terça-feira, 19 de março de 2013

P-059 - O Regresso do Nada - Kurt Mahr [parte 2]

Na Drusus foi registrado outro fading dos sinais emitidos pelos transmissores embutidos no corpo dos três agentes. Tal qual o primeiro, não durou mais que três segundos. Depois os sinais voltaram a ser recebidos normalmente.
Já o emissor que se encontrava a bordo da Gazela não sofreu a menor perturbação.
Rhodan supôs que seus agentes tivessem entrado em contato com o inimigo pela segunda vez. O fato de que depois do primeiro contato Rous não transmitiu qualquer aviso levava à conclusão de que o incidente não se revestira de maior importância.
Restava saber se desta vez o caso seria o mesmo.

* * *

Por que pensa assim? — perguntou Rous em tom tranqüilo.
Flaring fez um sinal em direção às poltronas e disse:
Sentem. E não façam tolices.
Rous, Lloyd e Rosita obedeceram.
Os senhores afirmam que vêm de Wollaston — principiou Flaring sem o menor intróito. — Em Wollaston vivem grupos de pessoas não civilizadas. Não acredito que qualquer dos senhores saiba guiar um ônibus sem receber a necessária instrução. E se souber, conhece as regras de trânsito e estaciona o veículo do lado esquerdo, não do direito.
Rous olhou-o atentamente.
Muito bem — respondeu. — São suas suposições. E como continua a história?
Desde que houve a catástrofe no campo, todas as saídas da cidade foram guarnecidas por duas fileiras de guardas. Ao virem de Resaz, os senhores passaram sem incidentes pela segunda barreira, ou seja, a interior; acontece que, por estranho que possa parecer, a barreira externa não se lembra de tê-los visto passar.
Rous levantou a mão direita, em sinal de concordância.
Se a memória dos seus guardas é tão fraca, a culpa não é nossa — disse.
Flaring sorriu.
A memória deles não é fraca coisa alguma. Além disso, ainda não cheguei ao fim. Os senhores estiveram na cidade, hoje de tarde, quando aconteceu o desastre. E são os únicos que não foram atingidos. Pode dar alguma explicação desse fato?
Rous baixou a mão.
Não posso — confessou. — Apenas nos sentimos gratos por termos escapado.
Flaring tornou-se mais sério.
Quer dizer que não mantém a afirmativa de que por ocasião do desastre se encontrava na ponte de Finnestal?
Rous ficou perplexo.
O quê? Já sabe disso?
Sim, já sei disso, e também sei que, contrariando todas as regras de etiqueta observadas em Wollaston, os senhores não cumprimentaram o guarda que os tratou com tamanha amabilidade.
Rous olhou para o chão.
Preste atenção — prosseguiu Flaring. — Já somos bastante evoluídos para perceber que os senhores não são deste mundo. Nossa raça encontra-se no estágio inicial da Astronáutica. Provavelmente a sua já ultrapassou esse estágio. Resolveram atacar Mirsal; não sabemos por quê. Até agora não fizemos mal a nenhuma raça estranha, pois nem dispúnhamos de meios para isso.
Portanto, não sabemos o que têm contra nós. Se soubéssemos, talvez poderíamos aplacar a raiva que evidentemente sentem por nós, evitando que nosso povo desaparecesse aos milhões.
Não há nada que desejemos tanto como estabelecer uma paz em bases razoáveis com os senhores. Faremos o que estiver ao nosso alcance; apenas, não queremos que desapareça mais gente.
Mirsal tem cerca de três bilhões de habitantes. Nos últimos dias cerca de dois milhões desapareceram. Não queremos que dentro de cinco ou dez anos nosso mundo fique totalmente desabitado.”
Rous ouvira com toda atenção. Depois olhou para cima, fitando Flaring, e perguntou:
O senhor está autorizado a entabular negociações?
Flaring viu-se mais próximo ao objetivo.
Sim, naturalmente. O senhor deseja...?
Rous fez um gesto negativo e levantou-se.
Guarde isso! — disse em inglês, dirigindo-se a Lloyd.
Lloyd guardou o projetor mental na pasta.
Rous deu alguns passos. Subitamente parou e virou-se para Flaring.
O senhor é um homem sincero, Flaring. Por isso usarei de toda franqueza. É bem verdade que terei que decepcioná-lo. Não somos quem o senhor acredita que sejamos. Somos estranhos, mas não somos responsáveis pelo desaparecimento de dois milhões de habitantes do planeta. Nem nós, nem qualquer membro de nossa raça.
Lançou um olhar penetrante para Flaring. Este retribuiu com uma expressão pensativa. Finalmente levantou a mão direita, em sinal de concordância.
Logo vi que não confiariam em nós — disse em tom abatido.
Rous sacudiu a cabeça e nem se deu conta de que Flaring não compreendia o gesto, que era de origem terrana.
O senhor está enganado, Flaring! — disse em tom enérgico.
Explicou-lhe tudo que o policial precisava saber para compreender a situação dos três terranos. Calou aquilo que não podia revelar, como por exemplo os dados sobre seu mundo de origem, o nome e a posição. Também não revelou o papel que o Império Solar desempenhava no jogo do poder galáctico. Era claro que não podia deixar de explicar que na Galáxia existiam vários blocos de potências e grupos de interesse.
A exposição de Rous durou cerca de quinze minutos. Ao concluir, disse:
O pior erro que poderia cometer seria tratar-nos como inimigos. Dispomos de recursos face aos quais seu equipamento mais moderno equivale aos machados da Idade da Pedra. Se é que existe alguém que pode localizar o inimigo invisível, somos nós. E o senhor se privaria dessa chance, se nos causasse problemas.
Via-se que ainda faltava muito para convencer Flaring.
Diga-me uma coisa — pediu. — Que interesse poderia ter sua raça nos acontecimentos que se desenrolam em Mirsal? O senhor confessa que por duas vezes se viu numa situação na qual meus patrícios desapareceram, enquanto nada aconteceu aos senhores. Por que demonstram tanto interesse por esses ataques, se os mesmos não são dirigidos contra os senhores?
Um sorriso surgiu no rosto de Rous.
É uma boa pergunta — confessou. — Não acredite que estamos agindo apenas por amor ao próximo. Um dos fatores principais que consideramos ao agir desta maneira é o fato de que qualquer um que queira manter-se na Galáxia deve estar a par do que acontece no interior dela. Tem de conhecer seus inimigos em potencial. Quando se depara com um fenômeno que não o atinge diretamente, não pode fechar os olhos; deve procurar desvendar o mistério. Se não o fizer, poderá perfeitamente ser a próxima vítima do desconhecido. Quem não colhe em tempo as informações de que precisa, não terá elementos para defender-se. Compreendeu?
Compreendi — limitou-se Flaring a responder.
Muito bem. Ainda acontece que somos uma raça que gosta de ajudar os outros. Se pudermos fazer alguma coisa para impedir que esses desconhecidos exterminem sua raça, nós o faremos. Mas para isso torna-se necessário que os senhores não nos criem problemas.
Lançou um olhar indagador para Flaring. Este hesitou um instante e respondeu:
Não estou autorizado a decidir sobre isso. Terei de expor a uma autoridade hierarquicamente superior o que acabo de ouvir, e ela decidirá. A única coisa que posso fazer para facilitá-los — disse com um ligeiro sorriso — é não os colocar sob guarda. Prometem não sair da cidade?
Rous levantou a mão direita.
Garanto.
Muito bem. Informá-lo-ei o mais cedo possível sobre a decisão que for tomada.
Despediu-se com a maior cortesia. E nenhum dos seus subordinados saiu sem despedir-se dos estranhos.
Lá fora a noite descia sobre a cidade. Escureceu. Não havia uma única luz acesa. A polícia tinha muita coisa para fazer; não iria mandar seus homens guarnecerem as usinas de eletricidade.
4



Lloyd e Rosita já se haviam retirado para seus quartos. Rous redigiu um relatório codificado sobre o que vira em Mirsal, relato este que pretendia transmitir à Drusus. Aludia às negociações realizadas com Flaring. O tenente pediu também o consentimento de Rhodan para a ação que pretendia realizar.
Depois de pronto, o relatório, formado por cerca de três mil palavras, estava resumido a uma série de pequeninos buracos abertos numa placa de plástico que poderia ser escondida na mão de uma pessoa.
Rous saiu à procura de Lloyd, que trazia o microcomunicador na pasta.
Atravessou o quarto de Rosita, que estava de pé, olhando pela janela. Ela não se virou à entrada de Rous, mas este ouviu-a dizer:
Há um silêncio terrível por aí!
Rous foi à janela e colocou-se a seu lado. Não se via nada, nem mesmo a fachada dos prédios que ficavam do lado oposto da rua.
Cerca de um milhão e meio de pessoas haviam sido vitimadas pelo segundo ataque do inimigo invisível. Este número fora indicado por Flaring.
Um milhão e meio de pessoas desapareceram de uma hora para outra da superfície deste mundo. Por quê? Qual será a finalidade disso?”, pensou o tenente.
Rous fervia de raiva ao pensar na desgraça.
Espere! — disse. — Nós os agarraremos.
Rosita não respondeu. Rous saiu da janela e dirigiu-se à porta do quarto de Lloyd.
Quando entrou, viu-se envolvido por uma luz forte. Rous viu-se ofuscado, mas logo constatou que a claridade iluminava o quarto de Lloyd quase por igual e parecia vir de todas as direções. Parecia que tinha vindo de um quarto às escuras e entrado num outro que recebia a luz do sol por um grande número de janelas.
Rosita também percebeu quando a luminosidade penetrou pela porta.
Lloyd trabalhava em meio à claridade; ao que parecia, estava muito ocupado.
O que é isso? — exclamou Rous. — O que andou fazendo?
Lloyd parou.
Por enquanto não sei — respondeu um tanto contrariado. — Andei mexendo um pouco nisto, e de repente apareceu a luz.
Andou mexendo em quê?
No gerador do campo defensivo. Rous sentiu-se perplexo. Na pasta de Lloyd havia uma porção de objetos capazes de produzir luz. A iluminação de emergência da qual Rous se valera para confeccionar a chapa de plástico com o relatório destinado à Drusus também provinha dessa pasta. Mas de todos os objetos que Lloyd carregava, o gerador de campo defensivo era aquele do qual menos se esperava que pudesse ser usado como fonte de luz.
Rous e Rosita entraram e fecharam a porta atrás de si. Rous sentou-se numa poltrona.
Explique! — pediu a Lloyd.
Lloyd passou a mão pela testa, como se tivesse necessidade de refletir.
Deve estar lembrado de como salvamos aquele mirsalense na Alameda dos Reis — principiou. — Bem, desmontei o gerador para verificar se o campo defensivo poderia ser reforçado; para isso talvez se pudesse ligar o aparelho a uma fonte externa de energia. Como sabe, em princípio isso é possível. Só resta saber que volume de energia o pequeno aparelho pode absorver e utilizar.
E depois? — perguntou Rous.
Lloyd deu de ombros.
Depois não sei mais nada. Retirei algumas células e as liguei de forma diferente. Subitamente o quarto se iluminou. Não faço a menor idéia sobre a causa do fenômeno.
Rous levantou-se de um salto.
Onde está?
Lloyd apontou para a mesa.
Rous aproximou-se cautelosamente do pequeno gerador. Não era maior que um maço de cigarros. Lloyd havia retirado a tampa e mexera no complicado mecanismo com uma pinça de soldar.
Lloyd era técnico. Além da sua extraordinária capacidade parapsicológica, possuía conhecimentos quase completos sobre todos os problemas eletrônicos e gravitomecânicos que devem ser considerados na construção de geradores de campos defensivos e numa série de outros aparelhos.
Neste ponto o tenente não ficava nada a dever a Lloyd. Na Academia realizara cursos de Eletrônica e Gravitomecânica.
Era versado no assunto e, ao primeiro relance de olhos, percebeu quais haviam sido as modificações que o mutante introduzira no pequenino mecanismo.
Examinou as soldas novas e repassou em sua mente os circuitos modificados. Repetiu a experiência e chegou ao mesmo resultado.
Lloyd estava parado atrás dele, olhando por cima de seu ombro.
O senhor sabe o que acaba de fazer? — perguntou Rous.
Lloyd fez que sim.
Ao que parece, apenas modifiquei o formato do campo defensivo.
Exatamente. O gerador produz um campo defensivo esférico, de raio variável e limitado. E agora...
Agora é apenas um campo anular — completou Lloyd.
Isso mesmo. Um campo anular, cuja situação ainda não conhecemos.
Prosseguiu na experiência. Ao que parecia, estava encontrando o que procurava. Pediu a pinça de soldar, fez algumas modificações, regulou o botão que havia na parte da frente do aparelho e olhou várias vezes em torno.
Procuro localizar o campo — explicou. — Agora tem a forma de anel, não de esfera; acontece que não sabemos onde fica esse anel.
Continuou a trabalhar. De repente, Rosita, que também se encontrava no quarto, soltou um grito de surpresa.
Olhem! Ali, na janela...
Rous levantou a cabeça.
Junto à janela surgira uma mancha circular de luminosidade branco-azulada. Para além do círculo reinava uma escuridão completa. A luz que penetrava no quarto provinha exclusivamente dali.
É estranho — murmurou Rous.
Pensei que fosse um campo anular — disse Lloyd. — Acontece que isso não é um anel, mas um círculo.
Rous sacudiu a cabeça.
Tolice. O que o senhor está vendo não é o campo, mas uma luz pura e simples. O campo é invisível. Estende-se em torno desse círculo de luz.
Rosita estava curiosa.
De onde vem a luz?
Bem que eu gostaria de saber — respondeu o mutante.
Por alguns minutos Rous fitou atentamente a mancha circular de luz. Subitamente estremeceu, como se acabasse de lembrar-se de algo importante, e pôs-se a trabalhar que nem um louco.
Lloyd e Rosita viram a mancha de luz diminuir; enquanto isso, a luz aumentava de intensidade e a iluminação já não era tão uniforme em todos os cantos do aposento.
Depois de algum tempo, o círculo, que de início medira uns setenta centímetros de diâmetro, se transformou num ponto de luminosidade muito concentrado.
Enquanto Rous continuava a trabalhar, o ponto voltou a estender-se. Rous percebeu a alteração e continuou a girar botões, fazer ligações e soldar peças até que o ponto voltasse a surgir sobre a vidraça.
Depois disso levantou-se.
Aí está! — disse. — Sabe o que é isso?
Apontou para o ponto luminoso.
Lloyd sacudiu a cabeça.
É claro que eu também não sei — confessou Rous. — Mas tenho uma hipótese. Suponho que nosso campo circular desempenha por assim dizer as funções de lente. Concentra em seu foco os raios de luz emitidos por um objeto muito distante.
Lloyd olhou-o sem compreender nada.
Que luz é esta? De onde vem?
Rous cocou a cabeça.
Aí que está o grande mistério. No momento em que desligo o gerador, a luz desaparece. Logo, não está em nosso espaço.
Essa conversa é muito metafísica — resmungou Lloyd em tom irreverente. — Em que espaço poderia estar?
Entusiasmado com sua descoberta, Rous deu-lhe uma pancadinha amistosa.
Não se esqueça de que nunca conseguimos ver os desconhecidos quando os mesmos se lançaram ao ataque! — exclamou. — Eram invisíveis. Se o senhor acha que a explicação baseada nos dois espaços diferentes, em que nós e os estranhos existimos, é complicada demais, basta imaginar que descobrimos um meio de destruir a invisibilidade desses seres.
A realidade é a seguinte: o campo anular, com suas funções de lente, produz uma instabilidade na estrutura de nosso espaço. Essa instabilidade estabelece uma ponte entre dois contínuos: a luz pode passar de um ao outro.”
Lloyd fez um gesto afirmativo.
Muito bem. Acho que estou compreendendo. E daí?
Rous apontou para o ponto luminoso.
O que estamos vendo é uma imagem. Uma imagem de qualquer objeto que se encontra naquele outro espaço. Se pegarmos uma lupa para ampliá-la, poderemos ver o objeto.
Pois bem; vamos pegar uma lupa.
Rous fez um gesto negativo.
Uma lupa seria apenas outra lente. Se a primeira lente é formada por um campo defensivo anular, a outra deverá ter as mesmas características. Tudo que temos de fazer é dissociar o círculo produzido pelo gerador em duas partes, a fim de que o mesmo produza dois campos anulares. Um deles servirá de objetiva, outro como projetor.
Olhou para trás.
Ali temos uma grande parede branca. Se tivermos sorte, poderemos projetar-lhe a imagem.
Lloyd compreendera. Os dois começaram a trabalhar febrilmente no gerador. Rosita contemplava-os com os olhos curiosos, mas sem o menor conhecimento da matéria. Não sabia o que dizer de tudo isso.
Sempre pensei — começou — que uma lente fosse feita de vidro. Será que não é?
Rous soltou uma risada.
Geralmente são — disse. — Mas há cem anos os microscópios eletrônicos já tinham lentes feitas de campos elétricos ou magnéticos. Por isso um campo defensivo pode perfeitamente servir de lente.
Está bem — disse Rosita. — Não entendo nada disso. Estou curiosa para ver o feitiço que sairá daí.
Face à atividade extraordinária de Lloyd e Rous só demorou meia hora até que um segundo círculo surgisse no meio do quarto. Mal se destacava da claridade ali reinante, e era maior do que o primeiro fora em qualquer momento. Rosita chamou a atenção dos dois homens sobre o fato.
Muito bem! — exclamou Rous. — Esta é a ocular. Agora vamos girar até que...
Interrompeu-se em meio à frase, refletiu um pouco e bateu com a mão contra a testa.
Que idiota que eu sou. Com uma ocular não se pode produzir uma imagem real. Para projetar precisamos de uma terceira lente. E o gerador não conseguirá formá-la. Portanto, devemos partir para a observação direta.
Colocou-se de tal maneira que o círculo que pairava no meio do quarto ficava entre ele e a janela.
Apenas vejo claridade — disse um tanto decepcionado. — Gire o potenciômetro, Lloyd.
Lloyd começou a girar o pequeno botão. Rous olhava intensamente para o círculo luminoso.
Pare! — gritou de repente. — Marque a posição, Lloyd!
Lloyd fez um pequeno arranhão na placa fronteiriça do aparelho, a fim de marcar a posição do potenciômetro. Rous fez mais alguns pedidos:
Rosita, traga alguns panos e pendure-os sobre minha cabeça. A luz espalhada pelo quarto atrapalha minhas observações.
Rosita trouxe os panos.
Com a cabeça envolta nos mesmos, de tal maneira que apenas o círculo luminoso ficava à vista, Rous olhava fixamente para a frente, sem dizer uma palavra.
Só dali a uns dez ou quinze minutos, recuou e os deixou cair.
Dê uma olhada — disse, dirigindo-se a Lloyd. — Não há dúvida de que é uma imagem; mas não faço a menor idéia do que seja.
Rosita não conseguiu dominar mais a curiosidade e perguntou:
O que é que a gente vê?
Lloyd descreveu o quadro:
Vê-se uma superfície ampla e plana. Nessa superfície estão espalhados ao acaso vários objetos escuros. A imagem é colorida. Mas, ao que parece, as cores não são muito numerosas. Os objetos escuros... bem, talvez sejam máquinas; não sei.
Alguma coisa se move? — perguntou Rosita.
Não. Está tudo parado. A imagem dá a impressão de fotografia. Não vejo nenhum... um momento, o que é isso? — calou-se por um instante e prosseguiu em tom exaltado: — Agora houve um movimento. A imagem se moveu em conjunto. Parece que alguém a aumentou. Os objetos escuros tornaram-se maiores; realmente são máquinas.
Nesse instante, as observações do mutante foram interrompidas sem a menor contemplação. Rosita não conseguiu dominar a curiosidade: arrancou os panos que também lhe envolviam a cabeça, empurrou-o para o lado e colocou-se à frente do círculo.
Rous e Lloyd deixaram-na à vontade. Por alguns minutos Rosita manteve-se imóvel e em silêncio, contemplando a imagem. Depois recuou e disse:
Vejo que é uma planície que parece ter sido pavimentada de ladrilhos. Há ainda sombras que talvez sejam máquinas. As imagens não estão nítidas. Não vejo nisso nada de extraordinário.
Ah, é? — disse Rous com uma risada. — Não acha nada de extraordinário? Sabe o que acaba de ver?
Não — respondeu Rosita.
Pois eu vou explicar. A senhora viu um mirsalense ser salvo pela influência de nosso gerador de campo defensivo. Por isso há de concordar em que esse campo exerce certos efeitos sobre o inimigo, seja ele quem for. Ainda não sabemos que efeito é esse. Esse mesmo campo defensivo, uma vez reduzido a uma forma adequada, cria certa instabilidade na estrutura espacial, e com isso uma ponte pela qual a luz pode passar do contínuo temporal do inimigo para o nosso.
Rosita começou a compreender. Fitou Rous com os olhos muito arregalados.
Não venha me dizer que...
Rous acenou tranqüilamente com a cabeça.
É isso mesmo que eu quero dizer. O mundo do inimigo é diferente do nosso. Encontra-se num outro contínuo, do qual vem lançando seus ataques. O que estamos vendo neste círculo não passa de um recorte pouco nítido do invisível.

* * *

Haviam dado o primeiro relance de olhos. Depois de longas semanas de luta contra o inimigo, conseguiram pela primeira vez lançar um olhar para o outro espaço, em que vivia esse inimigo.
Isso apenas serviu para fortalecer-lhes a confiança. Mesmo os fenômenos complicados e desenrolados durante a reprodução da imagem por meio do gerador de campo defensivo não faziam com que se tornasse possível saber onde poderia ser encontrado o objeto que viam reproduzido no círculo luminoso. Não havia como localizá-lo, e não se sabia se valeria a pena localizar alguma coisa que, por assim dizer, se achava em outro universo.
Nem sequer havia a menor indicação que permitisse uma conclusão sobre se aquilo que haviam observado realmente era um quadro estático, algo imóvel, ou se no outro espaço o fenômeno tempo sofria uma modificação que não lhes permitia notar os movimentos.
Rous acreditou que os súbitos deslocamentos do quadro, observados por várias vezes depois da primeira constatação de Lloyd — inclusive em sentido inverso, ou seja, no afastamento — não fossem um fenômeno real. Em sua opinião, tratava-se apenas de oscilações no gerador de campo defensivo.
Rous tentou transportar através do círculo luminoso um objeto para o espaço inimigo — um maço de cigarros, por exemplo. A tentativa foi um fracasso total. O maço de cigarros caiu ao solo do outro lado do círculo. Os dois campos anulares formavam um sistema de lentes de certa potência, mas não constituíam nenhum meio de transporte.
Além disso, Rous não ficou satisfeito com o grau de nitidez da imagem. Calculava que as máquinas vistas através do círculo luminoso, como produtos de uma tecnologia estranha que eram, talvez fossem objetos indecifráveis. Se conseguisse uma imagem mais nítida, talvez poderia reconhecer certas funções das máquinas. Talvez estas fossem as armas que o inimigo usava para lançar seus ataques cruéis contra Mirsal.
Todas as tentativas de obter uma imagem mais nítida resultaram em fracasso. Deviam dar-se por satisfeitos de terem obtido uma imagem, qualquer que fosse ela, por um meio tão estranho.
Depois de ter prosseguido nas observações por algumas horas, Rous desligou o gerador. Dali a meia hora, voltou a ligá-lo e sentiu-se aliviado. Ficou satisfeito ao constatar que o ponto e o círculo luminoso voltaram a surgir no mesmo lugar, e que através do círculo observado o quadro outra vez fazia-se presente.
A imagem podia ser reproduzida; era o que importava.
Daqui por diante teremos que dispensar o campo defensivo — disse Rous. — Precisamos do gerador para outro fim, mais importante.

* * *

Na manhã do dia seguinte, bem cedo, apareceu Flaring. Trouxe boas notícias.
Expus o assunto aos meus superiores — disse, depois de ter cumprimentado os três terranos um por um. — Fico satisfeito em poder anunciar que confiam plenamente nos senhores. Sentimo-nos gratos pela colaboração que nos oferecem e estamos dispostos a facilitar-lhes o trabalho na medida do possível. É bem verdade que gostaríamos de saber se têm algum plano bem objetivo.
Queremos agarrar esses caras invisíveis — disse Rous com o rosto zangado.
Flaring sorriu.
As intenções são boas — disse. — Mas será que já estão próximos disto?
Não — suspirou Rous. — Um momento.
Tirou do bolso o estranho objeto de plástico que no dia anterior havia encontrado na Alameda dos Reis e estendeu-o em direção a Flaring. Explicou onde havia encontrado o objeto e disse:
Gostaria que isto fosse analisado. Seus químicos devem saber de que é feito, ou melhor, de que deveria ser feito. O que desejo saber é se esta peça de plástico sofreu alguma modificação após o ataque do inimigo.
Flaring segurou cautelosamente o objeto.
Providenciarei quanto antes. Tem mais alguma ordem?
Rous franziu a testa.
Não temos nenhuma ordem. Ficaremos muito satisfeitos se pudermos formular alguns pedidos.
Flaring sentiu-se bastante lisonjeado.
É isso mesmo — prosseguiu Rous antes que Flaring tivesse tempo de dizer qualquer coisa. — Gostaríamos de examinar num mapa as áreas atacadas pelo inimigo. Queremos saber onde ficam.
Flaring levantou a mão direita.
Muito bem. Arranjarei imediatamente os mapas.
Despediu-se e saiu.
Rous aproveitou o tempo para completar o relatório que deixara de enviar na noite anterior, face às novidades importantes que haviam surgido. Apenas alguns furos a mais foram feitos na chapa de plástico. Depois introduziu-a no microcomunicador. Praticamente no mesmo instante os aparelhos da Drusus, que se encontrava a trinta milhões de quilômetros, captaram o interessante relato.
Mal Rous havia terminado o trabalho, Flaring voltou a aparecer.
A análise ainda não foi concluída — disse, depois de ter cumprimentado os terranos. — Trouxe os mapas.
Espalhou-os sobre a mesa. O primeiro mostrava toda a província que se estendia de Resaz para Fillinan, e mais algumas centenas de quilômetros de ambos os lados. A área despovoada pelo ataque do inimigo invisível havia sido uma parte assinalada de vermelho e outra em negro.
Rous estacou ao constatar o estranho formato da parte circulada de negro.
Tem certeza de que as informações desta anotação são corretas?
Flaring levantou a mão.
Tenho certeza absoluta. Por certo pode imaginar que fazemos tudo para obter informações fidedignas.
Está certo. O que acha desse formato?
O círculo vermelho descrevia aproximadamente o formato de uma calçadeira que tivesse sido aquecida e esticada o mais possível. Os contornos estranhos apresentavam duas “orelhas” ovais bem abertas no leste e no oeste, e entre as mesmas havia uma parte irregular e mais fina. Na “orelha” oriental havia uma falha elíptica, correspondente a uma área que não fora atingida pela desgraça.
Flaring dobrou o dedo, em sinal de que não tinha nada a dizer.
Já quebramos a cabeça sobre isso — disse. — De início pensamos que o inimigo estivesse interessado em fazer desaparecer o maior número possível de pessoas. Acontece que justamente neste local — apontou para a falha da parte oriental — fica Kelleyhan, uma cidade de cerca de trezentos mil habitantes. A população de toda a área restante é setenta por cento menor que à de Kelleyhan.
Quer dizer que a área não é das mais densamente povoadas?
De forma alguma. A área industrial de Russom, situada ao norte, tem duzentos e cinqüenta habitantes por quilômetro quadrado. E aqui, entre Resaz e Fillinan, existem apenas vinte habitantes por quilômetro quadrado.
Rous passou a examinar o segundo mapa, que mostrava em escala maior os arredores de Fillinan, numa extensão de duzentos quilômetros. Soube então que a desgraça ocorrida no dia anterior não ficara restrita à área urbana de Fillinan, mas se estendia para o norte e o leste, numa extensão de cento e cinqüenta quilômetros. Apenas os subúrbios do lado sudoeste de Fillinan haviam escapado ao desastre. Era bem verdade que esta era a área mais densamente povoada. Assim, um milhão e meio de habitantes haviam dali desaparecido.
Do lado leste e norte da cidade vinha uma série de rios, dos quais o Finnestal era o maior. Em parte, a área era pantanosa. Flaring contou que em séculos passados haviam tentado drená-la. Mas ultimamente tinham desistido desse intento, para transformar a área num gigantesco parque natural. Fora da cidade de Fillinan só viviam umas cem pessoas.
Nesse mapa, a área atacada pelo inimigo apresentava o formato de um retângulo irregular. Havia quatro falhas de tamanho variável, que foram poupadas pelos inimigos.
Rous perguntou como fora possível determinar com tamanha exatidão os limites da área, uma vez que se tratava de regiões pouco povoadas.
O senhor ainda não soube? — perguntou Flaring em tom de espanto. — Não só os homens desapareceram, mas também os animais. Nas áreas atingidas pelo invisível não existe sequer uma larva de inseto. Toda a vida orgânica desapareceu, com exceção apenas, o que é de estranhar, das plantas.
Rous acenou com a cabeça; parecia pensativo. Lloyd, que se encontrava a seu lado, fitava o mapa.
Não parece absurdo? — perguntou em voz baixa.
Rous deu de ombros.
Talvez o inimigo nem esteja interessado em fazer desaparecer muitas pessoas. Quem sabe se seu objetivo não é outro? Por enquanto não sabemos — concluiu.
Naquele momento entrou um ordenança, para informar Flaring de que a análise do pente de plástico que Rous entregara para ser examinado já estava concluída.
Foi muito rápido — elogiou Rous. — Deixe-me ver.
O ordenança entregou-lhe o relatório da análise. Rous pôs-se a ler. Flaring também leu. Constatou-se que a composição química e a estrutura molecular daquela peça de plástico não sofreram a menor alteração. Nada havia acontecido com o objeto.
Um momento — pediu Flaring. — Aqui embaixo ainda há uma observação. — Sabe o que vem a ser uma análise etária?
Sei. Procuraram determinar a idade do objeto. Qual foi o método?
Qualquer matéria orgânica contém certa quantidade de isótopos radiativos. São isótopos do sexto elemento...
Do carbono! — interrompeu-o Rous apressadamente.
Fizeram uma análise do C14 — disse Lloyd em inglês, dirigindo-se a Rosita.
Depois virou-se para Flaring e perguntou:
Qual foi o resultado?
Do isótopo mencionado sobra apenas uma pequena fração da concentração primitiva. Em compensação o elemento subseqüente foi aumentado na mesma proporção...
Um momento! — pediu Rous. — Há quanto tempo este tipo de plástico é fabricado em Mirsal?
Flaring refletiu.
Há cerca de quarenta anos, acredito.
Rous tornava-se cada vez mais nervoso.
Caminhou de um lado para outro, de cabeça baixa, e murmurou em inglês:
Numa matéria plástica cristalina a substituição do C14 é praticamente impossível. Acontece que a parte desse isótopo que pode desaparecer dentro de quarenta anos é insignificante. Provavelmente a idade de quarenta anos nem poderia ser determinada por meio desse método. Aquilo que sucedeu com o C14 deve ter acontecido no espaço de tempo durante o qual a “parede” tremeluzente passou pelo objeto.
Parou à frente de Flaring.
Até aqui tudo entendido — constatou. — Qual foi a idade que se constatou?
Flaring olhou para o bilhete trazido pelo ordenança. Uma expressão de incredulidade surgiu em seu rosto.
Cerca de vinte mil anos — respondeu com a voz insegura.
Rous ergueu as sobrancelhas.
Será que os métodos de análise usados neste planeta são fidedignos?
Flaring dobrou o indicador direito.
Justamente este método foi experimentado numa série de amostras cuja idade exata era conhecida. Não acredito que tenha havido um erro.
Rous virou-se para Rosita e Lloyd.
Dali se conclui — disse, falando em mirsalês, para que Flaring também o pudesse compreender — que nos instantes em que a “parede” passou pela Alameda dos Reis, vinte mil anos passaram por esta peça de plástico.
5



Era um aspecto surpreendente, mas em última análise não passava de mais um elo da corrente que, no seu todo, significaria a solução do mistério que cercava o inimigo invisível.
Flaring não sabia o que fazer com aquilo.
Pouco entendia das coisas misteriosas que havia no Universo. Sua raça mal começara a conquistar o espaço nas imediações de seu mundo.
Rous esforçou-se para tranqüilizar Flaring. Procurou explicar que a peça de plástico de vinte mil anos poderia perfeitamente ter adquirido essa idade de forma “normal”.
Nesse caso — objetou Flaring — toda a matéria que se encontrava na área de ataque do inimigo deveria ter envelhecido na mesma proporção.
Rous balançou a mão.
Não se pode afirmar isto. Por que teria envelhecido na mesma proporção? Não há dúvida de que tudo envelheceu, mas por enquanto nada podemos dizer sobre a proporção do envelhecimento.
Pois bem — concordou Flaring. — Digamos que a casa na qual nos encontramos tenha envelhecido em mil anos, em vez de vinte mil. Não acha que apesar disso já deveria ter ruído?
Não senhor! O senhor está confundindo as coisas: o envelhecimento do material, provocado por uma solicitação ininterrupta, com o envelhecimento representado pela simples passagem do tempo. Nos vinte mil anos que se passaram sobre esta peça de plástico, a mesma não esteve submetida a qualquer tipo de solicitação. Pelo que se lê aqui, sua estrutura é exatamente a mesma de antes. E a mesma coisa aconteceu com o outro material. Não se preocupe: os edifícios de Fillinan não vão ruir em série. Mas o senhor me deu uma idéia.
Que idéia foi essa? — perguntou Flaring.
Mande seus homens procurarem nas áreas atingidas amostras de peças cuja idade possa ser determinada por meio de uma análise. Preciso do maior número possível de amostras, recolhidas nos pontos mais diversos. Quero registrar neste mapa qual foi o envelhecimento que o ataque produziu em cada ponto. Será que pode começar logo?
Flaring concordou.

* * *

Alguns dias se passaram sem que em Mirsal se registrasse outro ataque do invisível. Enquanto isso os homens de Flaring recolheram, nas áreas atingidas, peças de plástico, de madeira e de outro material, que foram analisadas imediatamente.
O quarto de Rous transformou-se numa espécie de quartel-general. Depois de catalogadas, todas as informações foram registradas ponto por ponto nos mapas.
Depois de obtidos os resultados de cem análises; Rous percebeu como seria o quadro final. Os pontos correspondentes à mesma idade formavam uma linha paralela ao limite exterior da área de ataque. A idade aumentava, à medida que se avançava de fora para dentro. O conjunto tinha o aspecto de um mapa marítimo em que as profundidades estivessem registradas por meio de linhas. Porém, nas linhas desenhadas por Rous estava anotada uma idade, não uma profundidade. Os objetos recolhidos na periferia da área de ataque praticamente não haviam sofrido qualquer envelhecimento. Já no centro da área o envelhecimento era de muitos séculos. Num ponto situado a oeste de Fillinan, onde fora realizado o primeiro ataque, o enfraquecimento molecular era de 50 mil anos. Na área urbana de Fillinan, alvo do segundo ataque, atingiu a 33 mil anos.
Havia um fato estranho. No centro da área situada a oeste de Fillinan, entre esta cidade e Resaz, havia uma espécie de ilha; a idade das peças recolhidas na mesma foi avaliada em cerca de oitenta a cem mil anos. De início Rous acreditou se tratar de um erro de análise, mas Lloyd acabou achando a solução.
Está lembrado dos passageiros do ônibus no qual viemos? Na verdade, houve dois ataques nessa área: um de manhã, quando estávamos chegando a Keyloghal, e outro na noite seguinte, quando estávamos viajando naquele ônibus. Dali se conclui que as peças recolhidas passaram por dois processos de envelhecimento. E as respectivas idades se somam. É por isso que os números são tão elevados.
A explicação era plausível. No mapa via-se que o ataque, durante o qual os passageiros do ônibus haviam desaparecido, só se estendera a uma área de menos de três quilômetros quadrados.
Depois que Rous havia desenhado em seus mapas um número de linhas que lhe permitia obter uma visão de conjunto, Flaring foi avisado de que seus homens poderiam suspender o trabalho de coleta.
Por enquanto não podemos fazer mais nada”, pensou Rous de forma conclusiva.

* * *

Será que um dia conseguiremos solucionar o problema? — perguntou Rosita.
Sua voz parecia desanimada.
Haviam terminado o trabalho do dia e feito um ligeiro jantar com conservas mirsalenses. Estavam sentados junto à grande janela do quarto de Rous, que dava para o sul.
A polícia já voltara a colocar em funcionamento uma usina de eletricidade. Havia luz: uma fraca luminosidade cobria os subúrbios do sudoeste da cidade.
Rous, Lloyd e a psicóloga estavam cada qual mergulhado nos próprios pensamentos.
Conseguiremos — respondeu Rous em tom convicto.
Por que se sente tão confiante?
Por ser um terrano — respondeu Rous. — Há sessenta anos vimos lidando com problemas de toda espécie, e nenhum deles deixou de ser resolvido.
Rosita suspirou.
Bem que gostaria de ter seu otimismo.
Aguarde o próximo ataque — interveio Lloyd. — Cada vez que o inimigo entra em ação, avançamos um pedaço. Se considerarmos que nos encontramos em Mirsal apenas há dez dias, já sabemos muita coisa.
Acontece que não temos a mais ligeira idéia de quem seja o inimigo invisível e quais suas intenções — respondeu Rosita. — Sou de opinião de que na verdade aquilo que designamos como ataques nem são ataques. As áreas atingidas, sua conformação, o número de homens e animais desaparecidos, tudo isso foi escolhido ao acaso? Não consigo enxergar uma finalidade definida atrás disso.
Rous refletiu por um instante e disse:
O senhor se esquece de uma coisa. Se a finalidade do inimigo consiste apenas em espalhar a confusão, ele pode perfeitamente agir ao acaso, como está fazendo.
Pode ser — disse Rosita. — Mas quem se lançaria num esforço destes apenas para espalhar a confusão?
Não sabemos. Mas diga-me uma coisa: na sua opinião, de que se trata?
Não tenho a menor idéia. Apenas acredito não se tratar de ação planejada, mas de uma série de fenômenos casuais.
Nunca se deve desprezar a intuição feminina. Muitas vezes esta consegue compreender em poucos segundos aquilo que o homem só descobre depois de várias horas de reflexão. Mas acho que neste caso você está enganada. Tenho certeza de que ainda descobriremos a finalidade que o inimigo persegue com sua estranha atuação — concluiu Rous.
Rosita levantou-se.
Tomara — disse com uma risada. — Mas acho que até lá ainda vamos dormir um pouco. Boa noite.
Fico pensando — principiou Lloyd de repente — se não poderíamos...
Interrompeu-se no meio da frase.
O que foi isso?
Rous levantou-se de um salto.
Alguém gritou. Escute... agora está tudo quieto. Vamos!
Correram para fora e desceram rapidamente pela escada. No primeiro pavimento estavam os policiais de Flaring. Formavam grupos e observavam o comissário que, olhando para o chão, avançava cautelosamente em direção ao fundo do corredor. Lá não havia ninguém.
Flaring! O que houve? — perguntou Rous.
Flaring ergueu-se e parou.
Dez dos meus guardas desapareceram — respondeu.
Desapareceram?
Flaring levantou a mão.
Isso mesmo. Quando um deles, ao tentar entrar por aquela porta, tornou-se transparente e desapareceu, um outro gritou de susto; acho que o senhor ouviu.
O que está fazendo por aí?
Flaring dobrou o indicador.
Quero verificar se ainda existe algum perigo.
Espere!
Rous passou pelos homens exaltados, que se mantinham em atitude de espera, e penetrou no corredor. Foi até o fim, onde uma ampla escada levava ao térreo, e voltou.
Já verificou o que há nos quartos? — perguntou, dirigindo-se a Flaring.
Já.
Quais são os quartos?
Flaring apontou para três portas no fundo do corredor.
E do lado esquerdo?
Ali todos os quartos estavam desocupados.
O que aconteceu do lado direito?
Pois é isso — lamentou-se Flaring. — Do lado direito todos os quartos estão ocupados com os escritórios; são quatorze ao todo. Os três primeiros estão totalmente vazios; nos onze restantes não aconteceu nada.
Rous abriu a porta de um dos quartos dos quais os guardas haviam desaparecido. Apenas viu um recinto mobiliado provisoriamente com quatro leitos. Dois deles não haviam sido tocados.
Os dois estavam de folga. Devem ter desaparecido dentro das camas! — disse o comissário um tanto aturdido.
Antes que Flaring passasse a ocupar o quarto com seu estado-maior, Rous o examinou.
Provavelmente não era diferente daqueles que ficavam no pavimento superior”, pensou o tenente.
Logo em seguida, Rous teve uma idéia terrível e saiu correndo.
Lloyd! — gritou. — Vamos ver o que aconteceu com Rosita.
Correram escada acima, passaram pelo corredor e pararam diante da porta do quarto de Rosita. Rous bateu, enquanto Lloyd procurava ouvir o que se passava do lado de dentro.
Não houve resposta. Lloyd sacudiu a cabeça.
Não está lá dentro — afirmou.
Rous não perdeu mais tempo. A porta não estava trancada. Abriu-a, entrou no quarto e acendeu a luz.
Não encontrou Rosita. Sua cama não havia sido tocada. Rous revistou os quartos contíguos, isto é, o seu e o de Lloyd. Tudo continuava como antes, mas não encontraram o menor sinal de Rosita.
Gritou seu nome com tamanha força que foi ouvido em todo o edifício; Rosita não respondeu. E nenhum dos homens de Flaring a havia visto.
Não havia a menor dúvida: Rosita desaparecera.
O inimigo atacara de novo, e desta vez mais um terrano fora vitimado pelo ataque.
Esse ataque diferia dos outros sob vários aspectos.
A diferença mais marcante foi a da área atingida pelo último ataque. Além de Rosita, só haviam desaparecido mais dez pessoas, cuja ausência foi notada por Flaring, e isso pelo simples motivo de que além do limite entre os quartos quatorze e quinze só havia essas dez pessoas e a psicóloga.
Rous mandou realizar às pressas algumas análises etárias e constatou que a idade dos objetos era cerca de três mil anos superior à que tinham antes do grande ataque a Fillinan.
Dessa forma conseguiram delimitar a área atingida pelo quarto ataque. Tinha o formato de um bloco de cerca de vinte metros de altura, indo do subsolo do edifício ao terceiro pavimento. A extensão e a espessura do bloco, dez metros cada.
Dentro dessa área ficavam os três quartos ocupados pelos policiais, e os de Lloyd e Rosita. Ao saber disso, Lloyd cocou a cabeça e resmungou:
Ainda bem que naquele momento me encontrava no seu quarto.
Rous não se deu por satisfeito com as pesquisas superficiais já feitas e mandou realizar outras investigações. Sabia que em condições normais um terrano não seria atingido pelos ataques que o inimigo vinha desencadeando em Mirsal II. Afinal, por três vezes haviam escapado a um ataque desses sem que enfrentassem o menor problema.
Por que será que desta vez Rosita não escapou?”, indagou-se mentalmente.
Uma investigação mais exata trouxe resultados interessantes. O quarto de Rosita ficava aproximadamente no centro do bloco que fora atingido pelo ataque. Constatou-se que na periferia do bloco havia uma única linha etária, correspondente a três mil anos; por isso se chegara à conclusão de que o processo de envelhecimento fora uniforme dentro de todo o bloco.
Acontece que no quarto de Rosita havia muitos objetos que apresentavam idade mais elevada. Ao examinar o encosto de uma cadeira, verificou-se que todo o carbono havia desaparecido da madeira. Mas, como os analistas tivessem certeza de que deveriam encontrar ao menos um décimo-milionésimo da quantidade primitiva de C14, chegou-se à conclusão de que o envelhecimento deveria ser superior a cento e trinta mil anos. Por isso Rous ordenou uma análise do conteúdo de C14, que revelou que o envelhecimento do encosto da cadeira chegava a aproximadamente três milhões de anos.
Rous achou que a solução do enigma estava ali. Evidentemente o grau de envelhecimento verificado dentro dos vários setores da área de ataque dependia da violência com que o mesmo fosse levado a efeito. Nos casos anteriores registrou-se um envelhecimento de até cem mil anos, enquanto no último ataque este atingiu trinta vezes esse valor. Evidentemente essa intensidade seria suficiente para fazer desaparecer até mesmo um terrano.
Dali resultaram novos problemas. Depois do primeiro ataque lançado contra Mirsal II, Rous tinha certeza de que ele e seus companheiros estavam por assim dizer imunes ao desaparecimento. Acreditara que poderiam mover-se sem preocupação e realizar suas investigações mesmo em qualquer lugar onde um mirsalense corresse perigo de desaparecer de um instante para outro.
Agora já não era assim. O inimigo dispunha de reservas energéticas que poderiam representar um perigo até mesmo para um terrano.
Rous sabia o que devia fazer.
Não podemos esperar mais — disse, dirigindo-se a Lloyd. — Devemos tomar uma iniciativa.
Lloyd concordou.
Deve estar lembrado — disse — que aludi a uma idéia que tive antes que Miss Peres desaparecesse?
Não. Que idéia foi essa?
Calculei que nosso gerador de campo defensivo pode absorver um suprimento energético de até vinte megawatts. Se conseguíssemos fazê-lo funcionar com esse suprimento...
...poderíamos eventualmente transformar nosso sistema de lentes num meio de transporte? — concluiu Lloyd, fazendo um gesto afirmativo.
Vamos tentar — respondeu Rous. — Pediremos a Flaring que coloque à nossa disposição uma de suas usinas energéticas.
Puseram-se a caminho.
Flaring e seus colaboradores logo se mostraram dispostos a atender ao pedido. Mais três usinas de eletricidade da cidade de Fillinan foram reativadas. Marcel Rous teve os vinte megawatts que estava pedindo.
A ligação com o gerador de campo defensivo foi providenciada por Lloyd e ele, que a completaram dentro de poucas horas. Depois estavam preparados para centuplicar a força do pequeno aparelho. Se suas suposições fossem corretas, com isso a potência das lentes do campo defensivo também cresceria cem vezes. Segundo pensava Lloyd, uma lente que tivesse essa potência poderia ser capaz de transportar outra coisa além da luz.
Só Flaring se encontrava presente quando Lloyd e Rous iniciaram a experiência decisiva. Antes explicaram-na a Flaring em ligeiras palavras.
Lloyd sentara diante da mesa em que estava instalado o gerador. Rous estava atrás do círculo luminoso que continuava a desenhar-se aproximadamente no centro do quarto, e olhou através do mesmo.
Aumente lentamente o desempenho! — ordenou.
Lloyd obedeceu. A corrente fornecida pelos cabos das usinas de eletricidade passou a percorrer o gerador. O ponteiro do medidor que Lloyd intercalara antes do gerador começou a subir.
Mas o quadro que Rous via através do círculo luminoso não se modificou.
Dê-lhe mais! — ordenou Rous.
Quando Lloyd ultrapassou, o limite do megawatt, o quadro começou a desmanchar-se. Rous pediu que Lloyd parasse e fez um reajuste.
Isso se repetiu várias vezes. O aumento do desempenho também ia modificando a distância focal das duas lentes, motivo por que de quando em quando se tornava necessário um reajuste.
Finalmente toda a energia fornecida pelas usinas passou pelo pequeno gerador. Chegara-se à regulagem final. Lloyd reclinou-se na poltrona e suspirou:
Pronto! Podemos começar.
Rous dirigiu-se a outra mesa, sobre a qual estavam guardados vários objetos de diversos tamanhos, destinados às experiências. O primeiro deles, e o menor, era um maço de cigarros, igual ao que usara na primeira experiência realizada dias atrás, e que não fora bem sucedida.
Lloyd virou a cabeça e observou o círculo luminoso do lado da janela.
Atenção! — disse Rous. — Vou começar.
Levantou a mão e jogou o maço de cigarros contra o círculo luminoso, a uma distância de cinqüenta centímetros. Teve a impressão de que o objeto hesitava em penetrar nesse círculo...
Por um instantezinho uma força invisível parecia detê-lo...
Subitamente desapareceu.
Lloyd, que se encontrava do outro lado do círculo luminoso, soltou uma expressão de surpresa.
A caixa desapareceu! — exclamou.
Rous suspirou aliviado. A experiência fora bem sucedida. Aproximou-se do círculo para ver se conseguia descobrir o maço de cigarros que acabara de desaparecer. Não conseguiu, nem mesmo depois de envolver a cabeça em panos.
Era um mistério. Segundo sua suposição, o maço só deveria estar no lugar onde se podia olhar através do conjunto de lentes formado pelo campo defensivo.
Mas não foi o que aconteceu. O maço de cigarros desaparecera de vez.
É estranho... — murmurou Rous e tirou um objeto maior de cima da mesa.
Aconteceu a mesma coisa que acontecera com o maço de cigarros: o objeto desapareceu e não se conseguiu mais vê-lo.
Não estou gostando nem um pouco! — observou Lloyd. — Desse jeito será muito perigoso...
Um instante. Tenho uma idéia. Dê-me uma ajuda.
Além da cama havia no quarto de Lloyd um tipo de sofá. Tratava-se de uma espécie de leito sem encosto e sem braçadeira. Havia sido construído segundo as medidas dos mirsalenses; mal poderia passar pelo círculo luminoso.
O sofá ofereceu alguma resistência.
Vamos tomar um impulso! — disse Rous. — Tem de passar.
Com o estofamento para baixo e as pernas para cima, levantaram o sofá. Depois tomaram impulso a partir da parede do quarto. Rous, que segurava a parte da frente da peça, parou um pouco antes do círculo luminoso e deixou que o estofamento deslizasse sobre suas mãos. Lloyd continuava empurrando.
A resistência foi vencida. O sofá passou pelo círculo luminoso e desapareceu antes que Rous percebesse o que estava acontecendo.
Lloyd esfregou as mãos.
Agora devemos ver alguma coisa — disse.
Rous postou-se diante do círculo luminoso, colocou panos sobre a cabeça e pôs-se a observar. Ao primeiro relance de olhos, teve a impressão de que o quadro continuava inalterado; mas de repente...
Lloyd, venha cá! — ordenou Rous.
O mutante aproximou-se.
Cubra a cabeça com panos, de tal maneira que possamos olhar ao mesmo tempo.
Lloyd obedeceu.
O quadro sofreu alguma alteração? — perguntou Rous.
Não — respondeu Lloyd decepcionado.
Olhe com mais atenção.
Lloyd voltou a olhar mais detidamente.
Não — respondeu. — Não houve a menor modificação.
Está vendo esses pontinhos pretos?
Lloyd estreitou os olhos.
Acredita que eles representem alguma coisa? — perguntou. — Sempre acreditei que fossem defeitos da imagem.
Eu também — disse Rous. — Acontece que surgiu mais um ponto.
Lloyd fitou-o perplexo.
Como percebeu isso?
Já havia notado que os pontos que, segundo acreditávamos, eram defeitos da imagem, se acumulam na periferia do quadro; no centro não se vê um único deles. Observe com atenção.
Lloyd olhou atentamente.
Isso mesmo; agora por lá também existe um ponto. Acredita que seja o sofá?
Naturalmente. Dificilmente poderia ser outra coisa.
Mas este pontinho não é maior que um grãozinho de poeira! — exclamou Lloyd perplexo. — Dali se conclui...
Dali se conclui que cometemos um erro tremendo quanto às dimensões do quadro; apenas isto. As máquinas que vemos ali devem ter o tamanho de um arranha-céu.
Lloyd arregalou os olhos para ele.
Quer ir para lá?
Quero; imediatamente.
Atirou fora os panos.
O risco não é nada desprezível — disse em tom tranqüilo. — Mas acredito que poderá ser reduzido se o gerador permanecer ligado ininterruptamente. Flaring poderá providenciar para que não haja nenhuma oscilação de corrente e, principalmente, nenhuma interrupção. Por enquanto não tenho a menor idéia de como será o mundo do outro lado. Mas é bem possível que qualquer modificação na regulagem do gerador, por menor que seja, torne impossível encontrar o caminho de volta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html