terça-feira, 8 de janeiro de 2013

P-038 - Avanço Para Árcon - Kurt Mahr [parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização
PESCADO NA NET



Revisão
ARLINDO_SAN
Esperavam uma recepção amistosa,
mas foram tratados como mendigos...


História da Terceira Potência em poucas palavras:

1.971 — O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan encontra o cruzador dos arcônidas que realizou um pouso de emergência.
1.972 — Instalação da Terceira Potência, que enfrenta a resistência das potências terrenas unidas e a invasão de seres extraterrenos.
1.975 — Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos. Perry Rhodan encontra os tópsidas no sistema de Vega e procura solucionar o mistério galáctico.
1.976 — Perry Rhodan atinge, a bordo da Stardust-III, o planeta Peregrino, e juntamente com Bell consegue a imortalidade relativa, mas perde mais de quatro anos.
1.980 — Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus.
1.981 — O Supercrânio ataca, e a Terceira Potência defronta-se com a mais dura das provas a que já foi submetida.
1.982/1.983 — Os mercadores galácticos procuram transformar a Terra num mundo colonial, mas o feitiço vira contra o feiticeiro e Perry Rhodan conquista uma das bases mais importantes dos mercadores.
Agora a Terra se encontra no ano de 1.984, e a Ganymed é preparada para o Avanço Para Árcon...






= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Que acredita que não convém vestir um terno roubado quando se pretende visitar o antigo dono desse terno.

Reginald Bell — Amigo íntimo e confidente de Perry Rhodan.

Crest e Thora — Que revêem seu mundo depois de uma ausência de treze anos.

Tako Kakuta — Que estraga um canteiro de flores.

Novaal — Um ser do planeta Naat.

Sergh — O administrador arcônida de Naat.

Ghorn — Representante de Sergh.

1



Esta nave até parece um pesadelo — disse Reginald Bell em tom compenetrado, enquanto seus cabelos ruivos se arrepiavam numa atitude combativa, contrastante com a solenidade do olhar que lançou pelo corpo esguio da nave acima.
A Ganymed era a mais nova das naves gigantes da Terceira Potência. Só parecia esguia para quem a olhasse de baixo e não a pudesse apreciar na perspectiva correta. Na verdade era um gigantesco cilindro de oitocentos e quarenta metros de altura por duzentos metros de diâmetro. A proa fora reta, havia sido alongada em sessenta metros por meio de um acréscimo arredondado, montado nos estaleiros de Terrânia. Antes disso o comprimento total da nave chegava a setecentos e oitenta metros. Pousada sobre quatro imensos suportes que saíam da popa, dava a impressão de ser um colosso preso ao solo, que ninguém julgaria capaz de jamais sair do lugar.
A não ser que a comparemos com a Stardust — acrescentou.
Acontece que a Stardust se encontrava a dez quilômetros dali, e seu corpo esférico desenhava um círculo relativamente insignificante contra o céu violeta da noite.
Quer dizer que vamos à Árcon — disse Bell, mudando de assunto, sem tirar os olhos da Ganymed. — E vamos nesta nave.
Iremos nesta nave — confirmou Rhodan.
Por que não vamos na Stardust?
Porque a Stardust é uma nave de tipo arconídico. Se resolvo fazer uma visita a certo Mr. Thomson, que nunca vi, não usarei um terno que já foi dele, dizendo simplesmente que posso ficar com ele, por tê-lo tirado de outra pessoa. Isso seria contrário às regras da diplomacia, não acha?
O olhar de Bell foi descendo pela Ganymed até chegar ao solo.
É claro que sim! — disse em tom enfático. — Muito bem. Então iremos à Árcon na Ganymed. Quando pousarmos lá, diremos: viemos da Terra e estamos trazendo dois dos seus náufragos. Façam o favor de ajudar-nos para que a Terra não caia nas mãos dos saltadores. É isso?
Rhodan riu.
Bem que gostaria de saber como sairão as coisas. Se não houver maiores complicações, eu me lembrarei da sugestão que você acaba de fazer.
A partida foi marcada para o dia 10 de maio de 1.984.
Thora e Crest, os arcônidas, foram as primeiras pessoas a ocuparem seus aposentos a bordo da Ganymed. Até parecia que a mudança prematura serviria para forçar o destino e impedir que a partida fosse adiada mais uma vez.
Naqueles dias Perry Rhodan viu uma nova Thora. Transbordando de vitalidade, seus olhos vermelhos chamejantes transformavam-na numa deusa estranha.
A obstinação, que nos últimos treze anos fora o traço mais marcante de seu caráter, não deixara Rhodan perceber que amava a arcônida. Agora o fato saltava aos seus olhos com uma clareza penetrante.
Os preparativos técnicos estavam a cargo de Reginald Bell. Este cuidava deles com a ânsia do homem que não pode esperar a próxima, a grande aventura.
Bell providenciou para que um dos transmissores fictícios, a mais importante das armas de que dispunham, fosse retirado da Stardust e montado na Ganymed. Certificou-se de que o compensador estrutural, um aparelho que já se encontrava a bordo da Ganymed no momento em que a capturaram das mãos dos saltadores, realmente cumpria aquilo que estava prometendo. Criava um campo protetor absorvente dos abalos da estrutura espaço-temporal causados pela transição da nave. Enquanto o compensador estivesse funcionando, ninguém conseguiria localizar a Ganymed em virtude dos abalos estruturais.
Bell mandou colocar a bordo os 27 destróieres de três tripulantes, que foram guardados na proa recém-construída da gigantesca nave. Também providenciou a colocação das duas naves de reconhecimento de grande alcance, tipo gazela. Tratava-se de aparelhos achatados em forma de disco, de corte elíptico, que mediam trinta metros de comprimento e dezoito de largura.
O coronel Freyt, que figurava como comandante da Ganymed, acompanhou a entrada dos mil tripulantes, cuidando para que cada um soubesse onde era seu lugar a bordo.Os preparativos da decolagem demoraram uma semana. Face ao vulto e à importância da tarefa, era um curto espaço. Mas Rhodan teve que conciliar a pressa resultante da ameaça que a raça mercantil dos saltadores representava para a Terra com a cautela que qualquer homem de responsabilidade deve ter no preparo de um empreendimento desse tipo.
O dia da partida foi mantido. Apesar da rapidez com que foram realizados os preparativos, um controle geral levado a efeito cinco horas antes da decolagem revelou que a bordo da nave tudo estava em boa ordem e em perfeitas condições de funcionamento.
Árcon ficava no grupo estelar M-13, situado a cerca de 34 mil anos-luz da Terra.
A Ganymed não estava em condições de vencer essa distância enorme num único hiper-salto. Rhodan programou um total de cinco saltos; o último devia levá-los à periferia do grupo estelar. Os primeiros quatro saltos seriam realizados sob a proteção do compensador estrutural, mas o quinto não. Em Árcon ninguém devia ter a impressão de que algum inimigo procurava aproximar-se sorrateiramente do centro do Grande Império. O último salto devia ser constatado pelos arcônidas.

* * *

Quatro transições foram realizadas sem qualquer incidente. As distâncias entre um ponto de transição e outro eram uniformes. Cada salto aumentava em 6.800 anos-luz a distância entre a Ganymed e a Terra.
Pela hora terrena do meridiano de Terrânia eram 22:15 h do dia 10 de maio de 1.984 quando a Ganymed iniciou a última transição. Rhodan ordenou um estado de prontidão rigorosíssima.
A dor foi diminuindo.
Os apitos agudos de alarma despertaram os homens de seu estado de inconsciência. Um grito soou. Ninguém sabia quem soltara o mesmo. Era um grito de admiração.
Olhem as telas!
A grande tela panorâmica captava todos os ângulos do espaço. Na direção correspondente ao eixo longitudinal da nave, via-se um conglomerado de claridade reluzente. Era um tapete de luminosidade no qual não se distinguiam as fontes de luz, uma nuvem de estrelas maior e mais bela do que qualquer constelação jamais vista por um olho humano.
Era M-13!
Ali estava o núcleo do Grande Império formado por centenas de milhares de sóis que protegiam o coração do grande complexo: Árcon.
Face a esse esplendor, os outros segmentos da tela pareciam vazios e desolados. A concentração estelar da Galáxia empalideceu, transformada em escuridão diante da luminosidade daquele grupo.
Alguns minutos se passaram. Os tripulantes da nave contemplaram sem pressa o grande milagre que se descortinava diante deles. Quase chegaram a esquecer a finalidade da viagem.
Subitamente um forte estalido rompeu o silêncio e uma voz arrastada saiu do tele comunicador:
Alguma coisa não está em ordem!
A reação de Perry Rhodan foi imediata. Logo se esqueceu do milagre que se desenhava na tela.
O que não está em ordem?
Os receptores de hipercomunicação estão dando sinal ininterruptamente. Com perdão da palavra, temos uma verdadeira salada de ondas no instrumento.
Conseguiu a localização?
Não, senhor. A goniometria conjugada à medição de intensidade é impossível porque as transmissões se superpõem. E para a goniometria de triangulação precisaríamos dum terceiro ponto de referência.
Rhodan confirmou com um gesto de cabeça.
Prossiga nas observações — ordenou ao homem do rádio.
E logo emitiu as ordens dirigidas ao comando da nave. Eram precisas e lacônicas.
Parar a nave! Campos protetores a toda potência! Postos de combate continuarão de prontidão!
A Ganymed imobilizou-se.
A cinqüenta minutos-luz, quase exatamente na direção do eixo longitudinal da nave, ficava o último dos sóis da periferia externa do grupo. Era um gigante vermelho sem planetas.
O silêncio tomou conta da sala de comando. Os olhos fitos na grande tela panorâmica procuraram compreender o que se passava lá fora.
Lá fora, num setor estranho e pavoroso do espaço.
O fotômetro registra reflexos débeis em Pi cento e oitenta e dois e Teta vinte e um do espectro estelar, com ligeiro deslocamento na faixa do azul. O reflexo aproxima-se do ponto em que nos encontramos.
Os olhares fixaram-se no ponto indicado. Ficava “atrás” da Ganymed, se a direção em que ficava o grupo estelar fosse considerada a frente.Os olhos não encontraram nada. Um olho humano não é nenhum fotômetro.
Rhodan instruiu a sala de rádio para que todas as transmissões recebidas fossem conduzidas para um dos receptores da sala de comando. Dali a um instante, uma confusão de ruídos encheu o recinto. Toda a escala dos barulhos estava presente, desde o zumbido grave e monótono até o chiado agudo e histérico, que quase não podia ser captado pelo ouvido humano.
Eram hiper transmissões, codificadas e condensadas. Quem não possuísse o código e não conhecesse o fator de condensação nunca conseguiria decifrá-las.
A antena direcional revelou que parte das transmissões vinha da área em que o fotômetro acabara de registrar o reflexo débil.
Alguma coisa aproximava-se do grupo estelar a uma velocidade considerável.
O que seria?
Rhodan pediu que Crest comparecesse à sala de comando. Mas o arcônida não conseguiu descobrir o que andava lá por fora.
Uma hora passou-se. O reflexo luminoso aproximou-se a uma distância de vinte minutos-luz. Constatou-se que, se não modificasse a direção de deslocamento, passaria a grande distância da Ganymed.
Rhodan suspirou aliviado. A representação não se destinava a eles.
Subitamente um relampejo surgiu na parte superior da tela. Foi um raio de luz que só durou uma fração de segundo, mas era tão intenso que atraiu todos os olhares. Do lugar do relampejo, saiu um fio esverdeado que atravessou a tela a grande velocidade, desapareceu diante da claridade das estrelas, voltou a surgir e finalmente provocou outro relampejo.
Nas proximidades do local do segundo relampejo, surgiu outro fio luminoso e percorreu o caminho de onde viera o primeiro. Os homens prenderam a respiração, aguardando a detonação; mas esta não veio. O fio de luz percorreu o espaço numa extensão de milhões de quilômetros e desapareceu diante da claridade do grupo estelar.
Erraram o alvo! — resmungou Reginald Bell.
Essa observação descontraiu os homens.
Não havia a menor dúvida: a quinta transição da Ganymed terminara em meio a uma batalha espacial.

* * *

Vamos ficar quietos — ordenou Rhodan. — Não sabemos quem está brigando com quem; o que sabemos é que aquilo não nos diz respeito.
Era uma situação fantasmagórica. Fios luminosos coloridos passavam pela tela e as explosões ofuscantes se sucediam. Crest não sabia o que fazer.
É claro que existem muitas raças que não concordam com a existência do império dos arcônidas — admitiu. — Quem é poderoso têm inimigos, e nunca neguei que nestes últimos séculos os arcônidas não trataram os rebeldes com o necessário rigor. Mas não tenho meios para saber o que está acontecendo lá fora. Nem posso dizer se há naves arcônidas envolvidas na batalha.
À medida que perdurava a incerteza, crescia o desejo de obter informações. Rhodan sentiu o nervosismo que tomava conta dele, e sabia que a mesma coisa acontecia aos outros.
Bell!
Reginald Bell levantou a cabeça num gesto abrupto. Um brilho arrojado surgiu em seus olhos.
Sim. Quer que eu...
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
Não podemos ficar parados toda vida. Pegue a Gazela-I e procure descobrir o que está acontecendo.
As mãos ágeis de Bell manipularam o intercomunicador. O tenente Tifflor, que comandava a nave auxiliar Gazela-I, foi informado de que dentro de quinze minutos o aparelho devidamente tripulado deveria estar pronto para sair pelas comportas da nave.
Nada de arbitrariedades! — advertiu Rhodan. — Apenas queremos saber o que está acontecendo. Não queremos que atire.
Não se preocupe. Sou o homem mais cauteloso do mundo.
Essas palavras provocaram um sorriso nos homens reunidos na sala de comando, que conheciam bem o gênio esquentado de Bell.
A Gazela-I com seus dez tripulantes possuía todas as características de uma pequena nave espacial. Estava equipada com hiperpropulsores, podia realizar transições de extensão limitada e suas reservas energéticas lhe garantiam uma autonomia de cerca de quinhentos anos-luz.
A potência de seu armamento era tamanha que poderia travar sozinha uma guerra contra o planeta Terra. Era bem verdade que na opinião de Bell era duvidoso que os acontecimentos desenrolados na periferia do grupo estelar M-13 pudessem ser medidos pelos padrões terranos.
Há poucos minutos a Gazela-I saíra do corpo gigantesco da Ganymed. Acelerando ao máximo, atingira 0,8 vezes a velocidade da luz. Percorria o espaço na direção dos débeis reflexos luminosos que os fotômetros da Ganymed continuavam a acusar, e que se deslocavam em direção ao grupo de estrelas.
Bell estava sentado ao lado do jovem tenente Tifflor. Este pilotava a nave, enquanto Bell se encarregava do controle dos goniômetros.
Quando se encontravam a uma distância de cinco minutos-luz, o localizador de microondas começou a reagir. No início, abrangeu um objeto de contornos indefiníveis. Quando se aproximaram mais, viram que se tratava duma nuvem de espaçonaves que se deslocava a alta velocidade.
A distância é de cem segundos-luz — informou Tifflor.
Chegue mais perto — resmungou Bell. — Quero vê-los na tela. Reduza a velocidade.
Tifflor olhou-o de lado.
Atirarão contra nós — ponderou.
Será? — resmungou Bell. — Está com medo?
Tifflor levantou-se com um gesto tão abrupto que os cintos lhe cortaram os ombros.
Senhor...
Bell fez um gesto apaziguador.
Está bem, desculpe. Não tive a intenção de ofendê-lo. Sei perfeitamente que não está com medo. Reduza a velocidade.
Tifflor obedeceu.
Na tela surgiram sombras apagadas. Eram as naves que refletiam a luz do grupo de estrelas. Bell inclinou-se para a frente.
Meu Deus! — murmurou. — O que é isso?
Graças a um treinamento intensivo, Reginald Bell possuía todo o saber arcônida. Conhecia os tipos de naves do Império tão bem quanto um arcônida, talvez melhor, já que a memória humana é mais eficiente que a arcônida.
Aquilo que tinha diante de si ultrapassava o volume de dados que podia assimilar em alguns segundos. Calculou que o grupo era formado por umas trezentas naves. A maior delas devia ter aproximadamente metade do tamanho da Ganymed, enquanto a menor não passava dum ponto luminoso. Tinha certeza de que seu tamanho não ultrapassava o da Gazela-I.
Havia naves de um tipo que há milênios devia ter sido moderno na galatonáutica arcônida, e outras que Bell não conhecia, naturalmente por não serem de construção arcônida. Não existia a menor dúvida: as naves que se encontravam diante da Gazela-I não eram arcônidas.

* * *

Depois da ligeira manobra de frenagem desenvolvida por Tifflor, a nave apenas desenvolvia 0,07 da velocidade da luz. Levou alguns segundos para passar longe da formação. Os desconhecidos procediam com muita cautela. Dificultavam a pontaria do inimigo, guardando grande intervalo entre as naves.
Não atiraram contra a Gazela-I. Tifflor suspirou silenciosamente ao ver que os pontos luminosos que representavam as trezentas naves se haviam deslocado para a tela de popa. Bell olhou-o com um sorriso de escárnio.
Infelizmente tenho que incomodá-lo mais uma vez — disse. — Vamos voltar.
A resposta de Tifflor foi lacônica:
Sim senhor.
Iniciou as manobras. Depois de cinco minutos inverteu a rota da Gazela-I. A uma velocidade ainda mais reduzida que da primeira vez, passou junto à formação bem espalhada.
Subitamente um dos homens sentados junto a um dos nichos de artilharia gritou:
Estão abrindo fogo contra nós! Uma faixa larga e ofuscante atravessou a tela. Tifflor atirou a mão para a frente, a fim de executar a manobra desviacionista. Mas o feixe energético passou a uma distância segura. Produziu apenas uma ligeira reação dos campos energéticos, indo atingir em cheio uma das naves estranhas, que se encontrava a milhares de quilômetros de distância.
O efeito do impacto foi tremendo. Por uma fração de segundos, a nave inchou como um balão de brinquedo inflado às pressas. Suas paredes entraram em incandescência e o feixe de fogo explodiu, espalhando uma chuva de fragmentos luminosos e deixando vazio o lugar em que pouco antes se encontrara.
Vamos embora! — fungou Bell.
A reação de Tifflor foi instantânea. Acelerando ao máximo e descrevendo uma curva fechada, a Gazela-I afastou-se da área perigosa que circundava as naves estranhas.
Novos feixes energéticos atravessaram o espaço, cruzaram as telas e atingiram suas vítimas entre as naves desconhecidas. Uma chuva incessante de fagulhas espalhava-se para todos os lados, mudando de cor, enquanto a Gazela-I, cada vez mais veloz, penetrava no campo do efeito de duplicação.
Pare! — ordenou Bell.
A Gazela-I encontrava-se a dois e meio minutos-luz da formação que estava sendo bombardeada. O localizador de microondas revelou que os desconhecidos começavam a mexer-se. O que restava de suas naves modificou a velocidade e a direção, para escapar ao fogo violento. A formação espalhou-se para todos os lados. Os feixes energéticos reluzentes atingiam o vazio e desapareciam em meio ao negrume do espaço. O inimigo invisível suspendeu o fogo.
Quais são suas ordens? — perguntou Tifflor.
Vamos esperar — respondeu Bell laconicamente. — Ligue o receptor para a freqüência integral.
Tifflor confirmou com um gesto de cabeça. As intenções de Bell eram claras. Em toda luta há sobreviventes, mesmo numa batalha espacial. Se algum tripulante de uma das naves destruídas tivesse sobrevivido ao impacto e vagasse pelo espaço, indefeso, transmitiria seu pedido de socorro pelo rádio embutido no traje espacial.
Dali a quatro minutos a Gazela-I captou o primeiro pedido de socorro. Eram palavras balbuciadas numa língua incompreensível, de mistura com os chiados das interferências. O goniometrista só levou alguns segundos para determinar o local do emissor por meio da antena automática. A Gazela-I voltou a dar partida.
Lenta e cautelosamente, foi-se aproximando do local da batalha recém-terminada. Metade das guarnições de artilharia tiveram que vigiar eventuais feixes energéticos. A grande agilidade da Gazela-I dava-lhe boas chances de desviar-se de um bombardeio energético, já que a maioria das radiações não ultrapassa noventa e nove por cento da velocidade da luz.
Bell ficou de olhos fixos na tela reflexiva do localizador de microondas. A antena de radiações descrevia sem cessar seu movimento pendular, desenhando faixas verdes sobre a tela.
Ali!
Um ponto iluminou-se na faixa verde, apagou-se quando a antena se deslocou e voltou a iluminar-se no próximo movimento.
Tifflor alterou a rota. Desenvolvendo a velocidade de um automóvel terreno, a nave aproximou-se do ponto. Um débil reflexo surgiu na tela de imagem. Tifflor, um oficial submetido a treinamento intenso na Academia Espacial de Terrânia, dele se aproximou com a rapidez e a segurança de um comandante experimentado.
Agora era com ele. Bell fornecera as diretivas gerais e agora ele daria as ordens.
Dois homens sairão da nave. Tragam aquela criatura.
Os tripulantes que se encontravam mais próximos à comporta saíram do lugar, fecharam os trajes espaciais e desapareceram no cubículo da comporta. Dali a um minuto surgiram na tela, transformados em vultos disformes e inchados, que voavam tranqüilamente em direção ao reflexo.
Tifflor manteve contato pelo rádio. Os dois soldados colocados no espaço chamavam a intervalos regulares.
A distância é de duzentos metros. Já distinguimos perfeitamente o homem.— Andem depressa! — ordenou Tifflor. Lançou um olhar preocupado pela tela de imagem. A área era perigosa. A qualquer momento o desconhecido distante poderia localizar a nave e abrir fogo de novo.
Atingimos o local — anunciou a voz de um dos soldados.
Tragam o homem.
Sim senhor, mas...
Mas o quê?
Ouviu-se uma respiração ofegante, uma tosse.
Não... não é nenhum homem.
O que é?
É... bem, é uma coisa.
Tifflor enfureceu-se.
É um ser inteligente ou não é?
Parece que sim... mas é tão esquisito!
Tifflor tinha algumas palavras violentas na ponta da língua. Mas preferiu guardá-las para si e ordenou:
Tragam-no. Depressa!
A luminosidade dos três pontos projetados na tela voltou a crescer. Os contornos começaram a tornar-se perceptíveis. Eram dois vultos grosseiros e disformes, mas humanos, e uma terceira figura em forma de caixa.
O silêncio tomou conta da nave, até que o ruído provocado pelos homens que vinham do espaço soou na comporta. Bell observou as luzes de controle da escotilha interna e fez um sinal para Tifflor quando viu surgir uma série de luzes verdes.
Vamos voltar pelo caminho mais rápido!
Tifflor começou a manipular os controles. No momento em que a Gazela-I começou a pôr-se em movimento, os dois soldados vindos da comporta entraram e descansaram cautelosamente o grande volume cujo peso os fizera ofegar.
Bell soltou os cintos de segurança, contornou a mesa de controle e contemplou a coisa de todos os lados. Pelo que constatou, o envoltório cinza-claro, que imitava o couro, não devia pertencer àquele ser; era provável que fosse uma peça de algum traje espacial. Contudo, não descobriu nenhum fecho. Prosseguindo no exame, deu com o lugar em que o envoltório era substituído por uma lâmpada quadrada de vidro flexível que media cerca de vinte e cinco centímetros, permitindo a visão do interior.
Por baixo dela Bell viu um vulto coberto por listras cinza-claras e cinza-escuras. Era aquilo que os dois soldados não quiseram chamar de homem.
Bell bateu na lâmina, mas nada se moveu atrás dela, O ser devia estar inconsciente ou morto.
Ande depressa! — disse Bell em voz baixa, dirigindo-se a Tifflor.
Este confirmou com uma expressão obstinada no rosto.

* * *

Rhodan já estava informado quando a Gazela-I entrou pela comporta. Ao seu lado, Crest acompanhava a manobra. Parecia curioso. Tifflor deu prova de suas qualidades de piloto espacial. A manobra foi rápida e segura.
Em torno da Ganymed a batalha espacial continuava a rugir. A dispersão da frota desconhecida, evidentemente, não passara duma ação isolada em meio ao grande combate.
Rhodan dirigiu-se a Crest.
Quer encarregar-se da investigação? Acho que estará em boas mãos.
Crest concordou com um gesto.
Avise assim que descobrir alguma coisa — pediu Rhodan.
Crest saiu e aguardou no corredor até que dois dos tripulantes levassem o ser disforme pelo elevador antigravitacional.
Façam o favor de deixá-lo no laboratório — pediu.
Enquanto o volume era introduzido no laboratório, Crest preparou os aparelhos de que precisaria para a pesquisa.
Sua providência principal consistiu em encher uma das pequenas câmaras de exame, instaladas nos fundos do laboratório, com uma atmosfera de metano submetida a uma pressão considerável.
Conhecia a raça a que pertencia aquele ser indefeso, coberto de listras cinza-claras e cinza-escuras.
Abriu o traje espacial de couro junto à câmara de exames, introduziu o corpo flácido e disforme na pequena comporta o mais depressa que pôde, retirou o ar da mesma e fez com que uma lufada fresca de metano envolvesse o ser estranho.
Na câmara havia uma série de instrumentos que captavam e registravam as funções do corpo. Crest leu nos indicadores que de todos os órgãos somente aquele que correspondia ao coração humano desempenhava uma atividade significativa.
O ser estranho estava morrendo. A temperatura de seu corpo estava abaixo do normal. Provavelmente o aquecimento do traje espacial falhara.
Os controles seguintes foram manipulados com um máximo de rapidez e segurança. Um zumbido grave encheu o recinto no momento em que começou a funcionar o aparelho de encefalografia. Este aparelho registraria as últimas vibrações cerebrais daquele ser que vivia no momento e as traduziria numa programação positrônica.O rumo que tomava a batalha espacial era inconfundível. As formações de naves se agrupavam; mais uma dezena de reflexos foi registrada pelos fotômetros.
No centro de todas as formações encontrava-se a Ganymed.
Ainda estava condenada à espera. A única coisa que podia fazer era ativar os campos energéticos ao máximo de sua potência, para que um impacto casual de um dos potentes canhões energéticos não pudesse causar-lhe qualquer dano.
Dali a uma hora Crest voltou. Rhodan notou que estava mais sério que de costume. Segurava algumas fitas de plástico coloridas, utilizadas como portador de impulsos da calculadora positrônica, e colocou-as diante de Rhodan.
O que foi? — perguntou Rhodan laconicamente.
Foi um motunês — respondeu Crest.
Foi?
Isso mesmo — confirmou Crest. — Morreu de subesfriamento. Não pude fazer mais nada por ele.
Rhodan refletiu, procurando localizar na profusão de memórias armazenadas durante o treinamento hipnótico tudo que sabia sobre os motuneses.
Era uma raça não-humanóide que respirava metano e habitava os planetas de um extenso sistema solar situado na periferia do grupo estelar. Quando foram subjugados pelo Grande Império já possuíam uma tecnologia desenvolvida e em toda a história nunca foram membros muito submissos do Grande Império. O nível elevado de sua civilização e a repugnância natural dos não-humanóides pelos humanóides fizeram com que de tempos em tempos os motuneses lutassem pela independência de seu sub império.
Com quem estão brigando? — perguntou Rhodan.
Com uma grande frota de Árcon — respondeu Crest. — Este motunês informou que, mal a rebelião havia começado, uma enorme frota arcônida surgiu diante do mundo principal de Motun e transformou sua superfície num oceano de rocha derretida.
As unidades estacionadas nos outros planetas passaram à luta. É o que estamos vendo na tela. Não existe a menor dúvida de que a rebelião terminará com a destruição final dos motuneses.
Rhodan ergueu os olhos, espantado.
Parece que Árcon está ficando enérgico.
Crest deixou-se cair numa poltrona. Parecia um gesto de desânimo e resignação.
O senhor não entende isso tão bem como eu entendo — disse em voz baixa. — É bem verdade que dispõe do saber arcônida. Mas não possui as impressões emocionais que carreguei comigo ao partir de Árcon. Se no dia em que Thora e eu partimos de Árcon na nave exploradora os motuneses se tivessem revoltado, nenhum arcônida se teria preocupado por isso. Motun fica a quarenta e seis anos-luz de Árcon. Os arcônidas sabiam que pouco importaria o que os motuneses fizessem. De qualquer maneira não conseguiriam chegar aos mundos coloniais mais importantes, quanto mais Árcon, em virtude dos dispositivos automáticos de segurança. Teriam ficado diante das telas de imagens fictícias, esperando que o entusiasmo dos motuneses acabasse por si.
E agora... isto aqui... essa atividade imensa...
Rhodan deixou passar algum tempo.
Afinal, treze anos se passaram desde sua partida, Crest — ponderou. — Não acredita...
Treze anos! — exaltou-se Crest. — Será que treze anos bastariam para produzir uma mudança tão radical no gênio de um povo antiqüíssimo?
Rhodan refletiu.
Uma evolução natural não poderia produzir esse resultado — confessou. — Talvez tenha havido um golpe de força na história arconídica. Quem sabe se o próprio Árcon não sofreu um ataque, e a situação criada com isso não deixou outra alternativa aos arcônidas senão despertar de sua letargia?
Crest mostrou um sorriso triste e fez um gesto. Estava com a resposta na ponta da língua. Pretendia dizer que um povo condenado ao desaparecimento não se desvia do caminho traçado pelo destino, e prefere sucumbir a defender-se. Mas antes que pudesse dizer uma palavra, o inferno parecia estar às soltas.
As sereias de alarma elevaram sua voz desagradável e irritante, enchendo a nave por alguns segundos com um ruído martirizante. Mal as sereias silenciaram, uma voz gritou no intercomunicador:
Uma grande formação de naves aproxima-se na direção exata da Ganymed. Distância de três segundos-luz, velocidade 0,05 da luz. Contato dentro de sessenta segundos.


2



Antes de mais nada, Rhodan lançou um olhar sobre o indicador de desempenho do campo protetor. O sinal luminoso tremulava na mancha vermelha: não havia possibilidade de conduzir maior suprimento energético ao campo.
A Ganymed estaria protegida contra qualquer carga concebível. Mas a frota que do nada se aproximava era formada de mais de três mil naves, e nem mesmo o mais potente dos campos energéticos resistiria ao bombardeio de três mil canhões.
Crest levantou-se e recuou para os fundos da sala. Sabia que numa situação como esta deveria deixar a iniciativa por conta dos outros.
Numa questão de segundos, a tripulação da sala de comando se amalgamou naquela comunhão de luta que sempre formara nos momentos de maior perigo. Todos os oficiais estavam nos seus lugares, aguardando as ordens de Rhodan, com um nervosismo reprimido a custo.
Apesar da pressa, Rhodan não perdeu o sentido de coerência. O localizador de microondas gastou dez segundos para apalpar o formato das naves que se aproximavam vertiginosamente e constatar que a frota era de origem arcônida.
Rhodan consumiu mais dez segundos em expedir a mensagem codificada que na opinião de Crest e Thora convenceria qualquer tripulação arcônida de que tinha um irmão de raça diante de si.
Mais dois segundos se passaram até que percebesse que as naves arcônidas não registraram a emissão. E, menos ainda, cogitavam de desviar-se da perigosa rota que estavam seguindo.
Vinte segundos depois do primeiro aviso a frota arcônida abriu fogo contra a Ganymed. Centenas de feixes energéticos concentrados correram pelo espaço. Em parte erraram o alvo, em parte levaram os campos energéticos à incandescência.
Posto de combate número um, preparar para abrir fogo! — ordenou Rhodan.
O posto de combate número um correspondia ao transmissor fictício, que era a arma mais eficiente da nave.
A confirmação não demorou mais que um segundo.
Abrir fogo na direção Pi zero com potência média — ordenou Rhodan. — Fogo!
Com a mão direita empurrou o regulador de velocidade para a posição máxima. A Ganymed pôs-se em movimento. Acelerada ao máximo, correu em direção à gigantesca frota do inimigo, abrindo caminho por entre as linhas inimigas por meio do misterioso transmissor fictício. O aparelho registrava o alvo, arremessava-o pelo hiperespaço e fazia-o ressurgir num ponto cuja distância e posição eram escolhidos em função da quantidade e da polarização da energia empregada.
Uma passagem larga abriu-se diante da Ganymed, enquanto os campos energéticos continuavam a iluminar-se sob o fogo das naves arcônidas.
Os arcônidas logo reconheceram o perigo que se aproximava deles. A formação desagregou-se e as naves se afastavam em todas as direções, para dificultar a pontaria do inimigo. Os impactos sobre o campo protetor da Ganymed tornaram-se cada vez mais raros. Desenvolvendo o máximo de aceleração, a nave terrena precipitou-se pela abertura. Confundiu a pontaria arcônida quando a mesma teve que girar além do ângulo de zero graus. Menos de dois minutos depois do primeiro alarma, encontrava-se em segurança, bem além das linhas inimigas.
A frota arcônida reagrupou-se e prosseguiu no seu vôo, mantendo a rota primitiva. Poucos segundos depois observaram-se os primeiros tiros de radiações, que provocaram explosões refulgentes nas profundezas do espaço. O fogo dos arcônidas foi respondido. Mas a proporção dos tiros disparados de lado a lado revelava claramente a situação desesperadora de inferioridade em que se encontravam os motuneses.
Os três mil couraçados, diminuídos de três, que o transmissor fictício transferira para outro setor do espaço, passaram que nem um rolo de fogo sobre os destroços das naves motunesas, deixando atrás de si uma chuva incandescente de destroços, que se reuniam na tela sob a forma de nuvens luminosas amarelo-avermelhadas.
Dali a meia hora Rhodan decidiu prosseguir viagem. Face à rebelião que se manifestara nas áreas exteriores do grupo estelar, achou preferível não expor a Ganymed a outro perigo. Resolveu executar mais um hiper-salto para vencer a distância restante de cerca de quarenta e cinco anos-luz.
A elevada concentração de matéria reinante na área, especialmente no centro do grupo M-13, exigiu maior número de dados para o cálculo das coordenadas do salto. Isto acarretou maior dispêndio de tempo.
Nesse meio tempo a nave ficou de prontidão. Ninguém saberia prever se, depois de ter feito uma limpeza tão rigorosa entre os motuneses, a frota arcônida não se lembraria do inimigo anterior e procuraria localizá-lo.

* * *

Thora irrompeu em meio aos preparativos da transição e aos pensamentos graves que passavam pela mente de Rhodan. Alguma coisa parecia tê-la excitado além da medida. Seu longo cabelo branco esvoaçava enquanto atravessava a sala de comando a passos rápidos.
Rhodan recebeu-a com um sorriso.
Foram naves arcônidas, não foram? — perguntou Thora.
É isso”, pensou Rhodan. “Acompanhou os acontecimentos na tela e agora vem me dizer o que eu deveria ter feito.
Foram — admitiu.
Por que não se identificou?
Foi exatamente o que fiz. Usei a mensagem codificada. Thora ficou perplexa. Seus olhos chamejantes, assumiram uma expressão um pouco mais suave.
E não...
...não responderam? Não. Pelo contrário: começaram a atirar.
Os braços de Thora caíram molemente junto ao corpo. Sua cólera e seu entusiasmo haviam passado. Só ficou o desamparo.
Crest saiu do canto em que passara os últimos trinta minutos, acompanhando os acontecimentos que se desenrolaram lá fora. Estava pasmo e silencioso. Thora virou-se para ele, com a grande pergunta inexprimível nos olhos.
Crest parou perto dela e fez um gesto grave.
Nossa situação não é melhor que a sua — disse em arcônida. — Não temos a menor idéia do que pode ter acontecido.
Mas...
Durante sua ausência deve ter havido uma modificação profunda no império de Árcon — interveio Rhodan. — Ao que parece, de certo tempo para cá, os comandantes das naves arcônidas foram instruídos a ver um inimigo em qualquer coisa que se interponha no seu caminho. Até os sinais codificados perderam seu valor.
E agora? O que pretende fazer?
O rosto apavorado de Thora antecipou a resposta: deviam voltar, fugir, ir para casa. Rhodan riu baixinho.
Não tenha medo. Pretendíamos ir a Árcon, e ainda pretendemos. Vamos realizar a sexta transição, que nos levará ao centro do grupo estelar. Uma coisa eu lhes digo. Ao que tudo indica, é muito mais provável que sejamos destruídos por seus patrícios em vez de atingirmos Árcon sãos e salvos.
Passo por passo, jornada após jornada o rei Salomão penetra na terra misteriosa de Ofir e se aproxima do palácio dourado da rainha de Sabá.
Com um sorriso, Rhodan olhou para o lado e contemplou seu co-piloto e amigo, que acabara de recitar pela terceira vez o verso que falava no rei Salomão e na rainha de Sabá.
Está com uma veia romântica, não é? — escarneceu.
Bell não tirou os olhos da tela.
Isso mesmo — respondeu em tom sério. — Até parece que estou no cinema. Olhe isso — fez um gesto amplo, que abrangeu toda a superfície da tela panorâmica — e ouça isso — apontou para o receptor de telecomunicação montado diante dele que, ligado na freqüência integral, captava a cada segundo as emissões irradiadas por tudo quanto era emissor localizado nesse setor do espaço.
Realmente, a visão oferecida pela tela era fabulosa. As estrelas agrupavam-se tão densamente que em certos pontos pareciam formar paredes luminosas compactas. Em outros lugares, formavam pontos de cruzamento duma rede estreita cuja luminosidade era inconcebível.
Jamais um ser terrano havia visto um céu desses.
O que saía do hipercomunicador era a superposição de pelo menos cem mil palestras conduzidas ao mesmo tempo. Era de supor que a maior parte dessas palestras se realizava num raio de quinze anos-luz em torno da Ganymed, já que é este o alcance para o qual geralmente são regulados os emissores de hipercomunicação. E, se considerarmos que no máximo dez por cento das naves que se encontram em viagem estariam transmitindo ao mesmo tempo, chegaremos à conclusão de que a esfera espacial de trinta anos-luz de diâmetro que tinha a Ganymed por centro devia ter um “conteúdo” de pelo menos um milhão de naves.
Era um número impressionante.
Reginald Bell começou a compreender o que Rhodan queria dizer quando afirmava que, apesar da decadência e do refinamento excessivo, o Império Arcônida era uma coisa tão poderosa e formidável que o espírito humano não conseguiria imaginar.
Mas uma impressão forte como esta sempre irritava Bell. Afastando violentamente a sensação de pequenez e insignificância que começava a surgir em sua mente, formulou uma afirmativa arrojada sobre o verso do rei Salomão que acabara recitar:
Ao aproximar-se, viu que o outro não passava de latão; recuperou a coragem, e sua vanguarda sozinha derrotou o exército gigantesco da rainha de Sabá.
Voltando-se para o lado, olhou Rhodan com um sorriso mordaz:
Agora que satisfizemos nossas necessidades mitológicas, o que vamos fazer?
Rhodan apontou para a tela.
Vamos aguardar a interpretação. Pelos nossos cálculos, saímos da transição a trinta horas-luz do sol de Árcon. O que vemos diante de nós corresponde aos dados constantes dos velhos mapas de Crest. Mas muita coisa mudou neste meio tempo.
Por isso prefiro não assumir nenhum risco; mandarei conferir os mapas. Quem sabe se os arcônidas não construíram outra fortaleza espacial? Poderemos esbarrar com o nariz na mesma, se não nos cuidarmos.
Bell franziu a testa.
Aliás, já sabemos da existência do chamado anel exterior de fortificações, não é?
É verdade. Acontece que não fica aqui, mas na órbita planetária mais distante do sistema, ou seja, perto de quinze ou vinte horas-luz da estrela central.
Bell examinou uma série de instrumentos.
Estamos desenvolvendo a velocidade de 0,2 luz — constatou. — O anel exterior está dentro do raio de alcance de nossos transmissores. Vamos enviar uma mensagem?
Rhodan confirmou com um gesto.
É claro que vamos. Vamos enviar qualquer mensagem que os faça compreender que nossas intenções são amistosas.
Muito bem. Tomara que adiante alguma coisa.
A conferência dos mapas não revelou nada de novo. Os arcônidas não haviam acrescentado qualquer estação espacial às já existentes.
Reconheceram parte das cinco mil plataformas equipadas com canhões pesadíssimos, que formavam o anel exterior de fortificações. A Ganymed aproximava-se do círculo a sessenta por cento da velocidade da luz. As antenas da nave expeliam incessantemente sinais codificados e mensagens destinadas aos receptores instalados nessas plataformas.
As plataformas deveriam responder. Ao menos, segundo afirmava Crest, elas o fariam em condições normais. Acontece que não respondiam.
Silenciosas, continuavam a percorrer suas órbitas, e ninguém poderia prever o que fariam se a Ganymed procurasse romper o círculo sem o sinal liberatório do grande emissor, buscando penetrar no coração do Grande Império.
Uma das gigantescas plataformas de guerra foi crescendo lentamente na tela. Na estranha perspectiva do espaço livre, que não permitia a avaliação de distâncias sem instrumentos, parecia que dentro de poucos segundos a mesma se transformava de um pequeno ponto brilhante para um monstro perto do qual a Ganymed não passava dum naviozinho insignificante.
Por uma fração de segundo os olhos viram as aberturas ameaçadoras das torres de radiações.
Subitamente o furacão de fogo irrompeu de todas as peças. Uma parede fulgurante formada por uma massa imensa de energia concentrada precipitou-se sobre a Ganymed. Os geradores do campo protetor uivaram, solicitados ao máximo sob o impacto das forças terríveis, e a nave foi atirada de um lado para outro que nem uma canoa em mar tempestuoso.
O pavor tomou conta das mentes.
As últimas energias que restavam nos propulsores impeliram a nave para a frente. Um repentino golpe de aceleração fez com que os disparos energéticos ininterruptos das torres se perdessem no vácuo por alguns segundos, passando atrás da Ganymed. Quando o dispositivo de pontaria automática percebeu o erro e corrigiu a posição dos canhões de radiação, a nave terrana já se encontrava a mais de duzentos mil quilômetros. Os campos energéticos, que mal e mal resistiram ao primeiro impacto dos tiros disparados a pequena distância, absorviam com a maior facilidade os tiros que agora os perseguiam.
O balanço cessou. Com o campo energético luminoso a Ganymed foi penetrando no estranho sistema deixando para trás o anel mortífero de plataformas.
Continuaremos em prontidão rigorosa. Devemos contar com novos ataques. Qualquer baixa deve ser avisada imediatamente à sala de comando.
Não houvera nenhuma baixa.
Pálido de susto, Crest estava encolhido na sua poltrona, junto à parede lateral da sala de comando. Rhodan virou-se para ele e exibiu um ligeiro sorriso, para acalmar o arcônida. Crest não retribuiu. O medo estava escrito em seu rosto.
O espaço que se abria diante da Ganymed parecia livre. O poderoso Império concedia uma ligeira pausa de respiração aos invasores.
Rhodan levantou-se, passou pelos postos dos oficiais e dispensou a cada um deles uma palavra animadora e tranqüilizadora. Parou diante de Crest até que este, dominado pelo pavor, notasse sua presença:
A sala de rádio fica à disposição do senhor e de Thora. O senhor sabe como lidar com os instrumentos. Procure falar com Árcon. Explique àquela gente que não viemos como inimigos.
Faça o possível para convencê-los. Senão estaremos todos perdidos.
Crest confirmou com um gesto. Parecia muito perturbado. Levantou-se e saiu. Rhodan seguiu-o com os olhos. Depois chamou Thora e pediu-lhe que ajudasse Crest.
Ao que parecia, era Thora que mais precisava de auxílio.
Rhodan reduziu a velocidade da nave depois que a Ganymed deixou para trás os últimos tiros disparados a distância. Seria uma loucura penetrar no sistema a noventa por cento da velocidade da luz.
Era necessário agir com cautela, mesmo que esta consumisse tempo e aumentasse o risco de novo ataque antes que a Ganymed atingisse a órbita de Árcon.
Há vários minutos Thora e Crest procuravam comunicar-se com seu mundo através do hipertransmissor.
Ainda não haviam conseguido nada. Árcon não respondia.
Rhodan começou a suspeitar de alguma coisa. Árcon não respondia! Teria o mundo dos arcônidas sucumbido a alguma catástrofe? Será que uma guerra eliminara a humanidade arcônida?
É tolice”, disse Rhodan de si para si, espantando seus temores. “Se fosse assim, como se explicariam as frotas gigantescas que fizeram uma limpeza tão radical entre os motuneses?
E se não fosse tolice?
Era perfeitamente possível que as naves dirigidas por robôs tivessem escapado à destruição, e prosseguissem com a obstinação de máquinas insensíveis na execução das tarefas que lhes haviam sido atribuídas, mesmo que seus senhores já não vivessem.
Será que a Ganymed estava chegando tarde?
Rhodan quis ter certeza. Recorreu ao pequeno programador que encontrou junto à sua mesa para codificar a pergunta:
As naves de tipo arcônida que a Ganymed enfrentou nas últimas dez horas são unidades dirigidas por robôs?
A pergunta foi transmitida ao centro de cálculos. Rhodan pediu a resposta ao menor prazo possível. Acreditava que o cérebro positrônico levaria ao menos quinze minutos para chegar a um resultado inequívoco.
E nesses quinze minutos...

* * *

Rhodan foi espantado de suas reflexões pelo estalo do intercomunicador. A voz exaltada do oficial do posto de localização encheu a sala:
Constatamos uma transição nas imediações. Trata-se de um couraçado da classe da Stardust. Pode ser alcançada pela visão ótica direta.
Uma sombra negra e ameaçadora cobrira parte do tapete de estrelas. No início parecia um pequeno furo, depois uma bola, e por fim um enorme disco redondo, que impedia totalmente a visão da Ganymed para um dos lados.
Rhodan enrijeceu os músculos, como se tivesse que suportar pessoalmente o primeiro impacto. E logo veio o feixe luminoso verde do desintegrador. Atingiu o campo energético da Ganymed pouco acima do leme e produziu uma luminosidade ofuscante nos campos energéticos.
Rhodan desviou a Ganymed. Numa manobra instantânea saiu para o lado, deixando para trás a próxima salva de desintegradores.
Mas a gigantesca nave acompanhou a manobra. Num movimento ágil, que quase parecia uma brincadeira, grudou-se nos calcanhares da Ganymed, aproximou-se a uma distância de vinte quilômetros e bombardeou a nave terrana com uma seqüência ininterrupta de salvas de todos os canhões possíveis.
O uivo infernal dos geradores do campo energético voltou a ser ouvido. A Ganymed voltou a ser sacudida por fortes golpes, já que os neutralizadores antigravitacionais não conseguiam mais absorver os choques provocados pelos impactos. Alguns homens foram arrancados dos assentos e atirados contra as paredes.
Rhodan executou uma manobra após outra. Por vezes, a pressão sobre seu braço era tamanha que movia uma chave sem que o quisesse, imprimindo uma direção nova e totalmente inesperada à Ganymed.
Dessa forma a nave escapou da quarta parte dos disparos. Mas os três quartos restantes bastariam para vencer dentro de poucos minutos a resistência dos campos energéticos.
Finalmente Rhodan tomou uma decisão.
Todos os postos de combate prontos para disparar. Posto número um: cuidado com a determinação de distâncias.
Os homens respiraram aliviados.
Finalmente! Finalmente estava acontecendo alguma coisa.
Finalmente poderiam mostrar àquele colosso arcônida com quem ele se metera.
O que era aquilo? Uma nave-gigante?
Bem, para naves gigantes possuímos armas especiais. Este transmissor, por exemplo, pode arremessar um planeta inteiro...
O que foi isso? Ordem revogada? Não abriremos fogo?
Por que será?
Foi porque, no momento mais crítico, a voz desesperada de Thora surgira no intercomunicador. Soava fina face ao barulho que rugia na nave, mas era perfeitamente audível:
Não atirem, pelo amor de Deus! Revogue a ordem. Conseguimos estabelecer contato com Árcon.
Um último impacto imprimiu um movimento de rotação à Ganymed. As imagens das estrelas desfizeram-se em faixas alongadas.
Rhodan freou o movimento por meio de um ligeiro empuxo contrário, colocou em ordem a imagem na tela e examinou os arredores.
Onde estava o couraçado?
Tinha ido embora. Desaparecera. A massa-estrela do grupo brilhava tranqüilamente em todo esplendor. O colosso não estava mais por perto. A visão abria-se livremente para todos os lados da Ganymed.
Eu sabia! — resmungou Reginald Bell. — Foi apenas um sonho.
Os homens riram. O riso era um tanto histérico, mas era um riso de alívio.
Para a Ganymed, começou outro período de espera. Rhodan realizou uma ligeira correção de rumo. A série de manobras desviacionistas voltara a aproximar a nave do anel de fortificações.
Na tela, o sol de Árcon brilhava num esplendor fulgurante. Tornou-se necessário cobrir os aparelhos de filtros negros, para que os olhos pudessem suportar aquela visão.
A Ganymed encontrava-se a nove horas-luz da órbita do planeta Árcon. Já deixara para trás a órbita do planeta exterior do sistema.
Embora se encontrasse próxima ao destino, ninguém sabia responder a estas perguntas: o que acontecera em Árcon? Que tipo de influência transformava os arcônidas duma raça decadente e apática em seres sanguinolentos, que atiravam sem aviso contra um visitante que se aproximava?
Thora e Crest haviam realizado uma palestra direta com Árcon, gravando-a em fita. Levaram o pedaço de fita da sala de rádio para a sala de comando, para reproduzi-lo diante de Perry Rhodan.
Rhodan contemplou-os enquanto manipulavam o aparelho de som. Crest parecia tão confuso e apavorado como estivera meia hora antes, ao sair da sala de comando. E as mãos de Thora tremiam. Ligou o aparelho com um gesto furioso, que quase chegou a quebrar a chave.
Rhodan ficou admirado.
Um silêncio profundo reinava na sala de comando no momento em que começaram a soar as vozes gravadas na fita. Graças ao treinamento hipnótico, os oficiais dominavam a língua arcônida como se fosse sua própria.
Crest:

Aqui fala Crest, da família de Zoltral. Sou um membro da expedição Aetron, que partiu de Árcon há onze anos — tempo arcônida — juntamente com Thora, outra sobrevivente da expedição e membro da mesma família. Encontro-me a bordo de uma nave pertencente a uma potência estranha, que quer levar-nos de volta para Árcon. Solicitamos permissão para pousar.

É uma fala bastante cautelosa”, pensou Rhodan. “Se Crest acreditasse que em Árcon as coisas ainda eram como no tempo em que partira, não teria solicitado, mas exigido permissão para pousar.” Os Zoltral eram a família reinante.
A mensagem de Crest foi repetida várias vezes. Depois da segunda repetição a fita reproduziu o rugido da manobra que os desviou do couraçado arcônida. Ouviu-se o uivo dos geradores e, outra vez, a voz de comando de Rhodan vinda pelo intercomunicador que devia permanecer ligado em todas as dependências da nave enquanto durasse o estado de prontidão.
Crest repetiu a mensagem cinco vezes antes que viesse o primeiro sinal de resposta. Pela sua voz notava-se que quase chegara a perder as esperanças.
Uma voz estranha e indiferente falou:
Árcon para Crest da família Zoltral. O senhor não consta mais das listas de busca. Aguarde uma nave de escolta.

Nesse instante, Thora interveio na palestra. Pelo tom de sua voz, as reservas de energia de que dispunha eram muito maiores que as de Crest.

Uma nave de escolta! — chiou furiosa. — O senhor nos mandou uma nave de guerra. Se a mesma não for retirada imediatamente, nosso comandante não terá outra alternativa senão destruí-la.

Espantado, Rhodan levantou a cabeça. Seus olhos procuraram os de Thora, mas esta fitava o chão.
A voz indiferente voltou a soar no alto-falante:

É impossível. Ninguém pode destruir um couraçado arcônida.
Pois espere para ver, seu idiota. — Nesse instante ouviu-se ao fundo a voz de comando de Rhodan, dirigida aos postos de combate. — De qualquer maneira retiraremos o couraçado — prosseguiu a voz estranha. — Não faça nada enquanto a nave de escolta não chegar. Fim.

O resto Rhodan já sabia. Thora pedira-lhe que revogasse a ordem de abrir fogo. E o couraçado desapareceu.
Rhodan olhou os arcônidas.
Não era o que esperavam, não é verdade? — perguntou em arcônida.
Crest não se moveu, mas Thora levantou a cabeça, exaltada.
Sabe disso tão bem quanto nós — chiou indignada.
Rhodan confirmou com um gesto de cabeça.
Sei, sim. Mas talvez a falta de respeito pela sua ascendência seja um bom sinal, para toda a raça dos arcônidas. O simples fato de que alguém nos recusa o tratamento de Vossa Alteza ou Vossa Eminência não deve levar ninguém a conclusões sombrias.
Thora fez um gesto de desprezo.
O senhor diz isso para consolar-nos — disse. — Sabe perfeitamente que um mundo teria que desmoronar antes que um arcônida subalterno recusasse a um membro das famílias reinantes o título que lhe compete.
Rhodan olhou-a pensativo.
É possível que um mundo tenha desmoronado — disse baixinho.
Provavelmente essas palavras teriam provocado outra discussão, se o oficial de observação, que não sabia nada sobre a palestra com Árcon, não anunciasse com a voz rouca mais uma transição nas imediações da Ganymed.
Bell interrompeu o homem exaltado:

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