Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
A nave
Titan é o couraçado espacial mais poderoso do Universo,
apesar
disso tem de ocultar-se dos seus perseguidores...
A
história da Terceira Potência em poucas palavras:
1971 — O
foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan descobre a nave
exploradora dos arcônidas que realizou um pouso de emergência
(Perry Rhodan, vol. 1).
1972 —
Criação da Terceira Potência, contra a resistência combinada das
grandes potências terranas, e defesa contra as tentativas de invasão
vindas do espaço (vols. 2 a 9).
1975 —
Pela primeira vez a Terceira Potência intervém nos acontecimentos
galácticos. No sistema de Vega, Perry Rhodan defronta-se com os
tópsidas e procura solucionar o enigma galáctico (vols. 10 a 18).
1976 —
Perry Rhodan atinge, a bordo da Stardust-III, o planeta Peregrino e
juntamente com Bell alcança o dom da imortalidade relativa, mas
perde mais de quatro anos (vol. 19).
1980 —
Perry Rhodan regressa à Terra e vê-se obrigado a lutar pelo planeta
Vênus (vols. 20 a 24).
1981 — O
Supercrânio ataca, colocando a Terceira Potência diante da provação
mais difícil de toda sua existência (vols. 25 a 27).
1982/1983
— Os mercadores galácticos querem transformar a Terra num mundo
colonial, mas Perry Rhodan faz o feitiço virar contra o feiticeiro e
toma-lhes uma base muito importante (vols. 28 a 37).
1984 —
Avanço de Perry Rhodan para Árcon (vols. 38 e 39).
Mesmo para
Crest e Thora, dois arcônidas que durante treze anos não tiveram
qualquer contato com seu mundo, Árcon oferece surpresas enormes, que
naturalmente são ainda maiores para Perry Rhodan e os astronautas do
planeta Terra.
Apesar
disso conseguem enganar o grande cérebro positrônico que governa
Árcon.
Apoderam-se
da Titan, a maior nave espacial do Universo conhecido.
Mas, para
conservar a Titan, têm de empenhar-se na Luta Contra o Desconhecido,
esse desconhecido que é um inimigo terrível.
=
= = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Perry
Rhodan
— Chefe da Terceira Potência.
Reginald
Bell
— Que cai na cilada que arma para Gucky.
Thora
e Crest
— Que depois de uma ausência de treze anos se vêem diante de uma
alteração política fundamental em Árcon.
Ras
Tschubai
e Tako
Kakuta
— Cujo surgimento inopinado põe em polvorosa toda uma nave
espacial.
Hemor
— Comandante de uma nave espacial de Zalit.
Demesor
— Vice-imperador de Árcon e soberano do sistema de Voga.
John
Marshall
— Um “espião
mental”
que cumpre uma missão muito importante.
1
— Isto
já não é uma nave espacial; é um planeta — disse Bell com a voz
ofegante, deixando-se cair no poço negro do elevador
antigravitacional, seguido pelo tenente Julian Tifflor que fechou
apressadamente os olhos e seguiu seu exemplo. — E estamos vivendo
dentro deste planeta.
— O
senhor tem toda razão — disse Julian Tifflor, também conhecido
por Tiff, enquanto a queda foi freada automaticamente,
transformando-se num suave flutuar. — Às vezes, chego a pensar que
a gente se pode perder neste monstro de nave.
— É
justamente por isso que realizamos com constância os alarmas de
treinamento — explicou Bell. — Devemos aprender a orientar-nos
neste labirinto.
O vermelho
sadio de seu rosto largo tornou-se mais intenso. Os cabelos vermelhos
cortados à escovinha lembravam uma escova que há muito tempo não
era limpa. Em seus olhos azuis-claros, o aborrecimento e o espírito
galhofeiro pareciam disputar a precedência.
— Eu
nunca aprenderei! — disse.
Tiff
confirmou com um movimento de cabeça, mas não respondeu. Haviam
recebido ordens para dirigir-se ao posto H-35; faltava descobrir onde
o tal ficava. A letra H indicava um hangar; logo, o posto devia ficar
junto ao casco do gigante do espaço. O elevador os fez cair em
direção ao casco externo, mas só lhes restava esperar que não
tivessem escolhido o lado errado. Se isso tivesse acontecido, teriam
dado uma volta de pelo menos três quilômetros.
Pararam
abruptamente. Tinham diante deles, o corredor muito iluminado e
identificado pela letra H.
“Bem,
até aqui está certo”,
pensou Bell aliviado e saiu do elevador.
A pouca
distância dali, um técnico perambulava à toa e fitou os dois
recém-chegados com um visível interesse.
Bell
dirigiu-se a ele.
— Um
momento, companheiro. Será que você pode informar onde fica o H-35?
É a primeira vez que andamos por aqui e...
— Ora,
Bell! — soou subitamente uma voz vinda do nada, enchendo de
recriminação o corredor cujas extremidades se perdiam numa curva
suave. — Desde quando costumamos trapacear por aqui?
Tiff
encolheu-se de susto e procurou desesperadamente pela lente oculta de
uma câmera de intercomunicação, que transmitiria sua imagem à
sala de comando. Não descobriu nada. Um tanto embaraçado, olhou
para Bell. Este fez a cara mais inocente deste mundo quando, acenando
violentamente com a cabeça, disse para o ar:
— Perry,
você acha justo andar nos espionando? Ninguém consegue orientar-se
neste labirinto de corredores, hangares, elevadores, andares e
seções. Acho que, num caso como este, um truquezinho não tem nada
demais. Eu não seria capaz de tomar uma atitude tão quadrada,
Perry, e....
— Acontece
que foi exatamente isso que você fez ontem — soou a resposta vinda
do nada, que foi acompanhada de um riso contido, que fez Bell
enrubescer de raiva. — Você estava dirigindo o exercício de
alarma. Quando John Marshall não encontrou logo o lugar que lhe fora
indicado, você berrou de tal forma que o coitado quase sofre uma
congestão. Como é que ele poderia imaginar que até nas toaletes há
câmeras ocultas?
Tiff
sorriu com uma expressão de alívio no rosto, não tanto por causa
das câmeras escondidas nas toaletes, mas porque estava acreditando
que Perry Rhodan não levava muito a sério a pequena trapaça que
estavam tentando. Mas Bell continuou furioso.
— O que
é que Marshall foi fazer lá na hora do alarma? — disse em tom
zangado. — Qualquer um pode...
— Chega!
— interrompeu-o a voz. — Dou-lhes mais dois minutos para
encontrar o setor H-35. Depois disso o exercício estará terminado.
Daqui a meia hora, encontramo-nos na sala de comando. Entendido?
— Está
bem! — resmungou Bell e voltou-se para Tiff. — Vamos embora,
Tiff. Seria uma vergonha se não encontrássemos nosso lugar
sozinhos. Olhe, aqui já diz H-34. Não podemos estar longe do lugar
que procuramos. Tivemos sorte!
E tiveram
mesmo.
Antes que
se passasse o prazo que lhes fora concedido, puseram as mãos sobre a
fechadura de uma porta que se abriu com o calor de seu corpo. Nessa
porta, lia-se em letras garrafais a indicação H-35.
Era um
hangar.
O enorme
compartimento estava tomado inteiramente por uma gigantesca esfera,
que media sessenta metros de diâmetro. Era uma nave espacial do tipo
girino. Desenvolvia velocidade superior à da luz, era extremamente
ágil e possuía armamentos poderosíssimos, sendo protegida por
potentes campos energéticos.
— Graças
a Deus! — disse Tiff e disse seu nome ao oficial encarregado do
controle. — Chegamos em cima da hora.
— De
qualquer maneira, ainda chegamos na hora — constatou Bell muito
satisfeito e também indicou seu nome, embora o oficial já o
conhecesse. — Vamos para a sala de comando. Se não andarmos
depressa, morreremos de fome antes de chegarmos lá. O próximo
exercício de alarma deverá ser realizado daqui a cinco horas, se
não houver nenhum imprevisto.
Isto
mesmo: o exercício seria realizado, se não houvesse nenhum
imprevisto.
E na
situação em que se encontravam, era perfeitamente possível que
houvesse.
*
* *
Dois
monstros inteiramente diferentes um do outro mantinham-se numa
imobilidade aparente em meio ao espaço infinito, que estava tão
salpicado de estrelas que em nenhum ponto parecia ser negro. A
quantidade dos sóis oferecia um quadro estranho ao olho humano
acostumado ao céu noturno do planeta Terra. Acontece que o sol Árcon
ficava a 34 mil anos-luz da Terra, situando-se em meio ao grupo
estelar M-13, no qual mais de 100 mil estrelas se comprimiam num
setor do espaço que media 230 anos-luz de diâmetro. Muitos dos sóis
ficavam tão próximos uns dos outros que quase poderiam ser
considerados sóis geminados do mesmo sistema, embora não o fossem
no sentido astronômico.
Árcon
ficava praticamente no centro desse grupo estelar. Encontrava-se no
momento a três anos-luz dos dois monstros espaciais, que gravitavam
em torno de um sol gigantesco a uma distância superior a trinta
bilhões de quilômetros.
Com um
único salto através do hiperespaço, Perry Rhodan fugira da área
controlada pelos arcônidas e esperava que nas proximidades do sol
vermelho tivesse tempo de habituar sua tripulação às
peculiaridades da nave gigante de que se apoderara. Na situação em
que se encontravam, o regresso imediato à Terra parecia-lhe muito
arriscado.
Aquela
nave apresada era um dos monstros espaciais.
Era de
formato esférico, tal qual a velha Stardust, mas tinha quase o dobro
do tamanho desta. Esse supercouraçado dos arcônidas, de um
quilômetro e meio de diâmetro, deixava para trás tudo que Rhodan
ou qualquer ser humano teria sido capaz de imaginar. A propulsão e o
armamento seguiam, em princípio, o modelo da Stardust, mas
evidentemente suas dimensões eram outras. No Universo conhecido, não
havia nada que pudesse romper os campos energéticos defensivos da
gigantesca esfera.
Duas
saliências, que circundavam a esfera ao norte e ao sul da linha
equatorial, abrigavam os hangares dos quarenta girinos. Tratava-se de
naves esféricas de sessenta metros de diâmetro, que a qualquer
momento poderiam sair das comportas da nave-mãe para intervir nas
ações programadas. Sua tripulação mínima era de quinze homens.
Ao lado
dessa gigantesca esfera, a nave espacial Ganymed até parecia um
objeto delicado, embora seu comprimento fosse de 840 metros e, no
lugar em que era mais grossa, seu diâmetro chegasse a 220 metros.
Todavia, não era apenas pelo tamanho, mas também pelo formato
cilíndrico que se distinguia da gigantesca esfera, que Rhodan
batizara com o nome Titan.
A bordo da
Ganymed, encontravam-se trezentos tripulantes, que ficaram livres dos
treinos de adaptação aos quais tinham de submeter-se as 700 pessoas
que se achavam na Titan, quer gostassem, quer não. É que fazia
poucos dias que a Titan se encontrava em poder de Rhodan.
A sala de
controle tinha o dobro do tamanho daquela da Stardust, que
permanecera estacionada na Terra. A profusão inimaginável de
instrumentos e painéis de controle oferecia um quadro por demais
confuso. Se Rhodan não tivesse sido submetido ao processo de
aprendizagem hipnótica dos arcônidas, provavelmente nunca chegaria
a compreender sua finalidade. Mas, como sua mente armazenara as
informações necessárias, ele demorou poucos segundos até que a
nave obedecesse ao seu comando, fazendo exatamente aquilo que
desejava. Isto deixou bastante contrariado o maior dos cérebros
positrônicos do Universo, que exercia o domínio total do Império
da raça decadente dos arcônidas.
Fora
precisamente esta a maior surpresa com que Perry Rhodan se
defrontara: não eram os arcônidas nem o governo real que
administravam o maior império estelar da história do Universo; tais
funções eram exercidas por um gigantesco cérebro positrônico. Só
por isso, o Império ainda não se esfacelara.
Encostado
ao painel de controle, Rhodan olhava seus amigos e colaboradores que,
depois do exercício, haviam sido convocados à sala de comando para
um lanche.
O telepata
John Marshall, representante do exército de mutantes e australiano
de nascimento, encontrava-se ao lado de Thora, a arcônida, que vira
destruído de forma tão chocante seu sonho de um regresso triunfal
para Árcon. Seu vulto ereto não traía a amarga decepção que, no
íntimo, a deixara arrasada. Pelo contrário. Rhodan tinha a
impressão de que a arcônida de cabelos claros e olhos dourados
nunca parecera tão forte e decidida como agora. E Crest, companheiro
antigo de Thora e chefe da expedição espacial realizada treze anos
atrás, e que terminara num pouso forçado na Lua terrana, parecia
ter acordado naquele instante de um sono longo e repousante.
Rhodan
sentiu-se aliviado ao constatar a modificação positiva ocorrida com
os amigos. Chegara a recear que a decepção os deixaria aniquilados,
mas o que aconteceu foi exatamente o contrário.
O coronel
Freyt, que no momento comandava a Ganymed, também estava presente.
Apresentava certa semelhança exterior com Perry Rhodan, o que lhe
provocava um orgulho infundado e levava Bell a, vez por outra, fazer
dele o alvo de suas zombarias.
Bell
estava perto de Tiff. O jovem tenente, antigo cadete da Academia
Espacial terrana, conquistara a confiança plena de seu superior mais
graduado e já pertencia à família, segundo a expressão que Bell
costumava usar. As ações comuns já realizadas fizeram com que Tiff
e Bell se tornassem bons amigos.
Ainda
havia Gucky.
Era um ser
de cerca de um metro de altura, coberto de pêlo marrom-avermelhado,
que parecia um enorme rato com o rabo achatado de um castor. Os olhos
castanhos de expressão meiga fizeram com que fosse apelidado de
“monstro
de olhos fiéis”.
No fundo, Gucky não deixava de ser um monstro, ao menos no que dizia
respeito às suas faculdades. No momento em que esse animal — Gucky
gostava de ser designado assim, pois de forma alguma queria ser
considerado um homem — entrou sorrateiramente a bordo da Stardust,
quando esta se encontrava pousada no planeta do sol moribundo, e
recorreu à sua capacidade telecinética para fazer suas
brincadeiras, ninguém imaginava que também possuía o dom da
telepatia e da teleportação. Nem mesmo o próprio Gucky desconfiava
disso. Só o aprendizado meticuloso ministrado pelos mutantes de
Rhodan fez com que essas faculdades viessem à tona.
A essa
altura, Gucky era um dos melhores amigos de Rhodan e um dos elementos
mais capazes de sua equipe.
Sentado em
posição ereta, apoiava as costas contra a parede. O dente roedor
solitário avançava ligeiramente e parecia exibir um sorriso alegre.
Nos olhos suaves, via-se certa impaciência.
Depois de
algum tempo, Gucky disse num intercosmo impecável:
— Se não
estou enganado, todo mundo já chegou. Por que não começamos? Estou
curioso para saber onde estamos e o que vamos fazer.
Sua voz
era aguda e chilreante. Bell sorriu e, discretamente, cutucou Tiff.
— Ainda
bem que temos Gucky. Só assim não tive que formular uma pergunta
tão tola.
Rhodan
sorriu para o rato-castor e lançou um ligeiro olhar de censura para
Bell. Não era esta a hora para aquele tipo de discussão, que
geralmente terminava com a derrota de Bell.
— Suponho
que todos conheçam a situação — principiou em tom objetivo. —
A estrela gigante vermelha não consta dos mapas terranos e ainda
falta dar-lhe um nome. Os cálculos já realizados demonstraram que
quinze planetas circulam em torno dela, e que alguns deles são
habitados ou pelo menos ligeiramente colonizados. Não temos certeza,
mas ao quê tudo indica o quarto planeta é o mundo principal do
sistema. Por enquanto nossa presença não foi notada. Aliás, com um
tráfego destes, isso não é de admirar.
— Tráfego?
— perguntou Tiff perplexo.
— Isso
mesmo, tráfego. Não se esqueça de que nos encontramos no centro de
um enorme império estelar. Os três anos-luz que nos separam de
Árcon praticamente não representam nada. De qualquer maneira, aqui
estamos mais seguros do que estaríamos em algum ponto abandonado da
Galáxia, onde nenhuma transição deixaria de ser registrada. Aqui
nossa transição apenas foi uma entre muitas outras. Ninguém notou
que aparecemos neste lugar. Por isso acho preferível que prossigamos
aqui com o treinamento da tripulação, antes de traçarmos nossos
planos de regresso à Terra. Se é que o faremos.
Bell
adiantou-se. Achou que devia formular uma pergunta que interessava a
todos.
— Por
que vamos continuar aqui? Não cumprimos nossa missão? Não
procuramos levar Thora e Crest para Árcon? Pergunte a eles mesmos se
ainda estão interessados em permanecer nesta área da Via Láctea,
onde formigam a decadência e os cérebros robotizados.
Thora
parecia prestes a dizer alguma coisa, mas permaneceu calada. Rhodan
pegou o fio da meada.
— Acha
que já cumprimos nossa missão? Pois eu não acho. O que foi que
descobrimos? Um cérebro construído pelos arcônidas, que já foram
um povo muito capaz, governa este reino estelar com a violência e a
lógica mais fria. Se não fosse este cérebro, o Império já teria
deixado de existir, Bell. Acontece que também esse cérebro pode
cometer um engano. Já tivemos uma prova disso; se não a tivéssemos,
a esta hora não estaríamos vivos. O cérebro cometeu um engano.
Isso prova que vale a pena tentarmos um entendimento. Quem nos
garante que a esta hora um couraçado não está a caminho da Terra
para destruí-la por ordem do Império dos Arcônidas? É possível
que o cérebro robotizado conheça nossa posição, embora não
tenhamos certeza. Se os tais dos mercadores a revelarem aos
arcônidas, todo cuidado será pouco. A alternativa com que nos
defrontamos é muito simples: devemos tentar mais uma vez chegar a um
entendimento com o cérebro, ou será preferível regressarmos à
Terra assim que conheçamos perfeitamente esta nave e estejamos em
condições de manobrá-la? Não temos outras escolhas. Thora disse:
— Não
demorará muito para sermos descobertos por aqui. Afinal, esta nave
foi roubada. Não acredite, Perry, que se conformarão com um fato
destes sem usarem uma réplica. Dentro de pouco tempo, o cérebro
saberá onde nos encontrar.
— Dentro
de quanto tempo?
— Dentro
de alguns dias, talvez semanas. Depende do lugar em que começarem a
nos procurar, e também do comportamento dos habitantes do sistema da
estrela vermelha. Aliás, o senhor não precisa dar nome a essa
estrela, pois ela já o tem. Costumamos chamá-la de Voga. Voga tem
quinze planetas. O quarto é o mundo principal e seu nome é Zalit.
Os zalitas sempre foram súditos fiéis do Império. Não acredito
que isso tenha mudado.
— Zalit
é um mundo de oxigênio?
— É um
mundo de oxigênio, como a maioria dos mundos habitados. Zalit foi
colonizado pelos arcônidas há quinze mil anos. Quer dizer que os
zalitas são nossos descendentes diretos. E a grande proximidade de
Árcon é uma garantia de sua fidelidade.
Rhodan não
deixou de perceber a ameaça que estava implícita nas palavras da
arcônida, pois tratava-se de uma ameaça que não era dirigida a
ele.
— Não
sabemos o que terá mudado por aqui — disse em tom cauteloso. —
Não se esqueça do que aconteceu em Árcon nos últimos treze anos.
A dinastia reinante desapareceu; a senhora e Crest foram condenados
ao ostracismo, porque outra família assumiu o poder. Será que em
Zalit não pode ter acontecido uma coisa semelhante?
— Se
tivesse acontecido, Zalit já teria deixado de existir — respondeu
Thora.
Crest
confirmou com um gesto da cabeça.
— Thora
tem razão, Perry. Nesse caso Zalit já não mais existiria.
Bell não
agüentou mais.
— Por
quê? — indagou. — Não venha me dizer que essa gente mole e
decadente de Árcon teria tido coragem para atacar e destruir um
sistema. Os arcônidas preferem ficar sentados diante dos seus
televisores para contemplar figuras coloridas abstratas. A única
coisa que sabem fazer é permitir que o cérebro robotizado faça o
papel de governo.
— Essa é
uma fala muito perigosa — disse Rhodan com um sorriso muito
significativo. — Acontece que é correta, e é justamente aí que
está o problema. Deixam tudo por conta do cérebro gigantesco dotado
de pensamento autônomo que dirige o Império. E é muito raro que
esse cérebro tome uma decisão errada. Sinto muito, Bell, mas Thora
tem razão. O fato de que Zalit existe pode ser admitido como prova
de que seus habitantes são súditos fiéis do Império.
— E daí?
— Isso
significa que, se surgir algum contato, teremos de agir com muita
cautela. Antes de mais nada, estou interessado em conquistar a
confiança do cérebro robotizado. Sabemos que age de acordo com uma
programação específica bastante antiga e está perfeitamente
informado sobre a situação reinante em Árcon. Logo, sabe que seus
construtores estão em plena decadência e tem interesse em
selecionar e despertar os seres da raça arcônida que ainda sejam
capazes de pensar. Comparados com o resto dos arcônidas, Crest e
Thora podem ser considerados jovens impulsivos. Por isso o cérebro
os reconhece, mesmo que não os aceite em definitivo. Tenho certeza
de que também eu seria reconhecido, se conseguisse provar ao cérebro
que minhas intenções são honestas.
— Reconhecido
como quê? — interveio o coronel Freyt, que até então havia
permanecido em silêncio. — Como arcônida?
Rhodan
sorriu.
— Faça-me
o favor, coronel! Só poderia ser reconhecido como membro de um povo
auxiliar leal. E isso bastaria. Ao menos poderia conservar esta nave
e deslocar-me tranqüilamente no interior do Império. A Terra não
correria mais nenhum perigo e gozaria da proteção indireta de
Árcon.
Freyt
parecia aliviado.
— Acho
que já começo a compreender onde o senhor quer chegar.
— Fico
satisfeito em saber disso, coronel. Realmente, fico muito satisfeito.
Já que é assim, também compreenderá por que estou tão empenhado
em que os tripulantes sejam treinados quanto antes. Quando surgir a
decisão, a Titan deverá estar preparada para entrar em ação.
Acontece que ainda não conhecemos esta nave. Sem dúvida é uma
réplica da Stardust, embora tenha o dobro do tamanho e do poderio
desta. Mas existem certas diferenças que não podem deixar de ser
consideradas. Ainda ontem o oficial de rádio se perdeu de tal forma
durante um exercício, que levamos quatro horas para localizá-lo num
setor ainda inexplorado da nave. O senhor nem imagina o que
representa uma esfera de um quilômetro e meio de diâmetro. Nela
poderíamos abrigar toda a população da Terra, se a comprimíssemos
como sardinhas em lata.
— Isso é
uma especulação puramente teórica — resmungou Bell, de longe. —
E no plano teórico você não pode contar com a amizade de um
cérebro robotizado.
— De
qualquer maneira teremos que tentar, antes que ele tenha a idéia
maluca de enviar ao sistema solar uma nave dirigida por robô. É bem
verdade que podemos contar com os majores Deringhouse e Nyssen, que
saberão defender a Terra, mas não temos a menor idéia das armas
com que a mesma será atacada.
— Não
acredito que o cérebro conheça a posição da Terra — interveio
Thora.
Rhodan
ergueu as sobrancelhas.
— Por
quê, Thora?
Por um
segundo seus olhares se fundiram. Rhodan teve a impressão de que um
calafrio descia pela sua espinha. Como eram profundos os olhos
daquela mulher, da qual não conseguira aproximar-se nos últimos
treze anos. Não, não era verdade. Desde que Árcon se comportara
tão mal para com Thora, o contato entre ela e Rhodan tornara-se mais
estreito. De uma hora para outra, transformaram-se em verdadeiros
aliados, que lutavam pelo mesmo objetivo.
A barreira
que os separara durante treze anos deixara de existir.
— O
cérebro teria tomado outras decisões e nos dispensaria um
tratamento diferente. Talvez teria chegado mesmo a matar o senhor,
Perry. Não sei por quê, mas tenho a impressão de que não pode
conhecer a posição da Terra.
— Para
nós isso representaria uma vantagem estratégica — constatou o
coronel Freyt.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Isso
mesmo, coronel. Aliás, o senhor pode voltar para a Ganymed assim que
tivermos concluído esta conferência. Quaisquer instruções que
ainda se tornarem necessárias serão transmitidas pelo
intercomunicador. O uso do mesmo não representa o menor risco, pois
as ondas de rádio comuns levarão três anos para chegar a Árcon.
Voltando a
dirigir-se a Thora, perguntou:
— Como
são os zalitas?
Thora
refletiu por um instante.
— Como
já disse, descendem dos arcônidas; logo, são como estes.
— Conheço
uma raça que descende dos arcônidas, mas hoje não apresenta a
menor semelhança com seus antepassados.
— O
senhor está aludindo aos superpesados, que são a tropa de choque
dos saltadores. Aí a coisa é diferente. Essa raça viveu durante
milênios num planeta cuja gravitação é três vezes maior que a de
Árcon. Acontece que neste ponto a diferença entre Zalit e Árcon é
mínima. A única diferença que os zalitas apresentam em relação à
nossa raça é a pele marrom-avermelhada e o cabelo cor de cobre, que
às vezes possuem um brilho esverdeado, que lhe dá um aspecto de
oxidação. Esse fato foi causado pela radiação solar a que estão
expostos. São seres muito inteligentes, dominam a arte da navegação
espacial e seu grau de decadência nem de longe atinge o de nosso
povo. Zalit sempre foi considerado a colônia mais leal de Árcon.
Rhodan
lançou um olhar atento para Thora. Depois de algum tempo perguntou:
— Parece
que há uma contradição em suas palavras, Thora. Se os zalitas não
são decadentes, mas formam uma raça ativa e inteligente, não
compreendo como podem ser os vassalos obedientes de um povo que lhes
é inferior.
Uma sombra
fugaz passou pelo rosto de Thora.
— Como
já disse, Árcon fica a apenas a três anos-luz de distância, e se
houvesse qualquer revolta, o cérebro robotizado não teria a menor
contemplação. Os zalitas sabem disso. Nunca poderão arriscar-se a
promover uma rebelião aberta contra Árcon.
— Compreendo,
Thora — disse Rhodan, que viu suas suposições confirmadas.
Talvez os
zalitas pudessem vir a tornar-se seus aliados.
De
repente, John Marshall adiantou-se. Havia uma expressão rígida em
seus olhos. Rhodan logo compreendeu que acabara de receber uma
mensagem telepática. De onde teria vindo? De um dos mutantes que se
encontravam a bordo da Titan?
— O que
houve, John?
Naquele
instante Gucky saltou para a frente e chilreou em tom agudo:
— É a
Ganymed. Está se afastando de nós.
Marshall
só pôde confirmar as palavras de Gucky com um aceno de cabeça, de
tão surpreso que ficou. Parecia que por um instante se esquecera de
que não era o único telepata que se encontrava na sala de comando.
— O que
é isso? — exclamou o comandante Freyt que, como comandante da
outra nave, não podia ignorar que a mesma circulava numa órbita
estável em torno do sol Voga, tal qual a Titan. — A Ganymed não
pode afastar-se da Titan enquanto os propulsores estiverem
desligados.
— Acontece
que se afasta — insistiu John. — Captei o impulso mental de um
dos oficiais, que se encontra na sala de comando da Ganymed e
observou o afastamento. A qualquer momento deverá entrar em contato
conosco.
Realmente
não demorou três segundos até que o telecomunicador começasse a
dar sinal.
Com um
salto, Rhodan colocou-se diante do aparelho e o ligou. Mais alguns
segundos se passaram até que a tela se iluminasse e o rosto
preocupado de um homem ainda jovem surgisse.
O coronel
Freyt colocou-se ao lado de Rhodan.
— O que
aconteceu, tenente Martin? Como é que a Ganymed pode afastar-se da
Titan, se...
— O
senhor já sabe? — perguntou Martin perplexo, mas logo compreendeu,
quando viu Marshall e Gucky. — Ah, já sei. Será que os meus
pensamentos foram tão intensos? Sim senhor, a Ganymed deve ter saído
da órbita; aproxima-se do sol vermelho. Não me ocorre qualquer
explicação. Peço instruções.
— Um
momento! — interveio Rhodan e ligou outras telas visuais. — Antes
de mais nada, precisamos saber o que realmente está acontecendo.
Talvez seja uma ilusão...
— Não é
nenhuma ilusão! — exclamou o tenente Martin, que se sentia
desesperado porque pareciam não acreditar nele. — Não há dúvida
de que nos afastamos do senhor.
Rhodan não
respondeu. Aguardou até que a fileira das telas se iluminasse,
exibindo o quadro do mundo exterior.
A Ganymed
encontrava-se na mesma direção do sistema e afastava-se em
movimento bastante acelerado na direção do sol gigante. Enquanto
isso, a Titan continuava a gravitar na mesma órbita.
— Não
tome nenhuma providência — ordenou Rhodan. — Aguarde instruções.
Entendeu?
— Sim
senhor — respondeu o tenente Martin, que tinha o aspecto de um
homem que preferia não ter entendido. A atitude de espera não
parecia ser a maior das suas paixões.
Rhodan
dirigiu-se a Bell.
— Formule
uma indagação ao cérebro de navegação. Queremos saber se a Titan
saiu de sua órbita e, em caso positivo, qual é o desvio? Ande
depressa.
— A
Titan? — indagou Bell totalmente perplexo. — Acho que você está
aludindo à Ganymed...
— Não,
é mesmo a Titan — disse Rhodan em tom insistente. — Já ouviu
falar em ilusão ótica ou erro de relatividade, meu chapa? Não é
possível constatar a olho nu se somos nós ou os outros que se
deslocam ou se afastam. E, uma vez que nós nos deslocamos em direção
a Árcon, tenho cá as minhas desconfianças. Entendido?
O
silêncio, que de repente se instalou na sala de comando, provou que
todo mundo havia compreendido.
*
* *
Os
cálculos provaram de forma inequívoca que alguma força invisível
e não identificável arrastava a Titan para fora do campo de
gravitação do sol vermelho. A Ganymed continuava a gravitar
livremente em torno do gigantesco sistema.
Rhodan
ligou o intercomunicador assim que Bell lhe apresentou o resultado
dos cálculos positrônicos. Limitou-se a acenar com a cabeça e
esperou até que a instalação se aquecesse. Com alguns movimentos
da mão, entrou em contato com todos os compartimentos da nave. Sua
voz seria ouvida em toda parte.
— Atenção,
todos os tripulantes — principiou Rhodan. Seu rosto magro com os
olhos cinzentos estava tenso, revelando a vontade férrea de
enfrentar não apenas os inimigos humanos mas, se fosse necessário,
também o gigantesco cérebro robotizado. — Ao que tudo indica,
encontramo-nos sob o efeito de fortes radiações de sucção. Uma
vez que nos deslocamos em direção a Árcon, devemos supor que o
emissor se localiza nesse planeta. Transmito-lhes essa informação
como esclarecimento. Todos os homens deverão dirigir-se
imediatamente aos postos de combate. É possível que sejamos
atacados assim que nossa posição se torne conhecida. Cinco girinos
devem ser tripulados e colocados em regime de prontidão para
decolar. Aguardem novas instruções.
Rhodan
desligou e estabeleceu contato audiovisual com a Ganymed.
— É o
tenente Martin? Sua posição continua inalterada. Não tome nenhuma
providência. Enquanto o coronel Freyt se encontrar na Titan, o
senhor exercerá o comando da Ganymed. Peço sua confirmação.
— Está
bem — soou a resposta lacônica antes que Rhodan interrompesse a
comunicação.
Bell
estava acomodado na ampla poltrona do piloto, tendo diante de si os
controles de navegação. Não tirava os olhos da tela que reproduzia
as áreas em que ficava Árcon. Ao que tudo indicava, contava a
qualquer momento com o aparecimento de unidades da frota arcônida.
Thora e
Crest pareciam indecisos. O coronel Freyt juntou-se a eles e procurou
obter alguma informação sobre a estrutura do radiador de sucção
que captara a Titan.
John
Marshall e Tiff conversavam em voz baixa.
Gucky não
estava mais por ali. Devia ter saído da sala de comando sem que
ninguém o percebesse, para mais uma vez trilhar seus próprios
caminhos.
Com um
movimento repentino, Rhodan ativou os propulsores situados ao redor
da linha equatorial da nave. Os gigantescos conversores de impulsos
desenvolviam tamanha potência, que a nave Titan, acelerada à razão
de 600 quilômetros por segundo ao quadrado, era capaz de atingir a
velocidade da luz em menos de dez minutos. Graças aos campos
antigravitacionais, que funcionavam automaticamente, não se percebia
a enorme pressão, que corresponderia a sessenta mil vezes a
gravitação normal da Terra.
Rhodan foi
ativando os propulsores dirigidos para Árcon.
Bell teve
trabalho.
O cérebro
de navegação foi cuspindo os primeiros resultados. A distância que
os separava do sol vermelho de Voga continuava a crescer na mesma
proporção. E isso não se alterou quando Rhodan deu maior potência
aos propulsores, aumentando a força que trabalhava em sentido
contrário a Árcon. Até parecia que alguma coisa neutralizava o
mecanismo de propulsão da Titan.
O rosto de
Rhodan assumiu uma expressão mais séria.
Lançou um
olhar para Bell. Hesitou por um instante e ligou os propulsores para
a potência máxima.
No
interior da gigantesca esfera, cresceu o zumbido e a vibração dos
conversores. Os ouvidos dos homens começaram a ressoar e a
palpitação do próprio coração foi ouvida de forma quase
dolorosa, como se fosse a pulsação de um enorme Universo. O chão
sob os pés começou a tremer.
A Titan
lutava com todas as forças contra a tremenda energia que se
apoderara dela e pretendia arrastá-la em direção a Árcon.
Bell
comprimiu algumas teclas. O cérebro de navegação começou a
funcionar com um zumbido e, poucos segundos depois, empurrou uma fita
estreita de metal cintilante para cima da mesa.
As cifras
gravadas na mesma eram claras e inequívocas.
Continuavam
a afastar-se de Voga com a mesma velocidade. Rhodan desligou os
propulsores. Sua voz fria interrompeu o silêncio repentino:
— O
cérebro robotizado é mais forte que nós. E agora?
O coronel
Freyt provou que era dotado de um raciocínio rápido.
— Precisamos
saber se os raios de tração atingem apenas a Titan. Sabemos que a
Ganymed está livre de sua influência. Se isso também acontece com
os girinos, podemos pegar alguns deles e voltar à Ganymed.
Rhodan
acenou com a cabeça.
— Não
há dúvida de que com isso nos salvaríamos, mas perderíamos a nave
mais potente do Universo. Acredito que a Terra ainda precisará da
Titan. Devemos desistir dela por uma simples questão de segurança
pessoal?
— O que
adianta tudo isso se nos tornarmos prisioneiros de Árcon? —
perguntou Freyt em tom exaltado. — O que conseguiríamos com isso?
— Nada —
admitiu Rhodan em tom objetivo. — Não pretendo entregar-me
voluntariamente a uma prisão da qual mal acabamos de escapar. Mas
não pretendo desistir tão depressa. Desta vez também deve haver
uma possibilidade de enganar o cérebro. De qualquer maneira, só
pretendo defrontar-me com ele quando dispuser de um trunfo.
— Trunfo?
— Isso
mesmo. Apenas quero que me reconheça.
Freyt não
respondeu. Sem dizer uma palavra olhava para as telas e viu que o sol
de Voga já começava a encolher. A velocidade da Titan devia ter
aumentado consideravelmente.
A Ganymed
era vista apenas como um pontinho luminoso.
De
repente, Tiff começou a falar:
— Será
que a radiação emitida pelo cérebro robotizado pode ser medida?
Rhodan
lançou-lhe um olhar indagador.
— O que
quer dizer com isso?
— Se a
mesma puder ser medida e, portanto, constatada, saberemos ao menos se
a mesma age apenas sobre a Titan, ou se é irradiada para o espaço
ao acaso e só nos atingiu sem querer e de forma totalmente difusa.
O rosto de
Rhodan iluminou-se. Fez um gesto amável para o jovem tenente e
voltou-se para Bell.
— O que
dizem os instrumentos? Refiro-me principalmente aos medidores de
radiações embutidos nas paredes externas.
Dali a
dois minutos tiveram a resposta. A intensidade dos raios de tração
podia ser medida; portanto, constatava-se em qualquer tempo ou lugar
se as radiações estavam presentes.
A
comunicação com a Ganymed não demorou a ser estabelecida. Um
ligeiro exame revelou que a mesma quantidade de raios de tração
agia sobre a antiga nave dos saltadores, mas sem o menor resultado.
Era este o
ponto de partida fundamental.
Rhodan
tirou suas conclusões com a lógica que lhe era habitual.
— Muito
bem. Já sabemos que só a Titan obedece à vontade do cérebro
robotizado; a Ganymed não é atingida pela mesma. Daí podemos
concluir com alguma segurança que nesta nave deve haver uma ligação
especial, que pode ser ativada pelo cérebro até mesmo a uma
distância de três anos-luz. Depois de ativada a chave, e só depois
disso, os raios de tração tornam-se eficazes. Portanto, o problema
com que nos defrontamos é o de localizar e neutralizar a ligação
especial — lançou um olhar de desafio ao coronel Freyt. — Então,
coronel, ainda acha que seria preferível abandonarmos esta bela nave
e fugirmos para a Ganymed?
— Podemos
fazer o possível para conservá-la — disse Freyt. — Não seria
nada mau.
Rhodan
sorriu, mas logo se tornou sério quando Bell lhe forneceu o próximo
cálculo de navegação. A velocidade da Titan duplicara.
— Como é
que vamos encontrar esta maldita ligação? — perguntou Bell com a
voz zangada. — Numa nave que é um mundo por si...
— Os
conversores não falharam; continuariam a trabalhar sem a menor
alteração. Portanto, a ligação só pode localizar-se entre as
salas dos propulsores e o anel externo de emissão de radiações —
retrucou Rhodan. — Com isso o espaço em que devemos concentrar
nossas buscas fica bastante menor — olhou em torno. — Aliás,
onde está Gucky?
Ao que
parecia, também os outros só agora se davam conta de que o
rato-castor não se encontrava mais na sala de comando.
John
Marshall disse em tom de decepção.
— Não
consigo captar seus impulsos mentais; deve tê-los isolado.
— Talvez
esteja na... — principiou Bell, mas interrompeu-se em tempo ao ver
Thora.
Sorriu. A
imagem daquilo que pretendia dizer era muito esquisita.
— Talvez
Anne Sloane possa ajudar-nos — sugeriu Marshall.
Anne
Sloane era uma ótima telecineta do exército de mutantes e já
provara por várias vezes que suas faculdades não ficavam atrás das
de Gucky. Infelizmente era menos versada em assuntos técnicos que o
rato-castor inteligente.
— Gucky
não pode ter desaparecido — disse Rhodan. Finalmente concordou com
um ligeiro aceno de cabeça. — Muito bem, Marshall, vá chamar
Anne.
Depois que
o telepata tinha saído da sala, Freyt perguntou:
— Por
que não chamou Miss Sloane pelo intercomunicador?
— Porque
não quero deixar a tripulação nervosa — respondeu Rhodan. —
Ainda não se habituou à nave e não confia na Titan. Isso só
mudará depois que tivermos passado galhardamente pelos primeiros
batismos de fogo — olhou para as telas. — Este é o primeiro.
John
Marshall voltou dali a dez minutos. A expressão de seu rosto era de
uma estupidez indescritível. Apesar da seriedade da situação Bell
divertiu-se com aquele quadro, que para ele era extremamente alegre,
mas preferiu conservar esta opinião para si. Rhodan perguntou em tom
perplexo:
— O que
houve? Até parece que alguém lhe roubou a ração de emergência.
— Anne
Sloane não estava mais lá. Gucky a chamou há dez minutos. E também
levou Wuriu Sengu.
Sengu era
um japonês que, graças a um dom resultante da mutação por que
passara, enxergava através de matéria compacta. Costumava ser
designado como o espia do exército de mutantes.
— Ah, é?
— perguntou Rhodan. Nem parecia muito decepcionado. — Quer dizer
que já se pôs a caminho com Miss Sloane e Sengu para agir por conta
própria. Só mesmo Gucky!
— Como
será que ficou sabendo disso? — perguntou o coronel Freyt
perplexo. — Não estava mais na sala de comando quando realizamos
as medições.
— Não
se esqueça de que é um telepata; deve ter acompanhado nossa
conversa. E resolveu tomar logo as providências que se tornavam
necessárias. Não posso deixar de reconhecer que agiu com muita
inteligência ao procurar reforços, sem esquecer o espia. Bem, acho
que podemos aguardar tranqüilos para ver o que vai acontecer. E não
demorará para termos outras informações...
A
suposição de Rhodan revelou-se verdadeira.
Bell
acabara de levantar-se e estava conversando com o coronel Freyt,
quando o ar agitou-se na sala e os contornos do rato-castor começaram
a assumir forma. Sem dar a menor atenção às demais pessoas que se
encontravam presentes, arrastou-se em direção ao lugar do piloto e
com um salto escorregou para dentro da poltrona vazia de Bell. O
dente-roedor emitia um brilho triunfal. Gucky estava sorrindo.
Rhodan
aguardou paciente, enquanto ao longe, Bell começou a esbravejar.
Depois ficou calado quando Gucky se virou num gesto de advertência,
levantou a pata esquerda e apontou para o teto. Bell não teve a
menor vontade de constatar mais uma vez que um telecineta é mais
forte que o comum dos mortais, mesmo que este tenha passado por uma
ducha celular.
Tranqüilizado,
Gucky voltou a encarar Rhodan.
— A
ligação ficava junto ao cinturão externo e estava hermeticamente
fechada. Mesmo com os instrumentos mais eficientes e os cortadores de
impulso mais potentes teríamos levado meses para romper as grossas
paredes de arconita. Reunindo minhas forças às de Anne, consegui
desligar e bloquear o contato — Gucky continuava a sorrir. — Só
mesmo a telecinese seria capaz de uma coisa dessas. Acho que os
construtores da nave não contaram com esta possibilidade.
— Foi um
serviço bem feito — elogiou-o Rhodan, acariciando o pêlo sedoso
da nuca do rato-castor. — Às vezes, chego a acreditar que nunca
conseguiria arranjar-me sem você.
Gucky
parou de sorrir. O dente roedor desapareceu num instante. Num gesto
quase humilde o pequenino sujeito inclinou a cabeça e colocou o
rosto sobre as mãos de Rhodan, que puxara para junto de si.
Depois
voltou a levantar-se e virou-se.
— Bell,
logo lhe mostrarei quem de nós é o maior hipócrita. Você merece
outra lição.
Antes que
alguém pudesse impedi-lo, Gucky desceu da poltrona, caminhou em
direção a Bell e desapareceu juntamente com o homem tomado de
surpresa, que não soube controlar seus pensamentos.
Gucky
teleportara-se com ele para outro lugar.
O coronel
Freyt parecia perplexo.
— O que
é isso?
Rhodan
sorriu e deixou que o controle de navegação começasse a funcionar.
— O
senhor terá de acostumar-se a isso, coronel. Gucky e Bell são os
melhores amigos deste mundo; apenas, não querem confessá-lo. Pelo
que conheço do rato-castor, o mesmo dará uma lição àquele
atrevido, para ter sossego por alguns dias. Ah, o resultado... —
segurou a fita e fez um gesto de satisfação. — Apenas
desenvolvemos a velocidade resultante da massa da nave. Será fácil
modificar isso.
Mais uma
vez os conversores de impulsos começaram a uivar, mas dessa vez sua
atividade não ficou sem resultado. Dentro de poucos segundos o vôo
vertiginoso da Titan em direção a Árcon foi neutralizado e a nave
começou a deslocar-se em sentido contrário. Dali a dois minutos,
voltaram a avistar a Ganymed.
Pelas
novas medições concluiu-se que os raios de tração do distante
cérebro robotizado continuavam a agir com a mesma intensidade;
apenas, não encontravam mais nenhum ponto de apoio. Com isso ficou
provado que sua posição não era conhecida, e que só por acaso
foram atingidos pelas radiações emitidas ao acaso.
Quando a
Titan se encontrava novamente perto da Ganymed e voltara a descrever
a órbita anterior, Gucky apareceu na sala de comando. Quando
perguntaram por Bell, fez a cara mais inocente deste mundo e não deu
qualquer resposta.
Só quando
Bell deixou de comparecer à conferência seguinte, Rhodan começou a
preocupar-se. Não estivera em seu camarote. Será que resolveu dar
mais algumas voltas para explorar a nave? A repugnância que o
tamanho da esfera lhe causava era bem conhecida; logo, também não
devia contar com essa possibilidade.
Gucky
permaneceu calado. E Marshall não conseguiu descobrir nada, já que
o rato-castor bloqueou seu cérebro.
Só dali a
seis horas um dos técnicos, que estava fazendo uma ronda pelos
corredores do segmento interior da esfera, ouviu batidas estranhas
vindas de um setor da nave onde até então ninguém havia pisado.
Seguiu a direção do som e, em sua imaginação, já se via diante
de monstros desconhecidos que deviam habitar as profundezas da
gigantesca esfera.
As batidas
vinham da área em que ficavam as instalações sanitárias.
As mesmas
foram entremeadas por um terrível uivo, igual ao que seria emitido
por alguém que não sabia se devia dar preferência à raiva ou ao
desespero.
O técnico
viu-se diante de uma porta trancada. A fechadura, que era muito
simples, só podia ser acionada pelo lado de fora, caso não tivesse
sido trancada por dentro.
Afinal, os
construtores da Titan eram apenas humanos.
O técnico
também. Sentiu compaixão, mesclada com um heróico arrojo de
descobridor.
Puxou a
arma e abriu a porta. Teve a cautela de saltar para trás e levantar
a arma, mas logo a baixou quando viu a miserável figura humana que,
depois de seis horas de espera, finalmente pôde sair do
compartimento que não fora dimensionado para uma permanência tão
longa.
Não era
outro senão Bell, há tanto tempo desaparecido. Ninguém sabia como
poderia ter entrado num compartimento fechado por fora. Só Rhodan e
as pessoas que com ele se encontravam na sala de comando tinham suas
desconfianças.
Além de
Bell, só uma pessoa sabia o que realmente havia acontecido. Era o
rato-castor, que fitava o mundo com os olhos mais ingênuos que se
poderiam imaginar.
Mas tanto
este como Bell preferiram calar a boca.
2
O
calendário automático de bordo, regulado para o tempo terrano,
indicava o dia 17 de junho de 1.984. Desde o dia anterior não
houvera qualquer alteração.
A sala de
rádio da Titan ficou guarnecida o tempo todo e os receptores
trabalhavam ininterruptamente para captar e registrar todas as
notícias irradiadas de Árcon. Os rastreadores estruturais
constatavam toda e qualquer transição que se realizasse nas áreas
próximas e armazenavam os respectivos dados no cérebro positrônico
de bordo, que os forneceria a qualquer tempo.
Por esses
dados, no sistema a que pertencia o sol Voga, ocorriam cerca de
quinhentas transições por hora.
Não era
de admirar que a Titan ainda não fora descoberta.
Aos poucos
Rhodan começou a ter uma idéia exata da situação em que se
encontravam. Sem dúvida, o cérebro robotizado de Árcon
desencadeara o alarma geral. Todas as forças estacionadas na
nebulosa M-13 haviam sido instruídas a dar aviso assim que
avistassem o gigante espacial. Não foi expedida nenhuma recomendação
para um ataque direto, pois o cérebro robotizado sabia perfeitamente
que na mão de um comandante audacioso a nave roubada era
inexpugnável.
Com isso
teve início a maior operação de busca jamais realizada naquele
setor da Via Láctea. Ninguém poderia supor que em qualquer parte da
Galáxia já teria havido algo de parecido.
Rhodan
manteve-se na expectativa. Enquanto não o descobriam, dispunha de
tempo para prosseguir no treinamento da tripulação. Só depois de
concluído esse treinamento poderia elaborar novos planos. Então o
regresso à Terra não constituiria mais nenhum problema.
Mas antes
disso, pretendia conseguir uma coisa: queria provar ao cérebro
robotizado que era um amigo do Império.
As
informações continuavam a chegar. Eram fornecidas pelo chefe do
setor de rádio.
— Setor
BM-G-Y-387-J. Transições intensas na direção CN-G-6-K.
Nenhuma
unidade nossa no setor. Prosseguimos nas investigações.
Provavelmente
mais de uma nave. Fim.
Não havia
assinatura. Nenhuma indicação. Apenas o aviso.
Bell, que
já se recuperara de sua aventura pessoal, devolveu o bilhete e olhou
para Rhodan.
— E daí?
Já estamos ouvindo isto há horas. Não devem estar aludindo a nós.
— Ninguém
afirmou que estejam, mas é bem possível que de repente seja
expedido um aviso para Árcon que nos diga respeito. Devemos estar
preparados para isso.
Bell
passou a mão pelo queixo.
— Não
compreendo por que você faz questão de ficar por aqui quando temos
uma excelente oportunidade de dar o fora sem que ninguém o perceba.
Deixe que o cérebro robotizado pense a nosso respeito o que quiser.
O que importa é estarmos fora de seu alcance.
— Quem
poderia dizer qual é o alcance de um cérebro como este? — disse
Rhodan com o sorriso frio.
— Bem,
esta nebulosa tem um diâmetro de menos de duzentos e trinta
anos-luz. É de supor que isso baste ao monstro.
— Pois
eu acho que provavelmente não basta. A segurança do Império é o
mais importante. Ao que tudo indica, representamos uma ameaça a essa
segurança. Tenho certeza de que, quando surgir uma ameaça, o
alcance do cérebro não seja medido por anos-luz. E ainda tenho
certeza de que está em condições de, dentro de meia hora, lançar
a partir daqui um ataque contra a Terra e destruí-la. Basta que isso
lhe pareça necessário, e a posição de nosso planeta lhe seja
conhecida. Será que você já começou a compreender o perigo que
nos ameaça?
Bell
parecia assustado, mas assim mesmo contestou as palavras de Rhodan:
— E daí?
O que você espera conseguir ficando por aqui? Nem por isso o cérebro
se tornará menos implacável. Afinal, roubamos uma nave do Império.
— Se
conseguirmos provar que isso foi feito apenas em benefício do
Império, o cérebro robotizado não poderá fechar-se a esse tipo de
lógica. Apenas, teremos que apresentar a prova.
— Como
pretende fazer isso?
Quando
Rhodan esteve a ponto de responder, um dos operadores de rádio
entrou na sala.
— Ligue
as telas de observação ótica. Uma nave vinda do sistema de Voga
aproxima-se de nós.
Rhodan
agiu com uma rapidez fulminante. Com alguns movimentos manuais, pôs
as telas a funcionar. Só depois disso formulou sua pergunta ao
operador de rádio:
— Uma
única nave? É muito grande?
— Não
acredito que represente qualquer perigo. Tem menos de cem metros de
comprimento. Não desenvolve mais que a velocidade da luz e, se
realizar a desaceleração normal, deverá estar aqui dentro de meia
hora.
— Obrigado
— respondeu Rhodan e viu que as telas se iluminaram. — Preste
atenção aos sinais transmitidos pelo rádio e avise-me assim que
surgir qualquer novidade.
Voltou a
dedicar sua atenção às telas, onde começou a surgir o espaço
cósmico. Era difícil fazer o reconhecimento da nave em meio à
profusão de estrelas. Bell ligou o localizador especial, que
funcionava segundo um princípio semelhante ao do radar. Não
demoraria mais que alguns segundos para localizar a nave
desconhecida.
Uma vez
regulado o amplificador, a nave surgiu nitidamente na tela especial.
Realmente tinha cem metros de comprimento, seu formato era o de um
torpedo e na parte mais espessa devia ter uns vinte e cinco metros de
diâmetro. Uma fileira de escotilhas redondas estava iluminada, daí
se concluía que seus ocupantes não faziam questão de permanecer
ocultos. E a rota, que se dirigia exatamente para o ponto onde se
encontrava a Titan, constituía outra indicação que reforçava tal
conclusão. Bell estreitou os olhos.
— Parece
que teremos visita. Será que acreditam que nossa nave é do Império?
— Acho
que a notícia do roubo já deve ter corrido por aí — disse
Rhodan, exprimindo opinião diferente. Estabeleceu contato com a
Ganymed, que flutuava no espaço a menos de dois quilômetros de
distância. O tenente Martin respondeu. Rhodan pediu-lhe que avisasse
imediatamente o coronel Freyt para atender ao telecomunicador.
Dirigindo-se
a Bell, prosseguiu sem interromper a comunicação:
— O
comandante dessa nave sabe perfeitamente quem tem diante de si. E
isso me deixa mais espantado com seu comportamento que, para usarmos
um termo suave, pode ser qualificado de atrevido.
— Estou
curioso para ver esse sujeito — disse Bell muito alegre.
O coronel
Freyt apareceu na tela.
— Já o
notamos — disse, aludindo evidentemente à nave desconhecida. —
Vem do sistema. Se não estou muito enganado, deve ser um zalita.
— É
muito provável que seja — confirmou Rhodan. — Seja como for,
coloque a Ganymed em estado de prontidão para a defesa. Não sabemos
de que tipo de armamento dispõem os zalitas. Se surgir algum perigo,
não aguarde minhas instruções. Destrua o desconhecido, mas só o
faça em legítima defesa. Entendido?
— Entendido.
Só em legítima defesa.
Rhodan
desligou. Podia confiar em Freyt. Pelo aparelho de intercomunicação
de bordo estabeleceu contato com a sala de estar dos mutantes. John
Marshall respondeu ao chamado.
— É a
sala de comando que está falando — disse Rhodan. — Marshall,
mantenha-se de prontidão juntamente com todo o destacamento. Peça a
Ralf Marten e a Gucky que venham até aqui. Apresse-se. Prepare Ras
Tschubai e Tako Kakuta para uma possível missão. Fim.
As pessoas
nomeadas por último eram teleportadores, que pela simples força da
vontade podiam transportar-se para qualquer lugar. Ralf Marten
possuía outro dom, que possibilitava a execução de uma missão de
reconhecimento sem despertar a atenção de ninguém. Era o teleótico
do destacamento. Estava em condições de neutralizar seu ego, vendo
e ouvindo pelos olhos e ouvidos de outras criaturas. Sem que a pessoa
o soubesse, o espírito de Marten podia instalar-se nela e utilizar
seus reflexos.
— Para
que precisamos de Marten? — perguntou Bell admirado. — Será que
você pretende fazer uma visita indireta àqueles desconhecidos?
— Por
que não? — respondeu Rhodan laconicamente, pois no mesmo instante
Marten e Gucky entraram na sala. O rato-castor lançou um olhar
galhofeiro para Bell, arrastou-se até a poltrona mais próxima e
subiu à mesma. Ralf Marten aguardou, cortês, junto à porta, até
que Rhodan lhe fizesse sinal para acomodar-se na outra poltrona.
— Uma
nave desconhecida aproxima-se da Titan — explicou, já que Ralf
Marten não era telepata. — Quero saber quem está a bordo da mesma
e quais são os planos. Gucky, já captou algum impulso?
— Já,
sim, mas são impulsos muito estranhos — disse o rato-castor com a
voz tranqüila. — Não consigo entendê-los.
— Não
são pensamentos ordenados?
— Há
alguns, mas os mesmos são superados por outros impulsos, que para
mim se tornam incompreensíveis. Quer que salte? A distância já não
é tão grande e a nave aproxima-se a uma velocidade de apenas
quinhentos metros por segundo.
— Como
sabe disso?
Gucky
sorriu.
— Está
escrito ali no observador.
Rhodan
ficou aborrecido por ter formulado uma pergunta supérflua. Mas nem
mesmo ele podia estar livre de uma coisa dessas. Nós últimos
minutos, deixara de prestar atenção à nave desconhecida.
— Marten,
procure introduzir-se no corpo de um dos seres que se encontram a
bordo daquela nave, pois precisamos saber o que há por lá. Escolha
qualquer indivíduo, pois esse detalhe não tem a menor importância.
Enquanto isso, Gucky continuará a captar impulsos e talvez acabe por
identificar um deles. Não é possível que nessa canoa só exista
gente maluca.
Ralf
Marten recostou-se na poltrona e fechou os olhos. Poucos segundos
depois uma rigidez cadavérica apossou-se de seu corpo. Sua
respiração era muito débil e o pulso era quase imperceptível.
Já se
encontrava a muitos quilômetros de distância, a bordo da outra
nave.
Gucky
suspirou e voltou a mergulhar na sua tarefa de ir ao encontro do
desconhecido com suas antenas telepáticas. Seu cérebro extremamente
eficiente captou grande quantidade de impulsos mentais, e alguns
deles tinham um sentido definido. Mas todos eles eram superados por
padrões abstratos de pensamento, que não conseguia interpretar.
De súbito
sentiu uma coisa diferente...
Alguma
coisa parecia caminhar cautelosamente em direção ao seu cérebro.
Ainda hesitava, como se estivesse cego e tentasse ao acaso. Gucky
estacou e logo se isolou, sem dar sinal de si. O desconhecido
continuou a tatear, parecia não encontrar nada, e desapareceu.
Gucky já
sabia a quantas andava.
Sacudiu o
corpo e olhou para Rhodan.
— Os
ocupantes dessa nave são ésperes — disse em tom pensativo. —
São telepatas que também possuem uma capacidade sugestiva pouco
desenvolvida. Bem que poderia ter imaginado.
Rhodan
ficou surpreso.
— Thora
não mencionou quaisquer capacidades parapsicológicas dos zalitas.
Hum, que coisa estranha! Tem certeza, Gucky?
— Tenho
certeza absoluta, Rhodan. Não tenha a menor dúvida, pois um deles
tentou encontrar-me. Mas parece cego. Se fosse um sugestor, eu não
teria a menor dificuldade em penetrar num cérebro e influenciá-lo.
Mas ao que parece os esperes que se encontram nessa nave só são
capazes disso quando têm a percepção ótica de sua vítima.
— Vamos
esperar para ver o que Marten tem para contar. Já se mexe.
Ralf
Marten gemeu baixinho e repentinamente abriu os olhos. Parecia que
acabara de despertar de um sonho que podia ser tudo, menos agradável.
Nos seus olhos perscrutadores até se lia um certo pavor.
— Graças
a Deus! — disse baixinho e ergueu-se ligeiramente. — Não
esperava uma coisa desta.
— Conte
logo — insistiu Rhodan. — Não temos muito tempo.
Marten fez
que sim.
— Quando
consegui enxergar de novo, vi seres humanos. Pareciam iguais a nós,
apenas tinham pele marrom-avermelhada e cabelos cor de cobre. Seus
rostos não são malvados, e ao que parece suas intenções para
conosco não são más. Mas não foi isso que me assustou, e nem
poderia ser. Tudo parecia tão apagado como se estivesse olhando
através da água. E foi isso mesmo. Encontrava-me num recipiente de
vidro. Ou melhor, quem se encontrava lá foi o corpo no qual me
introduzi.
Rhodan não
compreendeu uma palavra do relato de Ralf Marten, mas não o
interrompeu. Sabia que obteria uma resposta às suas indagações
silenciosas. Se é que Marten sabia essa resposta.

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