quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-049 - A Morte da Terra - ClarK Darlton [parte 2]


Atônito e sem dizer uma palavra, olhava fixo para o que tinha diante dos olhos.
Seria este o sol do planeta Terra? Jamais. Este gigantesco olho vermelho lhe era completamente desconhecido, totalmente diferente, tão diferente que até um cego perceberia a diferença. E Topthor era tudo, menos cego.
Seu primeiro pensamento foi fazer uma ligação para Cekztel e explicar o erro. Mas ficou sentado, continuando a olhar o quadro incrível. Procurava achar uma explicação, mas não havia. O cérebro positrônico do departamento de navegação jamais poderia errar. Um erro do computador estava, pois excluído. Os dados foram lançados no próprio local da observação. Não podia haver erro.
Topthor pensava sempre objetivamente e assim desistiu logo de querer procurar uma explicação para o impossível. Teria tempo mais tarde. No momento, era necessário se conformar com o fato e ponderar suas conseqüências.
Primeira conseqüência: ele se poria em contato com Cekztel e admitiria ter trazido a frota toda para um lugar errado. O que aconteceria? Topthor se sentia mal só em pensar nisso. Todo tipo de recriminação recairia sobre ele, embora estivesse convencido de não ter culpa alguma. Mas quem é que queria saber disso? Ninguém. Talvez seria expulso e teria doravante de levar vida de pária, sem amigos e abandonado por todo mundo. Não, Topthor não pensava mais em dar explicações ao velho Cekztel.
Segunda conseqüência: procuraria resolver o enigma por conta própria, descobrir como surgira o engano. Para isso, tinha primeiramente que se manter calado e deixar seus colegas na crença de que se tratava mesmo da Terra e do sistema solar. Certamente não demoraria muito até que se chegasse a descobrir o erro, pois o sistema solar de Rhodan não poderia ficar aí, sem defesa nenhuma. Não parecia haver a mínima reação. Um outro erro, como logo se constataria. E um erro que muito alegraria a Topthor.
A segunda conseqüência parecia aceitável ao superpesado.
Mas sua cabeça inteligente não parava de pensar. A bordo da Top II encontrava-se muita gente que havia visto a Terra naquela época. Será que ficariam de boca fechada, quando Topthor lhes contasse a verdade? É certo que eram amigos do peito, como Regol e Gatzek. Mas...
E ainda havia a possibilidade de uma confusão com computador.
Levantou-se bruscamente e foi examinar a seção de navegação. Mandou sair o oficial que estava de vigia e começou ele mesmo a conferir os dados. Alguns minutos depois, veio o resultado. Topthor o examinou e sacudiu a cabeça.
Os dados estavam certos, as coordenadas perfeitas. Era mesmo ali no sol gigantesco de Beta.
Sem dizer uma palavra e sem explicação, fez sinal ao oficial de vigia para entrar novamente. Depois voltou para a sala de comando. Deixou-se cair pesadamente na poltrona, olhou para a tela do painel e pôs-se a escutar as mensagens do rádio. O ataque ao terceiro planeta já havia começado.
Estava sorrindo sozinho, quando de repente sua fisionomia se transformou. Os terranos estavam resistindo desesperadamente.
Topthor parecia como que atingido por uma descarga elétrica. Foi a segunda surpresa em menos de dez minutos. Havia terranos neste estranho sistema? Então ele estava salvo e ninguém descobriria o engano não intencionado. O terceiro planeta parecia habitado e estava sendo defendido.
Seguia com muita atenção as informações e respirava aliviado, embora já não compreendesse o que estava se passando. Talvez os terranos tenham estabelecido aqui uma base, que agora defendiam corajosamente. Se a frota atacante destruísse literalmente o terceiro planeta, os terranos perderiam apenas uma base, não a pátria de Perry Rhodan.
Seguindo seu pensamento prudente, resolveu guardar este segredo só para si e continuar por conta própria suas investigações. Assim foi que abandonou a rota planejada e se aproximou do quarto planeta, para, com toda calma, registrar os dados sobre o sistema e compará-los com as informações do computador de bordo. O erro estaria escondido em algum lugar, ele o descobriria.
A localização da verdadeira Terra não poderia ficar perdida.

* * *

O saltador não respondeu. Ber-Ka, então, não hesitou mais e mandou abrir fogo de todos os lados.
Para sua surpresa, todos os disparos energéticos se esfacelaram diante do envoltório de proteção magnética do adversário. A distância era agora muito pequena e uma retirada era quase impossível.
A nave dos saltadores alterou o curso e expôs seu lado mais comprido no sentido da MV-treze. Ber-ka sabia o que isto significava, mas não tinha mais tempo para modificar sua posição. Mandou descarregar toda a energia disponível no seu envoltório de proteção para se defender contra o ataque iminente.
Mas o saltador, desta vez, não usou raios energéticos, e sim um torpedo com brilho de prata, que alterando seu curso automaticamente foi atingir em cheio a MV-treze, apesar de suas manobras para fugir do alvo, detonando com um clarão amarelado, perto da popa.
Ber-Ka sentiu o terrível solavanco. De nada adiantou agarrar-se à poltrona. Foi lançado para fora, rolando no chão da cabina até chocar-se de encontro à parede. Ouviram-se vozes, alguém deu um comando. Logo depois outra detonação e solavanco terrível, apagando toda a luz. Os campos de gravitação deixaram de funcionar e Ber-Ka estava flutuando dentro da nave, já em queda livre contra o planeta Aqua, sem propulsão, nem direção. A parte traseira devia estar completamente destruída.
Ber-Ka foi impelido contra o teto, incapaz de se movimentar. A qualquer momento, podia o inimigo dar a ele e a sua nave o tiro de misericórdia. Mas isto não aconteceu.
A MV-treze se precipitou de encontro à superfície do quarto planeta.

* * *

Sentado na cabina, Topthor acompanhava curioso a luta desigual. Já quando a estranha nave apareceu pela primeira vez, teve uma suspeita que lhe pareceu tão absurda que tentou esquecê-la. Mas depois, ficou matutando que toda aquela ação tinha sido meio maluca. Talvez pudesse esclarecer um pouco mais o enigma, se conseguisse conversar com aqueles terranos. Deviam estar desesperados, é claro. Tinham que estar convencidos de que se encontravam nas mãos dos vencedores, do contrário jamais diriam a verdade.
Mas, seriam mesmo terranos?
Topthor ficou olhando a nave alongada, como um torpedo, com uma saliência abaulada no centro, caindo ao lado deles, e ainda dispostos a um novo ataque. Já havia visto em algum lugar este tipo de construção. Os tópsidas? Seu império não era nas proximidades da Terra? Ou se tinham aliado com os terranos?
O ataque não surtiu efeito. Então um torpedo atingiu a popa do aparelho, destruindo as instalações de propulsão dos desconhecidos. Sem sua sustentação mecânica, a nave se precipitou contra o planeta.
Topthor seguia tudo com atenção. Não dava nenhum sinal de querer socorrer os vencidos ou de pretender aniquilar os restos de sua nave. Aparentemente imóvel, ele flutuava ao lado da MV-treze, esperando alguma coisa.
Duas horas se passaram, duas longas horas em que um certo Ber-Ka passou por um verdadeiro inferno e ficou mais exausto ainda. O planeta já estava maior e através das nuvens já se via o continente. Podia-se já ouvir o sibilar do vento nas camadas mais elevadas da atmosfera.
Topthor, então, resolveu agir.
Aproximou-se com a Top II da nave que estava caindo. Ganchos magnéticos iam saindo lentamente da carcaça da Top II, envolvendo o bojo da nau destroçada e detendo-lhe a queda. Voltou então a gravidade, quando as duas naves começaram a dar volta em torno do planeta, numa leve parábola. Acabaram aterrissando num planalto, próximo ao litoral.
Topthor não ficou parado nesse meio tempo. De pé, na escotilha aberta, esperava, com a pistola de raios na mão, a saída dos sobreviventes da nave capturada. Mas não havia contado com a intrepidez suicida dos tópsidas. Ao abrir uma clarabóia do lado direito da MV-treze, provocou suspeita nos tópsidas. Salvou-se com um pulo imediato para a escotilha, entrando logo para a cabina de comando, onde Gatzek havia observado o incidente. Num gesto rápido, ligou o envoltório magnético de proteção.
Infelizmente com uma fração de segundo de atraso.
Um denso jato energético amarelado partiu da MV-treze, atingindo a Top II bem no meio. Seguiu-se um estrondo, como a descarga de um reator e a grande espaçonave dos saltadores partiu-se, exatamente antes de o envoltório ser ligado.
De um momento para outro, ali estavam duas naves arruinadas e, em cada uma delas, o pensamento era o mesmo: aproveitar um descuido do adversário, para destruí-lo.
Topthor amaldiçoou sua leviandade, mas depois se conformou. Olhou calmo para os olhos arregalados de Gatzek.
Examinar a instalação de energia, observar a capacidade de funcionamento da central de navegação e de rádio, apresentando o resultado imediatamente. Depois do conserto, testar a possibilidade de manobrar a Top II.
Gatzek, um tanto hesitante:
Que fazer com este ferro velho aí ao lado, que nos partiu ao meio? Devo mandar matar os adversários?
Deixa disso, Gatzek. Quero conversar com estes rapazes. Acho que vamos ter muitas surpresas.
Meu estoque de surpresas está abarrotado — protestou o oficial, deixando a cabina de comando.
Topthor acompanhou-o com um sorriso. Levantou-se e foi para a central de rádio. Regol estava diante dos aparelhos, realizando os primeiros controles. Os alto-falantes emitiam sons ininteligíveis — sinal de que ao menos isto estava funcionando.
Ligação com Cekztel? — perguntou Topthor.
Regol sacudiu a cabeça, sem olhar para trás.
Ainda não. Eles não têm tempo agora, os terranos entraram em luta renhida, mas acho que vão perder. A supernave de Rhodan foi localizada muitas vezes.
Topthor quase perdeu a fala:
A supernave de Rhodan?
Regol concordou espantado:
Sim, a Titan, como foi batizada a grande nave. Além dela, estão participando da defesa da Terra dez cruzadores pesados dos arcônidas.
E eles estão perdendo? — perguntou Topthor incrédulo. — Algo não está certo. Tem certeza disso?
As mensagens o dizem claramente, Topthor. Não há dúvida de que superestimamos o poderio bélico da Terra. Aliás, já há muito tempo queria lhe fazer uma pergunta: você não reparou uma alteração no sol? Se não me engano, a Terra tinha um sol menor, amarelado. E agora...
Eu sei — interrompeu-o Topthor impaciente. — Ainda falaremos mais tarde sobre isto. Agora não temos tempo, pois há problemas mais importantes que temos de resolver. Vamos tentar ligação pelo rádio com a nave abatida aqui ao lado. Regol sorriu malicioso.
Já estou tentando isto há tempo. Ninguém responde. Quem sabe o rádio deles foi destruído?
Então, não há outro meio — disse Topthor — tenho que me apresentar de novo na escotilha deles, com uma bandeirinha branca na mão, para lhes mostrar nossa vontade de paz.
Não sei se os terranos vão concordar — duvidou Regol.
Topthor, que já estava na porta, virou-se para trás:
Quem é que disse que os rapazes da nave ao lado são terranos?
De olhos arregalados, Regol ficou olhando seu comandante.
3



O cérebro robotizado da navegação positrônica da Centauro não parava um instante. Mal o pesado cruzador se materializava em qualquer lugar, no meio das naves dos tópsidas e desfechava uma descarga de raios energéticos, mais ou menos eficientes, contra as naves atacantes dos superpesados, já estava na hora de pular para o hiperespaço, desaparecendo totalmente. Quase que ao mesmo tempo, aparecia ela em outro lugar.
Major Deringhouse suava, mas entusiasmado com a operação. Capitão Lamanche, seu substituto e primeiro-oficial, gritava sem parar, dando ordens e cuidando que as transições se processassem o mais rápido possível. Já que as mesmas manobras eram executadas simultaneamente também por Rhodan com a Titan e por McClears com a Terra, os superpesados tinham a impressão de que estavam em atividade pelo menos três ou quatro belonaves tipo Império e uns dez cruzadores pesados.
E, no entanto, os “terranos” estavam perdendo. Razão para isto, eram, em primeiro plano, as naves dos tópsidas, demasiadamente lentas, não estando pois à altura do ataque dos saltadores. Se a Titan tivesse aplicado toda sua força, a luta estaria bem diferente. Mas, compreensivelmente, não era esta a intenção de Rhodan. Os saltadores deviam vencer e sair com a convicção de haverem derrotado a Terra. E, naturalmente, a frota dos terranos.
Deringhouse tirou os olhos dos controles e olhou para Marshall que estava entrando na cabina.
Então — perguntou excitado — já obteve algum resultado?
Desta vez, você poderia apostar tranqüilamente com Gucky — respondeu o telepata. — Ainda não temos nenhum indício da presença de Topthor. Estou duvidando de que tenha tomado parte no ataque.
Impossível — disse Deringhouse, sacudindo a cabeça. — Recebemos um rádio informando que Topthor toma parte no ataque. Você se utilizou somente de Gucky?
Naturalmente, não. Todos os telepatas se esforçaram para captar impulsos do superpesado. Ras Tschubai esteve em várias naves deles, mas não encontrou Topthor. Em compensação, em cada nave em que chegava, o susto da tripulação em ver surgir do nada um fantasma preto, quase enlouquecia-os.
Ótimo — disse o major. — Para os atacantes, a teleportação é prova cabal de que se trata dos homens de Perry Rhodan.
Também Gucky se teleportou muitas vezes. Poderia ter levado de cada vez uma bomba atômica e destruído a nave inimiga, porém não nos teria adiantado nada. Mas, falando sinceramente, é doloroso para mim, para nós todos, ter que perder uma guerra que a gente ganharia com tanta facilidade.
A Via Láctea inteira deve estar crente de que fomos destruídos. Mas para isso, Topthor tem que ser encontrado. Se ele perder a calma e denunciar a seus amigos que destruíram um planeta errado, toda nossa astúcia não valeu de nada. E até agora, tudo funcionou tão bem.
Vamos continuar procurando — disse Marshall, encorajando Deringhouse. — Temos de encontrá-lo. Não pode ficar eternamente escondido.
Esperamos que não — respondeu Marshall, dando ordens para o próximo salto que o levou para um choque entre dois cruzadores dos tópsidas e uma enorme nave cilíndrica dos saltadores.

* * *

Na escotilha aberta, estava Topthor esperando, olhando firme para o pequeno aparelho dos desconhecidos. Quem estaria lá dentro? Terranos?
Tinha quase certeza que não encontraria nenhum terrano lá dentro. Uma simples consulta no seu catálogo lhe dava esta quase certeza. Naves deste tipo eram construídas pelos tópsidas.
Estariam os sáurios realmente aliados aos terranos? Que sentido teria isto? Será que Rhodan não representava nenhum perigo para seu império?
Tinha de descobrir isto e só por este motivo é que estava expondo a vida. Talvez seria respondida também sua outra pergunta: por que a positrônica de sua nave teria errado daquele jeito?
Para lá do planalto, começava a floresta virgem. Ia em declive para a planície. Somente ao longe, no horizonte, surgia uma nova cadeia de montanhas, limitando a visão. Mais para a esquerda cintilava o mar que era quase noventa por cento deste planeta. Era um mundo agradável, pena que não tinha habitantes inteligentes, com quem se pudesse tratar.
Ou existiriam? O que faziam, então, aqui os sáurios?
Os olhos de Topthor perceberam um movimento nos escombros da nave tópsida. Devagar, abriu-se uma escotilha, como se fosse empurrada à mão. Aparentemente toda a instalação da nave parecia destruída. Apareceu então uma espécie de mão. Apesar de Topthor estar mentalmente preparado, foi grande seu susto. Era a mão de um réptil, coberta de escamas: a mão de um tópsida.
Até que enfim. Se, nesta horrível batalha, não tivessem sido vistas naves esféricas de Rhodan, tudo resultaria então numa hipótese fantástica. Pensando nisto, Topthor sorria malicioso, pensando estar bem próximo da elucidação da verdade.
Um tópsida apareceu na escotilha completamente aberta, de mãos levantadas e desarmado. Topthor também mostrou as mãos vazias e falou em Intercosmo:
É melhor pararmos de lutar um contra o outro, do contrário estamos perdidos. Ninguém nos ajudará. Mas se nós combinarmos, acharemos um caminho.
Ber-Ka parou desconfiado.
Por que não nos destruiu já no espaço? Podia ter feito, sem que pudéssemos nos defender.
Topthor sorriu amavelmente.
Tenho minhas razões, tópsida. Vamos conversar com mais calma. Acho que teremos muita surpresa.
Tinha o mesmo desejo, mesmo antes de atacá-lo.
Topthor ouvia com atenção. Tudo se encaminhava bem.
Sua instalação de rádio ainda está funcionando?
Não, foi destruída.
A minha funciona ainda, ao menos para receber. Não pudemos ainda examinar o transmissor, mesmo porque não estamos interessados em que os outros nos descubram. Venha, tópsida, encontremo-nos ali naquela rocha. Estou desarmado, mas minha gente está vigiando. Se quiser, pode tomar também as mesmas providências.
Sem esperar resposta, Topthor desceu os poucos degraus da escada desdobrada e num pulo atingiu o solo. Sua cintura estava vazia, porém no fundo do bolso de seu capote escondia uma minipistola, para qualquer emergência.
Ber-Ka hesitou um pouco, mas percebeu que não lhe restava alternativa, tinha que aceitar a proposta do superpesado.
Quem sabe, o saltador estava sendo honesto. Levantou os braços escamados, numa espécie de saudação e gritou umas ordens para a tripulação de sua nave. Depois saltou para o solo do planeta das águas, dirigindo-se calmamente para o ponto de encontro.
Encontraram-se aos pés do rochedo. Topthor examinava mais detalhadamente o tópsida. Pelo muito que os conhecia, era um exemplar ainda jovem da estranha raça dos sáurios, com quem se defrontavam de vez em quando. Não se podia chamá-los de inimigos, pois de qualquer maneira, tinham em comum com os saltadores um grande ódio aos arcônidas. Mais estranho de tudo era esta guerra que se travava no momento.
Meu nome é Topthor, sou patriarca de minha estirpe e comandante desta, outrora, bela nave. — Virou-se para trás, apontando para o enorme cilindro partido ao meio. — Devo supor, naturalmente, que você é oficial e comandante da nave abatida.
Ber-Ka confirmou com a cabeça. Seu sotaque era perceptível, mas falava corretamente o intercosmo.
Sou Ber-Ka, comandante do cruzador de patrulhamento MV-treze, que o senhor obrigou a aterrissar, tornando-o incapaz de funcionar. O que lucramos com isto?
O que lucrará alguém desta maldita guerra? — perguntou Topthor com unção na voz. — Eu sou, certamente, o último a desejá-la.
Quem seria então o responsável? Fomos nós que atacamos, ou foram os saltadores que vieram para cá com a intenção de destruir todo o sistema?
Ber-Ka estudou a fisionomia do interlocutor e percebeu nele uma sincera curiosidade. Não compreendia por quê.
Prendemos, há poucos dias, alguns saltadores, não os superpesados, e os interrogamos. Confessaram que estavam planejando um grande ataque ao nosso sistema.
Topthor ficou perplexo.
Saltadores? Saltadores normais? Não sabemos nada disso. Ninguém tinha conhecimento desta ação que foi preparada sob o maior sigilo. Quem teria sido o traidor? Há algum detalhe deles, Ber-Ka?
Por que o senhor está tão interessado nisso?
Porque não pode ter havido traidores e porque o meu trabalho preferido é explicar o impossível.
Ber-Ka ficou olhando muito tempo para o superpesado e não descobriu nos seus olhos outra coisa, a não ser curiosidade.
Há poucos dias atrás, aterrissaram saltadores neste planeta. Aliás, não aterrissaram por vontade própria, nós os forçamos a descer por meio de raios de atração. O comandante foi aprisionado. Uma outra nave, bem menor, caiu também em nosso poder. Acho que o senhor sabe que nós mantemos uma base neste planeta.
Cheguei também a este conhecimento agora — disse Topthor. — Mas continuemos. Quem eram estes saltadores?
Não sei exatamente, mas Al-Khor certamente poderá informar. Ele interrogou os prisioneiros que mais tarde acabaram fugindo.
Fugiram? — a confusão de Topthor era grande. — Já não estou compreendendo mais nada. Como foi possível fugir?
Os nativos do fundo do mar os ajudaram. Devem ter feito aliança com eles.
Nativos? Você está afirmando que neste “mundo d’água” há seres inteligentes?
Animais inofensivos com um vestígio de inteligência — disse Ber-Ka, tentando diminuir o valor destes animais. — Não têm a menor importância.
De qualquer maneira, vocês instalaram esta base aqui por causa deles, não é verdade? Mas, seja o que for, quero saber quem eram os saltadores aprisionados que depois fugiram. As naves não tinham inscrições do clã de origem?
Não, tinham apenas um nome, mas não sei qual era. Uma delas era de construção esférica e a outra uma espécie de disco voador.
Construção esférica? — repetiu Topthor, destacando as sílabas. — Construção esférica dos arcônidas ou dos terranos?
Terranos?
Topthor deixou de lado a pergunta.
Não há nenhum saltador que possua nave esférica, fora alguns milionários extravagantes que se dão ao luxo de comprarem estas naves conquistadas dos arcônidas. Mas estes não têm nada a ver com nossa ação.
No entanto, eram saltadores, eles mesmos o confessaram. Acho, porém, que agora, depois de responder de boa vontade todas as suas perguntas, tenho o direito de lhe fazer algumas.
Com todo prazer, mas antes, apenas uma informação: em que planeta os senhores têm sua base, no quarto ou no terceiro?
Não há inconveniente algum em o senhor saber isto: no quarto. Nós defendemos apenas o terceiro planeta, para afastá-los do precioso “mundo d’água”.
Topthor mergulhou em profundos pensamentos.
Pergunte o que quiser — disse ele meio aéreo.
Ber-Ka aproveitou a oportunidade.
Por que os senhores atacaram nosso sistema? De onde é que sabiam de nossa base?
A resposta de Topthor não veio logo, estava tão ocupado com seus pensamentos, que o tópsida teve que repetir as duas perguntas.
Por que atacamos vocês? Meu caro Ber-Ka, não é tão fácil explicar isto. De início, tenho que dizer que não sabíamos que aqui havia uma base dos tópsidas. É difícil de acreditar, mas nós estávamos certos de que aqui seria o planeta pátrio dos terranos, de quem você já deve ter ouvido falar. Ou o nome Perry Rhodan não significa nada para você?
Perry Rhodan...? — repetiu o tópsida refletindo um pouco. — Sim, acho que já ouvi falar dele. Uma expedição nossa se encontrou com ele num sistema nas proximidades da Terra, acho eu; para falar a verdade, nós julgávamos que fosse a Terra. Infelizmente não tivemos sorte nesta guerra, fomos obrigados a fugir.
Estes saltadores que vocês prenderam, como é que pareciam?
Ora, como os saltadores parecem. Humanóides, esbeltos, falando um intercosmo perfeito.
Os terranos também falam perfeitamente o intercosmo.
Por que teriam de simular outra identidade?
Esta também é uma pergunta que eu faço, Ber-Ka. Sabe o que estou começando a suspeitar? Estou quase acreditando que fomos vítimas de uma trapaça muito bem arquitetada. Sabe quem eram seus prisioneiros? Não? Então vou lhe contar: eram terranos, aliás, terranos que vieram para cá em missão de Rhodan e denunciaram a vocês, que nós, os saltadores, tencionávamos fazer um ataque aos tópsidas. Só gostaria de saber como é que eles sabiam da nossa intenção e por que meios chegaram à conclusão de que as coordenadas estavam erradas.
Quais coordenadas?
As coordenadas da Terra que estavam registradas no meu computador de bordo.
Ber-Ka se assustou.
Quer dizer que o senhor conhece a posição do planeta pátrio de Rhodan?
Sim, pensava que conhecia, há muito tempo. Mas, acho que você não me vai acreditar quando eu lhe disser que estas coordenadas davam este gigantesco sol vermelho como sendo o sol da Terra. Minha positrônica se enganou, dando-nos coordenadas falsas. Rhodan já devia saber disso.
Isto é... — Ber-Ka começou a gaguejar e parou de falar.
Topthor olhou para ele e continuou:
Parece coisa impossível, mas é assim mesmo. Não há outra explicação para o enigma. E enquanto estamos sentados aqui e procuramos resolver o enigma, lá em cima no espaço a sua e a minha frota se destroem. Temos que fazer alguma coisa.
Minha estação de rádio não funciona — disse o tópsida.
Também não tenho certeza se meu rádio está bom. Mas uma coisa é certa, Ber-Ka: aqueles saltadores, que se deixaram prender com tanta facilidade, com o único intuito de enganá-los, eram gente de Rhodan. Terranos. E vocês os deixaram fugir. Seu comandante devia ser esquartejado por este crime, pois ele somente é o responsável pelo massacre que está acontecendo.
Como assim? — admirou-se Ber-Ka.
Se os senhores não tivessem atacado, não aconteceria nada.
Topthor nada respondeu. Olhou para a escotilha da Top II e viu o rosto de Regol, que fitava medroso pelo canto da abertura.
Alô, Regol, como está a instalação de rádio?
Não funciona, Top. Chamamos uma nave que passava perto, não houve resposta. Tenho receio de que...
Topthor, suspirando, fez um sinal para Ber-Ka.
Também tenho receio, tópsida. Tenho receio de que temos que tirar férias aqui no “mundo d’água”, até que a sorte da guerra esteja decidida. Mas, qualquer que seja o resultado, o verdadeiro e único vencedor se chama Rhodan. É realmente uma vergonha que este homem não seja um saltador. Como são geniais suas jogadas, que profundidade tem seu pensamento. De que maneira maravilhosa ele sabe fomentar intrigas, fazendo com que outros trabalhem para ele, sem perceberem. Falando a verdade, daria meu braço esquerdo, se pudesse ter Rhodan como meu aliado.
Parou de repente. Inclinou a cabeça e começou a rir:
Nem seria necessário dar o braço esquerdo, estou me lembrando agora. Conheço um superpesado que ganhou milhões trabalhando com e para Rhodan. Meu amigo Talamon foi mais prudente do que eu supunha. Agora sei por que não quis tomar parte no ataque. Mas, espere, velho amigo, teremos que conversar um pouco quando eu voltar.
Voltar...?
Topthor começou a refletir que sua volta não era tão fácil assim, nem tão certa.
Rhodan sabia que somente um único saltador é que podia descobrir o erro que vitimara toda a frota dos superpesados. E ele, Rhodan, haveria de fazer tudo para que esta única testemunha não abrisse a boca. Pois Topthor já sabia todo o plano de Rhodan.
Vir ando-se para Ber-Ka, disse:
Acho que vamos fazer as pazes, tópsida. Você não vai ainda compreender bem o porquê de nossa aliança, de sua raça e da minha. Temos um inimigo comum e não podemos imaginar outro mais perigoso e traiçoeiro. Um adversário que até simula derrota, para, na escuridão do esquecimento, preparar a vingança. Um dia, Rhodan voltará e esmagará todos os povos da Galáxia que não se tornarem seus amigos.
Não estou compreendendo tudo...
Também não é necessário, Ber-Ka. No momento não lhe resta outra opção, a não ser aceitar minha proposta. Tente consertar seu transmissor. Você receberá de nós a energia necessária. Nosso gerador principal ainda funciona.
Acenou para o jovem sáurio e voltou para sua própria escotilha.
Ber-Ka ainda ficou parado uns instantes, depois, arrastando os pés, encaminhou-se para as ruínas de sua nave. Na cabeça, rodopiavam-lhe milhares de perguntas sem resposta.

* * *

Já percorri quase todas as naves, mas não se consegue ver Topthor.
Gucky estava sentado apático na cabina de comando, olhando desconsolado para Deringhouse. O fato de não ter encontrado Topthor o aborrecia menos do que perder uma aposta, principalmente quando o apostador era Deringhouse.
Quem sabe Topthor morreu logo no início da batalha e sua nave foi destroçada? Então o problema já estaria automaticamente resolvido.
Rhodan quer ter certeza — disse Marshall. — Betty Toufry diz ter recebido, por uns instantes, impulsos que poderiam ser de Topthor.
Como é que ela pode reconhecer isto? — duvidou o rato-castor, esticando as orelhas. Os músculos de suas patas traseiras se retesaram para o salto. — E em que região ela ouviu os impulsos?
Naturalmente no sistema Beta — explicou Marshall. — Na direção do espaço interestelar.
Bobagem — disse Gucky. — Na direção do planeta Aqua. Está bem na direção indicada.
Marshall queria protestar, mas, de repente, seus olhos se comprimiram. Olhou para Deringhouse demoradamente e depois virou-se para Gucky.
Parece que não é bobagem não, meu caro. Vou conversar com Betty.
Eu vou junto — ofereceu-se o rato-castor, pulando de seu sofá. — E se você quiser, ainda estou pronto para fazer outra aposta.
Desta vez você não vai arranjar outra vítima, eu lhe garanto — disse Marshall, desaparecendo no corredor.
Gucky parecia convencido da vitória.
Deringhouse estava olhando para os dois mutantes que saíam, quando ouviu o zumbido da instalação de rádio. Apertou um botão, mas a tela continuou apagada. Mas uma voz conhecida, apesar de desfigurada pelo dispositivo de decodificação, falava no alto-falante:
A derrota dos tópsidas está iminente. Deve-se esperar que os saltadores destruam até a última nave dos tópsidas, antes de executarem sua última tarefa que é de explodirem a suposta Terra. Talvez transformarão o planeta das matas virgens numa imensa fogueira. Os nossos amigos aquáticos, os homens-peixes, não terão nada contra, caso a temperatura média de seu mundo se elevar um pouco. Informes recém-chegados dão conta de que acabam de aparecer mais duzentas naves vindas de Topsid. Vai atrasar a derrota dos sáurios por algumas horas. E vocês, como vão? Já descobriram Topthor?
Ainda não, senhor — respondeu Deringhouse abatido. — Talvez tenhamos achado uma pista. Marshall saiu para averiguá-la.
Temos que silenciar Topthor — ordenou Rhodan. — Não resta dúvida de que não vai ficar de boca fechada. Já é a segunda vez que este superpesado tenta destruir a Terra. Se não pudermos prendê-lo, temos de matá-lo, do contrário, jamais teremos sossego.
Se o encontrarmos, senhor, haveremos de liquidá-lo.
A voz de Rhodan parecia cansada, quando falou:
Talvez já tenha morrido em combate, o que me pouparia muita preocupação. De qualquer maneira, temos de ter certeza de que está morto. Se ninguém achar este malandro, toda a ação foi inútil. Topthor é o único que pode desvendar o segredo e contar tudo aos tópsidas. E isso, temos de impedir de qualquer maneira. Onde está Gucky?
Com Marshall, conversando com missToufry.
Mande chamá-lo, Deringhouse, tenho um plano para ele.
Menos de dez segundos após, Gucky se materializou na cabina, e ficou olhando para a tela escura.
O senhor me chamou, chefe? — chilreou Gucky alegre. Do cansaço que sentia antes, não se via mais nada. — Acho que descobrimos as pegadas de Topthor.
Ainda está vivo? — perguntou Rhodan.
Se as pegadas são quentes, então sim. Por quê?
Descubra Topthor, Gucky, é muito importante. Toda esta batalha entre superpesados e tópsidas não terá nenhuma importância, mesmo a destruição da suposta Terra não tem interesse algum, se Topthor continuar vivo e espalhar o segredo do engano. Você me compreendeu?
A voz de Rhodan era séria, mas foi se tornando mais suave.
Ouça bem, meu amigo, se você conseguir saber alguma coisa com certeza sobre Topthor, eu lhe arranjo um armazém inteiro de cenoura.
Por alguns segundos, o silêncio se fez completo, depois se ouviu o guincho alegre de Gucky, dançando numa perna só através da cabina, quase tropeçando nos pés do comandante.
Será maravilhoso, durante dois anos não vou mais precisar fazer apostas e não há coisa que eu odeie tanto como apostar. Será feito, chefe. Em uma hora, terei Topthor nas mãos... e o armazém de cenoura.
Rhodan riu à vontade.
Felicidades, Gucky, para você e para todos nós.
O alto-falante emudeceu.
Gucky ficou ainda um pouco sentado, depois se apoiou no largo traseiro. Seus olhos leais de cão de fila pousaram no rosto de Deringhouse. O dente incisivo de roedor estava à vista, o que significava muito boa disposição por parte de seu dono.
Então, Gucky?
Deringhouse se esforçava para parecer sério.
Quer apostar dois quilos, que você não vai encontrar Topthor?
O rato-castor foi se retirando sem mesmo responder a Deringhouse, nem mesmo olhar para ele. Antes de desaparecer ainda chilreou:
Dois quilos? Ridículo, para quem já é praticamente milionário. Puxa, dois quilos, não se compreende como alguém se atreve a isso...
O resto do protesto acabou. Gucky tinha se teleportado para não se sabe onde. Por sorte, não para o espaço aberto lá fora.

* * *

Topthor e Ber-Ka tinham naquele momento feito um acordo. Entre eles haveria um armistício e ambos aceitavam a obrigação de procurar ou os saltadores ou os tópsidas para esclarecê-los sobre o horrível engano.
O transmissor da Top II não podia mais ser consertado e também para ouvir estava muito difícil para Topthor, se bem que as notícias não eram nada agradáveis para o infeliz Ber-Ka. Os tópsidas estavam já derrotados, não havia mais dúvida. Os míseros restos da frota encontravam-se encurralados e obrigados à rendição. Muitas naves haviam se refugiado nas clareiras da floresta virgem, sem atinarem que exatamente este planeta achava-se condenado à destruição total.
O reforço de Topsid estava chegando e entrando logo em combate. Esta leva de forças frescas ainda tinha um moral bem elevado e conseguiu infligir pesados danos aos saltadores. Logo, porém, constataram a grande superioridade dos superpesados. Os tópsidas fugiram, mas seus perseguidores não tinham piedade, foram derrubando uma nave após a outra. Somente as esferas espaciais de Rhodan que apareciam aqui e ali, não eram atingidas.
Topthor e Ber-ka ouviam os relatórios. O tópsida tinha perdido qualquer esperança e estava resignado. Mas não o saltador.
Tem que ser possível conseguir-se um contato com uma das duas facções, Ber-Ka. Vocês tinham uma base aqui. Fugiram todos ou ficaram pelo menos os guardas?
Não sei — lamentou o tópsida. — As providências tomadas pelo comando supremo nunca chegam ao nosso conhecimento. Talvez existam ainda estações de rádio em funcionamento aqui, mas como conseguiremos contato com elas, se não sabemos onde estão?
O sáurio fez uma pausa, depois sacudiu a cabeça:
Seria lógico que investigássemos primeiro o antigo quartel-general. Se há algum sobrevivente, tem de ser lá.
E onde é este quartel-general?
Ber-Ka apontou na direção do mar.
Em qualquer lugar ali no litoral, numa ilha artificial no mar. Mas não sei bem a localização, pois não tenho idéia nenhuma do local onde aterrissamos. Temos de procurar.
Topthor franziu a testa.
A explosão do reator destruiu meu porão e com isso meu planador e minha viatura. Iremos a pé, mas eu acho isso impossível.
Uma viatura nós temos também — disse Ber-Ka, com um raio de esperança. — O planador infelizmente foi destruído durante seu ataque. Tentaremos chegar até o mar, lá a praia é larga e bem firme, para servir de estrada. Teoricamente temos que dar a volta toda pelo continente, para chegarmos do outro lado, encontrando a ilha artificial.
Mas isto é uma excursão muito agradável — disse Topthor em tom amargo.
Porém compreendia que não havia outro jeito, se não quisessem ficar ali a vida toda.
Qual é o tamanho de sua viatura?
Se quisermos levar bastante mantimento e água suficiente, proporia uma tripulação de dois homens e, naturalmente, o armamento correspondente. Não sabemos por quanto tempo teremos de viajar.
O superpesado ficou pensativo. Depois abanou a cabeça, concordando:
Está bem, Ber-Ka.
Olhou para o céu, o sol estava a pino e o calor era enorme.
Vamos partir logo, cada hora é preciosa. Embora não tenha esperança de chegar a tempo. Mas é indispensável que todos saibam do grande erro, que prejudicará toda a Via Láctea.
Os preparativos se fizeram em pouco tempo. Abriram um rombo no bojo da nave tópsida, colocaram umas vigas para deslizamento e um carro pesado rolou para o chão do planeta. Tinha rodas e esteira, podia, pois ser utilizado em qualquer tipo de terreno. Uma pequena metralhadora de raios energéticos podia girar em todos os sentidos, oferecendo assim proteção contra os ataques. O diminuto reator em seu interior tinha energia suficiente para o carro rodar ininterruptamente por mais de cem anos.
Caixas com mantimentos foram empilhadas e o reservatório recebeu bastante água. Ber-Ka deu as últimas instruções à sua tripulação, depois virou-se para Topthor.
Podemos partir. Acho que vamos atingir o litoral em duas ou três horas. Depois será mais fácil.
O que há com os habitantes da água?
Ber-Ka tentou despistar.
Não precisa se preocupar com eles, são pacíficos e não possuem armas. Nem tomam conhecimento de nós. Temos apenas que cuidar para que ninguém dos seus ou dos nossos nos veja e abra fogo sobre nós. Este é o grande perigo que corremos. O único. Nosso tratado de paz particular não vale para os outros.
Topthor examinou sua pistola de raios.
Vamos obrigá-los a fazer a paz — disse ele ameaçador, entrando na cabina do carro, que dava normalmente para quatro tópsidas.
Quando Ber-Ka se sentou ao lado dele, todo o espaço estava ocupado.
Por todos os espíritos do espaço — disse o tópsida em tom de brincadeira — não é à toa que todo mundo chama seu povo de os “superpesados”.
Topthor sorriu amavelmente.
Somos realmente pesados, mas não apenas no sentido físico — explicou ele, olhando para a máquina.
Os que ficaram nas duas naves viram a viatura desaparecer logo na mata virgem, voltando para seus lugares.
Ber-Ka na direção, encontrava sempre uma clareira ou um trecho com pouca vegetação por baixo, para conseguir ir rompendo com as poderosas lagartas. E quando lhe havia pela frente grossos troncos de árvores, que não podiam ser contornados, entrava em ação o termo-radiador de bordo. Assim foi que diversos montões de cinza fumegante assinalavam o caminho que Ber-Ka e Topthor iam seguindo, na primeira hora de viagem, floresta adentro. Passou a tarde e veio a noite. Detiveram-se numa clareira e se prepararam para o repouso noturno. É claro que podiam ter continuado, mas temiam chamar a atenção pelo clarão do farol.
A calefação espalhava um calor agradável na cabina. Tão diferentes, os dois indivíduos fizeram sua primeira refeição e se deitaram para o repouso.
Em volta deles, era o silêncio e a calma. Nenhuma lua para iluminar as tristes sombras da floresta desconhecida, onde poderiam estar escondidos inimigos invisíveis. Nada se movia. Em algum lugar, altas ondas estariam rebentando no litoral e banhando as pilastras de aço que sustentavam a ilha artificial. Isto podia ser a uma distância de dez quilômetros, mas podia também ser a mil quilômetros.
Topthor teve um sono muito perturbado. Acordou muitas vezes. Ficava então ouvindo a respiração compassada de seu aliado não intencional, que ele aos poucos começava a invejar. Quando ele virava a massa bruta de seu corpo para o outro lado, o carro balançava. É verdade que o Jovem tópsida não percebia nada disso, seu sono era profundo.
Afinal clareou o dia. No leste, o céu se coloriu com todos os matizes do arco-íris. O sol vermelho galgou, gigantesco, as grimpas das árvores.
Topthor acordou Ber-Ka.
Já é hora de nos pormos a caminho, já perdemos muito tempo. Certamente a batalha já terminou, mas ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Você prepara a refeição matinal?
Enquanto o tópsida preparava uma refeição leve, Topthor desceu da cabina e deu umas voltas. Estava convencido de ter ouvido certos ruídos durante a noite. Se alguém tivesse andado pela redondeza, devia ter deixado rastros. Estava também intimamente convencido que tinham errado um pouco o caminho e queria averiguar.
Na clareira não se notava nada de extraordinário. Nenhum afastamento de galhos ou ramos quebrados levava à idéia de que alguém tivesse passado por ali. Não havia animais na floresta, como Ber-Ka havia dito, pelo menos não animais maiores. O pé de Topthor já estava preparado para o próximo passo, quando estancou de repente. Ficou parado com o pé no ar. Seus olhos ficaram estarrecidos, olhando incrédulos uma pegada de algo que se arrastava, vindo da floresta para a clareira, dando uma volta em torno do carro e desaparecendo do outro lado na vegetação baixa. Nenhum galho quebrado, como se o rastro fosse de algo que se arrastasse.
Topthor voltou lentamente para a viatura. Ber-Ka já sabia do que se tratava.
Não se preocupe, Topthor, são os seres da água. Às vezes vêm à terra, mas voltam logo a seu elemento. Se o senhor viu o rastro deles lá fora, é sinal que o mar não está muito longe. Portanto, estamos alcançando o que queremos. E agora, venha tomar sua refeição para que possamos continuar.
Topthor olhou mais uma vez para as pegadas e se espremeu para entrar pela porta do carro, para ele estreita demais.
Apesar da perspectiva de alcançar o mar em breve, não sentiu muito apetite com a comida que o tópsida lhe preparara, não por causa da comida em si. Talvez fosse a incerteza do que tinha pela frente, que lhe tirou o apetite.
4



Foi mais ou menos por esta hora que a última nave de Al-Khor foi destruída. A frota dos tópsidas não existia mais.
O último comunicado do rádio, que saiu do terceiro planeta, dava conta ao Ditador do Império Estelar Tópsida de que suas tropas haviam cumprido seu dever e haviam resistido ao inimigo invasor até a última gota de sangue.
Topsid não respondeu.

* * *

Rhodan percebeu que alguém entrava na cabina. Era o Dr. Certch, o psicólogo dos robôs. O pensamento cada vez mais independente dos cérebros positrônicos e eletrônicos tornou necessário criar uma especialização científica. Era, portanto, missão de Certch supervisionar os complicados processos de pensamento dos robôs e prever como seus cérebros decidiriam em cada caso concreto.
Então, doutor, o senhor por aqui? Pensava que o senhor não se preocuparia com coisas tão pequenas como batalhas espaciais.
Não estou realmente preocupado com isso, senhor — disse Certch sorrindo, mas em sua voz havia um vislumbre de seriedade, que Rhodan logo percebeu. — Há, no entanto, acontecimentos que não podem ser menosprezados.
E quais seriam eles? — perguntou Rhodan, empurrando as mensagens de rádio para trás, recebidas nos últimos sessenta minutos. Confirmavam o que já se sabia. Os superpesados conseguiram a vitória e agora se preparavam para desfechar o último golpe contra a “Terra”. Cekztel tinha mandado preparar a bomba arcônida.
O senhor sabe que construí para mim mesmo um pequeno cérebro positrônico, a que dei o nome de Max. Max é uma calculadora, se assim posso me exprimir.
Um psicólogo mecânico que pode prever e calcular todos os processos de pensamento de seus irmãos maiores. Estive “conversando” muito tempo com Max.
E que é que ele diz? — queria saber Rhodan, que conhecia a profundidade do cientista e a respeitava. Por mais de uma vez, Dr. Certch tinha provado ser entendido nos pensamentos lógicos dos cérebros mecânicos. — Esperamos que sejam previsões boas.
Max está preocupado por causa do cérebro positrônico na belonave de Topthor. Temos que supor, de acordo com o que aconteceu até agora, que o próprio Topthor está interessado em disfarçar o erro. Há, no entanto, uma hipótese bem justificada — dizia Max — de que o cérebro pense diferente e esteja decidido a esclarecer o erro. E Max ainda é de opinião de que, mais cedo ou mais tarde, a trapaça dos mutantes será descoberta e a alteração feita por eles virá à luz. Com outras palavras: os saltadores haverão de notar que destruíram, não a Terra, mas um pobre planeta inofensivo.
Suposto, naturalmente, que Topthor e sua nave não tenham sido atingidos por uma descarga energética.
Certch confirmou com um movimento da cabeça.
Naturalmente. Mas não sabemos se ele morreu em combate. E mesmo que tenha morrido, ainda existe a possibilidade de que sua nave esteja apenas danificada e seja um dia encontrada. Então o robô terá tempo suficiente para esclarecer o enigma. Se o senhor quiser estar bem convencido de que sua jogada deu certo, então terá de providenciar para que a nave de Topthor seja completamente destruída.
Concordo com o senhor, doutor. Mas antes de tudo, temos que encontrar Topthor e sua nave. Conforme meus cálculos, os saltadores ainda estarão ocupados por algum tempo em salvar seus sobreviventes e colocar a salvo suas naves ainda aproveitáveis. Somente depois disso é que vão destruir o terceiro planeta. Depois de se retirarem deste planeta, será tarde para nós. Temos, portanto, pouco tempo para eliminar o perigoso Topthor. John Marshall e seus mutantes estão fazendo todos os esforços para conseguirem isto. No entanto, até agora, sem resultado.
Espero que sejam bem sucedidos — disse Certch.
Tudo depende exclusivamente disto — disse Rhodan, acenando para Certch que estava deixando a cabina. Praticamente estava deixando a solução do problema nas mãos de Marshall que saía da seção dos mutantes, acompanhado de Betty Toufry, para falar com Rhodan. Certch, curioso, os seguiu. Sua despedida da cabina fora muito curta.
Betty teve impulsos claros de Topthor — disse Marshall agitado — mas ainda não o conseguiu localizar. Gucky também está tentando localizá-lo. O interessante é que nós podemos afirmar com certeza que a nave de Topthor não estava junto com o grosso da frota.
Onde, então?
Se soubéssemos onde, estaria tudo terminado — respondeu Marshall. — O senhor sabe, chefe, que distâncias não se podem calcular só por meios telepáticos. Por isso, Gucky ficou a bordo da Centauro, enquanto Betty e eu nos transportamos para a Titan. O senhor sabe que calcular uma distância com auxílio de duas retas dadas e de um ângulo conhecido, não é mais problema hoje. Aliás, já não era há muitos séculos. Completamente novo é determinar as duas retas somente por meios telepáticos. Betty e Gucky tentam localizar Topthor. Betty já sabe qual é a distância. De Gucky ainda não sabemos nada.
Você tem contato com a Centauro?
É claro, capitão Lamanche dirige as operações lá de cima. Deringhouse voa agora para Aqua.
O planeta das águas? Por que isso?
Porque os impulsos secretos de Topthor provêm de lá.
Rhodan comprimiu os olhos e fitou Marshall, muito pensativo.
Quer dizer então que está faltando só a orientação de Gucky?
Exatamente — respondeu Marshall. — Então saberemos onde está Topthor. Onde se cruzarem as retas de Betty e de Gucky, aí está o superpesado.
Soou o intercomunicador e o semblante do cadete Martin apareceu na pequena tela.
Marshall está com vocês?
Rhodan fez um sinal para Marshall.
Sim, está conosco. Você tem notícias de Lamanche?
Gucky transmitiu exatamente agora uns dados para Marshall. Devo repeti-los?
Marshall fez sinal que sim. Estava com lápis e papel na mão. Betty olhava curiosa para ele. Dr. Certch dava passadas nervosas de um canto para outro. A ele interessava sobretudo a destruição da belonave de Topthor, e com isto também o desaparecimento do perigosíssimo computador de bordo.
Leia devagar, por favor.
Marshall anotou as coordenadas e começou a fazer diagramas. Em passos rápidos, aproximou-se de Rhodan e pediu:
O mapa do sistema, senhor. Acho que o palpite de Gucky estava certo.
E Rhodan, entregando-lhe o mapa:
Que palpite?
Que Topthor havia aterrissado em Aqua. Provavelmente desconfiou e quis ver pessoalmente “Marte”. Então está na hora de tomarmos iniciativa.
Centauro chamando, senhor — interrompeu Martin, desaparecendo da tela.
Por uns trinta segundos, houve silêncio total na cabina. Todos esperavam meio angustiados o que havia sucedido. Finalmente acendeu a luz do intercomunicador. Martin parecia meio apavorado ao falar:
Foi Deringhouse. Avisou que Gucky desapareceu completamente.
Rhodan respirava com dificuldade.
Que quer dizer desaparecer completamente? Onde está a Centauro?
Está circunvoando Aqua, senhor. O rato-castor, assim diz o relatório de Lamanche, falara que tinha ainda de liquidar um assunto, depois disso desapareceu. No arsenal está faltando uma pequena bomba atômica.
A fisionomia de Rhodan clareou. Marshall, que estava pálido como cera, deixou transparecer um leve sorriso:
Que malandro este Gucky. Ele sabe que o procurado está no quarto planeta e toma suas próprias decisões. Não é um pouco apressado, chefe?
Rhodan não conseguiu disfarçar o sorriso:
Um de nós tinha que fazer isto; por que não Gucky? Prometi-lhe um armazém de cenoura se conseguisse achar Topthor.
Marshall caiu na poltrona mais próxima.
Então... — murmurou ele, fechando os olhos com resignação.


* * *

Uma forte aragem do sul tocava as ondas, sem cessar, contra a praia arenosa que estendia-se reta de leste para oeste, raramente interrompida por enseadas idílicas. A apenas cinqüenta metros da praia, começava a floresta virgem. Estes cinqüenta metros eram tão planos como uma estrada.
Quando Topthor, que dirigia a viatura, viu o mar, parou sem querer. Encantado, ficou olhando para a superfície azul, a se perder no horizonte. No céu, o sol alaranjado. Estava quente, de maneira que a brisa do mar foi-lhes um grande alívio. A cúpula de vidro do carro estava aberta.
O melhor é dobrarmos para o leste — disse Ber-Ka, a quem a visão do mar era coisa comum. — A ilha de aço está no litoral sul, isto eu sei com certeza. Mais ou menos na extremidade sudeste do continente.
Topthor se desprendeu do belo panorama. Virando-se para seu companheiro, disse:
Agora estou compreendendo porque vocês instalaram aqui uma base. É realmente um mundo em que se pode viver bem.
O tópsida nada respondeu. Continuou olhando para o lado da praia, como se esperasse encontrar alguém. Mas não conseguiu ver as listras prateadas na superfície do mar que denunciavam a presença dos seres aquáticos. Os habitantes de Aqua, como Deringhouse batizara este mundo, viviam exclusivamente na água. Em terra, não agüentavam mais do que duas ou três horas. Movimentavam-se na água como um avião a jato: com a boca enorme sugavam boa quantidade de água, comprimiam-na no centro do corpo com um órgão especial, tocando-a para fora com grande pressão através de uma válvula traseira. Desta maneira, seu nado atingia enorme velocidade.
Não apareceram e Ber-Ka estava meio decepcionado.
Topthor não estava mais admirando a beleza primitiva daquele mundo virgem. As preocupações estavam voltando à sua cabeça. Acima de tudo, a incerteza sobre o que havia acontecido. O fraco transmissor do carro não dava para entrar em contato com a frota. Chamar a Top II também não fazia sentido, pois não podiam responder.
Uma situação desesperadora. Mas alguém certamente o acharia e aí então a trapaça de Rhodan viria à luz. Quem sabe o cérebro positrônico da Top II haveria de corrigir seu erro e então os saltadores fariam verdadeiro ataque à verdadeira Terra.
A ilha...! Estamos chegando.
Topthor viu a construção abaulada, a mais ou menos dois quilômetros do litoral. Pilastras esguias, apoiadas no fundo do mar, sustentavam esta estranha ilha. Um parapeito cercava toda a plataforma, impedindo que alguém caísse ao mar.
Mas não havia sinal de vida na plataforma. A ilha artificial parecia morta. Topthor não deu uma palavra. Andou mais uns dez minutos e depois parou num lugar bem em frente à ilha. Num porto improvisado, estavam alguns barcos sem dono.
Ber-Ka apontou-os.
Chegaremos à ilha com eles. Vamos, não perca tempo.
Topthor estava hesitante e disse:
E se alguém nos viu e está a nossa procura para nos matar?
Verão que sou oficial e não atirarão em você sem mais nem menos, estando ao meu lado. Quem sabe o que já aconteceu por aqui? Venha Topthor, cada minuto é precioso.
Um pouco assustado, Topthor abandonou o carro que até então o protegia bem. A visão da ilha solitária e estranha não lhe agradava nada, embora fosse o único meio de tentar contato com sua gente. Dava também a mesma oportunidade a Ber-Ka.
Se Topthor quisesse ser honesto consigo mesmo, teria de confessar que, a princípio, não estava confiando muito no tópsida, quanto ao caminho para a ilha. É certo que os dois tinham um acordo, feito, porém pela necessidade do momento e não por simpatia. Estavam convencidos de que manteriam o contrato, somente enquanto um precisasse do outro. Quando Ber-Ka encontrasse os seus, não precisaria mais de Topthor e vice-versa.
Ber-Ka já estava em pé dentro de um barco, como que convidando para um passeio na ilha.
Venha Topthor, não temos tempo a perder.
O superpesado se pôs em movimento. Em sua cintura, balançava a pistola energética. Seus pés entravam fundo na areia. Não tirava os olhos de Ber-Ka, pois não queria ser surpreendido com um tiro pelas costas. O momento da decisão se aproximava inexorável.
O barco balançava bastante, mas com um pequeno ruído do motor, ia levando os dois para o ancoradouro da ilha, uma plataforma bem rente ao mar. Neste local, o paredão liso da ilha era substituído por um portão. Uma roda fazia as vezes do usual trinco ou alça de abrir.
Ber-Ka amarrou o barco bem firme num gancho e saltou. Com mãos ágeis abriu o portão, enquanto Topthor se esforçava para botar o pé no chão da ilha, cujas paredes se erguiam a mais de vinte metros de altura. Topthor não conseguia ver o fundo do mar e não sabia, pois, qual era a profundidade.
O tópsida já tinha entrado e virou-se para trás:
Venha, Topthor, não sei se vamos achar a instalação funcionando ou a tripulação presente. Mas vamos experimentar. Isto era nosso quartel-general, porém como estou vendo, inundaram a parte inferior. Repare que as escadas estão encobertas pela água. Só aquela é que está livre. Não tenho nenhuma idéia onde se encontra a cabina de rádio.
Se existia uma, ou ainda existe, nós encontraremos — disse Topthor mais otimista. — Provavelmente nos andares de cima. Vamos dar uma olhada primeiro na fortaleza aquática. Estou achando as instalações muito interessantes, embora não compreenda por que não a construíram em terra firme. Não havia adversários, não é?
Devido ao contato com os nativos — explicou Ber-Ka.
Com Topthor atrás dele, começou a subir.
Tinham levado consigo só as coisas mais importantes, o restante ficara embaixo. Tudo demonstrava que era intenção dos tópsidas voltar para o quartel-general logo após a batalha. Nos armários, ainda estavam guardados os rolos de fitas magnéticas e os microfilmes sobre o quarto planeta do sistema Beta. Os olhos de Topthor viam cobiçosos aqueles tesouros de documentos. Se pudesse pegaria tudo. Mas depois pensou friamente que os tópsidas não voltariam mais, pois estavam mortos. Com toda probabilidade, Ber-Ka era o último tópsida vivo, a entrar naquela ilha de aço.
A mão de Topthor estava por acaso na coronha da pistola quando Ber-Ka virou de repente para trás e apontou para frente, onde havia uma porta aberta. Atrás dela, estava a instalação de rádio, um salão bem claro.
O superpesado estremeceu todo de susto, como que apanhado numa ação imoral. Deu um sorriso forçado, olhando para Ber-Ka.
Excelente, Ber-Ka, a jogada de Rhodan está chegando ao fim.
O grande salão estava vazio. Os aparelhos, receptores, geradores e transmissores estavam em seus lugares. Amplas janelas deixavam entrar a luz do sol. As poltronas dos operadores estavam como eles haviam deixado.
A qualquer momento, pensava Topthor, os sáurios poderiam voltar, como se tivessem saído apenas por uns instantes. Mas depois, achou que estava louco, pois os tópsidas não tinham sido todos derrotados e mortos? Ninguém voltaria para ali. Ber-Ka era e continuava sendo o único tópsida vivo. O último a entrar naqueles tesouros.
Você entende alguma coisa disso?
O suficiente para dar conta do recado — afirmou o jovem oficial, apontando para uma complicada instalação. — No começo de minha carreira, era operador de rádio. Espere, em poucos minutos teremos Al-Khor ali na tela.
Topthor franziu as sobrancelhas.
Por que não Cekztel, meu comandante supremo? Quem sabe se Al-Khor já está morto, depois que toda sua frota foi destruída?
Isto aqui é uma estação dos saltadores ou dos tópsidas? — perguntou Ber-Ka. — Assim que eu falar com Al-Khor, a estação fica a sua disposição. Mais, você não pode exigir.
O superpesado concordou hesitando.
Sua mão estava de novo na cintura.
Está certo, Ber-Ka, mas sem a minha magnanimidade você não estaria nesta ilha. Tenho pois o direito de ser o primeiro a falar. Além disso, não adiantaria nada à sua frota se Al-Khor for cientificado da trapaça de Rhodan. O importante é que a frota dos saltadores seja esclarecida. Compreende isto?
Mas Ber-Ka estava possuído por uma idéia fixa. Queria vingança e queria realizar um feito heróico. Se ele matasse o saltador e conseguisse que as operações de guerra recomeçassem, receberia a comenda de bravura do ditador. Mas este saltador era um adversário ágil e perigoso, que não se podia menosprezar.
Talvez o senhor tenha razão — disse ele cauteloso. — Por favor, use a instalação primeiro. Certamente o senhor saberá manuseá-la.
Também Já fui operador de rádio — respondeu Topthor, passando ao lado de Ber-Ka, em direção à cadeira livre, já com a arma na mão.
Ao perceber, pela imagem refletida no vidro abaulado da tela, que o sáurio havia sacado a pistola para matá-lo pelas costas, sua reação foi espantosa. Fez como se fosse sentar na poltrona do operador, deu meia-volta e se atirou no chão, descarregando a arma.
Ber-Ka foi apanhado de surpresa, morrendo sem um gemido, com a arma apontada para Topthor. O fluxo energético cessou, Topthor respirou aliviado, guardando a arma na cintura. Estava agora livre de qualquer ameaça do traidor sáurio, que tinha matado em legítima defesa. O cadáver seria prova disso, da intenção de Ber-Ka de matá-lo pelas costas. Haveria de deixá-lo como estava.
Topthor se sentou diante dos aparelhos e começou a estudá-los. A instalação basicamente não era muito diferente da dos saltadores. Apresentava, porém, algumas novidades nos controles, com que não estava acostumado. Estava, porém, convencido que não levaria muito tempo para fazer tudo funcionar.
Ficou uns dez minutos diante dos aparelhos tentando em vão, até que esticou a mão direita e empurrou uma alavanca. Regulou a freqüência do transmissor e pegou o microfone, depois que a tela ficou iluminada.
Alô, aqui fala Topthor, do quarto planeta do sistema Beta. Aqui fala Topthor do quartel-general dos tópsidas. Estou chamando Cekztel, comandante supremo dos superpesados. Apresente-se, Cekztel. Tenho uma comunicação importantíssima para lhe fazer. Apresente-se.
Repetiu três vezes seu apelo e depois passou para a escuta. Não teve que esperar muito, até que apareceu na tela a imagem desfocada do velho patriarca, os olhos astutos, como que sobressaindo do nariz chato e da imensa barba, procuravam, como se não vissem, a imagem de Topthor.
Alô, Topthor? Aqui fala Cekztel, por que não liga sua câmara? Minha tela está escura.
É uma instalação de rádio dos sáurios, que não domino bem. Mas, não tem importância. Preste atenção, Cekztel: faça paz imediatamente com os tópsidas.
Você ficou maluco? Os tópsidas se aliaram com os terranos e eu devo fazer pazes com eles? Além disso, não saberia onde encontrar um comandante deles. Somente a gigantesca nave esférica de Rhodan é que aparece de vez em quando, junto com pequenas unidades. Naves cilíndricas não aparecem mais.
Venha me apanhar aqui, Cekztel, você vai me encontrar facilmente. No quarto planeta...
O que está fazendo aí? Não vi sua nave durante todo o tempo do ataque.
Eu lhe conto tudo mais tarde, Cekztel. De qualquer maneira, você ficará boquiaberto quando lhe disser que este Rhodan nos enganou novamente.

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