Perry
Rhodan aterrissou a trezentos metros da gigantesca Titan. A poderosa
estação de rádio da central não reagiu mais aos seus chamados.
Depois do convite à dança o emissor da nave estava mudo.
E na
consciência de sua impotência, de seu estado de desarmado e sem
recursos, estava Perry à beira do lago, olhando para o alto, para o
local de sua nave, onde, atrás das poderosas chapas de aço
arcônida, se encontrava a central, seu posto de comando.
Inatingivelmente alta, inatingivelmente...
— Dança
dos mortos... — e a voz de Perry tremia.
Gucky, o
rato-castor, sentado ao lado dele. O telepata, o telecineta, o
teleportador, e só Deus sabe quantos dons estavam escondidos nele.
Gucky estava pedindo a Rhodan que lhe permitisse tentar entrar na
Titan.
Rhodan já
tinha dado o seu não.
Pela
terceira vez o rato-castor suplicava.
— Não,
não, e cem vezes não, Gucky. Que é que você quer fazer na
espaçonave? Quer pegar a infecção? Eu tenho que entrar na nave,
tenho que saber por que ficaram doentes... Você quer vê-los todos
mortos, Gucky?
— O
gorducho também tem que morrer? — Gucky o perguntava como uma
criança tímida e dava mostras de como sua amizade era sincera e
seus sentimentos profundos para com Reginald Bell.
— Bell
também — Rhodan acariciou a cabeça de Gucky, por uns instantes,
olhando para seus olhos fiéis e inteligentes. Depois disse: — Fica
um pouco sentado aqui, Gucky. Preste atenção nos meus impulsos.
Faça tudo certo e rápido, Gucky. Se você me deixar na mão hoje,
está tudo perdido, não haverá mais esperança.
O
rato-castor nunca ouvira Rhodan falar assim. Concentrou-se em seus
pensamentos e só encontrou desânimo.
— Está,
realmente, tudo tão ruim, assim?
Gucky, do
planeta vagabundo era, de fato, um milagre. Embora ele mesmo se
classificasse como um animal, esta classificação estava errada,
porque quanto ao caráter, era muito mais do que um homem. Ele,
Gucky, era bom, sempre bom, e por isso estava acima do homem, que
permanentemente tem que lutar contra o mal interior.
— Esteja
atento, Gucky.
Falando
assim, Perry se dirigiu à Titan.
— E como
vou ficar atento! — exclamou quando Perry, o chefe da Terceira
Potência, lhe virou as costas.
E começou
sua grande concentração.
Já de
longe, Perry ouvia o gargalhar e o cantarolar de sua tripulação.
Uma alegria exagerada, totalmente fora do natural, era a impressão
que se tinha. Em berrante contraste com tudo isto, lá estavam, entre
os suportes do gigante do espaço, imóveis e apáticos, os
purificados, indiferentes à algazarra esfuziante da tripulação.
Abobalhados, olhavam para a areia, como em pose extática,
comprimindo contra o peito os ursinhos.
Enquanto a
Gazela descia, Perry já tinha observado muito os honos. Suas
presenças lhe causavam decepção, o mesmo acontecendo com o
arcônida Crest. Cada um dos dois acreditava em seu íntimo que eram
estes purificados os responsáveis pela epidemia que irrompera entre
a tripulação da Titan.
Perry
caminhava vagarosamente na direção de um hono, ouvindo, da única
rampa que estava armada, as horríveis gargalhadas da tripulação.
O hono
segurava bem firme um ursinho, dava a impressão de estar dormindo,
mas levantou a cabeça com a aproximação de Perry e falou num
arcônida muito quebrado, enquanto oferecia o ursinho a ele:
— Aceite
meu pequeno presente, digníssimo senhor. Faça-me feliz, aceitando
este presente.
Apesar de
seu desespero, Rhodan se lembrou do severo julgamento de Gucky a
respeito destes animaizinhos. Para o olfato sensível do rato-castor,
estes ursinhos catingavam bastante. De repente, como que
influenciado, Rhodan, sem o querer, deu um passo para trás
impulsivamente. Não sabia que força tinham seus olhos no momento.
Percebeu apenas que o velho nono puxou o ursinho para si e desviando
os olhos de Rhodan, continuou fitando o horizonte. Os olhos grandes
do purificado, encavados numa testa ampla, tinham algo de triste. A
boca estreita parecia murmurar alguma prece. Perry julgou ter ouvido
uma vez a palavra “deuses”.
Novamente
um tremor perpassou seu corpo ao ouvir os gritos frenéticos de sua
tripulação. Desviou-se do hono e se dirigiu para a rampa, tentando
sempre fugir dos purificados que estavam por toda parte. A suspeita
de que eles tivessem levado a epidemia para a nave, diminuía sempre
mais.
Ele não
estava doente. Crest também não. Aliás, nenhum dos homens que
tomaram parte na viagem de reconhecimento, sobre o Planeta Honur.
— Os
ursinhos... — gritou ele.
Não sabia
que, de boca aberta, como que petrificado, estava parado entre dois
purificados e que a poderosa Titan girava sempre mais veloz em sua
frente. Sentia um terrível zumbido nos ouvidos.
Ele —
Perry Rhodan, o sonhador da conquista do Universo — o
“transformador
de tudo”,
o homem com incrível poder de reação instantânea, ele, que tinha
unido a Terra num único Estado, sem usar a força, estava agora
sendo destruído por aquela infecção a bordo.
— Digníssimo
senhor, faça-me feliz, aceitando meu animalzinho de presente — era
uma jovem purificada, um tanto bonita, de pé em sua frente,
suplicando. Mantinha os olhos fixos em Rhodan, esticando-lhe, com
mãos trêmulas, o animal.
Quando
Perry percebeu em sua mão o raio paralisante, sentiu o choque mais
horrível de sua vida:
— Vai
embora — foi seu comando enérgico para a moça.
Seu olhar
desesperado se chocou com o dela.
São os
ursinhos, pensava ininterruptamente, enquanto se encaminhava para a
rampa. Foi com os animais que a doença entrou na Titan. Com estes
animaizinhos é que todos os aparelhos que hoje formam o terrível
cemitério foram atacados “por
dentro”.
E depois, quem levou todos eles lá para a região do pólo sul? Quem
os depredou? Quem? Estas figuras esquálidas, famintas, abobalhadas?
Estes arcônidas degenerados?
As coisas
foram ficando mais claras.
Eles se
chamavam de... De repente compreendeu o que esta expressão queria
dizer: OS PURIFICADOS estavam imunes ao veneno destes animaizinhos
que pareciam tão inofensivos. Eles, os purificados, eram os
descendentes dos colonizadores que tinham sobrevivido à peste da
euforia. Ainda estava bem claro na fisionomia dos seus descendentes
magros, esquálidos e quase débeis mentais, o preço que aqueles
arcônidas tinham pago para superar, há mais de 14 mil anos, esta
doença.
— Para
trás — gritou ele, erguendo a arma contra seus homens.
À frente
de todos, correu Kitai Ishibashi, seu melhor sugestor, berrando
freneticamente e segurando com muito carinho um ursinho nos braços.
— Perry
— disse ele gargalhando e com um brilho nos olhos oblíquos — que
posso fazer por você? Dou-lhe tudo que quiser, menos o meu Shiguti.
Por que não tem um ursinho? Espera que vou buscar um para você,
espera. Por que vai embora, Perry? Fique conosco.
Mas Rhodan
tinha dado meia-volta. Pulou pela rampa abaixo, passou ligeiro pelos
suportes telescópicos, desviou-se dos purificados: corria na direção
do rato-castor. Somente já bem perto de Gucky é que diminuiu os
passos.
Tinha
ainda na mão a pistola dos raios paralisantes. Gucky o fitava e seu
olhar vivo e brincalhão possuía apenas uma expressão de desânimo.
*
* *
Os três
juntos, tentaram mais uma vez penetrar na Titan. Foram recebidos, de
novo, entusiasticamente pelos homens que dançavam e gritavam
agitados. Todos ostentavam nos braços seus ursinhos da morte e
exigiram que os recém-chegados os acariciassem. E então...
fracassaram os psicoirradiadores.
— Fogo!
— foi o comando de Rhodan ao arcônida e a Julian Tifflor. Rhodan
mantinha a arma na mão, ameaçando Ras Tschubai com o
psicoirradiador.
O negro, o
grande teleportador, não reagiu. Com os “adversários”
de Crest e Tifflor, os raios paralisantes também não surtiram
efeito.
— Para
trás — gritava ainda Rhodan, no último instante, fugindo daquela
multidão de alucinados e de seus animais.
Estavam
agora sentados na central da nave de telerreconhecimento, deprimidos.
Silêncio
total. Wuriu Sengu não levantava a cabeça. Com uma voz que parecia
o tilintar de vidros, Rhodan reagiu contra a proposta, aliás, já
era a terceira: seu vidente queria tentar abrir caminho, usando desta
vez choques energéticos.
— Não
posso matar os meus homens e jamais atirarei neles, enquanto restar
um fio de esperança de que há ainda outra solução.
Crest
estava prostrado num grande silêncio, parecia fisicamente muito
esgotado. Perry o percebeu, redobrando com isso seu desespero.
O seu
cavalo de Tróia, o presente grego que lhe havia trazido a derrota,
eram os animaizinhos interessantes, criados pelos purificados como
animais domésticos.
O planeta
Honur foi para ele uma verdadeira Tróia.
De
repente, sua fisionomia ficou tensa. Começou a pensar nos moofs,
esses animais que respiravam metano, utilizados por desconhecidos
para destruírem o Império dos Arcônidas. Ele, com os seus, haviam
sentido a força diabólica dessas medusas em Zalit e somente as
destruíram depois de muita luta. Os tais desconhecidos, que eram os
responsáveis camuflados pela importação dos moofs, seriam os
mesmos estranhos depredadores das espaçonaves no cemitério do pólo
sul de Honur?
— Quando
que eles chegarão, Crest? — com esta pergunta, se dirigiu ao
arcônida.
Crest
levou um susto, despertando do seu torpor de desânimo.
— Quem?
Auxílio de Árcon?
— Auxílio
de Árcon... — ponderou Rhodan, olhando para Crest.
— Você
já se esqueceu da lei dos arcônidas? Já se esqueceu de que é
proibido, sob pena de morte e de destruição da nave, prestar
socorro no espaço a uma espaçonave que tenha aterrissado num
planeta proibido e esteja sob estado de perigo? Esqueceu, realmente,
esta lei?
Lentamente,
quase sussurrando, o grande cientista fez uma contra-pergunta:
— Perry,
vale mesmo a pena ter certeza de alguma coisa e não se esquecer de
nada?
— Acho
que desta vez, Crest, você tem razão.
Era a
derrocada total. Porém, no coração do arcônida irrompe o último
lampejo de orgulho. Ele, descendente de uma raça nobre, porém
profundamente decadente no momento, sentia-se agora empolgado por uma
sede de iniciativa, característica dos homens da Terra.
— Perry,
você se esqueceu da Ganymed? Ainda existe a Stardust-III, existem
seus cruzadores, Terra, Solar System e Centauro.
Foram
toques de clarim, mas não houve eco.
— Existe
ainda um modelo, que muito se assemelha à Titan, Crest, e está em
Árcon e lá permanecerá por toda a eternidade, pois o seu império
não produz mais o tipo de homem capaz de dirigir uma nave esférica
deste gabarito. E eu, agora, serei um proscrito no Império de Árcon,
serei perseguido, e esta falta de lógica, eu atribuo aos misteriosos
desconhecidos, que desenvolvem aqui seu jogo criminoso e não
acredito que eles deixem de informar ao cérebro robotizado a
respeito de quem encontrou em Honur a sua Tróia. Então, Crest, eu
lhe suplico, por favor...
— Rhodan,
você está se automartirizando — respondeu o arcônida. — Até
hoje, você sempre, e em qualquer situação desesperada, encontrou
uma saída. Por que exatamente aqui não haverá saída alguma?
— Nunca
até hoje me defrontei com a terrível realidade de perder os homens
mais leais, Crest. A perda da Titan não representa nada. Nada mesmo.
Mas você não pode calcular o que seja perder um Reginald Bell,
saber que dentro de horas, no máximo, dias, estará morto um grande
amigo. Ele foi o primeiro homem, que há treze anos atrás, voou
comigo da Terra para a Lua. E com Bell, morrem setecentos outros.
Cada um deles, sozinho, vale mais do que a Titan toda. E eu, Crest,
eu carrego na consciência a morte de setecentos homens, meus amigos.
Isso me aniquila, me tira toda vontade de viver. Crest, não posso,
nem quero mais viver.
— Perry
Rhodan, meu amigo, não pode ser verdade — balbuciava o arcônida
trêmulo e desesperado, estendendo as mãos na direção de Perry.
— Vão
morrer todos, Crest. Você não viu os esqueletos nas espaçonaves
depredadas lá no depósito de ferro velho?
Com todas
as fibras do seu ser, Crest lutava contra os argumentos de excessivo
desânimo de Rhodan. Procurou então mudar de assunto.
— Perry,
há pouco você fez uma pergunta: “Quem deverá chegar?” Que quer
dizer com isto?
— “Os
papa-defuntos”,
os depredadores, Crest. Os homens que penetrarão na Titan, quando
não houver mais sinal de vida nela. Os criminosos que levarão a
nave ao cemitério, para destruí-la. Estou esperando por isto,
apenas por isto.
— E
depois?
— Tenho
que responder? Crest, você me conhece tão mal, assim? Ficarei
pensando em Bell e nos setecentos mortos. Isto vai me dar forças,
para cair em cima dos “papa-defuntos”,
sem dó nem piedade, até que eu mesmo desapareça numa nuvem de gás.
— Junto
comigo — disse Crest, fazendo um juramento.
*
* *
A noite
caiu sobre Honur. Estava frio, mas não demasiadamente. Os
purificados continuavam de cócoras, abobalhados, entre os suportes
da grande nave. Vez por outra, o vento leve trazia para cá a
gritaria e o cantar desordenado dos homens da tripulação que se
comportavam como bêbados.
Na Gazela,
o silêncio era total. As horas noturnas passavam com lentidão.
Depois, veio a manhã. O sol de Thatrel apontou no horizonte. O tempo
esquentou. Entre os suportes telescópicos da supernave, continuavam
de cócoras os purificados.
Na Titan,
dançavam os possessos de euforia. Abraçavam-se com a morte e não
sabiam o que estavam fazendo.
Setecentos
homens viviam numa explosão indescritível de alegria, dançando e
cantando, sem nenhum alimento nem bebida, pelo simples fato de não
sentirem nem fome, nem sede. A ânsia de chamar a atenção, de
exibir aos outros o mais belo e atraente em si mesmo, de lhes agradar
de todos os modos, tirando do caminho tudo que lhes fosse incômodo,
tinha chegado ao paroxismo do irracional, do mortalmente irracional.
Alguns
perambulavam exaustos pelo convés, subiam e desciam, sem nenhum
sentido pelos elevadores antigravitacionais e... já não davam tanta
importância aos ursinhos nem gritavam mais. Estavam mudos, porque
suas cordas vocais estavam roucas. O mundo era belo demais, todos
compartilhavam da imensa alegria e cada um tinha 699 amigos e a ânsia
de fazê-los felizes.
Alguns
ursinhos dormiam e acordavam em seus braços. Beijavam com carinho
seus novos amos atrás da orelha, na nuca, nas mãos. Tagarelavam
como papagaios e tinham olhos redondos, maravilhosos. E cada vez que
estes bichinhos viravam seus lindos olhinhos de um canto para o
outro, seus donos começavam a gritar de alegria.
— Basta,
Sengu, basta. Pare com isso — disse Rhodan, de repente, gritando
para seu vidente, e tapando os ouvidos com as mãos.
Wuriu
Sengu deu graças a Deus por este grito. Limpou o suor da testa e
respirou aliviado. Pela primeira vez em sua vida, que ele no
desempenho de suas forças mentais, sentiu necessidade de maldizer o
destino.
Tinha
visto o inferno, o inferno estava na Titan. Ali dentro, só vidas
perdidas. Não havia ninguém sadio, só doentes que gargalhavam para
a morte. Riam porque não estavam mais em condições de ver a
realidade.
Tinha
visto também Bell, mas não teve coragem de descrevê-lo para
Rhodan, tão horripilante era o aspecto de Reginald Bell.
— Sengu,
vá dormir um pouco.
O vidente
japonês julgava ter recebido um tapa na cara. Assim foi que ele
interpretou a ordem de Rhodan, para descansar.
— Sengu,
meu pensamento não foi este — disse-lhe Rhodan — mas você
certamente viu muito mais do que nos contou e eu acho que lhe devemos
agradecer por isto. E, agora, se quiser, descanse.
Nestas
palavras voltou um pouco mais do legítimo Rhodan, sua arte
maravilhosa de conduzir os homens e seu modo de agradecer, agradecer
exatamente quando a pessoa não esperava.
E na hora
de sua total incapacidade, soube ele ganhar um novo amigo, só porque
no seu íntimo já tão castigado ainda achou motivo para agradecer a
Wuriu Sengu.
Com um
leve brilho nos olhos, Crest observava o homem da Terra. Um pequeno
sopro de esperança começou a surgir nele. Não podia acreditar que
Perry Rhodan iria desesperar. Este ser, daquele mundo chamado Terra,
era muito mais forte do que ele mesmo supunha.
O tenente
Julian Tifflor estava sentado atrás do goniômetro, chamando Perry.
Este
levantou a cabeça como quem desperta de um longo sonho.
— Sim,
Tiff?
— Senhor,
estou vendo uma nave...
— Estou
esperando por isto, Tiff. Uma sombra de decepção perpassou pelo
rosto jovem de Julian Tifflor. No seu íntimo, havia imaginado que
esta notícia haveria de levantar o ânimo de seu chefe, mas ao invés
disso, Rhodan deixou lentamente sua poltrona e se dirigiu a ele.
Quase que enfastiado, começou a olhar para o aparelho. Julian
Tifflor inclinou-se um pouco para o lado, a fim de que Rhodan pudesse
observar melhor.
— Mantenha
a posição, Tiff. Não dependemos de minutos. Em menos de três
horas a nave não estará aqui. Obrigado.
Voltou ao
posto de comando, já ia se sentando, quando se lembrou de alguma
coisa. Enquanto acariciava com a mão direita o pêlo do rato-castor,
perguntou:
— Gucky,
você tocou ou não tocou nestes ursinhos?
— Eles
até brincaram com minha cauda — respondeu indignado, e nos seus
olhos inteligentes havia revolta.
— E por
que você não ficou doente, tenente?
O tenente
Guck do Corpo de Mutantes de Perry Rhodan, que até hoje nunca fora
tratado por seu chefe com o nome correspondente ao cargo que ocupava,
procurou manter uma posição de sentido. E com uma voz que imitava
uma mensagem militar, respondeu:
— Não
fiquei doente, porque sou um animal, senhor. E também porque farejei
logo como aqueles animais catingavam.
Foi o
primeiro sorriso aberto no rosto de Rhodan. E pensativo, ele ficou
olhando para Gucky. Depois, perguntou:
— Por
quanto tempo você ficou em contato com eles?
Crest,
Tiff e Sengu ouviam com muita atenção. A voz de Perry ia voltando
ao seu tom claro e firme.
— Dez
minutos, talvez um quarto de hora, até que não agüentei mais o
horrível mau cheiro.
Novamente
Gucky mencionou a catinga dos animaizinhos.
— Como
era o cheiro deles?
— Não
era cheiro, chefe — guinchou Gucky meio zangado — era catinga
mesmo.
Rhodan ria
agora abertamente.
— Um
homem educado não usa uma expressão desta, Gucky.
— Eu não
sou homem, sou um animal apenas. Mas se me permitir entrar na Titan,
nunca mais usarei a palavra catingar.
Parecia
até uma chantagem. E pelo fato de partir de um animal de mais ou
menos um metro, que no entanto possuía caráter de homem, a situação
se tornava mais esquisita ainda.
Perry se
deu por vencido.
— Terá
minha permissão, mas somente quando lhe disser que pode entrar.
Agora, tente nos descrever, como percebeu o mau odor dos ursinhos,
Gucky.
O
rato-castor era um excelente analisador. Seus dados detalhados
compunham sempre uma imagem completa e coerente, por mais que se
espalhasse sobre o assunto.
— Gás?!
— disse Crest ansioso, dando o seu palpite.
Rhodan
ainda tinha suas dúvidas. Deixou Gucky contar muitos pormenores.
Depois interveio:
— Podia
ser também uma matéria aromática ou mesmo secreções compostas de
um pó muito fino.
E depois,
fugindo ao assunto, dirigiu a palavra a Julian Tifflor:
— Preste
muita atenção à espaçonave que está voando, e me informe quando
estiver atrás do planeta.
Os olhos
de Crest resplandeciam.
Este era o
verdadeiro, o legítimo Rhodan que nunca se esquecia das coisas
importantes. Esta ordem para avisá-lo quando o planeta de
aproximadamente 6 mil quilômetros de diâmetro estivesse entre eles
e a nave estranha, era, sem dúvida alguma, um sinal de que Rhodan
não se dava ainda por vencido.
— Crest,
você conhece materiais aromáticos ou em forma de pó que sejam
tóxicos ou provoquem infecção?
— Muitos.
A maioria deles destrói as células dos gânglios e acho que não
preciso explicar o que significa destruição do sistema nervoso
central. A medicina dos arcônidas teve que capitular diante dos
mistérios do cérebro.
Neste
exato momento, os traços fisionômicos de Perry se anuviaram.
Naturalmente
estaria pensando no destino de Bell e da tripulação.
— Crest,
a gente deveria voar para Árcon e...
Esta
esperança seria fulminada pelos argumentos objetivos de Crest.
— Perry,
você confunde condições da Terra com condições de Árcon.
— O que
quer dizer com isso?
— Dentro
do “montão
de estrelas”
M-13 não há nem mundos nem venenos desconhecidos, que ataquem o
sistema nervoso central. Portanto, quando você chegar a um médico e
lhe descrever os sintomas de que padece a tripulação da Titan,
então estará lavrando sua própria sentença de morte. Será
realmente executado em pouco tempo. Pois você mostrará abertamente
que veio de um planeta proibido.
— Não
conhece nenhum médico de confiança, que você possa consultar às
escondidas, Crest?
Esta
pergunta era uma crítica indireta à lentidão do arcônida.
Crest
sorriu com dificuldade.
— Perry,
eu só conheço covardes e preguiçosos. Você é que tem que dar um
jeito.
— Mas eu
não sou médico — respondeu Perry com indignação. — Mal sei a
diferença entre gânglios apolares e unipolares, e aí acaba minha
medicina.
— Senhor
— interrompeu Tiff, com toda naturalidade — o planeta já
encobriu a nave em vôo.
Perry fez
um sinal para ele e, depois, dirigindo-se a Crest:
— Temos
que conversar ainda a respeito — inclinando-se para frente,
percorreu com o olhar todos os controles e acionou a alavanca de
partida da Gazela.
Parou bem
rente ao solo, tomando então o curso para quatro mil metros de
altitude, verticalmente. Esta era mais ou menos a altura do paredão
de pedra.
Julian
Tifflor, que se tinha em conta de um grande piloto de nave de
reconhecimento, sem querer, quase perdeu o fôlego, quando Rhodan,
com a segurança de um sonâmbulo, se desviou subitamente de um
obstáculo inesperado. Aliás, Rhodan não precisava fazer esta
manobra brusca, pois a Gazela, apesar de sua dimensão reduzida,
estava equipada com fortíssimos dispositivos de proteção. Mas para
ele, o chefe da Terceira Potência, estes dispositivos não existiam.
Exigia sempre os maiores esforços e a maior responsabilidade de si
mesmo, sem contar muito com a proteção dos recursos técnicos.
A Gazela
disparava por sobre a cumeeira da cadeia de montanhas, às vezes
demasiadamente próxima dos grandes picos. Depois virava-se para um
planalto desconhecido.
— Tiff,
estou procurando uma caverna em que caiba a Gazela, preferia mesmo
uma saliência na rocha.
— Senhor,
há uma, direção NNO 3, altitude três mil e dezoito metros, está
vendo?
— Já
achei, obrigado, Tiff.
Como ecoou
por todos os camarotes da Gazela aquele “obrigado”!
O chefe
dirigia. A nave de telerreconhecimento parecia um brinquedo em suas
mãos e Crest tinha que ficar resignado olhando. Perry virou-se para
o lado do jovem tenente da Terceira Potência. Seus olhares se
encontraram, houve um mudo sorriso entre eles, e Gucky, num
minissalto, chegou até eles. Queria também participar desta alegria
e sorriu com seu dente de roedor.
Apenas
Wuriu Sengu não se alegrava. Ainda estava vendo aquelas cenas
horríveis a bordo da Titan e não conseguia tirar da memória a
figura triste e lastimável de Reginald Bell.
De repente
acendeu a luz de reconhecimento. Rhodan descia com a nave numa enorme
caverna. De fora, a escuridão se abateu sobre a pequena espaçonave.
Aterrissagem
sem o menor abalo.
— Crest,
Gucky! Trajes espaciais.
“Tiff,
você fique de vigilância no posto de comando, mas decole
imediatamente assim que receber o menor impulso de minha parte. O
local de encontro será aquela elevação sobre a qual passamos para
descer para este planalto.
“Sengu,
aguardar ordens especiais. Está tudo claro?”
6
Todo traje
espacial arcônida era uma maravilha em si, não porém para os dois
homens e para o rato-castor. Gucky passou por apuros, pois não
encontrou seu traje e teve que usar um grande demais, que o
“engolia”.
— Não
se preocupe com isto, Gucky — dizia Rhodan, tentando acalmá-lo —
e se tudo correr bem, você poderá até fazer suas brincadeiras. Não
é esta a palavra, amigo?
Ser
chamado de amigo, e ainda por cima ouvir isto da boca de Perry
Rhodan, era para o rato-castor a maior alegria do mundo. Mas poder
realmente brincar um pouco, isto era indescritível. E essa havia
sido a promessa de Rhodan.
— Posso
mesmo brincar, chefe? — certificou-se Gucky.
Um forte
sorriso percorreu a fisionomia de Rhodan.
— Acho
que, com toda probabilidade, você não só poderá, mas terá mesmo
que brincar.
— Opa,
chefe, eu preciso disso, preciso de me expandir bem. Espero, porém,
que no fim de tudo, não apareça um “abacaxi”.
— Gucky
— disse-lhe Rhodan, enquanto enfiava os braços na manga do traje
espacial — as expressões que você está usando, estão cada dia
piores.
— É
verdade, chefe, é conseqüência da péssima convivência com Bell.
Mas nós vamos tirar o pobre sujeito lá das...
— Gucky
— ordenou Perry — você quer me envergonhar na frente de Crest?
Esta palavra não se deve dizer nunca.
— Será
que eu a conheço? — perguntou Crest, que, se pudesse abraçaria
Gucky de contente, pois suas expressões brejeiras é que estavam
aliviando um pouco o estado de espírito de Rhodan e quebrando o
trauma que o envolvia.
— Se
você a conhece, Crest? — acrescentou o rato-castor. — Claro,
você estava presente quando eu obriguei o Bell a fazer uns loopings
no ar, e na hora exata em que ele ia cair, afastei a cadeira por um
metro. O gorducho então berrou como um boi, quando bateu no chão.
Aí é que ele disse: desgraçado, filho da...
Rhodan não
se continha de tanto rir.
— Gucky,
se você não parar...
Mas não
era fácil parar. De repente seus olhos perderam aquela vivacidade e
em tom de choro, Gucky o interrompeu:
— Perry,
pergunte então a Crest, o que foi que Bell disse, Crest deve se
lembrar.
— Sei
mesmo, Rhodan — atalhou o arcônida espontaneamente. — Reginald
Bell gritou: “Desgraçado
filho da queda livre.”
Será que isto é uma palavra indecente?
Perry teve
dificuldade em responder. Engoliu a saliva, olhou para Gucky, que
mostrava uma cara de santo e correspondeu com uma piscadela sincera
ao olhar do amigo.
Rhodan
mudou o olhar para Crest. O arcônida conseguiu dominar seus traços
fisionômicos, mas não soube esconder o sorriso dos olhos.
— Será
que Bell disse isto mesmo? — era a dúvida de Perry.
— Você
não acredita? — perguntou Crest com voz imparcial.
— Não.
— E eu
também não — terminou o arcônida, enquanto Gucky desapareceu
pela escotilha.
Com sua
cara costumeira, o rato-castor já estava esperando os outros. Depois
a escotilha empurrou os três para fora.
Não
chegaram a tocar o chão da caverna, ficaram flutuando no ar. O traje
espacial os sustentava, mas isto não era sua única qualidade: podia
também provocar uma camada de deflexão que tornava invisível seu
portador e — naturalmente — o próprio traje. A única
desvantagem nesta operação, era que um parceiro não via o outro.
Pequenos geradores embutidos serviam para produção de energia a fim
de manter estável o dispositivo anti-choque e os neutralizadores da
força da gravidade, graças aos quais eles estavam flutuando.
Deixaram a
caverna, flutuavam a uma velocidade de cem quilômetros por hora, em
direção à elevação no planalto, sobre a qual, momentos atrás,
passara elegantemente a Gazela.
Antes de
atingirem seu objetivo, ouviram a voz de Perry:
— Ligar
os deflectores de proteção.
Já
estavam tocando no chão do rochedo, quando os deflectores os
tornaram invisíveis. Para que um não se desgarrasse do outro,
formaram um cordão. Embora Gucky fosse o do meio, foi o primeiro a
ver já pousada a espaçonave estranha.
— Tem
uma conformação cilíndrica — disse Rhodan, entre os dentes, e
ficou olhando fixo para a nave de duzentos metros de comprimento e
cinqüenta de diâmetro, estacionada a alguns quilômetros de
distância da Titan.
Com o
aparecimento desta espaçonave, que aterrissou muito mais depressa do
que calculava, lembrou-se imediatamente dos comerciantes das
Galáxias, ou saltadores, como eram chamados.
Eram
também descendentes dos arcônidas. Entretanto já há muitos
milênios tinham se tornado independentes. Eram agora, normalmente,
os ciganos das estrelas, não tendo residência fixa. Passavam a vida
nas espaçonaves, residiam aí com suas famílias e eram assim os
mais refinados comerciantes.
Comerciavam
até com planetas. Um dia, arquitetaram o plano de depredarem, em sua
passagem casual, um satélite muito pequeno. O que faziam tantas
vezes, havia também de dar certo, com este minúsculo planeta
chamado Terra.
Mas não
deu certo. Um tal de Perry Rhodan foi em cima deles de tal maneira,
que acabaram fugindo para o espaço.
E agora
este mesmo Perry Rhodan estava vendo uma nave dos saltadores
estacionada bem próxima de sua Titan infeccionada. Os saltadores
voavam com naves cilíndricas. Era uma de suas características.
— Então,
novamente os comerciantes — disse Crest zangado. — Nunca
imaginei, que fossem eles os autores deste crime horrível.
Gucky se
mantinha estranhamente calado. Examinava fixo a espaçonave que veio
como um raio do espaço estelar e aterrissou com uma rapidez
incrível.
— E mais
uma coisa, Crest, sobre a qual não nos preocupamos muito: quem deu
informações a esta espaçonave? Onde está em Honur a emissora que
passou o rádio? E por último, quem o passou? Um dos honos? Eu me
arrisco a dizer que não. Mas devo afirmar que uma estação
transmissora clandestina dos saltadores é que nos colocou nas costas
este anjo da morte.
Crest se
atreveu a fazer uma observação:
— Perry,
você está falando muito diferente de ontem. E eu envio meu
agradecimento às estrelas pelo fato de voltar a ser de novo o velho
Perry Rhodan.
Crest não
conseguiu ver o sorriso amargo de Perry, pois, devido ao defletor de
proteção, um não podia ver o outro.
— Ontem
vivi as horas mais amargas da minha vida, Crest. Não agüentava
mais. Estava desesperado e ainda estou. Mas tive tempo para refletir,
mais do que agora. A responsabilidade por setecentas pessoas me
esmagava. Sim, Crest, ontem me tornei covarde, jamais o esquecerei.
Sou apenas um simples homem. Fiquei incapaz de qualquer coisa e nem
percebia que estava vivo. Mas, felizmente, é uma das virtudes do ser
humano “nunca
desesperar, enquanto respirar”.
E agora, Crest, estou respirando e profundamente.
Esta
confissão comoveu o arcônida e o levou a uma admiração maior pelo
homem que de modo objetivo admitia seu erro. Quem dos arcônidas
ainda era capaz disso? Ninguém.
— Gucky,
você já está na nave? — perguntou Rhodan.
O
rato-castor compreendeu o que Perry queria saber. Estudou bem com
seus dons telepáticos o espaço entre o lugar em que estava e a nave
cilíndrica, esforçando-se para captar impulsos de pensamentos.
Bem
baixinho, o rato-castor teve que confessar:
— Não
consigo captar nenhuma onda de pensamento. Nunca vi um negócio
confuso assim. Tudo, mas tudo mesmo, sai em pedaços. Da nave saem
apenas pedaços de impulsos e com isso não posso fazer muita coisa.
Os homens,
invisíveis através do defletor, estavam calados, varrendo com os
olhos o espaço entre as duas naves. Viam os honos ainda apáticos
entre os suportes da Titan, de cócoras. De longe pareciam pontos
minúsculos. Não conseguiam, porém, ver nenhum deles, levado por
curiosidade, levantar a cabeça e olhar para a nave cilíndrica.
— O que
pode captar da Titan, Gucky?
— Impulsos
de cérebros doentes. Alegram-se e dançam para a morte.
— Mas a
morte terá que esperar — era a obstinação de Rhodan, obstinação
nascida de uma vontade irrevogável de transformar o inevitável,
pelo menos em coisas melhores.
— Perry
— chamou-o Crest através do intercomunicador — eu não estou
muito certo aqui de uma coisa e necessito de seu auxílio: esta nave
estranha será realmente dos saltadores? Não sei bem, mas de
qualquer maneira este formato difere um pouco das tradicionais naves
cilíndricas.
Um novo
acontecimento interrompeu o diálogo e deixou a pergunta sem
resposta.
Da
espaçonave estranha desembarcavam robôs.
*
* *
Tiff
estava sentado com Wuriu Sengu na pequena central da nave de
reconhecimento. De repente começaram a conversar. O assunto era a
explosão de desespero que se abatera sobre Rhodan, na tarde
anterior, e sobre a tripulação infeccionada ou envenenada da Titan.
— Eu
sabia — dizia Julian Tifflor, que aliás tinha muita semelhança
com Rhodan, mesmo que seu rosto bem mais jovem pudesse contradizer a
esta afirmação — eu sabia que o chefe não desistiria. E nunca
desistirá, enquanto viver. E se ele tiver que perder seu amigo Bell,
talvez esta tragédia o torne muito desolado, daqui para frente, mas
nunca o fará desistir de seus objetivos. Os olhos de Tiff estavam
brilhantes, quando assim falava. Olhou demoradamente para o calmo e
modesto Wuriu Sengu.
— Tifflor,
você viu o que eu presenciei na Titan. Se o chefe entrar outra vez
na Titan, haverá de ver apenas mortos. Dançam, cantam, gargalham de
encontro à morte. Vão morrer rindo. Nunca pude imaginar que existe
uma coisa assim. Compreendi muito bem seu desespero ontem.
Subitamente,
o ruído do mini-alto-falante da Gazela:
— Julian
Tifflor? — era a voz do chefe que estava chamando.
E o mais
jovem tenente da Terceira Potência, se apresentou:
— Aqui
tenente Tifflor, senhor. Entrementes soou de novo a nítida voz de
comando de Rhodan.
Cem robôs
marchavam ao longo do lago em direção à Titan.
Há um
minuto que já estavam em marcha e ainda sempre mais máquinas de
combate saíam do bojo da nave cilíndrica.
Os
papa-defuntos estavam a caminho.
— Gucky!
— o rato-castor sentiu a poderosa mão de Rhodan através do forte
traje espacial.
— Opa!...
Vamos começar? — disse Gucky ansioso por ver as coisas ficarem
quentes.
— Preste
atenção — disse Rhodan e então deu ordens detalhadas.
Acabou com
as seguintes palavras:
— Se
Bell e todos os outros na Titan ainda tiverem a chance de recuperarem
a saúde, depende de você.
Gucky
ainda deu uma olhadela nos robôs, que em densas formações se
dirigiam para a Titan.
— Amigos
— disse se referindo a eles — o que nossas máquinas não
conseguem destruir, eu consigo. Vou fazer de vocês aviões a jato.
Gucky
então se desmaterializou e num salto de teleportação, desapareceu
na direção da Titan.
*
* *
Os minutos
se arrastavam. Perto do lago já se movimentavam duas companhias de
robôs. Marchavam sem parar, contra a Titan. Para Rhodan e Crest,
pareciam minúsculos brinquedos brilhando ao longo da superfície da
água. A nave desconhecida continuava despejando sempre mais máquinas
de combate. Já estavam formando a terceira companhia.
— Eles
já sabiam que tipo de espaçonave estava aqui — disse Perry,
olhando pensativo para o gigantesco corpo esférico da Titan.
Quantos
dias ainda haveria de levar até que esta maravilha da técnica
arcônida se tornasse sucata e fosse levada para o cemitério no pólo
sul?
Lá
embaixo marchavam os comandos de desmontagem, máquinas desalmadas,
imunes ao veneno dos ursinhos, sem nenhuma consideração com a morte
de setecentas pessoas.
— E se
Gucky não conseguir, Rhodan? — disse Crest, arrancando-o de seus
pensamentos.
Perry se
endireitou.
— Então
seria a primeira vez que Gucky nos deixaria na mão, Crest. Eu só me
preocupo com este exército gigantesco. Mas parece que está
terminando de sair da nave cilíndrica, ou você ainda está vendo
robôs saírem da nave?
— Está
tudo calmo lá embaixo. Mesmo que tivessem saído dez companhias
mais, eu ainda diria: toda resistência é inútil.
— Eu já
não digo isto — respondeu Rhodan. — Será que eu terei de ver
com meus olhos como máquinas desalmadas se acotovelam debaixo de
setecentos homens doentes para matá-los?
A proteção
do defletor escondeu o estremecimento de Crest, ao ouvir isto.
— Quer
dizer que o senhor julga que os robôs, como açougueiros, penetram
na...
— Não
julgo, Crest, eu sei. Não quero repetir de que maneira Wuriu Sengu
viu os esqueletos nas naves depredadas. Aquelas máquinas lá embaixo
já vêm programadas para assassinar.
A cabeça
da primeira companhia de robôs já tinha percorrido um terço do
caminho, quando Rhodan retomou o assunto. Ele perguntou a Crest:
— Por
que a nave estranha não desceu perto da Titan? Por que este espaço
tão grande e o tempo perdido com a longa caminhada até a Titan? Há
uma resposta só para tudo isto, ou muitas?
Crest não
entendeu bem e perguntou de novo.
— Creio
que temos diante de nós uma nave só de robôs. A programação de
aterrissagem tem que manter uma distância de segurança e somente
por este motivo é que a nave cilíndrica está tão afastada da
Titan. Não entendo como uma pergunta desta pode se transformar em
problema, Rhodan.
Perry
respondeu quase um pouco ríspido:
— Setecentos
homens devem pagar com a vida a minha omissão... Setecentas vidas
pesarão na minha consciência, se não puderem ser salvas. Eu sabia
que Árcon havia proibido o vôo para este mundo. Eu, antes de
aterrissar, deveria ter investigado onde estava o perigo para quem
desce aqui. Crest, lamento não me ter preocupado muito com este
fato. Você compreende agora por que a grande distância entre a nave
estranha e a Titan é um problema de importância para mim?
Crest não
podia esconder que era um arcônida e não um homem da Terra. Ele era
também uma vítima da decadência de Árcon. Com sua resposta,
evitou de tomar uma posição clara e fugiu do assunto:
— Para
mim, Gucky se tornou um problema. Acho que devemos sepultar nossas
esperanças.
— Por
quê? — perguntou Rhodan, com firmeza. — Os robôs ainda não
estão diante de nossa nave, ainda não estão dentro dela, ainda não
estão voando com ela para o cemitério e ainda não a depredaram. Só
depois que nossa espaçonave estiver reduzida a um montão de ferro
inútil, é que vou sepultar a última esperança de querer usá-la
de novo, para com ela dominar o Universo.
“No
momento, estou apenas preocupado com os setecentos doentes, fora
disso estou completamente tranqüilo. Ou se prefere: frio como gelo.”
— Rhodan
— respondeu o arcônida, respirando bem fundo — conheço-o há
mais de treze anos, mas algumas situações são para mim piores do
que os mais horríveis pesadelos. Agora, por exemplo, não posso
entender como você não demonstra nenhuma preocupação com Gucky. E
se o pobre coitado não estiver imune ao veneno dos ursinhos e também
adoecer?
— Arcônidas
são e permanecem arcônidas; sim, Crest, quanto ao temperamento
somos tão diferentes como dia e noite Você nunca se sentiu mais
forte, depois de uma derrota, Crest? Você nunca conseguiu dizer,
depois de um grande fracasso: Agora, sim! Eu não apenas digo, mas
também procuro agir assim, sem me esquecer da lógica. No primeiro
encontro com os ursinhos, Gucky não pegou a infecção ou ficou
envenenado. Portanto também não vai sofrer nada agora na segunda
vez. E mais, você esquece uma coisa muito importante: Gucky não é
como nós, embora eu nunca tive coragem de chamá-lo de animal, ele
não é o que você e eu somos: humanóides. E isto é muito
importante, Crest. Aumenta a garantia de que ele não vai pegar a
infecção e então Crest... Crest... — e Perry o pegou pelos
ombros, sacudiu-o chamando muitas vezes pelo seu nome.
*
* *
Gucky já
se tinha materializado na entrada do convés onde ficava o arsenal,
tirando da cabeça aquela viseira e despindo aquele traje espacial
incômodo, que o “engolia”.
Rhodan não
lhe proibira tirar o traje espacial e ele se sentiu muito mais à
vontade. Mas não deixou jogado seu precioso traje. Perto de onde ele
estava, havia uma porta que se abriu automaticamente, quando se
aproximou. Colocou o traje atrás desta porta, dizendo:
— Até
logo, coisa pesada, mas espetacular! — e deixou ali, naquele canto,
a maravilha da técnica arcônida.
Passou
novamente para o corredor principal. Procurou orientar-se, pois seu
objetivo estava a quatrocentos metros para o oeste. Deteve-se um
pouco no corredor principal do arsenal.
Depois de
se concentrar, teleportou-se. Poucos segundos após, materializou-se
no corredor principal do lado oeste, quase dando de cara com cinco
homens da tripulação, que se contorciam de tanto rir, brincando
como crianças com os seus cômicos ursinhos.
— Meu
irmãozinho querido — disse-lhe um homem de cabelo cor de fogo,
irradiando imensa alegria — deixe-me abraçá-lo. Meu queridinho,
por que faz tempo que nós não nos encontramos?
O outro,
de boa estatura, que estava ao lado do de cabelo cor de fogo,
segurava a barriga de tanto rir e apontou para Gucky, oferecendo-lhe
com a outra mão o seu ursinho, perguntou:
— Posso
dar-lhe este presente, gracioso animalzinho de estimação? Você
mesmo já parece um macaquinho, mas assim mesmo, vou-lhe presentear
meu “Imperador”.
Quer dar um beijinho nele, “Imperador”?
Gucky
sentiu a catinga e vagarosamente foi se afastando dos homens que se
aproximavam. Mas, de repente, o homem de maior estatura deu um pulo
em sua direção, lançando-lhe o ursinho aos pés.
Mais do
que depressa, Gucky tirou o corpo de lado e colocou em atividade suas
forças telecinéticas.
Por estas
forças invisíveis o pulo foi interrompido. O pobre animalzinho
virou-se para o lado e saltou para o braço do homem que queria dá-lo
de presente a Gucky.
“Para
longe destes irmãos”,
pensou Gucky, escondendo seu dente de roedor. Não sentia nenhuma
vontade de “brincar”
com estes pobres homens de sorriso doentio, já quase sem forças.
De
repente, porém, não estavam mais sentindo o chão debaixo dos pés
e isto os fez mais felizes ainda. Começaram a gritar e a gritaria se
transformou numa frenética gargalhada, quando, por força
telecinética, iam e vinham, flutuando, pelo longo corredor principal
da Titan ou pelo poço do elevador antigravitacional.
Aí então
Gucky reparou que deste elevador descia um grupo de sete ou oito
pessoas.
“Tenho
que arranjar uma ocupação para eles”,
pensou.
Conduziu,
com suas forças telecinéticas, os cinco homens que flutuavam, como
um bate-estaca em plena queda, em cima deste grupo.
O
rato-castor já estava antevendo, em pensamentos, uma pancadaria bem
divertida, quando arregalou bem os olhos, balançando sua engraçada
cabeça. A trezentos metros dele, apareceu uma dúzia de homens, um
tirando a poeira do outro e alguém apanhando o ursinho perdido e
entregando a seu dono. Tudo isto sob gargalhadas histéricas.
— Esta é
a verdadeira situação — disse Gucky para si mesmo. — Realmente,
estão todos loucos, e só agora compreendo o que é euforia. Rir
para a morte, é o pior que existe.
Este
entrevero lhe roubara dois minutos, mas agora tinha que dar
preferência à tarefa dada por Rhodan. Os últimos cem metros foram
vencidos por um salto, aterrissando exatamente diante da poderosa
antepara do depósito dos robôs de combate. Perry lhe havia
explicado como abrir passagem pela antepara. Sem o menor ruído, a
poderosa muralha de aço desapareceu naquele trecho da parede,
deixando passagem livre.
Ali,
naquele saguão, estavam enfileirados os mais modernos e mais
terríveis artefatos de combate dos arcônidas. Não causaram em
Gucky nenhuma impressão especial. Ele chamava cada robô de “colega
preto”.
Estava
atrás do primeiro robô, para ativá-lo e programá-lo. Tinha
recebido instruções exatas de como agir, que programação tinha
que escolher e que não devia, em nenhuma circunstância, deixar sair
isoladamente a força de combate.
— “E
preste muito atenção, Gucky, que ninguém da nossa tripulação
saia ao ar livre. Não seremos mais amigos, se algum dos nossos
conseguir escapulir da espaçonave.”
O
rato-castor trabalhava como um possesso. Bem colados uns aos outros
ali estavam os robôs de combate e Gucky tinha que fazer milagre para
passar entre eles e regular a programação.
A primeira
centena já estava ativada. Quando ele se encaminhou para o próximo
robô, cem autômatos ativados se puseram simultaneamente em marcha.
De repente ecoava o passo metálico dos gladiadores modernos. Em
filas de cinco, saíam os cem robôs arcônidas do arsenal da Titan,
fazendo estremecer o corredor principal, dirigindo-se para o elevador
antigravitacional central.
Ao mesmo
tempo, Gucky regulou seu sensor de tempo. Não podia, de maneira
alguma, esquecer do momento exato em que a centena de robôs teria
que passar pela escotilha, para descer pela rampa a fim de entrarem
em combate com seus colegas que se aproximavam.
Gucky
naturalmente não sabia que da nave estranha haviam descido trezentos
robôs de combate e estavam a caminho da Titan. Mas isto não tinha
muita importância para ele, mesmo que fosse o dobro de trezentos.
Ele estava aí para isso, e não fazia nenhuma restrição em sua
auto-estima.
Trabalhou
sem parar. É preciso saber que seu corpo media um metro e meio de
comprimento, enquanto a altura em que estavam os contatos da
programação era de dois metros.
Como um
serelepe, Gucky cabriolava em torno dos robôs. Seus gestos e suas
ligações eram cada vez mais rápidos. E mesmo o barulho infernal da
tripulação doente, que se comprimia no hall, não conseguia
detê-lo.
Transportou-se
para fora telecineticamente. Um do grupo estava muito insistente,
procurando agora pela terceira vez entrar. Ao mesmo tempo, o
despertador de Gucky começou a tocar.
A primeira
centena de robôs estava esperando rente à grande escotilha,
preparada para deixar a Titan.
O doente,
que gritava em voz alta, se encontrava bem atrás dele, quando ainda
ativava um robô. Gucky não estava pensando nele, nem tinha mais
tempo de se preocupar com seu hóspede. Correu para a antepara,
fechou-a, prendendo o doente no hall dos robôs e se teleportou para
a escotilha cinco que a centena de robôs tinha procurado para sair
da gigantesca esfera espacial.
Quando
chegou bem em frente à escotilha, botou as patas dianteiras na
frente do focinho, pensou numa porção de palavrões que Bell lhe
havia ensinado e abaixou novamente as patas. Agora tinha de resolver
outro caso: conter cinqüenta homens e mulheres que se acotovelavam
diante da antepara, dançando com aquele alarido infernal.
O reboar
dos passos dos gladiadores de aço era cada vez mais forte e Gucky se
sentia puxado para todos os lados, tendo ainda que suportar em cada
respiração aquela catinga horrível dos honos, que sempre lhe
provocava ânsias de vomitar, e ouvir dos ursinhos sempre a mesma
coisa: “me
dá um beijinho, me dá um beijinho...”.
Notou de repente que um homem de boa estatura, com mais de 80 quilos
estava pisando na sua pata traseira.
Foi sempre
contra este tipo de cumprimento. Soltou um guincho terrível. Mas a
gargalhada do eufórico homenzarrão abafou o guincho de Gucky, que
não se conteve mais de ira. No mesmo instante, aquela multidão de
dançarinos ficou colada bem rente ao teto. E já não havia nenhum
impedimento para a primeira centena dos robôs de combate dos
arcônidas.
Mais de
cinqüenta pessoas, com seus ursinhos, ficaram coladas ao teto, sem
poder mover um braço. Por baixo deles, desfilavam os robôs na
direção da escotilha, que agora se abriu toda, liberando-lhes a
passagem.
Comprimido
contra a parede, o rato-castor via desfilar diante dele a mais
moderna e fulminante centena de robôs dos arcônidas. Teve então
oportunidade de olhar para fora e viu os purificados ainda sentados
entre os suportes telescópicos gigantescos da Titan.
Mal havia
deixado a rampa o último robô, a escotilha se fechou e a rampa foi
levantada.
“Vocês
podem descer novamente”,
pensou ele. No mesmo instante, o gargalhar frenético e os gritos da
pequena multidão que estivera colada ao teto, lhe encheram os
ouvidos.
A uma
distância de cinqüenta metros, os fez voltar brandamente ao chão.
Desmaterializou-se no mesmo instante, voltando num pulo para a
antepara do depósito de robôs.
Sua vida
esteve por um triz, quando um robô quase o esmagou com seu pé. Com
palavrões e com uma expressão de desespero, ia pulando entre os
robôs que caminhavam pelo corredor principal, até que, outra vez
comprimido contra a parede, ficou olhando para esta segunda centena
de robôs, completamente perplexo.
Que teria
acontecido? Quem teria programado e ativado estes cem robôs? De onde
vinham estas “máquinas”?
Estava
mesmo pensando em “máquinas”
e não nos “camaradas
pretos”.
Tinha perdido o bom humor.
Isto seria
um desastre. E aquela centena já estava longe.
Num salto
desesperado, aterrissou nas costas do último deles. Rhodan lhe havia
garantido que seu programa excluía qualquer interferência de um
membro da tripulação.
De repente
Gucky começou a duvidar desta garantia. Pondo em risco a própria
vida, agarrou-se com uma pata no pescoço do robô de combate e,
equilibrando-se com muita habilidade, conseguiu controlar em que
programação o robô estava ligado. Depois, pulou para a nuca do
próximo robô, observou também aí. Chegou à conclusão de que a
programação estava certa.
Subitamente
se lembrou do doente que deixou preso no depósito dos robôs.
“Tomara
que dê certo”,
pensou ele.
Transportou-se
telecineticamente para a antepara, deu um outro salto pequeno e
aterrissou no hall, que com a retirada de duzentos robôs de combate,
parecia agora vazio.
O doente
preso ouviu o ruído de sua chegada e virou-se para ele rindo,
ligando qualquer coisa no robô, atrás do qual se encontrava.
Gucky
notou que os fios de seu pêlo estavam eriçados.
— Puxa!
— exclamou, com sua voz aguda, fazendo com que o pobre homem
subisse como um balão até o teto. Depois começou a regular a
programação.
Um minuto
depois, estavam os dois trabalhando juntos. Gucky nem protestou mais
contra o mau cheiro do ursinho da morte, nem ouvia quase o gargalhar
maluco de seu inesperado auxiliar.
— Não
estou sendo bacana para você, irmãozinho? — perguntou este já
pela décima vez, tentando demovê-lo do trabalho para dançar um
pouco. — Ria um pouco, amigo, você não se alegra com a minha
felicidade? Eu não sou bom para você e o ajudo?
— Daqui
um pouco, vou me alegrar mesmo — disse ele e se teleportou
novamente para a escotilha.
O segundo
lote de cem robôs estava para deixar a Titan e Gucky tinha ordens
expressas de Rhodan de não deixar nenhum doente sair ao ar livre.
*
* *
— Rhodan,
você entende uma coisa desta? Já está saindo a terceira centena da
nave...
No mesmo
instante se intercalou alguma coisa entre Rhodan e Crest. Surgiu a
figura de Gucky. Tentou fazer a saudação no seu uniforme feito sob
medida, e se apresentou.
— Tenente
Gucky, de volta da primeira incursão. Trezentos “camaradas
pretos”
na vanguarda. Anuncio-me para a segunda incursão.
— Gucky...
Gucky já
tinha desaparecido.
— Este
safado — disse Perry com certo orgulho.
Todo
reticente, representando o nobre arcônida, perguntou Crest:
— Será
que Gucky já conhece esta palavra?
Gostava de
ouvir Perry Rhodan. Crest sorria intimamente.
*
* *
Entre as
duas espaçonaves, travava-se a horrível batalha dos robôs, que
parecia uma tocha viva de milhares de metros. O acaso fizera com que
o número de máquinas de combate fosse exatamente igual dos dois
lados.
A árida
planície se convertera num inferno. O ar estava cheio de explosões
e de relampejos ininterruptos. Nuvens de fumaça invadiam o céu e os
clarões eram tão ofuscantes que Perry e Crest, apesar da distância
em que estavam, tinham que tapar os olhos. Cada nuvem de fumaça era
a destruição de um robô, transformado numa fornalha incandescente
de um inferno atômico desenfreado. Até a água do lago, estavam
frente a frente. E mesmo rente à montanha íngreme, lutavam com suas
armas horríveis. Máquinas desalmadas, programadas para destruir o
inimigo, não conheciam reações humanas.
Capacetes
de proteção rebentavam como bolhas de sabão; raios com força para
destruir tudo transformavam o aço arcônida em gás. Densa poeira se
levantava das passadas dos robôs, incandescente às vezes. A água
fervia quando um robô atingido começava a fundir, com todo seu
armamento de raios atômicos.
Depois de
alguns minutos, Rhodan e Crest já não sabiam distinguir onde
estavam os robôs da Titan e os seus adversários. As frentes de
combate se deslocavam constantemente.
Agora,
via-se uma brecha ali no meio. Rhodan e Crest prenderam a respiração.
Quem seria o vencedor?
Logo a
seguir, sobem ao céu sete colunas de fogo, sete línguas
incandescentes que lembravam protuberâncias do nosso sol, ofuscando
tudo, deixando atrás de si um caudal de fumaça e gás no chão de
areia.
E mais uma
vez, os segundos se transformaram em eternidade. O inferno dançava
lá embaixo o rito da morte e da destruição. Este inferno parecia
ter tragado um ente querido: Gucky.
Crest
perguntou por ele. Rhodan não respondeu, porque não percebeu nada
que denotasse a presença física de Gucky.
Os pontos
lá embaixo — cada ponto representava um robô — estavam às
vezes encobertos por nuvens de gás, de fumaça, no meio da
cintilação dos raios energéticos e das explosões, tudo
acompanhado de um trovejar infernal. Cada vez mais fortes, as
explosões e os abalos provocados pela vibração do ar chegavam até
onde estavam Rhodan e Crest. Parecia o desenrolar de uma terrível
tempestade, mas já se podia perceber que a frente de fogo caminhava
lentamente se aproximando da nave cilíndrica.
— Perry,
lá está Gucky! — exclamou Crest todo feliz. — Lá, à direita
do grande rolo de fumaça. Veja como os dois robôs estão voando
como aviões a jato...
Logo a
seguir ecoou uma risada espontânea de Rhodan. Tinha localizado os
dois robôs que voavam retos na direção deles. Descomunal era sua
aceleração. Só podia ser obra do rato-castor, que devia estar
escondido lá por baixo, mais ou menos próximo à zona de combate,
com seu dente de roedor, todo feliz, brincando, como ele dizia.
— Cuidado
— disse Crest. Mas não foi necessário cuidado.
A dez
metros deles, desceram os dois robôs, agora transformados em
velocíssimos jatos. À primeira vista, podia-se notar que tinham
apenas valor de sucata. Sua célula positrônica estava destruída.
Apesar disso, Rhodan e Crest correram para o campo de pouso e
disseram, quase simultaneamente, depois de curta observação:
— Não
são robôs dos saltadores. Então veio a pergunta que tinha de vir:
— Quem
constrói destas máquinas de combate?
Crest
respondeu bem baixinho:
— Daria
qualquer coisa para poder responder, Perry. Nunca vi este modelo de
robô e nunca ouvi falar a respeito.
— Observe
que possui características típicas dos arcônidas, Crest. Eu
gostaria de... — Rhodan, falando, olhou para baixo e percebeu o que
estava se passando nos instantes finais. Chamou o tenente Julian
Tifflor na Gazela.
Este se
apresentou e Rhodan lhe transmitiu a seguinte mensagem:
— Tiff,
voe para atacar a nave cilíndrica. Faça um bom serviço.
E, do seu
mini-alto-falante, ouviu a resposta de Tiff:
— Senhor,
espero fazer tudo bem.
*
* *
Como uma
bala, a nave de telerreconhecimento partiu da caverna onde se
abrigara.
Com a
palavra “ataque”,
Tiff estava em seu elemento.
A Gazela
se atirou com estupenda velocidade contra o íngreme paredão de
pedra. Em dois segundos, poderia se esfacelar de encontro a um
rochedo de uns mil metros de espessura. Wuriu Sengu já se sentia
esmagado. Porém apesar de seu medo, não se atrevia a olhar para
Tiff.
Tiff
sorria, mas era um sorriso duro.
— Ataque!
O ar
açoitado zumbia e gemia em torno da Gazela, ficava quente e começava
a esfuziar. Na nave de reconhecimento, roncavam os reatores. O zunido
do absorvedor magnético começou a atingir freqüências mais
elevadas.
A Gazela
passou em disparada, bem rente à crista do rochedo.
— Velocidade!
— exclamava Julian Tifflor e não sentia barulho nenhum. Levou a
velocidade ao máximo, ainda tinha mil metros para baixo. Voavam já
pela parte final do planalto.
Um paredão
escuro surgiu à sua frente. A velocidade era cada vez maior.
— Curva
para a esquerda.
Algum
monstro na máquina, faminto, insaciável, devorava todas as forças
de resistência. Para fora da curva, para a esquerda. Agora era
necessário subir. A quatro mil metros estava o cume da montanha.
O que
estava voando — a cumeeira da montanha ou a Gazela?
Wuriu
Sengu não entendia como, numa velocidade desta, se podia atingir um
objetivo que estava do outro lado da montanha, bem mais para baixo, à
margem do lago.
Julian
Tifflor ainda não tinha visto a espaçonave desconhecida, nem tão
pouco Wuriu. Com uma velocidade infernal, a Gazela passou pela
cumeeira da cadeia de montanhas; Tiff havia aprendido a correr assim
com seu chefe.
— Descer!
Lá estava
o gigantesco cilindro.
— Fogo
nele — gritou Julian Tifflor.
Wuriu
ligou o interruptor duplo. Todas as armas de raios energéticos da
Gazela fizeram fogo. Um clarão ofuscante varreu o espaço e atingiu
a nave desconhecida.
— Ela
não tem o envoltório de proteção! — Foi um alvoroço incrível
quando os raios energéticos devoravam a carcaça da nave, que se
fundia toda. Não houve contra-ataque.
Os
reatores roncavam alto. Deviam dispender agora uma energia enorme;
apenas a uns cinqüenta metros da nave desconhecida é que Tifflor
deu a ordem:
— Voltar.
Perry
Rhodan que vira o perigosíssimo looping
feito pela Gazela, não pôde deixar de exclamar:
— Será
que Tiff ficou louco?
A nave de
Tiff virou-se um pouco e se atirou com todo peso para baixo.
— Fogo,
Sengu! — gritava Tiff, pensando nos setecentos homens envenenados.
O chão
parecia voar de encontro a eles e o cilindro se aproximava. A mancha
feia no alto da carcaça da nave desconhecida se transformou numa
fenda, numa fenda de dez metros de diâmetro.
— Fogo,
Sengu!
Das
aberturas afuniladas da Gazela, sibilavam raios energéticos.
Embaixo, na nave desconhecida, roncavam os reatores, dançavam relês,
tudo estava cheio de alta-tensão.
Através
do intercomunicador Crest ouviu a voz entusiasmada de Rhodan:
— Olha,
Crest, o rapaz sabe voar.
— Aí
vem o contra-ataque, Perry.
A nave
cilíndrica se defendia. Retiraram a cobertura dos canhões e as
grandes aberturas afuniladas estavam livres. A Gazela entrou numa
nuvem.
— Descarregar,
Sengu — disse Tiff sorrindo.
O fato de
ter percebido prontamente a reação da nave desconhecida, ele devia
à aparelhagem ótica de primeira classe que a Gazela possuía.
Wuriu
Sengu estava compreendendo agora o que que o tenente Julian Tifflor
entendia por “descarregar”.
Tiff
exigia tudo que a nave podia dar. Não serviria de alvo fácil para
os canhões energéticos. Seu envoltório de proteção não
agüentaria este impacto, haveria de rebentar e cair.
Havia uma
fenda no paredão da montanha. Tiff empinou sua nave na vertical. A
fenda mal tinha trinta metros de largura, exatamente vinte e cinco.
Havia calculado tudo. A Gazela tinha dezoito metros de largura,
portanto, conforme Pitágoras, sobrariam três metros e meio para
cada lado.
— De
qualquer maneira, o espaço está sobrando — disse Tiff para o
japonês.
Mas já
estavam bem em cima da montanha e a nave de reconhecimento retomou
seu curso normal.
— Tiff —
dizia o vidente Wuriu, enxugando o suor da testa.
Julian
Tifflor piscou para ele, sem tirar, todavia os olhos dos
instrumentos.
— Wuriu,
não tive tempo de suar, mas você, no segundo vôo, abriu um rombo
na coluna vertebral da nave desconhecida, parabéns.
De novo o
alto-falante com o seu “atenção,
atenção”.
Era o chefe que estava anunciando a presença de Gucky.
Coisa de
um instante depois, surgiu Gucky. Ajeitou o capacete de seu uniforme
espacial e falou com energia:
— Onde é
que está o depósito de bombas?
— Atrás
da casa de máquinas — respondeu Tiff. — Como é que está o
negócio com os robôs, lá embaixo?
Gucky já
ia indo para a casa de máquinas. Parou um pouco, sorriu muito
orgulhoso, com o dente de roedor à mostra, e explicou:
— Como é
que está? Estive presente a tudo e ainda me pergunto se existe um
robô, um soldado de aço, que seja capaz de agüentar uma queda de
cinco mil metros de altura, sem se esborrachar... Até agora só vi
montes de ferro velho atrás de nós. Até logo, meus aliados.
Gucky, um
comodista. A distância para o depósito de bombas era pequena, mas
assim mesmo ele se teleportou. Não voltou, foi diretamente para o
seu “brinquedo”.
Wuriu perguntou por ele. Tiff, que conduzia sua nave através dos
picos da montanha, sorriu, dizendo:
— Aposto
que já botou seu ovo na nave desconhecida e desapareceu. É um rapaz
formidável, parece garganta, mas é a criatura mais simples deste
mundo e sempre sabe o que quer.
Nova
mensagem do chefe:
— Venha
imediatamente, Tifflor, para a Titan.
*
* *
No minuto
seguinte, a situação mudou um pouco a bordo. Tifflor colocou a
Gazela em aterrissagem de emergência.
— Chefe
— disse o intercomunicador — meu orientador de estrutura não
funciona mais, depois de tantas transições e descidas, está
falhando.
Rhodan
veio correndo para a cabina de comando, acompanhado de Crest e Gucky,
que estava acabando de chegar. Perry, que não se assustava com nada,
sorriu tranqüilamente para Tiff. Este sorriso queria dizer: Não se
afobe, companheiro, o chefe resolve isto com o dedo mindinho.
— Vamos,
Tiff, leve a Gazela para o hangar sete.
— Para a
Titan? — perguntou Tiff, meio sem jeito.
— Para
onde então, para a nave cilíndrica que já é sucata? Vamos.
Foi apenas
um pequeno pulo, mas um pulo para setecentos homens doentes ou com
infecção, um pulo para o inferno dos ursinhos.
A
escotilha para o hangar sete ainda estava aberta e a Gazela pousou
sem o menor solavanco. Tiff folhou para Rhodan como que querendo
fazer alguma pergunta, ao vê-lo sacar sua pistola de raios
paralisantes.
— É com
isto que temos que abrir caminho para a central — disse Rhodan a
contragosto. Temos infelizmente que usá-la, os raios psíquicos não
produzem mais efeito. Mas uma coisa é essencial: o traje espacial
tem que ficar fechado. Se vir alguém com o capacete aberto, tenho
que atirar com os raios paralisantes. Quanto tempo temos ainda à
disposição para chegarmos à central, isto depende das espaçonaves
que nos atacarem.
— Mas os
robôs de combate ainda estão lutando — disse Crest.
— Foram
construídos para isto — foi sua resposta.
Foi o
primeiro a sair da nave de telerreconhecimento.
*
* *
Quatro
homens e Gucky penetraram na central da Titan. Jamais gostariam de se
lembrar quanto sacrifício lhes custou abrir caminho para o posto de
comando. Ninguém falava e não havia mesmo motivo para isto.
A Titan
devia partir. Perry Rhodan, Crest, Tiff e Sengu e naturalmente Gucky
queriam fazer aquela espaçonave de um quilômetro e meio de diâmetro
subir ao espaço.
Eram cinco
em lugar de mil e quinhentos. Tornava-se mais do que uma tentativa
desesperada: era pura loucura. Mas ninguém se opôs.
— Em
duas ou três horas, os primeiros estarão chegando — disse Tiff,
consultando o rastreador estrutural.
A reação
de Rhodan foi imperceptível. Tinha mil coisas em que pensar no
momento. A principal: fugir com a Titan.
— Crest,
que há com os motores seis, nove e quatorze? Por que não funcionam?
Crest deu
sua resposta, mas Gucky acrescentou:
— Não
estou conseguindo ligar os reatores, Dora, Zeta e mais dois outros.
Tiff
deixou o rastreador de estrutura e foi ajudar Gucky.
Tudo foi
feito, seguindo o manual de emergência, tudo, e a Titan tinha um
quilômetro e meio de diâmetro.
Perry
correu para os controles dos absorvedores de compressão. Estava
concentrado, mas sereno.
— Perry,
todos os reatores estão em funcionamento — disse Gucky, como que
provando que não só gostava de “brincadeiras”
como também de coisas sérias.
O ronco de
todos os reatores era ensurdecedor e causava uma leve trepidação na
esfera gigante.
— Tiff,
venha aqui — disse Rhodan, tirando Julian Tifflor do rastreador
estrutural. Este controle não tinha grande importância no momento.
Teria só na hora de levantar vôo. — Sente aqui na poltrona do
co-piloto.
O jovem
tenente nem teve tempo de ficar contente, por ter a honra de pilotar
junto com o chefe.
— Não
tenha medo, Tiff — era o legítimo Perry, o homem que na hora mais
desesperada sabia derramar coragem ao redor.
— Perry,
olhe os honos — gritou Crest, através do ronco dos reatores e o
sibilar das turbinas.
Lá
embaixo, entre os suportes da Titan, ainda estavam alguns
purificados, apáticos, olhando para o nada.
— Gucky
— era a voz de Rhodan — leve estes honos para longe, mas bem para
longe.
Com seus
poderes telecinéticos, Gucky os projetou para o outro lado do lago,
tendo, porém, o cuidado de lhes proporcionar uma descida suave.
Quatro
homens, que não podiam perder um segundo, olhavam pasmados o feito
de Gucky.
— Pronto
— disse Gucky de volta — o transporte foi rápido, mas
confortável. Podemos partir.
E Perry
deu a partida. Puxou o controle duplo para todos os reatores, com o
outro movimento ligou o envoltório de proteção em tomo de toda
nave.
— A nave
cilíndrica vai aos pedaços — gritou Sengu. É o que se via no
painel da tela redonda, pedaços da nave voando pelos ares como
folhas secas ao vento. Mas ninguém teve tempo de olhar.
Era pura
loucura tentar levantar vôo apenas com quatro homens. Não podia dar
certo. Não houve partida.
Por que
não houve partida? Por que a Titan não se ergueu?
Aí a
lâmpada de controle acendeu: ligação sincronizada.
Verde! Um
ribombar de mil trovões se fez ouvir e a Titan se despregou do chão.
Havia partido.
*
* *
Já
estavam no espaço.
Com
cinqüenta por cento da velocidade da luz, a esfera gigantesca varava
o infinito, protegida apenas por seu envoltório energético. Fora
disso estava completamente desarmada, pois não havia recursos
humanos para manobrar as armas da grande nave.
Crest
arregalou os olhos ao ver no painel as naves cilíndricas que se
aproximavam da Titan.
Rhodan
sorriu calmamente.
— Isto
não é nada, ainda virão muitas outras. Sabiam naturalmente que o
bom-bocado que as esperava lá em Honur não era pão de cada dia.
Começou o
primeiro ataque por parte da nave cilíndrica mais poderosa. Seis
bons tiros fizeram estremecer a maior espaçonave do Universo.
Estremecia, mas continuava seu curso. Qualquer outra teria sucumbido
a este ataque. O envoltório energético apenas tremeu um pouco,
recebendo aquele horrível impacto.
— Ataque
pelo verde trezentos e quarenta — anunciou Tiff.
Dez
minutos depois não se anunciavam mais os ataques. Ininterruptamente,
as centenas de descargas energéticas vinham de todos os lados e
chocavam-se no envoltório da Titan. Por duas vezes os registros de
bordo acusaram 80% da capacidade de resistência do envoltório.
— Acho
que não virão outras espaçonaves, fora estas que aqui estão —
disse Tifflor, levando a mão aos olhos para não ser ofuscado por
aqueles lampejos de claridade intensa, que transformavam a escuridão
do espaço numa orgia de luzes.
Neste
momento, o rastreamento automático anunciou transição numa
distância de dez minutos-luz.
— Meu
Deus! — exclamou Crest. — Estão aí de novo sessenta
espaçonaves. De onde vieram todas elas?
— Do
inferno — foi a resposta azeda de Rhodan. — Tiff, mande um
superimpulso para a Terra, perguntando onde se encontra Freyt com a
Ganymed. Chame Freyt, se ele estiver no espaço, mas não se esqueça
de pedir socorro.
Ninguém
falava em transição. Apenas com quatro homens a bordo, seria
temerário tentar uma transição.
A Titan
continuava a estremecer com os terríveis impactos que vinham agora
do amarelo quatorze.
— Acho
que todas estas espaçonaves são dirigidas por robôs — disse
Crest.
Tifflor
teve imediata ligação com a Terra:
— A
Ganymed está no espaço — anunciou Terrânia.
E quase no
mesmo instante, percebeu o superimpulso da Ganymed:
— Que
que está acontecendo? — perguntou o major Freyt.
— Venha
imediatamente — respondeu Tiff. — Temos setecentos moribundos a
bordo. Estamos sendo atacados por supernaves cilíndricas. Somos
apenas quatro homens e o Gucky. Reúna todos os médicos. Proibido
entrar na Titan sem os trajes espaciais. Venha rápido, major.
Soou o
alarme na Ganymed. Explicou-se a razão do alarme e em três
transições a Ganymed alcançou M-13. Mais um pequeno salto a trouxe
para o sistema Thatrel.
Todas as
torres de ataque da Ganymed estavam de prontidão, as capas das peças
de artilharia energética foram retiradas. Nos pontos de controle se
encontravam homens decididos para o que desse e viesse.
Ninguém
podia imaginar a situação de Perry.
Finalmente
chegaram as coordenadas.
— Graças
a Deus — disse Freyt, e a gigantesca Ganymed se atirou na direção
exata.
Nenhuma
das naves cilíndricas se preocupou com a aproximação da Ganymed.
— São
naves robotizadas — foi a conclusão de Freyt, e sua fisionomia se
tornou rígida. — Lá está a Titan.
Naquele
instante havia uma enorme labareda em volta da esfera espacial. Um
fogo cerrado de forças mortíferas ia de encontro à camada de
proteção do gigante do espaço. Parecia um sol pequeno.
O júbilo
foi indescritível na central da Ganymed, quando depois de tudo, a
Titan apareceu de novo, intacta, com seu bojo escuro no espaço.
Das
aberturas afuniladas da Ganymed, centenas de bocas vomitavam fogo
contra as naves cilíndricas. Por toda parte havia nuvens de fumaça
incandescente; eram naves inimigas destruídas. Era heróico o
esforço dos homens da Ganymed, que corajosamente tentavam livrar a
Titan dos ataques adversários, já que de seus próprios canhões
não era possível sair nenhum tiro.
— Desgraçados!
— esbravejava Freyt na central da Ganymed. — Temos que
transformá-los todos em tochas ardentes.
De
repente, mudaram de rumo. Alguns minutos depois, o espaço em torno
da Titan e da Ganymed estava vazio, com exceção de uma nave-robô,
bem atingida, que se arrastava pelo espaço.
Naturalmente
um determinado impulso de rádio havia feito recuar as demais naves.
Agora era
a vez de uma outra batalha.
Na nave de
Freyt, todos os médicos e oitocentos especialistas estavam prontos
para entrarem em ação na Titan.
Primeiro,
entraram os médicos. Começaram os exames com Thora, Bell e o
sargento Rous.
Por longas
horas, Rhodan, Crest, Tiff, Sengu e Gucky tiveram que esperar pelo
resultado na central da Titan.
Apresentou-se
então a comissão médica. Os quatro homens e Gucky pareciam um só
ouvido.
Hipereuforia,
era como os médicos classificavam a doença, hipereuforia provocada
por um tóxico segregado pelos ursinhos. Este tóxico destruía
paulatinamente as células gangliares do sistema nervoso central e
não podia ser debelado com os meios até então conhecidos pelos
arcônidas.
— Não
podemos dizer exatamente quando começarão a morrer. Recomendamos,
porém, extirpar todos estes ursinhos, antes que os homens da Ganymed
entrem aqui.
Perry
Rhodan concordou. Em seu lugar, Crest se dirigiu ao médico chefe:
— Pode
providenciar a destruição deles. Eu proponho, porém, que três
pares sejam isolados cuidadosamente, para fins de pesquisa
científica.
Perry
Rhodan estava de olhos fixos no painel da tela redonda, mas não via
nada.
Um
adversário desconhecido, traiçoeiro, quase que por um fio, não o
destrói completamente.
De onde
viria o próximo golpe? De que direção? E os setecentos homens,
seus amigos, quando morreriam?
Não, e
mil vezes não, a morte terá que esperar.
De pé,
parado na frente do painel, um pouco recurvado, postura esta nunca
vista até hoje em Perry Rhodan, ele olhava para o infinito — um
Perry Rhodan cheio de desespero. Entretanto um Perry Rhodan em quem
sempre lampejava um raio de esperança.
*
* *
*
*
*
Uma
super belonave se torna também indefesa, quando sua tripulação não
pensa mais em obedecer às ordens de seu comandante.
O
estado de coisas provocado pela contaminação em massa era
desesperador para a Titan e seus comandantes — e somente a Ganymed
é que, no último minuto, a salvou do ataque das naves-robô. Mas o
que acontecerá com os setecentos doentes a bordo da Titan? Haverá
possibilidade de cura ou estão todos irremediavelmente condenados à
morte?
Só os
causadores da doença é que podem responder a esta pergunta — e
para descobrir estes causadores, Perry tem que voltar à armadilha
das espaçonaves.
Em
Cuidado com os Microrrobôs, Perry Rhodan voltará com disposição
redobrada.

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