Noir
dirigiu-se à porta a fim de cuidar para que ninguém mais entrasse
na sala. Rhodan foi até a escrivaninha e pôs-se a esperar.
Subitamente sentiu-se muito inquieto; não via o momento em que podia
apertar Thora nos braços. A arcônida, de início tão fria,
transformara-se em sua esposa e na companheira de sua vida. Amava-a
como nunca amara outra mulher, e isso há mais de seis decênios,
durante os quais não envelhecera.
Acontece
que agora Thora começava a envelhecer...
Por
enquanto não se percebia quase nada, pois os métodos biológicos de
conservação celular eram bastante eficientes, muito embora não
conferissem a imortalidade relativa. O elixir da vida dos aras,
subtraído do planeta de Tolimon, dera prova de sua eficácia. Por
enquanto, o processo de envelhecimento de Thora estava sendo detido.
Mas até
quando?
Rhodan não
sabia. Porém havia outra esperança para Thora e Crest. Seu nome era
apenas Atlan.
O ar
começou a tremeluzir na sala, como se estivesse super aquecido. O
vulto de uma mulher esbelta materializou-se juntamente com Gucky.
Usava o uniforme leve da frota espacial terrana. O verde suave da
jaqueta formava um belo contraste com os cabelos brancos da arcônida,
cujos olhos vermelho-dourados procuraram e logo acharam.
— Perry...
Correu em
direção ao amado, que a cingiu com os braços protetores.
— Thora,
meu amor!
Gucky
torceu o rosto e virou-se para outro lado.
— Para
que tanta beijoquice? — chilreou num desespero esquisito, passando
a pata pela boca. — Sinto náuseas com a simples idéia de que
alguém me possa lamber o focinho desse jeito.
— Ninguém
vai pensar nisso — disse Noir, que se encontrava junto à porta.
Gucky deu
de ombros e “cambaleou”
através da sala. Passou por Rhodan e Thora e olhou atentamente pela
janela.
O barulho
no corredor havia cessado.
De repente
Rhodan começou a falar sem virar-se:
— Gucky,
você não quer cuidar de Yatuhin? Pedi que viesse até aqui, mas
certamente foi detido pelo caminho. Não podemos perdê-lo.
— Não
podemos perdê-lo — repetiu
Gucky sem
mudar de posição. — É claro que não podemos. Esperem; logo
estarei de volta.
Disse isto
e desapareceu.
* * *
O japonês
Nomo Yatuhin desligou o aparelho de comunicação que se encontrava
sobre sua mesa.
“Por
que a voz de Tropnow soara tão estranha? Seria o nervosismo? Qual
seria o motivo do alarma?”,
pensou indagando-se.
Para ele,
a revolta contra Rhodan já perdera todos os encantos, mas sabia que
não havia nenhum caminho de volta.
Voltou a
pensar:
“A
vida eterna... afinal, o que vinha a ser isso? Talvez não passasse
de uma miragem. Por que não me dera por satisfeito com o tratamento
biológico, ao qual todos os mutantes de Rhodan tinham direito?
Afinal, eu não era um homem jovem e disposto, apesar dos meus
oitenta e nove anos? E agora? Se alguma coisa não desse certo?”
Lembrou-se
do alarma.
— O que
significava tudo isso? Seriam mais uma vez os volatenses? Ou será
que Rhodan descobrira seu esconderijo? — balbuciou.
A
lembrança de Rhodan fê-lo acordar.
Tropnow
estava em perigo; do contrário não teria solicitado socorro.
Nomo
levantou-se de um salto e saiu depressa para o corredor. Ao longe,
ouviu o tumulto. Feixes energéticos emitiam um chiado ao baterem na
parede e fundiam grandes pingos de metal. Os homens gritavam e
passavam correndo. Eram saltadores, arcônidas e membros de outras
raças aparentadas. Também havia alguns humanóides. Todos eles
haviam sucumbido às promessas de Tropnow?
“Seria
somente Tropnow?”,
pensou.
Depois deu
de ombros e continuou a correr. Mas de repente parou. Não trazia
nenhuma arma. Como poderia defender-se se fosse atacado? Seu rosto
assumiu uma expressão obstinada; prosseguiu.
Dois ou
três homens passaram correndo.
— Agarraram
Tropnow! — gritaram.
— Quem?
— berrou Nomo atrás deles, mas não obteve resposta.
Quem
seria?
Na rua
começaram a soar sereias. Nomo foi à janela e olhou para fora. Pelo
menos dez viaturas policiais pararam. Soldados armados da força de
proteção do administrador saltaram e correram em direção ao
edifício, carregando fuzis de radiações.
O que é
que essa gente tinha a ver com isso?
Nomo já
não estava compreendendo mais nada. Contara com um ataque do grupo
de Rhodan, mas não com a intervenção da tropa de proteção do
administrador.
Isso
poderia tomar um curso fatal e despedaçar todas as esperanças. Em
hipótese alguma, deveria haver uma luta entre eles e o poder oficial
de Árcon. Nesse caso, a perspectiva da formação pacífica das
divisões a serem lançadas contra a Terra teria chegado ao fim.
Teria
mesmo?
E se Árcon
ficasse sabendo que o planeta Terra não foi destruído pelos
saltadores, que continuava a existir? Se o grande computador soubesse
que Rhodan estava vivo? Qual seria sua reação? Até então Tropnow
não quis assumir o risco de depender das decisões de um computador
positrônico, mas o que faria se não houvesse outra alternativa?
O mutante
japonês não teve tempo de tomar uma decisão.
Esteve a
ponto de prosseguir cautelosamente para chegar ao lugar em que
Tropnow se encontrava quando alguém bateu nas suas costas e uma voz
fininha piou.
— Você
se admiraria caso soubesse o que diria o computador positrônico,
Nomo. Ah, não percebeu minha chegada? Bem, você nunca foi um bom
telepata. Acontece que eu sou.
O japonês
virou-se abruptamente, embora já soubesse quem estava às costas. Ao
contrário de Tropnow, conhecia Gucky muito bem, pois lidara muitas
vezes com ele. Sabia que não tinha a menor chance contra o
rato-castor e não tentou qualquer truque. Parou em posição rígida.
— O que
pretende fazer comigo? — perguntou.
Sua única
esperança era que a polícia chegasse logo. Talvez o rato-castor
receasse a descoberta. Afinal, não queriam que ninguém soubesse da
existência da Terra.
“Se
conseguisse entreter Gucky até lá”,
pensou.
— Será
que você não descobriu coisa melhor? — disse o rato-castor em tom
de escárnio. — Acha que demoraremos em desaparecer daqui? Não
tente soltar-se de mim enquanto estivermos teleportando. Você sabe
perfeitamente que na quinta dimensão não há comida. Se eu o
perder, você morre de fome.
Segurou
Nomo e saltou.
O japonês
teve a impressão de que o mundo estava mergulhando no vazio. Naquele
instante, vira um longo corredor diante de si, ouvira o grito dos
homens que lutavam, percebera os passos ruidosos dos policiais que se
aproximavam... e, dali a um segundo, encontrava-se ao lado do
rato-castor em meio a uma estepe cercada de mata virgem. Em cima
deles, estendia-se o céu azul.
— Então?
— chilreou Gucky satisfeito. — O que acha?
— O que
pretende fazer comigo? — perguntou Nomo sem demonstrar o menor
receio. — Se quiser matar-me, ande logo.
— Matar
por quê? Rhodan quer que você lhe conte certas coisas.
— A
Terra fica muito longe.
— A
Terra sim, mas Rhodan não, meu caro. Tropnow morreu porque tentou
matar Rhodan. Talvez Rhodan seja mais condescendente com você, desde
que resolva abrir a boca.
— Rhodan
está aqui, em Volat?
Gucky
voltou a segurar Nomo.
— Estamos
falando demais. Vou levá-lo a um lugar seguro.
Quando
voltaram a materializar-se, Gucky dirigiu-se a uma rocha escarpada
situada nas proximidades do platô de rocha.
Mal Nomo
sentiu chão firme sob seus pés, abriu os olhos. Mas Gucky já havia
desaparecido, deixando-o só. Será que não receava que ele, Nomo,
pudesse fugir?
Mas o
japonês logo viu que não havia como.
Gucky
largara-o sobre a rocha que se erguia em meio à selva. A rocha tinha
o formato de uma agulha gigante, vista de longe. Tinha mais de cem
metros de altura e, na base, seu diâmetro era de cerca de vinte
metros. As paredes eram lisas, sem qualquer fenda. A ponta consistia
num minúsculo platô, cujos lados não mediam mais de um metro.
Em todo o
Universo não poderia haver prisão melhor que esta.
Nomo
trazia apenas alguns objetos no bolso. E, com estes, não poderia
fazer nada. Mesmo que a camisa e a jaqueta bastassem para fazer uma
corda, não teria onde amarrá-las. Não havia nenhuma árvore,
nenhuma fenda naquele platô de um metro quadrado. Não tinha a menor
esperança de escapar.
Nomo
sentou e procurou vencer a tontura que começava a apoderar-se dele
ao olhar para baixo. Havia algumas árvores muito altas, mas ficavam
tão afastadas que seria impossível alcançá-las. Quando olhava
para o céu, tinha a impressão de estar sozinho no mundo. Em torno
havia apenas o nada e o sopro morno do vento.
Um metro
quadrado para viver...
Será que
o deixariam viver?
Tropnow já
havia morrido. Rhodan não tinha nenhuma compaixão por traidores,
pois os mesmos representavam um perigo não só para os seus planos,
mas para a própria existência da Humanidade. E Nomo sabia
perfeitamente que este fator seria decisivo. Rhodan dava maior valor
à existência da Humanidade do que à própria vida.
Não, não
deixariam de castigá-lo, e o castigo para a traição era apenas um:
a morte.
Nomo
Yatuhin era japonês. Em suas veias corria o sangue dos samurais, que
preferiam matar-se quando caíam nas mãos do inimigo.
Nomo
voltou a olhar em torno.
Como
poderia matar-se? Não tinha nenhuma arma, nenhum objeto com que
pudesse fazê-lo.
E a
altura? A queda?
Estremeceu,
mas subitamente deu-se conta de que para ele não havia outra
alternativa, se quisesse continuar fiel aos seus propósitos. Levaria
apenas alguns segundos para atingir o solo junto ao pé do rochedo.
Talvez acabasse caindo mesmo numa copa de árvore. Neste caso teria
uma chance pequenina de escapar com vida.
Foi em
parte esse fio tênue de esperança que fez com que realizasse seu
intento.
Inclinou-se
em direção ao oriente, tomou coragem, adiantou-se um passo, mais
um...
Caiu que
nem uma pedra.
5
Os cinco
cruzadores ligeiros pousaram sem o menor incidente no espaçoporto de
Kuklon. Assim que tocaram o solo, as grandes escotilhas laterais
abriram-se, as rampas foram baixadas, e os robôs de combate
começaram a marchar.
Essas
máquinas tinham uma semelhança longínqua com os homens. Mas sua
altura era de mais de dois metros e tinham quatro braços. Os dois
braços inferiores eram radiadores de impulsos pesados.
O exército
de robôs entrou em forma com passos retumbantes e ficou aguardando
ordens. Oficiais devidamente assinalados — que também eram robôs
— colocaram-se na porta daquela medonha tropa. Suas antenas estavam
em recepção. Essas antenas apontavam na direção da nave
capitania. No interior desta, o comandante Arona pegava um minúsculo
transmissor e o guardava numa pasta. Era apenas uma caixinha, mas
bastava para comandar o exército de aço.
Arona, o
arcônida, não tinha nada em comum com certos tipos degenerados de
sua raça. Seu rosto altivo irradiava uma atividade que já não era
fácil de encontrar no Império. Seu vulto esbelto e o cabelo branco
impunham respeito. Saiu da nave com o corpo ereto e, dentro de poucos
minutos, estava no campo de pouso. Segurava sob o braço o aparelho
de comando.
Era
acompanhado por um único oficial, também arcônida.
Arona
emitiu o primeiro comando, e o exército de quinhentos robôs pôs-se
em marcha.
O campo de
pouso estava vazio. Não se via ninguém. Os veículos, que
costumavam trafegar por ali, haviam desaparecido. Até a área
periférica, onde o tráfego costumava ser bastante intenso, parecia
deserta. O alarma policial já causara uma boa dose de confusão, mas
o pouso de cinco cruzadores deu o remate ao quadro. Ninguém sabia o
que havia acontecido. Por isso seria recomendável abrigar-se no
interior das casas. Apenas alguns volatenses ingênuos não
demonstravam o menor interesse pelas ocorrências, pois não as
compreendiam. Imperturbáveis, continuavam a dedicar-se às ocupações
habituais.
Mas até
estes desapareceram das ruas quando Arona, o arcônida, se pôs à
frente de sua tropa metálica e marchou em direção à cidade.
Um
edifício alto e largo fechava a vista para a cidade propriamente
dita. A rua principal passava junto ao mesmo.
Arona
dirigiu-se ao oficial que o acompanhava:
— Tenente
Ro, por que será que o tal do administrador Mansrin não compareceu
para receber-nos? O que está acontecendo com a revolta?
Ro apontou
para o pequeno receptor que trazia consigo, e que o ligava com a sala
de comando da nave.
— Não
sabemos, comandante. Mansrin nega ter enviado a mensagem ao regente.
Afirma que em Volat não está havendo nenhuma rebelião.
— Isso é
muito misterioso — disse Arona em tom irônico e ficou com os olhos
fitos no grande edifício. Alguma coisa parecia chamar sua atenção.
— Não há nenhuma revolta. Gostaria de saber por que estão
atirando ali.
— Onde,
comandante?
Arona
apontou para a frente.
— A
menos de quinhentos metros daqui. Não está vendo os raios
característicos dos radiadores de impulso? Ali está sendo travada
uma luta; uma luta encarniçada. É de estranhar que Mansrin tivesse
preferido não nos informar a esse respeito, não acha?
Imediatamente,
levantou a pasta e falou para dentro do pequeno microfone:
— Novo
destino: rota trezentos e sessenta e nove. Armas de prontidão!
O exército
de robôs mudou de direção, seguindo Arona e Ro.
Os braços
inferiores das máquinas estavam em posição horizontal. No lugar
das mãos, havia os bocais dos potentes radiadores energéticos,
apontados para o edifício.
Um veículo
saiu de uma rua lateral. Parou abruptamente do lado oposto da rua. Um
arcônida saltou e correu apressadamente para junto de Arona. O
cabelo branco esvoaçava.
— Arona!
Sou o administrador Mansrin. Peço que me desculpe por ter cometido o
erro de não lhe proporcionar a recepção costumeira. Houve um
imprevisto...
— A
rebelião, não é?
Mansrin
sacudiu a cabeça.
— Pois é
justamente isso que eu não compreendo. Não expedi nenhuma mensagem
para Árcon nem solicitei o envio da frota, pois não havia motivo
para isso. Em Volat reinavam a paz e a ordem. Até hoje. No mesmo
instante em que o senhor anunciava sua chegada, uma luta com armas de
fogo irrompeu no edifício-sede das empresas comerciais dos
saltadores. Não sabemos quem está lutando contra quem, mas de
qualquer maneira estão lutando. A guarda pessoal, à minha
disposição, já interveio nos acontecimentos.
Arona
lançou um olhar indagador para Mansrin.
— Não
acredita que poderia ser uma revolta de grandes proporções? Quem
sabe se os saltadores...
— Nunca,
comandante. Conheço minha gente...
— Nunca
paramos de aprender — interrompeu o arcônida. — Seja como for,
meus robôs restabelecerão a ordem, e depois saberemos quem se
permitiu a brincadeira de alarmar Árcon por uma ninharia. Tem
certeza de que não foi o senhor?
— Foi um
desconhecido, comandante. Já descobri isso. O mesmo introduziu-se
sorrateiramente na sala de rádio e obrigou o operador a fazer uma
ligação com o computador regente. Não há outra explicação
lógica para o incidente.
Arona, que
mandara parar seu exército, voltou a colocá-lo em marcha.
— Venha
comigo, administrador Mansrin. Talvez consigamos solucionar em
conjunto o mistério do alarma falso. O senhor tem razão; também
não vejo a menor lógica nisso. Quem se exporia voluntariamente ao
perigo de alarmar a maior potência da nossa Galáxia?
Soltou uma
risadinha, e concluiu:
— Só
mesmo um doido.
O tenente
Ro disse num tom que quase chegava a ser tímido:
— Ou
alguém que seja ainda mais poderoso, comandante.
Fitaram-no
com os olhos arregalados, mas ninguém respondeu.
Os robôs
puseram-se em marcha.
* * *
Na escada
que conduzia ao subsolo, Fellmer Lloyd e seu grupo defrontaram-se com
os rebeldes que lutavam obstinadamente por um objetivo desconhecido.
Os chefes estavam mortos ou presos, mas os adversários do mutante
não o sabiam. Agiam de acordo com as ordens recebidas ao abrirem
fogo contra os volatenses que os seguiam.
Como
localizador e telepata que era, Fellmer Lloyd descobriu as intenções
deles, antes que as mesmas se concretizassem em atos. Gritava suas
ordens. Os volatenses haviam sido submetidos a um treinamento
intenso. Abrigados, iam pegando as mini-granadas do arsenal da Gazela
e as atiravam para o corredor de baixo.
Depois
Fellmer Lloyd ordenou tranqüilamente a retirada.
Mal os
primeiros disparos energéticos começaram a chiar e a derreter
algumas amuradas de aço, ouviram-se as detonações. Seguiram-se
gritos e vozes de comando e os rebeldes precipitaram-se escada acima.
O fedor das bombas de gases era mais apavorante que a perspectiva de
serem recebidos com uma série de disparos dos volatenses.
Era
exatamente o que Lloyd queria.
Devido à
fumaça, os rebeldes estavam quase cegos. Esfregavam os olhos
irritados. Já não reconheciam Lloyd ou os volatenses; apenas viam
sombras que se destacavam na luz que penetrava pela janela.
Abriram
fogo contra essas sombras.
Para azar
deles, essas sombras não pertenciam aos volatenses, mas à força
policial que acabara de penetrar no edifício. Por isso não era de
admirar que os policiais acreditassem que realmente se defrontavam
com um grupo de rebeldes.
Responderam
ao fogo. Dali a pouco, outra batalha rugia furiosamente no corredor.
Fellmer atingira seu objetivo. Quando o engano fosse esclarecido —
se é que isso viria a acontecer — a Gazela já teria mergulhado
nas profundezas do espaço.
Sempre
correndo, Fellmer Lloyd e seus volatenses chegaram ao corredor que
dava para a sala número 18. O localizador chegou no momento exato de
assistir à rematerialização de Gucky. Noir encontrava-se junto à
porta, enquanto Rhodan e Thora permaneciam junto à janela.
— Então?
— perguntou Rhodan. Não disse mais nada.
Lloyd fez
um sinal para os volatenses. Os nativos fizeram um gesto, atiraram as
armas para o chão e saíram andando como se não tivessem nada a ver
com aquilo — e de fato não deixava de ser assim. Alguns deles
voltaram à sala de leitura e acomodaram-se. Outros dirigiram-se a
vários andares e indagaram junto às empresas ali estabelecidas se
havia um emprego. Faziam aquilo que fariam normalmente, em qualquer
dia. Uma vez que a notícia dos acontecimentos que se desenrolavam
nos pavimentos inferiores ainda não havia chegado a todos os
recantos do edifício, o súbito interesse pelos empregos ou pelas
mercadorias eventualmente oferecidas não provocou suspeitas.
— Está
saindo tudo de acordo com o plano — informou Lloyd e fechou a
porta, já amolecida pelo calor das armas dos rebeldes. O trinco da
fechadura entrou ruidosamente no engate, o que fez Gucky soltar uma
opinião de perito:
— Aqui
ao menos sabem fabricar fechaduras muito resistentes!
— Quer
dizer que os rebeldes se envolveram numa luta contra as autoridades?
— perguntou Rhodan para certificar-se.
— Foram
bastante idiotas para isso — disse Lloyd com um sorriso. — A esta
hora não haverá mais a menor dúvida de que um grupo revolucionário
procurou articular um golpe contra Árcon. É bem verdade que
procurarão em vão pelos homens que tramaram tudo, mas isso não
importa.
Rhodan
lembrou-se do outro traidor.
— Para
onde levou o japonês? — perguntou, dirigindo-se a Gucky.
— Levei-o
a um lugar do qual nunca poderá escapar com vida. Está na ponta de
um rochedo. Poderei buscá-lo a qualquer momento.
— Muito
bem. Acho que já está na hora de darmos o fora. Thora irá em
primeiro lugar. Leve-a ao platô, Gucky.
Dali a dez
segundos, o rato-castor estava de volta.
— Kuri
está cuidando dela, chefe. E agora?
Foi a vez
de Noir empreender a viagem. Durante o grande salto Gucky pegava uma
pessoa de cada vez, para não se cansar demais. Isso não influía
muito no tempo da operação, pois cada teleportação durava apenas
alguns segundos. Dessa forma, também Fellmer Lloyd voltou ao ponto
de partida da aventura, ou seja, ao platô em que residia a mãe
onisciente dos volatenses.
Rhodan
aguardou pacientemente o último retorno de Gucky.
Embora
apenas alguns segundos se houvessem passado desde o último salto, o
regresso do rato-castor parecia demorar uma eternidade. No corredor
estava acontecendo alguma coisa. Ouviram-se vozes de comando e o
chiado dos disparos de radiações. Alguém soltou um grito de pavor
e atirou-se contra a porta. Talvez tivessem reconhecido a superfície
atacada pelo calor e estivessem suspeitando de alguma coisa.
Gucky
materializou-se com um sorriso.
— Gracinha
não me quis deixar sair — disse para explicar a demora. — Que
gatinho querido! Queria brincar...
Rhodan
continuou com o rosto sério.
— Daqui
a dez segundos, estarão nesta sala. Quem será? A polícia?
— Quer
que eu dê uma olhada?
— Não
se atreva a fazer uma coisa dessas! Vamos é dar o fora. Nossa tarefa
está concluída...
Gucky
segurou a mão de Rhodan.
— Ainda
não. Quer que vá buscar Yatuhin agora, ou devo esperar mais um
pouco?
— Vamos
primeiro ao platô. Ande depressa!
Enquanto o
rato-castor se concentrava para dar o salto e criar o respectivo
campo energético, a porta sofreu um forte abalo e abriu-se. Um homem
entrou abruptamente, tropeçou por cima das armas espalhadas pelo
chão e cambaleou de encontro à parede. Ficou parado e contemplou os
dois vultos que se dissolviam no ar.
Rhodan
ainda viu a porta abrir-se, mas depois os contornos dos objetos se
desmancharam diante de seus olhos. Ainda chegou a ver o enorme vulto
que penetrou como uma bala de canhão. Se o “colosso”
não fosse cego, ainda devia ter assistido ao milagre.
Antes que
Rhodan passasse à quinta dimensão, um grito atingiu seu ouvido. Já
ouvira aquela voz. Era uma voz retumbante e máscula, que despertou
uma lembrança em sua mente.
E essa voz
exclamou:
— RHODAN!
Depois
viu-se envolvido pela escuridão.
Logo a
claridade voltou-lhe a surgir no platô de rocha. Desprendeu-se de
Gucky, mas aquela voz continuava a ressoar em seus ouvidos.
— Viu o
homem, Gucky? Quem foi? Ele me reconheceu.
O
rato-castor estreitou os olhos.
— Não
tive tempo para cuidar disso, pois nesse caso não poderia ter
saltado. Quer que volte para dar uma olhada?
— Ele me
reconheceu.
Gucky
arregalou os olhos.
— Reconheceu
você? Não é possível. Em Volat não há ninguém que o conheça.
— Acontece
que chamou meu nome, Gucky.
Rhodan
estava perplexo. Ficou refletindo sobre o lugar em que já ouvira
aquela voz retumbante. Foi penetrando no passado, recuou vinte anos,
trinta. Cinqüenta anos...
O vulto
enorme, cuja largura era igual à altura.
...Um
sujeito que pesava de quinhentos a setecentos quilos. A barba...
Seria um
superpesado? Naturalmente. Só podia ser um superpesado do povo dos
saltadores. A solução era esta mesma. Tratava-se dos combatentes
dos mercadores galácticos. Só mesmo um superpesado seria capaz de
arrombar a porta de aço.
E aquele
havia reconhecido Rhodan e chamara seu nome.
Os
superpesados, que Rhodan chegara a conhecer, estavam quase todos
mortos, pois foram vitimados durante a última batalha em torno do
falso planeta Terra. Só um deles não participara da luta decisiva.
Fora bastante inteligente para manter-se afastado.
Talamon!
Subitamente
Rhodan lembrou-se. Fora Talamon que entrara precipitadamente no
gabinete de Tropnow. Talvez fosse uma simples coincidência. Era
pouco provável que o superpesado estivesse ligado à conspiração.
Por certo encontrava-se em Volat para acertar algum negócio, tivera
sua atenção despertada para os disparos e foi ver do que se
tratava.
E vira
Rhodan desaparecer no nada.
Portanto,
sabia que Perry Rhodan, o homem mais perigoso do Universo, não
morrera, mas continuava bem vivo.
Não
guardaria o segredo exclusivamente para si.
— Quer
que eu volte e dê um jeito naquele gorducho? — perguntou Gucky,
que acompanhara os pensamentos de Rhodan. — Se resolver falar...
Mas Rhodan
já havia recuperado o sangue-frio. Sacudiu a cabeça, num gesto de
tranqüila superioridade.
— Não,
Gucky. Fique aqui. Não somos nós que vamos decidir quando o
computador regente saberá da minha existência. Estamos preparados.
A descoberta da verdade não representará nenhum perigo. Portanto,
deixemos que Talamon decida.
— Mas
se...
Gucky
calou-se. Será que a época de paz havia chegado ao fim? Será que
Rhodan teria que submeter-se à vontade do gigantesco computador? A
Terra voltaria a constituir-se no alvo de ataques para as criaturas
gananciosas?
Rhodan
tornou a sacudir a cabeça.
— Nada
disso, Gucky. Já estamos em condições de enfrentar Árcon e seus
aliados. Mas não acredito que haja guerra. Aguardemos. Seja como
for, nossa missão em Volat chegou ao fim.
— Isso
mesmo; depois que tivermos liquidado Nomo.
Só agora
Rhodan lembrou-se do prisioneiro.
— Vá
buscá-lo, Gucky.
Rhodan não
esperou que Gucky se desmaterializasse. Dirigiu-se às cabanas, onde
os companheiros já o aguardavam. Kuri estava ao lado de Thora, cujo
sorriso parecia exprimir alívio. A arcônida altiva continuava a ser
bela; era um ser humano vindo de outra estrela, mas resolvera
contrair matrimônio com ele, um filho da Terra.
Noir e
Lloyd enxugaram o suor da testa.
— Vou
pedir a Gucky que me leve até a Gazela — sugeriu Lloyd. — Se for
a pé, levarei alguns dias, se é que consigo encontrá-la.
Rhodan
estava prestes a responder, quando uma voz aguda soou atrás deles.
Era Gucky. Estava de volta. Só.
— O
japonês está morto — disse; parecia bastante assustado. —
Atirou-se da rocha que tem mais de cem metros de altura.
Noir e
Lloyd falavam ao mesmo tempo, mas Rhodan conservou a calma.
— Era o
que eu imaginava — disse. — Afinal, o Nomo era japonês e como
tal conservou os velhos costumes de seu povo. Preferiu a morte
voluntária. Se dispusesse de um instrumento para isso, teria
cometido sepuko
segundo todas as regras da arte.
Ninguém
disse uma única palavra.
Rhodan
olhou para o céu. As primeiras nuvens se aproximavam, vindas do
norte. A temperatura estava amena.
6
Talamon
ainda se sentia paralisado pelo susto.
Apavorado,
olhou para o lugar vazio no qual há menos de um segundo vira o homem
que toda a Galáxia considerava morto.
Qualquer
engano era impossível!
Vira Perry
Rhodan e aquele animalzinho esquisito que costumava acompanhá-lo a
todos os lugares e que dispunha de certas faculdades estranhas. O
súbito desaparecimento de ambos constituía a melhor prova. Talamon
ainda se lembrava perfeitamente daquelas histórias misteriosas que
se contavam há meio século sobre Rhodan e seu exército de
feiticeiros. O auxílio deste quase permitiu ao terrano abalar os
alicerces do Império Arcônida.
A Terra e
Perry Rhodan haviam sido destruídos num ataque de grandes proporções
lançado pelos saltadores.
Era ao
menos o que se acreditava até então.
Talamon
estremeceu. Por que continuava parado, sem fazer nada? Devia prevenir
o Universo. O computador de Árcon devia ser informado imediatamente
de que a paz era aparente, já que Rhodan continuava vivo.
E os
acontecimentos de Volat...
Talamon
descobriu certas ligações entre os fatos.
“É
claro que Rhodan está atrás dos acontecimentos que causaram a
intervenção da guarda pessoal do administrador”,
pensou. Ainda não sabia o que Perry pretendia alcançar com isso.
Apesar do
aspecto desajeitado, o superpesado movia-se com uma rapidez e uma
agilidade extraordinárias. Saiu rapidamente da sala número 18, sem
que visse o cadáver atrás da escrivaninha. Antes de chegar à porta
teve de abrigar-se. Um grupo de homens, que procurava alcançar o
elevador, atirava furiosamente em todas as direções. A polícia
seguiu o grupo, mas não notou a presença de Talamon.
Suspirou
aliviado ao atingir a saída do prédio. Estava prestes a correr em
direção ao carro que o esperava, quando estacou.
Arregalou
os olhos na direção do espaçoporto. Um regimento de robôs de
combate aproximava-se marchando retumbante, com as armas de
prontidão. Três homens caminhavam à frente da formação. Talamon
conhecia um deles: o administrador Mansrin. Os outros eram
desconhecidos.
Hesitou
por um instante, mas logo dirigiu-se aos três arcônidas. No curso
dos últimos decênios, o velho preconceito contra o regime de Árcon
e do computador se desvanecera. O computador regente provara que
sabia governar melhor e com mais lógica que qualquer ser humano. A
unidade foi restabelecida, e qualquer revolta, por mais
insignificante que fosse, era reprimida por meio da atuação
implacável das forças disponíveis. Por isso tinha o dever de
informar os representantes oficiais de Árcon sobre a descoberta que
acabara de fazer.
Mansrin
diminuiu o passo quando percebeu a intenção do superpesado. Dirigiu
algumas palavras a Arona, que imediatamente deu ordem para que os
robôs parassem. Os três fitaram com olhos curiosos o enorme
saltador que corria em sua direção, agitando os braços.
— Sou
Talamon! — exclamou, respirando tão fortemente que por enquanto
não conseguiu proferir outra palavra.
Aos
poucos, foi se tranqüilizando. Mas Arona começou a impacientar-se.
— O que
houve? O senhor está nos retendo.
A essa
hora Talamon já devia reconhecer que devia uma explicação imediata
aos arcônidas.
— Não é
necessário que os senhores intervenham nos acontecimentos que se
desenrolaram no edifício comercial — disse. — Acho que foi Árcon
que o mandou para cá, não foi?
— Sou o
comandante Arona — disse o oficial em tom orgulhoso. — O
computador regente mandou que viesse para cá a fim de restabelecer a
ordem.
Talamon
não pôde deixar de sorrir.
— A
notícia de um tumulto costuma espalhar-se muito depressa —
observou em tom irônico. — O administrador Mansrin agiu depressa,
mas aposto que não sabia do que se tratava.
— Não
sei o que quer dizer — interveio Mansrin.
— Um
sorriso de superioridade surgiu no rosto de Talamon.
— Não
tenho a menor dúvida de que realmente não saiba. Contarei ponto por
ponto, para que...
— Não
temos tempo — disse Arona em tom áspero. — Árcon espera que eu
lhe mande quanto antes um relatório em que anuncie que a rebelião
foi sufocada.
Talamon
espantou-se.
— Que
rebelião? Está falando na briguinha que houve nesse edifício? Não
seja ridículo, comandante. Eu seria capaz de dar conta sozinho da
meia dúzia de desordeiros que andou por ali. Não se trata disso.
Prestem atenção. Fechei um negócio com um amigo e pretendia sair
do edifício. Foi quando ouvi os disparos. Resolvi dar uma olhada e
por pura coincidência entrei numa sala onde vi uma coisa que me
arrepiou os cabelos.
Mansrin
passou a mão pela cabeleira branca e exclamou em tom impaciente:
— Fale
logo, Talamon. O que foi que viu?
Talamon
fez uma pausa de efeito e disse, falando lentamente e em tom
enfático:
— Vi
Perry Rhodan, o terrano.
Ao que
parecia, Arona nunca ouvira falar no tal de Rhodan. Continuou com o
rosto impassível. O tenente Ro também não demonstrou a menor
surpresa.
Com o
administrador Mansrin a coisa foi diferente.
O
funcionário mais graduado de Volat estremeceu como se alguém lhe
tivesse dado uma pancada.
— Rhodan?
— gaguejou. — Será que o senhor ficou doido, Talamon?
— Então
acha que fiquei louco, Mansrin? É claro que não posso provar o que
acabo de dizer. Rhodan desapareceu assim que entrei na sala onde ele
se encontrava. Mas reconheci-o perfeitamente. Em sua companhia estava
um estranho animal, que há cinqüenta anos desempenhava um papel
importante. Quanto a Rhodan... bem, cavalheiros, travei conhecimento
pessoal com ele. Não existe a menor possibilidade de engano.
— Mas
Rhodan está morto! — Mansrin parecia desesperado.
— Sim —
confirmou Talamon sem abalar-se. — Foi o que todos acreditamos, e o
terrano nos deixou nessa crença. E, neste meio tempo, certamente não
dormiu. O fato de ter aparecido de repente serve-nos de advertência.
O regente deve ser informado sem demora.
Arona
contemplou seus robôs.
— Antes
de mais nada vou cuidar da revolta — gritou uma ordem para dentro
do aparelho de comando, e o exército voltou a colocar-se em
movimento. — Mais tarde conversaremos, Mansrin.
Saiu
marchando juntamente com os robôs e com o tenente Ro.
Mansrin
ficou parado em atitude indecisa ao lado de Talamon.
— Acha
mesmo que deveríamos informar o computador? E se o senhor se
enganou?
— Acontece
que não me enganei, administrador. Pode confiar nos meus olhos,
embora não seja dos mais jovens. Venha; vamos no meu carro.
Dali a dez
minutos aqueles dois homens tão desiguais fisicamente entraram na
sala de hiper-rádio do palácio de Mansrin.
A
comunicação com Árcon foi logo estabelecida.
— Quero
falar pessoalmente com o regente — pediu Talamon. — Nesse caso, a
responsabilidade será minha, não sua. Combinado?
— É
claro que estou de acordo — respondeu Mansrin em tom de alívio.
A
conhecida semi-esfera surgiu na tela. A voz dura e metálica disse:
— Aqui
fala Árcon. Responda, Volat.
Talamon
colocou-se à frente da câmera.
— Aqui
fala Talamon do clã dos superpesados, pertencente ao povo dos
saltadores. Estou agindo de acordo com o administrador. A revolta já
foi abafada em Volat. Supomos que tenha sido uma simples manobra de
camuflagem. A finalidade é desconhecida. Acabo de fazer uma
descoberta muito importante, regente. Perry Rhodan está vivo. Há
meia hora vi o terrano com meus próprios olhos aqui em Volat.
Seguiu-se
uma ligeira pausa e a voz metálica começou a falar:
— Ontem
uma pessoa falou comigo do lugar em que o senhor se encontra. Porém
não pude vê-la, porque se colocou em posição lateral. Sua voz
despertou-me certas “lembranças”.
Aguarde um momento, Talamon. Vou verificar os dados armazenados em
fita.
A imagem
continuou, mas o som silenciou.
Mansrin
cochichou:
— O que
está fazendo?
— É
simples, administrador. A voz lhe parecia conhecida. Se já a ouviu
alguma vez, a mesma está registrada em fita. Uma comparação...
— Aqui
fala o regente de Árcon. Talamon, o que o senhor viu corresponde à
realidade. O homem que falou comigo ontem foi Rhodan, o terrano.
Cometi um erro imperdoável ao não investigar imediatamente.
“Quer
dizer que mesmo um computador hiper-programado comete erros!”
pensou admirando-se.
Talamon
sentiu-se ligeiramente preocupado, embora o fato devesse
tranqüilizá-lo.
— E a
Terra também existe, regente?
— Não
tenho certeza, Talamon. É possível que a Terra tenha sido destruída
enquanto Rhodan escapou. Estou “lembrado”
de que, depois da batalha, fingiu ter sucumbido com a nave Titan e,
dali em diante, continuou desaparecido.
— Seja
como for, Rhodan está vivo, regente. Cumpri meu dever, avisando
Árcon. O que acontecerá agora?
— Decidirei
oportunamente. Peça a Arona que regresse a Árcon com sua frota. Em
Volat não há mais necessidade dela, pelo que suponho.
— Providenciarei
para que o comandante Arona decole — interveio Mansrin, achando que
esse assunto lhe dizia respeito.
O
computador confirmou e desligou. Talamon fitou a tela apagada.
— Esse
montão de metais ao menos poderia ter agradecido — murmurou com a
voz zangada. — Afinal, é a existência dele que está em jogo.
— Se
Rhodan estiver vivo, nossa existência estará em perigo?
Talamon
fez que sim e complementou:
— Está
vivo; não tenha a menor dúvida, Mansrin.
Saiu da
sala de rádio pisando firme. Mansrin seguiu-o.
— Quanto
tempo pretende ficar em Volat, Talamon? O senhor ainda deve ter
negócios por aqui.
— Negócios
para cá, negócios para lá — resmungou o superpesado. — De
qualquer maneira, dirigir-me-ei à minha nave o mais rápido possível
e executarei um salto gigantesco pelo hiperespaço, a fim de
afastar-me o mais possível de Volat. E de Rhodan.
— Acha
que ainda está aqui?
— Isso
não me interessa. O que sei é que vou dar o fora. Receio de que
todos nós tenhamos notícias de Perry Rhodan em tempo relativamente
curto. A idéia de que teve tanto tempo a fim de preparar-se para o
encontro conosco me dá uma sensação bastante desagradável. Temo
até que ele não tenha dormido.
O
administrador não respondeu.
De repente
parecia muito triste.
O posto em
Volat sempre foi agradável e tranqüilo...
Os dois
homens separaram-se. Talamon saiu apressadamente em direção ao
espaçoporto, enquanto Mansrin voltou ao seu gabinete. O comandante
de sua guarda pessoal já o esperava para comunicar a sufocação da
revolta e a prisão de todos os implicados. Perguntou o que deveria
fazer com eles.
— Arona,
o comandante da frota de Árcon, é quem decidirá — disse Mansrin,
que desejava livrar-se da responsabilidade. — Enquanto isso não
acontecer, mantenha-os em lugar seguro.
E foi
assim que um grupo de indivíduos, que haviam sido escolhidos para
descobrir e destruir a Terra, subitamente foram parar em Árcon, onde
passaram a ser considerados aliados secretos de Rhodan.
E esses
homens fizeram com que o computador se defrontasse com mais algumas
charadas.
* * *
Alguns dos
homens aliciados por Yatuhin e Tropnow viram-se privados do prazer
duvidoso de participar da viagem forçada para Árcon. No momento da
revolta, estes não se encontravam em Kuklon, mas numa pequena
clareira situada entre a cidade e o platô. Ficava afastada das
trilhas mais utilizadas e dificilmente se poderia alcançá-la a pé.
Aqueles
homens foram incumbidos de vigiar o veículo espacial prateado junto
à clareira, sob as copas das árvores. Tinha o aspecto de um enorme
disco.
Dedicaram-se
ao serviço sem muito entusiasmo. Além deles, havia mais uma fileira
de guardas a dois quilômetros, prontos para avisar, assim que
qualquer criatura inteligente se aproximasse. Se os donos do disco
voador resolvessem aparecer, teriam uma surpresa bastante
desagradável.
Ninguém
sabia quem havia descoberto aquele artefato misterioso. Seja como
for, na época os chefes ficaram bastante nervosos e até chegaram a
demonstrar medo. Em vez de destruir o disco, mandaram que o mesmo
fosse vigiado ininterruptamente. Qualquer pessoa que tentasse
aproximar-se da pequena nave seria detida.
No fim da
tarde Lobthal, um lurano, voltava de uma ronda de inspeção e chegou
à conclusão de que também na clareira tudo estava em ordem.
Lobthal pertencia ao clã bastante ramificado dos saltadores e
sentia-se satisfeito em ter encontrado um bom trabalho em Volat. Como
ex-oficial de nave mercante estava acostumado a um estilo de vida
semimilitarizado, motivo por que tratava seu pessoal com bastante
rigor.
Ninguém
havia tocado no disco. E isto o tranqüilizou visivelmente.
Dirigiu-se
à cabana que ficava na beira da mata e sentou no banco de madeira.
Por algum tempo ficou contemplando o cozinheiro, que preparava o
jantar. Depois resolveu inspecionar os guardas postados na mata.
Encontravam-se em torno do veículo espacial e serviriam de garantia
adicional, caso alguém conseguisse romper a primeira barreira de
sentinelas.
Enquanto
percorria o local, teve a impressão de que um véu transparente se
interpunha entre seus olhos e a nave. A menos de dez metros do lugar
em que se encontrava, algo começou a tremeluzir. E subitamente dois
vultos, que estavam de costas para ele, surgiram do nada.
Um dos
vultos era humano, talvez um saltador. Usava uniforme verde, de um
tipo que Lobthal jamais havia visto. No cinto balançava um radiador
portátil de fabricação arcônida.
O outro
vulto não era de homem. O animal, que teria pouco mais de um metro
de altura, “trajava”
apenas o pêlo marrom e liso. Ficava ereto sobre as pernas traseiras,
como se estivesse acostumado a proceder assim e segurava a mão do
companheiro. Não trazia nenhuma arma.
Lobthal
procurou compreender o fenômeno incompreensível.
Os dois
indivíduos haviam surgido diante de seus olhos, vindos do nada.
Portanto, antes disso estavam invisíveis. Não havia outra
explicação. Lobthal cometeu o engano de não procurar outra
explicação, mas essa atitude correspondia ao seu caráter. O óbvio
sempre lhe parecia o mais provável.
Com um
movimento súbito, tirou o radiador que trazia no cinto e dirigiu-se
para as costas do homem que, segundo acreditava, era a criatura mais
perigosa.
— Pare!
Não se movam!
Ao que
parecia o desconhecido estremeceu, mas virou-se devagar. As mãos
pendiam frouxamente junto ao corpo, longe do radiador. O animal
também se virou e contemplou-o com uma expressão de espanto e de
recriminação, o que Lobthal não conseguia compreender.
— Quem
são os senhores e de onde vieram?
Fellmer
Lloyd leu os pensamentos e os sentimentos de Lobthal e reconheceu o
perigo que emanava desse homem. Seria inútil desaparecer de novo,
embora com o auxílio de Gucky isso não fosse difícil. Então o
disco fora encontrado e estava sendo vigiado. Era uma atitude
inteligente, mas que infelizmente a essa hora já não servia para
nada.
— Tire
isso daí! — disse Lloyd apontando com a cabeça em direção à
arma de Lobthal. — Com esse brinquedo o senhor não me obrigará a
falar.
— Os
senhores conseguem tornar-se invisíveis? — disse o lurano,
ignorando o pedido.
Havia em
sua voz um misto de curiosidade e ambição. Seus pensamentos
revelaram o resto. Lloyd pensou em tirar proveito da disposição do
inimigo.
— Para
quem conhece o processo isso não é difícil. Como sabe, os velhos
arcônidas já se ocuparam com isso e construíram certos aparelhos,
que naturalmente não estão ao alcance de qualquer um.
— O
senhor tem um aparelho desse tipo?
Lobthal se
esquecera de suas obrigações e só se interessava pela
invisibilidade. Ao que parecia, sentiu-se incomodado porque um dos
guardas, que se encontrava na borda da mata, teve sua atenção
atraída pelo incidente e caminhava para o lugar onde se encontrava.
— Temos
o aparelho no bolso — piou Gucky. — Quer ver?
Era claro
que na Galáxia havia seres inteligentes de todos os tipos, mas
Lobthal assustou-se quando o animal se dirigiu a ele no mais puro
arcônida. Não esperava uma coisa dessas.
— Hein?
— fez cheio de perplexidade e fitou o rato-castor.
Gucky
divertiu-se a valer, mas não tirou os olhos do guarda que se
aproximava.
— Se
quiser, eu o torno invisível — prosseguiu. — Mas você terá que
mandar embora esses homens. Eles não precisam ver isso.
Lobthal
não chegava a ser tolo, mas não se poderia dizer que fosse uma fina
flor da inteligência. Nem de leve pensou na possibilidade de que
aquelas criaturas misteriosas haviam aparecido por causa do veículo
espacial.
— Ei,
Kortu. Pegue os outros e vá até o lugar onde estão os postos
avançados. Tomem cuidado para que ninguém rompa a linha. E levem o
cozinheiro.
— Mas...
— Será
que você não compreendeu? Depressa, senão lhe ensino como se
corre.
Lobthal
mantinha sua gente sob controle. O soldado, um saltador, obedeceu
imediatamente, embora murmurasse algumas palavras incompreensíveis.
Com os
olhos, Lloyd acompanhou o homem que se afastava. A Gazela estava na
beira da mata, intata. Encontrava-se no mesmo lugar em que ele a
deixara.
Lobthal
quase chegava a estar febril quando se dirigiu a Lloyd.
— O
que... Será que agora vocês podem mostrar como a gente se torna
invisível? Estou disposto a pagar qualquer coisa pelo aparelho, se
quiserem vendê-lo.
— Você
não tem nem cinco tostões no bolso — disse Gucky em tom seco.
— Tenho
dinheiro, mas não aqui — voltou a erguer o radiador. — Além
disso, sou o mais forte. Posso obrigá-los.
— É
preferível não experimentar — advertiu Gucky. — Aliás, terá
que colocar esse brinquedo perigoso no chão, senão não poderá
tornar-se invisível.
— O quê?
Largar a arma? Nunca!
Gucky deu
de ombros e pôs-se a caminhar em direção à Gazela.
— Está
certo; deixe para lá.
Lobthal
percebeu que não estava sendo levado a sério. Isso fez aumentar a
raiva que sentia pelo animal que se encarregava da maior parte da
conversa. Todavia...
— Espere!
O que pretende fazer por aí?
Gucky
parou e lançou um olhar perscrutador para Lobthal. Depois de algum
tempo, acenou com a cabeça, num gesto condescendente. Nesse meio
tempo os soldados já haviam desaparecido; a clareira jazia deserta
sob o crepúsculo vespertino. O sol já se pusera há muito tampo.
— Está
bem; eu lhe mostrarei — decidiu e voltou.
Lloyd
mantinha-se ligeiramente afastado, contemplando o disco reluzente em
atitude pensativa. Parecia não ter o menor interesse pelas
“experiências”
do companheiro.
— Quero
ficar com a arma — disse Lobthal, insistindo na sua segurança.
— Está
certo. Já que está com medo, pode ficar — concordou Gucky. —
Vou segurar a mão. Será a mão vazia, para que você não perca seu
brinquedo. Isso! Agora preste muita atenção, amigo barbudo...
Lobthal
realmente se tornou invisível, mas só quem assistiu foi Lloyd.
Gucky desapareceu juntamente com o lurano curioso. Depois o mutante
caminhou tranqüilamente em direção à Gazela. O aparelho de
controle baseado nas vibrações cerebrais funcionava perfeitamente,
pois a escotilha abriu-se quando Lloyd se colocou abaixo da mesma e
proferiu a palavra-código. Sem preocupar-se com o regresso de Gucky,
subiu pela escada estreita logo que a mesma desceu.
Sentiu os
impulsos mentais de vários homens, mas a escotilha já voltara a
fechar-se e Lloyd se encontrava na sala de comando. Agora não lhe
poderiam fazer muita coisa, quer estivessem desconfiados, quer não.
Com alguns
movimentos da mão, colocou a Gazela em condições de decolar.
Na sala
dos propulsores houve um zumbido, o soalho metálico vibrou e a
clareira transformou-se numa manchinha clara em meio à mata. Lloyd
não viu os homens que gritavam e corriam de arma em punho para o
lugar em que pouco antes se encontrava o disco voador que deviam
vigiar.
Orientou-se
e tomou a direção de um ponto não muito distante. Dali a poucos
minutos, avistou o platô, as cabanas em forma de colméias e o grupo
de volatenses que corria ao encontro da nave prestes a pousar.
Lloyd
desceu e, com um ligeiro cumprimento, passou pelos nativos que lhe
acenavam amavelmente. Thora, Rhodan e Noir já o aguardavam. Haviam
reconhecido a Gazela e acompanhado seu pouso.
— Gucky
já voltou?
Leu a
resposta no rosto dos dois homens. Sentiu-se dominado pela sensação
de ter cometido um erro.
— Como?
— perguntou Rhodan. — Será que esse moleque resolveu mais uma
vez agir por conta própria?
— Alguém
nos perturbou e ele se encarregou de levá-lo. Combinamos que
voltaria imediatamente ao platô, para não perdermos tempo.
Rhodan
olhou para o relógio.
— Está
tudo preparado. A despedida dos volatenses foi simples, mas cordial.
Seria conveniente que o senhor fosse apresentar suas despedidas à
mãe onisciente antes de decolarmos, Lloyd.
— E
Gucky?
— Este
deve aparecer no último momento; não se preocupe. Apresse-se.
Já
estavam esperando há quinze minutos na comporta aberta da Gazela,
quando Gucky se materializou e se colocou a seu lado com um salto.
Antes que alguém tivesse tempo de dizer qualquer coisa, o
rato-castor pôs-se a chilrear:
— Já
podemos ir embora, cavalheiros.
Rhodan fez
um rosto zangado, segurou o desobediente pelas orelhas e arrastou-o
em direção à sala de comando. Com um empurrão, fê-lo sentar no
sofá.
Lloyd
decolou.
O planeta
Volat foi diminuindo na tela, até transformar-se numa estrela
brilhante. Com os campos antigravitacionais ativados, a Gazela
acelerava para atingir a velocidade da luz. Noir, que se encontrava
na sala de rádio, procurou entrar em contato com o comandante da
Lotus, Jim Markus.
— E
agora, meu pequenino, você vai contar direitinho por onde andou todo
esse tempo. Um teleportador não precisa de meia hora para levar
alguém de um lugar a outro.
Gucky
oferecia um aspecto triste. Arrependido, estava agachado no sofá com
os olhos marrons e ingênuos semicerrados. Deixou pender tristemente
as orelhas, e o dente roedor, que costumava aparecer constantemente,
não surgiu.
— Eu o
levei a Kuklon, chefe. Foi por isso?
— Foi? E
não tem mais nada a dizer?
Gucky fez
um gesto afirmativo.
— Posso
ser punido quando faço alguma coisa sem ordem expressa, mas meu ato
se revela útil à causa?
Rhodan
esforçou-se em vão para ler nos pensamentos do amigo, mas o
bloqueio erigido por Gucky impediu-o de realizar seu intento. Olhou
para a tela e respondeu:
— Depende
das circunstâncias. Desde que você não cause nenhum prejuízo que
possa ser provado, a arbitrariedade pode ser perdoada. Mas fale logo.
O que andou fazendo em Kuklon?
Gucky
entesou o corpo e exibiu um sorriso tímido. A parte inferior do
dente roedor tornou-se visível.
— Levei
Lobthal a cidade e...
— Ora
essa! Quem é esse Lobthal?
— É
claro que só pode ser o sujeito que estava vigiando a Gazela. Ah,
desculpe! É o bloqueio mental. Esqueci.
Liberou o
acesso ao seu cérebro, para que Rhodan tivesse mais facilidade em
orientar-se, e prosseguiu:
— Larguei-o
em pleno centro, onde ficou um tanto deslocado, com a arma de
radiações na mão. Não quis nem poderia impedir a intervenção da
polícia. O segundo salto transportou-me ao palácio de Mansrin.
Estava interessado em saber o que havia acontecido. Bem, fiquei
satisfeito com o que consegui descobrir. Foi mesmo Talamon que
reconheceu você. O administrador anda escondido depois que Árcon
foi avisado. Quer dizer que já temos certeza, chefe. O “monstro”,
que se encontra 30 mil anos-luz daqui, sabe que Rhodan ainda vive.
Também já sabe que você esteve em Volat. Receio que já tenha
chegado a hora de desistirmos do jogo de esconder.
Rhodan
ouvira-o sem interromper. Aquilo que Gucky lhe contou não era
nenhuma novidade e não o surpreendeu. Teria de esperar por isso. Mas
havia uma coisa que Rhodan não compreendia: por que Talamon
resolvera traí-lo? Afinal, já foram bons amigos. Será que agira
assim sob o efeito do susto e já estava arrependido? Era bem
possível que o choque sofrido, ao verse diante de uma pessoa que há
tanto tempo acreditava estar morta, lhe turvasse o raciocínio por
algum tempo.
Fosse como
fosse, a essa hora o regente de Árcon já sabia que seu maior rival
estava vivo e em atividade. O computador gigante se prepararia para
iniciar a luta que colocaria em jogo a existência de um Império no
qual brilhavam mais de mil sóis.
Noir
anunciou em tom orgulhoso:
— Estabeleci
contato com a Lotus. Tenho o raio vetor.
— Corrija
a rota — ordenou Rhodan, acrescentando: — Procure colocar Markus
na tela, Noir. Quero fazer-lhe algumas perguntas.
Noir não
era especialista em matéria de rádio, pois do contrário teria
conseguido mais depressa. Rhodan podia dar-se por satisfeito porque,
dez minutos depois, o hipno pôde anunciar:
— O
contato com o comandante Markus já foi estabelecido, chefe. Quer
falar com o senhor; ao que parece está bastante nervoso.
Rhodan
dirigiu-se à sala de rádio e ocupou o lugar de Noir. Acionou alguns
controles e os contornos do rosto de Markus tornaram-se mais nítidos.
Os detalhes da sala de comando da Lotus também. Noir era um bom
hipno, mas não entendia quase nada de rádio. Aliás, não tinha
necessidade disso, pois era telepata.
— Alô,
Markus. Aqui fala Rhodan. Como está a ligação?
— Entendo-o
perfeitamente, Sir.
Qual
é sua posição?
— Estou
a cinqüenta e três minutos-luz de Volat. Por quê?
— Irei
ao seu encontro. Ninguém sabe o que poderá acontecer nos próximos
trinta minutos. Como foi que o descobriram?
Rhodan
teve a impressão de ter levado uma pancada. Como foi que Markus
soube?
— Descobriram?
Por que diz isso?
— Alguém
deve ter dito ao computador de Árcon que o senhor se encontra em
Volat. Então não sabia?
— Sabia,
Markus, mas estou procurando descobrir como foi que o senhor soube.
Será que captou a mensagem de Mansrin?
— Não;
captei a mensagem do regente.
Rhodan já
estava acostumado às surpresas. Mas, diante de uma surpresa como
esta, levou alguns segundos para formular a pergunta seguinte.
— O
computador enviou uma mensagem? É para Mansrin?
— Não
senhor — respondeu Markus. — É para o senhor.
Rhodan
perdeu a paciência.
— Fale
logo, homem! O que houve?
— Há
meia hora estou recebendo um pedido transmitido pelo hiper-rádio. O
pedido foi redigido em linguagem comum e é repetido automaticamente
a cada dois minutos. Está interessado no texto?
Ouvia-se
que Rhodan respirava com dificuldade.
— Quando
o senhor estiver na minha frente, Markus...
— Está
bem. Darei o texto da mensagem. Vou começar:
Chamamos
Perry Rhodan, do planeta Terra. Sei que você está vivo. Entre em
contato comigo pela freqüência anterior. Garanto sua vida e sua
liberdade. O regente de Árcon.
7
Os
psicólogos de robôs de Terrânia tiveram muito trabalho antes que a
Lotus pousasse. Rhodan transmitiu alguns dados pelo hiper-rádio e
pediu a interpretação imediata. Não permitiu que pairasse a menor
dúvida sobre a urgência da tarefa.
Queria o
resultado no momento da chegada à Terra.
Markus
conduziu a Lotus habilmente à velocidade da luz, fazendo-a
atravessar o anel de asteróides. Passou por Marte e, dali a pouco,
pousou em Terrânia, a maior cidade da Terra.
Segundo se
informou, o resultado dos exames cibernético-psicológicos poderia
ser fornecido dentro de alguns minutos. Por uma questão de cautela
seria enviado diretamente ao quartel-general.
Rhodan,
Thora, Lloyd e Noir tomaram um carro para ir à cidade. Passaram por
uma abertura da abóbada energética, que permanecia ligada
ininterruptamente e, cinco minutos depois, chegaram à sala da qual
haviam saído há poucos dias.
Sentado
atrás da escrivaninha com os numerosos aparelhos de comunicação,
Bell fitou-os com uma expressão indefinível. Estava com os
cotovelos apoiados na tampa e o queixo repousava nas mãos. Essa pose
lembrava vivamente as caricaturas dos diretores atacados pela “doença
gerencial”.
— Por
pouco não morro de tédio com esta rotina — lamentou-se em tom tão
exagerado que ninguém o levou a sério. — Enquanto vocês passam
uns dias de férias encantadoras, eu tenho... ah, Thora. Então está
de volta? Que bom!
Subitamente
estreitou os olhos.
— Onde
está Gucky?
Rhodan
esperou até que a onda de cumprimentos cessasse.
— Gucky
está providenciando uma residência para seu novo amigo.
Bell
respirou com dificuldade.
— Desde
quando Gucky tem outro amigo? — em sua voz havia um pouco de
ciúmes. — Nunca me falou a respeito.
— Você
ainda o conhecerá — disse Rhodan para consolá-lo. — Aliás, faz
pouco tempo que ele o arranjou. Você ficará encantado, Bell.
— Hum —
fez Bell em tom de ceticismo, mas não teve tempo para outros
comentários.
Um dos
aparelhos que se encontravam sobre a mesa emitiu um zumbido. Rhodan
aproximou-se e comprimiu um botão. A pequena tela presa à parede
iluminou-se.
Viu-se um
rosto. O rosto pertencia a um homem de meia-idade, que pela capa
branca devia ser um cientista.
— Aqui
fala Rhodan — disse Rhodan apressadamente. — Tem o resultado?
O homem
fez que sim.
— Aqui
fala o Dr. Gertz. Os exames e as análises por nós realizadas provam
com toda evidência que o regente não garantiria sua vida e
segurança se não houvesse um motivo imperioso para isso. E o grande
computador positrônico de Vênus concorda conosco num ponto: a
mensagem do regente só pode ter um motivo.
— Qual é
esse motivo? — perguntou Rhodan, esforçando-se para ocultar a
tensão.
— O
regente de Árcon precisa do senhor. Encontra-se numa situação
difícil, cujas características não conhecemos. Precisa do auxílio
da Terra.
Rhodan
respirou profundamente.
— Será
que não está enganado, doutor?
— O
material disponível exclui qualquer possibilidade da ocorrência de
erro nos cálculos. Nossa análise é cem por cento correta. O
computador positrônico, que exerce a regência de Árcon, está num
“aperto”
e, de certa maneira, parece satisfeito, tanto quanto um computador
pode sentir-se satisfeito, porque a Terra e o senhor ainda existem.
Isso representa para ele a salvação de uma situação extremamente
difícil.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Árcon
em dificuldade? Bem, para falar com franqueza, não tive a impressão
de que o Império se encontra em situação difícil. Pelo
contrário... Será que estávamos enganados?
Thora
cochichou:
— Talvez
se trate de problemas que só o computador conhece, Perry. Acho que
seria conveniente entrar em contato com o mesmo.
— Farei
isso assim que tiver liquidado as tarefas mais urgentes. Afinal, isso
não representa qualquer risco para nós.
A tela
apagou-se. Bell levantou-se e cedeu o lugar a Rhodan. Mas este não
demonstrou muita vontade em reassumir no mesmo dia seu posto de
Administrador do Império Solar.
— Acho
que merecemos um dia de descanso — anunciou. — Receio que você
tenha de agüentar até amanhã.
Bell
seguiu-o com os olhos. Seu rosto não mostrou a menor emoção quando
disse:
— Gucky
ao menos poderia vir cumprimentar-me, Perry.
Rhodan
virou-se na porta e exibiu um sorriso matreiro.
— Darei
o recado, Bell. Oportunamente ele lhe apresentará seu novo amigo.
Bell viu a
porta fechar-se e passou a tratar dos serviços administrativos que
esperavam por ele. Eram coisas miúdas com as quais não precisaria
preocupar-se. Mas todo homem necessita fazer alguma coisa, senão...
Ouviu um
ruído vindo da porta.
Bell
levantou a cabeça e viu o botão girar. A porta abriu-se um pouco.
Será que o sujeito não sabia bater? Sem dúvida vinha trazer mais
algum trabalho?
Ou será
que era Gucky que estava chegando?
Bell
ergueu-se lentamente da poltrona e sentiu que seus cabelos se
arrepiavam. Naturalmente quando achava-se no escritório, não
carregava nenhuma arma. Quem imaginaria que um tigre selvagem pudesse
andar livremente por aí? Um tigre?
Era um
animal gigantesco; Bell nunca vira coisa igual. Ao menos no interior
do gabinete teve essa impressão. Abanando a cauda e ronronando
gostosamente foi caminhando em direção a Bell, que parecia duro de
pavor. Não tirava os olhos dele. Bell não se deu ao trabalho de
examinar detidamente aqueles olhos, pois do contrário teria notado
alguma coisa.
O tigre —
ou fosse lá o que fosse — parou e parecia preparar-se para dar o
salto. Continuava a ronronar. Bell não se atreveu a fazer o menor
movimento, para não irritar a fera.
“Como
foi que esse bicho conseguiu entrar aqui? Não é possível...”,
pensou desesperado.
O tigre
esticou o corpo e soltou um urro de satisfação que parecia dar
notícia de que as dimensões do corpulento Bell correspondiam
exatamente ao seu desejo para a refeição noturna.
Finalmente
deitou aos pés de Bell, enrolou-se, bocejou gostosamente e fechou os
olhos. De repente parecia não estar mais interessado na presa.
Bell
suspirou de alívio e já se considerava praticamente salvo, quando
ouviu outro ruído vindo da porta.
“Deve
ser a fêmea do devorador de gente, que vem buscar sua parte da
presa”,
pensou.
Mas era
apenas Gucky que, muito empertigado, entrou com seu andar balouçante,
exibindo um sorriso insolente.
— Então,
meu velho, já fez amizade com o Gracinha?
Bell não
se moveu.
— Gracinha?
Está se referindo a essa fera? Será que ficou louco?
— Seja
mais comedido no seu vocabulário, seu gorducho, senão você vai ver
o que é bom. Gracinha não é nenhuma fera; é meu amigo. Gracinha,
mostre-lhe seus lindos dentes e as garras.
Sem abrir
os olhos, Gracinha abriu a boca e exibiu os gigantescos dentes
caninos. E as garras também não inspiravam muita confiança.
— Então,
gorducho. O que me diz? Quer que peça a Gracinha para lhe fazer
cócegas?
— Ele é
manso? — perguntou Bell num sopro.
— Quando
quer, sabe ser manso — disse o rato-castor e sorriu. Seu dente
roedor brilhava de tão feliz que se sentia. — Mas só quando quer.
Se daqui em diante você não ficar bem comportado, eu o toco para
cima de você. No lugar de onde eu o trouxe, certa vez devorou três
homens de seu tamanho. E isso depois do almoço.
Bell
sentiu certo alívio. O perigo principal havia passado. Se o tigre
pertencia a Gucky, as coisas não poderiam ser tão ruins.
— Deve
ser para nosso zoológico, não é? — conjeturou.
— Para o
zoológico? — disse Gucky era tom indignado. Gracinha lançou um
olhar sonolento para Bell. A ponta do rabo moveu-se de forma quase
imperceptível. — Internar Gracinha no zoológico? Se isso
acontecer, farei com que você seja o primeiro petisco a ser servido
a ele. Não tenha a menor dúvida — inclinou-se sobre o felino e
acariciou suas costas.
Logo
depois prosseguiu:
— Assim
são os humanos. Acham que tudo que não se parece com eles deve ser
internado no zoológico. Teria sido muito mais acertado se tivesse
trancado os humanos no zoológico e deixado os animais livres. Isso
pouparia muito aborrecimento para todo mundo.
Gracinha
ronronou amistosamente.
— Ainda
tenho muito trabalho a fazer — murmurou Bell com a voz tímida.
Gucky
lançou-lhe um olhar de desprezo.
— Permissão
concedida — disse em tom condescendente. — Vamos embora,
Gracinha. Afinal, os homens são criaturas idiotas, e Bell não passa
de um homem — o felino levantou-se e seguiu documente o dono.
Bell
voltou a afundar na poltrona.
— Até
logo mais, gorducho. Agora que tenho um amigo tão influente, poderei
conversar “melhor”
com você, Bell. Ainda preciso apresentá-lo a outras pessoas.
Bell fitou
a porta fechada. Bateu com o punho na escrivaninha e murmurou com a
voz zangada:
— Era só
o que faltava. Vou...
Gucky
materializou-se em cima da escrivaninha.
— Pois
não — piou. — Você queria dizer alguma coisa?
Bell olhou
de esguelha para a porta entreaberta, que deixava ver o bigode de
Gracinha.
— Ora...
apenas estava pensando... — principiou.
Porém
Gucky logo o interrompeu:
— Pois é
justamente isso que você não deve fazer. Faça o favor de deixar
que os telepatas pensem por você. Estão mais treinados. Boa noite,
meu velho.
A porta
fechou-se e o rato-castor desmaterializou-se. Bell suspirou.
— Não
se deve falar, não se deve pensar, tomara que ao menos se possa
trabalhar...
Podia.
Ninguém o
perturbou.
* * *
* *
*
Por fim
os dois traidores saídos das fileiras do Exército de Mutantes foram
aniquilados. Porém Talamon informou o regente arcônida de que Perry
ainda está vivo. Com isso, a situação político-militar da Galáxia
se tornou bastante precária...
Em O
Atentado,
Perry
defronta-se com elementos que pretendem sua queda... E nesta
aventura, acontece ainda o relato da primeira missão colonizatória
interestelar.

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