Atônito e
sem dizer uma palavra, olhava fixo para o que tinha diante dos olhos.
Seria este
o sol do planeta Terra? Jamais. Este gigantesco olho vermelho lhe era
completamente desconhecido, totalmente diferente, tão diferente que
até um cego perceberia a diferença. E Topthor era tudo, menos cego.
Seu
primeiro pensamento foi fazer uma ligação para Cekztel e explicar o
erro. Mas ficou sentado, continuando a olhar o quadro incrível.
Procurava achar uma explicação, mas não havia. O cérebro
positrônico do departamento de navegação jamais poderia errar. Um
erro do computador estava, pois excluído. Os dados foram lançados
no próprio local da observação. Não podia haver erro.
Topthor
pensava sempre objetivamente e assim desistiu logo de querer procurar
uma explicação para o impossível. Teria tempo mais tarde. No
momento, era necessário se conformar com o fato e ponderar suas
conseqüências.
Primeira
conseqüência: ele se poria em contato com Cekztel e admitiria ter
trazido a frota toda para um lugar errado. O que aconteceria? Topthor
se sentia mal só em pensar nisso. Todo tipo de recriminação
recairia sobre ele, embora estivesse convencido de não ter culpa
alguma. Mas quem é que queria saber disso? Ninguém. Talvez seria
expulso e teria doravante de levar vida de pária, sem amigos e
abandonado por todo mundo. Não, Topthor não pensava mais em dar
explicações ao velho Cekztel.
Segunda
conseqüência: procuraria resolver o enigma por conta própria,
descobrir como surgira o engano. Para isso, tinha primeiramente que
se manter calado e deixar seus colegas na crença de que se tratava
mesmo da Terra e do sistema solar. Certamente não demoraria muito
até que se chegasse a descobrir o erro, pois o sistema solar de
Rhodan não poderia ficar aí, sem defesa nenhuma. Não parecia haver
a mínima reação. Um outro erro, como logo se constataria. E um
erro que muito alegraria a Topthor.
A segunda
conseqüência parecia aceitável ao superpesado.
Mas sua
cabeça inteligente não parava de pensar. A bordo da Top II
encontrava-se muita gente que havia visto a Terra naquela época.
Será que ficariam de boca fechada, quando Topthor lhes contasse a
verdade? É certo que eram amigos do peito, como Regol e Gatzek.
Mas...
E ainda
havia a possibilidade de uma confusão com computador.
Levantou-se
bruscamente e foi examinar a seção de navegação. Mandou sair o
oficial que estava de vigia e começou ele mesmo a conferir os dados.
Alguns minutos depois, veio o resultado. Topthor o examinou e sacudiu
a cabeça.
Os dados
estavam certos, as coordenadas perfeitas. Era mesmo ali no sol
gigantesco de Beta.
Sem dizer
uma palavra e sem explicação, fez sinal ao oficial de vigia para
entrar novamente. Depois voltou para a sala de comando. Deixou-se
cair pesadamente na poltrona, olhou para a tela do painel e pôs-se a
escutar as mensagens do rádio. O ataque ao terceiro planeta já
havia começado.
Estava
sorrindo sozinho, quando de repente sua fisionomia se transformou. Os
terranos estavam resistindo desesperadamente.
Topthor
parecia como que atingido por uma descarga elétrica. Foi a segunda
surpresa em menos de dez minutos. Havia terranos neste estranho
sistema? Então ele estava salvo e ninguém descobriria o engano não
intencionado. O terceiro planeta parecia habitado e estava sendo
defendido.
Seguia com
muita atenção as informações e respirava aliviado, embora já não
compreendesse o que estava se passando. Talvez os terranos tenham
estabelecido aqui uma base, que agora defendiam corajosamente. Se a
frota atacante destruísse literalmente o terceiro planeta, os
terranos perderiam apenas uma base, não a pátria de Perry Rhodan.
Seguindo
seu pensamento prudente, resolveu guardar este segredo só para si e
continuar por conta própria suas investigações. Assim foi que
abandonou a rota planejada e se aproximou do quarto planeta, para,
com toda calma, registrar os dados sobre o sistema e compará-los com
as informações do computador de bordo. O erro estaria escondido em
algum lugar, ele o descobriria.
A
localização da verdadeira Terra não poderia ficar perdida.
*
* *
O saltador
não respondeu. Ber-Ka, então, não hesitou mais e mandou abrir fogo
de todos os lados.
Para sua
surpresa, todos os disparos energéticos se esfacelaram diante do
envoltório de proteção magnética do adversário. A distância era
agora muito pequena e uma retirada era quase impossível.
A nave dos
saltadores alterou o curso e expôs seu lado mais comprido no sentido
da MV-treze. Ber-ka sabia o que isto significava, mas não tinha mais
tempo para modificar sua posição. Mandou descarregar toda a energia
disponível no seu envoltório de proteção para se defender contra
o ataque iminente.
Mas o
saltador, desta vez, não usou raios energéticos, e sim um torpedo
com brilho de prata, que alterando seu curso automaticamente foi
atingir em cheio a MV-treze, apesar de suas manobras para fugir do
alvo, detonando com um clarão amarelado, perto da popa.
Ber-Ka
sentiu o terrível solavanco. De nada adiantou agarrar-se à
poltrona. Foi lançado para fora, rolando no chão da cabina até
chocar-se de encontro à parede. Ouviram-se vozes, alguém deu um
comando. Logo depois outra detonação e solavanco terrível,
apagando toda a luz. Os campos de gravitação deixaram de funcionar
e Ber-Ka estava flutuando dentro da nave, já em queda livre contra o
planeta Aqua, sem propulsão, nem direção. A parte traseira devia
estar completamente destruída.
Ber-Ka foi
impelido contra o teto, incapaz de se movimentar. A qualquer momento,
podia o inimigo dar a ele e a sua nave o tiro de misericórdia. Mas
isto não aconteceu.
A MV-treze
se precipitou de encontro à superfície do quarto planeta.
*
* *
Sentado na
cabina, Topthor acompanhava curioso a luta desigual. Já quando a
estranha nave apareceu pela primeira vez, teve uma suspeita que lhe
pareceu tão absurda que tentou esquecê-la. Mas depois, ficou
matutando que toda aquela ação tinha sido meio maluca. Talvez
pudesse esclarecer um pouco mais o enigma, se conseguisse conversar
com aqueles terranos. Deviam estar desesperados, é claro. Tinham que
estar convencidos de que se encontravam nas mãos dos vencedores, do
contrário jamais diriam a verdade.
Mas,
seriam mesmo terranos?
Topthor
ficou olhando a nave alongada, como um torpedo, com uma saliência
abaulada no centro, caindo ao lado deles, e ainda dispostos a um novo
ataque. Já havia visto em algum lugar este tipo de construção. Os
tópsidas? Seu império não era nas proximidades da Terra? Ou se
tinham aliado com os terranos?
O ataque
não surtiu efeito. Então um torpedo atingiu a popa do aparelho,
destruindo as instalações de propulsão dos desconhecidos. Sem sua
sustentação mecânica, a nave se precipitou contra o planeta.
Topthor
seguia tudo com atenção. Não dava nenhum sinal de querer socorrer
os vencidos ou de pretender aniquilar os restos de sua nave.
Aparentemente imóvel, ele flutuava ao lado da MV-treze, esperando
alguma coisa.
Duas horas
se passaram, duas longas horas em que um certo Ber-Ka passou por um
verdadeiro inferno e ficou mais exausto ainda. O planeta já estava
maior e através das nuvens já se via o continente. Podia-se já
ouvir o sibilar do vento nas camadas mais elevadas da atmosfera.
Topthor,
então, resolveu agir.
Aproximou-se
com a Top II da nave que estava caindo. Ganchos magnéticos iam
saindo lentamente da carcaça da Top II, envolvendo o bojo da nau
destroçada e detendo-lhe a queda. Voltou então a gravidade, quando
as duas naves começaram a dar volta em torno do planeta, numa leve
parábola. Acabaram aterrissando num planalto, próximo ao litoral.
Topthor
não ficou parado nesse meio tempo. De pé, na escotilha aberta,
esperava, com a pistola de raios na mão, a saída dos sobreviventes
da nave capturada. Mas não havia contado com a intrepidez suicida
dos tópsidas. Ao abrir uma clarabóia do lado direito da MV-treze,
provocou suspeita nos tópsidas. Salvou-se com um pulo imediato para
a escotilha, entrando logo para a cabina de comando, onde Gatzek
havia observado o incidente. Num gesto rápido, ligou o envoltório
magnético de proteção.
Infelizmente
com uma fração de segundo de atraso.
Um denso
jato energético amarelado partiu da MV-treze, atingindo a Top II bem
no meio. Seguiu-se um estrondo, como a descarga de um reator e a
grande espaçonave dos saltadores partiu-se, exatamente antes de o
envoltório ser ligado.
De um
momento para outro, ali estavam duas naves arruinadas e, em cada uma
delas, o pensamento era o mesmo: aproveitar um descuido do
adversário, para destruí-lo.
Topthor
amaldiçoou sua leviandade, mas depois se conformou. Olhou calmo para
os olhos arregalados de Gatzek.
— Examinar
a instalação de energia, observar a capacidade de funcionamento da
central de navegação e de rádio, apresentando o resultado
imediatamente. Depois do conserto, testar a possibilidade de manobrar
a Top II.
Gatzek, um
tanto hesitante:
— Que
fazer com este ferro velho aí ao lado, que nos partiu ao meio? Devo
mandar matar os adversários?
— Deixa
disso, Gatzek. Quero conversar com estes rapazes. Acho que vamos ter
muitas surpresas.
— Meu
estoque de surpresas está abarrotado — protestou o oficial,
deixando a cabina de comando.
Topthor
acompanhou-o com um sorriso. Levantou-se e foi para a central de
rádio. Regol estava diante dos aparelhos, realizando os primeiros
controles. Os alto-falantes emitiam sons ininteligíveis — sinal de
que ao menos isto estava funcionando.
— Ligação
com Cekztel? — perguntou Topthor.
Regol
sacudiu a cabeça, sem olhar para trás.
— Ainda
não. Eles não têm tempo agora, os terranos entraram em luta
renhida, mas acho que vão perder. A supernave de Rhodan foi
localizada muitas vezes.
Topthor
quase perdeu a fala:
— A
supernave de Rhodan?
Regol
concordou espantado:
— Sim, a
Titan, como foi batizada a grande nave. Além dela, estão
participando da defesa da Terra dez cruzadores pesados dos arcônidas.
— E eles
estão perdendo? — perguntou Topthor incrédulo. — Algo não está
certo. Tem certeza disso?
— As
mensagens o dizem claramente, Topthor. Não há dúvida de que
superestimamos o poderio bélico da Terra. Aliás, já há muito
tempo queria lhe fazer uma pergunta: você não reparou uma alteração
no sol? Se não me engano, a Terra tinha um sol menor, amarelado. E
agora...
— Eu sei
— interrompeu-o Topthor impaciente. — Ainda falaremos mais tarde
sobre isto. Agora não temos tempo, pois há problemas mais
importantes que temos de resolver. Vamos tentar ligação pelo rádio
com a nave abatida aqui ao lado. Regol sorriu malicioso.
— Já
estou tentando isto há tempo. Ninguém responde. Quem sabe o rádio
deles foi destruído?
— Então,
não há outro meio — disse Topthor — tenho que me apresentar de
novo na escotilha deles, com uma bandeirinha branca na mão, para
lhes mostrar nossa vontade de paz.
— Não
sei se os terranos vão concordar — duvidou Regol.
Topthor,
que já estava na porta, virou-se para trás:
— Quem é
que disse que os rapazes da nave ao lado são terranos?
De olhos
arregalados, Regol ficou olhando seu comandante.
3
O cérebro
robotizado da navegação positrônica da Centauro não parava um
instante. Mal o pesado cruzador se materializava em qualquer lugar,
no meio das naves dos tópsidas e desfechava uma descarga de raios
energéticos, mais ou menos eficientes, contra as naves atacantes dos
superpesados, já estava na hora de pular para o hiperespaço,
desaparecendo totalmente. Quase que ao mesmo tempo, aparecia ela em
outro lugar.
Major
Deringhouse suava, mas entusiasmado com a operação. Capitão
Lamanche, seu substituto e primeiro-oficial, gritava sem parar, dando
ordens e cuidando que as transições se processassem o mais rápido
possível. Já que as mesmas manobras eram executadas simultaneamente
também por Rhodan com a Titan e por McClears com a Terra, os
superpesados tinham a impressão de que estavam em atividade pelo
menos três ou quatro belonaves tipo Império e uns dez cruzadores
pesados.
E, no
entanto, os “terranos”
estavam perdendo. Razão para isto, eram, em primeiro plano, as naves
dos tópsidas, demasiadamente lentas, não estando pois à altura do
ataque dos saltadores. Se a Titan tivesse aplicado toda sua força, a
luta estaria bem diferente. Mas, compreensivelmente, não era esta a
intenção de Rhodan. Os saltadores deviam vencer e sair com a
convicção de haverem derrotado a Terra. E, naturalmente, a frota
dos terranos.
Deringhouse
tirou os olhos dos controles e olhou para Marshall que estava
entrando na cabina.
— Então
— perguntou excitado — já obteve algum resultado?
— Desta
vez, você poderia apostar tranqüilamente com Gucky — respondeu o
telepata. — Ainda não temos nenhum indício da presença de
Topthor. Estou duvidando de que tenha tomado parte no ataque.
— Impossível
— disse Deringhouse, sacudindo a cabeça. — Recebemos um rádio
informando que Topthor toma parte no ataque. Você se utilizou
somente de Gucky?
— Naturalmente,
não. Todos os telepatas se esforçaram para captar impulsos do
superpesado. Ras Tschubai esteve em várias naves deles, mas não
encontrou Topthor. Em compensação, em cada nave em que chegava, o
susto da tripulação em ver surgir do nada um fantasma preto, quase
enlouquecia-os.
— Ótimo
— disse o major. — Para os atacantes, a teleportação é prova
cabal de que se trata dos homens de Perry Rhodan.
— Também
Gucky se teleportou muitas vezes. Poderia ter levado de cada vez uma
bomba atômica e destruído a nave inimiga, porém não nos teria
adiantado nada. Mas, falando sinceramente, é doloroso para mim, para
nós todos, ter que perder uma guerra que a gente ganharia com tanta
facilidade.
— A Via
Láctea inteira deve estar crente de que fomos destruídos. Mas para
isso, Topthor tem que ser encontrado. Se ele perder a calma e
denunciar a seus amigos que destruíram um planeta errado, toda nossa
astúcia não valeu de nada. E até agora, tudo funcionou tão bem.
— Vamos
continuar procurando — disse Marshall, encorajando Deringhouse. —
Temos de encontrá-lo. Não pode ficar eternamente escondido.
— Esperamos
que não — respondeu Marshall, dando ordens para o próximo salto
que o levou para um choque entre dois cruzadores dos tópsidas e uma
enorme nave cilíndrica dos saltadores.
*
* *
Na
escotilha aberta, estava Topthor esperando, olhando firme para o
pequeno aparelho dos desconhecidos. Quem estaria lá dentro?
Terranos?
Tinha
quase certeza que não encontraria nenhum terrano lá dentro. Uma
simples consulta no seu catálogo lhe dava esta quase certeza. Naves
deste tipo eram construídas pelos tópsidas.
Estariam
os sáurios realmente aliados aos terranos? Que sentido teria isto?
Será que Rhodan não representava nenhum perigo para seu império?
Tinha de
descobrir isto e só por este motivo é que estava expondo a vida.
Talvez seria respondida também sua outra pergunta: por que a
positrônica de sua nave teria errado daquele jeito?
Para lá
do planalto, começava a floresta virgem. Ia em declive para a
planície. Somente ao longe, no horizonte, surgia uma nova cadeia de
montanhas, limitando a visão. Mais para a esquerda cintilava o mar
que era quase noventa por cento deste planeta. Era um mundo
agradável, pena que não tinha habitantes inteligentes, com quem se
pudesse tratar.
Ou
existiriam? O que faziam, então, aqui os sáurios?
Os olhos
de Topthor perceberam um movimento nos escombros da nave tópsida.
Devagar, abriu-se uma escotilha, como se fosse empurrada à mão.
Aparentemente toda a instalação da nave parecia destruída.
Apareceu então uma espécie de mão. Apesar de Topthor estar
mentalmente preparado, foi grande seu susto. Era a mão de um réptil,
coberta de escamas: a mão de um tópsida.
Até que
enfim. Se, nesta horrível batalha, não tivessem sido vistas naves
esféricas de Rhodan, tudo resultaria então numa hipótese
fantástica. Pensando nisto, Topthor sorria malicioso, pensando estar
bem próximo da elucidação da verdade.
Um tópsida
apareceu na escotilha completamente aberta, de mãos levantadas e
desarmado. Topthor também mostrou as mãos vazias e falou em
Intercosmo:
— É
melhor pararmos de lutar um contra o outro, do contrário estamos
perdidos. Ninguém nos ajudará. Mas se nós combinarmos, acharemos
um caminho.
Ber-Ka
parou desconfiado.
— Por
que não nos destruiu já no espaço? Podia ter feito, sem que
pudéssemos nos defender.
Topthor
sorriu amavelmente.
— Tenho
minhas razões, tópsida. Vamos conversar com mais calma. Acho que
teremos muita surpresa.
— Tinha
o mesmo desejo, mesmo antes de atacá-lo.
Topthor
ouvia com atenção. Tudo se encaminhava bem.
— Sua
instalação de rádio ainda está funcionando?
— Não,
foi destruída.
— A
minha funciona ainda, ao menos para receber. Não pudemos ainda
examinar o transmissor, mesmo porque não estamos interessados em que
os outros nos descubram. Venha, tópsida, encontremo-nos ali naquela
rocha. Estou desarmado, mas minha gente está vigiando. Se quiser,
pode tomar também as mesmas providências.
Sem
esperar resposta, Topthor desceu os poucos degraus da escada
desdobrada e num pulo atingiu o solo. Sua cintura estava vazia, porém
no fundo do bolso de seu capote escondia uma minipistola, para
qualquer emergência.
Ber-Ka
hesitou um pouco, mas percebeu que não lhe restava alternativa,
tinha que aceitar a proposta do superpesado.
Quem sabe,
o saltador estava sendo honesto. Levantou os braços escamados, numa
espécie de saudação e gritou umas ordens para a tripulação de
sua nave. Depois saltou para o solo do planeta das águas,
dirigindo-se calmamente para o ponto de encontro.
Encontraram-se
aos pés do rochedo. Topthor examinava mais detalhadamente o tópsida.
Pelo muito que os conhecia, era um exemplar ainda jovem da estranha
raça dos sáurios, com quem se defrontavam de vez em quando. Não se
podia chamá-los de inimigos, pois de qualquer maneira, tinham em
comum com os saltadores um grande ódio aos arcônidas. Mais estranho
de tudo era esta guerra que se travava no momento.
— Meu
nome é Topthor, sou patriarca de minha estirpe e comandante desta,
outrora, bela nave. — Virou-se para trás, apontando para o enorme
cilindro partido ao meio. — Devo supor, naturalmente, que você é
oficial e comandante da nave abatida.
Ber-Ka
confirmou com a cabeça. Seu sotaque era perceptível, mas falava
corretamente o intercosmo.
— Sou
Ber-Ka, comandante do cruzador de patrulhamento MV-treze, que o
senhor obrigou a aterrissar, tornando-o incapaz de funcionar. O que
lucramos com isto?
— O que
lucrará alguém desta maldita guerra? — perguntou Topthor com
unção na voz. — Eu sou, certamente, o último a desejá-la.
— Quem
seria então o responsável? Fomos nós que atacamos, ou foram os
saltadores que vieram para cá com a intenção de destruir todo o
sistema?
Ber-Ka
estudou a fisionomia do interlocutor e percebeu nele uma sincera
curiosidade. Não compreendia por quê.
— Prendemos,
há poucos dias, alguns saltadores, não os superpesados, e os
interrogamos. Confessaram que estavam planejando um grande ataque ao
nosso sistema.
Topthor
ficou perplexo.
— Saltadores?
Saltadores normais? Não sabemos nada disso. Ninguém tinha
conhecimento desta ação que foi preparada sob o maior sigilo. Quem
teria sido o traidor? Há algum detalhe deles, Ber-Ka?
— Por
que o senhor está tão interessado nisso?
— Porque
não pode ter havido traidores e porque o meu trabalho preferido é
explicar o impossível.
Ber-Ka
ficou olhando muito tempo para o superpesado e não descobriu nos
seus olhos outra coisa, a não ser curiosidade.
— Há
poucos dias atrás, aterrissaram saltadores neste planeta. Aliás,
não aterrissaram por vontade própria, nós os forçamos a descer
por meio de raios de atração. O comandante foi aprisionado. Uma
outra nave, bem menor, caiu também em nosso poder. Acho que o senhor
sabe que nós mantemos uma base neste planeta.
— Cheguei
também a este conhecimento agora — disse Topthor. — Mas
continuemos. Quem eram estes saltadores?
— Não
sei exatamente, mas Al-Khor certamente poderá informar. Ele
interrogou os prisioneiros que mais tarde acabaram fugindo.
— Fugiram?
— a confusão de Topthor era grande. — Já não estou
compreendendo mais nada. Como foi possível fugir?
— Os
nativos do fundo do mar os ajudaram. Devem ter feito aliança com
eles.
— Nativos?
Você está afirmando que neste “mundo d’água” há seres
inteligentes?
— Animais
inofensivos com um vestígio de inteligência — disse Ber-Ka,
tentando diminuir o valor destes animais. — Não têm a menor
importância.
— De
qualquer maneira, vocês instalaram esta base aqui por causa deles,
não é verdade? Mas, seja o que for, quero saber quem eram os
saltadores aprisionados que depois fugiram. As naves não tinham
inscrições do clã de origem?
— Não,
tinham apenas um nome, mas não sei qual era. Uma delas era de
construção esférica e a outra uma espécie de disco voador.
— Construção
esférica? — repetiu Topthor, destacando as sílabas. —
Construção esférica dos arcônidas ou dos terranos?
— Terranos?
Topthor
deixou de lado a pergunta.
— Não
há nenhum saltador que possua nave esférica, fora alguns
milionários extravagantes que se dão ao luxo de comprarem estas
naves conquistadas dos arcônidas. Mas estes não têm nada a ver com
nossa ação.
— No
entanto, eram saltadores, eles mesmos o confessaram. Acho, porém,
que agora, depois de responder de boa vontade todas as suas
perguntas, tenho o direito de lhe fazer algumas.
— Com
todo prazer, mas antes, apenas uma informação: em que planeta os
senhores têm sua base, no quarto ou no terceiro?
— Não
há inconveniente algum em o senhor saber isto: no quarto. Nós
defendemos apenas o terceiro planeta, para afastá-los do precioso
“mundo d’água”.
Topthor
mergulhou em profundos pensamentos.
— Pergunte
o que quiser — disse ele meio aéreo.
Ber-Ka
aproveitou a oportunidade.
— Por
que os senhores atacaram nosso sistema? De onde é que sabiam de
nossa base?
A resposta
de Topthor não veio logo, estava tão ocupado com seus pensamentos,
que o tópsida teve que repetir as duas perguntas.
— Por
que atacamos vocês? Meu caro Ber-Ka, não é tão fácil explicar
isto. De início, tenho que dizer que não sabíamos que aqui havia
uma base dos tópsidas. É difícil de acreditar, mas nós estávamos
certos de que aqui seria o planeta pátrio dos terranos, de quem você
já deve ter ouvido falar. Ou o nome Perry Rhodan não significa nada
para você?
— Perry
Rhodan...? — repetiu o tópsida refletindo um pouco. — Sim, acho
que já ouvi falar dele. Uma expedição nossa se encontrou com ele
num sistema nas proximidades da Terra, acho eu; para falar a verdade,
nós julgávamos que fosse a Terra. Infelizmente não tivemos sorte
nesta guerra, fomos obrigados a fugir.
— Estes
saltadores que vocês prenderam, como é que pareciam?
— Ora,
como os saltadores parecem. Humanóides, esbeltos, falando um
intercosmo perfeito.
— Os
terranos também falam perfeitamente o intercosmo.
— Por
que teriam de simular outra identidade?
— Esta
também é uma pergunta que eu faço, Ber-Ka. Sabe o que estou
começando a suspeitar? Estou quase acreditando que fomos vítimas de
uma trapaça muito bem arquitetada. Sabe quem eram seus prisioneiros?
Não? Então vou lhe contar: eram terranos, aliás, terranos que
vieram para cá em missão de Rhodan e denunciaram a vocês, que nós,
os saltadores, tencionávamos fazer um ataque aos tópsidas. Só
gostaria de saber como é que eles sabiam da nossa intenção e por
que meios chegaram à conclusão de que as coordenadas estavam
erradas.
— Quais
coordenadas?
— As
coordenadas da Terra que estavam registradas no meu computador de
bordo.
Ber-Ka se
assustou.
— Quer
dizer que o senhor conhece a posição do planeta pátrio de Rhodan?
— Sim,
pensava que conhecia, há muito tempo. Mas, acho que você não me
vai acreditar quando eu lhe disser que estas coordenadas davam este
gigantesco sol vermelho como sendo o sol da Terra. Minha positrônica
se enganou, dando-nos coordenadas falsas. Rhodan já devia saber
disso.
— Isto
é... — Ber-Ka começou a gaguejar e parou de falar.
Topthor
olhou para ele e continuou:
— Parece
coisa impossível, mas é assim mesmo. Não há outra explicação
para o enigma. E enquanto estamos sentados aqui e procuramos resolver
o enigma, lá em cima no espaço a sua e a minha frota se destroem.
Temos que fazer alguma coisa.
— Minha
estação de rádio não funciona — disse o tópsida.
— Também
não tenho certeza se meu rádio está bom. Mas uma coisa é certa,
Ber-Ka: aqueles saltadores, que se deixaram prender com tanta
facilidade, com o único intuito de enganá-los, eram gente de
Rhodan. Terranos. E vocês os deixaram fugir. Seu comandante devia
ser esquartejado por este crime, pois ele somente é o responsável
pelo massacre que está acontecendo.
— Como
assim? — admirou-se Ber-Ka.
— Se os
senhores não tivessem atacado, não aconteceria nada.
Topthor
nada respondeu. Olhou para a escotilha da Top II e viu o rosto de
Regol, que fitava medroso pelo canto da abertura.
— Alô,
Regol, como está a instalação de rádio?
— Não
funciona, Top. Chamamos uma nave que passava perto, não houve
resposta. Tenho receio de que...
Topthor,
suspirando, fez um sinal para Ber-Ka.
— Também
tenho receio, tópsida. Tenho receio de que temos que tirar férias
aqui no “mundo d’água”, até que a sorte da guerra esteja
decidida. Mas, qualquer que seja o resultado, o verdadeiro e único
vencedor se chama Rhodan. É realmente uma vergonha que este homem
não seja um saltador. Como são geniais suas jogadas, que
profundidade tem seu pensamento. De que maneira maravilhosa ele sabe
fomentar intrigas, fazendo com que outros trabalhem para ele, sem
perceberem. Falando a verdade, daria meu braço esquerdo, se pudesse
ter Rhodan como meu aliado.
Parou de
repente. Inclinou a cabeça e começou a rir:
— Nem
seria necessário dar o braço esquerdo, estou me lembrando agora.
Conheço um superpesado que ganhou milhões trabalhando com e para
Rhodan. Meu amigo Talamon foi mais prudente do que eu supunha. Agora
sei por que não quis tomar parte no ataque. Mas, espere, velho
amigo, teremos que conversar um pouco quando eu voltar.
— Voltar...?
Topthor
começou a refletir que sua volta não era tão fácil assim, nem tão
certa.
Rhodan
sabia que somente um único saltador é que podia descobrir o erro
que vitimara toda a frota dos superpesados. E ele, Rhodan, haveria de
fazer tudo para que esta única testemunha não abrisse a boca. Pois
Topthor já sabia todo o plano de Rhodan.
Vir
ando-se para Ber-Ka, disse:
— Acho
que vamos fazer as pazes, tópsida. Você não vai ainda compreender
bem o porquê de nossa aliança, de sua raça e da minha. Temos um
inimigo comum e não podemos imaginar outro mais perigoso e
traiçoeiro. Um adversário que até simula derrota, para, na
escuridão do esquecimento, preparar a vingança. Um dia, Rhodan
voltará e esmagará todos os povos da Galáxia que não se tornarem
seus amigos.
— Não
estou compreendendo tudo...
— Também
não é necessário, Ber-Ka. No momento não lhe resta outra opção,
a não ser aceitar minha proposta. Tente consertar seu transmissor.
Você receberá de nós a energia necessária. Nosso gerador
principal ainda funciona.
Acenou
para o jovem sáurio e voltou para sua própria escotilha.
Ber-Ka
ainda ficou parado uns instantes, depois, arrastando os pés,
encaminhou-se para as ruínas de sua nave. Na cabeça, rodopiavam-lhe
milhares de perguntas sem resposta.
*
* *
— Já
percorri quase todas as naves, mas não se consegue ver Topthor.
Gucky
estava sentado apático na cabina de comando, olhando desconsolado
para Deringhouse. O fato de não ter encontrado Topthor o aborrecia
menos do que perder uma aposta, principalmente quando o apostador era
Deringhouse.
— Quem
sabe Topthor morreu logo no início da batalha e sua nave foi
destroçada? Então o problema já estaria automaticamente resolvido.
— Rhodan
quer ter certeza — disse Marshall. — Betty Toufry diz ter
recebido, por uns instantes, impulsos que poderiam ser de Topthor.
— Como é
que ela pode reconhecer isto? — duvidou o rato-castor, esticando as
orelhas. Os músculos de suas patas traseiras se retesaram para o
salto. — E em que região ela ouviu os impulsos?
— Naturalmente
no sistema Beta — explicou Marshall. — Na direção do espaço
interestelar.
— Bobagem
— disse Gucky. — Na direção do planeta Aqua. Está bem na
direção indicada.
Marshall
queria protestar, mas, de repente, seus olhos se comprimiram. Olhou
para Deringhouse demoradamente e depois virou-se para Gucky.
— Parece
que não é bobagem não, meu caro. Vou conversar com Betty.
— Eu vou
junto — ofereceu-se o rato-castor, pulando de seu sofá. — E se
você quiser, ainda estou pronto para fazer outra aposta.
— Desta
vez você não vai arranjar outra vítima, eu lhe garanto — disse
Marshall, desaparecendo no corredor.
Gucky
parecia convencido da vitória.
Deringhouse
estava olhando para os dois mutantes que saíam, quando ouviu o
zumbido da instalação de rádio. Apertou um botão, mas a tela
continuou apagada. Mas uma voz conhecida, apesar de desfigurada pelo
dispositivo de decodificação, falava no alto-falante:
— A
derrota dos tópsidas está iminente. Deve-se esperar que os
saltadores destruam até a última nave dos tópsidas, antes de
executarem sua última tarefa que é de explodirem a suposta Terra.
Talvez transformarão o planeta das matas virgens numa imensa
fogueira. Os nossos amigos aquáticos, os homens-peixes, não terão
nada contra, caso a temperatura média de seu mundo se elevar um
pouco. Informes recém-chegados dão conta de que acabam de aparecer
mais duzentas naves vindas de Topsid. Vai atrasar a derrota dos
sáurios por algumas horas. E vocês, como vão? Já descobriram
Topthor?
— Ainda
não, senhor — respondeu Deringhouse abatido. — Talvez tenhamos
achado uma pista. Marshall saiu para averiguá-la.
— Temos
que silenciar Topthor — ordenou Rhodan. — Não resta dúvida de
que não vai ficar de boca fechada. Já é a segunda vez que este
superpesado tenta destruir a Terra. Se não pudermos prendê-lo,
temos de matá-lo, do contrário, jamais teremos sossego.
— Se o
encontrarmos, senhor, haveremos de liquidá-lo.
A voz de
Rhodan parecia cansada, quando falou:
— Talvez
já tenha morrido em combate, o que me pouparia muita preocupação.
De qualquer maneira, temos de ter certeza de que está morto. Se
ninguém achar este malandro, toda a ação foi inútil. Topthor é o
único que pode desvendar o segredo e contar tudo aos tópsidas. E
isso, temos de impedir de qualquer maneira. Onde está Gucky?
— Com
Marshall, conversando com missToufry.
— Mande
chamá-lo, Deringhouse, tenho um plano para ele.
Menos de
dez segundos após, Gucky se materializou na cabina, e ficou olhando
para a tela escura.
— O
senhor me chamou, chefe? — chilreou Gucky alegre. Do cansaço que
sentia antes, não se via mais nada. — Acho que descobrimos as
pegadas de Topthor.
— Ainda
está vivo? — perguntou Rhodan.
— Se as
pegadas são quentes, então sim. Por quê?
— Descubra
Topthor, Gucky, é muito importante. Toda esta batalha entre
superpesados e tópsidas não terá nenhuma importância, mesmo a
destruição da suposta Terra não tem interesse algum, se Topthor
continuar vivo e espalhar o segredo do engano. Você me compreendeu?
A voz de
Rhodan era séria, mas foi se tornando mais suave.
— Ouça
bem, meu amigo, se você conseguir saber alguma coisa com certeza
sobre Topthor, eu lhe arranjo um armazém inteiro de cenoura.
Por alguns
segundos, o silêncio se fez completo, depois se ouviu o guincho
alegre de Gucky, dançando numa perna só através da cabina, quase
tropeçando nos pés do comandante.
— Será
maravilhoso, durante dois anos não vou mais precisar fazer apostas e
não há coisa que eu odeie tanto como apostar. Será feito, chefe.
Em uma hora, terei Topthor nas mãos... e o armazém de cenoura.
Rhodan riu
à vontade.
— Felicidades,
Gucky, para você e para todos nós.
O
alto-falante emudeceu.
Gucky
ficou ainda um pouco sentado, depois se apoiou no largo traseiro.
Seus olhos leais de cão de fila pousaram no rosto de Deringhouse. O
dente incisivo de roedor estava à vista, o que significava muito boa
disposição por parte de seu dono.
— Então,
Gucky?
Deringhouse
se esforçava para parecer sério.
— Quer
apostar dois quilos, que você não vai encontrar Topthor?
O
rato-castor foi se retirando sem mesmo responder a Deringhouse, nem
mesmo olhar para ele. Antes de desaparecer ainda chilreou:
— Dois
quilos? Ridículo, para quem já é praticamente milionário. Puxa,
dois quilos, não se compreende como alguém se atreve a isso...
O resto do
protesto acabou. Gucky tinha se teleportado para não se sabe onde.
Por sorte, não para o espaço aberto lá fora.
*
* *
Topthor e
Ber-Ka tinham naquele momento feito um acordo. Entre eles haveria um
armistício e ambos aceitavam a obrigação de procurar ou os
saltadores ou os tópsidas para esclarecê-los sobre o horrível
engano.
O
transmissor da Top II não podia mais ser consertado e também para
ouvir estava muito difícil para Topthor, se bem que as notícias não
eram nada agradáveis para o infeliz Ber-Ka. Os tópsidas estavam já
derrotados, não havia mais dúvida. Os míseros restos da frota
encontravam-se encurralados e obrigados à rendição. Muitas naves
haviam se refugiado nas clareiras da floresta virgem, sem atinarem
que exatamente este planeta achava-se condenado à destruição
total.
O reforço
de Topsid estava chegando e entrando logo em combate. Esta leva de
forças frescas ainda tinha um moral bem elevado e conseguiu infligir
pesados danos aos saltadores. Logo, porém, constataram a grande
superioridade dos superpesados. Os tópsidas fugiram, mas seus
perseguidores não tinham piedade, foram derrubando uma nave após a
outra. Somente as esferas espaciais de Rhodan que apareciam aqui e
ali, não eram atingidas.
Topthor e
Ber-ka ouviam os relatórios. O tópsida tinha perdido qualquer
esperança e estava resignado. Mas não o saltador.
— Tem
que ser possível conseguir-se um contato com uma das duas facções,
Ber-Ka. Vocês tinham uma base aqui. Fugiram todos ou ficaram pelo
menos os guardas?
— Não
sei — lamentou o tópsida. — As providências tomadas pelo
comando supremo nunca chegam ao nosso conhecimento. Talvez existam
ainda estações de rádio em funcionamento aqui, mas como
conseguiremos contato com elas, se não sabemos onde estão?
O sáurio
fez uma pausa, depois sacudiu a cabeça:
— Seria
lógico que investigássemos primeiro o antigo quartel-general. Se há
algum sobrevivente, tem de ser lá.
— E onde
é este quartel-general?
Ber-Ka
apontou na direção do mar.
— Em
qualquer lugar ali no litoral, numa ilha artificial no mar. Mas não
sei bem a localização, pois não tenho idéia nenhuma do local onde
aterrissamos. Temos de procurar.
Topthor
franziu a testa.
— A
explosão do reator destruiu meu porão e com isso meu planador e
minha viatura. Iremos a pé, mas eu acho isso impossível.
— Uma
viatura nós temos também — disse Ber-Ka, com um raio de
esperança. — O planador infelizmente foi destruído durante seu
ataque. Tentaremos chegar até o mar, lá a praia é larga e bem
firme, para servir de estrada. Teoricamente temos que dar a volta
toda pelo continente, para chegarmos do outro lado, encontrando a
ilha artificial.
— Mas
isto é uma excursão muito agradável — disse Topthor em tom
amargo.
Porém
compreendia que não havia outro jeito, se não quisessem ficar ali a
vida toda.
— Qual é
o tamanho de sua viatura?
— Se
quisermos levar bastante mantimento e água suficiente, proporia uma
tripulação de dois homens e, naturalmente, o armamento
correspondente. Não sabemos por quanto tempo teremos de viajar.
O
superpesado ficou pensativo. Depois abanou a cabeça, concordando:
— Está
bem, Ber-Ka.
Olhou para
o céu, o sol estava a pino e o calor era enorme.
— Vamos
partir logo, cada hora é preciosa. Embora não tenha esperança de
chegar a tempo. Mas é indispensável que todos saibam do grande
erro, que prejudicará toda a Via Láctea.
Os
preparativos se fizeram em pouco tempo. Abriram um rombo no bojo da
nave tópsida, colocaram umas vigas para deslizamento e um carro
pesado rolou para o chão do planeta. Tinha rodas e esteira, podia,
pois ser utilizado em qualquer tipo de terreno. Uma pequena
metralhadora de raios energéticos podia girar em todos os sentidos,
oferecendo assim proteção contra os ataques. O diminuto reator em
seu interior tinha energia suficiente para o carro rodar
ininterruptamente por mais de cem anos.
Caixas com
mantimentos foram empilhadas e o reservatório recebeu bastante água.
Ber-Ka deu as últimas instruções à sua tripulação, depois
virou-se para Topthor.
— Podemos
partir. Acho que vamos atingir o litoral em duas ou três horas.
Depois será mais fácil.
— O que
há com os habitantes da água?
Ber-Ka
tentou despistar.
— Não
precisa se preocupar com eles, são pacíficos e não possuem armas.
Nem tomam conhecimento de nós. Temos apenas que cuidar para que
ninguém dos seus ou dos nossos nos veja e abra fogo sobre nós. Este
é o grande perigo que corremos. O único. Nosso tratado de paz
particular não vale para os outros.
Topthor
examinou sua pistola de raios.
— Vamos
obrigá-los a fazer a paz — disse ele ameaçador, entrando na
cabina do carro, que dava normalmente para quatro tópsidas.
Quando
Ber-Ka se sentou ao lado dele, todo o espaço estava ocupado.
— Por
todos os espíritos do espaço — disse o tópsida em tom de
brincadeira — não é à toa que todo mundo chama seu povo de os
“superpesados”.
Topthor
sorriu amavelmente.
— Somos
realmente pesados, mas não apenas no sentido físico — explicou
ele, olhando para a máquina.
Os que
ficaram nas duas naves viram a viatura desaparecer logo na mata
virgem, voltando para seus lugares.
Ber-Ka na
direção, encontrava sempre uma clareira ou um trecho com pouca
vegetação por baixo, para conseguir ir rompendo com as poderosas
lagartas. E quando lhe havia pela frente grossos troncos de árvores,
que não podiam ser contornados, entrava em ação o termo-radiador
de bordo. Assim foi que diversos montões de cinza fumegante
assinalavam o caminho que Ber-Ka e Topthor iam seguindo, na primeira
hora de viagem, floresta adentro. Passou a tarde e veio a noite.
Detiveram-se numa clareira e se prepararam para o repouso noturno. É
claro que podiam ter continuado, mas temiam chamar a atenção pelo
clarão do farol.
A
calefação espalhava um calor agradável na cabina. Tão diferentes,
os dois indivíduos fizeram sua primeira refeição e se deitaram
para o repouso.
Em volta
deles, era o silêncio e a calma. Nenhuma lua para iluminar as
tristes sombras da floresta desconhecida, onde poderiam estar
escondidos inimigos invisíveis. Nada se movia. Em algum lugar, altas
ondas estariam rebentando no litoral e banhando as pilastras de aço
que sustentavam a ilha artificial. Isto podia ser a uma distância de
dez quilômetros, mas podia também ser a mil quilômetros.
Topthor
teve um sono muito perturbado. Acordou muitas vezes. Ficava então
ouvindo a respiração compassada de seu aliado não intencional, que
ele aos poucos começava a invejar. Quando ele virava a massa bruta
de seu corpo para o outro lado, o carro balançava. É verdade que o
Jovem tópsida não percebia nada disso, seu sono era profundo.
Afinal
clareou o dia. No leste, o céu se coloriu com todos os matizes do
arco-íris. O sol vermelho galgou, gigantesco, as grimpas das
árvores.
Topthor
acordou Ber-Ka.
— Já é
hora de nos pormos a caminho, já perdemos muito tempo. Certamente a
batalha já terminou, mas ninguém sabe ao certo o que aconteceu.
Você prepara a refeição matinal?
Enquanto o
tópsida preparava uma refeição leve, Topthor desceu da cabina e
deu umas voltas. Estava convencido de ter ouvido certos ruídos
durante a noite. Se alguém tivesse andado pela redondeza, devia ter
deixado rastros. Estava também intimamente convencido que tinham
errado um pouco o caminho e queria averiguar.
Na
clareira não se notava nada de extraordinário. Nenhum afastamento
de galhos ou ramos quebrados levava à idéia de que alguém tivesse
passado por ali. Não havia animais na floresta, como Ber-Ka havia
dito, pelo menos não animais maiores. O pé de Topthor já estava
preparado para o próximo passo, quando estancou de repente. Ficou
parado com o pé no ar. Seus olhos ficaram estarrecidos, olhando
incrédulos uma pegada de algo que se arrastava, vindo da floresta
para a clareira, dando uma volta em torno do carro e desaparecendo do
outro lado na vegetação baixa. Nenhum galho quebrado, como se o
rastro fosse de algo que se arrastasse.
Topthor
voltou lentamente para a viatura. Ber-Ka já sabia do que se tratava.
— Não
se preocupe, Topthor, são os seres da água. Às vezes vêm à
terra, mas voltam logo a seu elemento. Se o senhor viu o rastro deles
lá fora, é sinal que o mar não está muito longe. Portanto,
estamos alcançando o que queremos. E agora, venha tomar sua refeição
para que possamos continuar.
Topthor
olhou mais uma vez para as pegadas e se espremeu para entrar pela
porta do carro, para ele estreita demais.
Apesar da
perspectiva de alcançar o mar em breve, não sentiu muito apetite
com a comida que o tópsida lhe preparara, não por causa da comida
em si. Talvez fosse a incerteza do que tinha pela frente, que lhe
tirou o apetite.
4
Foi mais
ou menos por esta hora que a última nave de Al-Khor foi destruída.
A frota dos tópsidas não existia mais.
O último
comunicado do rádio, que saiu do terceiro planeta, dava conta ao
Ditador do Império Estelar Tópsida de que suas tropas haviam
cumprido seu dever e haviam resistido ao inimigo invasor até a
última gota de sangue.
Topsid não
respondeu.
*
* *
Rhodan
percebeu que alguém entrava na cabina. Era o Dr. Certch, o psicólogo
dos robôs. O pensamento cada vez mais independente dos cérebros
positrônicos e eletrônicos tornou necessário criar uma
especialização científica. Era, portanto, missão de Certch
supervisionar os complicados processos de pensamento dos robôs e
prever como seus cérebros decidiriam em cada caso concreto.
— Então,
doutor, o senhor por aqui? Pensava que o senhor não se preocuparia
com coisas tão pequenas como batalhas espaciais.
— Não
estou realmente preocupado com isso, senhor — disse Certch
sorrindo, mas em sua voz havia um vislumbre de seriedade, que Rhodan
logo percebeu. — Há, no entanto, acontecimentos que não podem ser
menosprezados.
— E
quais seriam eles? — perguntou Rhodan, empurrando as mensagens de
rádio para trás, recebidas nos últimos sessenta minutos.
Confirmavam o que já se sabia. Os superpesados conseguiram a vitória
e agora se preparavam para desfechar o último golpe contra a
“Terra”. Cekztel tinha mandado preparar a bomba arcônida.
— O
senhor sabe que construí para mim mesmo um pequeno cérebro
positrônico, a que dei o nome de Max. Max é uma calculadora, se
assim posso me exprimir.
Um
psicólogo mecânico que pode prever e calcular todos os processos de
pensamento de seus irmãos maiores. Estive “conversando”
muito tempo com Max.
— E que
é que ele diz? — queria saber Rhodan, que conhecia a profundidade
do cientista e a respeitava. Por mais de uma vez, Dr. Certch tinha
provado ser entendido nos pensamentos lógicos dos cérebros
mecânicos. — Esperamos que sejam previsões boas.
— Max
está preocupado por causa do cérebro positrônico na belonave de
Topthor. Temos que supor, de acordo com o que aconteceu até agora,
que o próprio Topthor está interessado em disfarçar o erro. Há,
no entanto, uma hipótese bem justificada — dizia Max — de que o
cérebro pense diferente e esteja decidido a esclarecer o erro. E Max
ainda é de opinião de que, mais cedo ou mais tarde, a trapaça dos
mutantes será descoberta e a alteração feita por eles virá à
luz. Com outras palavras: os saltadores haverão de notar que
destruíram, não a Terra, mas um pobre planeta inofensivo.
— Suposto,
naturalmente, que Topthor e sua nave não tenham sido atingidos por
uma descarga energética.
Certch
confirmou com um movimento da cabeça.
— Naturalmente.
Mas não sabemos se ele morreu em combate. E mesmo que tenha morrido,
ainda existe a possibilidade de que sua nave esteja apenas danificada
e seja um dia encontrada. Então o robô terá tempo suficiente para
esclarecer o enigma. Se o senhor quiser estar bem convencido de que
sua jogada deu certo, então terá de providenciar para que a nave de
Topthor seja completamente destruída.
— Concordo
com o senhor, doutor. Mas antes de tudo, temos que encontrar Topthor
e sua nave. Conforme meus cálculos, os saltadores ainda estarão
ocupados por algum tempo em salvar seus sobreviventes e colocar a
salvo suas naves ainda aproveitáveis. Somente depois disso é que
vão destruir o terceiro planeta. Depois de se retirarem deste
planeta, será tarde para nós. Temos, portanto, pouco tempo para
eliminar o perigoso Topthor. John Marshall e seus mutantes estão
fazendo todos os esforços para conseguirem isto. No entanto, até
agora, sem resultado.
— Espero
que sejam bem sucedidos — disse Certch.
— Tudo
depende exclusivamente disto — disse Rhodan, acenando para Certch
que estava deixando a cabina. Praticamente estava deixando a solução
do problema nas mãos de Marshall que saía da seção dos mutantes,
acompanhado de Betty Toufry, para falar com Rhodan. Certch, curioso,
os seguiu. Sua despedida da cabina fora muito curta.
— Betty
teve impulsos claros de Topthor — disse Marshall agitado — mas
ainda não o conseguiu localizar. Gucky também está tentando
localizá-lo. O interessante é que nós podemos afirmar com certeza
que a nave de Topthor não estava junto com o grosso da frota.
— Onde,
então?
— Se
soubéssemos onde, estaria tudo terminado — respondeu Marshall. —
O senhor sabe, chefe, que distâncias não se podem calcular só por
meios telepáticos. Por isso, Gucky ficou a bordo da Centauro,
enquanto Betty e eu nos transportamos para a Titan. O senhor sabe que
calcular uma distância com auxílio de duas retas dadas e de um
ângulo conhecido, não é mais problema hoje. Aliás, já não era
há muitos séculos. Completamente novo é determinar as duas retas
somente por meios telepáticos. Betty e Gucky tentam localizar
Topthor. Betty já sabe qual é a distância. De Gucky ainda não
sabemos nada.
— Você
tem contato com a Centauro?
— É
claro, capitão Lamanche dirige as operações lá de cima.
Deringhouse voa agora para Aqua.
— O
planeta das águas? Por que isso?
— Porque
os impulsos secretos de Topthor provêm de lá.
Rhodan
comprimiu os olhos e fitou Marshall, muito pensativo.
— Quer
dizer então que está faltando só a orientação de Gucky?
— Exatamente
— respondeu Marshall. — Então saberemos onde está Topthor. Onde
se cruzarem as retas de Betty e de Gucky, aí está o superpesado.
Soou o
intercomunicador e o semblante do cadete Martin apareceu na pequena
tela.
— Marshall
está com vocês?
Rhodan fez
um sinal para Marshall.
— Sim,
está conosco. Você tem notícias de Lamanche?
— Gucky
transmitiu exatamente agora uns dados para Marshall. Devo repeti-los?
Marshall
fez sinal que sim. Estava com lápis e papel na mão. Betty olhava
curiosa para ele. Dr. Certch dava passadas nervosas de um canto para
outro. A ele interessava sobretudo a destruição da belonave de
Topthor, e com isto também o desaparecimento do perigosíssimo
computador de bordo.
— Leia
devagar, por favor.
Marshall
anotou as coordenadas e começou a fazer diagramas. Em passos
rápidos, aproximou-se de Rhodan e pediu:
— O mapa
do sistema, senhor. Acho que o palpite de Gucky estava certo.
E Rhodan,
entregando-lhe o mapa:
— Que
palpite?
— Que
Topthor havia aterrissado em Aqua. Provavelmente desconfiou e quis
ver pessoalmente “Marte”.
Então está na hora de tomarmos iniciativa.
— Centauro
chamando, senhor — interrompeu Martin, desaparecendo da tela.
Por uns
trinta segundos, houve silêncio total na cabina. Todos esperavam
meio angustiados o que havia sucedido. Finalmente acendeu a luz do
intercomunicador. Martin parecia meio apavorado ao falar:
— Foi
Deringhouse. Avisou que Gucky desapareceu completamente.
Rhodan
respirava com dificuldade.
— Que
quer dizer desaparecer completamente? Onde está a Centauro?
— Está
circunvoando Aqua, senhor. O rato-castor, assim diz o relatório de
Lamanche, falara que tinha ainda de liquidar um assunto, depois disso
desapareceu. No arsenal está faltando uma pequena bomba atômica.
A
fisionomia de Rhodan clareou. Marshall, que estava pálido como cera,
deixou transparecer um leve sorriso:
— Que
malandro este Gucky. Ele sabe que o procurado está no quarto planeta
e toma suas próprias decisões. Não é um pouco apressado, chefe?
Rhodan não
conseguiu disfarçar o sorriso:
Um de nós
tinha que fazer isto; por que não Gucky? Prometi-lhe um armazém de
cenoura se conseguisse achar Topthor.
Marshall
caiu na poltrona mais próxima.
— Então...
— murmurou ele, fechando os olhos com resignação.
*
* *
Uma forte
aragem do sul tocava as ondas, sem cessar, contra a praia arenosa que
estendia-se reta de leste para oeste, raramente interrompida por
enseadas idílicas. A apenas cinqüenta metros da praia, começava a
floresta virgem. Estes cinqüenta metros eram tão planos como uma
estrada.
Quando
Topthor, que dirigia a viatura, viu o mar, parou sem querer.
Encantado, ficou olhando para a superfície azul, a se perder no
horizonte. No céu, o sol alaranjado. Estava quente, de maneira que a
brisa do mar foi-lhes um grande alívio. A cúpula de vidro do carro
estava aberta.
— O
melhor é dobrarmos para o leste — disse Ber-Ka, a quem a visão do
mar era coisa comum. — A ilha de aço está no litoral sul, isto eu
sei com certeza. Mais ou menos na extremidade sudeste do continente.
Topthor se
desprendeu do belo panorama. Virando-se para seu companheiro, disse:
— Agora
estou compreendendo porque vocês instalaram aqui uma base. É
realmente um mundo em que se pode viver bem.
O tópsida
nada respondeu. Continuou olhando para o lado da praia, como se
esperasse encontrar alguém. Mas não conseguiu ver as listras
prateadas na superfície do mar que denunciavam a presença dos seres
aquáticos. Os habitantes de Aqua, como Deringhouse batizara este
mundo, viviam exclusivamente na água. Em terra, não agüentavam
mais do que duas ou três horas. Movimentavam-se na água como um
avião a jato: com a boca enorme sugavam boa quantidade de água,
comprimiam-na no centro do corpo com um órgão especial, tocando-a
para fora com grande pressão através de uma válvula traseira.
Desta maneira, seu nado atingia enorme velocidade.
Não
apareceram e Ber-Ka estava meio decepcionado.
Topthor
não estava mais admirando a beleza primitiva daquele mundo virgem.
As preocupações estavam voltando à sua cabeça. Acima de tudo, a
incerteza sobre o que havia acontecido. O fraco transmissor do carro
não dava para entrar em contato com a frota. Chamar a Top II também
não fazia sentido, pois não podiam responder.
Uma
situação desesperadora. Mas alguém certamente o acharia e aí
então a trapaça de Rhodan viria à luz. Quem sabe o cérebro
positrônico da Top II haveria de corrigir seu erro e então os
saltadores fariam verdadeiro ataque à verdadeira Terra.
— A
ilha...! Estamos chegando.
Topthor
viu a construção abaulada, a mais ou menos dois quilômetros do
litoral. Pilastras esguias, apoiadas no fundo do mar, sustentavam
esta estranha ilha. Um parapeito cercava toda a plataforma, impedindo
que alguém caísse ao mar.
Mas não
havia sinal de vida na plataforma. A ilha artificial parecia morta.
Topthor não deu uma palavra. Andou mais uns dez minutos e depois
parou num lugar bem em frente à ilha. Num porto improvisado, estavam
alguns barcos sem dono.
Ber-Ka
apontou-os.
— Chegaremos
à ilha com eles. Vamos, não perca tempo.
Topthor
estava hesitante e disse:
— E se
alguém nos viu e está a nossa procura para nos matar?
— Verão
que sou oficial e não atirarão em você sem mais nem menos, estando
ao meu lado. Quem sabe o que já aconteceu por aqui? Venha Topthor,
cada minuto é precioso.
Um pouco
assustado, Topthor abandonou o carro que até então o protegia bem.
A visão da ilha solitária e estranha não lhe agradava nada, embora
fosse o único meio de tentar contato com sua gente. Dava também a
mesma oportunidade a Ber-Ka.
Se Topthor
quisesse ser honesto consigo mesmo, teria de confessar que, a
princípio, não estava confiando muito no tópsida, quanto ao
caminho para a ilha. É certo que os dois tinham um acordo, feito,
porém pela necessidade do momento e não por simpatia. Estavam
convencidos de que manteriam o contrato, somente enquanto um
precisasse do outro. Quando Ber-Ka encontrasse os seus, não
precisaria mais de Topthor e vice-versa.
Ber-Ka já
estava em pé dentro de um barco, como que convidando para um passeio
na ilha.
— Venha
Topthor, não temos tempo a perder.
O
superpesado se pôs em movimento. Em sua cintura, balançava a
pistola energética. Seus pés entravam fundo na areia. Não tirava
os olhos de Ber-Ka, pois não queria ser surpreendido com um tiro
pelas costas. O momento da decisão se aproximava inexorável.
O barco
balançava bastante, mas com um pequeno ruído do motor, ia levando
os dois para o ancoradouro da ilha, uma plataforma bem rente ao mar.
Neste local, o paredão liso da ilha era substituído por um portão.
Uma roda fazia as vezes do usual trinco ou alça de abrir.
Ber-Ka
amarrou o barco bem firme num gancho e saltou. Com mãos ágeis abriu
o portão, enquanto Topthor se esforçava para botar o pé no chão
da ilha, cujas paredes se erguiam a mais de vinte metros de altura.
Topthor não conseguia ver o fundo do mar e não sabia, pois, qual
era a profundidade.
O tópsida
já tinha entrado e virou-se para trás:
— Venha,
Topthor, não sei se vamos achar a instalação funcionando ou a
tripulação presente. Mas vamos experimentar. Isto era nosso
quartel-general, porém como estou vendo, inundaram a parte inferior.
Repare que as escadas estão encobertas pela água. Só aquela é que
está livre. Não tenho nenhuma idéia onde se encontra a cabina de
rádio.
— Se
existia uma, ou ainda existe, nós encontraremos — disse Topthor
mais otimista. — Provavelmente nos andares de cima. Vamos dar uma
olhada primeiro na fortaleza aquática. Estou achando as instalações
muito interessantes, embora não compreenda por que não a
construíram em terra firme. Não havia adversários, não é?
— Devido
ao contato com os nativos — explicou Ber-Ka.
Com
Topthor atrás dele, começou a subir.
Tinham
levado consigo só as coisas mais importantes, o restante ficara
embaixo. Tudo demonstrava que era intenção dos tópsidas voltar
para o quartel-general logo após a batalha. Nos armários, ainda
estavam guardados os rolos de fitas magnéticas e os microfilmes
sobre o quarto planeta do sistema Beta. Os olhos de Topthor viam
cobiçosos aqueles tesouros de documentos. Se pudesse pegaria tudo.
Mas depois pensou friamente que os tópsidas não voltariam mais,
pois estavam mortos. Com toda probabilidade, Ber-Ka era o último
tópsida vivo, a entrar naquela ilha de aço.
A mão de
Topthor estava por acaso na coronha da pistola quando Ber-Ka virou de
repente para trás e apontou para frente, onde havia uma porta
aberta. Atrás dela, estava a instalação de rádio, um salão bem
claro.
O
superpesado estremeceu todo de susto, como que apanhado numa ação
imoral. Deu um sorriso forçado, olhando para Ber-Ka.
— Excelente,
Ber-Ka, a jogada de Rhodan está chegando ao fim.
O grande
salão estava vazio. Os aparelhos, receptores, geradores e
transmissores estavam em seus lugares. Amplas janelas deixavam entrar
a luz do sol. As poltronas dos operadores estavam como eles haviam
deixado.
A qualquer
momento, pensava Topthor, os sáurios poderiam voltar, como se
tivessem saído apenas por uns instantes. Mas depois, achou que
estava louco, pois os tópsidas não tinham sido todos derrotados e
mortos? Ninguém voltaria para ali. Ber-Ka era e continuava sendo o
único tópsida vivo. O último a entrar naqueles tesouros.
— Você
entende alguma coisa disso?
— O
suficiente para dar conta do recado — afirmou o jovem oficial,
apontando para uma complicada instalação. — No começo de minha
carreira, era operador de rádio. Espere, em poucos minutos teremos
Al-Khor ali na tela.
Topthor
franziu as sobrancelhas.
— Por
que não Cekztel, meu comandante supremo? Quem sabe se Al-Khor já
está morto, depois que toda sua frota foi destruída?
— Isto
aqui é uma estação dos saltadores ou dos tópsidas? — perguntou
Ber-Ka. — Assim que eu falar com Al-Khor, a estação fica a sua
disposição. Mais, você não pode exigir.
O
superpesado concordou hesitando.
Sua mão
estava de novo na cintura.
— Está
certo, Ber-Ka, mas sem a minha magnanimidade você não estaria nesta
ilha. Tenho pois o direito de ser o primeiro a falar. Além disso,
não adiantaria nada à sua frota se Al-Khor for cientificado da
trapaça de Rhodan. O importante é que a frota dos saltadores seja
esclarecida. Compreende isto?
Mas Ber-Ka
estava possuído por uma idéia fixa. Queria vingança e queria
realizar um feito heróico. Se ele matasse o saltador e conseguisse
que as operações de guerra recomeçassem, receberia a comenda de
bravura do ditador. Mas este saltador era um adversário ágil e
perigoso, que não se podia menosprezar.
— Talvez
o senhor tenha razão — disse ele cauteloso. — Por favor, use a
instalação primeiro. Certamente o senhor saberá manuseá-la.
— Também
Já fui operador de rádio — respondeu Topthor, passando ao lado de
Ber-Ka, em direção à cadeira livre, já com a arma na mão.
Ao
perceber, pela imagem refletida no vidro abaulado da tela, que o
sáurio havia sacado a pistola para matá-lo pelas costas, sua reação
foi espantosa. Fez como se fosse sentar na poltrona do operador, deu
meia-volta e se atirou no chão, descarregando a arma.
Ber-Ka foi
apanhado de surpresa, morrendo sem um gemido, com a arma apontada
para Topthor. O fluxo energético cessou, Topthor respirou aliviado,
guardando a arma na cintura. Estava agora livre de qualquer ameaça
do traidor sáurio, que tinha matado em legítima defesa. O cadáver
seria prova disso, da intenção de Ber-Ka de matá-lo pelas costas.
Haveria de deixá-lo como estava.
Topthor se
sentou diante dos aparelhos e começou a estudá-los. A instalação
basicamente não era muito diferente da dos saltadores. Apresentava,
porém, algumas novidades nos controles, com que não estava
acostumado. Estava, porém, convencido que não levaria muito tempo
para fazer tudo funcionar.
Ficou uns
dez minutos diante dos aparelhos tentando em vão, até que esticou a
mão direita e empurrou uma alavanca. Regulou a freqüência do
transmissor e pegou o microfone, depois que a tela ficou iluminada.
— Alô,
aqui fala Topthor, do quarto planeta do sistema Beta. Aqui fala
Topthor do quartel-general dos tópsidas. Estou chamando Cekztel,
comandante supremo dos superpesados. Apresente-se, Cekztel. Tenho uma
comunicação importantíssima para lhe fazer. Apresente-se.
Repetiu
três vezes seu apelo e depois passou para a escuta. Não teve que
esperar muito, até que apareceu na tela a imagem desfocada do velho
patriarca, os olhos astutos, como que sobressaindo do nariz chato e
da imensa barba, procuravam, como se não vissem, a imagem de
Topthor.
— Alô,
Topthor? Aqui fala Cekztel, por que não liga sua câmara? Minha tela
está escura.
— É uma
instalação de rádio dos sáurios, que não domino bem. Mas, não
tem importância. Preste atenção, Cekztel: faça paz imediatamente
com os tópsidas.
— Você
ficou maluco? Os tópsidas se aliaram com os terranos e eu devo fazer
pazes com eles? Além disso, não saberia onde encontrar um
comandante deles. Somente a gigantesca nave esférica de Rhodan é
que aparece de vez em quando, junto com pequenas unidades. Naves
cilíndricas não aparecem mais.
— Venha
me apanhar aqui, Cekztel, você vai me encontrar facilmente. No
quarto planeta...
— O que
está fazendo aí? Não vi sua nave durante todo o tempo do ataque.
— Eu lhe
conto tudo mais tarde, Cekztel. De qualquer maneira, você ficará
boquiaberto quando lhe disser que este Rhodan nos enganou novamente.

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