Ralv olhou
para ele com atenção, depois acrescentou:
— Acontece
o mesmo com Rendex, hoje. Estive em sua casa agora, aliás ele
pertencia ao seu pelotão de estivadores. Será uma casualidade?
— Como?
— O fato
de ele estar em condições idênticas a você.
Geragk
fitou Ralv.
— Alguma
coisa aconteceu no navio, mas eu não me lembro o que foi. Como é
que a gente pode esquecer uma coisa assim? Certamente me lembrarei
depois, mas por enquanto, não me lembro de nada. Que coisa
esquisita.
Ralv mudou
de assunto.
— Nossos
elementos de ligação conseguiram capturar um robô de vigilância e
estrangulá-lo...
— Vocês
assassinaram um deus de metal?
— Não
diga besteira. Você sabe tão bem como eu que toda esta história de
deuses e de deuses de metal é bobagem. Os tais deuses são seres
humanos como nós, possuem naves espaciais com as quais podem voar de
estrela para estrela. É apenas isso. São aventureiros que exploram
a nossa ignorância. Com sua superioridade tecnológica conseguiram
escravizar nosso mundo. Haveremos de expulsá-los do planeta de
Goszul, como chamam nosso mundo.
— Mas
capturar um deus de metal, um robô... O prejuízo não vai provocar
a ira dos deuses? Haverão de nos perseguir com estas máquinas de
combate.
Ralv dava
a impressão de ser dono de um grande segredo.
— Talvez
você não saiba ainda, mas nós conseguimos aliados inesperados. Há
algum tempo, estão aqui no nosso mundo estranhos que também
combatem os deuses e lhes infligem pesados danos.
— Estranhos?
— perguntou Geragk, ficando de um momento para o outro muito
pensativo. — Como pode acontecer que esta palavra me faz sentir
algo diferente? Não estive ocupado hoje com estranhos?
Meneou a
cabeça e cerrou os punhos.
— Então?
— perguntou Ralv. — Não se lembra de nada ainda?
— Preciso
dormir, Ralv. Quem sabe amanhã minha cabeça ficará mais clara.
Tenho pressentimento de que é coisa muito importante mesmo. Fora
disso, que é que aconteceu mesmo com o robô que vocês pegaram?
— Que
aconteceu com ele? Examinamos seu interior e constatamos que se trata
de uma simples máquina. Em caso de necessidade poderemos também
construir tais artefatos, se tivermos as máquinas para isso, o que
não levará muito tempo. Se quisermos expulsar os deuses, temos que
tomar suas fábricas e fazer nossas espaçonaves, com as quais
atingiremos as estrelas.
— Temos
as bases indispensáveis para tais empreendimentos?
— Está
tudo preparado. Já podíamos ter começado esta noite, se Enzally
não nos tivesse chamado a atenção.
— Enzally?
Que quer o vidente?
— Devíamos
chamá-lo propriamente de o receptor, pois ele pode ler o pensamento
de outros homens, mas não apenas o pensamento dos homens, mas o dos
chamados deuses, também. E o dos estranhos.
— Dos
estranhos? Terá ele ligação com os estranhos?
— Pequena
e por poucos momentos. Ele interceptou uma conversa telepática. Os
estranhos devem ser também leitores do pensamento. Mas quando ele
interveio, as correntes de pensamento se dissolveram e não ouviu
mais nada. Uma coisa, no entanto, ele ficou sabendo: Os deuses são
também os adversários dos estranhos. Ocuparam seu planeta natal,
mas foram expulsos. Vieram para cá para destruírem uma assembléia
geral dos deuses, que chamam, aliás, de saltadores. Nós mesmos já
presenciamos como eles foram em parte bem sucedidos.
— Aliados
— raciocinou Geragk. — Nunca poderíamos ter contado com amigos e
agora de repente os temos. Mas por que não se apresentam? Por que se
escondem e não nos procuram?
— Terão
seus motivos. Enzally tenta entrar em contato com eles, até agora
sem resultado. Ele me avisará quando souber de alguma coisa. Você
compreende, nossa situação não é desesperadora, mas é mais
prudente que aguardemos um pouco.
— Se os
deuses já não estiverem cientes de tudo, em virtude do
desaparecimento de um de seus robôs.
— Temos
que contar com isto — disse Ralv levantando-se. — E procure se
lembrar do que aconteceu hoje no barco. É muito singular que todos
que estiveram sob seu comando hoje, estão sofrendo de perda da
memória. Há alguma lebre escondida por aí.
Geragk
abriu-lhe a porta.
— Mas
que será? — disse ele, sem esperar nem receber resposta.
*
* *
A notícia
da extraordinária batalha entre um animalzinho e sete robôs de
combate penetrou também nos ouvidos dos rebelados clandestinos. Em
toda parte, nos centros da administração, estavam os goszuls que
davam apoio ao trabalho dos cérebros positrônicos e da
multi-ramificada automatização, graças aos ensinamentos hipnóticos
que haviam recebido. Alguns deles tinham tomado conhecimento da ordem
de ataque repentina dada antes do meio-dia e da destruição dos sete
robôs de combate.
E um pouco
mais tarde, uma outra notícia provocou enorme perplexidade — mas
não somente entre os goszuls, mas principalmente nos círculos
governamentais dos saltadores. A companhia dos goszuls destacada para
o rio, não estava mais dando nenhuma atenção à missão recebida,
ao invés, após a destruição dos robôs, se retirara e se
encontrava agora a caminho do porto marítimo. O que iria fazer lá e
quem lhe dera ordem para isto, ninguém conseguia saber.
De
qualquer maneira, assim que Ralv soube da novidade, procurou
imediatamente seu colega Geragk, que não tendo recebido neste dia
nenhum comando, ainda estava em casa.
— Não
sei o que aconteceu, mas acho absolutamente necessário que nos
preocupemos com os nossos. Não quero acreditar que alguns dos nossos
subordinados resolvam agir sozinhos. Não vão ter nenhuma chance com
os robôs de combate.
Geragk,
que ouviu calado o relato, disse pensativo:
— Como
era este indivíduo que lutou com os robôs e os venceu. Não era
nenhum ser humano?
— Nem
goszul, nem saltador, nada. Era um animal.
— Um
animal jamais poderá destruir robôs — disse Geragk, sem
compreender nada. — Ou será um destes estranhos de quem falou
Enzally?
— É
possível — continuou Ralv. — Você me acompanha?
Os dois
homens saíram apressadamente da casa e pegaram o primeiro carro para
levá-los à região do porto. A companhia ainda estava a caminho,
não tinha, porém, alterado a direção. Se mantivessem o mesmo
ritmo de marcha, chegariam ao porto somente ao raiar do dia seguinte.
Portanto, se não quisessem levantar suspeitas, deviam esperar pelo
menos até este momento.
A tarde e
a noite já tinham passado. Haviam se escondido na casa de um amigo,
que também pertencia à organização secreta. Um mensageiro estava
a caminho para pôr Enzally a par de tudo. Ele poderia estar de volta
em três horas, se não o detivessem.
O tempo
passava lentamente.
Não
percebiam nada da atividade febril que, entrementes, tomara conta das
Centrais de Vigilância. Rádios cruzavam a Terra dos Deuses, em
todas as direções e davam conta às esferas governamentais dos
saltadores dos inexplicáveis acontecimentos. No momento, uma
recém-fabricada unidade de robôs de combate estava deixando a
fábrica e marchando em direção ao porto. Chamar forças que
mantinham o controle do espaço, parecia muito arriscado para os
dirigentes dos saltadores.
Quando o
dia clareou, o porto parecia um acampamento militar. Em toda parte,
nos entroncamentos mais importantes, havia robôs de combate
controlando todo o trânsito de viaturas. Os goszuls, já
acostumados, suportavam pacientemente o controle dos saltadores e se
comportavam com muita disciplina.
O telepata
Enzally conseguiu penetrar na cidade quase despercebido, sem causar
suspeita a ninguém. Sua mente perscrutadora localizou Ralv e Geragk.
Momentos depois, batia ele à sua porta.
Os dois
amigos respiraram tranqüilos quando reconheceram o homem tão
importante. Encheram-no de perguntas, mas o velho telepata levantou
suplicante as duas mãos e sorriu. Sentou-se na cabeceira de uma cama
e disse:
— Dêem-me
um momento para descansar, meus amigos, tenho atrás de mim uma longa
caminhada, e não foi fácil chegar até aqui. Os saltadores estão
irrequietos; estão vendo que não os chamo mais de deuses. O motivo
é simples de se explicar: Tive um novo contato com os estranhos.
Estão bem perto daqui, talvez mesmo na cidade.
— Aqui
na cidade? — irrompeu Ralv e tinha dificuldade de dominar sua
surpresa. — Onde?
— Saberemos
logo, pois me pediram para hoje cedo entrar de novo em contato com
eles. Não sei quantos são, mas pelo menos dois deles são telepatas
como eu.
Geragk
estava sentado num canto e fixava um ponto na parede, parecendo fazer
um esforço muito grande de concentração. Enzally lançou-lhe um
olhar rápido e fez um gesto para deter Ralv, que parecia querer
falar alguma coisa. O telepata inclinou um pouco a cabeça e fitou
Geragk com insistência.
De repente
falou:
— Vou
ajudá-lo, Geragk, para refrescar sua memória; talvez consigamos
saber mais alguma coisa. Que aconteceu ontem no navio?
Ralv
compreendeu imediatamente e ficou esperando. Sabia que Enzally estava
penetrando nos pensamentos de Geragk e quem sabe conseguiria o
telepata ativar a memória apagada.
— Esquisito
— murmurou Enzally subitamente. — É como se houvesse um véu
diante dos seus pensamentos, posso até percebê-lo fisicamente. Não
é de origem corporal. Unicamente um outro telepata, ou força
semelhante, talvez um sugestor, poderia tê-lo colocado para amarrar
sua memória. Ontem você esteve no barco que estava no porto? E lá
aconteceu alguma coisa? Que foi? Não, não precisa falar, isto cansa
muito. Basta somente pensar, pensar. Sim, está melhor. Estranhos
estavam a bordo? O capitão disse a você? Quatro homens estranhos,
que se pareciam com os deuses? E você se dirigiu a eles; e acabou
tudo? Você não se lembra de mais nada?
Enzally
respirou profundamente e apoiou as costas na parede, sem tirar os
olhos de Geragk.
— Olhe
para mim. Geragk. Estes quatro homens, você os viu bem? Que disseram
a você? Sim, pode se lembrar se quiser. Isto, isto, agora está se
lembrando. Foram eles que lhe deram a ordem de esquecer tudo, a você
e a todos do comando. Vocês todos esqueceram o que viram. Estes
quatro homens são os estranhos que procuramos, são nossos aliados.
Geragk
parecia como que saído de um sonho. Os olhos arregalados fixavam o
vazio. Depois, abanou a cabeça.
— Tem
razão, Enzally. Os quatro estranhos estão no navio. Lembro-me
agora, deram a mim e aos meus a ordem de esquecer tudo. Por que isto,
se eles são nossos amigos?
Enzally
sorriu.
— Você
se esquece que no barco havia também robôs. Que aconteceria se
desconfiassem? São somente quatro homens, contra um mundo todo.
Devem ser precavidos. Mas tenho a impressão que procuram amigos.
Havemos de descobrir isso logo.
— Quando?
— perguntou Ralv que até então se mantivera calado.
Enzally
ergueu a mão direita.
— Agora
— murmurou, dando a entender aos dois homens que deviam ficar
calados no momento. Sentado na cama, completamente calmo e imóvel,
ouvia seu próprio íntimo.
Demorou
quase uns dez minutos. Nem Geragk, nem Ralv podiam imaginar o que
estava acontecendo naqueles dez minutos. Sabiam que seu telepata
estava conversando com alguém, mas não podiam entender nenhuma
palavra deste diálogo.
Finalmente
Enzally abanou a cabeça muitas vezes para frente, olhou em redor e
disse:
— Preparem-se,
amigos, vocês vão me acompanhar. Acho que a batalha vai começar.
Geragk
sabia a resposta, mas assim mesmo perguntou:
— Para
onde vamos?
— Para o
porto, um navio nos espera lá.
*
* *
O capitão
do veleiro estava convencido firmemente de ter agido por sua própria
vontade, quando permaneceu no porto, ao invés de ir embora, como
prescrevem as normas. Não podia saber por que agira assim. Kitai
tinha arranjado tudo para que suas ordens fossem executadas e o
efeito de seu sugestionamento durasse um pouco mais.
A figura
do japonês, levemente recurvada, se encostava na balaustrada. Fazia
a guarda, enquanto John Marshall e os dois outros mutantes revistavam
com toda calma o armamento que Gucky trouxera. Na cabina havia lugar
suficiente para colocar tudo em ordem.
O próprio
Gucky estava ajudando Kitai em sua missão de aguardar a chegada dos
três goszuls. Estava lá sentado, com seus sensores telepáticos à
espera. Não demorou muito para que, entre os milhares de impulsos
que fluíam em sua direção, pudesse selecionar os certos e
isolá-los. Com muita dedicação, ouviu a conversa de Enzally, Ralv
e Geragk, quando estes se dirigiam para o porto e com muito jeito
evitavam o controle dos robôs de vigilância, o que nem sempre era
fácil. Pois, nem mesmo um telepata como Enzally conseguia captar os
pensamentos dos robôs.
A lealdade
dos três goszuls era inconteste. O simples diálogo, quase à
surdina, que Gucky estava captando, era uma prova suficiente. O
rato-castor se teleportou para junto de Kitai, que levou um susto
quando Gucky se materializou ao lado dele.
— Já
estão chegando.
Kitai
suspirou.
— É
absolutamente necessário que você ainda sobrecarregue mais meus
pobres nervos já em pandarecos? Não pode andar meia dúzia de
passos, como um homem ajuizado?
— Não
sou homem — respondeu Gucky triunfante. Seu orgulho neste ponto era
um fato. — Por que devo fazer força, quando tudo pode ser mais
fácil?
Kitai
sorriu.
— Quando
houver oportunidade, vou sugestioná-lo de que é uma galinha. Talvez
cheguemos então a ter um ovo fresco.
Gucky
contraiu a fisionomia, murmurou algo ininteligível e apontou para o
porto.
— Lá
vêm os três, está vendo? O mais velho deles é o telepata Enzally,
com quem John já manteve muitas conversas. O da direita deve ser
Ralv, o chefe dos rebeldes. Logicamente, o da esquerda deve ser o
nosso amigo Geragk, que você já teve em tratamento.
Kitai
reparou como os três homens, com muita habilidade, se esquivaram de
um robô de vigilância e depois simularam ter um trabalho muito
importante para realizar no porto. Passando pelos depósitos,
aproximaram-se do cais, onde estava o veleiro. Enquanto caminhavam,
cumprimentavam naturalmente alguns goszuls que os olhavam com
curiosidade.
Gucky,
excitado de contentamento, escondeu seu dente de roedor e chiou:
— Vou
avisar os outros. Não é exatamente necessário que os três
negociadores vejam imediatamente todo o nosso arsenal de munição.
Com este tempo bonito, podemos conversar no tombadilho. Que pensa
você?
— Procure
saber primeiro o que John pensa a respeito. Ele é o nosso chefe.
— Também
o meu? — disse Gucky admirado — e desapareceu.
Preferiu
de novo poupar suas forças corporais.
Kitai
concentrou toda a sua atenção nos rebeldes, que, meio indecisos,
estavam parados diante do portão de entrada, que ligava o navio com
o cais. Levantou-se e acenou para eles.
Enzally
correspondeu à saudação e caminhou para frente.
John
Marshall e seus companheiros aguardavam os hóspedes no convés
superior. Com auxílio dos meios que possuíam, conseguiram alterar
finalmente sua fisionomia. Pareciam agora goszuls normais e não mais
se assemelhavam aos saltadores. Já era chegada a hora em que não
precisavam mais andar incógnitos entre os comerciantes das galáxias,
pelo contrário, queriam passar por nativos, pelo menos perante os
saltadores.
Gucky se
manteve um pouco nos fundos. Devia aparecer somente mais tarde — e
o rato-castor planejava fazer isto de uma maneira muito marcante.
Enzally e
John se mediram com olhares perscrutadores. Invisivelmente, seus
pensamentos iam e voltavam, pesquisando, perguntando e dando
respostas, após o que Enzally estendeu ambas as mãos e caminhou de
encontro a John.
— Bem-vindo,
filho de um mundo estranho — disse ele no mais puro Intercosmo,
língua de comunicação dos saltadores e também do Império
Arcônida. — Vieste para nos ajudar, vejo que não mentes.
— Estamos
felizes por não estarmos mais sozinhos — afirmou Marshall,
cumprimentando também os dois companheiros do telepata. Apresentou
depois os três japoneses. — Sentemo-nos aqui, ninguém nos
perturbará e podemos, além disso, supervisionar todo o porto.
Suponho, Enzally, que temos muitas coisas a debater mutuamente.
Sentaram-se
nos rolos das amarras e em esteiras. No céu brilhava um sol quente,
no porto havia pouco movimento. O aparecimento súbito dos muitos
robôs de vigilância era coisa comum, mas o fato de haver robôs de
combates em todos os pontos estratégicos provocava um ar de
desconfiança.
— Quereis
saber, certamente, alguma coisa sobre a nossa organização — disse
Enzally objetivamente. — Ralv é a pessoa indicada para explicar
isto, é seu fundador e chefe.
Ralv
abanou a cabeça orgulhoso e disse:
— Faça
perguntas, senhor, e eu responderei.
John fez
sinal que concordava.
— Permaneçamos
no tom confidencial, como convém aos conspiradores e seus aliados,
Ralv. Minha primeira pergunta a você é: Qual é a força do seu
grupo de resistência? Com quantos elementos conta?
Ralv fez
uma cara de surpresa.
— Honestamente
falando, não sei exatamente. O conjunto das circunstâncias exige,
em benefício da segurança própria, que não tenhamos uma
organização como deveria ser. Só posso dizer que temos aliados em
toda parte, que gostariam que os deuses desaparecessem hoje e não
amanhã. Nem todo mundo está pronto para lutar por estes ideais e
abdicar desta vida relativamente cômoda e segura ou até mesmo para
correr o risco. Eles... você compreende, como estou pensando?
John fez
que sim, mas não disse nada. Ralv continuou:
— Temos
nossa senha. “Queremos
caminhar com segurança”,
assim dizemos. Se recebermos a resposta correspondente, sabemos que
estamos lidando com um membro de nossa organização.
— Isto
não é um pouco perigoso?
— De
maneira alguma, não há traidores no meio dos goszuls, há no máximo
covardes.
— O
senhor poderia, por favor, me explicar qual é neste caso a
diferença?
Enzally se
intrometeu:
— Eu
posso explicar? Nenhum goszul irá para os saltadores, por motivos
egoísticos, para lhes dizer que existe um grupo de resistência.
Independente do fato de que a ira de seu próprio povo o haveria de
atingir, pois os saltadores não os protegeriam. Mas nós temos muita
gente a quem agrada a vida que levam; estes jamais se revoltarão
contra os saltadores, mas também não trairão os lutadores da
resistência. Estes são os tais que chamamos de covardes.
— E se
alguém os obrigar a trair seus patrícios?
Enzally
sorriu friamente.
— Estamos
acostumados a suportar qualquer sofrimento e, em caso de necessidade,
suportamos até a morte, mas não abrimos a boca.
Quem ria
agora era John, mas era um sorriso de reconhecimento.
— Neste
caso, eu não os chamaria de covardes, Enzally. São corajosos, mas
não conseguem tomar uma decisão. É só isso. Não os condenemos.
De qualquer maneira, não representam um empecilho. É isto que eu
queria saber.
— E sua
segunda pergunta? — perguntou Ralv.
— Existem
rebeldes só aqui nesta cidade ou também em outras?
— Toda a
Terra dos Deuses está cheia de rebeldes, esperando apenas por um
comando para caírem em cima dos, assim chamados, seus senhores.
Possuem até ferramentas com que atacam e deixam fora de combate os
robôs.
— Mesmo
robôs de combate?
Ralv fez
uma cara triste.
— Ainda
não, infelizmente. Mas quando ocuparmos as máquinas e as fábricas
haveremos de...
— As
fábricas estão guardadas pelos robôs de combate — interrompeu
John seriamente. — Você vê que não se pode contar este ponto
como realizável. Temos que proceder de outra maneira se quisermos
liquidar os saltadores e seus robôs.
— Como?
— perguntou Ralv perplexo.
— Por
que estamos aqui reunidos? Vejam bem, os robôs são seus senhores,
porém são ao mesmo tempo servos dos saltadores, que vocês chamam
de deuses. Expulsemos, pois, os saltadores deste mundo, que eles
então deixam para trás seus robôs, que em virtude de sua
programação continuam nossos inimigos figadais. Mas isto não é
problema insolúvel, pois, sob certas condições, os robôs podem
ser desprogramados. Se os saltadores desaparecerem, a maior batalha
já está ganha.
Ralv
sorria incrédulo, do mesmo modo como Geragk. Enzally, porém,
parecia compenetrado em seu íntimo, demonstrando na fisionomia
traços de preocupação.
— Temos
os meios e um plano para realizarmos o incrível — continuou John
e, olhando para Ralv: — Para execução deste plano, preciso de seu
apoio e de sua confiança ilimitada.
— Se
Enzally confiar em você, nós também confiaremos — disse Ralv
simplesmente. — Ele pode ler seus pensamentos e sabe que você não
está mentindo.
— Eu
também sou telepata e posso proteger meus pensamentos — avisou
John. — Posso mesmo lhe impingir pensamentos falsos. Meu amigo
Kitai é um sugestor, pode impor a vocês todos a vontade dele e
vocês pensarão que é a vontade de vocês mesmos. Estão vendo que
a sua confiança tem que ser muito maior do que supõem. Você tem
realmente a certeza de encontrar em nós seus legítimos aliados?
Ralv
abanou a cabeça afirmativamente, sem pestanejar.
— Certamente,
pois você não nos contaria tudo isto, se pretendesse fazer um jogo
sujo. Diga-nos, pois, o que devemos fazer.
John
Marshall não precisava pesquisar os pensamentos de seu interlocutor
para perceber a veracidade de suas palavras. Mas devia agir com muita
prudência, pois se Ralv soubesse o que se iria exigir dele e de sua
gente, talvez ficaria indeciso.
— Pode
ser — disse ele, transmitindo ao mesmo tempo a Enzally o seguinte
comando mental: “Você
deve calar a boca agora, pois não quero proteger meus pensamentos.
Você poderá lê-los abertamente. Não se espante, quando souber da
verdade. Mais tarde conversaremos mais.”
Mais alto, disse ele a Ralv: — Pode ser que minhas ordens lhe
pareçam desumanas e cruéis, principalmente porque atingem seus
próprios amigos. Muitos deles terão que se declarar prontos para
adoecer espontaneamente.
— Para
ficar doente? — disse Ralv perplexo.
— Você
já deve ter compreendido há muito tempo, que é meramente
impossível expulsar os saltadores para fora daqui à força. Minha
raça, que está em estado de beligerância com os saltadores, não
pode oficialmente se intrometer nestes assuntos dos comerciantes,
portanto, temos que permanecer incógnitos. Por outro lado, vocês
são demasiadamente fracos para se lançarem abertamente contra eles.
Temos, portanto que usar de astúcia.
— Até
aqui, só posso concordar — disse Ralv.
Também
Geragk fez sinal que sim. Enzally continuava de cócoras, imóvel,
concentrado em si mesmo.
— Uma
astúcia, portanto — continuou John, escolhendo palavras para expor
seu intento aos goszuls, o mais suavemente possível. — Os
saltadores só conhecem a violência, quando se trata de atingirem
seu objetivo. Haveriam, pois, de defender este planeta com violência,
se tivessem que defendê-lo de um ataque. Que fariam, porém, se
fossem atacados por algo completamente desconhecido a eles? Digamos,
por exemplo, por uma doença, por uma terrível epidemia?
— Uma
epidemia? — Ralv se assustou, apesar de tudo. — Você supõe que
uma epidemia poderia expulsá-los? E quando isto acontecesse, de que
nos serviria um planeta devastado pela epidemia? Morreríamos todos
juntos.
— Trata-se
de uma epidemia sem desfecho mortal — consolou John. — Mais
ainda, possuímos um antídoto que produz efeito imediato. Uma única
injeção é suficiente para deixar o doente, quase que imediatamente
após, completamente curado.
O chefe
dos rebeldes concordou lentamente.
— Se
estou compreendendo bem, vocês querem travar uma guerra
bacteriológica com os saltadores.
— Não
apenas com os saltadores; em certo sentido, também com os goszuls.
Um manto
de sombra encobriu a fisionomia do interlocutor. Abanou a cabeça
confuso.
— Não
estou compreendendo. Por que também contra nós, se a questão toda
é expulsar os saltadores?
— Aí
está a astúcia. Se os saltadores apenas suspeitarem de que se trata
de uma epidemia artificial, que tem unicamente a finalidade de
expulsá-los daqui, haverão de procurar antídotos e não sairão
deste planeta. Não, no nosso plano de ação, temos que dar a
impressão, em quaisquer circunstâncias, de que se trata realmente
de uma verdadeira epidemia, surgida de repente neste planeta, para a
qual não há cura. Somente assim é que conseguiremos que eles fujam
do planeta dos goszuls, para nunca mais voltarem. Sua fuga deve se
desenrolar com tanto pânico e afobação que deixem aqui
simplesmente suas instalações técnicas e seus robôs, para não
levarem também para o espaço a terrível doença.
Ralv e
Geragk cruzaram seus olhares. Finalmente, falou Ralv:
— Mas
não morrerá ninguém e mais tarde todos ficarão curados?
— Naturalmente,
a epidemia é extremamente contagiosa e devemos contar com que quase
a metade da população seja atingida por ela, porém ninguém
morrerá, pelo contrário. No meu planeta natal, comprovou-se, com a
experiência que lá fizemos, que depois da cura surgiram efeitos
benéficos. É como o soro antídoto, que no fundo não é outra
coisa senão uma doença que faz bem. Primeiramente fica-se com
febre, para depois cair num sono de convalescença, para acordar
depois completamente são. Assim será também com a nossa epidemia
artificial. Assim que os doentes tomarem mais tarde a injeção,
dormirão e acordarão com saúde. Com um detalhe: após este
tratamento, sua inteligência aumentará em pelo menos 20%. É uma
vantagem que virá em benefício de toda a sua raça.
Enzally
ergueu de repente os olhos.
— John
Marshall, você não quer dizer a Ralv e Geragk em que consiste
propriamente esta epidemia? Acho que eles têm o direito de saber
isso.
— É
claro que tenho a intenção de lhes contar tudo. Seria, porém,
taticamente muito importante que, fora de nós, ninguém soubesse que
esta epidemia realmente não prejudica a ninguém. Somente o medo
sincero dos nativos pode convencer os saltadores de que a epidemia é
de origem natural — fez um sinal para Enzally e depois continuou,
virando-se para os dois outros goszuls, usando um timbre de voz
diferente: — Aparecem primeiramente no rosto da pessoa atingida
pela doença placas vermelhas, que depois se espalham por todo o
corpo. Após uma semana, mais ou menos, a memória começa a
enfraquecer, até desaparecer completamente. Outros sintomas não
existem. Assim que a injeção, com o soro, for aplicada, começa a
doença a desaparecer e em três dias está tudo normal. A memória
volta novamente, as placas vermelhas somem, e a inteligência começa
a trabalhar melhor que antes.
Ralv ficou
olhando por muito tempo para seu companheiro, antes de falar:
— É,
pois um estado passageiro, mais ou menos como um resfriado.
— Sim,
pode-se comparar com um resfriado, embora os sintomas externos sejam
muito mais assustadores. Mas tem que ser assim para atingir seu
objetivo. Agora, eu pergunto se está preparado para transmitir a
doença entre seu povo. A companhia que está marchando para cá vai
ajudar você. Ralv estarreceu e ficou pálido.
— O quê?
Quer que eu infeccione meu povo?
— É o
único modo de convencer os saltadores de que eles têm que deixar o
planeta, antes que a epidemia os atinja.
Ralv ficou
por uns momentos fitando a água turva do porto.
Finalmente,
virou-se para seu interlocutor e disse:
— Está
bem. Explique-me o que tenho que fazer.
4
Demorou
quatro semanas, mas aí estava o grupo de resistência de Ralv, como
uma unidade bem camuflada e excelentemente organizada. Seus agentes
estavam distribuídos por toda parte, nas Centrais de Administração,
em todas as instalações dos saltadores e de seus robôs.
A Terra
dos Deuses era um pequeno continente de, talvez, 120.000 quilômetros
quadrados. Seu comprimento tinha uns 500 quilômetros, com uma
largura em geral de 250. Os líderes dos saltadores residiam em
diversos lugares e mantinham contato entre si através do rádio.
Contatos com outros continentes do planeta eram muito raros. Os
saltadores não tinham realmente a intenção de se estabelecer aí.
Interessava a eles, primeiramente, um ponto de apoio, embora ninguém
tivesse nada contra os lucros que obtinham dos nativos.
John
Marshall mantinha diariamente contato com Enzally, por via
telepática, para estar a par dos acontecimentos. Um dos objetivos
destes contatos era o “Navio
dos Mortos”,
uma operação importante que daria início ao movimento contra os
saltadores.
Do sucesso
dessa operação “Navio
dos Mortos”
dependia o fato de os saltadores se deixarem contaminar —
contaminar de pânico, para abandonarem de uma vez por todas este
planeta que não lhes pertencia.
*
* *
Dos lados
do oeste, se aproximava da Terra dos Deuses um veleiro de porte
médio. Dos dois mastros pendiam as velas frouxas e em desordem, pois
a brisa era muito fraca, vinda do oeste, mal dando para mover o
barco. Navegava lentamente a uma distância de duzentos quilômetros
do litoral da Terra dos Deuses, aproximando-se do continente.
Algumas
figuras se moviam pelo convés, vagando de um lado para o outro, sem
nada fazer, embora até um cego pudesse ver que havia muita coisa
para fazer. Por todo canto havia sujeira. Nas escadas reinava
desordem e confusão. Peças de roupas, dependuradas sem sentido,
balançavam num vento fraco que não refrescava nada. Debaixo do
convés, as coisas não estavam melhores. Alguns marinheiros deitados
nos beliches primitivos de suas cabinas despertavam abobalhados e
ninguém se preocupava com eles e mesmo o capitão do quase
abandonado navio não ligava a nada, indiferente mesmo ao rumo que o
barco tomava. Estava de pé no tombadilho, atrás do timão,
mantendo-o relaxadamente com uma mão, enquanto seu piloto dormia lá
embaixo. Mas mesmo sem o leme, o barco se encaminhava para o leste.
Que pretendia ele na Terra dos Deuses?
O capitão
passou a mão pela testa, abandonando o timão. Sim, que queria ele
na Terra dos Deuses? Não sabia mais. Lembrava-se vagamente apenas do
irrompimento da peste há duas semanas atrás, quando deixavam o
porto do Continente do Oeste — com que objetivo, mesmo?
O primeiro
a ser atingido foi o cozinheiro, exatamente o cozinheiro.
Apareceram-lhe placas vermelhas no rosto e principalmente na nuca.
Isolaram-no imediatamente, mas já era tarde demais. Dois dias
depois, as misteriosas placas vermelhas se manifestavam, sem exceção,
em todos os membros da tripulação. Não havia propriamente dores,
mas uma febre baixa constante.
Somente
uma semana depois é que o cozinheiro perdeu a memória. Por mais que
os outros se esforçassem, não conseguia mais se lembrar quem ele
era. Sabia apenas que estava num veleiro e adoecera. A partir deste
ponto, sua memória funcionava de novo. Tudo que havia acontecido
antes simplesmente não existia.
Então,
também dois dias depois, todos os outros perderam a memória. Cada
um no navio tinha a impressão de ter nascido há uma semana atrás.
Exatamente há oito dias viera ele ao mundo, com uma inteligência
funcionando, porém, sem memória. Era esta a situação. Ou seria
talvez loucura?
O capitão
encolheu os ombros. Era-lhe mais ou menos indiferente o que estava se
passando. Não sabia por que se dirigia para o leste. Os porões de
carga estavam vazios, como se tivesse que apanhar alguma coisa na
Terra dos Deuses. Mas onde e o quê? Não sabia nem mais de que porto
havia partido. Nenhuma resposta.
Olhou lá
para baixo, para o convés, observando aquelas figuras que se moviam
atônitas e que representavam sua tripulação. Que poderia fazer com
eles? Uma pessoa sem memória é como uma criança, apenas com muito
menos inteligência. Podia censurá-los? Que iria acontecer com eles?
Quando
chegassem a um porto, todo mundo não fugiria deles, como se foge da
peste? Não seriam presos ou mesmo liquidados, para que a peste não
contaminasse os outros? Peste que não tinha cura... para a qual não
havia remédio.
Pelos
lados do leste, bem distante no horizonte, surgiu um ponto que se
aproximava rapidamente. O capitão do veleiro comprimiu os olhos,
tentando distinguir quem vinha ao seu encontro. Um veleiro não podia
ser, de modo algum, seria então um destes barcos dos saltadores que
viajavam sem vento. E era exatamente isto.
Se
descobrissem o que se passava aqui no navio, haveriam de chegar à
idéia de afundar aqui mesmo o veleiro, para evitar a propagação da
epidemia.
Mas,
apesar de ter perdido a memória, a inteligência do capitão
trabalhava muito mais firme do que antes. O primeiro efeito positivo
da epidemia já estava se manifestando. A quota de inteligência do
capitão tinha aumentado. Mais tarde, quando recebesse o soro de
regeneração, este efeito ficaria para sempre.
Como é
que sabia da existência da Terra dos Deuses e dos próprios deuses?
Quando o
esguio contratorpedeiro se aproximou e se encostou a bombordo, o
capitão já sabia como iria salvar a si e a sua tripulação. Mas
seu temor foi sem fundamento.
O saltador
que se encontrava a bordo do contratorpedeiro não pensava em afundar
o veleiro com sua tripulação contaminada. Ele estava é muito
curioso e queria saber exatamente tudo. As informações que recebera
da Central de Vigilância aumentavam seu interesse. Não podia supor
o que o estava esperando mas tinha a certeza de que se tratava de
algo muito importante.
Um grande
perigo se aproxima do oeste, era a comunicação da rádio dos robôs.
Este perigo estava a bordo de um veleiro cuja posição era
conhecida. Era indispensável uma severa investigação. Mais do que
isto, não sabiam os robôs.
O
governador, seu nome era Gorlap, não perdeu um minuto, mandando
preparar um contratorpedeiro. Ele, pessoalmente, iria ao encontro do
misterioso veleiro, para descobrir o que realmente era tão perigoso
nele. Puxa, um barco a vela, ser perigoso para os invencíveis
saltadores? Ridículo.
Não sabia
que haveria de mudar de opinião, em breve.
Deu ordem
a dez robôs de combate, para que, como vanguarda, entrassem no
veleiro, que aliás não dava o mínimo sinal de resistência. Pelo
contrário, os marinheiros que estavam na balaustrada assistiam a
tudo indiferentemente e nem se mexeram.
Os dez
robôs entraram a bordo, sem encontrar nenhuma resistência. Gorlap
não queria se arriscar, mandou também dez robôs de vigilância,
cuja inteligência era mais desenvolvida, embora não possuíssem
armas. Se houvesse alguma coisa errada em toda esta história, eles
haveriam de notar.
E notaram
realmente alguma coisa. Um deles transmitiu a mensagem:
— Todos
aqui a bordo estão doentes.
Gorlap não
podia esconder sua surpresa.
— Doentes?
— transmitiu ele de volta, fixando os olhos nos marinheiros lá do
outro lado, debruçados na balaustrada. — Que quer dizer isto,
doentes?
— Não
podemos identificar a doença — respondeu o robô.
Ninguém
podia dizer que Gorlap era covarde. Armou-se com um aparelho de raio
mortífero e saltou pela balaustrada, entrando no esquisito veleiro.
Sua barba avermelhada, característico de sua raça, tremia de
excitação. Os robôs de combate estavam imóveis em suas posições.
Não encontraram nenhuma resistência e se mantinham passivos.
Quando
Gorlap viu as caras imundas dos marinheiros, levou um susto. Os
saltadores não podiam se queixar do progresso de suas ciências
médicas, mas o medo de doenças desconhecidas ainda calava fundo em
seu subconsciente. Quantas vezes já acontecera que desciam num
planeta estranho e eram atacados por um bacilo, contra o qual não
tinham defesa. Quantas famílias já tinham sido dizimadas, antes que
os médicos tivessem desenvolvido um antídoto correspondente. Aqui
nos planetas dos goszuls não havia doenças desconhecidas, pelo
menos até então.
O homem
que estava atrás do timão, soltou a roda e se encaminhou para
Gorlap, que permanecia imóvel no parapeito, como se não fosse mais
dono dos próprios movimentos.
— Que
aconteceu — perguntou o saltador sufocado, fixando os olhos nas
placas vermelhas que ocupavam quase toda a pele. — Vocês estão
doentes?
O capitão,
por uns segundos, ainda ficou pensando como era possível que ele
ainda entendesse a língua dos deuses, se tinha perdido toda a
memória. Não achou resposta a nem quis quebrar mais a cabeça com
isso.
— Uma
epidemia — disse ele arrastando-se — irrompeu há duas semanas.
Ninguém neste veleiro está com saúde.
— Há
mortos?
— Nenhum.
A doença parece não ser mortal.
Gorlap
parecia mais aliviado. Quem sabe seria uma simples infecção e nada
mais?
— Qual é
o porto de destino do navio? O capitão encolheu os ombros.
— Não
sei.
— Não
sabe? Deve saber qual é a incumbência que recebeu.
— Talvez
eu soubesse antes, mas agora esqueci. Esquecemos tudo. A epidemia nos
tirou a memória e eu sei apenas que sou comandante deste navio e
acordei há oito dias atrás.
— Acordou?
— Sim,
como de um sonho. Tudo que havia antes desapareceu no nada. Pouca
coisa ficou. Eu nem sei mais meu nome. Ninguém neste navio sabe o
seu nome.
Gorlap deu
um passo para trás e levantou os braços, como que se protegendo do
comandante. Não longe dali, um robô de combate se pôs em estado de
prontidão.
— Todos
vocês perderam o juízo? — suspirou Gorlap, horrorizado.
— Não o
juízo — defendeu-se o capitão. — Somente a memória, mas é
igualmente desagradável. A epidemia é contagiosa. O senhor não
deve permanecer muito tempo aqui.
Gorlap se
afastou mais ainda.
— Nós
temos antídoto — disse, procurando dar coragem a si mesmo. — Seu
navio não deve, porém, ir para o porto da Terra dos Deuses. Volte
para trás.
— Para
trás, onde? Não sei de onde venho.
Gorlap
mordeu os lábios.
— Você
vai de volta para o oeste ou os meus robôs matarão todos vocês e
incendiarão o navio. Só assim posso ficar tranqüilo de que a
epidemia não atingirá a Terra dos Deuses.
Vagarosamente,
o capitão abaixou a cabeça. Um sorriso frio percorria seu
semblante.
— O
senhor se engana — disse ele. — Se quer proteger a Terra dos
Deuses do flagelo do esquecimento, deve destruir não somente meu
navio, mas também seus robôs e a si mesmo. Todos vocês já estão
com o germe da doença inoculado.
O saltador
pulou por cima da balaustrada e voltou para bordo de seu
contratorpedeiro. Teve um momento de hesitação, mas depois, sem
dizer uma palavra, desapareceu sob o convés. Segundos após, o barco
fez uma curva e disparou com toda velocidade rumo ao leste.
Gorlap não
destruíra o terrível veleiro, mas deixara lá seus vinte robôs.
Talvez tivessem eles realmente o germe provocador da doença
desconhecida.
E ele,
Gorlap?
O saltador
tentou espantar o terrível pensamento. Não esteve em contato direto
com o capitão doente.
Contato?
Sim, as
solas de seus sapatos tocaram as pranchas de madeira do veleiro e
suas mãos também tocaram a balaustrada.
Desgraçado,
deveria ter afundado o veleiro. Se o vento continuasse assim,
alcançaria o porto em uma semana. Até lá, teriam que ser tomadas
todas as providências. Nada estava ainda perdido. Qualquer Central
de Comando podia ainda transmitir a ordem aos robôs do navio
contaminado, para que afundassem o barco. Os robôs obedeceriam
imediatamente, mesmo que com isso fossem parar no fundo domar.
Estando não muito distante do litoral, conseguiriam se salvar, caso
a pressão da água não os destruísse antes.
Gorlap
olhou para suas mãos. A pele estava bem morena e sadia.
Quanto
tempo levaria até que começassem a aparecer as horríveis placas
vermelhas? Será que iriam aparecer?
*
* *
Em órbitas
diferentes estavam ainda muitas naves dos saltadores circunvoando o
planeta Goszul. Tratava-se dos patriarcas de cada um dos clãs que
estavam se reunindo neste ponto de apoio situado um pouco para fora
das linhas comerciais, a fim de planejarem o ataque contra a
longínqua Terra.
Assustados
com as fantasticamente rápidas ações dos mutantes e horrorizados
com os prejuízos sofridos, abandonaram o planeta com suas naves, e
no momento se mantinham no espaço, que não tinha nenhum segredo
para eles. Aguardavam lá em cima que os governadores conseguissem em
pouco tempo restabelecer a normalidade.
Não
sabiam quem era seu inimigo e, algumas semanas depois, quando a Terra
dos Deuses já estava mais calma, começaram a se sentir mais
seguros. Os primeiros patriarcas desceram no gigantesco espaçoporto
da Terra dos Deuses, sem abandonarem suas naves. As discussões
deviam ser retomadas brevemente.
Neste meio
tempo, o veleiro com os marinheiros doentes foi afundado na entrada
do porto da cidade. Os robôs receberam a ordem respectiva de Gorlap,
ainda antes de ele perder a memória. Foi sua última ação
consciente, porque depois disso o passado desapareceu para ele.
Desesperado e sem nenhum interesse pelo que se passava em torno dele,
vegetava em cismas infrutíferas, até que o governador da região
vizinha o veio visitar.
Assim a
epidemia se abateu sobre a segunda vítima entre os saltadores.
Entrementes
chegavam as primeiras notícias de catástrofes nos continentes
primitivos. Ralv e sua organização cuidava para que estas novidades
inquietadoras chegassem aos ouvidos dos saltadores também através
das Centrais de Vigilância.
Com isto
se conseguiram duas coisas. Primeiramente, saiu um decreto que
declarava o porto fechado para todo tipo de navios, interrompendo
assim as ligações com outros continentes. Segundo, fazia com que os
saltadores se sentissem cada vez mais inseguros.
Levaram
Gorlap para uma instalação hospitalar controlada por robôs, onde
se tentou descobrir a causa da epidemia. Mas não chegaram aos
agentes provocadores e por isso não puderam fabricar nenhum
anti-soro. Quando uns dias depois, o governador da região vizinha
também adoecia e, quando depois das placas vermelhas, começou a
fase do esquecimento, um grande pânico se apoderou dos outros
dezoito saltadores. Doenças e morte não lhes eram conceitos
desconhecidos, pois não eram imortais, mas em pleno uso da razão,
perder de repente a memória, parecia-lhes pior do que a morte.
Os
saltadores que estavam nas naves pensavam naturalmente bem diferente.
Julgavam-se bem seguros e distantes dos acontecimentos. O planeta
Goszul não lhes significava nada, a não ser um ponto de encontro
passageiro. Se havia aí alguma coisa a perder, eram no máximo, as
preciosas instalações técnicas e os fantásticos robôs, cada um
deles valendo uma verdadeira fortuna.
O
patriarca Ralgor, ao ouvir as notícias alarmantes, pensou
diretamente nesses robôs. Mentalmente ele já estava vendo como os
primitivos nativos caíam em cima dos robôs de vigilância
desarmados e os destruíam, antes de chegarem os robôs de combate
com seus raios mortíferos.
Talvez não
fosse preciso ir tão longe. Se viessem em auxílio dos governadores,
podiam conseguir ainda um ótimo negócio. Ralgor sempre tivera o
desejo de possuir um robô de combate novinho em folha, mas nunca
teve dinheiro para isto.
Pensando
assim, tomou a direção de sua nave Ral II, saiu de órbita e desceu
no espaçoporto da Terra dos Deuses, onde já haviam pousado várias
naves dos clãs, permanecendo em espera.
Ralgor não
tinha absolutamente vontade de ficar esperando parado até que o
flagelo atingisse todo o planeta e com isso também a Terra dos
Deuses. Queria bancar o pioneiro, dar o primeiro exemplo, para depois
poder ser recompensado como o homem da iniciativa. Assim que pousou
em terra, pôs-se em contato com as outras naves.
Contactou
primeiramente Etztak, um dos mais idosos patriarcas dos mercadores
reunidos. O desconfiado barba cinzenta não lhe quis dar ouvidos, até
que o muito mais jovem Ralgor lhe fez uma certa proposta, passando
daí a ouvi-lo com crescente interesse.
— ...é
claro que, sob estas condições, não podemos mais perder tempo. Se
não quisermos nos prejudicar, não podemos mais ficar parados aqui.
Está na hora de tomarmos nossa decisão. Por que nos reunimos aqui?
Para elaborar um plano de como podemos transformar o planeta Terra
numa colônia comercial. Pacificamente, parece que não é mais
possível, resta-nos então apenas o caminho da luta, onde teremos de
contar, aliás, com destruições.
— Para
mim, não se trata de uma colônia comercial, o que me interessa é
me vingar de Rhodan. Ele causou grandes prejuízos ao nosso clã.
— Por
que, pois, ficamos aqui esperando, enquanto os goszuls causam mais
danos? Quantos dos nossos eles já mataram?
— Foram
os goszuls? — perguntou Etztak espantado. — O método parece mais
de uma outra raça, que eu conheci a mil anos-luz daqui.
— Os
terranos não sabem onde os saltadores realizam seu encontro.
— Está
bem — disse Etztak, aceitando a ponderação de Ralgor. — O que
você propõe?
— Que
convoquemos imediatamente uma reunião e tomemos uma decisão de como
e quando atacaremos a Terra.
Etztak
abanou a cabeça lentamente.
— Bem,
eu estou de acordo e apoio seu plano. Mas, e a respeito do planeta
Goszul? Ainda não ouviu falar da terrível epidemia que devasta os
continentes primitivos e que já está penetrando na Terra dos
Deuses?
Dois dos
governadores já foram atingidos e perderam a memória. Não
conhecemos nenhum antídoto.
Ralgor
percebeu que estava chegando perto de seu objetivo.
— Por
isso, recomendo uma decisão rápida por causa da Terra. E depois
abandonamos o planeta Goszul, antes que a peste nos atinja. Queremos
ao menos salvar os preciosos robôs. Podem ser reprogramados a
qualquer momento pelos nossos cérebros positrônicos de bordo.
O barba
cinzenta sorriu compreensivo.
— Começo
a entender, Ralgor, mas não sei se posso aderir a suas conclusões.
As instalações no planeta Goszul pertencem a todos os clãs
coletivamente. Não estaríamos nos enriquecendo ilicitamente?
Ralgor
achou melhor mudar de assunto.
— Vai
convocar a reunião, Etztak, você é o mais velho.
— Vou
perguntar aos outros se querem se reunir — prometeu o patriarca,
sem se comprometer.
Ralgor
interrompeu o diálogo e ficou sentado sozinho, muito tempo em sua
central. Depois resolveu dar uma volta pela vizinhança. Certamente
não podia prejudicar. Junto com seu navegador, deixou a Ral II e
tomou o primeiro carro-robô para a cidade.
5
John
julgou conveniente deixar seu quartel-general no veleiro. Já há
muito tempo que ele e seus mutantes haviam tomado a dose de injeção
que os imunizaria da epidemia do esquecimento, embora Gucky afirmasse
constantemente que o aumento do quociente intelectual proveniente da
doença não prejudicaria a ninguém. Também os chefes dos rebeldes
estavam vacinados contra a aparentemente terrível doença, que na
realidade não tinha a gravidade nem de uma gripe normal. “O
que representa a perda da memória”,
explicava John sempre que se tratava do assunto, “se
podemos recuperá-la a qualquer momento e muito mais vigorosa que
antes? É como uma anestesia sem dor”,
dizia ele, “da
qual se acorda com saúde.”
O veleiro
estava mais ou menos a cem metros do cais, no ancoradouro. Tako
acabava de voltar de uma operação. Como de hábito, materializou-se
no meio dos mutantes, sentados no convés superior, combinando com
Ralv as próximas providências. Gucky estava deitado de costas, ao
lado de Tama e cocava a barriga.
Apenas
Ralv se assustou; não havia se acostumado ainda com as
extraordinárias faculdades de seus novos amigos.
John olhou
para cima.
— Conseguiu
alguma coisa, Tako?
O japonês
fez sinal afirmativo e sentou-se junto deles.
— Tenho
que confessar que a Organização do Movimento de Resistência, nas
últimas semanas, fez enormes progressos. O nome de Ralv se tornou
uma palavra mágica. Obedecem a ele incondicionalmente, com toda
confiança e seguem suas ordens. Levei a caixa com as bombas
provocadoras da epidemia para o Continente do Leste. Lá é que o
conteúdo vai ser distribuído.
— Você
esteve muito tempo fora, talvez horas.
— O
grupo de rebeldes lá vive muito isolado. Tinha que responder a
algumas perguntas; embora se confie muito em Ralv, não se pode
desconhecer completamente a curiosidade, você compreende, não é,
Ralv.
O
revolucionário de pele bronzeada fez sinal afirmativo.
— Minhas
instruções são sucintas e não explicam muita coisa. O povo
aproveita naturalmente a oportunidade para olhar um pouco atrás dos
bastidores. Que foi que você contou a eles?
— Nada
mais do que a verdade.
John
franziu as sobrancelhas.

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