— Você
disse o que lhes vai acontecer? Eles sabem, portanto, que vão se
contaminar a si e aos outros, que haverão de perder a memória?
— Sim, e
lhes expliquei ainda por que tem que ser assim. Se desejam que os
saltadores abandonem sua terra, sem guerra e em debandada de pânico,
devem fazer o que se exige deles. Talvez os goszuls não cheguem a
penetrar completamente nosso plano, mas sentem que não há outro
caminho. As bombas ainda hoje à noite vão explodir em diversas
cidades do Continente Leste e espalhar as bactérias.
— Podemos
esperar, portanto, que dentro de uma semana os sintomas externos da
epidemia já se manifestem por lá. Com isso termina a primeira parte
de nossa atividade.
John
parecia mais aliviado.
— Não é
fácil fazer um país todo ficar doente, mesmo que se tenha já
preparado o remédio para a cura. Mas quando este país ficar livre e
seus filhos recuperarem a saúde, sua inteligência vai crescer tanto
que saberão o que fazer com sua força mental. A curva de
crescimento futuro vai ser vertiginosa.
Por uns
momentos houve silêncio. O sol queimava num céu sem nuvens e fazia
com que a água quase parada do porto cintilasse como chumbo líquido.
Alguns goszuls desocupados vagavam pela beira do cais à espera de um
biscate. A Central de Robôs desde muito tempo não transmitia
nenhuma ordem.
Os goszuls
não sabiam que o germe da epidemia neles já incubado continuava
agindo e que, talvez no dia seguinte, provocasse o aparecimento das
placas vermelhas em suas faces.
Tako
suspirou:
— Gostaria
de dar uma cochilada, John. Qual será a próxima missão?
— Não
posso dizer nada ainda. Hoje de noite é que Enzally vai entrar em
contato comigo. Vai depender dele quando e onde atacaremos. Os
saltadores se mantém em expectativa. Depois que dois governadores
adoeceram, estão com mais precaução. Estão evitando todo contato
com os nativos. Além disso, os robôs afundaram o nosso navio dos
mortos. Felizmente, toda a tripulação se salvou a nado.
— Quer
dizer que não esqueceram a natação? — admirou-se Tako.
John
sorriu displicentemente.
— A
memória desaparece, mas não a faculdade de realizar ações
adquiridas pelo hábito. Além disso, a memória não foi dissolvida.
Como seria isto possível, se mais tarde tudo tem que voltar a
funcionar. Em algum lugar tem que estar esta memória. Nadaram, pois,
para a praia e transmitiram a doença aos outros.
Ralv se
levantou.
— Tenho
que liquidar uns assuntos, se souber de alguma novidade, lhe mandarei
uma comunicação.
Dirigiu-se
à balaustrada do convés médio e desceu pela escada de corda para o
barco que estava esperando ao lado do veleiro. Com remadas
tranqüilas, o barco afastou-se em direção ao cais. Deu ainda um
abano de mão e depois sumiu entre os silos dos armazéns.
Kitai
suspirou.
— É um
rapaz legal — disse. — Deve confiar de fato em nós plenamente,
do contrário não faria tudo isto para nós. Afinal de contas, ele é
quem carrega toda responsabilidade perante seu povo.
— Sem
nós, os pobres goszuls ficariam uma eternidade sendo dominados e
explorados pelos saltadores. Ralv sabe disso.
— Tem
razão, John, mas nem por isso eu deixo de admirar a coragem cega
deste rapaz. Sua influência é enorme. Nos últimos dias, não é
mais necessário impor nossa vontade a ninguém.
John
queria exatamente responder, quando levantou de repente a mão,
fazendo sinal ao japonês para que parasse de falar Também Gucky
endireitou-se repentinamente e pôs-se a escutar com os olhos
fechados. Os três japoneses se mantiveram em silêncio, pois sabiam
que os dois telepatas estavam recebendo uma mensagem mental. Só
podia vir de Enzally, pois de acordo com o que sabiam, não havia
nenhum outro telepata neste planeta.
Era um
fenômeno de aspecto interessante e ao mesmo tempo inquietante. Um
homem e um rato-castor, sentados imóveis no chão de madeira, ao sol
causticante, ouvindo calados o que uma voz muda lhes tinha para
dizer. No rosto de John, lia-se uma grande tensão, como se ouvisse
algo sombrio, mas logo depois esboçou-se um leve sorriso. As reações
de Gucky corriam admiravelmente sincronizadas. O seu dente roedor
estava indicando que a quase monotonia das semanas anteriores parecia
que ia acabar. Apesar de que o pêlo da nuca se eriçava de vez em
quando, sinal de que a variação que estava se aproximando, trazia
também muita dificuldade. Mas não se podia perceber em que
consistia esta variação.
Enzally
devia ter muita coisa para comunicar, porque o silêncio artificial
durou mais de quinze minutos.
Finalmente
John terminou aquela postura rígida e respirou profundamente. Depois
de um olhar rápido para Gucky, disse ele:
— Foi
Enzally. Virá nos procurar hoje à noite, depois de conseguir mais
detalhes. Aconteceu alguma coisa lá no espaçoporto. Você devia dar
uma chegada lá para ver, Tako. Os saltadores estão descendo. E nós
acreditávamos que eles desapareceriam correndo, quando soubessem da
epidemia. Ainda estão em contato com os governadores, sabendo assim
o que se passa no planeta de Goszul. Não estou compreendendo bem.
— Que
aconteceu, propriamente? — indagou Kitai.
John
ergueu os olhos para o céu, pensativo, como se a resposta viesse de
lá, mas Rhodan estava muito longe.
— Os
saltadores estão descendo — repetiu ele. — Sabemos que há ainda
uns trinta deles no espaço, dando voltas em torno do planeta.
Esperávamos que iam fugir. Fizeram exatamente o contrário do que
pensávamos. Estão descendo numa terra que eles sabem estar
contaminada.
— Isto
eu não posso entender — afirmou o sugestor. — Ninguém vai por
livre vontade de encontro ao perigo de perder a memória. Devem ter
um motivo muito importante para descerem.
— E eles
têm mesmo — confirmou John com seriedade. — Enzally conseguiu
ouvir alguns deles telepaticamente. Já abdicaram há muito tempo do
planeta e dos governadores que aqui mandavam, mas não querem se
desfazer das instalações técnicas e dos robôs. Neles é que está
todo o seu interesse.
Kitai fez
cara de quem não entendia.
— Falando
honestamente, não estou entendendo. Devem estar cientes de que o
germe da doença está em toda parte, até nos metais. Entregam-se
voluntariamente ao perigo da infecção...
— Naturalmente
subestimam o perigo — explicou John. — Sua ambição é maior do
que sua prudência. Um robô de combate vale tanto como uma nave
espacial de porte pequeno. O planeta de Goszul faz lembrar no momento
uma cidade em retirada, sendo entregue à pilhagem. Cada um tenta,
como pode, se enriquecer mais. Os saltadores são comerciantes.
— Infelizmente
são também lutadores — murmurou Tama, muito compenetrado.
— Sabemos
disso muito bem — confirmou John. — E por isso não acredito que
Enzally já esteja a par de tudo. Posso apostar que há muito mais
coisa escondida atrás de tudo isto, coisa muito mais importante do
que roubar robôs e máquinas uns dos outros.
— Mas
então, o quê?
— Esperemos
até que Enzally volte. Talvez aí saberemos mais coisas. Estará
aqui em poucas horas.
Gucky, que
até aqui estava calado, perguntou chiando, pois era muito preguiçoso
para retirar o dente de roedor:
— Alguém
tem alguma coisa contra, que eu dê uma volta por aí?
Meio
desprevenido, John fez uma contra pergunta:
— Onde é
que quer dar uma volta?
— Ora,
onde então? No espaçoporto, naturalmente. É apenas um pulo de rato
até lá.
— Somente
para teleportador — disse, John, e refletindo um pouco. — Quatro
olhos enxergam mais do que dois... e dois cérebros telepatas
percebem mais do que um. Está bem, mas cuidado para não ser visto
pelos saltadores, alguns deles já conhecem você e sabem que você
está ligado com Perry Rhodan. Qualquer imprudência prejudicaria
muito nossos planos.
— Ninguém
me verá — prometeu, não escondendo a alegria antecipada da
aventura. — Voltarei logo para lhes dizer o que os saltadores
tencionam fazer, além de roubar robôs.
Falou e
desapareceu. John ficou fitando o lugar onde Gucky estava sentado.
Finalmente falou:
— Estou
muito feliz por ser um homem, mas as vezes gostaria de ser um
rato-castor. Estes seres pequenos são formidáveis.
— Também
em relação à sua raça, Gucky é um exemplar extraordinário —
lembrou Kitai. — A raça dos ratos-castores é um grupo de animais
de reduzida inteligência. Gucky se diferencia deles, como um
telepata desenvolvido do resto da humanidade.
— Muito
bem — interferiu John. — Então ficaria realmente feliz de poder
ser, às vezes, o Gucky. Está correto?
Kitai
sorriu.
— Independente
do fato de que não se pode em geral falar de desejos corretos, posso
entender seu desejo. Eu preferia, além de sugestionar, poder também
ler pensamento. O homem tem uma conformação tal, que nunca está
realmente contente.
— E
exatamente isto é a mola propulsora de sua ambição — filosofou
Tako, olhando para seus pés descalços. — Eu estou com fome.
Todos
riram da brusca mudança de assunto e olharam para John. O telepata
concordou, levantando-se.
— Vamos
lá para baixo, lá existe uma geladeira. Eu também estou com fome.
Tomara que Gucky venha logo.
Infelizmente,
esta esperança não se concretizou.
*
* *
Gucky não
foi realmente imprudente, apenas sua curiosidade foi maior que toda
sua cautela. Seu primeiro pulo de teleportador o transportou para a
beira do imenso espaço-porto, onde se escondeu entre alguns
barracões que não tinham nada em comum com os grandiosos edifícios
da administração em que se guardavam os robôs. Bem perto dele
patrulhava um robô de vigilância, com sua monótona marcha de
vaivém. Gucky sabia que entre ele e o próximo robô de vigilância
havia uma ligação sem fio. Evitou cautelosamente cair sob as lentes
do monstro de aço.
O que lhe
chamou primeiro a atenção foram as numerosas naves espaciais dos
saltadores que haviam descido e ali estavam apoiadas na parte
traseira da fuselagem. Eram, pelo menos, vinte destas espaçonaves de
mais de duzentos metros de envergadura, cujas carcaças metálicas
cintilavam ao sol; eram o símbolo marcante do poderio dos
saltadores. Cada uma delas era suficiente para transformar o planeta
Goszul num inferno incandescente, sem possibilidade de vida futura.
Gucky
sabia que era a epidemia e a ganância dos saltadores que estava
impedindo isto, portanto, enquanto existisse neste mundo um robô em
funcionamento, este perigo estaria afastado.
Agachou-se
mais ainda à sombra do barracão, numa reentrância do terreno. A
margem do campo de aterissagem estava a uns cinqüenta metros dele,
mas lá não havia possibilidade de se esconder. Seria então melhor
operar daí mesmo.
O
rato-castor chegou à conclusão de que o robô de vigilância, em
sua ronda repetida, se afastava cada vez mais do barracão. Dependia
dele, portanto, escolher a espaçonave certa, embora precisasse de
muita sorte para não se materializar exatamente na frente dos olhos
de Etztak, que já o conhecia.
Para agir
com mais segurança, resolveu realizar primeiro telepaticamente um
salto de inspeção, para estudar o ambiente. Por quase dois minutos
ficou tentando identificar os pensamentos de Enzally, dentre o
confuso fluxo de impulsos que chegavam até ele. Depois desistiu.
Quem sabe estava o goszul automática e instintivamente protegendo
seu cérebro, quando estava trabalhando. Ele, Gucky, também fazia
isto, às vezes. O único jeito que havia era enfrentar diretamente
os saltadores que tinham descido. Os saltadores, felizmente, não
eram robôs. Não era, pois, difícil para Gucky pôr em ordem e ler
seus pensamentos. A única dificuldade da operação era que em cada
espaçonave havia pelo menos vinte pessoas, entre as quais só
interessavam a Gucky o comandante e o respectivo patriarca do clã.
Devia, pois, pular cegamente, com seus pensamentos, na primeira nave
e sondar até descobrir o patriarca.
Seu corpo
ficaria, entrementes, com a capacidade de reação muito reduzida, um
fato que realmente diminuía a alegria dele. Mas não podia fazer
nada contra isto. Além disso, aqui nesta reentrância, julgava-se
relativamente seguro.
Depois de
isolar os pensamentos que fluíam para ele, e fazer com que apenas um
fosse ouvido, percebeu que era testemunha de uma conversa, pois eram
dois pensamentos que falavam na mesma freqüência.
— ...admito
realmente que estão exagerando. Não nos concedem nem licença para
desembarcarmos e descansarmos um pouco, enquanto eles pretendem
deixar a nave esta noite.
— Trata-se,
porém, de uma conferência, não é?
— E que
seja, isto não altera nada. É interessante que a tal epidemia é
perigosa para nós, enquanto para eles não faz mal nenhum. Eu quero
é ficar livre de tudo isso.
— Você
sabe qual é o castigo que eles aplicam neste caso, Holflersy. Não o
aconselho a abandonar sua cozinha.
Gucky
sorriu e mudou de freqüência. Fazia isto com a mesma naturalidade
com que um homem do século XX usava um receptor de rádio.
De
qualquer maneira, ele sabia que os comandantes das espaçonaves
planejavam uma reunião para esse mesmo dia. Seria de grande
vantagem ler os pensamentos de um comandante, para não haver nenhuma
surpresa. O próprio Enzally não sabia o que os saltadores
planejavam desta vez com a nova conferência.
Ah, sim.
Isto já era uma outra voz muda. Alguém tentava transmitir um
pensamento, mas ninguém respondia. Devia, pois, estar sozinho. Gucky
continuou escutando e teve sorte. Foi por mero acaso que foi dar com
o avarento e ambicioso Ralgor.
Estava
sentado em sua cabina particular e imaginando o que iria falar hoje
na reunião dos patriarcas dos saltadores. Estava elaborando o
discurso, como se costuma dizer. Fazia-o sem palavras, em pensamento,
o que porém, não impedia que fosse ouvido. Às vezes chegava a
pronunciar nitidamente as palavras.
— Se
eu conseguisse ao menos convencer Etztak
— murmurou desconfiado, continuando a pensar. — Quero
desviar toda a atenção dele para a Terra, deixando de lado a
questão com o planeta dos goszuls. Os governadores sozinhos não
terão mais força para se dirigirem aos pontos de apoio para pedir
auxílio. Em poucas semanas, a epidemia os levará. Aliás, este
flagelo do esquecimento é propriamente uma bênção para os que se
servem deles no setor dos negócios.
“Posso
mandar vir, por hiperirradiação, minhas duas outras espaçonaves
— continuou ele murmurando, como se o simples pensamento não
bastasse mais. — Seus
porões de carga podem abrigar, pelo menos, duzentos robôs de
combate e de vigilância. Independentemente dos aparelhos das
instalações técnicas da usina das espaçonaves, vou fazer agora o
negócio da minha vida, se...”
Para
desgraça de Gucky, a sucessão de pensamentos do honrado patriarca
foi bruscamente interrompida, neste ponto. Alguém deveria ter
penetrado na cabina.
— Senhor,
aqui está o mapa sideral que o senhor desejava
— devia ser o navegador, supunha Gucky. — As
coordenadas dos saltos já estão calculadas. E o senhor acha que
conseguiremos?
— Com
toda certeza
— respondeu Ralgor, porém, não estava pensando no que devia ser
feito nem no hipersalto. — Por
favor, entregue este bilhete ao telegrafista. Ele deve mandar um
rádio sigiloso às duas espaçonaves do clã. Assim que tiver
resposta, quero ser cientificado.
Depois
voltou a ficar sozinho, mas as esperanças de Gucky não se
realizaram, pois Ralgor não voltou novamente aos seus pensamentos
secretos. Mas Gucky estava convencido de uma coisa: A pilhagem bem
planejada de Ralgor contra o planeta de Goszul estava em íntima
ligação com seus planos de conquistar a Terra e com os mapas
siderais recém-trazidos. Também o fato de haver requisitado as duas
espaçonaves de seu clã fazia parte do grande plano. Os detalhes
deste plano, porém, Gucky não conhecia ainda. E ele tinha que ficar
a par disso.
Este
Ralgor não o conhecia ainda e nunca o tinha visto antes. Portanto,
se por acaso os dois se encontrassem, não seria tão perigoso assim.
Além disso, Ralgor tinha que ter muita cautela para não permitir
que seus irmãos de raça chegassem a saber de seus planos. Caso
suspeitasse que Gucky tinha alguma coisa em comum com Perry Rhodan e
a Terra seria o primeiro a ter que silenciar tal encontro.
Gucky
respirou profundamente e se teleportou. Desceu exatamente na Central
de Ralgor, mas teve sorte. O saltador estava de costas para ele,
estudando os mapas siderais recém-trazidos pelo navegador. Estava
sentado numa poltrona e não suspeitava que, no máximo, a um metro
atrás dele, surgira do nada algo pequeno, de aparência
desagradável, que rapidamente se escondera atrás da porta aberta de
um armário de parede.
Daí Gucky
podia ver bem e estava ao mesmo tempo protegido. Tinha que constatar
urgentemente em que setor da galáxia estavam os interesses de
Ralgor.
Ralgor
raciocinava com conceitos diferentes e Gucky não conseguia atinar
com que nomes os saltadores se referiam aos astros e aos sistemas
solares e assim não pôde prontamente descobrir com que sistema
solar ele se preocupava. De repente, Gucky percebeu a aproximação
de outros pensamentos. Lá fora, atrás da porta, havia alguém
parado, que entrou depois de bater. Devia ser novamente o navegador.
— O
telegrama foi recebido normalmente e a resposta chegou neste
instante, senhor. A Ral III e a Ral V chegam ainda esta noite aqui.
De acordo com as instruções ficarão circulando a uma altura de
dois dias-luz do sistema de Goszul.
Ralgor
levantou os olhos e sorriu com malícia.
— Foi
por muito tempo o sistema de Goszul — disse ele traindo uma parte
do seu plano secreto. — Talvez, um dia, terá o nome de sistema de
Ralgor.
O
navegador sorriu também.
— Um bom
negócio?
— Naturalmente,
do contrário, não estaria me preocupando com isto.
O
semblante do navegador se anuviou.
— Que é
que nosso clã vai fazer com um planeta pestilento?
Ralgor
reagiu bruscamente.
— Estou
contente de que nem você acha resposta para tal pergunta. Este fato
me prova, de fato, que os outros patriarcas não estão a par dos
meus planos. Pode ir, Gromsk. Aí pelo pôr do sol vou deixar a nave.
Cuide do necessário revezamento da guarda. Quero que a Ral II
aguarde, preparada para partir, até que eu esteja de volta a bordo.
O
navegador se retirou, sem dar resposta.
Mais dez
minutos ficou Ralgor sentado à mesa, debruçado sobre os mapas
siderais, examinando as coordenadas do salto ali desenhadas;
levantou-se de repente, olhou para o cronômetro dependurado na
parede e deixou a cabina. Nem fechou a porta, deixou-a apenas
encostada.
Gucky
ainda esperou uns momentos, depois saiu de seu esconderijo e correu
para a mesa do escritório. Era tão pequeno que teve de ficar de pé
em cima da cadeira para poder ver os mapas.
Mapas
siderais são documentos difíceis de ler. Tem-se que estudá-los a
fundo, para se concluir alguma coisa, principalmente quando os sinais
são incompreensíveis.
Gucky viu
uma confusão de pontos minúsculos, ligados entre si por linhas
pontilhadas. Havia números e mais abaixo nomes que para ele não
tinham nenhuma importância.
Um outro
mapa mostrava uma ampliação. Os poucos sistemas solares consistiam
não de pontos minúsculos, mas de fato de sóis e planetas a eles
pertencentes. Não foi muito difícil identificar um destes sistemas.
Principalmente porque estava assinalado com uma cruz vermelha. Com um
simples olhar, Gucky percebeu que Ralgor se interessava pelo Sol e
seu planeta Terra.
Atrás de
Gucky, ouviu-se um ruído. Antes que pudesse se virar, Gucky se
conscientizou de que, nos últimos segundos, esquecera de ficar
atento às coisas em volta dele. Ralgor estava de volta.
O saltador
soltou um grito de pavor, quando viu o animal esquisito debruçado
sobre seus mapas. Demorou pelo menos dois segundos até que
conseguisse dominar a estupefação. Sua mão direita correu para a
cintura e saiu com a arma energética, já com o cano apontado para o
rato-castor.
Gucky
podia ter se teleportado, mas isto seria para ele uma fuga covarde.
Além disso, levaria pelo menos um segundo para se desmaterializar. O
saltador teria tempo para desfechar o tiro de morte.
Havia
também outro meio e muito melhor.
— Bom
dia — disse Gucky, em puro Intercosmo, mostrando com ar de amizade
o dente de roedor. — Como vai você, Ralgor?
A
estupefação foi tão grande, que seu queixo caiu por alguns
centímetros, deixando a boca aberta.
— Você
fala? Quem é você?
— Você
também fala, não é verdade? — disse Gucky em tom de conciliação
e concentrando toda a sua atenção na pistola. Seus fluxos mentais
telecinéticos se descarregaram na arma e de repente seu cano estava
apontado para o teto. O saltador, surpreendido ao ver um objeto
inanimado executar por si mesmo um movimento daquele, ficou
totalmente tolhido em seus movimentos. Perplexo, viu como a arma
energética escapou de seus dedos petrificados e estava flutuando no
teto, como se fosse um balão. Encostada no teto, a arma dirigiu seu
cano na direção da cabeça de Ralgor.
— Bem,
agora você está bonzinho, não é? — perguntou Gucky e chiou como
um passarinho da Terra. — Feche a porta.
Ralgor não
quis obedecer à ordem, soltou um segundo grito, mas desta vez com
uma fúria diabólica e se atirou contra o intruso. Gucky refletiu
sobre os sérios conselhos de John e desistiu de outras experiências.
Desmaterializou-se, estragando assim a parte mais atraente da
aventura.
Ralgor foi
atirado para frente, pela violência de seu pulo, quando seus punhos
possantes atingiram o vazio. Bateu com a cabeça contra o
intercomunicador de bordo, formando um terrível galo avermelhado na
testa, cuja origem ele nunca soube explicar a seus irmãos de clã,
que se apiedavam do ferimento.
E aí
estava ele, perplexo, fitando os mapas. Com a cabeça doendo e com um
movimento involuntário das mãos, os jogou fora da mesa. Caiu depois
pesadamente na poltrona, em cima da qual Gucky estivera de pé, três
segundos antes.
Desgraçado...
Existem de fato assombrações.
6
— Estão
tramando alguma coisa contra a Terra.
John
parecia não acreditar.
— Acho
que já desistiram há muito tempo, Gucky, não posso acreditar que
tentem novamente. A primeira lição deve ter sido suficiente para
eles.
— O
sujeito tinha mapas, nos quais a Terra estava assinalada com uma cruz
vermelha. Aposto como vão tratar deste assunto hoje à noite. Não
podemos deixar de mandar um observador para a conferência.
— Enzally
vai nos informar.
— Isto
não basta, independente do fato de que, com a nossa visita,
atingiremos um objetivo muito importante.
— E qual
seria este objetivo? — perguntou John, muito interessado.
— Nós
vamos espalhar os germes da doença na reunião dos patriarcas —
disse Gucky.
O telepata
estava querendo fazer um sinal de recusa, quando, de repente, parou.
Seus traços fisionômicos davam mostra de preocupação. Acabou
abanando a cabeça afirmativamente.
— Uma
idéia verdadeiramente maluca, Gucky, mas creio que para isso preciso
da autorização de Rhodan. Sem qualquer ordem, não podemos
contaminar com uma epidemia saltadores que não residem no planeta de
Goszul. A doença é contagiosa e eles poderiam levá-la pelo espaço
afora. E a mim repugna contaminar propositalmente o universo.
— Pergunte
então a Rhodan — propôs Tako. — Ele naturalmente saberá pelo
que pode e pelo que não pode se responsabilizar.
John
também achava que este era o caminho certo. Tirou do esconderijo o
aparelho com o qual se podia obter uma ligação simultânea até uma
distância de três meses-luz. Exatamente após trinta segundos se
estabeleceu contato com a Stardust-III.
— Há
uma oportunidade única de encontrar reunidos aqui, em assembléia,
os saltadores, Rhodan, devemos contaminá-los com a epidemia ou não?
— Uma
pergunta direta, John. Responderei também diretamente, se você me
puder dar uma outra informação: O que vai ser debatido nesta
assembléia dos saltadores?
— Ninguém
sabe ao certo. Gucky acha que é o ataque à Terra.
— Quer
dizer então que ainda não estão curados — murmurou Rhodan,
refletindo por uns segundos. — Bem, terá sua resposta: Bem, se os
saltadores hoje à noite resolverem que atacarão a Terra, então
devem ser contaminados. Será que me exprimi bem claramente?
— Perfeitamente.
E o que acontece se espalharem a epidemia pelo universo?
Incrível,
reconhecer-se através da distância de oito dias-luz a risada de
Rhodan.
— Quase
nada — respondeu ele, interrompendo a ligação.
A
fisionomia de John não estava exuberante, quando ele guardou o
aparelho e olhou indeciso para seus companheiros.
— Vocês
ouviram? Quase nada, foi a resposta de Rhodan. Alguém compreendeu
isso?
— É
necessário compreender? — acrescentou Gucky e continuou
apressadamente: — Atenção, eu sinto que Enzally está chegando.
Tomara que não perceba nossa dúvida, seria muito desagradável.
Mas
Enzally estava muito calmo. Cumprimentou os quatro homens com a mesma
inclinação, com a qual também se dirigiu a Gucky, sentou-se e
disse meio sorrindo:
— A
reunião dos saltadores começa a qualquer momento. Vim com um carro
oficial da Administração do Espaçoporto até aqui, para colocá-los
a par de tudo. Estão admirados por causa do carro? Pois é, temos
nossos amigos agora por toda parte. Mas, voltando aos saltadores,
qual é a sua intenção? Querem mesmo acabar com a reunião deles?
— Queremos
contaminar os saltadores — disse John asperamente.
Um sorriso
frio percorreu o semblante do velho goszul.
— Excelente.
Os deuses comerciantes já viram o que acontece com uma raça atacada
com esta epidemia do esquecimento. Ao notarem a mesma doença em si
mesmos, fugirão para o universo em pânico, para lá procurarem
cura. E nos deixarão futuramente em paz.
Tako abriu
uma caixa comprida e tirou dela cinco bombas pequenas. Tentou
medir-lhes o peso, colocando uma em cada mão.
John
percebeu.
— Gucky
vai acompanhar você. É melhor que dois teleportadores executem a
missão. Joguem as bombas e desapareçam imediatamente. Talvez seja
possível, Gucky, saber alguma coisa sobre o objetivo da reunião,
antes. Rhodan deu a ordem de jogar as bombas somente se os saltadores
manifestarem a intenção de atacar a Terra.
— Pode
confiar em nós — disse Gucky, tranqüilizando o telepata.
Tirou de
Tako duas das cinco bombas e o pegou pela mão, fazendo-lhe um sinal.
Um segundo
depois, já tinham desaparecido.
*
* *
Os dois
teleportadores se materializaram não longe do edifício, à beira do
espaçoporto, que já lhes era conhecido. Lá se realizaria hoje a
grande assembléia. Enzally lhes descreveu bem detalhadamente a
situação. Pela redondeza não se via ninguém, nem mesmo robôs de
vigilância. Em frente à entrada do edifício, porém, lá estavam
dois importantes robôs de combate, com armas de raios energéticos,
de prontidão. Não havia possibilidade de querer passar por eles.
— Portanto,
diretamente para a caverna do leão — disse Tako pouco
entusiasmado. Parecia um legítimo goszul e ninguém o diferenciaria
de um aborígine deste mundo. — Não sabemos onde desceremos e se
descermos no meio do salão de reunião, vai dar alguma complicação.
— Principalmente
quando me virem — acrescentou Gucky com toda simplicidade.
— Mas de
outro lado, eu tenho mais recursos que você. Afinal de contas, sou
também telecineta. Vou torcer o nariz deles...
Tako
sorriu levemente.
— Pois
bem, então pule você primeiro e volte logo para dar informações.
Depois pulamos juntos.
Gucky
olhou em volta.
— Fique
aqui, atrás do ponto de táxi, e esconda-se o melhor que puder. Mas
quem é que passaria por aqui? Um goszul não o atraiçoará e os
robôs de vigilância não estão à vista. Não creio que corra
perigo.
— Além
disso, você voltará logo, não é? — tranqüilizou-se Tako.
Gucky fez
sinal que sim e desmaterializou-se.
O japonês
ficou para trás sozinho e preparou tudo para poder fugir, quando
fosse preciso. Mas tudo estava calmo. O espaçoporto com suas enormes
naves parecia morto. Lá ao longe, patrulhava um robô. O sol já
tinha desaparecido no horizonte e estava escurecendo. Demorou uns
cinco minutos até Gucky reaparecer.
— Descobri
um ótimo lugar — disse ele com sua voz incrivelmente estridulante.
— Uma espécie de galeria, em cima do salão de reunião. Ninguém
nos vê e gozamos de uma bela vista. Podemos até ouvir tudo que
falarem, pois já que os saltadores falam diversos dialetos, vão
discutir em intercosmo.
— Leve-me
pela mão, é mais garantido. Pularam e numa fração de segundo
desceram num local escuro, que mal recebia um raio de luz vinda de
baixo. Ouvia-se um vozerio abafado.
— A
galeria — sussurrou Gucky. — Mova-se com muito cuidado, quando
chegarmos ao corredor. Acho que antigamente, o pessoal sentava aqui
em cima também, mas agora que os saltadores estão dizimados, a sala
de baixo lhes é plenamente suficiente.
Deixaram o
local, onde se armazenava objetos velhos, entre eles um robô
colocado fora de serviço. Na galeria mesmo, estava mais claro e
havia pouca possibilidade de se esconder. Tinham que confiar que
ninguém passaria por lá. Arrastaram-se cautelosamente com as mãos
e os pés e depois se levantaram um pouco.
O que
viram então fez seu coração disparar.
Mais ou
menos vinte saltadores estavam sentados ou de pé, em grupos, falando
com alguma excitação. Como parecia, as conversações tinham sido
interrompidas, para dar liberdade a cada saltador de discutir
individualmente seus assuntos.
Lá na
frente estavam sentados Etztak e Ralgor, este último numa mesa
comprida; Gucky o reconheceu logo pelo estupendo galo vermelho na
testa. O patriarca de barba cinzenta falava muito com Ralgor, mas os
dois escutadores não conseguiam entender uma palavra. Gucky então
passou para a via telepática e percebeu que Etztak mencionava a
possibilidade de invadir a Terra. Falou de um plano que iria levar a
debate. Dos pedaços de pensamento de Ralgor, entremeados no diálogo,
percebeu que se tratava mesmo daquele plano que Ralgor queria impor
ao velho patriarca.
— Acho
que está na hora de ficarmos livres destas bombas — chiou Gucky
para seu companheiro impaciente. — Ainda não perderam este planeta
e já pensam em conquistar outro. Vamos estragar a festa deles.
Lá
embaixo, no salão, o quadro tinha mudado. Etztak pediu aos
patriarcas presentes que tomassem seus lugares. Esperou até que
houvesse silêncio total e começou a falar:
— Vimos
inicialmente para o planeta de Goszul, a fim de discutirmos a
possibilidade de enfrentarmos em conjunto a crescente ameaça de um
certo Perry Rhodan, que representa a Terra. Infelizmente nossa
intenção foi um pouco adiada por acontecimentos imprevistos. Agora
mesmo, surge um outro fato, com que não contávamos. Irrompeu no
planeta de Goszul uma epidemia, de natureza completamente ignorada.
Para nosso desapontamento, temos que confessar que não somos imunes
a ela. Conforme os últimos comunicados, sete dos vinte e um
governadores já estão doentes e perderam a memória. Nós, que
ainda não estivemos em contato com os goszuls, não ficaremos
doentes, mas é evidente que devemos sair daqui o mais breve
possível, para não nos expormos ao perigo de contágio.
Etztak
aguardou até que a inquietação geral se acalmasse e com voz
diferente continuou:
— Neste
momento, quero lembrar aos senhores o objetivo específico de nossa
reunião aqui, pois desta vez não se trata de assuntos
técnico-comerciais. Ao tentar estabelecer contato com o planeta
Terra, meu clã foi derrotado por um poderoso inimigo. Falo de Perry
Rhodan, administrador ou presidente deste planeta. Parece trabalhar
com a cooperação dos arcônidas, cuja atividade repentina parece
incrível. Rhodan conseguiu destruir um grande número de nossas
naves, com armas desconhecidas. Além disso, este Rhodan conhece com
toda certeza o segredo do mundo da vida eterna, daquele mundo
encantado onde se pode conseguir a imortalidade.
Novamente
um murmúrio surdo entre os presentes. Os patriarcas chegavam-se uns
aos outros e começavam a cochichar.
Mais do
que qualquer outra riqueza, a vida eterna os fascinava. Uma simples
lenda parecia ter se transformado numa realidade.
Mas Etztak
não permitiu muito falatório.
— Temos
que abandonar este planeta, meus irmãos, ninguém duvida disso. E
assim como estão as coisas, vou propor, no Conselho dos Saltadores,
uma quarentena de cinqüenta anos. Infelizmente temos que perder as
preciosas instalações técnicas, mas isso é irremediável. E
agora, minha proposta, que encontra apoio na opinião de Ralgor:
Partiremos unidos com nossas espaçonaves e armamentos
correspondentes para o planeta Terra e destruímos a frota de Rhodan.
Tenho a certeza de que encontraremos na Terra mais riquezas do que em
todos os outros mundos que conhecemos. Lembro apenas o planeta da
imortalidade.
Alguém,
nos fundos, se levantou e gritou:
— E a
escolta de proteção?
Parece que
Etztak esperava a pergunta.
— Topthor,
o superpesado. Receio que não podemos confiar nele. Enquanto eu
parlamentava com Rhodan, tentou atacar a Terra independentemente,
sofrendo uma derrota tremenda. Sua frota foi destruída quase toda.
Quando, mais tarde, eu lhe pedi reforço, já estava em fuga. Acho
que não terá mais vontade de atacar a Terra.
— Por
que não fazemos um acordo com Rhodan, se ele é tão forte assim?
— É
realmente forte. Alguém, aqui neste salão, acredita que podemos
contar com vantagens de um adversário poderoso? Ele é quem dita as
condições, não nós. Que é que ganharíamos com isso? Portanto,
só temos uma opção: Temos de atacar de surpresa este planeta Terra
e enfraquecer de tal maneira sua força de resistência, que o
possamos tomar de assalto.
Três ou
quatro dos patriarcas gritaram excitados:
— Por
que ainda estamos discutindo? Deixemos o planeta de Goszul, do qual
nada mais podemos esperar, vamos depressa para a Terra aproveitar a
riqueza dos arcônidas. Investiguemos a posição do planeta da vida
eterna e obtenhamos a imortalidade.
Etztak
concordou, fazendo um sinal.
— Nossa
decisão deve ser unânime, para que ninguém saiba do plano. Quem
tem argumentos contrários?
Um
saltador, ainda jovem, da primeira fila, levantou a mão.
— Vamos
abandonar os robôs de combate no planeta de Goszul?
Ralgor,
que estava ao lado de Etztak, ficou nervoso, mas se dominou
maravilhosamente, deixando a resposta para o mais idoso.
— Temos
outra opção? — perguntou Etztak, com as sobrancelhas levantadas.
— Nossos
recursos de desinfecção são inoperantes. Não podemos, de maneira
alguma, espalhar esta doença pelo universo. Conseqüências
inimagináveis pesariam sob nossa responsabilidade. As raças
inteligentes do universo sem memória... uma visão horripilante.
Para
Ralgor, este assunto era muito desagradável. Interrompeu Eztak.
— Mais
alguma objeção? Se ninguém tem mais nada a dizer, proporia que
Etztak procedesse à votação.
O velho de
barba cinzenta concordou.
— Há
alguém aqui, que não concorda com uma operação comum dos
comerciantes das galáxias para transformar a Terra em colônia e
tirar das mãos de Perry Rhodan o segredo da vida eterna?
A pergunta
foi feita de tal maneira que ninguém se atreveu a dar opinião
contrária. A proposta de conquistar a Terra foi, pois, aprovada por
unanimidade.
Etztak
gesticulava contente.
— Vamos,
portanto, aos detalhes. Proponho que por mais três semanas, fiquemos
em órbita em torno do sistema de Goszul e lá nos encontremos. Para
que escolher um outro lugar?...
Gucky já
tinha ouvido bastante. Virou-se para Tako.
— As
bombas estão prontas, vamos explodi-las.
O japonês
meteu a mão no bolso e tirou dele os três invólucros de plástico.
— Regular
o detonador para cinco segundos — mandou Gucky.
Enquanto
preparavam o seu atentado, discutiam-se grandes problemas embaixo.
Não tinham mais nenhum interesse para os dois espiões, pois os
patriarcas não conseguiriam mais executar os planos concebidos.
Tako
colocou o terceiro detonador e olhou para baixo. Gucky já estava
pronto.
— Depois
de atiradas, levam ainda cinco segundos para explodir. A detonação
é inofensiva, tem apenas a finalidade de espalhar as bactérias.
Além disso, a pequena explosão dá uma impressão de bomba de
dinamite. Portanto, vamos lá... um, dois, três...
As cinco
bombas descreveram uma grande curva no ar e caíram no chão ou sobre
as mesas por entre as pessoas reunidas. Por um segundo houve pleno
silêncio, depois, ouviu-se um berro de Ralgor, que foi o primeiro a
se dominar:
— Protejam-se.
Era fácil
falar, mas como se proteger, se ninguém sabia quanto tempo levariam
as bombas para explodir? Todos se atiraram no chão automaticamente,
como que para evitar os estilhaços. Quando, porém, reboaram as
cinco detonações e nada aconteceu, todos se sentiam aliviados, mas
aos poucos foi surgindo a dúvida de algum truque — o que realmente
se aproximava da verdade. Ninguém, porém, chegou a manifestar a
suspeita de que se tratava de bombas bacteriológicas.
Etztak já
estava de volta a seu lugar, tendo na mão uma pequena pistola
energética e examinando com os olhos a galeria vazia. As bombas
vieram lá de cima. Mas Gucky e Tako tinham sumido há muito tempo.
7
Perry
Rhodan empurrou para trás a pequena alavanca que estabelecera o
contato simultâneo com John Marshall.
Desapareceu
o leve chiado da estática cósmica. Virou-se vagarosamente, olhando
para Reginald Bell. Os dois estavam sozinhos na central de comando do
gigante do espaço Stardust, a oito dias-luz do sistema de Goszul.
— Então,
que é que você acha?
Bell fez
cara de dúvida.
— Por
que todo este teatro no planeta de Goszul, se queríamos apenas
expulsar vinte saltadores? Acho que seria suficiente contaminar
apenas os vinte.
— Exatamente,
não — contradisse Rhodan. — Se ficassem contaminados somente os
patriarcas e suas tripulações, não poderiam saber de onde é que
veio a epidemia. É claro que ainda agora, eles não sabem. Mas têm
que saber que no planeta de Goszul, até mesmo os robôs e as
instalações estão contaminados. Além disso, presenciaram o
horrível espetáculo dos goszuls que perderam a memória e tinham de
começar tudo de novo. Não, sem este exemplo, o resultado não podia
ser tão eficaz. Conseguimos cem isto duas coisas ao mesmo tempo: Vão
pôr o planeta de Goszul cinqüenta anos de quarentena e seu plano de
conquistar a Terra será logo desfeito.
— Tomara
que você tenha razão, Perry. Eu não sinto nenhum prazer em ficar a
eternidade toda lutando contra estes saltadores pelo espaço afora.
Afinal de contas, temos outros assuntos para tratar.
— A
assembléia se realizou, faz oito dias. Já devem estar aparecendo os
primeiros sintomas nas espaçonaves dos saltadores. Até agora os
nossos instrumentos mostram apenas que circulam em torno do sistema a
uma distância de dois dias-luz, recebendo sempre mais reforços. O
major Nyssen informa do sistema solar que já contou ao todo sessenta
e nove espaçonaves.
Bell
assobiou por entre os dentes e alisou com a palma da mão as pontas
dos cabelos eriçados.
— É um
belo número. Gostaria de saber como é que vamos dar conta disso.
— Não é
preciso. As bactérias dão conta disso. Nyssen informa que nos
últimos dias tem havido muita discussão. Os patriarcas visitam os
comandantes das naves que vêm se ajuntando a eles. Podemos, pois,
calcular que todos ficarão contaminados. Mais um ou dois dias e o
diabo estará solto no meio dos saltadores, pode estar certo disso.
Bell
olhava ansiosamente para a longa fila das válvulas de controle.
Sabia que cada uma delas representava o contato invisível com as
naves dos saltadores. O enfoque do ponto se processava mais veloz do
que a luz através do rastreador de estrutura e do cérebro
positrônico. Assim que qualquer nave dos saltadores alterasse sua
posição no espaço, uma das válvulas
acendia. Cálculos que se desenvolviam automaticamente davam em
apenas alguns segundos a direção exata e o distanciamento do salto.
Um sistema especial registrava todos os impulsos. Logo após, se
podia constatar num mapa exatamente para onde iam os diversos clãs.
— Deve
começar a qualquer momento — resmungou Bell. — Quando perceberem
que estão todos contaminados com a peste, tentarão procurar o
primeiro médico.
Rhodan
sorriu maliciosamente.
— Não
sei onde reside seu médico mais próximo, mas seu cuidado não tem
fundamento. Acha que eu iria contaminar toda a galáxia com uma
epidemia diabólica? Não se preocupe, Bell. É verdade que os
saltadores ficarão com a pele cheia de placas vermelhas no rosto,
perderão por algumas semanas a memória, mas aos poucos estes
sintomas vão enfraquecendo e finalmente desaparecem por completo.
Também, depois de seis dias, as bactérias perdem o poder de
infecção. Não há, portanto, nenhuma possibilidade de contaminar
outras raças.
Bell ouviu
com muito interesse.
— Por
que então você não tranqüilizou Marshall quando ele falou do
receio de contaminar outros povos?
— Porque
todo mundo, até mesmo ele, devia ficar acreditando que se tratava
realmente de uma doença verdadeira. Alguém podia se trair, mesmo
contra sua vontade. Está, pois, notando que usamos um simples
truque.
— E como
é este negócio de aumento da inteligência?
— Isto
não é truque, funciona realmente. Os convalescentes da breve
epidemia se tornam realmente mais ajuizados.
— Até
mesmo os saltadores?
— Espero
que sim. Pois, se ficarem mais ajuizados, vão certamente desistir de
querer incorporar a Terra ao seu império.
Bell
sorriu satisfeito.
— Estou
então moralmente tranqüilo e Marshall ficará feliz quando souber
da verdade.
— Ainda
é um pouco cedo para isto — disse Rhodan, silenciando de repente.
Na fila das válvulas, acendeu uma lampadazinha vermelha. Quase que
ao mesmo tempo saiu de uma fenda estreita uma tira de papel dobrada.
Rhodan apanhou-a e leu:
“Mudança
de direção Setor XP-578-H. Distância 389,057 anos-luz.”
Bell
apanhara, entrementes, um mapa sideral e o estava consultando.
Parecia muito assustado.
— Exatamente
em direção oposta à Terra — deu um sorriso largo. — Talvez
isto significa que resolveram outra coisa e...
Uma outra
lâmpada acendeu, logo após uma terceira. E começou um verdadeiro
jogo de luz na central da Stardust, como nunca antes acontecera. As
lâmpadas acendiam uma após a outra e da fenda estreita, que estava
em ligação com o cérebro positrônico, saía uma mensagem escrita
após a outra.
Bell já
havia desistido de comparar as mensagens positrônicas com o grande
mapa sideral. Bastaram-lhe algumas provas avulsas.
— Nem um
único dos aparelhos espaciais se dirige para a Terra — em menos de
vinte minutos, as sessenta e nove lampadazinhas estavam acesas no
painel de controle. A frota inteira dos saltadores havia abandonado o
sistema de Goszul em debandada, sem opção e comandada apenas pelo
pânico, disparada em todos os sentidos.
Rhodan
olhou para a fila das lampadazinhas e para a pilha de mensagens
escritas. Sua fisionomia estava carregada e não mostrava muita
satisfação. Nos olhos brilhava uma luz fria, mas lhes faltava a
habitual rigidez.
— Só
lamento uma coisa — disse ele sem olhar para Bell — mas não se
pode conseguir tudo ao mesmo tempo.
— Mas
que coisa é esta?
— Que
não conseguimos falar com os saltadores. Gostaria muito que se
tornassem nossos amigos.
*
* *
Seguindo
as instruções de Rhodan, transmitidas pelo rádio, Marshall começou
a enviar para os continentes contaminados o soro de cura. Este
antídoto era recebido pelos adeptos de Ralv e distribuídos. Eram
agulhas muito pequenas embebidas no soro, colocadas num esparadrapo
de tal maneira que, ao contato com a pele, provocava uma espécie de
injeção. Já dois dias após, desapareciam as placas vermelhas e no
terceiro dia, começava também a aparecer a memória. Além disso, o
quociente intelectual do ex-portador da doença, subia cerca de 20
por cento.
No mesmo
dia em que a frota dos saltadores entrou em pânico e debandou, John
e seus mutantes se transferiram do veleiro para as imediações do
espaçoporto, para aí estabelecer seu novo quartel-general. Era a
residência oficial do Supremo Governador dos saltadores, que no
momento estava no hospital, tentando inutilmente se lembrar quem era
ele.
O edifício
não muito grande, estava equipado com extraordinárias instalações
de segurança. O simples toque de um botão de alarme era suficiente
para colocar toda a casa sob a proteção de um envoltório
energético. Mesmo os robôs de combate não podiam então entrar.
John se sentiria mais seguro aí, pois, desde que quase a metade dos
governadores tinha caído doente, os robôs estavam começando a
ficar irrequietos. Sabia que a batalha ainda não estava terminada.
Chegou
então Ralv para dar conta dos acontecimentos. Enquanto Gucky estava
sentado no terraço do último andar do edifício, olhando para todos
os lados, John e os três japoneses aguardavam a chegada de seu
aliado. O chefe dos revolucionários tinha se transformado nestes
últimos dias.
De um
combatente da resistência, obrigado a viver sempre na
clandestinidade, passara a um estadista consciente de sua
responsabilidade. Formou-se nele uma personalidade de grande
serenidade e senso de responsabilidade, considerando seus amigos de
um outro mundo como parceiros, jamais se esquecendo de lhes
demonstrar gratidão.
— Conseguimos,
na noite passada, ocupar uma sucursal da Central Automática de
Controle. Dez robôs de vigilância que eram controlados por ela,
destruíram a si mesmos.
John, que
ouvia com muita atenção, interveio:
— Destruíram
a si mesmos? Mas como? Parece impossível, pois os robôs de
vigilância não possuem armas. Como pode ser isso?
— Não
tenho a menor idéia. Ocupamos a central, situada fora da cidade,
depois que destruímos seu robô de combate. E isto não foi lá
muito difícil. Um dos nossos o atropelou com um carro. Infelizmente,
ele morreu no acidente, mas o robô foi atirado com tanta força
contra a parede que se transformou num monte de sucata. Quando
penetramos na central ficamos entendendo alguma coisa das ligações
e controles, En-zally estava nos orientando, demos aos dez robôs a
ordem de matar os treze governadores reunidos no Edifício de
Administração.
— Idéia
maluca — interrompeu John, começando a entender o que se passara.
Ralv não
se deixou interromper e continuou:
— Os dez
robôs ficaram parados, sem se mexer. Começaram então, de repente,
a ficar incandescentes de dentro para fora e derreteram. Não sobrou
nada deles a não ser pedaços de metal disformes.
— Curto-circuito
— confirmou John. — É o fator de segurança com que estão
construídos. Não podem jamais atacar um saltador, a não ser que
sejam antes reprogramados. Mas isso só pode ser feito através do
posto de comando, que está resguardado na mão dos robôs de combate
e dos outros governadores. Que farão os últimos saltadores? —
perguntou a Ralv. — A frota debandou e o planeta de Goszul está
sob quarentena, com outras palavras: ninguém pode mais descer.
— Também
aí os nossos estão trabalhando muito bem — continuou Ralv,
orgulhoso. — Enzally ouviu uma das últimas reuniões. Os
governadores sabem que estão numa terra contaminada pela epidemia,
de onde ninguém os virá buscar, para ficarem também contaminados.
Assim sendo, não têm mais nenhuma vontade de passar aqui, isolados,
o resto de sua vida. Precisam, então, de uma nave espacial para
fugirem deste mundo e com isso da epidemia do esquecimento, antes de
perderem a memória.
— Muito
compreensível. Resta apenas saber de onde pretendem arranjar uma
nave espacial. Enquanto eu sei, não dispõem de nenhuma nave
intergaláctica, possuem apenas naves pequenas, com as quais, por
muito favor, poderão chegar aos planetas vizinhos. Isto, porém, não
vai ajudá-los.
— Em
algum lugar, eles têm que ter uma nave espacial, uma grande nave, ao
menos estavam falando disso. Infelizmente Enzally não conseguiu
pegar mais nada porque mudaram de assunto.
— Uma
grande nave dos saltadores...?! — continuou John, refletindo com
muita intensidade a respeito.
Rhodan não
tinha expressado o desejo, já há tempo, de poder estudar com calma
as particularidades técnicas de uma nave dos saltadores? Não estava
havendo uma possibilidade para isto agora?
— Temos
de investigar o que planejam os governadores.
Ralv
abanou a cabeça confirmando.
— Os
robôs me causam muita preocupação. Como podemos nos tornar donos
do nosso próprio planeta, se os robôs não nos permitem? Já temos
um governo provisório e já estamos preparados para começar o
trabalho de reconstrução, mas surgem novas complicações. Os robôs
devem ter recebido a ordem de nos expulsar em qualquer lugar que nos
encontrem.
— Como é
que explica isto? — perguntou John, curioso.
— Antigamente
nós éramos os servos dos deuses. Trabalhávamos com os robôs e
recebíamos ordem deles. Agora nem podemos mais nos aproximar deles,
que nos atacam imediatamente, mesmo que não tenhamos nenhuma
intenção agressiva contra eles.
— Devem
ser os governadores. Para evitar outra infecção, devem ter dado
ordem aos robôs de não permitirem a aproximação dos nativos. Acho
muito natural. Tudo tem sua explicação natural, Ralv.
O
revolucionário queria dizer alguma coisa, mas foi interrompido.
Em cima da
única mesa do salão, havia uma caixa metálica de tamanho reduzido,
que de repente começou zumbir, acendendo simultaneamente uma luz
vermelha. John deu um pulo e correu para a mesa, apertando alguns
botões, dizendo:
— Comando
de ataque, Marshall.
— Aqui
fala Rhodan — foi a resposta imediata. — Desceremos em dez
minutos — por uns dois segundos John pareceu que perdeu a fala.
Depois respondeu afobado: — O planeta ainda está sob o controle
dos saltadores, senhor. A Central dos Robôs está em mãos dos
governadores que deram a ordem aos robôs de combate para que...
— Estamos
descendo exatamente para paralisar a Central de Controle —
respondeu a voz tranqüila de Rhodan. — Onde está você com seu
pessoal?
— Aqui
no lado do espaçoporto, na margem oeste. O senhor reconhecerá
facilmente o edifício pelo seu teto chato.
— Não
desligue o aparelho, assim posso me manter em contato com você,
depois de descer. Que poderão fazer os robôs contra as nossas
quatro naves?
— Eu
também não sei — concordou John. Mas sabia que Rhodan nunca se
expunha a perigos sem necessidade. Gostava tanto da vida como todo
mundo, talvez mais, pois era quase imortal. Mesmo assim, uma
punhalada o podia matar.
— Espere-nos,
portanto — disse Rhodan, concluindo a mensagem.
Ralv
ouvira tudo com interesse. Entendeu o diálogo mantido na linguagem
dos ex-deuses, ouvida nitidamente pelo aparelho. John pretendia dar
uma explicação:
— São
nossos amigos, somos do mesmo mundo, vieram para libertar
definitivamente seu planeta.
Ralv
perdeu um pouco a segurança.
— Libertar?
Como poderia alguém querer nos libertar sem segundas intenções?
Por que vocês o fizeram? Eu ainda não me havia perguntado por quê.
— Rhodan
haverá de explicar tudo a você — disse John, tentando consolá-lo.
— Porém, não temos tempo para planos futuros, temos que agir.
Dentro de poucos minutos, os saltadores vão saber com quem estão
lidando, se é que eles já ouviram falar da Terra.
Oito
minutos mais tarde, o céu se escurecia na região do espaçoporto,
quando a gigantesca esfera da Stardust descia lentamente e tocava o
solo do planeta de Goszul pela primeira vez. Desceram também os três
cruzadores Terra, Solar System e Centauro de tal forma que a Stardust
ficou entre eles e assim estava protegida.
Um pequeno
planador a jato transportou Rhodan e Bell para a casa onde John o
esperava. O pequeno veículo pousou no terraço, onde Gucky os
esperava.
— Como
vai, Gucky — perguntou Rhodan, abaixando-se para acariciar o pêlo
do rato-castor. — Tempos difíceis, não é?
— Foi
maravilhoso — disse Gucky abanando a cabeça, para surpresa de
Rhodan. — Ao menos, por umas duas semanas não me foi preciso olhar
para a cara deste monstro.
O monstro
estava saindo naquele instante do planador a jato e ouviu as últimas
palavras. Os fios do cabelo vermelho se levantaram, mas a boca de
Bell, para surpresa de todos, não se abriu. Com toda seriedade
passou ele diante de Gucky, como se não fosse realmente o Gucky, mas
um simples cachorro da rua, indigno de qualquer atenção. Com a
firmeza de um sonâmbulo, achou Bell a descida para a casa,
desaparecendo segundos após.
Gucky,
decepcionado, o acompanhou com o olhar. Rhodan sorriu e o tentou
consolar:
— Não
se preocupe com isso, Gucky. Ele se irritou com a sua frase. Você é
telepata e devia saber disso.
— É
isso mesmo — lamuriou Gucky, ainda meio perplexo. — Ele nem se
lembrou de mim, ou me xingou mentalmente. Nem olhou para mim.
— Alguma
coisa ele deve ter pensado, Gucky.
— Sim,
sempre a mesma coisa. Só besteira. Bolo, chocolate com pudim,
bombons, geléia disso ou daquilo... Ninguém pensa nessas coisas.
— Pensa,
sim — afirmou Rhodan, continuando a sorrir. — É um espertalhão.
Pensou só bobagens para despistar você, para você não saber o que
ele realmente pensa. Fora disso, há alguma novidade? — Gucky se
concentrou logo.
— A
Central de Controle dos robôs de combate está a dois quilômetros
daqui. Nós temos que ocupá-la ou destruir todos os robôs. Seria um
grande prejuízo.
— É a
minha opinião também — concordou Rhodan. — Espero você lá
embaixo com Marshall, dentro de dez minutos. Até lá, fique vigiando
e mantenha contato telepático com os saltadores. Avise-me de
qualquer mudança na situação.
Seguiu o
mesmo caminho de Bell, que acabou encontrando na sala de Marshall.
Cumprimentou os mutantes e foi apresentado a Ralv, que apesar de sua
nova posição de chefe do governo, sentia de repente um inexplicável
acanhamento quando olhou para os olhos de Rhodan. Só então que ele
compreendeu que não estava diante de um superior, mas de um amigo.
Pegou impulsivamente as mãos de Rhodan e as apertou fortemente.
Nem
tiveram tempo de trocar algumas palavras, quando Gucky se
materializou entre eles.
— Os
robôs estão marchando — estridulou ele, quase ofegante. — Em
quinze minutos estão aqui. Duzentos ao todo.
Rhodan
empalideceu um pouco. Sabia que somente a Stardust era suficiente
para reduzir os duzentos robôs a um montão de ferro velho, mas não
era isto que ele queria. Os goszuls precisariam destes robôs, para
reconstruir seu mundo, ou teriam de perder a oportunidade única de
se aproveitarem das instalações técnicas ali existentes.
— Os
governadores — disse John, que estava interpretando mal a
preocupação de Rhodan. — Eles são os responsáveis. Uma só
bomba bastaria...
— Não —
interveio Rhodan. — Eu gostaria de parlamentar com os saltadores.
Mas antes, liquidemos os robôs. Gucky, Tako, vocês são
teleportadores, pulem para a Central de Controle e desliguem os
instrumentos de centralização de impulsos. Gucky, leia meus
pensamentos que você sabe o que estou pensando. Quero salvar os
robôs. Quando forem desativados, se tornarão inofensivos e mais
tarde poderão ser reprogramados à vontade. Compreendido, Gucky?
O
rato-castor confirmou.
— Estamos
logo de volta. Vamos, Tako, dê cá a mão.
Ainda
pensando constantemente em bolos e pudins, Bell estava fixando o
local onde, há alguns segundos, estivera Gucky. A este endiabrado
rato-castor queria ele mostrar de que valia um telepata, quando o
outro não queria que lhe lessem o pensamento. John Marshall estava
olhando para Bell, fez um sinal para Rhodan e perguntou:
— Você
não está se sentindo bem, Bell?
— Como
assim?
— Por
que você constantemente está... Bell amaldiçoou todos os
telepatas, vivos ou ainda por nascer. Era da conta de Marshall saber
o que ele estava pensando? Teria dado uma resposta à altura, quando
Tako se materializou. O raquítico teleportador tentou dominar a
respiração antes de falar:
— Robôs
de combate, na estação. Atacaram-nos. Não é tão fácil como nós
pensávamos.
— Que
aconteceu com Gucky? — foi a pergunta de Bell.
— Está
mantendo a posição. Tenho que lhes dizer que vai demorar pelo menos
três minutos... se ele conseguir.
Rhodan
ligou seu transmissor de pulso e entrou em contato com a Stardust.
— Fischer,
ligar o envoltório energético. Se robôs de combate atacarem, não
abrir fogo. Dê ordens idênticas aos três cruzadores. Fim —
virando-se para Tako, disse: — Vá ajudar Gucky, leve aqui minha
pistola energética. Um robô só não vai fazer falta.
O japonês
apanhou a pistola e desapareceu.
Rhodan
correu com os outros para o terraço do edifício. Daí se podia ver
tudo, até mesmo o edifício da administração, onde se encontravam
os governadores. Mais ao lado e um pouco isolado das casas, estava o
prédio da Central de Controle dos Robôs. Uma gigantesca antena
esférica transmitia em todos os sentidos os impulsos de comando.
Numa faixa
bem larga, aproximavam-se os robôs de combate, com as pistolas
energéticas em posição de fogo. Era realmente uma força de
combate incalculável. Poderia, no entanto, acontecer que os
saltadores lhes dessem outra ordem, quando percebessem que não
conseguiriam fazer nada contra as quatro espaçonaves.
— Tomara
que Gucky tenha sorte — disse Bell para Rhodan. Podia-se notar sua
grande apreensão não apenas com o ataque maciço dos robôs, mas
principalmente com seu amigo Gucky. — Devemos ajudá-lo.
— É
tarde para isto, Bell. Gucky tem que ver como ele sozinho dá conta
das máquinas.
Os
primeiros robôs atingiram a linha invisível da campânula
energética, que se havia formado em torno das quatro naves. Pararam
subitamente e começaram logo em seguida a atirar com todas as armas
disponíveis. Feixes de raios multicores se chocavam contra a muralha
invisível, ricocheteavam para todos os lados, sem produzir nenhum
efeito. Alguns robôs foram atingidos pelos próprios raios de suas
armas e ligaram seu envoltório de proteção.
E então,
quando os robôs começaram sistematicamente a dar voltas em torno
das espaçonaves, mantendo o fogo cerrado, o exército de metal parou
repentinamente, como que petrificado.
Quase no
mesmo segundo, Gucky e Tako se materializaram na beira do terraço,
olharam primeiro para os robôs de combate completamente imóveis e
vieram depois para o grupo dos seus. Gucky olhou com ares de triunfo
para Bell e se dirigiu a Rhodan:
— Tive
que destruir a fiação coletora da antena, não havia outro jeito.
Mas é fácil consertá-la depois. Os robôs estão agora sem impulso
e não sabem o que fazer. Suponho que voltem agora para seus
quartéis, esperando novas ordens. Assim que a antena ficar pronta,
podemos mudar sua programação.
— Ótimo
serviço, Gucky — elogiou Rhodan, acariciando os pêlos da cabeça
de seu pequeno amigo. — Você também, Tako. Aliás, tenho que
expressar minha gratidão e meu reconhecimento ao comando de John
Marshall. Sem ele, levaria muito mais tempo e não teria sido tão
simples assim.
— Mas e
a epidemia... — começou John, sendo então interrompido pelo
sorriso aberto de Rhodan.
— É
mais ou menos como uma gripezinha ou um sarampo. Temos anti-soro, mas
mesmo que não tivéssemos, não teria nenhum perigo. Os saltadores
que fugiram daqui, haverão de saber, no máximo dentro de dois
meses, que perderam inutilmente este planeta. Mas então já será
muito tarde para pensarem em voltar, pois tomaremos nossas
providências.
— E o
que acontecerá com os treze saltadores que estão lá na Central de
Comando, tramando planos contra nós? — perguntou Bell.
— Com
eles, nós vamos parlamentar. Sempre foi minha intenção manter um
diálogo com os representantes deste povo poderoso. Acho que existem
agora as condições ideais para um diálogo. Falta-lhes o apoio que
sempre tiveram e nós temos tudo. Pode crer, Bell, os resultados dos
entendimentos serão ótimos. O ponto de partida dos entendimentos é
sempre mais importante do que os próprios entendimentos. Gucky saiu
de seu lugar, passou por Rhodan e se dirigiu diretamente a Bell. Com
uma voz quase sentimental, pegou-lhe a mão, dizendo:
— Desculpe-me,
Bell, se eu o magoei há pouco. Não foi minha intenção. E muito
obrigado pelo fato de não estar pensando obstinadamente só em bolos
e pudins. Assim, eu sei pelo menos em que você está pensando.
— Está
certo — murmurou Bell comovido, olhando para o céu, como se lá
houvesse algo importante. — Está certo, meu velho companheiro, nós
já sabemos como tratar um ao outro.
— Velho
companheiro? — continuou Gucky. — Se você me chama de velho,
está enganado, mas redondamente. Se eu sou velho, você é uma
criancinha de colo...
Bell olhou
suplicante para Rhodan e respirou profundamente, mas Gucky não lhe
deu tempo para falar:
— Eu
tenho apenas cento e cinqüenta anos, para que você saiba, seu neném
de colo, mas isto não é idade para mim. Eu viverei... bobagem,
ninguém sabe quanto tempo ainda viverá. Você, porém, com seus
quarenta anos, ainda está no jardim da infância, principalmente
quando se sabe que sua inteligência agora é que está se
desenvolvendo. Finalmente alguém lhe devia dizer que...
— Gucky
— interrompeu Rhodan, muito calmo — você quer fazer o favor de
ir até os saltadores e convocá-los para uma reunião?
— O
rato-castor abanou a cabeça afirmativamente e com seus olhos
castanhos e suaves fitou por um instante Bell:
— Sim,
já vou, mas quando voltar, quero mostrar a este, a este... — e não
achando a palavra certa, desapareceu.
Bell olhou
espantado para o local, repentinamente vazio.
— É
realmente um companheiro fantástico — murmurou meio envergonhado,
enfiando as mãos no bolso e passando para o outro lado do terraço,
onde começou a observar o exército dos robôs paralisados.
Rhodan
estava ao lado de John. Ambos observavam Bell.
— Chama-se
isto de retirada estratégica — disse o telepata.
Rhodan
concordou.
— Esperamos
que os saltadores também conheçam a retirada estratégica — disse
ele, colocando a palma da mão acima dos olhos, para poder ver melhor
o edifício que ficava a dois quilômetros, no qual, neste momento,
os saltadores estariam presenciando a maior surpresa de sua vida.
Não é
muito comum, encontrar-se, subitamente, cara a cara com um rato
gigantesco, surgido do nada... Principalmente quando não se acredita
em assombrações.
E os
saltadores certamente não acreditavam.
*
* *
*
*
*
Os
saltadores têm pavor do flagelo do esquecimento. Mais pavor do que
da própria morte. Por este motivo, abandonam furtivamente o planeta
e libertam os goszuls, que até então serviam de escravos para eles.
Que
acontecerá, porém, se os saltadores anteciparem sua volta?
Perry
Rhodan já tem resposta para esta eventualidade. Chama-se: O Planeta
Louco, o título do novo volume de Perry Rhodan.

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