terça-feira, 12 de março de 2013

P-056 - Os Mortos Vivem - Clark Darlton [parte 1]



Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
VITÓRIO


O regente de Árcon descobre a verdade —
...Gucky ganha um novo amigo.

Apesar das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante.
Mas Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não está disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes cósmicos todos eles mutantes do célebre exército — continuam a ser instruídos no sentido de, em quaisquer circunstâncias, manter em sigilo sua origem terrana. Porém...
Nesta aventura, Rhodan se vê às voltas com um seqüestro... O seqüestro de sua amada Thora!

= = = = = = = Personagens Principais = = = = = = =

Perry RhodanO Administrador do Império Solar.

GuckyO rato-castor; magnífico mutante.

NoirOutro valoroso mutante.

Fellmer LloydAgente cósmico, também mutante.

Kuri OnereUma jovem da raça dos saltadores.

MansrinArcônida, governador de Volat.

Gregor Tropnow e Nomo YatuhinMutantes rebeldes.

TalamonO superpesado delator.
1



A solução mais simples seria matá-los todos, talvez com veneno de rato.
Reginald Bell, amigo e representante de Rhodan, fechou o punho e bateu na pesada mesa de carvalho que ficava junto à janela. Do lugar em que se encontrava tinha uma visão ampla sobre Terrânia, sede do governo mundial.
Isso mesmo! Veneno de ratos — piou Gucky, que estava agachado em cima da mesa.
Perry Rhodan sacudiu devagar a cabeça e contemplou o oceano de pedra das construções erguidas em meio a uma área fértil, que já fora tudo menos isso. Essa área ficava na região que antigamente era conhecida como o deserto de Gobi.
Nosso problema não será resolvido pela violência, amigos. Isso só nos traria novos inimigos. Se essa gente não puder concordar com nossos planos e nossa atuação, teremos de sugerir-lhes que procurem outro lugar para morar. Na Terra não há lugar para eles, pois este planeta pertence à humanidade unida, e a ela não pertencem os indivíduos que não queiram integrar-se.
Será que terão de fixar-se na Lua? — perguntou Bell em tom admirado, lançando um olhar encorajador para Gucky, seu amigo do peito. Naturalmente não estava falando sério quando aludiu à possibilidade do envenenamento, mas de qualquer maneira sua atitude parecia mais radical que a de Rhodan. — Acho que até Vênus ainda ficaria muito perto.
Vamos despachá-los para uma via láctea mais próxima — sugeriu Gucky. — Ali não poderão fazer mal a ninguém.
Mais uma vez Rhodan sacudiu a cabeça.
Vocês caem de um extremo no outro. Procurem uma solução mais cabível para o caso. Tentem refletir. Os chamados colonos livres não querem submeter-se às nossas determinações. Não reconhecem o governo mundial. Vocês acham que devemos matar algumas dezenas de milhares de pessoas, somente porque alguns fanáticos não sabem raciocinar logicamente? Nada disso; devemos fazer exatamente o contrário. Vamos ajudá-los.
Bem, bem — disse Gucky e lançou um olhar de tédio para o teto, como se por lá ainda pudesse fazer alguma descoberta interessante. — Devemos prestar auxílio aos coitados dos nossos inimigos...
O que pretende fazer? — perguntou Bell inclinando-se para a frente, em direção a Rhodan, que estava sentado bem à sua frente. Gucky estava agachado um pouco ao lado, pois como telepata já conhecia a disposição que Bell tinha de engajar-se a favor de Rhodan.
Serão expatriados — disse Rhodan. — Colocarei à sua disposição uma das grandes naves esféricas, dou-lhes uma tripulação de duzentos homens e mando que sigam viagem. Poderão deixar a Terra e procurar outro planeta, onde farão e deixarão de fazer o que melhor lhes aprouver Não nos preocuparemos mais com eles. Não acha que é a melhor solução e a mais simples?
Bell acenou lentamente com a cabeça, mas Gucky disse em tom estridente:
Continuo a achar que seria melhor envenená-los, mas afinal não sou nenhum monstro. Concordo com qualquer coisa, desde que consigamos livrar-nos dos rebeldes. Só faço votos de que não se encontrem com nenhum saltador ao qual possam revelar a posição da Terra.
Quando isso acontecer, não se recordarão da mesma — prometeu Rhodan ao perceber que seus amigos concordavam com a decisão que acabara de tomar. Fora mais fácil convencer o maciço Bell com os cabelos cortados à escovinha que ao teimoso Gucky, um rato-castor extremamente inteligente e um dos mutantes mais capazes. — Mandarei que nossa proposta seja apresentada aos porta-vozes dos colonos livres.
Por que você vive falando em colonos livres? Será que os outros colonos da Terra não são livres pelo simples fato de se submeterem ao governo mundial? — Bell apoiou o queixo nas mãos. — Será que nisso não existe algum paradoxo?
São eles mesmos que se designam assim — explicou Rhodan. — Em nossos registros oficiais estão consignados sob a designação de Colonos Livres Associados. Ou, abreviadamente, CLA.
Que sensato! — disse Bell com um sorriso, olhando para Gucky. — Que acha disso, seu roedor de cenouras?
O rato-castor exibiu seu único dente, revelando estar disposto para uma brincadeirinha, pois não levara a mal a alusão às suas tendências vegetarianas.
Nada mau, Bell, nada mau. A abreviatura poderia dar a entender que se trata de um novo apelido para você...
Bell procurou atingir Gucky, mas este foi mais rápido. Teleportou-se para a extremidade oposta da mesa, onde estaria em segurança. Em seus olhos brilhantes lia-se a intenção de utilizar a terceira faculdade parapsicológica de que dispunha, a telecinese, se Bell não ficasse bem comportadinho.
Acontece que Bell não estava com nenhuma vontade de ser atirado para o teto. Fez um gesto ligeiro com a mão.
Continuemos amigos, Gucky. Não vamos brigar por uma tolice destas. O que pretende fazer mesmo, Perry?
Gucky voltou ao lugar anterior, completamente tranqüilizado.
Rhodan disse:
A tripulação já está sendo selecionada. Daqui a algumas semanas, a nave poderá decolar, e com isso nos livraremos das preocupações com os rebeldes; é ao menos o que espero. Quem não estiver satisfeito com as condições reinantes na Terra poderá seguir nessa nave.
Tomara que não sejam muitos — resmungou Bell, piscando os olhos. — Senão enviaremos uma frota.
Dificilmente. O que houve, Gucky?
O rato-castor manteve a cabeça inclinada, numa posição esquisita: perscrutava seu interior. Evidentemente estava recebendo uma mensagem telepática. Também era possível que por pura coincidência tivesse captado alguma coisa em que estava muito interessado. Nesse meio tempo, Rhodan também se transformara num telepata, mas via-se obrigado a confessar que neste ponto o rato-castor tinha uma superioridade tremenda sobre ele. Rhodan geralmente só conseguia captar pensamentos enfeixados e direcionais, e mesmo estes apenas em condições extremamente favoráveis. Quanto a Gucky, este sabia localizar e compreender qualquer impulso cerebral. Mesmo que esse impulso não se destinasse a ele.
Um instante! — piou Gucky e esperou. Subitamente levantou os olhos. — Daqui a pouco a central de comunicações vai chamá-lo, Rhodan. Trata-se de uma mensagem importante vinda do espaço. Não tenho a menor idéia do que se trata.
Rhodan contemplou a tela vazia que cobria a parede lateral da sala. Essa tela ligava-o diretamente ao centro de rádio de Terrânia. Se quisessem alguma coisa dele, usariam...
Já estava chegando!
De repente a tela iluminou-se e formou uma imagem muito real. Um homem sentado atrás da mesa de controle olhava para o interior da sala como se a parede tivesse desaparecido e, com ela, todos os muros divisórios. As câmaras e os microfones ocultos ligaram-se automaticamente. A comunicação entre o gabinete de Rhodan e a central de rádio acabara de ser estabelecida.
Há uma mensagem importante vinda da Lotus, chefe. O comandante, Capitão Markus, expediu o sinal de emergência. A Lotus está regressando à Terra. Poderá chegar ainda hoje. A comunicação foi interrompida antes que eu pudesse confirmar.
O rosto de Rhodan tornou-se muito sério.
Não tem qualquer outra indicação, Miller?
Nenhuma, chefe. A mensagem veio sob a forma de um impulso concentrado cuja duração não foi superior a um décimo de segundo. Não tive oportunidade de realizar a determinação goniométrica.
Obrigado — disse Rhodan. — Continue em recepção e avise-me imediatamente caso a Lotus volte a chamar.
Então? — perguntou Bell, que também parecia muito preocupado. — O que significa isso?
Isso significa que a quatro mil e trezentos anos-luz daqui ou, mais precisamente, no Sistema de Heperés, alguma coisa não anda bem. Não demoraremos em saber o que é. Talvez saibamos ainda hoje.
E os CLA? — chiou Gucky.
Isso tem tempo, Gucky. Não devemos dar-lhes tanta importância. No momento, só o comandante Markus é importante para mim.
Bell levantou-se.
Vou ao espaçoporto. Afinal, Markus não poderá levar tanto tempo para percorrer estes miseráveis quatro mil e trezentos anos-luz. É apenas um pulo de gato pelo hiperespaço.
Gucky sacudiu-se e efetuou uma teleportação que o levou ao chão.
Não sei por que Bell sempre tem de revelar tamanha insensibilidade, falando de gatos na minha presença. Será que ninguém lhe ensina que isso não se faz?
Rhodan seguiu os dois com os olhos, mas em seu rosto não havia o sorriso costumeiro para o qual nunca deixava de ter tempo quando os dois amigos se pegavam.
E foi o que aconteceu, no corredor, e não no gabinete de Rhodan.

* * *

O comandante Jim Markus só pousou dali a vinte horas.
Disse ter demorado devido a uma espera adicional de notícias do agente cósmico Fellmer Lloyd, desaparecido no planeta Volat. Quando viu que as mensagens não chegaram, resolveu voltar imediatamente à Terra a fim de informar Rhodan.
Além de Bell e Gucky, o mutante André Noir assistiu à palestra. Tratava-se de um excelente hipno que, de certo tempo para cá, também tornou-se possuidor do dom da telepatia.
Quer dizer que, conforme era previsto, largou Lloyd no planeta? — perguntou Rhodan para certificar-se mais uma vez, depois que Markus havia iniciado seu relato. — O que aconteceu depois disso?
O que sei é pouca coisa — confessou o comandante. — Lloyd se fez passar por um prebonense e procurou entrar em contato com Sikeron, nosso elemento de ligação que foi assassinado. Na oportunidade travou conhecimento com Kuri Onere, filha de um mercador galáctico estabelecido no planeta. Os habitantes primitivos do planeta de Volat são insetos, cuja vida se guia por ritos desconhecidos e que são chefiados por uma mulher, a mãe onisciente. Com o auxílio desta, conseguiu reunir em torno de si um grupo de inteligências, que foi posto em campo contra dois homens cercados de mistério. Os dois desconhecidos dotados de poderes sobrenaturais são membros de seu Exército de Mutantes, Sir. São dois rebeldes.
Rhodan inclinou-se para a frente. Seu rosto não revelou a menor emoção.
Fale-me sobre eles, por favor.
Trata-se de Nomo Yatuhin, um telepata pouco eficiente, e de Gregor Tropnow, um hipno. Ambos se sentem prejudicados porque no planeta artificial Peregrino não lhes foi concedida a ducha celular que prolonga a vida. Fixaram-se em Volat onde organizaram a resistência contra a Terra. Juntamente com os saltadores e outros súditos do Império Arcônida tramam o ataque à Terra, assim que surja uma oportunidade favorável.
Minha gente! — murmurou Rhodan, fora de si.
Parecia que custava a acreditar no que acabara de ouvir.
Bell mantinha-se num silêncio obstinado.
Em todo lugar aparecem traidores — disse Markus para consolá-lo. — Conseguiram localizar e assassinar Sikeron antes que o mesmo tivesse tempo de transmitir à Terra aquilo que ficara sabendo. Ao que parece, Fellmer Lloyd também foi liquidado. Ao menos não consegui captar-lhe mais nenhum sinal de vida. Sua última mensagem dizia mais ou menos o seguinte: “Três toques de sino. Alarma geral. Yatuhin e Tropnow são traidores. Ataque contra a Terra está sendo planejado. Cuidado!
O que aconteceu com Fellmer Lloyd?
Ninguém sabe. Desapareceu juntamente com a moça chamada Kuri. De uma coisa temos certeza: não foram mortos pelos nativos, que até lhes prestaram ajuda.
Rhodan ficou em silêncio por alguns minutos. Os outros também se mantiveram calados para não perturbá-lo. Noir e Gucky, que eram telepatas, podiam acompanhar as reflexões do chefe, pois este não bloqueou o cérebro.
Finalmente disse:
A Lotus está pronta para decolar, comandante Markus? Muito bem. Noir, Gucky e eu iremos com o senhor, ainda hoje.
O silêncio que se formou após estas palavras durou apenas um segundo. Bell logo gritou em tom indignado:
E eu? Não me diga que pretende...
Infelizmente pretendo, meu caro — disse Rhodan em tom tranqüilo. — Quem pode ocupar meu lugar por aqui a não ser você?
Um bom cargo, que lhe proporciona muita honra — disse o rato-castor em tom zombeteiro e exibiu seu dente roedor num sorriso de escárnio. — Ao menos aqui sua preciosa vida não correrá o menor perigo. Além disso, Noir, o chefe e eu saberemos dar conta deste recado que não é nada difícil...
Meia-porção — resmungou Bell em tom zangado, segurando-se na borda da mesa.
O rato-castor preferiu não dar nenhuma demonstração de suas faculdades telecinéticas. Com um salto ligeiro, transportou-se para o colo de Rhodan, lançou um olhar franco para o chefe e piou:
Já não estou aqui, chefe. Antes de decolarmos quero arranjar uma coisa. Até lá.
Antes que Rhodan pudesse dizer qualquer coisa, Gucky se desmaterializou. Ninguém tinha a menor idéia do que pretendia arranjar.
Que sujeitinho engraçado — observou Markus, fazendo Bell irromper numa risada que quase chegava a ser histérica.
Rhodan olhou para Noir, que estava sentado à sua frente.
Providencie para que Anne Sloane seja avisada. No momento encontra-se em Port Vênus e deve ser informada sobre o paradeiro dos mutantes. Daqui a uma hora encontramo-nos no espaçoporto, a bordo da Lotus. Markus, venha comigo.
Bell acompanhou-os com os olhos enquanto saíam da sala. Depois levantou-se lentamente, caminhou para o lado oposto da mesa e acomodou-se na pesada poltrona em que Rhodan costumava sentar.
A modificação transitória no governo de Terrânia fora realizada sem o menor espalhafato.
Naquele momento, Bell segurava todos os fios: os fios que mantinham unido o Império Solar de Rhodan.

* * *

O choque surgiu poucos minutos após a decolagem da Lotus.
O pequeno cruzador ainda estava apoiado nas colunas telescópicas. Aquela esfera metálica reluzente media cem metros de diâmetro, mas isso não era nada em comparação com as naves esféricas de oitocentos e mesmo mil e quinhentos metros. A Lotus era uma nave pequena mas, se necessário, também saberia defender-se. Além disso, havia a bordo uma instalação de hiper-rádio e um compensador estrutural, equipamentos que de algum tempo para cá se encontravam em quase todas as naves do Império Solar. Esse estruturador fazia com que os hipersaltos não pudessem ser medidos. As naves de Rhodan podiam percorrer o espaço em silêncio, sem serem percebidas pelas estações localizadoras dos arcônidas ou de outras raças inteligentes, espalhadas por toda parte.
Os tripulantes dirigiram-se aos postos que deviam ocupar durante a decolagem.
Os passageiros se haviam reunido na sala de comando. Rhodan estava sentado na poltrona do co-piloto, ao lado de Markus. Como de costume, Gucky se encontrava deitado num dos sofás e, ao que parecia, sentia muito a falta de Bell. O hipno André Noir acomodara-se numa poltrona de reserva.
As telas estavam acesas. Na sala de astronavegação, que ficava ao lado, o cérebro positrônico expelia os dados do hipersalto iminente.
Markus colocou a mão sobre a chave do acelerador.
O espaçoporto, a cidade de Terrânia, o continente asiático e por fim o globo terrestre mergulharam na imensidão do espaço.
A aceleração era tamanha que, logo após vinte minutos, a Lotus atingiria a velocidade da luz. A transição poderia ser iniciada no setor espacial situado entre os planetas externos do sistema.
Foi mais por um pressentimento que Rhodan disse subitamente:
O rádio está em recepção?
Markus parecia espantado.
Por quê? Dentro do sistema solar só se costuma usar o rádio comum. Daqui a pouco as ondas não nos atingirão mais.
Uma ruga vertical surgiu na testa de Rhodan.
Nem tanto! Em caso de necessidade também se permite o uso do hiper-rádio.
Conta com alguma emergência? Qual é?
Ninguém pode saber qual é a emergência que pode surgir neste ou naquele momento. Acho melhor que as comunicações com a Terra sejam mantidas até o último instante.
Markus deu de ombros e pegou o microfone do intercomunicador.
Sala de rádio? Fique em recepção até que se realize a transição. Isso mesmo! São ordens do chefe.
Rhodan recostou-se na poltrona. Meio distraído, ficou ouvindo os sinais que estavam sendo captados e transmitidos para a sala de comando. Tinha os olhos pousados na tela de visão global, que trazia o espaço cósmico circundante para o interior da sala.
Ali estava a Terra, que mergulhava cada vez mais rapidamente no abismo do espaço e diminuía a olhos vistos. Qualquer astronauta estava perfeitamente familiarizado com o quadro, mas nenhum humano jamais se saciara de contemplar o formoso planeta verde-azulado.
Bem ao lado do disco ofuscante do Sol estava Vênus, que parecia uma foice bem iluminada. Marte, o planeta vermelho, passou numa posição lateral e, aumentando de velocidade, tomou a direção da popa da nave — se é que num artefato esférico se podia falar em popa.
As interferências no alto-falante tornavam-se cada vez mais fortes, embora a nave se afastasse do Sol. As ondas normais de rádio eram refletidas pelo anel de asteróides e captadas pelas antenas.
Subitamente uma voz rompeu a profusão de sinais e ruídos de interferência.
Era uma voz forte e áspera.
Alô, Perry Rhodan! Responda. Aqui fala o Coronel Derringer, do Serviço de Segurança de Marte. Estou chamando Perry Rhodan. Aqui fala...
Rhodan estremeceu, mas a surpresa apenas durou uma fração de segundo. Antes que o comandante Markus pudesse fazer um movimento Rhodan saltou da poltrona e correu em direção ã sala de rádio. Gucky seguiu-o com os olhos. Parecia perplexo, mas continuou onde estava.
No momento em que Rhodan entrava na pequena sala repleta de aparelhos, o operador de plantão estava estabelecendo o contato com Marte. Lançou um olhar indagador para Rhodan.
A mensagem veio pelo hiper-rádio. Quer responder?
Estabeleça contato com Derringer. Quero falar com ele.
O Coronel Derringer continuava a chamar ininterruptamente e com a mesma insistência. Seu receptor devia estar em funcionamento, a fim de que não perdesse a resposta.
O contato foi estabelecido — disse o operador de rádio, entregando o microfone a Rhodan. — Pode falar, Sir.
Perry aguardou que o coronel fizesse uma pausa e disse:
Aqui fala Rhodan, a bordo da Lotus. O que houve, Coronel Derringer?
Por alguns segundos reinou o silêncio. Isso não foi devido ao pequeno espaço de tempo que a onda de rádio consumiria para percorrer os oitenta ou cem milhões de quilômetros de ida e volta a Marte, pois a demora não seria superior a um milésimo de segundo. O silêncio foi causado exclusivamente pela surpresa de Derringer, que não esperava receber resposta tão depressa.
Mas sua resposta foi lacônica e precisa:
Graças a Deus, Sir! Qual é sua posição?
Pouco antes do anel dos asteróides.
Muito bem. Volte e pouse em Marte.
Por quê?
O senhor deu ordem ao mutante Gregor Tropnow para que viesse buscar Thora?
Rhodan empalideceu e segurou-se na mesa com a mão livre. Seus lábios transformaram-se num traço finíssimo, e só a contragosto se abriram para falar.
Não, coronel. Estava previsto que minha esposa ficaria em Marte até o fim de suas férias. O que aconteceu?
Sinto muito, Sir, mas, nesse caso, suspeita-se de que sua esposa tenha sido seqüestrada. Foi o que disse Mr. Bell, com o qual acabamos de entrar em contato. Há poucas horas o mutante Tropnow pousou no planeta e disse ter recebido ordens para levar Thora. Disse que surgiram imprevistos, e disseram ser necessária a presença da arcônida em Terrânia. Thora saiu de Marte há exatamente duas horas.
Ao que parecia, Rhodan recuperara o autocontrole. Sua voz não revelava a menor comoção, mas o rosto continuava pálido.
Por que as investigações não foram iniciadas mais cedo?
O Coronel Derringer hesitou um pouco e respondeu:
Ninguém poderia desconfiar de que Thora estava sendo seqüestrada. Os membros do Exército de Mutantes sempre têm merecido toda confiança.
Era verdade. Subitamente Rhodan deu-se conta de que nenhum homem podia merecer uma confiança absoluta e incondicional; em algum recanto recôndito do coração estava escondido o germe da traição. Ou estaria enganado? Não teria sido ele mesmo quem colocou o germe da traição no coração de Tropnow, ao recusar-lhe a ducha celular no planeta Peregrino?
Não importava...
Preste atenção, Derringer. Não irei a Marte. Sei para onde Thora foi conduzida. Prossiga nas investigações e comunique em que tipo de nave Thora foi levada.
Já descobrimos. Foi numa nave de reconhecimento de longo alcance tipo Gazela.
Excelente! Já é alguma coisa. Mantenha-se em ligação com Bell. Estou em contato de hipercomunicação com o mesmo. Ele me avisará sobre qualquer novidade. Mais um detalhe. O senhor não tem culpa de nada, coronel.
Ouviu-se um suspiro de alívio.
Obrigado. Apenas cumpri meu dever...
Às vezes até isso pode ser um erro. Passe bem.
A comunicação foi interrompida.
O operador de rádio desligou com os dedos trêmulos e lançou um olhar aflito para Rhodan. Seus lábios moviam-se como se quisesse dizer alguma coisa, mas ao que parecia não tinha coragem. Perry, que imaginava os pensamentos daquele homem mais do que os lia, colocou a mão sobre seu ombro.
Obrigado, amigo. Esse golpe sujo não adiantará nada para esse sujeito; apenas agravará a pena que o espera. Nada acontecerá a Thora.
Nada acontecerá a Thora...!
Enquanto voltava à sala de comando, as lembranças e os sentimentos atravessavam seu cérebro como se fossem raios eletrônicos. Continuava a sentir por Thora o amor que sentira desde o dia quando a conhecera, muito embora naquele primeiro encontro ainda não desconfiasse de que era o amor que o atraía para junto daquela mulher misteriosa, cujo mundo primitivo não era a Terra. Sim, ele a amava. Ele, o homem que havia alcançado a imortalidade relativa, e que tinha a idade de 104 anos e o aspecto de um homem de quarenta, amava a arcônida Thora, a qual não fora agraciada com o dom da imortalidade. Era bem verdade que o elixir da vida, subtraído aos aras, mais uma vez detivera o processo de envelhecimento. Mas por quanto tempo...?
E agora queriam tomar-lhe Thora.
Tolice!
Já a haviam tomado.
Quando entrou na sala de comando, André Noir veio a seu encontro. Uma vez que era telepata, já estava informado sobre o que havia acontecido.
Esses patifes! Vamos...
Deixe para lá, Noir. Ninguém escapa ao castigo que lhe cabe. Até agora sempre pude respeitar meus inimigos, pois geralmente travavam uma luta honesta e varonil. Seqüestrar uma mulher para exercer chantagem contra o marido é a coisa mais vergonhosa que se pode imaginar. Só mesmo um monstro conceberia uma idéia dessas.
Eu mesmo torcerei o pescoço desse monstro — piou Gucky, que continuava imóvel no sofá. — Ele não me escapa.
Rhodan lançou um olhar para Markus.
Quando será realizada a transição?
Dentro de dois minutos e quarenta segundos, se não houver nenhuma modificação — hesitou um momento. — O curso e as coordenadas serão mantidas?
Nosso destino é Volat. O seqüestrador é Tropnow, que foi reconhecido nesse planeta por Fellmer Lloyd. Não podemos perder um segundo, se não quisermos chegar tarde.
Para Tropnow nunca chegarei tarde; poderei chegar cedo demais — resmungou Gucky no seu canto.
Rhodan não respondeu. Estava sentado em sua poltrona, mudo e com os lábios cerrados, fitando as telas.
Continuou assim, mesmo quando as estrelas haviam desaparecido, dando lugar ao terrível vazio do hiperespaço, em que não existia matéria nem tempo...
II


Seis planetas gravitavam em torno do sol Heperés, mas só o segundo estava habitado. O mundo de Volat, que se situava a mais de 4 mil anos-luz da Terra, ainda ficava dentro do Império Arcônida. Era um dos entrepostos comerciais mais importantes dessas inteligências da Via Láctea.
Em Kuklon, a capital, existia o maior espaçoporto; era ali que tinha sua sede o administrador arcônida de Volat. Permanecia nesse mundo estranho por ordem do cérebro positrônico de Árcon, a fim de defender os interesses do Império sempre que isso se fizesse necessário. O Império de Árcon era governado por um computador.
Volat tinha aproximadamente o tamanho de Marte. A gravitação, um pouco inferior à da Terra; o clima, tropical. A maior parte da superfície do planeta estava coberta de matas virgens.
No momento em que a Lotus rematerializou-se, precipitou-se para o interior do sistema à velocidade da luz. Graças ao compensador estrutural podia-se ter uma razoável certeza de que ninguém havia registrado a transição. Ainda agora a localização goniométrica era quase impossível. Mesmo que esta fosse realizada, provavelmente suporiam tratar-se de uma das numerosas naves mercantes que se dirigiam a Volat ou de lá saíam.
A sala de rádio funcionava a toda potência, mas não havia nenhum sinal que desse a entender que Fellmer Lloyd em sua Gazela procurasse entrar em contato com a nave. O mutante ainda devia supor que o comandante Markus continuasse a contornar o sistema com a Lotus, a fim de exercer as funções de estação retransmissora.
Porém Fellmer Lloyd permanecia em silêncio.
A inquietação fervilhava dentro de Rhodan.
Prepare a Gazela V — ordenou, dirigindo-se a Markus e fazendo um sinal para Noir e Gucky. — Está na hora.
Já não agüentava mais neste sofá — asseverou o rato-castor e escorregou para o soalho metálico a fim de saltitar em direção à porta. — É duro que nem uma tábua.
As preocupações de Noir eram diferentes.
A presença da Gazela não poderá ser constatada durante o pouso?
Rhodan respondeu antes de dirigir-se a Markus:
É claro que não pousaremos na área urbana de Kuklon, mas em alguma área desabitada do continente principal. Não sabemos onde está Lloyd, mas acontece que somos telepatas. Um de nós terá de encontrá-lo. E você, Markus, mantenha-se numa órbita constante, à distância de duas horas-luz de Volat. Acho que será suficiente. Emita a cada dez horas um raio vetor de um minuto de duração. Ainda não sabemos em que circunstâncias ocorrerá nosso regresso à nave, e por isso acho que essa precaução é recomendável.
Está bem, Sir. O que deverei fazer se a Gazela for atacada?
Um sorriso surgiu no rosto de Rhodan.
O senhor não fará nada, comandante. Absolutamente nada. Entendido?
Markus confirmou com uma expressão de perplexidade no rosto. Rhodan viu chegada a hora de uma ligeira explicação.
Se formos atacados e chegarmos à conclusão de que o inimigo está em condições de superioridade, nós nos entregaremos. Talvez isso nos leve ao objetivo.
Seguiu Noir, que já se encontrava a caminho do hangar. Gucky preferiu poupar as perninhas curtas. Aguardou os dois homens diante da escotilha aberta da Gazela.
Esse tipo excelente de nave de reconhecimento tinha dezoito metros de altura e um diâmetro de quase trinta e cinco metros. O desempenho normal do sistema propulsor permitia a realização de hipersaltos até de quinhentos anos-luz. O armamento era suficiente para causar danos consideráveis a um cruzador. Os campos de gravitação artificiais compensavam bem a pressão causada pela aceleração ou desaceleração.
O que estamos esperando? — perguntou o rato-castor. — Cada minuto é precioso, se quisermos pegar esse monstro — a seguir teleportou-se em direção à comporta.
Gucky devia sentir uma raiva imensa pelos dois traidores. Ao que parecia, não se dava ao trabalho de examinar os motivos que os tinham levado a proceder dessa forma. O rapto de Thora era um ato que falava por si.
Rhodan transmitiu mais algumas instruções à tripulação da Lotus e seguiu Noir e Gucky para o interior da comporta, cuja escotilha se fechou com um baque.
Dali a dez segundos, o disco saiu do cruzador e, mantendo velocidade constante, deslocou-se em queda livre em direção ao planeta distante. A Lotus mudou de curso e tomou o rumo que a conduziria à posição em que entraria na órbita prefixada.
Rhodan estava sentado atrás dos comandos. Noir achava-se a seu lado, esperando. As mãos do hipno encontravam-se pousadas nos controles, que ativariam numa questão de segundos o potencial defensivo da nave. Gucky manteve-se inativo. Estava sentado diante do equipamento de rádio, mas não o havia ligado.
Volat aproximou-se rapidamente. Logo chegou a hora de frear a Gazela, que desenvolvia a velocidade da luz. Embaixo deles, o planeta girava sob os raios ofuscantes do sol. Naquele instante, Kuklon estava penetrando no campo de visão, sob a forma de um emaranhado de grandes construções e vias elevadas perfeitamente identificável nas telas. Ao lado da cidade ficava o amplo espaçoporto, no qual se comprimiam as naves pertencentes a várias inteligências. Era ali que se encontrava a vida civilizada do planeta, diante da qual os habitantes primitivos mantinham uma atitude passiva.
Viviam nas matas e nos planaltos. Uma agricultura rudimentar e a caça propiciavam-lhes os meios de subsistência. Não se interessavam pelos arcônidas, saltadores e outras raças, que haviam transformado seu mundo numa base do império legendário.
Só queriam ser deixados em paz.
Rhodan fez a Gazela V descrever uma curva e aproximou-se da face noturna do planeta de Volat. Desceram mais e passaram pouco acima das matas infindáveis, raras vezes interrompidas por grandes lagos. Os vales largos dos grandes rios revelavam a existência de um suprimento apreciável de água. As telas de luz infravermelha revelavam que nas encostas havia indícios de atividade agrícola.
Dentro de uma hora Kuklon atingirá a linha de interseção da face diurna e noturna — disse Noir. — Acho que devemos esperar até lá para pousarmos.
Vamos pousar antes disso, Noir — respondeu Rhodan e deixou que o disco descesse mais um pouco. — Em algum lugar lá embaixo, não muito longe de Kuklon, deve estar Fellmer Lloyd — virou-se para Gucky. — Ainda não captou nenhum impulso?
O rato-castor sacudiu a cabeça sem dizer uma palavra.
Passaram pouco acima de um grande platô de pedra, mas nem sequer a tela infravermelha mostrou qualquer coisa fora do comum. O platô estava desabitado, ou então os volatenses haviam camuflado perfeitamente as suas habitações.
Rhodan cometeu um erro. Desativou o campo defensivo que no espaço os protegia contra os meteoritos. É que esse campo também os protegia contra os projéteis e os raios energéticos disparados pelas naves inimigas.
O ataque foi tão surpreendente que nenhuma defesa pôde ser esboçada antes que os danos ultrapassassem o limite crítico.
Um feixe energético verde-azulado surgiu do nada e atingiu a popa da Gazela V. O solavanco quase arrancou Rhodan do assento do piloto, atirou Noir ao solo e fez com que Gucky escorregasse através da sala de comando.
O disco começou a cair.
O segundo disparo energético passou ao lado deles e abriu uma clareira chamejante entre as árvores gigantes da mata.
O disco planou obliquamente em direção à mata. Não obedecia ao jato direcional, mas a queda pôde ser contida um pouco, motivo por que o impacto não seria tão forte.
Foram os saltadores! — resmungou Gucky em tom furioso e continuou a perscrutar seu interior. — Isso mesmo, os mercadores galácticos, nossos velhos amigos. Não têm a menor idéia de quem sejamos. Agiram de acordo com as ordens superiores.
Procure ler mais alguma coisa em seus pensamentos — gritou Rhodan. — Atenção! Pousaremos dentro de dez segundos. Assim que tocarmos o solo, corram para fora da nave.
Os dez segundos transformaram-se numa eternidade.
De repente, os microfones externos captaram o estalo dos galhos e o estrondo produzido pelo impacto da nave. Um forte solavanco sacudiu a Gazela. Todos os objetos móveis foram atirados para fora de seus lugares.
Segundos antes do impacto, Rhodan atirou-se para trás, apoiando-se nos braços e nas pernas. Escorregou lentamente, atravessou a sala de comando e acabou deitado junto à poltrona do piloto. E logo depois do baque, a tontura passou.
Rápido! Vamos dar o fora antes que voltem e nos liquidem de vez.
Estas palavras despertaram Noir, que caíra de lado para fora da poltrona e batera com a cabeça contra o revestimento metálico de um instrumento. Um filete de sangue escorria de sua testa, mas de resto parecia estar em perfeitas condições.
Quem se dera melhor fora Gucky. Nem estava na sala de comando.
Antes que a Gazela tocasse o solo, teleportou-se para o ar livre. Não teve tempo de levar Rhodan ou Noir, motivo por que se viu só, a menos de cinqüenta metros de distância, quando a nave se precipitou pelas copas das árvores e tocou o solo. Assim que isso aconteceu, saltou para dentro da comporta de ar e abriu a escotilha interna e externa.
Rhodan arrastou Noir.
Quebrou algum osso? — perguntou. No corredor ouviu-se um ruído; devia ser Gucky. — Sente dores?
Só a cabeça dói — disse Noir com um gemido, colocando a mão na testa. — Acho que quebrei alguns instrumentos.
Isso já não importa — disse Rhodan para consolá-lo e viu o rato-castor, que se encontrava do outro lado da escotilha aberta. — Procure controlar-se. Devemos sair daqui o mais rápido possível.
Os dois homens atravessaram o corredor estreito aos tropeções e atingiram a comporta. Dali a dez segundos, corriam juntamente com Gucky em direção à mata espessa, sem olharem para trás.
O ruído do destróier que se aproximava era inconfundível e dizia mais que quaisquer palavras.
Logo sentiram-se ofuscados pela luz da explosão. A onda de compressão obrigou-os a se atirarem ao chão. Rhodan ainda se deu ao luxo de virar a cabeça.
Uma sombra espessa encobria as inúmeras estrelas. Os contornos da outra nave eram pouco nítidos, mas a mesma devia ser maior que a Gazela. Os desconhecidos não tiveram nenhuma dificuldade em descobrir a nave derrubada por meio dos instrumentos de localização. Depois acenderam os holofotes, que mergulharam os destroços da Gazela numa luz ofuscante.
Rhodan, Noir e Gucky penetraram um pouco mais na floresta.
Foi então que os atacantes cometeram uma tolice. Destruíram os destroços com um radiador de impulsos, que numa questão de segundos fez com que os metais da Gazela derretessem e se evaporassem.
Rhodan suspirou aliviado.
Tivemos sorte. Já receava de que fossem revistar nossa nave. Nesse caso poderiam ter encontrado certos indícios que dariam a um inimigo inteligente certas reflexões. Por enquanto Yatuhin e Tropnow não devem ter jogado seu trunfo principal; até agora ninguém sabe que a Terra ainda existe. É ao menos o que espero.
E por enquanto ninguém sabe que Rhodan acaba de pousar no planeta de Volat — resmungou Noir em tom natural. Lançou um olhar ligeiro para o rato-castor e acrescentou: — E é claro que também não sabem da presença de Gucky, o temível lutador.
Rhodan não respondeu. Viu os destroços que se desmanchavam na incandescência. À luz vermelha produzida pelos mesmos, notou o bojo brilhante da nave desconhecida. Procurou em vão captar os impulsos mentais dos tripulantes, para descobrir alguma coisa sobre suas intenções futuras. Talvez Gucky tivesse mais sorte.
Mas o rato-castor sacudiu a cabeça.
Já disse que são saltadores. Um desconhecido contratou-os e a central, que não sei onde fica, colocou-os na nossa pista. O sistema de alerta já devia ter nos localizado no espaço.
É um sistema bem organizado — disse Rhodan. — Será que os dois mutantes estão por trás disso?
Quem poderia estar senão eles?
Rhodan acenou com a cabeça e voltou a olhar o céu estrelado.
Ali o quadro era bem diferente daquele da Terra, situada nos confins da Via Láctea. Ali, na região central da Galáxia, o número de estrelas vistas a olho nu era bem maior. Uma faixa branca atravessava o firmamento e desenhava as nuvens escuras deixando-as nítidas.
A nave desconhecida desapareceu, mergulhou no escuro como se nunca tivesse estado ali. Acabara de cumprir sua missão e regressava à base desconhecida.
Rhodan fez um gesto furioso.
Terão que pagar a Gazela; e olhem que uma nave de reconhecimento de longa distância não é barata.
Noir levantou-se.
E agora? A cidade deve ficar a centenas de quilômetros daqui. A mata virgem...
Bem; ainda temos Gucky — disse Rhodan em voz baixa e também se levantou. Em torno deles havia apenas o silêncio, interrompido pelo farfalhar do vento nas copas das árvores. — Gucky poderá transportar-nos à cidade, se fizermos tanta questão disso. Mas acho que por enquanto não devemos aparecer. É melhor acreditarem que estamos mortos.
Porém estamos na mata virgem... Na minha opinião o ambiente não é nada confortável. Não sabemos quais são os riscos que nos ameaçam.
Pelos dados de que dispomos a respeito do planeta de Volat, os animais perigosos são bastante raros. Por aqui só temos um inimigo: a organização montada pelos amotinados. Essa organização nos caçará assim que souber que ainda estamos vivos.
Noir encolheu os ombros.
Não compreendo como um dos nossos homens pode conceber a idéia de matar o senhor — murmurou. — É uma coisa que ultrapassa minha capacidade mental.
Gucky emitiu um chiado furioso quando Rhodan respondeu:
A inveja produz o ódio, Noir. E o ódio torna possíveis as coisas mais inconcebíveis. O motivo de atos incompreensíveis nasce com o ódio, que pode não ter fundamento, mas às vezes tem. A raiva que sinto por Tropnow tem fundamento. Será que isso faz alguma diferença sob o ponto de vista moral?
A resposta não veio. Noir manteve-se de pé, mudo e em atitude rígida, fitando a escuridão impenetrável da mata. Olhava para o oeste, na direção aproximada em que devia ficar Kuklon.
O que houve? — perguntou Rhodan em tom preocupado.
O hipno apontou para a escuridão.
Não sei qual é a distância, mas o fato é que por aí há seres vivos. Estão pensando, mas não compreendo suas idéias. Estão conversando sobre coisas que para mim não significam nada.
São nativos?
Não faço a menor idéia; provavelmente são volatenses. Que seres serão estes, Sir?
Rhodan recordou o ligeiro estudo realizado em Terrânia. O que os catálogos dos arcônidas informavam sobre Volat, o segundo planeta do sol Heperés?
Os volatenses descendem de insetos, mas evoluíram para uma forma humanóide. Seu andar é ereto, têm quase dois metros de altura, o corpo é ligado por finas articulações, têm cabeça grande e olhos salientes, encimados por antenas. Têm pele marrom-preta, em parte coberta por formações córneas. É uma raça inteligente e inofensiva que segue ritos estranhos. Sua forma de governo é a do matriarcado. Provavelmente isto constitui uma tradição do tempo em que eram insetos. São governados pela mãe onisciente, que exerce um poder ilimitado. Sua linguagem é imperceptível ao ouvido humano, porque se desenvolve na faixa do ultra-som. Um telepata não tem a menor dificuldade em comunicar-se com eles, desde que recorra à mímica. Noir, o senhor deve dar-se muito bem com eles, pois além de ser um telepata é um hipno, e por isso poderá sugerir-lhes alguma coisa.
São umas aves estranhas — resmungou Gucky e saiu em direção ao oeste. Seus olhos de lince haviam descoberto uma trilha estreita. — Estou curioso para saber o que dirão.
Rhodan sorriu ligeiramente. Também estava curioso.
Vamos atrás de Gucky — disse, dirigindo-se a Noir. — Ele tem uma tendência inata ao escotismo.
Noir caminhou na retaguarda. Cochichou:
No leste também há seres vivos. Estão atrás de nós.
Estou captando os impulsos mentais, mas não consigo interpretá-los — respondeu Rhodan em voz baixa. — São saltadores ou arcônidas?
São impulsos estranhos, idéias diferentes, sujeitas a uma limitação unilateral. Não, não são criaturas humanas.
Não são humanos? Será que são volatenses?
Noir sacudiu a cabeça, mas Rhodan não pôde perceber o gesto.
Em hipótese alguma. Os seres que estão à nossa frente são volatenses. Seu pensamento também é inumano, mas não é restrito. Os pensamentos que se desenvolvem atrás de nós parecem provir de cérebros condicionados. O senhor compreende?
Acho que sim. O senhor quer dizer que só podem pensar numa coisa determinada. Não é isso?
Exatamente, chefe. No cérebro deles há lugar apenas para a tarefa que lhes foi confiada.
Uma tarefa?
Isso mesmo — disse Noir em tom tranqüilo. — Só há lugar para a tarefa de prender-nos.

* * *

O platô erguia-se da planície coberta pela mata que se estendia até as cercanias da cidade de Kuklon. Não havia nenhuma estrada que conduzisse para lá, apenas caminhos solitários e trilhas secretas. Estas ultimas, conforme as circunstâncias, podiam ser utilizadas por certos veículos, mas bastava que chovesse por mais de dois dias para que até mesmo as esteiras mais largas atolassem na lama.
Não havia nenhum arcônida ou saltador que conhecesse a situação do platô. Era ali que residia a misteriosa governante dos volatenses, deusa e rainha ao mesmo tempo. O local servia de palco para certos ritos estranhos.
As residências dos nativos encontravam-se sob a proteção das copas das árvores, e eram feitas de um material semelhante ao usado pelas abelhas. Às vezes usavam a madeira, às vezes uma espécie de fibra, outras vezes o barro endurecido misturado com palha. As entradas pareciam tocas iguais aos buracos das colméias das abelhas; apenas eram maiores.
Esse platô de rocha, oculto e praticamente inacessível a quem não o conhecesse, era a verdadeira capital do mundo de Volat.
Numa das cabanas de aparência primitiva, Fellmer Lloyd achava-se estendido num leito baixo, segurando a mão de Kuri, que estava sentada sobre a cama, contemplando-o. Não podia ser considerada bonita na verdadeira acepção da palavra, pois sua formação óssea chamava demais a atenção; mas seus grandes olhos escuros com um ligeiro traço mongólico compensavam esse efeito. Tinha a pele avermelhada, e o cabelo cor de cobre. Era filha de um mercador galáctico.
Fellmer Lloyd lia seus pensamentos como quem lê num livro aberto. Era um localizador capaz de captar e analisar os modelos das ondas cerebrais. Além disso, era telepata, o que lhe permitia reconhecer perfeitamente as emoções de outros seres. Sabia que Kuri gostava dele.
Estamos em segurança, Fellmer — disse Kuri, dando um tom firme à voz. — Aqui ninguém nos encontrará.
Fellmer confirmou com um gesto. Embaixo da coberta leve de fibra, seu corpo largo e musculoso quase chegava a parecer pequeno e débil.
Ainda bem. Apenas gostaria de saber se o comandante Markus recebeu meu pedido de socorro e o retransmitiu.
Antes de mais nada você tem de curar-se — ponderou a moça.
Fellmer sacudiu a cabeça.
Não estou doente, meu bem. Apenas fui atingido pelo raio de uma arma de choque. Daqui a um ou dois dias, estarei em condições de andar. Precisamos fazer alguma coisa.
Kuri levantou os olhos. Alguma coisa se moveu na entrada da cabana. Alguém entrou.
Era um volatense. Kuri recebeu a estranha criatura com um sorriso amável, pois sabia que a mesma nunca lhe faria mal. As antenas que encimavam os olhos rígidos moviam-se, mas Kuri não ouviu nada. Lançou um olhar indagador para Fellmer que, de repente, aguçou o ouvido e ergueu o corpo.
O inimigo perdeu a pista e voltou à cidade — disse o volatense.
Só Fellmer pôde ouvir e compreender a voz. Um sorriso surgiu em seu rosto.
Obrigado, amigo. Vocês nos prestaram um grande serviço.
A grande mãe, a onisciente, ordenou que vocês fiquem conosco tanto tempo quanto quiserem.
Ainda hoje poderei sair da cama. Por mais que gostasse de aceitar o convite, vejo-me obrigado a recusar. Espero meus amigos, e estes nunca me encontrariam aqui.
O volatense aproximou-se.
Seus amigos são como você? — perguntou para certificar-se. — São homens iguais aos que entendem a nossa voz?
São iguais por fora — disse Fellmer, esquivando-se a uma resposta direta.
Também vêm do grande vazio?
Fellmer sabia que o grande vazio era o espaço cósmico. Os volatenses não praticavam a navegação espacial.
Sim, se quiserem ajudar-me terão que vir de lá.
O volatense acenou lentamente com a cabeça.
Então são eles — disse.
Fellmer sobressaltou-se.
Quem?
Ontem de noite surgiu uma pequena nave redonda vinda do grande vazio. Acontece que foi atacada e derrubada. Acabamos de receber a notícia.
Uma nave redonda?
Isso mesmo; uma nave redonda e achatada.
Fellmer assustou-se. Só poderia ser uma Gazela, uma nave do tipo da que ele possuía.
Rhodan...
O que aconteceu com os ocupantes da nave? — perguntou.
Não sabemos; talvez estejam mortos.
Fellmer ergueu-se abruptamente e colocou os pés no chão. Quando se viu de pé quase caiu, pois ainda se sentia muito fraco. As conseqüências do choque ainda não haviam sido superadas. Num gesto resignado sentou-se à beira da cama. Kuri o ajudou.
Ainda estou muito fraco — confessou. — Mas preciso saber o que aconteceu com as pessoas que se encontravam na nave derrubada.
O volatense fez um gesto afirmativo.
Não demoraremos em saber. A mãe onisciente mandou que alguns dos nossos penetrassem na grande floresta para procurar sua pista. Se estiverem vivos, nós os encontraremos.
Fellmer Lloyd deixou-se cair na cama.
Vocês têm de encontrá-los! — disse com um gemido e fechou os olhos.
O volatense afastou-se sem dizer mais nada. Kuri permaneceu em sua companhia. Lançou um olhar carinhoso para o rosto pálido do terrano.
Na Terra, a vida havia evoluído através de milhões de formas, a partir de uma única célula-mater. A conclusão final era a de que a evolução paralela da vida em todo o Universo só podia ser expressa através da respectiva potência.
E justamente essa conclusão revelara-se falha.
Nos diversos planetas, os terranos encontraram seres estranhos e formas inteiramente novas de evolução, mas o princípio da reprodução, da alimentação e da morte sempre se assemelhavam.
E os purrenses não constituíam exceção.
Viviam num planeta quente coberto de matas situado praticamente no centro da Via Láctea. Dispunham de uma inteligência limitada e, com os prós e contras, poderiam ser considerados uma raça feliz. Pelo menos o foram até que acabaram sendo descobertos pelas verdadeiras inteligências. Dali em diante, a felicidade chegou ao fim.
Foram principalmente os mercadores galácticos que perceberam o valor dos purrenses, que eram gatos grandes e robustos, fáceis de serem influenciados por via sugestiva. Se recebessem uma ordem hipnótica, eles a executavam, houvesse o que houvesse; nada conseguia desviá-los do objetivo. Os dentes robustos e as garras afiadas faziam com que se prestassem principalmente à vigilância de prisioneiros e à captura de fugitivos.
Cinco purrenses foram destacados para capturar os astronautas da nave derrubada, se os mesmos ainda estivessem vivos. E caso fosse necessário, matá-los. Deslocando-se num silêncio total através da selva noturna, seguiam seu instinto infalível, que nunca permitia que perdessem uma pista. Seus corpos ágeis, que mediam mais de dois metros de comprimento, desviavam-se de todos os obstáculos. Seus olhos de felino rompiam a escuridão. A ordem hipnótica transformara essas criaturas, originariamente tão pacatas, em feras perigosíssimas.
No momento em que os fugitivos resolveram fazer uma pausa para descansar, Gucky voltou a notar os impulsos cada vez mais intensos dos seres desconhecidos que os perseguiam.
Não estou gostando — cochichou para André Noir, que estava sentado a seu lado. — Nos pensamentos das criaturas que estão atrás de nós, há alguma coisa que me assusta. Minha mente se rebela diante da perspectiva de um confronto com os perseguidores. Não é propriamente medo. Nunca me aconteceu uma coisa dessas.
Rhodan ouvira atentamente. Sacudiu a cabeça.
Você nunca teve medo em toda sua vida, Gucky — disse em tom pensativo. Dirigiu-se a Noir. — O que é que o senhor está sentindo? Também está com medo?
Não; talvez poderia dizer que é uma certa aversão. Os perseguidores são criaturas medonhas. O pensamento de capturar-nos é tão intenso como se vivessem exclusivamente para cumprir essa tarefa. Seus cérebros trabalham apenas para esta finalidade; todas as outras funções foram “desligadas”.
Gucky mexeu-se, bastante inquieto, e se levantou.
Vamos dar o fora. Não quero...
Rhodan continuou sentado.
O que é que você não quer? — perguntou em tom amável, mas em sua voz havia um ligeiro tom de censura. — Gucky, você não é mais o mesmo.
O rato-castor olhou para a copa da árvore mais próxima.
Lá em cima estaríamos em segurança. Posso levar todos para lá. A corrida pelo mato deve ser inútil.
Talvez você tenha razão — admitiu Rhodan. — Acontece que, como sabe, por enquanto vejo-me obrigado a não recorrer aos seus dons sobrenaturais. Por enquanto devem pensar que somos gente normal, não que somos feiticeiros. Mais tarde...
Calou-se. Bem perto ouviu-se um farfalhar quase imperceptível.
Gucky encostou-se ao tronco de uma árvore. Os pêlos da nuca arrepiaram-se. Face ao elevado grau de concentração em que se mantinha, concluía-se que estava preparado para a qualquer momento teleportar-se a um lugar seguro. A seu lado, Noir perscrutou atentamente a escuridão. Rhodan mantinha-se imóvel.
Já chegaram muito perto. Seria preferível continuarmos, pois não quero encontrar-me com eles no escuro. De dia as coisas são diferentes. Se conseguirmos fazer com que só nos alcancem ao amanhecer, será mais fácil lidarmos com eles.
É verdade! — apressou-se Gucky em dizer e imediatamente se pôs a caminhar.
Noir seguiu-o cauteloso. Rhodan ficou na retaguarda, seguindo os amigos e olhando sempre para trás. Os ruídos haviam cessado. Era evidente que os perseguidores, fossem eles quem fossem, não dispunham do dom da telepatia ou de outras faculdades parapsicológicas.
As horas restantes da noite passaram-se numa tensão quase insuportável. Rhodan nunca vira o rato-castor tão nervoso e com tamanha disposição para fugir a qualquer momento. Seu instinto realmente o avisava da existência de um perigo inconcebível, de cuja natureza Perry e Noir não tinham a menor idéia. Por isso, esses dois não sentiam a ameaça tanto quanto Gucky.
O céu começou a clarear ao leste e as sombras da noite dissolveram-se rapidamente. O calor aumentou.
Atravessaram uma grande clareira e pararam embaixo das primeiras árvores.
Já que queremos esperar os misteriosos perseguidores, o melhor lugar será este — disse Rhodan e olhou em torno. — A vegetação é bastante densa para dar-nos cobertura. Por outro lado, o capim que cobre a clareira é tão baixo que não poderá esconder os perseguidores. Por isso seremos capazes de vê-los. O que acha, Gucky?
O rato-castor agachou-se e fungou cansado.
Você é um irresponsável porque me faz correr desse jeito quando seria capaz de transportar-me à face oposta do planeta com um único salto. Minhas perninhas...
Já sei — disse Rhodan com um sorriso bonachão. — Exigimos demais de suas perninhas, mas não posso fazer nada para evitar isso. Ainda estão muito longe?
Estava aludindo aos perseguidores. Gucky apontou na direção de onde tinham vindo.
Não estão longe. Felizmente não têm muita pressa. Mas não perdem a pista. Devem ter um faro excelente.
Rhodan parecia surpreso.
Um faro excelente? Quer dizer que seguem nossa pista que nem um cachorro?
Isso mesmo; que nem um cachorro ou que nem um felino.
Ah! — fez Noir e lançou um olhar pensativo para o rato-castor. — Que nem um gato?
O sorriso de Rhodan tornou-se mais intenso.
Já começo a desconfiar por que você tem tanto medo dos perseguidores, Gucky. Talvez sejam mesmo gatos; e todo mundo sabe que você não aprecia essa espécie.
Ao menos não gosto dos gatos grandes — disse Gucky. — Os gatos têm alguma coisa contra mim.
Noir olhou para a clareira.
Será que realmente mandaram animais atrás de nós? Por que eles mesmos não saem em nossa perseguição? Não seria muito mais fácil?
Não — disse Rhodan, seguindo o olhar de Noir. Por enquanto nada se movia em meio ao capim alto. — Não conhecem a mata e não sabem com quem estão lidando. O senhor não disse que os cérebros dos perseguidores só se ocupam dessa tarefa e parecem estar sujeitos a alguma forma de condicionamento? Pois é isso. Os gatos, se é que realmente são gatos, foram treinados para executar essa tarefa. Bem; veremos...
Subitamente Gucky ergueu o corpo. Sem aguardar permissão teleportou-se com um ligeiro salto para um galho grosso da árvore que ficava atrás dele. Encontrava-se a uma altura de quatro metros e olhava para a clareira. Seu pêlo continuava arrepiado. Soltou um grito estridente:
Estão chegando! Realmente são gatos; que bichos enormes... Têm dois metros de comprimento e um metro e meio de altura.
Rhodan e Noir só perceberam o movimento do capim. Estavam num lugar muito baixo para poderem ver mais que isso. Não perderam tempo: subiram na árvore e logo se viram ao lado de Gucky. O galho era bastante forte para suportar o peso dos três.
Na verdade, cinco gatos gigantescos atravessavam a clareira a menos de duzentos metros do lugar em que se encontravam. Tinham o nariz grudado ao chão e deixavam-se levar pelo instinto infalível. Rhodan assustou-se ao lembrar-se de que estavam desarmados. Por outro lado, não lhe parecia recomendável fugir com o auxílio de Gucky. Os gatos teriam bastante inteligência para informar seus chefes sobre o fenômeno inexplicável, e era o que Rhodan queria evitar.
Daqui a três minutos, estarão embaixo da árvore — chiou Gucky em tom exaltado. — Precisamos fazer alguma coisa.
Talvez não saibam subir em árvores — disse Noir.
Sabem, sim! — retrucou Gucky em tom indignado. — Só lhes garanto uma coisa: se fizerem isso, dou o fora. Vocês que façam o que quiserem com essas feras. Não quero ser estraçalhado por elas.
Nunca ouviram Gucky falar dessa forma.
O rato-castor era um “sujeito” valente, que não recuava diante de nada. O que teria acontecido com ele? Seria o pavor instintivo que sua raça sentia pelos gatos?
Quem foi que lhe disse que não pretendemos defender-nos, Gucky? — falou Rhodan sem tirar os olhos dos gatos. — Se quiser, pode começar agora. Mas faça-me o favor de agir de forma a não provocar suspeitas.
Os pêlos da nuca de Gucky grudaram-se à pele, como se estivessem obedecendo a um comando. O dente roedor fez uma débil tentativa para aparecer à luz do dia, mas a tentativa não foi bem sucedida. Subitamente Rhodan e Noir viram uma rocha solta que se encontrava a menos de vinte metros subir ao ar. Subiu tanto que mal se podia vê-la, sofreu um ligeiro desvio lateral e precipitou-se em direção ao solo.
Ninguém notou a rápida correção de rota realizada por Gucky.
A pedra caiu do céu como se fosse um meteorito. A pontaria fora correta. Antes de os felinos perceberem o que estava acontecendo, dois deles foram comprimidos para dentro do solo e tiveram morte instantânea.
Os três gatos restantes espalharam-se apavorados, mas recuperaram o autocontrole com uma rapidez espantosa. O fenômeno era totalmente inexplicável para seus cérebros, e por isso nem procuraram descobrir-lhe a causa. Ao que parecia, eram de opinião que a queda da pedra não tinha qualquer relação com as pessoas perseguidas. Dois dos companheiros haviam sido mortos, mas três purrenses seriam suficientes para localizar os desconhecidos e colocá-los fora de ação.
Voltaram a seguir a pista.
Isso não teria sido necessário — cochichou Rhodan para o rato-castor. — Por que teve que matá-los?
Se a pedra tivesse caído devagar, eles teriam suspeitado de alguma coisa — disse Gucky, que não demorou em encontrar uma desculpa. — Talvez pensem se tratar de uma estrela cadente.
Essa não é a pior piada que você já soltou — retrucou Rhodan e observou os três gatos que se aproximavam metodicamente da beira da mata. — Mas não posso deixar de confessar que também teria medo deles se fosse um rato.
Não sou um rato como qualquer outro — disse Gucky em sua defesa e dispôs-se a uma fala mais longa, mas viu-se interrompido por Noir.
Acabam de farejar-nos. Já sabem que estamos em cima da árvore.
Os três purrenses chegaram ao destino. Os olhos verdes e reluzentes olhavam para os fugitivos. Os três perseguidos encontravam-se bem perto, no galho mais baixo, e aparentemente os fixavam com um medo terrível.
Acontece que um purrense hipnotizado não sabe o que é compaixão.
No instante exato, Gucky levantou a barreira telecinética. Um dos gatos esbarrou na mesma em meio ao salto e caiu ao solo com um chiado furioso. Batera no obstáculo invisível enquanto se encontrava no ar.
Antes que o gato pudesse preparar o segundo salto, aconteceu uma coisa estranha, para a qual no primeiro instante não houve qualquer explicação.
No meio da mata, ouviu-se um “bum” abafado; o gato, que se dispunha a saltar, estremeceu e caiu lentamente. Executou alguns movimentos convulsivos com as pernas e imobilizou-se.
Ao que tudo indicava estava morto.
Rhodan esqueceu-se dos dois gatos que ainda restavam e procurou enxergar através da vegetação que se estendia ao leste. Não ouviu qualquer som, mas os órgãos telepáticos captaram alguns fracos impulsos mentais.
Eram volatenses!
O penúltimo dos gatos deu alguns saltos gigantescos em direção aos arbustos mais próximos. Porém foi atingido pelos atiradores invisíveis, caindo ao chão com um chiado agudo. Também estava morto.
O último gato fugiu em carreira desabalada.
Rhodan esqueceu-se dos volatenses e gritou para Gucky:
Não o deixe escapar, mas não o mate. Precisamos descobrir quem são as pessoas que lhe dão ordens. Será que consegue segurá-lo? Enquanto isso eu me ocupo com os nossos aliados inesperados.
Farei o que você pede, por mais difícil que seja — chiou Gucky e seus olhos seguiram o gato que se afastava em saltos gigantescos. — Vou prender o bicho.
Rhodan e Noir desceram da árvore e levantaram as mãos em direção à mata espessa. Sabiam que os seres que lhes haviam prestado auxílio os viam e não deixariam de compreender o gesto.
Ouviram um farfalhar; três volatenses saíram para a clareira. Suas mãos seguravam zarabatanas, que não estavam apontadas para Rhodan e Noir.
Somos amigos — disseram em sua linguagem inaudível. — A mãe onisciente lhes envia seus cumprimentos.
Ficamo-lhes muito gratos — disse Noir. — Os gatos nos estavam deixando num aperto.
Costumam ser chamados de purrenses — informou um dos volatenses. — São servos dos senhores de nosso mundo e já estraçalharam muitos dos nossos. São verdadeiras feras.
O último deles não escapará ao castigo; ainda não o matamos porque precisamos de algumas informações. Será que vocês conhecem um amigo nosso? Deve estar neste mundo. Seu nome é Fellmer Lloyd.
Era uma pergunta repentina, mas Noir não estava disposto a perder muito tempo. A resposta não foi menos abrupta.
Está conosco e espera por vocês.
Rhodan suspirou aliviado. Adiantou-se e estendeu a mão para os três seres estranhos. A mão foi apertada, e com isso a aliança entre as inteligências desiguais ficou definitivamente selada.
Neste meio tempo, Gucky saltara da árvore e caminhava gravemente com seus passos balouçantes pela clareira coberta de capim, onde o último dos purrenses achava-se imóvel, aguardando o destino que lhe estava reservado. Os fluxos telecinéticos expedidos pelo rato-castor o mantinham preso ao chão. Um brilho malévolo enchia os olhos esverdeados, mas nas camadas mais profundas notava-se o medo que aquela criatura sentia pelo poderoso adversário que o subestimara de forma tão imperdoável.
Quanto a Gucky, este já havia vencido o medo. Sentiu certa satisfação em colocar-se diante do inimigo preso e deliciar-se com a visão do mesmo. Ele, apenas um grande rato, tinha em seu poder um perigoso felino. Era uma pena que seus companheiros de raça do planeta Vagabundo não pudessem vê-lo, embora fosse provável que nem soubessem o que vinha a ser um gato.

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