. Fellmer Lloyd nem chegou a assustar-se. O modelo deformado
de vibrações cerebrais disse-lhe tratar-se de um robô. Apesar
disso, a mão dentro do bolso mudou de arma. A coronha do radiador
térmico era ligeiramente chanfrada, motivo por que não havia a
menor possibilidade de engano.
Ouviu
atrás de si o ruído típico dos passos de um homem-máquina. O
andar metálico aproximou-se. O robô passou à sua frente.
— Será
que foi programado para a vigilância? — perguntou o agente cósmico
sussurrando.
Tinha a
impressão de que havia algo de errado. Sabia por experiência
própria que a programação de um robô de construção arcônida é
facílima de mudar.
Ao passar
por ele, o robô virou a cabeça na qual estava abrigado o cérebro
positrônico. O olhar frio da lente brilhante mediu Fellmer Lloyd.
O robô
prosseguiu na sua caminhada...
Fellmer
Lloyd não o seguiu. Acompanhou a máquina com os olhos e viu-a
entrar na sala de comando. O olhar da lente despertara seu instinto,
e o mutante confiava nele tanto quanto nas suas capacidades
supersensoriais.
Será que
o robô desencadeou o alarma?
De
qualquer maneira, o alarma não teria chegado à sala de comando. Os
dois saltadores que estavam de sentinela, acolheram entusiasticamente
a proposta de jogar circir.
Lloyd
perscrutou os pensamentos dos três oficiais.
Nenhum
perigo o ameaçava daquele lado.
O próximo
controle foi dirigido ao saltador na sala de rádio. Estava
cochilando.
O oitavo
dos homens a bordo achava-se na sala de força, onde examinava o
funcionamento do campo de compensação magnética. Era a única
pessoa a trabalhar.
Mais uma
vez, o controle realizado por Fellmer Lloyd foi muito apressado.
Deixou de constatar a presença de dois mercadores galácticos.
Olhou para
o relógio. Dispunha de pouco menos de dez minutos. Se até lá não
estivesse em condições de mandar para os ares o computador
positrônico da Re IX, as perspectivas de sua retirada do interior da
espaçonave cilíndrica não seriam nada animadoras.
Voltou a
olhar para o relógio. Nove minutos!
Naquele
instante, o mutante concebeu outro plano. Contrariando todas as
regras que lhe foram incutidas no curso do treinamento rhodaniano,
jogaria todas as chances numa só cartada.
O
computador positrônico da Re IX não poderia deixar de ser
destruído, pois do contrário a existência da Terra logo se
tornaria conhecida no Grande Império. Lloyd preferiu nem pensar nas
conseqüências que resultariam desse fato.
*
* *
Tropnow, o
hipno, estava transformado num feixe de emanações gélidas. A raiva
e o furor pareciam dominá-lo. Nomo Yatuhin apavorou-se diante das
idéias violentas do comparsa e procurou escapar ao mesmo.
O
gigantesco edifício que abrigava os escritórios dos saltadores
estava transformado numa casa de marimbondos. Para os mercadores
galácticos que não pertenciam à organização secreta montada
pelos dois mutantes, aquele ataque era incompreensível. No edifício
não poderiam ser encontradas coisas de real valor. Já os
saltadores, fisgados pelos dois traidores com a promessa de que
encontrariam tesouros gigantescos num mundo desconhecido, tinham a
impressão de conhecerem o motivo da operação.
Gregor
Tropnow e Nomo Yatuhin enxergavam mais longe que os saltadores.
Levaram
nada menos que quarenta e três minutos para liquidar o grupo de
Fellmer Lloyd. Durante esse tempo, os dois não tiveram oportunidade
para pensar, pois no gigantesco edifício, a agitação ainda ia alto
e, até a polícia de Árcon foi notificada. Mas logo que a situação
tornou-se menos tumultuada, os ex-mutantes começaram a agir
mentalmente.
Nunca se
chegaria a saber por que o alarma não foi dado logo no início do
ataque ao edifício. Gregor Tropnow, o hipno, mantinha um silêncio
total. Queria evitar que a perigosíssima polícia arcônida metesse
o nariz em sua organização. As brutais ordens de matar,
transmitidas por via hipnótica, fizeram com que nenhum dos seis
homens que participaram do comando de ataque permanecesse vivo.
Nem ele
nem Yatuhin haviam participado fisicamente da luta. Apesar disso,
Tropnow era um assassino, pois fizera uso abusivo das suas forças
hipnóticas. Os mercadores galácticos, recriminando-se por terem
atirado com radiadores térmicos, estavam trêmulos, enquanto
aguardavam a chegada da polícia.
Os
traidores começaram a agir.
Graças ao
seu dom telepático, Nomo conseguiu localizar o saltador Zintx, que
se encontrava inconsciente na residência do volatense. Concluiu que
Fellmer Lloyd devia ter frustrado seu plano assassino.
— Não
consigo pegar Lloyd — respondeu Yatuhin diante da insistência de
Tropnow.
Corriam em
direção ao carro de alta velocidade.
Não
estavam sós. Um grupo de trinta combatentes os seguia.
— Procure
encontrar os homens de Lloyd — chiou Gregor para seu sócio. —
Ande depressa, senão não sei... — hesitou. Uma terrível suspeita
nasceu em sua mente. — Reviste os arredores da Re IX, Nomo.
Numa
fração de segundo, o telepata localizou o mercador galáctico
Ulmin. No mesmo instante, os dois traidores atingiram o carro.
Ninguém notou a ligeira hesitação. Yatuhin cochichou ao ouvido de
Tropnow, que estava com o rosto cinzento, o que acabara de ler nos
pensamentos de Ulmin.
Gregor
Tropnow, que crescera sob a orientação criminosa do Supercrânio e
posteriormente se passou para as fileiras de Perry Rhodan, mostrou
que realmente era uma sombra do Supercrânio.
Com a
maior frieza, transmitiu outra ordem hipnótica aos seus combatentes.
Local da ação: a nave Re IX. Armamento: radiadores térmicos.
O ataque
do grupo de seis pessoas contra o edifício dos saltadores fora
iniciado há cinqüenta e oito minutos. Levariam sete minutos para
chegar ao lugar em que estava pousada a Re IX. Seriam sessenta e
cinco minutos ao todo.
E os
cálculos de Fellmer Lloyd previam para a ação apenas cinqüenta e
cinco minutos!
*
* *
Kuri Oneré
viu sete veículos de alta velocidade que saíram da área de
estacionamento dos saltadores em direção ao porto espacial.
Procurou
entrar em contato com Fellmer Lloyd por meio do radiofone guardado
num estojo.
Não
conseguiu estabelecer comunicação com Lloyd. Não hesitou. Escolheu
a faixa de Ulmin. O saltador respondeu imediatamente. Ouviu-o fungar
nervosamente, enquanto comunicava o que havia observado.
— Está
bem — foi a resposta.
Para Kuri
a espera infindável começou de novo.
*
* *
O robô
derretido estava jogado na sala de comando.
O ar
achava-se impregnado de vapores metálicos malcheirosos.
“Vamos
à arma térmica!”,
não havia como retirar o revestimento protetor. Por isso resolveu
fundi-lo.
— Que
diabo! — danificara a articulação central.
Não
poderia realizar o trabalho sem a mesma.
Os agentes
de Perry Rhodan haviam recebido um treinamento ininterrupto de mais
de meio século. Não eram especialistas. Eram os maiores sabe-tudo.
Conheciam o computador positrônico de uma espaçonave dos saltadores
tão bem como o de um veículo espacial dos arcônidas.
Dispensou
a articulação central na sua ligação em curto-circuito. A mesma
poderia ser realizada por outra forma.
O sentido
de localização transmitiu-lhe uma mensagem. Qualquer localização
envolvia um perigo. Dois oficiais da Re IX corriam pelo convés
central, em direção à sala de comando. A fumaça, saindo em densas
nuvens, fê-los correr ainda mais depressa.
O agente
cósmico de Rhodan sentiu-se muito feliz com a fumaça, pois não
poderia desejar melhor proteção. Envolto em densas nuvens,
colocou-se na escotilha aberta e disparou os raios hipnóticos de sua
arma contra os oficiais.
— Abandonem
a nave. Cada um de vocês procurará uma nave arcônida diferente.
Tranqüilizem os arcônidas. Não permitam que intervenham nos
acontecimentos.
Voltou a
colocar-se na frente do computador positrônico. Se tivesse uma
bomba, não haveria o menor problema. Mas a energia de sua arma
manual não seria suficiente para fundir o gigantesco computador.
“Fase
jut ao setor de armazenamento V-Zt; do outro lado, ligar jut com
fias.”
Lloyd
pensava na língua dos arcônidas. Trabalhava como se fosse um
especialista desse povo. Faltava a ligação com o condutor
principal.
Virou-se
instantaneamente. A escotilha já não estava envolta em nuvens de
fumaça. Captou modelos deformados de ondas cerebrais e modelos
claros. Eram saltadores e robôs que corriam em direção à sala de
comando.
Três
máquinas de guerra e três membros da tripulação!
Com o
maior sangue-frio, Fellmer Lloyd resolveu arriscar a vida.
Ainda
dispunha de dez segundos até que a primeira máquina chegasse à
sala de comando. Dentro desse tempo, teria de conectar o conduto
principal à sua ligação em curto-circuito.
A
tecnologia arcônida não conhecia as ligações por fios. O sistema
de blocos era muito mais simples.
Mais dois
movimentos de mão!
Atrás
dele, soaram os passos dos robôs que procediam pelo convés central.
Esteve a
ponto de pôr a mão na chave mestra, a fim de retirar a energia
contida nos depósitos da popa, quando um raio azul o fez recuar.
Fellmer
Lloyd não ouviu seu grito. Os resíduos atávicos do mutante vieram
à superfície. O cérebro positrônico do primeiro robô fundiu-se
no raio térmico disparado pela arma manual.
Ele, o
humano, fora mais rápido que a máquina!
“Ligar
a chave mestra! Passar a arma térmica da mão direita para a
esquerda. Segurar o projetor hipnótico na direita. A esquerda deverá
manipular o radiador térmico destinado aos robôs.”
O terceiro
homem-máquina caiu por cima do camarada atirado ao solo.
Sem a
menor comoção, Fellmer Lloyd deixou que o radiador térmico
continuasse a funcionar. E a arma hipnótica também continuou a
disparar seu raio.
— Abandonem
a nave e... — foi a ordem que conseguiu transmitir aos três
saltadores. Depois o inferno irrompeu em torno dele, impedindo-o de
pensar claramente.
A sala de
comando da Re IX media quinze metros por dez.
E de
quinze metros por dez foi o tamanho do inferno que desabou.
A energia,
que seria necessária para fazer a Re IX disparar pelo espaço,
descarregava-se no computador de bordo. O precioso mecanismo
transformou-se numa massa de metais derretidos.
Temperaturas
de milhares de graus procuraram atingir o arrojado mutante. Este
mesmo não soube como conseguiu escapar ao chicotear das cargas em
curto-circuito. Com um enorme salto, transpôs o montão de matéria
incandescente que se achava bem à frente da escotilha. Os três
robôs haviam sido reduzidos a uma massa disforme.
A trinta
metros do lugar em que se encontrava, três saltadores submetidos à
coação hipnótica corriam desesperadamente para fora da nave. Lloyd
não foi menos rápido que eles.
A nave foi
sacudida por um baque surdo, que se originara na sala de comando.
Lloyd olhou instintivamente para trás e sentiu o temor instalar-se
em sua mente.
A ponta da
nave estava derretendo.
Com isso,
todo o espaçoporto seria colocado em estado de alarma.
Voltou a
disparar a arma hipnótica. Um saltador, que se assustara com o
solavanco da nave, saiu do setor dos propulsores. Encontrava-se no
corredor central.
Lloyd com
a arma hipnótica, enquanto ele mesmo descia pela rampa de carga.
Não
acreditou no que seus olhos viam.
Quem teria
atirado as bombas de neblina?
O mar de
névoa agitava-se e deslocava-se lentamente em direção à Re IX.
Procurou
atingir Ulmin por meio de seu dom telepático.
Ulmin não
existia mais.
Passando
ao lado da Re IX, Fellmer correu em direção à pequena nave
auxiliar, cuja escotilha continuava aberta. Tentou constantemente
entrar em contato com seus combatentes.
Com um
enorme susto, captou o último pensamento de um saltador moribundo.
Já
passara pela popa da Re IX e não tinha tempo para virar a cabeça.
Viu a pequena nave auxiliar com o propulsor superpotente desaparecer
em meio à neblina. No mesmo instante, sentiu-se atingido por um
tremendo golpe.
“Paralisia!”,
martelava sua mente.
A
paralisia iniciada manifestava-se por meio de um forte tremor. Sentiu
o rosto transformar-se em máscara e percebeu que a energia de seus
músculos diminuía.
— Paralisia;
mas preciso! — disse a si mesmo num desespero feroz.
O tiro,
disparado por uma arma desconhecida, viera do interior da Re IX.
Localização; os modelos de vibrações cerebrais: eram dois
saltadores. Logo viu-se envolvido pela neblina.
Fellmer
Lloyd chocou-se contra uma parede. A nave auxiliar! Reunindo as
últimas forças, enfiou-se na mesma e caiu no assento. Quando se
esforçou para fechar a escotilha, soltou um gemido. Os músculos
recusavam-se a obedecer.
A
paralisia tornava-se cada vez mais intensa.
— Vamos
embora, para a Gazela!
Voando às
cegas, levou a nave neblina adentro.
“Fugir!
Fugir!”
Contorceu-se.
Mal conseguia mover os lábios.
“Esta
não! Esta não!”,
pensou em desespero, enquanto a nave corria rumo à selva de Volat,
em direção ao lugar em que estava escondida a Gazela.
*
* *
Jim
Markus, comandante da nave Lotus, que pairava imóvel no espaço a
dez anos-luz de Volat, estremeceu quando o decifrador reproduziu o
texto da mensagem condensada chegada há dez segundos.
— Três
toques de sino! Os mutantes Yatuhin e Tropnow são traidores. Estão
traindo Rhodan porque não receberam a ducha celular. Fellmer Lloyd.
Os
oficiais fitaram Jim Markus. Seu rosto era pálido como cera, e os
olhos muito arregalados brilhavam num pavor incontido.
*
* *
Dois
volatenses caminhavam pela selva, à procura da mãe onisciente.
Vinham da periferia da mata. Caminhavam dia e noite. Ao que parecia,
não conheciam o cansaço.
Iam em
silêncio. Suas antenas não se moviam. Não tinham nada a falar um
com o outro. Mas sentiam pena do homem que choramingava nas suas
costas. Era Fellmer Lloyd. O corpo, submetido a um estado extremo de
paralisia, estava reduzido a uma ruína. Mas o espírito continuava
vivaz como sempre. Apesar do tremor que o martirizava, não pensava
apenas em si. Naquele instante, formulou uma pergunta telepática,
dirigida às duas criaturas que o haviam salvo:
— Como
souberam que Kuri Oneré também está a caminho do lugar em que se
encontra a mãe onisciente?
Mais uma
vez, ouviu a mesma resposta:
— Nós
sabemos, Fellmer Lloyd, nós sabemos.
Era a
terceira vez que lhe davam a mesma resposta; por isso preferiu não
perguntar mais.
*
* *
Em Os
Mortos Vivem, título da próxima aventura de Perry Rhodan, um fato
inacreditável acontece...

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