terça-feira, 12 de março de 2013

P-056 - Os Mortos Vivem - Clark Darlton [parte 3]


Noir dirigiu-se à porta a fim de cuidar para que ninguém mais entrasse na sala. Rhodan foi até a escrivaninha e pôs-se a esperar. Subitamente sentiu-se muito inquieto; não via o momento em que podia apertar Thora nos braços. A arcônida, de início tão fria, transformara-se em sua esposa e na companheira de sua vida. Amava-a como nunca amara outra mulher, e isso há mais de seis decênios, durante os quais não envelhecera.
Acontece que agora Thora começava a envelhecer...
Por enquanto não se percebia quase nada, pois os métodos biológicos de conservação celular eram bastante eficientes, muito embora não conferissem a imortalidade relativa. O elixir da vida dos aras, subtraído do planeta de Tolimon, dera prova de sua eficácia. Por enquanto, o processo de envelhecimento de Thora estava sendo detido.
Mas até quando?
Rhodan não sabia. Porém havia outra esperança para Thora e Crest. Seu nome era apenas Atlan.
O ar começou a tremeluzir na sala, como se estivesse super aquecido. O vulto de uma mulher esbelta materializou-se juntamente com Gucky. Usava o uniforme leve da frota espacial terrana. O verde suave da jaqueta formava um belo contraste com os cabelos brancos da arcônida, cujos olhos vermelho-dourados procuraram e logo acharam.
Perry...
Correu em direção ao amado, que a cingiu com os braços protetores.
Thora, meu amor!
Gucky torceu o rosto e virou-se para outro lado.
Para que tanta beijoquice? — chilreou num desespero esquisito, passando a pata pela boca. — Sinto náuseas com a simples idéia de que alguém me possa lamber o focinho desse jeito.
Ninguém vai pensar nisso — disse Noir, que se encontrava junto à porta.
Gucky deu de ombros e “cambaleou” através da sala. Passou por Rhodan e Thora e olhou atentamente pela janela.
O barulho no corredor havia cessado.
De repente Rhodan começou a falar sem virar-se:
Gucky, você não quer cuidar de Yatuhin? Pedi que viesse até aqui, mas certamente foi detido pelo caminho. Não podemos perdê-lo.
Não podemos perdê-lo — repetiu
Gucky sem mudar de posição. — É claro que não podemos. Esperem; logo estarei de volta.
Disse isto e desapareceu.

* * *

O japonês Nomo Yatuhin desligou o aparelho de comunicação que se encontrava sobre sua mesa.
Por que a voz de Tropnow soara tão estranha? Seria o nervosismo? Qual seria o motivo do alarma?”, pensou indagando-se.
Para ele, a revolta contra Rhodan já perdera todos os encantos, mas sabia que não havia nenhum caminho de volta.
Voltou a pensar:
A vida eterna... afinal, o que vinha a ser isso? Talvez não passasse de uma miragem. Por que não me dera por satisfeito com o tratamento biológico, ao qual todos os mutantes de Rhodan tinham direito? Afinal, eu não era um homem jovem e disposto, apesar dos meus oitenta e nove anos? E agora? Se alguma coisa não desse certo?
Lembrou-se do alarma.
O que significava tudo isso? Seriam mais uma vez os volatenses? Ou será que Rhodan descobrira seu esconderijo? — balbuciou.
A lembrança de Rhodan fê-lo acordar.
Tropnow estava em perigo; do contrário não teria solicitado socorro.
Nomo levantou-se de um salto e saiu depressa para o corredor. Ao longe, ouviu o tumulto. Feixes energéticos emitiam um chiado ao baterem na parede e fundiam grandes pingos de metal. Os homens gritavam e passavam correndo. Eram saltadores, arcônidas e membros de outras raças aparentadas. Também havia alguns humanóides. Todos eles haviam sucumbido às promessas de Tropnow?
Seria somente Tropnow?”, pensou.
Depois deu de ombros e continuou a correr. Mas de repente parou. Não trazia nenhuma arma. Como poderia defender-se se fosse atacado? Seu rosto assumiu uma expressão obstinada; prosseguiu.
Dois ou três homens passaram correndo.
Agarraram Tropnow! — gritaram.
Quem? — berrou Nomo atrás deles, mas não obteve resposta.
Quem seria?
Na rua começaram a soar sereias. Nomo foi à janela e olhou para fora. Pelo menos dez viaturas policiais pararam. Soldados armados da força de proteção do administrador saltaram e correram em direção ao edifício, carregando fuzis de radiações.
O que é que essa gente tinha a ver com isso?
Nomo já não estava compreendendo mais nada. Contara com um ataque do grupo de Rhodan, mas não com a intervenção da tropa de proteção do administrador.
Isso poderia tomar um curso fatal e despedaçar todas as esperanças. Em hipótese alguma, deveria haver uma luta entre eles e o poder oficial de Árcon. Nesse caso, a perspectiva da formação pacífica das divisões a serem lançadas contra a Terra teria chegado ao fim.
Teria mesmo?
E se Árcon ficasse sabendo que o planeta Terra não foi destruído pelos saltadores, que continuava a existir? Se o grande computador soubesse que Rhodan estava vivo? Qual seria sua reação? Até então Tropnow não quis assumir o risco de depender das decisões de um computador positrônico, mas o que faria se não houvesse outra alternativa?
O mutante japonês não teve tempo de tomar uma decisão.
Esteve a ponto de prosseguir cautelosamente para chegar ao lugar em que Tropnow se encontrava quando alguém bateu nas suas costas e uma voz fininha piou.
Você se admiraria caso soubesse o que diria o computador positrônico, Nomo. Ah, não percebeu minha chegada? Bem, você nunca foi um bom telepata. Acontece que eu sou.
O japonês virou-se abruptamente, embora já soubesse quem estava às costas. Ao contrário de Tropnow, conhecia Gucky muito bem, pois lidara muitas vezes com ele. Sabia que não tinha a menor chance contra o rato-castor e não tentou qualquer truque. Parou em posição rígida.
O que pretende fazer comigo? — perguntou.
Sua única esperança era que a polícia chegasse logo. Talvez o rato-castor receasse a descoberta. Afinal, não queriam que ninguém soubesse da existência da Terra.
Se conseguisse entreter Gucky até lá”, pensou.
Será que você não descobriu coisa melhor? — disse o rato-castor em tom de escárnio. — Acha que demoraremos em desaparecer daqui? Não tente soltar-se de mim enquanto estivermos teleportando. Você sabe perfeitamente que na quinta dimensão não há comida. Se eu o perder, você morre de fome.
Segurou Nomo e saltou.
O japonês teve a impressão de que o mundo estava mergulhando no vazio. Naquele instante, vira um longo corredor diante de si, ouvira o grito dos homens que lutavam, percebera os passos ruidosos dos policiais que se aproximavam... e, dali a um segundo, encontrava-se ao lado do rato-castor em meio a uma estepe cercada de mata virgem. Em cima deles, estendia-se o céu azul.
Então? — chilreou Gucky satisfeito. — O que acha?
O que pretende fazer comigo? — perguntou Nomo sem demonstrar o menor receio. — Se quiser matar-me, ande logo.
Matar por quê? Rhodan quer que você lhe conte certas coisas.
A Terra fica muito longe.
A Terra sim, mas Rhodan não, meu caro. Tropnow morreu porque tentou matar Rhodan. Talvez Rhodan seja mais condescendente com você, desde que resolva abrir a boca.
Rhodan está aqui, em Volat?
Gucky voltou a segurar Nomo.
Estamos falando demais. Vou levá-lo a um lugar seguro.
Quando voltaram a materializar-se, Gucky dirigiu-se a uma rocha escarpada situada nas proximidades do platô de rocha.
Mal Nomo sentiu chão firme sob seus pés, abriu os olhos. Mas Gucky já havia desaparecido, deixando-o só. Será que não receava que ele, Nomo, pudesse fugir?
Mas o japonês logo viu que não havia como.
Gucky largara-o sobre a rocha que se erguia em meio à selva. A rocha tinha o formato de uma agulha gigante, vista de longe. Tinha mais de cem metros de altura e, na base, seu diâmetro era de cerca de vinte metros. As paredes eram lisas, sem qualquer fenda. A ponta consistia num minúsculo platô, cujos lados não mediam mais de um metro.
Em todo o Universo não poderia haver prisão melhor que esta.
Nomo trazia apenas alguns objetos no bolso. E, com estes, não poderia fazer nada. Mesmo que a camisa e a jaqueta bastassem para fazer uma corda, não teria onde amarrá-las. Não havia nenhuma árvore, nenhuma fenda naquele platô de um metro quadrado. Não tinha a menor esperança de escapar.
Nomo sentou e procurou vencer a tontura que começava a apoderar-se dele ao olhar para baixo. Havia algumas árvores muito altas, mas ficavam tão afastadas que seria impossível alcançá-las. Quando olhava para o céu, tinha a impressão de estar sozinho no mundo. Em torno havia apenas o nada e o sopro morno do vento.
Um metro quadrado para viver...
Será que o deixariam viver?
Tropnow já havia morrido. Rhodan não tinha nenhuma compaixão por traidores, pois os mesmos representavam um perigo não só para os seus planos, mas para a própria existência da Humanidade. E Nomo sabia perfeitamente que este fator seria decisivo. Rhodan dava maior valor à existência da Humanidade do que à própria vida.
Não, não deixariam de castigá-lo, e o castigo para a traição era apenas um: a morte.
Nomo Yatuhin era japonês. Em suas veias corria o sangue dos samurais, que preferiam matar-se quando caíam nas mãos do inimigo.
Nomo voltou a olhar em torno.
Como poderia matar-se? Não tinha nenhuma arma, nenhum objeto com que pudesse fazê-lo.
E a altura? A queda?
Estremeceu, mas subitamente deu-se conta de que para ele não havia outra alternativa, se quisesse continuar fiel aos seus propósitos. Levaria apenas alguns segundos para atingir o solo junto ao pé do rochedo. Talvez acabasse caindo mesmo numa copa de árvore. Neste caso teria uma chance pequenina de escapar com vida.
Foi em parte esse fio tênue de esperança que fez com que realizasse seu intento.
Inclinou-se em direção ao oriente, tomou coragem, adiantou-se um passo, mais um...
Caiu que nem uma pedra.
5



Os cinco cruzadores ligeiros pousaram sem o menor incidente no espaçoporto de Kuklon. Assim que tocaram o solo, as grandes escotilhas laterais abriram-se, as rampas foram baixadas, e os robôs de combate começaram a marchar.
Essas máquinas tinham uma semelhança longínqua com os homens. Mas sua altura era de mais de dois metros e tinham quatro braços. Os dois braços inferiores eram radiadores de impulsos pesados.
O exército de robôs entrou em forma com passos retumbantes e ficou aguardando ordens. Oficiais devidamente assinalados — que também eram robôs — colocaram-se na porta daquela medonha tropa. Suas antenas estavam em recepção. Essas antenas apontavam na direção da nave capitania. No interior desta, o comandante Arona pegava um minúsculo transmissor e o guardava numa pasta. Era apenas uma caixinha, mas bastava para comandar o exército de aço.
Arona, o arcônida, não tinha nada em comum com certos tipos degenerados de sua raça. Seu rosto altivo irradiava uma atividade que já não era fácil de encontrar no Império. Seu vulto esbelto e o cabelo branco impunham respeito. Saiu da nave com o corpo ereto e, dentro de poucos minutos, estava no campo de pouso. Segurava sob o braço o aparelho de comando.
Era acompanhado por um único oficial, também arcônida.
Arona emitiu o primeiro comando, e o exército de quinhentos robôs pôs-se em marcha.
O campo de pouso estava vazio. Não se via ninguém. Os veículos, que costumavam trafegar por ali, haviam desaparecido. Até a área periférica, onde o tráfego costumava ser bastante intenso, parecia deserta. O alarma policial já causara uma boa dose de confusão, mas o pouso de cinco cruzadores deu o remate ao quadro. Ninguém sabia o que havia acontecido. Por isso seria recomendável abrigar-se no interior das casas. Apenas alguns volatenses ingênuos não demonstravam o menor interesse pelas ocorrências, pois não as compreendiam. Imperturbáveis, continuavam a dedicar-se às ocupações habituais.
Mas até estes desapareceram das ruas quando Arona, o arcônida, se pôs à frente de sua tropa metálica e marchou em direção à cidade.
Um edifício alto e largo fechava a vista para a cidade propriamente dita. A rua principal passava junto ao mesmo.
Arona dirigiu-se ao oficial que o acompanhava:
Tenente Ro, por que será que o tal do administrador Mansrin não compareceu para receber-nos? O que está acontecendo com a revolta?
Ro apontou para o pequeno receptor que trazia consigo, e que o ligava com a sala de comando da nave.
Não sabemos, comandante. Mansrin nega ter enviado a mensagem ao regente. Afirma que em Volat não está havendo nenhuma rebelião.
Isso é muito misterioso — disse Arona em tom irônico e ficou com os olhos fitos no grande edifício. Alguma coisa parecia chamar sua atenção. — Não há nenhuma revolta. Gostaria de saber por que estão atirando ali.
Onde, comandante?
Arona apontou para a frente.
A menos de quinhentos metros daqui. Não está vendo os raios característicos dos radiadores de impulso? Ali está sendo travada uma luta; uma luta encarniçada. É de estranhar que Mansrin tivesse preferido não nos informar a esse respeito, não acha?
Imediatamente, levantou a pasta e falou para dentro do pequeno microfone:
Novo destino: rota trezentos e sessenta e nove. Armas de prontidão!
O exército de robôs mudou de direção, seguindo Arona e Ro.
Os braços inferiores das máquinas estavam em posição horizontal. No lugar das mãos, havia os bocais dos potentes radiadores energéticos, apontados para o edifício.
Um veículo saiu de uma rua lateral. Parou abruptamente do lado oposto da rua. Um arcônida saltou e correu apressadamente para junto de Arona. O cabelo branco esvoaçava.
Arona! Sou o administrador Mansrin. Peço que me desculpe por ter cometido o erro de não lhe proporcionar a recepção costumeira. Houve um imprevisto...
A rebelião, não é?
Mansrin sacudiu a cabeça.
Pois é justamente isso que eu não compreendo. Não expedi nenhuma mensagem para Árcon nem solicitei o envio da frota, pois não havia motivo para isso. Em Volat reinavam a paz e a ordem. Até hoje. No mesmo instante em que o senhor anunciava sua chegada, uma luta com armas de fogo irrompeu no edifício-sede das empresas comerciais dos saltadores. Não sabemos quem está lutando contra quem, mas de qualquer maneira estão lutando. A guarda pessoal, à minha disposição, já interveio nos acontecimentos.
Arona lançou um olhar indagador para Mansrin.
Não acredita que poderia ser uma revolta de grandes proporções? Quem sabe se os saltadores...
Nunca, comandante. Conheço minha gente...
Nunca paramos de aprender — interrompeu o arcônida. — Seja como for, meus robôs restabelecerão a ordem, e depois saberemos quem se permitiu a brincadeira de alarmar Árcon por uma ninharia. Tem certeza de que não foi o senhor?
Foi um desconhecido, comandante. Já descobri isso. O mesmo introduziu-se sorrateiramente na sala de rádio e obrigou o operador a fazer uma ligação com o computador regente. Não há outra explicação lógica para o incidente.
Arona, que mandara parar seu exército, voltou a colocá-lo em marcha.
Venha comigo, administrador Mansrin. Talvez consigamos solucionar em conjunto o mistério do alarma falso. O senhor tem razão; também não vejo a menor lógica nisso. Quem se exporia voluntariamente ao perigo de alarmar a maior potência da nossa Galáxia?
Soltou uma risadinha, e concluiu:
Só mesmo um doido.
O tenente Ro disse num tom que quase chegava a ser tímido:
Ou alguém que seja ainda mais poderoso, comandante.
Fitaram-no com os olhos arregalados, mas ninguém respondeu.
Os robôs puseram-se em marcha.

* * *

Na escada que conduzia ao subsolo, Fellmer Lloyd e seu grupo defrontaram-se com os rebeldes que lutavam obstinadamente por um objetivo desconhecido. Os chefes estavam mortos ou presos, mas os adversários do mutante não o sabiam. Agiam de acordo com as ordens recebidas ao abrirem fogo contra os volatenses que os seguiam.
Como localizador e telepata que era, Fellmer Lloyd descobriu as intenções deles, antes que as mesmas se concretizassem em atos. Gritava suas ordens. Os volatenses haviam sido submetidos a um treinamento intenso. Abrigados, iam pegando as mini-granadas do arsenal da Gazela e as atiravam para o corredor de baixo.
Depois Fellmer Lloyd ordenou tranqüilamente a retirada.
Mal os primeiros disparos energéticos começaram a chiar e a derreter algumas amuradas de aço, ouviram-se as detonações. Seguiram-se gritos e vozes de comando e os rebeldes precipitaram-se escada acima. O fedor das bombas de gases era mais apavorante que a perspectiva de serem recebidos com uma série de disparos dos volatenses.
Era exatamente o que Lloyd queria.
Devido à fumaça, os rebeldes estavam quase cegos. Esfregavam os olhos irritados. Já não reconheciam Lloyd ou os volatenses; apenas viam sombras que se destacavam na luz que penetrava pela janela.
Abriram fogo contra essas sombras.
Para azar deles, essas sombras não pertenciam aos volatenses, mas à força policial que acabara de penetrar no edifício. Por isso não era de admirar que os policiais acreditassem que realmente se defrontavam com um grupo de rebeldes.
Responderam ao fogo. Dali a pouco, outra batalha rugia furiosamente no corredor. Fellmer atingira seu objetivo. Quando o engano fosse esclarecido — se é que isso viria a acontecer — a Gazela já teria mergulhado nas profundezas do espaço.
Sempre correndo, Fellmer Lloyd e seus volatenses chegaram ao corredor que dava para a sala número 18. O localizador chegou no momento exato de assistir à rematerialização de Gucky. Noir encontrava-se junto à porta, enquanto Rhodan e Thora permaneciam junto à janela.
Então? — perguntou Rhodan. Não disse mais nada.
Lloyd fez um sinal para os volatenses. Os nativos fizeram um gesto, atiraram as armas para o chão e saíram andando como se não tivessem nada a ver com aquilo — e de fato não deixava de ser assim. Alguns deles voltaram à sala de leitura e acomodaram-se. Outros dirigiram-se a vários andares e indagaram junto às empresas ali estabelecidas se havia um emprego. Faziam aquilo que fariam normalmente, em qualquer dia. Uma vez que a notícia dos acontecimentos que se desenrolavam nos pavimentos inferiores ainda não havia chegado a todos os recantos do edifício, o súbito interesse pelos empregos ou pelas mercadorias eventualmente oferecidas não provocou suspeitas.
Está saindo tudo de acordo com o plano — informou Lloyd e fechou a porta, já amolecida pelo calor das armas dos rebeldes. O trinco da fechadura entrou ruidosamente no engate, o que fez Gucky soltar uma opinião de perito:
Aqui ao menos sabem fabricar fechaduras muito resistentes!
Quer dizer que os rebeldes se envolveram numa luta contra as autoridades? — perguntou Rhodan para certificar-se.
Foram bastante idiotas para isso — disse Lloyd com um sorriso. — A esta hora não haverá mais a menor dúvida de que um grupo revolucionário procurou articular um golpe contra Árcon. É bem verdade que procurarão em vão pelos homens que tramaram tudo, mas isso não importa.
Rhodan lembrou-se do outro traidor.
Para onde levou o japonês? — perguntou, dirigindo-se a Gucky.
Levei-o a um lugar do qual nunca poderá escapar com vida. Está na ponta de um rochedo. Poderei buscá-lo a qualquer momento.
Muito bem. Acho que já está na hora de darmos o fora. Thora irá em primeiro lugar. Leve-a ao platô, Gucky.
Dali a dez segundos, o rato-castor estava de volta.
Kuri está cuidando dela, chefe. E agora?
Foi a vez de Noir empreender a viagem. Durante o grande salto Gucky pegava uma pessoa de cada vez, para não se cansar demais. Isso não influía muito no tempo da operação, pois cada teleportação durava apenas alguns segundos. Dessa forma, também Fellmer Lloyd voltou ao ponto de partida da aventura, ou seja, ao platô em que residia a mãe onisciente dos volatenses.
Rhodan aguardou pacientemente o último retorno de Gucky.
Embora apenas alguns segundos se houvessem passado desde o último salto, o regresso do rato-castor parecia demorar uma eternidade. No corredor estava acontecendo alguma coisa. Ouviram-se vozes de comando e o chiado dos disparos de radiações. Alguém soltou um grito de pavor e atirou-se contra a porta. Talvez tivessem reconhecido a superfície atacada pelo calor e estivessem suspeitando de alguma coisa.
Gucky materializou-se com um sorriso.
Gracinha não me quis deixar sair — disse para explicar a demora. — Que gatinho querido! Queria brincar...
Rhodan continuou com o rosto sério.
Daqui a dez segundos, estarão nesta sala. Quem será? A polícia?
Quer que eu dê uma olhada?
Não se atreva a fazer uma coisa dessas! Vamos é dar o fora. Nossa tarefa está concluída...
Gucky segurou a mão de Rhodan.
Ainda não. Quer que vá buscar Yatuhin agora, ou devo esperar mais um pouco?
Vamos primeiro ao platô. Ande depressa!
Enquanto o rato-castor se concentrava para dar o salto e criar o respectivo campo energético, a porta sofreu um forte abalo e abriu-se. Um homem entrou abruptamente, tropeçou por cima das armas espalhadas pelo chão e cambaleou de encontro à parede. Ficou parado e contemplou os dois vultos que se dissolviam no ar.
Rhodan ainda viu a porta abrir-se, mas depois os contornos dos objetos se desmancharam diante de seus olhos. Ainda chegou a ver o enorme vulto que penetrou como uma bala de canhão. Se o “colosso” não fosse cego, ainda devia ter assistido ao milagre.
Antes que Rhodan passasse à quinta dimensão, um grito atingiu seu ouvido. Já ouvira aquela voz. Era uma voz retumbante e máscula, que despertou uma lembrança em sua mente.
E essa voz exclamou:
RHODAN!
Depois viu-se envolvido pela escuridão.
Logo a claridade voltou-lhe a surgir no platô de rocha. Desprendeu-se de Gucky, mas aquela voz continuava a ressoar em seus ouvidos.
Viu o homem, Gucky? Quem foi? Ele me reconheceu.
O rato-castor estreitou os olhos.
Não tive tempo para cuidar disso, pois nesse caso não poderia ter saltado. Quer que volte para dar uma olhada?
Ele me reconheceu.
Gucky arregalou os olhos.
Reconheceu você? Não é possível. Em Volat não há ninguém que o conheça.
Acontece que chamou meu nome, Gucky.
Rhodan estava perplexo. Ficou refletindo sobre o lugar em que já ouvira aquela voz retumbante. Foi penetrando no passado, recuou vinte anos, trinta. Cinqüenta anos...
O vulto enorme, cuja largura era igual à altura.
...Um sujeito que pesava de quinhentos a setecentos quilos. A barba...
Seria um superpesado? Naturalmente. Só podia ser um superpesado do povo dos saltadores. A solução era esta mesma. Tratava-se dos combatentes dos mercadores galácticos. Só mesmo um superpesado seria capaz de arrombar a porta de aço.
E aquele havia reconhecido Rhodan e chamara seu nome.
Os superpesados, que Rhodan chegara a conhecer, estavam quase todos mortos, pois foram vitimados durante a última batalha em torno do falso planeta Terra. Só um deles não participara da luta decisiva. Fora bastante inteligente para manter-se afastado.
Talamon!
Subitamente Rhodan lembrou-se. Fora Talamon que entrara precipitadamente no gabinete de Tropnow. Talvez fosse uma simples coincidência. Era pouco provável que o superpesado estivesse ligado à conspiração. Por certo encontrava-se em Volat para acertar algum negócio, tivera sua atenção despertada para os disparos e foi ver do que se tratava.
E vira Rhodan desaparecer no nada.
Portanto, sabia que Perry Rhodan, o homem mais perigoso do Universo, não morrera, mas continuava bem vivo.
Não guardaria o segredo exclusivamente para si.
Quer que eu volte e dê um jeito naquele gorducho? — perguntou Gucky, que acompanhara os pensamentos de Rhodan. — Se resolver falar...
Mas Rhodan já havia recuperado o sangue-frio. Sacudiu a cabeça, num gesto de tranqüila superioridade.
Não, Gucky. Fique aqui. Não somos nós que vamos decidir quando o computador regente saberá da minha existência. Estamos preparados. A descoberta da verdade não representará nenhum perigo. Portanto, deixemos que Talamon decida.
Mas se...
Gucky calou-se. Será que a época de paz havia chegado ao fim? Será que Rhodan teria que submeter-se à vontade do gigantesco computador? A Terra voltaria a constituir-se no alvo de ataques para as criaturas gananciosas?
Rhodan tornou a sacudir a cabeça.
Nada disso, Gucky. Já estamos em condições de enfrentar Árcon e seus aliados. Mas não acredito que haja guerra. Aguardemos. Seja como for, nossa missão em Volat chegou ao fim.
Isso mesmo; depois que tivermos liquidado Nomo.
Só agora Rhodan lembrou-se do prisioneiro.
Vá buscá-lo, Gucky.
Rhodan não esperou que Gucky se desmaterializasse. Dirigiu-se às cabanas, onde os companheiros já o aguardavam. Kuri estava ao lado de Thora, cujo sorriso parecia exprimir alívio. A arcônida altiva continuava a ser bela; era um ser humano vindo de outra estrela, mas resolvera contrair matrimônio com ele, um filho da Terra.
Noir e Lloyd enxugaram o suor da testa.
Vou pedir a Gucky que me leve até a Gazela — sugeriu Lloyd. — Se for a pé, levarei alguns dias, se é que consigo encontrá-la.
Rhodan estava prestes a responder, quando uma voz aguda soou atrás deles. Era Gucky. Estava de volta. Só.
O japonês está morto — disse; parecia bastante assustado. — Atirou-se da rocha que tem mais de cem metros de altura.
Noir e Lloyd falavam ao mesmo tempo, mas Rhodan conservou a calma.
Era o que eu imaginava — disse. — Afinal, o Nomo era japonês e como tal conservou os velhos costumes de seu povo. Preferiu a morte voluntária. Se dispusesse de um instrumento para isso, teria cometido sepuko segundo todas as regras da arte.
Ninguém disse uma única palavra.
Rhodan olhou para o céu. As primeiras nuvens se aproximavam, vindas do norte. A temperatura estava amena.
6


Talamon ainda se sentia paralisado pelo susto.
Apavorado, olhou para o lugar vazio no qual há menos de um segundo vira o homem que toda a Galáxia considerava morto.
Qualquer engano era impossível!
Vira Perry Rhodan e aquele animalzinho esquisito que costumava acompanhá-lo a todos os lugares e que dispunha de certas faculdades estranhas. O súbito desaparecimento de ambos constituía a melhor prova. Talamon ainda se lembrava perfeitamente daquelas histórias misteriosas que se contavam há meio século sobre Rhodan e seu exército de feiticeiros. O auxílio deste quase permitiu ao terrano abalar os alicerces do Império Arcônida.
A Terra e Perry Rhodan haviam sido destruídos num ataque de grandes proporções lançado pelos saltadores.
Era ao menos o que se acreditava até então.
Talamon estremeceu. Por que continuava parado, sem fazer nada? Devia prevenir o Universo. O computador de Árcon devia ser informado imediatamente de que a paz era aparente, já que Rhodan continuava vivo.
E os acontecimentos de Volat...
Talamon descobriu certas ligações entre os fatos.
É claro que Rhodan está atrás dos acontecimentos que causaram a intervenção da guarda pessoal do administrador”, pensou. Ainda não sabia o que Perry pretendia alcançar com isso.
Apesar do aspecto desajeitado, o superpesado movia-se com uma rapidez e uma agilidade extraordinárias. Saiu rapidamente da sala número 18, sem que visse o cadáver atrás da escrivaninha. Antes de chegar à porta teve de abrigar-se. Um grupo de homens, que procurava alcançar o elevador, atirava furiosamente em todas as direções. A polícia seguiu o grupo, mas não notou a presença de Talamon.
Suspirou aliviado ao atingir a saída do prédio. Estava prestes a correr em direção ao carro que o esperava, quando estacou.
Arregalou os olhos na direção do espaçoporto. Um regimento de robôs de combate aproximava-se marchando retumbante, com as armas de prontidão. Três homens caminhavam à frente da formação. Talamon conhecia um deles: o administrador Mansrin. Os outros eram desconhecidos.
Hesitou por um instante, mas logo dirigiu-se aos três arcônidas. No curso dos últimos decênios, o velho preconceito contra o regime de Árcon e do computador se desvanecera. O computador regente provara que sabia governar melhor e com mais lógica que qualquer ser humano. A unidade foi restabelecida, e qualquer revolta, por mais insignificante que fosse, era reprimida por meio da atuação implacável das forças disponíveis. Por isso tinha o dever de informar os representantes oficiais de Árcon sobre a descoberta que acabara de fazer.
Mansrin diminuiu o passo quando percebeu a intenção do superpesado. Dirigiu algumas palavras a Arona, que imediatamente deu ordem para que os robôs parassem. Os três fitaram com olhos curiosos o enorme saltador que corria em sua direção, agitando os braços.
Sou Talamon! — exclamou, respirando tão fortemente que por enquanto não conseguiu proferir outra palavra.
Aos poucos, foi se tranqüilizando. Mas Arona começou a impacientar-se.
O que houve? O senhor está nos retendo.
A essa hora Talamon já devia reconhecer que devia uma explicação imediata aos arcônidas.
Não é necessário que os senhores intervenham nos acontecimentos que se desenrolaram no edifício comercial — disse. — Acho que foi Árcon que o mandou para cá, não foi?
Sou o comandante Arona — disse o oficial em tom orgulhoso. — O computador regente mandou que viesse para cá a fim de restabelecer a ordem.
Talamon não pôde deixar de sorrir.
A notícia de um tumulto costuma espalhar-se muito depressa — observou em tom irônico. — O administrador Mansrin agiu depressa, mas aposto que não sabia do que se tratava.
Não sei o que quer dizer — interveio Mansrin.
Um sorriso de superioridade surgiu no rosto de Talamon.
Não tenho a menor dúvida de que realmente não saiba. Contarei ponto por ponto, para que...
Não temos tempo — disse Arona em tom áspero. — Árcon espera que eu lhe mande quanto antes um relatório em que anuncie que a rebelião foi sufocada.
Talamon espantou-se.
Que rebelião? Está falando na briguinha que houve nesse edifício? Não seja ridículo, comandante. Eu seria capaz de dar conta sozinho da meia dúzia de desordeiros que andou por ali. Não se trata disso. Prestem atenção. Fechei um negócio com um amigo e pretendia sair do edifício. Foi quando ouvi os disparos. Resolvi dar uma olhada e por pura coincidência entrei numa sala onde vi uma coisa que me arrepiou os cabelos.
Mansrin passou a mão pela cabeleira branca e exclamou em tom impaciente:
Fale logo, Talamon. O que foi que viu?
Talamon fez uma pausa de efeito e disse, falando lentamente e em tom enfático:
Vi Perry Rhodan, o terrano.
Ao que parecia, Arona nunca ouvira falar no tal de Rhodan. Continuou com o rosto impassível. O tenente Ro também não demonstrou a menor surpresa.
Com o administrador Mansrin a coisa foi diferente.
O funcionário mais graduado de Volat estremeceu como se alguém lhe tivesse dado uma pancada.
Rhodan? — gaguejou. — Será que o senhor ficou doido, Talamon?
Então acha que fiquei louco, Mansrin? É claro que não posso provar o que acabo de dizer. Rhodan desapareceu assim que entrei na sala onde ele se encontrava. Mas reconheci-o perfeitamente. Em sua companhia estava um estranho animal, que há cinqüenta anos desempenhava um papel importante. Quanto a Rhodan... bem, cavalheiros, travei conhecimento pessoal com ele. Não existe a menor possibilidade de engano.
Mas Rhodan está morto! — Mansrin parecia desesperado.
Sim — confirmou Talamon sem abalar-se. — Foi o que todos acreditamos, e o terrano nos deixou nessa crença. E, neste meio tempo, certamente não dormiu. O fato de ter aparecido de repente serve-nos de advertência. O regente deve ser informado sem demora.
Arona contemplou seus robôs.
Antes de mais nada vou cuidar da revolta — gritou uma ordem para dentro do aparelho de comando, e o exército voltou a colocar-se em movimento. — Mais tarde conversaremos, Mansrin.
Saiu marchando juntamente com os robôs e com o tenente Ro.
Mansrin ficou parado em atitude indecisa ao lado de Talamon.
Acha mesmo que deveríamos informar o computador? E se o senhor se enganou?
Acontece que não me enganei, administrador. Pode confiar nos meus olhos, embora não seja dos mais jovens. Venha; vamos no meu carro.
Dali a dez minutos aqueles dois homens tão desiguais fisicamente entraram na sala de hiper-rádio do palácio de Mansrin.
A comunicação com Árcon foi logo estabelecida.
Quero falar pessoalmente com o regente — pediu Talamon. — Nesse caso, a responsabilidade será minha, não sua. Combinado?
É claro que estou de acordo — respondeu Mansrin em tom de alívio.
A conhecida semi-esfera surgiu na tela. A voz dura e metálica disse:
Aqui fala Árcon. Responda, Volat.
Talamon colocou-se à frente da câmera.
Aqui fala Talamon do clã dos superpesados, pertencente ao povo dos saltadores. Estou agindo de acordo com o administrador. A revolta já foi abafada em Volat. Supomos que tenha sido uma simples manobra de camuflagem. A finalidade é desconhecida. Acabo de fazer uma descoberta muito importante, regente. Perry Rhodan está vivo. Há meia hora vi o terrano com meus próprios olhos aqui em Volat.
Seguiu-se uma ligeira pausa e a voz metálica começou a falar:
Ontem uma pessoa falou comigo do lugar em que o senhor se encontra. Porém não pude vê-la, porque se colocou em posição lateral. Sua voz despertou-me certas “lembranças”. Aguarde um momento, Talamon. Vou verificar os dados armazenados em fita.
A imagem continuou, mas o som silenciou.
Mansrin cochichou:
O que está fazendo?
É simples, administrador. A voz lhe parecia conhecida. Se já a ouviu alguma vez, a mesma está registrada em fita. Uma comparação...
Aqui fala o regente de Árcon. Talamon, o que o senhor viu corresponde à realidade. O homem que falou comigo ontem foi Rhodan, o terrano. Cometi um erro imperdoável ao não investigar imediatamente.
Quer dizer que mesmo um computador hiper-programado comete erros!” pensou admirando-se.
Talamon sentiu-se ligeiramente preocupado, embora o fato devesse tranqüilizá-lo.
E a Terra também existe, regente?
Não tenho certeza, Talamon. É possível que a Terra tenha sido destruída enquanto Rhodan escapou. Estou “lembrado” de que, depois da batalha, fingiu ter sucumbido com a nave Titan e, dali em diante, continuou desaparecido.
Seja como for, Rhodan está vivo, regente. Cumpri meu dever, avisando Árcon. O que acontecerá agora?
Decidirei oportunamente. Peça a Arona que regresse a Árcon com sua frota. Em Volat não há mais necessidade dela, pelo que suponho.
Providenciarei para que o comandante Arona decole — interveio Mansrin, achando que esse assunto lhe dizia respeito.
O computador confirmou e desligou. Talamon fitou a tela apagada.
Esse montão de metais ao menos poderia ter agradecido — murmurou com a voz zangada. — Afinal, é a existência dele que está em jogo.
Se Rhodan estiver vivo, nossa existência estará em perigo?
Talamon fez que sim e complementou:
Está vivo; não tenha a menor dúvida, Mansrin.
Saiu da sala de rádio pisando firme. Mansrin seguiu-o.
Quanto tempo pretende ficar em Volat, Talamon? O senhor ainda deve ter negócios por aqui.
Negócios para cá, negócios para lá — resmungou o superpesado. — De qualquer maneira, dirigir-me-ei à minha nave o mais rápido possível e executarei um salto gigantesco pelo hiperespaço, a fim de afastar-me o mais possível de Volat. E de Rhodan.
Acha que ainda está aqui?
Isso não me interessa. O que sei é que vou dar o fora. Receio de que todos nós tenhamos notícias de Perry Rhodan em tempo relativamente curto. A idéia de que teve tanto tempo a fim de preparar-se para o encontro conosco me dá uma sensação bastante desagradável. Temo até que ele não tenha dormido.
O administrador não respondeu.
De repente parecia muito triste.
O posto em Volat sempre foi agradável e tranqüilo...
Os dois homens separaram-se. Talamon saiu apressadamente em direção ao espaçoporto, enquanto Mansrin voltou ao seu gabinete. O comandante de sua guarda pessoal já o esperava para comunicar a sufocação da revolta e a prisão de todos os implicados. Perguntou o que deveria fazer com eles.
Arona, o comandante da frota de Árcon, é quem decidirá — disse Mansrin, que desejava livrar-se da responsabilidade. — Enquanto isso não acontecer, mantenha-os em lugar seguro.
E foi assim que um grupo de indivíduos, que haviam sido escolhidos para descobrir e destruir a Terra, subitamente foram parar em Árcon, onde passaram a ser considerados aliados secretos de Rhodan.
E esses homens fizeram com que o computador se defrontasse com mais algumas charadas.

* * *

Alguns dos homens aliciados por Yatuhin e Tropnow viram-se privados do prazer duvidoso de participar da viagem forçada para Árcon. No momento da revolta, estes não se encontravam em Kuklon, mas numa pequena clareira situada entre a cidade e o platô. Ficava afastada das trilhas mais utilizadas e dificilmente se poderia alcançá-la a pé.
Aqueles homens foram incumbidos de vigiar o veículo espacial prateado junto à clareira, sob as copas das árvores. Tinha o aspecto de um enorme disco.
Dedicaram-se ao serviço sem muito entusiasmo. Além deles, havia mais uma fileira de guardas a dois quilômetros, prontos para avisar, assim que qualquer criatura inteligente se aproximasse. Se os donos do disco voador resolvessem aparecer, teriam uma surpresa bastante desagradável.
Ninguém sabia quem havia descoberto aquele artefato misterioso. Seja como for, na época os chefes ficaram bastante nervosos e até chegaram a demonstrar medo. Em vez de destruir o disco, mandaram que o mesmo fosse vigiado ininterruptamente. Qualquer pessoa que tentasse aproximar-se da pequena nave seria detida.
No fim da tarde Lobthal, um lurano, voltava de uma ronda de inspeção e chegou à conclusão de que também na clareira tudo estava em ordem. Lobthal pertencia ao clã bastante ramificado dos saltadores e sentia-se satisfeito em ter encontrado um bom trabalho em Volat. Como ex-oficial de nave mercante estava acostumado a um estilo de vida semimilitarizado, motivo por que tratava seu pessoal com bastante rigor.
Ninguém havia tocado no disco. E isto o tranqüilizou visivelmente.
Dirigiu-se à cabana que ficava na beira da mata e sentou no banco de madeira. Por algum tempo ficou contemplando o cozinheiro, que preparava o jantar. Depois resolveu inspecionar os guardas postados na mata. Encontravam-se em torno do veículo espacial e serviriam de garantia adicional, caso alguém conseguisse romper a primeira barreira de sentinelas.
Enquanto percorria o local, teve a impressão de que um véu transparente se interpunha entre seus olhos e a nave. A menos de dez metros do lugar em que se encontrava, algo começou a tremeluzir. E subitamente dois vultos, que estavam de costas para ele, surgiram do nada.
Um dos vultos era humano, talvez um saltador. Usava uniforme verde, de um tipo que Lobthal jamais havia visto. No cinto balançava um radiador portátil de fabricação arcônida.
O outro vulto não era de homem. O animal, que teria pouco mais de um metro de altura, “trajava” apenas o pêlo marrom e liso. Ficava ereto sobre as pernas traseiras, como se estivesse acostumado a proceder assim e segurava a mão do companheiro. Não trazia nenhuma arma.
Lobthal procurou compreender o fenômeno incompreensível.
Os dois indivíduos haviam surgido diante de seus olhos, vindos do nada. Portanto, antes disso estavam invisíveis. Não havia outra explicação. Lobthal cometeu o engano de não procurar outra explicação, mas essa atitude correspondia ao seu caráter. O óbvio sempre lhe parecia o mais provável.
Com um movimento súbito, tirou o radiador que trazia no cinto e dirigiu-se para as costas do homem que, segundo acreditava, era a criatura mais perigosa.
Pare! Não se movam!
Ao que parecia o desconhecido estremeceu, mas virou-se devagar. As mãos pendiam frouxamente junto ao corpo, longe do radiador. O animal também se virou e contemplou-o com uma expressão de espanto e de recriminação, o que Lobthal não conseguia compreender.
Quem são os senhores e de onde vieram?
Fellmer Lloyd leu os pensamentos e os sentimentos de Lobthal e reconheceu o perigo que emanava desse homem. Seria inútil desaparecer de novo, embora com o auxílio de Gucky isso não fosse difícil. Então o disco fora encontrado e estava sendo vigiado. Era uma atitude inteligente, mas que infelizmente a essa hora já não servia para nada.
Tire isso daí! — disse Lloyd apontando com a cabeça em direção à arma de Lobthal. — Com esse brinquedo o senhor não me obrigará a falar.
Os senhores conseguem tornar-se invisíveis? — disse o lurano, ignorando o pedido.
Havia em sua voz um misto de curiosidade e ambição. Seus pensamentos revelaram o resto. Lloyd pensou em tirar proveito da disposição do inimigo.
Para quem conhece o processo isso não é difícil. Como sabe, os velhos arcônidas já se ocuparam com isso e construíram certos aparelhos, que naturalmente não estão ao alcance de qualquer um.
O senhor tem um aparelho desse tipo?
Lobthal se esquecera de suas obrigações e só se interessava pela invisibilidade. Ao que parecia, sentiu-se incomodado porque um dos guardas, que se encontrava na borda da mata, teve sua atenção atraída pelo incidente e caminhava para o lugar onde se encontrava.
Temos o aparelho no bolso — piou Gucky. — Quer ver?
Era claro que na Galáxia havia seres inteligentes de todos os tipos, mas Lobthal assustou-se quando o animal se dirigiu a ele no mais puro arcônida. Não esperava uma coisa dessas.
Hein? — fez cheio de perplexidade e fitou o rato-castor.
Gucky divertiu-se a valer, mas não tirou os olhos do guarda que se aproximava.
Se quiser, eu o torno invisível — prosseguiu. — Mas você terá que mandar embora esses homens. Eles não precisam ver isso.
Lobthal não chegava a ser tolo, mas não se poderia dizer que fosse uma fina flor da inteligência. Nem de leve pensou na possibilidade de que aquelas criaturas misteriosas haviam aparecido por causa do veículo espacial.
Ei, Kortu. Pegue os outros e vá até o lugar onde estão os postos avançados. Tomem cuidado para que ninguém rompa a linha. E levem o cozinheiro.
Mas...
Será que você não compreendeu? Depressa, senão lhe ensino como se corre.
Lobthal mantinha sua gente sob controle. O soldado, um saltador, obedeceu imediatamente, embora murmurasse algumas palavras incompreensíveis.
Com os olhos, Lloyd acompanhou o homem que se afastava. A Gazela estava na beira da mata, intata. Encontrava-se no mesmo lugar em que ele a deixara.
Lobthal quase chegava a estar febril quando se dirigiu a Lloyd.
O que... Será que agora vocês podem mostrar como a gente se torna invisível? Estou disposto a pagar qualquer coisa pelo aparelho, se quiserem vendê-lo.
Você não tem nem cinco tostões no bolso — disse Gucky em tom seco.
Tenho dinheiro, mas não aqui — voltou a erguer o radiador. — Além disso, sou o mais forte. Posso obrigá-los.
É preferível não experimentar — advertiu Gucky. — Aliás, terá que colocar esse brinquedo perigoso no chão, senão não poderá tornar-se invisível.
O quê? Largar a arma? Nunca!
Gucky deu de ombros e pôs-se a caminhar em direção à Gazela.
Está certo; deixe para lá.
Lobthal percebeu que não estava sendo levado a sério. Isso fez aumentar a raiva que sentia pelo animal que se encarregava da maior parte da conversa. Todavia...
Espere! O que pretende fazer por aí?
Gucky parou e lançou um olhar perscrutador para Lobthal. Depois de algum tempo, acenou com a cabeça, num gesto condescendente. Nesse meio tempo os soldados já haviam desaparecido; a clareira jazia deserta sob o crepúsculo vespertino. O sol já se pusera há muito tampo.
Está bem; eu lhe mostrarei — decidiu e voltou.
Lloyd mantinha-se ligeiramente afastado, contemplando o disco reluzente em atitude pensativa. Parecia não ter o menor interesse pelas “experiências” do companheiro.
Quero ficar com a arma — disse Lobthal, insistindo na sua segurança.
Está certo. Já que está com medo, pode ficar — concordou Gucky. — Vou segurar a mão. Será a mão vazia, para que você não perca seu brinquedo. Isso! Agora preste muita atenção, amigo barbudo...
Lobthal realmente se tornou invisível, mas só quem assistiu foi Lloyd. Gucky desapareceu juntamente com o lurano curioso. Depois o mutante caminhou tranqüilamente em direção à Gazela. O aparelho de controle baseado nas vibrações cerebrais funcionava perfeitamente, pois a escotilha abriu-se quando Lloyd se colocou abaixo da mesma e proferiu a palavra-código. Sem preocupar-se com o regresso de Gucky, subiu pela escada estreita logo que a mesma desceu.
Sentiu os impulsos mentais de vários homens, mas a escotilha já voltara a fechar-se e Lloyd se encontrava na sala de comando. Agora não lhe poderiam fazer muita coisa, quer estivessem desconfiados, quer não.
Com alguns movimentos da mão, colocou a Gazela em condições de decolar.
Na sala dos propulsores houve um zumbido, o soalho metálico vibrou e a clareira transformou-se numa manchinha clara em meio à mata. Lloyd não viu os homens que gritavam e corriam de arma em punho para o lugar em que pouco antes se encontrava o disco voador que deviam vigiar.
Orientou-se e tomou a direção de um ponto não muito distante. Dali a poucos minutos, avistou o platô, as cabanas em forma de colméias e o grupo de volatenses que corria ao encontro da nave prestes a pousar.
Lloyd desceu e, com um ligeiro cumprimento, passou pelos nativos que lhe acenavam amavelmente. Thora, Rhodan e Noir já o aguardavam. Haviam reconhecido a Gazela e acompanhado seu pouso.
Gucky já voltou?
Leu a resposta no rosto dos dois homens. Sentiu-se dominado pela sensação de ter cometido um erro.
Como? — perguntou Rhodan. — Será que esse moleque resolveu mais uma vez agir por conta própria?
Alguém nos perturbou e ele se encarregou de levá-lo. Combinamos que voltaria imediatamente ao platô, para não perdermos tempo.
Rhodan olhou para o relógio.
Está tudo preparado. A despedida dos volatenses foi simples, mas cordial. Seria conveniente que o senhor fosse apresentar suas despedidas à mãe onisciente antes de decolarmos, Lloyd.
E Gucky?
Este deve aparecer no último momento; não se preocupe. Apresse-se.
Já estavam esperando há quinze minutos na comporta aberta da Gazela, quando Gucky se materializou e se colocou a seu lado com um salto. Antes que alguém tivesse tempo de dizer qualquer coisa, o rato-castor pôs-se a chilrear:
Já podemos ir embora, cavalheiros.
Rhodan fez um rosto zangado, segurou o desobediente pelas orelhas e arrastou-o em direção à sala de comando. Com um empurrão, fê-lo sentar no sofá.
Lloyd decolou.
O planeta Volat foi diminuindo na tela, até transformar-se numa estrela brilhante. Com os campos antigravitacionais ativados, a Gazela acelerava para atingir a velocidade da luz. Noir, que se encontrava na sala de rádio, procurou entrar em contato com o comandante da Lotus, Jim Markus.
E agora, meu pequenino, você vai contar direitinho por onde andou todo esse tempo. Um teleportador não precisa de meia hora para levar alguém de um lugar a outro.
Gucky oferecia um aspecto triste. Arrependido, estava agachado no sofá com os olhos marrons e ingênuos semicerrados. Deixou pender tristemente as orelhas, e o dente roedor, que costumava aparecer constantemente, não surgiu.
Eu o levei a Kuklon, chefe. Foi por isso?
Foi? E não tem mais nada a dizer?
Gucky fez um gesto afirmativo.
Posso ser punido quando faço alguma coisa sem ordem expressa, mas meu ato se revela útil à causa?
Rhodan esforçou-se em vão para ler nos pensamentos do amigo, mas o bloqueio erigido por Gucky impediu-o de realizar seu intento. Olhou para a tela e respondeu:
Depende das circunstâncias. Desde que você não cause nenhum prejuízo que possa ser provado, a arbitrariedade pode ser perdoada. Mas fale logo. O que andou fazendo em Kuklon?
Gucky entesou o corpo e exibiu um sorriso tímido. A parte inferior do dente roedor tornou-se visível.
Levei Lobthal a cidade e...
Ora essa! Quem é esse Lobthal?
É claro que só pode ser o sujeito que estava vigiando a Gazela. Ah, desculpe! É o bloqueio mental. Esqueci.
Liberou o acesso ao seu cérebro, para que Rhodan tivesse mais facilidade em orientar-se, e prosseguiu:
Larguei-o em pleno centro, onde ficou um tanto deslocado, com a arma de radiações na mão. Não quis nem poderia impedir a intervenção da polícia. O segundo salto transportou-me ao palácio de Mansrin. Estava interessado em saber o que havia acontecido. Bem, fiquei satisfeito com o que consegui descobrir. Foi mesmo Talamon que reconheceu você. O administrador anda escondido depois que Árcon foi avisado. Quer dizer que já temos certeza, chefe. O “monstro”, que se encontra 30 mil anos-luz daqui, sabe que Rhodan ainda vive. Também já sabe que você esteve em Volat. Receio que já tenha chegado a hora de desistirmos do jogo de esconder.
Rhodan ouvira-o sem interromper. Aquilo que Gucky lhe contou não era nenhuma novidade e não o surpreendeu. Teria de esperar por isso. Mas havia uma coisa que Rhodan não compreendia: por que Talamon resolvera traí-lo? Afinal, já foram bons amigos. Será que agira assim sob o efeito do susto e já estava arrependido? Era bem possível que o choque sofrido, ao verse diante de uma pessoa que há tanto tempo acreditava estar morta, lhe turvasse o raciocínio por algum tempo.
Fosse como fosse, a essa hora o regente de Árcon já sabia que seu maior rival estava vivo e em atividade. O computador gigante se prepararia para iniciar a luta que colocaria em jogo a existência de um Império no qual brilhavam mais de mil sóis.
Noir anunciou em tom orgulhoso:
Estabeleci contato com a Lotus. Tenho o raio vetor.
Corrija a rota — ordenou Rhodan, acrescentando: — Procure colocar Markus na tela, Noir. Quero fazer-lhe algumas perguntas.
Noir não era especialista em matéria de rádio, pois do contrário teria conseguido mais depressa. Rhodan podia dar-se por satisfeito porque, dez minutos depois, o hipno pôde anunciar:
O contato com o comandante Markus já foi estabelecido, chefe. Quer falar com o senhor; ao que parece está bastante nervoso.
Rhodan dirigiu-se à sala de rádio e ocupou o lugar de Noir. Acionou alguns controles e os contornos do rosto de Markus tornaram-se mais nítidos. Os detalhes da sala de comando da Lotus também. Noir era um bom hipno, mas não entendia quase nada de rádio. Aliás, não tinha necessidade disso, pois era telepata.
Alô, Markus. Aqui fala Rhodan. Como está a ligação?
Entendo-o perfeitamente, Sir. Qual é sua posição?
Estou a cinqüenta e três minutos-luz de Volat. Por quê?
Irei ao seu encontro. Ninguém sabe o que poderá acontecer nos próximos trinta minutos. Como foi que o descobriram?
Rhodan teve a impressão de ter levado uma pancada. Como foi que Markus soube?
Descobriram? Por que diz isso?
Alguém deve ter dito ao computador de Árcon que o senhor se encontra em Volat. Então não sabia?
Sabia, Markus, mas estou procurando descobrir como foi que o senhor soube. Será que captou a mensagem de Mansrin?
Não; captei a mensagem do regente.
Rhodan já estava acostumado às surpresas. Mas, diante de uma surpresa como esta, levou alguns segundos para formular a pergunta seguinte.
O computador enviou uma mensagem? É para Mansrin?
Não senhor — respondeu Markus. — É para o senhor.
Rhodan perdeu a paciência.
Fale logo, homem! O que houve?
Há meia hora estou recebendo um pedido transmitido pelo hiper-rádio. O pedido foi redigido em linguagem comum e é repetido automaticamente a cada dois minutos. Está interessado no texto?
Ouvia-se que Rhodan respirava com dificuldade.
Quando o senhor estiver na minha frente, Markus...
Está bem. Darei o texto da mensagem. Vou começar:
Chamamos Perry Rhodan, do planeta Terra. Sei que você está vivo. Entre em contato comigo pela freqüência anterior. Garanto sua vida e sua liberdade. O regente de Árcon.
7



Os psicólogos de robôs de Terrânia tiveram muito trabalho antes que a Lotus pousasse. Rhodan transmitiu alguns dados pelo hiper-rádio e pediu a interpretação imediata. Não permitiu que pairasse a menor dúvida sobre a urgência da tarefa.
Queria o resultado no momento da chegada à Terra.
Markus conduziu a Lotus habilmente à velocidade da luz, fazendo-a atravessar o anel de asteróides. Passou por Marte e, dali a pouco, pousou em Terrânia, a maior cidade da Terra.
Segundo se informou, o resultado dos exames cibernético-psicológicos poderia ser fornecido dentro de alguns minutos. Por uma questão de cautela seria enviado diretamente ao quartel-general.
Rhodan, Thora, Lloyd e Noir tomaram um carro para ir à cidade. Passaram por uma abertura da abóbada energética, que permanecia ligada ininterruptamente e, cinco minutos depois, chegaram à sala da qual haviam saído há poucos dias.
Sentado atrás da escrivaninha com os numerosos aparelhos de comunicação, Bell fitou-os com uma expressão indefinível. Estava com os cotovelos apoiados na tampa e o queixo repousava nas mãos. Essa pose lembrava vivamente as caricaturas dos diretores atacados pela “doença gerencial”.
Por pouco não morro de tédio com esta rotina — lamentou-se em tom tão exagerado que ninguém o levou a sério. — Enquanto vocês passam uns dias de férias encantadoras, eu tenho... ah, Thora. Então está de volta? Que bom!
Subitamente estreitou os olhos.
Onde está Gucky?
Rhodan esperou até que a onda de cumprimentos cessasse.
Gucky está providenciando uma residência para seu novo amigo.
Bell respirou com dificuldade.
Desde quando Gucky tem outro amigo? — em sua voz havia um pouco de ciúmes. — Nunca me falou a respeito.
Você ainda o conhecerá — disse Rhodan para consolá-lo. — Aliás, faz pouco tempo que ele o arranjou. Você ficará encantado, Bell.
Hum — fez Bell em tom de ceticismo, mas não teve tempo para outros comentários.
Um dos aparelhos que se encontravam sobre a mesa emitiu um zumbido. Rhodan aproximou-se e comprimiu um botão. A pequena tela presa à parede iluminou-se.
Viu-se um rosto. O rosto pertencia a um homem de meia-idade, que pela capa branca devia ser um cientista.
Aqui fala Rhodan — disse Rhodan apressadamente. — Tem o resultado?
O homem fez que sim.
Aqui fala o Dr. Gertz. Os exames e as análises por nós realizadas provam com toda evidência que o regente não garantiria sua vida e segurança se não houvesse um motivo imperioso para isso. E o grande computador positrônico de Vênus concorda conosco num ponto: a mensagem do regente só pode ter um motivo.
Qual é esse motivo? — perguntou Rhodan, esforçando-se para ocultar a tensão.
O regente de Árcon precisa do senhor. Encontra-se numa situação difícil, cujas características não conhecemos. Precisa do auxílio da Terra.
Rhodan respirou profundamente.
Será que não está enganado, doutor?
O material disponível exclui qualquer possibilidade da ocorrência de erro nos cálculos. Nossa análise é cem por cento correta. O computador positrônico, que exerce a regência de Árcon, está num “aperto” e, de certa maneira, parece satisfeito, tanto quanto um computador pode sentir-se satisfeito, porque a Terra e o senhor ainda existem. Isso representa para ele a salvação de uma situação extremamente difícil.
Rhodan sacudiu a cabeça.
Árcon em dificuldade? Bem, para falar com franqueza, não tive a impressão de que o Império se encontra em situação difícil. Pelo contrário... Será que estávamos enganados?
Thora cochichou:
Talvez se trate de problemas que só o computador conhece, Perry. Acho que seria conveniente entrar em contato com o mesmo.
Farei isso assim que tiver liquidado as tarefas mais urgentes. Afinal, isso não representa qualquer risco para nós.
A tela apagou-se. Bell levantou-se e cedeu o lugar a Rhodan. Mas este não demonstrou muita vontade em reassumir no mesmo dia seu posto de Administrador do Império Solar.
Acho que merecemos um dia de descanso — anunciou. — Receio que você tenha de agüentar até amanhã.
Bell seguiu-o com os olhos. Seu rosto não mostrou a menor emoção quando disse:
Gucky ao menos poderia vir cumprimentar-me, Perry.
Rhodan virou-se na porta e exibiu um sorriso matreiro.
Darei o recado, Bell. Oportunamente ele lhe apresentará seu novo amigo.
Bell viu a porta fechar-se e passou a tratar dos serviços administrativos que esperavam por ele. Eram coisas miúdas com as quais não precisaria preocupar-se. Mas todo homem necessita fazer alguma coisa, senão...
Ouviu um ruído vindo da porta.
Bell levantou a cabeça e viu o botão girar. A porta abriu-se um pouco. Será que o sujeito não sabia bater? Sem dúvida vinha trazer mais algum trabalho?
Ou será que era Gucky que estava chegando?
Bell ergueu-se lentamente da poltrona e sentiu que seus cabelos se arrepiavam. Naturalmente quando achava-se no escritório, não carregava nenhuma arma. Quem imaginaria que um tigre selvagem pudesse andar livremente por aí? Um tigre?
Era um animal gigantesco; Bell nunca vira coisa igual. Ao menos no interior do gabinete teve essa impressão. Abanando a cauda e ronronando gostosamente foi caminhando em direção a Bell, que parecia duro de pavor. Não tirava os olhos dele. Bell não se deu ao trabalho de examinar detidamente aqueles olhos, pois do contrário teria notado alguma coisa.
O tigre — ou fosse lá o que fosse — parou e parecia preparar-se para dar o salto. Continuava a ronronar. Bell não se atreveu a fazer o menor movimento, para não irritar a fera.
Como foi que esse bicho conseguiu entrar aqui? Não é possível...”, pensou desesperado.
O tigre esticou o corpo e soltou um urro de satisfação que parecia dar notícia de que as dimensões do corpulento Bell correspondiam exatamente ao seu desejo para a refeição noturna.
Finalmente deitou aos pés de Bell, enrolou-se, bocejou gostosamente e fechou os olhos. De repente parecia não estar mais interessado na presa.
Bell suspirou de alívio e já se considerava praticamente salvo, quando ouviu outro ruído vindo da porta.
Deve ser a fêmea do devorador de gente, que vem buscar sua parte da presa”, pensou.
Mas era apenas Gucky que, muito empertigado, entrou com seu andar balouçante, exibindo um sorriso insolente.
Então, meu velho, já fez amizade com o Gracinha?
Bell não se moveu.
Gracinha? Está se referindo a essa fera? Será que ficou louco?
Seja mais comedido no seu vocabulário, seu gorducho, senão você vai ver o que é bom. Gracinha não é nenhuma fera; é meu amigo. Gracinha, mostre-lhe seus lindos dentes e as garras.
Sem abrir os olhos, Gracinha abriu a boca e exibiu os gigantescos dentes caninos. E as garras também não inspiravam muita confiança.
Então, gorducho. O que me diz? Quer que peça a Gracinha para lhe fazer cócegas?
Ele é manso? — perguntou Bell num sopro.
Quando quer, sabe ser manso — disse o rato-castor e sorriu. Seu dente roedor brilhava de tão feliz que se sentia. — Mas só quando quer. Se daqui em diante você não ficar bem comportado, eu o toco para cima de você. No lugar de onde eu o trouxe, certa vez devorou três homens de seu tamanho. E isso depois do almoço.
Bell sentiu certo alívio. O perigo principal havia passado. Se o tigre pertencia a Gucky, as coisas não poderiam ser tão ruins.
Deve ser para nosso zoológico, não é? — conjeturou.
Para o zoológico? — disse Gucky era tom indignado. Gracinha lançou um olhar sonolento para Bell. A ponta do rabo moveu-se de forma quase imperceptível. — Internar Gracinha no zoológico? Se isso acontecer, farei com que você seja o primeiro petisco a ser servido a ele. Não tenha a menor dúvida — inclinou-se sobre o felino e acariciou suas costas.
Logo depois prosseguiu:
Assim são os humanos. Acham que tudo que não se parece com eles deve ser internado no zoológico. Teria sido muito mais acertado se tivesse trancado os humanos no zoológico e deixado os animais livres. Isso pouparia muito aborrecimento para todo mundo.
Gracinha ronronou amistosamente.
Ainda tenho muito trabalho a fazer — murmurou Bell com a voz tímida.
Gucky lançou-lhe um olhar de desprezo.
Permissão concedida — disse em tom condescendente. — Vamos embora, Gracinha. Afinal, os homens são criaturas idiotas, e Bell não passa de um homem — o felino levantou-se e seguiu documente o dono.
Bell voltou a afundar na poltrona.
Até logo mais, gorducho. Agora que tenho um amigo tão influente, poderei conversar “melhor” com você, Bell. Ainda preciso apresentá-lo a outras pessoas.
Bell fitou a porta fechada. Bateu com o punho na escrivaninha e murmurou com a voz zangada:
Era só o que faltava. Vou...
Gucky materializou-se em cima da escrivaninha.
Pois não — piou. — Você queria dizer alguma coisa?
Bell olhou de esguelha para a porta entreaberta, que deixava ver o bigode de Gracinha.
Ora... apenas estava pensando... — principiou.
Porém Gucky logo o interrompeu:
Pois é justamente isso que você não deve fazer. Faça o favor de deixar que os telepatas pensem por você. Estão mais treinados. Boa noite, meu velho.
A porta fechou-se e o rato-castor desmaterializou-se. Bell suspirou.
Não se deve falar, não se deve pensar, tomara que ao menos se possa trabalhar...
Podia.
Ninguém o perturbou.




* * *
* *
*




Por fim os dois traidores saídos das fileiras do Exército de Mutantes foram aniquilados. Porém Talamon informou o regente arcônida de que Perry ainda está vivo. Com isso, a situação político-militar da Galáxia se tornou bastante precária...
Em O Atentado, Perry defronta-se com elementos que pretendem sua queda... E nesta aventura, acontece ainda o relato da primeira missão colonizatória interestelar.

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