terça-feira, 8 de janeiro de 2013

P-036 - O Flagelo do Esquecimento - Clark Darlton [parte 2]

Ralv olhou para ele com atenção, depois acrescentou:
Acontece o mesmo com Rendex, hoje. Estive em sua casa agora, aliás ele pertencia ao seu pelotão de estivadores. Será uma casualidade?
Como?
O fato de ele estar em condições idênticas a você.
Geragk fitou Ralv.
Alguma coisa aconteceu no navio, mas eu não me lembro o que foi. Como é que a gente pode esquecer uma coisa assim? Certamente me lembrarei depois, mas por enquanto, não me lembro de nada. Que coisa esquisita.
Ralv mudou de assunto.
Nossos elementos de ligação conseguiram capturar um robô de vigilância e estrangulá-lo...
Vocês assassinaram um deus de metal?
Não diga besteira. Você sabe tão bem como eu que toda esta história de deuses e de deuses de metal é bobagem. Os tais deuses são seres humanos como nós, possuem naves espaciais com as quais podem voar de estrela para estrela. É apenas isso. São aventureiros que exploram a nossa ignorância. Com sua superioridade tecnológica conseguiram escravizar nosso mundo. Haveremos de expulsá-los do planeta de Goszul, como chamam nosso mundo.
Mas capturar um deus de metal, um robô... O prejuízo não vai provocar a ira dos deuses? Haverão de nos perseguir com estas máquinas de combate.
Ralv dava a impressão de ser dono de um grande segredo.
Talvez você não saiba ainda, mas nós conseguimos aliados inesperados. Há algum tempo, estão aqui no nosso mundo estranhos que também combatem os deuses e lhes infligem pesados danos.
Estranhos? — perguntou Geragk, ficando de um momento para o outro muito pensativo. — Como pode acontecer que esta palavra me faz sentir algo diferente? Não estive ocupado hoje com estranhos?
Meneou a cabeça e cerrou os punhos.
Então? — perguntou Ralv. — Não se lembra de nada ainda?
Preciso dormir, Ralv. Quem sabe amanhã minha cabeça ficará mais clara. Tenho pressentimento de que é coisa muito importante mesmo. Fora disso, que é que aconteceu mesmo com o robô que vocês pegaram?
Que aconteceu com ele? Examinamos seu interior e constatamos que se trata de uma simples máquina. Em caso de necessidade poderemos também construir tais artefatos, se tivermos as máquinas para isso, o que não levará muito tempo. Se quisermos expulsar os deuses, temos que tomar suas fábricas e fazer nossas espaçonaves, com as quais atingiremos as estrelas.
Temos as bases indispensáveis para tais empreendimentos?
Está tudo preparado. Já podíamos ter começado esta noite, se Enzally não nos tivesse chamado a atenção.
Enzally? Que quer o vidente?
Devíamos chamá-lo propriamente de o receptor, pois ele pode ler o pensamento de outros homens, mas não apenas o pensamento dos homens, mas o dos chamados deuses, também. E o dos estranhos.
Dos estranhos? Terá ele ligação com os estranhos?
Pequena e por poucos momentos. Ele interceptou uma conversa telepática. Os estranhos devem ser também leitores do pensamento. Mas quando ele interveio, as correntes de pensamento se dissolveram e não ouviu mais nada. Uma coisa, no entanto, ele ficou sabendo: Os deuses são também os adversários dos estranhos. Ocuparam seu planeta natal, mas foram expulsos. Vieram para cá para destruírem uma assembléia geral dos deuses, que chamam, aliás, de saltadores. Nós mesmos já presenciamos como eles foram em parte bem sucedidos.
Aliados — raciocinou Geragk. — Nunca poderíamos ter contado com amigos e agora de repente os temos. Mas por que não se apresentam? Por que se escondem e não nos procuram?
Terão seus motivos. Enzally tenta entrar em contato com eles, até agora sem resultado. Ele me avisará quando souber de alguma coisa. Você compreende, nossa situação não é desesperadora, mas é mais prudente que aguardemos um pouco.
Se os deuses já não estiverem cientes de tudo, em virtude do desaparecimento de um de seus robôs.
Temos que contar com isto — disse Ralv levantando-se. — E procure se lembrar do que aconteceu hoje no barco. É muito singular que todos que estiveram sob seu comando hoje, estão sofrendo de perda da memória. Há alguma lebre escondida por aí.
Geragk abriu-lhe a porta.
Mas que será? — disse ele, sem esperar nem receber resposta.

* * *

A notícia da extraordinária batalha entre um animalzinho e sete robôs de combate penetrou também nos ouvidos dos rebelados clandestinos. Em toda parte, nos centros da administração, estavam os goszuls que davam apoio ao trabalho dos cérebros positrônicos e da multi-ramificada automatização, graças aos ensinamentos hipnóticos que haviam recebido. Alguns deles tinham tomado conhecimento da ordem de ataque repentina dada antes do meio-dia e da destruição dos sete robôs de combate.
E um pouco mais tarde, uma outra notícia provocou enorme perplexidade — mas não somente entre os goszuls, mas principalmente nos círculos governamentais dos saltadores. A companhia dos goszuls destacada para o rio, não estava mais dando nenhuma atenção à missão recebida, ao invés, após a destruição dos robôs, se retirara e se encontrava agora a caminho do porto marítimo. O que iria fazer lá e quem lhe dera ordem para isto, ninguém conseguia saber.
De qualquer maneira, assim que Ralv soube da novidade, procurou imediatamente seu colega Geragk, que não tendo recebido neste dia nenhum comando, ainda estava em casa.
Não sei o que aconteceu, mas acho absolutamente necessário que nos preocupemos com os nossos. Não quero acreditar que alguns dos nossos subordinados resolvam agir sozinhos. Não vão ter nenhuma chance com os robôs de combate.
Geragk, que ouviu calado o relato, disse pensativo:
Como era este indivíduo que lutou com os robôs e os venceu. Não era nenhum ser humano?
Nem goszul, nem saltador, nada. Era um animal.
Um animal jamais poderá destruir robôs — disse Geragk, sem compreender nada. — Ou será um destes estranhos de quem falou Enzally?
É possível — continuou Ralv. — Você me acompanha?
Os dois homens saíram apressadamente da casa e pegaram o primeiro carro para levá-los à região do porto. A companhia ainda estava a caminho, não tinha, porém, alterado a direção. Se mantivessem o mesmo ritmo de marcha, chegariam ao porto somente ao raiar do dia seguinte. Portanto, se não quisessem levantar suspeitas, deviam esperar pelo menos até este momento.
A tarde e a noite já tinham passado. Haviam se escondido na casa de um amigo, que também pertencia à organização secreta. Um mensageiro estava a caminho para pôr Enzally a par de tudo. Ele poderia estar de volta em três horas, se não o detivessem.
O tempo passava lentamente.
Não percebiam nada da atividade febril que, entrementes, tomara conta das Centrais de Vigilância. Rádios cruzavam a Terra dos Deuses, em todas as direções e davam conta às esferas governamentais dos saltadores dos inexplicáveis acontecimentos. No momento, uma recém-fabricada unidade de robôs de combate estava deixando a fábrica e marchando em direção ao porto. Chamar forças que mantinham o controle do espaço, parecia muito arriscado para os dirigentes dos saltadores.
Quando o dia clareou, o porto parecia um acampamento militar. Em toda parte, nos entroncamentos mais importantes, havia robôs de combate controlando todo o trânsito de viaturas. Os goszuls, já acostumados, suportavam pacientemente o controle dos saltadores e se comportavam com muita disciplina.
O telepata Enzally conseguiu penetrar na cidade quase despercebido, sem causar suspeita a ninguém. Sua mente perscrutadora localizou Ralv e Geragk. Momentos depois, batia ele à sua porta.
Os dois amigos respiraram tranqüilos quando reconheceram o homem tão importante. Encheram-no de perguntas, mas o velho telepata levantou suplicante as duas mãos e sorriu. Sentou-se na cabeceira de uma cama e disse:
Dêem-me um momento para descansar, meus amigos, tenho atrás de mim uma longa caminhada, e não foi fácil chegar até aqui. Os saltadores estão irrequietos; estão vendo que não os chamo mais de deuses. O motivo é simples de se explicar: Tive um novo contato com os estranhos. Estão bem perto daqui, talvez mesmo na cidade.
Aqui na cidade? — irrompeu Ralv e tinha dificuldade de dominar sua surpresa. — Onde?
Saberemos logo, pois me pediram para hoje cedo entrar de novo em contato com eles. Não sei quantos são, mas pelo menos dois deles são telepatas como eu.
Geragk estava sentado num canto e fixava um ponto na parede, parecendo fazer um esforço muito grande de concentração. Enzally lançou-lhe um olhar rápido e fez um gesto para deter Ralv, que parecia querer falar alguma coisa. O telepata inclinou um pouco a cabeça e fitou Geragk com insistência.
De repente falou:
Vou ajudá-lo, Geragk, para refrescar sua memória; talvez consigamos saber mais alguma coisa. Que aconteceu ontem no navio?
Ralv compreendeu imediatamente e ficou esperando. Sabia que Enzally estava penetrando nos pensamentos de Geragk e quem sabe conseguiria o telepata ativar a memória apagada.
Esquisito — murmurou Enzally subitamente. — É como se houvesse um véu diante dos seus pensamentos, posso até percebê-lo fisicamente. Não é de origem corporal. Unicamente um outro telepata, ou força semelhante, talvez um sugestor, poderia tê-lo colocado para amarrar sua memória. Ontem você esteve no barco que estava no porto? E lá aconteceu alguma coisa? Que foi? Não, não precisa falar, isto cansa muito. Basta somente pensar, pensar. Sim, está melhor. Estranhos estavam a bordo? O capitão disse a você? Quatro homens estranhos, que se pareciam com os deuses? E você se dirigiu a eles; e acabou tudo? Você não se lembra de mais nada?
Enzally respirou profundamente e apoiou as costas na parede, sem tirar os olhos de Geragk.
Olhe para mim. Geragk. Estes quatro homens, você os viu bem? Que disseram a você? Sim, pode se lembrar se quiser. Isto, isto, agora está se lembrando. Foram eles que lhe deram a ordem de esquecer tudo, a você e a todos do comando. Vocês todos esqueceram o que viram. Estes quatro homens são os estranhos que procuramos, são nossos aliados.
Geragk parecia como que saído de um sonho. Os olhos arregalados fixavam o vazio. Depois, abanou a cabeça.
Tem razão, Enzally. Os quatro estranhos estão no navio. Lembro-me agora, deram a mim e aos meus a ordem de esquecer tudo. Por que isto, se eles são nossos amigos?
Enzally sorriu.
Você se esquece que no barco havia também robôs. Que aconteceria se desconfiassem? São somente quatro homens, contra um mundo todo. Devem ser precavidos. Mas tenho a impressão que procuram amigos. Havemos de descobrir isso logo.
Quando? — perguntou Ralv que até então se mantivera calado.
Enzally ergueu a mão direita.
Agora — murmurou, dando a entender aos dois homens que deviam ficar calados no momento. Sentado na cama, completamente calmo e imóvel, ouvia seu próprio íntimo.
Demorou quase uns dez minutos. Nem Geragk, nem Ralv podiam imaginar o que estava acontecendo naqueles dez minutos. Sabiam que seu telepata estava conversando com alguém, mas não podiam entender nenhuma palavra deste diálogo.
Finalmente Enzally abanou a cabeça muitas vezes para frente, olhou em redor e disse:
Preparem-se, amigos, vocês vão me acompanhar. Acho que a batalha vai começar.
Geragk sabia a resposta, mas assim mesmo perguntou:
Para onde vamos?
Para o porto, um navio nos espera lá.

* * *

O capitão do veleiro estava convencido firmemente de ter agido por sua própria vontade, quando permaneceu no porto, ao invés de ir embora, como prescrevem as normas. Não podia saber por que agira assim. Kitai tinha arranjado tudo para que suas ordens fossem executadas e o efeito de seu sugestionamento durasse um pouco mais.
A figura do japonês, levemente recurvada, se encostava na balaustrada. Fazia a guarda, enquanto John Marshall e os dois outros mutantes revistavam com toda calma o armamento que Gucky trouxera. Na cabina havia lugar suficiente para colocar tudo em ordem.
O próprio Gucky estava ajudando Kitai em sua missão de aguardar a chegada dos três goszuls. Estava lá sentado, com seus sensores telepáticos à espera. Não demorou muito para que, entre os milhares de impulsos que fluíam em sua direção, pudesse selecionar os certos e isolá-los. Com muita dedicação, ouviu a conversa de Enzally, Ralv e Geragk, quando estes se dirigiam para o porto e com muito jeito evitavam o controle dos robôs de vigilância, o que nem sempre era fácil. Pois, nem mesmo um telepata como Enzally conseguia captar os pensamentos dos robôs.
A lealdade dos três goszuls era inconteste. O simples diálogo, quase à surdina, que Gucky estava captando, era uma prova suficiente. O rato-castor se teleportou para junto de Kitai, que levou um susto quando Gucky se materializou ao lado dele.
Já estão chegando.
Kitai suspirou.
É absolutamente necessário que você ainda sobrecarregue mais meus pobres nervos já em pandarecos? Não pode andar meia dúzia de passos, como um homem ajuizado?
Não sou homem — respondeu Gucky triunfante. Seu orgulho neste ponto era um fato. — Por que devo fazer força, quando tudo pode ser mais fácil?
Kitai sorriu.
Quando houver oportunidade, vou sugestioná-lo de que é uma galinha. Talvez cheguemos então a ter um ovo fresco.
Gucky contraiu a fisionomia, murmurou algo ininteligível e apontou para o porto.
Lá vêm os três, está vendo? O mais velho deles é o telepata Enzally, com quem John já manteve muitas conversas. O da direita deve ser Ralv, o chefe dos rebeldes. Logicamente, o da esquerda deve ser o nosso amigo Geragk, que você já teve em tratamento.
Kitai reparou como os três homens, com muita habilidade, se esquivaram de um robô de vigilância e depois simularam ter um trabalho muito importante para realizar no porto. Passando pelos depósitos, aproximaram-se do cais, onde estava o veleiro. Enquanto caminhavam, cumprimentavam naturalmente alguns goszuls que os olhavam com curiosidade.
Gucky, excitado de contentamento, escondeu seu dente de roedor e chiou:
Vou avisar os outros. Não é exatamente necessário que os três negociadores vejam imediatamente todo o nosso arsenal de munição. Com este tempo bonito, podemos conversar no tombadilho. Que pensa você?
Procure saber primeiro o que John pensa a respeito. Ele é o nosso chefe.
Também o meu? — disse Gucky admirado — e desapareceu.
Preferiu de novo poupar suas forças corporais.
Kitai concentrou toda a sua atenção nos rebeldes, que, meio indecisos, estavam parados diante do portão de entrada, que ligava o navio com o cais. Levantou-se e acenou para eles.
Enzally correspondeu à saudação e caminhou para frente.
John Marshall e seus companheiros aguardavam os hóspedes no convés superior. Com auxílio dos meios que possuíam, conseguiram alterar finalmente sua fisionomia. Pareciam agora goszuls normais e não mais se assemelhavam aos saltadores. Já era chegada a hora em que não precisavam mais andar incógnitos entre os comerciantes das galáxias, pelo contrário, queriam passar por nativos, pelo menos perante os saltadores.
Gucky se manteve um pouco nos fundos. Devia aparecer somente mais tarde — e o rato-castor planejava fazer isto de uma maneira muito marcante.
Enzally e John se mediram com olhares perscrutadores. Invisivelmente, seus pensamentos iam e voltavam, pesquisando, perguntando e dando respostas, após o que Enzally estendeu ambas as mãos e caminhou de encontro a John.
Bem-vindo, filho de um mundo estranho — disse ele no mais puro Intercosmo, língua de comunicação dos saltadores e também do Império Arcônida. — Vieste para nos ajudar, vejo que não mentes.
Estamos felizes por não estarmos mais sozinhos — afirmou Marshall, cumprimentando também os dois companheiros do telepata. Apresentou depois os três japoneses. — Sentemo-nos aqui, ninguém nos perturbará e podemos, além disso, supervisionar todo o porto. Suponho, Enzally, que temos muitas coisas a debater mutuamente.
Sentaram-se nos rolos das amarras e em esteiras. No céu brilhava um sol quente, no porto havia pouco movimento. O aparecimento súbito dos muitos robôs de vigilância era coisa comum, mas o fato de haver robôs de combates em todos os pontos estratégicos provocava um ar de desconfiança.
Quereis saber, certamente, alguma coisa sobre a nossa organização — disse Enzally objetivamente. — Ralv é a pessoa indicada para explicar isto, é seu fundador e chefe.
Ralv abanou a cabeça orgulhoso e disse:
Faça perguntas, senhor, e eu responderei.
John fez sinal que concordava.
Permaneçamos no tom confidencial, como convém aos conspiradores e seus aliados, Ralv. Minha primeira pergunta a você é: Qual é a força do seu grupo de resistência? Com quantos elementos conta?
Ralv fez uma cara de surpresa.
Honestamente falando, não sei exatamente. O conjunto das circunstâncias exige, em benefício da segurança própria, que não tenhamos uma organização como deveria ser. Só posso dizer que temos aliados em toda parte, que gostariam que os deuses desaparecessem hoje e não amanhã. Nem todo mundo está pronto para lutar por estes ideais e abdicar desta vida relativamente cômoda e segura ou até mesmo para correr o risco. Eles... você compreende, como estou pensando?
John fez que sim, mas não disse nada. Ralv continuou:
Temos nossa senha. “Queremos caminhar com segurança”, assim dizemos. Se recebermos a resposta correspondente, sabemos que estamos lidando com um membro de nossa organização.
Isto não é um pouco perigoso?
De maneira alguma, não há traidores no meio dos goszuls, há no máximo covardes.
O senhor poderia, por favor, me explicar qual é neste caso a diferença?
Enzally se intrometeu:
Eu posso explicar? Nenhum goszul irá para os saltadores, por motivos egoísticos, para lhes dizer que existe um grupo de resistência. Independente do fato de que a ira de seu próprio povo o haveria de atingir, pois os saltadores não os protegeriam. Mas nós temos muita gente a quem agrada a vida que levam; estes jamais se revoltarão contra os saltadores, mas também não trairão os lutadores da resistência. Estes são os tais que chamamos de covardes.
E se alguém os obrigar a trair seus patrícios?
Enzally sorriu friamente.
Estamos acostumados a suportar qualquer sofrimento e, em caso de necessidade, suportamos até a morte, mas não abrimos a boca.
Quem ria agora era John, mas era um sorriso de reconhecimento.
Neste caso, eu não os chamaria de covardes, Enzally. São corajosos, mas não conseguem tomar uma decisão. É só isso. Não os condenemos. De qualquer maneira, não representam um empecilho. É isto que eu queria saber.
E sua segunda pergunta? — perguntou Ralv.
Existem rebeldes só aqui nesta cidade ou também em outras?
Toda a Terra dos Deuses está cheia de rebeldes, esperando apenas por um comando para caírem em cima dos, assim chamados, seus senhores. Possuem até ferramentas com que atacam e deixam fora de combate os robôs.
Mesmo robôs de combate?
Ralv fez uma cara triste.
Ainda não, infelizmente. Mas quando ocuparmos as máquinas e as fábricas haveremos de...
As fábricas estão guardadas pelos robôs de combate — interrompeu John seriamente. — Você vê que não se pode contar este ponto como realizável. Temos que proceder de outra maneira se quisermos liquidar os saltadores e seus robôs.
Como? — perguntou Ralv perplexo.
Por que estamos aqui reunidos? Vejam bem, os robôs são seus senhores, porém são ao mesmo tempo servos dos saltadores, que vocês chamam de deuses. Expulsemos, pois, os saltadores deste mundo, que eles então deixam para trás seus robôs, que em virtude de sua programação continuam nossos inimigos figadais. Mas isto não é problema insolúvel, pois, sob certas condições, os robôs podem ser desprogramados. Se os saltadores desaparecerem, a maior batalha já está ganha.
Ralv sorria incrédulo, do mesmo modo como Geragk. Enzally, porém, parecia compenetrado em seu íntimo, demonstrando na fisionomia traços de preocupação.
Temos os meios e um plano para realizarmos o incrível — continuou John e, olhando para Ralv: — Para execução deste plano, preciso de seu apoio e de sua confiança ilimitada.
Se Enzally confiar em você, nós também confiaremos — disse Ralv simplesmente. — Ele pode ler seus pensamentos e sabe que você não está mentindo.
Eu também sou telepata e posso proteger meus pensamentos — avisou John. — Posso mesmo lhe impingir pensamentos falsos. Meu amigo Kitai é um sugestor, pode impor a vocês todos a vontade dele e vocês pensarão que é a vontade de vocês mesmos. Estão vendo que a sua confiança tem que ser muito maior do que supõem. Você tem realmente a certeza de encontrar em nós seus legítimos aliados?
Ralv abanou a cabeça afirmativamente, sem pestanejar.
Certamente, pois você não nos contaria tudo isto, se pretendesse fazer um jogo sujo. Diga-nos, pois, o que devemos fazer.
John Marshall não precisava pesquisar os pensamentos de seu interlocutor para perceber a veracidade de suas palavras. Mas devia agir com muita prudência, pois se Ralv soubesse o que se iria exigir dele e de sua gente, talvez ficaria indeciso.
Pode ser — disse ele, transmitindo ao mesmo tempo a Enzally o seguinte comando mental: “Você deve calar a boca agora, pois não quero proteger meus pensamentos. Você poderá lê-los abertamente. Não se espante, quando souber da verdade. Mais tarde conversaremos mais.” Mais alto, disse ele a Ralv: — Pode ser que minhas ordens lhe pareçam desumanas e cruéis, principalmente porque atingem seus próprios amigos. Muitos deles terão que se declarar prontos para adoecer espontaneamente.
Para ficar doente? — disse Ralv perplexo.
Você já deve ter compreendido há muito tempo, que é meramente impossível expulsar os saltadores para fora daqui à força. Minha raça, que está em estado de beligerância com os saltadores, não pode oficialmente se intrometer nestes assuntos dos comerciantes, portanto, temos que permanecer incógnitos. Por outro lado, vocês são demasiadamente fracos para se lançarem abertamente contra eles. Temos, portanto que usar de astúcia.
Até aqui, só posso concordar — disse Ralv.
Também Geragk fez sinal que sim. Enzally continuava de cócoras, imóvel, concentrado em si mesmo.
Uma astúcia, portanto — continuou John, escolhendo palavras para expor seu intento aos goszuls, o mais suavemente possível. — Os saltadores só conhecem a violência, quando se trata de atingirem seu objetivo. Haveriam, pois, de defender este planeta com violência, se tivessem que defendê-lo de um ataque. Que fariam, porém, se fossem atacados por algo completamente desconhecido a eles? Digamos, por exemplo, por uma doença, por uma terrível epidemia?
Uma epidemia? — Ralv se assustou, apesar de tudo. — Você supõe que uma epidemia poderia expulsá-los? E quando isto acontecesse, de que nos serviria um planeta devastado pela epidemia? Morreríamos todos juntos.
Trata-se de uma epidemia sem desfecho mortal — consolou John. — Mais ainda, possuímos um antídoto que produz efeito imediato. Uma única injeção é suficiente para deixar o doente, quase que imediatamente após, completamente curado.
O chefe dos rebeldes concordou lentamente.
Se estou compreendendo bem, vocês querem travar uma guerra bacteriológica com os saltadores.
Não apenas com os saltadores; em certo sentido, também com os goszuls.
Um manto de sombra encobriu a fisionomia do interlocutor. Abanou a cabeça confuso.
Não estou compreendendo. Por que também contra nós, se a questão toda é expulsar os saltadores?
Aí está a astúcia. Se os saltadores apenas suspeitarem de que se trata de uma epidemia artificial, que tem unicamente a finalidade de expulsá-los daqui, haverão de procurar antídotos e não sairão deste planeta. Não, no nosso plano de ação, temos que dar a impressão, em quaisquer circunstâncias, de que se trata realmente de uma verdadeira epidemia, surgida de repente neste planeta, para a qual não há cura. Somente assim é que conseguiremos que eles fujam do planeta dos goszuls, para nunca mais voltarem. Sua fuga deve se desenrolar com tanto pânico e afobação que deixem aqui simplesmente suas instalações técnicas e seus robôs, para não levarem também para o espaço a terrível doença.
Ralv e Geragk cruzaram seus olhares. Finalmente, falou Ralv:
Mas não morrerá ninguém e mais tarde todos ficarão curados?
Naturalmente, a epidemia é extremamente contagiosa e devemos contar com que quase a metade da população seja atingida por ela, porém ninguém morrerá, pelo contrário. No meu planeta natal, comprovou-se, com a experiência que lá fizemos, que depois da cura surgiram efeitos benéficos. É como o soro antídoto, que no fundo não é outra coisa senão uma doença que faz bem. Primeiramente fica-se com febre, para depois cair num sono de convalescença, para acordar depois completamente são. Assim será também com a nossa epidemia artificial. Assim que os doentes tomarem mais tarde a injeção, dormirão e acordarão com saúde. Com um detalhe: após este tratamento, sua inteligência aumentará em pelo menos 20%. É uma vantagem que virá em benefício de toda a sua raça.
Enzally ergueu de repente os olhos.
John Marshall, você não quer dizer a Ralv e Geragk em que consiste propriamente esta epidemia? Acho que eles têm o direito de saber isso.
É claro que tenho a intenção de lhes contar tudo. Seria, porém, taticamente muito importante que, fora de nós, ninguém soubesse que esta epidemia realmente não prejudica a ninguém. Somente o medo sincero dos nativos pode convencer os saltadores de que a epidemia é de origem natural — fez um sinal para Enzally e depois continuou, virando-se para os dois outros goszuls, usando um timbre de voz diferente: — Aparecem primeiramente no rosto da pessoa atingida pela doença placas vermelhas, que depois se espalham por todo o corpo. Após uma semana, mais ou menos, a memória começa a enfraquecer, até desaparecer completamente. Outros sintomas não existem. Assim que a injeção, com o soro, for aplicada, começa a doença a desaparecer e em três dias está tudo normal. A memória volta novamente, as placas vermelhas somem, e a inteligência começa a trabalhar melhor que antes.
Ralv ficou olhando por muito tempo para seu companheiro, antes de falar:
É, pois um estado passageiro, mais ou menos como um resfriado.
Sim, pode-se comparar com um resfriado, embora os sintomas externos sejam muito mais assustadores. Mas tem que ser assim para atingir seu objetivo. Agora, eu pergunto se está preparado para transmitir a doença entre seu povo. A companhia que está marchando para cá vai ajudar você. Ralv estarreceu e ficou pálido.
O quê? Quer que eu infeccione meu povo?
É o único modo de convencer os saltadores de que eles têm que deixar o planeta, antes que a epidemia os atinja.
Ralv ficou por uns momentos fitando a água turva do porto.
Finalmente, virou-se para seu interlocutor e disse:
Está bem. Explique-me o que tenho que fazer.
4



Demorou quatro semanas, mas aí estava o grupo de resistência de Ralv, como uma unidade bem camuflada e excelentemente organizada. Seus agentes estavam distribuídos por toda parte, nas Centrais de Administração, em todas as instalações dos saltadores e de seus robôs.
A Terra dos Deuses era um pequeno continente de, talvez, 120.000 quilômetros quadrados. Seu comprimento tinha uns 500 quilômetros, com uma largura em geral de 250. Os líderes dos saltadores residiam em diversos lugares e mantinham contato entre si através do rádio. Contatos com outros continentes do planeta eram muito raros. Os saltadores não tinham realmente a intenção de se estabelecer aí. Interessava a eles, primeiramente, um ponto de apoio, embora ninguém tivesse nada contra os lucros que obtinham dos nativos.
John Marshall mantinha diariamente contato com Enzally, por via telepática, para estar a par dos acontecimentos. Um dos objetivos destes contatos era o “Navio dos Mortos”, uma operação importante que daria início ao movimento contra os saltadores.
Do sucesso dessa operação “Navio dos Mortos” dependia o fato de os saltadores se deixarem contaminar — contaminar de pânico, para abandonarem de uma vez por todas este planeta que não lhes pertencia.

* * *

Dos lados do oeste, se aproximava da Terra dos Deuses um veleiro de porte médio. Dos dois mastros pendiam as velas frouxas e em desordem, pois a brisa era muito fraca, vinda do oeste, mal dando para mover o barco. Navegava lentamente a uma distância de duzentos quilômetros do litoral da Terra dos Deuses, aproximando-se do continente.
Algumas figuras se moviam pelo convés, vagando de um lado para o outro, sem nada fazer, embora até um cego pudesse ver que havia muita coisa para fazer. Por todo canto havia sujeira. Nas escadas reinava desordem e confusão. Peças de roupas, dependuradas sem sentido, balançavam num vento fraco que não refrescava nada. Debaixo do convés, as coisas não estavam melhores. Alguns marinheiros deitados nos beliches primitivos de suas cabinas despertavam abobalhados e ninguém se preocupava com eles e mesmo o capitão do quase abandonado navio não ligava a nada, indiferente mesmo ao rumo que o barco tomava. Estava de pé no tombadilho, atrás do timão, mantendo-o relaxadamente com uma mão, enquanto seu piloto dormia lá embaixo. Mas mesmo sem o leme, o barco se encaminhava para o leste. Que pretendia ele na Terra dos Deuses?
O capitão passou a mão pela testa, abandonando o timão. Sim, que queria ele na Terra dos Deuses? Não sabia mais. Lembrava-se vagamente apenas do irrompimento da peste há duas semanas atrás, quando deixavam o porto do Continente do Oeste — com que objetivo, mesmo?
O primeiro a ser atingido foi o cozinheiro, exatamente o cozinheiro. Apareceram-lhe placas vermelhas no rosto e principalmente na nuca. Isolaram-no imediatamente, mas já era tarde demais. Dois dias depois, as misteriosas placas vermelhas se manifestavam, sem exceção, em todos os membros da tripulação. Não havia propriamente dores, mas uma febre baixa constante.
Somente uma semana depois é que o cozinheiro perdeu a memória. Por mais que os outros se esforçassem, não conseguia mais se lembrar quem ele era. Sabia apenas que estava num veleiro e adoecera. A partir deste ponto, sua memória funcionava de novo. Tudo que havia acontecido antes simplesmente não existia.
Então, também dois dias depois, todos os outros perderam a memória. Cada um no navio tinha a impressão de ter nascido há uma semana atrás. Exatamente há oito dias viera ele ao mundo, com uma inteligência funcionando, porém, sem memória. Era esta a situação. Ou seria talvez loucura?
O capitão encolheu os ombros. Era-lhe mais ou menos indiferente o que estava se passando. Não sabia por que se dirigia para o leste. Os porões de carga estavam vazios, como se tivesse que apanhar alguma coisa na Terra dos Deuses. Mas onde e o quê? Não sabia nem mais de que porto havia partido. Nenhuma resposta.
Olhou lá para baixo, para o convés, observando aquelas figuras que se moviam atônitas e que representavam sua tripulação. Que poderia fazer com eles? Uma pessoa sem memória é como uma criança, apenas com muito menos inteligência. Podia censurá-los? Que iria acontecer com eles?
Quando chegassem a um porto, todo mundo não fugiria deles, como se foge da peste? Não seriam presos ou mesmo liquidados, para que a peste não contaminasse os outros? Peste que não tinha cura... para a qual não havia remédio.
Pelos lados do leste, bem distante no horizonte, surgiu um ponto que se aproximava rapidamente. O capitão do veleiro comprimiu os olhos, tentando distinguir quem vinha ao seu encontro. Um veleiro não podia ser, de modo algum, seria então um destes barcos dos saltadores que viajavam sem vento. E era exatamente isto.
Se descobrissem o que se passava aqui no navio, haveriam de chegar à idéia de afundar aqui mesmo o veleiro, para evitar a propagação da epidemia.
Mas, apesar de ter perdido a memória, a inteligência do capitão trabalhava muito mais firme do que antes. O primeiro efeito positivo da epidemia já estava se manifestando. A quota de inteligência do capitão tinha aumentado. Mais tarde, quando recebesse o soro de regeneração, este efeito ficaria para sempre.
Como é que sabia da existência da Terra dos Deuses e dos próprios deuses?
Quando o esguio contratorpedeiro se aproximou e se encostou a bombordo, o capitão já sabia como iria salvar a si e a sua tripulação. Mas seu temor foi sem fundamento.
O saltador que se encontrava a bordo do contratorpedeiro não pensava em afundar o veleiro com sua tripulação contaminada. Ele estava é muito curioso e queria saber exatamente tudo. As informações que recebera da Central de Vigilância aumentavam seu interesse. Não podia supor o que o estava esperando mas tinha a certeza de que se tratava de algo muito importante.
Um grande perigo se aproxima do oeste, era a comunicação da rádio dos robôs. Este perigo estava a bordo de um veleiro cuja posição era conhecida. Era indispensável uma severa investigação. Mais do que isto, não sabiam os robôs.
O governador, seu nome era Gorlap, não perdeu um minuto, mandando preparar um contratorpedeiro. Ele, pessoalmente, iria ao encontro do misterioso veleiro, para descobrir o que realmente era tão perigoso nele. Puxa, um barco a vela, ser perigoso para os invencíveis saltadores? Ridículo.
Não sabia que haveria de mudar de opinião, em breve.
Deu ordem a dez robôs de combate, para que, como vanguarda, entrassem no veleiro, que aliás não dava o mínimo sinal de resistência. Pelo contrário, os marinheiros que estavam na balaustrada assistiam a tudo indiferentemente e nem se mexeram.
Os dez robôs entraram a bordo, sem encontrar nenhuma resistência. Gorlap não queria se arriscar, mandou também dez robôs de vigilância, cuja inteligência era mais desenvolvida, embora não possuíssem armas. Se houvesse alguma coisa errada em toda esta história, eles haveriam de notar.
E notaram realmente alguma coisa. Um deles transmitiu a mensagem:
Todos aqui a bordo estão doentes.
Gorlap não podia esconder sua surpresa.
Doentes? — transmitiu ele de volta, fixando os olhos nos marinheiros lá do outro lado, debruçados na balaustrada. — Que quer dizer isto, doentes?
Não podemos identificar a doença — respondeu o robô.
Ninguém podia dizer que Gorlap era covarde. Armou-se com um aparelho de raio mortífero e saltou pela balaustrada, entrando no esquisito veleiro. Sua barba avermelhada, característico de sua raça, tremia de excitação. Os robôs de combate estavam imóveis em suas posições. Não encontraram nenhuma resistência e se mantinham passivos.
Quando Gorlap viu as caras imundas dos marinheiros, levou um susto. Os saltadores não podiam se queixar do progresso de suas ciências médicas, mas o medo de doenças desconhecidas ainda calava fundo em seu subconsciente. Quantas vezes já acontecera que desciam num planeta estranho e eram atacados por um bacilo, contra o qual não tinham defesa. Quantas famílias já tinham sido dizimadas, antes que os médicos tivessem desenvolvido um antídoto correspondente. Aqui nos planetas dos goszuls não havia doenças desconhecidas, pelo menos até então.
O homem que estava atrás do timão, soltou a roda e se encaminhou para Gorlap, que permanecia imóvel no parapeito, como se não fosse mais dono dos próprios movimentos.
Que aconteceu — perguntou o saltador sufocado, fixando os olhos nas placas vermelhas que ocupavam quase toda a pele. — Vocês estão doentes?
O capitão, por uns segundos, ainda ficou pensando como era possível que ele ainda entendesse a língua dos deuses, se tinha perdido toda a memória. Não achou resposta a nem quis quebrar mais a cabeça com isso.
Uma epidemia — disse ele arrastando-se — irrompeu há duas semanas. Ninguém neste veleiro está com saúde.
Há mortos?
Nenhum. A doença parece não ser mortal.
Gorlap parecia mais aliviado. Quem sabe seria uma simples infecção e nada mais?
Qual é o porto de destino do navio? O capitão encolheu os ombros.
Não sei.
Não sabe? Deve saber qual é a incumbência que recebeu.
Talvez eu soubesse antes, mas agora esqueci. Esquecemos tudo. A epidemia nos tirou a memória e eu sei apenas que sou comandante deste navio e acordei há oito dias atrás.
Acordou?
Sim, como de um sonho. Tudo que havia antes desapareceu no nada. Pouca coisa ficou. Eu nem sei mais meu nome. Ninguém neste navio sabe o seu nome.
Gorlap deu um passo para trás e levantou os braços, como que se protegendo do comandante. Não longe dali, um robô de combate se pôs em estado de prontidão.
Todos vocês perderam o juízo? — suspirou Gorlap, horrorizado.
Não o juízo — defendeu-se o capitão. — Somente a memória, mas é igualmente desagradável. A epidemia é contagiosa. O senhor não deve permanecer muito tempo aqui.
Gorlap se afastou mais ainda.
Nós temos antídoto — disse, procurando dar coragem a si mesmo. — Seu navio não deve, porém, ir para o porto da Terra dos Deuses. Volte para trás.
Para trás, onde? Não sei de onde venho.
Gorlap mordeu os lábios.
Você vai de volta para o oeste ou os meus robôs matarão todos vocês e incendiarão o navio. Só assim posso ficar tranqüilo de que a epidemia não atingirá a Terra dos Deuses.
Vagarosamente, o capitão abaixou a cabeça. Um sorriso frio percorria seu semblante.
O senhor se engana — disse ele. — Se quer proteger a Terra dos Deuses do flagelo do esquecimento, deve destruir não somente meu navio, mas também seus robôs e a si mesmo. Todos vocês já estão com o germe da doença inoculado.
O saltador pulou por cima da balaustrada e voltou para bordo de seu contratorpedeiro. Teve um momento de hesitação, mas depois, sem dizer uma palavra, desapareceu sob o convés. Segundos após, o barco fez uma curva e disparou com toda velocidade rumo ao leste.
Gorlap não destruíra o terrível veleiro, mas deixara lá seus vinte robôs. Talvez tivessem eles realmente o germe provocador da doença desconhecida.
E ele, Gorlap?
O saltador tentou espantar o terrível pensamento. Não esteve em contato direto com o capitão doente.
Contato?
Sim, as solas de seus sapatos tocaram as pranchas de madeira do veleiro e suas mãos também tocaram a balaustrada.
Desgraçado, deveria ter afundado o veleiro. Se o vento continuasse assim, alcançaria o porto em uma semana. Até lá, teriam que ser tomadas todas as providências. Nada estava ainda perdido. Qualquer Central de Comando podia ainda transmitir a ordem aos robôs do navio contaminado, para que afundassem o barco. Os robôs obedeceriam imediatamente, mesmo que com isso fossem parar no fundo domar. Estando não muito distante do litoral, conseguiriam se salvar, caso a pressão da água não os destruísse antes.
Gorlap olhou para suas mãos. A pele estava bem morena e sadia.
Quanto tempo levaria até que começassem a aparecer as horríveis placas vermelhas? Será que iriam aparecer?

* * *

Em órbitas diferentes estavam ainda muitas naves dos saltadores circunvoando o planeta Goszul. Tratava-se dos patriarcas de cada um dos clãs que estavam se reunindo neste ponto de apoio situado um pouco para fora das linhas comerciais, a fim de planejarem o ataque contra a longínqua Terra.
Assustados com as fantasticamente rápidas ações dos mutantes e horrorizados com os prejuízos sofridos, abandonaram o planeta com suas naves, e no momento se mantinham no espaço, que não tinha nenhum segredo para eles. Aguardavam lá em cima que os governadores conseguissem em pouco tempo restabelecer a normalidade.
Não sabiam quem era seu inimigo e, algumas semanas depois, quando a Terra dos Deuses já estava mais calma, começaram a se sentir mais seguros. Os primeiros patriarcas desceram no gigantesco espaçoporto da Terra dos Deuses, sem abandonarem suas naves. As discussões deviam ser retomadas brevemente.
Neste meio tempo, o veleiro com os marinheiros doentes foi afundado na entrada do porto da cidade. Os robôs receberam a ordem respectiva de Gorlap, ainda antes de ele perder a memória. Foi sua última ação consciente, porque depois disso o passado desapareceu para ele. Desesperado e sem nenhum interesse pelo que se passava em torno dele, vegetava em cismas infrutíferas, até que o governador da região vizinha o veio visitar.
Assim a epidemia se abateu sobre a segunda vítima entre os saltadores.
Entrementes chegavam as primeiras notícias de catástrofes nos continentes primitivos. Ralv e sua organização cuidava para que estas novidades inquietadoras chegassem aos ouvidos dos saltadores também através das Centrais de Vigilância.
Com isto se conseguiram duas coisas. Primeiramente, saiu um decreto que declarava o porto fechado para todo tipo de navios, interrompendo assim as ligações com outros continentes. Segundo, fazia com que os saltadores se sentissem cada vez mais inseguros.
Levaram Gorlap para uma instalação hospitalar controlada por robôs, onde se tentou descobrir a causa da epidemia. Mas não chegaram aos agentes provocadores e por isso não puderam fabricar nenhum anti-soro. Quando uns dias depois, o governador da região vizinha também adoecia e, quando depois das placas vermelhas, começou a fase do esquecimento, um grande pânico se apoderou dos outros dezoito saltadores. Doenças e morte não lhes eram conceitos desconhecidos, pois não eram imortais, mas em pleno uso da razão, perder de repente a memória, parecia-lhes pior do que a morte.
Os saltadores que estavam nas naves pensavam naturalmente bem diferente. Julgavam-se bem seguros e distantes dos acontecimentos. O planeta Goszul não lhes significava nada, a não ser um ponto de encontro passageiro. Se havia aí alguma coisa a perder, eram no máximo, as preciosas instalações técnicas e os fantásticos robôs, cada um deles valendo uma verdadeira fortuna.
O patriarca Ralgor, ao ouvir as notícias alarmantes, pensou diretamente nesses robôs. Mentalmente ele já estava vendo como os primitivos nativos caíam em cima dos robôs de vigilância desarmados e os destruíam, antes de chegarem os robôs de combate com seus raios mortíferos.
Talvez não fosse preciso ir tão longe. Se viessem em auxílio dos governadores, podiam conseguir ainda um ótimo negócio. Ralgor sempre tivera o desejo de possuir um robô de combate novinho em folha, mas nunca teve dinheiro para isto.
Pensando assim, tomou a direção de sua nave Ral II, saiu de órbita e desceu no espaçoporto da Terra dos Deuses, onde já haviam pousado várias naves dos clãs, permanecendo em espera.
Ralgor não tinha absolutamente vontade de ficar esperando parado até que o flagelo atingisse todo o planeta e com isso também a Terra dos Deuses. Queria bancar o pioneiro, dar o primeiro exemplo, para depois poder ser recompensado como o homem da iniciativa. Assim que pousou em terra, pôs-se em contato com as outras naves.
Contactou primeiramente Etztak, um dos mais idosos patriarcas dos mercadores reunidos. O desconfiado barba cinzenta não lhe quis dar ouvidos, até que o muito mais jovem Ralgor lhe fez uma certa proposta, passando daí a ouvi-lo com crescente interesse.
...é claro que, sob estas condições, não podemos mais perder tempo. Se não quisermos nos prejudicar, não podemos mais ficar parados aqui. Está na hora de tomarmos nossa decisão. Por que nos reunimos aqui? Para elaborar um plano de como podemos transformar o planeta Terra numa colônia comercial. Pacificamente, parece que não é mais possível, resta-nos então apenas o caminho da luta, onde teremos de contar, aliás, com destruições.
Para mim, não se trata de uma colônia comercial, o que me interessa é me vingar de Rhodan. Ele causou grandes prejuízos ao nosso clã.
Por que, pois, ficamos aqui esperando, enquanto os goszuls causam mais danos? Quantos dos nossos eles já mataram?
Foram os goszuls? — perguntou Etztak espantado. — O método parece mais de uma outra raça, que eu conheci a mil anos-luz daqui.
Os terranos não sabem onde os saltadores realizam seu encontro.
Está bem — disse Etztak, aceitando a ponderação de Ralgor. — O que você propõe?
Que convoquemos imediatamente uma reunião e tomemos uma decisão de como e quando atacaremos a Terra.
Etztak abanou a cabeça lentamente.
Bem, eu estou de acordo e apoio seu plano. Mas, e a respeito do planeta Goszul? Ainda não ouviu falar da terrível epidemia que devasta os continentes primitivos e que já está penetrando na Terra dos Deuses?
Dois dos governadores já foram atingidos e perderam a memória. Não conhecemos nenhum antídoto.
Ralgor percebeu que estava chegando perto de seu objetivo.
Por isso, recomendo uma decisão rápida por causa da Terra. E depois abandonamos o planeta Goszul, antes que a peste nos atinja. Queremos ao menos salvar os preciosos robôs. Podem ser reprogramados a qualquer momento pelos nossos cérebros positrônicos de bordo.
O barba cinzenta sorriu compreensivo.
Começo a entender, Ralgor, mas não sei se posso aderir a suas conclusões. As instalações no planeta Goszul pertencem a todos os clãs coletivamente. Não estaríamos nos enriquecendo ilicitamente?
Ralgor achou melhor mudar de assunto.
Vai convocar a reunião, Etztak, você é o mais velho.
Vou perguntar aos outros se querem se reunir — prometeu o patriarca, sem se comprometer.
Ralgor interrompeu o diálogo e ficou sentado sozinho, muito tempo em sua central. Depois resolveu dar uma volta pela vizinhança. Certamente não podia prejudicar. Junto com seu navegador, deixou a Ral II e tomou o primeiro carro-robô para a cidade.

5



John julgou conveniente deixar seu quartel-general no veleiro. Já há muito tempo que ele e seus mutantes haviam tomado a dose de injeção que os imunizaria da epidemia do esquecimento, embora Gucky afirmasse constantemente que o aumento do quociente intelectual proveniente da doença não prejudicaria a ninguém. Também os chefes dos rebeldes estavam vacinados contra a aparentemente terrível doença, que na realidade não tinha a gravidade nem de uma gripe normal. “O que representa a perda da memória”, explicava John sempre que se tratava do assunto, “se podemos recuperá-la a qualquer momento e muito mais vigorosa que antes? É como uma anestesia sem dor”, dizia ele, “da qual se acorda com saúde.”
O veleiro estava mais ou menos a cem metros do cais, no ancoradouro. Tako acabava de voltar de uma operação. Como de hábito, materializou-se no meio dos mutantes, sentados no convés superior, combinando com Ralv as próximas providências. Gucky estava deitado de costas, ao lado de Tama e cocava a barriga.
Apenas Ralv se assustou; não havia se acostumado ainda com as extraordinárias faculdades de seus novos amigos.
John olhou para cima.
Conseguiu alguma coisa, Tako?
O japonês fez sinal afirmativo e sentou-se junto deles.
Tenho que confessar que a Organização do Movimento de Resistência, nas últimas semanas, fez enormes progressos. O nome de Ralv se tornou uma palavra mágica. Obedecem a ele incondicionalmente, com toda confiança e seguem suas ordens. Levei a caixa com as bombas provocadoras da epidemia para o Continente do Leste. Lá é que o conteúdo vai ser distribuído.
Você esteve muito tempo fora, talvez horas.
O grupo de rebeldes lá vive muito isolado. Tinha que responder a algumas perguntas; embora se confie muito em Ralv, não se pode desconhecer completamente a curiosidade, você compreende, não é, Ralv.
O revolucionário de pele bronzeada fez sinal afirmativo.
Minhas instruções são sucintas e não explicam muita coisa. O povo aproveita naturalmente a oportunidade para olhar um pouco atrás dos bastidores. Que foi que você contou a eles?
Nada mais do que a verdade.
John franziu as sobrancelhas.

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