Sacrifiquei
os dois cruzadores mais velhos da esquadrilha, transformando-os em
armas de experiência. Os tripulantes foram repartidos entre a nave
moderna, mas desguarnecida, o cruzador Matato, e o cruzador pesado
Paito, que se defrontava com a falta de pessoal técnico. Ainda
dispunha de quarenta cruzadores leves e pesados. Desde logo
contabilizei as duas naves teleguiadas na conta de prejuízos.
Depois que
Grun se retirara, penetrei com as três unidades pesadas de nossa
esquadrilha na atmosfera densa e nebulosa do segundo planeta.
Amonaris, a capital, ficava na encosta das montanhas situadas junto
ao mar equatorial. Tinha o aspecto de um grupo humano de fugitivos.
O grande
centro de computação situado nas montanhas, que fora construído
por Amonar, um administrador que se fizera culpado de vários crimes,
já se encontrava em funcionamento. Depois do pouso, ordenei
imediatamente que todos os técnicos de que pudéssemos dispor fossem
destacados para a missão de reforço do anel duplo de defesa, que
guardaria ainda mais essa fortaleza robotizada.
Dali a
três horas, os cruzadores Titsina e Volop foram levados ao estaleiro
grande e bem montado de Larsa II. Fizemos todos os esforços
possíveis para modificar a posição dos gigantescos bocais de
impulsos, adaptando-os às exigências da tecnologia armamentista.
Além do dispositivo eletrônico de telecomando já existente,
montamos também um controle de pontaria do armamento
semi-automático, capaz de reagir a comandos supercondensados. Essas
reformas exigiram bastante tempo, material e trabalho técnico, mas
em Larsa II pude dispor de tudo que precisava.
Após isso
visitei as regiões nas quais, segundo se dizia, cento e cinqüenta
mil colonos teriam desaparecido sem deixar o menor vestígio.
Grun,
chefe da equipe matemática, acompanhou-nos com seus colaboradores
mais chegados. Assim penetramos devagar na primeira fazenda
inteiramente automática.
Os
edifícios baixos estavam vazios. Não se percebia a falta de nada;
as valiosas instalações continuavam intactas. Apenas, os colonos
não estavam presentes.
Os
cientistas da administração planetária apresentaram dados baseados
em cálculos minuciosos. Deles se concluía que a superfície desse
mundo selvático fora atingida em intervalos irregulares e por isso
mesmo imensuráveis por algum campo nitidamente delimitado.
Grun
designou as faixas de ataque como campos relativistas, expressão que
dizia tudo e nada. A única coisa que descobrimos foi que nunca
houvera um ataque que abrangesse todo o planeta. Completamente
perturbado, falei com algumas pessoas que haviam permanecido em suas
casas.
Nas
proximidades do lugar em que se encontravam, membros de suas famílias
se haviam dissolvido no ar, enquanto nada acontecera a eles.
Dali se
concluía que os raios em leque — se é que se tratava disso —
estavam perfeitamente delimitados.
Grun
continuava a sustentar que se tratava de uma arma superdimensional
extremamente eficaz, e que deveríamos descobrir o segredo de seu
funcionamento, custasse o que custasse.
Eu não
tinha tanta certeza de que essa idéia era correta. Os cientistas de
Larsa II opinavam que o inimigo apenas tirava proveito de algum
efeito inteiramente natural. Se fosse assim, os desconhecidos deviam
manter-se sempre à espreita, aguardando o momento de acontecer algo
que pudesse servir para as finalidades que tinham em vista.
Depois de
todas as discussões e palestras cansativas travadas com os
cientistas, senti-me totalmente exausto.
Determinei
a prontidão absoluta e apressei ao máximo os trabalhos de
aprimoramento do grande centro de computação situado nas montanhas.
Providenciei também para que os cruzadores experimentais Titsina e
Volop fossem reformados por turnos de trabalhadores que se revezassem
ininterruptamente.
A última
medida que tomei foi o confisco das vinte e uma naves de transporte
de grandes dimensões, que antes estavam sob o comando do
administrador local. Aquelas unidades bojudas e praticamente
desarmadas foram aprovisionadas com alimentos e colocadas em
condições de decolar a qualquer momento. Se surgisse a necessidade
de evacuar os dois milhões de colonos, não hesitaria um instante.
Afinal, no setor das nebulosas vira várias vezes que é muito
difícil colocar em segurança um grupo de pessoas nervosas.
Os chefes
distritais do governo colonial foram instruídos pelo rádio a
tomarem todas as providências para uma possível fuga. É bem
verdade que fiquei perguntando a mim mesmo como faria para, se
surgisse um perigo extremo, abrigar dois milhões de habitantes em
apenas vinte e uma naves espaciais. Os modelos eram diferentes e,
mesmo se o espaço disponível em seu interior fosse aproveitado ao
máximo, cada uma das naves só poderia abrigar de dez a vinte mil
colonos. E para isso estes teriam de ficar até mesmo nas salas de
máquinas e outros compartimentos destinados ao funcionamento das
naves.
Depois de
dormir um bom sono, expedi uma longa mensagem radiofônica destinada
ao Grande Conselho. Relatei com a maior clareza possível as
dificuldades com que me defrontava.
Em
conseqüência disso, surgiu uma reação imediata do comando
arcônida. Fui avisado de que deveria enviar imediatamente 1,8
milhões de emigrantes para Árcon. Os duzentos mil que restassem
seriam suficientes para a manutenção da cultura de Larsa II.
Contava
com uma pequena revolta. Fiquei muito admirado ao pensar que os
habitantes do planeta iriam disputar acirradamente os lugares
disponíveis nas naves. Ninguém desejaria ficar naquele medonho
mundo selvático.
Dali a
três dias, chegaram cento e cinqüenta gigantescas naves de
transporte pertencentes à nossa frota.
O embarque
demorou menos de doze horas. Logo após isso as naves precipitaram-se
espaço afora. Nunca mais as vi. Ao efetuarmos uma contagem,
constatamos que menos de cento e cinqüenta mil habitantes haviam
permanecido no planeta. Os outros preferiram ser convocados para o
serviço da frota do Império. Os couraçados dos metanianos ao menos
eram visíveis.
Estávamos
prestes a abandonar uma valiosa colônia. As batalhas travadas no
setor das nebulosas gozavam de preferência. O minúsculo sistema que
se agrupava em torno da estrela Larsaf não interessava ao comando
arcônida.
Quanto a
mim, recebi do Imperador ordem para enfrentar o misterioso atacante e
tentar desvendar os segredos de sua técnica armamentista. Na atual
situação bélica, esse conhecimento poderia representar um fator
decisivo.
8
Já não
era possível manter Larsa II. Depois de três meses durante os quais
não havíamos percebido o menor sinal de um ataque, ocorreu um
assalto tão repentino que ninguém teve tempo para esboçar reação.
Encontrava-me
na sala de comando da Tosoma. Há dois minutos havíamos recebido uma
notícia inquietante pelo rádio: uma frente destrutiva invisível
aproximava-se à velocidade de 3 mil quilômetros por hora da
principal área de colonização, situada na zona equatorial. Ali
ficavam os núcleos populacionais mais importantes do planeta.
Decolei
imediatamente, a fim de assistir ao fenômeno incrível.
No
espaçoporto de Amonaris as vinte e uma naves transportadoras foram
tomadas de assalto pelos colonos apavorados. Era o mesmo caos que
vira em outros lugares, quando a vida das pessoas estava em jogo.
Ainda
dispúnhamos de algum tempo: a frente relativista ainda estava longe.
Mas não sabíamos se de repente ela não mudaria de rumo.
De
qualquer maneira, ordenei a evacuação definitiva de todos os
habitantes. Estava na hora de deixar este mundo exclusivamente a
cargo das forças armadas. Depois de cessados os ataques, não
haveria nada que impedisse uma nova colonização. Ainda mais que as
cidades e povoações levantadas com tamanho trabalho não costumavam
ser destruídas.
Estávamos
em regime de rigorosa prontidão. Os campos defensivos do couraçado
fizeram o ar úmido entrar em ebulição. Atrás de nós, as massas
de gases aquecidos preenchiam ruidosamente o vácuo formado pelo
deslocamento da nave.
Percorrendo
apenas três quilômetros por segundo, aproximamo-nos do palco dos
acontecimentos. Por uma medida de cautela, mandei que o dispositivo
de absorção de pressão fosse regulado para o grau de emergência.
Caso houvesse necessidade, poderíamos fugir com o máximo de
aceleração.
A Assor e
a Paito seguiam a nave capitania, deslocando-se a baixa altitude. Os
comandantes dos cruzadores estacionados no espaço, que no momento
obedeciam às ordens do Capitão Cerbus, anunciaram a
hiperlocalização de numerosos objetos estranhos. Estes não podiam
ser identificados e pareciam mover-se exclusivamente no setor que
havíamos identificado por meio do campo energético.
Mandei que
aguardassem e se mantivessem afastados da zona de perigo.
Através
dos receptores normais da Tosoma captamos as inúmeras mensagens
audiovisuais trocadas entre os funcionários da administração, os
colonos em fuga e os membros de meu comando, que aguardavam os
acontecimentos em Amonaris.
Nossos
homens esforçaram-se para levar os colonos em tempo até as naves de
transporte, mas os comandantes dessas declararam categóricos que
decolariam imediatamente caso a frente de desgraça se aproximasse
ainda mais.
Deixei de
preocupar-me com as condições caóticas reinantes no planeta, pois,
nada poderia fazer para corrigi-las. Minha tarefa consistia em
identificar o inimigo, enfrentá-lo e alcançar ao menos um êxito
limitado.
Depois de
um breve vôo, nossos rastreadores energéticos superdimensionais
começaram a reagir. Tinham sido montados há poucos meses numa das
bases do Império, uma vez que os metanianos haviam criado um campo
defensivo que funcionava num plano superordenado.
Conforme
era de esperar, esses instrumentos deram o sinal de alarma assim que
nos aproximamos da zona de perigo.
Tarts
transmitia suas ordens com a voz clara e controlada. As máquinas da
Tosoma pararam. Um ligeiro empuxo em sentido contrário nos
imobilizou. Os aparelhos antigravitacionais de absorção funcionavam
silenciosa e satisfatoriamente. A gigantesca esfera feita de aço de
Árcon pairava imóvel, como se nunca tivesse estado sujeita a
qualquer tipo de gravitação.
— Frente
de ondulações reconhecida oticamente — anunciou o posto de
localização. — Notamos estranhos reflexos no ar. Segundo a
interpretação positrônica a velocidade da frente é de 3.011,567
quilômetros por hora e mantém-se constante.
Bastante
nervoso, voltei a cabeça e contemplei as grandes telas de
localização ótica.
— É
fantástico! — disse Grun. Um brilho febril surgiu em seus olhos. —
Devo confessar que este fenômeno não dá a impressão de que provém
de alguma arma, Alteza.
Um tanto
zangado, lembrei-me de que essa observação deveria representar um
consolo bastante débil para os colonos que ainda se encontrassem na
área atingida. Embaixo de nós só se via a mata densa e
impenetrável.
Os grandes
amplificadores do instrumental ótico mostravam vez por outra
pequenas povoações. Não sabíamos se nas mesmas ainda existia
gente ou não.
A Paito e
a Assor indagaram pela faixa normal se já havia sido concedida
permissão para abrir fogo.
— Ainda
não — respondi. — Acho que, não adiantaria atirar a esmo para
dentro dessa parede móvel. Deixemos que se aproxime mais. Central de
tele direção, informe se as duas naves experimentais já se
encontram no ar.
— Decolaram
há dois minutos, Alteza.
— Retenham-nas
na área de Amonaris. Serão nossa última defesa. Atenção,
cruzador pesado Paito: em que ponto está a evacuação dos fugitivos
que foram descobertos?
Meu centro
de controle de imagem efetuou outra ligação. Nas telas surgiu uma
grande clareira pedregosa que se abria em meio à selva. Mais de
quinhentos homens estavam reunidos lá. Lutavam pela posse de uns
poucos planadores gravitacionais, que, com o desempenho máximo de
sua energia, mal e mal seriam capazes de escapar à frente de
dissolução.
— Estou
realizando a manobra de aproximação, Alteza — respondeu o
comandante Inkar.
Dali a
alguns segundos, vi o gigante de quinhentos metros de diâmetro
aproximar-se ruidosamente. A frente destrutiva encontrava-se a poucos
quilômetros. Dentro de dez minutos, deveria chegar ao lugar em que
nos achávamos.
De início
Inkar procurou recolher os colonos que lutavam encarniçadamente numa
pequena nave auxiliar. Ouvi pelo rádio as pragas proferidas por ele
quando a diminuta nave que se dispunha a pousar foi tomada de assalto
por homens de aspecto selvagem.
— Chame
a nave auxiliar de volta, Inkar — gritei para dentro do microfone.
— Recolha-a a bordo e suba imediatamente com o cruzador. É
preferível puxar esses malucos com um raio de tração. Talvez
causaremos algumas manchas roxas em suas peles mas evitaremos que
eles desapareçam.
A reação
de Inkar foi instantânea. A Tosoma também se encontrava pouco acima
da clareira.
O projetor
de tração da Paito expeliu um feixe bem aberto de raios reluzentes
que se dirigiu ao solo. Os colonos, que procuravam desesperadamente
um abrigo, foram atingidos e puxados para cima com tamanha violência
que fiquei preocupado com sua integridade física. Mas Inkar
certamente havia ativado um campo de absorção de impactos.
Os corpos
escuros desapareceram no interior do orifício de sucção do
cruzador. Dali a pouco ouvi a risada estrondosa de Inkar.
— Eu os
peguei — anunciou. — E com eles vieram várias coisas que não
pretendíamos carregar.
Tarts
sorriu. Olhava fixamente para as telas frontais, que mostravam
perfeitamente as massas de ar fluorescente.
Era dali
que vinha a desgraça. Parecia que as radiações, ou fosse lá o que
fosse, desciam verticalmente do espaço.
Segundo as
informações dos comandantes dos cruzadores, desta vez o campo
relativista estava atingindo todo o hemisfério norte do planeta.
— Estamos
na área fronteiriça de uma zona cósmica — disse Grun de repente.
Ele já
não estava mais no interior de seu posto de cálculos, fato que
apenas agora eu notara.
— Muito
interessante! — respondi em tom furioso.
Grun não
reagiu à minha observação e prosseguiu:
— O
fenômeno ao qual estamos assistindo só pode consistir numa
superposição do universo normal por forças instáveis, que estão
em constante mutação e são de ordem superior. Dali se originam os
efeitos extraordinários. Os seres que vivem nessa zona relativista
aproveitam a situação para...
— Para
fazer o quê? — interrompi-o. — Para roubar gente e animais? Para
que lhes poderia servir isso? Se destruíssem instalações
industriais, desviassem naves ou se apoderassem de outros bens
valiosos, ainda poderia descobrir uma finalidade naquilo. Mas da
forma como estão as coisas não vejo nenhuma finalidade, a não ser
que a mesma consista em destruir a vida inteligente de nosso
Universo.
Grun
desligou. De seu rosto depreendia-se que não sabia mais o que dizer.
Era bem possível que aqueles outros seres agissem de acordo com uma
lógica completamente estranha à nossa espécie. Nenhum de nós
teria tido a idéia de roubar indivíduos pensantes. Via naquilo um
procedimento completamente desarrazoado.
A situação
de impotência em que me encontrava fez com que a cólera se
apoderasse de mim. Estávamos lutando contra sombras.
Dali a dez
segundos dei ordem para abrir fogo. Enquanto aceleramos rapidamente,
adaptando a velocidade de nossa nave à do campo que avançava
progressivamente, disparamos com todas as armas que poderíamos
utilizar numa situação como aquela.
Tarts fez
entrar em ação em primeiro lugar os canhões de impulsos, que
produziam efeitos térmicos. A atmosfera do planeta selvático
começou a ferver sob a ação dos feixes escaldantes de raios
violetas produzidos por intensas reações nucleares. O trovejar
fortíssimo sufocava qualquer outra impressão dos sentidos.
Atirávamos
na direção da “parede”
tremeluzente como se tivéssemos que destruir num só golpe algumas
grandes naves que nos atacassem.
Os canhões
de desintegração que destruíam as estruturas moleculares não
provocaram tanto ruído. O brilho fraco de suas trajetórias
desapareceu na “parede”
chamejante.
Não nos
arriscamos a utilizar os raios neutrônicos, que tinham um efeito
mortífero sobre todas as formas de vida orgânica. Com eles
poderíamos matar nossa gente. E as bombas arcônidas ou
gravitacionais eram armas de longa distância, reservadas para os
combates no espaço. Se as utilizássemos aqui, o planeta seria
transformado num sol incandescente.
Por isso
dependíamos exclusivamente dos canhões de impulsos, cujo bafo
atômico desencadeou um verdadeiro inferno naquele ar denso.
Sempre que
as trilhas energéticas de boa grossura atingiam a parede móvel,
tinha-se a impressão de que alguma coisa as devorava de repente. Ao
que parecia atravessavam a “parede”,
ou eram absorvidas de forma tão completa que se apagavam de um
instante para outro. Já não se distinguia a paisagem pantanosa do
planeta atrás da “parede”
tremeluzente. A luz sofreu distorções, e nossos rastreadores não
acusavam mais nada.
Os
hiperlocalizadores apenas registravam a presença de uma unidade
energética semelhante às nossas, mas isso não constituía novidade
para nós.
Terríveis
tormentas começaram a formar-se. Os vapores supercondensados da
atmosfera antes tão úmida, mas agora por demais aquecida,
procuravam desesperadamente uma saída. Mandei suspender o fogo.
Coloquei o
microfone de comando diante dos lábios e disse:
— Chefe
da esquadrilha para todos. Suspender fogo. Dar partida às naves e
seguir a capitania. O destino será a capital. Vamos protegê-la na
medida do possível, daremos cobertura às naves cargueiras, para que
não fiquem expostas a eventuais ataques vindos do espaço, e por
último utilizaremos os dois cruzadores experimentais. Aguardo
confirmação.
O trovejar
cessou. Graças à habilidade de Tarts, a Tosoma acelerou com tamanha
rapidez que o ar de Larsa II voltou a entrar em incandescência. Os
dois cruzadores mantinham-se alguns quilômetros ao sul e ao norte da
nave capitania. O campo relativista tremeluzente não se detivera
diante de nosso bombardeio.
Não
sabíamos se os seres que viviam no mesmo haviam sido feridos ou até
mortos. Disparáramos cegamente na direção de uma forma de energia
que não poderia ser simplesmente da quinta dimensão.
A “parede”
passava por cima do planeta. Sua velocidade continuava inalterada.
No momento
em que as máquinas rugiram fortemente perto de Amonaris, a fim de
imobilizar a nave, ainda dispúnhamos de cerca de trinta minutos. O
Capitão Cerbus, comandante temporário do grupo de cruzadores,
transmitia notícias inquietantes.
Ao que
parecia, não existia mais nada no espaço planetário do sol amarelo
que não fosse submetido gradativamente à influência daquelas
forças misteriosas.
Não havia
dúvida de que os planetas em oposição ao de número dois estavam
sendo assolados pela mesma desgraça. A única diferença era que
nesses não havia qualquer forma de vida inteligente.
Fiquei
aliviado ao lembrar-me de que o terceiro planeta se encontrava
exatamente do lado oposto do sol. Face a isso, naquele momento, nada
poderia acontecer aos homens que se encontravam em Atlântida.
No
espaçoporto de Amonaris só havia três naves cargueiras. As outras
já tinham decolado. O planeta estava sendo evacuado apressadamente.
Aqueles
que não obedeceram prontamente às instruções de evacuação sem
dúvida foram destruídos.
Quando as
naves cargueiras se precipitaram para o ar revolto, no qual rugiam
furiosas tormentas, a luminosidade suave da frente de ondulações já
podia ser vista a olho nu.
Inkar
recolheu mais algumas pessoas que corriam como loucos sobre o
espaçoporto deserto e faziam gestos de súplica para o alto.
Então
chegou a hora. Mandei que Grun com sua equipe comparecesse à sala de
comando da nave capitania e ordenei que observasse os fenômenos que
fossem surgindo em telas especialmente ampliadas.
Os
cruzadores Titsina e Volop, transformados em naves teleguiadas por
meio de um trabalho insano, mantinham-se imóveis acima da área
ampla do espaçoporto. Seus propulsores readaptados serviriam, com
exceção de uma unidade, de armas contra os desconhecidos. Tudo
dependia de descobrir o ponto fraco do inimigo.
Os
engenheiros de teledireção achavam-se sentados na sala de
localização. As indicações fornecidas pelos instrumentos dos
cruzadores estavam sendo transmitidas sem maiores problemas.
Aguardei
até que a frente se encontrasse a apenas quarenta quilômetros e
mandei abrir fogo.
Grun
inclinou para trás sua poltrona, a fim de ter uma visão melhor das
gigantescas telas.
Dos
propulsores das naves teleguiadas saíram as ondas de impulsos quase
invisíveis, que se deslocavam num espaço de grau superior. O
caráter energético mais elevado das mesmas resultava de uma
transformação total realizada pelos gigantescos conversores.
Sua
velocidade era idêntica à da luz. A matéria comum só era atacada
por essas ondas quando uma nave decolava ou se preparava para pousar,
com os propulsores trabalhando a toda potência.
Notei um
relampejo curto e ofuscante, quando as ondas de impulsos atingiram a
“parede”
relativista.
Grun
soltou um grito exaltado. Saltei de minha poltrona para contemplar
melhor o estranho fenômeno.
— Estão
rompendo a “parede”!
— berrou Tarts. — Estão rompendo! — voltava a gritar
constantemente.
De repente
ouviu-se uma gritaria no equipamento de intercomunicação do
couraçado. Parecia que os doentes de alguns hospícios haviam sido
transferidos para lá.
Também
gritei. Um peso terrível parecia cair de minha mente.
Nos pontos
em que as ondas de impulsos reunidas em feixes estreitos atingiam a
gigantesca abóbada energética, esta desmoronava.
De súbito
surgiram grandes vazios perfeitamente delimitados. E numa fração de
segundo se transformaram em abismos sombrios. A muralha começou a
vacilar, e tive a impressão de que sofria um ligeiro desvio na sua
trajetória.
Nos vazios
negros não se via nada. Apenas as bordas dos orifícios de
penetração flamejavam num fogo-fátuo violeta, que trazia reações
violentas para nossos rastreadores estruturais.
Nosso
bombardeio de impulsos havia provocado verdadeiros efeitos de
transição.
Dali a
alguns segundos nos aproximamos apressadamente. A frente de
ondulações rompida mal diminuíra a velocidade.
As
aberturas provocadas pelos disparos se deslocaram juntamente com a
muralha. Antes que a Tosoma arrancasse com as máquinas uivantes,
olhei para os cruzadores perfeitamente visíveis.
O empuxo
do propulsor que lhes sobrava bastava para retirá-los facilmente da
zona de perigo. Quando nos encontrávamos a cinqüenta quilômetros
da frente do desastre, gritei para pedir silêncio. As exclamações
de júbilo da tripulação cessaram.
— Comandante
da esquadrilha para a estação de teledireção. Deixem as popas dos
cruzadores balançar. Espalhem o bombardeio lentamente pela muralha e
prestem atenção ao limite inferior dos efeitos visíveis. Regulem
os balanceios de acordo com esse limite. Desligo.
Os
especialistas altamente competentes realizaram um trabalho rápido e
preciso. A Titsina começou a vibrar. Como se estivesse numa manobra,
a velha nave girou em torno de seu eixo longitudinal. Ainda não
tinha formato esférico. Por isso podíamos observar perfeitamente as
radiações por ela emitidas. A Volop acompanhou a manobra.
De repente
uma terrível tormenta energética desabou sob a ação destrutiva
dos feixes de impulsos.
Assistimos
à formação de crateras negras rodeadas de relâmpagos. Estas
sofreram a superposição de formações normais, até que as novas
superfícies de ondas também fossem atingidas.
A muralha
parou até onde alcançava minha vista. Mas à nossa direita e
esquerda continuava a avançar. Olhávamos para dentro de um abismo
sombrio. De resto não aconteceu mais nada.
Prossegui
por mais algumas horas com este jogo, até que a metade do planeta
tivesse sido totalmente coberta pela muralha. Dali em diante não
adiantaria nada se continuássemos a cavar túneis escuros e nos
alegrássemos com a luminescência surgida nas bordas.
Realizamos
uma rápida partida vertical e rompemos a atmosfera do segundo
planeta, agitada pela fúria das tormentas. Quando atingimos o
espaço, vimos que o sol, antes amarelo, brilhava num vermelho
intenso.
Só agora
notamos que o vazio salpicado de estrelas deixara de existir. Seu
lugar estava sendo ocupado por concentrações energéticas em forma
de funil, que emitiam uma luminosidade vermelha. A luz das estrelas
distantes estava encoberta. Dessa forma podíamos determinar com
precisão as dimensões dos funis. A parte mais aguda voltava-se para
baixo, terminando na atmosfera de Larsa II, entrecortada por
relâmpagos.
Acabáramos
de criar alguma coisa com a qual nem sequer sonhávamos!
Perplexo,
olhei para as telas, até que o chamado insistente de um oficial da
equipe de rádio atingisse minha consciência.
Livrei-me
do encanto que pesava sobre mim. Havíamos conseguido coisas
tremendas. Namorei a idéia de adaptar também os propulsores dos
cruzadores modernos e parte dos pesados conversores de impulsos de
meu couraçado. Se procedêssemos assim, a situação se modificaria
por completo quando nos defrontássemos novamente com uma nave
invisível.
Tarts
começou a gritar. Seus olhos exprimiam um pavor incontido.
— O que
houve? — perguntei.
Naquele
instante, a voz monótona e mecânica do robô do rastreador começou
a ranger:
— Grupo
de cruzadores não responde mais, eco energético negativo, o Capitão
Cerbus mantém-se em silêncio. Não realizamos qualquer localização
de objetos mecânicos num raio de três anos-luz. O grupo deve ser
dado como desaparecido. Tempo seis-seis-cinco, padrão. Fim da
mensagem.
A voz do
robô silenciou. Olhei em torno como um louco. Tarts acomodou-se
devagar em seu assento de comando e escondeu o rosto nas mãos. Grun
gemia.
Não
consegui dizer uma palavra. Minha mente se recusava a ver no relato
insensível do robô a descrição de um fato real. Todos os meus
cruzadores teriam desaparecido?
Ouvi um
grito estridente. Partira de mim mesmo?
O oficial
de rádio que estava de plantão entrou correndo. Limitei-me a
fitá-lo.
Só então
me dei conta que fora a voz dele que eu ouvira no meu subconsciente.
Já fizera
aquilo que eu pretendia ordenar naquele momento. Era a pessoa que
certamente notara antes de qualquer outra que o chefe do grupo de
cruzadores não respondia mais.
Tive a
impressão de que uma mão invisível me apertava a garganta. Ninguém
dizia uma palavra na grande sala de comando da Tosoma, que se
afastava vertiginosamente. As telas de localização energética
mostravam apenas quatro pontos verdes. Eram os dois cruzadores
pesados e as naves adaptadas usadas como armas. Das quarenta e cinco
unidades de minha esquadrilha restavam apenas cinco.
— Volte
a chamar — disse, falando com dificuldade. — Vamos, ande
depressa. Tarts, isso não pode ser verdade. Em sua última mensagem
Cerbus disse que se mantinha numa boa distância da frente de
ondulações bem visíveis. Como poderia ter desaparecido de repente?
Mal notei
a presença dos médicos apressados, cujos robôs enfermeiros
carregaram o físico e matemático Grun, que desmaiara. O choque
derrubara aquele homem velho.
— A
mensagem foi recebida antes que as naves transformadas em armas
abrissem fogo — disse o comandante, falando com dificuldade. —
Atlan, o fato é que o grupo de cruzadores desapareceu. No lugar em
que devia encontrar-se na posição indicada, formado em cunha,
abre-se um desses funis. Seu diâmetro é de aproximadamente vinte
milhões de quilômetros. E foi aí que oi grupo de cruzadores de
Cerbus entrou. E uma coisa horrível. Não pode responder mais.
Um dos
físicos da equipe de Grun confirmou a suposição. Os resultados das
primeiras medições estavam chegando.
De
qualquer maneira, mandei desacelerar imediatamente com a potência
máxima das máquinas e determinei que as unidades pesadas seguissem
uma rota de busca. Durante três horas chamamos ininterruptamente
pelo rádio e revistamos o espaço interplanetário em busca de
destroços à deriva. Depois compreendi que qualquer esperança seria
vã.
Senti-me
“queimado”
por dentro. Minha garganta recusou-se a obedecer e meu cérebro
parecia ter sido comprimido por tenazes invisíveis.
O que
acabara de acontecer era tão terrível que nem se podia refletir a
respeito.
Tarts e um
médico levaram-me para fora da sala de comando. Já sabia o que
havíamos conseguido com nosso bombardeio de impulsos.
Provavelmente
foi apenas por um acaso tolo que o grupo compacto de cruzadores se
encontrava justamente no setor espacial em que a frente de ondulações
foi rompida e explodiu.
Minha
única esperança era que os homens ainda estivessem vivos. Todavia,
o fato de não conseguirmos encontrar as naves a apagava.
Era
provavelmente a primeira vez que o campo relativista também havia
absorvido matéria inorgânica.
Quase fora
de mim, dei imediatamente ordem para que nos dirigíssemos ao
terceiro planeta e pousássemos na base de Atlântida.
Ainda bem
que dois anos antes liberara esse belo mundo para a colonização. O
segundo astro que gravitava em torno da estrela Larsaf tornara-se
totalmente inútil para mim. Parecia estar coberto constantemente
pela zona superdimensional.
De
qualquer maneira nosso grande centro de computação equipado com
armas pesadas ficara lá. Talvez numa época posterior ainda
pudéssemos fazer alguma coisa com o centro.
Pedi que
meus acompanhantes se retirassem do camarote e deitei no leito
pneumático. Precisei de toda minha força de vontade para recuperar
um pouco do meu autocontrole.
Os rostos
dos comandantes de meus cruzadores foram desfilando diante de mim.
Foram homens maravilhosos; homens de que tanto precisaríamos na
guerra desesperada que estávamos travando contra os respiradores de
metano.
Dali a
quatro horas, pousamos no espaçoporto muito bem instalado de
Atlântida. O Capitão Feltif, meu engenheiro de planejamento,
recebeu-me em silêncio. Também em silêncio, coloquei a mão sobre
seu ombro, fiz um gesto de cumprimento aos homens de sua pequena
guarda pessoal e olhei em torno.
Altópolis,
o novo centro desse planeta colonial, já se transformara numa
verdadeira cidade. Era espantoso de ver o que Feltif e os cinqüenta
mil imigrantes zakrebenses haviam realizado em tão pouco tempo
naquele continente pequeno.
Mais ao
longe viam-se alguns nativos. Usavam trajes coloridos enfeitados por
conchas; nas cabeleiras amarradas havia penas reluzentes.
Aproximaram-se
de joelhos, levantaram as mãos e estenderam diversos presentes à
nossa frente.
Alegrei-me
ao ver seus rostos francos e seus olhos brilhantes, em que já agora
reluzia uma expressão de inteligência. Estes selvagens ainda
poderiam transformar-se numa raça bem dotada.
O Capitão
Feltif exercia as funções de governador militar. Colocou uma
residência à minha disposição e apresentou filmes que provavam
suas realizações.
Ainda
dispunha de duas naves de grande porte, que afundara nas profundezas
do oceano. Bastaria uma mensagem de rádio para fazê-las emergir.
No dia
seguinte ofereci um relato minucioso dos acontecimentos. Os colonos
prestaram atenção às minhas palavras.
Feltif
ainda me mostrou as instalações de defesa, antes que me convidasse
para uma viagem estranha. Seu sorriso misterioso atiçou minha
curiosidade.
Senti-me
um tanto perplexo quando me levou ao porto, no qual se via, além de
primitivos veleiros e barcos a remo, um navio-desembarque da frota
imperial. O modelo servia para missões difíceis que tivessem de ser
realizadas em planetas aquáticos. Eram capazes de voar e mergulhar,
mas não podiam deslocar-se no espaço cósmico.
Embarcamos.
O campo energético reluzente afastava as massas de água do casco
elíptico do veículo.
A uns cem
metros de profundidade vi à luz forte dos holofotes um grande
planalto submarino, sobre o qual se erguia uma semi-esfera feita do
melhor aço arcônida. Era extensa e poderia oferecer refúgio a
grande número de colonos.
— É
nosso abrigo de emergência — explicou o engenheiro em tom
objetivo. — Seu diâmetro na parte em que toca o chão é de cento
e vinte metros, e a altura é pouco superior a sessenta metros.
Suporta qualquer pressão da água e está equipada com todas as
máquinas e instrumentos de que tivemos de nos privar lá em cima, ou
melhor, que tivemos de evacuar de Larsa III. A abóbada dispõe de
uma guarnição de robôs, de grande provisão de alimentos
concentrados e enormes comportas.
“A rocha
natural em sua base foi escavada numa profundidade de cem metros e
revestida com aço de Árcon sob alta pressão. Os cálculos
estáticos provam que até mesmo pressões extremas causadas por
eventuais deslocamentos do solo poderão ser absorvidas. O pedestal
revestido também de aço arcônida foi soldado na semi-esfera. A
rigor, trata-se de uma torre embutida na rocha, da qual só se vê a
cobertura semi-esférica. Se necessário, pode abrigar dez mil
pessoas.”
— Você
e seus soldados terão de cuidar de cinqüenta mil colonos —
adverti em tom insistente. — O que pretende fazer com aquelas
famílias?
— Estou
preparando um programa especial de treinamento, Alteza. Trinta mil
deles serão levados aos dois continentes do hemisfério sul. No
deserto oriental e nas montanhas do ocidente existem culturas nativas
precoces. Mandei construir fortalezas de pedras e silos em forma de
pirâmide; o trabalho está sendo realizado por robôs.
“Se
aparecer uma frente de ondulações, dificilmente atingirá todo o
planeta ao mesmo tempo. Um sistema de alerta foi criado. Face à
velocidade de deslocamento da zona mortífera até aqui constatada,
não deverá ser difícil fugir em veículos aéreos. E neste ponto
estamos muito bem equipados. Nossos emissários criarão novas
colônias ao leste e ao oeste. O que nos falta é apenas o apoio de
unidades da frota espacial.”
Enquanto o
veículo submarino entrava numa grande comporta aquática e
escutávamos o som cantante das potentes bombas, refleti sobre a
sugestão velada que Feltif acabara de formular.
Evidentemente
gostaria que permanecêssemos por ali. Senti o ódio apossar-se de
mim. E esse ódio era dirigido contra os desconhecidos que eram
responsáveis pelo desaparecimento dos melhores elementos de minha
esquadrilha.
Naqueles
minutos decidi fazer uso dos poderes que me haviam sido concedidos e
ficar em Atlântida com as unidades restantes da esquadrilha. O
armamento poderia ser aperfeiçoado. Talvez conseguíssemos mesmo
desvendar o mistério da frente de ondulações e extrair do mesmo
algum elemento que nos permitisse derrotar os metanianos da noite
para o dia.
Mas, se
quisesse ser sincero comigo mesmo, teria de admitir que eram as
auto-recriminações e a angústia mental que me levaram a permanecer
em Atlântida. As ordens recebidas do Imperador proporcionavam uma
boa cobertura para essa resolução. Afinal, tinha a incumbência de
desvendar o mistério.
Depois de
uma caminhada demorada pela abóbada submarina muito bem equipada, o
dispositivo automático positronizado foi familiarizado com minha
freqüência individual de vibrações orgânicas.
Dali em
diante poderia penetrar no envoltório de aço sempre que o
desejasse. Além de mim, só Feltif e mais dois oficiais estavam em
condições de remover as mortíferas barreiras energéticas.
Depois da
viagem submarina deleitei-me com os raios benfazejos do sol
acalentador. Voltara a emitir a mesma luz branco-amarelenta de
sempre. A cor vermelha não durou mais que dois dias.
A mensagem
de rádio que dirigi ao Grande Conselho nem sequer provocou qualquer
lástima. Paciência; os cruzadores haviam sido destruídos. Percebi
que as coisas deviam andar muito ruins para o Império, já que a
perda de quarenta naves era aceita com tamanha indiferença.
Era o
prenuncio da guerra total que iria ter início, e na qual a única
coisa que importava eram os números. A indústria arcônida
recuperaria a perda dentro de meio dia. No terceiro planeta do
Império, até mesmo unidades pesadas eram montadas e controladas
exclusivamente por robôs. A cada doze horas se concluía um
couraçado da classe Império.
O batismo
das novas unidades ficava a cargo dos respectivos comandantes. Era
por isso que os nomes costumavam repetir-se. Apenas se acrescentava
um número à designação, a fim de que todo mundo soubesse quantas
naves com o nome Árcon ou Posono andavam por ali.
Estava
decidido a permanecer ali e procurar com toda calma descobrir uma
nova arma. Não tirava da cabeça a idéia do canhão de conversão,
de que Grun falara no início. Se conseguíssemos criar um campo de
curvatura de foco controlado situado exatamente no alvo que se
tivesse em mira, o resultado seria uma desmaterialização total dos
objetos atingidos. Conforme as circunstâncias, poderia ser possível
que através de um controle especial de rastreamento se conseguisse
fazer com que apenas a matéria orgânica fosse atingida.
As
possibilidades de pesquisa com que poderíamos contar em Atlântida
eram melhores que as do nosso mundo natal. Afinal, havíamos
experimentado na própria carne os efeitos de armas desse tipo.
Dali a dez
dias expedi e assinei um aviso ao Imperador com as palavras Príncipe
de Cristal. Dessa forma, poderia ter certeza de que meu tio iria
receber a mensagem.
Dali a
algumas horas as hiperantenas direcionais da Tosoma captaram a
resposta.
Seu teor
foi o seguinte:
— Perda
dos cruzadores não assume maior importância. Nova arma é
extremamente importante. Permaneça em Atlântida e lance mão de
todos os recursos para solucionar o mistério do campo relativista.
Foi a
única comunicação que recebi. Entrei em contato com os técnicos e
cientistas de minhas naves e da colônia.
Grun já
se recuperara. Foi o dirigente da equipe de pesquisas que num planeta
situado a 34 mil anos-luz de Árcon dava início a um trabalho que
mais tarde se revelaria bastante útil ao Império.
9
Cerca de
dois meses se haviam passado. Inkar e Taneth realizavam
constantemente viagens bastante perigosas com seus cruzadores
pesados, a fim de retirar dos depósitos bem supridos do segundo
planeta tudo que faltasse em Atlântida.
Minha nave
capitania era mantida em posição de defesa. Três dos gigantescos
propulsores da zona equatorial haviam sido transformados em armas. O
mesmo fora feito com uma das máquinas de cada cruzador pesado.
Três
semanas atrás conseguimos registrar nosso primeiro êxito. Naquela
oportunidade nossos hiper-rastreadores registraram a presença de um
objeto desconhecido. No momento em que o atingimos por meio de nossa
pontaria automática, explodiu tão depressa sob o fogo concentrado
de nossas armas que mal conseguimos acompanhar o fenômeno.
Os canhões
de ondas de impulsos abriram um enorme funil no campo relativista.
Logo após aconteceu uma coisa que representava uma indicação
importante para nossos peritos.
A nave
localizada pelos instrumentos, que era totalmente invisível, foi
expelida pelas bordas do túnel incandescente; até parecia que uma
mão de gigante a havia arrastado. Vimos o objeto negro e comprido
com tamanha nitidez que até parecia que nunca se encontrara numa
outra dimensão. Tivemos a impressão de que seus movimentos eram
extremamente lentos e pesados. A explosão só se verificou depois
que o veículo espacial se tornou visível.
Ameacei o
apressado oficial de armas de colocá-lo diante de um tribunal
militar. Era claro que pretendia capturar o desconhecido, mas depois
da destruição prematura isso se tornara impossível.
Dali em
diante reinou a paz. Muito embora os observatórios de Atlântida
tivessem registrado duas rupturas espaciais localizadas na área da
estrela Larsaf, não apareceu mais nada que se parecesse com um
veículo dos desconhecidos.
— Não
se arriscam mais a vir para cá — murmurou Tarts em tom zangado.
Eu fazia
votos de que não tivesse razão. Queria saber com quem estávamos
lidando.
*
* *
Exatamente
vinte e quatro dias depois da destruição da longa nave espacial em
forma de bastão, decolei com meu pequeno grupo de naves.
Aproximamo-nos com uma extrema cautela do segundo planeta.
Pretendíamos instalar uma unidade de comando já pronta no sistema
de registro do computador instalado em Larsa II.
Era um
medidor de quinta dimensão, regulado exatamente às estranhas
vibrações da frente de ondulações. Assim que houvesse uma
passagem, seríamos informados imediatamente em Atlântida.
Sentia-me
muito preocupado, já que os planetas se aproximavam cada vez mais, à
medida que se deslocavam em suas órbitas. A oposição total dos
mesmos era iminente.
Se
houvesse um ataque nesse espaço de tempo, desta vez os colonos de
Atlântida não escapariam.
Já
mandara os nativos às fortalezas previamente preparadas.
Distribuíra-os de forma tal que nem todos pudessem ser seqüestrados.
Para nossa tranqüilidade, continuávamos a supor tratar-se de um
rapto de indivíduos pensantes.
De certo
tempo para cá os dois cruzadores teleguiados eram controlados por
uma nave auxiliar do couraçado. Já não podíamos assumir o risco
de aproximar-nos do inimigo com as três unidades aptas para o
combate que ainda nos restavam. E, de qualquer maneira, a
manobrabilidade de nossas naves fora afetada pela modificação de
alguns propulsores.
Mandei que
os cruzadores pesados Paito e Assor permanecessem no espaço. Depois
de constatarmos que no momento tudo estava calmo no segundo planeta,
fiz a Tosoma avançar velozmente para a densa atmosfera. Irradiei o
sinal codificado para o grande centro de computação do planeta e me
preparei para pousar junto à imensa cadeia de montanhas.
A abóbada
energética que protegia o computador desfez-se. Meus técnicos já
estavam agachados sobre a grande plataforma antigravitacional. Nela
se encontrava preso o novo elemento a ser introduzido no computador.
Se tudo desse certo, a montagem poderia ser concluída dentro de umas
dez horas.
O oficial
encarregado das comportas abriu as grandes escotilhas de dois
batentes situadas acima da protuberância equatorial do couraçado. O
planador saiu e, deslocando-se em alta velocidade, desapareceu no ar
nevoento.
As armas
pesadas do computador pareciam ameaçar o céu coberto de densas
nuvens. Normalmente a instalação automática estaria em condições
de rechaçar um ataque comum. De qualquer maneira, não fora
danificado com a passagem das frentes de ondulações.
Dali a
oito horas aconteceu uma coisa que de início interpretei como um
ataque de superposição. Vi que o velho Tarts também levantou a
cabeça e os outros homens que se encontravam na sala de comando
pareciam aguçar os ouvidos. Concluí não ser o único que ouvira o
ruído.
Tarts
fitou-me perplexo. Muito lentamente tirou o dedo de cima do botão de
alarma.
— Alguém
o chama! — disse em tom incrédulo.
— Sim;
já sei — respondi, esticando as palavras.
Olhei
atentamente em torno. O que seria isso?
Mais uma
vez meu nome foi pronunciado; e houve uma solicitação que quase
chegava a soar como uma ordem.
Um jovem
oficial fez o registro escrito da mensagem transmitida de forma tão
estranha. Eram poucas palavras, que davam mostras de uma intenção
que não poderia ser identificada.
Chamo
Atlan, o comandante dos arcônidas. Minha identidade não é a mesma
do desconhecido vindo da zona temporal. Decole imediatamente com uma
pequena nave auxiliar e compareça no interior de meu corpo.
Aguardarei por duas horas. Se não vier, o prejuízo será seu e de
seu povo. Garanto que nada lhe acontecerá durante a visita ao meu
corpo. Localize-me.
Meus
oficiais fitaram-me com os rostos tensos.
— Que
loucura! — observou Tarts. — Qual será o truque? É alguém que
deseja apoderar-se de você, Atlan.
Levantei-me
lentamente da poltrona de combate. Uma tela iluminou-se. O Capitão
Zerg, nosso oficial da equipe psicológica, surgiu e pediu permissão
para falar.
— Fale!
— disse, calmo por fora e tremendo por dentro.
— Trata-se
de paravibrações, Alteza — explicou. — São semelhantes aos
impulsos produzidos pelos nossos projetores mentais; apenas, são
muito mais potentes. Trata-se de uma transmissão do conteúdo da
consciência realizada no plano puramente espiritual, que costuma ser
utilizada por algumas raças telepáticas. Nossa raça não possui
essa capacidade, mas os resultados das pesquisas feitas nesse terreno
são inequívocos.
— Qual é
sua opinião sobre o conteúdo da mensagem? — indaguei.
— Não
tenho uma opinião bem formada, Alteza. Mas tenho quase certeza de
que a mensagem não provém das criaturas das sombras.
O operador
de rádio transferiu a mensagem que agora estava sendo recebida em
meu posto de combate. Era o comandante Inkar, que me chamava do
espaço. Em seus olhos via-se um brilho nervoso.
— Inkar
chamando chefe da esquadrilha — disse em tom apressado. — Na
Tosoma também foi captada uma estranha solicitação?
— Nós a
ouvimos — confirmei. — Você localizou o ser que quer entrar em
comunicação conosco?
— Localizei-o
tanto pelos instrumentos de medida como através dos dispositivos
óticos — respondeu Inkar. — O teor metálico é muito elevado,
mas não se trata de aço de Árcon. O objeto tem a aparência de uma
nave espacial, com a única diferença de que seu formato exterior é
assimétrico. Parece um objeto em forma de cubo com numerosas
protuberâncias irregularmente distribuídas por sua superfície. Por
enquanto prefiro não atacar.
Confirmei
com um movimento indeciso. O Capitão Zerg entrou na sala de comando.
Tinha na mão algumas folhas de plástico em que estavam registrados
os resultados de certas medições.
— Tem
alguma instrução específica, Alteza? — perguntou Inkar em tom
impaciente.
— Qual é
a distância do objeto? — perguntei.
— O
mesmo se mantém imóvel, à distância de 1,5467 milhões de
quilômetros. Portanto, está dentro do raio de alcance de um pequeno
canhão de impulsos. Isso me leva a supor que não se trata de um ser
que queira atacar-nos. Ninguém seria louco a ponto de manter-se
imóvel à frente dos canhões de um cruzador pesado do Império.
— É
verdade! — confirmou Tarts, sem que ninguém tivesse pedido sua
opinião.
— A
Paito e a Assor se manterão numa rota de observação — ordenei. —
Não façam nada, se o desconhecido não demonstrar intenções
hostis. Subirei com uma nave de salvamento da Tosoma. Confirme.
Desligo.
O Capitão
Zerg interveio na palestra. Manteve-se em atitude respeitosa diante
de mim e do velho comandante.
— Alteza,
na minha opinião é impossível que as criaturas das sombras
conheçam seu nome e saibam que pertencemos a uma unidade da frota do
Grande Império. O ser que apareceu por aqui sabe perfeitamente o que
aconteceu neste sistema. Tenho uma interpretação logística. De
acordo com a mesma, o ser que temos diante de nós não pode ter a
intenção de atacar-nos.
Senti-me
vacilante. A decisão de atender à estranha solicitação e sair
espaço afora numa nave auxiliar agora parecia absurda.
— Como
vai o trabalho de nossos técnicos? — indaguei.
— Deverá
estar concluído dentro de duas horas — foi a resposta vinda do
interior do pavilhão de rocha que abrigava o computador positrônico.
Naquele
instante voltou a ser ouvida a mensagem vinda do espaço. O
desconhecido ou os desconhecidos deviam estar muito interessados num
contato.
Tarts não
disse mais nada. Ele, que sempre se mostrara preocupado com meu
bem-estar e há vários decênios servia à minha venerável família,
examinou-me atentamente.
— Está
bem; vá — disse de repente. — Sei que sente coceira nos pés.
Mas imponho uma condição. A Tosoma também deverá partir. A Assor,
comandada por Taneth, pode proteger os técnicos. Os cruzadores
pesados já não são bastante velozes para prevenir qualquer
eventualidade.
A sugestão
de Tarts deu-me a necessária segurança. A afirmação de que a
falta de meu comparecimento só poderia resultar em prejuízo de meu
povo não me saía da cabeça.
A Tosoma
rompeu o envoltório atmosférico do segundo planeta, que emitiu uma
forte luminescência. Subitamente a bola de fogo ofuscante do sol
surgiu à nossa frente. Daqui parecia bem maior que da órbita de
Atlântida.
— Pare a
nave! — gritei para Tarts que, ao que parecia, estava interessado
em aproximar-se mais algumas centenas de milhares de quilômetros.
O velho me
brindou com um olhar furioso. Mas depois um sorriso cobriu seu rosto
enrugado.
— Isso
já foi feito — respondeu. — Bem que poderia ter imaginado que
você não seguiria meu conselho.
Tarts
assumiu pessoalmente o controle do pequeno canhão de impulsos,
rigidamente montado. Estava em perfeita ordem e pronto para disparar,
da mesma forma que tudo que se encontrava a bordo da Tosoma.
— Atenção,
toda a esquadrilha — disse, falando para dentro do microfone do
hiper-rádio. — É possível que, depois de entrar na nave
desconhecida, eu não dê nenhuma notícia. Peço-lhes que não se
deixem levar pelo pânico. Meu traje espacial está equipado com um
projetor de campo defensivo, que me protegerá se algo acontecer.
Está preparada, Tosoma?
Estavam
preparados. Ouvi o chiado das bombas de sucção e as escotilhas da
comporta se abriram.
Meus
nervos começaram a vibrar quando acoplei o raio direcional do
hiper-transmissor com o rastreador de eco. Assim que surgiu o sinal
verde, ajeitei o microfone diante dos lábios. Ainda não colocara o
capacete espacial sobre a cabeça.
— Almirante
Atlan, chefe da 132a
Esquadrilha Imperial de Combate chamando a nave espacial
desconhecida. Recebi sua mensagem e aproximo-me sozinho. Chegarei
dentro de dez minutos. Desligo.
Fiquei
curioso para ouvir a resposta. A mesma veio nos termos que esperara
no meu íntimo.
— Já
o localizei. Desligue seu propulsor. Você será abrigado são e
salvo no interior de meu corpo.
A
expressão absurda voltara a ser usada. Era claro que entraria no
corpo da nave, mas evidentemente este não correspondia ao do
respectivo comandante. Aquela gente parecia usar conceitos bem
estranhos.
No momento
em que obedeci à ordem e desliguei as máquinas, minha tensão
cresceu. Dali a alguns minutos senti uma tração suave. Logo após
isso o costado escuro da nave surgiu à minha frente.
Apressei-me
em explicar os acontecimentos aos meus homens, que nessa hora já
deviam estar preocupados.
— É uma
loucura! — disse a voz de Tarts em meu receptor. Essa era sua
expressão predileta. — Não se esqueça de que é exatamente essa
a arma que estamos procurando.
Lembrava-me
perfeitamente! A idéia me viera à mente no momento em que senti a
leve tração.
Naquele
momento pus de lado todas as dúvidas que sentia face ao fenômeno
inexplicável. Passara por uma espécie de desmaterialização
dirigida. No momento em que conseguíssemos fabricar o aparelho que a
causava, a guerra contra os metanianos sofreria uma transformação
completa.
Bem à
frente de minha nave, subitamente imobilizada, surgiu uma mancha
luminosa de contornos nítidos. Era uma comporta de ar iluminada, que
se abria de forma convidativa. O comandante desconhecido não dava
mais nenhum sinal de sua presença.
Fui puxado
suavemente para dentro do recinto metálico vazio. As escotilhas
voltaram a fechar-se. O ar encheu a cabine. Foi quando veio a
mensagem:
— Providencio
uma mistura de oxigênio e hélio para você. Normalmente não existe
qualquer pressão gasosa em meu corpo.
Comecei a
espantar-me. Apavorado, movimentei a mão em direção à chave do
transmissor, mas preferi não chamar minha nave capitania. Não havia
necessidade de aumentar o nervosismo de Tarts. Qualquer tolice que
ele viesse a cometer poderia pôr tudo a perder.
Fiz o
analisador automático aspirar uma amostra de ar e aguardei. O
resultado foi fornecido dentro de quatro segundos, através de um
forte sinal verde. A atmosfera artificial era respirável.
Abri minha
cabine e desci. A potente arma de impulsos que trazia no cinto me
dava uma sensação reconfortante. Caminhei cautelosamente em direção
à escotilha interna; por instinto e experiência, compensava a
gravitação menos intensa por meio de movimentos comedidos.
Esperava
encontrar algumas pessoas, mas não vi ninguém. O corredor comprido
estava debilmente iluminado. Em toda parte ouviam-se zumbidos e
chiados. Parecia que milhões de insetos construíam apressadamente o
seu ninho.
Avancei
devagar. Minha inquietação só cedeu quando voltei a ouvir a voz
vinda de dentro da nave:
— Meus
cumprimentos, Atlan. Você se encontra no interior de meu corpo.
Conheço seus pensamentos. O lugar em que você se encontra é uma
nave espacial robotizada que não leva qualquer tripulação dotada
de vida orgânica. Sou uma unidade de comando compacta, capaz de
percorrer o espaço e, se necessário, combater. Fui equipada com
todos os recursos que meu construtor julgou necessários. Dirija-se
para a esquerda.
Senti-me
chocado. Então era esta a solução do enigma! Era claro que um robô
que praticamente se identificava com a nave poderia perfeitamente
dizer que me recebia no interior de seu corpo.
Penetrei
num campo antigravitacional que exerceu uma leve tração, levando-me
para cima. Saí da abertura do poço e vi-me numa grande sala redonda
de teto abaulado.
A profusão
imensa de estranhos elementos de controle deixou-me bastante
perturbado. Naquela nave reinava uma vida puramente mecânica.
Parei no
centro da sala, pois receava entrar em contato com algum condutor de
energia. Energias imensas trabalhavam na nave, e em nenhum lugar
descobri um elemento protetor, desnecessário para um robô.
O que se
seguiu foi deveras surpreendente. Tive a impressão de que uma pessoa
que conhecia ligeiramente passara por mim, cumprimentando-me com um
ligeiro sinal!
A
gigantesca máquina não forneceu explicações satisfatórias, nem
se sentiu obrigada a responder às minhas perguntas apressadas.
Parecia que o conteúdo da comunicação fora decidido previamente, e
que não havia nada que pudesse modificá-lo.
— Recebi
ordens para entregar-lhe um microativador destinado à regeneração
contínua dos núcleos celulares. Você mesmo decidirá se quer
usá-lo segundo as prescrições, ou se prefere dispensá-lo. O
instrumento produz a suspensão do processo natural de
envelhecimento. Se você o deixar constantemente junto ao coração,
alcançará a imortalidade biológica, desde que seu organismo não
seja exposto a qualquer influência nociva vinda do exterior.
“Repito:
você se conservará eternamente jovem e sadio, mas sua imortalidade
é apenas relativa. Um acidente ou um ato de violência poderá
causar sua morte. Tire a roupa e entre no medidor. Transmitirei suas
vibrações orgânicas individuais ao ativador celular.”
A
nave-robô não forneceu outras explicações. Totalmente perplexo,
segui suas instruções e subi de pés descalços na plataforma
metálica que brilhava numa luminosidade vermelha. Um capacete de aço
desceu sobre minha cabeça. Senti a penetração um tanto dolorida
das agulhas de contato, que penetraram até a caixa craniana.
O
procedimento durou menos de dois minutos. Antes que o capacete
voltasse a levantar-se, um braço mecânico sofisticado pendurou um
pequeno objeto em forma de ovo em torno de meu pescoço. Estava preso
a uma corrente fina, mas muito forte.
Saí da
plataforma, bastante perturbado, e voltei a colocar as roupas.
Enquanto isso, não parava de formular perguntas. A resposta só veio
depois que terminei de me vestir.
— Minha
missão foi cumprida. Não posso dar resposta às suas perguntas. O
ser que me construiu está interessado em evitar a extinção da raça
arcônida. Você tem o dever de fazer por seu povo tudo que estiver
ao seu alcance. Suponha que meu construtor não julgue conveniente
que o poder sobre a Galáxia passe às mãos de seres estranhos. Por
outro lado, meu construtor não concorda em que seres pertencentes ao
segundo plano temporal penetrem em seu universo.
“Você
recebeu o ativador celular para que possa continuar a tomar as
medidas que se tornem necessárias. Conforme as circunstâncias,
poderão surgir acontecimentos dos quais resulte a aceleração do
processo de envelhecimento. Você também foi equipado para esta
eventualidade. Meu construtor não está autorizado a intervir
diretamente. Por isso ele lhe oferece a oportunidade de agir segundo
seus desígnios.”
Com isso a
palestra mais estranha que já mantive em toda minha vida havia
chegado ao fim. Ouvira coisas com as quais não sabia fazer nada. A
máquina voltou a empurrar-me para o poço do elevador
antigravitacional, como se fosse um simples boneco.
Assim que
cheguei ao pavimento de baixo, o pânico que começou a apossar-se de
mim me fez correr. Naquele instante fui detido por um braço mecânico
que saiu subitamente da parede.
Recuei,
procurei desesperadamente um lugar em que pudesse abrigar-me e saquei
a arma.
Ouvi uma
risadinha, que dentro de poucos segundos se transformou num berreiro
que me obrigou a comprimir a cabeça dolorida com ambas as mãos.
A
gargalhada voltou a crescer, mas logo cessou.
A voz do
robô voltou a ser ouvida.
— Recebi
instruções de entregar-lhe os planos de uma arma que seus
cientistas chamam de canhão de conversão. Trata-se de um aparelho
capaz de produzir a qualquer distância um campo de condensação
instável da quinta dimensão. Assim que o emissor faz cessar o
efeito do condensador artificial, ocorre a desmaterialização dos
objetos que se encontrem no respectivo campo. Os dados foram
examinados em fio magnético. Poderão ser utilizados imediatamente.
Utilizaram-se símbolos matemáticos arcônidas. Desejo-lhe muitas
felicidades.
Com estas
palavras fui dispensado. Tirei da mão metálica, que por pouco não
me fizera praticar um ato irrefletido, um rolo metálico, cujo
comprimento não ultrapassava de uma mão humana, e guardei o mesmo
nas minhas vestes.
Comecei a
sentir uma corrente revitalizadora que atravessava meu organismo.
Quando me
vi novamente na minha nave, o cansaço e o nervosismo haviam
desaparecido. Tive a impressão de ter recebido uma injeção de
energia vital. O transporte de volta para a Tosoma também foi
realizado por meio de uma minitransição.
Subi a
bordo, esquivei-me das pessoas curiosas que me enchiam de perguntas e
dirigi-me a meu camarote. Tarts anunciou pela intercomunicação
audiovisual que a nave desconhecida desaparecera de repente.
— Afinal,
o que houve? — perguntou. — Fale logo!
Olhei para
a pequena cápsula. Seu conteúdo consistia em pequenas espulas de
fio audiovisual, do tipo usado por nós. Ao que parecia, em meu
cérebro não surgia nenhum pensamento lúcido.
— Os
técnicos já terminaram o trabalho? — perguntei.
— Se
terminaram o trabalho? — repetiu Tarts em tom de espanto. A
expressão de seu rosto despertou minha mente. — É claro que estão
prontos. Pois esperamos por você há dezoito horas.
— Dezoito
horas? — perguntei num gemido.
— Logo
imaginei que alguma coisa não estava dando certo — disse o
comandante em tom furioso. — Você chamava de trinta em trinta
minutos, para avisar que a palestra ainda iria demorar um pouco. Se
demorasse mais duas horas, a coisa iria estourar. Afinal, o que
houve?
— Nada —
respondi em tom cansado. — Absolutamente nada. Aquela nave é um
robô perfeito. Não tem qualquer tripulação. Deve ter uma dimensão
temporal diferente da nossa. Ainda tenho a impressão de ter passado
no máximo quinze minutos em seu interior. E acontece que não o
chamei uma única vez.
— Realmente
foram dezoito horas — gritou Tarts fora de si. — Mandarei o
médico examiná-lo. Você está bem?
— Acredito
que sim. Estou subindo. Desligo.
Quando
entrei na sala de comando, todos me fitaram como se fosse um ser
vindo de um outro mundo. Tarts formulou algumas perguntas que só eu
poderia responder. Só depois disso desistiu da idéia de que um
monstro disfarçado poderia ter subido a bordo no meu lugar. Meu
nervosismo terminou em meio a uma série de estrondosas gargalhadas.
Os oficiais começaram a sorrir. Tarts praguejou e retirou-se para
sua poltrona de combate.
Pousamos
em Atlântida sem termos visto o menor sinal do inimigo vindo da área
das sombras. Os planetas dois e três aproximavam-se cada vez mais da
oposição, que aguardávamos com tamanho receio.
Tomei
todas as providências para uma rápida evacuação. Enquanto isso os
cientistas examinavam as estranhas espulas. Dali a três dias Grun me
comunicou em tom exaltado que o mistério acabara de ser solucionado.
Chegou a
hora em que mais uma vez tive de separar-me de um companheiro fiel.
Convoquei os comandantes e ordenei a Assor que partisse imediatamente
para Árcon, a fim de levar os dados sumamente importantes que
tínhamos em mãos e os entregasse pessoalmente ao Imperador.
Aproveitei
a oportunidade para, contra a vontade dos colonos, colocar quarenta
mil pessoas nas duas naves de transporte de que ainda dispúnhamos.
Bastaria que Atlântida ficasse com dez mil habitantes.
Impus
minha vontade e mandei que Taneth comboiasse as naves.
Dali a
vinte dias, três grandes unidades partiram para a longa viagem de
volta.
Posteriormente
soube que a Assor, comandada por Taneth, depois de ter desempenhado a
missão-correio importante, foi requisitada por um almirante que a
lançou prontamente na batalha contra os metanianos, durante a qual
foi destruída numa ação arrojada.
Apesar dos
repetidos pedidos de me ceder uma das novas armas, que formulei
perante o Grande Conselho, nunca recebi um canhão de conversão.
Em vez
disso o Imperador em pessoa me ordenou que continuasse no pequeno
sistema de Larsaf e procurasse desvendar também o segredo da frente
de ondulações.
Como
recompensa por ter conseguido os dados necessários à fabricação
da nova arma, fui promovido ao posto de Almirante-de-Esquadra. Mas
não me deram outras naves. Explicaram que depois de uma guerra total
contra os monstros, que durara quase três anos, os recursos do
Império se haviam tornado extremamente escassos.
Por isso
fiquei apenas com a Tosoma e com o cruzador pesado Paito, comandado
pelo Capitão Inkar.
Os dois
velhos cruzadores, transformados em armas teleguiadas, só podiam ser
utilizados de forma bastante restrita. Era por demais complicado, ou
melhor, praticamente impossível, utilizá-los contra alvos móveis
que se deslocassem a grande velocidade.
Por isso
dei ordem para que as velhas naves fossem desmontadas, e seus
propulsores adaptados e montados em Atlântida, para servirem de
armas estacionárias.
Incluindo
os tripulantes das unidades que me restavam, cerca de quatorze mil
arcônidas ainda se encontravam no pequeno continente, que floresceu
com o trabalho de nossas mãos.
Os dez mil
colonos de Zakreb V instalaram novas fazendas e instruíram os
nativos na arte do cultivo da terra. Nosso relacionamento com os
bárbaros era excelente. Não houve ataques ou outros acontecimentos
desagradáveis.
Depois de
algum tempo pedi a Feltif que os instruísse no trabalho com metais e
na arte da construção. As primeiras escolas foram instaladas nos
grandes continentes sulinos situados ao leste e ao oeste de
Atlântida.
Estávamos
desenvolvendo a base mais avançada do Império. Infelizmente não
recebemos qualquer tipo de apoio de nosso mundo natal.
Nas
semanas seguintes, Inkar e eu realizamos uma série de missões
perigosas que nos levaram ao segundo planeta, cujos depósitos foram
esvaziados progressivamente. Dispunha apenas de duas naves poderosas,
cuja existência, ao que parecia, havia sido esquecida por Árcon.
Depois de
muito tempo os propulsores readaptados, retirados dos dois
cruzadores, foram embasados no solo rochoso de Atlântida.
Dali em
diante dispúnhamos de oito posições de artilharia inteiramente
independentes, cujos conversores de impulsos poderiam, se necessário,
intervir nos acontecimentos. Caso surgisse outro ataque da frente de
ondulações, as tripulações evidentemente teriam que ser levadas a
um lugar seguro.
Por isso
mandei instalar condutos antigravitacionais de alta velocidade, que
permitiriam a fuga dos indivíduos, se não fosse possível deter o
campo relativista ou ao menos romper determinados setores do mesmo.
Atlântida
transformara-se numa fortaleza.
Repousamos
no ar tépido das zonas mais elevadas, refazendo-nos das canseiras do
passado, e realizamos excursões às terras geladas do norte, onde
nos encontramos com bárbaros ignorantes da Idade da Pedra.
Algumas
das tribos já moravam em cabanas, enquanto outras ainda vagavam
pelas florestas, sem destino. Era de espantar como a vida se
desenvolvera no terceiro mundo da estrela Larsaf.
Especialmente
os povos do norte pareciam ter sofrido duras privações no curso dos
milênios. Ainda encontramos vestígios da era glacial.
Pousamos
vez por outra, deixávamos que a usual veneração dos deuses fosse
despejada sobre nós e mostramos aos homens como se derretia o metal
em fornos simples.
Nas áreas
litorâneas, junto a um grande complexo montanhoso, que delimitava a
área sulina, erguemos fortes palafitas destinadas a pescadores.
Quanto ao
mais, tínhamos a impressão de que seria inútil levar os produtos
da tecnologia arcônida àqueles seres, que geralmente ainda viviam
em cavernas. Antes disso teriam que realizar o próprio
desenvolvimento.
Dedicamos
nossa atenção principalmente aos povos morenos, bastante
amadurecidos, que viviam nos dois continentes sulinos. Ali surgiram
as primeiras cidades de nativos, construídas sob a orientação dos
colonos de Zakreb V.
Ao que
parecia, tudo ia muito bem. A frente de ondulações se mantinha no
setor espacial que lhe pertencia. Já sabíamos que se tratava de um
fenômeno natural, aproveitado por seres pensantes.
Ficamos
aguardando. O ataque contra nós só poderia ser lançado quando o
terceiro planeta se encontrasse em oposição a Larsa II. Quando isso
acontecesse, teríamos a decisão.
10
Alguém me
sacudiu pelos ombros. Ouvi chamar meu nome, mas só depois de algum
tempo os sons fixaram-se em meu cérebro. Tive a impressão de estar
despertando de um sono profundo.
A pressão
dolorosa no meu crânio cessara por completo. Sentia-me extremamente
cansado. Os rostos dos oficiais apagaram-se na minha imaginação.
— Ei,
almirante! Acorde!
Alguém
batia carinhosamente na minha face. Não sabia onde estava.
— Tarts,
é você? — balbuciei.
— Doravante
não permitiremos quê vague num passado tão longínquo. Peço que
no futuro só sejam formuladas perguntas objetivas, e que quanto ao
mais se aguarde o resultado de sua atuação. Um cérebro arcônida é
muito sensível. Doutor, faça o favor de cuidar dele.
Perplexo,
escutei aquela voz clara, acostumada a comandar. Alguém me picou no
braço. Uma corrente tépida correu por minhas veias.
Ouvi
apenas a respiração pesada de um homem. Sempre que falava usava uma
língua estranha; no entanto, eu o entendia perfeitamente.
Dali a uma
hora compreendi finalmente que já não me encontrava a bordo da
velha Tosoma, mas na sala dos tripulantes de um supercouraçado
espacial terrano chamado Drusus.
Seu
comandante era Perry Rhodan, e o sistema de Larsaf hoje era designado
pelo nome de Império Solar.
Atlântida
há muito deixara de existir, e meus homens estavam mortos há dez
mil anos. O Grande Império que pretendera salvar estava próximo à
desagregação. Um computador-regente exercia o poder.
Rhodan
ergueu meu corpo. Esbocei um sorriso débil. Rhodan disse em tom
suave:
— Você
ainda continuaria com suas histórias por horas a fio, se não o
tivesse chamado constantemente. Rapaz, vamos deixar isso de lado.
Hoje nos encontramos no ano 2.040 da Era Cristã, e os bárbaros das
cavernas da região norte foram meus antepassados. Como se sente?
Tateei à
procura do ativador celular, que estava iniciando seu trabalho
revitalizante.
— O
aparelho continua a funcionar — cochichei. — Já compreende que
não lhe posso revelar o segredo da vida eterna? Até hoje não sei
exatamente o que aconteceu naquele tempo.
— Acontece
que eu sei — afirmou Rhodan em tom indiferente. — As gargalhadas
berrantes dizem tudo. Conheço um ser misterioso que habita o mundo
artificial denominado Peregrino, que gosta de divertir-se à custa
dos outros em todas as oportunidades apropriadas e inapropriadas. O
instrumento só pode ter sido fornecido por ele. Provavelmente o
surgimento do segundo plano temporal deixou-o preocupado. Você
representou seu braço armado, pois ele não tem consistência
material.
“Estou
curioso para ver que posição ele assumirá diante dos
acontecimentos mais recentes. As sombras de antanho voltaram a
aparecer, arcônida. Desta vez quebrarão os dentes. OK; você deve
descansar um pouco. Aquilo foi demais. Aliás...”
Perry
interrompeu-se por um segundo e prosseguiu com um sorriso:
— ...aliás,
minha opinião sobre os arcônidas sofreu uma modificação completa.
Ao que parece, o tal do Tarts foi um sujeito formidável.
— Todos
eles foram — respondi baixinho. O orgulho pelo passado grandioso de
meu povo voltara a despertar. — Apenas gostaria de saber se naquela
época chegaram a ser utilizados os novos canhões de conversão.
— Os
relatórios que chegaram ao meu conhecimento falam numa fabulosa arma
de destruição, cujos segredos de construção se perderam. Não
existe a menor dúvida de que os metanianos foram rechaçados e
sofreram uma derrota fulminante. Se todos os almirantes do Império
daquele tempo foram como você, pouco deve ter sobrado dos mundos de
metano situados no setor das nebulosas. Agora descanse.
Recostei-me
na poltrona e contemplei as telas iluminadas.
Encontrava-me
novamente no espaço. Mas havia uma diferença. Desta vez outro homem
exercia o comando. Todavia sentia-me em casa, pois a Terra passara a
ser meu mundo.
*
* *
*
*
*
A
exposição feita por Atlan foi excelente para os planos de Rhodan.
Há uma
arma que poderá ser usada contra os invisíveis...
Em O Robô
Espião, a misteriosa ameaça do ser ou seres tomou um rumo...

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