quinta-feira, 21 de março de 2013

P-060 - Fortaleza Atlântida - K. H. Scheer [parte 3]

Sacrifiquei os dois cruzadores mais velhos da esquadrilha, transformando-os em armas de experiência. Os tripulantes foram repartidos entre a nave moderna, mas desguarnecida, o cruzador Matato, e o cruzador pesado Paito, que se defrontava com a falta de pessoal técnico. Ainda dispunha de quarenta cruzadores leves e pesados. Desde logo contabilizei as duas naves teleguiadas na conta de prejuízos.
Depois que Grun se retirara, penetrei com as três unidades pesadas de nossa esquadrilha na atmosfera densa e nebulosa do segundo planeta. Amonaris, a capital, ficava na encosta das montanhas situadas junto ao mar equatorial. Tinha o aspecto de um grupo humano de fugitivos.
O grande centro de computação situado nas montanhas, que fora construído por Amonar, um administrador que se fizera culpado de vários crimes, já se encontrava em funcionamento. Depois do pouso, ordenei imediatamente que todos os técnicos de que pudéssemos dispor fossem destacados para a missão de reforço do anel duplo de defesa, que guardaria ainda mais essa fortaleza robotizada.
Dali a três horas, os cruzadores Titsina e Volop foram levados ao estaleiro grande e bem montado de Larsa II. Fizemos todos os esforços possíveis para modificar a posição dos gigantescos bocais de impulsos, adaptando-os às exigências da tecnologia armamentista. Além do dispositivo eletrônico de telecomando já existente, montamos também um controle de pontaria do armamento semi-automático, capaz de reagir a comandos supercondensados. Essas reformas exigiram bastante tempo, material e trabalho técnico, mas em Larsa II pude dispor de tudo que precisava.
Após isso visitei as regiões nas quais, segundo se dizia, cento e cinqüenta mil colonos teriam desaparecido sem deixar o menor vestígio.
Grun, chefe da equipe matemática, acompanhou-nos com seus colaboradores mais chegados. Assim penetramos devagar na primeira fazenda inteiramente automática.
Os edifícios baixos estavam vazios. Não se percebia a falta de nada; as valiosas instalações continuavam intactas. Apenas, os colonos não estavam presentes.
Os cientistas da administração planetária apresentaram dados baseados em cálculos minuciosos. Deles se concluía que a superfície desse mundo selvático fora atingida em intervalos irregulares e por isso mesmo imensuráveis por algum campo nitidamente delimitado.
Grun designou as faixas de ataque como campos relativistas, expressão que dizia tudo e nada. A única coisa que descobrimos foi que nunca houvera um ataque que abrangesse todo o planeta. Completamente perturbado, falei com algumas pessoas que haviam permanecido em suas casas.
Nas proximidades do lugar em que se encontravam, membros de suas famílias se haviam dissolvido no ar, enquanto nada acontecera a eles.
Dali se concluía que os raios em leque — se é que se tratava disso — estavam perfeitamente delimitados.
Grun continuava a sustentar que se tratava de uma arma superdimensional extremamente eficaz, e que deveríamos descobrir o segredo de seu funcionamento, custasse o que custasse.
Eu não tinha tanta certeza de que essa idéia era correta. Os cientistas de Larsa II opinavam que o inimigo apenas tirava proveito de algum efeito inteiramente natural. Se fosse assim, os desconhecidos deviam manter-se sempre à espreita, aguardando o momento de acontecer algo que pudesse servir para as finalidades que tinham em vista.
Depois de todas as discussões e palestras cansativas travadas com os cientistas, senti-me totalmente exausto.
Determinei a prontidão absoluta e apressei ao máximo os trabalhos de aprimoramento do grande centro de computação situado nas montanhas. Providenciei também para que os cruzadores experimentais Titsina e Volop fossem reformados por turnos de trabalhadores que se revezassem ininterruptamente.
A última medida que tomei foi o confisco das vinte e uma naves de transporte de grandes dimensões, que antes estavam sob o comando do administrador local. Aquelas unidades bojudas e praticamente desarmadas foram aprovisionadas com alimentos e colocadas em condições de decolar a qualquer momento. Se surgisse a necessidade de evacuar os dois milhões de colonos, não hesitaria um instante. Afinal, no setor das nebulosas vira várias vezes que é muito difícil colocar em segurança um grupo de pessoas nervosas.
Os chefes distritais do governo colonial foram instruídos pelo rádio a tomarem todas as providências para uma possível fuga. É bem verdade que fiquei perguntando a mim mesmo como faria para, se surgisse um perigo extremo, abrigar dois milhões de habitantes em apenas vinte e uma naves espaciais. Os modelos eram diferentes e, mesmo se o espaço disponível em seu interior fosse aproveitado ao máximo, cada uma das naves só poderia abrigar de dez a vinte mil colonos. E para isso estes teriam de ficar até mesmo nas salas de máquinas e outros compartimentos destinados ao funcionamento das naves.
Depois de dormir um bom sono, expedi uma longa mensagem radiofônica destinada ao Grande Conselho. Relatei com a maior clareza possível as dificuldades com que me defrontava.
Em conseqüência disso, surgiu uma reação imediata do comando arcônida. Fui avisado de que deveria enviar imediatamente 1,8 milhões de emigrantes para Árcon. Os duzentos mil que restassem seriam suficientes para a manutenção da cultura de Larsa II.
Contava com uma pequena revolta. Fiquei muito admirado ao pensar que os habitantes do planeta iriam disputar acirradamente os lugares disponíveis nas naves. Ninguém desejaria ficar naquele medonho mundo selvático.
Dali a três dias, chegaram cento e cinqüenta gigantescas naves de transporte pertencentes à nossa frota.
O embarque demorou menos de doze horas. Logo após isso as naves precipitaram-se espaço afora. Nunca mais as vi. Ao efetuarmos uma contagem, constatamos que menos de cento e cinqüenta mil habitantes haviam permanecido no planeta. Os outros preferiram ser convocados para o serviço da frota do Império. Os couraçados dos metanianos ao menos eram visíveis.
Estávamos prestes a abandonar uma valiosa colônia. As batalhas travadas no setor das nebulosas gozavam de preferência. O minúsculo sistema que se agrupava em torno da estrela Larsaf não interessava ao comando arcônida.
Quanto a mim, recebi do Imperador ordem para enfrentar o misterioso atacante e tentar desvendar os segredos de sua técnica armamentista. Na atual situação bélica, esse conhecimento poderia representar um fator decisivo.
8



Já não era possível manter Larsa II. Depois de três meses durante os quais não havíamos percebido o menor sinal de um ataque, ocorreu um assalto tão repentino que ninguém teve tempo para esboçar reação.
Encontrava-me na sala de comando da Tosoma. Há dois minutos havíamos recebido uma notícia inquietante pelo rádio: uma frente destrutiva invisível aproximava-se à velocidade de 3 mil quilômetros por hora da principal área de colonização, situada na zona equatorial. Ali ficavam os núcleos populacionais mais importantes do planeta.
Decolei imediatamente, a fim de assistir ao fenômeno incrível.
No espaçoporto de Amonaris as vinte e uma naves transportadoras foram tomadas de assalto pelos colonos apavorados. Era o mesmo caos que vira em outros lugares, quando a vida das pessoas estava em jogo.
Ainda dispúnhamos de algum tempo: a frente relativista ainda estava longe. Mas não sabíamos se de repente ela não mudaria de rumo.
De qualquer maneira, ordenei a evacuação definitiva de todos os habitantes. Estava na hora de deixar este mundo exclusivamente a cargo das forças armadas. Depois de cessados os ataques, não haveria nada que impedisse uma nova colonização. Ainda mais que as cidades e povoações levantadas com tamanho trabalho não costumavam ser destruídas.
Estávamos em regime de rigorosa prontidão. Os campos defensivos do couraçado fizeram o ar úmido entrar em ebulição. Atrás de nós, as massas de gases aquecidos preenchiam ruidosamente o vácuo formado pelo deslocamento da nave.
Percorrendo apenas três quilômetros por segundo, aproximamo-nos do palco dos acontecimentos. Por uma medida de cautela, mandei que o dispositivo de absorção de pressão fosse regulado para o grau de emergência. Caso houvesse necessidade, poderíamos fugir com o máximo de aceleração.
A Assor e a Paito seguiam a nave capitania, deslocando-se a baixa altitude. Os comandantes dos cruzadores estacionados no espaço, que no momento obedeciam às ordens do Capitão Cerbus, anunciaram a hiperlocalização de numerosos objetos estranhos. Estes não podiam ser identificados e pareciam mover-se exclusivamente no setor que havíamos identificado por meio do campo energético.
Mandei que aguardassem e se mantivessem afastados da zona de perigo.
Através dos receptores normais da Tosoma captamos as inúmeras mensagens audiovisuais trocadas entre os funcionários da administração, os colonos em fuga e os membros de meu comando, que aguardavam os acontecimentos em Amonaris.
Nossos homens esforçaram-se para levar os colonos em tempo até as naves de transporte, mas os comandantes dessas declararam categóricos que decolariam imediatamente caso a frente de desgraça se aproximasse ainda mais.
Deixei de preocupar-me com as condições caóticas reinantes no planeta, pois, nada poderia fazer para corrigi-las. Minha tarefa consistia em identificar o inimigo, enfrentá-lo e alcançar ao menos um êxito limitado.
Depois de um breve vôo, nossos rastreadores energéticos superdimensionais começaram a reagir. Tinham sido montados há poucos meses numa das bases do Império, uma vez que os metanianos haviam criado um campo defensivo que funcionava num plano superordenado.
Conforme era de esperar, esses instrumentos deram o sinal de alarma assim que nos aproximamos da zona de perigo.
Tarts transmitia suas ordens com a voz clara e controlada. As máquinas da Tosoma pararam. Um ligeiro empuxo em sentido contrário nos imobilizou. Os aparelhos antigravitacionais de absorção funcionavam silenciosa e satisfatoriamente. A gigantesca esfera feita de aço de Árcon pairava imóvel, como se nunca tivesse estado sujeita a qualquer tipo de gravitação.
Frente de ondulações reconhecida oticamente — anunciou o posto de localização. — Notamos estranhos reflexos no ar. Segundo a interpretação positrônica a velocidade da frente é de 3.011,567 quilômetros por hora e mantém-se constante.
Bastante nervoso, voltei a cabeça e contemplei as grandes telas de localização ótica.
É fantástico! — disse Grun. Um brilho febril surgiu em seus olhos. — Devo confessar que este fenômeno não dá a impressão de que provém de alguma arma, Alteza.
Um tanto zangado, lembrei-me de que essa observação deveria representar um consolo bastante débil para os colonos que ainda se encontrassem na área atingida. Embaixo de nós só se via a mata densa e impenetrável.
Os grandes amplificadores do instrumental ótico mostravam vez por outra pequenas povoações. Não sabíamos se nas mesmas ainda existia gente ou não.
A Paito e a Assor indagaram pela faixa normal se já havia sido concedida permissão para abrir fogo.
Ainda não — respondi. — Acho que, não adiantaria atirar a esmo para dentro dessa parede móvel. Deixemos que se aproxime mais. Central de tele direção, informe se as duas naves experimentais já se encontram no ar.
Decolaram há dois minutos, Alteza.
Retenham-nas na área de Amonaris. Serão nossa última defesa. Atenção, cruzador pesado Paito: em que ponto está a evacuação dos fugitivos que foram descobertos?
Meu centro de controle de imagem efetuou outra ligação. Nas telas surgiu uma grande clareira pedregosa que se abria em meio à selva. Mais de quinhentos homens estavam reunidos lá. Lutavam pela posse de uns poucos planadores gravitacionais, que, com o desempenho máximo de sua energia, mal e mal seriam capazes de escapar à frente de dissolução.
Estou realizando a manobra de aproximação, Alteza — respondeu o comandante Inkar.
Dali a alguns segundos, vi o gigante de quinhentos metros de diâmetro aproximar-se ruidosamente. A frente destrutiva encontrava-se a poucos quilômetros. Dentro de dez minutos, deveria chegar ao lugar em que nos achávamos.
De início Inkar procurou recolher os colonos que lutavam encarniçadamente numa pequena nave auxiliar. Ouvi pelo rádio as pragas proferidas por ele quando a diminuta nave que se dispunha a pousar foi tomada de assalto por homens de aspecto selvagem.
Chame a nave auxiliar de volta, Inkar — gritei para dentro do microfone. — Recolha-a a bordo e suba imediatamente com o cruzador. É preferível puxar esses malucos com um raio de tração. Talvez causaremos algumas manchas roxas em suas peles mas evitaremos que eles desapareçam.
A reação de Inkar foi instantânea. A Tosoma também se encontrava pouco acima da clareira.
O projetor de tração da Paito expeliu um feixe bem aberto de raios reluzentes que se dirigiu ao solo. Os colonos, que procuravam desesperadamente um abrigo, foram atingidos e puxados para cima com tamanha violência que fiquei preocupado com sua integridade física. Mas Inkar certamente havia ativado um campo de absorção de impactos.
Os corpos escuros desapareceram no interior do orifício de sucção do cruzador. Dali a pouco ouvi a risada estrondosa de Inkar.
Eu os peguei — anunciou. — E com eles vieram várias coisas que não pretendíamos carregar.
Tarts sorriu. Olhava fixamente para as telas frontais, que mostravam perfeitamente as massas de ar fluorescente.
Era dali que vinha a desgraça. Parecia que as radiações, ou fosse lá o que fosse, desciam verticalmente do espaço.
Segundo as informações dos comandantes dos cruzadores, desta vez o campo relativista estava atingindo todo o hemisfério norte do planeta.
Estamos na área fronteiriça de uma zona cósmica — disse Grun de repente.
Ele já não estava mais no interior de seu posto de cálculos, fato que apenas agora eu notara.
Muito interessante! — respondi em tom furioso.
Grun não reagiu à minha observação e prosseguiu:
O fenômeno ao qual estamos assistindo só pode consistir numa superposição do universo normal por forças instáveis, que estão em constante mutação e são de ordem superior. Dali se originam os efeitos extraordinários. Os seres que vivem nessa zona relativista aproveitam a situação para...
Para fazer o quê? — interrompi-o. — Para roubar gente e animais? Para que lhes poderia servir isso? Se destruíssem instalações industriais, desviassem naves ou se apoderassem de outros bens valiosos, ainda poderia descobrir uma finalidade naquilo. Mas da forma como estão as coisas não vejo nenhuma finalidade, a não ser que a mesma consista em destruir a vida inteligente de nosso Universo.
Grun desligou. De seu rosto depreendia-se que não sabia mais o que dizer. Era bem possível que aqueles outros seres agissem de acordo com uma lógica completamente estranha à nossa espécie. Nenhum de nós teria tido a idéia de roubar indivíduos pensantes. Via naquilo um procedimento completamente desarrazoado.
A situação de impotência em que me encontrava fez com que a cólera se apoderasse de mim. Estávamos lutando contra sombras.
Dali a dez segundos dei ordem para abrir fogo. Enquanto aceleramos rapidamente, adaptando a velocidade de nossa nave à do campo que avançava progressivamente, disparamos com todas as armas que poderíamos utilizar numa situação como aquela.
Tarts fez entrar em ação em primeiro lugar os canhões de impulsos, que produziam efeitos térmicos. A atmosfera do planeta selvático começou a ferver sob a ação dos feixes escaldantes de raios violetas produzidos por intensas reações nucleares. O trovejar fortíssimo sufocava qualquer outra impressão dos sentidos.
Atirávamos na direção da “parede” tremeluzente como se tivéssemos que destruir num só golpe algumas grandes naves que nos atacassem.
Os canhões de desintegração que destruíam as estruturas moleculares não provocaram tanto ruído. O brilho fraco de suas trajetórias desapareceu na “parede” chamejante.
Não nos arriscamos a utilizar os raios neutrônicos, que tinham um efeito mortífero sobre todas as formas de vida orgânica. Com eles poderíamos matar nossa gente. E as bombas arcônidas ou gravitacionais eram armas de longa distância, reservadas para os combates no espaço. Se as utilizássemos aqui, o planeta seria transformado num sol incandescente.
Por isso dependíamos exclusivamente dos canhões de impulsos, cujo bafo atômico desencadeou um verdadeiro inferno naquele ar denso.
Sempre que as trilhas energéticas de boa grossura atingiam a parede móvel, tinha-se a impressão de que alguma coisa as devorava de repente. Ao que parecia atravessavam a “parede”, ou eram absorvidas de forma tão completa que se apagavam de um instante para outro. Já não se distinguia a paisagem pantanosa do planeta atrás da “parede” tremeluzente. A luz sofreu distorções, e nossos rastreadores não acusavam mais nada.
Os hiperlocalizadores apenas registravam a presença de uma unidade energética semelhante às nossas, mas isso não constituía novidade para nós.
Terríveis tormentas começaram a formar-se. Os vapores supercondensados da atmosfera antes tão úmida, mas agora por demais aquecida, procuravam desesperadamente uma saída. Mandei suspender o fogo.
Coloquei o microfone de comando diante dos lábios e disse:
Chefe da esquadrilha para todos. Suspender fogo. Dar partida às naves e seguir a capitania. O destino será a capital. Vamos protegê-la na medida do possível, daremos cobertura às naves cargueiras, para que não fiquem expostas a eventuais ataques vindos do espaço, e por último utilizaremos os dois cruzadores experimentais. Aguardo confirmação.
O trovejar cessou. Graças à habilidade de Tarts, a Tosoma acelerou com tamanha rapidez que o ar de Larsa II voltou a entrar em incandescência. Os dois cruzadores mantinham-se alguns quilômetros ao sul e ao norte da nave capitania. O campo relativista tremeluzente não se detivera diante de nosso bombardeio.
Não sabíamos se os seres que viviam no mesmo haviam sido feridos ou até mortos. Disparáramos cegamente na direção de uma forma de energia que não poderia ser simplesmente da quinta dimensão.
A “parede” passava por cima do planeta. Sua velocidade continuava inalterada.
No momento em que as máquinas rugiram fortemente perto de Amonaris, a fim de imobilizar a nave, ainda dispúnhamos de cerca de trinta minutos. O Capitão Cerbus, comandante temporário do grupo de cruzadores, transmitia notícias inquietantes.
Ao que parecia, não existia mais nada no espaço planetário do sol amarelo que não fosse submetido gradativamente à influência daquelas forças misteriosas.
Não havia dúvida de que os planetas em oposição ao de número dois estavam sendo assolados pela mesma desgraça. A única diferença era que nesses não havia qualquer forma de vida inteligente.
Fiquei aliviado ao lembrar-me de que o terceiro planeta se encontrava exatamente do lado oposto do sol. Face a isso, naquele momento, nada poderia acontecer aos homens que se encontravam em Atlântida.
No espaçoporto de Amonaris só havia três naves cargueiras. As outras já tinham decolado. O planeta estava sendo evacuado apressadamente.
Aqueles que não obedeceram prontamente às instruções de evacuação sem dúvida foram destruídos.
Quando as naves cargueiras se precipitaram para o ar revolto, no qual rugiam furiosas tormentas, a luminosidade suave da frente de ondulações já podia ser vista a olho nu.
Inkar recolheu mais algumas pessoas que corriam como loucos sobre o espaçoporto deserto e faziam gestos de súplica para o alto.
Então chegou a hora. Mandei que Grun com sua equipe comparecesse à sala de comando da nave capitania e ordenei que observasse os fenômenos que fossem surgindo em telas especialmente ampliadas.
Os cruzadores Titsina e Volop, transformados em naves teleguiadas por meio de um trabalho insano, mantinham-se imóveis acima da área ampla do espaçoporto. Seus propulsores readaptados serviriam, com exceção de uma unidade, de armas contra os desconhecidos. Tudo dependia de descobrir o ponto fraco do inimigo.
Os engenheiros de teledireção achavam-se sentados na sala de localização. As indicações fornecidas pelos instrumentos dos cruzadores estavam sendo transmitidas sem maiores problemas.
Aguardei até que a frente se encontrasse a apenas quarenta quilômetros e mandei abrir fogo.
Grun inclinou para trás sua poltrona, a fim de ter uma visão melhor das gigantescas telas.
Dos propulsores das naves teleguiadas saíram as ondas de impulsos quase invisíveis, que se deslocavam num espaço de grau superior. O caráter energético mais elevado das mesmas resultava de uma transformação total realizada pelos gigantescos conversores.
Sua velocidade era idêntica à da luz. A matéria comum só era atacada por essas ondas quando uma nave decolava ou se preparava para pousar, com os propulsores trabalhando a toda potência.
Notei um relampejo curto e ofuscante, quando as ondas de impulsos atingiram a “parede” relativista.
Grun soltou um grito exaltado. Saltei de minha poltrona para contemplar melhor o estranho fenômeno.
Estão rompendo a “parede”! — berrou Tarts. — Estão rompendo! — voltava a gritar constantemente.
De repente ouviu-se uma gritaria no equipamento de intercomunicação do couraçado. Parecia que os doentes de alguns hospícios haviam sido transferidos para lá.
Também gritei. Um peso terrível parecia cair de minha mente.
Nos pontos em que as ondas de impulsos reunidas em feixes estreitos atingiam a gigantesca abóbada energética, esta desmoronava.
De súbito surgiram grandes vazios perfeitamente delimitados. E numa fração de segundo se transformaram em abismos sombrios. A muralha começou a vacilar, e tive a impressão de que sofria um ligeiro desvio na sua trajetória.
Nos vazios negros não se via nada. Apenas as bordas dos orifícios de penetração flamejavam num fogo-fátuo violeta, que trazia reações violentas para nossos rastreadores estruturais.
Nosso bombardeio de impulsos havia provocado verdadeiros efeitos de transição.
Dali a alguns segundos nos aproximamos apressadamente. A frente de ondulações rompida mal diminuíra a velocidade.
As aberturas provocadas pelos disparos se deslocaram juntamente com a muralha. Antes que a Tosoma arrancasse com as máquinas uivantes, olhei para os cruzadores perfeitamente visíveis.
O empuxo do propulsor que lhes sobrava bastava para retirá-los facilmente da zona de perigo. Quando nos encontrávamos a cinqüenta quilômetros da frente do desastre, gritei para pedir silêncio. As exclamações de júbilo da tripulação cessaram.
Comandante da esquadrilha para a estação de teledireção. Deixem as popas dos cruzadores balançar. Espalhem o bombardeio lentamente pela muralha e prestem atenção ao limite inferior dos efeitos visíveis. Regulem os balanceios de acordo com esse limite. Desligo.
Os especialistas altamente competentes realizaram um trabalho rápido e preciso. A Titsina começou a vibrar. Como se estivesse numa manobra, a velha nave girou em torno de seu eixo longitudinal. Ainda não tinha formato esférico. Por isso podíamos observar perfeitamente as radiações por ela emitidas. A Volop acompanhou a manobra.
De repente uma terrível tormenta energética desabou sob a ação destrutiva dos feixes de impulsos.
Assistimos à formação de crateras negras rodeadas de relâmpagos. Estas sofreram a superposição de formações normais, até que as novas superfícies de ondas também fossem atingidas.
A muralha parou até onde alcançava minha vista. Mas à nossa direita e esquerda continuava a avançar. Olhávamos para dentro de um abismo sombrio. De resto não aconteceu mais nada.
Prossegui por mais algumas horas com este jogo, até que a metade do planeta tivesse sido totalmente coberta pela muralha. Dali em diante não adiantaria nada se continuássemos a cavar túneis escuros e nos alegrássemos com a luminescência surgida nas bordas.
Realizamos uma rápida partida vertical e rompemos a atmosfera do segundo planeta, agitada pela fúria das tormentas. Quando atingimos o espaço, vimos que o sol, antes amarelo, brilhava num vermelho intenso.
Só agora notamos que o vazio salpicado de estrelas deixara de existir. Seu lugar estava sendo ocupado por concentrações energéticas em forma de funil, que emitiam uma luminosidade vermelha. A luz das estrelas distantes estava encoberta. Dessa forma podíamos determinar com precisão as dimensões dos funis. A parte mais aguda voltava-se para baixo, terminando na atmosfera de Larsa II, entrecortada por relâmpagos.
Acabáramos de criar alguma coisa com a qual nem sequer sonhávamos!
Perplexo, olhei para as telas, até que o chamado insistente de um oficial da equipe de rádio atingisse minha consciência.
Livrei-me do encanto que pesava sobre mim. Havíamos conseguido coisas tremendas. Namorei a idéia de adaptar também os propulsores dos cruzadores modernos e parte dos pesados conversores de impulsos de meu couraçado. Se procedêssemos assim, a situação se modificaria por completo quando nos defrontássemos novamente com uma nave invisível.
Tarts começou a gritar. Seus olhos exprimiam um pavor incontido.
O que houve? — perguntei.
Naquele instante, a voz monótona e mecânica do robô do rastreador começou a ranger:
Grupo de cruzadores não responde mais, eco energético negativo, o Capitão Cerbus mantém-se em silêncio. Não realizamos qualquer localização de objetos mecânicos num raio de três anos-luz. O grupo deve ser dado como desaparecido. Tempo seis-seis-cinco, padrão. Fim da mensagem.
A voz do robô silenciou. Olhei em torno como um louco. Tarts acomodou-se devagar em seu assento de comando e escondeu o rosto nas mãos. Grun gemia.
Não consegui dizer uma palavra. Minha mente se recusava a ver no relato insensível do robô a descrição de um fato real. Todos os meus cruzadores teriam desaparecido?
Ouvi um grito estridente. Partira de mim mesmo?
O oficial de rádio que estava de plantão entrou correndo. Limitei-me a fitá-lo.
Só então me dei conta que fora a voz dele que eu ouvira no meu subconsciente.
Já fizera aquilo que eu pretendia ordenar naquele momento. Era a pessoa que certamente notara antes de qualquer outra que o chefe do grupo de cruzadores não respondia mais.
Tive a impressão de que uma mão invisível me apertava a garganta. Ninguém dizia uma palavra na grande sala de comando da Tosoma, que se afastava vertiginosamente. As telas de localização energética mostravam apenas quatro pontos verdes. Eram os dois cruzadores pesados e as naves adaptadas usadas como armas. Das quarenta e cinco unidades de minha esquadrilha restavam apenas cinco.
Volte a chamar — disse, falando com dificuldade. — Vamos, ande depressa. Tarts, isso não pode ser verdade. Em sua última mensagem Cerbus disse que se mantinha numa boa distância da frente de ondulações bem visíveis. Como poderia ter desaparecido de repente?
Mal notei a presença dos médicos apressados, cujos robôs enfermeiros carregaram o físico e matemático Grun, que desmaiara. O choque derrubara aquele homem velho.
A mensagem foi recebida antes que as naves transformadas em armas abrissem fogo — disse o comandante, falando com dificuldade. — Atlan, o fato é que o grupo de cruzadores desapareceu. No lugar em que devia encontrar-se na posição indicada, formado em cunha, abre-se um desses funis. Seu diâmetro é de aproximadamente vinte milhões de quilômetros. E foi aí que oi grupo de cruzadores de Cerbus entrou. E uma coisa horrível. Não pode responder mais.
Um dos físicos da equipe de Grun confirmou a suposição. Os resultados das primeiras medições estavam chegando.
De qualquer maneira, mandei desacelerar imediatamente com a potência máxima das máquinas e determinei que as unidades pesadas seguissem uma rota de busca. Durante três horas chamamos ininterruptamente pelo rádio e revistamos o espaço interplanetário em busca de destroços à deriva. Depois compreendi que qualquer esperança seria vã.
Senti-me “queimado” por dentro. Minha garganta recusou-se a obedecer e meu cérebro parecia ter sido comprimido por tenazes invisíveis.
O que acabara de acontecer era tão terrível que nem se podia refletir a respeito.
Tarts e um médico levaram-me para fora da sala de comando. Já sabia o que havíamos conseguido com nosso bombardeio de impulsos.
Provavelmente foi apenas por um acaso tolo que o grupo compacto de cruzadores se encontrava justamente no setor espacial em que a frente de ondulações foi rompida e explodiu.
Minha única esperança era que os homens ainda estivessem vivos. Todavia, o fato de não conseguirmos encontrar as naves a apagava.
Era provavelmente a primeira vez que o campo relativista também havia absorvido matéria inorgânica.
Quase fora de mim, dei imediatamente ordem para que nos dirigíssemos ao terceiro planeta e pousássemos na base de Atlântida.
Ainda bem que dois anos antes liberara esse belo mundo para a colonização. O segundo astro que gravitava em torno da estrela Larsaf tornara-se totalmente inútil para mim. Parecia estar coberto constantemente pela zona superdimensional.
De qualquer maneira nosso grande centro de computação equipado com armas pesadas ficara lá. Talvez numa época posterior ainda pudéssemos fazer alguma coisa com o centro.
Pedi que meus acompanhantes se retirassem do camarote e deitei no leito pneumático. Precisei de toda minha força de vontade para recuperar um pouco do meu autocontrole.
Os rostos dos comandantes de meus cruzadores foram desfilando diante de mim. Foram homens maravilhosos; homens de que tanto precisaríamos na guerra desesperada que estávamos travando contra os respiradores de metano.
Dali a quatro horas, pousamos no espaçoporto muito bem instalado de Atlântida. O Capitão Feltif, meu engenheiro de planejamento, recebeu-me em silêncio. Também em silêncio, coloquei a mão sobre seu ombro, fiz um gesto de cumprimento aos homens de sua pequena guarda pessoal e olhei em torno.
Altópolis, o novo centro desse planeta colonial, já se transformara numa verdadeira cidade. Era espantoso de ver o que Feltif e os cinqüenta mil imigrantes zakrebenses haviam realizado em tão pouco tempo naquele continente pequeno.
Mais ao longe viam-se alguns nativos. Usavam trajes coloridos enfeitados por conchas; nas cabeleiras amarradas havia penas reluzentes.
Aproximaram-se de joelhos, levantaram as mãos e estenderam diversos presentes à nossa frente.
Alegrei-me ao ver seus rostos francos e seus olhos brilhantes, em que já agora reluzia uma expressão de inteligência. Estes selvagens ainda poderiam transformar-se numa raça bem dotada.
O Capitão Feltif exercia as funções de governador militar. Colocou uma residência à minha disposição e apresentou filmes que provavam suas realizações.
Ainda dispunha de duas naves de grande porte, que afundara nas profundezas do oceano. Bastaria uma mensagem de rádio para fazê-las emergir.
No dia seguinte ofereci um relato minucioso dos acontecimentos. Os colonos prestaram atenção às minhas palavras.
Feltif ainda me mostrou as instalações de defesa, antes que me convidasse para uma viagem estranha. Seu sorriso misterioso atiçou minha curiosidade.
Senti-me um tanto perplexo quando me levou ao porto, no qual se via, além de primitivos veleiros e barcos a remo, um navio-desembarque da frota imperial. O modelo servia para missões difíceis que tivessem de ser realizadas em planetas aquáticos. Eram capazes de voar e mergulhar, mas não podiam deslocar-se no espaço cósmico.
Embarcamos. O campo energético reluzente afastava as massas de água do casco elíptico do veículo.
A uns cem metros de profundidade vi à luz forte dos holofotes um grande planalto submarino, sobre o qual se erguia uma semi-esfera feita do melhor aço arcônida. Era extensa e poderia oferecer refúgio a grande número de colonos.
É nosso abrigo de emergência — explicou o engenheiro em tom objetivo. — Seu diâmetro na parte em que toca o chão é de cento e vinte metros, e a altura é pouco superior a sessenta metros. Suporta qualquer pressão da água e está equipada com todas as máquinas e instrumentos de que tivemos de nos privar lá em cima, ou melhor, que tivemos de evacuar de Larsa III. A abóbada dispõe de uma guarnição de robôs, de grande provisão de alimentos concentrados e enormes comportas.
A rocha natural em sua base foi escavada numa profundidade de cem metros e revestida com aço de Árcon sob alta pressão. Os cálculos estáticos provam que até mesmo pressões extremas causadas por eventuais deslocamentos do solo poderão ser absorvidas. O pedestal revestido também de aço arcônida foi soldado na semi-esfera. A rigor, trata-se de uma torre embutida na rocha, da qual só se vê a cobertura semi-esférica. Se necessário, pode abrigar dez mil pessoas.”
Você e seus soldados terão de cuidar de cinqüenta mil colonos — adverti em tom insistente. — O que pretende fazer com aquelas famílias?
Estou preparando um programa especial de treinamento, Alteza. Trinta mil deles serão levados aos dois continentes do hemisfério sul. No deserto oriental e nas montanhas do ocidente existem culturas nativas precoces. Mandei construir fortalezas de pedras e silos em forma de pirâmide; o trabalho está sendo realizado por robôs.
Se aparecer uma frente de ondulações, dificilmente atingirá todo o planeta ao mesmo tempo. Um sistema de alerta foi criado. Face à velocidade de deslocamento da zona mortífera até aqui constatada, não deverá ser difícil fugir em veículos aéreos. E neste ponto estamos muito bem equipados. Nossos emissários criarão novas colônias ao leste e ao oeste. O que nos falta é apenas o apoio de unidades da frota espacial.”
Enquanto o veículo submarino entrava numa grande comporta aquática e escutávamos o som cantante das potentes bombas, refleti sobre a sugestão velada que Feltif acabara de formular.
Evidentemente gostaria que permanecêssemos por ali. Senti o ódio apossar-se de mim. E esse ódio era dirigido contra os desconhecidos que eram responsáveis pelo desaparecimento dos melhores elementos de minha esquadrilha.
Naqueles minutos decidi fazer uso dos poderes que me haviam sido concedidos e ficar em Atlântida com as unidades restantes da esquadrilha. O armamento poderia ser aperfeiçoado. Talvez conseguíssemos mesmo desvendar o mistério da frente de ondulações e extrair do mesmo algum elemento que nos permitisse derrotar os metanianos da noite para o dia.
Mas, se quisesse ser sincero comigo mesmo, teria de admitir que eram as auto-recriminações e a angústia mental que me levaram a permanecer em Atlântida. As ordens recebidas do Imperador proporcionavam uma boa cobertura para essa resolução. Afinal, tinha a incumbência de desvendar o mistério.
Depois de uma caminhada demorada pela abóbada submarina muito bem equipada, o dispositivo automático positronizado foi familiarizado com minha freqüência individual de vibrações orgânicas.
Dali em diante poderia penetrar no envoltório de aço sempre que o desejasse. Além de mim, só Feltif e mais dois oficiais estavam em condições de remover as mortíferas barreiras energéticas.
Depois da viagem submarina deleitei-me com os raios benfazejos do sol acalentador. Voltara a emitir a mesma luz branco-amarelenta de sempre. A cor vermelha não durou mais que dois dias.
A mensagem de rádio que dirigi ao Grande Conselho nem sequer provocou qualquer lástima. Paciência; os cruzadores haviam sido destruídos. Percebi que as coisas deviam andar muito ruins para o Império, já que a perda de quarenta naves era aceita com tamanha indiferença.
Era o prenuncio da guerra total que iria ter início, e na qual a única coisa que importava eram os números. A indústria arcônida recuperaria a perda dentro de meio dia. No terceiro planeta do Império, até mesmo unidades pesadas eram montadas e controladas exclusivamente por robôs. A cada doze horas se concluía um couraçado da classe Império.
O batismo das novas unidades ficava a cargo dos respectivos comandantes. Era por isso que os nomes costumavam repetir-se. Apenas se acrescentava um número à designação, a fim de que todo mundo soubesse quantas naves com o nome Árcon ou Posono andavam por ali.
Estava decidido a permanecer ali e procurar com toda calma descobrir uma nova arma. Não tirava da cabeça a idéia do canhão de conversão, de que Grun falara no início. Se conseguíssemos criar um campo de curvatura de foco controlado situado exatamente no alvo que se tivesse em mira, o resultado seria uma desmaterialização total dos objetos atingidos. Conforme as circunstâncias, poderia ser possível que através de um controle especial de rastreamento se conseguisse fazer com que apenas a matéria orgânica fosse atingida.
As possibilidades de pesquisa com que poderíamos contar em Atlântida eram melhores que as do nosso mundo natal. Afinal, havíamos experimentado na própria carne os efeitos de armas desse tipo.
Dali a dez dias expedi e assinei um aviso ao Imperador com as palavras Príncipe de Cristal. Dessa forma, poderia ter certeza de que meu tio iria receber a mensagem.
Dali a algumas horas as hiperantenas direcionais da Tosoma captaram a resposta.
Seu teor foi o seguinte:
Perda dos cruzadores não assume maior importância. Nova arma é extremamente importante. Permaneça em Atlântida e lance mão de todos os recursos para solucionar o mistério do campo relativista.
Foi a única comunicação que recebi. Entrei em contato com os técnicos e cientistas de minhas naves e da colônia.
Grun já se recuperara. Foi o dirigente da equipe de pesquisas que num planeta situado a 34 mil anos-luz de Árcon dava início a um trabalho que mais tarde se revelaria bastante útil ao Império.
9



Cerca de dois meses se haviam passado. Inkar e Taneth realizavam constantemente viagens bastante perigosas com seus cruzadores pesados, a fim de retirar dos depósitos bem supridos do segundo planeta tudo que faltasse em Atlântida.
Minha nave capitania era mantida em posição de defesa. Três dos gigantescos propulsores da zona equatorial haviam sido transformados em armas. O mesmo fora feito com uma das máquinas de cada cruzador pesado.
Três semanas atrás conseguimos registrar nosso primeiro êxito. Naquela oportunidade nossos hiper-rastreadores registraram a presença de um objeto desconhecido. No momento em que o atingimos por meio de nossa pontaria automática, explodiu tão depressa sob o fogo concentrado de nossas armas que mal conseguimos acompanhar o fenômeno.
Os canhões de ondas de impulsos abriram um enorme funil no campo relativista. Logo após aconteceu uma coisa que representava uma indicação importante para nossos peritos.
A nave localizada pelos instrumentos, que era totalmente invisível, foi expelida pelas bordas do túnel incandescente; até parecia que uma mão de gigante a havia arrastado. Vimos o objeto negro e comprido com tamanha nitidez que até parecia que nunca se encontrara numa outra dimensão. Tivemos a impressão de que seus movimentos eram extremamente lentos e pesados. A explosão só se verificou depois que o veículo espacial se tornou visível.
Ameacei o apressado oficial de armas de colocá-lo diante de um tribunal militar. Era claro que pretendia capturar o desconhecido, mas depois da destruição prematura isso se tornara impossível.
Dali em diante reinou a paz. Muito embora os observatórios de Atlântida tivessem registrado duas rupturas espaciais localizadas na área da estrela Larsaf, não apareceu mais nada que se parecesse com um veículo dos desconhecidos.
Não se arriscam mais a vir para cá — murmurou Tarts em tom zangado.
Eu fazia votos de que não tivesse razão. Queria saber com quem estávamos lidando.

* * *

Exatamente vinte e quatro dias depois da destruição da longa nave espacial em forma de bastão, decolei com meu pequeno grupo de naves. Aproximamo-nos com uma extrema cautela do segundo planeta. Pretendíamos instalar uma unidade de comando já pronta no sistema de registro do computador instalado em Larsa II.
Era um medidor de quinta dimensão, regulado exatamente às estranhas vibrações da frente de ondulações. Assim que houvesse uma passagem, seríamos informados imediatamente em Atlântida.
Sentia-me muito preocupado, já que os planetas se aproximavam cada vez mais, à medida que se deslocavam em suas órbitas. A oposição total dos mesmos era iminente.
Se houvesse um ataque nesse espaço de tempo, desta vez os colonos de Atlântida não escapariam.
Já mandara os nativos às fortalezas previamente preparadas. Distribuíra-os de forma tal que nem todos pudessem ser seqüestrados. Para nossa tranqüilidade, continuávamos a supor tratar-se de um rapto de indivíduos pensantes.
De certo tempo para cá os dois cruzadores teleguiados eram controlados por uma nave auxiliar do couraçado. Já não podíamos assumir o risco de aproximar-nos do inimigo com as três unidades aptas para o combate que ainda nos restavam. E, de qualquer maneira, a manobrabilidade de nossas naves fora afetada pela modificação de alguns propulsores.
Mandei que os cruzadores pesados Paito e Assor permanecessem no espaço. Depois de constatarmos que no momento tudo estava calmo no segundo planeta, fiz a Tosoma avançar velozmente para a densa atmosfera. Irradiei o sinal codificado para o grande centro de computação do planeta e me preparei para pousar junto à imensa cadeia de montanhas.
A abóbada energética que protegia o computador desfez-se. Meus técnicos já estavam agachados sobre a grande plataforma antigravitacional. Nela se encontrava preso o novo elemento a ser introduzido no computador. Se tudo desse certo, a montagem poderia ser concluída dentro de umas dez horas.
O oficial encarregado das comportas abriu as grandes escotilhas de dois batentes situadas acima da protuberância equatorial do couraçado. O planador saiu e, deslocando-se em alta velocidade, desapareceu no ar nevoento.
As armas pesadas do computador pareciam ameaçar o céu coberto de densas nuvens. Normalmente a instalação automática estaria em condições de rechaçar um ataque comum. De qualquer maneira, não fora danificado com a passagem das frentes de ondulações.
Dali a oito horas aconteceu uma coisa que de início interpretei como um ataque de superposição. Vi que o velho Tarts também levantou a cabeça e os outros homens que se encontravam na sala de comando pareciam aguçar os ouvidos. Concluí não ser o único que ouvira o ruído.
Tarts fitou-me perplexo. Muito lentamente tirou o dedo de cima do botão de alarma.
Alguém o chama! — disse em tom incrédulo.
Sim; já sei — respondi, esticando as palavras.
Olhei atentamente em torno. O que seria isso?
Mais uma vez meu nome foi pronunciado; e houve uma solicitação que quase chegava a soar como uma ordem.
Um jovem oficial fez o registro escrito da mensagem transmitida de forma tão estranha. Eram poucas palavras, que davam mostras de uma intenção que não poderia ser identificada.

Chamo Atlan, o comandante dos arcônidas. Minha identidade não é a mesma do desconhecido vindo da zona temporal. Decole imediatamente com uma pequena nave auxiliar e compareça no interior de meu corpo. Aguardarei por duas horas. Se não vier, o prejuízo será seu e de seu povo. Garanto que nada lhe acontecerá durante a visita ao meu corpo. Localize-me.

Meus oficiais fitaram-me com os rostos tensos.
Que loucura! — observou Tarts. — Qual será o truque? É alguém que deseja apoderar-se de você, Atlan.
Levantei-me lentamente da poltrona de combate. Uma tela iluminou-se. O Capitão Zerg, nosso oficial da equipe psicológica, surgiu e pediu permissão para falar.
Fale! — disse, calmo por fora e tremendo por dentro.
Trata-se de paravibrações, Alteza — explicou. — São semelhantes aos impulsos produzidos pelos nossos projetores mentais; apenas, são muito mais potentes. Trata-se de uma transmissão do conteúdo da consciência realizada no plano puramente espiritual, que costuma ser utilizada por algumas raças telepáticas. Nossa raça não possui essa capacidade, mas os resultados das pesquisas feitas nesse terreno são inequívocos.
Qual é sua opinião sobre o conteúdo da mensagem? — indaguei.
Não tenho uma opinião bem formada, Alteza. Mas tenho quase certeza de que a mensagem não provém das criaturas das sombras.
O operador de rádio transferiu a mensagem que agora estava sendo recebida em meu posto de combate. Era o comandante Inkar, que me chamava do espaço. Em seus olhos via-se um brilho nervoso.
Inkar chamando chefe da esquadrilha — disse em tom apressado. — Na Tosoma também foi captada uma estranha solicitação?
Nós a ouvimos — confirmei. — Você localizou o ser que quer entrar em comunicação conosco?
Localizei-o tanto pelos instrumentos de medida como através dos dispositivos óticos — respondeu Inkar. — O teor metálico é muito elevado, mas não se trata de aço de Árcon. O objeto tem a aparência de uma nave espacial, com a única diferença de que seu formato exterior é assimétrico. Parece um objeto em forma de cubo com numerosas protuberâncias irregularmente distribuídas por sua superfície. Por enquanto prefiro não atacar.
Confirmei com um movimento indeciso. O Capitão Zerg entrou na sala de comando. Tinha na mão algumas folhas de plástico em que estavam registrados os resultados de certas medições.
Tem alguma instrução específica, Alteza? — perguntou Inkar em tom impaciente.
Qual é a distância do objeto? — perguntei.
O mesmo se mantém imóvel, à distância de 1,5467 milhões de quilômetros. Portanto, está dentro do raio de alcance de um pequeno canhão de impulsos. Isso me leva a supor que não se trata de um ser que queira atacar-nos. Ninguém seria louco a ponto de manter-se imóvel à frente dos canhões de um cruzador pesado do Império.
É verdade! — confirmou Tarts, sem que ninguém tivesse pedido sua opinião.
A Paito e a Assor se manterão numa rota de observação — ordenei. — Não façam nada, se o desconhecido não demonstrar intenções hostis. Subirei com uma nave de salvamento da Tosoma. Confirme. Desligo.
O Capitão Zerg interveio na palestra. Manteve-se em atitude respeitosa diante de mim e do velho comandante.
Alteza, na minha opinião é impossível que as criaturas das sombras conheçam seu nome e saibam que pertencemos a uma unidade da frota do Grande Império. O ser que apareceu por aqui sabe perfeitamente o que aconteceu neste sistema. Tenho uma interpretação logística. De acordo com a mesma, o ser que temos diante de nós não pode ter a intenção de atacar-nos.
Senti-me vacilante. A decisão de atender à estranha solicitação e sair espaço afora numa nave auxiliar agora parecia absurda.
Como vai o trabalho de nossos técnicos? — indaguei.
Deverá estar concluído dentro de duas horas — foi a resposta vinda do interior do pavilhão de rocha que abrigava o computador positrônico.
Naquele instante voltou a ser ouvida a mensagem vinda do espaço. O desconhecido ou os desconhecidos deviam estar muito interessados num contato.
Tarts não disse mais nada. Ele, que sempre se mostrara preocupado com meu bem-estar e há vários decênios servia à minha venerável família, examinou-me atentamente.
Está bem; vá — disse de repente. — Sei que sente coceira nos pés. Mas imponho uma condição. A Tosoma também deverá partir. A Assor, comandada por Taneth, pode proteger os técnicos. Os cruzadores pesados já não são bastante velozes para prevenir qualquer eventualidade.
A sugestão de Tarts deu-me a necessária segurança. A afirmação de que a falta de meu comparecimento só poderia resultar em prejuízo de meu povo não me saía da cabeça.
A Tosoma rompeu o envoltório atmosférico do segundo planeta, que emitiu uma forte luminescência. Subitamente a bola de fogo ofuscante do sol surgiu à nossa frente. Daqui parecia bem maior que da órbita de Atlântida.
Pare a nave! — gritei para Tarts que, ao que parecia, estava interessado em aproximar-se mais algumas centenas de milhares de quilômetros.
O velho me brindou com um olhar furioso. Mas depois um sorriso cobriu seu rosto enrugado.
Isso já foi feito — respondeu. — Bem que poderia ter imaginado que você não seguiria meu conselho.
Tarts assumiu pessoalmente o controle do pequeno canhão de impulsos, rigidamente montado. Estava em perfeita ordem e pronto para disparar, da mesma forma que tudo que se encontrava a bordo da Tosoma.
Atenção, toda a esquadrilha — disse, falando para dentro do microfone do hiper-rádio. — É possível que, depois de entrar na nave desconhecida, eu não dê nenhuma notícia. Peço-lhes que não se deixem levar pelo pânico. Meu traje espacial está equipado com um projetor de campo defensivo, que me protegerá se algo acontecer. Está preparada, Tosoma?
Estavam preparados. Ouvi o chiado das bombas de sucção e as escotilhas da comporta se abriram.
Meus nervos começaram a vibrar quando acoplei o raio direcional do hiper-transmissor com o rastreador de eco. Assim que surgiu o sinal verde, ajeitei o microfone diante dos lábios. Ainda não colocara o capacete espacial sobre a cabeça.
Almirante Atlan, chefe da 132a Esquadrilha Imperial de Combate chamando a nave espacial desconhecida. Recebi sua mensagem e aproximo-me sozinho. Chegarei dentro de dez minutos. Desligo.
Fiquei curioso para ouvir a resposta. A mesma veio nos termos que esperara no meu íntimo.
Já o localizei. Desligue seu propulsor. Você será abrigado são e salvo no interior de meu corpo.
A expressão absurda voltara a ser usada. Era claro que entraria no corpo da nave, mas evidentemente este não correspondia ao do respectivo comandante. Aquela gente parecia usar conceitos bem estranhos.
No momento em que obedeci à ordem e desliguei as máquinas, minha tensão cresceu. Dali a alguns minutos senti uma tração suave. Logo após isso o costado escuro da nave surgiu à minha frente.
Apressei-me em explicar os acontecimentos aos meus homens, que nessa hora já deviam estar preocupados.
É uma loucura! — disse a voz de Tarts em meu receptor. Essa era sua expressão predileta. — Não se esqueça de que é exatamente essa a arma que estamos procurando.
Lembrava-me perfeitamente! A idéia me viera à mente no momento em que senti a leve tração.
Naquele momento pus de lado todas as dúvidas que sentia face ao fenômeno inexplicável. Passara por uma espécie de desmaterialização dirigida. No momento em que conseguíssemos fabricar o aparelho que a causava, a guerra contra os metanianos sofreria uma transformação completa.
Bem à frente de minha nave, subitamente imobilizada, surgiu uma mancha luminosa de contornos nítidos. Era uma comporta de ar iluminada, que se abria de forma convidativa. O comandante desconhecido não dava mais nenhum sinal de sua presença.
Fui puxado suavemente para dentro do recinto metálico vazio. As escotilhas voltaram a fechar-se. O ar encheu a cabine. Foi quando veio a mensagem:
Providencio uma mistura de oxigênio e hélio para você. Normalmente não existe qualquer pressão gasosa em meu corpo.
Comecei a espantar-me. Apavorado, movimentei a mão em direção à chave do transmissor, mas preferi não chamar minha nave capitania. Não havia necessidade de aumentar o nervosismo de Tarts. Qualquer tolice que ele viesse a cometer poderia pôr tudo a perder.
Fiz o analisador automático aspirar uma amostra de ar e aguardei. O resultado foi fornecido dentro de quatro segundos, através de um forte sinal verde. A atmosfera artificial era respirável.
Abri minha cabine e desci. A potente arma de impulsos que trazia no cinto me dava uma sensação reconfortante. Caminhei cautelosamente em direção à escotilha interna; por instinto e experiência, compensava a gravitação menos intensa por meio de movimentos comedidos.
Esperava encontrar algumas pessoas, mas não vi ninguém. O corredor comprido estava debilmente iluminado. Em toda parte ouviam-se zumbidos e chiados. Parecia que milhões de insetos construíam apressadamente o seu ninho.
Avancei devagar. Minha inquietação só cedeu quando voltei a ouvir a voz vinda de dentro da nave:
Meus cumprimentos, Atlan. Você se encontra no interior de meu corpo. Conheço seus pensamentos. O lugar em que você se encontra é uma nave espacial robotizada que não leva qualquer tripulação dotada de vida orgânica. Sou uma unidade de comando compacta, capaz de percorrer o espaço e, se necessário, combater. Fui equipada com todos os recursos que meu construtor julgou necessários. Dirija-se para a esquerda.
Senti-me chocado. Então era esta a solução do enigma! Era claro que um robô que praticamente se identificava com a nave poderia perfeitamente dizer que me recebia no interior de seu corpo.
Penetrei num campo antigravitacional que exerceu uma leve tração, levando-me para cima. Saí da abertura do poço e vi-me numa grande sala redonda de teto abaulado.
A profusão imensa de estranhos elementos de controle deixou-me bastante perturbado. Naquela nave reinava uma vida puramente mecânica.
Parei no centro da sala, pois receava entrar em contato com algum condutor de energia. Energias imensas trabalhavam na nave, e em nenhum lugar descobri um elemento protetor, desnecessário para um robô.
O que se seguiu foi deveras surpreendente. Tive a impressão de que uma pessoa que conhecia ligeiramente passara por mim, cumprimentando-me com um ligeiro sinal!
A gigantesca máquina não forneceu explicações satisfatórias, nem se sentiu obrigada a responder às minhas perguntas apressadas. Parecia que o conteúdo da comunicação fora decidido previamente, e que não havia nada que pudesse modificá-lo.
Recebi ordens para entregar-lhe um microativador destinado à regeneração contínua dos núcleos celulares. Você mesmo decidirá se quer usá-lo segundo as prescrições, ou se prefere dispensá-lo. O instrumento produz a suspensão do processo natural de envelhecimento. Se você o deixar constantemente junto ao coração, alcançará a imortalidade biológica, desde que seu organismo não seja exposto a qualquer influência nociva vinda do exterior.
Repito: você se conservará eternamente jovem e sadio, mas sua imortalidade é apenas relativa. Um acidente ou um ato de violência poderá causar sua morte. Tire a roupa e entre no medidor. Transmitirei suas vibrações orgânicas individuais ao ativador celular.”
A nave-robô não forneceu outras explicações. Totalmente perplexo, segui suas instruções e subi de pés descalços na plataforma metálica que brilhava numa luminosidade vermelha. Um capacete de aço desceu sobre minha cabeça. Senti a penetração um tanto dolorida das agulhas de contato, que penetraram até a caixa craniana.
O procedimento durou menos de dois minutos. Antes que o capacete voltasse a levantar-se, um braço mecânico sofisticado pendurou um pequeno objeto em forma de ovo em torno de meu pescoço. Estava preso a uma corrente fina, mas muito forte.
Saí da plataforma, bastante perturbado, e voltei a colocar as roupas. Enquanto isso, não parava de formular perguntas. A resposta só veio depois que terminei de me vestir.
Minha missão foi cumprida. Não posso dar resposta às suas perguntas. O ser que me construiu está interessado em evitar a extinção da raça arcônida. Você tem o dever de fazer por seu povo tudo que estiver ao seu alcance. Suponha que meu construtor não julgue conveniente que o poder sobre a Galáxia passe às mãos de seres estranhos. Por outro lado, meu construtor não concorda em que seres pertencentes ao segundo plano temporal penetrem em seu universo.
Você recebeu o ativador celular para que possa continuar a tomar as medidas que se tornem necessárias. Conforme as circunstâncias, poderão surgir acontecimentos dos quais resulte a aceleração do processo de envelhecimento. Você também foi equipado para esta eventualidade. Meu construtor não está autorizado a intervir diretamente. Por isso ele lhe oferece a oportunidade de agir segundo seus desígnios.”
Com isso a palestra mais estranha que já mantive em toda minha vida havia chegado ao fim. Ouvira coisas com as quais não sabia fazer nada. A máquina voltou a empurrar-me para o poço do elevador antigravitacional, como se fosse um simples boneco.
Assim que cheguei ao pavimento de baixo, o pânico que começou a apossar-se de mim me fez correr. Naquele instante fui detido por um braço mecânico que saiu subitamente da parede.
Recuei, procurei desesperadamente um lugar em que pudesse abrigar-me e saquei a arma.
Ouvi uma risadinha, que dentro de poucos segundos se transformou num berreiro que me obrigou a comprimir a cabeça dolorida com ambas as mãos.
A gargalhada voltou a crescer, mas logo cessou.
A voz do robô voltou a ser ouvida.
Recebi instruções de entregar-lhe os planos de uma arma que seus cientistas chamam de canhão de conversão. Trata-se de um aparelho capaz de produzir a qualquer distância um campo de condensação instável da quinta dimensão. Assim que o emissor faz cessar o efeito do condensador artificial, ocorre a desmaterialização dos objetos que se encontrem no respectivo campo. Os dados foram examinados em fio magnético. Poderão ser utilizados imediatamente. Utilizaram-se símbolos matemáticos arcônidas. Desejo-lhe muitas felicidades.
Com estas palavras fui dispensado. Tirei da mão metálica, que por pouco não me fizera praticar um ato irrefletido, um rolo metálico, cujo comprimento não ultrapassava de uma mão humana, e guardei o mesmo nas minhas vestes.
Comecei a sentir uma corrente revitalizadora que atravessava meu organismo.
Quando me vi novamente na minha nave, o cansaço e o nervosismo haviam desaparecido. Tive a impressão de ter recebido uma injeção de energia vital. O transporte de volta para a Tosoma também foi realizado por meio de uma minitransição.
Subi a bordo, esquivei-me das pessoas curiosas que me enchiam de perguntas e dirigi-me a meu camarote. Tarts anunciou pela intercomunicação audiovisual que a nave desconhecida desaparecera de repente.
Afinal, o que houve? — perguntou. — Fale logo!
Olhei para a pequena cápsula. Seu conteúdo consistia em pequenas espulas de fio audiovisual, do tipo usado por nós. Ao que parecia, em meu cérebro não surgia nenhum pensamento lúcido.
Os técnicos já terminaram o trabalho? — perguntei.
Se terminaram o trabalho? — repetiu Tarts em tom de espanto. A expressão de seu rosto despertou minha mente. — É claro que estão prontos. Pois esperamos por você há dezoito horas.
Dezoito horas? — perguntei num gemido.
Logo imaginei que alguma coisa não estava dando certo — disse o comandante em tom furioso. — Você chamava de trinta em trinta minutos, para avisar que a palestra ainda iria demorar um pouco. Se demorasse mais duas horas, a coisa iria estourar. Afinal, o que houve?
Nada — respondi em tom cansado. — Absolutamente nada. Aquela nave é um robô perfeito. Não tem qualquer tripulação. Deve ter uma dimensão temporal diferente da nossa. Ainda tenho a impressão de ter passado no máximo quinze minutos em seu interior. E acontece que não o chamei uma única vez.
Realmente foram dezoito horas — gritou Tarts fora de si. — Mandarei o médico examiná-lo. Você está bem?
Acredito que sim. Estou subindo. Desligo.
Quando entrei na sala de comando, todos me fitaram como se fosse um ser vindo de um outro mundo. Tarts formulou algumas perguntas que só eu poderia responder. Só depois disso desistiu da idéia de que um monstro disfarçado poderia ter subido a bordo no meu lugar. Meu nervosismo terminou em meio a uma série de estrondosas gargalhadas. Os oficiais começaram a sorrir. Tarts praguejou e retirou-se para sua poltrona de combate.
Pousamos em Atlântida sem termos visto o menor sinal do inimigo vindo da área das sombras. Os planetas dois e três aproximavam-se cada vez mais da oposição, que aguardávamos com tamanho receio.
Tomei todas as providências para uma rápida evacuação. Enquanto isso os cientistas examinavam as estranhas espulas. Dali a três dias Grun me comunicou em tom exaltado que o mistério acabara de ser solucionado.
Chegou a hora em que mais uma vez tive de separar-me de um companheiro fiel. Convoquei os comandantes e ordenei a Assor que partisse imediatamente para Árcon, a fim de levar os dados sumamente importantes que tínhamos em mãos e os entregasse pessoalmente ao Imperador.
Aproveitei a oportunidade para, contra a vontade dos colonos, colocar quarenta mil pessoas nas duas naves de transporte de que ainda dispúnhamos. Bastaria que Atlântida ficasse com dez mil habitantes.
Impus minha vontade e mandei que Taneth comboiasse as naves.
Dali a vinte dias, três grandes unidades partiram para a longa viagem de volta.
Posteriormente soube que a Assor, comandada por Taneth, depois de ter desempenhado a missão-correio importante, foi requisitada por um almirante que a lançou prontamente na batalha contra os metanianos, durante a qual foi destruída numa ação arrojada.
Apesar dos repetidos pedidos de me ceder uma das novas armas, que formulei perante o Grande Conselho, nunca recebi um canhão de conversão.
Em vez disso o Imperador em pessoa me ordenou que continuasse no pequeno sistema de Larsaf e procurasse desvendar também o segredo da frente de ondulações.
Como recompensa por ter conseguido os dados necessários à fabricação da nova arma, fui promovido ao posto de Almirante-de-Esquadra. Mas não me deram outras naves. Explicaram que depois de uma guerra total contra os monstros, que durara quase três anos, os recursos do Império se haviam tornado extremamente escassos.
Por isso fiquei apenas com a Tosoma e com o cruzador pesado Paito, comandado pelo Capitão Inkar.
Os dois velhos cruzadores, transformados em armas teleguiadas, só podiam ser utilizados de forma bastante restrita. Era por demais complicado, ou melhor, praticamente impossível, utilizá-los contra alvos móveis que se deslocassem a grande velocidade.
Por isso dei ordem para que as velhas naves fossem desmontadas, e seus propulsores adaptados e montados em Atlântida, para servirem de armas estacionárias.
Incluindo os tripulantes das unidades que me restavam, cerca de quatorze mil arcônidas ainda se encontravam no pequeno continente, que floresceu com o trabalho de nossas mãos.
Os dez mil colonos de Zakreb V instalaram novas fazendas e instruíram os nativos na arte do cultivo da terra. Nosso relacionamento com os bárbaros era excelente. Não houve ataques ou outros acontecimentos desagradáveis.
Depois de algum tempo pedi a Feltif que os instruísse no trabalho com metais e na arte da construção. As primeiras escolas foram instaladas nos grandes continentes sulinos situados ao leste e ao oeste de Atlântida.
Estávamos desenvolvendo a base mais avançada do Império. Infelizmente não recebemos qualquer tipo de apoio de nosso mundo natal.
Nas semanas seguintes, Inkar e eu realizamos uma série de missões perigosas que nos levaram ao segundo planeta, cujos depósitos foram esvaziados progressivamente. Dispunha apenas de duas naves poderosas, cuja existência, ao que parecia, havia sido esquecida por Árcon.
Depois de muito tempo os propulsores readaptados, retirados dos dois cruzadores, foram embasados no solo rochoso de Atlântida.
Dali em diante dispúnhamos de oito posições de artilharia inteiramente independentes, cujos conversores de impulsos poderiam, se necessário, intervir nos acontecimentos. Caso surgisse outro ataque da frente de ondulações, as tripulações evidentemente teriam que ser levadas a um lugar seguro.
Por isso mandei instalar condutos antigravitacionais de alta velocidade, que permitiriam a fuga dos indivíduos, se não fosse possível deter o campo relativista ou ao menos romper determinados setores do mesmo.
Atlântida transformara-se numa fortaleza.
Repousamos no ar tépido das zonas mais elevadas, refazendo-nos das canseiras do passado, e realizamos excursões às terras geladas do norte, onde nos encontramos com bárbaros ignorantes da Idade da Pedra.
Algumas das tribos já moravam em cabanas, enquanto outras ainda vagavam pelas florestas, sem destino. Era de espantar como a vida se desenvolvera no terceiro mundo da estrela Larsaf.
Especialmente os povos do norte pareciam ter sofrido duras privações no curso dos milênios. Ainda encontramos vestígios da era glacial.
Pousamos vez por outra, deixávamos que a usual veneração dos deuses fosse despejada sobre nós e mostramos aos homens como se derretia o metal em fornos simples.
Nas áreas litorâneas, junto a um grande complexo montanhoso, que delimitava a área sulina, erguemos fortes palafitas destinadas a pescadores.
Quanto ao mais, tínhamos a impressão de que seria inútil levar os produtos da tecnologia arcônida àqueles seres, que geralmente ainda viviam em cavernas. Antes disso teriam que realizar o próprio desenvolvimento.
Dedicamos nossa atenção principalmente aos povos morenos, bastante amadurecidos, que viviam nos dois continentes sulinos. Ali surgiram as primeiras cidades de nativos, construídas sob a orientação dos colonos de Zakreb V.
Ao que parecia, tudo ia muito bem. A frente de ondulações se mantinha no setor espacial que lhe pertencia. Já sabíamos que se tratava de um fenômeno natural, aproveitado por seres pensantes.
Ficamos aguardando. O ataque contra nós só poderia ser lançado quando o terceiro planeta se encontrasse em oposição a Larsa II. Quando isso acontecesse, teríamos a decisão.
10



Alguém me sacudiu pelos ombros. Ouvi chamar meu nome, mas só depois de algum tempo os sons fixaram-se em meu cérebro. Tive a impressão de estar despertando de um sono profundo.
A pressão dolorosa no meu crânio cessara por completo. Sentia-me extremamente cansado. Os rostos dos oficiais apagaram-se na minha imaginação.
Ei, almirante! Acorde!
Alguém batia carinhosamente na minha face. Não sabia onde estava.
Tarts, é você? — balbuciei.
Doravante não permitiremos quê vague num passado tão longínquo. Peço que no futuro só sejam formuladas perguntas objetivas, e que quanto ao mais se aguarde o resultado de sua atuação. Um cérebro arcônida é muito sensível. Doutor, faça o favor de cuidar dele.
Perplexo, escutei aquela voz clara, acostumada a comandar. Alguém me picou no braço. Uma corrente tépida correu por minhas veias.
Ouvi apenas a respiração pesada de um homem. Sempre que falava usava uma língua estranha; no entanto, eu o entendia perfeitamente.
Dali a uma hora compreendi finalmente que já não me encontrava a bordo da velha Tosoma, mas na sala dos tripulantes de um supercouraçado espacial terrano chamado Drusus.
Seu comandante era Perry Rhodan, e o sistema de Larsaf hoje era designado pelo nome de Império Solar.
Atlântida há muito deixara de existir, e meus homens estavam mortos há dez mil anos. O Grande Império que pretendera salvar estava próximo à desagregação. Um computador-regente exercia o poder.
Rhodan ergueu meu corpo. Esbocei um sorriso débil. Rhodan disse em tom suave:
Você ainda continuaria com suas histórias por horas a fio, se não o tivesse chamado constantemente. Rapaz, vamos deixar isso de lado. Hoje nos encontramos no ano 2.040 da Era Cristã, e os bárbaros das cavernas da região norte foram meus antepassados. Como se sente?
Tateei à procura do ativador celular, que estava iniciando seu trabalho revitalizante.
O aparelho continua a funcionar — cochichei. — Já compreende que não lhe posso revelar o segredo da vida eterna? Até hoje não sei exatamente o que aconteceu naquele tempo.
Acontece que eu sei — afirmou Rhodan em tom indiferente. — As gargalhadas berrantes dizem tudo. Conheço um ser misterioso que habita o mundo artificial denominado Peregrino, que gosta de divertir-se à custa dos outros em todas as oportunidades apropriadas e inapropriadas. O instrumento só pode ter sido fornecido por ele. Provavelmente o surgimento do segundo plano temporal deixou-o preocupado. Você representou seu braço armado, pois ele não tem consistência material.
Estou curioso para ver que posição ele assumirá diante dos acontecimentos mais recentes. As sombras de antanho voltaram a aparecer, arcônida. Desta vez quebrarão os dentes. OK; você deve descansar um pouco. Aquilo foi demais. Aliás...”
Perry interrompeu-se por um segundo e prosseguiu com um sorriso:
...aliás, minha opinião sobre os arcônidas sofreu uma modificação completa. Ao que parece, o tal do Tarts foi um sujeito formidável.
Todos eles foram — respondi baixinho. O orgulho pelo passado grandioso de meu povo voltara a despertar. — Apenas gostaria de saber se naquela época chegaram a ser utilizados os novos canhões de conversão.
Os relatórios que chegaram ao meu conhecimento falam numa fabulosa arma de destruição, cujos segredos de construção se perderam. Não existe a menor dúvida de que os metanianos foram rechaçados e sofreram uma derrota fulminante. Se todos os almirantes do Império daquele tempo foram como você, pouco deve ter sobrado dos mundos de metano situados no setor das nebulosas. Agora descanse.
Recostei-me na poltrona e contemplei as telas iluminadas.
Encontrava-me novamente no espaço. Mas havia uma diferença. Desta vez outro homem exercia o comando. Todavia sentia-me em casa, pois a Terra passara a ser meu mundo.




* * *
* *
*




A exposição feita por Atlan foi excelente para os planos de Rhodan.
Há uma arma que poderá ser usada contra os invisíveis...
Em O Robô Espião, a misteriosa ameaça do ser ou seres tomou um rumo...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html