quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-050 - Atlan, o Solitário do Tempo - K. H. Scheer [parte 3]


Ao perceber que não dava para salvar mais nada da espaçonave, Rhodan resolveu incendiá-la, tirando-me assim um excelente abrigo. Através desta sua última atitude, o duelo entre nós dois estava muito desfavorável para mim. Tive que fazer muito esforço para sair a tempo das proximidades dos destroços que começavam a explodir. Seguindo o bom senso, estabeleci meu esconderijo de tal modo que os escombros da nave ficavam entre mim e Rhodan. Só assim poderia escapar de seus tiros.
Somente agora é que estava compreendendo bem o que eu tinha arranjado com isso. Meus olhos se abriram e eu percebi que este frio calculista contava com uma reação de minha parte. Tinha realmente de mudar de posição. Porém, a maneira como mudei é que são elas.
Rhodan achava-se de posse de uma posição muito melhor. Primeiro, estava mais próximo da grande cúpula de aço e depois encontrando-se atrás da cúpula, eu não o tinha ao meu alcance.
Em linha reta entre ele e mim, avultava o monte fumegante dos escombros do que foi uma maravilhosa espaçonave. Já que eu estava bem perto dos restos da nave, estes mesmos escombros encobriam não somente a cúpula, mas também o próprio Rhodan. Não levei mais de um minuto, até chegar a uma solução definitiva. Se é que eu conhecia bem meu adversário logo após seus tiros devastadores teria ele corrido para chegar imediatamente ao edifício provido de pressurização. Ainda não eram passados dez segundos, depois de minha afobada mudança de lugar, quando fui tomado por uma idéia luminosa. Não tive mais dúvidas. Talvez, estivesse superestimando Rhodan. Se fosse assim, logo depois de eu ter saltado, seus raios energéticos me teriam fuzilado.
Peguei a arma e fui me arrastando olhando para um ponto de melhor proteção à frente. Em meio à subida, havia uns blocos de pedra de onde teria uma boa visão. Pulei para cima da pedra e fiquei farejando. Depois começou a corrida, uma corrida louca que a gente consegue fazer só em momentos de grande perigo e de desespero. Com seis pulos, tinha resolvido a questão da visibilidade. Enquanto corria, vi, bem para trás um outro homem.
Era Perry Rhodan que fez uma coisa da qual só me conscientizei momentos depois. Quando eu ainda estava deitado na areia, ofegante, desviando os olhos do metal incandescente, Perry já estava agindo. Engoli uma praga e cedi ao meu instinto que me aconselhava, antes de tudo, arranjar uma proteção. Isto queria dizer que tinha de correr uns duzentos metros. Durante este tempo, Rhodan também avançou 200 metros. Mas ele não podia correr essa distância melhor do que eu.
É verdade que resistia às transições muito melhor do que eu, o que não significava nada em relação à força física. Choques do hipersalto atuam profundamente no sistema nervoso. Conheci homens fortíssimos, que num pequeno salto espacial se sentiam sempre quebrados.
Estas ponderações passavam com toda clareza por minha mente, enquanto eu corria. Com o rabo do olho procurava por novas possibilidades de um abrigo. Porém, minha grande atenção mesmo era para Rhodan, que em tempo de corredor bem treinado disparava pelo deserto quase que plano.
Era um esforço tremendo correr tão depressa com o pesado traje espacial. Ainda estávamos mais ou menos em forma. Mas que aconteceria se cada um descobrisse o plano do adversário, tão depressa que um não conseguisse pegar o outro?
Neste momento houve mais uma comunicação do meu sexto sentido:
Bobo, deite no chão, respire três vezes e atire. Ele está sem proteção.”
Claro que isto era também uma alternativa. Rhodan ainda não havia virado para trás, nem uma vez. Apesar de tudo, não me deitei no chão para melhor atirar. Conhecia minhas limitações e sabia também que, com mãos trêmulas e com o coração em elevada pulsação, não conseguiria boa pontaria. Puxar o gatilho era muito simples, mas acertar eram outros quinhentos. Se eu errasse o primeiro tiro, ele certamente procuraria um abrigo. Haveria de achar, certamente, uma pequena elevação do solo, em qualquer lugar, e então eu ficaria mais exposto do que ele. Quem teria no caso mais chances? Cheguei à conclusão de que era ele, por isso continuei a correr.
Se ele, por descuido, me desse tempo de atingir os blocos de pedra, minha situação melhoraria muito.
Aumentei meu tempo e fiquei admirado como os miseráveis 200 metros tornavam-se tão longos. Meus pulmões estavam estourando quando alcancei a pequena elevação e me atirei ao chão entre dois poderosos rochedos.
Não compreendia como meu corpo bem treinado, podia sentir-se cansado numa corrida mínima. Diante dos meus olhos sonhadores dançavam os círculos olímpicos... Levei alguns segundos até poder ver de novo com clareza. Instantes depois minha vontade firmou-se. Não iria mais dar tiro só para espantar, Rhodan era mesmo meu inimigo. Se ele conseguisse chegar à cúpula antes de mim, eu estaria perdido.
Com toda certeza, a base devia estar muito bem munida. Logicamente disporia também de aparelhagem de rádio, para pedir socorro. Simplesmente o fato de, chegando antes de mim, ter tempo de ligar o envoltório de proteção, decidiria meu destino. Na pior das hipóteses, ele me poderia deixar morrer de sede no árido deserto. Tinha na mochila somente dois litros de água.
Caso eu chegasse antes dele na cúpula, o quadro estaria invertido. Os limites estavam bem delineados: era um caso de vida ou morte. Já estava com arma engatilhada e o visor não precisava de regulagem. Um raio térmico ultra-rápido tinha sempre uma trajetória reta, jamais podendo ser prejudicada pela força da gravidade ou por fortes ventos ou ainda por simples resistência do ar. Quando ele me estivesse sob a mira, não haveria mais dúvida. Num planeta de rara atmosfera, a exatidão do tiro seria absoluta.
Escolhi bem o ângulo e atirei. Um verdadeiro trovão soou no meu ouvido, a arma deu um forte coice e o cano se levantou um pouco. Mas o tiro já tinha saído. Bem rente ao homem que corria, surgiu uma cratera de lava incandescente e Rhodan foi atirado para o lado, caindo de rosto no chão. Se eu tivesse contado mais com sua fantástica capacidade de reação, teria evitado o próximo erro. Levei dois segundos, para, com meus olhos ofuscados pelo clarão, poder ver bem a mira.
Exatamente neste meio tempo, Rhodan deu um salto para o alto, de tal modo que não pude mais interromper o tiro. No lugar onde ele estava antes, bateu a nova carga, abrindo de novo um buraco na areia. Atirei mais uma vez, mas o diabo do homem já havia desaparecido, tinha realmente achado um abrigo. E apesar de minha localização mais elevada, eu não o avistava.
De respiração tensa, fiquei aguardando. A distância seria mais ou menos uns 400 metros, o que não representava nada para uma arma energética de amplo alcance.
A parte de transmissão do meu aparelho de rádio estava desligada há tempo. O receptor, porém, estava ligado. Aumentei o volume e fiquei na escuta, com toda atenção. Fora dos ruídos normais de estática, não se ouvia nada. Aí, comecei a cismar que Rhodan também havia desligado o transmissor. Certamente estaria procurando controlar a respiração.
Comecei a rir para mim mesmo, até que foi surgindo um pensamento que me inquietou. Por que Rhodan não foi atingido com o primeiro tiro? Foi um disparo bem certeiro. Minha memória fotográfica me lembrou que estes modernos trajes espaciais possuem um gerador de campo. Naturalmente, no calor da refrega, tinha me esquecido de ligar o envoltório de proteção.
Tive de fazer um grande esforço para não ficar furioso comigo mesmo. Quem sabe se o envoltório não agüentaria mesmo um tiro em cheio, mas normalmente devia ser à prova de ferimentos mortais. Tentei então recuperar o que havia perdido.
A lâmpada de controle, acesa na região torácica do uniforme, indicava que tudo estava em ordem. O leve cintilar era quase imperceptível. Fiquei perplexo quando li o indicador do registro: como poderia eu, nos poucos momentos desde a aterrissagem, ter consumido 24 quilowatts-hora? Olhei mais uma vez, à procura de um possível engano, quando ouvi de repente um estalo no alto-falante do capacete. Fiquei a princípio assustado, procurando encontrar a transmissão. Mas, só pelo ouvido, não era possível. Não se podia supor que Rhodan trabalhasse com raios dirigidos em feixe. Talvez ele estivesse irradiando em todas as direções. Por via de dúvidas, examinei a instalação da antena no capacete. Não, não estava regulada para raios dirigidos em feixe.
Continuou aumentando o número de estalos. De súbito, se podia ouvir a respiração de alguém. Soava regular e equilibrada. Na chapa espelhada do meu capacete percebi que meus lábios se contraíam para um sorriso. Se este rapaz estava pensando que ia me desconcertar com truques psicológicos, estaria enganado pela segunda vez, e redondamente. De qualquer maneira, o pensamento não era nada mau, querer deixar o inimigo na dúvida quanto ao paradeiro certo.
Alô, arcônida, você está me ouvindo? — soou alto demais e eu abaixei o volume imediatamente. Então comecei a respirar com muita calma e liguei o transmissor.
Estou ouvindo, bárbaro. Que quer? Está implorando piedade? Você está sob a minha pontaria, vou apertar o gatilho daqui a dois minutos.
A gargalhada de Rhodan me fez morder os lábios de raiva. Ele sabia que eu não podia vê-lo, que mal conhecia sua direção.
Seu bobo — respondeu ele com voz suave. — Em minhas incursões em Árcon liquidei centenas de pessoas iguais a você de uma vez só.
Fiquei trêmulo de ira. Sabia onde me queria atingir. Para me dominar, tinha que fingir, tornar-se indiferente. Como se não ligasse, esforçando-me até para rir. Mas era difícil, não estava em minha natureza. De qualquer maneira, estava ficando mais fácil quando eu pensava que ele dizia aquelas palavras ofensivas para me desmoralizar ou para me obrigar a um gesto impensado. Custou, mas fui me tornando indiferente às ofensas.
Rhodan continuava rindo. Interrompi-o, dizendo:
Economize seu ar, bárbaro. Se eu o deixar sair vivo daqui, será para levá-lo para uma corte marcial do Império.
A afirmativa era um tanto ousada. Tinha o fim, apenas, de obrigá-lo a um pouco mais de ponderação. Parece que mordeu a isca.
É interessante mesmo. Você é um agente cômico do Império.
É claro que não era nenhum agente, mas isto não era da conta dele.
O que você pensa, hein? Um pouco tarde, é verdade, mas descobrimos que sua prolongada morte em 1.984 foi um simples truque. Agora temos você e seu ridículo Reino Planetário, que num criminoso atrevimento chama de Império, em nosso poder. Vamos ajustar as contas logo, seu bárbaro.
Havia cometido um erro, só não sabia qual era. Rhodan gargalhava gostosamente e desta vez havia sinceridade total em sua voz.
Arcônida, ninguém no Império de Árcon poderia saber que no tempo de minha suposta morte, a Terra estava no ano 1.984.
É! — disse eu em tom de zombaria.
Você também não vem diretamente dos três planetas, seu sonhador. A “Enciclopédia Terrânia” lhe contou muita coisa sobre a evolução da Humanidade, mas isto não basta para você querer me enganar.
Estava realmente me deixando confuso. Naturalmente, teria sabido por intermédio do general Kosnow, de que maneira eu havia aparecido entre os homens, pela primeira vez.
Nós não dependemos de sua enciclopédia. Basta afirmar que eu o encontrei.
Você serviria a um robô e receberia ordens dele? — perguntou, enraivecido.
Eu estava indignado profundamente. Era muito comum fazerem tais considerações. E ele repetiu:
Você seria escravo de um robô?
Eu batia com os dentes, de tanta ira.
Que palavra terrível: escravo de um robô... Ouvi uns ruídos, depois que a gargalhada de Rhodan terminou.
Está certo, arcônida. Está tudo muito claro. Quando uma pessoa fica tão excitada e nervosa como você, é um sinal que não é um arcônida. Já há muitos anos que o Império está sob a regência absoluta de um cérebro positrônico, sob cujo chicote até o sereníssimo imperador tem que dançar.
Mentira deslavada — gritei fora de mim.
Não me importo, entende? Não se pode ajudar a quem não quer ver a realidade. Está certo. Sei que você é um pobre solitário. Quer me dizer seu nome?
Concentrei-me bem depressa. Ele estava a par de toda a minha mentira. Jamais conseguiria que ele ficasse nervoso.
Meu nome é Atlan, comandante da frota do Grande Império, cientista e técnico de primeira classe, nos ramos de Colonização do Cosmo e de Técnica de Superenergia. Vou transformar seu sistema solar em nossa colônia, seu bárbaro.
Houve um silêncio e eu me senti contente de que ele agora sabia com quem estava tratando.
Não deixa de ser um orgulho ridículo, ilustríssimo — foi a resposta irônica. — Minha atual esposa também falava assim, há muito tempo atrás. O nome Thora, da estirpe dos Zoltral, representa alguma coisa para você?
Sim, é claro. Conheço o nome apenas pelo estudo da história.
Ela casou comigo, um terrano. Temos um filho. Você não acha que esta arcônida de sangue nobre teve motivos suficientes para casar com um terrano?
Novamente comecei a morder os lábios. Era um problema que nunca me passou pela cabeça. Não respondi nada.
Está certo, é bom pensar um pouco. Atlan, não é assim seu nome? Bem, Atlan, agora preste atenção.
Eu me surpreendi já com uma risada sardônica. Agora chegaria naturalmente o momento das ponderações para eu depor a arma.
Sabendo que o Grande Império Arcônida está chegando ao fim, Thora aceitou meu pedido de casamento. Hoje não existem fronteiras raciais e seu orgulho não tem mais razão de ser. Ofereço-lhe, pois, uma rendição honrosa.
Rendição? — respondi revoltado.
Naturalmente. Ou você acha que vou deixá-lo voltar sem mais nem menos para Árcon, para você espalhar para meio mundo o que está acontecendo aqui em nosso pequeno planeta, tido como completamente destruído? De maneira alguma. Tente compreender isto e saia de seu esconderijo de mãos ao alto.
Parecia muita petulância e eu não aceitei.
Quero ser seu amigo e não seu prisioneiro, seu bárbaro.
Rhodan sorria serenamente.
Muito esquisito, Atlan! Como se pode chamar de bárbaro alguém que se deseja para amigo?
Olhei aborrecido para a direção do seu esconderijo. Realmente, ele tinha razão.
Agradeça aos céus que eu não o chamo de monstro — respondi-lhe em tom mais amistoso.
Houve silêncio, nesse duelo sui-generis. Finalmente, falou com grande calma:
Atlan, se você não quer se entregar, eu me sinto obrigado a destruí-lo. E isto torna-se para mim grandemente doloroso, mas você não me dá outra opção.
Experimente fazê-lo.
Vou fazê-lo. Nossa água não dá para muitas horas. Daqui a 72 horas os microrreatores não mais funcionarão. Este planeta fica muito distanciado da Terra. Nós o chamamos de Hellgate, porque é realmente a porta do inferno. Você já deu uma olhada para o termômetro externo?
Realmente, não havia me preocupado com isso até então. Foi aí que reparei como a aparelhagem técnica do meu traje espacial tinha consumido tanta energia. Tive então calma para observar o chiado da instalação de ar condicionado. Há tempo que a luzinha vermelha, indicadora de carga deficiente, estava acesa. A temperatura externa, ao sol, era de 148,3 graus Celsius. Só agora pude compreender por que aquela correria de apenas 200 metros me cansou tanto. Meu traje espacial já estava há muito tempo além dos limites de sua capacidade.
Logo depois comecei a sentir pontadas nos pulmões. O ar que respirava estava demasiadamente quente. Conforme o termômetro, a temperatura interna era de 41,7 graus Celsius. Pessoas do meu tipo, em geral, não transpiram. No entanto, eu já estava banhado em suor. Estando bem próximo do sol, o calor neste planeta era assombroso, fazendo jus ao nome de Hellgate, ou seja, “Porta do Inferno”.
Então, arcônida? — continuava a pergunta de Rhodan. Sem o querer, estava colocando à minha disposição uma arma psicológica.
Ótimo — disse eu com muita pose e entonação. — Uma temperatura muito boa para a saúde, não é, bárbaro? Sempre senti frio em seu mundo gelado. Você deve saber que o sol de Árcon, muitas vezes maior que o da Terra, é também muito mais quente que o seu solzinho de doze meses. Cresci com aquele sol inclemente na cabeça. Ainda estarei cem por cento quando você estiver se afogando no próprio suor. Talvez você vá-se transformar em carne-seca.
Ele me chamou de doido varrido e eu só pude rir.
Minha proposta, seu bárbaro: entregue-se logo, eu não lhe farei mal algum. Se você realmente for inteligente...
Sem comentário — interrompeu ele. — Pois bem, Atlan, considere, então, que daqui em diante estamos em estado de guerra.
Aceito, selvagem. Olhe muito para sua água. Estes miseráveis dois litros, você os consumirá em pouco tempo. A temperatura externa para você também é de 148,3 graus, não é? Formidável, formidável, como isso faz bem ao meu metabolismo. Isto é que é um calor de verdade. Quer que lhe ceda um litro de líquido? Atlan está com tudo, bárbaro. Topo qualquer parada.
Rhodan não disse uma palavra. Tinha certeza de tê-lo atingido com meus argumentos convincentes. Nós os arcônidas agüentamos de fato o calor com muito mais facilidade do que os habitantes da Terra. Minha grande sorte foi que Rhodan não sabia há quanto tempo eu já estava na Terra e que meu organismo estava mais adaptado às condições climáticas deste planeta.
Minha garganta estava completamente ressecada, pois estivera quase uma hora exposto ao sol. Olhei pesaroso para a direção dos rochedos. Do outro lado deles, haveria sombra. Porém ficaria ao alcance de Rhodan. Diante de meus olhos, aros de fogo começaram a dançar.
Estamos, pois, em estado de beligerância, — foram as últimas palavras de Rhodan antes de desligar o microfone.
Eu também desliguei o meu. Um silêncio fúnebre se estendeu sobre o deserto de areia e de pedras do planeta apelidado “Porta do Inferno”, como um mar sem fim.
Levando a mão em pala e piscando muito, tentei olhar para o alto, desejando que a noite viesse o quanto antes. O calor teria então que diminuir. Finalmente, afastei-me um pouco das pedras escaldantes e desliguei meu campo energético, para economizar energia. O diminuto transformador térmico já estava há muito em sobrecarga e o envoltório de proteção não adiantava nada contra a irradiação solar.
Do outro lado, nada se movia. Rhodan não se atrevia a sair de seu abrigo. E assim começou a longa vigília: um espreitando o outro. Era o início de uma lenta agonia.

De um momento para o outro, os sentidos desapareceram, como se alguém me tivesse injetado nos pulmões um gás entorpecente. Quando acordei com dores alucinantes nas vias respiratórias, haviam se passado apenas dois minutos. O desmaio foi, pois, muito curto, mas não deixou de ser um alarme importante.
Já eram decorridas quase doze horas desde que Rhodan se comunicara pela última vez. Neste tempo todo, Rhodan não deu sinal de si, pois certamente queria provocar um suspense quanto ao seu estado físico. Também eu não me manifestei. Já havia consumido um litro de água. Era necessário um autodomínio fantástico para retirar da boca o canudinho de sucção, quando o nível da água chegava ao ponto determinado pela prudência. Ultrapassá-lo seria uma loucura. Já há três horas que meu subconsciente trabalhava apenas em função do fantasma da água. Era um desfile de quadros de um só assunto: líquido, líquido de todos os tipos, principalmente sob a forma de água comum.
Durante seis horas, transpirei sem parar. Estava chegando a fase do ressecamento. Era como se meu organismo não tivesse mais uma gota de líquido.
Se conseguisse, com o máximo de autodomínio, conter o desejo irresistível de água, procuraria depois refletir um pouco sobre a situação. Estava deitado sob o sol, sem nenhuma proteção. A temperatura externa continuava a mesma, cerca de 148,5 graus Celsius. A areia do deserto estava ainda mais quente.
Assim, para minorar a situação, comecei a mudar de posição em intervalos de no máximo de três minutos, para dar vazão ao calor proveniente do chão causticante. Deitava-me de barriga para baixo, depois de lado e finalmente de costas. Este movimento constante, porém, exigia muita energia. Com cada mudança de posição, notei que as forças iam diminuindo e minha resistência ia chegando a zero.
Estas doze horas se transformaram numa eternidade. Estava chegando ao ponto que muitos homens e arcônidas tinham conseguido superar antes de mim. É o momento crítico em que a lógica e o pensamento claro desaparecem. Dá-se um curto-circuito na central de comando do cérebro. Estes segundos de pânico transformaram, em todos os tempos da história, simples cidadãos em heróis e tornaram covardes, guerreiros destemidos que enfrentaram a morte com denodo.
Sabia que não ia agüentar por muito tempo esta situação. Minha aparelhagem de refrigeração — cuja finalidade não era apenas eliminar a umidade natural do corpo, mas também e principalmente absorver os terríveis raios do sol inclemente — já estava começando a pifar.
A instalação para fornecimento de oxigênio e purificação do ar não funcionava mais. A capacidade máxima de resistência do traje espacial era de 150 graus Celsius. Dei ainda, por minha conta, uma margem de segurança de 5 graus, mas com isto a instalação devia mesmo ter chegado ao fim.
Meu microrreator tinha uma potência de 50 quilowatts por hora, isto calculado como boa margem de segurança, pois nunca se precisaria de tanta energia. Mas até este aparelho estava em sobrecarga. Só o campo de reflexão da instalação de ar condicionado necessitava de 45 Kw para poder funcionar normalmente.
A filtragem do ar carecia de 2 mil Watts e o sistema de refrigeração comia 3 mil Watts por hora. Tudo isto dava um montante de consumo de energia tal que as reduzidas baterias e transformadores mal podiam cobrir.
No envoltório de proteção para defesa contra corpos materiais e contra irradiações energéticas ou ionizantes nem era bom pensar. Mesmo em condições normais, ele já consumia 50 quilowatts.
Se pudesse encontrar um material condutor, teria chegado à idéia maluca de adaptar o microconversor de impulsos de minha pistola térmica. Mas não encontrei nos bolsos do traje nem um pedacinho de fio metálico. Minha garganta não estava aceitando a abundante alimentação concentrada, empacotada na mochila do traje espacial. Também não tinha fome.
Mas, meu maior sofrimento era provocado quando respirava o ar escaldante. A temperatura interna havia subido para 50,8 graus. Mais ou menos da mesma temperatura era a horrível mistura de oxigênio com hélio. Tinha ar para 72 horas, mas com toda a certeza minha vida não iria tão longe assim.
Chegou a hora de outra fase de desmaio. Num esforço ingente, tentei concentrar a atenção em alguma coisa e fiquei olhando para o ponto onde Perry Rhodan devia também estar deitado na areia ardente. Ainda podia ver a mancha vitrificada do meu último disparo energético, no chão de areia. Pelos meus cálculos, aliás sempre bem feitos, Rhodan não podia estar a mais de 30 metros daquele local. Não podia ter caminhado mais do que isto, em todo este tempo.
Tinha que vigiar uma extensão de uns sessenta metros de raio em torno de mim, para não ser apanhado de surpresa pelo adversário. Com a luneta de mira de minha pistola energética, varria constantemente o terreno em volta, sem nada encontrar. Talvez não houvesse mesmo nenhuma reentrância no solo arenoso onde Rhodan pudesse se abrigar ou ir se arrastando.
Por muito tempo, fiquei refletindo sobre a conveniência ou não de varrer com disparos energéticos aquela pequena área. Mas cheguei à conclusão de que era muito improvável atingir meu adversário, talvez abrigado numa saliência rochosa. Os prós e os contras deste plano apresentavam um quadro negativo. Caso não encontrasse, em pouco tempo, o paradeiro de Rhodan, ele me teria facilmente sob a mira de sua arma. Já no meu primeiro tiro, ele certamente localizou bem minha direção.
Desisti, pois, da idéia maluca e fiquei esperando que o bárbaro perdesse a paciência. Pelo rastro na areia do meu último disparo, Rhodan poderia perceber muito bem que eu estava numa pequena elevação.
Podia também determinar a direção, pois o disparo deixara uma cratera bem alongada. Uma angulação perfeita, porém, não seria possível, pois estava a mais de 30 metros de mim. Se existisse só uma elevação, seria uma maravilha para Rhodan. Mas eram três e eu poderia estar em qualquer uma delas.
Por este mesmo motivo, Rhodan não iria atirar, pois sabia que com isso eu iria descobrir seu paradeiro. Nesta luta de trincheira, de um ficar espreitando o outro, tudo dependia de quem cometesse o primeiro erro. Para encontrar um abrigo conveniente, teria que passar por campo aberto. Mais para trás, cerca de um quilômetro, estendia-se um trecho mais montanhoso, calcinado pelo sol. Lá em cima haveria não somente esplêndidos pontos de defesa, mas sobretudo trechos de sombra.
Estava mordendo meus super-ressecados lábios, quando meus olhos indecisos perceberam uma caverna funda e escura. Estava fresco lá dentro; um tanto mais fresco. No máximo cem graus de calor... Inebriei-me com uma temperatura que normalmente me seria insuportável. Os apenas cem graus de calor me pareciam um suave lenitivo. A instalação de ar condicionado poderia descansar um pouco. O reator também funcionaria melhor.
Nuvens incandescentes começaram, de repente, a dançar na minha frente. Do meio delas, saltou subitamente a figura de Rhodan. Passou correndo na minha frente, dando uma enorme gargalhada e me atirando areia com chutes de suas botas.
Consegui me controlar no último instante. O cano de minha arma já estava saindo do vão das pedras, quando despertei da alucinação.
O fantasma de Perry Rhodan se desfez diante de mim, restando apenas o deserto, uma superfície desesperadora de areia clara e ofuscante, com milhões e milhões de cristais reverberando a luz e o calor. Queria gritar um pesado palavrão, mas minha garganta não conseguiu emitir som. De novo a vontade louca de tomar água. Ainda me restava um litro. Encolhi o corpo e dei um soco no capacete pressurizado. Só o pensamento de que Rhodan estava passando pelo mesmo sofrimento é que me dava um pouco de alento. Tinha, porém, o pressentimento de que alguma coisa haveria de acontecer.
Senti, de súbito, um impulso do meu sexto sentido. Um calafrio me percorreu a espinha dorsal.
Ele tem dons telepáticos! Não descuide de seu bloqueio mental!
Senti-me mais resistente a alucinações. No reflexo do vidro da viseira do capacete, reparei na palidez do meu semblante. É claro que não devia relaxar minha defesa mental, mesmo que isto fosse muito difícil devido ao meu estado físico depauperado. Se Rhodan me captasse o pensamento, também descobriria meu paradeiro. E então, não teria mais força para resistir.
Comecei a praguejar em voz alta, mas saía apenas um chiado rouco. Porém de qualquer maneira, era minha voz e isto me estava encorajando. Fiquei de repente bem lúcido e minha visão mais nítida.
Aquilo tinha sido planejado. Planejado psicologicamente à base da necessidade louca de água que martiriza a pobre criatura. Todo meu pensamento agora tinha que ser sem muita profundidade. Eu não podia formar em mim idéias lúcidas.
Poderia apelar somente para os instintos mais primitivos, e nada mais. Sentimentos e desejos do subconsciente jamais chegam, em geral, a ser expressos por palavras formais. Resumindo, somente devia admitir conceitos referentes à avidez de água para o corpo ressecado.
De um momento para o outro, tentei a lucidez de pensamento. Uma esperança nova me arrancou da letargia e deu forma ao meu plano. Já estava pronto. Rhodan devia fazer com que eu percebesse o local do seu esconderijo. O modo de conseguir isto, não me interessava. Para que que eu me formara em Cosmopsicologia? Conhecia muito bem os homens.
Com muita ponderação, dominando toda avidez, sorvi um pouco de água. Em cada gole, gargarejava bastante, até que o líquido fosse bem absorvido pelos tecidos ressecados. Não queria propriamente beber, mas avivar um pouco minhas cordas vocais. Depois de cada gole, dizia alguma coisa em voz alta e bem articulado. Quanto mais água penetrava na garganta, tanto melhor ficava minha voz. Estava correndo o risco de desperdiçar meu resto de água.
Depois de ter bebido quase meio litro, minha voz estava perfeita. Comecei a cantar com voz média uma modinha popular, até ter a certeza de poder cantar também os sons agudos. Após o exercício da voz, veio mais um gole. Este era mesmo para beber.
A seguir, comecei a ajeitar o texto imaginário. Parecia uma coisa boba, mas tinha sua finalidade. Tratava-se dos conceitos “água” e “beber”. Somente isso. As duas palavras deviam aparecer o mais freqüente possível no “texto”.
Fiz ainda um teste geral da minha voz e da canção. Finalmente liguei o transmissor do capacete. Podia me arriscar a isto, pois seu consumo era apenas de 5 Watts.
Alô, bárbaro, como vai? — disse eu com a maior naturalidade e voz descansada no pequeno microfone.
Isso devia deixar Rhodan meio maluco e desorientado. Naturalmente sua garganta não iria ter som algum e não seria homem para falar com voz deficiente. Mas haveria de me ouvir e era isto que me interessava.
Dei uma gargalhada de pulmão cheio.
Alô, bárbaro! Estou com lágrimas nos olhos de tanto rir. Puxa, meu rosto está todo molhado e o culpado é você. Por que me provoca o riso desta maneira?
Parei de falar e fiquei na escuta. Primeiramente foi a palavrinha “molhado”. Tinha que agir com técnica para que afrouxasse um pouco a vigilância e cochilasse. Talvez estava sentindo muito mais sede do que eu, pois um homem não pode agüentar tanto sem água como um arcônida. Se meus cálculos não me falham, devia ter ainda, no máximo, algumas gotas, apesar de todo seu autodomínio. Tudo de uma vez, não poderia ter bebido. Um homem do tipo de Rhodan não faria isso.
Alô, bárbaro! Por que não responde? — exclamei mais alto ainda. — Será que devo lhe dar um pouco do meu “tanque”? Até agora tomei poucos goles. Então, Rhodan, como vão as coisas? Nenhuma resposta, hein? Já vi muitos terranos morrerem de sede. Qual é a sua situação? Quer se render agora? Cumprirei minha palavra, não o matarei. Alô, responda por favor...
Comecei a rir de novo em voz alta, sabendo que ele não ia mesmo responder. Mesmo que quisesse, a voz não lhe obedeceria. Comecei então a pôr em prática o meu plano. Devia ser horrível para ele. Certamente ainda estaria pensando nas minhas lágrimas “úmidas”.
Alô, bárbaro! Vou cantar uma linda canção em sua homenagem. Você conhece a melodia. É para distraí-lo um pouco, nesta solidão sem fim. Preste bem atenção no texto, é de minha lavra, do amigo Atlan, aquele que você não quis ouvir.
E comecei a cantar:

A água é divina,
é uma coisa fina.
Como é bom beber
a água a correr.
Água da mina
que vai pra piscina,
vem refrescar
minha triste sina.

Poesia com fins psicológicos, ridícula e boba, onde, porém, a rima tem um efeito de bomba sentimental. Continuei a cantar, sempre a mesma coisa. “A água é divina, é uma coisa fina, como é bom beber.”
Tinha certeza de que ele estava ouvindo e não teria força para desligar o receptor, preso que estava aos desejos subconscientes. Talvez até sentisse alucinações.
Continuei cantando, sempre as mesmas palavras, até ficar com a garganta completamente seca de novo. Já estava aceitando o fracasso irremediável de todo o meu plano, quando aconteceu o inesperado.
Ouvi um ruído horroroso no alto-falante do meu capacete. Alguém queria gritar, mas a garganta não funcionava. A apenas 400 metros, houve um clarão amarelado. A trajetória incandescente dos raios energéticos veio bater no flanco de uma pequena elevação, a uns trinta metros de mim, produzindo uma cratera de areia candente.
Era isso mesmo. O coitado tinha perdido o controle do sistema nervoso e atirado. Fixei bem o ponto de onde veio o tiro. Depois do seu segundo disparo, comecei também a atirar. A arma saltou de minha mão e escorregou para o lado.
Do outro front vinha fogo cerrado e destruidor. Mas cessou de repente. Eu dei mais de vinte tiros na direção de onde vieram seus disparos, parando somente quando o dispositivo automático deu sinal de alarme. A arma atingira a temperatura limite. Agora tinha de esfriar.
Do outro lado só se via uma enorme cratera de pedras e areia incandescentes. Rhodan não estava mais vivo.
Abobalhado e apático, fiquei olhando para lá. Sabia que havia matado um homem que poderia ter sido meu maior amigo. Com muita dificuldade, fui caminhando, sem direção certa. A grande cúpula, com seus tesouros tentadores estava a uma distância de um quilômetro e meio. A elevação que lhe servia de pedestal ficava próxima. Meu caminhar por aquela areia escaldante não tinha mais sentido nenhum. Pareciam mortos todos os meus sentimentos e anseios. Ele me salvou da aeronave em chamas. Se não tivesse feito isto, não teria tido tanto aborrecimento. Minha consciência estava pesada. Tomei as últimas gotas de água. Haveria de vencer aquela pequena distância.
Para os mil metros até os pés do morro, cuja altura oscilava em torno de uns cinqüenta metros, gastei quase uma hora. Ao chegar à sombra do pequeno morro, deixei-me cair para descansar. Deitei de braço e pernas abertas. Joguei a arma para o lado, como se não precisasse mais dela.
Ao virar a cabeça, depois de algum tempo de repouso, vi um fantasma caminhando pelo deserto. Comecei a rir desta alucinação, até que a aparição se ajoelhou na minha frente e começou a gingar a metade superior do corpo. Levantou um dos braços ao ar e qualquer coisa metálica reluzia em sua mão.
Eu estava paralisado, de olhos fixos naquele objeto cintilante, quando dele começaram a sair jatos de fogo, a uns dez metros da minha cabeça. Pedaços de rocha incandescentes sibilavam próximas do meu corpo. E o fantasma continuava atirando, mesmo depois de se levantar. Pôs-se em movimento, atirando sempre, até desaparecer atrás de uma rocha.
Minha alucinação tinha sido naturalmente Rhodan, que logo depois que eu comecei a caminhar para o morro, também mudou de abrigo. Certamente ele estava me vendo durante todo o tempo que eu descansava e não atirou em mim. Por que motivo? Bondade pessoal dele? Ou por que meu choque “psicológico” o arrasou emocionalmente?
Não, certamente não. Simplesmente ele não tinha mais força para atirar. Quando se está extenuado, até um palito de fósforo pesa mais do que um saco de farinha. Somente agora, depois que eu virei o rosto para ele, é que começou a atirar contra mim, sem atingir nem mesmo a direção onde me encontrava.
Não estava mais me preocupando em saber como este infeliz ainda estava vivo. No fundo, eu o estava admirando, admirando cada vez mais.
Instantes após, lá ia eu desaparecendo entre as rochas, levando comigo ainda a arma. O calor estava tenaz e não tinha mais uma gota de água. E, no entanto a cúpula da esperança achava-se a 400 metros, com uma estrada de suave aclive e muito cômoda.

Tivemos mais oito horas de vigilância e espreita mútua. Quase todos os truques imagináveis foram empregados para deixar o adversário fora de combate. Os menores detalhes eram vitais, pois qualquer erro teria conseqüências fatais. A luta era para valer. Mutuamente nos xingamos e nos ameaçamos. Mutuamente exigimos a rendição do adversário, mas ninguém cedia, e não podia ceder mesmo.
Éramos como água e fogo. Quando ele atirava, suas mãos estavam trêmulas e os olhos confusos. E, quando eu o tinha sob minha mira, ao mudar de posição, fazia uma série de disparos, mas sem atingi-lo. Parecia até que a retícula da mira telescópica da arma estava trabalhando contra mim. Quando eu tinha Rhodan no centro da pontaria, a imagem se transformava em rodas de fogo, e o tiro se perdia.
Dentro do traje espacial, o termômetro acusava 59,3 graus Celsius. A esperança de poder me refrescar um pouco numa caverna menos quente do morro, foi frustrada por Rhodan. Rhodan não tinha dó. Certamente, ele está, mais uma vez, identificado com sua querida Humanidade, a quem ele trairia no momento em que permitisse minha entrada na cúpula.
Parece que este pensamento lhe dava forças descomunais, transformando-o, por assim dizer, num mártir da Humanidade. Quando julgava ter descoberto um caminho para a base, imediatamente era coberto por uma saraivada de tiros. Este bárbaro não sabia o que era repouso. Talvez estivesse mesmo meio inconsciente. Talvez não tivesse uma gota d’água, depois desta caminhada toda pelo deserto escaldante.
Já havia renunciado há muito tempo à explicação de um fenômeno que no começo me preocupava muito: como é que Rhodan podia ainda estar vivo e resistindo daquela maneira... Esgotado, exausto física e mentalmente, muito além da força humana. Se demorássemos apenas mais uma hora, nenhum dos dois conseguiria chegar até a cúpula. Estávamos tão alquebrados pelo ressecamento interno, pelo cansaço, sob o fogo inclemente do sol, que não chegaríamos mais, com as próprias forças, aos pés da base.
Tive um desmaio de alguns minutos. Quando recuperei os sentidos, minha vista não estava funcionando. Apalpei à procura de minha arma e não a achei mais. Além disso, já não tinha forças para carregá-la. Minha cabeça também estava falhando. Com muito esforço, ainda consegui ouvir um impulso muito débil do meu sexto sentido, que me sussurrava:
Desistir. Ele também está obrigado a isto. Vá se arrastando até a cúpula.”
Levei muitos minutos até conseguir me levantar. Com o tubinho na boca sugava desesperadamente. Mas não havia mais nada no recipiente d’água. Braços e pernas pareciam galhos mortos de uma árvore caída. Não sei de onde me veio a força que moveu meus pés e joelhos, para me arrastar rumo à base.
Depois de muito tempo, havia progredido um metro. Faltavam ainda sete. Queria dar expansão ao meu desespero, mas a garganta não conseguiu produzir nenhum som, a não ser um chiado oco.
O equipamento de refrigeração também já estava pifando. O ar que me entrava no pulmão parecia ser feito agulhas em brasa. Os reforços metálicos das articulações do queixo e dos braços estavam fervendo. Não recebendo mais a refrigeração necessária, queimavam minha pele. Não podia nem gritar. Sentia apenas a dor horrível e uma ânsia desesperada de poder, ainda, no último instante, atingir a alavanca do automático do mecanismo de abertura.
Percebi, ao meu lado, um vulto que também se arrastava na direção da rocha escaldante. A cabeça esticada para frente. Perry Rhodan se havia igualmente desfeito da arma. Assim, nos arrastamos lado a lado para a entrada da escotilha de ar, pintada de vermelho-berrante.
Para cada metro, precisávamos de dez minutos. Através do transmissor do capacete ouvíamos o chiar das respirações ofegantes. E aí ficamos sabendo que cada um tinha tentado sempre enganar o outro.
Não conseguia mais reconhecer as coisas. A única coisa que ainda prendia minha atenção era a porta vermelha, que parecia exercer uma atração mágica. A presença de Rhodan era para mim uma coisa nebulosa, mais imaginada do que propriamente vista Depois de uma hora de um sacrifício desesperado, estava Rhodan diante da escotilha. A mim, faltavam ainda 30 centímetros. Tinha perdido a parada. Fiquei parado, inerte, esperando a morte. Tudo, tudo perdido... sacrifício inútil! Passaram-se muitos minutos, até que comecei a ouvir um grunhido de voz humana no alto-falante, sons ocos e inarticulados.
Rhodan estava deitado diante da porta, sem ter força para comprimir para baixo a alavanca da fechadura, pintada de amarelo-claro. E ele estava me chamando, chamando a mim, seu inimigo figadal. Se ele realmente soubesse que eu nunca fui seu inimigo... Foi questão apenas de legítima defesa, pois eu também amo meu povo.
Sua voz me chamando mobilizou minhas últimas forças. Necessitava ainda de 10 minutos para vencer os últimos 30 centímetros. Quando cheguei perto dele, tentei levantar a mão com muito esforço. A gravitação tão reduzida do pequeno planeta Hellgate parecia de repente ter se centuplicado. Não sei com que esforço ingente minha mão alcançou a alavanca, chegando a se encostar com os dedos de Rhodan e juntos tentamos puxá-la.
Os duelantes haviam se encontrado novamente, buscando num esforço conjunto abaixar a alavanca salvadora. Conseguimos, depois de alguns segundos que pareciam uma eternidade. A campainha começou a tocar enquanto a porta se abria, liberando a entrada da escotilha da base. Levamos ainda uns dez minutos nos arrastando no corredor estreito. Quando eu e Rhodan conseguimos acionar o mecanismo para o fechamento da porta, estava quase desmaiando. Tinha a impressão de estar dentro de uma centrífuga. Sentia uma dor imensa na garganta, incapaz agora de fazer os movimentos de deglutição.
Ouvia, porém, o sibilar do vento fresco na direção da escotilha. Ao cessar o ruído e quando a segunda porta se abriu automaticamente, tive ainda força para tocar com a mão o interruptor que estava à altura de seus ombros. Meu capacete se abriu para trás e um ar maravilhoso acariciou meu rosto ressecado. Na primeira respiração completa, perdi os sentidos. Era como se eu tivesse engolido pedaços de gelo.

Acordei de repente. Ao meu lado havia o barulho típico da chuva. Quando abri os olhos, vi os pés metálicos de um robô e tentei virar o corpo para o outro lado. Os olhos me ficaram mais claros, desaparecendo as últimas sombras. O robô tinha nas mãos um vaso com água e o despejava na cabeça de um homem. O rosto de Rhodan estava cheio de queimaduras horríveis. Mas ele sorria. Nunca vi em minha vida um homem, fosse terrano ou arcônida, que soubesse rir tão espontânea e serenamente.
Porém nada disso tinha importância agora. Todo o meu consciente e subconsciente falava apenas em água, esta água que o robô jogava sobre o rosto de Rhodan. Não estava compreendendo bem o que se passava, mas meus ouvidos funcionavam bem, do contrário não teria ouvido suas palavras serenas, acompanhadas sempre de um leve sorriso:
Você foi um osso duro de roer, meu irmão — disse Rhodan pensativo. — Abra bem a boca, que o robô vai lhe dar água. Minha performance foi por dez segundos melhor que a sua, arcônida.
Ao pingarem nos meus lábios as primeiras gotas, julgava que estava bebendo não água, mas um néctar muito mais precioso. Rhodan se manteve calado. Deixou que eu me recuperasse totalmente. Bebia e bebia sem parar. Meu corpo parecia uma esponja ressecada. De vez em quando o robô interrompia o fluxo de água, a fim de o organismo poder assimilar melhor. Já estava me sentindo outro, mais disposto e com a garganta em condições de falar normalmente.
Rhodan sorria. Parecia que estava muito ausente daquela cúpula, como se seus pensamentos estivessem bem longe.
Incrível e incompreensível — disse ele como que pensando em voz alta. — Um sujeito assim quase que ia matando um imortal.
Cuspi para fora o líquido que mantinha na boca fechada. De repente comecei a compreender como este homem se conservava sempre jovem e elástico. Imortal! Então tinham fundamento os boatos sobre uma misteriosa ducha celular que lhe garantia a eterna juventude.
Minha boca se escancarou para uma estrondosa gargalhada. Era tragicômico. Rhodan não podia saber o motivo desta gargalhada esquisita e eu também não lhe iria dizer. Imortal!
Haverei de descobrir tudo — disse ele, com os olhos vivos e pesquisadores.
Eu, naturalmente, tomei minhas providências para que minha mente não fosse invadida por sua telepatia.
Comecei também a sorrir para ele, dando-lhe tempo para quebrar a cabeça. Percebi também a pistola de raios energéticos apontada para mim. É claro que não ia cometer nenhuma loucura mais. Ele havia ganho a parada. Recuperara os sentidos um pouco antes de mim. Estava tudo tão esquisito e confuso. Essa aventura toda me parecia um pesadelo.
Quanto tempo estivemos lá fora? — perguntei com a garganta ainda arranhando um pouco.
Sentia realmente dores.
Graças à sua cabeçudice, cerca de vinte e quatro horas — afirmou ele. — Agora você está de novo sob meu poder.
Você teve foi muita sorte, isso sim — respondi contra minha própria convicção.
Realmente não foi nada de sorte, foi sua fantástica determinação.
Ele me penetrava todo com seu olhar sereno, onde transluzia sempre um sabor de ironia.
Seu truque psicológico não foi nada mau, Atlan. A estrofe meio idiota sobre a água, quase me deixou maluco. Como é que você arranjou esta idéia?
Sacudi os ombros. Já estava me sentindo muito bem. Com algum cuidado procurei ficar sentado, apoiando as costas na parede metálica. Ele também estava sentado do mesmo jeito. Estava conseguindo ver uma boa parte do interior da cúpula. Devia ser uma base muito bem organizada.
Como você chegou mesmo à idéia dos versos psicológicos?
Veio por si mesma. Não tinha outro meio de provocá-lo para dar uns tiros.
Olhava para ele estupefato e a minha curiosidade estava em marcha progressiva. O cano da arma continuava apontado para cima.
Calma! — disse ele.
Fiz apenas um gesto de assentimento:
Não sou louco. Além disso, seu robô está de prontidão. Apenas uma pergunta, bárbaro: Como foi que você escapou do meu tiro?
Ria agora com toda naturalidade, com toda cordialidade. Não era sem razão que, depois do sentimento de admiração, passei a sentir grande simpatia por ele. Não queria, porém, que ele o percebesse.
Seu primeiro tiro passou a um metro de mim. Naturalmente você ficou ofuscado por seu próprio tiro. Perdi o esconderijo e tive que procurar outro, logo depois. Era uma pequena caverna, protegida por fortes rochas.
Como parecia tão simples tudo isto. E certamente não o foi. Deve ter pulado de um canto para o outro, como um felino acuado.
E depois, você deve me ter seguido, não é?
Confirmou com a cabeça.
Você não olhou para trás. Eu lhe poderia ter dado um tiro pelas costas.
Não faria isto! — disse eu rindo. — Teve sorte de ainda poder sair correndo.
Ele apenas sacudiu os ombros. E estava tudo dito.
Agora, gostaria de saber como foi que veio parar na Terra e o que andou procurando por lá? — indagou ele de repente, com uma calma absoluta.
Adivinhe você mesmo — disse com ar provocador.
Não estou com disposição para brincadeiras de adivinhações. Meu rádio já foi enviado. Estamos aqui num planeta desabitado que está mais ou menos a doze mil anos-luz da Terra.
Se soubesse disso... — disse resignado — teria deixado você aterrissar calmamente, para começar a agir depois.
Azar seu, arcônida. Um pequeno cruzador de minha frota estará aqui dentro de três horas. Até lá terei de saber o que fazer com você. Não permitimos estranhos no Império.
No assim chamado Império — corrigi eu. — Vocês não são tão importantes assim. O que eu quero é voltar para casa, nada mais.
Sei disso. Acho que eu também sei pensar um pouco — disse ele em tom de ironia. — Parece-me que há muito tempo que está afastado de Árcon, pois ainda não acredita na regência do cérebro robotizado. Quando foi, pois, que chegou à Terra?
Já há algum tempo — foi a minha evasiva.
Naturalmente não lhe podia mencionar minha base submarina nos Açores, na mais profunda fossa do Atlântico. De qualquer maneira, ele estava muito desconfiado. Não me recusaria a ter que depor perante pessoas com faculdades parapsicológicas.
Ficamos conversando e discutindo até que lá fora se ouviu o estrondo surdo de uma espaçonave que aterrissava. Era o pequeno cruzador, cujo comandante logo depois apareceu na cúpula acompanhado de cinco soldados bem armados. Levantei-me do chão ainda com cuidado. O robô havia tratado minhas queimaduras e me aplicara uma injeção para diminuir as dores.
Rhodan já estava cem por cento. Era um homem de uma fibra extraordinária.
O comandante do cruzador não fez muita cerimônia, tirou do bolso um par de algemas e prendeu-me as mãos.
Tem alguma coisa contra? — perguntou meio sem jeito.
Eu apenas esbocei um sorriso forçado. Rhodan estava bem no fundo, quando disse:
Há alguma coisa errada em você: seguirá arrastando um segredo inútil pela vida afora. Voltarei em poucos dias, só então conversaremos mais seriamente. No momento, disponho de pouco tempo. Reflita um pouco, e veja se não é bom para você dizer toda a verdade.
Os soldados trouxeram um traje espacial, do mesmo tipo do que eu tinha usado antes. Franzi as sobrancelhas, dizendo:
Mais isso ainda? Vocês não têm um tanque pressurizado ou coisa equivalente?
O cavalheiro ainda deseja mais alguma coisa? — resmungou-me o comandante um tanto irritado.
Rhodan não pôde deixar de sorrir. Devia conhecer muito bem seu pessoal. Neste momento, resolvi lançar-lhe uma indireta, para que me respeitasse mais. Levantei os dois braços e apontando com os olhos para as algemas, disse:
Sabe de uma coisa, bárbaro? — falava pausadamente — as coisas não mudaram tanto assim nos tempos modernos. Parece que estamos ainda na Idade Média durante as guerras religiosas. Nos tempos de Wallenstein e Gustavo Adolfo, as algemas eram um pouquinho mais largas.
Rhodan deve ter se enfurecido com isso. Empalideceu de repente e me fitou longamente. Ele, o imortal... e no entanto tão facilmente vulnerável, quase perdera o controle.
Sem parar, marche! — gritou o comandante.
Fui sorrindo para a escotilha. Por que motivo aquele homem gritou tão alto nos meus ouvidos?


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Apesar das bem sucedidas campanhas de Perry Rhodan nas Galáxias, sua obra estava ainda incompleta. Sua luta pelo reconhecimento da Humanidade no Universo esbarrava sempre nos poucos recursos da Terra, em relação aos padrões cósmicos.
Desde a aparente destruição da Terra em 1.984, já se passaram 56 anos. Há uma nova geração. Da Terceira Potência surgiu o governo mundial. Assim, depois de fortalecida esta Terceira Potência, aparece a organização do IMPÉRIO SOLAR. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno já estão povoados. Os outros planetas inadequados para serem habitados se transformam em inesgotáveis fornecedores de matérias-primas. Não foram descobertos outros seres inteligentes no sistema solar. Os terranos são, pois, senhores absolutos do Grande Império Solar. A capital é Terrânia e o líder permanente é Perry Rhodan. Com este Império Solar bem armado, pensa Rhodan em novas conquistas fora do nosso sistema. Em O Soro da Vida, título da próxima aventura de Perry, novos episódios emocionantes vão acontecer.

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