— Também
se poderia cogitar da possibilidade de condicionar seres não
inteligentes de tal forma que seus impulsos cerebrais primitivos
possam ser captados pelo simulador.
No seu
íntimo, Sergh felicitou-se pela habilidade que demonstrara em
escolher Ghorn como companheiro. Sem dúvida, este estava no seu dia
feliz. As idéias que oferecia eram fascinantes.
“Que
profusão estupenda de cores e formas surgiria”,
pensou Sergh num instante, “se
as idéias que naquele instante passavam pelo cérebro de Ghorn
pudessem ser transmitidas ao simulador.”
— Parece
que a idéia não é má — respondeu Sergh. — Resta saber se é
praticável. Realmente, seria impressionante...
Era a
única demonstração de entusiasmo que estava disposto a oferecer.
Ghorn
pensou:
“Você
vai descobrir, sua raposa velha. Se der certo, ninguém poderá
duvidar de que a idéia surgiu em seu cérebro.”
— O
modelo do instinto de um peixe-cobra vnatólico seria uma sensação
na tela... — murmurou Sergh.
Ghorn, que
estava disposto a revelar suas melhores idéias, obtemperou:
— Quanto
a mim, seria muito inteligente, ou talvez mais, conforme se queira.
Estaria interessado em ver projetada na tela a atividade nervosa de
uma flor. Que quadro maravilhoso não deve surgir se o jogo das
células sensoriais de um ser tão harmonioso como uma flor for
captado e registrado pelo simulador.
Se Ghorn
esperava que a sugestão provocasse um entusiasmo ainda maior em
Sergh, logo se veria decepcionado. Pela terceira vez, Sergh ergueu-se
sobre os braços, olhou para o canteiro e, com uma rispidez
surpreendente na voz, afirmou:
— Alguém
pisou no meu canteiro de fareh.
Se soubesse quem fez isso, eu o obrigaria a travar uma luta livre com
um naat.
Ghorn
estremeceu. Uma luta livre com um naat significava a morte, se o
outro parceiro fosse um arcônida que por qualquer crime tivesse
perdido sua imunidade. Para os naats, a luta livre era um esporte
sagrado. Apesar de todas as tentativas civilizatórias dos arcônidas,
há muito abandonadas, não puderam alterar o fato de que os naats
matavam invariavelmente o lutador derrotado.
Ghorn
levantou-se para dar uma olhada no canteiro. Caminhou até lá,
enquanto Sergh, apoiado nos cotovelos, o seguia com os olhos
curiosos.
Realmente
o canteiro havia sido devastado. Parecia que alguém caíra nele de
uma boa altura e de costas. Ghorn compreendeu a indignação de
Sergh, ainda mais que as flores fareh
se contavam entre as plantas ornamentais mais caras. Vinham da
superfície de um planeta pantanoso envenenado que ficava a mais de
dez mil anos-luz, e os homens que viajavam até lá especialmente
para trazer as flores tão cobiçadas exigiam uma retribuição
adequada.Ghorn foi ao lugar em que os pés do desconhecido tocaram o
chão no momento da queda. Ali os arbustos impediam que visse Sergh.
Apenas ouviu o murmúrio do riacho que desembocava na lagoa.
Viu marcas
de pé no chão macio do canteiro, e o formato das mesmas era tão
estranho que Ghorn sentiu um nervosismo que há anos não conhecia
mais.
A marca de
pé media cerca de um palmo e meio. Era muito menos que o comprimento
de um pé arcônida. Além de ser muito curta, a grande largura fazia
a marca muito feia.
“Talvez
seja por causa dos sapatos que o homem usava”,
pensou Ghorn.
Mas o
argumento contrário logo surgiu em sua mente:
“Quem
usaria sapatos tão feios?”
“Nenhum
arcônida o faria”,
concluiu Ghorn.
E a
entrada no funil era proibida a qualquer ser que não fosse um
arcônida. Logo, alguém penetrara ali sem permissão.
Os
aparelhos de aviso sempre funcionam. E não há nenhuma possibilidade
de destruí-los do lado de fora, a não ser que se destrua toda a
casa.
Desenvolvendo
uma velocidade que assustou Sergh, Ghorn correu em volta dos arbustos
e informou o administrador sobre a descoberta que acabara de fazer.
Sergh levantou-se, gemendo e resmungando. A passos lentos, conforme
lhe convinha, foi até o canteiro para examinar o prejuízo e as
marcas de pé.
Estas
pareciam diverti-lo. Seguiu-as até o lugar, não muito distante do
canteiro estragado, em que desapareceram de repente. Voltando-se,
disse com um sorriso malicioso:
— Um
estranho penetrou em nossa casa. E é um estranho inteligente, meu
caro. Será um prazer observá-lo durante sua atividade. É uma pena
que parece ter um corpo arcônida ou ao menos arconóide. Como já
disse, preferiria um peixe-cobra vnatólico. Mas é claro que não se
pode exigir de um animal desses que possua inteligência e ainda por
cima seja esperto. Venha comigo, meu caro. Vejamos onde nosso
desconhecido se encontra no momento.
*
* *
Perry
Rhodan já sabia que ao menos naquele momento não existia nenhuma
vida ou atividade no interior da casa-funil. Por isso resolveu
utilizar os conhecimentos adquiridos através do treinamento
hipnótico arcônida.
Sabia que
a portaria automática do edifício ficava na parte superior do cabo
do funil, logo embaixo do jardim que Tako inspecionara em primeiro
lugar.
— No
fundo é uma sala de máquinas — disse Rhodan ao japonês. — Há
muito tempo, os arcônidas constroem suas máquinas com tamanha
perfeição que nunca precisam de reparos. Por isso não é de se
supor que haja alguém na sala. Se aparecer por lá e notar que se
encontra numa posição muito incômoda, imprensado por máquinas de
um lado e de outro, não se incomode. Basta localizar o contacto que
acabo de descrever e ativá-lo ao menos por trinta segundos.
Tako
repetiu as instruções, quase palavra por palavra, e desapareceu.
Rhodan comunicou à Ganymed:
— Fase
D.
Dirigindo-se
a Bell, disse:
— No
momento em que Tako acionar o contato, o portal se abrirá. Enquanto
estiver aberto, o aparelho de alarma está fora de ação. Portanto,
não perca tempo. Saia correndo. Procure entrar enquanto os dedos de
Tako estiverem sobre a máquina.
Bell
confirmou com um resmungo.
— Estou
tão nervoso que sairei que nem um foguete quando aquilo se mexer,
por um centímetro que seja — disse em tom mordaz.
Os
segundos foram-se arrastando. Rhodan ouviu uma voz no receptor de
capacete.
Era Bell
que se dispunha a proferir uma observação, provavelmente de
impaciência. Mas antes que pudesse falar a primeira palavra, viu-se
na luz fluorescente das paredes do funil que um traço negro se abria
junto à porta.
Bell
cumpriu o que havia prometido. Saiu em disparada e chegou tão
depressa que por um instante Rhodan teve medo de que o alarma ainda
pudesse captar a fase inicial de sua corrida.
O portal
ainda não estava aberto. Um portal arcônida nunca tem pressa. Mas
Bell, carregando o pesado desintegrador automático, espremeu-se pela
fresta, com um movimento rápido regulou o neutralizador para a
gravitação menos intensa e, uma vez do lado de dentro, disse
fungando:
— Ande
depressa, senão é tarde!
Rhodan não
se apressou. Sabia quanto tempo duravam trinta segundos para alguém
que receasse perder a hora. Passou tranqüilamente pelo portal, agora
totalmente aberto, postou-se ao lado de Bell e, sem dar o menor sinal
de impaciência, esperou até que Tako, que se encontrava acima
deles, no compartimento de máquinas, providenciasse para que as alas
do portal voltassem a deslizar, encostando uma na outra.
Olhou em
torno.
O interior
do cabo do funil, que sempre era um salão redondo de trinta metros
de diâmetro, correspondia a imagem que o treinamento deixara em sua
memória. Havia gobelins
preciosos, uma profusão de luzes das cores mais variadas, produzidas
por fontes invisíveis, pinturas que simulavam a realidade aplicadas
no teto de dez metros de altura. O salão demonstrava a opulência do
proprietário antes que o visitante tivesse oportunidade de olhar
qualquer das peças residenciais propriamente ditas.
Havia,
porém, um furo no teto, que perturbava a simetria do conjunto.
Ficava fora do centro, era redondo e tinha três metros de diâmetro.
“É
bastante amplo para permitir a passagem duma companhia inteira numa
questão de segundos”,
pensou Rhodan com um modo irônico.
Bell
lançou um olhar indagador para a abertura.
— Apenas
estou esperando que você diga alguma coisa.
Com quatro
ou cinco passos, colocou-se abaixo da abertura, olhou para cima, como
quem faz pontaria, e impulsionou-se suavemente com o pé direito. A
sucção do campo antigravitacional envolveu-o e arrastou-o para
cima. Dali a quatro segundos, tinha desaparecido pela abertura.
Rhodan
seguiu-o imediatamente. A luz colorida do hall de entrada apagou-se
assim que passou pela abertura no teto.
Bell
esperava por ele. A seu lado estava Tako, que se apresentara, segundo
as instruções recebidas. Rhodan teve tempo para elogiá-lo por seu
trabalho impecável. Tako agradeceu com seu típico rosto sorridente
e infantil.
A sala em
que se encontravam representava o segundo estágio, bem mais
avançado, do contato do visitante com as condições financeiras e
sociais do dono da casa. Havia móveis, que não existiam no
pavimento de baixo. Algumas poltronas articuladas, espalhadas ao
acaso, segundo a moda arcônida, convidavam o visitante a uma pausa
de descanso. Sulcos dispostos em círculo, quase invisíveis, que se
abriam no soalho, revelavam a existência de mesas de serviço
automáticas. Bastava um desejo apenas insinuado para que, providas
daquilo que se desejava, subissem a uma altura cômoda, regulada pela
posição da poltrona articulada.
A sala era
triangular. Ocupava apenas pequena parte da área do pavimento e o
teto ficava a apenas três metros e meio acima do soalho. Isto
representava que atrás das paredes estavam instaladas as numerosas
máquinas de servir, que permitiam aos arcônidas o estilo de vida
desejado.A abertura do elevador antigravitacional desta vez não
ficava no centro, nem diretamente acima da abertura pela qual haviam
subido.
Seguiu-se
uma série de salas, cada qual menor, mais íntima e montada com
maior requinte que a anterior. A intenção de preparar o visitante
gradualmente para o esplendor daquela casa era inconfundível.
Atravessaram
um total de seis halls, salas e saletas. Finalmente passaram pelo
teto de um recinto de pequenas dimensões e penetraram no primeiro
pavimento do funil propriamente dito. Aí o perfume das flores, entre
as quais emergiram, atravessou os filtros e penetrou nos capacetes.
— Como
sabemos, os arcônidas preferem instalar sua residência nos andares
superiores — disse Rhodan, depois de terem concluído a inspeção.
— Também o administrador deverá encontrar-se lá em cima.
Procuraremos subir o mais rápido possível acima do trigésimo
pavimento. Para ganhar tempo, teremos de operar separadamente, ao
menos até encontrarmos o administrador. Não se impressionem com o
esplendor e a riqueza do prédio. Procurem localizar Sergh e não
parem em qualquer lugar quando sentirem que ali não poderão
encontrá-lo. Sabem perfeitamente que temos que fazer coisa muito
mais importante que estudar o interior de uma casa-funil arcônida. A
Ganymed está presa. Precisamos libertá-la e voar para Árcon, pois
a Terra precisa de auxílio. Sempre tenham isto em mente!
A
advertência foi tão enfática que nem mesmo o irreverente Bell deu
qualquer resposta.
*
* *
A idéia
de Sergh trouxe um desassossego considerável àquela casa,
geralmente tão tranqüila. Ghorn, que tinha a seu cargo a vigilância
do interior do funil, teve um volume de trabalho que não condizia
com seu gênio.
Quando
procurou Sergh para transmitir-lhe uma notícia indispensável, este
se encontrava em meio a uma palestra de hipercomunicação que
parecia ainda mais importante e excitante. Mal Ghorn abriu a boca
para dizer:
— Eles
se separaram, Senhor! Vamos...
Sergh
interrompeu-o com um gesto violento e chiou:
— Silêncio!
Estou falando com Árcon.
Ghorn
retirou-se. Não sabia o que deveria fazer. Um contato de
hipercomunicação com Árcon era tão raro como uma flor verde. Era
bem possível que, depois da palestra, a observação dos estranhos
não proporcionasse o menor prazer a Sergh. Ghorn, que carregava
sobre os ombros todo o peso do trabalho, estava mais que disposto a
suspender as observações e deixar os estranhos por conta das
armadilhas automáticas que, preparadas em virtude das observações
de Ghorn, funcionariam sem o menor problema.
Mas Sergh
era um homem imprevisível.
Enquanto
Ghorn voltava ao seu posto de observação situado no quadragésimo
pavimento, pensou com certa tristeza como lhe ficaria bem se ele
mesmo fosse o administrador. Não seria necessário que ficasse num
mundo tão importante como Naat. Ghorn compreendia perfeitamente que
os postos de administrador de planetas, como este, teriam de ficar
reservados aos membros das famílias mais importantes.
Contentar-se-ia com Vnatol. Dali, poderia suprir Sergh com os
apreciados peixes-cobra. De resto, seria dono do seu nariz.
Mas os
tempos de expansão do Império, em que a cada dia se procurava um
novo administrador, já pertenciam ao passado. Raras vezes ficava
vago um posto como o que Ghorn cobiçava.
Ghorn
estava tão entretido com seus pensamentos melancólicos que, ao
retornar à sala de controle, levou algum tempo para dar-se conta de
que uma larga faixa de luzes se apagara no painel que registrava o
funcionamento dos instrumentos.
Sentou
diante da mesa, constatou que nesse meio tempo os instrumentos
automáticos haviam perdido de vista os estranhos e procurou
encontrar sua pista.
Por um
simples acaso, olhou para o painel luminoso, enquanto girava os
botões, deixando desfilar na tela pavimento por pavimento, recinto
por recinto. A quantidade de luzes apagadas deixou-o perplexo.
Inclinou-se sobre os instrumentos e, bastante admirado, constatou que
todos funcionavam perfeitamente, embora em relação a alguns deles o
painel luminoso indicasse o contrário.
Ligeiramente
confuso e desorientado, levantou-se para examinar o tal painel.
Quando se encontrava a dois passos do mesmo, as luzes voltaram a
iluminar-se.
Passou a
mão pela testa. Recuou um passo e as luzes apagaram-se. Avançou um
passo e voltaram a acender-se.
A
regularidade do fenômeno era inegável. A confusão de Ghorn cedeu
lugar a uma ligeira sensação de pavor. Todavia, continuou
tranqüilo, como se não tivesse acontecido nada. Retornou para junto
da mesa e prosseguiu no trabalho. Não se deixou perturbar pelo fato
de que, acesas, as luzes de controle agora podiam ser vistas do lugar
em que se encontrava.Ficou manipulando os botões e as chaves até
que subitamente a luz se apagou no recinto, uma pesada persiana
fechou a janela que dava para o interior do funil e uma escuridão
impenetrável encheu o recinto.
Ghorn teve
uma idéia pouco nítida do perigo em que se encontrava. Sabia que os
aparelhos automáticos de salvamento instalados em todas as peças da
casa talvez funcionassem com demasiada lentidão, se o quadro que
tinha da situação era correto.
Mas, tal
qual todos os arcônidas, e neste ponto não se distinguia de Sergh,
seu mestre e senhor, amava tanto a excitação nervosa que deixara o
perigo em segundo plano.
É bem
verdade que, sob os padrões terranos, tal fenômeno representa antes
um sintoma de histeria que um sinal de coragem.
Ghorn
continuou a manipular os controles. Conhecia as instalações da
pequena cabina e não tinha a menor dificuldade em orientar-se no
escuro. As telas de imagem e as luzes indicadoras se haviam apagado
juntamente com a luz do recinto.
Subitamente
uma pálida luminosidade rompeu a escuridão. Vinha do nada e no
primeiro instante parecia dirigir-se ao nada. Mas de repente um
círculo de luz fosforescente de três metros de diâmetro surgiu na
parede fronteira a Ghorn, cobrindo toda a extensão, do soalho ao
teto.
Em meio ao
círculo de luz, surgiram os contornos de uma figura bizarra. Era tão
pequena que não poderia pertencer a um arcônida, embora tivesse
duas pernas, dois braços e uma cabeça, tudo implantado nos seus
devidos lugares; era tão gorda, que ninguém a acharia atraente, e
tão disforme que Ghorn chegou à conclusão de que o contorno visto
por ele não podia ser o vulto de alguém. Seria apenas o formato
duma peça de vestimenta.
Ghorn viu
que o estranho carregava alguma coisa no braço. Parecia um cabo
curto e grosso. Acreditou que devia ser uma arma. Quase toda a
coragem imaginária abandonou-o.
Quis dizer
alguma coisa, algo que tranqüilizasse o desconhecido, para que o
mesmo não começasse a atirar. Mas naquele instante, o vulto fez um
rápido movimento com o braço. O objeto disforme que Ghorn
acreditara ser a cabeça caiu para o lado e, abaixo dele surgiu um
crânio redondo que, segundo Ghorn percebeu apesar do medo e do
espanto de que se sentia tomado, estava coberto de cerdas curtas e
duras, em vez dos longos cabelos que estava acostumado a ver.
Ghorn fez
uma nova tentativa para falar. Mas, nesse instante, o desconhecido
disse:
— Está
bem. Pode acender a luz.
Ghorn
notou que o desconhecido falava um arcônida grosseiro mas correto.
Obedecendo às palavras que acabara de ouvir, ligou algumas chaves. A
persiana, que fechava a janela, desapareceu e a luz voltou a
espalhar-se pelo recinto.
Ghorn
lançou os olhos em torno. O desconhecido que, ao colocar-se muito
perto do painel luminoso, fizera com que as luzes se apagassem,
afastou-se para o lado quando viu que o arcônida começava a
desconfiar de alguma coisa. Agora encontrava-se atrás dele.
Ghorn viu
um rosto redondo que exibia um sorriso irado. Por cima da testa, as
cerdas vermelho sujas se levantavam em atitude combativa. Ghorn notou
que o desconhecido não lhe apontara a arma. Parecia sentir-se
seguro.
— O... o
que deseja? — gaguejou.
O
desconhecido continuava a sorrir.
— Quero
falar com o administrador. É o senhor?
Ghorn
respondeu com um gesto desolado de negativa.
— Meu
nome é Ghorn — disse com a voz tímida.
O
desconhecido baixou a cabeça numa mesura leve e irônica.
— Meu
nome é Bell — respondeu. — Reginald Bell.
Pronunciou
com tamanha facilidade os sons estranhos de seu nome, que Ghorn
abandonou definitivamente a idéia de que, apesar de sua vestimenta,
de origem arcônida — poderia ser algum arcônida deformado.
Aquele
homem vinha de longe. Mas de onde?
O
desconhecido, que se apresentara como Bell, acomodou-se numa
poltrona.
— Quer
saber de uma coisa? — voltou a falar Bell. — O senhor vai chamar
o administrador e pedir-lhe que venha até aqui. Eu e mais duas
pessoas que aparecerão daqui a pouco vamos conversar com ele.
Combinado?
Ghorn
recusou desesperadamente.
— Se o
senhor tivesse uma pequena idéia do nosso estilo de vida —
suplicou — poderia imaginar o que aconteceria comigo se eu...
Bell
interrompeu-o com um gesto.
— Está
certo — disse com um ligeiro desprezo na voz. — Quase que me
esqueço. Sergh o condenaria a viver no deserto. Já que é assim,
anuncie-se a ele. Meus amigos e eu iremos com o senhor.
Ghorn
agarrou a sugestão como um náufrago que segura a corda salvadora.
O
desconhecido parecia perigoso, e Ghorn não tinha a menor dúvida de
que Sergh teria a mesma opinião assim que o visse. O administrador
cometera um erro ao restringir a ação à simples observação. Uma
criatura desse tipo sempre é perigosa. Num minuto, concebiam mais
idéias que um arcônida num dia, e até rescendiam a uma atividade
sobrenatural.
Mas, nos
aposentos privados de Sergh, havia um sem-número de instalações
automáticas de segurança. E se o desconhecido e seus amigos
cometessem a tolice de insistir numa entrevista com o administrador,
estariam perdidos assim que transpusessem o limiar da porta.
Ghorn
procurou entrar em contato com o administrador. Ansiava de
impaciência e fazia votos de que Sergh não se encontrasse nos seus
aposentos privados, onde estaria fora do alcance de qualquer
instrumento de busca.
Pelo canto
dos olhos Ghorn notou que Bell voltara a colocar o capacete. Ouviu-o
murmurar algumas palavras numa língua estranha. Supôs que se
comunicava com os dois amigos.
Mas logo o
rosto de Sergh passou a ocupar a atenção de Ghorn. Ao surgir na
tela, parecia cansado e entediado. Ghorn ouviu um rápido movimento
atrás de si e sabia que sua vida correria perigo se colocasse o
receptor numa posição em que Sergh visse o desconhecido.
Este só
viu seu representante.
— O que
houve? — perguntou, esticando as palavras.
Ghorn viu
que continuava sentado diante do mesmo aparelho de hipercomunicação
em que pouco antes falara com ele.
As
palavras de Ghorn foram cautelosas:
— Caso o
senhor disponha de tempo, eu gostaria de submeter-lhe um problema
importante.
O cansaço
de Sergh não parecia ser tanto que a visita em perspectiva o
deixasse contrariado. Lembrou-se das boas idéias que Ghorn tivera
duas horas antes e demonstrou certo interesse.
— Concordo
— respondeu, reprimindo um bocejo. — Poderemos conversar na minha
sala-refúgio. Você vem logo?
— Naturalmente,
Senhor — apressou-se Ghorn em responder. — Não seria capaz de
deixá-lo esperar.
Sergh
desligou. Bell resmungou atrás de Ghorn:
— Não
tenha tanta pressa, meu chapa. Temos de esperar meus amigos.
Ghorn não
respondeu, permanecendo imóvel.
Pouco
depois, a porta de enrolar abriu-se, e ninguém entrou. Voltou a
fechar-se, e dois vultos estranhos surgiram do nada.
Ghorn
virou-se e fitou-os estupefato.
Viu um
homem pequeno de pele marrom-amarelada, olhos oblíquos e um sorriso
constante no rosto. Viu outro homem que quase chegava a ter o tamanho
de um arcônida. Seu rosto era sério e a expressão dos olhos cor de
gelo deixou Ghorn apavorado.
No mesmo
instante Ghorn percebeu que este último era o mais perigoso dos
três.
O homem de
olhos cor de gelo fitou Ghorn e disse num arcônida sem sotaque:
— Vamos
indo. O que estamos esperando?
5
Desde O
início da fase D o coronel Freyt não recebera qualquer notícia de
Rhodan. Isso não o deixou preocupado. Um sinal de emergência havia
sido combinado em caso de Rhodan se ver numa situação realmente
difícil. E só em circunstâncias, que Freyt considerava altamente
improváveis, a situação se tornaria tão crítica que Rhodan nem
tivesse tempo de transmitir esse sinal.
De
qualquer maneira, Freyt mantinha-se constantemente preparado para
providenciar tudo que se tornasse necessário caso surgisse algum
perigo que representasse uma ameaça real para Rhodan.
Seus olhos
ardiam de cansaço e muitas vezes a cabeça caía para a frente, mas
agüentou no seu lugar.
Quando o
tele comunicador emitiu o sinal de chamado, atirou a mão para a
frente e num movimento seguro comprimiu o botão que ligava o
aparelho. Os olhos avermelhados fitaram com uma expressão preocupada
o quadro que se formava na tela.
Mas o que
surgiu não foi o sinal de ausência de imagem que seria de esperar,
já que Rhodan não levava nenhum receptor. Viu um crânio redondo e
calvo coberto de pele negra e áspera; os três olhos lançaram um
olhar indiferente para Freyt.
Este
dissimulou a repugnância que o gigantesco naat lhe causava.
— Aqui
fala Novaal — disse a voz monótona do naat. — Tenho uma notícia
para o senhor.
Freyt
confirmou com um aceno de cabeça.
— Estou
ouvindo.
— O
eminente administrador incumbiu-me de dizer ao senhor que apreciaria
uma visita dos dois arcônidas que traz a bordo. Queira transmitir a
mensagem aos mesmos.
Freyt
sabia qual era a conduta que lhe impunha seu posto.
— Transmitirei
o recado — respondeu. — Eles mesmos decidirão se apreciam a
visita tanto quanto o administrador.
O rosto
escuro de Novaal contorceu-se numa careta. Freyt não sabia se essa
careta representava um sorriso. De qualquer maneira, naquele instante
achou o naat mais simpático que em qualquer oportunidade anterior.
Sem dizer
uma palavra, Novaal interrompeu o contacto.
Freyt
transmitiu o teor da palestra a Thora e Crest, que se encontravam nos
seus aposentos particulares. Crest recebeu a notícia numa atitude
calma e pensativa, enquanto os olhos de Thora começaram a chamejar,
conforme Freyt esperara.
Freyt
sentiu-se surpreso quando dali a meia hora os dois arcônidas
entraram em contato com ele e lhe disseram que aceitavam o convite.
Com o
rosto sombrio, Freyt respondeu:
— Pelo
que ouvi, não houve nenhum convite. Mas terei muito prazer em
transmitir suas decisões.
*
* *
Deitado
numa espécie de sofá forrado com preciosas peles de sevelot de
Uthalla, cujas vibrações de freqüência e intensidade sempre
variáveis proporcionavam um máximo de bem-estar ao corpo, Sergh
estava projetando alguns pensamentos enfadonhos sobre a tela do
simulador.
O
resultado foi muito pobre. O tédio aliado à falta de concentração
produziu um verde-apagado, que deslizava sobre a tela com uma
sonolenta falta de configurações.
Sergh não
estava satisfeito consigo mesmo.
O trabalho
das últimas horas fora demais.
O
sinalizador da porta emitiu um zumbido. A mão esquerda de Sergh
desceu ao lado do sofá e comprimiu um botão. O rosto de Ghorn
surgiu na pequena tela existente ao lado do simulador. Desenvolvendo
uma atividade totalmente supérflua, o aparelho de controle montado
do outro lado da porta indicou que não portava nenhuma arma.
— Ah, é
você — suspirou Sergh com uma acintosa falta de interesse. —
Avisou que chegaria?
Com um
entusiasmo surpreendente, Ghorn acenou com a cabeça.
— Sim,
Senhor.
— Entre.
O quadro
apagou-se. Com os impulsos verbais de Sergh, a porta abriu-se
automaticamente. Sergh ouviu que Ghorn entrava na ante-sala.
Seria
apenas Ghorn? Pois parecia...
Sergh
levantou-se sobre os cotovelos e olhou para a porta. O jogo do
simulador terminou numa desarmonia de cores e formas.
A porta
interna abriu-se. Ghorn entrou. Seu rosto exprimia uma mistura de
esperteza e dores de consciência.
Atrás
dele...!
Com um
grito indignado, Sergh ergueu-se. Desde a infância era o primeiro
grito que alguém ouvia de sua boca. Mas naquele instante, Sergh não
se deu conta da singularidade do fenômeno.
Depois do
grito, o administrador por algum tempo não teve força para outras
exteriorizações. De queixo caído, fitou os três homens que haviam
entrado em companhia de Ghorn.
Depois de
algum tempo, lembrou-se de que pedira a Ghorn que vigiasse o
desconhecido que tratara as flores Fareh de maneira tão vergonhosa.
Também se lembrou que em certa oportunidade Ghorn o avisara de que
os desconhecidos eram três.
No meio
tempo fora completada a ligação com Árcon, e Sergh teve de
preocupar-se com outras coisas.
Mas agora,
que tinha se lembrado de tudo isso, recuperou o equilíbrio
psicológico.
Sorriu
para os desconhecidos e disse:
— Tenho
muito prazer em conhecê-los de perto. Foi muito divertido
observá-los enquanto avançavam pela casa às apalpadelas.
Um dos
três, gordo e de estatura mediana, estava tirando o capacete. Sergh
ouviu que aspirava o ar com chiado e achou que isso era sinal de que
conseguira surpreender o homem.
Mas os
outros não deram nenhum sinal de surpresa. O menor deles, um homem
de pele amarela, continuava a sorrir. Nos olhos do maior, havia a
mesma dureza apavorante que Sergh observara no momento em que o viu
pela primeira vez.
— Então
o senhor nos observou? — perguntou numa aparente indiferença.
Sergh
aborreceu-se ao notar que o desconhecido lhe negava o título que de
direito lhe cabia. Mas o prazer e a excitação nervosa que sentia
naquele momento fizeram com que Sergh não se importasse com a falha.
— Isso
mesmo — confessou. — Nós os observamos a partir do momento em
que um dos senhores estragou meu canteiro de fareh.
Rhodan
olhou para Bell e o japonês. Tako inclinou ligeiramente o corpo e
disse em inglês, em tom abatido:
— Devo
ter sido eu. Caí no canteiro quando entrei da primeira vez.
Rhodan
limitou-se a fazer um gesto.
— Pois
bem — disse ao administrador. — Se é assim, já deve saber quem
somos e provavelmente imagina por que viemos.
Sergh
estava realmente perplexo.
— Não —
respondeu. — Não faço a menor idéia de quem sejam os senhores,
nem do que vieram fazer aqui. Nós, Ghorn, e eu, sentimos um prazer
imenso ao observá-los...
— O
senhor está se repetindo — interrompeu-o Rhodan em tom tão áspero
que Sergh se encolheu. — Sou o comandante da nave que o senhor está
retendo em seu espaçoporto contra todas as normas de direito. Exijo
a liberação imediata da nave.
Sergh teve
medo. Nunca ouvira ninguém falar perto dele com tamanha rispidez,
energia e arrojo. O homem de olhos cor de gelo arrojava uma
capacidade de ação que Sergh quase chegava a sentir fisicamente e
que o deixava assustado.
— Quem
está retendo a nave não sou eu — respondeu Sergh, e praticamente
não se deu conta de que estava a ponto de arrumar uma desculpa. —
Recebi instruções para deter sua nave. E contra-instruções não
há...
Bell
avançou um passo. Rhodan não o demoveu do seu intento. Bell
postou-se tão perto de Sergh que este recuou a cabeça.
— Escute
aí, meu chapa! — gritou Bell no seu arcônida grosseiro. — Não
temos o menor interesse em saber quem deu ordem para grudar a Ganymed
ao solo. Só queremos saber quem tem a possibilidade de soltá-la. E
este alguém é o senhor. Por isso esperaremos aqui até que nossa
nave nos avise de que está novamente em condições de viagem e que
virá em seguida para buscar-nos.
Sergh
sentiu o hálito do desconhecido no rosto, e isso lhe causou certa
repugnância. Mas, ao mesmo tempo, ouviu a voz forte e potente, que
lhe inspirou medo. Mal se deu conta de que Ghorn, pelo qual ninguém
parecia interessar-se, afastou-se para o lado.
Sentiu
certo alívio. Sem dúvida, Ghorn ativaria o dispositivo de
emergência.
Ao ver
que, por um instante, o olhar de Sergh passou ao lado dele, Bell
girou sobre os calcanhares.
— Ei,
pare aí! — gritou furioso. — Ghorn já levantara a mão para
comprimir um botão. — Sei o que tem em mente. Se o deixássemos à
vontade, esse botão faria com que isto aqui se enchesse de gás,
enquanto em algum lugar soasse um alarma.
Ghorn
empalideceu. Deixou cair a mão, como se esta lhe pesasse demais.
Sergh
sentiu-se tão fraco que resvalou para o sofá. O vibrador começou a
funcionar automaticamente, mas numa hora como esta a trepidação
irritava os nervos do administrador.
— Uma
vez que já sabe o que queremos, siga as nossas ordens — disse
Rhodan em tom áspero. — O que está em jogo para nós é muito
mais do que o senhor imagina. Não nos importaremos nem um pouco em
pisar nos calos do eminente administrador até conseguirmos o que
pretendemos.
Sergh fez
vários gestos apaziguadores.
— Aguarde
um momento — fungou. — Estou esperando alguns visitantes e, na
presença dos mesmos, terei muito prazer em explicar-lhes o que está
acontecendo. Permita que um velho tenha uma pequena pausa de
descanso.
Rhodan
confirmou com um gesto da cabeça.
— Está
bem — disse. — Esperaremos. Mas é bom que fique ciente de uma
coisa: no momento em que um de vocês tentar enganar-nos, ambos
estarão mortos.
Não era a
situação atual que atemorizava Sergh. Como arcônida que era,
dispunha de recursos que lhe permitiam dominar qualquer situação.
Aquilo que
o fez capitular no momento foi o fato de que nunca antes se
defrontara com seres que perseguissem seu objetivo com tamanha
energia e se mostrassem tão pouco dispostos a deixar desviar-se do
caminho que haviam traçado para si mesmos.
Não que
acreditasse não poder subjugar os intrusos.
Mas
precisava de um momento de descanso. Os séculos de decadência
progressiva fatalmente teriam que deixar suas marcas no cérebro
arcônida. O raciocínio tornara-se mais lento. Sergh precisava de
uma pausa para recordar os meios de que dispunha para livrar-se dos
desconhecidos.
Mas a
convicção de que acabaria por dominá-los nunca o abandonara.
Era
verdadeira a afirmativa de que aguardava visitantes e que pretendia
explicar aos mesmos alguma coisa relacionada com os problemas dos
desconhecidos.
Sergh
estendeu-se no sofá, descansou os braços molemente ao lado do
corpo, fechou os olhos e pôs-se a refletir.
Ghorn e os
desconhecidos acomodaram-se em poltronas. Um silêncio constrangedor
encheu a sala do simulador de Sergh.
Depois do
que tinham visto nas últimas horas e dias, Thora e Crest não
penetraram no palácio-funil de Sergh na expectativa de que lhes
seria dispensada a recepção a que faziam jus como membros da
estirpe dos Zoltral.
Quando
penetraram no hall de entrada, uma voz mecânica lhes ordenou em tom
áspero que se transportassem pelo caminho mais rápido ao trigésimo
quinto pavimento. Assim viram que suas esperanças ainda eram
otimistas demais.
Até mesmo
a bebida oferecida a título de boas-vindas, que costumava ser dada
ao mais ínfimo dos visitantes, lhes foi recusada. Enquanto subiam
pelos elevadores antigravitacionais apenas sentiram, diante do
esplendor de seu mundo, que a melancolia da saudade passou a
envolvê-los no interior do funil. Ao atingirem o trigésimo quinto
pavimento, o desânimo que se apossou deles foi quase tão intenso
como o que sentiram quando o ser coletivo do planeta Peregrino lhes
recusou a ducha celular e, com isso, o dom da vida eterna.
As portas
abriram-se automaticamente diante deles, apontando-lhes o caminho.
Não viram nenhum dos ocupantes da casa.
Passaram
pelo pequeno compartimento que dava para a sala do simulador de
Sergh. Thora estacou, surpresa, quando a porta se abriu e ela pôde
lançar o primeiro olhar para o interior da sala.
Rhodan
levantara-se ao ouvir os passos e colocara-se junto à porta. Receava
que Ghorn aproveitasse a confusão momentânea que se estabeleceria
com a entrada dos visitantes para acionar algum tipo de alarma.
Mas Ghorn
estava tão assustado que nem se mexeu.
— Rhodan...
o senhor por aqui? — espantou-se Thora.
Rhodan
cumprimentou-a com um aceno de cabeça e apontou para uma poltrona.
— Sente!
— disse em arcônida. — O homem que está deitado no sofá tem
algo a nos dizer e suponho que neste meio tempo já tenha reunido
forças para isso.
Sergh não
se mexeu. Virou-se de lado e fitou os dois arcônidas.
— Levante-se
quando estiver falando com uma zoltral — disse Thora com a voz
enérgica.
— Esta é
uma das coisas que pretendia contar-lhe — disse em tom diferente. —
Os zoltrals não são mais ninguém em Árcon.
Provavelmente
Thora e Crest não esperavam outra coisa. Thora caiu numa poltrona.
— Relate
tudo na devida ordem — pediu Thora.
— E
coloque ao menos os pés no chão — resmungou Bell. — Fico
nervoso quando alguém fala comigo deitado.
Por
estranho que fosse, Sergh obedeceu. Rhodan lançou um ligeiro olhar
de advertência para Bell. Não valia a pena tornar a situação mais
crítica do que já era.
— Nem
mesmo os zoltrals sabiam — principiou Sergh com a voz cansada —
que há muito tempo alguns sábios instalaram em Árcon e em todo o
Império um mecanismo que entraria em ação no momento em que a
decadência das energias vitais da nação e a apatia de seu povo
atingisse um grau tal que a existência do Império corresse perigo.
“Esse
momento — prosseguiu Sergh, pigarreando e fazendo uma ligeira pausa
— chegou há cerca de seis anos. Em virtude de certos dados e
formas de interpretação que ninguém se deu ao trabalho de
investigar há seis anos o maior de todos os cérebros positrônicos,
já construídos na Galáxia, incumbiu-se da direção dos destinos
de Árcon e seu Império.
“Uma das
conseqüências da execução das principais tarefas governamentais
por uma máquina foi a substituição da família governante. Os
zoltrals abdicaram, outro governante subiu ao trono. Uma vez que foi
justamente no reinado de sua dinastia que o cérebro positrônico
entrou em ação, os zoltrals estão bastante desacreditados.
Atualmente todos eles, inclusive os senhores, apenas são tolerados.
“É bom
que não se esqueçam disso, para que não voltem a exigir que um
velho se levante só porque pertencem à estirpe dos zoltral.
“Apesar
de tudo, acabo de receber informações de Árcon, segundo as quais
permitem que os senhores façam uma visita ao seu mundo natal. Dentro
de poucos segundos pousará no espaço porto de Naatral uma nave que
os levará a Árcon. Lá lhes dirão quanto tempo poderão ficar e o
que farão.”
Esgotado,
Sergh deixou-se cair de lado e fechou os olhos. Thora manteve-se rija
e ereta na sua poltrona, enquanto Crest, de pé ao seu lado,
segurava-se no encosto.
— Uma
máquina...! — gemeu.
— Isso
mesmo. E executa suas tarefas melhor que qualquer governante da
família dos zoltral. Equipou todas as naves com robôs e não
precisa preocupar-se com os tripulantes, pois os olhos vigilantes dos
robôs permitem que coloquem a bordo não só os arcônidas, mas
também os naats ou outra gente desse tipo.
A velha
cólera voltou a apossar-se de Thora.
— Sabemos
perfeitamente que a maior parte dos governantes não prestou —
chiou. — Mas não podemos admitir que a modificação desse estado
de coisas fique por conta de uma máquina. O cérebro positrônico
representa o começo do fim. Um império governado por uma máquina
cavará sua própria sepultura. Se os governantes tivessem continuado
no poder, levaria alguns milênios para morrer de velhice.
Sergh não
estava interessado nesse aspecto.
— É
preferível que se apressem — advertiu em tom cansado — senão
perderão a nave para Árcon. O cérebro positrônico não espera. E,
uma vez perdida esta oportunidade, nunca mais terá uma possibilidade
de ir a Árcon.
— O que
será feito da nave em que viemos? — perguntou Thora indignada.
— Será
que este problema lhe diz respeito? — retrucou Sergh.
Thora
lançou um olhar para Rhodan. Este tranqüilizou-a, falando em
inglês:
— Não
se preocupe conosco. Procure viajar para Árcon. Talvez até lá
consigamos resolver a situação. Se isso não acontecer, faça o que
puder por nós.
Thora
confirmou com um ligeiro movimento de cabeça e levantou-se.
— Está
bem, vamos — disse, dirigindo-se a Sergh.
Pelo tom
de sua voz Rhodan percebeu que estava prestes a chorar.
— Vá,
sim — murmurou Sergh sem virar a cabeça.
Rhodan
procurou animar Thora com um gesto enquanto ela saía em companhia de
Crest. Mas Thora não se voltou mais. O gesto ficou no ar.
Voltaram a
ficar a sós com o administrador cansado e com seu representante
assustado. Gemendo, Sergh virou-se de lado.
— Pensei
que tivessem saído com os dois — disse, lançando um olhar para
Rhodan e seus companheiros.
Não se
poderia dizer se estava falando sério. Sua voz era enfadonha como
sempre.
Rhodan
levantou-se.
— Pois
aí é que o senhor se engana — disse em tom áspero. — Já sabe
por que viemos, e também sabe que não sairemos antes que nossas
exigências tenham sido cumpridas.
Sentado em
sua poltrona, Bell disse em tom indiferente:
— Perry,
talvez umas bofetadas o ajudem a compreender. Sem isso acabará
levando mais cinco horas para acordar de vez.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça e examinou atentamente o rosto de
Sergh, como se quisesse escolher o lugar mais adequado para aplicar
as bofetadas.
— A
idéia não é má — respondeu.
De repente
Sergh passou a desenvolver uma atividade espantosa. Levantou-se com
uma rapidez que ninguém o julgaria capaz.
— Não,
não, minha intenção não foi esta — protestou com um sorriso
embaraçado. — Sem dúvida seria interessante saber como se sente
uma pessoa que leva pancadas. Quem recorre a bofetadas usa um método
atávico. Mas receio que o processo seja acompanhado por dores. Por
isso prefiro...
— Pois
vamos, vamos logo — animou-o Rhodan. — Quando sairmos desta sala,
o senhor e seu representante irão conosco. Tenho certeza de que
ninguém porá as mãos em nós enquanto o eminente administrador
estiver diante do cano de minha arma.
Sergh
concordou.
— A
estação de controle dos geradores que alimentam o campo de sucção
fica embaixo do cabo do funil. Vamos descer até lá.
Rhodan
espalhou os homens de seu grupo. Reginald Bell caminhava à frente,
seguido pelo administrador e por Ghorn. O japonês ia no fim da fila.
Perry Rhodan esforçou-se para estar em todos os lugares ao mesmo
tempo.
O interior
do funil continuava deserto. De repente, Rhodan lamentou não ter
trazido um telepata que pudesse informá-lo a qualquer momento sobre
os pensamentos de Sergh.
Mas, no
início da operação, não se poderia prever que quatro homens
teriam a mesma facilidade de locomover-se no interior do gigantesco
funil de Sergh.
Passando
por uma série de poços de elevadores antigravitacionais, desceram
de um terraço para outro. Rhodan começou a acreditar que realmente
conseguira intimidar Sergh, e que este não tinha em mente qualquer
ação traiçoeira. Por esse motivo, a cautela de Rhodan
provavelmente desceu a um nível perigosamente baixo. Além disso, a
surpresa surgiu num lugar em que ninguém a esperaria: no meio dum
poço anti-gravitacional.
O próprio
Sergh submeteu-se a um tratamento bastante desagradável para
livrar-se dos incômodos visitantes. Afinal, tanto ele como Ghorn e
os três terranos encontravam-se no meio do comprido poço quando
subitamente o campo antigravitacional deixou de funcionar. Inverteu a
polarização e com uma violência irresistível atirou tudo que se
encontrava no poço contra o soalho do próximo pavimento.
Um dos
poucos monitores mentais instalados na casa captara os pensamentos
aflitos de Sergh e reagira em conformidade com os mesmos. Sergh
passara propositadamente pelo poço em que estava instalado o
monitor.
Sergh e
Ghorn logo perderam os sentidos, da mesma forma que o delicado
japonês. Rhodan e Bell apenas sentiram-se ligeiramente confusos; mas
antes que tivessem tempo de levantar-se uma série de tubos capilares
expeliu uma carga de gás paralisante do teto, do soalho e das
paredes. Os dois, ainda não restabelecidos do choque, aspiraram o
gás em grandes lufadas. Mantinham os capacetes abertos para falar
com os arcônidas, e o funcionamento da tubulação de gás era
silencioso.
Dali a
alguns segundos, também Rhodan e Bell estavam reduzidos à
imobilidade. Não perderam os sentidos por completo. Como que numa
névoa, perceberam o que acontecia em torno deles. Mas o raciocínio
consciente e os nervos que moviam o corpo estavam bloqueados.
Alguns
minutos se passaram. Subitamente uma dezena de vultos com capacetes
saiu dos quatro elevadores antigravitacionais que davam para a sala.
Rhodan teve uma percepção confusa de que os capacetes na verdade
eram máscaras que impediam a entrada do gás nos órgãos
respiratórios.
Os cinco
corpos imóveis foram levantados e transportados para cima. Rhodan
não conseguiu identificar o lugar em que os quatro homens que
carregavam Sergh e Ghorn se separaram dos demais. Mas percebeu
nitidamente que o recinto em que foi depositado juntamente com os
companheiros inconscientes era escuro e isolado do mundo exterior.
O cansaço
começou a apossar-se dele. Era um dos efeitos do gás paralisante.
Por mais que resistisse, adormeceu em poucos segundos. Ao despertar,
não teve a menor idéia de quanto tempo se passara. Mas ficou
satisfeito por saber que o sono o robustecera.
*
* *
Ainda se
via obrigado a realizar um grande esforço para mover os braços e as
pernas, e seus movimentos não eram mais rápidos que os de um velho
enfermo. Mas, de qualquer maneira, um movimento lento e penoso sempre
é melhor que a imobilidade total.
O recinto
em que se encontrava continuava escuro como breu. Não havia o menor
raio de luz ao qual a vista pudesse acostumar-se. Os movimentos de
ginástica de Rhodan produziram um forte farfalhar no soalho. Dali se
concluía que os prisioneiros dos arcônidas haviam sido depositados
no revestimento de plástico.
Uma voz
resmunguenta falou pesadamente em meio à escuridão:
— Quem
dera que esse administrador desengonçado estivesse por aqui. Eu
lhe... Perry, é você?
— Sim,
sou eu.
O riso
sacudiu Rhodan e lhe fez doer o corpo cansado. Se Bell já entretinha
idéias de vingança, as coisas não podiam estar tão más assim.
— Como
está Tako?
— Não
sei. Também está aqui?
— Está.
Já consegue mexer-se?
— Vou
experimentar. Já mexo o corpo um pouco.
— Pois
procure Tako. Preciso pensar.
— Não é
necessário — piou uma voz débil vinda da escuridão. — Já
acordei.
— Já! —
esbravejou Bell. — O homem dorme até altas horas da tarde e...
— Silêncio!
— ordenou Rhodan. — Temos coisa mais importante a tratar. Tako, o
senhor consegue mover-se?
— Consigo.
— Muito
bem. Preste atenção. Experimentamos na própria carne como é
difícil impor nossa vontade a um arcônida. Por mais decadentes que
pareçam, eles têm uma porção de truques de que nem fazemos idéia.
Não sabemos o que Sergh pretende fazer conosco. Pode deixar-nos
morrer de fome neste buraco, pode colocar-nos em liberdade de uma
hora para outra, ou pode adotar qualquer atitude intermediária entre
os dois extremos. Seja como for, tenho certeza de que tomará todas
as precauções para que não escapemos antes que tenha tomado sua
decisão. E, para ter certeza absoluta de que isso não acontecerá,
terá que repetir a intervalos regulares o processo paralisante.
“Não
tenho a menor dúvida de que no teto deste recinto existe uma
tubulação igual àquela da sala em que caímos na armadilha. E a
qualquer momento pode ser realizada nova gaseificação. Portanto,
temos que apressar-nos se quisermos fugir. Tako.”
Sim
senhor.
— Procure
descobrir onde estamos e como podemos sair daqui.
— Perfeitamente.
— Não
assuma o menor risco. Lembre-se de que por enquanto os arcônidas nem
desconfiam de que em nosso grupo existe um teleportador. Por isso seu
dom é uma boa arma. Deixe o radiador térmico aqui. E ande depressa.
Tako
desapareceu.
— O que
vamos fazer depois? — indagou Bell.
— Queremos
libertar a Ganymed. Será que você já se esqueceu?
— Depois
de tudo isso?
— Agora
mais que nunca. Não sei se Sergh mentiu ao dizer que os controles
dos geradores do campo de sucção ficam embaixo do cabo do funil.
Acredito que se sentia tão seguro que não se daria ao trabalho de
inventar uma mentira. Ainda mais que essas instalações geralmente
ficam no interior dos cabos.
— Ah, já
sei. Desceremos para lá e demoliremos os quadros de chaves de Sergh
de tal maneira que nunca mais possa prender uma nave de gente
honesta.
— É
mais ou menos isso. Acontece que sua tarefa será outra.
— Qual
será?
— Um de
nós terá que permanecer nos aposentos privados de Sergh, enquanto
os outros estiverem trabalhando com os controles. Sergh dispõe de
uma sala da qual pode observar todo o funil. Tako descobrirá essa
sala e você se instalará na mesma e cuidará para que ninguém nos
ataque pelas costas. Entendido?
— Hum.
Não estou gostando disso. Em qualquer funil destes, existem
aparelhos de observação. Sempre que alguém queira falar com o
administrador, um negócio destes é posto a funcionar para dar busca
em uma sala após a outra. Se chegar a um desses locais de
observação, o balão estourará.
— Você
já devia saber que nenhum desses instrumentos de observação chega
aos aposentos privados do dono da casa. Um homem como Sergh estará
menos disposto que qualquer outro para permitir que alguém ande
focinhando sua vida privada.
— Está
bem — suspirou Bell.
Tako
voltou depois de poucos segundos.
— Encontramo-nos
no quadragésimo terceiro andar. O respectivo terraço é mais
profundo que os outros. Para o lado interno do funil, há um corredor
circular protegido por um corrimão. Do outro lado, há duas fileiras
de salas. A primeira delas tem janelas que dão para o corredor. A
fila externa não tem janelas. Estamos presos numa das salas dessa
fila.
— Ah. É
uma coisa parecida com uma cadeia. Há portas?
— As de
costume. As portas estão trancadas. As fechaduras não abrem.
— Viu
algum guarda?
— Nenhum.
A casa continua vazia.
— Que
horas são?
— O céu
ainda está escuro.
Rhodan
levantou-se. Os movimentos causavam-lhe dores. Os efeitos do gás
paralisante ainda não haviam cessado. Rhodan teria dado um bom
dinheiro se pudesse aguardar tranqüilamente até que estivesse
restabelecido de todo.
Mas
naquele momento tinha que apressar-se.
— Pegue
seu radiador, Tako. Salte para fora e abra a fechadura a tiro. Faça
uma boa pontaria, pois no instante em que a fechadura for danificada,
um alarma deverá soar em algum lugar.
Tako
voltou a desaparecer. Dali a um instante um chiado feio encheu o
recinto, um pontinho luminoso surgiu na escuridão, transformou-se
num buraco e acabou substituído pela abertura larga da porta.
Rhodan e
Bell saíram correndo. Pararam junto a uma das janelas da parede que
dava para o corredor. Não viram nenhum arcônida.
— O mais
importante é sair daqui quanto antes — disse Rhodan. — Neste
instante alguém já está sabendo que aqui em cima as coisas não
estão como deveriam estar. Virão dar uma olhada. Quando isso
acontecer, não deveremos estar mais por aqui. Bell, vá com Tako.
Ele localizará a sala de observação para você. Tako, o senhor me
seguirá assim que tiver fornecido as necessárias indicações a
Bell. Encontramo-nos no hall superior do cabo do funil, naquela peça
pequena. Está lembrado?
— Sim
senhor.
— Muito
bem. Vão embora.
Rhodan
esperou que os dois desaparecessem pelo elevador antigravitacional
dos fundos da sala. Só depois disso pôs-se a caminho.
Para
enganar o inimigo, não usou o mesmo elevador. Abriu a tiro uma das
janelas, o que sem dúvida provocaria outro alarma, percorreu metade
da circunferência do funil no peitoril que circundava as janelas e
penetrou em outra sala pela mesma forma violenta que havia usado para
sair da primeira. Isto provocaria um terceiro alarma. Após este
lance desceu pelo elevador antigravitacional.
Esperava
que os freqüentes desvios de rota e os avisos de avaria, acarretados
pela destruição de portas, janelas e fechaduras, provocasse um
quadro tão confuso que os arcônidas ficariam desorientados. Ao
menos, chegariam à conclusão de que não havia três intrusos, mas
ao menos uma dezena.
Rhodan
chegou ao décimo andar sem encontrar qualquer habitante do funil.
Mas, dali em diante, o destino parecia conspirar contra ele.
Enquanto
caminhava de um elevador antigravitacional para outro, um homem saiu
do inferior com uma rapidez espantosa. Sua vestimenta parecia um
uniforme. Devia ser um dos membros da guarda palaciana de Sergh.
Rhodan viu-o abrir a boca de pavor.
Também
viu o movimento rápido em direção ao bolso lateral, onde devia
estar guardada uma arma ou um aparelho de comunicação.
Rhodan
precipitou-se para a frente, se é que isso podia ser chamado de
precipitar-se. Ainda havia certa quantidade de gás paralisante em
seu corpo. Por pouco o arcônida, um ser lento por natureza e por
índole, não consegue pegar o aparelho antes que Rhodan se
aproximasse dele. Praguejando por sua própria lentidão, Rhodan
desferiu um tremendo soco, que fez o homem levantar-se na ponta dos
pés, bater na parede e cair ao chão, inconsciente.
No andar
seguinte, encontrou-se com uma mulher. Com a rapidez que é peculiar
às mulheres numa situação como esta, esta começou a gritar. Os
gritos atraíram outro arcônida.
Rhodan
cuidou primeiro do homem. Ainda bem que os arcônidas eram ainda
menos ágeis que ele mesmo na situação em que se encontrava.
Depois, esquecendo tudo que já aprendera sobre os deveres de um
cavalheiro, deu uma vigorosa bofetada na mulher, que logo desmaiou,
provavelmente antes de indignação que em conseqüência dos efeitos
físicos do ato.
Um pouco
mais rápido que antes, mas muito menos rápido do que desejaria,
continuou na sua corrida. Em cada um dos andares teve de brigar ao
menos com um arcônida e finalmente atingiu o elevador
antigravitacional que conduzia ao cabo do funil.
Com um
último olhar, quase melancólico, para o lindo jardim perfumado,
confiou-se ao campo antigravitacional. Empurrando-se com as mãos nas
paredes do poço, desceu velozmente à sala em que se encontraria com
Tako Kakuta.
O japonês
ainda não havia chegado. Teria de esperar.
Tako levou
apenas alguns minutos para encontrar a sala sobre a qual Rhodan lhe
havia falado. Ficava no mesmo pavimento da sala do simulador de
Sergh. Tako descreveu o caminho, e Bell disse que saberia chegar lá,
fosse o que fosse que se interpusesse no seu caminho.
Tako
desapareceu.
Bell
atravessou alguns dos aposentos privados de Sergh e acabou
encontrando a sala descrita por Tako. Pôs os aparelhos a funcionar.
Entre eles havia alguns que não conhecia. Sentiu-se aliviado quando
as telas se foram iluminando.
Colocou o
observador para trabalhar no pavimento superior do cabo do funil, e
após poucos segundos encontrou Rhodan e o japonês.
Não sabia
se havia algum instrumento acústico acoplado ao observador. Por isso
fechou o capacete e disse ao microfone:
— Eu os
vejo perfeitamente.
Rhodan
ouviu estas palavras em seu receptor e também fechou o capacete.
— Está
bem — respondeu. — Fique de olho em nós.
— Não
se preocupe — exclamou Bell.
No cabo do
funil, havia cerca de cinqüenta salas de máquinas. Rhodan tinha
certeza de que a que procuravam devia ser a maior de todas. Mandou
que Tako saísse por ali e, em cada lugar que surgisse, lhe desse uma
descrição minuciosa das máquinas vistas.
Rhodan
sabia o que estava procurando. Era uma série de instrumentos que
permitisse o controle ou, mais precisamente, o telecontrole, de um ou
alguns geradores de campo de sucção. O equipamento teria que
incluir antes de mais nada um estojo de telecomunicação que
permitisse a emissão dos sinais de comando. Além disso, seria
necessário um gerador destinado a fornecer a energia indispensável
às transmissões em alta potência. É que os geradores do campo de
sucção do espaçoporto de Naatral deviam gerar campos marginais tão
fortes que uma transmissão comum não chegaria até as máquinas, já
que seria absorvida ou superada pelos campos marginais.
Face a
esses conhecimentos, não teria dificuldade em encontrar aquilo que
estava procurando. Depois do sexto salto, Tako Kakuta forneceu uma
descrição do grande pavilhão onde se encontrava. O relato
coincidia tão perfeitamente com aquilo que Rhodan tinha em mente que
já não podia haver a menor dúvida.
Face ao
volume de interferências que a massa de máquinas produzia nas
comunicações de rádio, a voz de Tako saiu tão distorcida que
Rhodan mal conseguiu entendê-la.
Rhodan
gritou:
— Nessa
sala deve haver um aparelho de telecomunicação de elevada potência.
Procure localizá-lo.
A resposta
de Tako foi incompreensível. Mas dali a pouco sua voz saiu bastante
nítida do alto-falante:
— Estou
diante do aparelho. O que devo fazer?
— Recue
três passos, aponte o radiador térmico e arrebente o negócio.
Reginald
Bell acompanhava os dois na tela de imagem: Perry Rhodan e o japonês.
Com o espírito tenso, viu os movimentos do japonês quando este
levantou a arma e a apontou para a face larga da caixa do tele
comunicador...
Ouviu o
chiado produzido por seus receptores audiovisuais no momento em que o
telecomunicador ativou suas reservas de energia. Viu que as imagens
assumiram um tom violeta. Gritou:
— Perry!
Tako! Parem! Aquilo tem uma proteção mental. Não...
Era tarde.
As reações de Rhodan e do japonês foram muito lentas. Não
dispunham da energia provocada pelo pavor súbito, que ajudara Bell a
superar os efeitos do gás paralisante. Tako Kakuta já estava com o
dedo no gatilho e a arma disparou antes que tivesse tempo de reagir
ao grito de Bell.
Alguma
coisa explodiu no cérebro de Tako com a violência duma bomba.
Alguma
coisa ofuscou Perry Rhodan, fê-lo gritar de dor e o atirou ao solo,
inconsciente.
Alguma
coisa atravessou o crânio de Reginald Bell, deixando um rastro de
fogo e atirando-o para fora da poltrona, inconsciente.
Alguma
coisa fez com que, naquele instante, toda vida consciente se apagasse
na casa do eminente administrador Sergh.
6
Fosse o
que fosse, os efeitos não foram tão desagradáveis como os do gás
paralisante que Perry Rhodan respirara horas antes.
Abriu os
olhos e, surpreso, percebeu que se encontrava num dos camarotes do
hospital da Ganymed.
Dois
rostos inclinaram-se sobre ele: o do Dr. Manoli, o velho Eric, amigo
e companheiro de lutas de antes da primeira viagem da nave lunar
Stardust, e o de Thora.
Manoli
disse com um sorriso:
— Não
faça drama, chefe! Nada lhe aconteceu.
Rhodan
protestou:
— Pois
eu não disse nada.
Thora
perguntou em tom preocupado:
— Como
vai o senhor, Perry?
— Bem,
obrigado. O que houve? Onde estão Bell e Tako? Como viemos parar
aqui?
Manoli
interrompeu-o com um gesto.
— Devagar.
Vamos por partes. Primeiro: gostaríamos que o senhor nos contasse o
que houve. Segundo: Bell e Tako estão nas cabines ao lado. Pelo que
conheço de Bell, ele não demorará em recuperar os sentidos. No
japonês pode demorar mais um pouco. Terceiro: vocês vieram para cá
por assim dizer nos braços de robôs. Planadores não tripulados
largaram-nos junto à Ganymed. Só tivemos que recolhê-los. Até
regularam os neutralizadores de seus trajes de tal maneira que a
gravitação de Naat não lhes causou o menor dano.
— Hum. O
quê...?
Passou a
mão pela testa, pois lembrou-se de que a dor que lhe roubara a
consciência viera da cabeça. Manoli compreendeu o gesto.
— Ao que
tudo indica, vocês foram derrubados por um choque mental.
Provavelmente é de origem artificial. Devia ter a força dos
impulsos de mil sugestores odientos.
Rhodan
olhou para a frente, pensativo.
— Isso
lhe diz alguma coisa? — perguntou Manoli.
— Acho
que sim — respondeu Rhodan. — Como é? Posso levantar?
Sinto-me...
— Sim,
já sei. Você se sente com a força de dois ursos. Se quiser pode
sair da cama.
— Excelente.
Como vai a Ganymed? Continua presa?
— O que
você pensava?
— Está
certo, o que é que eu poderia pensar? Pode fazer o favor de convocar
a oficialidade para uma reunião na cantina, daqui a meia hora?
Manoli
confirmou com um aceno de cabeça.
— Posso.
Aliás, há outra coisa.
— O que
é?
— A
permissão para que Thora e Crest viajassem para Árcon foi revogada.
Rhodan
ficou perplexo.
— Como
foi isso?
— Foi
muito simples. Freyt recebeu um chamado acompanhado dum sinal de
falta de imagem. Uma voz meia arrogante disse que a permissão havia
sido revogada e que não chegaria nenhuma nave para levar os dois.
Foi só. Não foi indicado qualquer motivo, e não houve nenhuma
oportunidade de formular uma pergunta.
Rhodan
olhou para Thora.
— Receio
que a culpa seja minha — disse em voz baixa. — Tentamos
inutilizar os geradores do campo de sucção, e a senhora ficou
ligada à operação. Sinto muito.
Thora
tranqüilizou-o com um gesto. Falando em inglês, disse:
— Esqueça
isso! Talvez nem teria sido bom se tivéssemos voltado a Árcon em
condições tão humilhantes.
Rhodan
ergueu as sobrancelhas.
— Acredita
que ainda conseguirá ir a Árcon em outras condições?
Thora
sorriu. Rhodan teve a impressão de que foi um sorriso um tanto
matreiro.
— Acredito,
sim — respondeu.
— Ah, é?
Como pretende fazer isso?
Thora deu
um passo em direção a Rhodan.
— O
senhor encontrará um meio, não é mesmo?
*
* *
Perry
Rhodan nunca tivera um auditório em cujos rostos a tensão se
desenhasse com tamanha nitidez. A oficialidade da Ganymed atingia,
além dos mutantes, um total de oitenta e oito homens. O cassino, no
qual caberiam confortavelmente cem pessoas, parecia vazio, com
exceção do semicírculo de homens que se comprimiam em torno do
orador.
Bell
estava presente. Afirmava que sua cabeça parecia um tambor em que
alguém batesse com dois martelos, mas não queria perder a palestra
de Rhodan.
É claro
que Thora e Crest também estavam presentes. Thora exibia um sorriso
que para Rhodan era otimista demais face à situação em que se
encontravam.
Rhodan
principiou:
— Treze
anos depois da decolagem do primeiro foguetezinho que levaria quatro
homens à lua terrena, outros homens, ou, mais precisamente,
terranos, favorecidos pelas circunstâncias, procuraram avançar até
o coração do império mais poderoso de toda a história galáctica.
“Há
treze anos a humanidade ainda tinha certeza de que o primeiro
encontro com uma inteligência irmã só lhe seria concedido num
futuro distante, se é que isso se tornasse possível um dia.
“A
humanidade estava enganada. A primeira viagem espacial proporcionou o
encontro. Os acontecimentos tiveram seu curso. Com a fanfarronice e a
despreocupação típica do terrano, este se viu consagrado numa
série de importantes decisões, avançou muitos anos-luz, até mesmo
milhares de anos-luz pela Galáxia. Derrotou outros seres e um belo
dia, mais uma vez sob a força das circunstâncias, acreditou ter
chegado a hora em que pudesse avançar até o coração do Império
Galáctico, onde seria recebido como um amigo há muito esperado.
“É
claro que isso foi pura tolice ou, se preferirmos, um raciocínio
inspirado no desejo. Os padrões aplicados revelaram-se falhos. O
terrano imaginava que o Grande Império fosse algo semelhante ao
império de Alexandre, o Grande, ou de Dchengiscan.
Veio com a
idéia de que as coisas não poderiam ser tão más assim.
“Foi
quando recebeu a primeira lição. Teve de aprender que uma raça
que, quando se encontrava no auge, conseguiu criar um império que
abrangeu todo o grupo M-13, chegou mesmo a estender-se à parte da
Galáxia propriamente dita. Esta raça será extremamente poderosa
mesmo quando pelas veias de seu habitante já não circular o sangue
vermelho, mas uma mistura de vapores tépidos, e os homens se tiverem
tornado tão apáticos que raramente saem das camas.
“A
tecnologia arcônida garante a conservação da raça. Essa
tecnologia chegou mesmo a governar os arcônidas. No momento crítico,
uma máquina passou a dirigir os destinos do Império, transformando
seus imperadores e administradores em simples marionetes.
“Devíamos
saber, meus caros, que um mundo destes não pode ser conquistado na
primeira investida. Mas nossa imaginação não foi capaz de conceber
as coisas que encontramos por aqui. Avançamos sem maiores cautelas e
quase quebramos a cara.
“Pretendíamos
ir a Árcon, mas estamos presos em Naat. Mais do que isso, em virtude
de nossa atuação precipitada, Thora e Crest, os amigos arcônidas
que estão conosco, foram impedidos de viajar para Árcon. Tentamos
libertar nossa nave, mas a única coisa que conseguimos foi um choque
mental sob cujos efeitos Tako Kakuta ainda se acha inconsciente.
“Quem
fez tudo isso não foi o arcônida que exerce um simulacro de governo
em Naat. Ele não nos poderia impedir realmente de libertar a
Ganymed. Quem trabalhou por ele foi a máquina instalada em Árcon.
Naatral é um campo de pouso da frota de guerra arcônida e está
submetido ao cérebro positrônico que assumiu o poder em Árcon. Os
aparelhos de comando da aparelhagem do espaçoporto estão instalados
no funil de Sergh, mas não controlados pelo cérebro positrônico.
Não tenho a menor dúvida de que no instante em que o cérebro
positrônico constatasse que um aparelho importante estivesse
ameaçado, não só nós, mas todos os ocupantes do funil seriam
postos fora de ação. Foram robôs que nos trouxeram até aqui.
Provavelmente serão também robôs que voltarão a despertar Sergh e
seus homens para a vida. A máquina sabe como proteger-se. E, para
fazer isso em benefício do Império, não tem a menor consideração,
nem por um inimigo, nem por um arcônida.”
Rhodan fez
uma pausa. Viu que suas palavras deviam ter causado uma impressão
profunda nos ouvintes. Prosseguiu:
— Estamos
presos aqui porque, se avaliamos corretamente o arcônida individual
como um ser indolente e decadente, cometemos um erro de avaliação
quanto à tecnologia arcônida. Nem por isso vamos perder a
esperança. Não nos esqueçamos do pronunciamento do ser coletivo do
planeta Peregrino, que prometeu à humanidade o domínio da Galáxia.
Temos certeza de que essa promessa se cumprirá ainda no nosso tempo.
“Não
esperemos que isso aconteça. Façamos o que depender de nós.”
Rhodan
interrompeu-se, passou a mão pelo cabelo, olhou seus oficiais e
concluiu:
— Era o
que eu lhes queria dizer. Não acreditem que estamos à mercê dessa
supermáquina instalada em Árcon. Afinal, somo terranos. Sem
querermos enganar nossos amigos, que afinal os arcônidas deveriam
ser, ainda dispomos ao menos de um trunfo.
— Gostei
muito — confessou Bell. — Foi patético e impressionante. Até
cheguei a levantar a crista. Bem que gostaria de saber por quê...
— O que
quer dizer? — perguntou Rhodan em tom inocente.
— Gostaria
de saber qual é o trunfo que ainda temos.
Rhodan fez
uma careta.
— Ainda
não descobriu?
Bell
sacudiu a cabeça. Rhodan deu uma risada e bateu no ombro do amigo.
— Procure
refletir, Bell. E prepare-se para um trabalho muito perigoso.
*
* *
*
*
*
A
Ganymed está no espaço porto de Naat, onde campos energéticos
invencíveis á mantêm cativa ao solo.
Mas
Perry Rhodan ainda dispõe dum trunfo que ainda não lançou no
jogo...
Conseguirá
sair de Naat com seus homens sem que seu captor o perceba e visitar o
Imperador de Árcon?
Procure
a resposta no O Mundo dos Três Planetas, próximo volume da série
Perry Rhodan.

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