sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

P-042 - S.O.S. Espaçonave Titan - Kurt Brand [parte 3]

Perry Rhodan aterrissou a trezentos metros da gigantesca Titan. A poderosa estação de rádio da central não reagiu mais aos seus chamados. Depois do convite à dança o emissor da nave estava mudo.
E na consciência de sua impotência, de seu estado de desarmado e sem recursos, estava Perry à beira do lago, olhando para o alto, para o local de sua nave, onde, atrás das poderosas chapas de aço arcônida, se encontrava a central, seu posto de comando. Inatingivelmente alta, inatingivelmente...
Dança dos mortos... — e a voz de Perry tremia.
Gucky, o rato-castor, sentado ao lado dele. O telepata, o telecineta, o teleportador, e só Deus sabe quantos dons estavam escondidos nele. Gucky estava pedindo a Rhodan que lhe permitisse tentar entrar na Titan.
Rhodan já tinha dado o seu não.
Pela terceira vez o rato-castor suplicava.
Não, não, e cem vezes não, Gucky. Que é que você quer fazer na espaçonave? Quer pegar a infecção? Eu tenho que entrar na nave, tenho que saber por que ficaram doentes... Você quer vê-los todos mortos, Gucky?
O gorducho também tem que morrer? — Gucky o perguntava como uma criança tímida e dava mostras de como sua amizade era sincera e seus sentimentos profundos para com Reginald Bell.
Bell também — Rhodan acariciou a cabeça de Gucky, por uns instantes, olhando para seus olhos fiéis e inteligentes. Depois disse: — Fica um pouco sentado aqui, Gucky. Preste atenção nos meus impulsos. Faça tudo certo e rápido, Gucky. Se você me deixar na mão hoje, está tudo perdido, não haverá mais esperança.
O rato-castor nunca ouvira Rhodan falar assim. Concentrou-se em seus pensamentos e só encontrou desânimo.
Está, realmente, tudo tão ruim, assim?
Gucky, do planeta vagabundo era, de fato, um milagre. Embora ele mesmo se classificasse como um animal, esta classificação estava errada, porque quanto ao caráter, era muito mais do que um homem. Ele, Gucky, era bom, sempre bom, e por isso estava acima do homem, que permanentemente tem que lutar contra o mal interior.
Esteja atento, Gucky.
Falando assim, Perry se dirigiu à Titan.
E como vou ficar atento! — exclamou quando Perry, o chefe da Terceira Potência, lhe virou as costas.
E começou sua grande concentração.
Já de longe, Perry ouvia o gargalhar e o cantarolar de sua tripulação. Uma alegria exagerada, totalmente fora do natural, era a impressão que se tinha. Em berrante contraste com tudo isto, lá estavam, entre os suportes do gigante do espaço, imóveis e apáticos, os purificados, indiferentes à algazarra esfuziante da tripulação. Abobalhados, olhavam para a areia, como em pose extática, comprimindo contra o peito os ursinhos.
Enquanto a Gazela descia, Perry já tinha observado muito os honos. Suas presenças lhe causavam decepção, o mesmo acontecendo com o arcônida Crest. Cada um dos dois acreditava em seu íntimo que eram estes purificados os responsáveis pela epidemia que irrompera entre a tripulação da Titan.
Perry caminhava vagarosamente na direção de um hono, ouvindo, da única rampa que estava armada, as horríveis gargalhadas da tripulação.
O hono segurava bem firme um ursinho, dava a impressão de estar dormindo, mas levantou a cabeça com a aproximação de Perry e falou num arcônida muito quebrado, enquanto oferecia o ursinho a ele:
Aceite meu pequeno presente, digníssimo senhor. Faça-me feliz, aceitando este presente.
Apesar de seu desespero, Rhodan se lembrou do severo julgamento de Gucky a respeito destes animaizinhos. Para o olfato sensível do rato-castor, estes ursinhos catingavam bastante. De repente, como que influenciado, Rhodan, sem o querer, deu um passo para trás impulsivamente. Não sabia que força tinham seus olhos no momento. Percebeu apenas que o velho nono puxou o ursinho para si e desviando os olhos de Rhodan, continuou fitando o horizonte. Os olhos grandes do purificado, encavados numa testa ampla, tinham algo de triste. A boca estreita parecia murmurar alguma prece. Perry julgou ter ouvido uma vez a palavra “deuses”.
Novamente um tremor perpassou seu corpo ao ouvir os gritos frenéticos de sua tripulação. Desviou-se do hono e se dirigiu para a rampa, tentando sempre fugir dos purificados que estavam por toda parte. A suspeita de que eles tivessem levado a epidemia para a nave, diminuía sempre mais.
Ele não estava doente. Crest também não. Aliás, nenhum dos homens que tomaram parte na viagem de reconhecimento, sobre o Planeta Honur.
Os ursinhos... — gritou ele.
Não sabia que, de boca aberta, como que petrificado, estava parado entre dois purificados e que a poderosa Titan girava sempre mais veloz em sua frente. Sentia um terrível zumbido nos ouvidos.
Ele — Perry Rhodan, o sonhador da conquista do Universo — o “transformador de tudo”, o homem com incrível poder de reação instantânea, ele, que tinha unido a Terra num único Estado, sem usar a força, estava agora sendo destruído por aquela infecção a bordo.
Digníssimo senhor, faça-me feliz, aceitando meu animalzinho de presente — era uma jovem purificada, um tanto bonita, de pé em sua frente, suplicando. Mantinha os olhos fixos em Rhodan, esticando-lhe, com mãos trêmulas, o animal.
Quando Perry percebeu em sua mão o raio paralisante, sentiu o choque mais horrível de sua vida:
Vai embora — foi seu comando enérgico para a moça.
Seu olhar desesperado se chocou com o dela.
São os ursinhos, pensava ininterruptamente, enquanto se encaminhava para a rampa. Foi com os animais que a doença entrou na Titan. Com estes animaizinhos é que todos os aparelhos que hoje formam o terrível cemitério foram atacados “por dentro”. E depois, quem levou todos eles lá para a região do pólo sul? Quem os depredou? Quem? Estas figuras esquálidas, famintas, abobalhadas? Estes arcônidas degenerados?
As coisas foram ficando mais claras.
Eles se chamavam de... De repente compreendeu o que esta expressão queria dizer: OS PURIFICADOS estavam imunes ao veneno destes animaizinhos que pareciam tão inofensivos. Eles, os purificados, eram os descendentes dos colonizadores que tinham sobrevivido à peste da euforia. Ainda estava bem claro na fisionomia dos seus descendentes magros, esquálidos e quase débeis mentais, o preço que aqueles arcônidas tinham pago para superar, há mais de 14 mil anos, esta doença.
Para trás — gritou ele, erguendo a arma contra seus homens.
À frente de todos, correu Kitai Ishibashi, seu melhor sugestor, berrando freneticamente e segurando com muito carinho um ursinho nos braços.
Perry — disse ele gargalhando e com um brilho nos olhos oblíquos — que posso fazer por você? Dou-lhe tudo que quiser, menos o meu Shiguti. Por que não tem um ursinho? Espera que vou buscar um para você, espera. Por que vai embora, Perry? Fique conosco.
Mas Rhodan tinha dado meia-volta. Pulou pela rampa abaixo, passou ligeiro pelos suportes telescópicos, desviou-se dos purificados: corria na direção do rato-castor. Somente já bem perto de Gucky é que diminuiu os passos.
Tinha ainda na mão a pistola dos raios paralisantes. Gucky o fitava e seu olhar vivo e brincalhão possuía apenas uma expressão de desânimo.

* * *

Os três juntos, tentaram mais uma vez penetrar na Titan. Foram recebidos, de novo, entusiasticamente pelos homens que dançavam e gritavam agitados. Todos ostentavam nos braços seus ursinhos da morte e exigiram que os recém-chegados os acariciassem. E então... fracassaram os psicoirradiadores.
Fogo! — foi o comando de Rhodan ao arcônida e a Julian Tifflor. Rhodan mantinha a arma na mão, ameaçando Ras Tschubai com o psicoirradiador.
O negro, o grande teleportador, não reagiu. Com os “adversários” de Crest e Tifflor, os raios paralisantes também não surtiram efeito.
Para trás — gritava ainda Rhodan, no último instante, fugindo daquela multidão de alucinados e de seus animais.
Estavam agora sentados na central da nave de telerreconhecimento, deprimidos.
Silêncio total. Wuriu Sengu não levantava a cabeça. Com uma voz que parecia o tilintar de vidros, Rhodan reagiu contra a proposta, aliás, já era a terceira: seu vidente queria tentar abrir caminho, usando desta vez choques energéticos.
Não posso matar os meus homens e jamais atirarei neles, enquanto restar um fio de esperança de que há ainda outra solução.
Crest estava prostrado num grande silêncio, parecia fisicamente muito esgotado. Perry o percebeu, redobrando com isso seu desespero.
O seu cavalo de Tróia, o presente grego que lhe havia trazido a derrota, eram os animaizinhos interessantes, criados pelos purificados como animais domésticos.
O planeta Honur foi para ele uma verdadeira Tróia.
De repente, sua fisionomia ficou tensa. Começou a pensar nos moofs, esses animais que respiravam metano, utilizados por desconhecidos para destruírem o Império dos Arcônidas. Ele, com os seus, haviam sentido a força diabólica dessas medusas em Zalit e somente as destruíram depois de muita luta. Os tais desconhecidos, que eram os responsáveis camuflados pela importação dos moofs, seriam os mesmos estranhos depredadores das espaçonaves no cemitério do pólo sul de Honur?
Quando que eles chegarão, Crest? — com esta pergunta, se dirigiu ao arcônida.
Crest levou um susto, despertando do seu torpor de desânimo.
Quem? Auxílio de Árcon?
Auxílio de Árcon... — ponderou Rhodan, olhando para Crest.
Você já se esqueceu da lei dos arcônidas? Já se esqueceu de que é proibido, sob pena de morte e de destruição da nave, prestar socorro no espaço a uma espaçonave que tenha aterrissado num planeta proibido e esteja sob estado de perigo? Esqueceu, realmente, esta lei?
Lentamente, quase sussurrando, o grande cientista fez uma contra-pergunta:
Perry, vale mesmo a pena ter certeza de alguma coisa e não se esquecer de nada?
Acho que desta vez, Crest, você tem razão.
Era a derrocada total. Porém, no coração do arcônida irrompe o último lampejo de orgulho. Ele, descendente de uma raça nobre, porém profundamente decadente no momento, sentia-se agora empolgado por uma sede de iniciativa, característica dos homens da Terra.
Perry, você se esqueceu da Ganymed? Ainda existe a Stardust-III, existem seus cruzadores, Terra, Solar System e Centauro.
Foram toques de clarim, mas não houve eco.
Existe ainda um modelo, que muito se assemelha à Titan, Crest, e está em Árcon e lá permanecerá por toda a eternidade, pois o seu império não produz mais o tipo de homem capaz de dirigir uma nave esférica deste gabarito. E eu, agora, serei um proscrito no Império de Árcon, serei perseguido, e esta falta de lógica, eu atribuo aos misteriosos desconhecidos, que desenvolvem aqui seu jogo criminoso e não acredito que eles deixem de informar ao cérebro robotizado a respeito de quem encontrou em Honur a sua Tróia. Então, Crest, eu lhe suplico, por favor...
Rhodan, você está se automartirizando — respondeu o arcônida. — Até hoje, você sempre, e em qualquer situação desesperada, encontrou uma saída. Por que exatamente aqui não haverá saída alguma?
Nunca até hoje me defrontei com a terrível realidade de perder os homens mais leais, Crest. A perda da Titan não representa nada. Nada mesmo. Mas você não pode calcular o que seja perder um Reginald Bell, saber que dentro de horas, no máximo, dias, estará morto um grande amigo. Ele foi o primeiro homem, que há treze anos atrás, voou comigo da Terra para a Lua. E com Bell, morrem setecentos outros. Cada um deles, sozinho, vale mais do que a Titan toda. E eu, Crest, eu carrego na consciência a morte de setecentos homens, meus amigos. Isso me aniquila, me tira toda vontade de viver. Crest, não posso, nem quero mais viver.
Perry Rhodan, meu amigo, não pode ser verdade — balbuciava o arcônida trêmulo e desesperado, estendendo as mãos na direção de Perry.
Vão morrer todos, Crest. Você não viu os esqueletos nas espaçonaves depredadas lá no depósito de ferro velho?
Com todas as fibras do seu ser, Crest lutava contra os argumentos de excessivo desânimo de Rhodan. Procurou então mudar de assunto.
Perry, há pouco você fez uma pergunta: “Quem deverá chegar?” Que quer dizer com isto?
— “Os papa-defuntos”, os depredadores, Crest. Os homens que penetrarão na Titan, quando não houver mais sinal de vida nela. Os criminosos que levarão a nave ao cemitério, para destruí-la. Estou esperando por isto, apenas por isto.
E depois?
Tenho que responder? Crest, você me conhece tão mal, assim? Ficarei pensando em Bell e nos setecentos mortos. Isto vai me dar forças, para cair em cima dos “papa-defuntos”, sem dó nem piedade, até que eu mesmo desapareça numa nuvem de gás.
Junto comigo — disse Crest, fazendo um juramento.

* * *

A noite caiu sobre Honur. Estava frio, mas não demasiadamente. Os purificados continuavam de cócoras, abobalhados, entre os suportes da grande nave. Vez por outra, o vento leve trazia para cá a gritaria e o cantar desordenado dos homens da tripulação que se comportavam como bêbados.
Na Gazela, o silêncio era total. As horas noturnas passavam com lentidão. Depois, veio a manhã. O sol de Thatrel apontou no horizonte. O tempo esquentou. Entre os suportes telescópicos da supernave, continuavam de cócoras os purificados.
Na Titan, dançavam os possessos de euforia. Abraçavam-se com a morte e não sabiam o que estavam fazendo.
Setecentos homens viviam numa explosão indescritível de alegria, dançando e cantando, sem nenhum alimento nem bebida, pelo simples fato de não sentirem nem fome, nem sede. A ânsia de chamar a atenção, de exibir aos outros o mais belo e atraente em si mesmo, de lhes agradar de todos os modos, tirando do caminho tudo que lhes fosse incômodo, tinha chegado ao paroxismo do irracional, do mortalmente irracional.
Alguns perambulavam exaustos pelo convés, subiam e desciam, sem nenhum sentido pelos elevadores antigravitacionais e... já não davam tanta importância aos ursinhos nem gritavam mais. Estavam mudos, porque suas cordas vocais estavam roucas. O mundo era belo demais, todos compartilhavam da imensa alegria e cada um tinha 699 amigos e a ânsia de fazê-los felizes.
Alguns ursinhos dormiam e acordavam em seus braços. Beijavam com carinho seus novos amos atrás da orelha, na nuca, nas mãos. Tagarelavam como papagaios e tinham olhos redondos, maravilhosos. E cada vez que estes bichinhos viravam seus lindos olhinhos de um canto para o outro, seus donos começavam a gritar de alegria.
Basta, Sengu, basta. Pare com isso — disse Rhodan, de repente, gritando para seu vidente, e tapando os ouvidos com as mãos.
Wuriu Sengu deu graças a Deus por este grito. Limpou o suor da testa e respirou aliviado. Pela primeira vez em sua vida, que ele no desempenho de suas forças mentais, sentiu necessidade de maldizer o destino.
Tinha visto o inferno, o inferno estava na Titan. Ali dentro, só vidas perdidas. Não havia ninguém sadio, só doentes que gargalhavam para a morte. Riam porque não estavam mais em condições de ver a realidade.
Tinha visto também Bell, mas não teve coragem de descrevê-lo para Rhodan, tão horripilante era o aspecto de Reginald Bell.
Sengu, vá dormir um pouco.
O vidente japonês julgava ter recebido um tapa na cara. Assim foi que ele interpretou a ordem de Rhodan, para descansar.
Sengu, meu pensamento não foi este — disse-lhe Rhodan — mas você certamente viu muito mais do que nos contou e eu acho que lhe devemos agradecer por isto. E, agora, se quiser, descanse.
Nestas palavras voltou um pouco mais do legítimo Rhodan, sua arte maravilhosa de conduzir os homens e seu modo de agradecer, agradecer exatamente quando a pessoa não esperava.
E na hora de sua total incapacidade, soube ele ganhar um novo amigo, só porque no seu íntimo já tão castigado ainda achou motivo para agradecer a Wuriu Sengu.
Com um leve brilho nos olhos, Crest observava o homem da Terra. Um pequeno sopro de esperança começou a surgir nele. Não podia acreditar que Perry Rhodan iria desesperar. Este ser, daquele mundo chamado Terra, era muito mais forte do que ele mesmo supunha.
O tenente Julian Tifflor estava sentado atrás do goniômetro, chamando Perry.
Este levantou a cabeça como quem desperta de um longo sonho.
Sim, Tiff?
Senhor, estou vendo uma nave...
Estou esperando por isto, Tiff. Uma sombra de decepção perpassou pelo rosto jovem de Julian Tifflor. No seu íntimo, havia imaginado que esta notícia haveria de levantar o ânimo de seu chefe, mas ao invés disso, Rhodan deixou lentamente sua poltrona e se dirigiu a ele. Quase que enfastiado, começou a olhar para o aparelho. Julian Tifflor inclinou-se um pouco para o lado, a fim de que Rhodan pudesse observar melhor.
Mantenha a posição, Tiff. Não dependemos de minutos. Em menos de três horas a nave não estará aqui. Obrigado.
Voltou ao posto de comando, já ia se sentando, quando se lembrou de alguma coisa. Enquanto acariciava com a mão direita o pêlo do rato-castor, perguntou:
Gucky, você tocou ou não tocou nestes ursinhos?
Eles até brincaram com minha cauda — respondeu indignado, e nos seus olhos inteligentes havia revolta.
E por que você não ficou doente, tenente?
O tenente Guck do Corpo de Mutantes de Perry Rhodan, que até hoje nunca fora tratado por seu chefe com o nome correspondente ao cargo que ocupava, procurou manter uma posição de sentido. E com uma voz que imitava uma mensagem militar, respondeu:
Não fiquei doente, porque sou um animal, senhor. E também porque farejei logo como aqueles animais catingavam.
Foi o primeiro sorriso aberto no rosto de Rhodan. E pensativo, ele ficou olhando para Gucky. Depois, perguntou:
Por quanto tempo você ficou em contato com eles?
Crest, Tiff e Sengu ouviam com muita atenção. A voz de Perry ia voltando ao seu tom claro e firme.
Dez minutos, talvez um quarto de hora, até que não agüentei mais o horrível mau cheiro.
Novamente Gucky mencionou a catinga dos animaizinhos.
Como era o cheiro deles?
Não era cheiro, chefe — guinchou Gucky meio zangado — era catinga mesmo.
Rhodan ria agora abertamente.
Um homem educado não usa uma expressão desta, Gucky.
Eu não sou homem, sou um animal apenas. Mas se me permitir entrar na Titan, nunca mais usarei a palavra catingar.
Parecia até uma chantagem. E pelo fato de partir de um animal de mais ou menos um metro, que no entanto possuía caráter de homem, a situação se tornava mais esquisita ainda.
Perry se deu por vencido.
Terá minha permissão, mas somente quando lhe disser que pode entrar. Agora, tente nos descrever, como percebeu o mau odor dos ursinhos, Gucky.
O rato-castor era um excelente analisador. Seus dados detalhados compunham sempre uma imagem completa e coerente, por mais que se espalhasse sobre o assunto.
Gás?! — disse Crest ansioso, dando o seu palpite.
Rhodan ainda tinha suas dúvidas. Deixou Gucky contar muitos pormenores. Depois interveio:
Podia ser também uma matéria aromática ou mesmo secreções compostas de um pó muito fino.
E depois, fugindo ao assunto, dirigiu a palavra a Julian Tifflor:
Preste muita atenção à espaçonave que está voando, e me informe quando estiver atrás do planeta.
Os olhos de Crest resplandeciam.
Este era o verdadeiro, o legítimo Rhodan que nunca se esquecia das coisas importantes. Esta ordem para avisá-lo quando o planeta de aproximadamente 6 mil quilômetros de diâmetro estivesse entre eles e a nave estranha, era, sem dúvida alguma, um sinal de que Rhodan não se dava ainda por vencido.
Crest, você conhece materiais aromáticos ou em forma de pó que sejam tóxicos ou provoquem infecção?
Muitos. A maioria deles destrói as células dos gânglios e acho que não preciso explicar o que significa destruição do sistema nervoso central. A medicina dos arcônidas teve que capitular diante dos mistérios do cérebro.
Neste exato momento, os traços fisionômicos de Perry se anuviaram.
Naturalmente estaria pensando no destino de Bell e da tripulação.
Crest, a gente deveria voar para Árcon e...
Esta esperança seria fulminada pelos argumentos objetivos de Crest.
Perry, você confunde condições da Terra com condições de Árcon.
O que quer dizer com isso?
Dentro do “montão de estrelas” M-13 não há nem mundos nem venenos desconhecidos, que ataquem o sistema nervoso central. Portanto, quando você chegar a um médico e lhe descrever os sintomas de que padece a tripulação da Titan, então estará lavrando sua própria sentença de morte. Será realmente executado em pouco tempo. Pois você mostrará abertamente que veio de um planeta proibido.
Não conhece nenhum médico de confiança, que você possa consultar às escondidas, Crest?
Esta pergunta era uma crítica indireta à lentidão do arcônida.
Crest sorriu com dificuldade.
Perry, eu só conheço covardes e preguiçosos. Você é que tem que dar um jeito.
Mas eu não sou médico — respondeu Perry com indignação. — Mal sei a diferença entre gânglios apolares e unipolares, e aí acaba minha medicina.
Senhor — interrompeu Tiff, com toda naturalidade — o planeta já encobriu a nave em vôo.
Perry fez um sinal para ele e, depois, dirigindo-se a Crest:
Temos que conversar ainda a respeito — inclinando-se para frente, percorreu com o olhar todos os controles e acionou a alavanca de partida da Gazela.
Parou bem rente ao solo, tomando então o curso para quatro mil metros de altitude, verticalmente. Esta era mais ou menos a altura do paredão de pedra.
Julian Tifflor, que se tinha em conta de um grande piloto de nave de reconhecimento, sem querer, quase perdeu o fôlego, quando Rhodan, com a segurança de um sonâmbulo, se desviou subitamente de um obstáculo inesperado. Aliás, Rhodan não precisava fazer esta manobra brusca, pois a Gazela, apesar de sua dimensão reduzida, estava equipada com fortíssimos dispositivos de proteção. Mas para ele, o chefe da Terceira Potência, estes dispositivos não existiam. Exigia sempre os maiores esforços e a maior responsabilidade de si mesmo, sem contar muito com a proteção dos recursos técnicos.
A Gazela disparava por sobre a cumeeira da cadeia de montanhas, às vezes demasiadamente próxima dos grandes picos. Depois virava-se para um planalto desconhecido.
Tiff, estou procurando uma caverna em que caiba a Gazela, preferia mesmo uma saliência na rocha.
Senhor, há uma, direção NNO 3, altitude três mil e dezoito metros, está vendo?
Já achei, obrigado, Tiff.
Como ecoou por todos os camarotes da Gazela aquele “obrigado”!
O chefe dirigia. A nave de telerreconhecimento parecia um brinquedo em suas mãos e Crest tinha que ficar resignado olhando. Perry virou-se para o lado do jovem tenente da Terceira Potência. Seus olhares se encontraram, houve um mudo sorriso entre eles, e Gucky, num minissalto, chegou até eles. Queria também participar desta alegria e sorriu com seu dente de roedor.
Apenas Wuriu Sengu não se alegrava. Ainda estava vendo aquelas cenas horríveis a bordo da Titan e não conseguia tirar da memória a figura triste e lastimável de Reginald Bell.
De repente acendeu a luz de reconhecimento. Rhodan descia com a nave numa enorme caverna. De fora, a escuridão se abateu sobre a pequena espaçonave.
Aterrissagem sem o menor abalo.
Crest, Gucky! Trajes espaciais.
Tiff, você fique de vigilância no posto de comando, mas decole imediatamente assim que receber o menor impulso de minha parte. O local de encontro será aquela elevação sobre a qual passamos para descer para este planalto.
Sengu, aguardar ordens especiais. Está tudo claro?”
6



Todo traje espacial arcônida era uma maravilha em si, não porém para os dois homens e para o rato-castor. Gucky passou por apuros, pois não encontrou seu traje e teve que usar um grande demais, que o “engolia”.
Não se preocupe com isto, Gucky — dizia Rhodan, tentando acalmá-lo — e se tudo correr bem, você poderá até fazer suas brincadeiras. Não é esta a palavra, amigo?
Ser chamado de amigo, e ainda por cima ouvir isto da boca de Perry Rhodan, era para o rato-castor a maior alegria do mundo. Mas poder realmente brincar um pouco, isto era indescritível. E essa havia sido a promessa de Rhodan.
Posso mesmo brincar, chefe? — certificou-se Gucky.
Um forte sorriso percorreu a fisionomia de Rhodan.
Acho que, com toda probabilidade, você não só poderá, mas terá mesmo que brincar.
Opa, chefe, eu preciso disso, preciso de me expandir bem. Espero, porém, que no fim de tudo, não apareça um “abacaxi”.
Gucky — disse-lhe Rhodan, enquanto enfiava os braços na manga do traje espacial — as expressões que você está usando, estão cada dia piores.
É verdade, chefe, é conseqüência da péssima convivência com Bell. Mas nós vamos tirar o pobre sujeito lá das...
Gucky — ordenou Perry — você quer me envergonhar na frente de Crest? Esta palavra não se deve dizer nunca.
Será que eu a conheço? — perguntou Crest, que, se pudesse abraçaria Gucky de contente, pois suas expressões brejeiras é que estavam aliviando um pouco o estado de espírito de Rhodan e quebrando o trauma que o envolvia.
Se você a conhece, Crest? — acrescentou o rato-castor. — Claro, você estava presente quando eu obriguei o Bell a fazer uns loopings no ar, e na hora exata em que ele ia cair, afastei a cadeira por um metro. O gorducho então berrou como um boi, quando bateu no chão. Aí é que ele disse: desgraçado, filho da...
Rhodan não se continha de tanto rir.
Gucky, se você não parar...
Mas não era fácil parar. De repente seus olhos perderam aquela vivacidade e em tom de choro, Gucky o interrompeu:
Perry, pergunte então a Crest, o que foi que Bell disse, Crest deve se lembrar.
Sei mesmo, Rhodan — atalhou o arcônida espontaneamente. — Reginald Bell gritou: “Desgraçado filho da queda livre.” Será que isto é uma palavra indecente?
Perry teve dificuldade em responder. Engoliu a saliva, olhou para Gucky, que mostrava uma cara de santo e correspondeu com uma piscadela sincera ao olhar do amigo.
Rhodan mudou o olhar para Crest. O arcônida conseguiu dominar seus traços fisionômicos, mas não soube esconder o sorriso dos olhos.
Será que Bell disse isto mesmo? — era a dúvida de Perry.
Você não acredita? — perguntou Crest com voz imparcial.
Não.
E eu também não — terminou o arcônida, enquanto Gucky desapareceu pela escotilha.
Com sua cara costumeira, o rato-castor já estava esperando os outros. Depois a escotilha empurrou os três para fora.
Não chegaram a tocar o chão da caverna, ficaram flutuando no ar. O traje espacial os sustentava, mas isto não era sua única qualidade: podia também provocar uma camada de deflexão que tornava invisível seu portador e — naturalmente — o próprio traje. A única desvantagem nesta operação, era que um parceiro não via o outro. Pequenos geradores embutidos serviam para produção de energia a fim de manter estável o dispositivo anti-choque e os neutralizadores da força da gravidade, graças aos quais eles estavam flutuando.
Deixaram a caverna, flutuavam a uma velocidade de cem quilômetros por hora, em direção à elevação no planalto, sobre a qual, momentos atrás, passara elegantemente a Gazela.
Antes de atingirem seu objetivo, ouviram a voz de Perry:
Ligar os deflectores de proteção.
Já estavam tocando no chão do rochedo, quando os deflectores os tornaram invisíveis. Para que um não se desgarrasse do outro, formaram um cordão. Embora Gucky fosse o do meio, foi o primeiro a ver já pousada a espaçonave estranha.
Tem uma conformação cilíndrica — disse Rhodan, entre os dentes, e ficou olhando fixo para a nave de duzentos metros de comprimento e cinqüenta de diâmetro, estacionada a alguns quilômetros de distância da Titan.
Com o aparecimento desta espaçonave, que aterrissou muito mais depressa do que calculava, lembrou-se imediatamente dos comerciantes das Galáxias, ou saltadores, como eram chamados.
Eram também descendentes dos arcônidas. Entretanto já há muitos milênios tinham se tornado independentes. Eram agora, normalmente, os ciganos das estrelas, não tendo residência fixa. Passavam a vida nas espaçonaves, residiam aí com suas famílias e eram assim os mais refinados comerciantes.
Comerciavam até com planetas. Um dia, arquitetaram o plano de depredarem, em sua passagem casual, um satélite muito pequeno. O que faziam tantas vezes, havia também de dar certo, com este minúsculo planeta chamado Terra.
Mas não deu certo. Um tal de Perry Rhodan foi em cima deles de tal maneira, que acabaram fugindo para o espaço.
E agora este mesmo Perry Rhodan estava vendo uma nave dos saltadores estacionada bem próxima de sua Titan infeccionada. Os saltadores voavam com naves cilíndricas. Era uma de suas características.
Então, novamente os comerciantes — disse Crest zangado. — Nunca imaginei, que fossem eles os autores deste crime horrível.
Gucky se mantinha estranhamente calado. Examinava fixo a espaçonave que veio como um raio do espaço estelar e aterrissou com uma rapidez incrível.
E mais uma coisa, Crest, sobre a qual não nos preocupamos muito: quem deu informações a esta espaçonave? Onde está em Honur a emissora que passou o rádio? E por último, quem o passou? Um dos honos? Eu me arrisco a dizer que não. Mas devo afirmar que uma estação transmissora clandestina dos saltadores é que nos colocou nas costas este anjo da morte.
Crest se atreveu a fazer uma observação:
Perry, você está falando muito diferente de ontem. E eu envio meu agradecimento às estrelas pelo fato de voltar a ser de novo o velho Perry Rhodan.
Crest não conseguiu ver o sorriso amargo de Perry, pois, devido ao defletor de proteção, um não podia ver o outro.
Ontem vivi as horas mais amargas da minha vida, Crest. Não agüentava mais. Estava desesperado e ainda estou. Mas tive tempo para refletir, mais do que agora. A responsabilidade por setecentas pessoas me esmagava. Sim, Crest, ontem me tornei covarde, jamais o esquecerei. Sou apenas um simples homem. Fiquei incapaz de qualquer coisa e nem percebia que estava vivo. Mas, felizmente, é uma das virtudes do ser humano “nunca desesperar, enquanto respirar”. E agora, Crest, estou respirando e profundamente.
Esta confissão comoveu o arcônida e o levou a uma admiração maior pelo homem que de modo objetivo admitia seu erro. Quem dos arcônidas ainda era capaz disso? Ninguém.
Gucky, você já está na nave? — perguntou Rhodan.
O rato-castor compreendeu o que Perry queria saber. Estudou bem com seus dons telepáticos o espaço entre o lugar em que estava e a nave cilíndrica, esforçando-se para captar impulsos de pensamentos.
Bem baixinho, o rato-castor teve que confessar:
Não consigo captar nenhuma onda de pensamento. Nunca vi um negócio confuso assim. Tudo, mas tudo mesmo, sai em pedaços. Da nave saem apenas pedaços de impulsos e com isso não posso fazer muita coisa.
Os homens, invisíveis através do defletor, estavam calados, varrendo com os olhos o espaço entre as duas naves. Viam os honos ainda apáticos entre os suportes da Titan, de cócoras. De longe pareciam pontos minúsculos. Não conseguiam, porém, ver nenhum deles, levado por curiosidade, levantar a cabeça e olhar para a nave cilíndrica.
O que pode captar da Titan, Gucky?
Impulsos de cérebros doentes. Alegram-se e dançam para a morte.
Mas a morte terá que esperar — era a obstinação de Rhodan, obstinação nascida de uma vontade irrevogável de transformar o inevitável, pelo menos em coisas melhores.
Perry — chamou-o Crest através do intercomunicador — eu não estou muito certo aqui de uma coisa e necessito de seu auxílio: esta nave estranha será realmente dos saltadores? Não sei bem, mas de qualquer maneira este formato difere um pouco das tradicionais naves cilíndricas.
Um novo acontecimento interrompeu o diálogo e deixou a pergunta sem resposta.
Da espaçonave estranha desembarcavam robôs.

* * *

Tiff estava sentado com Wuriu Sengu na pequena central da nave de reconhecimento. De repente começaram a conversar. O assunto era a explosão de desespero que se abatera sobre Rhodan, na tarde anterior, e sobre a tripulação infeccionada ou envenenada da Titan.
Eu sabia — dizia Julian Tifflor, que aliás tinha muita semelhança com Rhodan, mesmo que seu rosto bem mais jovem pudesse contradizer a esta afirmação — eu sabia que o chefe não desistiria. E nunca desistirá, enquanto viver. E se ele tiver que perder seu amigo Bell, talvez esta tragédia o torne muito desolado, daqui para frente, mas nunca o fará desistir de seus objetivos. Os olhos de Tiff estavam brilhantes, quando assim falava. Olhou demoradamente para o calmo e modesto Wuriu Sengu.
Tifflor, você viu o que eu presenciei na Titan. Se o chefe entrar outra vez na Titan, haverá de ver apenas mortos. Dançam, cantam, gargalham de encontro à morte. Vão morrer rindo. Nunca pude imaginar que existe uma coisa assim. Compreendi muito bem seu desespero ontem.
Subitamente, o ruído do mini-alto-falante da Gazela:
Julian Tifflor? — era a voz do chefe que estava chamando.
E o mais jovem tenente da Terceira Potência, se apresentou:
Aqui tenente Tifflor, senhor. Entrementes soou de novo a nítida voz de comando de Rhodan.
Cem robôs marchavam ao longo do lago em direção à Titan.
Há um minuto que já estavam em marcha e ainda sempre mais máquinas de combate saíam do bojo da nave cilíndrica.
Os papa-defuntos estavam a caminho.
Gucky! — o rato-castor sentiu a poderosa mão de Rhodan através do forte traje espacial.
Opa!... Vamos começar? — disse Gucky ansioso por ver as coisas ficarem quentes.
Preste atenção — disse Rhodan e então deu ordens detalhadas.
Acabou com as seguintes palavras:
Se Bell e todos os outros na Titan ainda tiverem a chance de recuperarem a saúde, depende de você.
Gucky ainda deu uma olhadela nos robôs, que em densas formações se dirigiam para a Titan.
Amigos — disse se referindo a eles — o que nossas máquinas não conseguem destruir, eu consigo. Vou fazer de vocês aviões a jato.
Gucky então se desmaterializou e num salto de teleportação, desapareceu na direção da Titan.

* * *

Os minutos se arrastavam. Perto do lago já se movimentavam duas companhias de robôs. Marchavam sem parar, contra a Titan. Para Rhodan e Crest, pareciam minúsculos brinquedos brilhando ao longo da superfície da água. A nave desconhecida continuava despejando sempre mais máquinas de combate. Já estavam formando a terceira companhia.
Eles já sabiam que tipo de espaçonave estava aqui — disse Perry, olhando pensativo para o gigantesco corpo esférico da Titan.
Quantos dias ainda haveria de levar até que esta maravilha da técnica arcônida se tornasse sucata e fosse levada para o cemitério no pólo sul?
Lá embaixo marchavam os comandos de desmontagem, máquinas desalmadas, imunes ao veneno dos ursinhos, sem nenhuma consideração com a morte de setecentas pessoas.
E se Gucky não conseguir, Rhodan? — disse Crest, arrancando-o de seus pensamentos.
Perry se endireitou.
Então seria a primeira vez que Gucky nos deixaria na mão, Crest. Eu só me preocupo com este exército gigantesco. Mas parece que está terminando de sair da nave cilíndrica, ou você ainda está vendo robôs saírem da nave?
Está tudo calmo lá embaixo. Mesmo que tivessem saído dez companhias mais, eu ainda diria: toda resistência é inútil.
Eu já não digo isto — respondeu Rhodan. — Será que eu terei de ver com meus olhos como máquinas desalmadas se acotovelam debaixo de setecentos homens doentes para matá-los?
A proteção do defletor escondeu o estremecimento de Crest, ao ouvir isto.
Quer dizer que o senhor julga que os robôs, como açougueiros, penetram na...
Não julgo, Crest, eu sei. Não quero repetir de que maneira Wuriu Sengu viu os esqueletos nas naves depredadas. Aquelas máquinas lá embaixo já vêm programadas para assassinar.
A cabeça da primeira companhia de robôs já tinha percorrido um terço do caminho, quando Rhodan retomou o assunto. Ele perguntou a Crest:
Por que a nave estranha não desceu perto da Titan? Por que este espaço tão grande e o tempo perdido com a longa caminhada até a Titan? Há uma resposta só para tudo isto, ou muitas?
Crest não entendeu bem e perguntou de novo.
Creio que temos diante de nós uma nave só de robôs. A programação de aterrissagem tem que manter uma distância de segurança e somente por este motivo é que a nave cilíndrica está tão afastada da Titan. Não entendo como uma pergunta desta pode se transformar em problema, Rhodan.
Perry respondeu quase um pouco ríspido:
Setecentos homens devem pagar com a vida a minha omissão... Setecentas vidas pesarão na minha consciência, se não puderem ser salvas. Eu sabia que Árcon havia proibido o vôo para este mundo. Eu, antes de aterrissar, deveria ter investigado onde estava o perigo para quem desce aqui. Crest, lamento não me ter preocupado muito com este fato. Você compreende agora por que a grande distância entre a nave estranha e a Titan é um problema de importância para mim?
Crest não podia esconder que era um arcônida e não um homem da Terra. Ele era também uma vítima da decadência de Árcon. Com sua resposta, evitou de tomar uma posição clara e fugiu do assunto:
Para mim, Gucky se tornou um problema. Acho que devemos sepultar nossas esperanças.
Por quê? — perguntou Rhodan, com firmeza. — Os robôs ainda não estão diante de nossa nave, ainda não estão dentro dela, ainda não estão voando com ela para o cemitério e ainda não a depredaram. Só depois que nossa espaçonave estiver reduzida a um montão de ferro inútil, é que vou sepultar a última esperança de querer usá-la de novo, para com ela dominar o Universo.
No momento, estou apenas preocupado com os setecentos doentes, fora disso estou completamente tranqüilo. Ou se prefere: frio como gelo.”
Rhodan — respondeu o arcônida, respirando bem fundo — conheço-o há mais de treze anos, mas algumas situações são para mim piores do que os mais horríveis pesadelos. Agora, por exemplo, não posso entender como você não demonstra nenhuma preocupação com Gucky. E se o pobre coitado não estiver imune ao veneno dos ursinhos e também adoecer?
Arcônidas são e permanecem arcônidas; sim, Crest, quanto ao temperamento somos tão diferentes como dia e noite Você nunca se sentiu mais forte, depois de uma derrota, Crest? Você nunca conseguiu dizer, depois de um grande fracasso: Agora, sim! Eu não apenas digo, mas também procuro agir assim, sem me esquecer da lógica. No primeiro encontro com os ursinhos, Gucky não pegou a infecção ou ficou envenenado. Portanto também não vai sofrer nada agora na segunda vez. E mais, você esquece uma coisa muito importante: Gucky não é como nós, embora eu nunca tive coragem de chamá-lo de animal, ele não é o que você e eu somos: humanóides. E isto é muito importante, Crest. Aumenta a garantia de que ele não vai pegar a infecção e então Crest... Crest... — e Perry o pegou pelos ombros, sacudiu-o chamando muitas vezes pelo seu nome.

* * *

Gucky já se tinha materializado na entrada do convés onde ficava o arsenal, tirando da cabeça aquela viseira e despindo aquele traje espacial incômodo, que o “engolia”.
Rhodan não lhe proibira tirar o traje espacial e ele se sentiu muito mais à vontade. Mas não deixou jogado seu precioso traje. Perto de onde ele estava, havia uma porta que se abriu automaticamente, quando se aproximou. Colocou o traje atrás desta porta, dizendo:
Até logo, coisa pesada, mas espetacular! — e deixou ali, naquele canto, a maravilha da técnica arcônida.
Passou novamente para o corredor principal. Procurou orientar-se, pois seu objetivo estava a quatrocentos metros para o oeste. Deteve-se um pouco no corredor principal do arsenal.
Depois de se concentrar, teleportou-se. Poucos segundos após, materializou-se no corredor principal do lado oeste, quase dando de cara com cinco homens da tripulação, que se contorciam de tanto rir, brincando como crianças com os seus cômicos ursinhos.
Meu irmãozinho querido — disse-lhe um homem de cabelo cor de fogo, irradiando imensa alegria — deixe-me abraçá-lo. Meu queridinho, por que faz tempo que nós não nos encontramos?
O outro, de boa estatura, que estava ao lado do de cabelo cor de fogo, segurava a barriga de tanto rir e apontou para Gucky, oferecendo-lhe com a outra mão o seu ursinho, perguntou:
Posso dar-lhe este presente, gracioso animalzinho de estimação? Você mesmo já parece um macaquinho, mas assim mesmo, vou-lhe presentear meu “Imperador”. Quer dar um beijinho nele, “Imperador”?
Gucky sentiu a catinga e vagarosamente foi se afastando dos homens que se aproximavam. Mas, de repente, o homem de maior estatura deu um pulo em sua direção, lançando-lhe o ursinho aos pés.
Mais do que depressa, Gucky tirou o corpo de lado e colocou em atividade suas forças telecinéticas.
Por estas forças invisíveis o pulo foi interrompido. O pobre animalzinho virou-se para o lado e saltou para o braço do homem que queria dá-lo de presente a Gucky.
Para longe destes irmãos”, pensou Gucky, escondendo seu dente de roedor. Não sentia nenhuma vontade de “brincar” com estes pobres homens de sorriso doentio, já quase sem forças.
De repente, porém, não estavam mais sentindo o chão debaixo dos pés e isto os fez mais felizes ainda. Começaram a gritar e a gritaria se transformou numa frenética gargalhada, quando, por força telecinética, iam e vinham, flutuando, pelo longo corredor principal da Titan ou pelo poço do elevador antigravitacional.
Aí então Gucky reparou que deste elevador descia um grupo de sete ou oito pessoas.
Tenho que arranjar uma ocupação para eles”, pensou.
Conduziu, com suas forças telecinéticas, os cinco homens que flutuavam, como um bate-estaca em plena queda, em cima deste grupo.
O rato-castor já estava antevendo, em pensamentos, uma pancadaria bem divertida, quando arregalou bem os olhos, balançando sua engraçada cabeça. A trezentos metros dele, apareceu uma dúzia de homens, um tirando a poeira do outro e alguém apanhando o ursinho perdido e entregando a seu dono. Tudo isto sob gargalhadas histéricas.
Esta é a verdadeira situação — disse Gucky para si mesmo. — Realmente, estão todos loucos, e só agora compreendo o que é euforia. Rir para a morte, é o pior que existe.
Este entrevero lhe roubara dois minutos, mas agora tinha que dar preferência à tarefa dada por Rhodan. Os últimos cem metros foram vencidos por um salto, aterrissando exatamente diante da poderosa antepara do depósito dos robôs de combate. Perry lhe havia explicado como abrir passagem pela antepara. Sem o menor ruído, a poderosa muralha de aço desapareceu naquele trecho da parede, deixando passagem livre.
Ali, naquele saguão, estavam enfileirados os mais modernos e mais terríveis artefatos de combate dos arcônidas. Não causaram em Gucky nenhuma impressão especial. Ele chamava cada robô de “colega preto”.
Estava atrás do primeiro robô, para ativá-lo e programá-lo. Tinha recebido instruções exatas de como agir, que programação tinha que escolher e que não devia, em nenhuma circunstância, deixar sair isoladamente a força de combate.
— “E preste muito atenção, Gucky, que ninguém da nossa tripulação saia ao ar livre. Não seremos mais amigos, se algum dos nossos conseguir escapulir da espaçonave.”
O rato-castor trabalhava como um possesso. Bem colados uns aos outros ali estavam os robôs de combate e Gucky tinha que fazer milagre para passar entre eles e regular a programação.
A primeira centena já estava ativada. Quando ele se encaminhou para o próximo robô, cem autômatos ativados se puseram simultaneamente em marcha. De repente ecoava o passo metálico dos gladiadores modernos. Em filas de cinco, saíam os cem robôs arcônidas do arsenal da Titan, fazendo estremecer o corredor principal, dirigindo-se para o elevador antigravitacional central.
Ao mesmo tempo, Gucky regulou seu sensor de tempo. Não podia, de maneira alguma, esquecer do momento exato em que a centena de robôs teria que passar pela escotilha, para descer pela rampa a fim de entrarem em combate com seus colegas que se aproximavam.
Gucky naturalmente não sabia que da nave estranha haviam descido trezentos robôs de combate e estavam a caminho da Titan. Mas isto não tinha muita importância para ele, mesmo que fosse o dobro de trezentos. Ele estava aí para isso, e não fazia nenhuma restrição em sua auto-estima.
Trabalhou sem parar. É preciso saber que seu corpo media um metro e meio de comprimento, enquanto a altura em que estavam os contatos da programação era de dois metros.
Como um serelepe, Gucky cabriolava em torno dos robôs. Seus gestos e suas ligações eram cada vez mais rápidos. E mesmo o barulho infernal da tripulação doente, que se comprimia no hall, não conseguia detê-lo.
Transportou-se para fora telecineticamente. Um do grupo estava muito insistente, procurando agora pela terceira vez entrar. Ao mesmo tempo, o despertador de Gucky começou a tocar.
A primeira centena de robôs estava esperando rente à grande escotilha, preparada para deixar a Titan.
O doente, que gritava em voz alta, se encontrava bem atrás dele, quando ainda ativava um robô. Gucky não estava pensando nele, nem tinha mais tempo de se preocupar com seu hóspede. Correu para a antepara, fechou-a, prendendo o doente no hall dos robôs e se teleportou para a escotilha cinco que a centena de robôs tinha procurado para sair da gigantesca esfera espacial.
Quando chegou bem em frente à escotilha, botou as patas dianteiras na frente do focinho, pensou numa porção de palavrões que Bell lhe havia ensinado e abaixou novamente as patas. Agora tinha de resolver outro caso: conter cinqüenta homens e mulheres que se acotovelavam diante da antepara, dançando com aquele alarido infernal.
O reboar dos passos dos gladiadores de aço era cada vez mais forte e Gucky se sentia puxado para todos os lados, tendo ainda que suportar em cada respiração aquela catinga horrível dos honos, que sempre lhe provocava ânsias de vomitar, e ouvir dos ursinhos sempre a mesma coisa: “me dá um beijinho, me dá um beijinho...”. Notou de repente que um homem de boa estatura, com mais de 80 quilos estava pisando na sua pata traseira.
Foi sempre contra este tipo de cumprimento. Soltou um guincho terrível. Mas a gargalhada do eufórico homenzarrão abafou o guincho de Gucky, que não se conteve mais de ira. No mesmo instante, aquela multidão de dançarinos ficou colada bem rente ao teto. E já não havia nenhum impedimento para a primeira centena dos robôs de combate dos arcônidas.
Mais de cinqüenta pessoas, com seus ursinhos, ficaram coladas ao teto, sem poder mover um braço. Por baixo deles, desfilavam os robôs na direção da escotilha, que agora se abriu toda, liberando-lhes a passagem.
Comprimido contra a parede, o rato-castor via desfilar diante dele a mais moderna e fulminante centena de robôs dos arcônidas. Teve então oportunidade de olhar para fora e viu os purificados ainda sentados entre os suportes telescópicos gigantescos da Titan.
Mal havia deixado a rampa o último robô, a escotilha se fechou e a rampa foi levantada.
Vocês podem descer novamente”, pensou ele. No mesmo instante, o gargalhar frenético e os gritos da pequena multidão que estivera colada ao teto, lhe encheram os ouvidos.
A uma distância de cinqüenta metros, os fez voltar brandamente ao chão. Desmaterializou-se no mesmo instante, voltando num pulo para a antepara do depósito de robôs.
Sua vida esteve por um triz, quando um robô quase o esmagou com seu pé. Com palavrões e com uma expressão de desespero, ia pulando entre os robôs que caminhavam pelo corredor principal, até que, outra vez comprimido contra a parede, ficou olhando para esta segunda centena de robôs, completamente perplexo.
Que teria acontecido? Quem teria programado e ativado estes cem robôs? De onde vinham estas “máquinas”?
Estava mesmo pensando em “máquinas” e não nos “camaradas pretos”. Tinha perdido o bom humor.
Isto seria um desastre. E aquela centena já estava longe.
Num salto desesperado, aterrissou nas costas do último deles. Rhodan lhe havia garantido que seu programa excluía qualquer interferência de um membro da tripulação.
De repente Gucky começou a duvidar desta garantia. Pondo em risco a própria vida, agarrou-se com uma pata no pescoço do robô de combate e, equilibrando-se com muita habilidade, conseguiu controlar em que programação o robô estava ligado. Depois, pulou para a nuca do próximo robô, observou também aí. Chegou à conclusão de que a programação estava certa.
Subitamente se lembrou do doente que deixou preso no depósito dos robôs.
Tomara que dê certo”, pensou ele.
Transportou-se telecineticamente para a antepara, deu um outro salto pequeno e aterrissou no hall, que com a retirada de duzentos robôs de combate, parecia agora vazio.
O doente preso ouviu o ruído de sua chegada e virou-se para ele rindo, ligando qualquer coisa no robô, atrás do qual se encontrava.
Gucky notou que os fios de seu pêlo estavam eriçados.
Puxa! — exclamou, com sua voz aguda, fazendo com que o pobre homem subisse como um balão até o teto. Depois começou a regular a programação.
Um minuto depois, estavam os dois trabalhando juntos. Gucky nem protestou mais contra o mau cheiro do ursinho da morte, nem ouvia quase o gargalhar maluco de seu inesperado auxiliar.
Não estou sendo bacana para você, irmãozinho? — perguntou este já pela décima vez, tentando demovê-lo do trabalho para dançar um pouco. — Ria um pouco, amigo, você não se alegra com a minha felicidade? Eu não sou bom para você e o ajudo?
Daqui um pouco, vou me alegrar mesmo — disse ele e se teleportou novamente para a escotilha.
O segundo lote de cem robôs estava para deixar a Titan e Gucky tinha ordens expressas de Rhodan de não deixar nenhum doente sair ao ar livre.

* * *

Rhodan, você entende uma coisa desta? Já está saindo a terceira centena da nave...
No mesmo instante se intercalou alguma coisa entre Rhodan e Crest. Surgiu a figura de Gucky. Tentou fazer a saudação no seu uniforme feito sob medida, e se apresentou.
Tenente Gucky, de volta da primeira incursão. Trezentos “camaradas pretos” na vanguarda. Anuncio-me para a segunda incursão.
Gucky...
Gucky já tinha desaparecido.
Este safado — disse Perry com certo orgulho.
Todo reticente, representando o nobre arcônida, perguntou Crest:
Será que Gucky já conhece esta palavra?
Gostava de ouvir Perry Rhodan. Crest sorria intimamente.

* * *

Entre as duas espaçonaves, travava-se a horrível batalha dos robôs, que parecia uma tocha viva de milhares de metros. O acaso fizera com que o número de máquinas de combate fosse exatamente igual dos dois lados.
A árida planície se convertera num inferno. O ar estava cheio de explosões e de relampejos ininterruptos. Nuvens de fumaça invadiam o céu e os clarões eram tão ofuscantes que Perry e Crest, apesar da distância em que estavam, tinham que tapar os olhos. Cada nuvem de fumaça era a destruição de um robô, transformado numa fornalha incandescente de um inferno atômico desenfreado. Até a água do lago, estavam frente a frente. E mesmo rente à montanha íngreme, lutavam com suas armas horríveis. Máquinas desalmadas, programadas para destruir o inimigo, não conheciam reações humanas.
Capacetes de proteção rebentavam como bolhas de sabão; raios com força para destruir tudo transformavam o aço arcônida em gás. Densa poeira se levantava das passadas dos robôs, incandescente às vezes. A água fervia quando um robô atingido começava a fundir, com todo seu armamento de raios atômicos.
Depois de alguns minutos, Rhodan e Crest já não sabiam distinguir onde estavam os robôs da Titan e os seus adversários. As frentes de combate se deslocavam constantemente.
Agora, via-se uma brecha ali no meio. Rhodan e Crest prenderam a respiração. Quem seria o vencedor?
Logo a seguir, sobem ao céu sete colunas de fogo, sete línguas incandescentes que lembravam protuberâncias do nosso sol, ofuscando tudo, deixando atrás de si um caudal de fumaça e gás no chão de areia.
E mais uma vez, os segundos se transformaram em eternidade. O inferno dançava lá embaixo o rito da morte e da destruição. Este inferno parecia ter tragado um ente querido: Gucky.
Crest perguntou por ele. Rhodan não respondeu, porque não percebeu nada que denotasse a presença física de Gucky.
Os pontos lá embaixo — cada ponto representava um robô — estavam às vezes encobertos por nuvens de gás, de fumaça, no meio da cintilação dos raios energéticos e das explosões, tudo acompanhado de um trovejar infernal. Cada vez mais fortes, as explosões e os abalos provocados pela vibração do ar chegavam até onde estavam Rhodan e Crest. Parecia o desenrolar de uma terrível tempestade, mas já se podia perceber que a frente de fogo caminhava lentamente se aproximando da nave cilíndrica.
Perry, lá está Gucky! — exclamou Crest todo feliz. — Lá, à direita do grande rolo de fumaça. Veja como os dois robôs estão voando como aviões a jato...
Logo a seguir ecoou uma risada espontânea de Rhodan. Tinha localizado os dois robôs que voavam retos na direção deles. Descomunal era sua aceleração. Só podia ser obra do rato-castor, que devia estar escondido lá por baixo, mais ou menos próximo à zona de combate, com seu dente de roedor, todo feliz, brincando, como ele dizia.
Cuidado — disse Crest. Mas não foi necessário cuidado.
A dez metros deles, desceram os dois robôs, agora transformados em velocíssimos jatos. À primeira vista, podia-se notar que tinham apenas valor de sucata. Sua célula positrônica estava destruída. Apesar disso, Rhodan e Crest correram para o campo de pouso e disseram, quase simultaneamente, depois de curta observação:
Não são robôs dos saltadores. Então veio a pergunta que tinha de vir:
Quem constrói destas máquinas de combate?
Crest respondeu bem baixinho:
Daria qualquer coisa para poder responder, Perry. Nunca vi este modelo de robô e nunca ouvi falar a respeito.
Observe que possui características típicas dos arcônidas, Crest. Eu gostaria de... — Rhodan, falando, olhou para baixo e percebeu o que estava se passando nos instantes finais. Chamou o tenente Julian Tifflor na Gazela.
Este se apresentou e Rhodan lhe transmitiu a seguinte mensagem:
Tiff, voe para atacar a nave cilíndrica. Faça um bom serviço.
E, do seu mini-alto-falante, ouviu a resposta de Tiff:
Senhor, espero fazer tudo bem.
* * *

Como uma bala, a nave de telerreconhecimento partiu da caverna onde se abrigara.
Com a palavra “ataque”, Tiff estava em seu elemento.
A Gazela se atirou com estupenda velocidade contra o íngreme paredão de pedra. Em dois segundos, poderia se esfacelar de encontro a um rochedo de uns mil metros de espessura. Wuriu Sengu já se sentia esmagado. Porém apesar de seu medo, não se atrevia a olhar para Tiff.
Tiff sorria, mas era um sorriso duro.
Ataque!
O ar açoitado zumbia e gemia em torno da Gazela, ficava quente e começava a esfuziar. Na nave de reconhecimento, roncavam os reatores. O zunido do absorvedor magnético começou a atingir freqüências mais elevadas.
A Gazela passou em disparada, bem rente à crista do rochedo.
Velocidade! — exclamava Julian Tifflor e não sentia barulho nenhum. Levou a velocidade ao máximo, ainda tinha mil metros para baixo. Voavam já pela parte final do planalto.
Um paredão escuro surgiu à sua frente. A velocidade era cada vez maior.
Curva para a esquerda.
Algum monstro na máquina, faminto, insaciável, devorava todas as forças de resistência. Para fora da curva, para a esquerda. Agora era necessário subir. A quatro mil metros estava o cume da montanha.
O que estava voando — a cumeeira da montanha ou a Gazela?
Wuriu Sengu não entendia como, numa velocidade desta, se podia atingir um objetivo que estava do outro lado da montanha, bem mais para baixo, à margem do lago.
Julian Tifflor ainda não tinha visto a espaçonave desconhecida, nem tão pouco Wuriu. Com uma velocidade infernal, a Gazela passou pela cumeeira da cadeia de montanhas; Tiff havia aprendido a correr assim com seu chefe.
Descer!
Lá estava o gigantesco cilindro.
Fogo nele — gritou Julian Tifflor.
Wuriu ligou o interruptor duplo. Todas as armas de raios energéticos da Gazela fizeram fogo. Um clarão ofuscante varreu o espaço e atingiu a nave desconhecida.
Ela não tem o envoltório de proteção! — Foi um alvoroço incrível quando os raios energéticos devoravam a carcaça da nave, que se fundia toda. Não houve contra-ataque.
Os reatores roncavam alto. Deviam dispender agora uma energia enorme; apenas a uns cinqüenta metros da nave desconhecida é que Tifflor deu a ordem:
Voltar.
Perry Rhodan que vira o perigosíssimo looping feito pela Gazela, não pôde deixar de exclamar:
Será que Tiff ficou louco?
A nave de Tiff virou-se um pouco e se atirou com todo peso para baixo.
Fogo, Sengu! — gritava Tiff, pensando nos setecentos homens envenenados.
O chão parecia voar de encontro a eles e o cilindro se aproximava. A mancha feia no alto da carcaça da nave desconhecida se transformou numa fenda, numa fenda de dez metros de diâmetro.
Fogo, Sengu!
Das aberturas afuniladas da Gazela, sibilavam raios energéticos. Embaixo, na nave desconhecida, roncavam os reatores, dançavam relês, tudo estava cheio de alta-tensão.
Através do intercomunicador Crest ouviu a voz entusiasmada de Rhodan:
Olha, Crest, o rapaz sabe voar.
Aí vem o contra-ataque, Perry.
A nave cilíndrica se defendia. Retiraram a cobertura dos canhões e as grandes aberturas afuniladas estavam livres. A Gazela entrou numa nuvem.
Descarregar, Sengu — disse Tiff sorrindo.
O fato de ter percebido prontamente a reação da nave desconhecida, ele devia à aparelhagem ótica de primeira classe que a Gazela possuía.
Wuriu Sengu estava compreendendo agora o que que o tenente Julian Tifflor entendia por “descarregar”.
Tiff exigia tudo que a nave podia dar. Não serviria de alvo fácil para os canhões energéticos. Seu envoltório de proteção não agüentaria este impacto, haveria de rebentar e cair.
Havia uma fenda no paredão da montanha. Tiff empinou sua nave na vertical. A fenda mal tinha trinta metros de largura, exatamente vinte e cinco. Havia calculado tudo. A Gazela tinha dezoito metros de largura, portanto, conforme Pitágoras, sobrariam três metros e meio para cada lado.
De qualquer maneira, o espaço está sobrando — disse Tiff para o japonês.
Mas já estavam bem em cima da montanha e a nave de reconhecimento retomou seu curso normal.
Tiff — dizia o vidente Wuriu, enxugando o suor da testa.
Julian Tifflor piscou para ele, sem tirar, todavia os olhos dos instrumentos.
Wuriu, não tive tempo de suar, mas você, no segundo vôo, abriu um rombo na coluna vertebral da nave desconhecida, parabéns.
De novo o alto-falante com o seu “atenção, atenção”. Era o chefe que estava anunciando a presença de Gucky.
Coisa de um instante depois, surgiu Gucky. Ajeitou o capacete de seu uniforme espacial e falou com energia:
Onde é que está o depósito de bombas?
Atrás da casa de máquinas — respondeu Tiff. — Como é que está o negócio com os robôs, lá embaixo?
Gucky já ia indo para a casa de máquinas. Parou um pouco, sorriu muito orgulhoso, com o dente de roedor à mostra, e explicou:
Como é que está? Estive presente a tudo e ainda me pergunto se existe um robô, um soldado de aço, que seja capaz de agüentar uma queda de cinco mil metros de altura, sem se esborrachar... Até agora só vi montes de ferro velho atrás de nós. Até logo, meus aliados.
Gucky, um comodista. A distância para o depósito de bombas era pequena, mas assim mesmo ele se teleportou. Não voltou, foi diretamente para o seu “brinquedo”. Wuriu perguntou por ele. Tiff, que conduzia sua nave através dos picos da montanha, sorriu, dizendo:
Aposto que já botou seu ovo na nave desconhecida e desapareceu. É um rapaz formidável, parece garganta, mas é a criatura mais simples deste mundo e sempre sabe o que quer.
Nova mensagem do chefe:
Venha imediatamente, Tifflor, para a Titan.
* * *

No minuto seguinte, a situação mudou um pouco a bordo. Tifflor colocou a Gazela em aterrissagem de emergência.
Chefe — disse o intercomunicador — meu orientador de estrutura não funciona mais, depois de tantas transições e descidas, está falhando.
Rhodan veio correndo para a cabina de comando, acompanhado de Crest e Gucky, que estava acabando de chegar. Perry, que não se assustava com nada, sorriu tranqüilamente para Tiff. Este sorriso queria dizer: Não se afobe, companheiro, o chefe resolve isto com o dedo mindinho.
Vamos, Tiff, leve a Gazela para o hangar sete.
Para a Titan? — perguntou Tiff, meio sem jeito.
Para onde então, para a nave cilíndrica que já é sucata? Vamos.
Foi apenas um pequeno pulo, mas um pulo para setecentos homens doentes ou com infecção, um pulo para o inferno dos ursinhos.
A escotilha para o hangar sete ainda estava aberta e a Gazela pousou sem o menor solavanco. Tiff folhou para Rhodan como que querendo fazer alguma pergunta, ao vê-lo sacar sua pistola de raios paralisantes.
É com isto que temos que abrir caminho para a central — disse Rhodan a contragosto. Temos infelizmente que usá-la, os raios psíquicos não produzem mais efeito. Mas uma coisa é essencial: o traje espacial tem que ficar fechado. Se vir alguém com o capacete aberto, tenho que atirar com os raios paralisantes. Quanto tempo temos ainda à disposição para chegarmos à central, isto depende das espaçonaves que nos atacarem.
Mas os robôs de combate ainda estão lutando — disse Crest.
Foram construídos para isto — foi sua resposta.
Foi o primeiro a sair da nave de telerreconhecimento.

* * *

Quatro homens e Gucky penetraram na central da Titan. Jamais gostariam de se lembrar quanto sacrifício lhes custou abrir caminho para o posto de comando. Ninguém falava e não havia mesmo motivo para isto.
A Titan devia partir. Perry Rhodan, Crest, Tiff e Sengu e naturalmente Gucky queriam fazer aquela espaçonave de um quilômetro e meio de diâmetro subir ao espaço.
Eram cinco em lugar de mil e quinhentos. Tornava-se mais do que uma tentativa desesperada: era pura loucura. Mas ninguém se opôs.
Em duas ou três horas, os primeiros estarão chegando — disse Tiff, consultando o rastreador estrutural.
A reação de Rhodan foi imperceptível. Tinha mil coisas em que pensar no momento. A principal: fugir com a Titan.
Crest, que há com os motores seis, nove e quatorze? Por que não funcionam?
Crest deu sua resposta, mas Gucky acrescentou:
Não estou conseguindo ligar os reatores, Dora, Zeta e mais dois outros.
Tiff deixou o rastreador de estrutura e foi ajudar Gucky.
Tudo foi feito, seguindo o manual de emergência, tudo, e a Titan tinha um quilômetro e meio de diâmetro.
Perry correu para os controles dos absorvedores de compressão. Estava concentrado, mas sereno.
Perry, todos os reatores estão em funcionamento — disse Gucky, como que provando que não só gostava de “brincadeiras” como também de coisas sérias.
O ronco de todos os reatores era ensurdecedor e causava uma leve trepidação na esfera gigante.
Tiff, venha aqui — disse Rhodan, tirando Julian Tifflor do rastreador estrutural. Este controle não tinha grande importância no momento. Teria só na hora de levantar vôo. — Sente aqui na poltrona do co-piloto.
O jovem tenente nem teve tempo de ficar contente, por ter a honra de pilotar junto com o chefe.
Não tenha medo, Tiff — era o legítimo Perry, o homem que na hora mais desesperada sabia derramar coragem ao redor.
Perry, olhe os honos — gritou Crest, através do ronco dos reatores e o sibilar das turbinas.
Lá embaixo, entre os suportes da Titan, ainda estavam alguns purificados, apáticos, olhando para o nada.
Gucky — era a voz de Rhodan — leve estes honos para longe, mas bem para longe.
Com seus poderes telecinéticos, Gucky os projetou para o outro lado do lago, tendo, porém, o cuidado de lhes proporcionar uma descida suave.
Quatro homens, que não podiam perder um segundo, olhavam pasmados o feito de Gucky.
Pronto — disse Gucky de volta — o transporte foi rápido, mas confortável. Podemos partir.
E Perry deu a partida. Puxou o controle duplo para todos os reatores, com o outro movimento ligou o envoltório de proteção em tomo de toda nave.
A nave cilíndrica vai aos pedaços — gritou Sengu. É o que se via no painel da tela redonda, pedaços da nave voando pelos ares como folhas secas ao vento. Mas ninguém teve tempo de olhar.
Era pura loucura tentar levantar vôo apenas com quatro homens. Não podia dar certo. Não houve partida.
Por que não houve partida? Por que a Titan não se ergueu?
Aí a lâmpada de controle acendeu: ligação sincronizada.
Verde! Um ribombar de mil trovões se fez ouvir e a Titan se despregou do chão. Havia partido.

* * *

Já estavam no espaço.
Com cinqüenta por cento da velocidade da luz, a esfera gigantesca varava o infinito, protegida apenas por seu envoltório energético. Fora disso estava completamente desarmada, pois não havia recursos humanos para manobrar as armas da grande nave.
Crest arregalou os olhos ao ver no painel as naves cilíndricas que se aproximavam da Titan.
Rhodan sorriu calmamente.
Isto não é nada, ainda virão muitas outras. Sabiam naturalmente que o bom-bocado que as esperava lá em Honur não era pão de cada dia.
Começou o primeiro ataque por parte da nave cilíndrica mais poderosa. Seis bons tiros fizeram estremecer a maior espaçonave do Universo. Estremecia, mas continuava seu curso. Qualquer outra teria sucumbido a este ataque. O envoltório energético apenas tremeu um pouco, recebendo aquele horrível impacto.
Ataque pelo verde trezentos e quarenta — anunciou Tiff.
Dez minutos depois não se anunciavam mais os ataques. Ininterruptamente, as centenas de descargas energéticas vinham de todos os lados e chocavam-se no envoltório da Titan. Por duas vezes os registros de bordo acusaram 80% da capacidade de resistência do envoltório.
Acho que não virão outras espaçonaves, fora estas que aqui estão — disse Tifflor, levando a mão aos olhos para não ser ofuscado por aqueles lampejos de claridade intensa, que transformavam a escuridão do espaço numa orgia de luzes.
Neste momento, o rastreamento automático anunciou transição numa distância de dez minutos-luz.
Meu Deus! — exclamou Crest. — Estão aí de novo sessenta espaçonaves. De onde vieram todas elas?
Do inferno — foi a resposta azeda de Rhodan. — Tiff, mande um superimpulso para a Terra, perguntando onde se encontra Freyt com a Ganymed. Chame Freyt, se ele estiver no espaço, mas não se esqueça de pedir socorro.
Ninguém falava em transição. Apenas com quatro homens a bordo, seria temerário tentar uma transição.
A Titan continuava a estremecer com os terríveis impactos que vinham agora do amarelo quatorze.
Acho que todas estas espaçonaves são dirigidas por robôs — disse Crest.
Tifflor teve imediata ligação com a Terra:
A Ganymed está no espaço — anunciou Terrânia.
E quase no mesmo instante, percebeu o superimpulso da Ganymed:
Que que está acontecendo? — perguntou o major Freyt.
Venha imediatamente — respondeu Tiff. — Temos setecentos moribundos a bordo. Estamos sendo atacados por supernaves cilíndricas. Somos apenas quatro homens e o Gucky. Reúna todos os médicos. Proibido entrar na Titan sem os trajes espaciais. Venha rápido, major.
Soou o alarme na Ganymed. Explicou-se a razão do alarme e em três transições a Ganymed alcançou M-13. Mais um pequeno salto a trouxe para o sistema Thatrel.
Todas as torres de ataque da Ganymed estavam de prontidão, as capas das peças de artilharia energética foram retiradas. Nos pontos de controle se encontravam homens decididos para o que desse e viesse.
Ninguém podia imaginar a situação de Perry.
Finalmente chegaram as coordenadas.
Graças a Deus — disse Freyt, e a gigantesca Ganymed se atirou na direção exata.
Nenhuma das naves cilíndricas se preocupou com a aproximação da Ganymed.
São naves robotizadas — foi a conclusão de Freyt, e sua fisionomia se tornou rígida. — Lá está a Titan.
Naquele instante havia uma enorme labareda em volta da esfera espacial. Um fogo cerrado de forças mortíferas ia de encontro à camada de proteção do gigante do espaço. Parecia um sol pequeno.
O júbilo foi indescritível na central da Ganymed, quando depois de tudo, a Titan apareceu de novo, intacta, com seu bojo escuro no espaço.
Das aberturas afuniladas da Ganymed, centenas de bocas vomitavam fogo contra as naves cilíndricas. Por toda parte havia nuvens de fumaça incandescente; eram naves inimigas destruídas. Era heróico o esforço dos homens da Ganymed, que corajosamente tentavam livrar a Titan dos ataques adversários, já que de seus próprios canhões não era possível sair nenhum tiro.
Desgraçados! — esbravejava Freyt na central da Ganymed. — Temos que transformá-los todos em tochas ardentes.
De repente, mudaram de rumo. Alguns minutos depois, o espaço em torno da Titan e da Ganymed estava vazio, com exceção de uma nave-robô, bem atingida, que se arrastava pelo espaço.
Naturalmente um determinado impulso de rádio havia feito recuar as demais naves.
Agora era a vez de uma outra batalha.
Na nave de Freyt, todos os médicos e oitocentos especialistas estavam prontos para entrarem em ação na Titan.
Primeiro, entraram os médicos. Começaram os exames com Thora, Bell e o sargento Rous.
Por longas horas, Rhodan, Crest, Tiff, Sengu e Gucky tiveram que esperar pelo resultado na central da Titan.
Apresentou-se então a comissão médica. Os quatro homens e Gucky pareciam um só ouvido.
Hipereuforia, era como os médicos classificavam a doença, hipereuforia provocada por um tóxico segregado pelos ursinhos. Este tóxico destruía paulatinamente as células gangliares do sistema nervoso central e não podia ser debelado com os meios até então conhecidos pelos arcônidas.
Não podemos dizer exatamente quando começarão a morrer. Recomendamos, porém, extirpar todos estes ursinhos, antes que os homens da Ganymed entrem aqui.
Perry Rhodan concordou. Em seu lugar, Crest se dirigiu ao médico chefe:
Pode providenciar a destruição deles. Eu proponho, porém, que três pares sejam isolados cuidadosamente, para fins de pesquisa científica.
Perry Rhodan estava de olhos fixos no painel da tela redonda, mas não via nada.
Um adversário desconhecido, traiçoeiro, quase que por um fio, não o destrói completamente.
De onde viria o próximo golpe? De que direção? E os setecentos homens, seus amigos, quando morreriam?
Não, e mil vezes não, a morte terá que esperar.
De pé, parado na frente do painel, um pouco recurvado, postura esta nunca vista até hoje em Perry Rhodan, ele olhava para o infinito — um Perry Rhodan cheio de desespero. Entretanto um Perry Rhodan em quem sempre lampejava um raio de esperança.




* * *
* *
*











Uma super belonave se torna também indefesa, quando sua tripulação não pensa mais em obedecer às ordens de seu comandante.
O estado de coisas provocado pela contaminação em massa era desesperador para a Titan e seus comandantes — e somente a Ganymed é que, no último minuto, a salvou do ataque das naves-robô. Mas o que acontecerá com os setecentos doentes a bordo da Titan? Haverá possibilidade de cura ou estão todos irremediavelmente condenados à morte?
Só os causadores da doença é que podem responder a esta pergunta — e para descobrir estes causadores, Perry tem que voltar à armadilha das espaçonaves.
Em Cuidado com os Microrrobôs, Perry Rhodan voltará com disposição redobrada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html