Major
McClears pautava seus atos sempre em deduções lógicas. Quando
recebeu a mensagem alarmante de Lamanche, não pôde deixar de
praguejar horrivelmente. Depois, começou a pensar o que teria
acontecido se Deringhouse não tivesse voado para o quarto planeta. E
a resposta a esta hipótese seria muito simples: teriam esperado com
toda calma, no terceiro planeta, até que os saltadores aparecessem;
atacariam e se retirariam, assim sucessivamente, como se quisessem
defender mesmo a Terra. A mudança constante de cada ataque daria a
impressão de que se tratava de uma grande frota de super cruzadores,
que de maneira alguma poderiam ser destruídos. Com o passar do
tempo, os saltadores já teriam chegado à idéia de colocar uma
bomba de gravitação na pátria dos terranos e assim destruí-la
parcialmente. Estaria tudo perfeito... mas no quarto planeta estavam
os tópsidas.
Eis o
ponto nevrálgico.
E aí
então os pensamentos e especulações de McClears começaram fluir
inconscientemente no mesmo sentido que os de seu amigo Deringhouse.
Por este motivo, teria que negligenciar sua própria segurança. Mais
tarde, quando Rhodan se recordava deste fato, tinha que conceder que
um ser racional não podia agir de outra maneira, colocando sua
segurança em segundo plano em relação à segurança da Terra.
E foi
assim que uma ação errada de McClears iniciou o mais genial de
todos os lances que Perry Rhodan jamais empreendeu. Fez apenas o que
era necessário para dar um toque de veracidade à mentira de
Deringhouse referente aos tópsidas.
Seus
pensamentos se atropelaram, enquanto dava ao encarregado do rádio a
ordem de chamar de volta o tenente Tifflor. O mais competente oficial
da nova geração de Rhodan, estava exatamente em viagem com a Gazela
para informar-se das condições na superfície. O disco voador
achatado — trinta metros de diâmetro e dezoito de altura — era a
nave ideal para tais empreendimentos. A ordem o alcançou exatamente
quando acabava de aterrissar numa planície e já ia botando o pé em
terra. Não foi com boa vontade que atendeu à ordem de voltar à
espaçonave Terra. Sua disposição era a melhor do mundo quando se
viu frente a frente com McClears na Central.
— Um
planeta maravilhoso, mas infelizmente sem vida animal. Algo
incompreensível para mim, pois não posso imaginar condições
melhores. Ah!... o senhor me mandou chamar de volta. Suponho que seja
por motivos muito imperiosos.
— Realmente
muito imperiosos — respondeu McClears seco. Ainda não tinha
chegado a um ponto final com seus encrencados pensamentos, mas num
particular seu plano já estava traçado. — Deringhouse aterrissou
no quarto planeta, que batizou de Aqua.
— Nada
de extraordinário nisso, não acha?
McClears
não perdeu a calma.
— Infelizmente,
não foi o primeiro que se enamorou do “mundo
d’água”,
tenente Tifflor. Outros chegaram antes dele: os tópsidas.
— Tópsidas?
— Tifflor fez um esforço para se lembrar.
Naquele
tempo, era ainda jovem demais e sabia dos tópsidas só por ouvir
falar. Mas lembrou-se vagamente de um filme a que assistira sobre a
invasão dos sáurios do sistema Vega.
— O
senhor não está se referindo àqueles seres parecidos com
crocodilos que pretendiam destruir a Terra e por engano acabaram
caindo em cima dos ferrônios?
— Exatamente
deles é que estou falando — disse McClears.
— O que
eles procuraram por aqui?
— Não
tenho a menor idéia, recebi uma mensagem muito curta de Deringhouse
de que os tópsidas obrigaram a Centauro a fazer uma aterrissagem
forçada e prenderam o comandante. Recebemos instruções de nos
dirigirmos para Aqua e lá aguardar novas ordens.
— Como
quer Deringhouse dar ordens, se está preso? — queria saber
Tifflor. — Ou se trata apenas de uma prisão simulada?
— Parece
que é mais ou menos isto. De qualquer maneira, veremos os detalhes
em Aqua mesmo. Não me agrada ter os tópsidas na vizinhança. Mas já
que estão aí, temos que fazer tudo para tirar proveito da situação.
Tenho a impressão de que Deringhouse pensa assim também, pois do
contrário não se deixaria prender tão facilmente.
— O
senhor tem algum plano?
— Tenho.
Se bem que um tanto vago, mas preste atenção...
E McClears
começou a explicar seu plano.
Logo
depois das primeiras frases, o jovem tenente compreendeu tudo. Um
sorriso iluminava seu semblante, mas não interrompeu o oficial mais
velho, que continuou explicando, enquanto a Terra já estava na
direção certa. Depois da segunda transição, quando Aqua já
despontava na tela, concluiu com as palavras:
— Estou
plenamente certo de que assim matamos dois coelhos com uma só
cajadada. Se soubesse como colocar Deringhouse a par do meu plano...
Estou convencido de que ele concordaria e pediríamos novas ordens a
Rhodan. Sem consentimento dele, não quero fazer nenhuma ligação
telegráfica com a Terra.
— Os
mutantes! — lembrou Tifflor.
— Uma
possibilidade — concedeu McClears. — Infelizmente não temos
nenhum telepata a bordo da Terra. Não vejo outra alternativa a não
ser agir separado de Deringhouse. Deixamos a Terra circulando a
grande altitude de Aqua e descemos com a Gazela para a superfície.
— E o
risco que corremos com isto?
— Está
incluído na operação — disse o major. — Deringhouse vai fazer
uma cara de bobo, quando souber que vencemos depois de uma luta
curta, mas violenta. Espero apenas que não tenha cuidados inúteis
por nossa causa.
— E eu
espero — acrescentou Tifflor céptico — que seus cuidados, se ele
os tiver, não sejam realmente inúteis.
— Eu
também — concordou McClears.
* * *
Cercado
dos outros mutantes, Gucky encontrava-se agachado no divã da sala
dos oficiais. Estava a par dos acontecimentos pelas mensagens
telepáticas que Marshall lhe enviava. Por sua vez, Lamanche, que
havia assumido o comando da espaçonave, entrava em contato com eles,
através do intercomunicador. O sistema por via telepática
funcionava muito melhor do que via rádio.
— Estão
tratando Deringhouse e Marshall com muita atenção — disse Gucky,
mostrando um lugar nas costas em que ele queria ser coçado. —
Aparentemente dão muita importância ao fato de manterem com os
saltadores boas relações. Até hoje, as duas raças quase não
tiveram relações entre si. Como Marshall está deduzindo dos
pensamentos do comandante, Deringhouse não tem intenção de
incrementar muito estas relações. Alguém de vocês consegue
compreender isto?
— Eu,
não — Ras Tschubai sacudiu a cabeça e olhou para Ataka, como que
pedindo auxílio. — Quanto melhor forem as relações, tanto
maiores serão nossas possibilidades de sairmos daqui sem encrenca.
— E o
que lucraríamos — disse Gucky com ironia — se sairmos daqui?
— O que
você está querendo dizer?
— Penso
simplesmente no seguinte: o que nos interessa se os tópsidas tenham
uma boa impressão dos saltadores e nos deixem sair em paz? Tem isso
alguma influência positiva sobre a missão de que Rhodan nos
incumbiu? Não se esqueçam de que os saltadores pretendem destruir o
terceiro planeta, pensando se tratar da nossa Terra. E aqui no quarto
planeta, estão os tópsidas. E você ainda não está compreendendo?
Ras
Tschubai realmente não estava compreendendo, ao invés dele, porém,
Lamanche, sentado na central, sem afastar os olhos da tela
panorâmica, ouvia a toda a conversa da sala dos mutantes.
Pigarreou
perceptivelmente, concentrou-se por uns instantes em seus
pensamentos, levantou-se, e abriu a porta da central de rádio.
— Alguma
notícia de McClears? — perguntou ele.
O
telegrafista em serviço sacudiu a cabeça:
— Há
uma meia hora que não, senhor. A Terra saiu para uma órbita maior e
continua calma. Nós aqui permanecemos na escuta.
— Avisem-me
assim que houver alguma novidade.
— Perfeitamente,
senhor. Lamanche agradeceu satisfeito, voltou para seu lugar e
começou a refletir de modo mais profundo. Estranhamente, suas
especulações se desenvolviam mais ou menos no mesmo sentido como as
de Deringhouse e as de McClears. Isso era uma prova evidente de que
cérebros que pensam logicamente sempre chegarão aos mesmos
resultados.
* * *
A Gazela
saiu dos hangares internos da nave-mãe Terra e se deixou cair
verticalmente. Somente a alguns quilômetros antes da superfície de
Aqua é que o tenente Tifflor deteve a queda e colocou o aparelho em
vôo horizontal. A atmosfera zunia nas paredes externas do disco,
achando pequena resistência.
McClears e
Tifflor estavam sentados na apertada cabina, já com todas as telas
ligadas. Acreditaram ter visto no litoral do enorme e único
continente uma espécie de cúpula brilhante no meio da água, mas
não deram maior importância. Cada vez mais devagar, a Gazela descia
com toda cautela necessária na exploração de um planeta
desconhecido. Os dois tripulantes aguardavam com curiosidade a
primeira reação dos tópsidas.
E esta não
se fez esperar.
Bem perto
do pico de uma montanha, viu-se um clarão repentino. A tela mostrou
um projétil comprido que, com velocidade cada vez maior, subia
vertical. Parecia ter a intenção de cruzar a trajetória da Gazela,
exatamente no ponto de encontro dos dois objetos em movimento. Sem
dúvida, era um míssil. Tifflor ligou o envoltório de proteção e
segundos após uma detonação acompanhada de um forte clarão,
causando na Gazela apenas um pequeno abalo, mostrou que o ataque dos
tópsidas tinha fracassado.
O mesmo
aconteceu ao segundo projétil.
— E
agora? — perguntou Tifflor.
— Muito
simples, tenente. Vamos agir como se fôssemos saltadores — regulou
a rota e deu a direção a Tifflor. — Dê uma volta por cima do
cume da montanha e desça um pouco. O envoltório de proteção
continua ligado. Vou jogar uns explosivos inofensivos para que eles
saibam que temos alguma coisa não muito perigosa a bordo.
Tifflor
concordou sorrindo. Os sáurios haveriam, por certo, de acorrer para
o local e de tentar pegar vivo o relativamente inofensivo adversário.
Assim estava arquitetado todo o plano de McClears.
Dez
segundos depois, detonou uma bomba lá embaixo aos pés da montanha,
em plena mata virgem. Os estilhaços abriram pequenas clareiras na
vegetação, sem produzir maiores danos.
E
exatamente dez segundos depois, enguiçou o comando da Gazela.
Tifflor, assustado, tentou recuperar o controle do disco voador, mas
não conseguiu. Devagar, mas continuamente, o disco foi descendo e
com solavanco maior pousou numa clareira, a menos de dois quilômetros
do litoral.
Como
Tifflor pôde constatar, haviam descido no centro de um círculo,
formado por cúpulas de metal, pequenas e cintilantes.
McClears
levou as mãos ao alto.
— Está
dando tudo certo, os sáurios vão ficar contentes de terem feito tão
boa caça. Nossos oito homens continuam a bordo, enquanto nós nos
apresentamos ao inimigo.
— Tomara
que não nos matem logo de início.
— Não
se preocupe, isto seria contra sua mentalidade. Já lhe disse que os
tópsidas são extremamente curiosos. Quererão logo saber com quem
estão tratando e por que motivos viemos para cá. Devem receber
estas informações de nós. E depois você vai ficar admirado de
como eles vão agir.
— Esperar!
— exclamou Tifflor duvidoso, que naturalmente estava pensando o que
Deringhouse haveria de dizer do seu modo arbitrário de agir.
E Rhodan,
muito mais.
Aproximou-se
da Gazela uma viatura. Saltaram dois tópsidas e ficaram por uns
instantes olhando sua presa de guerra. De uma das cúpulas metálicas
emergiu ameaçador um negro tubo de canhão, apontando para a Gazela.
— Vamos
embora — disse McClears. — Vamos Tifflor. O negócio é sério. E
não se esqueça de que somos a vanguarda dos saltadores. O grosso da
tropa ainda está a caminho.
Os dois
tópsidas olharam para eles com muita calma, quando saíam da
escotilha, sem medo, saltando para a terra. Atrás deles, a escada de
saída se recolheu automaticamente. Segundos depois, estava ligado de
novo o envoltório energético. Embora os tópsidas pudessem deter o
disco e impedir sua saída, era-lhes impossível destruir o aparelho
ou penetrar nele. Os oito homens da tripulação estavam
completamente a salvo de qualquer ataque por parte dos tópsidas.
McClears
não entregou sua arma voluntariamente, quando os dois tópsidas lhe
pediram. Foi-lhe tirada à força e McClears não perdeu a
oportunidade de dar um soco forte na cabeça do lagarto. O impacto
lhe doeu muito mais do que ao próprio réptil. Mas isto não tinha
importância alguma.
O
tratamento foi correspondente. Enquanto Deringhouse ainda era tratado
como um possível aliado, declararam McClears e Tifflor como
inimigos.
Mas
McClears não se deixou intimidar. Enquanto ele e seu jovem tenente
eram obrigados a entrar na estranha viatura, sacolejando por uma
péssima estrada de terra, em direção do próximo litoral, ia
despejando ameaças contra os tópsidas, prometendo-lhes breve e
terrível vingança. Seu comportamento era um tanto irreal, diante da
situação pouco encorajadora. E assim foi que os dois tópsidas,
aparentemente pouco inteligentes, não deram maior atenção às
ameaças. McClears acabou também desistindo, esperando poder
encontrar depois um exemplar mais inteligente desta desagradável
raça.
Um desejo
que se realizou logo, mas não lhe trouxe maiores vantagens.
A estrada
terminou no litoral. Sob as copas de altas árvores e camuflado por
uma cobertura espessa de folhagem, havia um edifício baixo de metal
cintilante. O fato dava a entender que os tópsidas não possuíam
outro material de construção.
Levaram os
dois prisioneiros para um aposento, onde foram presos e entregues a
seus destinos.
Em poucos
instantes, McClears se convenceu de que sem auxílio de terceiros,
não conseguiriam sair dali. Sentou-se num canto, no chão, e começou
a meditar.
Tifflor,
no entanto tentou se lembrar do microtransmissor embutido em seu
corpo. O microdispositivo, cujo segredo nenhum cientista humano
conhecia, foi-lhe implantado por cirurgia na cavidade renal direita.
Qualquer
telepata, cuja faixa de onda estivesse em sintonia com as
supervibrações artificiais do transmissor do corpo de Tifflor,
poderia localizar, até uma distância de dois anos-luz, o seu
paradeiro.
Além
disso, havia ainda a possibilidade de se concentrar nos pensamentos
de Tifflor, se a distância não fosse grande demais.
O tenente
podia ficar tranqüilo, pois tudo quanto pensasse com concentração,
seria recebido pelo telepata John Marshall. Dispunha ainda
adicionalmente de um diminuto transmissor na laringe.
Tifflor
enviava, mas não podia receber nada...
* * *
Al-Khor
estava um pouco nervoso quando penetrou na cela dos dois
prisioneiros. Seus olhos redondos faiscavam ódio. Apenas um resto de
ponderação o impediu de mandar fuzilar imediatamente os supostos
saltadores.
— Repita
o que o senhor, há pouco estava dizendo aos meus dois subalternos —
disse ele, ríspido, colocando-se na porta de tal maneira, que os
dois sentinelas que o acompanhavam tinham alvo livre pela frente. —
Prometo-lhes que não vou castigá-los, se disserem a verdade. Mas,
tenho que saber o que aconteceu.
O major
sacudiu os ombros:
— Não
dê demasiada importância ao que seus subalternos lhe disseram.
Podem ter me compreendido mal. O que diz a respeito?
— O
senhor sabe perfeitamente o que estou pensando, saltador. Sabe, além
disso, que não são os dois únicos prisioneiros que fizemos.
Dominamos um cruzador pesado. Um tal de major Deringhouse está em
nosso poder.
Numa
demonstração de horror, muito bem representada, McClears
empalideceu todo, como Tifflor mesmo constatou, levantou-se e deu
dois passos na direção de Al-Khor.
As armas
dos dois vigias se ergueram ameaçadoras. Al-Khor não se intimidou,
não se mexeu um centímetro de onde estava.
— Se o
seu depoimento for verdade, suas vidas estão salvas.
McClears
deu um rápido olhar para Tifflor. O tenente respondeu com um piscar
de olho. Podia estar tranqüilo de que Marshall havia captado todos
os impulsos.
— Pode
começar a perguntar — disse a Al-Khor.
— Você
os ameaçou dizendo que viriam homens para vingá-los? Falou também
aos nossos subalternos qualquer coisa de uma invasão iminente por
parte de sua gente?
McClears,
teatralmente, mordeu a ponta da língua. Uma gota de sangue banhou os
lábios inferiores.
— Na
minha cólera... desgraçado, não vale a pena mentir. Também não
sei por que motivo lhe silenciar uma coisa, que você em poucos
minutos saberá plenamente. Os saltadores supõem existir neste
sistema uma base de seu eterno inimigo. Você não o conhece,
portanto seu nome não tem nenhuma importância no conjunto dos
acontecimentos. De qualquer modo, os superpesados estão alarmados.
Deve saber que eles são a tropa guerreira dos saltadores. Todo o
poderio dos superpesados vai atacar o terceiro e o quarto planetas
deste sistema e destruí-los. Posso lhe dar apenas um bom conselho:
abandone, o mais depressa possível, este planeta.
— Que
nada! Isto é um truque — respondeu Al-Khor.
McClears
começou a dar gargalhadas. Riu tanto que lágrimas lhe corriam dos
olhos. Depois, cheio de satisfação bateu nos ombros cobertos de
escama do tópsida:
— Um
truque! Meu caro amigo, eu juro pelos meus antepassados, de que estou
dizendo a verdade. Os saltadores estão ultimando seus preparativos
para despovoar este sistema, completamente. Nada pode detê-los deste
plano, isso eu lhe posso garantir.
— Nada —
repetiu Al-Khor encolerizado. Nos seus olhos havia um brilho
misterioso. — Acha que nada consegue deter os saltadores? Eu acho
que há uma coisa capaz disso. Quando souberem que nós consideramos
o quarto planeta como nossa propriedade, ninguém terá coragem de...
— Por
que não?
— Porque...
— Al-Khor hesitou um pouco. — Porque os comerciantes das Galáxias
não têm nenhum motivo de nos fazer hostilidades. Eles não são bem
vistos pelo Império. Nós, também não. Por que não podemos estar
unidos?
— Por um
motivo muito simples, meu caro amigo — disse-lhe McClears com
paciência. — Porque nós somos obrigados a supor que você é um
aliado do nosso ferrenho inimigo, que tem uma base neste planeta e
que praticamente o povoa.
Quem
estava rindo à bandeira despregada agora, era o próprio Al-Khor.
— Os
seres da água? Seus inimigos de morte? É ridículo. Não é apenas
absurdo, mas é também...
— Seres
da água? — informou-se cautelosamente McClears. — Não estou
compreendendo o que está falando.
— Neste
mundo existe uma raça um tanto inteligente, que muito raramente
aparece em terra e não precisa mesmo da terra. Por este motivo,
pudemos estabelecer nossas instalações, sem prejudicá-los. Estes
seres existem somente na água e devem possuir suas cidades lá no
fundo do oceano. Fora disso não há nada neste mundo que possa ser
uma ameaça. Se não forem estes seres aquáticos, vocês saltadores
foram vítimas de um engano.
— Nossas
informações estão exatas — continuou McClears. — Estou bem
informado sobre os planos dos nossos patriarcas. Nestes planos consta
que os tópsidas têm uma base pequena no quarto planeta, cuja
existência não precisa ser tomada em consideração. Você está
vendo que as negociações não vão servir para nada. Nossos chefes
consideram vocês aliados do nosso inimigo.
— Puxa
vida! — exclamou o tópsida. — Diga-me finalmente quem é este
inimigo figadal.
— Não
estou autorizado a fazer isto — respondeu McClears.
— Então
vamos obrigá-los a fazer.
— Mas
andem depressa — disse o major com toda calma. — Nossas unidades
de assalto estão chegando a qualquer momento. E então poderia ser
tarde demais para vocês.
Al-Khor
deu um grito ininteligível, fez um sinal para os guardas e deixou a
cela. A porta se fechou com um estrondo.
McClears
olhou para Tifflor, que repetiu baixinho toda a conversa e assim a
transmitiu para Marshall e para Gucky.
— Então?
— perguntou McClears todo triunfante.
— Vamos
ver — respondeu Tifflor, meio céptico — se eles vão agir como
criaturas inteligentes e corajosas.
— Claro
que vão agir assim. Pode ficar tranqüilo.
Infelizmente,
não tiveram a oportunidade de averiguar isto, pois dez minutos mais
tarde alguém os apanhou. Levaram-nos numa pequena viatura
diretamente para o litoral. Aí, entraram numa pequena embarcação
que os transportou para uma ilha de aço. Era a cúpula que há pouco
haviam visto do ar. Mesmo para Deringhouse, teria parecido igual. Por
uma escada lateral, subiram para o andar superior, cercado por um
terraço. Depois um elevador os levou para baixo. Quem os guiava era
um tópsida, muito bem armado.
Nem
McClears nem Tifflor pensavam em fugir. Um único pensamento os
dominava: será que seu truque iria falhar?
O salão
tinha paredes de vidro que, de todos os lados, davam para o mar.
Tinha-se aqui uma visão magnífica sobre um mundo a dez ou doze
metros sob o nível da água. Comportas de vários tamanhos davam a
entender que se podia atingir o mar aberto sem que a água penetrasse
no salão. Ou vice-versa, podia-se do mar penetrar na cúpula. E isto
parecia ser a única finalidade da instalação.
O tópsida
se deteve diante de uma porta. Abriu-a e se afastou, dizendo:
— Aqui
será a nova prisão. Ficarão aqui até que tudo tenha terminado.
— Terminado
o quê? — perguntou McClears, sem receber resposta.
Penetrou
no pequeno cubículo acompanhado de Tifflor que logo começou a falar
no seu transmissor da laringe.
A porta
fechou e eles estavam a sós. Mas onde?
Apenas a
porta parecia ser de material compacto. Fora disso, pareciam
mergulhados no nada, no meio do mar, cujo fundo tinha um brilho
opaco.
Mas logo
perceberam a verdade: estavam numa cela de vidro, sob a cúpula ou ao
lado dela. O cubículo transparente flutuava. Era água por todos os
lados.
McClears
sentou-se no chão, bem no canto oposto à porta, tendo a impressão
de estar sentado na água. Olhava em torno com muita curiosidade.
— Isto é
muito interessante — observou com sarcasmo. — Devemos estudar os
segredos do mar, antes que nos afoguem.
Tifflor se
espantou um pouco com a frase.
— Você
acha que vão nos matar?
— Que
nada! É brincadeira minha. Mas você ouviu dizer que aqui existem
peixes inteligentes ou coisa semelhante. Acho que deveríamos
procurá-los, mas não me pergunte o por quê. Pode ser também o
contrário: os peixes devem nos ver, para saberem como parecem os
saltadores. Situação maluca, não é?
— Só
queria saber se Marshall teve ocasião de transmitir minhas
informações a Deringhouse. Infelizmente Deringhouse não é
telepata. Mas pelo menos Gucky deve saber onde estamos.
A água
era de um azul-claro com reflexos avermelhados, em virtude da luz do
sol de Beta. Neste local, o mar não teria talvez vinte metros de
profundidade. Agora que a vista dos dois prisioneiros já se adaptara
à penumbra do estranho ambiente, o olhar deles penetrava facilmente
até o fundo do mar, situado a uns oito metros abaixo do piso de
vidro da singularíssima cela.
Plantas
marinhas exóticas dançavam ao ritmo de uma correnteza invisível,
peixes coloridos cintilavam em grandes cardumes numa determinada
direção, como se estivessem sendo perseguidos por um inimigo
oculto. Entre estes, flutuavam com calma e dignidade seres
transparentes, que lembravam nossas medusas. Pouco mais para a
frente, o fundo do mar caía bem íngreme, a água se tornava
azul-escuro e infinita.
E
subitamente, Tifflor deu um grito semi-abafado.
De olhos
arregalados, apontava ele para o azul-escuro do mar aberto. McClears
seguiu a direção indicada por seu braço estendido e pela primeira
vez olhos humanos puderam ver os legítimos senhores do planeta das
águas.
4
As coisas
iam se tornando mais críticas. Deringhouse quase não reconheceu
mais Al-Khor, quando o tópsida chamou-os.
— Por
que razão não me contaram nada do ataque iminente de sua gente? —
perguntou o tópsida com uma tremenda calma, embora seus olhos
resplandeciam ameaçadores. — Seria obrigação de vocês.
— Obrigação?
— questionou Deringhouse admirado. — Seria também sua obrigação
nos manter presos contra nossa vontade?
— Ninguém
os abrigou na condição de prisioneiros.
— Mas,
somos realmente prisioneiros. Você quer também duvidar de que nossa
espaçonave...
— Aliás,
sua espaçonave... — disse Al-Khor bem espaçadamente, olhando para
Deringhouse com certa ironia. — De quem vocês diziam, há pouco,
tê-la tirado? Dos arcônidas?
Marshall
captou depressa os pensamentos do tópsida e sabia por que fizera
esta pergunta. Esperava que Deringhouse percebesse o veneno da
pergunta, senão teria que avisá-lo.
— Sim,
foi dos arcônidas — disse o major cauteloso. — Mas eu não sei
naturalmente se os arcônidas a tomaram de outros. Por que esta
pergunta?
Al-Khor
concordou, aparentemente mais calmo.
— É
provável, pois o nome cravado com letras pretas na fuselagem não
está escrito em caracteres arcônidas. Mas esqueçamos isto. O
comandante de uma das naves foi colocado em local seguro. Estou
preocupado sobre o que devo fazer com eles.
— Deixe-nos
ir embora — propôs Deringhouse. O que você ganha nos retendo
aqui?
— Reféns
— foi a resposta seca de Al-Khor. — Vocês devem estar presentes,
com todo seu pessoal, quando os saltadores chegarem para destruir
este mundo. E quem sabe, sob minhas vistas, vocês entram em contato
com eles antes e os põem a par de tudo.
— Isto
não vai adiantar muito — disse Deringhouse com sinceridade. —
Não me vão dar ouvidos.
— Então
vocês morrerão conosco.
— Bonito
— disse o major com um riso forçado. — Assim, nos tornaríamos
de qualquer forma aliados, não é verdade?
Al-Khor
não respondeu. Sem dizer uma palavra, deixou a cela que servia de
domicílio provisório para eles. Marshall franziu a testa.
— Não
me está agradando — disse ele — e aos meus mutantes, muito
menos. Gucky está ansioso para entrar em ação, isto é, para
atacar. É com dificuldade que o estou segurando.
— Sua
hora está quase chegando, — consolou Deringhouse, enquanto olhava
para a parede lisa do cubículo.
— Que
está acontecendo com McClears?
— Está
detido com Tifflor, numa cela de vidro, abaixo do nível do mar.
Deringhouse
começou a rir.
— Pelo
menos, tem um pouco de distração — julgava ele. — Portanto,
vamos lá, dê nossa posição ao rato-castor. Ele deve nos localizar
e dar um pulo até aqui. Vamos pregar um grande susto nos crocodilos,
eles estão precisando.
Dois
minutos depois, Gucky se materializou contente e sorridente, tornando
o cubículo ainda mais estreito. Trouxe duas pistolas energéticas de
mão e algumas granadas, não maiores do que nozes comuns, porém de
ação terrivelmente devastadora. Ele mesmo trouxe na cintura uma
pistola de impulsos, cujo peso lhe dava trabalho.
— Aqui
estamos nós — chilreou ele feliz da vida. — Vamos mostrar quem
somos.
— Espere
um pouco — disse Deringhouse. Virou-se para Marshall, que no
momento cambaleava um pouco, captando coisa muito importante;
simultaneamente, também a fisionomia de Gucky se transformou numa
expressão de piedade. Parecia ter perdido a disposição para
qualquer iniciativa.
Deringhouse
se manteve na expectativa.
Sabia que
os dois telepatas estavam recebendo uma mensagem de Tifflor.
* * *
McClears
soltou um grito abafado. De encontro às paredes de vidro da cela,
comprimiam-se dezenas de torpedos submarinos, enfileirados, como se
quisessem mandar pelos ares toda a instalação de cúpulas. Os
corpos esguios tinham talvez metro e meio de comprimento e refulgiam
como prata sob a luz avermelhada do sol. Jatos d’água de grande
pressão irrompiam da parte traseira dos terríveis projéteis
desfazendo-se logo a seguir.
Só depois
de olhar com mais atenção, é que McClears percebeu seu engano: não
eram torpedos artificiais, mas seres vivos, semelhantes a focas, com
boca enorme, sempre aberta, olhos pequenos, orelhas ovais. A
velocidade do pequeno esquadrão, agora, já era menor. O forte jato
de água que lançavam para trás já tinha cessado. Que animais
seriam estes? Estavam parados...
Com muita
curiosidade, nadavam em torno da cela de vidro, olhando sempre para
os ocupantes do cubículo, com olhos inteligentes. Um deles chegou
bem perto e comprimiu o focinho contra a parede de vidro. MacClears
fitou-o cara a cara, sentindo então uma forte vibração.
Tifflor
descrevia a cena para Marshall e Gucky.
— São
assim os peixes-homens — murmurou McClears. — Vieram para cá
como que atirados por jato. Não se movem como os demais peixes por
meio das nadadeiras, mas têm um sistema próprio: engolem a água,
comprimem-na algum tempo em seu interior, e depois a expelem. Santo
Deus, verdadeiros foguetes submarinos vivos — colocou a mão
direita sobre a parede de vidro. — Produzem ondas vibratórias —
disse pensativo. — Quem sabe é uma maneira de se comunicarem? Ah!
Se pudéssemos entendê-los...
Marshall
captou a mensagem e informou Deringhouse a respeito.
— Ataka!
— disse Gucky.
— Acho
que você tem razão, Gucky — disse Deringhouse. — O japonês
decifra ondas sonoras, que nenhum ouvido humano consegue captar.
Mesmo ultra-som. Se estes seres não são telepatas, e parece que
realmente não o são, devem talvez se comunicar através de
vibrações ou de sons no campo de ação do ultra-som. Ataka pode
constatar isto. Além disso, sua capacidade de percepção está
combinada com uma telepatia inconsciente, de maneira que poderá
entender sons completamente estranhos para nós. Gucky, vá buscar
Ataka.
O
rato-castor se levantou, dizendo:
— Cubículo
apertado, major! Vocês não vão ficar muito tempo aqui. Sairemos e
vamos libertar McClears. O tempo de representar já passou. Não
precisamos mais nos camuflar perante os sáurios. Agradeçamos aos
deuses do espaço.
— Como
assim? Que pretende fazer, Gucky? — perguntou Deringhouse, que não
compreendeu as palavras de Gucky.
— Já
fiz voar pelos ares robôs e bios — disse o rato-castor, recordando
suas bravuras. — Mas fazer voar um crocodilo será uma sensação
formidável.
Um segundo
a mais e ele já havia desaparecido.
Com voz
mais baixa, disse Deringhouse:
— Os
tópsidas ficarão surpresos quando souberem que possuímos armas,
mas não podemos subestimá-los. Morrem, se for preciso, sem piscar
um olho. Só há um ponto em que são muito sensíveis: são muito
supersticiosos.
— Então,
Gucky é o “homem”
certo, major.
— Exatamente
— concordou Deringhouse. — E o malandro sabe disso. De acordo com
o regulamento, devia estar preso.
— Não
há prisão para detê-lo — comentava Marshall uma coisa que todos
sabiam. — Em muitos sentidos, Gucky é um ser maravilhoso.
Houve uma
vibração no ar e surgiram Gucky e Ataka. O japonês se apertou como
pôde. Não dava para ninguém se mexer. A cela era pequena demais. A
ventilação também estava horrível.
— Isso é
uma bodega — disse Gucky, com ironia.
— Não
por muito tempo — acentuou Deringhouse. — Gucky, você consegue
abrir o cadeado da porta?
O
rato-castor pulou para perto da porta e olhou um pouco o cadeado. A
tarefa já era fácil caso se usasse os dedos... Mas Gucky dispunha
ainda de outros dedos invisíveis movidos por forças telecinéticas.
Estas forças invisíveis do seu pequeno mas incompreensivelmente
poderoso cérebro penetraram no cadeado, examinando o mecanismo.
Depois, com um pequeno ruído, o cadeado abriu. Deringhouse avançou
e empurrou a porta.
— Ótimo,
Gucky — disse ele sorrindo para o rato-castor, e apanhando sua
pistola energética. — E agora vamos deixar os tópsidas um pouco
nervosos. Eles já devem ter muito o que fazer para se defenderem dos
ataques dos saltadores.
— Mas é
preciso esperar um momento até que estejamos seguros e em condições
de agir — disse Marshall, prevenindo contra um otimismo exagerado.
— Gucky, você está sentindo algo? Há tópsidas aqui perto de
nós?
— Sim,
uma grande multidão, lá atrás da porta.
Estavam
num corredor comprido, um pouco sinuoso, deixando supor que passava
em torno de alguma cúpula. Havia duas portas: uma próxima da outra.
Do outro lado da parede, eram janelas. Atrás havia uma paisagem
maravilhosa de uma natureza virgem, com montes e florestas. No
horizonte, bem afastado, via-se a grande extensão do mar. O sol
poente estava exatamente no ponto divisório entre a água e o céu.
Deringhouse
se deteve bem rente à porta indicada por Gucky e Marshall.
— É
aqui? — perguntou por cautela.
Ao sinal
de confirmação dos dois telepatas, Deringhouse ergueu a arma,
postou-se de lado, ativou o botão de combustão. O delgado fio de
energia atingiu os gonzos da porta, soldando todos com o metal
derretido. A porta não se abriria mais.
— Vão
cair direitinho na armadilha — disse Ataka contente.
— Eu
preferia fazê-los voar — disse Gucky. — Deve ser fantástico
quando os crocodilos...
— Esperem
— disse Deringhouse, caminhando à frente.
Os outros
o seguiam. Gucky era o último da fila, pois quando não se
teleportava, suas pernas curtas não lhe permitiam acompanhar os
passos largos dos demais. Para tentar abafar seu aborrecimento com
isto, começou a assobiar bem alto, como se não houvesse mais
tópsidas na redondeza.
O corredor
terminava numa porta que estava apenas encostada. Depois dela, não
havia mais salas, era a liberdade. Mas que liberdade era esta?
De
qualquer maneira, ainda se encontravam em território dos sáurios.
Deringhouse ajeitou sua pistola e empurrou a porta. Como o empurrão
foi bem forte, quase que a guarita do tópsida virou. O vigia caiu.
Levantou-se, virou-se para trás, com um grunhido de desaprovação.
Mas a desaprovação se transformou em medo, quando notou a presença
de Deringhouse, Marshall e Ataka, passando para perplexidade quando
deu com a figura esquisita de Gucky. Gucky não gostou da
perplexidade, o que Marshall logo notou, captando também a péssima
impressão que o pobre guarda teve de Gucky.
— O quê?
— chilreou o rato-castor. — Eu... um bicho horroroso? Você vai
ter que voar.
E o
tópsida voou. Forças telecinéticas o ergueram do chão e o fizeram
subir verticalmente. O coitado gritava desesperado. A Ira de Gucky
não durou muito. O pobre vigia, tendo perdido a arma durante suas
acrobacias forçadas, fugiu em disparada. Gucky ainda teve tempo de
colocá-lo no telhado do grande edifício de cúpulas. Lá de cima,
sentado bem na beira, o sáurio não desgarrava os olhos dos três
homens. Entre estes estava um animal peludo, semelhante aos ratos
gigantes dos canais de Topsid.
— Bicho
horroroso... que desaforo! — ia ruminando Gucky, andando por ali,
como se não existisse a palavra perigo.
Deringhouse
reconheceu num galpão ao lado algumas das viaturas, cujo
funcionamento tinha observado com cuidado. Não seria, pois, difícil
utilizar um desses carros para empreender a fuga. Gucky poderia
também teleportar um por um para a Centauro, mas chamaria muito a
atenção dos tópsidas e era necessário que tudo parecesse normal.
— Ali ao
lado estão as viaturas — disse ele para Gucky. — Vamos pegar uma
delas, mas antes temos que causar alguma confusão aqui.
Isto não
foi muito difícil, pois os chefes dos tópsidas estavam presos e no
momento não tinham outra preocupação a não ser dinamitar a porta
que Deringhouse havia soldado. Marshall atirou duas bombas no
edifício e correu atrás de Deringhouse e Ataka que se dirigiam para
as viaturas.
À forte
detonação, seguiram altas labaredas que em poucos instantes
derreteram toda a construção de cúpulas.
De uma
entrada lateral surgiram alguns tópsidas que não estavam feridos e
começaram a atirar doidamente com as pistolas de raios energéticos.
Foi a oportunidade que Gucky aguardava para entrar em ação.
Enquanto os três homens tentavam pôr em movimento uma viatura
maior, Gucky começou sua “brincadeira”,
como ele chamava esta atividade, quando podia usar à vontade seus
dons telecinéticos.
Os sáurios
não sabiam mais o que se passava com eles. O chão lhes sumiu de
repente sob os pés e começaram a flutuar no espaço. Ninguém iria
supor que o causador daquele milagre era aquele animal peludo, embora
não parecesse estranho a Al-Khor. O comandante da base dos tópsidas
levitava sem direção sobre as copas das árvores, quando reconheceu
no rato-castor a misteriosa aparição que vira por um instante a seu
lado na viatura.
A situação
era de deixar perplexos todos os tópsidas. Mas Al-Khor não conhecia
o medo. O misterioso prodígio era de carne e osso e, portanto devia
ser vulnerável. Ainda tinha a pistola de raios energéticos. Apesar
da situação em que se encontrava, apontou-a para aquela figura
minúscula de animal, lá embaixo, entre as ruínas do edifício.
Apertou o gatilho, mas o resultado foi diferente do que Al-Khor
imaginava.
Como
levitasse, portanto sem peso algum, o choque de recuo da arma o jogou
com grande velocidade para o espaço adentro. Gucky, atento à
iniciativa malograda do comandante tópsida, ainda deu mais Impulso
ao contrachoque, obrigou Al-Khor a fazer piruetas no ar e acabou
colocando o corajoso guerreiro na copa de uma árvore bem alta, cujos
galhos estavam a mais de vinte metros do solo. Ele que desse um jeito
de descer dali.
Os outros
sáurios ainda estavam dançando no ar, formando um emaranhado
confuso. Ninguém tinha coragem de atirar, com medo de atingir o
colega.
Nesse
ínterim a viatura de Deringhouse saiu do galpão. Uma segunda
granada destruiu os carros restantes, provocando um grande incêndio.
Os tópsidas teriam agora de andar a pé, o que não lhes era
agradável.
— Faça-os
descer agora, Gucky — disse Marshall acenando para ele, que sentado
se divertia fazendo os sáurios girarem em volta dos escombros da
grande cúpula.
— Já
receberam o que mereciam, mas eu ainda não — disse Gucky, deixando
os tópsidas caírem uns dez metros, para depois detê-los.
— Estou
notando isso — disse Marshall um tanto áspero, dando algumas
instruções a Deringhouse.
A viatura
veio para a direção de Gucky.
— Tenho
que dar uma mãozinha — continuou Marshall, virando-se um pouco
para fora da porta da viatura. Com mão firme apanhou Gucky pelo
pescoço, o levantou e o trouxe para dentro do carro. — E agora,
faça o que lhe mandei.
Por uns
instantes Gucky ficou indeciso, depois, olhando para cima, viu os
tópsidas horrorizados, parados e desarmados, aguardando o que aquela
“força
divina”
ainda ia fazer com eles. Deu um grande suspiro de resignação e
acabou obedecendo.
Deu
novamente uma ordem a seus pensamentos e os tópsidas se colocaram em
formação de esquadrilha e voaram a toda velocidade para
desaparecerem atrás das copas das árvores. Gucky ainda ficou
olhando por uns instantes e, suspirando, disse a Marshall:
— Está
bom?
— Que
aconteceu com eles? Você não pode deixá-los cair de repente.
— Não
caíram não, mestre. Estão sentados em qualquer lugar nas árvores,
fazendo ninhos para seus filhotes, caso não queiram descer mais, o
que também é possível.
O mau
humor do rato-castor era evidente:
— Que
devo fazer agora?
Marshall
respirou mais aliviado. O pior já tinha passado.
— Vamos
libertar McClears que está em piores condições que nós. Está
sozinho com Tifflor.
Gucky se
concentrou para ouvir alguma coisa.
— Distância
exata 37,6 quilômetros, sudoeste. Devo dar um pulinho até lá?
— Ainda
não e quando chegar a hora você deve levar Ataka. Pois só ele é
capaz de entender a linguagem dos aquas.
— Aquas?
— Sim,
senhor, assim chamamos esses estranhos seres. A idéia é de
Deringhouse. Mas não quero que, nos combates que possam se realizar,
se sacrifiquem vidas inocentes. Ninguém quer isto.
— Que
aconteceu com a Centauro? Deringhouse dirigia a viatura por um
caminho estreito que levava ao litoral. Operava com seu
minitransmissor de pulso, que os tópsidas não lhe haviam tirado,
porque não tiveram tempo.
— Capitão
Lamanche deve fazer o que pode — dizia o Major. — Estamos
seguindo para o litoral onde empreenderemos a libertação de
McClears, enquanto a Centauro neutraliza os raios de atração e se
encaminha também para o litoral. Nós nos encontramos logo. Quero
evitar, de qualquer maneira, que os tópsidas tenham a impressão de
que somos seres sobrenaturais. Sabemos por demais que os saltadores
lutam com armas e meios convencionais. Portanto, não devemos fazer
nada que possa levantar suspeita. Isto vale principalmente para você,
Gucky.
— Sou,
por acaso, um ser sobrenatural? — perguntou Gucky.
Deringhouse
não respondeu. Colocou-se em contato com Lamanche.
— Ouça,
capitão. Ligue o envoltório de proteção e destrua, depois de
breve aviso, as cúpulas metálicas no centro das quais a Centauro
aterrissou. Ali estão, na minha opinião, os geradores para os raios
de atração. E depois vá embora. Ponha-se em contato conosco,
quando já estivermos no litoral. Aí, então, lhe darei novas
instruções.
— Está
tudo claro — foi a resposta tranqüila de Lamanche, objetivo como
sempre. — Eu sinto muito ter ficado aqui, sem fazer nada, como uma
galinha choca em cima dos ovos. Os mutantes estão ansiosos para
enfrentarem os sáurios.
— Os
mutantes têm de ficar, infelizmente, em segundo plano, pois os
tópsidas sabem que Perry Rhodan possui um corpo de mutantes. No
entanto, é necessário que eles, os tópsidas, fiquem com impressão
de que estão lidando com os saltadores. Está claro?
— Já
falei, senhor — foi a resposta seca de Lamanche. — Encontramo-nos
no litoral.
Deringhouse
ficou uns instantes olhando para o receptor emudecido, depois sorriu,
colocando a viatura em movimento.
Não se
podia chamar a estrada de boa, mas pelo menos indicava a direção. O
carro com cobertura transparente tinha bons amortecedores, mas a
conformação dos bancos, feitos não para o corpo humano, obrigava o
motorista a uma posição incômoda. O terreno ia em leve declive.
Após meia hora, avistaram o litoral. À esquerda ou à direita, não
havia uma clareira na floresta virgem, em cuja vegetação homem
algum jamais penetrara. A estrada entrava um pouco para a esquerda e
se dirigia a um ponto que não podia estar muito afastado do lugar em
que, através de dois quilômetros de água, se alcançava a tal ilha
metálica onde McClears e Tifflor foram presos.
Mas a
estrada atingiu a praia um pouco antes. Aqui, com a areia, a
vegetação da mata virgem não achava mais alimentação, de maneira
que sobrou uma faixa livre. Ao lado desta faixa, a estrada levava
exatamente para o leste.
Deringhouse
dirigia o carro sob a ramagem protetora de uma árvore gigantesca.
Desligou o motor. Cessou o ruído e, por uns instantes, só se ouvia
o marulhar das ondas e o farfalhar da vegetação com o vento suave.
A visão da natureza virgem transmitia paz e calma. O mar se
espalhava numa extensão imensa. Ter-se-ia que navegar quase todo o
planeta para se encontrar terra novamente.
— Gostaria
de morar aqui — disse Ataka, quase sonhando. — Como numa ilha
desabitada dos Mares do Sul.
— As
aparências enganam — disse Deringhouse apontando para o céu.
Todos
olharam para aquele ponto. Um objeto voador, pequeno, passou por cima
da construção de vidro e desapareceu.
— Estão
fazendo vôos de patrulha, mas talvez não saibam o que aconteceu. Se
a sorte foi nossa amiga, a instalação de rádio da estação deve
estar destruída — explicou Deringhouse.
Marshall
virou-se para o japonês:
— Você
acha que daqui desta distância pode entrar em contato com os aquas?
Em caso negativo, você e Gucky têm que se teleportar para a prisão
de McClears, para não levantar a menor suspeita. Os tópsidas têm
que acreditar que somos saltadores, sem dons espirituais de nenhum
tipo.
— Se a
descrição de Tifflor for exata, eles se comunicam por ondas
sonoras. Vou tentar entrar em contato, naturalmente na água.
Portanto vou tomar um banho agora.
Deixou o
uniforme no chão, livrou-se da calça e, como um turista, entrou
pelo mar adentro. Gucky olhava para ele, visivelmente com inveja:
— Arranjou
um bom pretexto para um banho de mar. Nadar um pouco não me
prejudicaria.
— Quem
sabe você terá que nadar mais depressa do que pensa — disse-lhe
Deringhouse. — E o pior, por muito mais tempo do que deseja.
— Com o
ruído das ondas, ele não ouve nada — disse Gucky, para mudar de
assunto, quando Ataka transpôs as primeiras ondas mais fortes para
penetrar em água mais funda. Para isso, teve que andar uns cinqüenta
metros até que a água lhe chegasse à altura do peito. A onda o
suspendia e ele abanava a mão para terra, todo feliz.
— Está
mesmo convencido de que está de férias! — exclamou Gucky meio
invejoso.
De
repente, Ataka desapareceu. Mergulhou quase um minuto. Depois, seu
rosto sorridente apareceu fora d’água. Gesticulou excitado com as
duas mãos.
— Ouviu
os aquas — disse Marshall, transmitindo a mensagem telepática de
Ataka. — Mas não está entendendo nada, quem sabe está recebendo
um grande número de impulsos simultâneos que geram uma confusão.
De qualquer maneira já sabemos que eles se comunicam.
— Quem
sabe, os aquas são também telepatas? — indagou Gucky.
— Pouco
provável — respondeu Marshall. — Mas dentro em breve, saberemos
isto.
Ataka
continuava acenando. Quando o japonês voltou de outro mergulho,
Marshall disse entusiasmado:
— Está
sentindo impulsos mais fortes. Já o perceberam lá embaixo.
Todos
ficaram olhando. A uns duzentos metros da praia, listras de espuma
sulcavam a superfície da água. Quatro ou cinco listras rodeavam
Ataka, que parecia estar boiando. As ondas às vezes lhe chegavam até
o pescoço, outras somente até a cintura. As cinco listras prateadas
o cercavam e a espuma havia desaparecido. Diante de Ataka surgiu
então um corpo comprido, semelhante ao de uma foca, pôs-se em
posição vertical e começou a gesticular com um braço em forma de
nadadeira. Podia-se ver nitidamente a boca oval.
— Aquas!
— disse Marshall. — Exatamente como Tifflor descreveu. Depende
agora se Ataka pode compreendê-los.
Hesitou um
pouco, depois confirmou:
— Foi
feito o contato, mas... Gucky, dê um pulo na Centauro e traga-me
André Noir.
— Noir?
— perguntou Deringhouse. — Que vamos fazer com um hipno? Será
que pretendemos hipnotizar os aquas?
— Não,
mas com o auxílio dele, poderemos nos fazer compreender. Os
homens-peixes não são telepatas e ninguém entende a linguagem
deles. Noir poderá sugerir a esses seres nossas intenções.
— Está
certo — concordou Deringhouse. — Mas, cuidado, Gucky. Não se
esqueça de que Lamanche já... — e parou por aí.
O
rato-castor já tinha sumido. Suas pecadas na areia de repente
sumiram. Deringhouse estava furioso.
— Ele
nem espera que eu termine minha ordem.
— Realmente
não é necessário esperar, se ele pode ler os pensamentos — disse
Marshall. — Além disso, não temos tempo a perder.
Ataka,
nesse ínterim, conversava com os cinco homens-peixes, mas
aparentemente sem resultado. Apontava sempre para a praia e devagar
foi se encaminhando para lá. Hesitando um pouco, eles o seguiam.
Deringhouse
e Marshall olhavam estupefatos. Quando o japonês atingiu a praia e
se virou para trás, os cinco aquas também pararam. A água lhes
chegava até a metade do corpo. Este brilhava com as escamas
prateadas recebendo os raios do sol da última parte da tarde.
Deringhouse gostaria de saber se possuíam pés.
Ataka
acenou para seus novos amigos. Caminharam mais para frente,
desajeitados e vagarosos, até a praia.
Os aquas
não possuíam pernas, mas uma possante cauda para nadar, parar e
mudar de direção.
Marshall
ficou na escuta. De repente murmurou:
— Seus
impulsos mentais são bem fortes. Consigo receber seus fluxos. Baixo,
mas perceptível. Ah! Se Noir já estivesse aqui. Gostaria de saber
por que Gucky demora tanto.
Ataka na
praia, apontava mais para cima, onde estavam Deringhouse e Marshall.
Os aquas volveram os olhos brilhantes na direção dos dois homens,
que lhes deviam parecer completamente estranhos.
— Os
aquas podem agüentar duas ou três horas fora da água — disse
Marshall. — São pacíficos, mas não sabem como chegamos ao seu
mundo. Acham que somos seus aliados e não vão muito com os
tópsidas. Já é tempo de nós lhes dizermos a verdade.
Neste
exato momento, Gucky se materializou, trazendo André Noir.
— Conseguimos
sair, antes que Lamanche partisse. Ele deu um susto nos tópsidas e
aniquilou toda a instalação de tração magnética — disse o
rato-castor.
Deringhouse
suspirou contente.
— De
novo uma expressão de Bell, se não me engano. Pois bem, Noir,
mostre juntamente com Marshall, que está fazendo o papel de
anfitrião, um congraçamento com os aquas.
E assim
foi feito.
Marshall
recebia os impulsos mentais e os traduzia.
André
Noir lia o pensamento dos homens-peixes como uma espécie de quadro
mental, que era entendido facilmente. Era um pouco demorado, mas
sempre com resultado positivo.
— Vocês
são estranhos neste mundo?
— Sim,
viemos das estrelas, onde está nossa pátria.
— E por
que vieram?
Deringhouse
que ouvia e dirigia a conversa, mandou dizer:
— Para
avisar vocês e para os ajudar. Mas permitam uma pergunta: Os sáurios
são seus amigos? Deram permissão a eles para viver num lugar que
pertence a vocês?
A resposta
veio imediatamente:
— Não,
não pediram licença. Vieram há muitos dias e muitas noites e
construíram suas casas. Como é que nos poderiam pedir licença, não
nos entendem, nem nós a eles.
— Vocês
gostariam que fossem embora daqui?
— Claro
que gostaríamos. Mas como podemos expulsá-los, se não temos armas?
— Podemos
ajudar vocês?
Houve
então uma pausa e depois a resposta demonstrou que os aquas eram
inteligentes, mas também desconfiados.
— E o
que devemos lhes dar em retribuição?
Deringhouse
deu uma risada.
— Somente
uma coisa: sua amizade. Vamos comerciar com vocês, trocar
mercadorias e construir uma pequena base para que os sáurios não
voltem mais.
— Os
sáurios nunca comerciaram conosco. Pois bem, estamos de acordo.
Vamos avisar nossos chefes.
— Mais
uma coisa — Deringhouse se lembrou do mais importante. — Os
sáurios prenderam dois dos nossos homens, queremos libertá-los, mas
sem o auxílio de vocês será difícil. Querem nos ajudar?
— Vimos
os prisioneiros, estão no castelo de água dos sáurios. Vocês
podem viver debaixo d’água?
— Não,
precisamos de ar para respirar. Debaixo d’água nós morremos.
— Ar? —
veio o impulso de pensamentos e depois: Está bem. Vamos cuidar
disso. Esperem-nos amanhã cedo neste mesmo local. Quem sabe
arranjamos uma solução.
— Quando
nossa grande espaçonave chegar, teremos também uma solução —
respondeu Deringhouse. — Está bem, nos encontraremos amanhã,
quando o sol raiar, neste local. Esperamos por vocês.
— Haveremos
de estar aqui — prometeram os aquas, acenando mais uma vez para os
homens, olhando curiosos por uns instantes a figura do rato-castor.
Depois desapareceram.
Por algum
tempo, ainda se podia ver o reflexo prateado à flor d’água.
Quando os homens-peixes mergulharam definitivamente para o fundo do
mar, o brilho sumiu.
Gucky os
estava acompanhando:
— Que
vida boa que eles levam, nunca sentem sede!
Deringhouse
olhou para o horizonte. Grande e avermelhado, o sol Beta se preparava
para desaparecer atrás das ondas do mar. O céu tinha uma coloração
rosa, verde e roxo. O firmamento se abria como uma cortina de fogo,
num espetáculo completamente diferente do pôr do sol na Terra.
— Amanhã
— disse Deringhouse — amanhã saberemos mais.
— Ficaremos
aqui? — queria saber Marshall.
— Sim,
dormiremos no carro.
— Não é
necessário — disse o telepata sacudindo a cabeça. Eu vou com o
Gucky buscar a Gazela de McClears. Temos tempo a noite toda.
Deringhouse
concordou.
— Então,
eu e Ataka vamos tomar um banho com calma, até que vocês voltem.
Você também, Noir?
Gucky
lançou um olhar desesperado para Marshall, mas quando este sacudiu a
cabeça com seriedade, Gucky avançou para o telepata e o abraçou,
desaparecendo com ele.
A vida de
oito homens estava em jogo.
5
Antes que
ficasse mais escuro, a Gazela aterrissou com Marshall e Gucky a
bordo, bem perto da viatura camuflada. A ação se deu no momento
exato, pois, após a destruição do primeiro ponto de apoio e da
terrificante investida da Centauro, que transformou todo o planalto
em lava incandescente, os tópsidas deram o alarme geral. Suas
belonaves surgiram de todos os cantos do “mundo
d`água”
e se reuniram num ponto a oitenta quilômetros da ilha metálica.
Logo se
deu o ataque à Gazela, que foi naturalmente repelido. Antes que se
iniciasse o segundo, mais pesado, apareceram Gucky e Marshall. O
pequeno aparelho partiu e desapareceu na penumbra. Como voasse a
baixa altitude, seus perseguidores não o conseguiram localizar no
radar.
Deringhouse
mandou camuflar o pequeno aparelho numa clareira da floresta, de
sorte que ninguém o percebesse. Um breve rádio para a Terra era
suficiente para dar a localização exata. Já era noite, Deringhouse
fez uma ligação para a Centauro.
— Alô,
Lamanche! Onde é que você está?
— Em
órbita, senhor, esperando pela ordem de atacar.
— Não
vai ser tão breve. Fique por aí e mantenha contato com a Terra.
Proteja-se dos ataques dos tópsidas, mas fique onde está. Ainda
temos de liquidar uns assuntos aqui embaixo.
— Entendido,
senhor; se precisar de algum auxílio...
— Não
se preocupe, Lamanche. Estamos com Gucky aqui. Fim.
Desligou o
aparelho e desceu da Gazela pulando na areia macia, quase pisando na
cauda de Gucky.

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