sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

P-040 - Luta Contra o Desconhecido - Clark Darlton [parte 1]


Autor
CLARK DARLTON




Tradução
RICHARD PAUL NETO




Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
A nave Titan é o couraçado espacial mais poderoso do Universo,
apesar disso tem de ocultar-se dos seus perseguidores...

A história da Terceira Potência em poucas palavras:

1971 — O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan descobre a nave exploradora dos arcônidas que realizou um pouso de emergência (Perry Rhodan, vol. 1).
1972 — Criação da Terceira Potência, contra a resistência combinada das grandes potências terranas, e defesa contra as tentativas de invasão vindas do espaço (vols. 2 a 9).
1975 — Pela primeira vez a Terceira Potência intervém nos acontecimentos galácticos. No sistema de Vega, Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o enigma galáctico (vols. 10 a 18).
1976 — Perry Rhodan atinge, a bordo da Stardust-III, o planeta Peregrino e juntamente com Bell alcança o dom da imortalidade relativa, mas perde mais de quatro anos (vol. 19).
1980 — Perry Rhodan regressa à Terra e vê-se obrigado a lutar pelo planeta Vênus (vols. 20 a 24).
1981 — O Supercrânio ataca, colocando a Terceira Potência diante da provação mais difícil de toda sua existência (vols. 25 a 27).
1982/1983 — Os mercadores galácticos querem transformar a Terra num mundo colonial, mas Perry Rhodan faz o feitiço virar contra o feiticeiro e toma-lhes uma base muito importante (vols. 28 a 37).
1984 — Avanço de Perry Rhodan para Árcon (vols. 38 e 39).

Mesmo para Crest e Thora, dois arcônidas que durante treze anos não tiveram qualquer contato com seu mundo, Árcon oferece surpresas enormes, que naturalmente são ainda maiores para Perry Rhodan e os astronautas do planeta Terra.
Apesar disso conseguem enganar o grande cérebro positrônico que governa Árcon.
Apoderam-se da Titan, a maior nave espacial do Universo conhecido.
Mas, para conservar a Titan, têm de empenhar-se na Luta Contra o Desconhecido, esse desconhecido que é um inimigo terrível.




= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.

Reginald Bell — Que cai na cilada que arma para Gucky.

Thora e Crest — Que depois de uma ausência de treze anos se vêem diante de uma alteração política fundamental em Árcon.

Ras Tschubai e Tako Kakuta — Cujo surgimento inopinado põe em polvorosa toda uma nave espacial.

Hemor — Comandante de uma nave espacial de Zalit.

Demesor — Vice-imperador de Árcon e soberano do sistema de Voga.

John Marshall — Um “espião mental” que cumpre uma missão muito importante.
1



Isto já não é uma nave espacial; é um planeta — disse Bell com a voz ofegante, deixando-se cair no poço negro do elevador antigravitacional, seguido pelo tenente Julian Tifflor que fechou apressadamente os olhos e seguiu seu exemplo. — E estamos vivendo dentro deste planeta.
O senhor tem toda razão — disse Julian Tifflor, também conhecido por Tiff, enquanto a queda foi freada automaticamente, transformando-se num suave flutuar. — Às vezes, chego a pensar que a gente se pode perder neste monstro de nave.
É justamente por isso que realizamos com constância os alarmas de treinamento — explicou Bell. — Devemos aprender a orientar-nos neste labirinto.
O vermelho sadio de seu rosto largo tornou-se mais intenso. Os cabelos vermelhos cortados à escovinha lembravam uma escova que há muito tempo não era limpa. Em seus olhos azuis-claros, o aborrecimento e o espírito galhofeiro pareciam disputar a precedência.
Eu nunca aprenderei! — disse.
Tiff confirmou com um movimento de cabeça, mas não respondeu. Haviam recebido ordens para dirigir-se ao posto H-35; faltava descobrir onde o tal ficava. A letra H indicava um hangar; logo, o posto devia ficar junto ao casco do gigante do espaço. O elevador os fez cair em direção ao casco externo, mas só lhes restava esperar que não tivessem escolhido o lado errado. Se isso tivesse acontecido, teriam dado uma volta de pelo menos três quilômetros.
Pararam abruptamente. Tinham diante deles, o corredor muito iluminado e identificado pela letra H.
Bem, até aqui está certo”, pensou Bell aliviado e saiu do elevador.
A pouca distância dali, um técnico perambulava à toa e fitou os dois recém-chegados com um visível interesse.
Bell dirigiu-se a ele.
Um momento, companheiro. Será que você pode informar onde fica o H-35? É a primeira vez que andamos por aqui e...
Ora, Bell! — soou subitamente uma voz vinda do nada, enchendo de recriminação o corredor cujas extremidades se perdiam numa curva suave. — Desde quando costumamos trapacear por aqui?
Tiff encolheu-se de susto e procurou desesperadamente pela lente oculta de uma câmera de intercomunicação, que transmitiria sua imagem à sala de comando. Não descobriu nada. Um tanto embaraçado, olhou para Bell. Este fez a cara mais inocente deste mundo quando, acenando violentamente com a cabeça, disse para o ar:
Perry, você acha justo andar nos espionando? Ninguém consegue orientar-se neste labirinto de corredores, hangares, elevadores, andares e seções. Acho que, num caso como este, um truquezinho não tem nada demais. Eu não seria capaz de tomar uma atitude tão quadrada, Perry, e....
Acontece que foi exatamente isso que você fez ontem — soou a resposta vinda do nada, que foi acompanhada de um riso contido, que fez Bell enrubescer de raiva. — Você estava dirigindo o exercício de alarma. Quando John Marshall não encontrou logo o lugar que lhe fora indicado, você berrou de tal forma que o coitado quase sofre uma congestão. Como é que ele poderia imaginar que até nas toaletes há câmeras ocultas?
Tiff sorriu com uma expressão de alívio no rosto, não tanto por causa das câmeras escondidas nas toaletes, mas porque estava acreditando que Perry Rhodan não levava muito a sério a pequena trapaça que estavam tentando. Mas Bell continuou furioso.
O que é que Marshall foi fazer lá na hora do alarma? — disse em tom zangado. — Qualquer um pode...
Chega! — interrompeu-o a voz. — Dou-lhes mais dois minutos para encontrar o setor H-35. Depois disso o exercício estará terminado. Daqui a meia hora, encontramo-nos na sala de comando. Entendido?
Está bem! — resmungou Bell e voltou-se para Tiff. — Vamos embora, Tiff. Seria uma vergonha se não encontrássemos nosso lugar sozinhos. Olhe, aqui já diz H-34. Não podemos estar longe do lugar que procuramos. Tivemos sorte!
E tiveram mesmo.
Antes que se passasse o prazo que lhes fora concedido, puseram as mãos sobre a fechadura de uma porta que se abriu com o calor de seu corpo. Nessa porta, lia-se em letras garrafais a indicação H-35.
Era um hangar.
O enorme compartimento estava tomado inteiramente por uma gigantesca esfera, que media sessenta metros de diâmetro. Era uma nave espacial do tipo girino. Desenvolvia velocidade superior à da luz, era extremamente ágil e possuía armamentos poderosíssimos, sendo protegida por potentes campos energéticos.
Graças a Deus! — disse Tiff e disse seu nome ao oficial encarregado do controle. — Chegamos em cima da hora.
De qualquer maneira, ainda chegamos na hora — constatou Bell muito satisfeito e também indicou seu nome, embora o oficial já o conhecesse. — Vamos para a sala de comando. Se não andarmos depressa, morreremos de fome antes de chegarmos lá. O próximo exercício de alarma deverá ser realizado daqui a cinco horas, se não houver nenhum imprevisto.
Isto mesmo: o exercício seria realizado, se não houvesse nenhum imprevisto.
E na situação em que se encontravam, era perfeitamente possível que houvesse.

* * *

Dois monstros inteiramente diferentes um do outro mantinham-se numa imobilidade aparente em meio ao espaço infinito, que estava tão salpicado de estrelas que em nenhum ponto parecia ser negro. A quantidade dos sóis oferecia um quadro estranho ao olho humano acostumado ao céu noturno do planeta Terra. Acontece que o sol Árcon ficava a 34 mil anos-luz da Terra, situando-se em meio ao grupo estelar M-13, no qual mais de 100 mil estrelas se comprimiam num setor do espaço que media 230 anos-luz de diâmetro. Muitos dos sóis ficavam tão próximos uns dos outros que quase poderiam ser considerados sóis geminados do mesmo sistema, embora não o fossem no sentido astronômico.
Árcon ficava praticamente no centro desse grupo estelar. Encontrava-se no momento a três anos-luz dos dois monstros espaciais, que gravitavam em torno de um sol gigantesco a uma distância superior a trinta bilhões de quilômetros.
Com um único salto através do hiperespaço, Perry Rhodan fugira da área controlada pelos arcônidas e esperava que nas proximidades do sol vermelho tivesse tempo de habituar sua tripulação às peculiaridades da nave gigante de que se apoderara. Na situação em que se encontravam, o regresso imediato à Terra parecia-lhe muito arriscado.
Aquela nave apresada era um dos monstros espaciais.
Era de formato esférico, tal qual a velha Stardust, mas tinha quase o dobro do tamanho desta. Esse supercouraçado dos arcônidas, de um quilômetro e meio de diâmetro, deixava para trás tudo que Rhodan ou qualquer ser humano teria sido capaz de imaginar. A propulsão e o armamento seguiam, em princípio, o modelo da Stardust, mas evidentemente suas dimensões eram outras. No Universo conhecido, não havia nada que pudesse romper os campos energéticos defensivos da gigantesca esfera.
Duas saliências, que circundavam a esfera ao norte e ao sul da linha equatorial, abrigavam os hangares dos quarenta girinos. Tratava-se de naves esféricas de sessenta metros de diâmetro, que a qualquer momento poderiam sair das comportas da nave-mãe para intervir nas ações programadas. Sua tripulação mínima era de quinze homens.
Ao lado dessa gigantesca esfera, a nave espacial Ganymed até parecia um objeto delicado, embora seu comprimento fosse de 840 metros e, no lugar em que era mais grossa, seu diâmetro chegasse a 220 metros. Todavia, não era apenas pelo tamanho, mas também pelo formato cilíndrico que se distinguia da gigantesca esfera, que Rhodan batizara com o nome Titan.
A bordo da Ganymed, encontravam-se trezentos tripulantes, que ficaram livres dos treinos de adaptação aos quais tinham de submeter-se as 700 pessoas que se achavam na Titan, quer gostassem, quer não. É que fazia poucos dias que a Titan se encontrava em poder de Rhodan.
A sala de controle tinha o dobro do tamanho daquela da Stardust, que permanecera estacionada na Terra. A profusão inimaginável de instrumentos e painéis de controle oferecia um quadro por demais confuso. Se Rhodan não tivesse sido submetido ao processo de aprendizagem hipnótica dos arcônidas, provavelmente nunca chegaria a compreender sua finalidade. Mas, como sua mente armazenara as informações necessárias, ele demorou poucos segundos até que a nave obedecesse ao seu comando, fazendo exatamente aquilo que desejava. Isto deixou bastante contrariado o maior dos cérebros positrônicos do Universo, que exercia o domínio total do Império da raça decadente dos arcônidas.
Fora precisamente esta a maior surpresa com que Perry Rhodan se defrontara: não eram os arcônidas nem o governo real que administravam o maior império estelar da história do Universo; tais funções eram exercidas por um gigantesco cérebro positrônico. Só por isso, o Império ainda não se esfacelara.
Encostado ao painel de controle, Rhodan olhava seus amigos e colaboradores que, depois do exercício, haviam sido convocados à sala de comando para um lanche.
O telepata John Marshall, representante do exército de mutantes e australiano de nascimento, encontrava-se ao lado de Thora, a arcônida, que vira destruído de forma tão chocante seu sonho de um regresso triunfal para Árcon. Seu vulto ereto não traía a amarga decepção que, no íntimo, a deixara arrasada. Pelo contrário. Rhodan tinha a impressão de que a arcônida de cabelos claros e olhos dourados nunca parecera tão forte e decidida como agora. E Crest, companheiro antigo de Thora e chefe da expedição espacial realizada treze anos atrás, e que terminara num pouso forçado na Lua terrana, parecia ter acordado naquele instante de um sono longo e repousante.
Rhodan sentiu-se aliviado ao constatar a modificação positiva ocorrida com os amigos. Chegara a recear que a decepção os deixaria aniquilados, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário.
O coronel Freyt, que no momento comandava a Ganymed, também estava presente. Apresentava certa semelhança exterior com Perry Rhodan, o que lhe provocava um orgulho infundado e levava Bell a, vez por outra, fazer dele o alvo de suas zombarias.
Bell estava perto de Tiff. O jovem tenente, antigo cadete da Academia Espacial terrana, conquistara a confiança plena de seu superior mais graduado e já pertencia à família, segundo a expressão que Bell costumava usar. As ações comuns já realizadas fizeram com que Tiff e Bell se tornassem bons amigos.
Ainda havia Gucky.
Era um ser de cerca de um metro de altura, coberto de pêlo marrom-avermelhado, que parecia um enorme rato com o rabo achatado de um castor. Os olhos castanhos de expressão meiga fizeram com que fosse apelidado de “monstro de olhos fiéis”. No fundo, Gucky não deixava de ser um monstro, ao menos no que dizia respeito às suas faculdades. No momento em que esse animal — Gucky gostava de ser designado assim, pois de forma alguma queria ser considerado um homem — entrou sorrateiramente a bordo da Stardust, quando esta se encontrava pousada no planeta do sol moribundo, e recorreu à sua capacidade telecinética para fazer suas brincadeiras, ninguém imaginava que também possuía o dom da telepatia e da teleportação. Nem mesmo o próprio Gucky desconfiava disso. Só o aprendizado meticuloso ministrado pelos mutantes de Rhodan fez com que essas faculdades viessem à tona.
A essa altura, Gucky era um dos melhores amigos de Rhodan e um dos elementos mais capazes de sua equipe.
Sentado em posição ereta, apoiava as costas contra a parede. O dente roedor solitário avançava ligeiramente e parecia exibir um sorriso alegre. Nos olhos suaves, via-se certa impaciência.
Depois de algum tempo, Gucky disse num intercosmo impecável:
Se não estou enganado, todo mundo já chegou. Por que não começamos? Estou curioso para saber onde estamos e o que vamos fazer.
Sua voz era aguda e chilreante. Bell sorriu e, discretamente, cutucou Tiff.
Ainda bem que temos Gucky. Só assim não tive que formular uma pergunta tão tola.
Rhodan sorriu para o rato-castor e lançou um ligeiro olhar de censura para Bell. Não era esta a hora para aquele tipo de discussão, que geralmente terminava com a derrota de Bell.
Suponho que todos conheçam a situação — principiou em tom objetivo. — A estrela gigante vermelha não consta dos mapas terranos e ainda falta dar-lhe um nome. Os cálculos já realizados demonstraram que quinze planetas circulam em torno dela, e que alguns deles são habitados ou pelo menos ligeiramente colonizados. Não temos certeza, mas ao quê tudo indica o quarto planeta é o mundo principal do sistema. Por enquanto nossa presença não foi notada. Aliás, com um tráfego destes, isso não é de admirar.
Tráfego? — perguntou Tiff perplexo.
Isso mesmo, tráfego. Não se esqueça de que nos encontramos no centro de um enorme império estelar. Os três anos-luz que nos separam de Árcon praticamente não representam nada. De qualquer maneira, aqui estamos mais seguros do que estaríamos em algum ponto abandonado da Galáxia, onde nenhuma transição deixaria de ser registrada. Aqui nossa transição apenas foi uma entre muitas outras. Ninguém notou que aparecemos neste lugar. Por isso acho preferível que prossigamos aqui com o treinamento da tripulação, antes de traçarmos nossos planos de regresso à Terra. Se é que o faremos.
Bell adiantou-se. Achou que devia formular uma pergunta que interessava a todos.
Por que vamos continuar aqui? Não cumprimos nossa missão? Não procuramos levar Thora e Crest para Árcon? Pergunte a eles mesmos se ainda estão interessados em permanecer nesta área da Via Láctea, onde formigam a decadência e os cérebros robotizados.
Thora parecia prestes a dizer alguma coisa, mas permaneceu calada. Rhodan pegou o fio da meada.
Acha que já cumprimos nossa missão? Pois eu não acho. O que foi que descobrimos? Um cérebro construído pelos arcônidas, que já foram um povo muito capaz, governa este reino estelar com a violência e a lógica mais fria. Se não fosse este cérebro, o Império já teria deixado de existir, Bell. Acontece que também esse cérebro pode cometer um engano. Já tivemos uma prova disso; se não a tivéssemos, a esta hora não estaríamos vivos. O cérebro cometeu um engano. Isso prova que vale a pena tentarmos um entendimento. Quem nos garante que a esta hora um couraçado não está a caminho da Terra para destruí-la por ordem do Império dos Arcônidas? É possível que o cérebro robotizado conheça nossa posição, embora não tenhamos certeza. Se os tais dos mercadores a revelarem aos arcônidas, todo cuidado será pouco. A alternativa com que nos defrontamos é muito simples: devemos tentar mais uma vez chegar a um entendimento com o cérebro, ou será preferível regressarmos à Terra assim que conheçamos perfeitamente esta nave e estejamos em condições de manobrá-la? Não temos outras escolhas. Thora disse:
Não demorará muito para sermos descobertos por aqui. Afinal, esta nave foi roubada. Não acredite, Perry, que se conformarão com um fato destes sem usarem uma réplica. Dentro de pouco tempo, o cérebro saberá onde nos encontrar.
Dentro de quanto tempo?
Dentro de alguns dias, talvez semanas. Depende do lugar em que começarem a nos procurar, e também do comportamento dos habitantes do sistema da estrela vermelha. Aliás, o senhor não precisa dar nome a essa estrela, pois ela já o tem. Costumamos chamá-la de Voga. Voga tem quinze planetas. O quarto é o mundo principal e seu nome é Zalit. Os zalitas sempre foram súditos fiéis do Império. Não acredito que isso tenha mudado.
Zalit é um mundo de oxigênio?
É um mundo de oxigênio, como a maioria dos mundos habitados. Zalit foi colonizado pelos arcônidas há quinze mil anos. Quer dizer que os zalitas são nossos descendentes diretos. E a grande proximidade de Árcon é uma garantia de sua fidelidade.
Rhodan não deixou de perceber a ameaça que estava implícita nas palavras da arcônida, pois tratava-se de uma ameaça que não era dirigida a ele.
Não sabemos o que terá mudado por aqui — disse em tom cauteloso. — Não se esqueça do que aconteceu em Árcon nos últimos treze anos. A dinastia reinante desapareceu; a senhora e Crest foram condenados ao ostracismo, porque outra família assumiu o poder. Será que em Zalit não pode ter acontecido uma coisa semelhante?
Se tivesse acontecido, Zalit já teria deixado de existir — respondeu Thora.
Crest confirmou com um gesto da cabeça.
Thora tem razão, Perry. Nesse caso Zalit já não mais existiria.
Bell não agüentou mais.
Por quê? — indagou. — Não venha me dizer que essa gente mole e decadente de Árcon teria tido coragem para atacar e destruir um sistema. Os arcônidas preferem ficar sentados diante dos seus televisores para contemplar figuras coloridas abstratas. A única coisa que sabem fazer é permitir que o cérebro robotizado faça o papel de governo.
Essa é uma fala muito perigosa — disse Rhodan com um sorriso muito significativo. — Acontece que é correta, e é justamente aí que está o problema. Deixam tudo por conta do cérebro gigantesco dotado de pensamento autônomo que dirige o Império. E é muito raro que esse cérebro tome uma decisão errada. Sinto muito, Bell, mas Thora tem razão. O fato de que Zalit existe pode ser admitido como prova de que seus habitantes são súditos fiéis do Império.
E daí?
Isso significa que, se surgir algum contato, teremos de agir com muita cautela. Antes de mais nada, estou interessado em conquistar a confiança do cérebro robotizado. Sabemos que age de acordo com uma programação específica bastante antiga e está perfeitamente informado sobre a situação reinante em Árcon. Logo, sabe que seus construtores estão em plena decadência e tem interesse em selecionar e despertar os seres da raça arcônida que ainda sejam capazes de pensar. Comparados com o resto dos arcônidas, Crest e Thora podem ser considerados jovens impulsivos. Por isso o cérebro os reconhece, mesmo que não os aceite em definitivo. Tenho certeza de que também eu seria reconhecido, se conseguisse provar ao cérebro que minhas intenções são honestas.
Reconhecido como quê? — interveio o coronel Freyt, que até então havia permanecido em silêncio. — Como arcônida?
Rhodan sorriu.
Faça-me o favor, coronel! Só poderia ser reconhecido como membro de um povo auxiliar leal. E isso bastaria. Ao menos poderia conservar esta nave e deslocar-me tranqüilamente no interior do Império. A Terra não correria mais nenhum perigo e gozaria da proteção indireta de Árcon.
Freyt parecia aliviado.
Acho que já começo a compreender onde o senhor quer chegar.
Fico satisfeito em saber disso, coronel. Realmente, fico muito satisfeito. Já que é assim, também compreenderá por que estou tão empenhado em que os tripulantes sejam treinados quanto antes. Quando surgir a decisão, a Titan deverá estar preparada para entrar em ação. Acontece que ainda não conhecemos esta nave. Sem dúvida é uma réplica da Stardust, embora tenha o dobro do tamanho e do poderio desta. Mas existem certas diferenças que não podem deixar de ser consideradas. Ainda ontem o oficial de rádio se perdeu de tal forma durante um exercício, que levamos quatro horas para localizá-lo num setor ainda inexplorado da nave. O senhor nem imagina o que representa uma esfera de um quilômetro e meio de diâmetro. Nela poderíamos abrigar toda a população da Terra, se a comprimíssemos como sardinhas em lata.
Isso é uma especulação puramente teórica — resmungou Bell, de longe. — E no plano teórico você não pode contar com a amizade de um cérebro robotizado.
De qualquer maneira teremos que tentar, antes que ele tenha a idéia maluca de enviar ao sistema solar uma nave dirigida por robô. É bem verdade que podemos contar com os majores Deringhouse e Nyssen, que saberão defender a Terra, mas não temos a menor idéia das armas com que a mesma será atacada.
Não acredito que o cérebro conheça a posição da Terra — interveio Thora.
Rhodan ergueu as sobrancelhas.
Por quê, Thora?
Por um segundo seus olhares se fundiram. Rhodan teve a impressão de que um calafrio descia pela sua espinha. Como eram profundos os olhos daquela mulher, da qual não conseguira aproximar-se nos últimos treze anos. Não, não era verdade. Desde que Árcon se comportara tão mal para com Thora, o contato entre ela e Rhodan tornara-se mais estreito. De uma hora para outra, transformaram-se em verdadeiros aliados, que lutavam pelo mesmo objetivo.
A barreira que os separara durante treze anos deixara de existir.
O cérebro teria tomado outras decisões e nos dispensaria um tratamento diferente. Talvez teria chegado mesmo a matar o senhor, Perry. Não sei por quê, mas tenho a impressão de que não pode conhecer a posição da Terra.
Para nós isso representaria uma vantagem estratégica — constatou o coronel Freyt.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
Isso mesmo, coronel. Aliás, o senhor pode voltar para a Ganymed assim que tivermos concluído esta conferência. Quaisquer instruções que ainda se tornarem necessárias serão transmitidas pelo intercomunicador. O uso do mesmo não representa o menor risco, pois as ondas de rádio comuns levarão três anos para chegar a Árcon.
Voltando a dirigir-se a Thora, perguntou:
Como são os zalitas?
Thora refletiu por um instante.
Como já disse, descendem dos arcônidas; logo, são como estes.
Conheço uma raça que descende dos arcônidas, mas hoje não apresenta a menor semelhança com seus antepassados.
O senhor está aludindo aos superpesados, que são a tropa de choque dos saltadores. Aí a coisa é diferente. Essa raça viveu durante milênios num planeta cuja gravitação é três vezes maior que a de Árcon. Acontece que neste ponto a diferença entre Zalit e Árcon é mínima. A única diferença que os zalitas apresentam em relação à nossa raça é a pele marrom-avermelhada e o cabelo cor de cobre, que às vezes possuem um brilho esverdeado, que lhe dá um aspecto de oxidação. Esse fato foi causado pela radiação solar a que estão expostos. São seres muito inteligentes, dominam a arte da navegação espacial e seu grau de decadência nem de longe atinge o de nosso povo. Zalit sempre foi considerado a colônia mais leal de Árcon.
Rhodan lançou um olhar atento para Thora. Depois de algum tempo perguntou:
Parece que há uma contradição em suas palavras, Thora. Se os zalitas não são decadentes, mas formam uma raça ativa e inteligente, não compreendo como podem ser os vassalos obedientes de um povo que lhes é inferior.
Uma sombra fugaz passou pelo rosto de Thora.
Como já disse, Árcon fica a apenas a três anos-luz de distância, e se houvesse qualquer revolta, o cérebro robotizado não teria a menor contemplação. Os zalitas sabem disso. Nunca poderão arriscar-se a promover uma rebelião aberta contra Árcon.
Compreendo, Thora — disse Rhodan, que viu suas suposições confirmadas.
Talvez os zalitas pudessem vir a tornar-se seus aliados.
De repente, John Marshall adiantou-se. Havia uma expressão rígida em seus olhos. Rhodan logo compreendeu que acabara de receber uma mensagem telepática. De onde teria vindo? De um dos mutantes que se encontravam a bordo da Titan?
O que houve, John?
Naquele instante Gucky saltou para a frente e chilreou em tom agudo:
É a Ganymed. Está se afastando de nós.
Marshall só pôde confirmar as palavras de Gucky com um aceno de cabeça, de tão surpreso que ficou. Parecia que por um instante se esquecera de que não era o único telepata que se encontrava na sala de comando.
O que é isso? — exclamou o comandante Freyt que, como comandante da outra nave, não podia ignorar que a mesma circulava numa órbita estável em torno do sol Voga, tal qual a Titan. — A Ganymed não pode afastar-se da Titan enquanto os propulsores estiverem desligados.
Acontece que se afasta — insistiu John. — Captei o impulso mental de um dos oficiais, que se encontra na sala de comando da Ganymed e observou o afastamento. A qualquer momento deverá entrar em contato conosco.
Realmente não demorou três segundos até que o telecomunicador começasse a dar sinal.
Com um salto, Rhodan colocou-se diante do aparelho e o ligou. Mais alguns segundos se passaram até que a tela se iluminasse e o rosto preocupado de um homem ainda jovem surgisse.
O coronel Freyt colocou-se ao lado de Rhodan.
O que aconteceu, tenente Martin? Como é que a Ganymed pode afastar-se da Titan, se...
O senhor já sabe? — perguntou Martin perplexo, mas logo compreendeu, quando viu Marshall e Gucky. — Ah, já sei. Será que os meus pensamentos foram tão intensos? Sim senhor, a Ganymed deve ter saído da órbita; aproxima-se do sol vermelho. Não me ocorre qualquer explicação. Peço instruções.
Um momento! — interveio Rhodan e ligou outras telas visuais. — Antes de mais nada, precisamos saber o que realmente está acontecendo. Talvez seja uma ilusão...
Não é nenhuma ilusão! — exclamou o tenente Martin, que se sentia desesperado porque pareciam não acreditar nele. — Não há dúvida de que nos afastamos do senhor.
Rhodan não respondeu. Aguardou até que a fileira das telas se iluminasse, exibindo o quadro do mundo exterior.
A Ganymed encontrava-se na mesma direção do sistema e afastava-se em movimento bastante acelerado na direção do sol gigante. Enquanto isso, a Titan continuava a gravitar na mesma órbita.
Não tome nenhuma providência — ordenou Rhodan. — Aguarde instruções. Entendeu?
Sim senhor — respondeu o tenente Martin, que tinha o aspecto de um homem que preferia não ter entendido. A atitude de espera não parecia ser a maior das suas paixões.
Rhodan dirigiu-se a Bell.
Formule uma indagação ao cérebro de navegação. Queremos saber se a Titan saiu de sua órbita e, em caso positivo, qual é o desvio? Ande depressa.
A Titan? — indagou Bell totalmente perplexo. — Acho que você está aludindo à Ganymed...
Não, é mesmo a Titan — disse Rhodan em tom insistente. — Já ouviu falar em ilusão ótica ou erro de relatividade, meu chapa? Não é possível constatar a olho nu se somos nós ou os outros que se deslocam ou se afastam. E, uma vez que nós nos deslocamos em direção a Árcon, tenho cá as minhas desconfianças. Entendido?
O silêncio, que de repente se instalou na sala de comando, provou que todo mundo havia compreendido.

* * *

Os cálculos provaram de forma inequívoca que alguma força invisível e não identificável arrastava a Titan para fora do campo de gravitação do sol vermelho. A Ganymed continuava a gravitar livremente em torno do gigantesco sistema.
Rhodan ligou o intercomunicador assim que Bell lhe apresentou o resultado dos cálculos positrônicos. Limitou-se a acenar com a cabeça e esperou até que a instalação se aquecesse. Com alguns movimentos da mão, entrou em contato com todos os compartimentos da nave. Sua voz seria ouvida em toda parte.
Atenção, todos os tripulantes — principiou Rhodan. Seu rosto magro com os olhos cinzentos estava tenso, revelando a vontade férrea de enfrentar não apenas os inimigos humanos mas, se fosse necessário, também o gigantesco cérebro robotizado. — Ao que tudo indica, encontramo-nos sob o efeito de fortes radiações de sucção. Uma vez que nos deslocamos em direção a Árcon, devemos supor que o emissor se localiza nesse planeta. Transmito-lhes essa informação como esclarecimento. Todos os homens deverão dirigir-se imediatamente aos postos de combate. É possível que sejamos atacados assim que nossa posição se torne conhecida. Cinco girinos devem ser tripulados e colocados em regime de prontidão para decolar. Aguardem novas instruções.
Rhodan desligou e estabeleceu contato audiovisual com a Ganymed.
É o tenente Martin? Sua posição continua inalterada. Não tome nenhuma providência. Enquanto o coronel Freyt se encontrar na Titan, o senhor exercerá o comando da Ganymed. Peço sua confirmação.
Está bem — soou a resposta lacônica antes que Rhodan interrompesse a comunicação.
Bell estava acomodado na ampla poltrona do piloto, tendo diante de si os controles de navegação. Não tirava os olhos da tela que reproduzia as áreas em que ficava Árcon. Ao que tudo indicava, contava a qualquer momento com o aparecimento de unidades da frota arcônida.
Thora e Crest pareciam indecisos. O coronel Freyt juntou-se a eles e procurou obter alguma informação sobre a estrutura do radiador de sucção que captara a Titan.
John Marshall e Tiff conversavam em voz baixa.
Gucky não estava mais por ali. Devia ter saído da sala de comando sem que ninguém o percebesse, para mais uma vez trilhar seus próprios caminhos.
Com um movimento repentino, Rhodan ativou os propulsores situados ao redor da linha equatorial da nave. Os gigantescos conversores de impulsos desenvolviam tamanha potência, que a nave Titan, acelerada à razão de 600 quilômetros por segundo ao quadrado, era capaz de atingir a velocidade da luz em menos de dez minutos. Graças aos campos antigravitacionais, que funcionavam automaticamente, não se percebia a enorme pressão, que corresponderia a sessenta mil vezes a gravitação normal da Terra.
Rhodan foi ativando os propulsores dirigidos para Árcon.
Bell teve trabalho.
O cérebro de navegação foi cuspindo os primeiros resultados. A distância que os separava do sol vermelho de Voga continuava a crescer na mesma proporção. E isso não se alterou quando Rhodan deu maior potência aos propulsores, aumentando a força que trabalhava em sentido contrário a Árcon. Até parecia que alguma coisa neutralizava o mecanismo de propulsão da Titan.
O rosto de Rhodan assumiu uma expressão mais séria.
Lançou um olhar para Bell. Hesitou por um instante e ligou os propulsores para a potência máxima.
No interior da gigantesca esfera, cresceu o zumbido e a vibração dos conversores. Os ouvidos dos homens começaram a ressoar e a palpitação do próprio coração foi ouvida de forma quase dolorosa, como se fosse a pulsação de um enorme Universo. O chão sob os pés começou a tremer.
A Titan lutava com todas as forças contra a tremenda energia que se apoderara dela e pretendia arrastá-la em direção a Árcon.
Bell comprimiu algumas teclas. O cérebro de navegação começou a funcionar com um zumbido e, poucos segundos depois, empurrou uma fita estreita de metal cintilante para cima da mesa.
As cifras gravadas na mesma eram claras e inequívocas.
Continuavam a afastar-se de Voga com a mesma velocidade. Rhodan desligou os propulsores. Sua voz fria interrompeu o silêncio repentino:
O cérebro robotizado é mais forte que nós. E agora?
O coronel Freyt provou que era dotado de um raciocínio rápido.
Precisamos saber se os raios de tração atingem apenas a Titan. Sabemos que a Ganymed está livre de sua influência. Se isso também acontece com os girinos, podemos pegar alguns deles e voltar à Ganymed.
Rhodan acenou com a cabeça.
Não há dúvida de que com isso nos salvaríamos, mas perderíamos a nave mais potente do Universo. Acredito que a Terra ainda precisará da Titan. Devemos desistir dela por uma simples questão de segurança pessoal?
O que adianta tudo isso se nos tornarmos prisioneiros de Árcon? — perguntou Freyt em tom exaltado. — O que conseguiríamos com isso?
Nada — admitiu Rhodan em tom objetivo. — Não pretendo entregar-me voluntariamente a uma prisão da qual mal acabamos de escapar. Mas não pretendo desistir tão depressa. Desta vez também deve haver uma possibilidade de enganar o cérebro. De qualquer maneira, só pretendo defrontar-me com ele quando dispuser de um trunfo.
Trunfo?
Isso mesmo. Apenas quero que me reconheça.
Freyt não respondeu. Sem dizer uma palavra olhava para as telas e viu que o sol de Voga já começava a encolher. A velocidade da Titan devia ter aumentado consideravelmente.
A Ganymed era vista apenas como um pontinho luminoso.
De repente, Tiff começou a falar:
Será que a radiação emitida pelo cérebro robotizado pode ser medida?
Rhodan lançou-lhe um olhar indagador.
O que quer dizer com isso?
Se a mesma puder ser medida e, portanto, constatada, saberemos ao menos se a mesma age apenas sobre a Titan, ou se é irradiada para o espaço ao acaso e só nos atingiu sem querer e de forma totalmente difusa.
O rosto de Rhodan iluminou-se. Fez um gesto amável para o jovem tenente e voltou-se para Bell.
O que dizem os instrumentos? Refiro-me principalmente aos medidores de radiações embutidos nas paredes externas.
Dali a dois minutos tiveram a resposta. A intensidade dos raios de tração podia ser medida; portanto, constatava-se em qualquer tempo ou lugar se as radiações estavam presentes.
A comunicação com a Ganymed não demorou a ser estabelecida. Um ligeiro exame revelou que a mesma quantidade de raios de tração agia sobre a antiga nave dos saltadores, mas sem o menor resultado.
Era este o ponto de partida fundamental.
Rhodan tirou suas conclusões com a lógica que lhe era habitual.
Muito bem. Já sabemos que só a Titan obedece à vontade do cérebro robotizado; a Ganymed não é atingida pela mesma. Daí podemos concluir com alguma segurança que nesta nave deve haver uma ligação especial, que pode ser ativada pelo cérebro até mesmo a uma distância de três anos-luz. Depois de ativada a chave, e só depois disso, os raios de tração tornam-se eficazes. Portanto, o problema com que nos defrontamos é o de localizar e neutralizar a ligação especial — lançou um olhar de desafio ao coronel Freyt. — Então, coronel, ainda acha que seria preferível abandonarmos esta bela nave e fugirmos para a Ganymed?
Podemos fazer o possível para conservá-la — disse Freyt. — Não seria nada mau.
Rhodan sorriu, mas logo se tornou sério quando Bell lhe forneceu o próximo cálculo de navegação. A velocidade da Titan duplicara.
Como é que vamos encontrar esta maldita ligação? — perguntou Bell com a voz zangada. — Numa nave que é um mundo por si...
Os conversores não falharam; continuariam a trabalhar sem a menor alteração. Portanto, a ligação só pode localizar-se entre as salas dos propulsores e o anel externo de emissão de radiações — retrucou Rhodan. — Com isso o espaço em que devemos concentrar nossas buscas fica bastante menor — olhou em torno. — Aliás, onde está Gucky?
Ao que parecia, também os outros só agora se davam conta de que o rato-castor não se encontrava mais na sala de comando.
John Marshall disse em tom de decepção.
Não consigo captar seus impulsos mentais; deve tê-los isolado.
Talvez esteja na... — principiou Bell, mas interrompeu-se em tempo ao ver Thora.
Sorriu. A imagem daquilo que pretendia dizer era muito esquisita.
Talvez Anne Sloane possa ajudar-nos — sugeriu Marshall.
Anne Sloane era uma ótima telecineta do exército de mutantes e já provara por várias vezes que suas faculdades não ficavam atrás das de Gucky. Infelizmente era menos versada em assuntos técnicos que o rato-castor inteligente.
Gucky não pode ter desaparecido — disse Rhodan. Finalmente concordou com um ligeiro aceno de cabeça. — Muito bem, Marshall, vá chamar Anne.
Depois que o telepata tinha saído da sala, Freyt perguntou:
Por que não chamou Miss Sloane pelo intercomunicador?
Porque não quero deixar a tripulação nervosa — respondeu Rhodan. — Ainda não se habituou à nave e não confia na Titan. Isso só mudará depois que tivermos passado galhardamente pelos primeiros batismos de fogo — olhou para as telas. — Este é o primeiro.
John Marshall voltou dali a dez minutos. A expressão de seu rosto era de uma estupidez indescritível. Apesar da seriedade da situação Bell divertiu-se com aquele quadro, que para ele era extremamente alegre, mas preferiu conservar esta opinião para si. Rhodan perguntou em tom perplexo:
O que houve? Até parece que alguém lhe roubou a ração de emergência.
Anne Sloane não estava mais lá. Gucky a chamou há dez minutos. E também levou Wuriu Sengu.
Sengu era um japonês que, graças a um dom resultante da mutação por que passara, enxergava através de matéria compacta. Costumava ser designado como o espia do exército de mutantes.
Ah, é? — perguntou Rhodan. Nem parecia muito decepcionado. — Quer dizer que já se pôs a caminho com Miss Sloane e Sengu para agir por conta própria. Só mesmo Gucky!
Como será que ficou sabendo disso? — perguntou o coronel Freyt perplexo. — Não estava mais na sala de comando quando realizamos as medições.
Não se esqueça de que é um telepata; deve ter acompanhado nossa conversa. E resolveu tomar logo as providências que se tornavam necessárias. Não posso deixar de reconhecer que agiu com muita inteligência ao procurar reforços, sem esquecer o espia. Bem, acho que podemos aguardar tranqüilos para ver o que vai acontecer. E não demorará para termos outras informações...
A suposição de Rhodan revelou-se verdadeira.
Bell acabara de levantar-se e estava conversando com o coronel Freyt, quando o ar agitou-se na sala e os contornos do rato-castor começaram a assumir forma. Sem dar a menor atenção às demais pessoas que se encontravam presentes, arrastou-se em direção ao lugar do piloto e com um salto escorregou para dentro da poltrona vazia de Bell. O dente-roedor emitia um brilho triunfal. Gucky estava sorrindo.
Rhodan aguardou paciente, enquanto ao longe, Bell começou a esbravejar. Depois ficou calado quando Gucky se virou num gesto de advertência, levantou a pata esquerda e apontou para o teto. Bell não teve a menor vontade de constatar mais uma vez que um telecineta é mais forte que o comum dos mortais, mesmo que este tenha passado por uma ducha celular.
Tranqüilizado, Gucky voltou a encarar Rhodan.
A ligação ficava junto ao cinturão externo e estava hermeticamente fechada. Mesmo com os instrumentos mais eficientes e os cortadores de impulso mais potentes teríamos levado meses para romper as grossas paredes de arconita. Reunindo minhas forças às de Anne, consegui desligar e bloquear o contato — Gucky continuava a sorrir. — Só mesmo a telecinese seria capaz de uma coisa dessas. Acho que os construtores da nave não contaram com esta possibilidade.
Foi um serviço bem feito — elogiou-o Rhodan, acariciando o pêlo sedoso da nuca do rato-castor. — Às vezes, chego a acreditar que nunca conseguiria arranjar-me sem você.
Gucky parou de sorrir. O dente roedor desapareceu num instante. Num gesto quase humilde o pequenino sujeito inclinou a cabeça e colocou o rosto sobre as mãos de Rhodan, que puxara para junto de si.
Depois voltou a levantar-se e virou-se.
Bell, logo lhe mostrarei quem de nós é o maior hipócrita. Você merece outra lição.
Antes que alguém pudesse impedi-lo, Gucky desceu da poltrona, caminhou em direção a Bell e desapareceu juntamente com o homem tomado de surpresa, que não soube controlar seus pensamentos.
Gucky teleportara-se com ele para outro lugar.
O coronel Freyt parecia perplexo.
O que é isso?
Rhodan sorriu e deixou que o controle de navegação começasse a funcionar.
O senhor terá de acostumar-se a isso, coronel. Gucky e Bell são os melhores amigos deste mundo; apenas, não querem confessá-lo. Pelo que conheço do rato-castor, o mesmo dará uma lição àquele atrevido, para ter sossego por alguns dias. Ah, o resultado... — segurou a fita e fez um gesto de satisfação. — Apenas desenvolvemos a velocidade resultante da massa da nave. Será fácil modificar isso.
Mais uma vez os conversores de impulsos começaram a uivar, mas dessa vez sua atividade não ficou sem resultado. Dentro de poucos segundos o vôo vertiginoso da Titan em direção a Árcon foi neutralizado e a nave começou a deslocar-se em sentido contrário. Dali a dois minutos, voltaram a avistar a Ganymed.
Pelas novas medições concluiu-se que os raios de tração do distante cérebro robotizado continuavam a agir com a mesma intensidade; apenas, não encontravam mais nenhum ponto de apoio. Com isso ficou provado que sua posição não era conhecida, e que só por acaso foram atingidos pelas radiações emitidas ao acaso.
Quando a Titan se encontrava novamente perto da Ganymed e voltara a descrever a órbita anterior, Gucky apareceu na sala de comando. Quando perguntaram por Bell, fez a cara mais inocente deste mundo e não deu qualquer resposta.
Só quando Bell deixou de comparecer à conferência seguinte, Rhodan começou a preocupar-se. Não estivera em seu camarote. Será que resolveu dar mais algumas voltas para explorar a nave? A repugnância que o tamanho da esfera lhe causava era bem conhecida; logo, também não devia contar com essa possibilidade.
Gucky permaneceu calado. E Marshall não conseguiu descobrir nada, já que o rato-castor bloqueou seu cérebro.
Só dali a seis horas um dos técnicos, que estava fazendo uma ronda pelos corredores do segmento interior da esfera, ouviu batidas estranhas vindas de um setor da nave onde até então ninguém havia pisado. Seguiu a direção do som e, em sua imaginação, já se via diante de monstros desconhecidos que deviam habitar as profundezas da gigantesca esfera.
As batidas vinham da área em que ficavam as instalações sanitárias.
As mesmas foram entremeadas por um terrível uivo, igual ao que seria emitido por alguém que não sabia se devia dar preferência à raiva ou ao desespero.
O técnico viu-se diante de uma porta trancada. A fechadura, que era muito simples, só podia ser acionada pelo lado de fora, caso não tivesse sido trancada por dentro.
Afinal, os construtores da Titan eram apenas humanos.
O técnico também. Sentiu compaixão, mesclada com um heróico arrojo de descobridor.
Puxou a arma e abriu a porta. Teve a cautela de saltar para trás e levantar a arma, mas logo a baixou quando viu a miserável figura humana que, depois de seis horas de espera, finalmente pôde sair do compartimento que não fora dimensionado para uma permanência tão longa.
Não era outro senão Bell, há tanto tempo desaparecido. Ninguém sabia como poderia ter entrado num compartimento fechado por fora. Só Rhodan e as pessoas que com ele se encontravam na sala de comando tinham suas desconfianças.
Além de Bell, só uma pessoa sabia o que realmente havia acontecido. Era o rato-castor, que fitava o mundo com os olhos mais ingênuos que se poderiam imaginar.
Mas tanto este como Bell preferiram calar a boca.
2



O calendário automático de bordo, regulado para o tempo terrano, indicava o dia 17 de junho de 1.984. Desde o dia anterior não houvera qualquer alteração.
A sala de rádio da Titan ficou guarnecida o tempo todo e os receptores trabalhavam ininterruptamente para captar e registrar todas as notícias irradiadas de Árcon. Os rastreadores estruturais constatavam toda e qualquer transição que se realizasse nas áreas próximas e armazenavam os respectivos dados no cérebro positrônico de bordo, que os forneceria a qualquer tempo.
Por esses dados, no sistema a que pertencia o sol Voga, ocorriam cerca de quinhentas transições por hora.
Não era de admirar que a Titan ainda não fora descoberta.
Aos poucos Rhodan começou a ter uma idéia exata da situação em que se encontravam. Sem dúvida, o cérebro robotizado de Árcon desencadeara o alarma geral. Todas as forças estacionadas na nebulosa M-13 haviam sido instruídas a dar aviso assim que avistassem o gigante espacial. Não foi expedida nenhuma recomendação para um ataque direto, pois o cérebro robotizado sabia perfeitamente que na mão de um comandante audacioso a nave roubada era inexpugnável.
Com isso teve início a maior operação de busca jamais realizada naquele setor da Via Láctea. Ninguém poderia supor que em qualquer parte da Galáxia já teria havido algo de parecido.
Rhodan manteve-se na expectativa. Enquanto não o descobriam, dispunha de tempo para prosseguir no treinamento da tripulação. Só depois de concluído esse treinamento poderia elaborar novos planos. Então o regresso à Terra não constituiria mais nenhum problema.
Mas antes disso, pretendia conseguir uma coisa: queria provar ao cérebro robotizado que era um amigo do Império.
As informações continuavam a chegar. Eram fornecidas pelo chefe do setor de rádio.

Setor BM-G-Y-387-J. Transições intensas na direção CN-G-6-K.
Nenhuma unidade nossa no setor. Prosseguimos nas investigações.
Provavelmente mais de uma nave. Fim.

Não havia assinatura. Nenhuma indicação. Apenas o aviso.
Bell, que já se recuperara de sua aventura pessoal, devolveu o bilhete e olhou para Rhodan.
E daí? Já estamos ouvindo isto há horas. Não devem estar aludindo a nós.
Ninguém afirmou que estejam, mas é bem possível que de repente seja expedido um aviso para Árcon que nos diga respeito. Devemos estar preparados para isso.
Bell passou a mão pelo queixo.
Não compreendo por que você faz questão de ficar por aqui quando temos uma excelente oportunidade de dar o fora sem que ninguém o perceba. Deixe que o cérebro robotizado pense a nosso respeito o que quiser. O que importa é estarmos fora de seu alcance.
Quem poderia dizer qual é o alcance de um cérebro como este? — disse Rhodan com o sorriso frio.
Bem, esta nebulosa tem um diâmetro de menos de duzentos e trinta anos-luz. É de supor que isso baste ao monstro.
Pois eu acho que provavelmente não basta. A segurança do Império é o mais importante. Ao que tudo indica, representamos uma ameaça a essa segurança. Tenho certeza de que, quando surgir uma ameaça, o alcance do cérebro não seja medido por anos-luz. E ainda tenho certeza de que está em condições de, dentro de meia hora, lançar a partir daqui um ataque contra a Terra e destruí-la. Basta que isso lhe pareça necessário, e a posição de nosso planeta lhe seja conhecida. Será que você já começou a compreender o perigo que nos ameaça?
Bell parecia assustado, mas assim mesmo contestou as palavras de Rhodan:
E daí? O que você espera conseguir ficando por aqui? Nem por isso o cérebro se tornará menos implacável. Afinal, roubamos uma nave do Império.
Se conseguirmos provar que isso foi feito apenas em benefício do Império, o cérebro robotizado não poderá fechar-se a esse tipo de lógica. Apenas, teremos que apresentar a prova.
Como pretende fazer isso?
Quando Rhodan esteve a ponto de responder, um dos operadores de rádio entrou na sala.
Ligue as telas de observação ótica. Uma nave vinda do sistema de Voga aproxima-se de nós.
Rhodan agiu com uma rapidez fulminante. Com alguns movimentos manuais, pôs as telas a funcionar. Só depois disso formulou sua pergunta ao operador de rádio:
Uma única nave? É muito grande?
Não acredito que represente qualquer perigo. Tem menos de cem metros de comprimento. Não desenvolve mais que a velocidade da luz e, se realizar a desaceleração normal, deverá estar aqui dentro de meia hora.
Obrigado — respondeu Rhodan e viu que as telas se iluminaram. — Preste atenção aos sinais transmitidos pelo rádio e avise-me assim que surgir qualquer novidade.
Voltou a dedicar sua atenção às telas, onde começou a surgir o espaço cósmico. Era difícil fazer o reconhecimento da nave em meio à profusão de estrelas. Bell ligou o localizador especial, que funcionava segundo um princípio semelhante ao do radar. Não demoraria mais que alguns segundos para localizar a nave desconhecida.
Uma vez regulado o amplificador, a nave surgiu nitidamente na tela especial. Realmente tinha cem metros de comprimento, seu formato era o de um torpedo e na parte mais espessa devia ter uns vinte e cinco metros de diâmetro. Uma fileira de escotilhas redondas estava iluminada, daí se concluía que seus ocupantes não faziam questão de permanecer ocultos. E a rota, que se dirigia exatamente para o ponto onde se encontrava a Titan, constituía outra indicação que reforçava tal conclusão. Bell estreitou os olhos.
Parece que teremos visita. Será que acreditam que nossa nave é do Império?
Acho que a notícia do roubo já deve ter corrido por aí — disse Rhodan, exprimindo opinião diferente. Estabeleceu contato com a Ganymed, que flutuava no espaço a menos de dois quilômetros de distância. O tenente Martin respondeu. Rhodan pediu-lhe que avisasse imediatamente o coronel Freyt para atender ao telecomunicador.
Dirigindo-se a Bell, prosseguiu sem interromper a comunicação:
O comandante dessa nave sabe perfeitamente quem tem diante de si. E isso me deixa mais espantado com seu comportamento que, para usarmos um termo suave, pode ser qualificado de atrevido.
Estou curioso para ver esse sujeito — disse Bell muito alegre.
O coronel Freyt apareceu na tela.
Já o notamos — disse, aludindo evidentemente à nave desconhecida. — Vem do sistema. Se não estou muito enganado, deve ser um zalita.
É muito provável que seja — confirmou Rhodan. — Seja como for, coloque a Ganymed em estado de prontidão para a defesa. Não sabemos de que tipo de armamento dispõem os zalitas. Se surgir algum perigo, não aguarde minhas instruções. Destrua o desconhecido, mas só o faça em legítima defesa. Entendido?
Entendido. Só em legítima defesa.
Rhodan desligou. Podia confiar em Freyt. Pelo aparelho de intercomunicação de bordo estabeleceu contato com a sala de estar dos mutantes. John Marshall respondeu ao chamado.
É a sala de comando que está falando — disse Rhodan. — Marshall, mantenha-se de prontidão juntamente com todo o destacamento. Peça a Ralf Marten e a Gucky que venham até aqui. Apresse-se. Prepare Ras Tschubai e Tako Kakuta para uma possível missão. Fim.
As pessoas nomeadas por último eram teleportadores, que pela simples força da vontade podiam transportar-se para qualquer lugar. Ralf Marten possuía outro dom, que possibilitava a execução de uma missão de reconhecimento sem despertar a atenção de ninguém. Era o teleótico do destacamento. Estava em condições de neutralizar seu ego, vendo e ouvindo pelos olhos e ouvidos de outras criaturas. Sem que a pessoa o soubesse, o espírito de Marten podia instalar-se nela e utilizar seus reflexos.
Para que precisamos de Marten? — perguntou Bell admirado. — Será que você pretende fazer uma visita indireta àqueles desconhecidos?
Por que não? — respondeu Rhodan laconicamente, pois no mesmo instante Marten e Gucky entraram na sala. O rato-castor lançou um olhar galhofeiro para Bell, arrastou-se até a poltrona mais próxima e subiu à mesma. Ralf Marten aguardou, cortês, junto à porta, até que Rhodan lhe fizesse sinal para acomodar-se na outra poltrona.
Uma nave desconhecida aproxima-se da Titan — explicou, já que Ralf Marten não era telepata. — Quero saber quem está a bordo da mesma e quais são os planos. Gucky, já captou algum impulso?
Já, sim, mas são impulsos muito estranhos — disse o rato-castor com a voz tranqüila. — Não consigo entendê-los.
Não são pensamentos ordenados?
Há alguns, mas os mesmos são superados por outros impulsos, que para mim se tornam incompreensíveis. Quer que salte? A distância já não é tão grande e a nave aproxima-se a uma velocidade de apenas quinhentos metros por segundo.
Como sabe disso?
Gucky sorriu.
Está escrito ali no observador.
Rhodan ficou aborrecido por ter formulado uma pergunta supérflua. Mas nem mesmo ele podia estar livre de uma coisa dessas. Nós últimos minutos, deixara de prestar atenção à nave desconhecida.
Marten, procure introduzir-se no corpo de um dos seres que se encontram a bordo daquela nave, pois precisamos saber o que há por lá. Escolha qualquer indivíduo, pois esse detalhe não tem a menor importância. Enquanto isso, Gucky continuará a captar impulsos e talvez acabe por identificar um deles. Não é possível que nessa canoa só exista gente maluca.
Ralf Marten recostou-se na poltrona e fechou os olhos. Poucos segundos depois uma rigidez cadavérica apossou-se de seu corpo. Sua respiração era muito débil e o pulso era quase imperceptível.
Já se encontrava a muitos quilômetros de distância, a bordo da outra nave.
Gucky suspirou e voltou a mergulhar na sua tarefa de ir ao encontro do desconhecido com suas antenas telepáticas. Seu cérebro extremamente eficiente captou grande quantidade de impulsos mentais, e alguns deles tinham um sentido definido. Mas todos eles eram superados por padrões abstratos de pensamento, que não conseguia interpretar.
De súbito sentiu uma coisa diferente...
Alguma coisa parecia caminhar cautelosamente em direção ao seu cérebro. Ainda hesitava, como se estivesse cego e tentasse ao acaso. Gucky estacou e logo se isolou, sem dar sinal de si. O desconhecido continuou a tatear, parecia não encontrar nada, e desapareceu.
Gucky já sabia a quantas andava.
Sacudiu o corpo e olhou para Rhodan.
Os ocupantes dessa nave são ésperes — disse em tom pensativo. — São telepatas que também possuem uma capacidade sugestiva pouco desenvolvida. Bem que poderia ter imaginado.
Rhodan ficou surpreso.
Thora não mencionou quaisquer capacidades parapsicológicas dos zalitas. Hum, que coisa estranha! Tem certeza, Gucky?
Tenho certeza absoluta, Rhodan. Não tenha a menor dúvida, pois um deles tentou encontrar-me. Mas parece cego. Se fosse um sugestor, eu não teria a menor dificuldade em penetrar num cérebro e influenciá-lo. Mas ao que parece os esperes que se encontram nessa nave só são capazes disso quando têm a percepção ótica de sua vítima.
Vamos esperar para ver o que Marten tem para contar. Já se mexe.
Ralf Marten gemeu baixinho e repentinamente abriu os olhos. Parecia que acabara de despertar de um sonho que podia ser tudo, menos agradável. Nos seus olhos perscrutadores até se lia um certo pavor.
Graças a Deus! — disse baixinho e ergueu-se ligeiramente. — Não esperava uma coisa desta.
Conte logo — insistiu Rhodan. — Não temos muito tempo.
Marten fez que sim.
Quando consegui enxergar de novo, vi seres humanos. Pareciam iguais a nós, apenas tinham pele marrom-avermelhada e cabelos cor de cobre. Seus rostos não são malvados, e ao que parece suas intenções para conosco não são más. Mas não foi isso que me assustou, e nem poderia ser. Tudo parecia tão apagado como se estivesse olhando através da água. E foi isso mesmo. Encontrava-me num recipiente de vidro. Ou melhor, quem se encontrava lá foi o corpo no qual me introduzi.
Rhodan não compreendeu uma palavra do relato de Ralf Marten, mas não o interrompeu. Sabia que obteria uma resposta às suas indagações silenciosas. Se é que Marten sabia essa resposta.

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