terça-feira, 8 de janeiro de 2013

P-036 - O Flagelo do Esquecimento - Clark Darlton [parte 3]

Você disse o que lhes vai acontecer? Eles sabem, portanto, que vão se contaminar a si e aos outros, que haverão de perder a memória?
Sim, e lhes expliquei ainda por que tem que ser assim. Se desejam que os saltadores abandonem sua terra, sem guerra e em debandada de pânico, devem fazer o que se exige deles. Talvez os goszuls não cheguem a penetrar completamente nosso plano, mas sentem que não há outro caminho. As bombas ainda hoje à noite vão explodir em diversas cidades do Continente Leste e espalhar as bactérias.
Podemos esperar, portanto, que dentro de uma semana os sintomas externos da epidemia já se manifestem por lá. Com isso termina a primeira parte de nossa atividade.
John parecia mais aliviado.
Não é fácil fazer um país todo ficar doente, mesmo que se tenha já preparado o remédio para a cura. Mas quando este país ficar livre e seus filhos recuperarem a saúde, sua inteligência vai crescer tanto que saberão o que fazer com sua força mental. A curva de crescimento futuro vai ser vertiginosa.
Por uns momentos houve silêncio. O sol queimava num céu sem nuvens e fazia com que a água quase parada do porto cintilasse como chumbo líquido. Alguns goszuls desocupados vagavam pela beira do cais à espera de um biscate. A Central de Robôs desde muito tempo não transmitia nenhuma ordem.
Os goszuls não sabiam que o germe da epidemia neles já incubado continuava agindo e que, talvez no dia seguinte, provocasse o aparecimento das placas vermelhas em suas faces.
Tako suspirou:
Gostaria de dar uma cochilada, John. Qual será a próxima missão?
Não posso dizer nada ainda. Hoje de noite é que Enzally vai entrar em contato comigo. Vai depender dele quando e onde atacaremos. Os saltadores se mantém em expectativa. Depois que dois governadores adoeceram, estão com mais precaução. Estão evitando todo contato com os nativos. Além disso, os robôs afundaram o nosso navio dos mortos. Felizmente, toda a tripulação se salvou a nado.
Quer dizer que não esqueceram a natação? — admirou-se Tako.
John sorriu displicentemente.
A memória desaparece, mas não a faculdade de realizar ações adquiridas pelo hábito. Além disso, a memória não foi dissolvida. Como seria isto possível, se mais tarde tudo tem que voltar a funcionar. Em algum lugar tem que estar esta memória. Nadaram, pois, para a praia e transmitiram a doença aos outros.
Ralv se levantou.
Tenho que liquidar uns assuntos, se souber de alguma novidade, lhe mandarei uma comunicação.
Dirigiu-se à balaustrada do convés médio e desceu pela escada de corda para o barco que estava esperando ao lado do veleiro. Com remadas tranqüilas, o barco afastou-se em direção ao cais. Deu ainda um abano de mão e depois sumiu entre os silos dos armazéns.
Kitai suspirou.
É um rapaz legal — disse. — Deve confiar de fato em nós plenamente, do contrário não faria tudo isto para nós. Afinal de contas, ele é quem carrega toda responsabilidade perante seu povo.
Sem nós, os pobres goszuls ficariam uma eternidade sendo dominados e explorados pelos saltadores. Ralv sabe disso.
Tem razão, John, mas nem por isso eu deixo de admirar a coragem cega deste rapaz. Sua influência é enorme. Nos últimos dias, não é mais necessário impor nossa vontade a ninguém.
John queria exatamente responder, quando levantou de repente a mão, fazendo sinal ao japonês para que parasse de falar Também Gucky endireitou-se repentinamente e pôs-se a escutar com os olhos fechados. Os três japoneses se mantiveram em silêncio, pois sabiam que os dois telepatas estavam recebendo uma mensagem mental. Só podia vir de Enzally, pois de acordo com o que sabiam, não havia nenhum outro telepata neste planeta.
Era um fenômeno de aspecto interessante e ao mesmo tempo inquietante. Um homem e um rato-castor, sentados imóveis no chão de madeira, ao sol causticante, ouvindo calados o que uma voz muda lhes tinha para dizer. No rosto de John, lia-se uma grande tensão, como se ouvisse algo sombrio, mas logo depois esboçou-se um leve sorriso. As reações de Gucky corriam admiravelmente sincronizadas. O seu dente roedor estava indicando que a quase monotonia das semanas anteriores parecia que ia acabar. Apesar de que o pêlo da nuca se eriçava de vez em quando, sinal de que a variação que estava se aproximando, trazia também muita dificuldade. Mas não se podia perceber em que consistia esta variação.
Enzally devia ter muita coisa para comunicar, porque o silêncio artificial durou mais de quinze minutos.
Finalmente John terminou aquela postura rígida e respirou profundamente. Depois de um olhar rápido para Gucky, disse ele:
Foi Enzally. Virá nos procurar hoje à noite, depois de conseguir mais detalhes. Aconteceu alguma coisa lá no espaçoporto. Você devia dar uma chegada lá para ver, Tako. Os saltadores estão descendo. E nós acreditávamos que eles desapareceriam correndo, quando soubessem da epidemia. Ainda estão em contato com os governadores, sabendo assim o que se passa no planeta de Goszul. Não estou compreendendo bem.
Que aconteceu, propriamente? — indagou Kitai.
John ergueu os olhos para o céu, pensativo, como se a resposta viesse de lá, mas Rhodan estava muito longe.
Os saltadores estão descendo — repetiu ele. — Sabemos que há ainda uns trinta deles no espaço, dando voltas em torno do planeta. Esperávamos que iam fugir. Fizeram exatamente o contrário do que pensávamos. Estão descendo numa terra que eles sabem estar contaminada.
Isto eu não posso entender — afirmou o sugestor. — Ninguém vai por livre vontade de encontro ao perigo de perder a memória. Devem ter um motivo muito importante para descerem.
E eles têm mesmo — confirmou John com seriedade. — Enzally conseguiu ouvir alguns deles telepaticamente. Já abdicaram há muito tempo do planeta e dos governadores que aqui mandavam, mas não querem se desfazer das instalações técnicas e dos robôs. Neles é que está todo o seu interesse.
Kitai fez cara de quem não entendia.
Falando honestamente, não estou entendendo. Devem estar cientes de que o germe da doença está em toda parte, até nos metais. Entregam-se voluntariamente ao perigo da infecção...
Naturalmente subestimam o perigo — explicou John. — Sua ambição é maior do que sua prudência. Um robô de combate vale tanto como uma nave espacial de porte pequeno. O planeta de Goszul faz lembrar no momento uma cidade em retirada, sendo entregue à pilhagem. Cada um tenta, como pode, se enriquecer mais. Os saltadores são comerciantes.
Infelizmente são também lutadores — murmurou Tama, muito compenetrado.
Sabemos disso muito bem — confirmou John. — E por isso não acredito que Enzally já esteja a par de tudo. Posso apostar que há muito mais coisa escondida atrás de tudo isto, coisa muito mais importante do que roubar robôs e máquinas uns dos outros.
Mas então, o quê?
Esperemos até que Enzally volte. Talvez aí saberemos mais coisas. Estará aqui em poucas horas.
Gucky, que até aqui estava calado, perguntou chiando, pois era muito preguiçoso para retirar o dente de roedor:
Alguém tem alguma coisa contra, que eu dê uma volta por aí?
Meio desprevenido, John fez uma contra pergunta:
Onde é que quer dar uma volta?
Ora, onde então? No espaçoporto, naturalmente. É apenas um pulo de rato até lá.
Somente para teleportador — disse, John, e refletindo um pouco. — Quatro olhos enxergam mais do que dois... e dois cérebros telepatas percebem mais do que um. Está bem, mas cuidado para não ser visto pelos saltadores, alguns deles já conhecem você e sabem que você está ligado com Perry Rhodan. Qualquer imprudência prejudicaria muito nossos planos.
Ninguém me verá — prometeu, não escondendo a alegria antecipada da aventura. — Voltarei logo para lhes dizer o que os saltadores tencionam fazer, além de roubar robôs.
Falou e desapareceu. John ficou fitando o lugar onde Gucky estava sentado. Finalmente falou:
Estou muito feliz por ser um homem, mas as vezes gostaria de ser um rato-castor. Estes seres pequenos são formidáveis.
Também em relação à sua raça, Gucky é um exemplar extraordinário — lembrou Kitai. — A raça dos ratos-castores é um grupo de animais de reduzida inteligência. Gucky se diferencia deles, como um telepata desenvolvido do resto da humanidade.
Muito bem — interferiu John. — Então ficaria realmente feliz de poder ser, às vezes, o Gucky. Está correto?
Kitai sorriu.
Independente do fato de que não se pode em geral falar de desejos corretos, posso entender seu desejo. Eu preferia, além de sugestionar, poder também ler pensamento. O homem tem uma conformação tal, que nunca está realmente contente.
E exatamente isto é a mola propulsora de sua ambição — filosofou Tako, olhando para seus pés descalços. — Eu estou com fome.
Todos riram da brusca mudança de assunto e olharam para John. O telepata concordou, levantando-se.
Vamos lá para baixo, lá existe uma geladeira. Eu também estou com fome. Tomara que Gucky venha logo.
Infelizmente, esta esperança não se concretizou.

* * *

Gucky não foi realmente imprudente, apenas sua curiosidade foi maior que toda sua cautela. Seu primeiro pulo de teleportador o transportou para a beira do imenso espaço-porto, onde se escondeu entre alguns barracões que não tinham nada em comum com os grandiosos edifícios da administração em que se guardavam os robôs. Bem perto dele patrulhava um robô de vigilância, com sua monótona marcha de vaivém. Gucky sabia que entre ele e o próximo robô de vigilância havia uma ligação sem fio. Evitou cautelosamente cair sob as lentes do monstro de aço.
O que lhe chamou primeiro a atenção foram as numerosas naves espaciais dos saltadores que haviam descido e ali estavam apoiadas na parte traseira da fuselagem. Eram, pelo menos, vinte destas espaçonaves de mais de duzentos metros de envergadura, cujas carcaças metálicas cintilavam ao sol; eram o símbolo marcante do poderio dos saltadores. Cada uma delas era suficiente para transformar o planeta Goszul num inferno incandescente, sem possibilidade de vida futura.
Gucky sabia que era a epidemia e a ganância dos saltadores que estava impedindo isto, portanto, enquanto existisse neste mundo um robô em funcionamento, este perigo estaria afastado.
Agachou-se mais ainda à sombra do barracão, numa reentrância do terreno. A margem do campo de aterissagem estava a uns cinqüenta metros dele, mas lá não havia possibilidade de se esconder. Seria então melhor operar daí mesmo.
O rato-castor chegou à conclusão de que o robô de vigilância, em sua ronda repetida, se afastava cada vez mais do barracão. Dependia dele, portanto, escolher a espaçonave certa, embora precisasse de muita sorte para não se materializar exatamente na frente dos olhos de Etztak, que já o conhecia.
Para agir com mais segurança, resolveu realizar primeiro telepaticamente um salto de inspeção, para estudar o ambiente. Por quase dois minutos ficou tentando identificar os pensamentos de Enzally, dentre o confuso fluxo de impulsos que chegavam até ele. Depois desistiu. Quem sabe estava o goszul automática e instintivamente protegendo seu cérebro, quando estava trabalhando. Ele, Gucky, também fazia isto, às vezes. O único jeito que havia era enfrentar diretamente os saltadores que tinham descido. Os saltadores, felizmente, não eram robôs. Não era, pois, difícil para Gucky pôr em ordem e ler seus pensamentos. A única dificuldade da operação era que em cada espaçonave havia pelo menos vinte pessoas, entre as quais só interessavam a Gucky o comandante e o respectivo patriarca do clã. Devia, pois, pular cegamente, com seus pensamentos, na primeira nave e sondar até descobrir o patriarca.
Seu corpo ficaria, entrementes, com a capacidade de reação muito reduzida, um fato que realmente diminuía a alegria dele. Mas não podia fazer nada contra isto. Além disso, aqui nesta reentrância, julgava-se relativamente seguro.
Depois de isolar os pensamentos que fluíam para ele, e fazer com que apenas um fosse ouvido, percebeu que era testemunha de uma conversa, pois eram dois pensamentos que falavam na mesma freqüência.
...admito realmente que estão exagerando. Não nos concedem nem licença para desembarcarmos e descansarmos um pouco, enquanto eles pretendem deixar a nave esta noite.
Trata-se, porém, de uma conferência, não é?
E que seja, isto não altera nada. É interessante que a tal epidemia é perigosa para nós, enquanto para eles não faz mal nenhum. Eu quero é ficar livre de tudo isso.
Você sabe qual é o castigo que eles aplicam neste caso, Holflersy. Não o aconselho a abandonar sua cozinha.
Gucky sorriu e mudou de freqüência. Fazia isto com a mesma naturalidade com que um homem do século XX usava um receptor de rádio.
De qualquer maneira, ele sabia que os comandantes das espaçonaves planejavam uma reunião para esse mesmo dia. Seria de grande vantagem ler os pensamentos de um comandante, para não haver nenhuma surpresa. O próprio Enzally não sabia o que os saltadores planejavam desta vez com a nova conferência.
Ah, sim. Isto já era uma outra voz muda. Alguém tentava transmitir um pensamento, mas ninguém respondia. Devia, pois, estar sozinho. Gucky continuou escutando e teve sorte. Foi por mero acaso que foi dar com o avarento e ambicioso Ralgor.
Estava sentado em sua cabina particular e imaginando o que iria falar hoje na reunião dos patriarcas dos saltadores. Estava elaborando o discurso, como se costuma dizer. Fazia-o sem palavras, em pensamento, o que porém, não impedia que fosse ouvido. Às vezes chegava a pronunciar nitidamente as palavras.
Se eu conseguisse ao menos convencer Etztak — murmurou desconfiado, continuando a pensar. — Quero desviar toda a atenção dele para a Terra, deixando de lado a questão com o planeta dos goszuls. Os governadores sozinhos não terão mais força para se dirigirem aos pontos de apoio para pedir auxílio. Em poucas semanas, a epidemia os levará. Aliás, este flagelo do esquecimento é propriamente uma bênção para os que se servem deles no setor dos negócios.
Posso mandar vir, por hiperirradiação, minhas duas outras espaçonaves — continuou ele murmurando, como se o simples pensamento não bastasse mais. — Seus porões de carga podem abrigar, pelo menos, duzentos robôs de combate e de vigilância. Independentemente dos aparelhos das instalações técnicas da usina das espaçonaves, vou fazer agora o negócio da minha vida, se...
Para desgraça de Gucky, a sucessão de pensamentos do honrado patriarca foi bruscamente interrompida, neste ponto. Alguém deveria ter penetrado na cabina.
Senhor, aqui está o mapa sideral que o senhor desejava — devia ser o navegador, supunha Gucky. — As coordenadas dos saltos já estão calculadas. E o senhor acha que conseguiremos?
Com toda certeza — respondeu Ralgor, porém, não estava pensando no que devia ser feito nem no hipersalto. — Por favor, entregue este bilhete ao telegrafista. Ele deve mandar um rádio sigiloso às duas espaçonaves do clã. Assim que tiver resposta, quero ser cientificado.
Depois voltou a ficar sozinho, mas as esperanças de Gucky não se realizaram, pois Ralgor não voltou novamente aos seus pensamentos secretos. Mas Gucky estava convencido de uma coisa: A pilhagem bem planejada de Ralgor contra o planeta de Goszul estava em íntima ligação com seus planos de conquistar a Terra e com os mapas siderais recém-trazidos. Também o fato de haver requisitado as duas espaçonaves de seu clã fazia parte do grande plano. Os detalhes deste plano, porém, Gucky não conhecia ainda. E ele tinha que ficar a par disso.
Este Ralgor não o conhecia ainda e nunca o tinha visto antes. Portanto, se por acaso os dois se encontrassem, não seria tão perigoso assim. Além disso, Ralgor tinha que ter muita cautela para não permitir que seus irmãos de raça chegassem a saber de seus planos. Caso suspeitasse que Gucky tinha alguma coisa em comum com Perry Rhodan e a Terra seria o primeiro a ter que silenciar tal encontro.
Gucky respirou profundamente e se teleportou. Desceu exatamente na Central de Ralgor, mas teve sorte. O saltador estava de costas para ele, estudando os mapas siderais recém-trazidos pelo navegador. Estava sentado numa poltrona e não suspeitava que, no máximo, a um metro atrás dele, surgira do nada algo pequeno, de aparência desagradável, que rapidamente se escondera atrás da porta aberta de um armário de parede.
Daí Gucky podia ver bem e estava ao mesmo tempo protegido. Tinha que constatar urgentemente em que setor da galáxia estavam os interesses de Ralgor.
Ralgor raciocinava com conceitos diferentes e Gucky não conseguia atinar com que nomes os saltadores se referiam aos astros e aos sistemas solares e assim não pôde prontamente descobrir com que sistema solar ele se preocupava. De repente, Gucky percebeu a aproximação de outros pensamentos. Lá fora, atrás da porta, havia alguém parado, que entrou depois de bater. Devia ser novamente o navegador.
O telegrama foi recebido normalmente e a resposta chegou neste instante, senhor. A Ral III e a Ral V chegam ainda esta noite aqui. De acordo com as instruções ficarão circulando a uma altura de dois dias-luz do sistema de Goszul.
Ralgor levantou os olhos e sorriu com malícia.
Foi por muito tempo o sistema de Goszul — disse ele traindo uma parte do seu plano secreto. — Talvez, um dia, terá o nome de sistema de Ralgor.
O navegador sorriu também.
Um bom negócio?
Naturalmente, do contrário, não estaria me preocupando com isto.
O semblante do navegador se anuviou.
Que é que nosso clã vai fazer com um planeta pestilento?
Ralgor reagiu bruscamente.
Estou contente de que nem você acha resposta para tal pergunta. Este fato me prova, de fato, que os outros patriarcas não estão a par dos meus planos. Pode ir, Gromsk. Aí pelo pôr do sol vou deixar a nave. Cuide do necessário revezamento da guarda. Quero que a Ral II aguarde, preparada para partir, até que eu esteja de volta a bordo.
O navegador se retirou, sem dar resposta.
Mais dez minutos ficou Ralgor sentado à mesa, debruçado sobre os mapas siderais, examinando as coordenadas do salto ali desenhadas; levantou-se de repente, olhou para o cronômetro dependurado na parede e deixou a cabina. Nem fechou a porta, deixou-a apenas encostada.
Gucky ainda esperou uns momentos, depois saiu de seu esconderijo e correu para a mesa do escritório. Era tão pequeno que teve de ficar de pé em cima da cadeira para poder ver os mapas.
Mapas siderais são documentos difíceis de ler. Tem-se que estudá-los a fundo, para se concluir alguma coisa, principalmente quando os sinais são incompreensíveis.
Gucky viu uma confusão de pontos minúsculos, ligados entre si por linhas pontilhadas. Havia números e mais abaixo nomes que para ele não tinham nenhuma importância.
Um outro mapa mostrava uma ampliação. Os poucos sistemas solares consistiam não de pontos minúsculos, mas de fato de sóis e planetas a eles pertencentes. Não foi muito difícil identificar um destes sistemas. Principalmente porque estava assinalado com uma cruz vermelha. Com um simples olhar, Gucky percebeu que Ralgor se interessava pelo Sol e seu planeta Terra.
Atrás de Gucky, ouviu-se um ruído. Antes que pudesse se virar, Gucky se conscientizou de que, nos últimos segundos, esquecera de ficar atento às coisas em volta dele. Ralgor estava de volta.
O saltador soltou um grito de pavor, quando viu o animal esquisito debruçado sobre seus mapas. Demorou pelo menos dois segundos até que conseguisse dominar a estupefação. Sua mão direita correu para a cintura e saiu com a arma energética, já com o cano apontado para o rato-castor.
Gucky podia ter se teleportado, mas isto seria para ele uma fuga covarde. Além disso, levaria pelo menos um segundo para se desmaterializar. O saltador teria tempo para desfechar o tiro de morte.
Havia também outro meio e muito melhor.
Bom dia — disse Gucky, em puro Intercosmo, mostrando com ar de amizade o dente de roedor. — Como vai você, Ralgor?
A estupefação foi tão grande, que seu queixo caiu por alguns centímetros, deixando a boca aberta.
Você fala? Quem é você?
Você também fala, não é verdade? — disse Gucky em tom de conciliação e concentrando toda a sua atenção na pistola. Seus fluxos mentais telecinéticos se descarregaram na arma e de repente seu cano estava apontado para o teto. O saltador, surpreendido ao ver um objeto inanimado executar por si mesmo um movimento daquele, ficou totalmente tolhido em seus movimentos. Perplexo, viu como a arma energética escapou de seus dedos petrificados e estava flutuando no teto, como se fosse um balão. Encostada no teto, a arma dirigiu seu cano na direção da cabeça de Ralgor.
Bem, agora você está bonzinho, não é? — perguntou Gucky e chiou como um passarinho da Terra. — Feche a porta.
Ralgor não quis obedecer à ordem, soltou um segundo grito, mas desta vez com uma fúria diabólica e se atirou contra o intruso. Gucky refletiu sobre os sérios conselhos de John e desistiu de outras experiências. Desmaterializou-se, estragando assim a parte mais atraente da aventura.
Ralgor foi atirado para frente, pela violência de seu pulo, quando seus punhos possantes atingiram o vazio. Bateu com a cabeça contra o intercomunicador de bordo, formando um terrível galo avermelhado na testa, cuja origem ele nunca soube explicar a seus irmãos de clã, que se apiedavam do ferimento.
E aí estava ele, perplexo, fitando os mapas. Com a cabeça doendo e com um movimento involuntário das mãos, os jogou fora da mesa. Caiu depois pesadamente na poltrona, em cima da qual Gucky estivera de pé, três segundos antes.
Desgraçado... Existem de fato assombrações.
6



Estão tramando alguma coisa contra a Terra.
John parecia não acreditar.
Acho que já desistiram há muito tempo, Gucky, não posso acreditar que tentem novamente. A primeira lição deve ter sido suficiente para eles.
O sujeito tinha mapas, nos quais a Terra estava assinalada com uma cruz vermelha. Aposto como vão tratar deste assunto hoje à noite. Não podemos deixar de mandar um observador para a conferência.
Enzally vai nos informar.
Isto não basta, independente do fato de que, com a nossa visita, atingiremos um objetivo muito importante.
E qual seria este objetivo? — perguntou John, muito interessado.
Nós vamos espalhar os germes da doença na reunião dos patriarcas — disse Gucky.
O telepata estava querendo fazer um sinal de recusa, quando, de repente, parou. Seus traços fisionômicos davam mostra de preocupação. Acabou abanando a cabeça afirmativamente.
Uma idéia verdadeiramente maluca, Gucky, mas creio que para isso preciso da autorização de Rhodan. Sem qualquer ordem, não podemos contaminar com uma epidemia saltadores que não residem no planeta de Goszul. A doença é contagiosa e eles poderiam levá-la pelo espaço afora. E a mim repugna contaminar propositalmente o universo.
Pergunte então a Rhodan — propôs Tako. — Ele naturalmente saberá pelo que pode e pelo que não pode se responsabilizar.
John também achava que este era o caminho certo. Tirou do esconderijo o aparelho com o qual se podia obter uma ligação simultânea até uma distância de três meses-luz. Exatamente após trinta segundos se estabeleceu contato com a Stardust-III.
Há uma oportunidade única de encontrar reunidos aqui, em assembléia, os saltadores, Rhodan, devemos contaminá-los com a epidemia ou não?
Uma pergunta direta, John. Responderei também diretamente, se você me puder dar uma outra informação: O que vai ser debatido nesta assembléia dos saltadores?
Ninguém sabe ao certo. Gucky acha que é o ataque à Terra.
Quer dizer então que ainda não estão curados — murmurou Rhodan, refletindo por uns segundos. — Bem, terá sua resposta: Bem, se os saltadores hoje à noite resolverem que atacarão a Terra, então devem ser contaminados. Será que me exprimi bem claramente?
Perfeitamente. E o que acontece se espalharem a epidemia pelo universo?
Incrível, reconhecer-se através da distância de oito dias-luz a risada de Rhodan.
Quase nada — respondeu ele, interrompendo a ligação.
A fisionomia de John não estava exuberante, quando ele guardou o aparelho e olhou indeciso para seus companheiros.
Vocês ouviram? Quase nada, foi a resposta de Rhodan. Alguém compreendeu isso?
É necessário compreender? — acrescentou Gucky e continuou apressadamente: — Atenção, eu sinto que Enzally está chegando. Tomara que não perceba nossa dúvida, seria muito desagradável.
Mas Enzally estava muito calmo. Cumprimentou os quatro homens com a mesma inclinação, com a qual também se dirigiu a Gucky, sentou-se e disse meio sorrindo:
A reunião dos saltadores começa a qualquer momento. Vim com um carro oficial da Administração do Espaçoporto até aqui, para colocá-los a par de tudo. Estão admirados por causa do carro? Pois é, temos nossos amigos agora por toda parte. Mas, voltando aos saltadores, qual é a sua intenção? Querem mesmo acabar com a reunião deles?
Queremos contaminar os saltadores — disse John asperamente.
Um sorriso frio percorreu o semblante do velho goszul.
Excelente. Os deuses comerciantes já viram o que acontece com uma raça atacada com esta epidemia do esquecimento. Ao notarem a mesma doença em si mesmos, fugirão para o universo em pânico, para lá procurarem cura. E nos deixarão futuramente em paz.
Tako abriu uma caixa comprida e tirou dela cinco bombas pequenas. Tentou medir-lhes o peso, colocando uma em cada mão.
John percebeu.
Gucky vai acompanhar você. É melhor que dois teleportadores executem a missão. Joguem as bombas e desapareçam imediatamente. Talvez seja possível, Gucky, saber alguma coisa sobre o objetivo da reunião, antes. Rhodan deu a ordem de jogar as bombas somente se os saltadores manifestarem a intenção de atacar a Terra.
Pode confiar em nós — disse Gucky, tranqüilizando o telepata.
Tirou de Tako duas das cinco bombas e o pegou pela mão, fazendo-lhe um sinal.
Um segundo depois, já tinham desaparecido.

* * *

Os dois teleportadores se materializaram não longe do edifício, à beira do espaçoporto, que já lhes era conhecido. Lá se realizaria hoje a grande assembléia. Enzally lhes descreveu bem detalhadamente a situação. Pela redondeza não se via ninguém, nem mesmo robôs de vigilância. Em frente à entrada do edifício, porém, lá estavam dois importantes robôs de combate, com armas de raios energéticos, de prontidão. Não havia possibilidade de querer passar por eles.
Portanto, diretamente para a caverna do leão — disse Tako pouco entusiasmado. Parecia um legítimo goszul e ninguém o diferenciaria de um aborígine deste mundo. — Não sabemos onde desceremos e se descermos no meio do salão de reunião, vai dar alguma complicação.
Principalmente quando me virem — acrescentou Gucky com toda simplicidade.
Mas de outro lado, eu tenho mais recursos que você. Afinal de contas, sou também telecineta. Vou torcer o nariz deles...
Tako sorriu levemente.
Pois bem, então pule você primeiro e volte logo para dar informações. Depois pulamos juntos.
Gucky olhou em volta.
Fique aqui, atrás do ponto de táxi, e esconda-se o melhor que puder. Mas quem é que passaria por aqui? Um goszul não o atraiçoará e os robôs de vigilância não estão à vista. Não creio que corra perigo.
Além disso, você voltará logo, não é? — tranqüilizou-se Tako.
Gucky fez sinal que sim e desmaterializou-se.
O japonês ficou para trás sozinho e preparou tudo para poder fugir, quando fosse preciso. Mas tudo estava calmo. O espaçoporto com suas enormes naves parecia morto. Lá ao longe, patrulhava um robô. O sol já tinha desaparecido no horizonte e estava escurecendo. Demorou uns cinco minutos até Gucky reaparecer.
Descobri um ótimo lugar — disse ele com sua voz incrivelmente estridulante. — Uma espécie de galeria, em cima do salão de reunião. Ninguém nos vê e gozamos de uma bela vista. Podemos até ouvir tudo que falarem, pois já que os saltadores falam diversos dialetos, vão discutir em intercosmo.
Leve-me pela mão, é mais garantido. Pularam e numa fração de segundo desceram num local escuro, que mal recebia um raio de luz vinda de baixo. Ouvia-se um vozerio abafado.
A galeria — sussurrou Gucky. — Mova-se com muito cuidado, quando chegarmos ao corredor. Acho que antigamente, o pessoal sentava aqui em cima também, mas agora que os saltadores estão dizimados, a sala de baixo lhes é plenamente suficiente.
Deixaram o local, onde se armazenava objetos velhos, entre eles um robô colocado fora de serviço. Na galeria mesmo, estava mais claro e havia pouca possibilidade de se esconder. Tinham que confiar que ninguém passaria por lá. Arrastaram-se cautelosamente com as mãos e os pés e depois se levantaram um pouco.
O que viram então fez seu coração disparar.
Mais ou menos vinte saltadores estavam sentados ou de pé, em grupos, falando com alguma excitação. Como parecia, as conversações tinham sido interrompidas, para dar liberdade a cada saltador de discutir individualmente seus assuntos.
Lá na frente estavam sentados Etztak e Ralgor, este último numa mesa comprida; Gucky o reconheceu logo pelo estupendo galo vermelho na testa. O patriarca de barba cinzenta falava muito com Ralgor, mas os dois escutadores não conseguiam entender uma palavra. Gucky então passou para a via telepática e percebeu que Etztak mencionava a possibilidade de invadir a Terra. Falou de um plano que iria levar a debate. Dos pedaços de pensamento de Ralgor, entremeados no diálogo, percebeu que se tratava mesmo daquele plano que Ralgor queria impor ao velho patriarca.
Acho que está na hora de ficarmos livres destas bombas — chiou Gucky para seu companheiro impaciente. — Ainda não perderam este planeta e já pensam em conquistar outro. Vamos estragar a festa deles.
Lá embaixo, no salão, o quadro tinha mudado. Etztak pediu aos patriarcas presentes que tomassem seus lugares. Esperou até que houvesse silêncio total e começou a falar:
Vimos inicialmente para o planeta de Goszul, a fim de discutirmos a possibilidade de enfrentarmos em conjunto a crescente ameaça de um certo Perry Rhodan, que representa a Terra. Infelizmente nossa intenção foi um pouco adiada por acontecimentos imprevistos. Agora mesmo, surge um outro fato, com que não contávamos. Irrompeu no planeta de Goszul uma epidemia, de natureza completamente ignorada. Para nosso desapontamento, temos que confessar que não somos imunes a ela. Conforme os últimos comunicados, sete dos vinte e um governadores já estão doentes e perderam a memória. Nós, que ainda não estivemos em contato com os goszuls, não ficaremos doentes, mas é evidente que devemos sair daqui o mais breve possível, para não nos expormos ao perigo de contágio.
Etztak aguardou até que a inquietação geral se acalmasse e com voz diferente continuou:
Neste momento, quero lembrar aos senhores o objetivo específico de nossa reunião aqui, pois desta vez não se trata de assuntos técnico-comerciais. Ao tentar estabelecer contato com o planeta Terra, meu clã foi derrotado por um poderoso inimigo. Falo de Perry Rhodan, administrador ou presidente deste planeta. Parece trabalhar com a cooperação dos arcônidas, cuja atividade repentina parece incrível. Rhodan conseguiu destruir um grande número de nossas naves, com armas desconhecidas. Além disso, este Rhodan conhece com toda certeza o segredo do mundo da vida eterna, daquele mundo encantado onde se pode conseguir a imortalidade.
Novamente um murmúrio surdo entre os presentes. Os patriarcas chegavam-se uns aos outros e começavam a cochichar.
Mais do que qualquer outra riqueza, a vida eterna os fascinava. Uma simples lenda parecia ter se transformado numa realidade.
Mas Etztak não permitiu muito falatório.
Temos que abandonar este planeta, meus irmãos, ninguém duvida disso. E assim como estão as coisas, vou propor, no Conselho dos Saltadores, uma quarentena de cinqüenta anos. Infelizmente temos que perder as preciosas instalações técnicas, mas isso é irremediável. E agora, minha proposta, que encontra apoio na opinião de Ralgor: Partiremos unidos com nossas espaçonaves e armamentos correspondentes para o planeta Terra e destruímos a frota de Rhodan. Tenho a certeza de que encontraremos na Terra mais riquezas do que em todos os outros mundos que conhecemos. Lembro apenas o planeta da imortalidade.
Alguém, nos fundos, se levantou e gritou:
E a escolta de proteção?
Parece que Etztak esperava a pergunta.
Topthor, o superpesado. Receio que não podemos confiar nele. Enquanto eu parlamentava com Rhodan, tentou atacar a Terra independentemente, sofrendo uma derrota tremenda. Sua frota foi destruída quase toda. Quando, mais tarde, eu lhe pedi reforço, já estava em fuga. Acho que não terá mais vontade de atacar a Terra.
Por que não fazemos um acordo com Rhodan, se ele é tão forte assim?
É realmente forte. Alguém, aqui neste salão, acredita que podemos contar com vantagens de um adversário poderoso? Ele é quem dita as condições, não nós. Que é que ganharíamos com isso? Portanto, só temos uma opção: Temos de atacar de surpresa este planeta Terra e enfraquecer de tal maneira sua força de resistência, que o possamos tomar de assalto.
Três ou quatro dos patriarcas gritaram excitados:
Por que ainda estamos discutindo? Deixemos o planeta de Goszul, do qual nada mais podemos esperar, vamos depressa para a Terra aproveitar a riqueza dos arcônidas. Investiguemos a posição do planeta da vida eterna e obtenhamos a imortalidade.
Etztak concordou, fazendo um sinal.
Nossa decisão deve ser unânime, para que ninguém saiba do plano. Quem tem argumentos contrários?
Um saltador, ainda jovem, da primeira fila, levantou a mão.
Vamos abandonar os robôs de combate no planeta de Goszul?
Ralgor, que estava ao lado de Etztak, ficou nervoso, mas se dominou maravilhosamente, deixando a resposta para o mais idoso.
Temos outra opção? — perguntou Etztak, com as sobrancelhas levantadas.
Nossos recursos de desinfecção são inoperantes. Não podemos, de maneira alguma, espalhar esta doença pelo universo. Conseqüências inimagináveis pesariam sob nossa responsabilidade. As raças inteligentes do universo sem memória... uma visão horripilante.
Para Ralgor, este assunto era muito desagradável. Interrompeu Eztak.
Mais alguma objeção? Se ninguém tem mais nada a dizer, proporia que Etztak procedesse à votação.
O velho de barba cinzenta concordou.
Há alguém aqui, que não concorda com uma operação comum dos comerciantes das galáxias para transformar a Terra em colônia e tirar das mãos de Perry Rhodan o segredo da vida eterna?
A pergunta foi feita de tal maneira que ninguém se atreveu a dar opinião contrária. A proposta de conquistar a Terra foi, pois, aprovada por unanimidade.
Etztak gesticulava contente.
Vamos, portanto, aos detalhes. Proponho que por mais três semanas, fiquemos em órbita em torno do sistema de Goszul e lá nos encontremos. Para que escolher um outro lugar?...
Gucky já tinha ouvido bastante. Virou-se para Tako.
As bombas estão prontas, vamos explodi-las.
O japonês meteu a mão no bolso e tirou dele os três invólucros de plástico.
Regular o detonador para cinco segundos — mandou Gucky.
Enquanto preparavam o seu atentado, discutiam-se grandes problemas embaixo. Não tinham mais nenhum interesse para os dois espiões, pois os patriarcas não conseguiriam mais executar os planos concebidos.
Tako colocou o terceiro detonador e olhou para baixo. Gucky já estava pronto.
Depois de atiradas, levam ainda cinco segundos para explodir. A detonação é inofensiva, tem apenas a finalidade de espalhar as bactérias. Além disso, a pequena explosão dá uma impressão de bomba de dinamite. Portanto, vamos lá... um, dois, três...
As cinco bombas descreveram uma grande curva no ar e caíram no chão ou sobre as mesas por entre as pessoas reunidas. Por um segundo houve pleno silêncio, depois, ouviu-se um berro de Ralgor, que foi o primeiro a se dominar:
Protejam-se.
Era fácil falar, mas como se proteger, se ninguém sabia quanto tempo levariam as bombas para explodir? Todos se atiraram no chão automaticamente, como que para evitar os estilhaços. Quando, porém, reboaram as cinco detonações e nada aconteceu, todos se sentiam aliviados, mas aos poucos foi surgindo a dúvida de algum truque — o que realmente se aproximava da verdade. Ninguém, porém, chegou a manifestar a suspeita de que se tratava de bombas bacteriológicas.
Etztak já estava de volta a seu lugar, tendo na mão uma pequena pistola energética e examinando com os olhos a galeria vazia. As bombas vieram lá de cima. Mas Gucky e Tako tinham sumido há muito tempo.
7



Perry Rhodan empurrou para trás a pequena alavanca que estabelecera o contato simultâneo com John Marshall.
Desapareceu o leve chiado da estática cósmica. Virou-se vagarosamente, olhando para Reginald Bell. Os dois estavam sozinhos na central de comando do gigante do espaço Stardust, a oito dias-luz do sistema de Goszul.
Então, que é que você acha?
Bell fez cara de dúvida.
Por que todo este teatro no planeta de Goszul, se queríamos apenas expulsar vinte saltadores? Acho que seria suficiente contaminar apenas os vinte.
Exatamente, não — contradisse Rhodan. — Se ficassem contaminados somente os patriarcas e suas tripulações, não poderiam saber de onde é que veio a epidemia. É claro que ainda agora, eles não sabem. Mas têm que saber que no planeta de Goszul, até mesmo os robôs e as instalações estão contaminados. Além disso, presenciaram o horrível espetáculo dos goszuls que perderam a memória e tinham de começar tudo de novo. Não, sem este exemplo, o resultado não podia ser tão eficaz. Conseguimos cem isto duas coisas ao mesmo tempo: Vão pôr o planeta de Goszul cinqüenta anos de quarentena e seu plano de conquistar a Terra será logo desfeito.
Tomara que você tenha razão, Perry. Eu não sinto nenhum prazer em ficar a eternidade toda lutando contra estes saltadores pelo espaço afora. Afinal de contas, temos outros assuntos para tratar.
A assembléia se realizou, faz oito dias. Já devem estar aparecendo os primeiros sintomas nas espaçonaves dos saltadores. Até agora os nossos instrumentos mostram apenas que circulam em torno do sistema a uma distância de dois dias-luz, recebendo sempre mais reforços. O major Nyssen informa do sistema solar que já contou ao todo sessenta e nove espaçonaves.
Bell assobiou por entre os dentes e alisou com a palma da mão as pontas dos cabelos eriçados.
É um belo número. Gostaria de saber como é que vamos dar conta disso.
Não é preciso. As bactérias dão conta disso. Nyssen informa que nos últimos dias tem havido muita discussão. Os patriarcas visitam os comandantes das naves que vêm se ajuntando a eles. Podemos, pois, calcular que todos ficarão contaminados. Mais um ou dois dias e o diabo estará solto no meio dos saltadores, pode estar certo disso.
Bell olhava ansiosamente para a longa fila das válvulas de controle. Sabia que cada uma delas representava o contato invisível com as naves dos saltadores. O enfoque do ponto se processava mais veloz do que a luz através do rastreador de estrutura e do cérebro positrônico. Assim que qualquer nave dos saltadores alterasse sua posição no espaço, uma das válvulas acendia. Cálculos que se desenvolviam automaticamente davam em apenas alguns segundos a direção exata e o distanciamento do salto. Um sistema especial registrava todos os impulsos. Logo após, se podia constatar num mapa exatamente para onde iam os diversos clãs.
Deve começar a qualquer momento — resmungou Bell. — Quando perceberem que estão todos contaminados com a peste, tentarão procurar o primeiro médico.
Rhodan sorriu maliciosamente.
Não sei onde reside seu médico mais próximo, mas seu cuidado não tem fundamento. Acha que eu iria contaminar toda a galáxia com uma epidemia diabólica? Não se preocupe, Bell. É verdade que os saltadores ficarão com a pele cheia de placas vermelhas no rosto, perderão por algumas semanas a memória, mas aos poucos estes sintomas vão enfraquecendo e finalmente desaparecem por completo. Também, depois de seis dias, as bactérias perdem o poder de infecção. Não há, portanto, nenhuma possibilidade de contaminar outras raças.
Bell ouviu com muito interesse.
Por que então você não tranqüilizou Marshall quando ele falou do receio de contaminar outros povos?
Porque todo mundo, até mesmo ele, devia ficar acreditando que se tratava realmente de uma doença verdadeira. Alguém podia se trair, mesmo contra sua vontade. Está, pois, notando que usamos um simples truque.
E como é este negócio de aumento da inteligência?
Isto não é truque, funciona realmente. Os convalescentes da breve epidemia se tornam realmente mais ajuizados.
Até mesmo os saltadores?
Espero que sim. Pois, se ficarem mais ajuizados, vão certamente desistir de querer incorporar a Terra ao seu império.
Bell sorriu satisfeito.
Estou então moralmente tranqüilo e Marshall ficará feliz quando souber da verdade.
Ainda é um pouco cedo para isto — disse Rhodan, silenciando de repente. Na fila das válvulas, acendeu uma lampadazinha vermelha. Quase que ao mesmo tempo saiu de uma fenda estreita uma tira de papel dobrada. Rhodan apanhou-a e leu:
Mudança de direção Setor XP-578-H. Distância 389,057 anos-luz.”
Bell apanhara, entrementes, um mapa sideral e o estava consultando. Parecia muito assustado.
Exatamente em direção oposta à Terra — deu um sorriso largo. — Talvez isto significa que resolveram outra coisa e...
Uma outra lâmpada acendeu, logo após uma terceira. E começou um verdadeiro jogo de luz na central da Stardust, como nunca antes acontecera. As lâmpadas acendiam uma após a outra e da fenda estreita, que estava em ligação com o cérebro positrônico, saía uma mensagem escrita após a outra.
Bell já havia desistido de comparar as mensagens positrônicas com o grande mapa sideral. Bastaram-lhe algumas provas avulsas.
Nem um único dos aparelhos espaciais se dirige para a Terra — em menos de vinte minutos, as sessenta e nove lampadazinhas estavam acesas no painel de controle. A frota inteira dos saltadores havia abandonado o sistema de Goszul em debandada, sem opção e comandada apenas pelo pânico, disparada em todos os sentidos.
Rhodan olhou para a fila das lampadazinhas e para a pilha de mensagens escritas. Sua fisionomia estava carregada e não mostrava muita satisfação. Nos olhos brilhava uma luz fria, mas lhes faltava a habitual rigidez.
Só lamento uma coisa — disse ele sem olhar para Bell — mas não se pode conseguir tudo ao mesmo tempo.
Mas que coisa é esta?
Que não conseguimos falar com os saltadores. Gostaria muito que se tornassem nossos amigos.

* * *

Seguindo as instruções de Rhodan, transmitidas pelo rádio, Marshall começou a enviar para os continentes contaminados o soro de cura. Este antídoto era recebido pelos adeptos de Ralv e distribuídos. Eram agulhas muito pequenas embebidas no soro, colocadas num esparadrapo de tal maneira que, ao contato com a pele, provocava uma espécie de injeção. Já dois dias após, desapareciam as placas vermelhas e no terceiro dia, começava também a aparecer a memória. Além disso, o quociente intelectual do ex-portador da doença, subia cerca de 20 por cento.
No mesmo dia em que a frota dos saltadores entrou em pânico e debandou, John e seus mutantes se transferiram do veleiro para as imediações do espaçoporto, para aí estabelecer seu novo quartel-general. Era a residência oficial do Supremo Governador dos saltadores, que no momento estava no hospital, tentando inutilmente se lembrar quem era ele.
O edifício não muito grande, estava equipado com extraordinárias instalações de segurança. O simples toque de um botão de alarme era suficiente para colocar toda a casa sob a proteção de um envoltório energético. Mesmo os robôs de combate não podiam então entrar. John se sentiria mais seguro aí, pois, desde que quase a metade dos governadores tinha caído doente, os robôs estavam começando a ficar irrequietos. Sabia que a batalha ainda não estava terminada.
Chegou então Ralv para dar conta dos acontecimentos. Enquanto Gucky estava sentado no terraço do último andar do edifício, olhando para todos os lados, John e os três japoneses aguardavam a chegada de seu aliado. O chefe dos revolucionários tinha se transformado nestes últimos dias.
De um combatente da resistência, obrigado a viver sempre na clandestinidade, passara a um estadista consciente de sua responsabilidade. Formou-se nele uma personalidade de grande serenidade e senso de responsabilidade, considerando seus amigos de um outro mundo como parceiros, jamais se esquecendo de lhes demonstrar gratidão.
Conseguimos, na noite passada, ocupar uma sucursal da Central Automática de Controle. Dez robôs de vigilância que eram controlados por ela, destruíram a si mesmos.
John, que ouvia com muita atenção, interveio:
Destruíram a si mesmos? Mas como? Parece impossível, pois os robôs de vigilância não possuem armas. Como pode ser isso?
Não tenho a menor idéia. Ocupamos a central, situada fora da cidade, depois que destruímos seu robô de combate. E isto não foi lá muito difícil. Um dos nossos o atropelou com um carro. Infelizmente, ele morreu no acidente, mas o robô foi atirado com tanta força contra a parede que se transformou num monte de sucata. Quando penetramos na central ficamos entendendo alguma coisa das ligações e controles, En-zally estava nos orientando, demos aos dez robôs a ordem de matar os treze governadores reunidos no Edifício de Administração.
Idéia maluca — interrompeu John, começando a entender o que se passara.
Ralv não se deixou interromper e continuou:
Os dez robôs ficaram parados, sem se mexer. Começaram então, de repente, a ficar incandescentes de dentro para fora e derreteram. Não sobrou nada deles a não ser pedaços de metal disformes.
Curto-circuito — confirmou John. — É o fator de segurança com que estão construídos. Não podem jamais atacar um saltador, a não ser que sejam antes reprogramados. Mas isso só pode ser feito através do posto de comando, que está resguardado na mão dos robôs de combate e dos outros governadores. Que farão os últimos saltadores? — perguntou a Ralv. — A frota debandou e o planeta de Goszul está sob quarentena, com outras palavras: ninguém pode mais descer.
Também aí os nossos estão trabalhando muito bem — continuou Ralv, orgulhoso. — Enzally ouviu uma das últimas reuniões. Os governadores sabem que estão numa terra contaminada pela epidemia, de onde ninguém os virá buscar, para ficarem também contaminados. Assim sendo, não têm mais nenhuma vontade de passar aqui, isolados, o resto de sua vida. Precisam, então, de uma nave espacial para fugirem deste mundo e com isso da epidemia do esquecimento, antes de perderem a memória.
Muito compreensível. Resta apenas saber de onde pretendem arranjar uma nave espacial. Enquanto eu sei, não dispõem de nenhuma nave intergaláctica, possuem apenas naves pequenas, com as quais, por muito favor, poderão chegar aos planetas vizinhos. Isto, porém, não vai ajudá-los.
Em algum lugar, eles têm que ter uma nave espacial, uma grande nave, ao menos estavam falando disso. Infelizmente Enzally não conseguiu pegar mais nada porque mudaram de assunto.
Uma grande nave dos saltadores...?! — continuou John, refletindo com muita intensidade a respeito.
Rhodan não tinha expressado o desejo, já há tempo, de poder estudar com calma as particularidades técnicas de uma nave dos saltadores? Não estava havendo uma possibilidade para isto agora?
Temos de investigar o que planejam os governadores.
Ralv abanou a cabeça confirmando.
Os robôs me causam muita preocupação. Como podemos nos tornar donos do nosso próprio planeta, se os robôs não nos permitem? Já temos um governo provisório e já estamos preparados para começar o trabalho de reconstrução, mas surgem novas complicações. Os robôs devem ter recebido a ordem de nos expulsar em qualquer lugar que nos encontrem.
Como é que explica isto? — perguntou John, curioso.
Antigamente nós éramos os servos dos deuses. Trabalhávamos com os robôs e recebíamos ordem deles. Agora nem podemos mais nos aproximar deles, que nos atacam imediatamente, mesmo que não tenhamos nenhuma intenção agressiva contra eles.
Devem ser os governadores. Para evitar outra infecção, devem ter dado ordem aos robôs de não permitirem a aproximação dos nativos. Acho muito natural. Tudo tem sua explicação natural, Ralv.
O revolucionário queria dizer alguma coisa, mas foi interrompido.
Em cima da única mesa do salão, havia uma caixa metálica de tamanho reduzido, que de repente começou zumbir, acendendo simultaneamente uma luz vermelha. John deu um pulo e correu para a mesa, apertando alguns botões, dizendo:
Comando de ataque, Marshall.
Aqui fala Rhodan — foi a resposta imediata. — Desceremos em dez minutos — por uns dois segundos John pareceu que perdeu a fala. Depois respondeu afobado: — O planeta ainda está sob o controle dos saltadores, senhor. A Central dos Robôs está em mãos dos governadores que deram a ordem aos robôs de combate para que...
Estamos descendo exatamente para paralisar a Central de Controle — respondeu a voz tranqüila de Rhodan. — Onde está você com seu pessoal?
Aqui no lado do espaçoporto, na margem oeste. O senhor reconhecerá facilmente o edifício pelo seu teto chato.
Não desligue o aparelho, assim posso me manter em contato com você, depois de descer. Que poderão fazer os robôs contra as nossas quatro naves?
Eu também não sei — concordou John. Mas sabia que Rhodan nunca se expunha a perigos sem necessidade. Gostava tanto da vida como todo mundo, talvez mais, pois era quase imortal. Mesmo assim, uma punhalada o podia matar.
Espere-nos, portanto — disse Rhodan, concluindo a mensagem.
Ralv ouvira tudo com interesse. Entendeu o diálogo mantido na linguagem dos ex-deuses, ouvida nitidamente pelo aparelho. John pretendia dar uma explicação:
São nossos amigos, somos do mesmo mundo, vieram para libertar definitivamente seu planeta.
Ralv perdeu um pouco a segurança.
Libertar? Como poderia alguém querer nos libertar sem segundas intenções? Por que vocês o fizeram? Eu ainda não me havia perguntado por quê.
Rhodan haverá de explicar tudo a você — disse John, tentando consolá-lo. — Porém, não temos tempo para planos futuros, temos que agir. Dentro de poucos minutos, os saltadores vão saber com quem estão lidando, se é que eles já ouviram falar da Terra.
Oito minutos mais tarde, o céu se escurecia na região do espaçoporto, quando a gigantesca esfera da Stardust descia lentamente e tocava o solo do planeta de Goszul pela primeira vez. Desceram também os três cruzadores Terra, Solar System e Centauro de tal forma que a Stardust ficou entre eles e assim estava protegida.
Um pequeno planador a jato transportou Rhodan e Bell para a casa onde John o esperava. O pequeno veículo pousou no terraço, onde Gucky os esperava.
Como vai, Gucky — perguntou Rhodan, abaixando-se para acariciar o pêlo do rato-castor. — Tempos difíceis, não é?
Foi maravilhoso — disse Gucky abanando a cabeça, para surpresa de Rhodan. — Ao menos, por umas duas semanas não me foi preciso olhar para a cara deste monstro.
O monstro estava saindo naquele instante do planador a jato e ouviu as últimas palavras. Os fios do cabelo vermelho se levantaram, mas a boca de Bell, para surpresa de todos, não se abriu. Com toda seriedade passou ele diante de Gucky, como se não fosse realmente o Gucky, mas um simples cachorro da rua, indigno de qualquer atenção. Com a firmeza de um sonâmbulo, achou Bell a descida para a casa, desaparecendo segundos após.
Gucky, decepcionado, o acompanhou com o olhar. Rhodan sorriu e o tentou consolar:
Não se preocupe com isso, Gucky. Ele se irritou com a sua frase. Você é telepata e devia saber disso.
É isso mesmo — lamuriou Gucky, ainda meio perplexo. — Ele nem se lembrou de mim, ou me xingou mentalmente. Nem olhou para mim.
Alguma coisa ele deve ter pensado, Gucky.
Sim, sempre a mesma coisa. Só besteira. Bolo, chocolate com pudim, bombons, geléia disso ou daquilo... Ninguém pensa nessas coisas.
Pensa, sim — afirmou Rhodan, continuando a sorrir. — É um espertalhão. Pensou só bobagens para despistar você, para você não saber o que ele realmente pensa. Fora disso, há alguma novidade? — Gucky se concentrou logo.
A Central de Controle dos robôs de combate está a dois quilômetros daqui. Nós temos que ocupá-la ou destruir todos os robôs. Seria um grande prejuízo.
É a minha opinião também — concordou Rhodan. — Espero você lá embaixo com Marshall, dentro de dez minutos. Até lá, fique vigiando e mantenha contato telepático com os saltadores. Avise-me de qualquer mudança na situação.
Seguiu o mesmo caminho de Bell, que acabou encontrando na sala de Marshall. Cumprimentou os mutantes e foi apresentado a Ralv, que apesar de sua nova posição de chefe do governo, sentia de repente um inexplicável acanhamento quando olhou para os olhos de Rhodan. Só então que ele compreendeu que não estava diante de um superior, mas de um amigo. Pegou impulsivamente as mãos de Rhodan e as apertou fortemente.
Nem tiveram tempo de trocar algumas palavras, quando Gucky se materializou entre eles.
Os robôs estão marchando — estridulou ele, quase ofegante. — Em quinze minutos estão aqui. Duzentos ao todo.
Rhodan empalideceu um pouco. Sabia que somente a Stardust era suficiente para reduzir os duzentos robôs a um montão de ferro velho, mas não era isto que ele queria. Os goszuls precisariam destes robôs, para reconstruir seu mundo, ou teriam de perder a oportunidade única de se aproveitarem das instalações técnicas ali existentes.
Os governadores — disse John, que estava interpretando mal a preocupação de Rhodan. — Eles são os responsáveis. Uma só bomba bastaria...
Não — interveio Rhodan. — Eu gostaria de parlamentar com os saltadores. Mas antes, liquidemos os robôs. Gucky, Tako, vocês são teleportadores, pulem para a Central de Controle e desliguem os instrumentos de centralização de impulsos. Gucky, leia meus pensamentos que você sabe o que estou pensando. Quero salvar os robôs. Quando forem desativados, se tornarão inofensivos e mais tarde poderão ser reprogramados à vontade. Compreendido, Gucky?
O rato-castor confirmou.
Estamos logo de volta. Vamos, Tako, dê cá a mão.
Ainda pensando constantemente em bolos e pudins, Bell estava fixando o local onde, há alguns segundos, estivera Gucky. A este endiabrado rato-castor queria ele mostrar de que valia um telepata, quando o outro não queria que lhe lessem o pensamento. John Marshall estava olhando para Bell, fez um sinal para Rhodan e perguntou:
Você não está se sentindo bem, Bell?
Como assim?
Por que você constantemente está... Bell amaldiçoou todos os telepatas, vivos ou ainda por nascer. Era da conta de Marshall saber o que ele estava pensando? Teria dado uma resposta à altura, quando Tako se materializou. O raquítico teleportador tentou dominar a respiração antes de falar:
Robôs de combate, na estação. Atacaram-nos. Não é tão fácil como nós pensávamos.
Que aconteceu com Gucky? — foi a pergunta de Bell.
Está mantendo a posição. Tenho que lhes dizer que vai demorar pelo menos três minutos... se ele conseguir.
Rhodan ligou seu transmissor de pulso e entrou em contato com a Stardust.
Fischer, ligar o envoltório energético. Se robôs de combate atacarem, não abrir fogo. Dê ordens idênticas aos três cruzadores. Fim — virando-se para Tako, disse: — Vá ajudar Gucky, leve aqui minha pistola energética. Um robô só não vai fazer falta.
O japonês apanhou a pistola e desapareceu.
Rhodan correu com os outros para o terraço do edifício. Daí se podia ver tudo, até mesmo o edifício da administração, onde se encontravam os governadores. Mais ao lado e um pouco isolado das casas, estava o prédio da Central de Controle dos Robôs. Uma gigantesca antena esférica transmitia em todos os sentidos os impulsos de comando.
Numa faixa bem larga, aproximavam-se os robôs de combate, com as pistolas energéticas em posição de fogo. Era realmente uma força de combate incalculável. Poderia, no entanto, acontecer que os saltadores lhes dessem outra ordem, quando percebessem que não conseguiriam fazer nada contra as quatro espaçonaves.
Tomara que Gucky tenha sorte — disse Bell para Rhodan. Podia-se notar sua grande apreensão não apenas com o ataque maciço dos robôs, mas principalmente com seu amigo Gucky. — Devemos ajudá-lo.
É tarde para isto, Bell. Gucky tem que ver como ele sozinho dá conta das máquinas.
Os primeiros robôs atingiram a linha invisível da campânula energética, que se havia formado em torno das quatro naves. Pararam subitamente e começaram logo em seguida a atirar com todas as armas disponíveis. Feixes de raios multicores se chocavam contra a muralha invisível, ricocheteavam para todos os lados, sem produzir nenhum efeito. Alguns robôs foram atingidos pelos próprios raios de suas armas e ligaram seu envoltório de proteção.
E então, quando os robôs começaram sistematicamente a dar voltas em torno das espaçonaves, mantendo o fogo cerrado, o exército de metal parou repentinamente, como que petrificado.
Quase no mesmo segundo, Gucky e Tako se materializaram na beira do terraço, olharam primeiro para os robôs de combate completamente imóveis e vieram depois para o grupo dos seus. Gucky olhou com ares de triunfo para Bell e se dirigiu a Rhodan:
Tive que destruir a fiação coletora da antena, não havia outro jeito. Mas é fácil consertá-la depois. Os robôs estão agora sem impulso e não sabem o que fazer. Suponho que voltem agora para seus quartéis, esperando novas ordens. Assim que a antena ficar pronta, podemos mudar sua programação.
Ótimo serviço, Gucky — elogiou Rhodan, acariciando os pêlos da cabeça de seu pequeno amigo. — Você também, Tako. Aliás, tenho que expressar minha gratidão e meu reconhecimento ao comando de John Marshall. Sem ele, levaria muito mais tempo e não teria sido tão simples assim.
Mas e a epidemia... — começou John, sendo então interrompido pelo sorriso aberto de Rhodan.
É mais ou menos como uma gripezinha ou um sarampo. Temos anti-soro, mas mesmo que não tivéssemos, não teria nenhum perigo. Os saltadores que fugiram daqui, haverão de saber, no máximo dentro de dois meses, que perderam inutilmente este planeta. Mas então já será muito tarde para pensarem em voltar, pois tomaremos nossas providências.
E o que acontecerá com os treze saltadores que estão lá na Central de Comando, tramando planos contra nós? — perguntou Bell.
Com eles, nós vamos parlamentar. Sempre foi minha intenção manter um diálogo com os representantes deste povo poderoso. Acho que existem agora as condições ideais para um diálogo. Falta-lhes o apoio que sempre tiveram e nós temos tudo. Pode crer, Bell, os resultados dos entendimentos serão ótimos. O ponto de partida dos entendimentos é sempre mais importante do que os próprios entendimentos. Gucky saiu de seu lugar, passou por Rhodan e se dirigiu diretamente a Bell. Com uma voz quase sentimental, pegou-lhe a mão, dizendo:
Desculpe-me, Bell, se eu o magoei há pouco. Não foi minha intenção. E muito obrigado pelo fato de não estar pensando obstinadamente só em bolos e pudins. Assim, eu sei pelo menos em que você está pensando.
Está certo — murmurou Bell comovido, olhando para o céu, como se lá houvesse algo importante. — Está certo, meu velho companheiro, nós já sabemos como tratar um ao outro.
Velho companheiro? — continuou Gucky. — Se você me chama de velho, está enganado, mas redondamente. Se eu sou velho, você é uma criancinha de colo...
Bell olhou suplicante para Rhodan e respirou profundamente, mas Gucky não lhe deu tempo para falar:
Eu tenho apenas cento e cinqüenta anos, para que você saiba, seu neném de colo, mas isto não é idade para mim. Eu viverei... bobagem, ninguém sabe quanto tempo ainda viverá. Você, porém, com seus quarenta anos, ainda está no jardim da infância, principalmente quando se sabe que sua inteligência agora é que está se desenvolvendo. Finalmente alguém lhe devia dizer que...
Gucky — interrompeu Rhodan, muito calmo — você quer fazer o favor de ir até os saltadores e convocá-los para uma reunião?
O rato-castor abanou a cabeça afirmativamente e com seus olhos castanhos e suaves fitou por um instante Bell:
Sim, já vou, mas quando voltar, quero mostrar a este, a este... — e não achando a palavra certa, desapareceu.
Bell olhou espantado para o local, repentinamente vazio.
É realmente um companheiro fantástico — murmurou meio envergonhado, enfiando as mãos no bolso e passando para o outro lado do terraço, onde começou a observar o exército dos robôs paralisados.
Rhodan estava ao lado de John. Ambos observavam Bell.
Chama-se isto de retirada estratégica — disse o telepata.
Rhodan concordou.
Esperamos que os saltadores também conheçam a retirada estratégica — disse ele, colocando a palma da mão acima dos olhos, para poder ver melhor o edifício que ficava a dois quilômetros, no qual, neste momento, os saltadores estariam presenciando a maior surpresa de sua vida.
Não é muito comum, encontrar-se, subitamente, cara a cara com um rato gigantesco, surgido do nada... Principalmente quando não se acredita em assombrações.
E os saltadores certamente não acreditavam.





* * *
* *
*






Os saltadores têm pavor do flagelo do esquecimento. Mais pavor do que da própria morte. Por este motivo, abandonam furtivamente o planeta e libertam os goszuls, que até então serviam de escravos para eles.
Que acontecerá, porém, se os saltadores anteciparem sua volta?
Perry Rhodan já tem resposta para esta eventualidade. Chama-se: O Planeta Louco, o título do novo volume de Perry Rhodan.

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