terça-feira, 8 de janeiro de 2013

P-038 - Avanço Para Árcon - Kurt Mahr [parte 3]

Também se poderia cogitar da possibilidade de condicionar seres não inteligentes de tal forma que seus impulsos cerebrais primitivos possam ser captados pelo simulador.
No seu íntimo, Sergh felicitou-se pela habilidade que demonstrara em escolher Ghorn como companheiro. Sem dúvida, este estava no seu dia feliz. As idéias que oferecia eram fascinantes.
Que profusão estupenda de cores e formas surgiria”, pensou Sergh num instante, “se as idéias que naquele instante passavam pelo cérebro de Ghorn pudessem ser transmitidas ao simulador.”
Parece que a idéia não é má — respondeu Sergh. — Resta saber se é praticável. Realmente, seria impressionante...
Era a única demonstração de entusiasmo que estava disposto a oferecer.
Ghorn pensou:
Você vai descobrir, sua raposa velha. Se der certo, ninguém poderá duvidar de que a idéia surgiu em seu cérebro.”
O modelo do instinto de um peixe-cobra vnatólico seria uma sensação na tela... — murmurou Sergh.
Ghorn, que estava disposto a revelar suas melhores idéias, obtemperou:
Quanto a mim, seria muito inteligente, ou talvez mais, conforme se queira. Estaria interessado em ver projetada na tela a atividade nervosa de uma flor. Que quadro maravilhoso não deve surgir se o jogo das células sensoriais de um ser tão harmonioso como uma flor for captado e registrado pelo simulador.
Se Ghorn esperava que a sugestão provocasse um entusiasmo ainda maior em Sergh, logo se veria decepcionado. Pela terceira vez, Sergh ergueu-se sobre os braços, olhou para o canteiro e, com uma rispidez surpreendente na voz, afirmou:
Alguém pisou no meu canteiro de fareh. Se soubesse quem fez isso, eu o obrigaria a travar uma luta livre com um naat.
Ghorn estremeceu. Uma luta livre com um naat significava a morte, se o outro parceiro fosse um arcônida que por qualquer crime tivesse perdido sua imunidade. Para os naats, a luta livre era um esporte sagrado. Apesar de todas as tentativas civilizatórias dos arcônidas, há muito abandonadas, não puderam alterar o fato de que os naats matavam invariavelmente o lutador derrotado.
Ghorn levantou-se para dar uma olhada no canteiro. Caminhou até lá, enquanto Sergh, apoiado nos cotovelos, o seguia com os olhos curiosos.
Realmente o canteiro havia sido devastado. Parecia que alguém caíra nele de uma boa altura e de costas. Ghorn compreendeu a indignação de Sergh, ainda mais que as flores fareh se contavam entre as plantas ornamentais mais caras. Vinham da superfície de um planeta pantanoso envenenado que ficava a mais de dez mil anos-luz, e os homens que viajavam até lá especialmente para trazer as flores tão cobiçadas exigiam uma retribuição adequada.Ghorn foi ao lugar em que os pés do desconhecido tocaram o chão no momento da queda. Ali os arbustos impediam que visse Sergh. Apenas ouviu o murmúrio do riacho que desembocava na lagoa.
Viu marcas de pé no chão macio do canteiro, e o formato das mesmas era tão estranho que Ghorn sentiu um nervosismo que há anos não conhecia mais.
A marca de pé media cerca de um palmo e meio. Era muito menos que o comprimento de um pé arcônida. Além de ser muito curta, a grande largura fazia a marca muito feia.
Talvez seja por causa dos sapatos que o homem usava”, pensou Ghorn.
Mas o argumento contrário logo surgiu em sua mente:
Quem usaria sapatos tão feios?”
Nenhum arcônida o faria”, concluiu Ghorn.
E a entrada no funil era proibida a qualquer ser que não fosse um arcônida. Logo, alguém penetrara ali sem permissão.
Os aparelhos de aviso sempre funcionam. E não há nenhuma possibilidade de destruí-los do lado de fora, a não ser que se destrua toda a casa.
Desenvolvendo uma velocidade que assustou Sergh, Ghorn correu em volta dos arbustos e informou o administrador sobre a descoberta que acabara de fazer. Sergh levantou-se, gemendo e resmungando. A passos lentos, conforme lhe convinha, foi até o canteiro para examinar o prejuízo e as marcas de pé.
Estas pareciam diverti-lo. Seguiu-as até o lugar, não muito distante do canteiro estragado, em que desapareceram de repente. Voltando-se, disse com um sorriso malicioso:
Um estranho penetrou em nossa casa. E é um estranho inteligente, meu caro. Será um prazer observá-lo durante sua atividade. É uma pena que parece ter um corpo arcônida ou ao menos arconóide. Como já disse, preferiria um peixe-cobra vnatólico. Mas é claro que não se pode exigir de um animal desses que possua inteligência e ainda por cima seja esperto. Venha comigo, meu caro. Vejamos onde nosso desconhecido se encontra no momento.

* * *

Perry Rhodan já sabia que ao menos naquele momento não existia nenhuma vida ou atividade no interior da casa-funil. Por isso resolveu utilizar os conhecimentos adquiridos através do treinamento hipnótico arcônida.
Sabia que a portaria automática do edifício ficava na parte superior do cabo do funil, logo embaixo do jardim que Tako inspecionara em primeiro lugar.
No fundo é uma sala de máquinas — disse Rhodan ao japonês. — Há muito tempo, os arcônidas constroem suas máquinas com tamanha perfeição que nunca precisam de reparos. Por isso não é de se supor que haja alguém na sala. Se aparecer por lá e notar que se encontra numa posição muito incômoda, imprensado por máquinas de um lado e de outro, não se incomode. Basta localizar o contacto que acabo de descrever e ativá-lo ao menos por trinta segundos.
Tako repetiu as instruções, quase palavra por palavra, e desapareceu. Rhodan comunicou à Ganymed:
Fase D.
Dirigindo-se a Bell, disse:
No momento em que Tako acionar o contato, o portal se abrirá. Enquanto estiver aberto, o aparelho de alarma está fora de ação. Portanto, não perca tempo. Saia correndo. Procure entrar enquanto os dedos de Tako estiverem sobre a máquina.
Bell confirmou com um resmungo.
Estou tão nervoso que sairei que nem um foguete quando aquilo se mexer, por um centímetro que seja — disse em tom mordaz.
Os segundos foram-se arrastando. Rhodan ouviu uma voz no receptor de capacete.
Era Bell que se dispunha a proferir uma observação, provavelmente de impaciência. Mas antes que pudesse falar a primeira palavra, viu-se na luz fluorescente das paredes do funil que um traço negro se abria junto à porta.
Bell cumpriu o que havia prometido. Saiu em disparada e chegou tão depressa que por um instante Rhodan teve medo de que o alarma ainda pudesse captar a fase inicial de sua corrida.
O portal ainda não estava aberto. Um portal arcônida nunca tem pressa. Mas Bell, carregando o pesado desintegrador automático, espremeu-se pela fresta, com um movimento rápido regulou o neutralizador para a gravitação menos intensa e, uma vez do lado de dentro, disse fungando:
Ande depressa, senão é tarde!
Rhodan não se apressou. Sabia quanto tempo duravam trinta segundos para alguém que receasse perder a hora. Passou tranqüilamente pelo portal, agora totalmente aberto, postou-se ao lado de Bell e, sem dar o menor sinal de impaciência, esperou até que Tako, que se encontrava acima deles, no compartimento de máquinas, providenciasse para que as alas do portal voltassem a deslizar, encostando uma na outra.
Olhou em torno.
O interior do cabo do funil, que sempre era um salão redondo de trinta metros de diâmetro, correspondia a imagem que o treinamento deixara em sua memória. Havia gobelins preciosos, uma profusão de luzes das cores mais variadas, produzidas por fontes invisíveis, pinturas que simulavam a realidade aplicadas no teto de dez metros de altura. O salão demonstrava a opulência do proprietário antes que o visitante tivesse oportunidade de olhar qualquer das peças residenciais propriamente ditas.
Havia, porém, um furo no teto, que perturbava a simetria do conjunto. Ficava fora do centro, era redondo e tinha três metros de diâmetro.
É bastante amplo para permitir a passagem duma companhia inteira numa questão de segundos”, pensou Rhodan com um modo irônico.
Bell lançou um olhar indagador para a abertura.
Apenas estou esperando que você diga alguma coisa.
Com quatro ou cinco passos, colocou-se abaixo da abertura, olhou para cima, como quem faz pontaria, e impulsionou-se suavemente com o pé direito. A sucção do campo antigravitacional envolveu-o e arrastou-o para cima. Dali a quatro segundos, tinha desaparecido pela abertura.
Rhodan seguiu-o imediatamente. A luz colorida do hall de entrada apagou-se assim que passou pela abertura no teto.
Bell esperava por ele. A seu lado estava Tako, que se apresentara, segundo as instruções recebidas. Rhodan teve tempo para elogiá-lo por seu trabalho impecável. Tako agradeceu com seu típico rosto sorridente e infantil.
A sala em que se encontravam representava o segundo estágio, bem mais avançado, do contato do visitante com as condições financeiras e sociais do dono da casa. Havia móveis, que não existiam no pavimento de baixo. Algumas poltronas articuladas, espalhadas ao acaso, segundo a moda arcônida, convidavam o visitante a uma pausa de descanso. Sulcos dispostos em círculo, quase invisíveis, que se abriam no soalho, revelavam a existência de mesas de serviço automáticas. Bastava um desejo apenas insinuado para que, providas daquilo que se desejava, subissem a uma altura cômoda, regulada pela posição da poltrona articulada.
A sala era triangular. Ocupava apenas pequena parte da área do pavimento e o teto ficava a apenas três metros e meio acima do soalho. Isto representava que atrás das paredes estavam instaladas as numerosas máquinas de servir, que permitiam aos arcônidas o estilo de vida desejado.A abertura do elevador antigravitacional desta vez não ficava no centro, nem diretamente acima da abertura pela qual haviam subido.
Seguiu-se uma série de salas, cada qual menor, mais íntima e montada com maior requinte que a anterior. A intenção de preparar o visitante gradualmente para o esplendor daquela casa era inconfundível.
Atravessaram um total de seis halls, salas e saletas. Finalmente passaram pelo teto de um recinto de pequenas dimensões e penetraram no primeiro pavimento do funil propriamente dito. Aí o perfume das flores, entre as quais emergiram, atravessou os filtros e penetrou nos capacetes.
Como sabemos, os arcônidas preferem instalar sua residência nos andares superiores — disse Rhodan, depois de terem concluído a inspeção. — Também o administrador deverá encontrar-se lá em cima. Procuraremos subir o mais rápido possível acima do trigésimo pavimento. Para ganhar tempo, teremos de operar separadamente, ao menos até encontrarmos o administrador. Não se impressionem com o esplendor e a riqueza do prédio. Procurem localizar Sergh e não parem em qualquer lugar quando sentirem que ali não poderão encontrá-lo. Sabem perfeitamente que temos que fazer coisa muito mais importante que estudar o interior de uma casa-funil arcônida. A Ganymed está presa. Precisamos libertá-la e voar para Árcon, pois a Terra precisa de auxílio. Sempre tenham isto em mente!
A advertência foi tão enfática que nem mesmo o irreverente Bell deu qualquer resposta.

* * *

A idéia de Sergh trouxe um desassossego considerável àquela casa, geralmente tão tranqüila. Ghorn, que tinha a seu cargo a vigilância do interior do funil, teve um volume de trabalho que não condizia com seu gênio.
Quando procurou Sergh para transmitir-lhe uma notícia indispensável, este se encontrava em meio a uma palestra de hipercomunicação que parecia ainda mais importante e excitante. Mal Ghorn abriu a boca para dizer:
Eles se separaram, Senhor! Vamos...
Sergh interrompeu-o com um gesto violento e chiou:
Silêncio! Estou falando com Árcon.
Ghorn retirou-se. Não sabia o que deveria fazer. Um contato de hipercomunicação com Árcon era tão raro como uma flor verde. Era bem possível que, depois da palestra, a observação dos estranhos não proporcionasse o menor prazer a Sergh. Ghorn, que carregava sobre os ombros todo o peso do trabalho, estava mais que disposto a suspender as observações e deixar os estranhos por conta das armadilhas automáticas que, preparadas em virtude das observações de Ghorn, funcionariam sem o menor problema.
Mas Sergh era um homem imprevisível.
Enquanto Ghorn voltava ao seu posto de observação situado no quadragésimo pavimento, pensou com certa tristeza como lhe ficaria bem se ele mesmo fosse o administrador. Não seria necessário que ficasse num mundo tão importante como Naat. Ghorn compreendia perfeitamente que os postos de administrador de planetas, como este, teriam de ficar reservados aos membros das famílias mais importantes. Contentar-se-ia com Vnatol. Dali, poderia suprir Sergh com os apreciados peixes-cobra. De resto, seria dono do seu nariz.
Mas os tempos de expansão do Império, em que a cada dia se procurava um novo administrador, já pertenciam ao passado. Raras vezes ficava vago um posto como o que Ghorn cobiçava.
Ghorn estava tão entretido com seus pensamentos melancólicos que, ao retornar à sala de controle, levou algum tempo para dar-se conta de que uma larga faixa de luzes se apagara no painel que registrava o funcionamento dos instrumentos.
Sentou diante da mesa, constatou que nesse meio tempo os instrumentos automáticos haviam perdido de vista os estranhos e procurou encontrar sua pista.
Por um simples acaso, olhou para o painel luminoso, enquanto girava os botões, deixando desfilar na tela pavimento por pavimento, recinto por recinto. A quantidade de luzes apagadas deixou-o perplexo. Inclinou-se sobre os instrumentos e, bastante admirado, constatou que todos funcionavam perfeitamente, embora em relação a alguns deles o painel luminoso indicasse o contrário.
Ligeiramente confuso e desorientado, levantou-se para examinar o tal painel. Quando se encontrava a dois passos do mesmo, as luzes voltaram a iluminar-se.
Passou a mão pela testa. Recuou um passo e as luzes apagaram-se. Avançou um passo e voltaram a acender-se.
A regularidade do fenômeno era inegável. A confusão de Ghorn cedeu lugar a uma ligeira sensação de pavor. Todavia, continuou tranqüilo, como se não tivesse acontecido nada. Retornou para junto da mesa e prosseguiu no trabalho. Não se deixou perturbar pelo fato de que, acesas, as luzes de controle agora podiam ser vistas do lugar em que se encontrava.Ficou manipulando os botões e as chaves até que subitamente a luz se apagou no recinto, uma pesada persiana fechou a janela que dava para o interior do funil e uma escuridão impenetrável encheu o recinto.
Ghorn teve uma idéia pouco nítida do perigo em que se encontrava. Sabia que os aparelhos automáticos de salvamento instalados em todas as peças da casa talvez funcionassem com demasiada lentidão, se o quadro que tinha da situação era correto.
Mas, tal qual todos os arcônidas, e neste ponto não se distinguia de Sergh, seu mestre e senhor, amava tanto a excitação nervosa que deixara o perigo em segundo plano.
É bem verdade que, sob os padrões terranos, tal fenômeno representa antes um sintoma de histeria que um sinal de coragem.
Ghorn continuou a manipular os controles. Conhecia as instalações da pequena cabina e não tinha a menor dificuldade em orientar-se no escuro. As telas de imagem e as luzes indicadoras se haviam apagado juntamente com a luz do recinto.
Subitamente uma pálida luminosidade rompeu a escuridão. Vinha do nada e no primeiro instante parecia dirigir-se ao nada. Mas de repente um círculo de luz fosforescente de três metros de diâmetro surgiu na parede fronteira a Ghorn, cobrindo toda a extensão, do soalho ao teto.
Em meio ao círculo de luz, surgiram os contornos de uma figura bizarra. Era tão pequena que não poderia pertencer a um arcônida, embora tivesse duas pernas, dois braços e uma cabeça, tudo implantado nos seus devidos lugares; era tão gorda, que ninguém a acharia atraente, e tão disforme que Ghorn chegou à conclusão de que o contorno visto por ele não podia ser o vulto de alguém. Seria apenas o formato duma peça de vestimenta.
Ghorn viu que o estranho carregava alguma coisa no braço. Parecia um cabo curto e grosso. Acreditou que devia ser uma arma. Quase toda a coragem imaginária abandonou-o.
Quis dizer alguma coisa, algo que tranqüilizasse o desconhecido, para que o mesmo não começasse a atirar. Mas naquele instante, o vulto fez um rápido movimento com o braço. O objeto disforme que Ghorn acreditara ser a cabeça caiu para o lado e, abaixo dele surgiu um crânio redondo que, segundo Ghorn percebeu apesar do medo e do espanto de que se sentia tomado, estava coberto de cerdas curtas e duras, em vez dos longos cabelos que estava acostumado a ver.
Ghorn fez uma nova tentativa para falar. Mas, nesse instante, o desconhecido disse:
Está bem. Pode acender a luz.
Ghorn notou que o desconhecido falava um arcônida grosseiro mas correto. Obedecendo às palavras que acabara de ouvir, ligou algumas chaves. A persiana, que fechava a janela, desapareceu e a luz voltou a espalhar-se pelo recinto.
Ghorn lançou os olhos em torno. O desconhecido que, ao colocar-se muito perto do painel luminoso, fizera com que as luzes se apagassem, afastou-se para o lado quando viu que o arcônida começava a desconfiar de alguma coisa. Agora encontrava-se atrás dele.
Ghorn viu um rosto redondo que exibia um sorriso irado. Por cima da testa, as cerdas vermelho sujas se levantavam em atitude combativa. Ghorn notou que o desconhecido não lhe apontara a arma. Parecia sentir-se seguro.
O... o que deseja? — gaguejou.
O desconhecido continuava a sorrir.
Quero falar com o administrador. É o senhor?
Ghorn respondeu com um gesto desolado de negativa.
Meu nome é Ghorn — disse com a voz tímida.
O desconhecido baixou a cabeça numa mesura leve e irônica.
Meu nome é Bell — respondeu. — Reginald Bell.
Pronunciou com tamanha facilidade os sons estranhos de seu nome, que Ghorn abandonou definitivamente a idéia de que, apesar de sua vestimenta, de origem arcônida — poderia ser algum arcônida deformado.
Aquele homem vinha de longe. Mas de onde?
O desconhecido, que se apresentara como Bell, acomodou-se numa poltrona.
Quer saber de uma coisa? — voltou a falar Bell. — O senhor vai chamar o administrador e pedir-lhe que venha até aqui. Eu e mais duas pessoas que aparecerão daqui a pouco vamos conversar com ele. Combinado?
Ghorn recusou desesperadamente.
Se o senhor tivesse uma pequena idéia do nosso estilo de vida — suplicou — poderia imaginar o que aconteceria comigo se eu...
Bell interrompeu-o com um gesto.
Está certo — disse com um ligeiro desprezo na voz. — Quase que me esqueço. Sergh o condenaria a viver no deserto. Já que é assim, anuncie-se a ele. Meus amigos e eu iremos com o senhor.
Ghorn agarrou a sugestão como um náufrago que segura a corda salvadora.
O desconhecido parecia perigoso, e Ghorn não tinha a menor dúvida de que Sergh teria a mesma opinião assim que o visse. O administrador cometera um erro ao restringir a ação à simples observação. Uma criatura desse tipo sempre é perigosa. Num minuto, concebiam mais idéias que um arcônida num dia, e até rescendiam a uma atividade sobrenatural.
Mas, nos aposentos privados de Sergh, havia um sem-número de instalações automáticas de segurança. E se o desconhecido e seus amigos cometessem a tolice de insistir numa entrevista com o administrador, estariam perdidos assim que transpusessem o limiar da porta.
Ghorn procurou entrar em contato com o administrador. Ansiava de impaciência e fazia votos de que Sergh não se encontrasse nos seus aposentos privados, onde estaria fora do alcance de qualquer instrumento de busca.
Pelo canto dos olhos Ghorn notou que Bell voltara a colocar o capacete. Ouviu-o murmurar algumas palavras numa língua estranha. Supôs que se comunicava com os dois amigos.
Mas logo o rosto de Sergh passou a ocupar a atenção de Ghorn. Ao surgir na tela, parecia cansado e entediado. Ghorn ouviu um rápido movimento atrás de si e sabia que sua vida correria perigo se colocasse o receptor numa posição em que Sergh visse o desconhecido.
Este só viu seu representante.
O que houve? — perguntou, esticando as palavras.
Ghorn viu que continuava sentado diante do mesmo aparelho de hipercomunicação em que pouco antes falara com ele.
As palavras de Ghorn foram cautelosas:
Caso o senhor disponha de tempo, eu gostaria de submeter-lhe um problema importante.
O cansaço de Sergh não parecia ser tanto que a visita em perspectiva o deixasse contrariado. Lembrou-se das boas idéias que Ghorn tivera duas horas antes e demonstrou certo interesse.
Concordo — respondeu, reprimindo um bocejo. — Poderemos conversar na minha sala-refúgio. Você vem logo?
Naturalmente, Senhor — apressou-se Ghorn em responder. — Não seria capaz de deixá-lo esperar.
Sergh desligou. Bell resmungou atrás de Ghorn:
Não tenha tanta pressa, meu chapa. Temos de esperar meus amigos.
Ghorn não respondeu, permanecendo imóvel.
Pouco depois, a porta de enrolar abriu-se, e ninguém entrou. Voltou a fechar-se, e dois vultos estranhos surgiram do nada.
Ghorn virou-se e fitou-os estupefato.
Viu um homem pequeno de pele marrom-amarelada, olhos oblíquos e um sorriso constante no rosto. Viu outro homem que quase chegava a ter o tamanho de um arcônida. Seu rosto era sério e a expressão dos olhos cor de gelo deixou Ghorn apavorado.
No mesmo instante Ghorn percebeu que este último era o mais perigoso dos três.
O homem de olhos cor de gelo fitou Ghorn e disse num arcônida sem sotaque:
Vamos indo. O que estamos esperando?
5



Desde O início da fase D o coronel Freyt não recebera qualquer notícia de Rhodan. Isso não o deixou preocupado. Um sinal de emergência havia sido combinado em caso de Rhodan se ver numa situação realmente difícil. E só em circunstâncias, que Freyt considerava altamente improváveis, a situação se tornaria tão crítica que Rhodan nem tivesse tempo de transmitir esse sinal.
De qualquer maneira, Freyt mantinha-se constantemente preparado para providenciar tudo que se tornasse necessário caso surgisse algum perigo que representasse uma ameaça real para Rhodan.
Seus olhos ardiam de cansaço e muitas vezes a cabeça caía para a frente, mas agüentou no seu lugar.
Quando o tele comunicador emitiu o sinal de chamado, atirou a mão para a frente e num movimento seguro comprimiu o botão que ligava o aparelho. Os olhos avermelhados fitaram com uma expressão preocupada o quadro que se formava na tela.
Mas o que surgiu não foi o sinal de ausência de imagem que seria de esperar, já que Rhodan não levava nenhum receptor. Viu um crânio redondo e calvo coberto de pele negra e áspera; os três olhos lançaram um olhar indiferente para Freyt.
Este dissimulou a repugnância que o gigantesco naat lhe causava.
Aqui fala Novaal — disse a voz monótona do naat. — Tenho uma notícia para o senhor.
Freyt confirmou com um aceno de cabeça.
Estou ouvindo.
O eminente administrador incumbiu-me de dizer ao senhor que apreciaria uma visita dos dois arcônidas que traz a bordo. Queira transmitir a mensagem aos mesmos.
Freyt sabia qual era a conduta que lhe impunha seu posto.
Transmitirei o recado — respondeu. — Eles mesmos decidirão se apreciam a visita tanto quanto o administrador.
O rosto escuro de Novaal contorceu-se numa careta. Freyt não sabia se essa careta representava um sorriso. De qualquer maneira, naquele instante achou o naat mais simpático que em qualquer oportunidade anterior.
Sem dizer uma palavra, Novaal interrompeu o contacto.
Freyt transmitiu o teor da palestra a Thora e Crest, que se encontravam nos seus aposentos particulares. Crest recebeu a notícia numa atitude calma e pensativa, enquanto os olhos de Thora começaram a chamejar, conforme Freyt esperara.
Freyt sentiu-se surpreso quando dali a meia hora os dois arcônidas entraram em contato com ele e lhe disseram que aceitavam o convite.
Com o rosto sombrio, Freyt respondeu:
Pelo que ouvi, não houve nenhum convite. Mas terei muito prazer em transmitir suas decisões.

* * *

Deitado numa espécie de sofá forrado com preciosas peles de sevelot de Uthalla, cujas vibrações de freqüência e intensidade sempre variáveis proporcionavam um máximo de bem-estar ao corpo, Sergh estava projetando alguns pensamentos enfadonhos sobre a tela do simulador.
O resultado foi muito pobre. O tédio aliado à falta de concentração produziu um verde-apagado, que deslizava sobre a tela com uma sonolenta falta de configurações.
Sergh não estava satisfeito consigo mesmo.
O trabalho das últimas horas fora demais.
O sinalizador da porta emitiu um zumbido. A mão esquerda de Sergh desceu ao lado do sofá e comprimiu um botão. O rosto de Ghorn surgiu na pequena tela existente ao lado do simulador. Desenvolvendo uma atividade totalmente supérflua, o aparelho de controle montado do outro lado da porta indicou que não portava nenhuma arma.
Ah, é você — suspirou Sergh com uma acintosa falta de interesse. — Avisou que chegaria?
Com um entusiasmo surpreendente, Ghorn acenou com a cabeça.
Sim, Senhor.
Entre.
O quadro apagou-se. Com os impulsos verbais de Sergh, a porta abriu-se automaticamente. Sergh ouviu que Ghorn entrava na ante-sala.
Seria apenas Ghorn? Pois parecia...
Sergh levantou-se sobre os cotovelos e olhou para a porta. O jogo do simulador terminou numa desarmonia de cores e formas.
A porta interna abriu-se. Ghorn entrou. Seu rosto exprimia uma mistura de esperteza e dores de consciência.
Atrás dele...!
Com um grito indignado, Sergh ergueu-se. Desde a infância era o primeiro grito que alguém ouvia de sua boca. Mas naquele instante, Sergh não se deu conta da singularidade do fenômeno.
Depois do grito, o administrador por algum tempo não teve força para outras exteriorizações. De queixo caído, fitou os três homens que haviam entrado em companhia de Ghorn.
Depois de algum tempo, lembrou-se de que pedira a Ghorn que vigiasse o desconhecido que tratara as flores Fareh de maneira tão vergonhosa. Também se lembrou que em certa oportunidade Ghorn o avisara de que os desconhecidos eram três.
No meio tempo fora completada a ligação com Árcon, e Sergh teve de preocupar-se com outras coisas.
Mas agora, que tinha se lembrado de tudo isso, recuperou o equilíbrio psicológico.
Sorriu para os desconhecidos e disse:
Tenho muito prazer em conhecê-los de perto. Foi muito divertido observá-los enquanto avançavam pela casa às apalpadelas.
Um dos três, gordo e de estatura mediana, estava tirando o capacete. Sergh ouviu que aspirava o ar com chiado e achou que isso era sinal de que conseguira surpreender o homem.
Mas os outros não deram nenhum sinal de surpresa. O menor deles, um homem de pele amarela, continuava a sorrir. Nos olhos do maior, havia a mesma dureza apavorante que Sergh observara no momento em que o viu pela primeira vez.
Então o senhor nos observou? — perguntou numa aparente indiferença.
Sergh aborreceu-se ao notar que o desconhecido lhe negava o título que de direito lhe cabia. Mas o prazer e a excitação nervosa que sentia naquele momento fizeram com que Sergh não se importasse com a falha.
Isso mesmo — confessou. — Nós os observamos a partir do momento em que um dos senhores estragou meu canteiro de fareh.
Rhodan olhou para Bell e o japonês. Tako inclinou ligeiramente o corpo e disse em inglês, em tom abatido:
Devo ter sido eu. Caí no canteiro quando entrei da primeira vez.
Rhodan limitou-se a fazer um gesto.
Pois bem — disse ao administrador. — Se é assim, já deve saber quem somos e provavelmente imagina por que viemos.
Sergh estava realmente perplexo.
Não — respondeu. — Não faço a menor idéia de quem sejam os senhores, nem do que vieram fazer aqui. Nós, Ghorn, e eu, sentimos um prazer imenso ao observá-los...
O senhor está se repetindo — interrompeu-o Rhodan em tom tão áspero que Sergh se encolheu. — Sou o comandante da nave que o senhor está retendo em seu espaçoporto contra todas as normas de direito. Exijo a liberação imediata da nave.
Sergh teve medo. Nunca ouvira ninguém falar perto dele com tamanha rispidez, energia e arrojo. O homem de olhos cor de gelo arrojava uma capacidade de ação que Sergh quase chegava a sentir fisicamente e que o deixava assustado.
Quem está retendo a nave não sou eu — respondeu Sergh, e praticamente não se deu conta de que estava a ponto de arrumar uma desculpa. — Recebi instruções para deter sua nave. E contra-instruções não há...
Bell avançou um passo. Rhodan não o demoveu do seu intento. Bell postou-se tão perto de Sergh que este recuou a cabeça.
Escute aí, meu chapa! — gritou Bell no seu arcônida grosseiro. — Não temos o menor interesse em saber quem deu ordem para grudar a Ganymed ao solo. Só queremos saber quem tem a possibilidade de soltá-la. E este alguém é o senhor. Por isso esperaremos aqui até que nossa nave nos avise de que está novamente em condições de viagem e que virá em seguida para buscar-nos.
Sergh sentiu o hálito do desconhecido no rosto, e isso lhe causou certa repugnância. Mas, ao mesmo tempo, ouviu a voz forte e potente, que lhe inspirou medo. Mal se deu conta de que Ghorn, pelo qual ninguém parecia interessar-se, afastou-se para o lado.
Sentiu certo alívio. Sem dúvida, Ghorn ativaria o dispositivo de emergência.
Ao ver que, por um instante, o olhar de Sergh passou ao lado dele, Bell girou sobre os calcanhares.
Ei, pare aí! — gritou furioso. — Ghorn já levantara a mão para comprimir um botão. — Sei o que tem em mente. Se o deixássemos à vontade, esse botão faria com que isto aqui se enchesse de gás, enquanto em algum lugar soasse um alarma.
Ghorn empalideceu. Deixou cair a mão, como se esta lhe pesasse demais.
Sergh sentiu-se tão fraco que resvalou para o sofá. O vibrador começou a funcionar automaticamente, mas numa hora como esta a trepidação irritava os nervos do administrador.
Uma vez que já sabe o que queremos, siga as nossas ordens — disse Rhodan em tom áspero. — O que está em jogo para nós é muito mais do que o senhor imagina. Não nos importaremos nem um pouco em pisar nos calos do eminente administrador até conseguirmos o que pretendemos.
Sergh fez vários gestos apaziguadores.
Aguarde um momento — fungou. — Estou esperando alguns visitantes e, na presença dos mesmos, terei muito prazer em explicar-lhes o que está acontecendo. Permita que um velho tenha uma pequena pausa de descanso.
Rhodan confirmou com um gesto da cabeça.
Está bem — disse. — Esperaremos. Mas é bom que fique ciente de uma coisa: no momento em que um de vocês tentar enganar-nos, ambos estarão mortos.
Não era a situação atual que atemorizava Sergh. Como arcônida que era, dispunha de recursos que lhe permitiam dominar qualquer situação.
Aquilo que o fez capitular no momento foi o fato de que nunca antes se defrontara com seres que perseguissem seu objetivo com tamanha energia e se mostrassem tão pouco dispostos a deixar desviar-se do caminho que haviam traçado para si mesmos.
Não que acreditasse não poder subjugar os intrusos.
Mas precisava de um momento de descanso. Os séculos de decadência progressiva fatalmente teriam que deixar suas marcas no cérebro arcônida. O raciocínio tornara-se mais lento. Sergh precisava de uma pausa para recordar os meios de que dispunha para livrar-se dos desconhecidos.
Mas a convicção de que acabaria por dominá-los nunca o abandonara.
Era verdadeira a afirmativa de que aguardava visitantes e que pretendia explicar aos mesmos alguma coisa relacionada com os problemas dos desconhecidos.
Sergh estendeu-se no sofá, descansou os braços molemente ao lado do corpo, fechou os olhos e pôs-se a refletir.
Ghorn e os desconhecidos acomodaram-se em poltronas. Um silêncio constrangedor encheu a sala do simulador de Sergh.
Depois do que tinham visto nas últimas horas e dias, Thora e Crest não penetraram no palácio-funil de Sergh na expectativa de que lhes seria dispensada a recepção a que faziam jus como membros da estirpe dos Zoltral.
Quando penetraram no hall de entrada, uma voz mecânica lhes ordenou em tom áspero que se transportassem pelo caminho mais rápido ao trigésimo quinto pavimento. Assim viram que suas esperanças ainda eram otimistas demais.
Até mesmo a bebida oferecida a título de boas-vindas, que costumava ser dada ao mais ínfimo dos visitantes, lhes foi recusada. Enquanto subiam pelos elevadores antigravitacionais apenas sentiram, diante do esplendor de seu mundo, que a melancolia da saudade passou a envolvê-los no interior do funil. Ao atingirem o trigésimo quinto pavimento, o desânimo que se apossou deles foi quase tão intenso como o que sentiram quando o ser coletivo do planeta Peregrino lhes recusou a ducha celular e, com isso, o dom da vida eterna.
As portas abriram-se automaticamente diante deles, apontando-lhes o caminho. Não viram nenhum dos ocupantes da casa.
Passaram pelo pequeno compartimento que dava para a sala do simulador de Sergh. Thora estacou, surpresa, quando a porta se abriu e ela pôde lançar o primeiro olhar para o interior da sala.
Rhodan levantara-se ao ouvir os passos e colocara-se junto à porta. Receava que Ghorn aproveitasse a confusão momentânea que se estabeleceria com a entrada dos visitantes para acionar algum tipo de alarma.
Mas Ghorn estava tão assustado que nem se mexeu.
Rhodan... o senhor por aqui? — espantou-se Thora.
Rhodan cumprimentou-a com um aceno de cabeça e apontou para uma poltrona.
Sente! — disse em arcônida. — O homem que está deitado no sofá tem algo a nos dizer e suponho que neste meio tempo já tenha reunido forças para isso.
Sergh não se mexeu. Virou-se de lado e fitou os dois arcônidas.
Levante-se quando estiver falando com uma zoltral — disse Thora com a voz enérgica.
Esta é uma das coisas que pretendia contar-lhe — disse em tom diferente. — Os zoltrals não são mais ninguém em Árcon.
Provavelmente Thora e Crest não esperavam outra coisa. Thora caiu numa poltrona.
Relate tudo na devida ordem — pediu Thora.
E coloque ao menos os pés no chão — resmungou Bell. — Fico nervoso quando alguém fala comigo deitado.
Por estranho que fosse, Sergh obedeceu. Rhodan lançou um ligeiro olhar de advertência para Bell. Não valia a pena tornar a situação mais crítica do que já era.
Nem mesmo os zoltrals sabiam — principiou Sergh com a voz cansada — que há muito tempo alguns sábios instalaram em Árcon e em todo o Império um mecanismo que entraria em ação no momento em que a decadência das energias vitais da nação e a apatia de seu povo atingisse um grau tal que a existência do Império corresse perigo.
Esse momento — prosseguiu Sergh, pigarreando e fazendo uma ligeira pausa — chegou há cerca de seis anos. Em virtude de certos dados e formas de interpretação que ninguém se deu ao trabalho de investigar há seis anos o maior de todos os cérebros positrônicos, já construídos na Galáxia, incumbiu-se da direção dos destinos de Árcon e seu Império.
Uma das conseqüências da execução das principais tarefas governamentais por uma máquina foi a substituição da família governante. Os zoltrals abdicaram, outro governante subiu ao trono. Uma vez que foi justamente no reinado de sua dinastia que o cérebro positrônico entrou em ação, os zoltrals estão bastante desacreditados. Atualmente todos eles, inclusive os senhores, apenas são tolerados.
É bom que não se esqueçam disso, para que não voltem a exigir que um velho se levante só porque pertencem à estirpe dos zoltral.
Apesar de tudo, acabo de receber informações de Árcon, segundo as quais permitem que os senhores façam uma visita ao seu mundo natal. Dentro de poucos segundos pousará no espaço porto de Naatral uma nave que os levará a Árcon. Lá lhes dirão quanto tempo poderão ficar e o que farão.”
Esgotado, Sergh deixou-se cair de lado e fechou os olhos. Thora manteve-se rija e ereta na sua poltrona, enquanto Crest, de pé ao seu lado, segurava-se no encosto.
Uma máquina...! — gemeu.
Isso mesmo. E executa suas tarefas melhor que qualquer governante da família dos zoltral. Equipou todas as naves com robôs e não precisa preocupar-se com os tripulantes, pois os olhos vigilantes dos robôs permitem que coloquem a bordo não só os arcônidas, mas também os naats ou outra gente desse tipo.
A velha cólera voltou a apossar-se de Thora.
Sabemos perfeitamente que a maior parte dos governantes não prestou — chiou. — Mas não podemos admitir que a modificação desse estado de coisas fique por conta de uma máquina. O cérebro positrônico representa o começo do fim. Um império governado por uma máquina cavará sua própria sepultura. Se os governantes tivessem continuado no poder, levaria alguns milênios para morrer de velhice.
Sergh não estava interessado nesse aspecto.
É preferível que se apressem — advertiu em tom cansado — senão perderão a nave para Árcon. O cérebro positrônico não espera. E, uma vez perdida esta oportunidade, nunca mais terá uma possibilidade de ir a Árcon.
O que será feito da nave em que viemos? — perguntou Thora indignada.
Será que este problema lhe diz respeito? — retrucou Sergh.
Thora lançou um olhar para Rhodan. Este tranqüilizou-a, falando em inglês:
Não se preocupe conosco. Procure viajar para Árcon. Talvez até lá consigamos resolver a situação. Se isso não acontecer, faça o que puder por nós.
Thora confirmou com um ligeiro movimento de cabeça e levantou-se.
Está bem, vamos — disse, dirigindo-se a Sergh.
Pelo tom de sua voz Rhodan percebeu que estava prestes a chorar.
Vá, sim — murmurou Sergh sem virar a cabeça.
Rhodan procurou animar Thora com um gesto enquanto ela saía em companhia de Crest. Mas Thora não se voltou mais. O gesto ficou no ar.
Voltaram a ficar a sós com o administrador cansado e com seu representante assustado. Gemendo, Sergh virou-se de lado.
Pensei que tivessem saído com os dois — disse, lançando um olhar para Rhodan e seus companheiros.
Não se poderia dizer se estava falando sério. Sua voz era enfadonha como sempre.
Rhodan levantou-se.
Pois aí é que o senhor se engana — disse em tom áspero. — Já sabe por que viemos, e também sabe que não sairemos antes que nossas exigências tenham sido cumpridas.
Sentado em sua poltrona, Bell disse em tom indiferente:
Perry, talvez umas bofetadas o ajudem a compreender. Sem isso acabará levando mais cinco horas para acordar de vez.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça e examinou atentamente o rosto de Sergh, como se quisesse escolher o lugar mais adequado para aplicar as bofetadas.
A idéia não é má — respondeu.
De repente Sergh passou a desenvolver uma atividade espantosa. Levantou-se com uma rapidez que ninguém o julgaria capaz.
Não, não, minha intenção não foi esta — protestou com um sorriso embaraçado. — Sem dúvida seria interessante saber como se sente uma pessoa que leva pancadas. Quem recorre a bofetadas usa um método atávico. Mas receio que o processo seja acompanhado por dores. Por isso prefiro...
Pois vamos, vamos logo — animou-o Rhodan. — Quando sairmos desta sala, o senhor e seu representante irão conosco. Tenho certeza de que ninguém porá as mãos em nós enquanto o eminente administrador estiver diante do cano de minha arma.
Sergh concordou.
A estação de controle dos geradores que alimentam o campo de sucção fica embaixo do cabo do funil. Vamos descer até lá.
Rhodan espalhou os homens de seu grupo. Reginald Bell caminhava à frente, seguido pelo administrador e por Ghorn. O japonês ia no fim da fila. Perry Rhodan esforçou-se para estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
O interior do funil continuava deserto. De repente, Rhodan lamentou não ter trazido um telepata que pudesse informá-lo a qualquer momento sobre os pensamentos de Sergh.
Mas, no início da operação, não se poderia prever que quatro homens teriam a mesma facilidade de locomover-se no interior do gigantesco funil de Sergh.
Passando por uma série de poços de elevadores antigravitacionais, desceram de um terraço para outro. Rhodan começou a acreditar que realmente conseguira intimidar Sergh, e que este não tinha em mente qualquer ação traiçoeira. Por esse motivo, a cautela de Rhodan provavelmente desceu a um nível perigosamente baixo. Além disso, a surpresa surgiu num lugar em que ninguém a esperaria: no meio dum poço anti-gravitacional.
O próprio Sergh submeteu-se a um tratamento bastante desagradável para livrar-se dos incômodos visitantes. Afinal, tanto ele como Ghorn e os três terranos encontravam-se no meio do comprido poço quando subitamente o campo antigravitacional deixou de funcionar. Inverteu a polarização e com uma violência irresistível atirou tudo que se encontrava no poço contra o soalho do próximo pavimento.
Um dos poucos monitores mentais instalados na casa captara os pensamentos aflitos de Sergh e reagira em conformidade com os mesmos. Sergh passara propositadamente pelo poço em que estava instalado o monitor.
Sergh e Ghorn logo perderam os sentidos, da mesma forma que o delicado japonês. Rhodan e Bell apenas sentiram-se ligeiramente confusos; mas antes que tivessem tempo de levantar-se uma série de tubos capilares expeliu uma carga de gás paralisante do teto, do soalho e das paredes. Os dois, ainda não restabelecidos do choque, aspiraram o gás em grandes lufadas. Mantinham os capacetes abertos para falar com os arcônidas, e o funcionamento da tubulação de gás era silencioso.
Dali a alguns segundos, também Rhodan e Bell estavam reduzidos à imobilidade. Não perderam os sentidos por completo. Como que numa névoa, perceberam o que acontecia em torno deles. Mas o raciocínio consciente e os nervos que moviam o corpo estavam bloqueados.
Alguns minutos se passaram. Subitamente uma dezena de vultos com capacetes saiu dos quatro elevadores antigravitacionais que davam para a sala. Rhodan teve uma percepção confusa de que os capacetes na verdade eram máscaras que impediam a entrada do gás nos órgãos respiratórios.
Os cinco corpos imóveis foram levantados e transportados para cima. Rhodan não conseguiu identificar o lugar em que os quatro homens que carregavam Sergh e Ghorn se separaram dos demais. Mas percebeu nitidamente que o recinto em que foi depositado juntamente com os companheiros inconscientes era escuro e isolado do mundo exterior.
O cansaço começou a apossar-se dele. Era um dos efeitos do gás paralisante. Por mais que resistisse, adormeceu em poucos segundos. Ao despertar, não teve a menor idéia de quanto tempo se passara. Mas ficou satisfeito por saber que o sono o robustecera.

* * *

Ainda se via obrigado a realizar um grande esforço para mover os braços e as pernas, e seus movimentos não eram mais rápidos que os de um velho enfermo. Mas, de qualquer maneira, um movimento lento e penoso sempre é melhor que a imobilidade total.
O recinto em que se encontrava continuava escuro como breu. Não havia o menor raio de luz ao qual a vista pudesse acostumar-se. Os movimentos de ginástica de Rhodan produziram um forte farfalhar no soalho. Dali se concluía que os prisioneiros dos arcônidas haviam sido depositados no revestimento de plástico.
Uma voz resmunguenta falou pesadamente em meio à escuridão:
Quem dera que esse administrador desengonçado estivesse por aqui. Eu lhe... Perry, é você?
Sim, sou eu.
O riso sacudiu Rhodan e lhe fez doer o corpo cansado. Se Bell já entretinha idéias de vingança, as coisas não podiam estar tão más assim.
Como está Tako?
Não sei. Também está aqui?
Está. Já consegue mexer-se?
Vou experimentar. Já mexo o corpo um pouco.
Pois procure Tako. Preciso pensar.
Não é necessário — piou uma voz débil vinda da escuridão. — Já acordei.
Já! — esbravejou Bell. — O homem dorme até altas horas da tarde e...
Silêncio! — ordenou Rhodan. — Temos coisa mais importante a tratar. Tako, o senhor consegue mover-se?
Consigo.
Muito bem. Preste atenção. Experimentamos na própria carne como é difícil impor nossa vontade a um arcônida. Por mais decadentes que pareçam, eles têm uma porção de truques de que nem fazemos idéia. Não sabemos o que Sergh pretende fazer conosco. Pode deixar-nos morrer de fome neste buraco, pode colocar-nos em liberdade de uma hora para outra, ou pode adotar qualquer atitude intermediária entre os dois extremos. Seja como for, tenho certeza de que tomará todas as precauções para que não escapemos antes que tenha tomado sua decisão. E, para ter certeza absoluta de que isso não acontecerá, terá que repetir a intervalos regulares o processo paralisante.
Não tenho a menor dúvida de que no teto deste recinto existe uma tubulação igual àquela da sala em que caímos na armadilha. E a qualquer momento pode ser realizada nova gaseificação. Portanto, temos que apressar-nos se quisermos fugir. Tako.”
Sim senhor.
Procure descobrir onde estamos e como podemos sair daqui.
Perfeitamente.
Não assuma o menor risco. Lembre-se de que por enquanto os arcônidas nem desconfiam de que em nosso grupo existe um teleportador. Por isso seu dom é uma boa arma. Deixe o radiador térmico aqui. E ande depressa.
Tako desapareceu.
O que vamos fazer depois? — indagou Bell.
Queremos libertar a Ganymed. Será que você já se esqueceu?
Depois de tudo isso?
Agora mais que nunca. Não sei se Sergh mentiu ao dizer que os controles dos geradores do campo de sucção ficam embaixo do cabo do funil. Acredito que se sentia tão seguro que não se daria ao trabalho de inventar uma mentira. Ainda mais que essas instalações geralmente ficam no interior dos cabos.
Ah, já sei. Desceremos para lá e demoliremos os quadros de chaves de Sergh de tal maneira que nunca mais possa prender uma nave de gente honesta.
É mais ou menos isso. Acontece que sua tarefa será outra.
Qual será?
Um de nós terá que permanecer nos aposentos privados de Sergh, enquanto os outros estiverem trabalhando com os controles. Sergh dispõe de uma sala da qual pode observar todo o funil. Tako descobrirá essa sala e você se instalará na mesma e cuidará para que ninguém nos ataque pelas costas. Entendido?
Hum. Não estou gostando disso. Em qualquer funil destes, existem aparelhos de observação. Sempre que alguém queira falar com o administrador, um negócio destes é posto a funcionar para dar busca em uma sala após a outra. Se chegar a um desses locais de observação, o balão estourará.
Você já devia saber que nenhum desses instrumentos de observação chega aos aposentos privados do dono da casa. Um homem como Sergh estará menos disposto que qualquer outro para permitir que alguém ande focinhando sua vida privada.
Está bem — suspirou Bell.
Tako voltou depois de poucos segundos.
Encontramo-nos no quadragésimo terceiro andar. O respectivo terraço é mais profundo que os outros. Para o lado interno do funil, há um corredor circular protegido por um corrimão. Do outro lado, há duas fileiras de salas. A primeira delas tem janelas que dão para o corredor. A fila externa não tem janelas. Estamos presos numa das salas dessa fila.
Ah. É uma coisa parecida com uma cadeia. Há portas?
As de costume. As portas estão trancadas. As fechaduras não abrem.
Viu algum guarda?
Nenhum. A casa continua vazia.
Que horas são?
O céu ainda está escuro.
Rhodan levantou-se. Os movimentos causavam-lhe dores. Os efeitos do gás paralisante ainda não haviam cessado. Rhodan teria dado um bom dinheiro se pudesse aguardar tranqüilamente até que estivesse restabelecido de todo.
Mas naquele momento tinha que apressar-se.
Pegue seu radiador, Tako. Salte para fora e abra a fechadura a tiro. Faça uma boa pontaria, pois no instante em que a fechadura for danificada, um alarma deverá soar em algum lugar.
Tako voltou a desaparecer. Dali a um instante um chiado feio encheu o recinto, um pontinho luminoso surgiu na escuridão, transformou-se num buraco e acabou substituído pela abertura larga da porta.
Rhodan e Bell saíram correndo. Pararam junto a uma das janelas da parede que dava para o corredor. Não viram nenhum arcônida.
O mais importante é sair daqui quanto antes — disse Rhodan. — Neste instante alguém já está sabendo que aqui em cima as coisas não estão como deveriam estar. Virão dar uma olhada. Quando isso acontecer, não deveremos estar mais por aqui. Bell, vá com Tako. Ele localizará a sala de observação para você. Tako, o senhor me seguirá assim que tiver fornecido as necessárias indicações a Bell. Encontramo-nos no hall superior do cabo do funil, naquela peça pequena. Está lembrado?
Sim senhor.
Muito bem. Vão embora.
Rhodan esperou que os dois desaparecessem pelo elevador antigravitacional dos fundos da sala. Só depois disso pôs-se a caminho.
Para enganar o inimigo, não usou o mesmo elevador. Abriu a tiro uma das janelas, o que sem dúvida provocaria outro alarma, percorreu metade da circunferência do funil no peitoril que circundava as janelas e penetrou em outra sala pela mesma forma violenta que havia usado para sair da primeira. Isto provocaria um terceiro alarma. Após este lance desceu pelo elevador antigravitacional.
Esperava que os freqüentes desvios de rota e os avisos de avaria, acarretados pela destruição de portas, janelas e fechaduras, provocasse um quadro tão confuso que os arcônidas ficariam desorientados. Ao menos, chegariam à conclusão de que não havia três intrusos, mas ao menos uma dezena.
Rhodan chegou ao décimo andar sem encontrar qualquer habitante do funil. Mas, dali em diante, o destino parecia conspirar contra ele.
Enquanto caminhava de um elevador antigravitacional para outro, um homem saiu do inferior com uma rapidez espantosa. Sua vestimenta parecia um uniforme. Devia ser um dos membros da guarda palaciana de Sergh. Rhodan viu-o abrir a boca de pavor.
Também viu o movimento rápido em direção ao bolso lateral, onde devia estar guardada uma arma ou um aparelho de comunicação.
Rhodan precipitou-se para a frente, se é que isso podia ser chamado de precipitar-se. Ainda havia certa quantidade de gás paralisante em seu corpo. Por pouco o arcônida, um ser lento por natureza e por índole, não consegue pegar o aparelho antes que Rhodan se aproximasse dele. Praguejando por sua própria lentidão, Rhodan desferiu um tremendo soco, que fez o homem levantar-se na ponta dos pés, bater na parede e cair ao chão, inconsciente.
No andar seguinte, encontrou-se com uma mulher. Com a rapidez que é peculiar às mulheres numa situação como esta, esta começou a gritar. Os gritos atraíram outro arcônida.
Rhodan cuidou primeiro do homem. Ainda bem que os arcônidas eram ainda menos ágeis que ele mesmo na situação em que se encontrava. Depois, esquecendo tudo que já aprendera sobre os deveres de um cavalheiro, deu uma vigorosa bofetada na mulher, que logo desmaiou, provavelmente antes de indignação que em conseqüência dos efeitos físicos do ato.
Um pouco mais rápido que antes, mas muito menos rápido do que desejaria, continuou na sua corrida. Em cada um dos andares teve de brigar ao menos com um arcônida e finalmente atingiu o elevador antigravitacional que conduzia ao cabo do funil.
Com um último olhar, quase melancólico, para o lindo jardim perfumado, confiou-se ao campo antigravitacional. Empurrando-se com as mãos nas paredes do poço, desceu velozmente à sala em que se encontraria com Tako Kakuta.
O japonês ainda não havia chegado. Teria de esperar.
Tako levou apenas alguns minutos para encontrar a sala sobre a qual Rhodan lhe havia falado. Ficava no mesmo pavimento da sala do simulador de Sergh. Tako descreveu o caminho, e Bell disse que saberia chegar lá, fosse o que fosse que se interpusesse no seu caminho.
Tako desapareceu.
Bell atravessou alguns dos aposentos privados de Sergh e acabou encontrando a sala descrita por Tako. Pôs os aparelhos a funcionar. Entre eles havia alguns que não conhecia. Sentiu-se aliviado quando as telas se foram iluminando.
Colocou o observador para trabalhar no pavimento superior do cabo do funil, e após poucos segundos encontrou Rhodan e o japonês.
Não sabia se havia algum instrumento acústico acoplado ao observador. Por isso fechou o capacete e disse ao microfone:
Eu os vejo perfeitamente.
Rhodan ouviu estas palavras em seu receptor e também fechou o capacete.
Está bem — respondeu. — Fique de olho em nós.
Não se preocupe — exclamou Bell.
No cabo do funil, havia cerca de cinqüenta salas de máquinas. Rhodan tinha certeza de que a que procuravam devia ser a maior de todas. Mandou que Tako saísse por ali e, em cada lugar que surgisse, lhe desse uma descrição minuciosa das máquinas vistas.
Rhodan sabia o que estava procurando. Era uma série de instrumentos que permitisse o controle ou, mais precisamente, o telecontrole, de um ou alguns geradores de campo de sucção. O equipamento teria que incluir antes de mais nada um estojo de telecomunicação que permitisse a emissão dos sinais de comando. Além disso, seria necessário um gerador destinado a fornecer a energia indispensável às transmissões em alta potência. É que os geradores do campo de sucção do espaçoporto de Naatral deviam gerar campos marginais tão fortes que uma transmissão comum não chegaria até as máquinas, já que seria absorvida ou superada pelos campos marginais.
Face a esses conhecimentos, não teria dificuldade em encontrar aquilo que estava procurando. Depois do sexto salto, Tako Kakuta forneceu uma descrição do grande pavilhão onde se encontrava. O relato coincidia tão perfeitamente com aquilo que Rhodan tinha em mente que já não podia haver a menor dúvida.
Face ao volume de interferências que a massa de máquinas produzia nas comunicações de rádio, a voz de Tako saiu tão distorcida que Rhodan mal conseguiu entendê-la.
Rhodan gritou:
Nessa sala deve haver um aparelho de telecomunicação de elevada potência. Procure localizá-lo.
A resposta de Tako foi incompreensível. Mas dali a pouco sua voz saiu bastante nítida do alto-falante:
Estou diante do aparelho. O que devo fazer?
Recue três passos, aponte o radiador térmico e arrebente o negócio.
Reginald Bell acompanhava os dois na tela de imagem: Perry Rhodan e o japonês. Com o espírito tenso, viu os movimentos do japonês quando este levantou a arma e a apontou para a face larga da caixa do tele comunicador...
Ouviu o chiado produzido por seus receptores audiovisuais no momento em que o telecomunicador ativou suas reservas de energia. Viu que as imagens assumiram um tom violeta. Gritou:
Perry! Tako! Parem! Aquilo tem uma proteção mental. Não...
Era tarde. As reações de Rhodan e do japonês foram muito lentas. Não dispunham da energia provocada pelo pavor súbito, que ajudara Bell a superar os efeitos do gás paralisante. Tako Kakuta já estava com o dedo no gatilho e a arma disparou antes que tivesse tempo de reagir ao grito de Bell.
Alguma coisa explodiu no cérebro de Tako com a violência duma bomba.
Alguma coisa ofuscou Perry Rhodan, fê-lo gritar de dor e o atirou ao solo, inconsciente.
Alguma coisa atravessou o crânio de Reginald Bell, deixando um rastro de fogo e atirando-o para fora da poltrona, inconsciente.
Alguma coisa fez com que, naquele instante, toda vida consciente se apagasse na casa do eminente administrador Sergh.



6



Fosse o que fosse, os efeitos não foram tão desagradáveis como os do gás paralisante que Perry Rhodan respirara horas antes.
Abriu os olhos e, surpreso, percebeu que se encontrava num dos camarotes do hospital da Ganymed.
Dois rostos inclinaram-se sobre ele: o do Dr. Manoli, o velho Eric, amigo e companheiro de lutas de antes da primeira viagem da nave lunar Stardust, e o de Thora.
Manoli disse com um sorriso:
Não faça drama, chefe! Nada lhe aconteceu.
Rhodan protestou:
Pois eu não disse nada.
Thora perguntou em tom preocupado:
Como vai o senhor, Perry?
Bem, obrigado. O que houve? Onde estão Bell e Tako? Como viemos parar aqui?
Manoli interrompeu-o com um gesto.
Devagar. Vamos por partes. Primeiro: gostaríamos que o senhor nos contasse o que houve. Segundo: Bell e Tako estão nas cabines ao lado. Pelo que conheço de Bell, ele não demorará em recuperar os sentidos. No japonês pode demorar mais um pouco. Terceiro: vocês vieram para cá por assim dizer nos braços de robôs. Planadores não tripulados largaram-nos junto à Ganymed. Só tivemos que recolhê-los. Até regularam os neutralizadores de seus trajes de tal maneira que a gravitação de Naat não lhes causou o menor dano.
Hum. O quê...?
Passou a mão pela testa, pois lembrou-se de que a dor que lhe roubara a consciência viera da cabeça. Manoli compreendeu o gesto.
Ao que tudo indica, vocês foram derrubados por um choque mental. Provavelmente é de origem artificial. Devia ter a força dos impulsos de mil sugestores odientos.
Rhodan olhou para a frente, pensativo.
Isso lhe diz alguma coisa? — perguntou Manoli.
Acho que sim — respondeu Rhodan. — Como é? Posso levantar? Sinto-me...
Sim, já sei. Você se sente com a força de dois ursos. Se quiser pode sair da cama.
Excelente. Como vai a Ganymed? Continua presa?
O que você pensava?
Está certo, o que é que eu poderia pensar? Pode fazer o favor de convocar a oficialidade para uma reunião na cantina, daqui a meia hora?
Manoli confirmou com um aceno de cabeça.
Posso. Aliás, há outra coisa.
O que é?
A permissão para que Thora e Crest viajassem para Árcon foi revogada.
Rhodan ficou perplexo.
Como foi isso?
Foi muito simples. Freyt recebeu um chamado acompanhado dum sinal de falta de imagem. Uma voz meia arrogante disse que a permissão havia sido revogada e que não chegaria nenhuma nave para levar os dois. Foi só. Não foi indicado qualquer motivo, e não houve nenhuma oportunidade de formular uma pergunta.
Rhodan olhou para Thora.
Receio que a culpa seja minha — disse em voz baixa. — Tentamos inutilizar os geradores do campo de sucção, e a senhora ficou ligada à operação. Sinto muito.
Thora tranqüilizou-o com um gesto. Falando em inglês, disse:
Esqueça isso! Talvez nem teria sido bom se tivéssemos voltado a Árcon em condições tão humilhantes.
Rhodan ergueu as sobrancelhas.
Acredita que ainda conseguirá ir a Árcon em outras condições?
Thora sorriu. Rhodan teve a impressão de que foi um sorriso um tanto matreiro.
Acredito, sim — respondeu.
Ah, é? Como pretende fazer isso?
Thora deu um passo em direção a Rhodan.
O senhor encontrará um meio, não é mesmo?

* * *

Perry Rhodan nunca tivera um auditório em cujos rostos a tensão se desenhasse com tamanha nitidez. A oficialidade da Ganymed atingia, além dos mutantes, um total de oitenta e oito homens. O cassino, no qual caberiam confortavelmente cem pessoas, parecia vazio, com exceção do semicírculo de homens que se comprimiam em torno do orador.
Bell estava presente. Afirmava que sua cabeça parecia um tambor em que alguém batesse com dois martelos, mas não queria perder a palestra de Rhodan.
É claro que Thora e Crest também estavam presentes. Thora exibia um sorriso que para Rhodan era otimista demais face à situação em que se encontravam.
Rhodan principiou:
Treze anos depois da decolagem do primeiro foguetezinho que levaria quatro homens à lua terrena, outros homens, ou, mais precisamente, terranos, favorecidos pelas circunstâncias, procuraram avançar até o coração do império mais poderoso de toda a história galáctica.
Há treze anos a humanidade ainda tinha certeza de que o primeiro encontro com uma inteligência irmã só lhe seria concedido num futuro distante, se é que isso se tornasse possível um dia.
A humanidade estava enganada. A primeira viagem espacial proporcionou o encontro. Os acontecimentos tiveram seu curso. Com a fanfarronice e a despreocupação típica do terrano, este se viu consagrado numa série de importantes decisões, avançou muitos anos-luz, até mesmo milhares de anos-luz pela Galáxia. Derrotou outros seres e um belo dia, mais uma vez sob a força das circunstâncias, acreditou ter chegado a hora em que pudesse avançar até o coração do Império Galáctico, onde seria recebido como um amigo há muito esperado.
É claro que isso foi pura tolice ou, se preferirmos, um raciocínio inspirado no desejo. Os padrões aplicados revelaram-se falhos. O terrano imaginava que o Grande Império fosse algo semelhante ao império de Alexandre, o Grande, ou de Dchengiscan.
Veio com a idéia de que as coisas não poderiam ser tão más assim.
Foi quando recebeu a primeira lição. Teve de aprender que uma raça que, quando se encontrava no auge, conseguiu criar um império que abrangeu todo o grupo M-13, chegou mesmo a estender-se à parte da Galáxia propriamente dita. Esta raça será extremamente poderosa mesmo quando pelas veias de seu habitante já não circular o sangue vermelho, mas uma mistura de vapores tépidos, e os homens se tiverem tornado tão apáticos que raramente saem das camas.
A tecnologia arcônida garante a conservação da raça. Essa tecnologia chegou mesmo a governar os arcônidas. No momento crítico, uma máquina passou a dirigir os destinos do Império, transformando seus imperadores e administradores em simples marionetes.
Devíamos saber, meus caros, que um mundo destes não pode ser conquistado na primeira investida. Mas nossa imaginação não foi capaz de conceber as coisas que encontramos por aqui. Avançamos sem maiores cautelas e quase quebramos a cara.
Pretendíamos ir a Árcon, mas estamos presos em Naat. Mais do que isso, em virtude de nossa atuação precipitada, Thora e Crest, os amigos arcônidas que estão conosco, foram impedidos de viajar para Árcon. Tentamos libertar nossa nave, mas a única coisa que conseguimos foi um choque mental sob cujos efeitos Tako Kakuta ainda se acha inconsciente.
Quem fez tudo isso não foi o arcônida que exerce um simulacro de governo em Naat. Ele não nos poderia impedir realmente de libertar a Ganymed. Quem trabalhou por ele foi a máquina instalada em Árcon. Naatral é um campo de pouso da frota de guerra arcônida e está submetido ao cérebro positrônico que assumiu o poder em Árcon. Os aparelhos de comando da aparelhagem do espaçoporto estão instalados no funil de Sergh, mas não controlados pelo cérebro positrônico. Não tenho a menor dúvida de que no instante em que o cérebro positrônico constatasse que um aparelho importante estivesse ameaçado, não só nós, mas todos os ocupantes do funil seriam postos fora de ação. Foram robôs que nos trouxeram até aqui. Provavelmente serão também robôs que voltarão a despertar Sergh e seus homens para a vida. A máquina sabe como proteger-se. E, para fazer isso em benefício do Império, não tem a menor consideração, nem por um inimigo, nem por um arcônida.”
Rhodan fez uma pausa. Viu que suas palavras deviam ter causado uma impressão profunda nos ouvintes. Prosseguiu:
Estamos presos aqui porque, se avaliamos corretamente o arcônida individual como um ser indolente e decadente, cometemos um erro de avaliação quanto à tecnologia arcônida. Nem por isso vamos perder a esperança. Não nos esqueçamos do pronunciamento do ser coletivo do planeta Peregrino, que prometeu à humanidade o domínio da Galáxia. Temos certeza de que essa promessa se cumprirá ainda no nosso tempo.
Não esperemos que isso aconteça. Façamos o que depender de nós.”
Rhodan interrompeu-se, passou a mão pelo cabelo, olhou seus oficiais e concluiu:
Era o que eu lhes queria dizer. Não acreditem que estamos à mercê dessa supermáquina instalada em Árcon. Afinal, somo terranos. Sem querermos enganar nossos amigos, que afinal os arcônidas deveriam ser, ainda dispomos ao menos de um trunfo.
Gostei muito — confessou Bell. — Foi patético e impressionante. Até cheguei a levantar a crista. Bem que gostaria de saber por quê...
O que quer dizer? — perguntou Rhodan em tom inocente.
Gostaria de saber qual é o trunfo que ainda temos.
Rhodan fez uma careta.
Ainda não descobriu?
Bell sacudiu a cabeça. Rhodan deu uma risada e bateu no ombro do amigo.
Procure refletir, Bell. E prepare-se para um trabalho muito perigoso.

* * *
* *
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A Ganymed está no espaço porto de Naat, onde campos energéticos invencíveis á mantêm cativa ao solo.
Mas Perry Rhodan ainda dispõe dum trunfo que ainda não lançou no jogo...
Conseguirá sair de Naat com seus homens sem que seu captor o perceba e visitar o Imperador de Árcon?
Procure a resposta no O Mundo dos Três Planetas, próximo volume da série Perry Rhodan.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html