sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

P-042 - S.O.S. Espaçonave Titan - Kurt Brand [parte 1]

Autor
KURT BRAND



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN



A história da Terceira Potência em poucas palavras:

1971 — O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan encontra o cruzador dos arcônidas que realizou um pouso de emergência.
1972 — Instalação da Terceira Potência, que enfrenta a resistência das potências terrenas unidas e a invasão de seres extraterrenos.
1975 — Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos. Perry Rhodan encontra os tópsidas no sistema de Vega e procura solucionar o sistema galático.
1976 — Perry Rhodan atinge, a bordo da Stardust-III, o planeta Peregrino, e juntamente com Bell consegue a imortalidade relativa, mas perde mais de quatro anos.
1980 — Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus.
1981 — O Supercrânio ataca, e a Terceira Potência defronta-se com a mais dura das provas a que já foi submetida.
198211983 — Os mercadores galácticos procuraram transformar a Terra num mundo colonial, mas o feitiço vira contra o feiticeiro e Perry Rhodan conquista uma das bases mais importantes dos mercadores.
1984 — Perry Rhodan voa para Árcon.
O desejo de Rhodan continua o mesmo: destronar o cérebro positrônico que rege Árcon. Ao fazer um pouso em Honur, o planeta proibido, uma surpresa desagradável acontece...





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência; apoderou-se da supernave Titan.

Reginald Bell — Amigo íntimo e confidente de Rhodan.

Thora e Crest — Arcônidas que há treze anos convivem com Rhodan.

Gucky — Espécie de rato-castor. Faz parte do Exército de Mutantes.

Wuriu Sengu — Japonês, vidente do Exército de Mutantes.

Major Freyt — Comandante da Ganymed.

Tenente Tifflor — Piloto que acompanha Rhodan ao planeta Honur. É considerado um herói.
1



O Aparelho de contagem regressiva começou a funcionar. Exatamente dentro de um minuto, a Ganymed se levantará no espaço.
Como que preparado para um salto, o gigantesco bojo da Ganymed se erguia para o alto. O teto das nuvens sobre o espaçoporto era de quinhentos metros e parte da gigantesca espaçonave mergulhava pelas nuvens a dentro, até uma altura de oitocentos e quarenta metros.
Faltavam cinqüenta segundos. As nuvens roçavam pela parte superior da nave, encobrindo o lado mais fino da fuselagem, dando a impressão de que seus duzentos metros de diâmetro se tornavam muito maior do que na realidade. Parecia uma torre gigantesca dos velhos tempos da história. Mas os enormes lemes traseiros, sobre os quais se apoiava a espaçonave, davam uma idéia nítida das dimensões e da imponência da Ganymed.
Faltavam quarenta segundos, na contagem regressiva.
A agitação febril na central da Ganymed havia desaparecido. A programação preestabelecida comandava automaticamente o desenrolar das operações. Estava iminente a partida para a Terra. O sol vermelho de Voga, um astro ciclópico com quinze planetas, espalhava sua luz por cima da camada de nuvens, na extremidade frontal da nave. Os possantes lemes traseiros ainda repousavam no revestimento de plástico da base de lançamento de Tagnor.
Tagnor, o enorme espaçoporto do quarto planeta do sistema do sol Voga, era a maior base do planeta Zalit. As naves arcônidas chegaram a estas bandas há mais de 15 mil anos, começando a colonizar este mundo. Há 15 mil anos, pois, desciam e subiam aí as espaçonaves. No entanto eram sempre naves do Império Arcônida ou de seus súditos, nunca, de outras regiões desconhecidas do espaço infinito.
A Ganymed não era uma espaçonave arcônida, não pertencia ao mundo do “montão de estrelas M-13”. Sua pátria era a Terra.
Faltavam vinte segundos para a decolagem para Terrânia.
Em breve ela se projetaria no espaço, na maravilha exuberante de inimaginável beleza, onde milhares de sóis brilhavam das profundezas do infinito, como colares de pérolas. Ficavam bem próximos uns dos outros, tirando, com suas cores maravilhosas, a escuridão fria e horripilante do Universo, para transformar esta parte do cosmo num bulevar de encantadoras cascatas de fogos de artifício.
M-13 distava 34 mil anos-luz da Terra, com mais de cem mil estrelas. Esse era o vasto Império dos Arcônidas, e Zalit, o quarto planeta do sistema Voga em M-13, não seria outra coisa senão um dos muitos mundos, que há milhares de anos, foram colonizados pelos arcônidas.
Faltavam dez segundos. Ao fim desse tempo, a descomunal Ganymed se ergueria no espaço, deixando este fantástico Império, um reino de estrelas com um diâmetro de cem mil anos-luz, para desaparecer no infinito na direção da Terra.
Aqui, M-13, o Império dos Arcônidas e a 34 mil anos-luz, a Terra, um simples nada, pensava Freyt, enquanto seus olhos repousavam no aparelho de contagem regressiva, vendo seu ponteiro descer vagaroso para zero. Quando ele, mentalmente, chamou sua pátria Terra de um nada, estufou por instinto o peito e seu olhar refulgiu de orgulho.
Levantava vôo por determinação de Perry Rhodan, em direção à Terra. Retornaria juntamente com o chefe para poder conquistar este império de mais de cem mil estrelas.
Chegou o último segundo da contagem regressiva. A tela do grande painel deixava ver todo o espaçoporto de Tagnor. Centenas de naves ali estavam estacionadas, mas o comandante Freyt só enxergava uma: a Titan. Sentiu um calafrio pela impressão que esta esfera descomunal sempre despertava nele.
Deu-se a partida da Ganymed.
Como que por força mágica, a nave se levantou, enquanto os mecanismos de propulsão zuniam. Aos poucos, penetrou na camada de nuvens, que como uma massa fina roçava agora nos lemes traseiros.
Mas de repente se ouviu o tamborilar trepidante das forças de propulsão, que atiraram a Ganymed para o alto. Imediatamente, o teto de nuvens se rasgou. A densa camada se desfez, surgindo uma imensa fenda, por onde o sol Voga penetrou com seus raios, inundando Tagnor de luz. E no meio desta orgia de luz, podia-se agora ver a nave espacial em toda a sua imponência.
Acelerava cada vez mais, e seu tamanho diminuía rapidamente. Penetrou pelo céu da tarde, que ainda reinava em Zalit e desapareceu num instante.
Vagarosamente se fechou sobre Tagnor aquela enorme fenda de quilômetros de diâmetro, que se rasgara nas nuvens.

* * *

Lá foi ela embora — disse Reginald Bell, encostando-se na poltrona, diante da tela inteiriça da Titan e botando as mãos atrás da cabeça.
A Ganymed não era mais visível. Um último clarão esbranquiçado da espaçonave foi talvez o adeus para a tripulação da Titan que permanecera em Tagnor.
Reginald Bell se ajeitou confortavelmente na poltrona. No momento, estava contente com a situação. A Ganymed se aproximava do ponto de transição, para, em alguns saltos, atingir a Terra. Lá estavam milhares de especialistas, com severos cursos de hipnose. Cada um, especializado em determinado ramo. Estes homens ansiavam por voltarem com a Ganymed, para formarem a nova tripulação da maior belonave das Galáxias.
E nesta supernave, estava sentado Reginald Bell, chamado em geral apenas de Bell, um pouco obeso, de costas largas. Às vezes, um pouco ríspido em seus momentos de cólera; sempre valente. Mas, acima de tudo, um homem honesto, o melhor amigo de Rhodan, seu substituto e pessoa de inteira confiança.
Agora virou a cabeça para o assento do piloto. Ali estava Perry Rhodan, um homem, que com tudo a seu alcance, estava em condições de se tornar o senhor da Terra. Porém, esta idéia jamais lhe havia ocorrido.
Para Perry Rhodan, havia um outro objetivo, um objetivo num futuro ainda longínquo: transformar a Terra no centro das Galáxias. Terra, este nada num canto perdido da Via Láctea, este grãozinho de areia do Universo, devia substituir Árcon e destituir de suas funções os decadentes arcônidas, que não estavam mais em condições de desempenhá-las e depois, se estender sobre os mundos do Universo.
Bell olhou para ele. Havia muita tensão em seus traços fisionômicos. Ele sempre estava certo e agia com a maior ponderação, na hora em que os outros perdiam a cabeça, sob a emoção do momento.
E ali estava ele sentado calmamente, esperando pela mensagem do Departamento de Rastreamento Estrutural.
Os transmissores de localização da Titan seguiam o vôo da Ganymed. O rastreador de estrutura aguardava pelo momento em que o espaço em torno da nave, que demandava à Terra, estremecesse todo no instante exato da transição.
Disse alguma coisa, Bell? — perguntou Rhodan, olhando furtivamente para ele. Seus olhos indicavam concentração.
Detiveram-se por um instante no amigo, que se aprumou na poltrona, parecendo um pouco irritado.
Tomo a liberdade de dizer que agora a Ganymed dispara, Perry — resmungou ele.
Interessante, Bell, porém nenhuma novidade. O comandante Freyt dispõe do compensador de estrutura e nós, não. Ele pode “disparar”, como você diz. Nós ainda temos que esperar por este instrumento. Não podemos nos dar ao luxo de também “disparar”. Mas você tem razão, poder disparar é realmente excitante, não é, meu caro Bell?
Já nas primeiras palavras de Perry Rhodan, a atenção de Bell havia sido grande. Mas não estava mais olhando para o amigo, e sim reparando no enorme saguão da central da espaçonave.
A Titan era, na sua opinião, um non plus ultra, era realmente a maior, a mais Imponente, a mais perfeita espaçonave da Via Láctea. Mas este hall da central, na sua expressão, era um pesadelo. Não havia ser humano capaz de ler todos os instrumentos e relógios ao mesmo tempo. A Titan, uma esfera de 1.500 metros de diâmetro, o clímax da engenharia espacial dos arcônidas, dispunha de um posto de comando, abri gado numa verdadeira catedral. E aqui neste aparente caos de instrumentos, registros e dispositivos, Perry Rhodan tinha percebido algo muito importante, que Bell, naturalmente não vira.
Que é que há de extraordinário? — sussurrou Bell.
Tela do painel redondo, Setor Beta, traço oito, Bell.
Atrás de Perry Rhodan, estava o arcônida Crest; impressionante em sua estatura. Sua fisionomia era tão espirituosa que quem o visse uma vez, jamais o esqueceria. Crest dirigiu seu olhar para o ponto indicado da tela do painel redondo da Titan. Bell gostou de ver que também o grande cientista arcônida só conseguira ver depois que Rhodan indicara o local.
São espaçonaves — dizia Bell, tentando dar à sua voz um tom de naturalidade, mas como de outras vezes, não foi bem sucedido.
Por isso, olhou de soslaio para Perry que deixou entrever um leve sorriso. Conhecia muito bem seu velho amigo, e sabia que nunca conseguiria tapeá-lo.
Onde está a avaliação dos dados? — era o chefe, era uma ordem.
Era o próprio Perry Rhodan que sabia que a exploração do curso das três espaçonaves já devia estar elaborada, caso o responsável pelo setor de orientação e goniometria não fosse um dorminhoco.
Apareceram então os resultados.
Perry Rhodan e Bell se entreolharam. A expressão séria de seus olhos se transformou num alegre sorriso. Rhodan, voltando-se para Crest, disse:
Fomos reconhecidos como amigos pelo cérebro positrônico de Árcon, porém, ele não confia totalmente em nós, ao menos quanto à rota a seguir.
Um cérebro positrônico não deixa de ser uma máquina, Perry Rhodan — lembrou o velho arcônida condescendente. — Uma máquina não é um ser humano. Um positrônico não pode entender de fidelidade terrana.
Crest notou um sorriso no rosto de Perry Rhodan.
Muito obrigado pelo elogio, Crest, mas foi bem-intencionado. E nós não somos tão fiéis assim e acho razoável o fato de que o positrônico de Árcon tenha enviado três naves para observar e medir a transição. Entre amigos verdadeiros não pode haver segredos e o regente de Árcon parece saber disso. Deve ter perguntado a si mesmo por que mantivemos em segredo a posição de nossa pátria de origem e como conseqüência lógica deve ter feito investigações sobre as razões da nossa dedicação ao Império Arcônida.
Mas, você está falando sério? — perguntou Crest meio surpreso.
Perfeitamente — respondeu Perry com consciência tranqüila. — Mas, de outro lado, não tanto altruística e honestamente, como deve ser entre amigos. Ainda não me esqueci, nem por um instante sequer, do plano de conquistar Árcon para a Terra.
De repente, ecoou do alto-falante do Departamento de Rastreamento Estrutural:
Ganymed, transição executada sob valores conhecidos. Compensador de estrutura não foi utilizado. Início de mensagem cifrada. Transmito à Central de Rádio.
Mudança de contato, ruído no alto-falante e imediatamente a Central de Rádio:
Ao Chefe. Três naves desconhecidas no encalço da Ganymed. Dados da exploração: Espaçonaves partiram de Árcon. Fim, Comandante Freyt.
Então? — perguntou Rhodan, aguardando a resposta de Crest.
Afastando-se do painel redondo, a figura de Crest chegou até Rhodan. Havia sinais de perplexidade em sua fisionomia.
Sua suposição estava certa, Rhodan, o soberano do Império dos Arcônidas, desconfia de você.
E vai continuar desconfiando mais, quando os três observadores enviados por ele tiverem de informá-lo de que perderam completamente de vista a Ganymed, depois do seu supersalto. A memória eletrônica do cérebro robotizado vai lhe dizer que eu já lhe dei um caso semelhante e que posso executar transições sem que ninguém consiga acompanhá-las. Crest, não seria interessante, no momento, entrar em discussão com o cérebro robotizado. O mais ajuizado é aquele que cede, pelo menos até que o comandante Freyt esteja de volta com os mil especialistas e com o compensador de estrutura de grande alcance para a Titan. Aí, eu vou querer entrar em contato com o robô. Por enquanto não. E por este motivo também, vamos deixar Tagnor. Certo, Bell?
Este, estava distraído, com o olhar vagando pela central e intimamente sentindo saudades da boa e velha Stardust-III. A Central da Stardust-III era um conjunto compacto, que em caso de necessidade podia ser controlada por dois ou três homens. Mas com dois ou três homens, tentar controlar este posto de comando, seria loucura e meramente impossível. Redundaria num fracasso completo.
Bell — disse Perry, chamando o amigo pela segunda vez — eu lhe pergunto se concorda com que devamos sair daqui?
Claro que concordo. Mas, mesmo que você me julgue um chato, quero lhe dizer que não simpatizo em nada com este pedaço do Universo, onde nos queremos esconder. Não gosto nada daqui, mas não me pergunte por quê.

* * *

Mas o “imediato disparar da Titan” deu em nada. Milhares de pequenas coisinhas, que no entanto eram coisas importantes para os habitantes de Zalit, retiveram Rhodan por mais alguns dias em Tagnor.
Ninguém mais falava do Zarlt Demesor, o tirano usurpador que pretendia se insurgir contra o Império e nesta tentativa fora morto. Os moofs não apenas continuaram assunto do dia, mas obrigavam a se proceder a uma batida rigorosa por todos os cantos do país, em seu encalço.
Os zalitas ainda demonstravam pavor destas medusas telepatas. Os moofs eram seres inteligentes de uma raça não-humana. Sua pátria de origem devia ser um mundo de gás metano, pois em Zalit eles viviam em recipientes esféricos pressurizados, cheios deste gás. Mas ainda estava de pé a pergunta: Quem havia trazido os moofs para Zalit?
Para Bell já havia uma resposta certa: estava plenamente convencido que não podia ser ninguém a não ser os ciganos das estrelas, os comerciantes da Galáxia. Eles é que ofereceram os moofs ao megalomaníaco Zarlt. Sem perceber que era apenas um joguete nas mãos de gente mais esperta, mandou buscar as medusas estranhas em grande escala para Zalit, pensando que conseguiria, com tripulações dopadas pelas forças sugestivas dos moofs, invadir e destruir o Império dos Arcônidas.
Diga-me uma coisa, Perry, aqueles três exemplares que temos a bordo estão mesmo guardados com toda segurança?
A resposta de Perry foi uma pergunta muito curta:
Você já viu alguma coisa na Titan que não seja feita cem por cento?
Aí, o gordo Bell começou a sorrir, olhando para o núcleo da Central. Ainda se podiam ver os sinais de que um dia ali existira uma coisa que estava organicamente ligada com o aço arcônida do chão. Por uns instantes, o olhar de Rhodan também demonstrava concentração preocupada, lembrando-se da luta quase sem esperança de vitória que Ivã Ivanovitch Goratchim, o mutante de duas cabeças, havia travado com o controle automático na Central. Este controle automático era o braço de força todo-poderoso, que atingia até a eternidade, do cérebro robotizado de Árcon. Autárquico na produção de sua energia, construído apenas para a finalidade de executar as ordens do gigante positrônico e que, como conseqüência lógica, também possuía o poder de destruir a gigantesca Titan, se ela, contra qualquer expectativa, tivesse que cair em mãos de estranhos ou fosse utilizada para atacar o Império Arcônida. Goratchim lutou contra o controle automático com as forças inimagináveis de sua mente, pondo alguns átomos de cálcio no processo de fusão. Assim o destruiu de dentro para fora.
Rhodan estava se recordando desta conversa e de muitas outras coisas, enquanto chegavam as mensagens sobre os motores de propulsão da Titan. Dos mini-alto-falantes ecoavam nitidamente todas as mensagens.
As lâmpadas verdes de controle acendiam na frente de Perry. No setor de Bell, não era diferente. Sinais apareciam e sumiam. Somente um cérebro de formação aprimorada na velha sabedoria dos arcônidas é que podia dominar todo este aparato ciclópico.
Uma fina vibração percorreu o dorso do gigante. Esta esfera confeccionada com aço de Árcon, repousando sobre um enorme anel com suportes telescópicos, ansiava febrilmente por se erguer aos ares, precipitando-se no infinito.
Seiscentos quilômetros por segundo, era seu poder de aceleração. Isto significava que, após dez minutos, atingiria a velocidade da luz.
Este colosso, apoiado em dezenas e dezenas de suportes telescópicos, ainda repousava no espaçoporto de Tagnor. Há oito dias atrás, a Ganymed partira para a Terra; em poucos minutos, a Titan também deixaria este mundo. As turbinas começaram a zunir com toda força. Sempre mais luzes verdes se apagando. Mensagens claras do radiofarol, sempre pronto para entrar em ação. O campo-H aguardava nas bobinas. Servia para proteção contra elementos negativos no espaço. Utilizado em terra, limpava todo o espaçoporto num raio de dez quilômetros.
Rhodan olhou justamente para a direita, para o positrônico de bordo. Sentiu uma veneração pela sabedoria dos arcônidas que tinham criado o incrível. Eles que, antes de mergulharem na decadência e de deixarem ir aos pedaços seu glorioso império, há mais ou menos seis anos, adotaram como seu soberano um cérebro-monstro.
Tudo isto começava a tomar corpo na mente de Perry.
O reino de mundos, ou seja, o Império Arcônida estava maduro para ser colhido. Rhodan, porém, não queria aparecer como um conquistador sanguinário, deixando atrás de si um rastro de ruínas e de miséria.
Queria construir, porém, não com os arcônidas atuais, mas com os homens da Terra, dessa raça jovem e corajosa de onde ele também provinha.
Como uma visão, pairavam estes quadros diante dele. Entrementes, era o alarido dos mini-alto-falantes. Mensagens e mais mensagens e o positrônico de bordo seguia seu caminho.
O programa se desenrolava.
O programa da partida. Começou a contagem regressiva.
Aquecimento dos motores de propulsão. Três, dois, um, zero.
A Titan se levantou do solo. Uma esfera de aço de um quilômetro e meio de diâmetro flutuava no espaço. O inimaginável era uma realidade. A maior espaçonave das Galáxias começou a subir.
O planeta caiu para trás. Parecia que o espaço infinito era empurrado contra ele. Foi escurecendo. O sol do sistema Voga, que estavam deixando, se transformou num olho vermelho de um gigante.
E então surgiu M-13, esta festa permanente de fogos de artifício, este indescritível panorama de refulgentes colares de pérolas e a luta entre estes raios suaves de luz e a negridão do espaço infinito.
Mas, que nave... — exclamava Bell — e que prodígio nossa Titan.
Thora e Crest, os dois arcônidas, se encontravam entre as duas poltronas dos pilotos, onde estavam sentados Rhodan e Bell. Conheciam esta maravilha, era ela sua pátria. Há treze anos atrás, tinham abandonado o “montão de estrelas” para se dirigir à Galáxia e procurar pelo mundo da vida eterna. Na lua da Terra, sua viagem se transformou numa catástrofe e durante treze anos viram pessoalmente como, sob a direção de Perry Rhodan, de uma Terra “selvagem” surgiu um povo que amadureceu e em futuro, não muito longe, seria o herdeiro dos arcônidas. Este povo acabaria sendo o dono do Universo, como uns escritores terranos de literatura barata pensavam.
Thora e Crest não chegavam a acreditar nisso. Sabiam que os homens da Terra conseguiriam, pelo menos, dominar a Galáxia, o que seu povo não conseguira realizar até hoje.
Perry Rhodan havia descoberto, no Planeta Peregrino, o mundo da vida eterna. Ele e Bell foram julgados dignos de serem submetidos a um processo de duchas celulares através do qual ficariam sessenta anos sem envelhecer. Eles, os dois arcônidas não tiveram este privilégio. E agora, o comandante da maior nave do Universo era um homem da Terra: Perry Rhodan.
Tinha sido reconhecido como aliado do Império dos Arcônidas. Havia lutado pela continuação do Império.
Thora e Crest pensavam ao mesmo tempo a mesma coisa. Tinham vivido os últimos treze anos em terra distante e estavam agora em Árcon.
No entanto, sua terra natal lhes parecia agora estranha. Em lugar dos arcônidas, quem governava o grande império era um cérebro robotizado. Nos confins desse enorme reino, naves arcônidas, controladas por robôs, destruíam sem piedade povos que se sublevavam contra a hegemonia de um super-robô.
Transição em 12 minutos — ouviu-se do posto positrônico automático de bordo.
Com 0,8 tempo luz, a Titan disparava transversalmente pelo “montão de estrelas”. A tela mostrava o sempre fascinante quadro de um mundo de estrelas de rara beleza. Mas não havia muito ambiente para romantismo na Titan. Surgiam os resultados dos cálculos de goniometria.
M-13, com uma dimensão de mais ou menos 230 anos-luz, era o bulevar das espaçonaves. Aqui, neste espaço relativamente pequeno, circulavam nove décimos do conjunto de naves da Galáxia, de estrela em estrela.
Transições eram anunciadas a todo momento, partidas, alterações de direção e indagações para orientação.
Tudo que ali se passava, acontecia depressa. Rhodan estava praguejando. Havia descoberto na tela gigantesca dois pontos minúsculos, logo depois identificados como duas naves voando em seu encalço.
E sua voz gritava um novo comando:
Orientação? Onde estão os cálculos? Um segundo depois, o micro alto-falante dava os resultados:
Provindo de Pi 34 graus, Alpha 18, Valor 107: 45,5. Aceleração 500 km/s, velocidade 0,8 tempo-luz. Número dos objetos: dois. Tipo: naves espaciais do Império. Fim da exploração.
O que se deu agora, não estava programado.
Mais do que depressa, Perry Rhodan havia ligado para a direção manual de emergência. O poderoso posto positrônico de bordo estava parado. Não dirigia mais a Titan.
Espere um pouco, meu curioso cérebro de Árcon — sussurrou Rhodan para si mesmo, parecendo manter com uma mão só o acelerador-regulador.
No mesmo momento em que a força de propulsão estava no máximo e a gigantesca espaçonave atingia uma velocidade de 600 km/s, os amortecedores de compressão zuniam uma oitava acima.
De repente, Rhodan perdeu os dados referentes à orientação. Com muita cortesia, pediu novas informações.
Do alto-falante, ouviu-se primeiro um forte chiado de vento, depois, uma voz excitada:
Distância trezentos e dez mil quilômetros.
Obrigado — respondeu Rhodan. — Mas por que a orientação, em curto espaço de tempo, pela terceira vez, não veio com precisão de cem por cento? Terei que lhes impor certos exercícios para treinamento. Meus senhores, nem sempre me sobra tempo para fazer a mesma pergunta duas vezes. Vocês sabem que já houve situações dificílimas que só puderam ser superadas, porque cada um deu tudo que tinha.
As duas naves do Império dos Arcônidas, agora localizadas com toda exatidão e ampliadas através do agregado no painel redondo, pareciam se aproximar cada vez mais.
Bell resmungava, demonstrando aborrecimento. Adquiriu este hábito durante a entrevista com o cérebro positrônico em Árcon.
O olhar de Rhodan adquiriu um brilho intenso. Não era muito comum ver sua fisionomia iluminada por este clarão inteligente, que parecia aniquilar qualquer resistência. Não levava a mal a desconfiança do cérebro positrônico. Afinal de contas, ele estava cortando o espaço infinito deste reino de estrelas com a maior espaçonave do Universo. E não havia recebido a Titan espontaneamente do Imperador de Árcon. Ele a tinha tomado em duro combate, quando o gigante do espaço possuía atrás de si apenas alguns vôos de experiência.
O fato de o cérebro positrônico, depois disso, lhe ter dado de presente, o que tomara em combate, não foi um gesto de caridade. Um autômato positrônico não pode ter sentimentos, mas somente lógica. E o cérebro deve ter partido do ponto de vista de que havia apenas uma tripulação capaz de dirigir o colosso... e essa tripulação estava sob o comando do estrangeiro Perry Rhodan.
Que está fazendo aí? — perguntou-lhe Bell, um pouco confuso, inclinando-se para ver o que era.
A prova para o exercício, Bell. A programação continua, embora a tenha cancelado. Estávamos na iminência da primeira transição. Agora quero ver qual é o tempo que vai levar, com minha interferência.
Bell olhava admirado. Thora e Crest também pareciam surpresos.
Thora, antiga comandante de uma nave arcônida em expedição, destruída completamente num acidente na lua da Terra, colocou a mão no ombro de Perry. Este estremeceu um pouco sob este contato. Thora nunca estivera tão perto dele assim, nestes treze anos de viagens.
Pois não...? — perguntou ele, levantando a cabeça e olhando para ela.
O que você está exigindo do posto positrônico de bordo ultrapassa o poder do cérebro, Perry. Deve-se fazer uma nova programação para a transição.
De repente, um som agudo e nítido irrompeu dos alto-falantes:
Contagem regressiva... dezessete... oito... um... zero.
Thora e Crest e todos que estavam de pé correram para as poltronas mais próximas.
Rhodan ainda ouviu o zero. Imediatamente sentiu a horrível sensação na nuca. Então, o hiperespaço invadiu a Titan com seu sibilar monótono e esfusiante, apagando tudo, toda vida, toda matéria, toda energia. O salto da gigante ocorrera.
O que era normal tinha deixado de existir.
Bem atrás da Titan, os goniômetros estruturais das duas naves dos arcônidas haviam registrado o salto da esfera espacial, captando simultaneamente todos os dados a respeito.

* * *

Também, agora chega — murmurou Bell, fechando os olhos e contraindo o rosto, numa expressão de dor.
A Titan tinha acabado de sair da quarta transição. Perry e ele foram os primeiros a voltarem a si.
Vamos ver — disse Rhodan, deixando tudo aberto.
Bell ficou esperando com ele pelos dados da orientação estrutural. Em seqüência, foram os membros da tripulação recobrando a consciência, após o choque do salto.
Nos mini alto-falantes houve um breve ruído e veio então a transmissão dos dados da orientação estrutural, registrados no segundo da transição para o hiperespaço:
Cinco saltos, foram realizados, chefe — dizia o oficial triunfante. — Um em cada quarenta e oito vírgula seis minutos-luz de..
Obrigado — respondeu Rhodan, e desligou.
Puxa — disse Bell balançando a cabeça — que movimento havia nessas intrincadas linhas espaciais. Gostaria de saber, mais ou menos, quantas naves espaciais circulam neste “montão de estrelas”.
Há treze anos atrás, Bell, mais de três milhões — respondeu Thora. Ela e Bell já haviam tido boas discussões, mas até hoje, nunca o tinha deixado tão perplexo assim, com esta informação.
Três milhões — disse Bell, repetindo baixinho o número.
Perry não se surpreendeu.
Deus do céu”, pensava ele. “Três milhões de naves espaciais e, apesar de tudo isto, deixam cair aos pedaços o que criaram com o próprio esforço. Três milhões de naves espaciais...”
Toda a tripulação da central tinha escutado a afirmação de Thora. Todos estavam impressionados e a todos parecia uma utopia pretender conquistar um império desta pujança.
E daí?
Esta pergunta curta explodiu como uma bomba.
Perry cruzou o olhar com Thora.
Diante dos olhos dele, a arcônida perdeu a segurança e o orgulho. Perry não era nada vaidoso. Mas, neste momento, ela se lembrou de que Rhodan foi o único neste “montão de estrelas” M-13 que conseguiu vencer o poderoso cérebro positrônico. E a máquina positrônica era mais forte do que ele. Milhões de vezes mais forte. A concentrada força dos mundos da M-13 estava atrás dele. Não era decadente como a raça dos arcônidas. Possuíam pendor para o comércio e, no entanto, perderam, devido à astúcia de um único homem.
Por este motivo, os três milhões de naves espaciais não assustavam Rhodan.
Não haverá mais transição.
A ordem de Rhodan reboou por todos os conveses da Titan, até ao último aposento ocupado.
Estava convencido de que o quarto salto da Titan, que tinha sido executado no mesmo segundo, com duas outras naves bem próximas, não poderia mais ter sido registrado com exatidão por Árcon. E as duas naus que os seguiam bem desde Zalit, já tinham perdido sua posição no terceiro salto.
Iniciar a programação do sistema Thatrel — ordenou Perry Rhodan.
Ao lado dele estava Bell, sempre tagarelando:
Gostaria que alguém me dissesse por que motivo, cada vez que passo por este sistema, ou penso nele, sinto uma sensação cômica? Diga-me, Perry, que foi que transformou a nossa passagem por aqui em uma coisa tão gostosa?
E você não sabe mesmo, Bell? Foi Thora.
Estou ouvindo isto hoje pela primeira vez. Então, Thora é quem sabe de tudo e pode nos informar. A que distância estamos de Árcon?
Quarenta e sete anos-luz. Mas você devia saber isto, Bell. Estava presente quando nos informamos sobre o sistema Thatrel no catálogo sideral dos arcônidas. Bell, o que está se passando com você?
Nada, Perry, só que não consigo me livrar de um sentimento cômico, cada vez que penso nisso.
Acho que você devia cuidar de seus nervos — continuou Perry, um pouco mais rude do que realmente intencionava. De fato, Rhodan já estava um tanto preocupado com os constantes maus presságios de Reginald Bell. Porém tinha esperança de que, depois destes dias turbulentos, viessem tempos bons para se descontraírem e descansarem um pouco.
Senhor — era a voz do oficial responsável pelo posto positrônico de bordo e pela programação. — O programa para o sistema Thatrel está entrando em execução. A nave tomou um novo rumo. Diferença para as coordenadas 0,0003. Distância de Honur 34,62 horas-luz.
Com um pouco mais do que três quartos da velocidade da luz, a Titan avançava para o insignificante sistema Thatrel. Em torno de um sol vermelho-claro, circulavam três planetas mais insignificantes ainda. De acordo com o catálogo sideral de Árcon, este segundo mundo era habitado por uma população degenerada.
Perry Rhodan pensava: “Se os próprios arcônidas, que já eram degenerados, chamavam os outros povos de sua raça de degenerados, o que se pode então esperar deste planeta Honur?
Durante dois dias, Perry ficou observando o espaço. Mantinha-se firme em sua trajetória, abandonando sempre aquelas faixas mais usadas pelas naves dos arcônidas.
Queria estar bem seguro de que o imperador de Árcon não havia percebido sua presença por ali e de que nenhuma das muitas naves espaciais com as quais cruzara ao longe, o denunciasse em Árcon.
Ninguém na Titan duvidava da seriedade e das intenções de Rhodan. Sabiam todos que o chefe era inimigo do acaso e, na medida do possível, tentava evitá-lo.
Às 10:43 horas, tempo de bordo, veio afinal o comando:
Tomar o curso diretamente para o sistema Thatrel.
Quase com a velocidade da luz, a Titan devorava o espaço.
Treze horas mais tarde, surgiu na tela do painel redondo o sistema Thatrel.
Puxa... — disse o analista de espectros, depois de haver examinado a luz do pequeno sol, entregando a Rhodan os resultados da análise. Este os comparou com os dados do catálogo sideral dos arcônidas.
Bell, Crest e Thora estavam em torno dele. O salão de conferência correspondia à magnitude soberba da Titan. Ironicamente, Bell o chamava de salão de dança, pois não era homem dado a bate-papo muito demorado.
Por que será que temos que descer neste “Marte”, onde não se encontra nada, Perry? Por que pesquisar primeiro todos os dados dos catálogos? Olha o manual de rotas da Galáxia. Eu o encontrei aqui na biblioteca. Não há rota nenhuma tocando este lugar perdido...
É exatamente isto que procuramos — respondeu Perry. — Você esquece sempre que em Zalit nós não podíamos fazer nada sem centenas de espiões em cima da gente. Vem cá, você não vai dizer que não tinha confiança nos zalitas, mas depois de sua revolução, mostravam-me muito apego ao Império de Árcon. Você pode me indicar uma outra maneira de como podemos construir o compensador de estrutura, sem que ninguém o perceba? E o que este compensador representa para nós, acabamos de ver há pouco. Tivemos que dar quatro saltos para escaparmos dos rastreadores de Árcon. Com o novo compensador, podemos sumir, sem deixar nenhum vestígio, logo após o primeiro salto. Por este motivo é que estou contente de Thora ter nos chamado a atenção para este canto abandonado do espaço. Não confio no acaso, e sei realmente que a construção deste aparelho deve ser feita às escondidas. E, por fim, quero ter em mãos alguns trunfos contra o cérebro robotizado.
E nesses três milhões de espaçonaves, você não pensa mais? — disse Bell, querendo mostrar prudência.
Claro que penso, meu caro amigo — respondeu Perry com um sorriso meio suspeito, fazendo com que Bell não se sentisse muito à vontade. — Depois que fiquei sabendo quantas naves existem aqui neste “montão de estrelas”, abandonei meus planos de construir novas naves. Resolveu-se tudo automaticamente e...
Você não pretende mais construir espaçonaves, Perry? — perguntou Bell muito assustado e se encolerizando subitamente, quando percebeu o fino sorriso de Thora e Crest. A ira lhe toldou um pouco o discernimento, não conseguindo atinar com o motivo do sorriso. Mais zangado ainda, esbravejou: — Falando mais exatamente, a Titan foi roubada. Acho bom que mantenhamos uma norma de conduta moral.
Mas, meu amigo Bell — interrompeu-o Perry, com um leve sorriso nos lábios — exatamente você se mostra tão sensível neste particular? Que aconteceu com você, rapaz? Preciso lhe lembrar alguns fatos onde você ultrapassou, e por muito, estas normas de conduta? Estou pensando, por exemplo, nas...
Bell recuperou, então, seu autodomínio e antes que Perry citasse aquele exemplo, acrescentou apressado:
Presenteada.
Obrigado — disse Perry — mas não me agrada e acho que a ninguém dos presentes, que você classifique nosso modo de agir como um roubo. Lembra-se que chegamos a Árcon como amigos e ao que assistimos quando atingimos este “montão de estrelas”? E quando eu, há pouco, dizia que o problema da construção de naves está resolvido, era para ser entendido no sentido de que os arcônidas serão em breve nossos melhores amigos e colocarão à nossa disposição tantas naves quantas forem necessárias. Então, Bell, se tornou verdade o que você profetizou, há alguns dias, a Crest na Titan. Estamos novamente de acordo?
Pelo menos até este sistema Thatrel, Perry. Naturalmente, não sou louco, mas este sol está me deixando gelado.
2



Honur, o segundo planeta do sistema Thatrel, era um mundo ressecado, como se mostrava em toda a sua fealdade no painel redondo da Titan.
Onde estão, então, as cidades? — perguntou John Marshall, o maior telepata e, desde os primeiros dias da Terceira Potência, o mais fiel seguidor de Perry Rhodan.
Honur não possui cidades — foi a resposta sucinta de Perry. — É um mundo onde não há nada de útil, nem mesmo jazidas de minério dignas de serem exploradas e, além disso, apresenta péssimas condições climáticas. Por isto, ninguém o procura.
Como as condições climáticas eram ruins, o painel de bordo, já anunciava. Uma forte tempestade de areia varria a superfície marrom e desértica de Honur. A esta altura, dava a impressão como se houvesse alguma coisa queimando na pequena esfera e a fumaça clara, mas densa, fosse comprimida contra a superfície.
Aos poucos, com a inversão da velocidade da Titan, a tempestade de areia se alterou, na tela do painel. Surgiu então uma enorme cadeia de montanhas. As medições de bordo revelavam picos com mais de quatro mil metros de altura.
Tão assustadoramente desolada e calcinada como a superfície plana deste mundo, parecia também a grande cadeia de montanhas que serpenteava do nordeste para o sudoeste.
Olhem lá um rio — exclamou Bell, apontando para uma faixa sinuosa nas vertentes da montanha, terminando logo adiante num pequeno lago.
A Titan descia para Honur. O maciço estava ainda no painel quando surgiu uma planície. Nela, não predominava o marrom-sujo, mas um verde-escuro, um pouco colorido demais, para se poder dizer que era incolor.
Que pena que a Titan não esteja lotada — dizia Rhodan, pensando no décimo sétimo convés de sua nave, onde estava instalado o departamento de botânica, mas que no momento estava vazio.
Que será isso, esse verde-escuro? — perguntou Crest, virando-se para Thora. Mas parou, perplexo, esqueceu o que havia perguntado e ficou olhando fixamente para Thora.
E ali estava a esbelta arcônida, de porte nobre, olhando agora, sem nenhuma nobreza, para o desolado mundo de Honur, no painel de bordo. Um vinco vertical lhe dividia agora a testa larga e fora disso lisa. Seus olhos tinham expressão de tristeza.
Somente agora é que dera com o olhar atento de Crest. Balançou a cabeça, como se quisesse afugentar os maus pensamentos, tentou um sorriso forçado, lembrando-se de repente da pergunta de Crest.
Essa mancha colorida horrível lá embaixo não poderá ser uma floresta bem espalhada?
Oh, belas “Montanhas Rochosas” — gritou Bell, traindo assim, mais uma vez, sua origem americana. Não aceitou a hipótese de que o feio verde-escuro pudesse ser uma floresta.
Mais para o horizonte, surgiram dois rios. Ambos terminavam em pequenos lagos. Porém, em lugar algum havia sinal de mar. Honur era um mundo seco, com um único continente sem nenhum valor econômico.
Aos poucos foi surgindo a parte escura, correspondente à noite do planeta. E a feiúra se escondeu.
De qualquer maneira — disse Bell — isso aí me é mais agradável do que, depois de uma transição, ter que aterrissar no meio de uma batalha aérea ou espacial. Mas não gosto destes desertos.

* * *

A resolução de Perry de aterrissar depois desta primeira circunvolução de Honur foi tomada sob a consideração de que, com cada volta a mais, aumentaria a possibilidade de serem descobertos por qualquer outra espaçonave. Então com toda certeza a notícia chegaria ao cérebro positrônico de Árcon, que logo descobriria o paradeiro da Titan.
A gigantesca cadeia de montanhas, com seus picos de quatro mil metros, subindo como muralhas, bem íngremes, interessava muito a Perry.
Assim que a nave saiu da parte escura e entrou para o dia, Rhodan iniciou a descida.
Bell começou a resmungar, quando este mundo árido começou a invadir a tela do painel com sua monótona planície.
Perry não estava vendo aquilo com bons olhos. Mas era preciso pensar na Titan e mesmo que sua tripulação não estivesse completa e, portanto não estivesse em condições de efetuar bons assaltos, contava com uma pequena frota e podia se defender.
Durante a circunvolução de Honur, o planeta continuou sua rotação e a Titan em sua curva de aterrissagem se deslocou mais para sudoeste, exatamente na direção do lago, onde o rio desembocava.
Rhodan dirigia a espaçonave. Queria ficar tão acostumado com esta gigantesca esfera de aço, como estava com a Stardust-III que no momento repousava em seus suportes telescópicos no Deserto de Gobi, na Terra.
Bell deu-lhe um sorriso de confiança, de sua poltrona de co-piloto. Rhodan sabia o que significava este sorriso.
No rebordo central da esfera, zuniam todos os motores de propulsão. Na parte inferior da nave, estrugiam os reatores, e milhões de elementos trabalhavam para que o gigante de aço, obedecendo ao comando de um só homem, seguisse seu curso em direção ao lago.
A alegria resplandecia nos olhos de Perry, a criança despertava no homem. E Bell, o amigo de todas as horas, se alegrava vendo que a criança sempre continuava viva em Rhodan. Por uns instantes, a Titan parecia um brinquedo para Perry. Estes segundos eram a fonte de onde hauria forças para a luta.
A supernave flutuava agora entre o lago e um íngreme pico de montanha. Sua sombra podia ser vista agora no painel de bordo. Vagarosamente o gigante do espaço se aproximava da muralha de pedra. Metro por metro ia descendo.
Perry apertou um novo botão. Da metade inferior da esfera projetaram-se enormes suportes telescópicos, um anel completo, formado por um sem-número de dedos, com base ampla de sustentação.
Isto é um chão firme — exclamou Bell distraído, pensando, porém, nos milhões de toneladas que a Titan pesava.
Obrigado — respondeu Perry, olhando rapidamente para ele. — Foi bom você me lembrar isto. Vou obter a compensação do peso pela força da antigravidade.
Você, hein... — dizia Bell — nunca teria imaginado...
É, mas imagine só, afundar com todos estes suportes telescópicos no chão de areia fofa e depois ver a Titan ter que se safar daí. Está certo, caro Bell?
Você andou aprendendo com os telepatas? — perguntou Bell, sorrindo.
A Titan encostou no chão. Tinha aterrissado.
3



Major Freyt, comandante da Ganymed estava sentado em frente de seu colega major Klein, em Terrânia. Conferia as mensagens que Klein lhe passava, sem dizer uma palavra.
Freyt começou a expressar seu mau humor em termos de gíria arcônida.
Klein — disse ele, empurrando para o lado o montão de mensagens — o que que está acontecendo com vocês na Terra? Isso é tempo arcônida. Nestas condições, nunca chegarei a Honur com a Ganymed, no tempo combinado. Puxa, por que as bombas de fornecimento não trabalham mais depressa?
Major Klein, substituto de Rhodan na Terra, enquanto o chefe estivesse ausente, balançou a cabeça pensativo.
Freyt, neste meio tempo, você me contou tanta coisa a respeito do planeta industrial Árcon III, que você já se esqueceu de calcular com as condições aqui da Terra. Reflita um pouco: o compensador de estrutura é uma invenção dos mercadores galácticos. Construir de novo esta obra maravilhosa exige um remanejamento total dos setores industriais. E mais ainda: que monstro de compensador tem que ser construído... E isto não pode ser feito de um dia para o outro. Não estamos em Árcon III e a Terra não é um mundo em que as instalações industriais estão coladas umas com as outras.
Isto não me adianta nada, Klein. Já transmiti meu último rádio, dizendo exatamente quando chegaria a Honur. Tenho que ser pontual. Não estou agüentando mais de preocupação.
Com a nave que Perry Rhodan possui agora? — perguntou Klein, virando o rosto um pouco para o lado e contemplando o colossal espaçoporto de Terrânia, onde ao lado da grande Ganymed, estava a Stardust-III, uma esfera metálica de oitocentos metros, apoiada em seus suportes, e mais para o lado, estavam os possantes cruzadores.
Em pensamentos, o major Klein procurava imaginar o tamanho da Titan, e como pequena iria parecer então a Stardust-III. Mas não podia suspeitar o que sua pergunta tinha provocado em Freyt. Respondeu imediatamente:
Klein, puxa, você vê tudo com óculos cor-de-rosa. Está certo, a nave de Rhodan é um gigante, mas o Império dos Arcônidas também não é uma brincadeira e mais de cem mil sóis com seus satélites são controlados por um cérebro ciclópico com mais de dez mil quilômetros quadrados de dimensão.
Não vejo lógica nisto, Freyt — interrompeu Klein. — O sistema Thatrel, incluindo o planeta Honur, não é um mundo sem importância? E em vista disso, não é verdade que não pode haver por lá nenhum fator que possa ameaçar a Titan? O que pode acontecer a Perry Rhodan em Honur? Nada, Freyt, absolutamente nada. Além disso, dispõe ainda a bordo de setecentos homens e o chefe nos tem mostrado, e muito bem, que com o mínimo de meios, sempre consegue o melhor resultado. Portanto, se o compensador de estrutura levar uns dois dias a mais para ser entregue, não será uma calamidade pública.
Freyt tamborilava com as pontas dos dedos na chapa da mesa.
Você fala muito bem, Klein, você pensa com sinceridade, mas nem por isso desaparece minha intranqüilidade. Talvez Rhodan nem esteja mais em Honur, sei lá? E que pode ele fazer sem o compensador? Qualquer nave arcônida poderá identificá-lo durante um supersalto. E a cada salto novo, reunirá mais assistentes em torno de si, por fim, não nos esqueçamos dos saltadores, os mercadores galácticos e de quebra ainda os moofs.
Você ainda não me havia falado quase nada a respeito disso — acrescentou Klein, tentando distrair um pouco Freyt.
Este se levantou, dirigiu-se à janela e ficou observando Terrânia, a capital da Terceira Potência, situada no meio do Deserto de Gobi e o centro político da Terra.
Os moofs, estes monstros — começou ele — são qualquer coisa como um mistério das Galáxias.

* * *

E a uma distância de 34 mil anos-luz, Perry Rhodan dizia a mesma coisa para Crest:
Os moofs são e continuam sendo um enigma, mas não porque eles existem, mas sim pelo fato de que conseguiram dominar um mundo inteiro pelo seu poder de sugestão. E isto, apesar da contradição palpável: são muito bobos para agirem por conta própria. Às vezes chego à conclusão de que são imaturos, incompletos em sua evolução. E por fim: quem sugeriu ao Zarlt estes moofs? Quem, Crest?
Crest e Thora pertenciam aos poucos arcônidas de sua categoria, que não haviam sido vítimas da apatia mental que acabara de conduzir o outrora glorioso Império Arcônida a uma fase de pura decadência.
Por alguns instantes, Crest ficou fitando Perry Rhodan, em sua estatura avantajada. Estavam os dois frente a frente na cabina de comando.
Bell diz que... — e Crest esboçou um fino sorriso, quando Perry, com a testa franzida, olhou com desconfiança para ele — Reginald Bell suspeita dos saltadores. Eu também os tinha como culpados, mas quanto mais penso a respeito, mais aumentam minhas dúvidas. Uma coisa me preocupa muito: este procedimento dos moofs não combina com a mentalidade dos mercadores galácticos. Apesar de tudo, eles são em si honestos, já que se pode chamar os saltadores de honestos.
Parou de falar, porque Rhodan agora sorria um pouco.
Crest, há pouco você se expressou com muita cautela, apesar disso, ouvi com pesar sua opinião de que os saltadores não entram em questão neste assunto dos moofs. Assim, continua de pé o enigma, quem procura destruir a existência do seu Império? Que os mercadores galácticos são desonestos em relação ao Império Arcônida, está provado através dos dados, em parte falsos, em parte incompletos, que transmitiram ao cérebro robotizado, a respeito da Terra e dos homens. Assim como nós quebramos a cabeça para descobrir a origem dos moofs e quem está por detrás deles, assim também o seu imperador procura saber em que lugar das Galáxias se encontra a Terra e de que maneira, nós, seres humanos, devemos ser classificados. E agora um novo enigma, que fica bem à margem destas perguntas: como é possível, que Bell não se lembre mais da hora em que Thora nos propôs de voarmos para cá, a fim de podermos construir com calma o compensador estrutural da...
Bell, também? — precipitou-se Crest, assustado, levantando a cabeça.
Quem ainda mais?
Crest estremeceu todo, sob o olhar penetrante de Rhodan.
Thora — respondeu o inteligente arcônida, quase sem voz.
Que você está dizendo?
Ela mesmo, Perry. Ontem, logo depois da aterrissagem, ela me procurou e me confiou seus cuidados. Ela não consegue explicar, por que motivos nos aconselhou a descer em Honur.
Perry parecia não acreditar nas palavras do arcônida.
Crest, isto é uma brincadeira de mau gosto, não é?
Não, Rhodan, infelizmente, não.
Perry começou a ligar os fatos.
Lembrou-se de que o gorducho sempre tivera antipatia contra este sistema. Esta solidão e este deserto horrível realmente eram coisas que não combinavam com o gênio de Bell.
Crest, venha comigo à biblioteca — pediu Rhodan ao arcônida.
Para chegarem até a biblioteca tinham que tomar três elevadores antigravitacionais. Levaram dez minutos até alcançarem ao seu objetivo.
A biblioteca era um longo salão que em nada lembrava uma biblioteca da Terra. Rhodan se aproximou da pequena mesa de ligações, à direita da porta. Tinha que se familiarizar um pouco com estes dispositivos mais complicados do que os da Stardust-III. Mas então, todo o saber acumulado positronicamente, ali estava para responder a suas perguntas. Em algum lugar, naquele longo corredor, um determinado micro pino entre cem milhões deles, se imantaria para a resposta, e Rhodan e Crest veriam numa tela estável e ouviriam por um alto-falante os dados sobre o planeta Honur no sistema Thatrel, fonética e graficamente.
Gravitação 0,7... atmosfera pobre em oxigênio... Rotação... Temperatura... Estrutura geológica... — saía rapidamente do mini alto-falante e a parte gráfica aparecia na tela:

Mundo primitivo que há 14.643 anos foi colonizado pelos arcônidas. Dezoito anos mais tarde, chegou a Honur a última leva de imigrantes. Devido a uma alteração climática que não corresponderia às parcas riquezas do solo, do ponto de vista dos gastos necessários, o Conselho do Império desistiu de qualquer iniciativa.

Com os traços fisionômicos um tanto duros, Perry via estes dados monótonos e olhando rapidamente para Crest, disse:
Isto é a santa burocracia, tanto aqui com vocês, como também conosco na Terra.
O alto-falante forneceu alguma coisa importante:
Cento e vinte e um anos depois da primeira colonização de Honur, todo o sistema do sol Thatrel foi declarado proibido. Esta proibição nunca foi suspensa até hoje.
Era tudo que se sabia sobre Honur, embora Rhodan tivesse pedido “informações completas”, na mesa de ligações.
Não haverá nada mais, Crest? — e na voz de Rhodan se podia notar intranqüilidade.
Crest o havia observado, durante todo o tempo das informações. Naturalmente ele já sabia tudo que acabara de ouvir e nesses pormenores de sua pátria, estava mais por dentro do que Rhodan. Podia, pois responder com firmeza.
É realmente tudo. Havia ainda o traçado de estradas, mas o computador o teria mencionado, se fosse coisa de qualquer importância.
Território proibido e nenhuma indicação dos motivos? Estes desertos devem ocultar perigos? — perguntou Rhodan.
Não falou mais nada. Lembrou-se apenas que os arcônidas, também há 15 mil anos atrás, só chamavam de perigosas as coisas suspeitas que se davam por ocasião do aparecimento de uma estrela fixa.
Venha, Crest — dizendo isto saiu apressadamente da biblioteca e correu para a central. Na volta, levou só seis minutos. Um tanto ofegante, Crest o seguiu até o posto de comando.
Rhodan mobilizou todos os especialistas. Era uma ordem atrás da outra, no microfone. E a automatização perfeita da técnica arcônida distribuía cada chamada para o setor a que se destinava.
Para o comandante da Gazela: preparados para decolar.
A mais exata análise do ar.
Enviar sondas automáticas para provas do solo. Executar estudos nas prescrições dos arcônidas.
Medições do campo magnético, da irradiação dos planetas. Medir tudo, mas tudo, examinar duas vezes e transmitir os resultados para a central.
Bell — disse chamando o amigo. Bell estava dormindo, sorriu através do intercomunicador de seu camarote para a central. Mas naquele momento, ninguém ria. — Bell, imediatamente para a central.”
Estou indo.
Pré-alarme para a Titan.
Em toda a nave, as sirenes começaram a tocar, num determinado ritmo. Do hangar veio a mensagem:
Gazela pronta para o lançamento.
Obrigado — foi a resposta de Rhodan.
Crest o admirava. Rhodan não esquecia nada, trabalhando com a precisão de um autômato positrônico — e no entanto, muito melhor. Ele era um ser humano e Crest já sabia, por experiência, o que isto significava. No seu íntimo, surgia um sentimento de inveja. Estava pensando nos arcônidas quando encontrava-se sentado ao lado de um homem que estava prestes a conquistar o Universo para sua raça.
Chegou outra mensagem:
Saíram sondas para todas as regiões.
Rhodan continuou emitindo novas ordens, no microfone.
Senhor — anunciou-se a Estação de ótica que controlava o planeta até a linha do horizonte através dos maravilhosos instrumentos arcônidas — movimentos na margem do lago. Agora é... meu Deus, são homens, senhor. Saem de uma fenda da terra. Os primeiros se movimentam em direção à espaçonave. Sim, são homens. Devem ser arcônidas, embora pareçam vagabundos. Já são mais de cem.
Procedeu-se as pesquisas-relâmpago. Um setor depois do outro se anunciava, dando seus resultados. Bell estava sentado há tempo na poltrona de co-piloto, ao lado de Rhodan. Com simples troca de olhar, dividiam entre si o trabalho, colocando em código as mensagens recebidas, para o computador positrônico de bordo. Entrementes, Rhodan ainda teve tempo de mobilizar seu corpo de mutantes. Não lhes disse muita coisa sobre os fatos que se desenrolavam. Cada um conhecia bem seu setor de responsabilidade, em que era mestre absoluto.
Sugestão, telecinese, espionagem, hipnose, teleportação, Rhodan não se esqueceu de nada em seu pensamento rápido e seguro. E John Marshall, em algum lugar da Titan captava a corrente de seus pensamentos, registrava-os e transmitia as ordens do chefe aos demais mutantes.
A população degenerada dos antigos colonizadores do planeta, que se aproximava com lentidão estava sendo examinada em seu conteúdo mental pelos mutantes, homem por homem.
As sondas enviadas já estavam de volta, uma parte do material coletado já tinha sido analisado, controlado, submetido às severas normas de avaliação.
Nenhum perigo.
Nada de perigos.
Flora do planeta: inofensiva.
Uma atrás da outra, choviam as mensagens.
Bell começou a esbravejar em voz alta.
Bonito demais para ser verdade. E embora nossas raposas entoem hinos de louvor, que o diabo carregue todos estes desertos. Ficarei feliz, quando sairmos deste planeta horrível.
Perry ouviu tudo isso, pensando nas palavras alarmantes de Crest sobre a perturbação da memória de Thora.
Na Titan, continuava o estado de pré-alarme.
Rhodan, porém, estava em estado de máximo alarme.
Já há 14 mil anos atrás, Árcon tinha declarado este sistema como território proibido. Não era permitida qualquer aterrissagem... e esta proibição nunca mais foi suspensa. Onde estaria o perigo, que os próprios arcônidas nunca chegaram a descobrir?

* * *

Estavam sentados os quatro na cabina de comando. Perry Rhodan, Reginald Bell, Thora e Crest. Não despregavam os olhos da tela do painel. O dispositivo continuava em pleno funcionamento. Apaticamente, a população saída das profundezas da terra estava lá fora em volta da gigantesca espaçonave, sendo observada na tela um por um.
Eram homens de estatura elevada, esbeltos, quase ressecados. O que chamava muito a atenção era sua calvície e os olhos muito encavados no rosto, de expressão triste. Sua pele era de um marrom-avermelhado, uma cor suja, como toda a fealdade de Honur, em meios tons.
Andam por aí em farrapos, estes pobres-diabos — disse Bell. — Parecem meio famintos.
Crest fez a pergunta:
Virá deles o perigo?
Thora ficou corada, aliás um acontecimento raríssimo na orgulhosa arcônida. Seu olhar cruzou com o de Rhodan e num sentimento de desespero sacudiu os ombros, dizendo:
Não sei, não sei, não sei mesmo como cheguei a propor este mundo aqui como local de encontro com a Ganymed. Não conheço Honur. Penso que antes nunca ouvi, nem li o nome deste sistema. É tudo tão horrível, e acima de tudo, este aviso de não descer em Honur.
Instintivamente, Rhodan lhe colocou a mão sobre o braço.
Thora — disse ele e sua voz tinha influência sugestiva — nós todos confiamos em demasia na exatidão dos assentamentos dos arcônidas. Porém já presenciamos que às vezes Árcon se esquece de registrar alguma coisa. Entretanto há nove ou dez mil anos atrás o estado de proibido foi suspenso e esta suspensão simplesmente esquecida; esquecida apenas pelo fato de que neste mundo não há nada para procurar... será então que não estamos exagerando os nossos cuidados?
Bell se levantou.
Enfiou as mãos nos bolsos da calça e trombeteou:
Perry, você agora está ficando esquisito. Será que estamos numa espécie de circo, em que cada um de nós é um palhaço? Primeiro foi Thora, que nos recomendou este museu de desertos e depois não sabe mais a razão por que o fez. Depois, eu. Devo ter estado presente quando foi combinado com o major Freyt que o encontro seria aqui em Honur. E agora você? Você que fareja o ar estragado a mil anos-luz de distância, de repente aceita algo tão miserável? Perry, isso não é possível.
Rhodan ainda mantinha preso o braço de Thora, certamente sem o perceber. Olhou de frente para Bell e se lembrou de uma pergunta que lhe rodava pela cabeça, soltando-a imediatamente:
Nossos três moofs ainda estão no setor de isolamento?
Estão, sim — foi a resposta tonitruante de Bell, porém, corrigindo-se um pouco, acrescentou: — Pelo menos até uma hora atrás. Mas eu tive cautela em não me aproximar desses monstros. Não abandonei a zona de segurança. Mas não creio muito nessas “aranhas”. Este jogo que estão fazendo conosco, deve ter alguém escondido atrás dele. Parece muito logicamente arquitetado para ser atribuído aos moofs. Amigo, estamos tratando é com os saltadores, com nossos ciganos das Galáxias. Alguém está exercendo influência sobre nós. Alguém que não se esquece talvez, que fomos nós que capturamos sua mais recente nave comercial e a transformamos na Ganymed. Quem sabe, este alguém quer agora, em troca, algo equivalente, como a Titan, por exemplo?
Nenhum dos três homens observava Thora. Estava sentada, muito quieta, sentindo a mão de Perry sobre seu braço. Emanava de Perry para ela um fluxo sereno de felicidade, e nunca, em seus longos anos de existência, havia experimentado uma felicidade tão intensa. Naturalmente sentia a necessidade, que explodia dentro dela, de se encostar mais em Perry, de colar seu rosto no dele, abraçá-lo; estava mesmo na iminência de se entregar a este arroubo impetuoso de felicidade. Porém a irrupção de cólera de Bell veio como um curto-circuito.
E aí tudo terminou. Como varrido por um tufão. Um grande vazio se abriu diante dela, penetrou-a completamente, ameaçando levá-la para o incerto. Os homens se entreolharam. As afirmações de Bell tinham fundamentos. Mas Rhodan e Crest abanaram a cabeça.
Apenas um dos nossos mutantes teria sentido os tele impulsos, Bell — disse Rhodan. — Acho cada vez mais que somos vítimas de uma consignação errônea nos dados dos arcônidas e que o bloqueio de Honur já há tempo terminou.
E o engano de Thora? E o meu, Perry? — insistiu Bell.
Nem Crest, nem Rhodan podiam responder alguma coisa.
Bell se encaminhou para a porta, mas antes de deixar o camarote de Perry, ainda lhe repetiu:
Estes desertos estão podres, Perry. Acredite-me. Em qualquer lugar por aí, o diabo escondeu um abacaxi para nós. Tomara que os estilhaços da Titan não nos cortem a cabeça.

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