Autor
KURT
BRAND
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
A
história da Terceira Potência em poucas palavras:
1971 —
O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan encontra o cruzador
dos arcônidas que realizou um pouso de emergência.
1972 —
Instalação da Terceira Potência, que enfrenta a resistência das
potências terrenas unidas e a invasão de seres extraterrenos.
1975 —
Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos
galácticos. Perry Rhodan encontra os tópsidas no sistema de Vega e
procura solucionar o sistema galático.
1976 —
Perry Rhodan atinge, a bordo da Stardust-III, o planeta Peregrino, e
juntamente com Bell consegue a imortalidade relativa, mas perde mais
de quatro anos.
1980 —
Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus.
1981 —
O Supercrânio ataca, e a Terceira Potência defronta-se com a mais
dura das provas a que já foi submetida.
198211983
— Os mercadores galácticos procuraram transformar a Terra num
mundo colonial, mas o feitiço vira contra o feiticeiro e Perry
Rhodan conquista uma das bases mais importantes dos mercadores.
1984 —
Perry Rhodan voa para Árcon.
O
desejo de Rhodan continua o mesmo: destronar o cérebro positrônico
que rege Árcon. Ao fazer um pouso em Honur, o planeta proibido, uma
surpresa desagradável acontece...
= = = = =
= = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Chefe da Terceira Potência; apoderou-se da supernave Titan.
Reginald
Bell
— Amigo íntimo e confidente de Rhodan.
Thora
e Crest
— Arcônidas que há treze anos convivem com Rhodan.
Gucky
— Espécie de rato-castor. Faz parte do Exército de Mutantes.
Wuriu
Sengu
— Japonês, vidente do Exército de Mutantes.
Major
Freyt
— Comandante da Ganymed.
Tenente
Tifflor
— Piloto que acompanha Rhodan ao planeta Honur. É considerado um
herói.
1
O Aparelho
de contagem regressiva começou a funcionar. Exatamente dentro de um
minuto, a Ganymed se levantará no espaço.
Como que
preparado para um salto, o gigantesco bojo da Ganymed se erguia para
o alto. O teto das nuvens sobre o espaçoporto era de quinhentos
metros e parte da gigantesca espaçonave mergulhava pelas nuvens a
dentro, até uma altura de oitocentos e quarenta metros.
Faltavam
cinqüenta segundos. As nuvens roçavam pela parte superior da nave,
encobrindo o lado mais fino da fuselagem, dando a impressão de que
seus duzentos metros de diâmetro se tornavam muito maior do que na
realidade. Parecia uma torre gigantesca dos velhos tempos da
história. Mas os enormes lemes traseiros, sobre os quais se apoiava
a espaçonave, davam uma idéia nítida das dimensões e da
imponência da Ganymed.
Faltavam
quarenta segundos, na contagem regressiva.
A agitação
febril na central da Ganymed havia desaparecido. A programação
preestabelecida comandava automaticamente o desenrolar das operações.
Estava iminente a partida para a Terra. O sol vermelho de Voga, um
astro ciclópico com quinze planetas, espalhava sua luz por cima da
camada de nuvens, na extremidade frontal da nave. Os possantes lemes
traseiros ainda repousavam no revestimento de plástico da base de
lançamento de Tagnor.
Tagnor, o
enorme espaçoporto do quarto planeta do sistema do sol Voga, era a
maior base do planeta Zalit. As naves arcônidas chegaram a estas
bandas há mais de 15 mil anos, começando a colonizar este mundo. Há
15 mil anos, pois, desciam e subiam aí as espaçonaves. No entanto
eram sempre naves do Império Arcônida ou de seus súditos, nunca,
de outras regiões desconhecidas do espaço infinito.
A Ganymed
não era uma espaçonave arcônida, não pertencia ao mundo do
“montão
de estrelas M-13”.
Sua pátria era a Terra.
Faltavam
vinte segundos para a decolagem para Terrânia.
Em breve
ela se projetaria no espaço, na maravilha exuberante de inimaginável
beleza, onde milhares de sóis brilhavam das profundezas do infinito,
como colares de pérolas. Ficavam bem próximos uns dos outros,
tirando, com suas cores maravilhosas, a escuridão fria e
horripilante do Universo, para transformar esta parte do cosmo num
bulevar de encantadoras cascatas de fogos de artifício.
M-13
distava 34 mil anos-luz da Terra, com mais de cem mil estrelas. Esse
era o vasto Império dos Arcônidas, e Zalit, o quarto planeta do
sistema Voga em M-13, não seria outra coisa senão um dos muitos
mundos, que há milhares de anos, foram colonizados pelos arcônidas.
Faltavam
dez segundos. Ao fim desse tempo, a descomunal Ganymed se ergueria no
espaço, deixando este fantástico Império, um reino de estrelas com
um diâmetro de cem mil anos-luz, para desaparecer no infinito na
direção da Terra.
Aqui,
M-13, o Império dos Arcônidas e a 34 mil anos-luz, a Terra, um
simples nada, pensava Freyt, enquanto seus olhos repousavam no
aparelho de contagem regressiva, vendo seu ponteiro descer vagaroso
para zero. Quando ele, mentalmente, chamou sua pátria Terra de um
nada, estufou por instinto o peito e seu olhar refulgiu de orgulho.
Levantava
vôo por determinação de Perry Rhodan, em direção à Terra.
Retornaria juntamente com o chefe para poder conquistar este império
de mais de cem mil estrelas.
Chegou o
último segundo da contagem regressiva. A tela do grande painel
deixava ver todo o espaçoporto de Tagnor. Centenas de naves ali
estavam estacionadas, mas o comandante Freyt só enxergava uma: a
Titan. Sentiu um calafrio pela impressão que esta esfera descomunal
sempre despertava nele.
Deu-se a
partida da Ganymed.
Como que
por força mágica, a nave se levantou, enquanto os mecanismos de
propulsão zuniam. Aos poucos, penetrou na camada de nuvens, que como
uma massa fina roçava agora nos lemes traseiros.
Mas de
repente se ouviu o tamborilar trepidante das forças de propulsão,
que atiraram a Ganymed para o alto. Imediatamente, o teto de nuvens
se rasgou. A densa camada se desfez, surgindo uma imensa fenda, por
onde o sol Voga penetrou com seus raios, inundando Tagnor de luz. E
no meio desta orgia de luz, podia-se agora ver a nave espacial em
toda a sua imponência.
Acelerava
cada vez mais, e seu tamanho diminuía rapidamente. Penetrou pelo céu
da tarde, que ainda reinava em Zalit e desapareceu num instante.
Vagarosamente
se fechou sobre Tagnor aquela enorme fenda de quilômetros de
diâmetro, que se rasgara nas nuvens.
*
* *
— Lá
foi ela embora — disse Reginald Bell, encostando-se na poltrona,
diante da tela inteiriça da Titan e botando as mãos atrás da
cabeça.
A Ganymed
não era mais visível. Um último clarão esbranquiçado da
espaçonave foi talvez o adeus para a tripulação da Titan que
permanecera em Tagnor.
Reginald
Bell se ajeitou confortavelmente na poltrona. No momento, estava
contente com a situação. A Ganymed se aproximava do ponto de
transição, para, em alguns saltos, atingir a Terra. Lá estavam
milhares de especialistas, com severos cursos de hipnose. Cada um,
especializado em determinado ramo. Estes homens ansiavam por voltarem
com a Ganymed, para formarem a nova tripulação da maior belonave
das Galáxias.
E nesta
supernave, estava sentado Reginald Bell, chamado em geral apenas de
Bell, um pouco obeso, de costas largas. Às vezes, um pouco ríspido
em seus momentos de cólera; sempre valente. Mas, acima de tudo, um
homem honesto, o melhor amigo de Rhodan, seu substituto e pessoa de
inteira confiança.
Agora
virou a cabeça para o assento do piloto. Ali estava Perry Rhodan, um
homem, que com tudo a seu alcance, estava em condições de se tornar
o senhor da Terra. Porém, esta idéia jamais lhe havia ocorrido.
Para Perry
Rhodan, havia um outro objetivo, um objetivo num futuro ainda
longínquo: transformar a Terra no centro das Galáxias. Terra, este
nada num canto perdido da Via Láctea, este grãozinho de areia do
Universo, devia substituir Árcon e destituir de suas funções os
decadentes arcônidas, que não estavam mais em condições de
desempenhá-las e depois, se estender sobre os mundos do Universo.
Bell olhou
para ele. Havia muita tensão em seus traços fisionômicos. Ele
sempre estava certo e agia com a maior ponderação, na hora em que
os outros perdiam a cabeça, sob a emoção do momento.
E ali
estava ele sentado calmamente, esperando pela mensagem do
Departamento de Rastreamento Estrutural.
Os
transmissores de localização da Titan seguiam o vôo da Ganymed. O
rastreador de estrutura aguardava pelo momento em que o espaço em
torno da nave, que demandava à Terra, estremecesse todo no instante
exato da transição.
— Disse
alguma coisa, Bell? — perguntou Rhodan, olhando furtivamente para
ele. Seus olhos indicavam concentração.
Detiveram-se
por um instante no amigo, que se aprumou na poltrona, parecendo um
pouco irritado.
— Tomo a
liberdade de dizer que agora a Ganymed dispara, Perry — resmungou
ele.
— Interessante,
Bell, porém nenhuma novidade. O comandante Freyt dispõe do
compensador de estrutura e nós, não. Ele pode “disparar”,
como você diz. Nós ainda temos que esperar por este instrumento.
Não podemos nos dar ao luxo de também “disparar”.
Mas você tem razão, poder disparar é realmente excitante, não é,
meu caro Bell?
Já nas
primeiras palavras de Perry Rhodan, a atenção de Bell havia sido
grande. Mas não estava mais olhando para o amigo, e sim reparando no
enorme saguão da central da espaçonave.
A Titan
era, na sua opinião, um non
plus ultra,
era realmente a maior, a mais Imponente, a mais perfeita espaçonave
da Via Láctea. Mas este hall da central, na sua expressão, era um
pesadelo. Não havia ser humano capaz de ler todos os instrumentos e
relógios ao mesmo tempo. A Titan, uma esfera de 1.500 metros de
diâmetro, o clímax da engenharia espacial dos arcônidas, dispunha
de um posto de comando, abri gado numa verdadeira catedral. E aqui
neste aparente caos de instrumentos, registros e dispositivos, Perry
Rhodan tinha percebido algo muito importante, que Bell, naturalmente
não vira.
— Que é
que há de extraordinário? — sussurrou Bell.
— Tela
do painel redondo, Setor Beta, traço oito, Bell.
Atrás de
Perry Rhodan, estava o arcônida Crest; impressionante em sua
estatura. Sua fisionomia era tão espirituosa que quem o visse uma
vez, jamais o esqueceria. Crest dirigiu seu olhar para o ponto
indicado da tela do painel redondo da Titan. Bell gostou de ver que
também o grande cientista arcônida só conseguira ver depois que
Rhodan indicara o local.
— São
espaçonaves — dizia Bell, tentando dar à sua voz um tom de
naturalidade, mas como de outras vezes, não foi bem sucedido.
Por isso,
olhou de soslaio para Perry que deixou entrever um leve sorriso.
Conhecia muito bem seu velho amigo, e sabia que nunca conseguiria
tapeá-lo.
— Onde
está a avaliação dos dados? — era o chefe, era uma ordem.
Era o
próprio Perry Rhodan que sabia que a exploração do curso das três
espaçonaves já devia estar elaborada, caso o responsável pelo
setor de orientação e goniometria não fosse um dorminhoco.
Apareceram
então os resultados.
Perry
Rhodan e Bell se entreolharam. A expressão séria de seus olhos se
transformou num alegre sorriso. Rhodan, voltando-se para Crest,
disse:
— Fomos
reconhecidos como amigos pelo cérebro positrônico de Árcon, porém,
ele não confia totalmente em nós, ao menos quanto à rota a seguir.
— Um
cérebro positrônico não deixa de ser uma máquina, Perry Rhodan —
lembrou o velho arcônida condescendente. — Uma máquina não é um
ser humano. Um positrônico não pode entender de fidelidade terrana.
Crest
notou um sorriso no rosto de Perry Rhodan.
— Muito
obrigado pelo elogio, Crest, mas foi bem-intencionado. E nós não
somos tão fiéis assim e acho razoável o fato de que o positrônico
de Árcon tenha enviado três naves para observar e medir a
transição. Entre amigos verdadeiros não pode haver segredos e o
regente de Árcon parece saber disso. Deve ter perguntado a si mesmo
por que mantivemos em segredo a posição de nossa pátria de origem
e como conseqüência lógica deve ter feito investigações sobre as
razões da nossa dedicação ao Império Arcônida.
— Mas,
você está falando sério? — perguntou Crest meio surpreso.
— Perfeitamente
— respondeu Perry com consciência tranqüila. — Mas, de outro
lado, não tanto altruística e honestamente, como deve ser entre
amigos. Ainda não me esqueci, nem por um instante sequer, do plano
de conquistar Árcon para a Terra.
De
repente, ecoou do alto-falante do Departamento de Rastreamento
Estrutural:
— Ganymed,
transição executada sob valores conhecidos. Compensador de
estrutura não foi utilizado. Início de mensagem cifrada. Transmito
à Central de Rádio.
Mudança
de contato, ruído no alto-falante e imediatamente a Central de
Rádio:
— Ao
Chefe. Três naves desconhecidas no encalço da Ganymed. Dados da
exploração: Espaçonaves partiram de Árcon. Fim, Comandante Freyt.
— Então?
— perguntou Rhodan, aguardando a resposta de Crest.
Afastando-se
do painel redondo, a figura de Crest chegou até Rhodan. Havia sinais
de perplexidade em sua fisionomia.
— Sua
suposição estava certa, Rhodan, o soberano do Império dos
Arcônidas, desconfia de você.
— E vai
continuar desconfiando mais, quando os três observadores enviados
por ele tiverem de informá-lo de que perderam completamente de vista
a Ganymed, depois do seu supersalto. A memória eletrônica do
cérebro robotizado vai lhe dizer que eu já lhe dei um caso
semelhante e que posso executar transições sem que ninguém consiga
acompanhá-las. Crest, não seria interessante, no momento, entrar em
discussão com o cérebro robotizado. O mais ajuizado é aquele que
cede, pelo menos até que o comandante Freyt esteja de volta com os
mil especialistas e com o compensador de estrutura de grande alcance
para a Titan. Aí, eu vou querer entrar em contato com o robô. Por
enquanto não. E por este motivo também, vamos deixar Tagnor. Certo,
Bell?
Este,
estava distraído, com o olhar vagando pela central e intimamente
sentindo saudades da boa e velha Stardust-III. A Central da
Stardust-III era um conjunto compacto, que em caso de necessidade
podia ser controlada por dois ou três homens. Mas com dois ou três
homens, tentar controlar este posto de comando, seria loucura e
meramente impossível. Redundaria num fracasso completo.
— Bell —
disse Perry, chamando o amigo pela segunda vez — eu lhe pergunto se
concorda com que devamos sair daqui?
— Claro
que concordo. Mas, mesmo que você me julgue um chato, quero lhe
dizer que não simpatizo em nada com este pedaço do Universo, onde
nos queremos esconder. Não gosto nada daqui, mas não me pergunte
por quê.
*
* *
Mas o
“imediato
disparar da Titan”
deu em nada. Milhares de pequenas coisinhas, que no entanto eram
coisas importantes para os habitantes de Zalit, retiveram Rhodan por
mais alguns dias em Tagnor.
Ninguém
mais falava do Zarlt Demesor, o tirano usurpador que pretendia se
insurgir contra o Império e nesta tentativa fora morto. Os moofs não
apenas continuaram assunto do dia, mas obrigavam a se proceder a uma
batida rigorosa por todos os cantos do país, em seu encalço.
Os zalitas
ainda demonstravam pavor destas medusas telepatas. Os moofs eram
seres inteligentes de uma raça não-humana. Sua pátria de origem
devia ser um mundo de gás metano, pois em Zalit eles viviam em
recipientes esféricos pressurizados, cheios deste gás. Mas ainda
estava de pé a pergunta: Quem havia trazido os moofs para Zalit?
Para Bell
já havia uma resposta certa: estava plenamente convencido que não
podia ser ninguém a não ser os ciganos das estrelas, os
comerciantes da Galáxia. Eles é que ofereceram os moofs ao
megalomaníaco Zarlt. Sem perceber que era apenas um joguete nas mãos
de gente mais esperta, mandou buscar as medusas estranhas em grande
escala para Zalit, pensando que conseguiria, com tripulações
dopadas pelas forças sugestivas dos moofs, invadir e destruir o
Império dos Arcônidas.
— Diga-me
uma coisa, Perry, aqueles três exemplares que temos a bordo estão
mesmo guardados com toda segurança?
A resposta
de Perry foi uma pergunta muito curta:
— Você
já viu alguma coisa na Titan que não seja feita cem por cento?
Aí, o
gordo Bell começou a sorrir, olhando para o núcleo da Central.
Ainda se podiam ver os sinais de que um dia ali existira uma coisa
que estava organicamente ligada com o aço arcônida do chão. Por
uns instantes, o olhar de Rhodan também demonstrava concentração
preocupada, lembrando-se da luta quase sem esperança de vitória que
Ivã Ivanovitch Goratchim, o mutante de duas cabeças, havia travado
com o controle automático na Central. Este controle automático era
o braço de força todo-poderoso, que atingia até a eternidade, do
cérebro robotizado de Árcon. Autárquico na produção de sua
energia, construído apenas para a finalidade de executar as ordens
do gigante positrônico e que, como conseqüência lógica, também
possuía o poder de destruir a gigantesca Titan, se ela, contra
qualquer expectativa, tivesse que cair em mãos de estranhos ou fosse
utilizada para atacar o Império Arcônida. Goratchim lutou contra o
controle automático com as forças inimagináveis de sua mente,
pondo alguns átomos de cálcio no processo de fusão. Assim o
destruiu de dentro para fora.
Rhodan
estava se recordando desta conversa e de muitas outras coisas,
enquanto chegavam as mensagens sobre os motores de propulsão da
Titan. Dos mini-alto-falantes ecoavam nitidamente todas as mensagens.
As
lâmpadas verdes de controle acendiam na frente de Perry. No setor de
Bell, não era diferente. Sinais apareciam e sumiam. Somente um
cérebro de formação aprimorada na velha sabedoria dos arcônidas é
que podia dominar todo este aparato ciclópico.
Uma fina
vibração percorreu o dorso do gigante. Esta esfera confeccionada
com aço de Árcon, repousando sobre um enorme anel com suportes
telescópicos, ansiava febrilmente por se erguer aos ares,
precipitando-se no infinito.
Seiscentos
quilômetros por segundo, era seu poder de aceleração. Isto
significava que, após dez minutos, atingiria a velocidade da luz.
Este
colosso, apoiado em dezenas e dezenas de suportes telescópicos,
ainda repousava no espaçoporto de Tagnor. Há oito dias atrás, a
Ganymed partira para a Terra; em poucos minutos, a Titan também
deixaria este mundo. As turbinas começaram a zunir com toda força.
Sempre mais luzes verdes se apagando. Mensagens claras do radiofarol,
sempre pronto para entrar em ação. O campo-H aguardava nas bobinas.
Servia para proteção contra elementos negativos no espaço.
Utilizado em terra, limpava todo o espaçoporto num raio de dez
quilômetros.
Rhodan
olhou justamente para a direita, para o positrônico de bordo. Sentiu
uma veneração pela sabedoria dos arcônidas que tinham criado o
incrível. Eles que, antes de mergulharem na decadência e de
deixarem ir aos pedaços seu glorioso império, há mais ou menos
seis anos, adotaram como seu soberano um cérebro-monstro.
Tudo isto
começava a tomar corpo na mente de Perry.
O reino de
mundos, ou seja, o Império Arcônida estava maduro para ser colhido.
Rhodan, porém, não queria aparecer como um conquistador
sanguinário, deixando atrás de si um rastro de ruínas e de
miséria.
Queria
construir, porém, não com os arcônidas atuais, mas com os homens
da Terra, dessa raça jovem e corajosa de onde ele também provinha.
Como uma
visão, pairavam estes quadros diante dele. Entrementes, era o
alarido dos mini-alto-falantes. Mensagens e mais mensagens e o
positrônico de bordo seguia seu caminho.
O programa
se desenrolava.
O programa
da partida. Começou a contagem regressiva.
Aquecimento
dos motores de propulsão. Três, dois, um, zero.
A Titan se
levantou do solo. Uma esfera de aço de um quilômetro e meio de
diâmetro flutuava no espaço. O inimaginável era uma realidade. A
maior espaçonave das Galáxias começou a subir.
O planeta
caiu para trás. Parecia que o espaço infinito era empurrado contra
ele. Foi escurecendo. O sol do sistema Voga, que estavam deixando, se
transformou num olho vermelho de um gigante.
E então
surgiu M-13, esta festa permanente de fogos de artifício, este
indescritível panorama de refulgentes colares de pérolas e a luta
entre estes raios suaves de luz e a negridão do espaço infinito.
— Mas,
que nave... — exclamava Bell — e que prodígio nossa Titan.
Thora e
Crest, os dois arcônidas, se encontravam entre as duas poltronas dos
pilotos, onde estavam sentados Rhodan e Bell. Conheciam esta
maravilha, era ela sua pátria. Há treze anos atrás, tinham
abandonado o “montão
de estrelas”
para se dirigir à Galáxia e procurar pelo mundo da vida eterna. Na
lua da Terra, sua viagem se transformou numa catástrofe e durante
treze anos viram pessoalmente como, sob a direção de Perry Rhodan,
de uma Terra “selvagem”
surgiu um povo que amadureceu e em futuro, não muito longe, seria o
herdeiro dos arcônidas. Este povo acabaria sendo o dono do Universo,
como uns escritores terranos de literatura barata pensavam.
Thora e
Crest não chegavam a acreditar nisso. Sabiam que os homens da Terra
conseguiriam, pelo menos, dominar a Galáxia, o que seu povo não
conseguira realizar até hoje.
Perry
Rhodan havia descoberto, no Planeta Peregrino, o mundo da vida
eterna. Ele e Bell foram julgados dignos de serem submetidos a um
processo de duchas celulares através do qual ficariam sessenta anos
sem envelhecer. Eles, os dois arcônidas não tiveram este
privilégio. E agora, o comandante da maior nave do Universo era um
homem da Terra: Perry Rhodan.
Tinha sido
reconhecido como aliado do Império dos Arcônidas. Havia lutado pela
continuação do Império.
Thora e
Crest pensavam ao mesmo tempo a mesma coisa. Tinham vivido os últimos
treze anos em terra distante e estavam agora em Árcon.
No
entanto, sua terra natal lhes parecia agora estranha. Em lugar dos
arcônidas, quem governava o grande império era um cérebro
robotizado. Nos confins desse enorme reino, naves arcônidas,
controladas por robôs, destruíam sem piedade povos que se
sublevavam contra a hegemonia de um super-robô.
— Transição
em 12 minutos — ouviu-se do posto positrônico automático de
bordo.
Com 0,8
tempo luz, a Titan disparava transversalmente pelo “montão
de estrelas”.
A tela mostrava o sempre fascinante quadro de um mundo de estrelas de
rara beleza. Mas não havia muito ambiente para romantismo na Titan.
Surgiam os resultados dos cálculos de goniometria.
M-13, com
uma dimensão de mais ou menos 230 anos-luz, era o bulevar das
espaçonaves. Aqui, neste espaço relativamente pequeno, circulavam
nove décimos do conjunto de naves da Galáxia, de estrela em
estrela.
Transições
eram anunciadas a todo momento, partidas, alterações de direção e
indagações para orientação.
Tudo que
ali se passava, acontecia depressa. Rhodan estava praguejando. Havia
descoberto na tela gigantesca dois pontos minúsculos, logo depois
identificados como duas naves voando em seu encalço.
E sua voz
gritava um novo comando:
— Orientação?
Onde estão os cálculos? Um segundo depois, o micro alto-falante
dava os resultados:
— Provindo
de Pi 34 graus, Alpha 18, Valor 107: 45,5. Aceleração 500 km/s,
velocidade 0,8 tempo-luz. Número dos objetos: dois. Tipo: naves
espaciais do Império. Fim da exploração.
O que se
deu agora, não estava programado.
Mais do
que depressa, Perry Rhodan havia ligado para a direção manual de
emergência. O poderoso posto positrônico de bordo estava parado.
Não dirigia mais a Titan.
— Espere
um pouco, meu curioso cérebro de Árcon — sussurrou Rhodan para si
mesmo, parecendo manter com uma mão só o acelerador-regulador.
No mesmo
momento em que a força de propulsão estava no máximo e a
gigantesca espaçonave atingia uma velocidade de 600 km/s, os
amortecedores de compressão zuniam uma oitava acima.
De
repente, Rhodan perdeu os dados referentes à orientação. Com muita
cortesia, pediu novas informações.
Do
alto-falante, ouviu-se primeiro um forte chiado de vento, depois, uma
voz excitada:
— Distância
trezentos e dez mil quilômetros.
— Obrigado
— respondeu Rhodan. — Mas por que a orientação, em curto espaço
de tempo, pela terceira vez, não veio com precisão de cem por
cento? Terei que lhes impor certos exercícios para treinamento. Meus
senhores, nem sempre me sobra tempo para fazer a mesma pergunta duas
vezes. Vocês sabem que já houve situações dificílimas que só
puderam ser superadas, porque cada um deu tudo que tinha.
As duas
naves do Império dos Arcônidas, agora localizadas com toda exatidão
e ampliadas através do agregado no painel redondo, pareciam se
aproximar cada vez mais.
Bell
resmungava, demonstrando aborrecimento. Adquiriu este hábito durante
a entrevista com o cérebro positrônico em Árcon.
O olhar de
Rhodan adquiriu um brilho intenso. Não era muito comum ver sua
fisionomia iluminada por este clarão inteligente, que parecia
aniquilar qualquer resistência. Não levava a mal a desconfiança do
cérebro positrônico. Afinal de contas, ele estava cortando o espaço
infinito deste reino de estrelas com a maior espaçonave do Universo.
E não havia recebido a Titan espontaneamente do Imperador de Árcon.
Ele a tinha tomado em duro combate, quando o gigante do espaço
possuía atrás de si apenas alguns vôos de experiência.
O fato de
o cérebro positrônico, depois disso, lhe ter dado de presente, o
que tomara em combate, não foi um gesto de caridade. Um autômato
positrônico não pode ter sentimentos, mas somente lógica. E o
cérebro deve ter partido do ponto de vista de que havia apenas uma
tripulação capaz de dirigir o colosso... e essa tripulação estava
sob o comando do estrangeiro Perry Rhodan.
— Que
está fazendo aí? — perguntou-lhe Bell, um pouco confuso,
inclinando-se para ver o que era.
— A
prova para o exercício, Bell. A programação continua, embora a
tenha cancelado. Estávamos na iminência da primeira transição.
Agora quero ver qual é o tempo que vai levar, com minha
interferência.
Bell
olhava admirado. Thora e Crest também pareciam surpresos.
Thora,
antiga comandante de uma nave arcônida em expedição, destruída
completamente num acidente na lua da Terra, colocou a mão no ombro
de Perry. Este estremeceu um pouco sob este contato. Thora nunca
estivera tão perto dele assim, nestes treze anos de viagens.
— Pois
não...? — perguntou ele, levantando a cabeça e olhando para ela.
— O que
você está exigindo do posto positrônico de bordo ultrapassa o
poder do cérebro, Perry. Deve-se fazer uma nova programação para a
transição.
De
repente, um som agudo e nítido irrompeu dos alto-falantes:
— Contagem
regressiva... dezessete... oito... um... zero.
Thora e
Crest e todos que estavam de pé correram para as poltronas mais
próximas.
Rhodan
ainda ouviu o zero. Imediatamente sentiu a horrível sensação na
nuca. Então, o hiperespaço invadiu a Titan com seu sibilar monótono
e esfusiante, apagando tudo, toda vida, toda matéria, toda energia.
O salto da gigante ocorrera.
O que era
normal tinha deixado de existir.
Bem atrás
da Titan, os goniômetros estruturais das duas naves dos arcônidas
haviam registrado o salto da esfera espacial, captando
simultaneamente todos os dados a respeito.
*
* *
— Também,
agora chega — murmurou Bell, fechando os olhos e contraindo o
rosto, numa expressão de dor.
A Titan
tinha acabado de sair da quarta transição. Perry e ele foram os
primeiros a voltarem a si.
— Vamos
ver — disse Rhodan, deixando tudo aberto.
Bell ficou
esperando com ele pelos dados da orientação estrutural. Em
seqüência, foram os membros da tripulação recobrando a
consciência, após o choque do salto.
Nos mini
alto-falantes houve um breve ruído e veio então a transmissão dos
dados da orientação estrutural, registrados no segundo da transição
para o hiperespaço:
— Cinco
saltos, foram realizados, chefe — dizia o oficial triunfante. —
Um em cada quarenta e oito vírgula seis minutos-luz de..
— Obrigado
— respondeu Rhodan, e desligou.
— Puxa —
disse Bell balançando a cabeça — que movimento havia nessas
intrincadas linhas espaciais. Gostaria de saber, mais ou menos,
quantas naves espaciais circulam neste “montão
de estrelas”.
— Há
treze anos atrás, Bell, mais de três milhões — respondeu Thora.
Ela e Bell já haviam tido boas discussões, mas até hoje, nunca o
tinha deixado tão perplexo assim, com esta informação.
— Três
milhões — disse Bell, repetindo baixinho o número.
Perry não
se surpreendeu.
“Deus
do céu”,
pensava ele. “Três
milhões de naves espaciais e, apesar de tudo isto, deixam cair aos
pedaços o que criaram com o próprio esforço. Três milhões de
naves espaciais...”
Toda a
tripulação da central tinha escutado a afirmação de Thora. Todos
estavam impressionados e a todos parecia uma utopia pretender
conquistar um império desta pujança.
— E daí?
Esta
pergunta curta explodiu como uma bomba.
Perry
cruzou o olhar com Thora.
Diante dos
olhos dele, a arcônida perdeu a segurança e o orgulho. Perry não
era nada vaidoso. Mas, neste momento, ela se lembrou de que Rhodan
foi o único neste “montão
de estrelas”
M-13 que conseguiu vencer o poderoso cérebro positrônico. E a
máquina positrônica era mais forte do que ele. Milhões de vezes
mais forte. A concentrada força dos mundos da M-13 estava atrás
dele. Não era decadente como a raça dos arcônidas. Possuíam
pendor para o comércio e, no entanto, perderam, devido à astúcia
de um único homem.
Por este
motivo, os três milhões de naves espaciais não assustavam Rhodan.
— Não
haverá mais transição.
A ordem de
Rhodan reboou por todos os conveses da Titan, até ao último
aposento ocupado.
Estava
convencido de que o quarto salto da Titan, que tinha sido executado
no mesmo segundo, com duas outras naves bem próximas, não poderia
mais ter sido registrado com exatidão por Árcon. E as duas naus que
os seguiam bem desde Zalit, já tinham perdido sua posição no
terceiro salto.
— Iniciar
a programação do sistema Thatrel — ordenou Perry Rhodan.
Ao lado
dele estava Bell, sempre tagarelando:
— Gostaria
que alguém me dissesse por que motivo, cada vez que passo por este
sistema, ou penso nele, sinto uma sensação cômica? Diga-me, Perry,
que foi que transformou a nossa passagem por aqui em uma coisa tão
gostosa?
— E você
não sabe mesmo, Bell? Foi Thora.
— Estou
ouvindo isto hoje pela primeira vez. Então, Thora é quem sabe de
tudo e pode nos informar. A que distância estamos de Árcon?
— Quarenta
e sete anos-luz. Mas você devia saber isto, Bell. Estava presente
quando nos informamos sobre o sistema Thatrel no catálogo sideral
dos arcônidas. Bell, o que está se passando com você?
— Nada,
Perry, só que não consigo me livrar de um sentimento cômico, cada
vez que penso nisso.
— Acho
que você devia cuidar de seus nervos — continuou Perry, um pouco
mais rude do que realmente intencionava. De fato, Rhodan já estava
um tanto preocupado com os constantes maus presságios de Reginald
Bell. Porém tinha esperança de que, depois destes dias turbulentos,
viessem tempos bons para se descontraírem e descansarem um pouco.
— Senhor
— era a voz do oficial responsável pelo posto positrônico de
bordo e pela programação. — O programa para o sistema Thatrel
está entrando em execução. A nave tomou um novo rumo. Diferença
para as coordenadas 0,0003. Distância de Honur 34,62 horas-luz.
Com um
pouco mais do que três quartos da velocidade da luz, a Titan
avançava para o insignificante sistema Thatrel. Em torno de um sol
vermelho-claro, circulavam três planetas mais insignificantes ainda.
De acordo com o catálogo sideral de Árcon, este segundo mundo era
habitado por uma população degenerada.
Perry
Rhodan pensava: “Se
os próprios arcônidas, que já eram degenerados, chamavam os outros
povos de sua raça de degenerados, o que se pode então esperar deste
planeta Honur?”
Durante
dois dias, Perry ficou observando o espaço. Mantinha-se firme em sua
trajetória, abandonando sempre aquelas faixas mais usadas pelas
naves dos arcônidas.
Queria
estar bem seguro de que o imperador de Árcon não havia percebido
sua presença por ali e de que nenhuma das muitas naves espaciais com
as quais cruzara ao longe, o denunciasse em Árcon.
Ninguém
na Titan duvidava da seriedade e das intenções de Rhodan. Sabiam
todos que o chefe era inimigo do acaso e, na medida do possível,
tentava evitá-lo.
Às 10:43
horas, tempo de bordo, veio afinal o comando:
— Tomar
o curso diretamente para o sistema Thatrel.
Quase com
a velocidade da luz, a Titan devorava o espaço.
Treze
horas mais tarde, surgiu na tela do painel redondo o sistema Thatrel.
— Puxa...
— disse o analista de espectros, depois de haver examinado a luz do
pequeno sol, entregando a Rhodan os resultados da análise. Este os
comparou com os dados do catálogo sideral dos arcônidas.
Bell,
Crest e Thora estavam em torno dele. O salão de conferência
correspondia à magnitude soberba da Titan. Ironicamente, Bell o
chamava de salão de dança, pois não era homem dado a bate-papo
muito demorado.
— Por
que será que temos que descer neste “Marte”,
onde não se encontra nada, Perry? Por que pesquisar primeiro todos
os dados dos catálogos? Olha o manual de rotas da Galáxia. Eu o
encontrei aqui na biblioteca. Não há rota nenhuma tocando este
lugar perdido...
— É
exatamente isto que procuramos — respondeu Perry. — Você esquece
sempre que em Zalit nós não podíamos fazer nada sem centenas de
espiões em cima da gente. Vem cá, você não vai dizer que não
tinha confiança nos zalitas, mas depois de sua revolução,
mostravam-me muito apego ao Império de Árcon. Você pode me indicar
uma outra maneira de como podemos construir o compensador de
estrutura, sem que ninguém o perceba? E o que este compensador
representa para nós, acabamos de ver há pouco. Tivemos que dar
quatro saltos para escaparmos dos rastreadores de Árcon. Com o novo
compensador, podemos sumir, sem deixar nenhum vestígio, logo após o
primeiro salto. Por este motivo é que estou contente de Thora ter
nos chamado a atenção para este canto abandonado do espaço. Não
confio no acaso, e sei realmente que a construção deste aparelho
deve ser feita às escondidas. E, por fim, quero ter em mãos alguns
trunfos contra o cérebro robotizado.
— E
nesses três milhões de espaçonaves, você não pensa mais? —
disse Bell, querendo mostrar prudência.
— Claro
que penso, meu caro amigo — respondeu Perry com um sorriso meio
suspeito, fazendo com que Bell não se sentisse muito à vontade. —
Depois que fiquei sabendo quantas naves existem aqui neste “montão
de estrelas”,
abandonei meus planos de construir novas naves. Resolveu-se tudo
automaticamente e...
— Você
não pretende mais construir espaçonaves, Perry? — perguntou Bell
muito assustado e se encolerizando subitamente, quando percebeu o
fino sorriso de Thora e Crest. A ira lhe toldou um pouco o
discernimento, não conseguindo atinar com o motivo do sorriso. Mais
zangado ainda, esbravejou: — Falando mais exatamente, a Titan foi
roubada. Acho bom que mantenhamos uma norma de conduta moral.
— Mas,
meu amigo Bell — interrompeu-o Perry, com um leve sorriso nos
lábios — exatamente você se mostra tão sensível neste
particular? Que aconteceu com você, rapaz? Preciso lhe lembrar
alguns fatos onde você ultrapassou, e por muito, estas normas de
conduta? Estou pensando, por exemplo, nas...
Bell
recuperou, então, seu autodomínio e antes que Perry citasse aquele
exemplo, acrescentou apressado:
— Presenteada.
— Obrigado
— disse Perry — mas não me agrada e acho que a ninguém dos
presentes, que você classifique nosso modo de agir como um roubo.
Lembra-se que chegamos a Árcon como amigos e ao que assistimos
quando atingimos este “montão
de estrelas”?
E quando eu, há pouco, dizia que o problema da construção de naves
está resolvido, era para ser entendido no sentido de que os
arcônidas serão em breve nossos melhores amigos e colocarão à
nossa disposição tantas naves quantas forem necessárias. Então,
Bell, se tornou verdade o que você profetizou, há alguns dias, a
Crest na Titan. Estamos novamente de acordo?
— Pelo
menos até este sistema Thatrel, Perry. Naturalmente, não sou louco,
mas este sol está me deixando gelado.
2
Honur, o
segundo planeta do sistema Thatrel, era um mundo ressecado, como se
mostrava em toda a sua fealdade no painel redondo da Titan.
— Onde
estão, então, as cidades? — perguntou John Marshall, o maior
telepata e, desde os primeiros dias da Terceira Potência, o mais
fiel seguidor de Perry Rhodan.
— Honur
não possui cidades — foi a resposta sucinta de Perry. — É um
mundo onde não há nada de útil, nem mesmo jazidas de minério
dignas de serem exploradas e, além disso, apresenta péssimas
condições climáticas. Por isto, ninguém o procura.
Como as
condições climáticas eram ruins, o painel de bordo, já anunciava.
Uma forte tempestade de areia varria a superfície marrom e desértica
de Honur. A esta altura, dava a impressão como se houvesse alguma
coisa queimando na pequena esfera e a fumaça clara, mas densa, fosse
comprimida contra a superfície.
Aos
poucos, com a inversão da velocidade da Titan, a tempestade de areia
se alterou, na tela do painel. Surgiu então uma enorme cadeia de
montanhas. As medições de bordo revelavam picos com mais de quatro
mil metros de altura.
Tão
assustadoramente desolada e calcinada como a superfície plana deste
mundo, parecia também a grande cadeia de montanhas que serpenteava
do nordeste para o sudoeste.
— Olhem
lá um rio — exclamou Bell, apontando para uma faixa sinuosa nas
vertentes da montanha, terminando logo adiante num pequeno lago.
A Titan
descia para Honur. O maciço estava ainda no painel quando surgiu uma
planície. Nela, não predominava o marrom-sujo, mas um verde-escuro,
um pouco colorido demais, para se poder dizer que era incolor.
— Que
pena que a Titan não esteja lotada — dizia Rhodan, pensando no
décimo sétimo convés de sua nave, onde estava instalado o
departamento de botânica, mas que no momento estava vazio.
— Que
será isso, esse verde-escuro? — perguntou Crest, virando-se para
Thora. Mas parou, perplexo, esqueceu o que havia perguntado e ficou
olhando fixamente para Thora.
E ali
estava a esbelta arcônida, de porte nobre, olhando agora, sem
nenhuma nobreza, para o desolado mundo de Honur, no painel de bordo.
Um vinco vertical lhe dividia agora a testa larga e fora disso lisa.
Seus olhos tinham expressão de tristeza.
Somente
agora é que dera com o olhar atento de Crest. Balançou a cabeça,
como se quisesse afugentar os maus pensamentos, tentou um sorriso
forçado, lembrando-se de repente da pergunta de Crest.
— Essa
mancha colorida horrível lá embaixo não poderá ser uma floresta
bem espalhada?
— Oh,
belas “Montanhas
Rochosas”
— gritou Bell, traindo assim, mais uma vez, sua origem americana.
Não aceitou a hipótese de que o feio verde-escuro pudesse ser uma
floresta.
Mais para
o horizonte, surgiram dois rios. Ambos terminavam em pequenos lagos.
Porém, em lugar algum havia sinal de mar. Honur era um mundo seco,
com um único continente sem nenhum valor econômico.
Aos poucos
foi surgindo a parte escura, correspondente à noite do planeta. E a
feiúra se escondeu.
— De
qualquer maneira — disse Bell — isso aí me é mais agradável do
que, depois de uma transição, ter que aterrissar no meio de uma
batalha aérea ou espacial. Mas não gosto destes desertos.
*
* *
A
resolução de Perry de aterrissar depois desta primeira
circunvolução de Honur foi tomada sob a consideração de que, com
cada volta a mais, aumentaria a possibilidade de serem descobertos
por qualquer outra espaçonave. Então com toda certeza a notícia
chegaria ao cérebro positrônico de Árcon, que logo descobriria o
paradeiro da Titan.
A
gigantesca cadeia de montanhas, com seus picos de quatro mil metros,
subindo como muralhas, bem íngremes, interessava muito a Perry.
Assim que
a nave saiu da parte escura e entrou para o dia, Rhodan iniciou a
descida.
Bell
começou a resmungar, quando este mundo árido começou a invadir a
tela do painel com sua monótona planície.
Perry não
estava vendo aquilo com bons olhos. Mas era preciso pensar na Titan e
mesmo que sua tripulação não estivesse completa e, portanto não
estivesse em condições de efetuar bons assaltos, contava com uma
pequena frota e podia se defender.
Durante a
circunvolução de Honur, o planeta continuou sua rotação e a Titan
em sua curva de aterrissagem se deslocou mais para sudoeste,
exatamente na direção do lago, onde o rio desembocava.
Rhodan
dirigia a espaçonave. Queria ficar tão acostumado com esta
gigantesca esfera de aço, como estava com a Stardust-III que no
momento repousava em seus suportes telescópicos no Deserto de Gobi,
na Terra.
Bell
deu-lhe um sorriso de confiança, de sua poltrona de co-piloto.
Rhodan sabia o que significava este sorriso.
No rebordo
central da esfera, zuniam todos os motores de propulsão. Na parte
inferior da nave, estrugiam os reatores, e milhões de elementos
trabalhavam para que o gigante de aço, obedecendo ao comando de um
só homem, seguisse seu curso em direção ao lago.
A alegria
resplandecia nos olhos de Perry, a criança despertava no homem. E
Bell, o amigo de todas as horas, se alegrava vendo que a criança
sempre continuava viva em Rhodan. Por uns instantes, a Titan parecia
um brinquedo para Perry. Estes segundos eram a fonte de onde hauria
forças para a luta.
A
supernave flutuava agora entre o lago e um íngreme pico de montanha.
Sua sombra podia ser vista agora no painel de bordo. Vagarosamente o
gigante do espaço se aproximava da muralha de pedra. Metro por metro
ia descendo.
Perry
apertou um novo botão. Da metade inferior da esfera projetaram-se
enormes suportes telescópicos, um anel completo, formado por um
sem-número de dedos, com base ampla de sustentação.
— Isto é
um chão firme — exclamou Bell distraído, pensando, porém, nos
milhões de toneladas que a Titan pesava.
— Obrigado
— respondeu Perry, olhando rapidamente para ele. — Foi bom você
me lembrar isto. Vou obter a compensação do peso pela força da
antigravidade.
— Você,
hein... — dizia Bell — nunca teria imaginado...
— É,
mas imagine só, afundar com todos estes suportes telescópicos no
chão de areia fofa e depois ver a Titan ter que se safar daí. Está
certo, caro Bell?
— Você
andou aprendendo com os telepatas? — perguntou Bell, sorrindo.
A Titan
encostou no chão. Tinha aterrissado.
3
Major
Freyt, comandante da Ganymed estava sentado em frente de seu colega
major Klein, em Terrânia. Conferia as mensagens que Klein lhe
passava, sem dizer uma palavra.
Freyt
começou a expressar seu mau humor em termos de gíria arcônida.
— Klein
— disse ele, empurrando para o lado o montão de mensagens — o
que que está acontecendo com vocês na Terra? Isso é tempo
arcônida. Nestas condições, nunca chegarei a Honur com a Ganymed,
no tempo combinado. Puxa, por que as bombas de fornecimento não
trabalham mais depressa?
Major
Klein, substituto de Rhodan na Terra, enquanto o chefe estivesse
ausente, balançou a cabeça pensativo.
— Freyt,
neste meio tempo, você me contou tanta coisa a respeito do planeta
industrial Árcon III, que você já se esqueceu de calcular com as
condições aqui da Terra. Reflita um pouco: o compensador de
estrutura é uma invenção dos mercadores galácticos. Construir de
novo esta obra maravilhosa exige um remanejamento total dos setores
industriais. E mais ainda: que monstro de compensador tem que ser
construído... E isto não pode ser feito de um dia para o outro. Não
estamos em Árcon III e a Terra não é um mundo em que as
instalações industriais estão coladas umas com as outras.
— Isto
não me adianta nada, Klein. Já transmiti meu último rádio,
dizendo exatamente quando chegaria a Honur. Tenho que ser pontual.
Não estou agüentando mais de preocupação.
— Com a
nave que Perry Rhodan possui agora? — perguntou Klein, virando o
rosto um pouco para o lado e contemplando o colossal espaçoporto de
Terrânia, onde ao lado da grande Ganymed, estava a Stardust-III, uma
esfera metálica de oitocentos metros, apoiada em seus suportes, e
mais para o lado, estavam os possantes cruzadores.
Em
pensamentos, o major Klein procurava imaginar o tamanho da Titan, e
como pequena iria parecer então a Stardust-III. Mas não podia
suspeitar o que sua pergunta tinha provocado em Freyt. Respondeu
imediatamente:
— Klein,
puxa, você vê tudo com óculos cor-de-rosa. Está certo, a nave de
Rhodan é um gigante, mas o Império dos Arcônidas também não é
uma brincadeira e mais de cem mil sóis com seus satélites são
controlados por um cérebro ciclópico com mais de dez mil
quilômetros quadrados de dimensão.
— Não
vejo lógica nisto, Freyt — interrompeu Klein. — O sistema
Thatrel, incluindo o planeta Honur, não é um mundo sem importância?
E em vista disso, não é verdade que não pode haver por lá nenhum
fator que possa ameaçar a Titan? O que pode acontecer a Perry Rhodan
em Honur? Nada, Freyt, absolutamente nada. Além disso, dispõe ainda
a bordo de setecentos homens e o chefe nos tem mostrado, e muito bem,
que com o mínimo de meios, sempre consegue o melhor resultado.
Portanto, se o compensador de estrutura levar uns dois dias a mais
para ser entregue, não será uma calamidade pública.
Freyt
tamborilava com as pontas dos dedos na chapa da mesa.
— Você
fala muito bem, Klein, você pensa com sinceridade, mas nem por isso
desaparece minha intranqüilidade. Talvez Rhodan nem esteja mais em
Honur, sei lá? E que pode ele fazer sem o compensador? Qualquer nave
arcônida poderá identificá-lo durante um supersalto. E a cada
salto novo, reunirá mais assistentes em torno de si, por fim, não
nos esqueçamos dos saltadores, os mercadores galácticos e de quebra
ainda os moofs.
— Você
ainda não me havia falado quase nada a respeito disso —
acrescentou Klein, tentando distrair um pouco Freyt.
Este se
levantou, dirigiu-se à janela e ficou observando Terrânia, a
capital da Terceira Potência, situada no meio do Deserto de Gobi e o
centro político da Terra.
— Os
moofs, estes monstros — começou ele — são qualquer coisa como
um mistério das Galáxias.
*
* *
E a uma
distância de 34 mil anos-luz, Perry Rhodan dizia a mesma coisa para
Crest:
— Os
moofs são e continuam sendo um enigma, mas não porque eles existem,
mas sim pelo fato de que conseguiram dominar um mundo inteiro pelo
seu poder de sugestão. E isto, apesar da contradição palpável:
são muito bobos para agirem por conta própria. Às vezes chego à
conclusão de que são imaturos, incompletos em sua evolução. E por
fim: quem sugeriu ao Zarlt estes moofs? Quem, Crest?
Crest e
Thora pertenciam aos poucos arcônidas de sua categoria, que não
haviam sido vítimas da apatia mental que acabara de conduzir o
outrora glorioso Império Arcônida a uma fase de pura decadência.
Por alguns
instantes, Crest ficou fitando Perry Rhodan, em sua estatura
avantajada. Estavam os dois frente a frente na cabina de comando.
— Bell
diz que... — e Crest esboçou um fino sorriso, quando Perry, com a
testa franzida, olhou com desconfiança para ele — Reginald Bell
suspeita dos saltadores. Eu também os tinha como culpados, mas
quanto mais penso a respeito, mais aumentam minhas dúvidas. Uma
coisa me preocupa muito: este procedimento dos moofs não combina com
a mentalidade dos mercadores galácticos. Apesar de tudo, eles são
em si honestos, já que se pode chamar os saltadores de honestos.
Parou de
falar, porque Rhodan agora sorria um pouco.
— Crest,
há pouco você se expressou com muita cautela, apesar disso, ouvi
com pesar sua opinião de que os saltadores não entram em questão
neste assunto dos moofs. Assim, continua de pé o enigma, quem
procura destruir a existência do seu Império? Que os mercadores
galácticos são desonestos em relação ao Império Arcônida, está
provado através dos dados, em parte falsos, em parte incompletos,
que transmitiram ao cérebro robotizado, a respeito da Terra e dos
homens. Assim como nós quebramos a cabeça para descobrir a origem
dos moofs e quem está por detrás deles, assim também o seu
imperador procura saber em que lugar das Galáxias se encontra a
Terra e de que maneira, nós, seres humanos, devemos ser
classificados. E agora um novo enigma, que fica bem à margem destas
perguntas: como é possível, que Bell não se lembre mais da hora em
que Thora nos propôs de voarmos para cá, a fim de podermos
construir com calma o compensador estrutural da...
— Bell,
também? — precipitou-se Crest, assustado, levantando a cabeça.
— Quem
ainda mais?
Crest
estremeceu todo, sob o olhar penetrante de Rhodan.
— Thora
— respondeu o inteligente arcônida, quase sem voz.
— Que
você está dizendo?
— Ela
mesmo, Perry. Ontem, logo depois da aterrissagem, ela me procurou e
me confiou seus cuidados. Ela não consegue explicar, por que motivos
nos aconselhou a descer em Honur.
Perry
parecia não acreditar nas palavras do arcônida.
— Crest,
isto é uma brincadeira de mau gosto, não é?
— Não,
Rhodan, infelizmente, não.
Perry
começou a ligar os fatos.
Lembrou-se
de que o gorducho sempre tivera antipatia contra este sistema. Esta
solidão e este deserto horrível realmente eram coisas que não
combinavam com o gênio de Bell.
— Crest,
venha comigo à biblioteca — pediu Rhodan ao arcônida.
Para
chegarem até a biblioteca tinham que tomar três elevadores
antigravitacionais. Levaram dez minutos até alcançarem ao seu
objetivo.
A
biblioteca era um longo salão que em nada lembrava uma biblioteca da
Terra. Rhodan se aproximou da pequena mesa de ligações, à direita
da porta. Tinha que se familiarizar um pouco com estes dispositivos
mais complicados do que os da Stardust-III. Mas então, todo o saber
acumulado positronicamente, ali estava para responder a suas
perguntas. Em algum lugar, naquele longo corredor, um determinado
micro pino entre cem milhões deles, se imantaria para a resposta, e
Rhodan e Crest veriam numa tela estável e ouviriam por um
alto-falante os dados sobre o planeta Honur no sistema Thatrel,
fonética e graficamente.
— Gravitação
0,7... atmosfera pobre em oxigênio... Rotação... Temperatura...
Estrutura geológica... — saía rapidamente do mini alto-falante e
a parte gráfica aparecia na tela:
Mundo
primitivo que há 14.643 anos foi colonizado pelos arcônidas.
Dezoito anos mais tarde, chegou a Honur a última leva de imigrantes.
Devido a uma alteração climática que não corresponderia às
parcas riquezas do solo, do ponto de vista dos gastos necessários, o
Conselho do Império desistiu de qualquer iniciativa.
Com os
traços fisionômicos um tanto duros, Perry via estes dados monótonos
e olhando rapidamente para Crest, disse:
— Isto é
a santa burocracia, tanto aqui com vocês, como também conosco na
Terra.
O
alto-falante forneceu alguma coisa importante:
— Cento
e vinte e um anos depois da primeira colonização de Honur, todo o
sistema do sol Thatrel foi declarado proibido. Esta proibição nunca
foi suspensa até hoje.
Era tudo
que se sabia sobre Honur, embora Rhodan tivesse pedido “informações
completas”,
na mesa de ligações.
— Não
haverá nada mais, Crest? — e na voz de Rhodan se podia notar
intranqüilidade.
Crest o
havia observado, durante todo o tempo das informações. Naturalmente
ele já sabia tudo que acabara de ouvir e nesses pormenores de sua
pátria, estava mais por dentro do que Rhodan. Podia, pois responder
com firmeza.
— É
realmente tudo. Havia ainda o traçado de estradas, mas o computador
o teria mencionado, se fosse coisa de qualquer importância.
— Território
proibido e nenhuma indicação dos motivos? Estes desertos devem
ocultar perigos? — perguntou Rhodan.
Não falou
mais nada. Lembrou-se apenas que os arcônidas, também há 15 mil
anos atrás, só chamavam de perigosas as coisas suspeitas que se
davam por ocasião do aparecimento de uma estrela fixa.
— Venha,
Crest — dizendo isto saiu apressadamente da biblioteca e correu
para a central. Na volta, levou só seis minutos. Um tanto ofegante,
Crest o seguiu até o posto de comando.
Rhodan
mobilizou todos os especialistas. Era uma ordem atrás da outra, no
microfone. E a automatização perfeita da técnica arcônida
distribuía cada chamada para o setor a que se destinava.
— Para o
comandante da Gazela: preparados para decolar.
“A mais
exata análise do ar.
“Enviar
sondas automáticas para provas do solo. Executar estudos nas
prescrições dos arcônidas.
“Medições
do campo magnético, da irradiação dos planetas. Medir tudo, mas
tudo, examinar duas vezes e transmitir os resultados para a central.
“Bell —
disse chamando o amigo. Bell estava dormindo, sorriu através do
intercomunicador de seu camarote para a central. Mas naquele momento,
ninguém ria. — Bell, imediatamente para a central.”
— Estou
indo.
— Pré-alarme
para a Titan.
Em toda a
nave, as sirenes começaram a tocar, num determinado ritmo. Do hangar
veio a mensagem:
— Gazela
pronta para o lançamento.
— Obrigado
— foi a resposta de Rhodan.
Crest o
admirava. Rhodan não esquecia nada, trabalhando com a precisão de
um autômato positrônico — e no entanto, muito melhor. Ele era um
ser humano e Crest já sabia, por experiência, o que isto
significava. No seu íntimo, surgia um sentimento de inveja. Estava
pensando nos arcônidas quando encontrava-se sentado ao lado de um
homem que estava prestes a conquistar o Universo para sua raça.
Chegou
outra mensagem:
— Saíram
sondas para todas as regiões.
Rhodan
continuou emitindo novas ordens, no microfone.
— Senhor
— anunciou-se a Estação de ótica que controlava o planeta até a
linha do horizonte através dos maravilhosos instrumentos arcônidas
— movimentos na margem do lago. Agora é... meu Deus, são homens,
senhor. Saem de uma fenda da terra. Os primeiros se movimentam em
direção à espaçonave. Sim, são homens. Devem ser arcônidas,
embora pareçam vagabundos. Já são mais de cem.
Procedeu-se
as pesquisas-relâmpago. Um setor depois do outro se anunciava, dando
seus resultados. Bell estava sentado há tempo na poltrona de
co-piloto, ao lado de Rhodan. Com simples troca de olhar, dividiam
entre si o trabalho, colocando em código as mensagens recebidas,
para o computador positrônico de bordo. Entrementes, Rhodan ainda
teve tempo de mobilizar seu corpo de mutantes. Não lhes disse muita
coisa sobre os fatos que se desenrolavam. Cada um conhecia bem seu
setor de responsabilidade, em que era mestre absoluto.
Sugestão,
telecinese, espionagem, hipnose, teleportação, Rhodan não se
esqueceu de nada em seu pensamento rápido e seguro. E John Marshall,
em algum lugar da Titan captava a corrente de seus pensamentos,
registrava-os e transmitia as ordens do chefe aos demais mutantes.
A
população degenerada dos antigos colonizadores do planeta, que se
aproximava com lentidão estava sendo examinada em seu conteúdo
mental pelos mutantes, homem por homem.
As sondas
enviadas já estavam de volta, uma parte do material coletado já
tinha sido analisado, controlado, submetido às severas normas de
avaliação.
— Nenhum
perigo.
— Nada
de perigos.
— Flora
do planeta: inofensiva.
Uma atrás
da outra, choviam as mensagens.
Bell
começou a esbravejar em voz alta.
— Bonito
demais para ser verdade. E embora nossas raposas entoem hinos de
louvor, que o diabo carregue todos estes desertos. Ficarei feliz,
quando sairmos deste planeta horrível.
Perry
ouviu tudo isso, pensando nas palavras alarmantes de Crest sobre a
perturbação da memória de Thora.
Na Titan,
continuava o estado de pré-alarme.
Rhodan,
porém, estava em estado de máximo alarme.
Já há 14
mil anos atrás, Árcon tinha declarado este sistema como território
proibido. Não era permitida qualquer aterrissagem... e esta
proibição nunca mais foi suspensa. Onde estaria o perigo, que os
próprios arcônidas nunca chegaram a descobrir?
*
* *
Estavam
sentados os quatro na cabina de comando. Perry Rhodan, Reginald Bell,
Thora e Crest. Não despregavam os olhos da tela do painel. O
dispositivo continuava em pleno funcionamento. Apaticamente, a
população saída das profundezas da terra estava lá fora em volta
da gigantesca espaçonave, sendo observada na tela um por um.
Eram
homens de estatura elevada, esbeltos, quase ressecados. O que chamava
muito a atenção era sua calvície e os olhos muito encavados no
rosto, de expressão triste. Sua pele era de um marrom-avermelhado,
uma cor suja, como toda a fealdade de Honur, em meios tons.
— Andam
por aí em farrapos, estes pobres-diabos — disse Bell. — Parecem
meio famintos.
Crest fez
a pergunta:
— Virá
deles o perigo?
Thora
ficou corada, aliás um acontecimento raríssimo na orgulhosa
arcônida. Seu olhar cruzou com o de Rhodan e num sentimento de
desespero sacudiu os ombros, dizendo:
— Não
sei, não sei, não sei mesmo como cheguei a propor este mundo aqui
como local de encontro com a Ganymed. Não conheço Honur. Penso que
antes nunca ouvi, nem li o nome deste sistema. É tudo tão horrível,
e acima de tudo, este aviso de não descer em Honur.
Instintivamente,
Rhodan lhe colocou a mão sobre o braço.
— Thora
— disse ele e sua voz tinha influência sugestiva — nós todos
confiamos em demasia na exatidão dos assentamentos dos arcônidas.
Porém já presenciamos que às vezes Árcon se esquece de registrar
alguma coisa. Entretanto há nove ou dez mil anos atrás o estado de
proibido foi suspenso e esta suspensão simplesmente esquecida;
esquecida apenas pelo fato de que neste mundo não há nada para
procurar... será então que não estamos exagerando os nossos
cuidados?
Bell se
levantou.
Enfiou as
mãos nos bolsos da calça e trombeteou:
— Perry,
você agora está ficando esquisito. Será que estamos numa espécie
de circo, em que cada um de nós é um palhaço? Primeiro foi Thora,
que nos recomendou este museu de desertos e depois não sabe mais a
razão por que o fez. Depois, eu. Devo ter estado presente quando foi
combinado com o major Freyt que o encontro seria aqui em Honur. E
agora você? Você que fareja o ar estragado a mil anos-luz de
distância, de repente aceita algo tão miserável? Perry, isso não
é possível.
Rhodan
ainda mantinha preso o braço de Thora, certamente sem o perceber.
Olhou de frente para Bell e se lembrou de uma pergunta que lhe rodava
pela cabeça, soltando-a imediatamente:
— Nossos
três moofs ainda estão no setor de isolamento?
— Estão,
sim — foi a resposta tonitruante de Bell, porém, corrigindo-se um
pouco, acrescentou: — Pelo menos até uma hora atrás. Mas eu tive
cautela em não me aproximar desses monstros. Não abandonei a zona
de segurança. Mas não creio muito nessas “aranhas”.
Este jogo que estão fazendo conosco, deve ter alguém escondido
atrás dele. Parece muito logicamente arquitetado para ser atribuído
aos moofs. Amigo, estamos tratando é com os saltadores, com nossos
ciganos das Galáxias. Alguém está exercendo influência sobre nós.
Alguém que não se esquece talvez, que fomos nós que capturamos sua
mais recente nave comercial e a transformamos na Ganymed. Quem sabe,
este alguém quer agora, em troca, algo equivalente, como a Titan,
por exemplo?
Nenhum dos
três homens observava Thora. Estava sentada, muito quieta, sentindo
a mão de Perry sobre seu braço. Emanava de Perry para ela um fluxo
sereno de felicidade, e nunca, em seus longos anos de existência,
havia experimentado uma felicidade tão intensa. Naturalmente sentia
a necessidade, que explodia dentro dela, de se encostar mais em
Perry, de colar seu rosto no dele, abraçá-lo; estava mesmo na
iminência de se entregar a este arroubo impetuoso de felicidade.
Porém a irrupção de cólera de Bell veio como um curto-circuito.
E aí tudo
terminou. Como varrido por um tufão. Um grande vazio se abriu diante
dela, penetrou-a completamente, ameaçando levá-la para o incerto.
Os homens se entreolharam. As afirmações de Bell tinham
fundamentos. Mas Rhodan e Crest abanaram a cabeça.
— Apenas
um dos nossos mutantes teria sentido os tele impulsos, Bell — disse
Rhodan. — Acho cada vez mais que somos vítimas de uma consignação
errônea nos dados dos arcônidas e que o bloqueio de Honur já há
tempo terminou.
— E o
engano de Thora? E o meu, Perry? — insistiu Bell.
Nem Crest,
nem Rhodan podiam responder alguma coisa.
Bell se
encaminhou para a porta, mas antes de deixar o camarote de Perry,
ainda lhe repetiu:
— Estes
desertos estão podres, Perry. Acredite-me. Em qualquer lugar por aí,
o diabo escondeu um abacaxi para nós. Tomara que os estilhaços da
Titan não nos cortem a cabeça.

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