Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
VITÓRIO
O regente
de Árcon descobre a verdade —
...Gucky
ganha um novo amigo.
Apesar
das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o trabalho
pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo,
realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto,
pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram
insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta
e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que
teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma
nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em outros
tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo
terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar.
Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os
mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são
utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de
substâncias minerais.
No
sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa
forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino
planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse
reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa
frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer
atacante.
Mas
Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não está
disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes
cósmicos todos eles mutantes do célebre exército — continuam a
ser instruídos no sentido de, em quaisquer circunstâncias, manter
em sigilo sua origem terrana. Porém...
Nesta
aventura, Rhodan se vê às voltas com um seqüestro... O seqüestro
de sua amada Thora!
= = = = =
= = Personagens
Principais
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— O
Administrador do Império Solar.
Gucky
— O
rato-castor; magnífico mutante.
Noir
— Outro
valoroso mutante.
Fellmer
Lloyd
— Agente
cósmico, também mutante.
Kuri
Onere
— Uma
jovem da raça dos saltadores.
Mansrin
— Arcônida,
governador de Volat.
Gregor
Tropnow
e
Nomo
Yatuhin
— Mutantes
rebeldes.
Talamon
— O
superpesado delator.
1
— A
solução mais simples seria matá-los todos, talvez com veneno de
rato.
Reginald
Bell, amigo e representante de Rhodan, fechou o punho e bateu na
pesada mesa de carvalho que ficava junto à janela. Do lugar em que
se encontrava tinha uma visão ampla sobre Terrânia, sede do governo
mundial.
— Isso
mesmo! Veneno de ratos — piou Gucky, que estava agachado em cima da
mesa.
Perry
Rhodan sacudiu devagar a cabeça e contemplou o oceano de pedra das
construções erguidas em meio a uma área fértil, que já fora tudo
menos isso. Essa área ficava na região que antigamente era
conhecida como o deserto de Gobi.
— Nosso
problema não será resolvido pela violência, amigos. Isso só nos
traria novos inimigos. Se essa gente não puder concordar com nossos
planos e nossa atuação, teremos de sugerir-lhes que procurem outro
lugar para morar. Na Terra não há lugar para eles, pois este
planeta pertence à humanidade unida, e a ela não pertencem os
indivíduos que não queiram integrar-se.
— Será
que terão de fixar-se na Lua? — perguntou Bell em tom admirado,
lançando um olhar encorajador para Gucky, seu amigo do peito.
Naturalmente não estava falando sério quando aludiu à
possibilidade do envenenamento, mas de qualquer maneira sua atitude
parecia mais radical que a de Rhodan. — Acho que até Vênus ainda
ficaria muito perto.
— Vamos
despachá-los para uma via láctea mais próxima — sugeriu Gucky. —
Ali não poderão fazer mal a ninguém.
Mais uma
vez Rhodan sacudiu a cabeça.
— Vocês
caem de um extremo no outro. Procurem uma solução mais cabível
para o caso. Tentem refletir. Os chamados colonos livres não querem
submeter-se às nossas determinações. Não reconhecem o governo
mundial. Vocês acham que devemos matar algumas dezenas de milhares
de pessoas, somente porque alguns fanáticos não sabem raciocinar
logicamente? Nada disso; devemos fazer exatamente o contrário. Vamos
ajudá-los.
— Bem,
bem — disse Gucky e lançou um olhar de tédio para o teto, como se
por lá ainda pudesse fazer alguma descoberta interessante. —
Devemos prestar auxílio aos coitados dos nossos inimigos...
— O que
pretende fazer? — perguntou Bell inclinando-se para a frente, em
direção a Rhodan, que estava sentado bem à sua frente. Gucky
estava agachado um pouco ao lado, pois como telepata já conhecia a
disposição que Bell tinha de engajar-se a favor de Rhodan.
— Serão
expatriados — disse Rhodan. — Colocarei à sua disposição uma
das grandes naves esféricas, dou-lhes uma tripulação de duzentos
homens e mando que sigam viagem. Poderão deixar a Terra e procurar
outro planeta, onde farão e deixarão de fazer o que melhor lhes
aprouver Não nos preocuparemos mais com eles. Não acha que é a
melhor solução e a mais simples?
Bell
acenou lentamente com a cabeça, mas Gucky disse em tom estridente:
— Continuo
a achar que seria melhor envenená-los, mas afinal não sou nenhum
monstro. Concordo com qualquer coisa, desde que consigamos livrar-nos
dos rebeldes. Só faço votos de que não se encontrem com nenhum
saltador ao qual possam revelar a posição da Terra.
— Quando
isso acontecer, não se recordarão da mesma — prometeu Rhodan ao
perceber que seus amigos concordavam com a decisão que acabara de
tomar. Fora mais fácil convencer o maciço Bell com os cabelos
cortados à escovinha que ao teimoso Gucky, um rato-castor
extremamente inteligente e um dos mutantes mais capazes. — Mandarei
que nossa proposta seja apresentada aos porta-vozes dos colonos
livres.
— Por
que você vive falando em colonos livres? Será que os outros colonos
da Terra não são livres pelo simples fato de se submeterem ao
governo mundial? — Bell apoiou o queixo nas mãos. — Será que
nisso não existe algum paradoxo?
— São
eles mesmos que se designam assim — explicou Rhodan. — Em nossos
registros oficiais estão consignados sob a designação de Colonos
Livres Associados. Ou, abreviadamente, CLA.
— Que
sensato! — disse Bell com um sorriso, olhando para Gucky. — Que
acha disso, seu roedor de cenouras?
O
rato-castor exibiu seu único dente, revelando estar disposto para
uma brincadeirinha, pois não levara a mal a alusão às suas
tendências vegetarianas.
— Nada
mau, Bell, nada mau. A abreviatura poderia dar a entender que se
trata de um novo apelido para você...
Bell
procurou atingir Gucky, mas este foi mais rápido. Teleportou-se para
a extremidade oposta da mesa, onde estaria em segurança. Em seus
olhos brilhantes lia-se a intenção de utilizar a terceira faculdade
parapsicológica de que dispunha, a telecinese, se Bell não ficasse
bem comportadinho.
Acontece
que Bell não estava com nenhuma vontade de ser atirado para o teto.
Fez um gesto ligeiro com a mão.
— Continuemos
amigos, Gucky. Não vamos brigar por uma tolice destas. O que
pretende fazer mesmo, Perry?
Gucky
voltou ao lugar anterior, completamente tranqüilizado.
Rhodan
disse:
— A
tripulação já está sendo selecionada. Daqui a algumas semanas, a
nave poderá decolar, e com isso nos livraremos das preocupações
com os rebeldes; é ao menos o que espero. Quem não estiver
satisfeito com as condições reinantes na Terra poderá seguir nessa
nave.
— Tomara
que não sejam muitos — resmungou Bell, piscando os olhos. —
Senão enviaremos uma frota.
— Dificilmente.
O que houve, Gucky?
O
rato-castor manteve a cabeça inclinada, numa posição esquisita:
perscrutava seu interior. Evidentemente estava recebendo uma mensagem
telepática. Também era possível que por pura coincidência tivesse
captado alguma coisa em que estava muito interessado. Nesse meio
tempo, Rhodan também se transformara num telepata, mas via-se
obrigado a confessar que neste ponto o rato-castor tinha uma
superioridade tremenda sobre ele. Rhodan geralmente só conseguia
captar pensamentos enfeixados e direcionais, e mesmo estes apenas em
condições extremamente favoráveis. Quanto a Gucky, este sabia
localizar e compreender qualquer impulso cerebral. Mesmo que esse
impulso não se destinasse a ele.
— Um
instante! — piou Gucky e esperou. Subitamente levantou os olhos. —
Daqui a pouco a central de comunicações vai chamá-lo, Rhodan.
Trata-se de uma mensagem importante vinda do espaço. Não tenho a
menor idéia do que se trata.
Rhodan
contemplou a tela vazia que cobria a parede lateral da sala. Essa
tela ligava-o diretamente ao centro de rádio de Terrânia. Se
quisessem alguma coisa dele, usariam...
Já estava
chegando!
De repente
a tela iluminou-se e formou uma imagem muito real. Um homem sentado
atrás da mesa de controle olhava para o interior da sala como se a
parede tivesse desaparecido e, com ela, todos os muros divisórios.
As câmaras e os microfones ocultos ligaram-se automaticamente. A
comunicação entre o gabinete de Rhodan e a central de rádio
acabara de ser estabelecida.
— Há
uma mensagem importante vinda da Lotus, chefe. O comandante, Capitão
Markus, expediu o sinal de emergência. A Lotus está regressando à
Terra. Poderá chegar ainda hoje. A comunicação foi interrompida
antes que eu pudesse confirmar.
O rosto de
Rhodan tornou-se muito sério.
— Não
tem qualquer outra indicação, Miller?
— Nenhuma,
chefe. A mensagem veio sob a forma de um impulso concentrado cuja
duração não foi superior a um décimo de segundo. Não tive
oportunidade de realizar a determinação goniométrica.
— Obrigado
— disse Rhodan. — Continue em recepção e avise-me imediatamente
caso a Lotus volte a chamar.
— Então?
— perguntou Bell, que também parecia muito preocupado. — O que
significa isso?
— Isso
significa que a quatro mil e trezentos anos-luz daqui ou, mais
precisamente, no Sistema de Heperés, alguma coisa não anda bem. Não
demoraremos em saber o que é. Talvez saibamos ainda hoje.
— E os
CLA? — chiou Gucky.
— Isso
tem tempo, Gucky. Não devemos dar-lhes tanta importância. No
momento, só o comandante Markus é importante para mim.
Bell
levantou-se.
— Vou ao
espaçoporto. Afinal, Markus não poderá levar tanto tempo para
percorrer estes miseráveis quatro mil e trezentos anos-luz. É
apenas um pulo de gato pelo hiperespaço.
Gucky
sacudiu-se e efetuou uma teleportação que o levou ao chão.
— Não
sei por que Bell sempre tem de revelar tamanha insensibilidade,
falando de gatos na minha presença. Será que ninguém lhe ensina
que isso não se faz?
Rhodan
seguiu os dois com os olhos, mas em seu rosto não havia o sorriso
costumeiro para o qual nunca deixava de ter tempo quando os dois
amigos se pegavam.
E foi o
que aconteceu, no corredor, e não no gabinete de Rhodan.
* * *
O
comandante Jim Markus só pousou dali a vinte horas.
Disse ter
demorado devido a uma espera adicional de notícias do agente cósmico
Fellmer Lloyd, desaparecido no planeta Volat. Quando viu que as
mensagens não chegaram, resolveu voltar imediatamente à Terra a fim
de informar Rhodan.
Além de
Bell e Gucky, o mutante André Noir assistiu à palestra. Tratava-se
de um excelente hipno que, de certo tempo para cá, também tornou-se
possuidor do dom da telepatia.
— Quer
dizer que, conforme era previsto, largou Lloyd no planeta? —
perguntou Rhodan para certificar-se mais uma vez, depois que Markus
havia iniciado seu relato. — O que aconteceu depois disso?
— O que
sei é pouca coisa — confessou o comandante. — Lloyd se fez
passar por um prebonense e procurou entrar em contato com Sikeron,
nosso elemento de ligação que foi assassinado. Na oportunidade
travou conhecimento com Kuri Onere, filha de um mercador galáctico
estabelecido no planeta. Os habitantes primitivos do planeta de Volat
são insetos, cuja vida se guia por ritos desconhecidos e que são
chefiados por uma mulher, a mãe onisciente. Com o auxílio desta,
conseguiu reunir em torno de si um grupo de inteligências, que foi
posto em campo contra dois homens cercados de mistério. Os dois
desconhecidos dotados de poderes sobrenaturais são membros de seu
Exército de Mutantes, Sir.
São
dois rebeldes.
Rhodan
inclinou-se para a frente. Seu rosto não revelou a menor emoção.
— Fale-me
sobre eles, por favor.
— Trata-se
de Nomo Yatuhin, um telepata pouco eficiente, e de Gregor Tropnow, um
hipno. Ambos se sentem prejudicados porque no planeta artificial
Peregrino não lhes foi concedida a ducha celular que prolonga a
vida. Fixaram-se em Volat onde organizaram a resistência contra a
Terra. Juntamente com os saltadores e outros súditos do Império
Arcônida tramam o ataque à Terra, assim que surja uma oportunidade
favorável.
— Minha
gente! — murmurou Rhodan, fora de si.
Parecia
que custava a acreditar no que acabara de ouvir.
Bell
mantinha-se num silêncio obstinado.
— Em
todo lugar aparecem traidores — disse Markus para consolá-lo. —
Conseguiram localizar e assassinar Sikeron antes que o mesmo tivesse
tempo de transmitir à Terra aquilo que ficara sabendo. Ao que
parece, Fellmer Lloyd também foi liquidado. Ao menos não consegui
captar-lhe mais nenhum sinal de vida. Sua última mensagem dizia mais
ou menos o seguinte: “Três
toques de sino. Alarma geral. Yatuhin e Tropnow são traidores.
Ataque contra a Terra está sendo planejado. Cuidado!”
— O que
aconteceu com Fellmer Lloyd?
— Ninguém
sabe. Desapareceu juntamente com a moça chamada Kuri. De uma coisa
temos certeza: não foram mortos pelos nativos, que até lhes
prestaram ajuda.
Rhodan
ficou em silêncio por alguns minutos. Os outros também se
mantiveram calados para não perturbá-lo. Noir e Gucky, que eram
telepatas, podiam acompanhar as reflexões do chefe, pois este não
bloqueou o cérebro.
Finalmente
disse:
— A
Lotus está pronta para decolar, comandante Markus? Muito bem. Noir,
Gucky e eu iremos com o senhor, ainda hoje.
O silêncio
que se formou após estas palavras durou apenas um segundo. Bell logo
gritou em tom indignado:
— E eu?
Não me diga que pretende...
— Infelizmente
pretendo, meu caro — disse Rhodan em tom tranqüilo. — Quem pode
ocupar meu lugar por aqui a não ser você?
— Um bom
cargo, que lhe proporciona muita honra — disse o rato-castor em tom
zombeteiro e exibiu seu dente roedor num sorriso de escárnio. — Ao
menos aqui sua preciosa vida não correrá o menor perigo. Além
disso, Noir, o chefe e eu saberemos dar conta deste recado que não é
nada difícil...
— Meia-porção
— resmungou Bell em tom zangado, segurando-se na borda da mesa.
O
rato-castor preferiu não dar nenhuma demonstração de suas
faculdades telecinéticas. Com um salto ligeiro, transportou-se para
o colo de Rhodan, lançou um olhar franco para o chefe e piou:
— Já
não estou aqui, chefe. Antes de decolarmos quero arranjar uma coisa.
Até lá.
Antes que
Rhodan pudesse dizer qualquer coisa, Gucky se desmaterializou.
Ninguém tinha a menor idéia do que pretendia arranjar.
— Que
sujeitinho engraçado — observou Markus, fazendo Bell irromper numa
risada que quase chegava a ser histérica.
Rhodan
olhou para Noir, que estava sentado à sua frente.
— Providencie
para que Anne Sloane seja avisada. No momento encontra-se em Port
Vênus e deve ser informada sobre o paradeiro dos mutantes. Daqui a
uma hora encontramo-nos no espaçoporto, a bordo da Lotus. Markus,
venha comigo.
Bell
acompanhou-os com os olhos enquanto saíam da sala. Depois
levantou-se lentamente, caminhou para o lado oposto da mesa e
acomodou-se na pesada poltrona em que Rhodan costumava sentar.
A
modificação transitória no governo de Terrânia fora realizada sem
o menor espalhafato.
Naquele
momento, Bell segurava todos os fios: os fios que mantinham unido o
Império Solar de Rhodan.
* * *
O choque
surgiu poucos minutos após a decolagem da Lotus.
O pequeno
cruzador ainda estava apoiado nas colunas telescópicas. Aquela
esfera metálica reluzente media cem metros de diâmetro, mas isso
não era nada em comparação com as naves esféricas de oitocentos e
mesmo mil e quinhentos metros. A Lotus era uma nave pequena mas, se
necessário, também saberia defender-se. Além disso, havia a bordo
uma instalação de hiper-rádio e um compensador estrutural,
equipamentos que de algum tempo para cá se encontravam em quase
todas as naves do Império Solar. Esse estruturador fazia com que os
hipersaltos não pudessem ser medidos. As naves de Rhodan podiam
percorrer o espaço em silêncio, sem serem percebidas pelas estações
localizadoras dos arcônidas ou de outras raças inteligentes,
espalhadas por toda parte.
Os
tripulantes dirigiram-se aos postos que deviam ocupar durante a
decolagem.
Os
passageiros se haviam reunido na sala de comando. Rhodan estava
sentado na poltrona do co-piloto, ao lado de Markus. Como de costume,
Gucky se encontrava deitado num dos sofás e, ao que parecia, sentia
muito a falta de Bell. O hipno André Noir acomodara-se numa poltrona
de reserva.
As telas
estavam acesas. Na sala de astronavegação, que ficava ao lado, o
cérebro positrônico expelia os dados do hipersalto iminente.
Markus
colocou a mão sobre a chave do acelerador.
O
espaçoporto, a cidade de Terrânia, o continente asiático e por fim
o globo terrestre mergulharam na imensidão do espaço.
A
aceleração era tamanha que, logo após vinte minutos, a Lotus
atingiria a velocidade da luz. A transição poderia ser iniciada no
setor espacial situado entre os planetas externos do sistema.
Foi mais
por um pressentimento que Rhodan disse subitamente:
— O
rádio está em recepção?
Markus
parecia espantado.
— Por
quê? Dentro do sistema solar só se costuma usar o rádio comum.
Daqui a pouco as ondas não nos atingirão mais.
Uma ruga
vertical surgiu na testa de Rhodan.
— Nem
tanto! Em caso de necessidade também se permite o uso do
hiper-rádio.
— Conta
com alguma emergência? Qual é?
— Ninguém
pode saber qual é a emergência que pode surgir neste ou naquele
momento. Acho melhor que as comunicações com a Terra sejam mantidas
até o último instante.
Markus deu
de ombros e pegou o microfone do intercomunicador.
— Sala
de rádio? Fique em recepção até que se realize a transição.
Isso mesmo! São ordens do chefe.
Rhodan
recostou-se na poltrona. Meio distraído, ficou ouvindo os sinais que
estavam sendo captados e transmitidos para a sala de comando. Tinha
os olhos pousados na tela de visão global, que trazia o espaço
cósmico circundante para o interior da sala.
Ali estava
a Terra, que mergulhava cada vez mais rapidamente no abismo do espaço
e diminuía a olhos vistos. Qualquer astronauta estava perfeitamente
familiarizado com o quadro, mas nenhum humano jamais se saciara de
contemplar o formoso planeta verde-azulado.
Bem ao
lado do disco ofuscante do Sol estava Vênus, que parecia uma foice
bem iluminada. Marte, o planeta vermelho, passou numa posição
lateral e, aumentando de velocidade, tomou a direção da popa da
nave — se é que num artefato esférico se podia falar em popa.
As
interferências no alto-falante tornavam-se cada vez mais fortes,
embora a nave se afastasse do Sol. As ondas normais de rádio eram
refletidas pelo anel de asteróides e captadas pelas antenas.
Subitamente
uma voz rompeu a profusão de sinais e ruídos de interferência.
Era uma
voz forte e áspera.
— Alô,
Perry Rhodan! Responda. Aqui fala o Coronel Derringer, do Serviço de
Segurança de Marte. Estou chamando Perry Rhodan. Aqui fala...
Rhodan
estremeceu, mas a surpresa apenas durou uma fração de segundo.
Antes que o comandante Markus pudesse fazer um movimento Rhodan
saltou da poltrona e correu em direção ã sala de rádio. Gucky
seguiu-o com os olhos. Parecia perplexo, mas continuou onde estava.
No momento
em que Rhodan entrava na pequena sala repleta de aparelhos, o
operador de plantão estava estabelecendo o contato com Marte. Lançou
um olhar indagador para Rhodan.
— A
mensagem veio pelo hiper-rádio. Quer responder?
— Estabeleça
contato com Derringer. Quero falar com ele.
O Coronel
Derringer continuava a chamar ininterruptamente e com a mesma
insistência. Seu receptor devia estar em funcionamento, a fim de que
não perdesse a resposta.
— O
contato foi estabelecido — disse o operador de rádio, entregando o
microfone a Rhodan. — Pode falar, Sir.
Perry
aguardou que o coronel fizesse uma pausa e disse:
— Aqui
fala Rhodan, a bordo da Lotus. O que houve, Coronel Derringer?
Por alguns
segundos reinou o silêncio. Isso não foi devido ao pequeno espaço
de tempo que a onda de rádio consumiria para percorrer os oitenta ou
cem milhões de quilômetros de ida e volta a Marte, pois a demora
não seria superior a um milésimo de segundo. O silêncio foi
causado exclusivamente pela surpresa de Derringer, que não esperava
receber resposta tão depressa.
Mas sua
resposta foi lacônica e precisa:
— Graças
a Deus, Sir!
Qual
é sua posição?
— Pouco
antes do anel dos asteróides.
— Muito
bem. Volte e pouse em Marte.
— Por
quê?
— O
senhor deu ordem ao mutante Gregor Tropnow para que viesse buscar
Thora?
Rhodan
empalideceu e segurou-se na mesa com a mão livre. Seus lábios
transformaram-se num traço finíssimo, e só a contragosto se
abriram para falar.
— Não,
coronel. Estava previsto que minha esposa ficaria em Marte até o fim
de suas férias. O que aconteceu?
— Sinto
muito, Sir,
mas,
nesse caso, suspeita-se de que sua esposa tenha sido seqüestrada.
Foi o que disse Mr.
Bell,
com o qual acabamos de entrar em contato. Há poucas horas o mutante
Tropnow pousou no planeta e disse ter recebido ordens para levar
Thora. Disse que surgiram imprevistos, e disseram ser necessária a
presença da arcônida em Terrânia. Thora saiu de Marte há
exatamente duas horas.
Ao que
parecia, Rhodan recuperara o autocontrole. Sua voz não revelava a
menor comoção, mas o rosto continuava pálido.
— Por
que as investigações não foram iniciadas mais cedo?
O Coronel
Derringer hesitou um pouco e respondeu:
— Ninguém
poderia desconfiar de que Thora estava sendo seqüestrada. Os membros
do Exército de Mutantes sempre têm merecido toda confiança.
Era
verdade. Subitamente Rhodan deu-se conta de que nenhum homem podia
merecer uma confiança absoluta e incondicional; em algum recanto
recôndito do coração estava escondido o germe da traição. Ou
estaria enganado? Não teria sido ele mesmo quem colocou o germe da
traição no coração de Tropnow, ao recusar-lhe a ducha celular no
planeta Peregrino?
Não
importava...
— Preste
atenção, Derringer. Não irei a Marte. Sei para onde Thora foi
conduzida. Prossiga nas investigações e comunique em que tipo de
nave Thora foi levada.
— Já
descobrimos. Foi numa nave de reconhecimento de longo alcance tipo
Gazela.
— Excelente!
Já é alguma coisa. Mantenha-se em ligação com Bell. Estou em
contato de hipercomunicação com o mesmo. Ele me avisará sobre
qualquer novidade. Mais um detalhe. O senhor não tem culpa de nada,
coronel.
Ouviu-se
um suspiro de alívio.
— Obrigado.
Apenas cumpri meu dever...
— Às
vezes até isso pode ser um erro. Passe bem.
A
comunicação foi interrompida.
O operador
de rádio desligou com os dedos trêmulos e lançou um olhar aflito
para Rhodan. Seus lábios moviam-se como se quisesse dizer alguma
coisa, mas ao que parecia não tinha coragem. Perry, que imaginava os
pensamentos daquele homem mais do que os lia, colocou a mão sobre
seu ombro.
— Obrigado,
amigo. Esse golpe sujo não adiantará nada para esse sujeito; apenas
agravará a pena que o espera. Nada acontecerá a Thora.
Nada
acontecerá a Thora...!
Enquanto
voltava à sala de comando, as lembranças e os sentimentos
atravessavam seu cérebro como se fossem raios eletrônicos.
Continuava a sentir por Thora o amor que sentira desde o dia quando a
conhecera, muito embora naquele primeiro encontro ainda não
desconfiasse de que era o amor que o atraía para junto daquela
mulher misteriosa, cujo mundo primitivo não era a Terra. Sim, ele a
amava. Ele, o homem que havia alcançado a imortalidade relativa, e
que tinha a idade de 104 anos e o aspecto de um homem de quarenta,
amava a arcônida Thora, a qual não fora agraciada com o dom da
imortalidade. Era bem verdade que o elixir da vida, subtraído aos
aras, mais uma vez detivera o processo de envelhecimento. Mas por
quanto tempo...?
E agora
queriam tomar-lhe Thora.
Tolice!
Já a
haviam tomado.
Quando
entrou na sala de comando, André Noir veio a seu encontro. Uma vez
que era telepata, já estava informado sobre o que havia acontecido.
— Esses
patifes! Vamos...
— Deixe
para lá, Noir. Ninguém escapa ao castigo que lhe cabe. Até agora
sempre pude respeitar meus inimigos, pois geralmente travavam uma
luta honesta e varonil. Seqüestrar uma mulher para exercer chantagem
contra o marido é a coisa mais vergonhosa que se pode imaginar. Só
mesmo um monstro conceberia uma idéia dessas.
— Eu
mesmo torcerei o pescoço desse monstro — piou Gucky, que
continuava imóvel no sofá. — Ele não me escapa.
Rhodan
lançou um olhar para Markus.
— Quando
será realizada a transição?
— Dentro
de dois minutos e quarenta segundos, se não houver nenhuma
modificação — hesitou um momento. — O curso e as coordenadas
serão mantidas?
— Nosso
destino é Volat. O seqüestrador é Tropnow, que foi reconhecido
nesse planeta por Fellmer Lloyd. Não podemos perder um segundo, se
não quisermos chegar tarde.
— Para
Tropnow nunca chegarei tarde; poderei chegar cedo demais —
resmungou Gucky no seu canto.
Rhodan não
respondeu. Estava sentado em sua poltrona, mudo e com os lábios
cerrados, fitando as telas.
Continuou
assim, mesmo quando as estrelas haviam desaparecido, dando lugar ao
terrível vazio do hiperespaço, em que não existia matéria nem
tempo...
II
Seis
planetas gravitavam em torno do sol Heperés, mas só o segundo
estava habitado. O mundo de Volat, que se situava a mais de 4 mil
anos-luz da Terra, ainda ficava dentro do Império Arcônida. Era um
dos entrepostos comerciais mais importantes dessas inteligências da
Via Láctea.
Em Kuklon,
a capital, existia o maior espaçoporto; era ali que tinha sua sede o
administrador arcônida de Volat. Permanecia nesse mundo estranho por
ordem do cérebro positrônico de Árcon, a fim de defender os
interesses do Império sempre que isso se fizesse necessário. O
Império de Árcon era governado por um computador.
Volat
tinha aproximadamente o tamanho de Marte. A gravitação, um pouco
inferior à da Terra; o clima, tropical. A maior parte da superfície
do planeta estava coberta de matas virgens.
No momento
em que a Lotus rematerializou-se, precipitou-se para o interior do
sistema à velocidade da luz. Graças ao compensador estrutural
podia-se ter uma razoável certeza de que ninguém havia registrado a
transição. Ainda agora a localização goniométrica era quase
impossível. Mesmo que esta fosse realizada, provavelmente suporiam
tratar-se de uma das numerosas naves mercantes que se dirigiam a
Volat ou de lá saíam.
A sala de
rádio funcionava a toda potência, mas não havia nenhum sinal que
desse a entender que Fellmer Lloyd em sua Gazela procurasse entrar em
contato com a nave. O mutante ainda devia supor que o comandante
Markus continuasse a contornar o sistema com a Lotus, a fim de
exercer as funções de estação retransmissora.
Porém
Fellmer Lloyd permanecia em silêncio.
A
inquietação fervilhava dentro de Rhodan.
— Prepare
a Gazela V — ordenou, dirigindo-se a Markus e fazendo um sinal para
Noir e Gucky. — Está na hora.
— Já
não agüentava mais neste sofá — asseverou o rato-castor e
escorregou para o soalho metálico a fim de saltitar em direção à
porta. — É duro que nem uma tábua.
As
preocupações de Noir eram diferentes.
— A
presença da Gazela não poderá ser constatada durante o pouso?
Rhodan
respondeu antes de dirigir-se a Markus:
— É
claro que não pousaremos na área urbana de Kuklon, mas em alguma
área desabitada do continente principal. Não sabemos onde está
Lloyd, mas acontece que somos telepatas. Um de nós terá de
encontrá-lo. E você, Markus, mantenha-se numa órbita constante, à
distância de duas horas-luz de Volat. Acho que será suficiente.
Emita a cada dez horas um raio vetor de um minuto de duração. Ainda
não sabemos em que circunstâncias ocorrerá nosso regresso à nave,
e por isso acho que essa precaução é recomendável.
— Está
bem, Sir.
O
que deverei fazer se a Gazela for atacada?
Um sorriso
surgiu no rosto de Rhodan.
— O
senhor não fará nada, comandante. Absolutamente nada. Entendido?
Markus
confirmou com uma expressão de perplexidade no rosto. Rhodan viu
chegada a hora de uma ligeira explicação.
— Se
formos atacados e chegarmos à conclusão de que o inimigo está em
condições de superioridade, nós nos entregaremos. Talvez isso nos
leve ao objetivo.
Seguiu
Noir, que já se encontrava a caminho do hangar. Gucky preferiu
poupar as perninhas curtas. Aguardou os dois homens diante da
escotilha aberta da Gazela.
Esse tipo
excelente de nave de reconhecimento tinha dezoito metros de altura e
um diâmetro de quase trinta e cinco metros. O desempenho normal do
sistema propulsor permitia a realização de hipersaltos até de
quinhentos anos-luz. O armamento era suficiente para causar danos
consideráveis a um cruzador. Os campos de gravitação artificiais
compensavam bem a pressão causada pela aceleração ou
desaceleração.
— O que
estamos esperando? — perguntou o rato-castor. — Cada minuto é
precioso, se quisermos pegar esse monstro — a seguir teleportou-se
em direção à comporta.
Gucky
devia sentir uma raiva imensa pelos dois traidores. Ao que parecia,
não se dava ao trabalho de examinar os motivos que os tinham levado
a proceder dessa forma. O rapto de Thora era um ato que falava por
si.
Rhodan
transmitiu mais algumas instruções à tripulação da Lotus e
seguiu Noir e Gucky para o interior da comporta, cuja escotilha se
fechou com um baque.
Dali a dez
segundos, o disco saiu do cruzador e, mantendo velocidade constante,
deslocou-se em queda livre em direção ao planeta distante. A Lotus
mudou de curso e tomou o rumo que a conduziria à posição em que
entraria na órbita prefixada.
Rhodan
estava sentado atrás dos comandos. Noir achava-se a seu lado,
esperando. As mãos do hipno encontravam-se pousadas nos controles,
que ativariam numa questão de segundos o potencial defensivo da
nave. Gucky manteve-se inativo. Estava sentado diante do equipamento
de rádio, mas não o havia ligado.
Volat
aproximou-se rapidamente. Logo chegou a hora de frear a Gazela, que
desenvolvia a velocidade da luz. Embaixo deles, o planeta girava sob
os raios ofuscantes do sol. Naquele instante, Kuklon estava
penetrando no campo de visão, sob a forma de um emaranhado de
grandes construções e vias elevadas perfeitamente identificável
nas telas. Ao lado da cidade ficava o amplo espaçoporto, no qual se
comprimiam as naves pertencentes a várias inteligências. Era ali
que se encontrava a vida civilizada do planeta, diante da qual os
habitantes primitivos mantinham uma atitude passiva.
Viviam nas
matas e nos planaltos. Uma agricultura rudimentar e a caça
propiciavam-lhes os meios de subsistência. Não se interessavam
pelos arcônidas, saltadores e outras raças, que haviam transformado
seu mundo numa base do império legendário.
Só
queriam ser deixados em paz.
Rhodan fez
a Gazela V descrever uma curva e aproximou-se da face noturna do
planeta de Volat. Desceram mais e passaram pouco acima das matas
infindáveis, raras vezes interrompidas por grandes lagos. Os vales
largos dos grandes rios revelavam a existência de um suprimento
apreciável de água. As telas de luz infravermelha revelavam que nas
encostas havia indícios de atividade agrícola.
— Dentro
de uma hora Kuklon atingirá a linha de interseção da face diurna e
noturna — disse Noir. — Acho que devemos esperar até lá para
pousarmos.
— Vamos
pousar antes disso, Noir — respondeu Rhodan e deixou que o disco
descesse mais um pouco. — Em algum lugar lá embaixo, não muito
longe de Kuklon, deve estar Fellmer Lloyd — virou-se para Gucky. —
Ainda não captou nenhum impulso?
O
rato-castor sacudiu a cabeça sem dizer uma palavra.
Passaram
pouco acima de um grande platô de pedra, mas nem sequer a tela
infravermelha mostrou qualquer coisa fora do comum. O platô estava
desabitado, ou então os volatenses haviam camuflado perfeitamente as
suas habitações.
Rhodan
cometeu um erro. Desativou o campo defensivo que no espaço os
protegia contra os meteoritos. É que esse campo também os protegia
contra os projéteis e os raios energéticos disparados pelas naves
inimigas.
O ataque
foi tão surpreendente que nenhuma defesa pôde ser esboçada antes
que os danos ultrapassassem o limite crítico.
Um feixe
energético verde-azulado surgiu do nada e atingiu a popa da Gazela
V. O solavanco quase arrancou Rhodan do assento do piloto, atirou
Noir ao solo e fez com que Gucky escorregasse através da sala de
comando.
O disco
começou a cair.
O segundo
disparo energético passou ao lado deles e abriu uma clareira
chamejante entre as árvores gigantes da mata.
O disco
planou obliquamente em direção à mata. Não obedecia ao jato
direcional, mas a queda pôde ser contida um pouco, motivo por que o
impacto não seria tão forte.
— Foram
os saltadores! — resmungou Gucky em tom furioso e continuou a
perscrutar seu interior. — Isso mesmo, os mercadores galácticos,
nossos velhos amigos. Não têm a menor idéia de quem sejamos.
Agiram de acordo com as ordens superiores.
— Procure
ler mais alguma coisa em seus pensamentos — gritou Rhodan. —
Atenção! Pousaremos dentro de dez segundos. Assim que tocarmos o
solo, corram para fora da nave.
Os dez
segundos transformaram-se numa eternidade.
De
repente, os microfones externos captaram o estalo dos galhos e o
estrondo produzido pelo impacto da nave. Um forte solavanco sacudiu a
Gazela. Todos os objetos móveis foram atirados para fora de seus
lugares.
Segundos
antes do impacto, Rhodan atirou-se para trás, apoiando-se nos braços
e nas pernas. Escorregou lentamente, atravessou a sala de comando e
acabou deitado junto à poltrona do piloto. E logo depois do baque, a
tontura passou.
— Rápido!
Vamos dar o fora antes que voltem e nos liquidem de vez.
Estas
palavras despertaram Noir, que caíra de lado para fora da poltrona e
batera com a cabeça contra o revestimento metálico de um
instrumento. Um filete de sangue escorria de sua testa, mas de resto
parecia estar em perfeitas condições.
Quem se
dera melhor fora Gucky. Nem estava na sala de comando.
Antes que
a Gazela tocasse o solo, teleportou-se para o ar livre. Não teve
tempo de levar Rhodan ou Noir, motivo por que se viu só, a menos de
cinqüenta metros de distância, quando a nave se precipitou pelas
copas das árvores e tocou o solo. Assim que isso aconteceu, saltou
para dentro da comporta de ar e abriu a escotilha interna e externa.
Rhodan
arrastou Noir.
— Quebrou
algum osso? — perguntou. No corredor ouviu-se um ruído; devia ser
Gucky. — Sente dores?
— Só a
cabeça dói — disse Noir com um gemido, colocando a mão na testa.
— Acho que quebrei alguns instrumentos.
— Isso
já não importa — disse Rhodan para consolá-lo e viu o
rato-castor, que se encontrava do outro lado da escotilha aberta. —
Procure controlar-se. Devemos sair daqui o mais rápido possível.
Os dois
homens atravessaram o corredor estreito aos tropeções e atingiram a
comporta. Dali a dez segundos, corriam juntamente com Gucky em
direção à mata espessa, sem olharem para trás.
O ruído
do destróier que se aproximava era inconfundível e dizia mais que
quaisquer palavras.
Logo
sentiram-se ofuscados pela luz da explosão. A onda de compressão
obrigou-os a se atirarem ao chão. Rhodan ainda se deu ao luxo de
virar a cabeça.
Uma sombra
espessa encobria as inúmeras estrelas. Os contornos da outra nave
eram pouco nítidos, mas a mesma devia ser maior que a Gazela. Os
desconhecidos não tiveram nenhuma dificuldade em descobrir a nave
derrubada por meio dos instrumentos de localização. Depois
acenderam os holofotes, que mergulharam os destroços da Gazela numa
luz ofuscante.
Rhodan,
Noir e Gucky penetraram um pouco mais na floresta.
Foi então
que os atacantes cometeram uma tolice. Destruíram os destroços com
um radiador de impulsos, que numa questão de segundos fez com que os
metais da Gazela derretessem e se evaporassem.
Rhodan
suspirou aliviado.
— Tivemos
sorte. Já receava de que fossem revistar nossa nave. Nesse caso
poderiam ter encontrado certos indícios que dariam a um inimigo
inteligente certas reflexões. Por enquanto Yatuhin e Tropnow não
devem ter jogado seu trunfo principal; até agora ninguém sabe que a
Terra ainda existe. É ao menos o que espero.
— E por
enquanto ninguém sabe que Rhodan acaba de pousar no planeta de Volat
— resmungou Noir em tom natural. Lançou um olhar ligeiro para o
rato-castor e acrescentou: — E é claro que também não sabem da
presença de Gucky, o temível lutador.
Rhodan não
respondeu. Viu os destroços que se desmanchavam na incandescência.
À luz vermelha produzida pelos mesmos, notou o bojo brilhante da
nave desconhecida. Procurou em vão captar os impulsos mentais dos
tripulantes, para descobrir alguma coisa sobre suas intenções
futuras. Talvez Gucky tivesse mais sorte.
Mas o
rato-castor sacudiu a cabeça.
— Já
disse que são saltadores. Um desconhecido contratou-os e a central,
que não sei onde fica, colocou-os na nossa pista. O sistema de
alerta já devia ter nos localizado no espaço.
— É um
sistema bem organizado — disse Rhodan. — Será que os dois
mutantes estão por trás disso?
— Quem
poderia estar senão eles?
Rhodan
acenou com a cabeça e voltou a olhar o céu estrelado.
Ali o
quadro era bem diferente daquele da Terra, situada nos confins da Via
Láctea. Ali, na região central da Galáxia, o número de estrelas
vistas a olho nu era bem maior. Uma faixa branca atravessava o
firmamento e desenhava as nuvens escuras deixando-as nítidas.
A nave
desconhecida desapareceu, mergulhou no escuro como se nunca tivesse
estado ali. Acabara de cumprir sua missão e regressava à base
desconhecida.
Rhodan fez
um gesto furioso.
— Terão
que pagar a Gazela; e olhem que uma nave de reconhecimento de longa
distância não é barata.
Noir
levantou-se.
— E
agora? A cidade deve ficar a centenas de quilômetros daqui. A mata
virgem...
— Bem;
ainda temos Gucky — disse Rhodan em voz baixa e também se
levantou. Em torno deles havia apenas o silêncio, interrompido pelo
farfalhar do vento nas copas das árvores. — Gucky poderá
transportar-nos à cidade, se fizermos tanta questão disso. Mas acho
que por enquanto não devemos aparecer. É melhor acreditarem que
estamos mortos.
— Porém
estamos na mata virgem... Na minha opinião o ambiente não é nada
confortável. Não sabemos quais são os riscos que nos ameaçam.
— Pelos
dados de que dispomos a respeito do planeta de Volat, os animais
perigosos são bastante raros. Por aqui só temos um inimigo: a
organização montada pelos amotinados. Essa organização nos caçará
assim que souber que ainda estamos vivos.
Noir
encolheu os ombros.
— Não
compreendo como um dos nossos homens pode conceber a idéia de matar
o senhor — murmurou. — É uma coisa que ultrapassa minha
capacidade mental.
Gucky
emitiu um chiado furioso quando Rhodan respondeu:
— A
inveja produz o ódio, Noir. E o ódio torna possíveis as coisas
mais inconcebíveis. O motivo de atos incompreensíveis nasce com o
ódio, que pode não ter fundamento, mas às vezes tem. A raiva que
sinto por Tropnow tem fundamento. Será que isso faz alguma diferença
sob o ponto de vista moral?
A resposta
não veio. Noir manteve-se de pé, mudo e em atitude rígida, fitando
a escuridão impenetrável da mata. Olhava para o oeste, na direção
aproximada em que devia ficar Kuklon.
— O que
houve? — perguntou Rhodan em tom preocupado.
O hipno
apontou para a escuridão.
— Não
sei qual é a distância, mas o fato é que por aí há seres vivos.
Estão pensando, mas não compreendo suas idéias. Estão conversando
sobre coisas que para mim não significam nada.
— São
nativos?
— Não
faço a menor idéia; provavelmente são volatenses. Que seres serão
estes, Sir?
Rhodan
recordou o ligeiro estudo realizado em Terrânia. O que os catálogos
dos arcônidas informavam sobre Volat, o segundo planeta do sol
Heperés?
— Os
volatenses descendem de insetos, mas evoluíram para uma forma
humanóide. Seu
andar é
ereto, têm quase dois metros de altura, o corpo é ligado por finas
articulações, têm cabeça grande e olhos salientes, encimados por
antenas. Têm pele marrom-preta, em parte coberta por formações
córneas. É uma raça inteligente e inofensiva que segue ritos
estranhos. Sua forma de governo é a do matriarcado. Provavelmente
isto constitui uma tradição do tempo em que eram insetos. São
governados pela mãe onisciente, que exerce um poder ilimitado. Sua
linguagem é imperceptível ao ouvido humano, porque se desenvolve na
faixa do ultra-som. Um telepata não tem a menor dificuldade em
comunicar-se com eles, desde que recorra à mímica. Noir, o senhor
deve dar-se muito bem com eles, pois além de ser um telepata é um
hipno, e por isso poderá sugerir-lhes alguma coisa.
— São
umas aves estranhas — resmungou Gucky e saiu em direção ao oeste.
Seus olhos de lince haviam descoberto uma trilha estreita. — Estou
curioso para saber o que dirão.
Rhodan
sorriu ligeiramente. Também estava curioso.
— Vamos
atrás de Gucky — disse, dirigindo-se a Noir. — Ele tem uma
tendência inata ao escotismo.
Noir
caminhou na retaguarda. Cochichou:
— No
leste também há seres vivos. Estão atrás de nós.
— Estou
captando os impulsos mentais, mas não consigo interpretá-los —
respondeu Rhodan em voz baixa. — São saltadores ou arcônidas?
— São
impulsos estranhos, idéias diferentes, sujeitas a uma limitação
unilateral. Não, não são criaturas humanas.
— Não
são humanos? Será que são volatenses?
Noir
sacudiu a cabeça, mas Rhodan não pôde perceber o gesto.
— Em
hipótese alguma. Os seres que estão à nossa frente são
volatenses. Seu pensamento também é inumano, mas não é restrito.
Os pensamentos que se desenvolvem atrás de nós parecem provir de
cérebros condicionados. O senhor compreende?
— Acho
que sim. O senhor quer dizer que só podem pensar numa coisa
determinada. Não é isso?
— Exatamente,
chefe. No cérebro deles há lugar apenas para a tarefa que lhes foi
confiada.
— Uma
tarefa?
— Isso
mesmo — disse Noir em tom tranqüilo. — Só há lugar para a
tarefa de prender-nos.
* * *
O platô
erguia-se da planície coberta pela mata que se estendia até as
cercanias da cidade de Kuklon. Não havia nenhuma estrada que
conduzisse para lá, apenas caminhos solitários e trilhas secretas.
Estas ultimas, conforme as circunstâncias, podiam ser utilizadas por
certos veículos, mas bastava que chovesse por mais de dois dias para
que até mesmo as esteiras mais largas atolassem na lama.
Não havia
nenhum arcônida ou saltador que conhecesse a situação do platô.
Era ali que residia a misteriosa governante dos volatenses, deusa e
rainha ao mesmo tempo. O local servia de palco para certos ritos
estranhos.
As
residências dos nativos encontravam-se sob a proteção das copas
das árvores, e eram feitas de um material semelhante ao usado pelas
abelhas. Às vezes usavam a madeira, às vezes uma espécie de fibra,
outras vezes o barro endurecido misturado com palha. As entradas
pareciam tocas iguais aos buracos das colméias das abelhas; apenas
eram maiores.
Esse platô
de rocha, oculto e praticamente inacessível a quem não o
conhecesse, era a verdadeira capital do mundo de Volat.
Numa das
cabanas de aparência primitiva, Fellmer Lloyd achava-se estendido
num leito baixo, segurando a mão de Kuri, que estava sentada sobre a
cama, contemplando-o. Não podia ser considerada bonita na verdadeira
acepção da palavra, pois sua formação óssea chamava demais a
atenção; mas seus grandes olhos escuros com um ligeiro traço
mongólico compensavam esse efeito. Tinha a pele avermelhada, e o
cabelo cor de cobre. Era filha de um mercador galáctico.
Fellmer
Lloyd lia seus pensamentos como quem lê num livro aberto. Era um
localizador capaz de captar e analisar os modelos das ondas
cerebrais. Além disso, era telepata, o que lhe permitia reconhecer
perfeitamente as emoções de outros seres. Sabia que Kuri gostava
dele.
— Estamos
em segurança, Fellmer — disse Kuri, dando um tom firme à voz. —
Aqui ninguém nos encontrará.
Fellmer
confirmou com um gesto. Embaixo da coberta leve de fibra, seu corpo
largo e musculoso quase chegava a parecer pequeno e débil.
— Ainda
bem. Apenas gostaria de saber se o comandante Markus recebeu meu
pedido de socorro e o retransmitiu.
— Antes
de mais nada você tem de curar-se — ponderou a moça.
Fellmer
sacudiu a cabeça.
— Não
estou doente, meu bem. Apenas fui atingido pelo raio de uma arma de
choque. Daqui a um ou dois dias, estarei em condições de andar.
Precisamos fazer alguma coisa.
Kuri
levantou os olhos. Alguma coisa se moveu na entrada da cabana. Alguém
entrou.
Era um
volatense. Kuri recebeu a estranha criatura com um sorriso amável,
pois sabia que a mesma nunca lhe faria mal. As antenas que encimavam
os olhos rígidos moviam-se, mas Kuri não ouviu nada. Lançou um
olhar indagador para Fellmer que, de repente, aguçou o ouvido e
ergueu o corpo.
— O
inimigo perdeu a pista e voltou à cidade —
disse o volatense.
Só
Fellmer pôde ouvir e compreender a voz. Um sorriso surgiu em seu
rosto.
— Obrigado,
amigo. Vocês nos prestaram um grande serviço.
— A
grande mãe, a onisciente, ordenou que vocês fiquem conosco tanto
tempo quanto quiserem.
— Ainda
hoje poderei sair da cama. Por mais que gostasse de aceitar o
convite, vejo-me obrigado a recusar. Espero meus amigos, e estes
nunca me encontrariam aqui.
O
volatense aproximou-se.
— Seus
amigos são como você? —
perguntou para certificar-se. — São
homens iguais aos que entendem a nossa voz?
— São
iguais por fora —
disse Fellmer, esquivando-se a uma resposta direta.
— Também
vêm do grande vazio?
Fellmer
sabia que o grande vazio era o espaço cósmico. Os volatenses não
praticavam a navegação espacial.
— Sim,
se quiserem ajudar-me terão que vir de lá.
O
volatense acenou lentamente com a cabeça.
— Então
são eles —
disse.
Fellmer
sobressaltou-se.
— Quem?
— Ontem
de noite surgiu uma pequena nave redonda vinda do grande vazio.
Acontece que foi atacada e derrubada. Acabamos de receber a notícia.
— Uma
nave redonda?
— Isso
mesmo; uma nave redonda e achatada.
Fellmer
assustou-se. Só poderia ser uma Gazela, uma nave do tipo da que ele
possuía.
Rhodan...
— O
que aconteceu com os ocupantes da nave? —
perguntou.
— Não
sabemos; talvez estejam mortos.
Fellmer
ergueu-se abruptamente e colocou os pés no chão. Quando se viu de
pé quase caiu, pois ainda se sentia muito fraco. As conseqüências
do choque ainda não haviam sido superadas. Num gesto resignado
sentou-se à beira da cama. Kuri o ajudou.
— Ainda
estou muito fraco —
confessou. — Mas
preciso saber o que aconteceu com as pessoas que se encontravam na
nave derrubada.
O
volatense fez um gesto afirmativo.
— Não
demoraremos em saber. A mãe onisciente mandou que alguns dos nossos
penetrassem na grande floresta para procurar sua pista. Se estiverem
vivos, nós os encontraremos.
Fellmer
Lloyd deixou-se cair na cama.
— Vocês
têm de encontrá-los! —
disse com um gemido e fechou os olhos.
O
volatense afastou-se sem dizer mais nada. Kuri permaneceu em sua
companhia. Lançou um olhar carinhoso para o rosto pálido do
terrano.
Na Terra,
a vida havia evoluído através de milhões de formas, a partir de
uma única célula-mater. A conclusão final era a de que a evolução
paralela da vida em todo o Universo só podia ser expressa através
da respectiva potência.
E
justamente essa conclusão revelara-se falha.
Nos
diversos planetas, os terranos encontraram seres estranhos e formas
inteiramente novas de evolução, mas o princípio da reprodução,
da alimentação e da morte sempre se assemelhavam.
E os
purrenses não constituíam exceção.
Viviam num
planeta quente coberto de matas situado praticamente no centro da Via
Láctea. Dispunham de uma inteligência limitada e, com os prós e
contras, poderiam ser considerados uma raça feliz. Pelo menos o
foram até que acabaram sendo descobertos pelas verdadeiras
inteligências. Dali em diante, a felicidade chegou ao fim.
Foram
principalmente os mercadores galácticos que perceberam o valor dos
purrenses, que eram gatos grandes e robustos, fáceis de serem
influenciados por via sugestiva. Se recebessem uma ordem hipnótica,
eles a executavam, houvesse o que houvesse; nada conseguia desviá-los
do objetivo. Os dentes robustos e as garras afiadas faziam com que se
prestassem principalmente à vigilância de prisioneiros e à captura
de fugitivos.
Cinco
purrenses foram destacados para capturar os astronautas da nave
derrubada, se os mesmos ainda estivessem vivos. E caso fosse
necessário, matá-los. Deslocando-se num silêncio total através da
selva noturna, seguiam seu instinto infalível, que nunca permitia
que perdessem uma pista. Seus corpos ágeis, que mediam mais de dois
metros de comprimento, desviavam-se de todos os obstáculos. Seus
olhos de felino rompiam a escuridão. A ordem hipnótica transformara
essas criaturas, originariamente tão pacatas, em feras
perigosíssimas.
No momento
em que os fugitivos resolveram fazer uma pausa para descansar, Gucky
voltou a notar os impulsos cada vez mais intensos dos seres
desconhecidos que os perseguiam.
— Não
estou gostando — cochichou para André Noir, que estava sentado a
seu lado. — Nos pensamentos das criaturas que estão atrás de nós,
há alguma coisa que me assusta. Minha mente se rebela diante da
perspectiva de um confronto com os perseguidores. Não é
propriamente medo. Nunca me aconteceu uma coisa dessas.
Rhodan
ouvira atentamente. Sacudiu a cabeça.
— Você
nunca teve medo em toda sua vida, Gucky — disse em tom pensativo.
Dirigiu-se a Noir. — O que é que o senhor está sentindo? Também
está com medo?
— Não;
talvez poderia dizer que é uma certa aversão. Os perseguidores são
criaturas medonhas. O pensamento de capturar-nos é tão intenso como
se vivessem exclusivamente para cumprir essa tarefa. Seus cérebros
trabalham apenas para esta finalidade; todas as outras funções
foram “desligadas”.
Gucky
mexeu-se, bastante inquieto, e se levantou.
— Vamos
dar o fora. Não quero...
Rhodan
continuou sentado.
— O que
é que você não quer? — perguntou em tom amável, mas em sua voz
havia um ligeiro tom de censura. — Gucky, você não é mais o
mesmo.
O
rato-castor olhou para a copa da árvore mais próxima.
— Lá em
cima estaríamos em segurança. Posso levar todos para lá. A corrida
pelo mato deve ser inútil.
— Talvez
você tenha razão — admitiu Rhodan. — Acontece que, como sabe,
por enquanto vejo-me obrigado a não recorrer aos seus dons
sobrenaturais. Por enquanto devem pensar que somos gente normal, não
que somos feiticeiros. Mais tarde...
Calou-se.
Bem perto ouviu-se um farfalhar quase imperceptível.
Gucky
encostou-se ao tronco de uma árvore. Os pêlos da nuca
arrepiaram-se. Face ao elevado grau de concentração em que se
mantinha, concluía-se que estava preparado para a qualquer momento
teleportar-se a um lugar seguro. A seu lado, Noir perscrutou
atentamente a escuridão. Rhodan mantinha-se imóvel.
— Já
chegaram muito perto. Seria preferível continuarmos, pois não quero
encontrar-me com eles no escuro. De dia as coisas são diferentes. Se
conseguirmos fazer com que só nos alcancem ao amanhecer, será mais
fácil lidarmos com eles.
— É
verdade! — apressou-se Gucky em dizer e imediatamente se pôs a
caminhar.
Noir
seguiu-o cauteloso. Rhodan ficou na retaguarda, seguindo os amigos e
olhando sempre para trás. Os ruídos haviam cessado. Era evidente
que os perseguidores, fossem eles quem fossem, não dispunham do dom
da telepatia ou de outras faculdades parapsicológicas.
As horas
restantes da noite passaram-se numa tensão quase insuportável.
Rhodan nunca vira o rato-castor tão nervoso e com tamanha disposição
para fugir a qualquer momento. Seu instinto realmente o avisava da
existência de um perigo inconcebível, de cuja natureza Perry e Noir
não tinham a menor idéia. Por isso, esses dois não sentiam a
ameaça tanto quanto Gucky.
O céu
começou a clarear ao leste e as sombras da noite dissolveram-se
rapidamente. O calor aumentou.
Atravessaram
uma grande clareira e pararam embaixo das primeiras árvores.
— Já
que queremos esperar os misteriosos perseguidores, o melhor lugar
será este — disse Rhodan e olhou em torno. — A vegetação é
bastante densa para dar-nos cobertura. Por outro lado, o capim que
cobre a clareira é tão baixo que não poderá esconder os
perseguidores. Por isso seremos capazes de vê-los. O que acha,
Gucky?
O
rato-castor agachou-se e fungou cansado.
— Você
é um irresponsável porque me faz correr desse jeito quando seria
capaz de transportar-me à face oposta do planeta com um único
salto. Minhas perninhas...
— Já
sei — disse Rhodan com um sorriso bonachão. — Exigimos demais de
suas perninhas, mas não posso fazer nada para evitar isso. Ainda
estão muito longe?
Estava
aludindo aos perseguidores. Gucky apontou na direção de onde tinham
vindo.
— Não
estão longe. Felizmente não têm muita pressa. Mas não perdem a
pista. Devem ter um faro excelente.
Rhodan
parecia surpreso.
— Um
faro excelente? Quer dizer que seguem nossa pista que nem um
cachorro?
— Isso
mesmo; que nem um cachorro ou que nem um felino.
— Ah! —
fez Noir e lançou um olhar pensativo para o rato-castor. — Que nem
um gato?
O sorriso
de Rhodan tornou-se mais intenso.
— Já
começo a desconfiar por que você tem tanto medo dos perseguidores,
Gucky. Talvez sejam mesmo gatos; e todo mundo sabe que você não
aprecia essa espécie.
— Ao
menos não gosto dos gatos grandes — disse Gucky. — Os gatos têm
alguma coisa contra mim.
Noir olhou
para a clareira.
— Será
que realmente mandaram animais atrás de nós? Por que eles mesmos
não saem em nossa perseguição? Não seria muito mais fácil?
— Não —
disse Rhodan, seguindo o olhar de Noir. Por enquanto nada se movia em
meio ao capim alto. — Não conhecem a mata e não sabem com quem
estão lidando. O senhor não disse que os cérebros dos
perseguidores só se ocupam dessa tarefa e parecem estar sujeitos a
alguma forma de condicionamento? Pois é isso. Os gatos, se é que
realmente são gatos, foram treinados para executar essa tarefa. Bem;
veremos...
Subitamente
Gucky ergueu o corpo. Sem aguardar permissão teleportou-se com um
ligeiro salto para um galho grosso da árvore que ficava atrás dele.
Encontrava-se a uma altura de quatro metros e olhava para a clareira.
Seu pêlo continuava arrepiado. Soltou um grito estridente:
— Estão
chegando! Realmente são gatos; que bichos enormes... Têm dois
metros de comprimento e um metro e meio de altura.
Rhodan e
Noir só perceberam o movimento do capim. Estavam num lugar muito
baixo para poderem ver mais que isso. Não perderam tempo: subiram na
árvore e logo se viram ao lado de Gucky. O galho era bastante forte
para suportar o peso dos três.
Na
verdade, cinco gatos gigantescos atravessavam a clareira a menos de
duzentos metros do lugar em que se encontravam. Tinham o nariz
grudado ao chão e deixavam-se levar pelo instinto infalível. Rhodan
assustou-se ao lembrar-se de que estavam desarmados. Por outro lado,
não lhe parecia recomendável fugir com o auxílio de Gucky. Os
gatos teriam bastante inteligência para informar seus chefes sobre o
fenômeno inexplicável, e era o que Rhodan queria evitar.
— Daqui
a três minutos, estarão embaixo da árvore — chiou Gucky em tom
exaltado. — Precisamos fazer alguma coisa.
— Talvez
não saibam subir em árvores — disse Noir.
— Sabem,
sim! — retrucou Gucky em tom indignado. — Só lhes garanto uma
coisa: se fizerem isso, dou o fora. Vocês que façam o que quiserem
com essas feras. Não quero ser estraçalhado por elas.
Nunca
ouviram Gucky falar dessa forma.
O
rato-castor era um “sujeito”
valente, que não recuava diante de nada. O que teria acontecido com
ele? Seria o pavor instintivo que sua raça sentia pelos gatos?
— Quem
foi que lhe disse que não pretendemos defender-nos, Gucky? — falou
Rhodan sem tirar os olhos dos gatos. — Se quiser, pode começar
agora. Mas faça-me o favor de agir de forma a não provocar
suspeitas.
Os pêlos
da nuca de Gucky grudaram-se à pele, como se estivessem obedecendo a
um comando. O dente roedor fez uma débil tentativa para aparecer à
luz do dia, mas a tentativa não foi bem sucedida. Subitamente Rhodan
e Noir viram uma rocha solta que se encontrava a menos de vinte
metros subir ao ar. Subiu tanto que mal se podia vê-la, sofreu um
ligeiro desvio lateral e precipitou-se em direção ao solo.
Ninguém
notou a rápida correção de rota realizada por Gucky.
A pedra
caiu do céu como se fosse um meteorito. A pontaria fora correta.
Antes de os felinos perceberem o que estava acontecendo, dois deles
foram comprimidos para dentro do solo e tiveram morte instantânea.
Os três
gatos restantes espalharam-se apavorados, mas recuperaram o
autocontrole com uma rapidez espantosa. O fenômeno era totalmente
inexplicável para seus cérebros, e por isso nem procuraram
descobrir-lhe a causa. Ao que parecia, eram de opinião que a queda
da pedra não tinha qualquer relação com as pessoas perseguidas.
Dois dos companheiros haviam sido mortos, mas três purrenses seriam
suficientes para localizar os desconhecidos e colocá-los fora de
ação.
Voltaram a
seguir a pista.
— Isso
não teria sido necessário — cochichou Rhodan para o rato-castor.
— Por que teve que matá-los?
— Se a
pedra tivesse caído devagar, eles teriam suspeitado de alguma coisa
— disse Gucky, que não demorou em encontrar uma desculpa. —
Talvez pensem se tratar de uma estrela cadente.
— Essa
não é a pior piada que você já soltou — retrucou Rhodan e
observou os três gatos que se aproximavam metodicamente da beira da
mata. — Mas não posso deixar de confessar que também teria medo
deles se fosse um rato.
— Não
sou um rato como qualquer outro — disse Gucky em sua defesa e
dispôs-se a uma fala mais longa, mas viu-se interrompido por Noir.
— Acabam
de farejar-nos. Já sabem que estamos em cima da árvore.
Os três
purrenses chegaram ao destino. Os olhos verdes e reluzentes olhavam
para os fugitivos. Os três perseguidos encontravam-se bem perto, no
galho mais baixo, e aparentemente os fixavam com um medo terrível.
Acontece
que um purrense hipnotizado não sabe o que é compaixão.
No
instante exato, Gucky levantou a barreira telecinética. Um dos gatos
esbarrou na mesma em meio ao salto e caiu ao solo com um chiado
furioso. Batera no obstáculo invisível enquanto se encontrava no
ar.
Antes que
o gato pudesse preparar o segundo salto, aconteceu uma coisa
estranha, para a qual no primeiro instante não houve qualquer
explicação.
No meio da
mata, ouviu-se um “bum”
abafado; o gato, que se dispunha a saltar, estremeceu e caiu
lentamente. Executou alguns movimentos convulsivos com as pernas e
imobilizou-se.
Ao que
tudo indicava estava morto.
Rhodan
esqueceu-se dos dois gatos que ainda restavam e procurou enxergar
através da vegetação que se estendia ao leste. Não ouviu qualquer
som, mas os órgãos telepáticos captaram alguns fracos impulsos
mentais.
Eram
volatenses!
O
penúltimo dos gatos deu alguns saltos gigantescos em direção aos
arbustos mais próximos. Porém foi atingido pelos atiradores
invisíveis, caindo ao chão com um chiado agudo. Também estava
morto.
O último
gato fugiu em carreira desabalada.
Rhodan
esqueceu-se dos volatenses e gritou para Gucky:
— Não o
deixe escapar, mas não o mate. Precisamos descobrir quem são as
pessoas que lhe dão ordens. Será que consegue segurá-lo? Enquanto
isso eu me ocupo com os nossos aliados inesperados.
— Farei
o que você pede, por mais difícil que seja — chiou Gucky e seus
olhos seguiram o gato que se afastava em saltos gigantescos. — Vou
prender o bicho.
Rhodan e
Noir desceram da árvore e levantaram as mãos em direção à mata
espessa. Sabiam que os seres que lhes haviam prestado auxílio os
viam e não deixariam de compreender o gesto.
Ouviram um
farfalhar; três volatenses saíram para a clareira. Suas mãos
seguravam zarabatanas, que não estavam apontadas para Rhodan e Noir.
— Somos
amigos —
disseram em sua linguagem inaudível. — A
mãe onisciente lhes envia seus cumprimentos.
— Ficamo-lhes
muito gratos —
disse Noir. — Os
gatos nos estavam deixando num aperto.
— Costumam
ser chamados de purrenses —
informou um dos volatenses. — São
servos dos senhores de nosso mundo e já estraçalharam muitos dos
nossos. São verdadeiras feras.
— O
último deles não escapará ao castigo; ainda não o matamos porque
precisamos de algumas informações. Será que vocês conhecem um
amigo nosso? Deve estar neste mundo. Seu nome é Fellmer Lloyd.
Era uma
pergunta repentina, mas Noir não estava disposto a perder muito
tempo. A resposta não foi menos abrupta.
— Está
conosco e espera por vocês.
Rhodan
suspirou aliviado. Adiantou-se e estendeu a mão para os três seres
estranhos. A mão foi apertada, e com isso a aliança entre as
inteligências desiguais ficou definitivamente selada.
Neste meio
tempo, Gucky saltara da árvore e caminhava gravemente com seus
passos balouçantes pela clareira coberta de capim, onde o último
dos purrenses achava-se imóvel, aguardando o destino que lhe estava
reservado. Os fluxos telecinéticos expedidos pelo rato-castor o
mantinham preso ao chão. Um brilho malévolo enchia os olhos
esverdeados, mas nas camadas mais profundas notava-se o medo que
aquela criatura sentia pelo poderoso adversário que o subestimara de
forma tão imperdoável.
Quanto a
Gucky, este já havia vencido o medo. Sentiu certa satisfação em
colocar-se diante do inimigo preso e deliciar-se com a visão do
mesmo. Ele, apenas um grande rato, tinha em seu poder um perigoso
felino. Era uma pena que seus companheiros de raça do planeta
Vagabundo não pudessem vê-lo, embora fosse provável que nem
soubessem o que vinha a ser um gato.

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