quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-048 - O Olho Vermelho do Sistema Beta - ClarK Darlton [parte 2]


Major McClears pautava seus atos sempre em deduções lógicas. Quando recebeu a mensagem alarmante de Lamanche, não pôde deixar de praguejar horrivelmente. Depois, começou a pensar o que teria acontecido se Deringhouse não tivesse voado para o quarto planeta. E a resposta a esta hipótese seria muito simples: teriam esperado com toda calma, no terceiro planeta, até que os saltadores aparecessem; atacariam e se retirariam, assim sucessivamente, como se quisessem defender mesmo a Terra. A mudança constante de cada ataque daria a impressão de que se tratava de uma grande frota de super cruzadores, que de maneira alguma poderiam ser destruídos. Com o passar do tempo, os saltadores já teriam chegado à idéia de colocar uma bomba de gravitação na pátria dos terranos e assim destruí-la parcialmente. Estaria tudo perfeito... mas no quarto planeta estavam os tópsidas.
Eis o ponto nevrálgico.
E aí então os pensamentos e especulações de McClears começaram fluir inconscientemente no mesmo sentido que os de seu amigo Deringhouse. Por este motivo, teria que negligenciar sua própria segurança. Mais tarde, quando Rhodan se recordava deste fato, tinha que conceder que um ser racional não podia agir de outra maneira, colocando sua segurança em segundo plano em relação à segurança da Terra.
E foi assim que uma ação errada de McClears iniciou o mais genial de todos os lances que Perry Rhodan jamais empreendeu. Fez apenas o que era necessário para dar um toque de veracidade à mentira de Deringhouse referente aos tópsidas.
Seus pensamentos se atropelaram, enquanto dava ao encarregado do rádio a ordem de chamar de volta o tenente Tifflor. O mais competente oficial da nova geração de Rhodan, estava exatamente em viagem com a Gazela para informar-se das condições na superfície. O disco voador achatado — trinta metros de diâmetro e dezoito de altura — era a nave ideal para tais empreendimentos. A ordem o alcançou exatamente quando acabava de aterrissar numa planície e já ia botando o pé em terra. Não foi com boa vontade que atendeu à ordem de voltar à espaçonave Terra. Sua disposição era a melhor do mundo quando se viu frente a frente com McClears na Central.
Um planeta maravilhoso, mas infelizmente sem vida animal. Algo incompreensível para mim, pois não posso imaginar condições melhores. Ah!... o senhor me mandou chamar de volta. Suponho que seja por motivos muito imperiosos.
Realmente muito imperiosos — respondeu McClears seco. Ainda não tinha chegado a um ponto final com seus encrencados pensamentos, mas num particular seu plano já estava traçado. — Deringhouse aterrissou no quarto planeta, que batizou de Aqua.
Nada de extraordinário nisso, não acha?
McClears não perdeu a calma.
Infelizmente, não foi o primeiro que se enamorou do “mundo d’água”, tenente Tifflor. Outros chegaram antes dele: os tópsidas.
Tópsidas? — Tifflor fez um esforço para se lembrar.
Naquele tempo, era ainda jovem demais e sabia dos tópsidas só por ouvir falar. Mas lembrou-se vagamente de um filme a que assistira sobre a invasão dos sáurios do sistema Vega.
O senhor não está se referindo àqueles seres parecidos com crocodilos que pretendiam destruir a Terra e por engano acabaram caindo em cima dos ferrônios?
Exatamente deles é que estou falando — disse McClears.
O que eles procuraram por aqui?
Não tenho a menor idéia, recebi uma mensagem muito curta de Deringhouse de que os tópsidas obrigaram a Centauro a fazer uma aterrissagem forçada e prenderam o comandante. Recebemos instruções de nos dirigirmos para Aqua e lá aguardar novas ordens.
Como quer Deringhouse dar ordens, se está preso? — queria saber Tifflor. — Ou se trata apenas de uma prisão simulada?
Parece que é mais ou menos isto. De qualquer maneira, veremos os detalhes em Aqua mesmo. Não me agrada ter os tópsidas na vizinhança. Mas já que estão aí, temos que fazer tudo para tirar proveito da situação. Tenho a impressão de que Deringhouse pensa assim também, pois do contrário não se deixaria prender tão facilmente.
O senhor tem algum plano?
Tenho. Se bem que um tanto vago, mas preste atenção...
E McClears começou a explicar seu plano.
Logo depois das primeiras frases, o jovem tenente compreendeu tudo. Um sorriso iluminava seu semblante, mas não interrompeu o oficial mais velho, que continuou explicando, enquanto a Terra já estava na direção certa. Depois da segunda transição, quando Aqua já despontava na tela, concluiu com as palavras:
Estou plenamente certo de que assim matamos dois coelhos com uma só cajadada. Se soubesse como colocar Deringhouse a par do meu plano... Estou convencido de que ele concordaria e pediríamos novas ordens a Rhodan. Sem consentimento dele, não quero fazer nenhuma ligação telegráfica com a Terra.
Os mutantes! — lembrou Tifflor.
Uma possibilidade — concedeu McClears. — Infelizmente não temos nenhum telepata a bordo da Terra. Não vejo outra alternativa a não ser agir separado de Deringhouse. Deixamos a Terra circulando a grande altitude de Aqua e descemos com a Gazela para a superfície.
E o risco que corremos com isto?
Está incluído na operação — disse o major. — Deringhouse vai fazer uma cara de bobo, quando souber que vencemos depois de uma luta curta, mas violenta. Espero apenas que não tenha cuidados inúteis por nossa causa.
E eu espero — acrescentou Tifflor céptico — que seus cuidados, se ele os tiver, não sejam realmente inúteis.
Eu também — concordou McClears.

* * *

Cercado dos outros mutantes, Gucky encontrava-se agachado no divã da sala dos oficiais. Estava a par dos acontecimentos pelas mensagens telepáticas que Marshall lhe enviava. Por sua vez, Lamanche, que havia assumido o comando da espaçonave, entrava em contato com eles, através do intercomunicador. O sistema por via telepática funcionava muito melhor do que via rádio.
Estão tratando Deringhouse e Marshall com muita atenção — disse Gucky, mostrando um lugar nas costas em que ele queria ser coçado. — Aparentemente dão muita importância ao fato de manterem com os saltadores boas relações. Até hoje, as duas raças quase não tiveram relações entre si. Como Marshall está deduzindo dos pensamentos do comandante, Deringhouse não tem intenção de incrementar muito estas relações. Alguém de vocês consegue compreender isto?
Eu, não — Ras Tschubai sacudiu a cabeça e olhou para Ataka, como que pedindo auxílio. — Quanto melhor forem as relações, tanto maiores serão nossas possibilidades de sairmos daqui sem encrenca.
E o que lucraríamos — disse Gucky com ironia — se sairmos daqui?
O que você está querendo dizer?
Penso simplesmente no seguinte: o que nos interessa se os tópsidas tenham uma boa impressão dos saltadores e nos deixem sair em paz? Tem isso alguma influência positiva sobre a missão de que Rhodan nos incumbiu? Não se esqueçam de que os saltadores pretendem destruir o terceiro planeta, pensando se tratar da nossa Terra. E aqui no quarto planeta, estão os tópsidas. E você ainda não está compreendendo?
Ras Tschubai realmente não estava compreendendo, ao invés dele, porém, Lamanche, sentado na central, sem afastar os olhos da tela panorâmica, ouvia a toda a conversa da sala dos mutantes.
Pigarreou perceptivelmente, concentrou-se por uns instantes em seus pensamentos, levantou-se, e abriu a porta da central de rádio.
Alguma notícia de McClears? — perguntou ele.
O telegrafista em serviço sacudiu a cabeça:
Há uma meia hora que não, senhor. A Terra saiu para uma órbita maior e continua calma. Nós aqui permanecemos na escuta.
Avisem-me assim que houver alguma novidade.
Perfeitamente, senhor. Lamanche agradeceu satisfeito, voltou para seu lugar e começou a refletir de modo mais profundo. Estranhamente, suas especulações se desenvolviam mais ou menos no mesmo sentido como as de Deringhouse e as de McClears. Isso era uma prova evidente de que cérebros que pensam logicamente sempre chegarão aos mesmos resultados.

* * *

A Gazela saiu dos hangares internos da nave-mãe Terra e se deixou cair verticalmente. Somente a alguns quilômetros antes da superfície de Aqua é que o tenente Tifflor deteve a queda e colocou o aparelho em vôo horizontal. A atmosfera zunia nas paredes externas do disco, achando pequena resistência.
McClears e Tifflor estavam sentados na apertada cabina, já com todas as telas ligadas. Acreditaram ter visto no litoral do enorme e único continente uma espécie de cúpula brilhante no meio da água, mas não deram maior importância. Cada vez mais devagar, a Gazela descia com toda cautela necessária na exploração de um planeta desconhecido. Os dois tripulantes aguardavam com curiosidade a primeira reação dos tópsidas.
E esta não se fez esperar.
Bem perto do pico de uma montanha, viu-se um clarão repentino. A tela mostrou um projétil comprido que, com velocidade cada vez maior, subia vertical. Parecia ter a intenção de cruzar a trajetória da Gazela, exatamente no ponto de encontro dos dois objetos em movimento. Sem dúvida, era um míssil. Tifflor ligou o envoltório de proteção e segundos após uma detonação acompanhada de um forte clarão, causando na Gazela apenas um pequeno abalo, mostrou que o ataque dos tópsidas tinha fracassado.
O mesmo aconteceu ao segundo projétil.
E agora? — perguntou Tifflor.
Muito simples, tenente. Vamos agir como se fôssemos saltadores — regulou a rota e deu a direção a Tifflor. — Dê uma volta por cima do cume da montanha e desça um pouco. O envoltório de proteção continua ligado. Vou jogar uns explosivos inofensivos para que eles saibam que temos alguma coisa não muito perigosa a bordo.
Tifflor concordou sorrindo. Os sáurios haveriam, por certo, de acorrer para o local e de tentar pegar vivo o relativamente inofensivo adversário. Assim estava arquitetado todo o plano de McClears.
Dez segundos depois, detonou uma bomba lá embaixo aos pés da montanha, em plena mata virgem. Os estilhaços abriram pequenas clareiras na vegetação, sem produzir maiores danos.
E exatamente dez segundos depois, enguiçou o comando da Gazela. Tifflor, assustado, tentou recuperar o controle do disco voador, mas não conseguiu. Devagar, mas continuamente, o disco foi descendo e com solavanco maior pousou numa clareira, a menos de dois quilômetros do litoral.
Como Tifflor pôde constatar, haviam descido no centro de um círculo, formado por cúpulas de metal, pequenas e cintilantes.
McClears levou as mãos ao alto.
Está dando tudo certo, os sáurios vão ficar contentes de terem feito tão boa caça. Nossos oito homens continuam a bordo, enquanto nós nos apresentamos ao inimigo.
Tomara que não nos matem logo de início.
Não se preocupe, isto seria contra sua mentalidade. Já lhe disse que os tópsidas são extremamente curiosos. Quererão logo saber com quem estão tratando e por que motivos viemos para cá. Devem receber estas informações de nós. E depois você vai ficar admirado de como eles vão agir.
Esperar! — exclamou Tifflor duvidoso, que naturalmente estava pensando o que Deringhouse haveria de dizer do seu modo arbitrário de agir.
E Rhodan, muito mais.
Aproximou-se da Gazela uma viatura. Saltaram dois tópsidas e ficaram por uns instantes olhando sua presa de guerra. De uma das cúpulas metálicas emergiu ameaçador um negro tubo de canhão, apontando para a Gazela.
Vamos embora — disse McClears. — Vamos Tifflor. O negócio é sério. E não se esqueça de que somos a vanguarda dos saltadores. O grosso da tropa ainda está a caminho.
Os dois tópsidas olharam para eles com muita calma, quando saíam da escotilha, sem medo, saltando para a terra. Atrás deles, a escada de saída se recolheu automaticamente. Segundos depois, estava ligado de novo o envoltório energético. Embora os tópsidas pudessem deter o disco e impedir sua saída, era-lhes impossível destruir o aparelho ou penetrar nele. Os oito homens da tripulação estavam completamente a salvo de qualquer ataque por parte dos tópsidas.
McClears não entregou sua arma voluntariamente, quando os dois tópsidas lhe pediram. Foi-lhe tirada à força e McClears não perdeu a oportunidade de dar um soco forte na cabeça do lagarto. O impacto lhe doeu muito mais do que ao próprio réptil. Mas isto não tinha importância alguma.
O tratamento foi correspondente. Enquanto Deringhouse ainda era tratado como um possível aliado, declararam McClears e Tifflor como inimigos.
Mas McClears não se deixou intimidar. Enquanto ele e seu jovem tenente eram obrigados a entrar na estranha viatura, sacolejando por uma péssima estrada de terra, em direção do próximo litoral, ia despejando ameaças contra os tópsidas, prometendo-lhes breve e terrível vingança. Seu comportamento era um tanto irreal, diante da situação pouco encorajadora. E assim foi que os dois tópsidas, aparentemente pouco inteligentes, não deram maior atenção às ameaças. McClears acabou também desistindo, esperando poder encontrar depois um exemplar mais inteligente desta desagradável raça.
Um desejo que se realizou logo, mas não lhe trouxe maiores vantagens.
A estrada terminou no litoral. Sob as copas de altas árvores e camuflado por uma cobertura espessa de folhagem, havia um edifício baixo de metal cintilante. O fato dava a entender que os tópsidas não possuíam outro material de construção.
Levaram os dois prisioneiros para um aposento, onde foram presos e entregues a seus destinos.
Em poucos instantes, McClears se convenceu de que sem auxílio de terceiros, não conseguiriam sair dali. Sentou-se num canto, no chão, e começou a meditar.
Tifflor, no entanto tentou se lembrar do microtransmissor embutido em seu corpo. O microdispositivo, cujo segredo nenhum cientista humano conhecia, foi-lhe implantado por cirurgia na cavidade renal direita.
Qualquer telepata, cuja faixa de onda estivesse em sintonia com as supervibrações artificiais do transmissor do corpo de Tifflor, poderia localizar, até uma distância de dois anos-luz, o seu paradeiro.
Além disso, havia ainda a possibilidade de se concentrar nos pensamentos de Tifflor, se a distância não fosse grande demais.
O tenente podia ficar tranqüilo, pois tudo quanto pensasse com concentração, seria recebido pelo telepata John Marshall. Dispunha ainda adicionalmente de um diminuto transmissor na laringe.
Tifflor enviava, mas não podia receber nada...

* * *

Al-Khor estava um pouco nervoso quando penetrou na cela dos dois prisioneiros. Seus olhos redondos faiscavam ódio. Apenas um resto de ponderação o impediu de mandar fuzilar imediatamente os supostos saltadores.
Repita o que o senhor, há pouco estava dizendo aos meus dois subalternos — disse ele, ríspido, colocando-se na porta de tal maneira, que os dois sentinelas que o acompanhavam tinham alvo livre pela frente. — Prometo-lhes que não vou castigá-los, se disserem a verdade. Mas, tenho que saber o que aconteceu.
O major sacudiu os ombros:
Não dê demasiada importância ao que seus subalternos lhe disseram. Podem ter me compreendido mal. O que diz a respeito?
O senhor sabe perfeitamente o que estou pensando, saltador. Sabe, além disso, que não são os dois únicos prisioneiros que fizemos. Dominamos um cruzador pesado. Um tal de major Deringhouse está em nosso poder.
Numa demonstração de horror, muito bem representada, McClears empalideceu todo, como Tifflor mesmo constatou, levantou-se e deu dois passos na direção de Al-Khor.
As armas dos dois vigias se ergueram ameaçadoras. Al-Khor não se intimidou, não se mexeu um centímetro de onde estava.
Se o seu depoimento for verdade, suas vidas estão salvas.
McClears deu um rápido olhar para Tifflor. O tenente respondeu com um piscar de olho. Podia estar tranqüilo de que Marshall havia captado todos os impulsos.
Pode começar a perguntar — disse a Al-Khor.
Você os ameaçou dizendo que viriam homens para vingá-los? Falou também aos nossos subalternos qualquer coisa de uma invasão iminente por parte de sua gente?
McClears, teatralmente, mordeu a ponta da língua. Uma gota de sangue banhou os lábios inferiores.
Na minha cólera... desgraçado, não vale a pena mentir. Também não sei por que motivo lhe silenciar uma coisa, que você em poucos minutos saberá plenamente. Os saltadores supõem existir neste sistema uma base de seu eterno inimigo. Você não o conhece, portanto seu nome não tem nenhuma importância no conjunto dos acontecimentos. De qualquer modo, os superpesados estão alarmados. Deve saber que eles são a tropa guerreira dos saltadores. Todo o poderio dos superpesados vai atacar o terceiro e o quarto planetas deste sistema e destruí-los. Posso lhe dar apenas um bom conselho: abandone, o mais depressa possível, este planeta.
Que nada! Isto é um truque — respondeu Al-Khor.
McClears começou a dar gargalhadas. Riu tanto que lágrimas lhe corriam dos olhos. Depois, cheio de satisfação bateu nos ombros cobertos de escama do tópsida:
Um truque! Meu caro amigo, eu juro pelos meus antepassados, de que estou dizendo a verdade. Os saltadores estão ultimando seus preparativos para despovoar este sistema, completamente. Nada pode detê-los deste plano, isso eu lhe posso garantir.
Nada — repetiu Al-Khor encolerizado. Nos seus olhos havia um brilho misterioso. — Acha que nada consegue deter os saltadores? Eu acho que há uma coisa capaz disso. Quando souberem que nós consideramos o quarto planeta como nossa propriedade, ninguém terá coragem de...
Por que não?
Porque... — Al-Khor hesitou um pouco. — Porque os comerciantes das Galáxias não têm nenhum motivo de nos fazer hostilidades. Eles não são bem vistos pelo Império. Nós, também não. Por que não podemos estar unidos?
Por um motivo muito simples, meu caro amigo — disse-lhe McClears com paciência. — Porque nós somos obrigados a supor que você é um aliado do nosso ferrenho inimigo, que tem uma base neste planeta e que praticamente o povoa.
Quem estava rindo à bandeira despregada agora, era o próprio Al-Khor.
Os seres da água? Seus inimigos de morte? É ridículo. Não é apenas absurdo, mas é também...
Seres da água? — informou-se cautelosamente McClears. — Não estou compreendendo o que está falando.
Neste mundo existe uma raça um tanto inteligente, que muito raramente aparece em terra e não precisa mesmo da terra. Por este motivo, pudemos estabelecer nossas instalações, sem prejudicá-los. Estes seres existem somente na água e devem possuir suas cidades lá no fundo do oceano. Fora disso não há nada neste mundo que possa ser uma ameaça. Se não forem estes seres aquáticos, vocês saltadores foram vítimas de um engano.
Nossas informações estão exatas — continuou McClears. — Estou bem informado sobre os planos dos nossos patriarcas. Nestes planos consta que os tópsidas têm uma base pequena no quarto planeta, cuja existência não precisa ser tomada em consideração. Você está vendo que as negociações não vão servir para nada. Nossos chefes consideram vocês aliados do nosso inimigo.
Puxa vida! — exclamou o tópsida. — Diga-me finalmente quem é este inimigo figadal.
Não estou autorizado a fazer isto — respondeu McClears.
Então vamos obrigá-los a fazer.
Mas andem depressa — disse o major com toda calma. — Nossas unidades de assalto estão chegando a qualquer momento. E então poderia ser tarde demais para vocês.
Al-Khor deu um grito ininteligível, fez um sinal para os guardas e deixou a cela. A porta se fechou com um estrondo.
McClears olhou para Tifflor, que repetiu baixinho toda a conversa e assim a transmitiu para Marshall e para Gucky.
Então? — perguntou McClears todo triunfante.
Vamos ver — respondeu Tifflor, meio céptico — se eles vão agir como criaturas inteligentes e corajosas.
Claro que vão agir assim. Pode ficar tranqüilo.
Infelizmente, não tiveram a oportunidade de averiguar isto, pois dez minutos mais tarde alguém os apanhou. Levaram-nos numa pequena viatura diretamente para o litoral. Aí, entraram numa pequena embarcação que os transportou para uma ilha de aço. Era a cúpula que há pouco haviam visto do ar. Mesmo para Deringhouse, teria parecido igual. Por uma escada lateral, subiram para o andar superior, cercado por um terraço. Depois um elevador os levou para baixo. Quem os guiava era um tópsida, muito bem armado.
Nem McClears nem Tifflor pensavam em fugir. Um único pensamento os dominava: será que seu truque iria falhar?
O salão tinha paredes de vidro que, de todos os lados, davam para o mar. Tinha-se aqui uma visão magnífica sobre um mundo a dez ou doze metros sob o nível da água. Comportas de vários tamanhos davam a entender que se podia atingir o mar aberto sem que a água penetrasse no salão. Ou vice-versa, podia-se do mar penetrar na cúpula. E isto parecia ser a única finalidade da instalação.
O tópsida se deteve diante de uma porta. Abriu-a e se afastou, dizendo:
Aqui será a nova prisão. Ficarão aqui até que tudo tenha terminado.
Terminado o quê? — perguntou McClears, sem receber resposta.
Penetrou no pequeno cubículo acompanhado de Tifflor que logo começou a falar no seu transmissor da laringe.
A porta fechou e eles estavam a sós. Mas onde?
Apenas a porta parecia ser de material compacto. Fora disso, pareciam mergulhados no nada, no meio do mar, cujo fundo tinha um brilho opaco.
Mas logo perceberam a verdade: estavam numa cela de vidro, sob a cúpula ou ao lado dela. O cubículo transparente flutuava. Era água por todos os lados.
McClears sentou-se no chão, bem no canto oposto à porta, tendo a impressão de estar sentado na água. Olhava em torno com muita curiosidade.
Isto é muito interessante — observou com sarcasmo. — Devemos estudar os segredos do mar, antes que nos afoguem.
Tifflor se espantou um pouco com a frase.
Você acha que vão nos matar?
Que nada! É brincadeira minha. Mas você ouviu dizer que aqui existem peixes inteligentes ou coisa semelhante. Acho que deveríamos procurá-los, mas não me pergunte o por quê. Pode ser também o contrário: os peixes devem nos ver, para saberem como parecem os saltadores. Situação maluca, não é?
Só queria saber se Marshall teve ocasião de transmitir minhas informações a Deringhouse. Infelizmente Deringhouse não é telepata. Mas pelo menos Gucky deve saber onde estamos.
A água era de um azul-claro com reflexos avermelhados, em virtude da luz do sol de Beta. Neste local, o mar não teria talvez vinte metros de profundidade. Agora que a vista dos dois prisioneiros já se adaptara à penumbra do estranho ambiente, o olhar deles penetrava facilmente até o fundo do mar, situado a uns oito metros abaixo do piso de vidro da singularíssima cela.
Plantas marinhas exóticas dançavam ao ritmo de uma correnteza invisível, peixes coloridos cintilavam em grandes cardumes numa determinada direção, como se estivessem sendo perseguidos por um inimigo oculto. Entre estes, flutuavam com calma e dignidade seres transparentes, que lembravam nossas medusas. Pouco mais para a frente, o fundo do mar caía bem íngreme, a água se tornava azul-escuro e infinita.
E subitamente, Tifflor deu um grito semi-abafado.
De olhos arregalados, apontava ele para o azul-escuro do mar aberto. McClears seguiu a direção indicada por seu braço estendido e pela primeira vez olhos humanos puderam ver os legítimos senhores do planeta das águas.
4



As coisas iam se tornando mais críticas. Deringhouse quase não reconheceu mais Al-Khor, quando o tópsida chamou-os.
Por que razão não me contaram nada do ataque iminente de sua gente? — perguntou o tópsida com uma tremenda calma, embora seus olhos resplandeciam ameaçadores. — Seria obrigação de vocês.
Obrigação? — questionou Deringhouse admirado. — Seria também sua obrigação nos manter presos contra nossa vontade?
Ninguém os abrigou na condição de prisioneiros.
Mas, somos realmente prisioneiros. Você quer também duvidar de que nossa espaçonave...
Aliás, sua espaçonave... — disse Al-Khor bem espaçadamente, olhando para Deringhouse com certa ironia. — De quem vocês diziam, há pouco, tê-la tirado? Dos arcônidas?
Marshall captou depressa os pensamentos do tópsida e sabia por que fizera esta pergunta. Esperava que Deringhouse percebesse o veneno da pergunta, senão teria que avisá-lo.
Sim, foi dos arcônidas — disse o major cauteloso. — Mas eu não sei naturalmente se os arcônidas a tomaram de outros. Por que esta pergunta?
Al-Khor concordou, aparentemente mais calmo.
É provável, pois o nome cravado com letras pretas na fuselagem não está escrito em caracteres arcônidas. Mas esqueçamos isto. O comandante de uma das naves foi colocado em local seguro. Estou preocupado sobre o que devo fazer com eles.
Deixe-nos ir embora — propôs Deringhouse. O que você ganha nos retendo aqui?
Reféns — foi a resposta seca de Al-Khor. — Vocês devem estar presentes, com todo seu pessoal, quando os saltadores chegarem para destruir este mundo. E quem sabe, sob minhas vistas, vocês entram em contato com eles antes e os põem a par de tudo.
Isto não vai adiantar muito — disse Deringhouse com sinceridade. — Não me vão dar ouvidos.
Então vocês morrerão conosco.
Bonito — disse o major com um riso forçado. — Assim, nos tornaríamos de qualquer forma aliados, não é verdade?
Al-Khor não respondeu. Sem dizer uma palavra, deixou a cela que servia de domicílio provisório para eles. Marshall franziu a testa.
Não me está agradando — disse ele — e aos meus mutantes, muito menos. Gucky está ansioso para entrar em ação, isto é, para atacar. É com dificuldade que o estou segurando.
Sua hora está quase chegando, — consolou Deringhouse, enquanto olhava para a parede lisa do cubículo.
Que está acontecendo com McClears?
Está detido com Tifflor, numa cela de vidro, abaixo do nível do mar.
Deringhouse começou a rir.
Pelo menos, tem um pouco de distração — julgava ele. — Portanto, vamos lá, dê nossa posição ao rato-castor. Ele deve nos localizar e dar um pulo até aqui. Vamos pregar um grande susto nos crocodilos, eles estão precisando.
Dois minutos depois, Gucky se materializou contente e sorridente, tornando o cubículo ainda mais estreito. Trouxe duas pistolas energéticas de mão e algumas granadas, não maiores do que nozes comuns, porém de ação terrivelmente devastadora. Ele mesmo trouxe na cintura uma pistola de impulsos, cujo peso lhe dava trabalho.
Aqui estamos nós — chilreou ele feliz da vida. — Vamos mostrar quem somos.
Espere um pouco — disse Deringhouse. Virou-se para Marshall, que no momento cambaleava um pouco, captando coisa muito importante; simultaneamente, também a fisionomia de Gucky se transformou numa expressão de piedade. Parecia ter perdido a disposição para qualquer iniciativa.
Deringhouse se manteve na expectativa.
Sabia que os dois telepatas estavam recebendo uma mensagem de Tifflor.

* * *

McClears soltou um grito abafado. De encontro às paredes de vidro da cela, comprimiam-se dezenas de torpedos submarinos, enfileirados, como se quisessem mandar pelos ares toda a instalação de cúpulas. Os corpos esguios tinham talvez metro e meio de comprimento e refulgiam como prata sob a luz avermelhada do sol. Jatos d’água de grande pressão irrompiam da parte traseira dos terríveis projéteis desfazendo-se logo a seguir.
Só depois de olhar com mais atenção, é que McClears percebeu seu engano: não eram torpedos artificiais, mas seres vivos, semelhantes a focas, com boca enorme, sempre aberta, olhos pequenos, orelhas ovais. A velocidade do pequeno esquadrão, agora, já era menor. O forte jato de água que lançavam para trás já tinha cessado. Que animais seriam estes? Estavam parados...
Com muita curiosidade, nadavam em torno da cela de vidro, olhando sempre para os ocupantes do cubículo, com olhos inteligentes. Um deles chegou bem perto e comprimiu o focinho contra a parede de vidro. MacClears fitou-o cara a cara, sentindo então uma forte vibração.
Tifflor descrevia a cena para Marshall e Gucky.
São assim os peixes-homens — murmurou McClears. — Vieram para cá como que atirados por jato. Não se movem como os demais peixes por meio das nadadeiras, mas têm um sistema próprio: engolem a água, comprimem-na algum tempo em seu interior, e depois a expelem. Santo Deus, verdadeiros foguetes submarinos vivos — colocou a mão direita sobre a parede de vidro. — Produzem ondas vibratórias — disse pensativo. — Quem sabe é uma maneira de se comunicarem? Ah! Se pudéssemos entendê-los...
Marshall captou a mensagem e informou Deringhouse a respeito.
Ataka! — disse Gucky.
Acho que você tem razão, Gucky — disse Deringhouse. — O japonês decifra ondas sonoras, que nenhum ouvido humano consegue captar. Mesmo ultra-som. Se estes seres não são telepatas, e parece que realmente não o são, devem talvez se comunicar através de vibrações ou de sons no campo de ação do ultra-som. Ataka pode constatar isto. Além disso, sua capacidade de percepção está combinada com uma telepatia inconsciente, de maneira que poderá entender sons completamente estranhos para nós. Gucky, vá buscar Ataka.
O rato-castor se levantou, dizendo:
Cubículo apertado, major! Vocês não vão ficar muito tempo aqui. Sairemos e vamos libertar McClears. O tempo de representar já passou. Não precisamos mais nos camuflar perante os sáurios. Agradeçamos aos deuses do espaço.
Como assim? Que pretende fazer, Gucky? — perguntou Deringhouse, que não compreendeu as palavras de Gucky.
Já fiz voar pelos ares robôs e bios — disse o rato-castor, recordando suas bravuras. — Mas fazer voar um crocodilo será uma sensação formidável.
Um segundo a mais e ele já havia desaparecido.
Com voz mais baixa, disse Deringhouse:
Os tópsidas ficarão surpresos quando souberem que possuímos armas, mas não podemos subestimá-los. Morrem, se for preciso, sem piscar um olho. Só há um ponto em que são muito sensíveis: são muito supersticiosos.
Então, Gucky é o “homem” certo, major.
Exatamente — concordou Deringhouse. — E o malandro sabe disso. De acordo com o regulamento, devia estar preso.
Não há prisão para detê-lo — comentava Marshall uma coisa que todos sabiam. — Em muitos sentidos, Gucky é um ser maravilhoso.
Houve uma vibração no ar e surgiram Gucky e Ataka. O japonês se apertou como pôde. Não dava para ninguém se mexer. A cela era pequena demais. A ventilação também estava horrível.
Isso é uma bodega — disse Gucky, com ironia.
Não por muito tempo — acentuou Deringhouse. — Gucky, você consegue abrir o cadeado da porta?
O rato-castor pulou para perto da porta e olhou um pouco o cadeado. A tarefa já era fácil caso se usasse os dedos... Mas Gucky dispunha ainda de outros dedos invisíveis movidos por forças telecinéticas. Estas forças invisíveis do seu pequeno mas incompreensivelmente poderoso cérebro penetraram no cadeado, examinando o mecanismo. Depois, com um pequeno ruído, o cadeado abriu. Deringhouse avançou e empurrou a porta.
Ótimo, Gucky — disse ele sorrindo para o rato-castor, e apanhando sua pistola energética. — E agora vamos deixar os tópsidas um pouco nervosos. Eles já devem ter muito o que fazer para se defenderem dos ataques dos saltadores.
Mas é preciso esperar um momento até que estejamos seguros e em condições de agir — disse Marshall, prevenindo contra um otimismo exagerado. — Gucky, você está sentindo algo? Há tópsidas aqui perto de nós?
Sim, uma grande multidão, lá atrás da porta.
Estavam num corredor comprido, um pouco sinuoso, deixando supor que passava em torno de alguma cúpula. Havia duas portas: uma próxima da outra. Do outro lado da parede, eram janelas. Atrás havia uma paisagem maravilhosa de uma natureza virgem, com montes e florestas. No horizonte, bem afastado, via-se a grande extensão do mar. O sol poente estava exatamente no ponto divisório entre a água e o céu.
Deringhouse se deteve bem rente à porta indicada por Gucky e Marshall.
É aqui? — perguntou por cautela.
Ao sinal de confirmação dos dois telepatas, Deringhouse ergueu a arma, postou-se de lado, ativou o botão de combustão. O delgado fio de energia atingiu os gonzos da porta, soldando todos com o metal derretido. A porta não se abriria mais.
Vão cair direitinho na armadilha — disse Ataka contente.
Eu preferia fazê-los voar — disse Gucky. — Deve ser fantástico quando os crocodilos...
Esperem — disse Deringhouse, caminhando à frente.
Os outros o seguiam. Gucky era o último da fila, pois quando não se teleportava, suas pernas curtas não lhe permitiam acompanhar os passos largos dos demais. Para tentar abafar seu aborrecimento com isto, começou a assobiar bem alto, como se não houvesse mais tópsidas na redondeza.
O corredor terminava numa porta que estava apenas encostada. Depois dela, não havia mais salas, era a liberdade. Mas que liberdade era esta?
De qualquer maneira, ainda se encontravam em território dos sáurios. Deringhouse ajeitou sua pistola e empurrou a porta. Como o empurrão foi bem forte, quase que a guarita do tópsida virou. O vigia caiu. Levantou-se, virou-se para trás, com um grunhido de desaprovação. Mas a desaprovação se transformou em medo, quando notou a presença de Deringhouse, Marshall e Ataka, passando para perplexidade quando deu com a figura esquisita de Gucky. Gucky não gostou da perplexidade, o que Marshall logo notou, captando também a péssima impressão que o pobre guarda teve de Gucky.
O quê? — chilreou o rato-castor. — Eu... um bicho horroroso? Você vai ter que voar.
E o tópsida voou. Forças telecinéticas o ergueram do chão e o fizeram subir verticalmente. O coitado gritava desesperado. A Ira de Gucky não durou muito. O pobre vigia, tendo perdido a arma durante suas acrobacias forçadas, fugiu em disparada. Gucky ainda teve tempo de colocá-lo no telhado do grande edifício de cúpulas. Lá de cima, sentado bem na beira, o sáurio não desgarrava os olhos dos três homens. Entre estes estava um animal peludo, semelhante aos ratos gigantes dos canais de Topsid.
Bicho horroroso... que desaforo! — ia ruminando Gucky, andando por ali, como se não existisse a palavra perigo.
Deringhouse reconheceu num galpão ao lado algumas das viaturas, cujo funcionamento tinha observado com cuidado. Não seria, pois, difícil utilizar um desses carros para empreender a fuga. Gucky poderia também teleportar um por um para a Centauro, mas chamaria muito a atenção dos tópsidas e era necessário que tudo parecesse normal.
Ali ao lado estão as viaturas — disse ele para Gucky. — Vamos pegar uma delas, mas antes temos que causar alguma confusão aqui.
Isto não foi muito difícil, pois os chefes dos tópsidas estavam presos e no momento não tinham outra preocupação a não ser dinamitar a porta que Deringhouse havia soldado. Marshall atirou duas bombas no edifício e correu atrás de Deringhouse e Ataka que se dirigiam para as viaturas.
À forte detonação, seguiram altas labaredas que em poucos instantes derreteram toda a construção de cúpulas.
De uma entrada lateral surgiram alguns tópsidas que não estavam feridos e começaram a atirar doidamente com as pistolas de raios energéticos. Foi a oportunidade que Gucky aguardava para entrar em ação. Enquanto os três homens tentavam pôr em movimento uma viatura maior, Gucky começou sua “brincadeira”, como ele chamava esta atividade, quando podia usar à vontade seus dons telecinéticos.
Os sáurios não sabiam mais o que se passava com eles. O chão lhes sumiu de repente sob os pés e começaram a flutuar no espaço. Ninguém iria supor que o causador daquele milagre era aquele animal peludo, embora não parecesse estranho a Al-Khor. O comandante da base dos tópsidas levitava sem direção sobre as copas das árvores, quando reconheceu no rato-castor a misteriosa aparição que vira por um instante a seu lado na viatura.
A situação era de deixar perplexos todos os tópsidas. Mas Al-Khor não conhecia o medo. O misterioso prodígio era de carne e osso e, portanto devia ser vulnerável. Ainda tinha a pistola de raios energéticos. Apesar da situação em que se encontrava, apontou-a para aquela figura minúscula de animal, lá embaixo, entre as ruínas do edifício. Apertou o gatilho, mas o resultado foi diferente do que Al-Khor imaginava.
Como levitasse, portanto sem peso algum, o choque de recuo da arma o jogou com grande velocidade para o espaço adentro. Gucky, atento à iniciativa malograda do comandante tópsida, ainda deu mais Impulso ao contrachoque, obrigou Al-Khor a fazer piruetas no ar e acabou colocando o corajoso guerreiro na copa de uma árvore bem alta, cujos galhos estavam a mais de vinte metros do solo. Ele que desse um jeito de descer dali.
Os outros sáurios ainda estavam dançando no ar, formando um emaranhado confuso. Ninguém tinha coragem de atirar, com medo de atingir o colega.
Nesse ínterim a viatura de Deringhouse saiu do galpão. Uma segunda granada destruiu os carros restantes, provocando um grande incêndio. Os tópsidas teriam agora de andar a pé, o que não lhes era agradável.
Faça-os descer agora, Gucky — disse Marshall acenando para ele, que sentado se divertia fazendo os sáurios girarem em volta dos escombros da grande cúpula.
Já receberam o que mereciam, mas eu ainda não — disse Gucky, deixando os tópsidas caírem uns dez metros, para depois detê-los.
Estou notando isso — disse Marshall um tanto áspero, dando algumas instruções a Deringhouse.
A viatura veio para a direção de Gucky.
Tenho que dar uma mãozinha — continuou Marshall, virando-se um pouco para fora da porta da viatura. Com mão firme apanhou Gucky pelo pescoço, o levantou e o trouxe para dentro do carro. — E agora, faça o que lhe mandei.
Por uns instantes Gucky ficou indeciso, depois, olhando para cima, viu os tópsidas horrorizados, parados e desarmados, aguardando o que aquela “força divina” ainda ia fazer com eles. Deu um grande suspiro de resignação e acabou obedecendo.
Deu novamente uma ordem a seus pensamentos e os tópsidas se colocaram em formação de esquadrilha e voaram a toda velocidade para desaparecerem atrás das copas das árvores. Gucky ainda ficou olhando por uns instantes e, suspirando, disse a Marshall:
Está bom?
Que aconteceu com eles? Você não pode deixá-los cair de repente.
Não caíram não, mestre. Estão sentados em qualquer lugar nas árvores, fazendo ninhos para seus filhotes, caso não queiram descer mais, o que também é possível.
O mau humor do rato-castor era evidente:
Que devo fazer agora?
Marshall respirou mais aliviado. O pior já tinha passado.
Vamos libertar McClears que está em piores condições que nós. Está sozinho com Tifflor.
Gucky se concentrou para ouvir alguma coisa.
Distância exata 37,6 quilômetros, sudoeste. Devo dar um pulinho até lá?
Ainda não e quando chegar a hora você deve levar Ataka. Pois só ele é capaz de entender a linguagem dos aquas.
Aquas?
Sim, senhor, assim chamamos esses estranhos seres. A idéia é de Deringhouse. Mas não quero que, nos combates que possam se realizar, se sacrifiquem vidas inocentes. Ninguém quer isto.
Que aconteceu com a Centauro? Deringhouse dirigia a viatura por um caminho estreito que levava ao litoral. Operava com seu minitransmissor de pulso, que os tópsidas não lhe haviam tirado, porque não tiveram tempo.
Capitão Lamanche deve fazer o que pode — dizia o Major. — Estamos seguindo para o litoral onde empreenderemos a libertação de McClears, enquanto a Centauro neutraliza os raios de atração e se encaminha também para o litoral. Nós nos encontramos logo. Quero evitar, de qualquer maneira, que os tópsidas tenham a impressão de que somos seres sobrenaturais. Sabemos por demais que os saltadores lutam com armas e meios convencionais. Portanto, não devemos fazer nada que possa levantar suspeita. Isto vale principalmente para você, Gucky.
Sou, por acaso, um ser sobrenatural? — perguntou Gucky.
Deringhouse não respondeu. Colocou-se em contato com Lamanche.
Ouça, capitão. Ligue o envoltório de proteção e destrua, depois de breve aviso, as cúpulas metálicas no centro das quais a Centauro aterrissou. Ali estão, na minha opinião, os geradores para os raios de atração. E depois vá embora. Ponha-se em contato conosco, quando já estivermos no litoral. Aí, então, lhe darei novas instruções.
Está tudo claro — foi a resposta tranqüila de Lamanche, objetivo como sempre. — Eu sinto muito ter ficado aqui, sem fazer nada, como uma galinha choca em cima dos ovos. Os mutantes estão ansiosos para enfrentarem os sáurios.
Os mutantes têm de ficar, infelizmente, em segundo plano, pois os tópsidas sabem que Perry Rhodan possui um corpo de mutantes. No entanto, é necessário que eles, os tópsidas, fiquem com impressão de que estão lidando com os saltadores. Está claro?
Já falei, senhor — foi a resposta seca de Lamanche. — Encontramo-nos no litoral.
Deringhouse ficou uns instantes olhando para o receptor emudecido, depois sorriu, colocando a viatura em movimento.
Não se podia chamar a estrada de boa, mas pelo menos indicava a direção. O carro com cobertura transparente tinha bons amortecedores, mas a conformação dos bancos, feitos não para o corpo humano, obrigava o motorista a uma posição incômoda. O terreno ia em leve declive. Após meia hora, avistaram o litoral. À esquerda ou à direita, não havia uma clareira na floresta virgem, em cuja vegetação homem algum jamais penetrara. A estrada entrava um pouco para a esquerda e se dirigia a um ponto que não podia estar muito afastado do lugar em que, através de dois quilômetros de água, se alcançava a tal ilha metálica onde McClears e Tifflor foram presos.
Mas a estrada atingiu a praia um pouco antes. Aqui, com a areia, a vegetação da mata virgem não achava mais alimentação, de maneira que sobrou uma faixa livre. Ao lado desta faixa, a estrada levava exatamente para o leste.
Deringhouse dirigia o carro sob a ramagem protetora de uma árvore gigantesca. Desligou o motor. Cessou o ruído e, por uns instantes, só se ouvia o marulhar das ondas e o farfalhar da vegetação com o vento suave. A visão da natureza virgem transmitia paz e calma. O mar se espalhava numa extensão imensa. Ter-se-ia que navegar quase todo o planeta para se encontrar terra novamente.
Gostaria de morar aqui — disse Ataka, quase sonhando. — Como numa ilha desabitada dos Mares do Sul.
As aparências enganam — disse Deringhouse apontando para o céu.
Todos olharam para aquele ponto. Um objeto voador, pequeno, passou por cima da construção de vidro e desapareceu.
Estão fazendo vôos de patrulha, mas talvez não saibam o que aconteceu. Se a sorte foi nossa amiga, a instalação de rádio da estação deve estar destruída — explicou Deringhouse.
Marshall virou-se para o japonês:
Você acha que daqui desta distância pode entrar em contato com os aquas? Em caso negativo, você e Gucky têm que se teleportar para a prisão de McClears, para não levantar a menor suspeita. Os tópsidas têm que acreditar que somos saltadores, sem dons espirituais de nenhum tipo.
Se a descrição de Tifflor for exata, eles se comunicam por ondas sonoras. Vou tentar entrar em contato, naturalmente na água. Portanto vou tomar um banho agora.
Deixou o uniforme no chão, livrou-se da calça e, como um turista, entrou pelo mar adentro. Gucky olhava para ele, visivelmente com inveja:
Arranjou um bom pretexto para um banho de mar. Nadar um pouco não me prejudicaria.
Quem sabe você terá que nadar mais depressa do que pensa — disse-lhe Deringhouse. — E o pior, por muito mais tempo do que deseja.
Com o ruído das ondas, ele não ouve nada — disse Gucky, para mudar de assunto, quando Ataka transpôs as primeiras ondas mais fortes para penetrar em água mais funda. Para isso, teve que andar uns cinqüenta metros até que a água lhe chegasse à altura do peito. A onda o suspendia e ele abanava a mão para terra, todo feliz.
Está mesmo convencido de que está de férias! — exclamou Gucky meio invejoso.
De repente, Ataka desapareceu. Mergulhou quase um minuto. Depois, seu rosto sorridente apareceu fora d’água. Gesticulou excitado com as duas mãos.
Ouviu os aquas — disse Marshall, transmitindo a mensagem telepática de Ataka. — Mas não está entendendo nada, quem sabe está recebendo um grande número de impulsos simultâneos que geram uma confusão. De qualquer maneira já sabemos que eles se comunicam.
Quem sabe, os aquas são também telepatas? — indagou Gucky.
Pouco provável — respondeu Marshall. — Mas dentro em breve, saberemos isto.
Ataka continuava acenando. Quando o japonês voltou de outro mergulho, Marshall disse entusiasmado:
Está sentindo impulsos mais fortes. Já o perceberam lá embaixo.
Todos ficaram olhando. A uns duzentos metros da praia, listras de espuma sulcavam a superfície da água. Quatro ou cinco listras rodeavam Ataka, que parecia estar boiando. As ondas às vezes lhe chegavam até o pescoço, outras somente até a cintura. As cinco listras prateadas o cercavam e a espuma havia desaparecido. Diante de Ataka surgiu então um corpo comprido, semelhante ao de uma foca, pôs-se em posição vertical e começou a gesticular com um braço em forma de nadadeira. Podia-se ver nitidamente a boca oval.
Aquas! — disse Marshall. — Exatamente como Tifflor descreveu. Depende agora se Ataka pode compreendê-los.
Hesitou um pouco, depois confirmou:
Foi feito o contato, mas... Gucky, dê um pulo na Centauro e traga-me André Noir.
Noir? — perguntou Deringhouse. — Que vamos fazer com um hipno? Será que pretendemos hipnotizar os aquas?
Não, mas com o auxílio dele, poderemos nos fazer compreender. Os homens-peixes não são telepatas e ninguém entende a linguagem deles. Noir poderá sugerir a esses seres nossas intenções.
Está certo — concordou Deringhouse. — Mas, cuidado, Gucky. Não se esqueça de que Lamanche já... — e parou por aí.
O rato-castor já tinha sumido. Suas pecadas na areia de repente sumiram. Deringhouse estava furioso.
Ele nem espera que eu termine minha ordem.
Realmente não é necessário esperar, se ele pode ler os pensamentos — disse Marshall. — Além disso, não temos tempo a perder.
Ataka, nesse ínterim, conversava com os cinco homens-peixes, mas aparentemente sem resultado. Apontava sempre para a praia e devagar foi se encaminhando para lá. Hesitando um pouco, eles o seguiam.
Deringhouse e Marshall olhavam estupefatos. Quando o japonês atingiu a praia e se virou para trás, os cinco aquas também pararam. A água lhes chegava até a metade do corpo. Este brilhava com as escamas prateadas recebendo os raios do sol da última parte da tarde. Deringhouse gostaria de saber se possuíam pés.
Ataka acenou para seus novos amigos. Caminharam mais para frente, desajeitados e vagarosos, até a praia.
Os aquas não possuíam pernas, mas uma possante cauda para nadar, parar e mudar de direção.
Marshall ficou na escuta. De repente murmurou:
Seus impulsos mentais são bem fortes. Consigo receber seus fluxos. Baixo, mas perceptível. Ah! Se Noir já estivesse aqui. Gostaria de saber por que Gucky demora tanto.
Ataka na praia, apontava mais para cima, onde estavam Deringhouse e Marshall. Os aquas volveram os olhos brilhantes na direção dos dois homens, que lhes deviam parecer completamente estranhos.
Os aquas podem agüentar duas ou três horas fora da água — disse Marshall. — São pacíficos, mas não sabem como chegamos ao seu mundo. Acham que somos seus aliados e não vão muito com os tópsidas. Já é tempo de nós lhes dizermos a verdade.
Neste exato momento, Gucky se materializou, trazendo André Noir.
Conseguimos sair, antes que Lamanche partisse. Ele deu um susto nos tópsidas e aniquilou toda a instalação de tração magnética — disse o rato-castor.
Deringhouse suspirou contente.
De novo uma expressão de Bell, se não me engano. Pois bem, Noir, mostre juntamente com Marshall, que está fazendo o papel de anfitrião, um congraçamento com os aquas.
E assim foi feito.
Marshall recebia os impulsos mentais e os traduzia.
André Noir lia o pensamento dos homens-peixes como uma espécie de quadro mental, que era entendido facilmente. Era um pouco demorado, mas sempre com resultado positivo.
Vocês são estranhos neste mundo?
Sim, viemos das estrelas, onde está nossa pátria.
E por que vieram?
Deringhouse que ouvia e dirigia a conversa, mandou dizer:
Para avisar vocês e para os ajudar. Mas permitam uma pergunta: Os sáurios são seus amigos? Deram permissão a eles para viver num lugar que pertence a vocês?
A resposta veio imediatamente:
Não, não pediram licença. Vieram há muitos dias e muitas noites e construíram suas casas. Como é que nos poderiam pedir licença, não nos entendem, nem nós a eles.
Vocês gostariam que fossem embora daqui?
Claro que gostaríamos. Mas como podemos expulsá-los, se não temos armas?
Podemos ajudar vocês?
Houve então uma pausa e depois a resposta demonstrou que os aquas eram inteligentes, mas também desconfiados.
E o que devemos lhes dar em retribuição?
Deringhouse deu uma risada.
Somente uma coisa: sua amizade. Vamos comerciar com vocês, trocar mercadorias e construir uma pequena base para que os sáurios não voltem mais.
Os sáurios nunca comerciaram conosco. Pois bem, estamos de acordo. Vamos avisar nossos chefes.
Mais uma coisa — Deringhouse se lembrou do mais importante. — Os sáurios prenderam dois dos nossos homens, queremos libertá-los, mas sem o auxílio de vocês será difícil. Querem nos ajudar?
Vimos os prisioneiros, estão no castelo de água dos sáurios. Vocês podem viver debaixo d’água?
Não, precisamos de ar para respirar. Debaixo d’água nós morremos.
Ar? — veio o impulso de pensamentos e depois: Está bem. Vamos cuidar disso. Esperem-nos amanhã cedo neste mesmo local. Quem sabe arranjamos uma solução.
Quando nossa grande espaçonave chegar, teremos também uma solução — respondeu Deringhouse. — Está bem, nos encontraremos amanhã, quando o sol raiar, neste local. Esperamos por vocês.
Haveremos de estar aqui — prometeram os aquas, acenando mais uma vez para os homens, olhando curiosos por uns instantes a figura do rato-castor. Depois desapareceram.
Por algum tempo, ainda se podia ver o reflexo prateado à flor d’água. Quando os homens-peixes mergulharam definitivamente para o fundo do mar, o brilho sumiu.
Gucky os estava acompanhando:
Que vida boa que eles levam, nunca sentem sede!
Deringhouse olhou para o horizonte. Grande e avermelhado, o sol Beta se preparava para desaparecer atrás das ondas do mar. O céu tinha uma coloração rosa, verde e roxo. O firmamento se abria como uma cortina de fogo, num espetáculo completamente diferente do pôr do sol na Terra.
Amanhã — disse Deringhouse — amanhã saberemos mais.
Ficaremos aqui? — queria saber Marshall.
Sim, dormiremos no carro.
Não é necessário — disse o telepata sacudindo a cabeça. Eu vou com o Gucky buscar a Gazela de McClears. Temos tempo a noite toda.
Deringhouse concordou.
Então, eu e Ataka vamos tomar um banho com calma, até que vocês voltem. Você também, Noir?
Gucky lançou um olhar desesperado para Marshall, mas quando este sacudiu a cabeça com seriedade, Gucky avançou para o telepata e o abraçou, desaparecendo com ele.
A vida de oito homens estava em jogo.
5



Antes que ficasse mais escuro, a Gazela aterrissou com Marshall e Gucky a bordo, bem perto da viatura camuflada. A ação se deu no momento exato, pois, após a destruição do primeiro ponto de apoio e da terrificante investida da Centauro, que transformou todo o planalto em lava incandescente, os tópsidas deram o alarme geral. Suas belonaves surgiram de todos os cantos do “mundo d`água” e se reuniram num ponto a oitenta quilômetros da ilha metálica.
Logo se deu o ataque à Gazela, que foi naturalmente repelido. Antes que se iniciasse o segundo, mais pesado, apareceram Gucky e Marshall. O pequeno aparelho partiu e desapareceu na penumbra. Como voasse a baixa altitude, seus perseguidores não o conseguiram localizar no radar.
Deringhouse mandou camuflar o pequeno aparelho numa clareira da floresta, de sorte que ninguém o percebesse. Um breve rádio para a Terra era suficiente para dar a localização exata. Já era noite, Deringhouse fez uma ligação para a Centauro.
Alô, Lamanche! Onde é que você está?
Em órbita, senhor, esperando pela ordem de atacar.
Não vai ser tão breve. Fique por aí e mantenha contato com a Terra. Proteja-se dos ataques dos tópsidas, mas fique onde está. Ainda temos de liquidar uns assuntos aqui embaixo.
Entendido, senhor; se precisar de algum auxílio...
Não se preocupe, Lamanche. Estamos com Gucky aqui. Fim.
Desligou o aparelho e desceu da Gazela pulando na areia macia, quase pisando na cauda de Gucky.

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