Na Drusus
foi registrado outro fading
dos sinais emitidos pelos transmissores embutidos no corpo dos três
agentes. Tal qual o primeiro, não durou mais que três segundos.
Depois os sinais voltaram a ser recebidos normalmente.
Já o
emissor que se encontrava a bordo da Gazela não sofreu a menor
perturbação.
Rhodan
supôs que seus agentes tivessem entrado em contato com o inimigo
pela segunda vez. O fato de que depois do primeiro contato Rous não
transmitiu qualquer aviso levava à conclusão de que o incidente não
se revestira de maior importância.
Restava
saber se desta vez o caso seria o mesmo.
*
* *
— Por
que pensa assim? — perguntou Rous em tom tranqüilo.
Flaring
fez um sinal em direção às poltronas e disse:
— Sentem.
E não façam tolices.
Rous,
Lloyd e Rosita obedeceram.
— Os
senhores afirmam que vêm de Wollaston — principiou Flaring sem o
menor intróito. — Em Wollaston vivem grupos de pessoas não
civilizadas. Não acredito que qualquer dos senhores saiba guiar um
ônibus sem receber a necessária instrução. E se souber, conhece
as regras de trânsito e estaciona o veículo do lado esquerdo, não
do direito.
Rous
olhou-o atentamente.
— Muito
bem — respondeu. — São suas suposições. E como continua a
história?
— Desde
que houve a catástrofe no campo, todas as saídas da cidade foram
guarnecidas por duas fileiras de guardas. Ao virem de Resaz, os
senhores passaram sem incidentes pela segunda barreira, ou seja, a
interior; acontece que, por estranho que possa parecer, a barreira
externa não se lembra de tê-los visto passar.
Rous
levantou a mão direita, em sinal de concordância.
— Se a
memória dos seus guardas é tão fraca, a culpa não é nossa —
disse.
Flaring
sorriu.
— A
memória deles não é fraca coisa alguma. Além disso, ainda não
cheguei ao fim. Os senhores estiveram na cidade, hoje de tarde,
quando aconteceu o desastre. E são os únicos que não foram
atingidos. Pode dar alguma explicação desse fato?
Rous
baixou a mão.
— Não
posso — confessou. — Apenas nos sentimos gratos por termos
escapado.
Flaring
tornou-se mais sério.
— Quer
dizer que não mantém a afirmativa de que por ocasião do desastre
se encontrava na ponte de Finnestal?
Rous ficou
perplexo.
— O quê?
Já sabe disso?
— Sim,
já sei disso, e também sei que, contrariando todas as regras de
etiqueta observadas em Wollaston, os senhores não cumprimentaram o
guarda que os tratou com tamanha amabilidade.
Rous olhou
para o chão.
— Preste
atenção — prosseguiu Flaring. — Já somos bastante evoluídos
para perceber que os senhores não são deste mundo. Nossa raça
encontra-se no estágio inicial da Astronáutica. Provavelmente a sua
já ultrapassou esse estágio. Resolveram atacar Mirsal; não sabemos
por quê. Até agora não fizemos mal a nenhuma raça estranha, pois
nem dispúnhamos de meios para isso.
“Portanto,
não sabemos o que têm contra nós. Se soubéssemos, talvez
poderíamos aplacar a raiva que evidentemente sentem por nós,
evitando que nosso povo desaparecesse aos milhões.
“Não há
nada que desejemos tanto como estabelecer uma paz em bases razoáveis
com os senhores. Faremos o que estiver ao nosso alcance; apenas, não
queremos que desapareça mais gente.
“Mirsal
tem cerca de três bilhões de habitantes. Nos últimos dias cerca de
dois milhões desapareceram. Não queremos que dentro de cinco ou dez
anos nosso mundo fique totalmente desabitado.”
Rous
ouvira com toda atenção. Depois olhou para cima, fitando Flaring, e
perguntou:
— O
senhor está autorizado a entabular negociações?
Flaring
viu-se mais próximo ao objetivo.
— Sim,
naturalmente. O senhor deseja...?
Rous fez
um gesto negativo e levantou-se.
— Guarde
isso! — disse em inglês, dirigindo-se a Lloyd.
Lloyd
guardou o projetor mental na pasta.
Rous deu
alguns passos. Subitamente parou e virou-se para Flaring.
— O
senhor é um homem sincero, Flaring. Por isso usarei de toda
franqueza. É bem verdade que terei que decepcioná-lo. Não somos
quem o senhor acredita que sejamos. Somos estranhos, mas não somos
responsáveis pelo desaparecimento de dois milhões de habitantes do
planeta. Nem nós, nem qualquer membro de nossa raça.
Lançou um
olhar penetrante para Flaring. Este retribuiu com uma expressão
pensativa. Finalmente levantou a mão direita, em sinal de
concordância.
— Logo
vi que não confiariam em nós — disse em tom abatido.
Rous
sacudiu a cabeça e nem se deu conta de que Flaring não compreendia
o gesto, que era de origem terrana.
— O
senhor está enganado, Flaring! — disse em tom enérgico.
Explicou-lhe
tudo que o policial precisava saber para compreender a situação dos
três terranos. Calou aquilo que não podia revelar, como por exemplo
os dados sobre seu mundo de origem, o nome e a posição. Também não
revelou o papel que o Império Solar desempenhava no jogo do poder
galáctico. Era claro que não podia deixar de explicar que na
Galáxia existiam vários blocos de potências e grupos de interesse.
A
exposição de Rous durou cerca de quinze minutos. Ao concluir,
disse:
— O pior
erro que poderia cometer seria tratar-nos como inimigos. Dispomos de
recursos face aos quais seu equipamento mais moderno equivale aos
machados da Idade da Pedra. Se é que existe alguém que pode
localizar o inimigo invisível, somos nós. E o senhor se privaria
dessa chance, se nos causasse problemas.
Via-se que
ainda faltava muito para convencer Flaring.
— Diga-me
uma coisa — pediu. — Que interesse poderia ter sua raça nos
acontecimentos que se desenrolam em Mirsal? O senhor confessa que por
duas vezes se viu numa situação na qual meus patrícios
desapareceram, enquanto nada aconteceu aos senhores. Por que
demonstram tanto interesse por esses ataques, se os mesmos não são
dirigidos contra os senhores?
Um sorriso
surgiu no rosto de Rous.
— É uma
boa pergunta — confessou. — Não acredite que estamos agindo
apenas por amor ao próximo. Um dos fatores principais que
consideramos ao agir desta maneira é o fato de que qualquer um que
queira manter-se na Galáxia deve estar a par do que acontece no
interior dela. Tem de conhecer seus inimigos em potencial. Quando se
depara com um fenômeno que não o atinge diretamente, não pode
fechar os olhos; deve procurar desvendar o mistério. Se não o
fizer, poderá perfeitamente ser a próxima vítima do desconhecido.
Quem não colhe em tempo as informações de que precisa, não terá
elementos para defender-se. Compreendeu?
— Compreendi
— limitou-se Flaring a responder.
— Muito
bem. Ainda acontece que somos uma raça que gosta de ajudar os
outros. Se pudermos fazer alguma coisa para impedir que esses
desconhecidos exterminem sua raça, nós o faremos. Mas para isso
torna-se necessário que os senhores não nos criem problemas.
Lançou um
olhar indagador para Flaring. Este hesitou um instante e respondeu:
— Não
estou autorizado a decidir sobre isso. Terei de expor a uma
autoridade hierarquicamente superior o que acabo de ouvir, e ela
decidirá. A única coisa que posso fazer para facilitá-los —
disse com um ligeiro sorriso — é não os colocar sob guarda.
Prometem não sair da cidade?
Rous
levantou a mão direita.
— Garanto.
— Muito
bem. Informá-lo-ei o mais cedo possível sobre a decisão que for
tomada.
Despediu-se
com a maior cortesia. E nenhum dos seus subordinados saiu sem
despedir-se dos estranhos.
Lá fora a
noite descia sobre a cidade. Escureceu. Não havia uma única luz
acesa. A polícia tinha muita coisa para fazer; não iria mandar seus
homens guarnecerem as usinas de eletricidade.
4
Lloyd e
Rosita já se haviam retirado para seus quartos. Rous redigiu um
relatório codificado sobre o que vira em Mirsal, relato este que
pretendia transmitir à Drusus. Aludia às negociações realizadas
com Flaring. O tenente pediu também o consentimento de Rhodan para a
ação que pretendia realizar.
Depois de
pronto, o relatório, formado por cerca de três mil palavras, estava
resumido a uma série de pequeninos buracos abertos numa placa de
plástico que poderia ser escondida na mão de uma pessoa.
Rous saiu
à procura de Lloyd, que trazia o microcomunicador na pasta.
Atravessou
o quarto de Rosita, que estava de pé, olhando pela janela. Ela não
se virou à entrada de Rous, mas este ouviu-a dizer:
— Há um
silêncio terrível por aí!
Rous foi à
janela e colocou-se a seu lado. Não se via nada, nem mesmo a fachada
dos prédios que ficavam do lado oposto da rua.
Cerca de
um milhão e meio de pessoas haviam sido vitimadas pelo segundo
ataque do inimigo invisível. Este número fora indicado por Flaring.
“Um
milhão e meio de pessoas desapareceram de uma hora para outra da
superfície deste mundo. Por quê? Qual será a finalidade disso?”,
pensou o tenente.
Rous
fervia de raiva ao pensar na desgraça.
— Espere!
— disse. — Nós os agarraremos.
Rosita não
respondeu. Rous saiu da janela e dirigiu-se à porta do quarto de
Lloyd.
Quando
entrou, viu-se envolvido por uma luz forte. Rous viu-se ofuscado, mas
logo constatou que a claridade iluminava o quarto de Lloyd quase por
igual e parecia vir de todas as direções. Parecia que tinha vindo
de um quarto às escuras e entrado num outro que recebia a luz do sol
por um grande número de janelas.
Rosita
também percebeu quando a luminosidade penetrou pela porta.
Lloyd
trabalhava em meio à claridade; ao que parecia, estava muito
ocupado.
— O que
é isso? — exclamou Rous. — O que andou fazendo?
Lloyd
parou.
— Por
enquanto não sei — respondeu um tanto contrariado. — Andei
mexendo um pouco nisto, e de repente apareceu a luz.
— Andou
mexendo em quê?
— No
gerador do campo defensivo. Rous sentiu-se perplexo. Na pasta de
Lloyd havia uma porção de objetos capazes de produzir luz. A
iluminação de emergência da qual Rous se valera para confeccionar
a chapa de plástico com o relatório destinado à Drusus também
provinha dessa pasta. Mas de todos os objetos que Lloyd carregava, o
gerador de campo defensivo era aquele do qual menos se esperava que
pudesse ser usado como fonte de luz.
Rous e
Rosita entraram e fecharam a porta atrás de si. Rous sentou-se numa
poltrona.
— Explique!
— pediu a Lloyd.
Lloyd
passou a mão pela testa, como se tivesse necessidade de refletir.
— Deve
estar lembrado de como salvamos aquele mirsalense na Alameda dos Reis
— principiou. — Bem, desmontei o gerador para verificar se o
campo defensivo poderia ser reforçado; para isso talvez se pudesse
ligar o aparelho a uma fonte externa de energia. Como sabe, em
princípio isso é possível. Só resta saber que volume de energia o
pequeno aparelho pode absorver e utilizar.
— E
depois? — perguntou Rous.
Lloyd deu
de ombros.
— Depois
não sei mais nada. Retirei algumas células e as liguei de forma
diferente. Subitamente o quarto se iluminou. Não faço a menor idéia
sobre a causa do fenômeno.
Rous
levantou-se de um salto.
— Onde
está?
Lloyd
apontou para a mesa.
Rous
aproximou-se cautelosamente do pequeno gerador. Não era maior que um
maço de cigarros. Lloyd havia retirado a tampa e mexera no
complicado mecanismo com uma pinça de soldar.
Lloyd era
técnico. Além da sua extraordinária capacidade parapsicológica,
possuía conhecimentos quase completos sobre todos os problemas
eletrônicos e gravitomecânicos que devem ser considerados na
construção de geradores de campos defensivos e numa série de
outros aparelhos.
Neste
ponto o tenente não ficava nada a dever a Lloyd. Na Academia
realizara cursos de Eletrônica e Gravitomecânica.
Era
versado no assunto e, ao primeiro relance de olhos, percebeu quais
haviam sido as modificações que o mutante introduzira no pequenino
mecanismo.
Examinou
as soldas novas e repassou em sua mente os circuitos modificados.
Repetiu a experiência e chegou ao mesmo resultado.
Lloyd
estava parado atrás dele, olhando por cima de seu ombro.
— O
senhor sabe o que acaba de fazer? — perguntou Rous.
Lloyd fez
que sim.
— Ao que
parece, apenas modifiquei o formato do campo defensivo.
— Exatamente.
O gerador produz um campo defensivo esférico, de raio variável e
limitado. E agora...
— Agora
é apenas um campo anular — completou Lloyd.
— Isso
mesmo. Um campo anular, cuja situação ainda não conhecemos.
Prosseguiu
na experiência. Ao que parecia, estava encontrando o que procurava.
Pediu a pinça de soldar, fez algumas modificações, regulou o botão
que havia na parte da frente do aparelho e olhou várias vezes em
torno.
— Procuro
localizar o campo — explicou. — Agora tem a forma de anel, não
de esfera; acontece que não sabemos onde fica esse anel.
Continuou
a trabalhar. De repente, Rosita, que também se encontrava no quarto,
soltou um grito de surpresa.
— Olhem!
Ali, na janela...
Rous
levantou a cabeça.
Junto à
janela surgira uma mancha circular de luminosidade branco-azulada.
Para além do círculo reinava uma escuridão completa. A luz que
penetrava no quarto provinha exclusivamente dali.
— É
estranho — murmurou Rous.
— Pensei
que fosse um campo anular — disse Lloyd. — Acontece que isso não
é um anel, mas um círculo.
Rous
sacudiu a cabeça.
— Tolice.
O que o senhor está vendo não é o campo, mas uma luz pura e
simples. O campo é invisível. Estende-se em torno desse círculo de
luz.
Rosita
estava curiosa.
— De
onde vem a luz?
— Bem
que eu gostaria de saber — respondeu o mutante.
Por alguns
minutos Rous fitou atentamente a mancha circular de luz. Subitamente
estremeceu, como se acabasse de lembrar-se de algo importante, e
pôs-se a trabalhar que nem um louco.
Lloyd e
Rosita viram a mancha de luz diminuir; enquanto isso, a luz aumentava
de intensidade e a iluminação já não era tão uniforme em todos
os cantos do aposento.
Depois de
algum tempo, o círculo, que de início medira uns setenta
centímetros de diâmetro, se transformou num ponto de luminosidade
muito concentrado.
Enquanto
Rous continuava a trabalhar, o ponto voltou a estender-se. Rous
percebeu a alteração e continuou a girar botões, fazer ligações
e soldar peças até que o ponto voltasse a surgir sobre a vidraça.
Depois
disso levantou-se.
— Aí
está! — disse. — Sabe o que é isso?
Apontou
para o ponto luminoso.
Lloyd
sacudiu a cabeça.
— É
claro que eu também não sei — confessou Rous. — Mas tenho uma
hipótese. Suponho que nosso campo circular desempenha por assim
dizer as funções de lente. Concentra em seu foco os raios de luz
emitidos por um objeto muito distante.
Lloyd
olhou-o sem compreender nada.
— Que
luz é esta? De onde vem?
Rous cocou
a cabeça.
— Aí
que está o grande mistério. No momento em que desligo o gerador, a
luz desaparece. Logo, não está em nosso espaço.
— Essa
conversa é muito metafísica — resmungou Lloyd em tom irreverente.
— Em que espaço poderia estar?
Entusiasmado
com sua descoberta, Rous deu-lhe uma pancadinha amistosa.
— Não
se esqueça de que nunca conseguimos ver os desconhecidos quando os
mesmos se lançaram ao ataque! — exclamou. — Eram invisíveis. Se
o senhor acha que a explicação baseada nos dois espaços
diferentes, em que nós e os estranhos existimos, é complicada
demais, basta imaginar que descobrimos um meio de destruir a
invisibilidade desses seres.
“A
realidade é a seguinte: o campo anular, com suas funções de lente,
produz uma instabilidade na estrutura de nosso espaço. Essa
instabilidade estabelece uma ponte entre dois contínuos: a luz pode
passar de um ao outro.”
Lloyd fez
um gesto afirmativo.
— Muito
bem. Acho que estou compreendendo. E daí?
Rous
apontou para o ponto luminoso.
— O que
estamos vendo é uma imagem. Uma imagem de qualquer objeto que se
encontra naquele outro espaço. Se pegarmos uma lupa para ampliá-la,
poderemos ver o objeto.
— Pois
bem; vamos pegar uma lupa.
Rous fez
um gesto negativo.
— Uma
lupa seria apenas outra lente. Se a primeira lente é formada por um
campo defensivo anular, a outra deverá ter as mesmas
características. Tudo que temos de fazer é dissociar o círculo
produzido pelo gerador em duas partes, a fim de que o mesmo produza
dois campos anulares. Um deles servirá de objetiva, outro como
projetor.
Olhou para
trás.
— Ali
temos uma grande parede branca. Se tivermos sorte, poderemos
projetar-lhe a imagem.
Lloyd
compreendera. Os dois começaram a trabalhar febrilmente no gerador.
Rosita contemplava-os com os olhos curiosos, mas sem o menor
conhecimento da matéria. Não sabia o que dizer de tudo isso.
— Sempre
pensei — começou — que uma lente fosse feita de vidro. Será que
não é?
Rous
soltou uma risada.
— Geralmente
são — disse. — Mas há cem anos os microscópios eletrônicos já
tinham lentes feitas de campos elétricos ou magnéticos. Por isso um
campo defensivo pode perfeitamente servir de lente.
— Está
bem — disse Rosita. — Não entendo nada disso. Estou curiosa para
ver o feitiço que sairá daí.
Face à
atividade extraordinária de Lloyd e Rous só demorou meia hora até
que um segundo círculo surgisse no meio do quarto. Mal se destacava
da claridade ali reinante, e era maior do que o primeiro fora em
qualquer momento. Rosita chamou a atenção dos dois homens sobre o
fato.
— Muito
bem! — exclamou Rous. — Esta é a ocular. Agora vamos girar até
que...
Interrompeu-se
em meio à frase, refletiu um pouco e bateu com a mão contra a
testa.
— Que
idiota que eu sou. Com uma ocular não se pode produzir uma imagem
real. Para projetar precisamos de uma terceira lente. E o gerador não
conseguirá formá-la. Portanto, devemos partir para a observação
direta.
Colocou-se
de tal maneira que o círculo que pairava no meio do quarto ficava
entre ele e a janela.
— Apenas
vejo claridade — disse um tanto decepcionado. — Gire o
potenciômetro, Lloyd.
Lloyd
começou a girar o pequeno botão. Rous olhava intensamente para o
círculo luminoso.
— Pare!
— gritou de repente. — Marque a posição, Lloyd!
Lloyd fez
um pequeno arranhão na placa fronteiriça do aparelho, a fim de
marcar a posição do potenciômetro. Rous fez mais alguns pedidos:
— Rosita,
traga alguns panos e pendure-os sobre minha cabeça. A luz espalhada
pelo quarto atrapalha minhas observações.
Rosita
trouxe os panos.
Com a
cabeça envolta nos mesmos, de tal maneira que apenas o círculo
luminoso ficava à vista, Rous olhava fixamente para a frente, sem
dizer uma palavra.
Só dali a
uns dez ou quinze minutos, recuou e os deixou cair.
— Dê
uma olhada — disse, dirigindo-se a Lloyd. — Não há dúvida de
que é uma imagem; mas não faço a menor idéia do que seja.
Rosita não
conseguiu dominar mais a curiosidade e perguntou:
— O que
é que a gente vê?
Lloyd
descreveu o quadro:
— Vê-se
uma superfície ampla e plana. Nessa superfície estão espalhados ao
acaso vários objetos escuros. A imagem é colorida. Mas, ao que
parece, as cores não são muito numerosas. Os objetos escuros...
bem, talvez sejam máquinas; não sei.
— Alguma
coisa se move? — perguntou Rosita.
— Não.
Está tudo parado. A imagem dá a impressão de fotografia. Não vejo
nenhum... um momento, o que é isso? — calou-se por um instante e
prosseguiu em tom exaltado: — Agora houve um movimento. A imagem se
moveu em conjunto. Parece que alguém a aumentou. Os objetos escuros
tornaram-se maiores; realmente são máquinas.
Nesse
instante, as observações do mutante foram interrompidas sem a menor
contemplação. Rosita não conseguiu dominar a curiosidade: arrancou
os panos que também lhe envolviam a cabeça, empurrou-o para o lado
e colocou-se à frente do círculo.
Rous e
Lloyd deixaram-na à vontade. Por alguns minutos Rosita manteve-se
imóvel e em silêncio, contemplando a imagem. Depois recuou e disse:
— Vejo
que é uma planície que parece ter sido pavimentada de ladrilhos. Há
ainda sombras que talvez sejam máquinas. As imagens não estão
nítidas. Não vejo nisso nada de extraordinário.
— Ah, é?
— disse Rous com uma risada. — Não acha nada de extraordinário?
Sabe o que acaba de ver?
— Não —
respondeu Rosita.
— Pois
eu vou explicar. A senhora viu um mirsalense ser salvo pela
influência de nosso gerador de campo defensivo. Por isso há de
concordar em que esse campo exerce certos efeitos sobre o inimigo,
seja ele quem for. Ainda não sabemos que efeito é esse. Esse mesmo
campo defensivo, uma vez reduzido a uma forma adequada, cria certa
instabilidade na estrutura espacial, e com isso uma ponte pela qual a
luz pode passar do contínuo temporal do inimigo para o nosso.
Rosita
começou a compreender. Fitou Rous com os olhos muito arregalados.
— Não
venha me dizer que...
Rous
acenou tranqüilamente com a cabeça.
— É
isso mesmo que eu quero dizer. O mundo do inimigo é diferente do
nosso. Encontra-se num outro contínuo, do qual vem lançando seus
ataques. O que estamos vendo neste círculo não passa de um recorte
pouco nítido do invisível.
*
* *
Haviam
dado o primeiro relance de olhos. Depois de longas semanas de luta
contra o inimigo, conseguiram pela primeira vez lançar um olhar para
o outro espaço, em que vivia esse inimigo.
Isso
apenas serviu para fortalecer-lhes a confiança. Mesmo os fenômenos
complicados e desenrolados durante a reprodução da imagem por meio
do gerador de campo defensivo não faziam com que se tornasse
possível saber onde poderia ser encontrado o objeto que viam
reproduzido no círculo luminoso. Não havia como localizá-lo, e não
se sabia se valeria a pena localizar alguma coisa que, por assim
dizer, se achava em outro universo.
Nem sequer
havia a menor indicação que permitisse uma conclusão sobre se
aquilo que haviam observado realmente era um quadro estático, algo
imóvel, ou se no outro espaço o fenômeno tempo sofria uma
modificação que não lhes permitia notar os movimentos.
Rous
acreditou que os súbitos deslocamentos do quadro, observados por
várias vezes depois da primeira constatação de Lloyd — inclusive
em sentido inverso, ou seja, no afastamento — não fossem um
fenômeno real. Em sua opinião, tratava-se apenas de oscilações no
gerador de campo defensivo.
Rous
tentou transportar através do círculo luminoso um objeto para o
espaço inimigo — um maço de cigarros, por exemplo. A tentativa
foi um fracasso total. O maço de cigarros caiu ao solo do outro lado
do círculo. Os dois campos anulares formavam um sistema de lentes de
certa potência, mas não constituíam nenhum meio de transporte.
Além
disso, Rous não ficou satisfeito com o grau de nitidez da imagem.
Calculava que as máquinas vistas através do círculo luminoso, como
produtos de uma tecnologia estranha que eram, talvez fossem objetos
indecifráveis. Se conseguisse uma imagem mais nítida, talvez
poderia reconhecer certas funções das máquinas. Talvez estas
fossem as armas que o inimigo usava para lançar seus ataques cruéis
contra Mirsal.
Todas as
tentativas de obter uma imagem mais nítida resultaram em fracasso.
Deviam dar-se por satisfeitos de terem obtido uma imagem, qualquer
que fosse ela, por um meio tão estranho.
Depois de
ter prosseguido nas observações por algumas horas, Rous desligou o
gerador. Dali a meia hora, voltou a ligá-lo e sentiu-se aliviado.
Ficou satisfeito ao constatar que o ponto e o círculo luminoso
voltaram a surgir no mesmo lugar, e que através do círculo
observado o quadro outra vez fazia-se presente.
A imagem
podia ser reproduzida; era o que importava.
— Daqui
por diante teremos que dispensar o campo defensivo — disse Rous. —
Precisamos do gerador para outro fim, mais importante.
*
* *
Na manhã
do dia seguinte, bem cedo, apareceu Flaring. Trouxe boas notícias.
— Expus
o assunto aos meus superiores — disse, depois de ter cumprimentado
os três terranos um por um. — Fico satisfeito em poder anunciar
que confiam plenamente nos senhores. Sentimo-nos gratos pela
colaboração que nos oferecem e estamos dispostos a facilitar-lhes o
trabalho na medida do possível. É bem verdade que gostaríamos de
saber se têm algum plano bem objetivo.
— Queremos
agarrar esses caras invisíveis — disse Rous com o rosto zangado.
Flaring
sorriu.
— As
intenções são boas — disse. — Mas será que já estão
próximos disto?
— Não —
suspirou Rous. — Um momento.
Tirou do
bolso o estranho objeto de plástico que no dia anterior havia
encontrado na Alameda dos Reis e estendeu-o em direção a Flaring.
Explicou onde havia encontrado o objeto e disse:
— Gostaria
que isto fosse analisado. Seus químicos devem saber de que é feito,
ou melhor, de que deveria ser feito. O que desejo saber é se esta
peça de plástico sofreu alguma modificação após o ataque do
inimigo.
Flaring
segurou cautelosamente o objeto.
— Providenciarei
quanto antes. Tem mais alguma ordem?
Rous
franziu a testa.
— Não
temos nenhuma ordem. Ficaremos muito satisfeitos se pudermos formular
alguns pedidos.
Flaring
sentiu-se bastante lisonjeado.
— É
isso mesmo — prosseguiu Rous antes que Flaring tivesse tempo de
dizer qualquer coisa. — Gostaríamos de examinar num mapa as áreas
atacadas pelo inimigo. Queremos saber onde ficam.
Flaring
levantou a mão direita.
— Muito
bem. Arranjarei imediatamente os mapas.
Despediu-se
e saiu.
Rous
aproveitou o tempo para completar o relatório que deixara de enviar
na noite anterior, face às novidades importantes que haviam surgido.
Apenas alguns furos a mais foram feitos na chapa de plástico. Depois
introduziu-a no microcomunicador. Praticamente no mesmo instante os
aparelhos da Drusus, que se encontrava a trinta milhões de
quilômetros, captaram o interessante relato.
Mal Rous
havia terminado o trabalho, Flaring voltou a aparecer.
— A
análise ainda não foi concluída — disse, depois de ter
cumprimentado os terranos. — Trouxe os mapas.
Espalhou-os
sobre a mesa. O primeiro mostrava toda a província que se estendia
de Resaz para Fillinan, e mais algumas centenas de quilômetros de
ambos os lados. A área despovoada pelo ataque do inimigo invisível
havia sido uma parte assinalada de vermelho e outra em negro.
Rous
estacou ao constatar o estranho formato da parte circulada de negro.
— Tem
certeza de que as informações desta anotação são corretas?
Flaring
levantou a mão.
— Tenho
certeza absoluta. Por certo pode imaginar que fazemos tudo para obter
informações fidedignas.
— Está
certo. O que acha desse formato?
O círculo
vermelho descrevia aproximadamente o formato de uma calçadeira que
tivesse sido aquecida e esticada o mais possível. Os contornos
estranhos apresentavam duas “orelhas”
ovais bem abertas no leste e no oeste, e entre as mesmas havia uma
parte irregular e mais fina. Na “orelha”
oriental havia uma falha elíptica, correspondente a uma área que
não fora atingida pela desgraça.
Flaring
dobrou o dedo, em sinal de que não tinha nada a dizer.
— Já
quebramos a cabeça sobre isso — disse. — De início pensamos que
o inimigo estivesse interessado em fazer desaparecer o maior número
possível de pessoas. Acontece que justamente neste local — apontou
para a falha da parte oriental — fica Kelleyhan, uma cidade de
cerca de trezentos mil habitantes. A população de toda a área
restante é setenta por cento menor que à de Kelleyhan.
— Quer
dizer que a área não é das mais densamente povoadas?
— De
forma alguma. A área industrial de Russom, situada ao norte, tem
duzentos e cinqüenta habitantes por quilômetro quadrado. E aqui,
entre Resaz e Fillinan, existem apenas vinte habitantes por
quilômetro quadrado.
Rous
passou a examinar o segundo mapa, que mostrava em escala maior os
arredores de Fillinan, numa extensão de duzentos quilômetros. Soube
então que a desgraça ocorrida no dia anterior não ficara restrita
à área urbana de Fillinan, mas se estendia para o norte e o leste,
numa extensão de cento e cinqüenta quilômetros. Apenas os
subúrbios do lado sudoeste de Fillinan haviam escapado ao desastre.
Era bem verdade que esta era a área mais densamente povoada. Assim,
um milhão e meio de habitantes haviam dali desaparecido.
Do lado
leste e norte da cidade vinha uma série de rios, dos quais o
Finnestal era o maior. Em parte, a área era pantanosa. Flaring
contou que em séculos passados haviam tentado drená-la. Mas
ultimamente tinham desistido desse intento, para transformar a área
num gigantesco parque natural. Fora da cidade de Fillinan só viviam
umas cem pessoas.
Nesse
mapa, a área atacada pelo inimigo apresentava o formato de um
retângulo irregular. Havia quatro falhas de tamanho variável, que
foram poupadas pelos inimigos.
Rous
perguntou como fora possível determinar com tamanha exatidão os
limites da área, uma vez que se tratava de regiões pouco povoadas.
— O
senhor ainda não soube? — perguntou Flaring em tom de espanto. —
Não só os homens desapareceram, mas também os animais. Nas áreas
atingidas pelo invisível não existe sequer uma larva de inseto.
Toda a vida orgânica desapareceu, com exceção apenas, o que é de
estranhar, das plantas.
Rous
acenou com a cabeça; parecia pensativo. Lloyd, que se encontrava a
seu lado, fitava o mapa.
— Não
parece absurdo? — perguntou em voz baixa.
Rous deu
de ombros.
— Talvez
o inimigo nem esteja interessado em fazer desaparecer muitas pessoas.
Quem sabe se seu objetivo não é outro? Por enquanto não sabemos —
concluiu.
Naquele
momento entrou um ordenança, para informar Flaring de que a análise
do pente de plástico que Rous entregara para ser examinado já
estava concluída.
— Foi
muito rápido — elogiou Rous. — Deixe-me ver.
O
ordenança entregou-lhe o relatório da análise. Rous pôs-se a ler.
Flaring também leu. Constatou-se que a composição química e a
estrutura molecular daquela peça de plástico não sofreram a menor
alteração. Nada havia acontecido com o objeto.
— Um
momento — pediu Flaring. — Aqui embaixo ainda há uma observação.
— Sabe o que vem a ser uma análise etária?
— Sei.
Procuraram determinar a idade do objeto. Qual foi o método?
— Qualquer
matéria orgânica contém certa quantidade de isótopos radiativos.
São isótopos do sexto elemento...
— Do
carbono! — interrompeu-o Rous apressadamente.
— Fizeram
uma análise do C14
— disse Lloyd em inglês, dirigindo-se a Rosita.
Depois
virou-se para Flaring e perguntou:
— Qual
foi o resultado?
— Do
isótopo mencionado sobra apenas uma pequena fração da concentração
primitiva. Em compensação o elemento subseqüente foi aumentado na
mesma proporção...
— Um
momento! — pediu Rous. — Há quanto tempo este tipo de plástico
é fabricado em Mirsal?
Flaring
refletiu.
— Há
cerca de quarenta anos, acredito.
Rous
tornava-se cada vez mais nervoso.
Caminhou
de um lado para outro, de cabeça baixa, e murmurou em inglês:
— Numa
matéria plástica cristalina a substituição do C14
é praticamente impossível. Acontece que a parte desse isótopo que
pode desaparecer dentro de quarenta anos é insignificante.
Provavelmente a idade de quarenta anos nem poderia ser determinada
por meio desse método. Aquilo que sucedeu com o C14
deve
ter acontecido no espaço de tempo durante o qual a “parede”
tremeluzente passou pelo objeto.
Parou à
frente de Flaring.
— Até
aqui tudo entendido — constatou. — Qual foi a idade que se
constatou?
Flaring
olhou para o bilhete trazido pelo ordenança. Uma expressão de
incredulidade surgiu em seu rosto.
— Cerca
de vinte mil anos — respondeu com a voz insegura.
Rous
ergueu as sobrancelhas.
— Será
que os métodos de análise usados neste planeta são fidedignos?
Flaring
dobrou o indicador direito.
— Justamente
este método foi experimentado numa série de amostras cuja idade
exata era conhecida. Não acredito que tenha havido um erro.
Rous
virou-se para Rosita e Lloyd.
— Dali
se conclui — disse, falando em mirsalês, para que Flaring também
o pudesse compreender — que nos instantes em que a “parede”
passou pela Alameda dos Reis, vinte mil anos passaram por esta peça
de plástico.
5
Era um
aspecto surpreendente, mas em última análise não passava de mais
um elo da corrente que, no seu todo, significaria a solução do
mistério que cercava o inimigo invisível.
Flaring
não sabia o que fazer com aquilo.
Pouco
entendia das coisas misteriosas que havia no Universo. Sua raça mal
começara a conquistar o espaço nas imediações de seu mundo.
Rous
esforçou-se para tranqüilizar Flaring. Procurou explicar que a peça
de plástico de vinte mil anos poderia perfeitamente ter adquirido
essa idade de forma “normal”.
— Nesse
caso — objetou Flaring — toda a matéria que se encontrava na
área de ataque do inimigo deveria ter envelhecido na mesma
proporção.
Rous
balançou a mão.
— Não
se pode afirmar isto. Por que teria envelhecido na mesma proporção?
Não há dúvida de que tudo envelheceu, mas por enquanto nada
podemos dizer sobre a proporção do envelhecimento.
— Pois
bem — concordou Flaring. — Digamos que a casa na qual nos
encontramos tenha envelhecido em mil anos, em vez de vinte mil. Não
acha que apesar disso já deveria ter ruído?
— Não
senhor! O senhor está confundindo as coisas: o envelhecimento do
material, provocado por uma solicitação ininterrupta, com o
envelhecimento representado pela simples passagem do tempo. Nos vinte
mil anos que se passaram sobre esta peça de plástico, a mesma não
esteve submetida a qualquer tipo de solicitação. Pelo que se lê
aqui, sua estrutura é exatamente a mesma de antes. E a mesma coisa
aconteceu com o outro material. Não se preocupe: os edifícios de
Fillinan não vão ruir em série. Mas o senhor me deu uma idéia.
— Que
idéia foi essa? — perguntou Flaring.
— Mande
seus homens procurarem nas áreas atingidas amostras de peças cuja
idade possa ser determinada por meio de uma análise. Preciso do
maior número possível de amostras, recolhidas nos pontos mais
diversos. Quero registrar neste mapa qual foi o envelhecimento que o
ataque produziu em cada ponto. Será que pode começar logo?
Flaring
concordou.
*
* *
Alguns
dias se passaram sem que em Mirsal se registrasse outro ataque do
invisível. Enquanto isso os homens de Flaring recolheram, nas áreas
atingidas, peças de plástico, de madeira e de outro material, que
foram analisadas imediatamente.
O quarto
de Rous transformou-se numa espécie de quartel-general. Depois de
catalogadas, todas as informações foram registradas ponto por ponto
nos mapas.
Depois de
obtidos os resultados de cem análises; Rous percebeu como seria o
quadro final. Os pontos correspondentes à mesma idade formavam uma
linha paralela ao limite exterior da área de ataque. A idade
aumentava, à medida que se avançava de fora para dentro. O conjunto
tinha o aspecto de um mapa marítimo em que as profundidades
estivessem registradas por meio de linhas. Porém, nas linhas
desenhadas por Rous estava anotada uma idade, não uma profundidade.
Os objetos recolhidos na periferia da área de ataque praticamente
não haviam sofrido qualquer envelhecimento. Já no centro da área o
envelhecimento era de muitos séculos. Num ponto situado a oeste de
Fillinan, onde fora realizado o primeiro ataque, o enfraquecimento
molecular era de 50 mil anos. Na área urbana de Fillinan, alvo do
segundo ataque, atingiu a 33 mil anos.
Havia um
fato estranho. No centro da área situada a oeste de Fillinan, entre
esta cidade e Resaz, havia uma espécie de ilha; a idade das peças
recolhidas na mesma foi avaliada em cerca de oitenta a cem mil anos.
De início Rous acreditou se tratar de um erro de análise, mas Lloyd
acabou achando a solução.
— Está
lembrado dos passageiros do ônibus no qual viemos? Na verdade, houve
dois ataques nessa área: um de manhã, quando estávamos chegando a
Keyloghal, e outro na noite seguinte, quando estávamos viajando
naquele ônibus. Dali se conclui que as peças recolhidas passaram
por dois processos de envelhecimento. E as respectivas idades se
somam. É por isso que os números são tão elevados.
A
explicação era plausível. No mapa via-se que o ataque, durante o
qual os passageiros do ônibus haviam desaparecido, só se estendera
a uma área de menos de três quilômetros quadrados.
Depois que
Rous havia desenhado em seus mapas um número de linhas que lhe
permitia obter uma visão de conjunto, Flaring foi avisado de que
seus homens poderiam suspender o trabalho de coleta.
“Por
enquanto não podemos fazer mais nada”,
pensou Rous de forma conclusiva.
*
* *
— Será
que um dia conseguiremos solucionar o problema? — perguntou Rosita.
Sua voz
parecia desanimada.
Haviam
terminado o trabalho do dia e feito um ligeiro jantar com conservas
mirsalenses. Estavam sentados junto à grande janela do quarto de
Rous, que dava para o sul.
A polícia
já voltara a colocar em funcionamento uma usina de eletricidade.
Havia luz: uma fraca luminosidade cobria os subúrbios do sudoeste da
cidade.
Rous,
Lloyd e a psicóloga estavam cada qual mergulhado nos próprios
pensamentos.
— Conseguiremos
— respondeu Rous em tom convicto.
— Por
que se sente tão confiante?
— Por
ser um terrano — respondeu Rous. — Há sessenta anos vimos
lidando com problemas de toda espécie, e nenhum deles deixou de ser
resolvido.
Rosita
suspirou.
— Bem
que gostaria de ter seu otimismo.
— Aguarde
o próximo ataque — interveio Lloyd. — Cada vez que o inimigo
entra em ação, avançamos um pedaço. Se considerarmos que nos
encontramos em Mirsal apenas há dez dias, já sabemos muita coisa.
— Acontece
que não temos a mais ligeira idéia de quem seja o inimigo invisível
e quais suas intenções — respondeu Rosita. — Sou de opinião de
que na verdade aquilo que designamos como ataques nem são ataques.
As áreas atingidas, sua conformação, o número de homens e animais
desaparecidos, tudo isso foi escolhido ao acaso? Não consigo
enxergar uma finalidade definida atrás disso.
Rous
refletiu por um instante e disse:
— O
senhor se esquece de uma coisa. Se a finalidade do inimigo consiste
apenas em espalhar a confusão, ele pode perfeitamente agir ao acaso,
como está fazendo.
— Pode
ser — disse Rosita. — Mas quem se lançaria num esforço destes
apenas para espalhar a confusão?
— Não
sabemos. Mas diga-me uma coisa: na sua opinião, de que se trata?
— Não
tenho a menor idéia. Apenas acredito não se tratar de ação
planejada, mas de uma série de fenômenos casuais.
— Nunca
se deve desprezar a intuição feminina. Muitas vezes esta consegue
compreender em poucos segundos aquilo que o homem só descobre depois
de várias horas de reflexão. Mas acho que neste caso você está
enganada. Tenho certeza de que ainda descobriremos a finalidade que o
inimigo persegue com sua estranha atuação — concluiu Rous.
Rosita
levantou-se.
— Tomara
— disse com uma risada. — Mas acho que até lá ainda vamos
dormir um pouco. Boa noite.
— Fico
pensando — principiou Lloyd de repente — se não poderíamos...
Interrompeu-se
no meio da frase.
— O que
foi isso?
Rous
levantou-se de um salto.
— Alguém
gritou. Escute... agora está tudo quieto. Vamos!
Correram
para fora e desceram rapidamente pela escada. No primeiro pavimento
estavam os policiais de Flaring. Formavam grupos e observavam o
comissário que, olhando para o chão, avançava cautelosamente em
direção ao fundo do corredor. Lá não havia ninguém.
— Flaring!
O que houve? — perguntou Rous.
Flaring
ergueu-se e parou.
— Dez
dos meus guardas desapareceram — respondeu.
— Desapareceram?
Flaring
levantou a mão.
— Isso
mesmo. Quando um deles, ao tentar entrar por aquela porta, tornou-se
transparente e desapareceu, um outro gritou de susto; acho que o
senhor ouviu.
— O que
está fazendo por aí?
Flaring
dobrou o indicador.
— Quero
verificar se ainda existe algum perigo.
— Espere!
Rous
passou pelos homens exaltados, que se mantinham em atitude de espera,
e penetrou no corredor. Foi até o fim, onde uma ampla escada levava
ao térreo, e voltou.
— Já
verificou o que há nos quartos? — perguntou, dirigindo-se a
Flaring.
— Já.
— Quais
são os quartos?
Flaring
apontou para três portas no fundo do corredor.
— E do
lado esquerdo?
— Ali
todos os quartos estavam desocupados.
— O que
aconteceu do lado direito?
— Pois é
isso — lamentou-se Flaring. — Do lado direito todos os quartos
estão ocupados com os escritórios; são quatorze ao todo. Os três
primeiros estão totalmente vazios; nos onze restantes não aconteceu
nada.
Rous abriu
a porta de um dos quartos dos quais os guardas haviam desaparecido.
Apenas viu um recinto mobiliado provisoriamente com quatro leitos.
Dois deles não haviam sido tocados.
— Os
dois estavam de folga. Devem ter desaparecido dentro das camas! —
disse o comissário um tanto aturdido.
Antes que
Flaring passasse a ocupar o quarto com seu estado-maior, Rous o
examinou.
“Provavelmente
não era diferente daqueles que ficavam no pavimento superior”,
pensou o tenente.
Logo em
seguida, Rous teve uma idéia terrível e saiu correndo.
— Lloyd!
— gritou. — Vamos ver o que aconteceu com Rosita.
Correram
escada acima, passaram pelo corredor e pararam diante da porta do
quarto de Rosita. Rous bateu, enquanto Lloyd procurava ouvir o que se
passava do lado de dentro.
Não houve
resposta. Lloyd sacudiu a cabeça.
— Não
está lá dentro — afirmou.
Rous não
perdeu mais tempo. A porta não estava trancada. Abriu-a, entrou no
quarto e acendeu a luz.
Não
encontrou Rosita. Sua cama não havia sido tocada. Rous revistou os
quartos contíguos, isto é, o seu e o de Lloyd. Tudo continuava como
antes, mas não encontraram o menor sinal de Rosita.
Gritou seu
nome com tamanha força que foi ouvido em todo o edifício; Rosita
não respondeu. E nenhum dos homens de Flaring a havia visto.
Não havia
a menor dúvida: Rosita desaparecera.
O inimigo
atacara de novo, e desta vez mais um terrano fora vitimado pelo
ataque.
Esse
ataque diferia dos outros sob vários aspectos.
A
diferença mais marcante foi a da área atingida pelo último ataque.
Além de Rosita, só haviam desaparecido mais dez pessoas, cuja
ausência foi notada por Flaring, e isso pelo simples motivo de que
além do limite entre os quartos quatorze e quinze só havia essas
dez pessoas e a psicóloga.
Rous
mandou realizar às pressas algumas análises etárias e constatou
que a idade dos objetos era cerca de três mil anos superior à que
tinham antes do grande ataque a Fillinan.
Dessa
forma conseguiram delimitar a área atingida pelo quarto ataque.
Tinha o formato de um bloco de cerca de vinte metros de altura, indo
do subsolo do edifício ao terceiro pavimento. A extensão e a
espessura do bloco, dez metros cada.
Dentro
dessa área ficavam os três quartos ocupados pelos policiais, e os
de Lloyd e Rosita. Ao saber disso, Lloyd cocou a cabeça e resmungou:
— Ainda
bem que naquele momento me encontrava no seu quarto.
Rous não
se deu por satisfeito com as pesquisas superficiais já feitas e
mandou realizar outras investigações. Sabia que em condições
normais um terrano não seria atingido pelos ataques que o inimigo
vinha desencadeando em Mirsal II. Afinal, por três vezes haviam
escapado a um ataque desses sem que enfrentassem o menor problema.
“Por
que será que desta vez Rosita não escapou?”,
indagou-se mentalmente.
Uma
investigação mais exata trouxe resultados interessantes. O quarto
de Rosita ficava aproximadamente no centro do bloco que fora atingido
pelo ataque. Constatou-se que na periferia do bloco havia uma única
linha etária, correspondente a três mil anos; por isso se chegara à
conclusão de que o processo de envelhecimento fora uniforme dentro
de todo o bloco.
Acontece
que no quarto de Rosita havia muitos objetos que apresentavam idade
mais elevada. Ao examinar o encosto de uma cadeira, verificou-se que
todo o carbono havia desaparecido da madeira. Mas, como os analistas
tivessem certeza de que deveriam encontrar ao menos um
décimo-milionésimo da quantidade primitiva de C14,
chegou-se à conclusão de que o envelhecimento deveria ser superior
a cento e trinta mil anos. Por isso Rous ordenou uma análise do
conteúdo de C14,
que revelou que o envelhecimento do encosto da cadeira chegava a
aproximadamente três milhões de anos.
Rous achou
que a solução do enigma estava ali. Evidentemente o grau de
envelhecimento verificado dentro dos vários setores da área de
ataque dependia da violência com que o mesmo fosse levado a efeito.
Nos casos anteriores registrou-se um envelhecimento de até cem mil
anos, enquanto no último ataque este atingiu trinta vezes esse
valor. Evidentemente essa intensidade seria suficiente para fazer
desaparecer até mesmo um terrano.
Dali
resultaram novos problemas. Depois do primeiro ataque lançado contra
Mirsal II, Rous tinha certeza de que ele e seus companheiros estavam
por assim dizer imunes ao desaparecimento. Acreditara que poderiam
mover-se sem preocupação e realizar suas investigações mesmo em
qualquer lugar onde um mirsalense corresse perigo de desaparecer de
um instante para outro.
Agora já
não era assim. O inimigo dispunha de reservas energéticas que
poderiam representar um perigo até mesmo para um terrano.
Rous sabia
o que devia fazer.
— Não
podemos esperar mais — disse, dirigindo-se a Lloyd. — Devemos
tomar uma iniciativa.
Lloyd
concordou.
— Deve
estar lembrado — disse — que aludi a uma idéia que tive antes
que Miss Peres desaparecesse?
— Não.
Que idéia foi essa?
— Calculei
que nosso gerador de campo defensivo pode absorver um suprimento
energético de até vinte megawatts. Se conseguíssemos fazê-lo
funcionar com esse suprimento...
— ...poderíamos
eventualmente transformar nosso sistema de lentes num meio de
transporte? — concluiu Lloyd, fazendo um gesto afirmativo.
— Vamos
tentar — respondeu Rous. — Pediremos a Flaring que coloque à
nossa disposição uma de suas usinas energéticas.
Puseram-se
a caminho.
Flaring e
seus colaboradores logo se mostraram dispostos a atender ao pedido.
Mais três usinas de eletricidade da cidade de Fillinan foram
reativadas. Marcel Rous teve os vinte megawatts que estava pedindo.
A ligação
com o gerador de campo defensivo foi providenciada por Lloyd e ele,
que a completaram dentro de poucas horas. Depois estavam preparados
para centuplicar a força do pequeno aparelho. Se suas suposições
fossem corretas, com isso a potência das lentes do campo defensivo
também cresceria cem vezes. Segundo pensava Lloyd, uma lente que
tivesse essa potência poderia ser capaz de transportar outra coisa
além da luz.
Só
Flaring se encontrava presente quando Lloyd e Rous iniciaram a
experiência decisiva. Antes explicaram-na a Flaring em ligeiras
palavras.
Lloyd
sentara diante da mesa em que estava instalado o gerador. Rous estava
atrás do círculo luminoso que continuava a desenhar-se
aproximadamente no centro do quarto, e olhou através do mesmo.
— Aumente
lentamente o desempenho! — ordenou.
Lloyd
obedeceu. A corrente fornecida pelos cabos das usinas de eletricidade
passou a percorrer o gerador. O ponteiro do medidor que Lloyd
intercalara antes do gerador começou a subir.
Mas o
quadro que Rous via através do círculo luminoso não se modificou.
— Dê-lhe
mais! — ordenou Rous.
Quando
Lloyd ultrapassou, o limite do megawatt, o quadro começou a
desmanchar-se. Rous pediu que Lloyd parasse e fez um reajuste.
Isso se
repetiu várias vezes. O aumento do desempenho também ia modificando
a distância focal das duas lentes, motivo por que de quando em
quando se tornava necessário um reajuste.
Finalmente
toda a energia fornecida pelas usinas passou pelo pequeno gerador.
Chegara-se à regulagem final. Lloyd reclinou-se na poltrona e
suspirou:
— Pronto!
Podemos começar.
Rous
dirigiu-se a outra mesa, sobre a qual estavam guardados vários
objetos de diversos tamanhos, destinados às experiências. O
primeiro deles, e o menor, era um maço de cigarros, igual ao que
usara na primeira experiência realizada dias atrás, e que não fora
bem sucedida.
Lloyd
virou a cabeça e observou o círculo luminoso do lado da janela.
— Atenção!
— disse Rous. — Vou começar.
Levantou a
mão e jogou o maço de cigarros contra o círculo luminoso, a uma
distância de cinqüenta centímetros. Teve a impressão de que o
objeto hesitava em penetrar nesse círculo...
Por um
instantezinho uma força invisível parecia detê-lo...
Subitamente
desapareceu.
Lloyd, que
se encontrava do outro lado do círculo luminoso, soltou uma
expressão de surpresa.
— A
caixa desapareceu! — exclamou.
Rous
suspirou aliviado. A experiência fora bem sucedida. Aproximou-se do
círculo para ver se conseguia descobrir o maço de cigarros que
acabara de desaparecer. Não conseguiu, nem mesmo depois de envolver
a cabeça em panos.
Era um
mistério. Segundo sua suposição, o maço só deveria estar no
lugar onde se podia olhar através do conjunto de lentes formado pelo
campo defensivo.
Mas não
foi o que aconteceu. O maço de cigarros desaparecera de vez.
— É
estranho... — murmurou Rous e tirou um objeto maior de cima da
mesa.
Aconteceu
a mesma coisa que acontecera com o maço de cigarros: o objeto
desapareceu e não se conseguiu mais vê-lo.
— Não
estou gostando nem um pouco! — observou Lloyd. — Desse jeito será
muito perigoso...
— Um
instante. Tenho uma idéia. Dê-me uma ajuda.
Além da
cama havia no quarto de Lloyd um tipo de sofá. Tratava-se de uma
espécie de leito sem encosto e sem braçadeira. Havia sido
construído segundo as medidas dos mirsalenses; mal poderia passar
pelo círculo luminoso.
O sofá
ofereceu alguma resistência.
— Vamos
tomar um impulso! — disse Rous. — Tem de passar.
Com o
estofamento para baixo e as pernas para cima, levantaram o sofá.
Depois tomaram impulso a partir da parede do quarto. Rous, que
segurava a parte da frente da peça, parou um pouco antes do círculo
luminoso e deixou que o estofamento deslizasse sobre suas mãos.
Lloyd continuava empurrando.
A
resistência foi vencida. O sofá passou pelo círculo luminoso e
desapareceu antes que Rous percebesse o que estava acontecendo.
Lloyd
esfregou as mãos.
— Agora
devemos ver alguma coisa — disse.
Rous
postou-se diante do círculo luminoso, colocou panos sobre a cabeça
e pôs-se a observar. Ao primeiro relance de olhos, teve a impressão
de que o quadro continuava inalterado; mas de repente...
— Lloyd,
venha cá! — ordenou Rous.
O mutante
aproximou-se.
— Cubra
a cabeça com panos, de tal maneira que possamos olhar ao mesmo
tempo.
Lloyd
obedeceu.
— O
quadro sofreu alguma alteração? — perguntou Rous.
— Não —
respondeu Lloyd decepcionado.
— Olhe
com mais atenção.
Lloyd
voltou a olhar mais detidamente.
— Não —
respondeu. — Não houve a menor modificação.
— Está
vendo esses pontinhos pretos?
Lloyd
estreitou os olhos.
— Acredita
que eles representem alguma coisa? — perguntou. — Sempre
acreditei que fossem defeitos da imagem.
— Eu
também — disse Rous. — Acontece que surgiu mais um ponto.
Lloyd
fitou-o perplexo.
— Como
percebeu isso?
— Já
havia notado que os pontos que, segundo acreditávamos, eram defeitos
da imagem, se acumulam na periferia do quadro; no centro não se vê
um único deles. Observe com atenção.
Lloyd
olhou atentamente.
— Isso
mesmo; agora por lá também existe um ponto. Acredita que seja o
sofá?
— Naturalmente.
Dificilmente poderia ser outra coisa.
— Mas
este pontinho não é maior que um grãozinho de poeira! — exclamou
Lloyd perplexo. — Dali se conclui...
— Dali
se conclui que cometemos um erro tremendo quanto às dimensões do
quadro; apenas isto. As máquinas que vemos ali devem ter o tamanho
de um arranha-céu.
Lloyd
arregalou os olhos para ele.
— Quer
ir para lá?
— Quero;
imediatamente.
Atirou
fora os panos.
— O
risco não é nada desprezível — disse em tom tranqüilo. — Mas
acredito que poderá ser reduzido se o gerador permanecer ligado
ininterruptamente. Flaring poderá providenciar para que não haja
nenhuma oscilação de corrente e, principalmente, nenhuma
interrupção. Por enquanto não tenho a menor idéia de como será o
mundo do outro lado. Mas é bem possível que qualquer modificação
na regulagem do gerador, por menor que seja, torne impossível
encontrar o caminho de volta.

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