Na Titan,
havia andares inteiros que ainda não tinham sido explorados. O fato
de que o gigante espacial representava uma ampliação quase exata da
conhecida Stardust trazia certo alívio. Apesar disso Rhodan não
dispensou os exercícios de alarma, que dariam aos tripulantes a
oportunidade de familiarizar-se com a Titan.
Constatou-se
que as armas de que dispunha a nave seriam suficientes para, de
várias maneiras diferentes, destruir um sistema solar numa questão
de segundos.
Também
havia um arsenal cuidadosamente trancado em que estavam escondidas as
temíveis bombas gravitacionais. Tratava-se de uma arma à qual os
arcônidas ainda não haviam recorrido. Era capaz de arrancar todo um
planeta da estrutura espaço-temporal de quarta dimensão, fazendo-o
desaparecer.
O que
aconteceria se os moofs conseguissem pôr as mãos numa arma como
esta?
Não era
difícil encontrar a resposta, e foi ela que decidiu o curso que
tomariam as ações de Rhodan.
Enquanto
Bell fazia os oficiais e tripulantes correr de um canto da nave para
outro, dando prazos cada vez mais curtos para encontrar as posições
designadas a cada um, na sala de comando estava sendo realizada uma
conferência. Além de Thora e Crest, também os mais eficientes
dentre os mutantes estavam presentes. Especialmente aqueles aos quais
se poderia recorrer para a realização da ação planejada.
Ainda
participavam da conferência o coronel Freyt, o tenente Tifflor e o
Dr. Haggard, um médico que acumulava suas funções com as de
biólogo.
— Quer
dizer que a situação é a seguinte — principiou Rhodan, lançando
um olhar para seus apontamentos. — O Zarlt apoderou-se do governo
pela força. Provavelmente ainda não contava com o auxílio dos
moofs. Como soube, estes vieram depois. Desde o início teve a idéia
de depor o imperador e assumir o governo do Império. Para isso teria
que neutralizar o cérebro robotizado. E o plano de destruir o
cérebro foi o único fator que fez com que certos zalitas se
tornassem seus amigos. Isso é um fator que depõe a favor desse
povo, pois demonstra que não desejam a luta apenas para conquistar o
poder. O que acontece é que não querem ser governados por uma
máquina.
— Para
falar com franqueza, também não gosto que o Império se encontre
sob o domínio de um robô — confirmou Crest em tom tranqüilo.
Thora concordou com um aceno da cabeça. Ambos tinham bons motivos
para não se sentirem satisfeitos com a situação atual.
— Até
aí, muito bem — confirmou Rhodan. — Infelizmente existem outras
circunstâncias, que tornam nossa situação mais difícil. Temos que
fazer de conta que pretendemos dar todo apoio ao Zarlt, a fim de
ganhar tempo. Mesmo que queiramos ajudar o cérebro e, portanto, o
Império, o primeiro ainda é nosso inimigo, e continuará a sê-lo
até que consiga reconhecer logicamente nossas verdadeiras intenções.
E não deixará de reconhecê-las, se conseguirmos restabelecer as
condições normais em Zalit. Isso só será possível se eliminarmos
os moofs, que governam o planeta por meio de um processo de sugestão.
Nenhum dos nativos desconfia disso; nem mesmo o Zarlt.
O coronel
Freyt sacudiu a cabeça; parecia preocupado.
— Quantos
moofs existem neste mundo?
Rhodan deu
de ombros.
— Não
sabemos, mas devem ser milhares. É um número suficiente para
controlar oito bilhões de zalitas.
Gucky
mexeu-se. Rhodan logo notou. Nos últimos dias, notara que o
rato-castor dispunha de um volume surpreendente de conhecimentos.
Quando resolvia falar, geralmente havia alguma coisa no ar.
— Acontece
que não conseguiram de todo — chiou com a voz fina. — Alguns
zalitas ainda pensam nos velhos tempos que se foram e querem
vingar-se. Continuam fiéis ao Império e chegam mesmo a aceitar a
tutela exercida pelo cérebro robotizado. Acham que o mesmo é mais
sensato que Demesor, o novo Zarlt.
— Este
detalhe é muito interessante — disse Rhodan e pôs-se a refletir.
— Oportunamente teremos que interessar-nos por esses zalitas. Devem
possuir uma resistência mental maior que os outros.
— Os
moofs interessam-se principalmente pelas camadas dirigentes —
explicou Gucky. — Se conseguirmos neutralizá-los, Zalit será um
mundo livre.
Haggard
levantou o braço. Uma sombra passou pelo seu rosto, sempre gentil.
— Neutralizá-los?
Como poderíamos eliminar essas medusas? Estão encerradas em
recipientes pressurizados de grande resistência e, pelo que
descobrimos, vivem numa mistura de gases venenosos, formada
principalmente por metano.
Rhodan
lançou um olhar para John Marshall.
— O Dr.
Haggard tem razão. Devíamos pensar na maneira de liquidá-las. Não
há dúvida de que morrerão se o recipiente pressurizado for
destruído. Mas não podemos penetrar em todas as naves e fazer
detonar esses recipientes. E isso sem falar nos milhares de moofs que
estão espalhados pelos quatro cantos do planeta.
— Já
pensei nisso — disse Gucky em tom triunfante.
— Também
já imaginei — disse Rhodan. — Foi por isso que trouxe Tama
Yokida?
— Você
já aprendeu a ler pensamentos? — perguntou o rato-castor, fingindo
surpresa. — Tama é o homem de que precisamos.
— Um
telecineta? — perguntou Frank Haggard em tom de dúvida.
Rhodan
sorriu como quem já havia compreendido tudo. Imaginava quais seriam
os planos do rato-castor, embora ainda não compreendesse por que
Gucky complicava as coisas a esse ponto.
— Tama
não é apenas um excelente telecineta — explicou, dirigindo-se ao
Dr. Haggard. — Também provou que sabe cooperar com Gucky. É bem
verdade que não sei quais são exatamente os planos de nosso pequeno
amigo, mas não há dúvida de que dois telecinetas serão capazes de
um desempenho bem maior. Um telecineta só sabe agir numa direção,
isto é, pode usar uma força de tração ou de pressão. Já em
dois, podem fazer ambas as coisas ao mesmo tempo.
Lançou um
olhar indagador para o rato-castor.
— Será
que você poderia ter a gentileza de explicar com mais detalhes quais
são mesmo suas intenções?
Gucky fez
uma mesura acompanhada de um sorriso zombeteiro.
— É
simples, chefe. Localizo o moof por via telepática. Depois pego Tama
e salto para o respectivo lugar. Se exercermos uma tração
telecinética em direções opostas, o vidro deixará passar o gás.
O metano escapará, e o moof partirá deste vale de lágrimas. É só
isso. Não haverá explosões, nada que chame a atenção.
Todo mundo
compreendeu. Ninguém teve a menor objeção. Apenas Ras Tschubai
disse com um ligeiro ressentimento:
— E nós?
O que vamos fazer? Será que assistiremos a tudo de camarote?
Gucky
sorriu da forma como só um rato-castor é capaz de sorrir.
— O que
é isso, Ras? Vocês terão trabalho, e muito trabalho.
— Que
trabalho é esse?
— Participem
dos exercícios de alarma. Já está na hora de conhecerem nosso
barquinho. Não estou com a razão?
Rhodan
preferiu não emitir opinião. Não queria magoar ninguém.
— Os
zalitas logo perceberão que alguma coisa está errada — objetou o
tenente Tifflor. — Se os moofs morrerem um atrás do outro...
— Faremos
com que acreditem numa epidemia que se alastrou entre esses seres —
interveio Gucky.
— Eu lhe
dou carta branca — disse Rhodan, dirigindo-se a Gucky, que se
empertigou de orgulho. — Mas faço questão de que a ação seja
levada a efeito de tal forma que os zalitas não desconfiem de nada.
Este detalhe é muito importante.
— Sei
disso — chilreou Gucky. — De resto, se vez por outra um dos
recipientes explodir, isso não constituirá nenhum erro. Apenas
introduzirá um pouco de variedade no panorama. Vamos embora, Tama,
vamos começar. Deixaremos os zalitas sem seus lindos totozinhos.
Sem
esperar resposta, Gucky escorregou para fora da poltrona, saltitou em
direção ao japonesinho, segurou-o pela mão e saiu da sala. Ras
Tschubai olhou-os com uma expressão de inveja.
— Quanto
a nós, vamos preparar-nos para a visita do Zarlt — disse Rhodan,
encerrando a conferência. — Virá em companhia de um oficial que é
o elemento de sua maior confiança. Já o conhecemos. Seu nome é
Hemor.
*
* *
A
eliminação dos moofs que se encontravam no cruzador zalita MRO não
correu exatamente segundo os planos. O acaso interveio e fez com que
surgisse uma surpresa que se revelou muito interessante, mas não
para Gucky e Tama.
Os dois
mutantes se materializaram à meia nau e, sem serem percebidos,
conseguiram penetrar na cúpula de observação situada na parte
superior do cruzador, onde costumavam ser guardados os moofs. A sala
estava vazia, com exceção da abóbada de vidro, sob a qual o moof
se mantinha vigilante, dando livre jogo aos seus pensamentos, a fim
de vigiar a tripulação da nave que realizava um vôo de rotina,
renovando as ordens transmitidas por via sugestiva sempre que isso se
tornava necessário.
Gucky
soltou Tama, que não sabia teleportar-se sem auxílio de outrem,
motivo por que dependia do rato-castor. Aproximaram-se do recipiente
de metano e contemplaram o monstro.
— Então,
meu chapa — disse Gucky baixinho ao moof, retribuindo o olhar
vidrado. — Você pode fazer seu testamento.
Era claro
que o moof não tinha a menor idéia do que seria um testamento, mas
Gucky não se deu ao trabalho de bloquear seus pensamentos. O moof
leu com toda nitidez as intenções concebidas no cérebro daquele
ser estranho. Estava disposto a defender-se.
Tama foi o
primeiro a sentir a onda de ameaça brutal e procurou erigir suas
defesas. A ameaça logo se tornou menos intensa e cessou por
completo. A força sugestiva do moof não era suficiente para romper
o bloqueio mental.
Gucky era
ainda mais resistente. Deu uma risadinha e exibiu o brilho de seu
dente-roedor.
— Não
se esforce inutilmente — chilreou. — Tem algum desejo?
A essa
altura o moof já devia estar percebendo que sua energia era pouca.
Recorreu à ameaça.
— Quem é
você, desconhecido? — com uma tremenda resolução na voz,
prosseguiu: — Se fizer mal a um moof, você sofrerá um tremendo
castigo.
— Quem
poderá punir-me? — perguntou Gucky.
Finalmente
encontrara um moof mais loquaz que os outros.
— Quando
você souber, será tarde. Mais uma vez a onda sugestiva investiu
contra os dois mutantes, e mais uma vez revelou-se ineficaz.
— Por
que pretendem conquistar o Império, e por que os zalitas têm de
fazer o trabalho por vocês?
A primeira
impressão foi de espanto. Mas logo surgiu o impulso inconfundível:
— Vocês
já sabem? Nesse caso também devem saber que para nós os zalitas
são exatamente a mesma coisa que nós somos para os senhores.
Gucky pôs
as orelhas de pé, embora não houvesse necessidade disso.
— Os
senhores? Que senhores são estes?
— Ah,
vocês não sabiam?
Logo o
moof isolou-se, dando a impressão de que já revelara demais e
receava causar um desastre ainda maior. Gucky procurou extrair outras
informações do monstro, mas viu que seus esforços eram inúteis.
Furioso, afastou-se do recipiente e fez um sinal para Tama.
O que já
sabia permitir-lhe-ia fazer alguma coisa com os outros moofs, que
seriam pegados desprevenidos.
Tama e
Gucky concentraram-se simultaneamente no mesmo ponto do recipiente
pressurizado. Seus fluxos mentais telecinéticos desenvolviam-se em
sentido oposto. Na parede do recipiente surgiu um ponto rarefeito,
por onde escapou o gás mantido sob pressão, que representava a
atmosfera necessária à vida do moof.
A medusa
começou a debater-se. Gucky captou impressões de pânico, que logo
se tornaram mais fracas. Por uma única vez o ser tentou levantar-se,
mas logo caiu sobre si mesmo. Parecia uma medusa que tinha dado à
praia. Tinha um aspecto repugnante e nada imponente.
Gucky
segurou a mão de Tama.
— Vamos
dar o fora. Este veneno não é bom para nossos pulmões.
O ar
tremeluziu, e o moof moribundo viu-se sozinho.
No mesmo
instante, o primeiro-oficial da nave MRO teve a impressão de que até
então sentira uma dor de cabeça que cessara de repente. Espantou-se
ligeiramente de nunca ter pensado nisso, mas sentiu-se satisfeito e
aliviado.
Dando sua
ronda habitual, entrou na sala de observação dez segundos depois de
Gucky e Tama se terem desmaterializado.
Pôs a mão
no bolso e tirou uma caixinha. Nela havia rolinhos feitos de plantas
aromáticas, muito parecidos sob todos os pontos de vista com os
cigarros usados pelos terranos. Do outro bolso tirou o isqueiro
elétrico.
Farejou o
ar. Havia um cheiro estranho, como de tocos de árvores apodrecidas.
O moof parecia estar dormindo. Encolhido na sua caixa de vidro, não
se movia.
Sacudindo
a cabeça, o primeiro-oficial enfiou o cigarro entre os lábios e
acionou o isqueiro. A faísca elétrica saltou sobre o pavio molhado
com lassita, uma pequena chama subiu. No mesmo instante uma força
irresistível atirou o oficial pela porta, que felizmente apenas
estava encostada. Uma língua de fogo bramiu por cima dele e bateu
contra a escotilha mais próxima.
Meio
confuso, o oficial continuou deitado por alguns minutos. Quando o
calor diminuiu, levantou-se. Nada se quebrara. Apenas seu uniforme
estava chamuscado.
Afinal, o
que havia acontecido? Uma explosão? Lembrou-se do isqueiro. No
momento em que o acendeu, uma forte língua de fogo atirara-o para
fora da sala de observação. Se os gases incendiados não tivessem
escapado pela porta...
Nem quis
imaginar as conseqüências. A cúpula teria rachado, e ele seria
atirado para o espaço juntamente com o moof.
O moof!
Ouviu
passos. A escotilha foi aberta e alguns homens entraram correndo,
ajudando o oficial a levantar-se. Poucos minutos depois sabiam. O
moof estava morto e no recipiente foi encontrada a atmosfera normal.
Não havia o menor vestígio de metano. A parede do recipiente não
apresentava qualquer vasamento.
Era um
fenômeno incompreensível. Não encontraram explicação para o
mesmo.
O
comandante imediatamente entrou em contato com as outras naves e
soube que na maioria delas os moofs haviam morrido pela mesma forma
inexplicável. Sempre morreram sufocados, já que nos recipientes não
existia mais a atmosfera de que as medusas precisavam para viver. O
gás escapara, sem que houvesse qualquer vasamento.
O metano e
o oxigênio formam uma mistura explosiva. Dessa forma conseguiram
explicar ao menos a explosão ocorrida a bordo da MRO.
Mas quanto
ao resto, o fenômeno continuou a ser um mistério.
*
* *
Em Zalit
ninguém imaginava que uma batalha violenta estava sendo travada.
Zarlt
imaginava-o menos que qualquer outra pessoa. Impaciente, aguardava a
decisão de Rhodan, mas achou preferível não continuar a insistir
junto ao mesmo. Um tanto contrariado, viu-se obrigado a permitir que
Rhodan e seus homens andassem livremente pela superfície de Zalit e
estudassem seus habitantes. Também não imaginava que, ao proceder
assim, Rhodan visava a uma finalidade bem definida.
John
Marshall conseguira localizar os primeiros zalitas ainda não
influenciados pelos moofs. Um ligeiro exame telepático revelou que
eram dotados por um débil campo defensivo, que os protegia da
influência dos moofs.
Quando
Marshall e André Noir, o hipno do exército de mutantes, se puseram
a caminho para procurar o grupo que exercia uma oposição
clandestina, a ansiedade de Rhodan quanto às medidas que o cérebro
robotizado poderia tomar tornou-se mais intensa.
Bell
procurou tranqüilizá-lo.
— Não
acredito que poderia vir a atacar a Terra. Thora é de opinião que
nossa posição astronômica ainda lhe é desconhecida. Os saltadores
não têm o menor motivo para revelar essa posição aos arcônidas,
que são seus inimigos mortais. Com isso apenas prejudicariam a si
mesmos.
— Quando
não podem possuir uma coisa, querem destruí-la — disse Rhodan em
tom de dúvida. — Não podem possuir-nos, mas também não podem
destruir-nos. Logo, deverão ficar muito satisfeitos se um outro nos
destruir.
Thora e
Crest trocaram um olhar.
— Não
nos abandone numa emergência destas — implorou a arcônida. — O
Império está em crise. Nem mesmo o cérebro robotizado imagina que
o inimigo está diante de suas portas. Os zalitas podem entrar em
Árcon quando quiserem, enquanto não provocarem nenhuma suspeita, e
o Zarlt é muito inteligente para fazê-lo. Se perder a paciência a
ponto de não querer esperar mais, recorrerá à violência e à
astúcia. E é bem possível que consiga realizar seu intento.
— Quando
isso acontecer, os moofs que o assessoram terão deixado de existir.
— Não
se esqueça de que não são apenas os moofs — advertiu Crest. —
Outras naves de Zarlt já estão a caminho para trazer novas levas de
moofs. O trabalho de Gucky e Tama, por mais rápido que seja, não
conseguirá neutralizar os reforços. A solução não é esta.
— Vamos
aguardar para ver o que Marshall conseguirá. Talvez o Zarlt possa
ser derrubado por seu próprio povo.
— E daí?
Os moofs encontrarão um substituto. Será uma luta sem fim, e o
senhor não terá tempo para participar dela. Não se esqueça da
Terra.
Rhodan
sorriu.
— Muito
obrigado por ter chamado minha atenção para isso. Bell, vamos
enviar uma mensagem a Deringhouse. Prepare o telecomunicador e
codifique a mensagem. Será um impulso concentrado, conforme
combinamos. Temos que assumir o risco.
O rosto de
Crest assumiu uma expressão preocupada.
— Isso
não seria uma leviandade, Perry? Sabemos perfeitamente que os
arcônidas possuem instrumentos de localização extremamente
sensíveis. Quando Deringhouse expedir sua resposta, saberão
determinar precisamente a localização do emissor. E isso lhes
fornecerá a posição da Terra.
— Já
pensei nesse detalhe — respondeu Rhodan em tom indiferente. — A
resposta de Deringhouse não será expedida da Terra, mas de algum
ponto da Via Láctea situado ao menos a dois mil anos-luz da mesma. E
por lá o cérebro robotizado procurará em vão pelo nosso mundo.
Era a vez
de Crest esboçar um sorriso.
— Acho
que o senhor não se esqueceu de nenhum detalhe, não é, Rhodan?
— Tomara
que não me tenha esquecido. Tomara mesmo!
Bell
dirigiu-se à sala de rádio e preparou a mensagem. A outra porta
abriu-se, e Gucky e Tama entraram. Os dois pareciam exaustos, o que
face ao trabalho pesado que haviam realizado não era de admirar.
O
rato-castor sentou no chão o recostou-se na parede. Tama acomodou-se
numa poltrona.
— A
epidemia dos moof está se alastrando — disse Gucky com a voz
cansada. — Morrem como se fossem moscas. Mas alguns deles não
morreram em vão.
— Ah, é?
— disse Rhodan, sem disfarçar a curiosidade. — Por quê?
— Descobri
alguma coisa, ao menos com os moofs que tinham medo de morrer.
Infelizmente não puderam contar mais do que sabiam.
— Continue
— disse Rhodan, dirigindo-se ao rato-castor, que intercalou uma
pausa para aumentar o efeito de suas palavras.
— Os
moofs querem que os zalitas ataquem o Império e neutralizem o
cérebro robotizado. Depois disso, Zarlt assumiria o cargo de
imperador. Evidentemente só faria aquilo que os moofs ordenassem, se
bem que o próprio Zarlt nem desconfia disso. Mas as coisas são
ainda mais complicadas. Os moofs, por sua vez, apenas executam as
ordens de outros seres, que se mantêm ocultos. É por eles que
mandam os zalitas para a luta. Os moofs são apenas os elementos de
ligação entre os zalitas e os verdadeiros manipuladores do jogo, os
chamados senhores.
— Era o
que eu imaginava — disse Rhodan. — O que é que uma raça
desamparada como os moofs poderia fazer com o império estelar? Quem
são esses senhores?
O rosto de
Gucky assumiu uma expressão desolada.
— Infelizmente
não conseguimos descobrir. Ao que parecia, os próprios moofs não
sabiam. Talvez estivessem submetidos a um bloqueio hipnótico; não
consegui apurar esse detalhe. De qualquer maneira, não passam de
instrumentos manipulados por mestres muito poderosos.
— E
esses mestres logo saberão que em Zalit as coisas não estão
correndo pela forma que planejaram — disse Rhodan em tom pensativo.
— Quando isso acontecer, talvez saiam do seu esconderijo, revelando
sua identidade.
— É
possível, mas não é provável — disse o rato-castor, sacudindo a
cabeça peluda com tamanho vigor que as orelhas balançavam de um
lado para outro. — Nem mesmo os moofs chegaram a ver um dos tais
senhores, tanto que não conseguem descrevê-los. Não acredito que
agirão com tamanha falta de cautela.
Bell
entrou na sala, trazendo um bilhete e entregando-o a Rhodan. Lançou
um olhar de esguelha para Gucky, sorriu e fez um gesto com a mão.
— Pelo
que vejo, temos uma pausa na batalha.
— Aguarde
até que chegue sua vez — resmungou Gucky em tom ameaçador e
fechou os olhos, como se não suportasse a visão do velho amigo. Na
verdade, estava apenas cansado demais para brigar com Bell.
Rhodan leu
o texto:
Ao
major Deringhouse, Terra.
Peço
informar com urgência a partir da posição combinada se tudo está
em ordem. Localizar imediatamente qualquer transição estranha.
Nosso regresso foi retardado. Considerar eventual ataque à Terra,
que deverá ser energicamente repelido.
Rhodan.
Devolveu o
bilhete e fez um aceno de cabeça em direção a Bell.
— Envie
isto o mais rápido possível e fique na recepção. A resposta
deverá demorar algumas horas, pois Deringhouse terá que tomar
certas providências. E isso mesmo se tudo estiver em ordem.
Bell saiu
da sala de comando. Rhodan voltou-se para Gucky, na intenção de
prosseguir na palestra. Mas era tarde.
Estendido
no chão, o rato-castor soltou certos grunhidos, que se pareciam com
o ronronar de um gato.
Adormecera...
5
Rogal
conseguira compreender até certo ponto a situação reinante em
Zalit.
Rogal era
um simples técnico de uma das grandes usinas que fabricavam as peças
dos televisores usados em Zalit. Seu tempo livre era muito limitado,
e ele o usava em atividades políticas. E não o fazia movido pela
sede do poder ou pelo desejo de sair do anonimato, mas porque
realmente andava preocupado com o curso dos acontecimentos.
Tal qual
ele, também seus amigos sabiam perfeitamente que o novo Zarlt não
assumira o poder de forma legal. A morte súbita do velho Zarlt nunca
chegou a ser considerada um assassínio político, contudo esse
detalhe não passava de uma questão de forma. Os oficiais que haviam
penetrado no palácio na calada da noite e o mataram nunca foram
punidos e atualmente ocupavam posições importantes. Apesar disso,
as declarações oficiais do governo do novo Zarlt insistiam em que o
velho soberano havia morrido, e havia morrido de morte natural.
Rogal
sabia que essa declaração não passava de uma mentira.
E de
repente apareceram os moofs. Uma nave os trouxe. Receberam
recipientes pressurizados que lhes permitiam viver em Zalit. De
início pensava-se que aquilo não passasse de uma brincadeira dos
oficiais da frota, mas logo notaram sua importância. Os moofs
conseguiam ler os pensamentos dos zalitas e sabiam comunicar-se com
os mesmos por via telepática. Qualquer pessoa que se julgasse
importante comprava um moof. O mesmo lhe permitia controlar os
pensamentos de seus semelhantes.
Foi este o
primeiro perigo que surgiu.
As prisões
tiveram início. Qualquer pessoa cujos pensamentos não se
conformassem com os desejos do novo Zarlt era localizada pelos moofs
e presa. Os moofs intervieram abertamente na política, colocando-se
ao lado do novo governo, formado quase que, com exclusividade, por
oficiais da frota espacial.
Dali em
diante Rogal passou a odiar os moofs.
Encontrou
amigos e adeptos que não concordavam com a linha de atuação do
governo. Queriam continuar a ser súditos fiéis do Império, mesmo
que esse fosse dirigido por um artefato mecânico. Isso ainda era
preferível ao regime do novo Zarlt.
O
movimento de resistência começou a surgir, sofreu numerosos
reveses, mas assim mesmo tornou-se cada vez mais forte e influente.
Seu maior
inimigo continuava a ser os moofs.
*
* *
Quando
Rogal entrou no pequeno subterrâneo, a maioria dos seus amigos já
estavam reunidos. Cumprimentou-os e reconheceu em seus rostos o
brilho de confiança que por tanto tempo estivera ausente.
— Os
moofs estão morrendo — disse alguém com a voz alta e clara. —
Estão morrendo em toda parte, e ninguém sabe por quê.
— Pois
eu sei — disse Rogal com um sorriso. — Dentro de pouco tempo
deixarão de representar um perigo.
— Acontece
que as naves transportadoras que deverão trazer os reforços já se
encontram a caminho. O governo não conseguirá manter-se sem os
moofs telepáticos. Perderia o controle sobre o povo. A quantidade de
pessoas que aderiu ao nosso movimento aumentou consideravelmente
depois que os moofs começaram a morrer.
— Isso
não é de admirar — disse Rogal. — Quando os traidores
desaparecem, também desaparece o temor dos indecisos.
Não sabia
que havia outros motivos para o repentino afluxo de adeptos.
Libertados da influência sugestiva dos moofs, só agora os
habitantes começaram a compreender o perigo que ameaçava o sistema.
Queriam depor o Zarlt, e não havia mais nenhuma constrição mental
que os impedisse de realizarem seu intento.
— Será
que aqueles desconhecidos têm alguma coisa a ver com isso? —
perguntou alguém.
Rogal
lançou um olhar para a pessoa que acabara de falar.
— Os
desconhecidos? Quem são eles? Afinal, são hóspedes do Zarlt. Além
disso, roubaram uma nave do Império. Acho que não poderemos contar
com eles. Muito menos acredito que tenham alguma coisa a ver com a
morte dos moofs.
— É
possível que o senhor esteja enganado — disse uma voz forte vinda
da entrada. — Não nos julgue antes de conhecer-nos.
As cabeças
viraram-se abruptamente. Todos os olhos fitaram os dois homens que,
de pé na porta, retribuíam tranqüilamente os olhares. Usavam um
uniforme discreto e traziam algumas armas estranhas no cinto.
Rogal
reconheceu-os. Muitas vezes vira sua imagem na televisão.
Eram os
desconhecidos...
Por um
instante o pânico ameaçava apoderar-se dele. Estariam perdidos? Se
sua suposição a respeito dos desconhecidos fosse correta, estariam.
Acontece que o desconhecido acabara de dizer que talvez estivesse
errado.
Decidiu
jogar tudo numa única cartada. De qualquer maneira, não tinha nada
a perder. Se os desconhecidos haviam localizado o grupo, era porque
conheciam seus planos.
— Por
que veio até aqui? — perguntou, dominando a emoção.
— Talvez
seja para ajudá-los — disse John Marshall, lendo a dúvida e uma
vaga esperança nos pensamentos de Rogal. André Noir, que se
encontrava a seu lado, começou a avaliar a resistência dos homens
que ali se encontravam reunidos. Levou poucos segundos para descobrir
que não teria a menor dificuldade em impor-lhes sua vontade, se as
circunstâncias o obrigassem a isso.
— Ajudar
em quê?
— Queremos
ajudá-los a voltar a transformar Zalit num mundo em que valha a pena
viver. Pelo que vê, estou usando de toda a franqueza. Não quer usar
a mesma franqueza conosco?
— Como
soube dos nossos planos? Afinal, são gente estranha neste planeta, e
são inimigos do Império, tal qual o Zarlt. Como poderemos confiar
nos senhores?
— É que
as aparências enganam, Rogal. Para todos os efeitos, o senhor também
é considerado um súdito leal de Demesor, mas na verdade é seu
inimigo. Por que não poderíamos ser amigos do Império, embora
sejamos considerados seus inimigos?
Rogal
achou que esses argumentos poderiam ter algum fundamento. Acenou
lentamente com a cabeça.
— Qual é
a prova de sua suposição?
Marshall
sorriu.
— Os
senhores são apenas um dos muitos grupos de resistência espalhados
por Zalit. Em geral, não há nenhuma ligação entre os grupos, pois
todo mundo tem de cuidar-se por causa dos moofs. Estou disposto a
promover o contato entre os grupos, a fim de reunir e fortalecer a
resistência. Isso basta para provar minha lealdade e boa vontade?
— Não
poderíamos admitir que o senhor pretende entregar todos os grupos ao
Zarlt?
— Para
isso não precisaria negociar com os senhores. Conheço todos os
grupos e seus chefes. Se quisesse, já estariam presos. Acontece que
nosso objetivo consiste em substituir o ditador Zarlt pelo sucessor
legítimo do soberano assassinado. E o objetivo dos senhores não é
outro.
Rogal
percebeu que o desconhecido não estava mentindo. Ainda um tanto
indeciso, caminhou ao seu encontro e estendeu-lhe a mão.
— Quero
confiar no senhor. Se unirmos nossas forças, talvez cheguemos mais
depressa ao nosso objetivo. Mas, o que acontecerá com os moofs?
Marshall
não tinha a intenção de informar seu interlocutor sobre a
verdadeira natureza dos moofs.
— Os
moofs são aliados do Zarlt. Ajudam-no a controlar os pensamentos de
seus súditos. São traidores; logo, têm de ser eliminados. Já
começamos a executar essa tarefa.
O rosto de
Rogal iluminou-se.
— Então
é graças a vocês que está havendo essa mortandade entre os moofs.
Digam como conseguem fazer isso, pois queremos ajudá-los. Nossa luta
só poderá ser bem sucedida quando não houver mais nenhum moof.
— Deixem
os moofs por nossa conta. Vocês terão outro tipo de trabalho —
disse Marshall e fez um sinal para André Noir. — Vocês permitem
que eu participe de sua reunião? Encontraremos um caminho...
Rogal
concordou com um aceno de cabeça e dirigiu-se para um ponto mais
elevado do subterrâneo, de onde abriu a conferência.
*
* *
Demorou
nada menos de oito horas até que os receptores de hipercomunicação
da Titan captassem o impulso concentrado expedido por Deringhouse.
Vinham de uma distância de 32 mil anos-luz. Percorriam esse trajeto
num instante, atravessando a quinta dimensão. Só retornavam ao
espaço normal no momento em que atingiam o receptor.
Deringhouse,
que no momento comandava a frota espacial terrana sob as divisas da
Terceira Potência, recebera a informação de Rhodan e expediu a
seguinte resposta:
Para
Perry Rhodan, setor de Árcon.
Tudo
calmo em torno da Terra. Nenhuma transição. Frota de prontidão.
Boa Sorte.
Deringhouse.
Se
quisesse ser sincero para consigo mesmo, Rhodan teria que confessar
que um peso lhe saíra de cima do coração. O cérebro robotizado de
Árcon ainda não havia tomado nenhuma providência contra a Terra.
Ao que tudo indicava a suposição de Thora era correta, se bem que
ainda não fora provada. De qualquer maneira, a expedição de Rhodan
dispunha de tempo para preparar sua missão com toda calma.
Metade da
Titan encontrava-se num hangar subterrâneo e a metade superior foi
camuflada. Dessa forma, as naves que o cérebro robotizado enviasse à
procura do couraçado roubado teriam poucas possibilidades de
localizá-lo.
Isso se
ninguém lhe contasse o que realmente estava acontecendo em Zalit...
Não se
poderia confiar no Zarlt. Era bem verdade que ainda se encontrava sob
o efeito retardado das ordens sugestionadas pelos moofs, mas no fundo
de sua mente, seus próprios pensamentos não diferiam muito daqueles
que lhe haviam sido impostos. Os moofs não poderiam ter escolhido um
instrumento melhor que este. Os objetivos que perseguiam eram os
mesmos, embora os métodos talvez fossem diferentes.
Se Zarlt
Demesor achasse conveniente prestar um serviço ao cérebro
robotizado para obter o reconhecimento do mesmo, não hesitaria um
instante em trair Rhodan. Por um instante, Rhodan pensou em
influenciá-lo através de seus mutantes, mas logo desistiu da idéia.
As novas levas de moofs poderiam chegar a qualquer hora, e se os
mesmos percebessem que o outro lado também dispunha de sugestores, a
situação se tornaria ainda mais complicada. Os desconhecidos que
recorriam aos moofs e aos zalitas para conquistar o Império não
deveriam conhecer a força do inimigo.
O operador
de rádio já se havia retirado. Bell estava realizando um dos
treinamentos de alarma que tanto apreciava. Thora entrou na sala sem
que ninguém o notasse. Por um instante parou na porta, contemplando
Rhodan que estava sentado na poltrona, mergulhado em pensamentos.
Durante
treze anos esse terrano a segurara, impedindo o regresso para Árcon,
pelo qual tanto ansiava. Estava plenamente convencida de que nunca
poderia permitir esse tipo de comportamento. Mas a esta hora, já não
tinha tanta certeza.
O regresso
para Árcon transformara-se numa amarga desilusão.
Thora não
gostava de lembrar-se disso. As recriminações que pretendia jogar
ao rosto de Rhodan nunca chegaram a ser formuladas em voz alta.
Reconheceu que Rhodan tivera toda razão ao dizer que os arcônidas
eram uma raça decadente e incapaz. A atitude de confiar a
responsabilidade pelo império estelar a um cérebro positrônico
bastara para definir sua opinião.
Sem virar
a cabeça, Rhodan rompeu o silêncio:
— A
senhora não me perturba, Thora. Chegue mais perto. Quero falar com a
senhora.
Thora
aproximou-se lentamente. A figura altiva caminhava bem ereta e em seu
rosto havia uma expressão indefinível. O cabelo quase branco
emoldurava uma cabeça estreita e formava um contraste estranho com a
pele morena. Os treze anos durante os quais a mesma ficara exposta à
ação do sol terrano deixaram seus vestígios. Em seus olhos
dourados havia um brilho que Rhodan nunca havia notado.
— Quer
dizer que nossas intenções estão em conflito — murmurou Thora.
— Ainda
bem que isso não acontece com nossas opiniões; ao menos tenho esta
impressão — respondeu Rhodan. — Faça o favor de sentar, Thora.
Aliás, a senhora estava com a razão. O cérebro robotizado não
enviou nenhuma nave à Terra. Será que agiu assim por sua livre
vontade, ou será que ainda não conhece a posição de nosso
planeta?
— A
hipótese verdadeira é a última — disse Thora, acomodando-se numa
poltrona. — Se conhecesse sua posição, a Terra estaria
praticamente perdida. Não tenho a menor dúvida. Um cérebro
robotizado não tem sentimentos.
— Mas
pensa logicamente; ao menos espero que o faça. Devia reconhecer que
não sou nenhum inimigo do Império.
— Por
enquanto o senhor não lhe forneceu nenhuma prova disso. Qualquer
indivíduo que não obedeça às suas ordens é considerado um
inimigo do Império. E o senhor chegou a roubar-lhe um couraçado.
— Acontece
que fiz isso para servir ao Império.
Thora
esboçou um sorriso de dúvida.
— O
senhor terá que provar isso ao cérebro. Não acha que será muito
difícil, quase impossível fazê-lo?
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— De
forma alguma. Os moofs surgiram no momento indicado. Se conseguirmos
fazer com que Zalit volte a ser um mundo plenamente leal a Árcon,
isso deverá constituir prova de nossa lealdade para com o Império.
O sorriso
de Thora aprofundou-se.
— Para
mim seria, Perry. Não duvido de suas boas intenções. Mas será que
o cérebro pensa da mesma forma?
— A
senhora pensa logicamente, Thora, e o cérebro também. Logo, as
conclusões deverão ser iguais. Bem, vamos aguardar. Aliás, eu
queria conversar sobre outro assunto.
Depois de
ligeira hesitação, disse em tom resoluto:
— Quais
são seus planos para o futuro?
O sorriso
desapareceu do rosto de Thora como se uma mão invisível o tivesse
apagado.
— Meu
futuro...? — uma dúvida a atingiu. — Que futuro poderei ter em
Árcon? Minha dinastia praticamente foi extinta. Crest e eu estamos
condenados ao ostracismo, se bem que de forma indireta acabaram por
reconhecer-nos. Para ser sincera, Perry... se hoje me visse colocada
diante da alternativa de continuar a ser uma arcônida ou
transformar-me numa terrana, não teria nenhuma dificuldade em fazer
a escolha.
Era uma
afirmativa surpreendente para quem se lembrasse do orgulho que a
arcônida costumava exibir e do desprezo que votava aos bárbaros
terranos. A reviravolta era compreensível, mas para Rhodan foi
rápida demais. Desconfiou de que houvesse alguma cilada.
— Gostaria
de ser uma terrana? — disse em tom pensativo, contemplando sua
interlocutora. Esta retribuiu o olhar sem o menor constrangimento.
Havia nele uma certa súplica, que Rhodan não compreendeu. — Os
terranos não são seres muito inferiores à senhora, Thora?
— Hoje
não são mais, Perry. Às vezes chego a pensar que é exatamente o
contrário. O imortal não afirmou coisa parecida?
O
imortal...! De repente Rhodan pensou que sabia qual era o verdadeiro
motivo da atitude de Thora. O misterioso imortal, um ser
incompreensível feito de energia, que vivia num planeta artificial,
denominado Peregrino, recusara aos arcônidas a ducha celular
revitalizadora. A mesma só fora concedida a Rhodan e a Bell.
Por serem
terranos!
O sorriso
de Rhodan estava marcado pela amargura.
— Compreendo,
Thora, mas não sei se conseguirá convencer o imortal.
Thora
recuou.
— Perry,
não pense assim a meu respeito. Não é só a perspectiva da vida
eterna que me atrai. Árcon representou uma decepção tão amarga
para mim que quase não desejo continuar a viver, quanto mais viver
para sempre. Tive mais de um decênio para conhecer os terranos. Vi
que em treze anos criaram uma coisa na qual levamos vários milênios.
Já refleti sobre a prosperidade que o Império poderia experimentar
se não fosse governado pela raça decadente dos arcônidas ou por um
cérebro robotizado, mas sim pelos terranos.
Rhodan não
respondeu. Sentiu que a arcônida estava dizendo a verdade. O novo
curso que estavam tomando os pensamentos da mesma pareceu-lhe tão
formidável, que precisou de alguns longos segundos para compreender.
Mas as dúvidas logo começaram a surgir de novo.
— Nesse
caso sua raça teria que ceder sua posição dominante — ponderou.
— A senhora é uma arcônida. E claro que no papel a senhora poderá
transformar-se numa terrana, mas no fundo do coração continuará a
ser o que sempre foi: uma arcônida. Será que esta situação a
deixaria feliz?
Mais uma
vez, um sorriso esboçou-se no rosto de Thora. Desta vez foi um
sorriso mais feminino. Uma expressão suave brincava em torno de sua
boca, e seus olhos iluminaram-se.
— Feliz?
Por que não poderia ser feliz? — perguntou, olhando para além de
Rhodan.
Naquele
instante, uma mão forte parecia comprimir o coração dele. Teve a
impressão de que uma venda caía de seus olhos. Teve que fazer um
esforço tremendo para não deixar perceber o que sentia. Examinou
discretamente seu rosto, seus olhos. Mas não viu neles nenhuma
confirmação de sua tremenda suposição, da qual sabia que era
muito mais que uma simples hipótese.
Esteve a
ponto de dar uma resposta, quando a porta se abriu com violência e
Bell entrou ruidosamente na sala. Por dois segundos, ficou sem fala
quando viu Thora e Rhodan, juntinhos, sentados em suas poltronas. Mas
logo se controlou.
— O
exercício de alarma foi concluído! — disse num tom exageradamente
militar.
— O
próximo treino foi marcado para hoje de noite. Os tripulantes já
conhecem a Titan como suas algibeiras.
Rhodan
parecia despertar de um sonho. Numa atitude ausente fitou Bell e
acenou com a cabeça.
— Está
bem, Bell. O próximo exercício será realizado hoje de noite.
Bell ficou
parado.
— Houve
alguma coisa? — perguntou em tom preocupado.
Rhodan
sorriu.
— Não,
não houve nada; ao menos, não houve nada que pudesse preocupar
você.
— Ah! —
disse Bell, que não estava compreendendo coisa alguma.
Lançou um
ligeiro olhar para Thora, sacudiu a cabeça e saiu. A porta foi
fechada abruptamente. Seus passos ecoaram pelo corredor.
Rhodan
voltou a dirigir-se a Thora. A disposição de pouco antes
esvaecera-se. Sua boca estava dura como sempre e em seus olhos já
não havia o brilho luminoso que fornecera a primeira indicação a
Rhodan. Voltara a ser a Thora que conhecera. Mas sabia que existia
outra Thora, da qual teria que cuidar.
Era uma
Thora que possuía um coração.
*
* *
Gucky e
Tama Yokida só voltaram à nave ao anoitecer.
Sua
primeira caminhada foi para a sala dos tripulantes, onde Rhodan
jantava em companhia de Thora, Crest, Bell e os mutantes. Num canto,
o tenente Tifflor e Frank Haggard jogavam xadrez.
O
rato-castor fez continência e pousou no traseiro.
— Missão
especial concluída — anunciou. — Nestes quinze dias, todos os
moofs existentes em Zalit foram eliminados, a não ser que exista
algum que não conseguimos localizar. Os cientistas estão dando
tratos à bola para descobrir como os recipientes de vidro feitos
para resistirem à pressão puderam tornar-se porosos, mas receio que
não encontraram nenhuma explicação.
— E as
naves da frota espacial?
Gucky deu
de ombros e por pouco não perde o equilíbrio.
— Sempre
que foi possível, também as controlamos e eliminamos os moofs. É
claro que a toda hora algumas naves retornam de vôos de
patrulhamento, com moofs vivos a bordo.
— Isso
também tem de ser evitado — ordenou Rhodan e deu uma palmada nas
costas do rato-castor. — Sua missão prosseguirá. Os moofs terão
de ser totalmente eliminados. Os seres que os comandam devem
acreditar que o clima de Zalit não lhes faz bem. Neste ponto,
atribuo à palavra clima um sentido figurado. Quando chegarem as
naves que trouxerem novas levas de moofs, as mesmas terão que ser
trabalhadas imediatamente.
— Será
feito — confirmou Gucky e esticou o corpinho. Seus olhos mal
alcançavam a mesa posta. — Estou com fome.
— Venha
cá — chamou Bell, que se encontrava na extremidade oposta da mesa.
— Mandei trazer algumas cenouras do frigorífico da Ganymed.
O
rato-castor pôs as orelhas de pé e teleportou-se para a poltrona
vazia ao lado de Bell.
Dali a
dois segundos, Bell estava pendurado no teto, esforçando-se em vão
para escapar aos fluxos de energia telecinética expedidos por Gucky.
Debatia-se com os braços e as pernas e prometeu que mandaria
imediatamente alguém à Ganymed para trazer algumas cenouras, que
aquilo não passara de uma brincadeira e...
Gucky não
deu a menor atenção às palavras de Bell.
Com um
desprezo mortal, roía a carne do osso de um animal que também
servia de alimento aos arcônidas.
Teria
preferido algumas cenouras.
*
* *
John
Marshall confirmou as suposições de Rhodan.
— As
adesões ao movimento de resistência, agora unificado, decuplicaram
depois que os moofs começaram a morrer e as forças sugestivas dos
mesmos deixaram de agir. Os zalitas odeiam o Zarlt, que mandou
assassinar o velho soberano para conseguir o poder. Não gostam da
tutela exercida pelo cérebro positrônico estacionado em Árcon, mas
têm bastante juízo para preferi-lo ao governo do nosso Zarlt. Sabem
que, se este alcançar o poder total, o Império estará perdido,
pois conhecem suas fraquezas.
— Os
zalitas são um povo notável — confirmou André Noir, o hipno. —
Não há necessidade de influenciar os homens que acabam de ser
libertados dos moofs, a não ser que se trate de oficiais ligados ao
Zarlt. Estes bem que precisariam de um tratamento.
— Por
enquanto não! — advertiu Rhodan. — Quero que os zalitas decidam
livremente. Quero que o Zarlt prossiga no seu jogo, sem saber que
somos nós os responsáveis pela morte dos moofs. Quero que continue
a acreditar que somos inimigos do Império e que nos escondemos do
cérebro robotizado.
John
Marshall procurou investigar os pensamentos de Rhodan, mas sentiu-se
decepcionado quando esbarrou numa barreira impenetrável. Rhodan
brindou-o com um sorriso.
Bell, que
já fora descido por Gucky de sua posição incômoda junto ao teto,
disse em tom desconfiado:
— Admitamos,
Perry, que consigamos colocar as classes dominantes dos zalitas sob a
nossa influência. Fariam o que queremos. De uma hora para outra a
brincadeira teria um fim e Zalit seria um planeta livre. O cérebro
robotizado nos deveria um favor...
— ...e
ficaríamos sem saber quem está atrás do plano de destruir o
cérebro. Não, assim não é possível. O Zarlt deverá continuar
livre para agir segundo seu arbítrio, pois do contrário os seres
que manipulam o jogo desconfiarão. Quero desmascará-los, sejam eles
quem forem. O Zarlt não passa de um boneco. Se cortarmos os fios nos
quais está pendurado, jamais saberemos quem o faz dançar. Vamos
neutralizar os moofs. Também apoiaremos o movimento de resistência.
Mas isso é tudo que podemos fazer, ao menos por enquanto.
— Pelo
que vejo, você acha que o Zarlt deve executar seu plano para que...
— Não,
apenas deve dar os primeiros passos para sua execução. No momento
em que a pessoa que manipula o marionete tiver sido descoberta,
daremos nosso golpe e salvaremos o Império. É só o que quero.
— Quer
dizer que o senhor está decidido a salvar o Império? — interveio
Crest.
Em sua voz
não soava a mais leve das dúvidas.
— Isso
mesmo — confirmou Rhodan.
Crest
olhou-o em cheio.
— Para
quem? — perguntou em tom amável.
Rhodan não
respondeu. Apenas retribuiu o sorriso com a mesma amabilidade.
6
Foi a
segunda visita que o Zarlt Demesor fez à Titan.
Não veio
só. Trouxe alguns oficiais que na opinião de Rhodan formavam um
tipo de guarda pessoal.
O Zarlt
não conseguiu disfarçar inteiramente o seu nervosismo. Continuava a
mostrar-se amável e solícito, mas via-se que nuvens negras
desenhavam-se no horizonte do futuro que planejava. Evidente que não
sabia nada sobre o papel decisivo que os moofs desempenhavam. Para
ele não passavam de auxiliares na luta contra o crescente
descontentamento que lavrava entre o povo. Como poderia controlar os
pensamentos recônditos de seus súditos, se não podia contar com os
dons telepáticos dos moofs?
Foi ao
encontro de Rhodan, que o esperava na sala dos oficiais. Não deu a
menor; atenção a John Marshall, que se mantinha à distância, e
nem desconfiava de que, naquele instante, seus pensamentos e suas
intenções estavam sendo submetidos a um exame minucioso.
— Já se
passou muito tempo desde que o senhor veio ao nosso mundo —
principiou a palestra logo após os cumprimentos. — O senhor
insiste em manter silêncio; não quer revelar como conseguiu romper
a barreira exterior de Árcon.
Rhodan
esboçou um sorriso frio.
— O
senhor acha que isso é muito fácil, Zarlt Demesor. Devo preveni-lo
de que, mesmo se o conseguisse, ainda se encontraria com a enorme
frota dos arcônidas, sem falar nas unidades dirigidas por robôs,
que o cérebro lança à luta independentemente da frota. Não
acredito que o senhor teria qualquer chance de conquistar o Império.
— Quem
lhe diz que pretendo conquistá-lo? Apenas quero libertá-lo do
governo arbitrário exercido por uma máquina. Mais nada.
— Sua
intenção é muito louvável admitiu Rhodan. — Quer que eu o ajude
a executá-la?
— Naturalmente.
O cérebro não é seu inimigo? Não o persegue como um inimigo
mortal? Não vejo nenhum motivo que possa impedi-lo de ser meu
aliado.
— Apenas
a prudência poderia impedir-me, Zarlt. Outro detalhe: como é a
disposição de seu povo? Pode contar com o apoio integral do mesmo?
O Zarlt
fez um gesto seguro.
— Posso,
sim. Nossa raça ama a paz, mas está disposta a lutar quando sua
liberdade está em jogo.
Rhodan
lançou um ligeiro olhar para Marshall. A comunicação entre ambos
não foi notada. O Zarlt estava mentindo. Sabia perfeitamente que a
maioria do povo zalita era contra ele. Ninguém concordava com o
plano de atacar o cérebro robotizado.
— Não
tenho nada a ver com os assuntos internos de Zalit — disse Rhodan.
— No momento adequado, mostrar-lhe-ei como atravessei a barreira
que defende Árcon. No momento adequado, Zarlt; nem um segundo antes.
Uma sombra
de contrariedade passou pelo rosto marrom-avermelhado que se exibia
sob a cabeleira cor de cobre. Porém Demesor mostrou um excelente
autocontrole.
— Tenho
tempo. Posso esperar até que sua confiança se consolide. Para
comemorar nossa amizade realizarei hoje de noite uma festa no palácio
vermelho. O senhor e sua oficialidade estão convidados. O senhor já
se encontra em nosso mundo há trinta dias, e ainda não teve
oportunidade de conhecer os zalitas em festa. Aceita o convite?
— Por
que não? Quantas pessoas poderei levar?
— É
evidente que isso fica ao seu critério. Acredito que só queira
levar seus amigos mais íntimos. Outro detalhe: hoje recebi a visita
de um mensageiro de Árcon, que realizou certas investigações. O
cérebro robotizado dispõe de certos dados pelos quais se conclui
que o senhor fugiu nesta direção. Neguei terminantemente que o
senhor tenha sido visto no interior do nosso sistema.
— Fico-lhe
muito grato — disse Rhodan, embora já soubesse que o Zarlt lhe
contara uma mentira. Nenhum mensageiro chegara a Zalit naquele dia
para fazer uma afirmativa dessas. E o coordenador robotizado não
tinha a menor indicação sobre a direção que Rhodan tomara com a
nave roubada.
— Mandarei
dois carros — prometeu o Zarlt. — Da festa participarão
exclusivamente membros do governo. Peço-lhe que considere este fato
na escolha das pessoas que o acompanharão.
Rhodan
prometeu atender ao pedido, embora não tivesse a menor intenção de
modificar a decisão já tomada. Estava interessado em dar uma
sensação de superioridade ao Zarlt. Queria que o mesmo se sentisse
forte e confiasse no êxito do seu empreendimento. Rhodan não sabia
se os grandes desconhecidos que manipulavam o jogo tinham espiões em
Zalit, e quem seriam eles. Era possível que os moofs representassem
o único elemento de ligação entre eles e o Zarlt. Mas também era
possível que não fosse assim.
O Zarlt
passou a dedicar sua atenção a outros assuntos e manifestou o
desejo de conhecer a nave. Rhodan não teve nenhuma objeção. Avisou
Bell, que se sentiu muito satisfeito com a tarefa, pois esperava
embelezar sua existência monótona com algumas brincadeiras.
Rhodan
pretextou o volume de serviço para ficar a sós com Marshall, que o
informou sobre os pensamentos recônditos que atravessaram a mente do
Zarlt e de seus oficiais.
Constatou
que Demesor não introduzira qualquer modificação em seus planos,
embora já estivesse livre da influência dos moofs.
Continuava
firme no propósito de destruir o cérebro robotizado e assumir o
lugar de Imperador do enorme reino estelar dos arcônidas.
*
* *
Bell ficou
muito triste ao saber que teria de ficar na Titan. Rhodan
explicou-lhe que a nave não poderia ficar desprotegida. Ele, Bell,
conhecia todos os recantos da mesma, e por isso seria o homem
indicado para assumir o comando, se houvesse algum imprevisto.
Essa
explicação representou um pequeno consolo para Bell. Suas queixas
tornaram-se menos violentas, embora não cessassem de todo. Rhodan
agiu com a maior cautela ao escolher as pessoas que o acompanhariam.
Além de Thora, Crest e o Dr. Haggard, levou os mutantes John
Marshall, Ras Tschubai e André Noir. Eram sete pessoas ao todo.
O
teleótico Ralf Marten descansava em seu camarote, enquanto seu
espírito se encontrava no palácio vermelho. Assumiu o corpo de um
certo Milfor, que figurava como responsável pelo armamento da frota
de Zalit. Vendo e ouvindo pelos olhos e ouvidos do inimigo,
participava da festa e, se necessário, avisaria Bell assim que
surgisse qualquer novidade.
Rhodan,
Thora e os mutantes acomodaram-se no primeiro carro. Frank Haggard e
Crest tomaram o segundo carro. Os dois homens sentiam-se ligados por
uma forte amizade, cuja origem talvez residisse no fato de que fora
Haggard quem há treze anos salvara Crest da morte certa pela
leucemia. O médico australiano era especialista em doenças do
sangue e descobridor do soro que curava a terrível doença, que já
não apavorava a população da Terra.
O fato de
irem sós no carro não era um simples acaso. Crest providenciara
para que isso acontecesse, e pouco lhe importava que isso provocasse
ou não alguma desconfiança em Rhodan. Thora também estava muito
interessada em que Crest ficasse a sós com Haggard.
O carro de
Rhodan partiu; o outro carro seguiu-o.
Crest
disse em inglês:
— Quero
falar com o senhor, Frank. Na nave, dificilmente teria oportunidade
para isso. Mesmo aqui teremos que ter cuidado, pois é possível que
Marshall nos esteja vigiando. Peço-lhe que isole seus pensamentos.
Gostaria de formular-lhe uma pergunta cuja resposta significa muita
coisa para mim e para Thora.
— Que
introdução solene! — gracejou Haggard, contemplando o céu
crepuscular de Zalit. Ali estavam eles, a 34 mil anos-luz da Terra,
desenvolvendo sua atividade num planeta estranho a fim de impedir que
o cérebro robotizado de Árcon fosse destruído. Era uma situação
intrincada, que certamente só Rhodan poderia compreender. — Pode
falar; sou todo ouvidos.
— Não
se espantará com minha pergunta? — certificou-se Crest, cauteloso.
— De
forma alguma. Pergunte.
Crest
deixou que alguns segundos se passassem. Sua lembrança recuou ao
instante terrível em que se viu juntamente com Rhodan diante do
imortal, pedindo a dádiva da vida eterna. Há milênios a lenda do
planeta da vida eterna corria por Árcon, e a lenda acabou por
transformar-se em realidade no momento em que ele, Crest, e Rhodan
descobriram o planeta.
Foi então
que o imortal, um ser surgido da espiritualização de toda uma raça,
declarou que a vida eterna estava reservada exclusivamente aos
terranos. Os arcônidas, acrescentou, já tinham a vida atrás de si,
e não serviram para nada. Para que aumentar o tempo de vida natural
de alguém que nada soubera fazer de sua existência? Ele, o imortal,
não via nenhum motivo para isso.
Naquela
oportunidade, Crest conformara-se com o veredicto sem esboçar a
menor reação, embora seu orgulho tivesse sofrido um forte arranhão.
Com Thora, as coisas não foram diferentes. O dom da imortalidade
relativa só fora concedido a Rhodan, o terrano, e ainda a Bell, para
quem nada era sagrado.
Crest
falou. Como se gemesse:
— Frank,
o senhor acredita que com os recursos de que dispõe poderia iniciar
e levar avante uma renovação geral das células do corpo humano?
O Dr.
Haggard reclinou-se no assento o lançou um olhar perscrutador para
Crest.
Naturalmente
os acontecimentos do planeta Peregrino já eram do seu conhecimento.
Também sabia que Rhodan estava em condições de conferir o dom da
imortalidade relativa a qualquer terrano, desde que o apresentasse ao
imortal. Mas os dois arcônidas haviam sido excluídos do benefício.
Por quê?
Thora e Crest não haviam provado suficientemente que não foram
atingidos pela degenerescência geral de sua raça e possuíam quase
a mesma força de vontade e atividade dos terranos? Talvez ainda
teriam uns cinqüenta ou cem anos de vida, mas o que representava
isso quando a história dos próximos milênios estava em jogo.
De
repente, Haggard compreendeu como deve sentir-se uma pessoa condenada
à morte. Mas não era verdade que todo homem está condenado à
morte desde o momento em que nasce?
— Por
que faz essa pergunta, Crest?
— Apenas
quero saber se existe essa possibilidade, Frank. Há um meio de
dispensar a colaboração do imortal?
Haggard
contemplou a traseira do carro que ia à frente.
— Com
isso não só estaríamos dispensando a colaboração do imortal, mas
passaríamos Rhodan para trás. Já se deu conta disso?
— Não.
Apenas queremos alcançar a imortalidade pelos caminhos da medicina,
não como uma dádiva de um ser inconcebível feito de bilhões de
outros seres. Se conseguirmos descobrir o segredo da renovação
celular, não estaremos passando ninguém para trás. Aquilo que
conquistarmos com o nosso trabalho é nosso.
— Desde
quando está pensando nessa possibilidade? — perguntou Haggard.
Crest
fechou os olhos.
— Há
bastante tempo. Para falar exatamente, desde o momento em que o
sargento Harnahan encontrou numa das luas do sol Tatlira um ser que
tem um milhão de anos.
Haggard
confirmou com um gesto. Estava lembrado.
— Não
sabemos absolutamente nada a respeito desse ser que tem o aspecto de
uma esfera e se alimenta com a luz das estrelas. Talvez não tenha
uma estrutura orgânica, motivo por que os pressupostos...
— Sabemos
que é mais velho que qualquer das civilizações hoje existentes —
disse Crest com uma estranha ênfase. — Ainda sabemos que
sobreviverá a nós e às nossas civilizações. Será que isso não
basta?
— O que
quer dizer com isso?
— O que
quero dizer é que talvez não seja tão mesquinho como o imortal.
Afinal, pediu nosso auxílio. Poderíamos dá-lo em troca de um
preço. Esse preço seria o segredo de sua imortalidade. Não acha
que seria uma proposta razoável?
Haggard
acenou lentamente com a cabeça.
— Já
compreendi o que quer dizer. É possível que nos revele seu segredo,
mas não saberemos fazer nada com ele, pois somos seres orgânicos. O
senhor seria capaz de alimentar-se com a luz do sol?
— Não —
disse Crest em tom triste, mas seus olhos emitiam um brilho estranho.
— Mas sei que sem essa luz não viveria mais. Talvez exista alguma
ligação.
Haggard
viu o funil vermelho do palácio que surgia à distância. Holofotes
coloridos mergulhavam-no num fogo frio, envolvendo-o como gigantescos
diademas.
— É
possível — confessou num cochicho. — Ainda teremos que conversar
a respeito. Talvez haja uma esperança para o senhor. Para o senhor e
para Thora.
*
* *
Enquanto
os discursos eram desfiados e os hóspedes dos zalitas recebiam os
cumprimentos, Marshall e Noir não se mantiveram inativos. O telepata
controlou ininterruptamente os presentes e constatou que todos eram
vassalos fiéis do Zarlt. Por coincidência, também descobriu os
assassinos do velho Zarlt. Eram pessoas que ocupavam os mais altos
cargos do atual governo; entre eles havia alguns oficiais da frota, a
cujo quadro pertencia Demesor.
Enquanto
isso André Noir examinou os cérebros dos presentes, para verificar
se ainda restava algum bloqueio hipnótico. Não se poderia pensar
mais na influência dos moofs. Os zalitas eram livres, mas
mantinham-se fiéis ao plano anterior.
Por
enquanto Ras Tschubai não tinha o que fazer. Encontrava-se num ponto
mais isolado. Quase todos o admiravam pela cor quase negra de sua
pele. Não se notava qualquer tipo de incompatibilidade racial. Neste
ponto os zalitas chegavam a ser mesmo superiores aos terranos, que
ainda carregavam esta pesada herança.
Crest e
Thora mantinham uma atitude reservada; eram principalmente Rhodan e
Haggard que entretinham as conversas.
Noir
estava conversando com Cenet, chefe de armamentos da frota, quando os
impulsos atingiram o setor telepático de seu cérebro. Infelizmente
não conseguiu concentrar-se para entender a mensagem, pois o oficial
formulava perguntas e logo queria a resposta. Só uma mensagem
telepática de socorro despertou a atenção de André Noir que, como
hipno, conseguiu sentir esses impulsos, embora não soubesse
interpretá-los.
Contando
com o apoio de Noir, Marshall finalmente pediu licença e retirou-se
para um canto mais tranqüilo da sala enfeitada, onde pôde dedicar
sua atenção aos impulsos que estava captando. De início, pensou
que se tratasse de moofs recém-chegados, que procuravam restabelecer
o contato, mas logo percebeu seu engano.
Eram
zalitas.
E naquele
instante estavam dominando os guardas e penetrando no palácio.
*
* *
Rhodan
estava conversando com o Zarlt, quando percebeu o sinal de Marshall.
Pensou:
“É
muito importante?”
A resposta
veio sob a forma de um aceno de cabeça.
“É
tão importante que devo deixar o Zarlt a sós?”
Mais uma
vez Marshall acenou com a cabeça.
Rhodan
pediu licença e atravessou a sala. Marshall seguiu-o. Encontraram-se
numa sala vazia.
— O que
houve, John?
— São
os rebeldes! Dominaram os guardas e estão penetrando no palácio aos
montes, para matar o Zarlt e seus adeptos. A ação está sendo
dirigida por meu amigo Rogal. Dizem que seremos poupados ao
morticínio.
— Onde
está Noir? Deverá intervir antes que seja tarde. Se o Zarlt tiver
conhecimento do ataque, dificilmente poderemos salvar Rogal e seus
amigos.
— Rogal
conta com o nosso apoio.
— Não
podemos permitir-nos agir em seu apoio. Lembre-se de que não se
trata apenas do Zarlt. Preciso conhecer os indivíduos que estão
manobrando o Zarlt, e isso será impossível caso seus planos se
frustrarem antes do tempo. Onde está Noir?
— Está
falando com Cenet, um dos oficiais.
— Vá
buscá-lo; depressa!
*
* *
A bomba
que se encontrava na mão de Rogal estava engatilhada. Apenas uma
ligeira pressão de seu polegar sobre o detonador impedia sua
explosão. Se Rogal fosse morto, o efeito da bomba seria tamanho que
seu matador o acompanharia para a morte.
Dois dos
seus companheiros haviam aniquilado o guarda que se encontrava à
esquerda da entrada. Um deles ocupou o lugar do morto. Do lado
direito já havia um rebelde que montava guarda.
Os
rebeldes entraram no palácio sem que ninguém os impedisse. Não
havia nenhum moof que pudesse denunciá-los. Os zalitas não eram
telepatas.
Mais dois
guardas foram dominados numa ação silenciosa. Já se ouvia bem ao
longe o murmúrio de vozes vindas do salão de festas que ficava ao
nível do solo. Alguém estava fazendo um discurso.
Rogal
esboçou um sorriso frio, enquanto fazia um sinal aos seus seguidores
e continuou a avançar. Penetraria no salão e pediria aos
desconhecidos vindos de um outro sistema solar que se retirassem
imediatamente do palácio. Depois disso soltaria a bomba.
Zalit
voltaria a ser um mundo livre.
No
corredor notou-se um movimento. Um vulto saiu da porta que dava para
o salão. Sem demonstrar o menor receio, aproximou-se dos rebeldes.
Rogal
reconheceu André Noir, mas a pessoa que se encontrava a seu lado lhe
era totalmente estranha.
O rebelde
parou e esperou. O corredor estava bem iluminado, de modo que se viam
perfeitamente os desconhecidos. O homem que se encontrava ao lado de
Noir despertou todo o interesse de Rogal. Aquele vulto alto e esguio
insuflou em Rogal um respeito que ele mesmo não soube explicar, e
que tentou espantar com um gesto da mão. Não conseguiu.
E não
havia nada de extraordinário nesse homem. Não havia dúvida de que
os olhos em que ardia um fogo frio e cinzento chamavam a atenção,
da mesma forma que a boca com os lábios estreitos. E, mais que tudo,
os movimentos tranqüilos e dominadores com que se aproximou, sem dar
a menor atenção à perigosa bomba que se encontrava na mão do
rebelde.
Noir parou
a alguns passos de Rogal.
— Meu
chefe quer conhecê-lo, Rogal. Este é Rogal, Perry Rhodan.
Rogal já
ouvira o nome dos lábios de Noir e Marshall. Rhodan era o chefe da
expedição que roubara a nave dos arcônidas. Aparentemente era um
inimigo do Império, mas Marshall ressaltara que no íntimo estava ao
lado dos zalitas livres.
Fosse como
fosse, Rogal não dava muito valor à diplomacia. Seu punho cerrou-se
em torno da bomba. Uma expressão teimosa desenhou-se em seu rosto.
— Vim
para fazer justiça — disse com a voz dura, fitando os olhos
cinzentos de Rhodan. — O Zarlt deve morrer.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— É
claro que deve morrer, mas não hoje, Rogal. A hora ainda não
chegou. É bem possível que outros terminem a obra que você
iniciou. Se o Zarlt morrer hoje, o mesmo processo se repetirá dentro
de poucos anos.
— Por
quê?
Rhodan não
pretendia transmitir suas suposições ao zalita. Afinal, Rhodan não
sabia nada sobre a tarefa dos moofs. Nem sobre aqueles que se
encontravam por trás deles.
— Mais
tarde explicaremos, assim que tiver chegado o momento de agir. Vá
para casa, antes que o Zarlt fique sabendo do atentado que está
sendo planejado. Neste momento, não posso fazer nada por vocês.
Rogal
hesitou.
— Como
foi que o senhor soube?
Rhodan
sorriu.
— Acontece
que soubemos, Rogal. Cumprimentou-o com um gesto amável e deu-lhe as
costas. Sem prestar a menor atenção àquilo que acontecia atrás de
suas costas, caminhou em direção ao fim do corredor e voltou a
entrar no salão de festas.
Noir ficou
a sós com o outro. Estava disposto a usar seu dom, mas preferiu
esperar até que isso se tornasse absolutamente necessário.
Rogal
olhou para a bomba. Ao seu lado encontravam-se os companheiros, que
não recuariam diante de nada. Em suas mãos brilhavam armas
mortíferas.
— Então?
— perguntou Noir. — Querem usar de inteligência e esperar, ou
preferem colocar a violência antes da inteligência?
— Inteligência?
— resmungou Rogal. — Quer que desistamos, agora que conseguimos
eliminar os guardas? Não seria uma covardia? Não sei quando teremos
outra oportunidade como esta. Não, meu caro, ninguém nos deterá.
Dou cinco minutos a você e aos seus amigos, para que saiam do
prédio. Depois disso a bomba vai explodir. O Zarlt precisa morrer.
Noir
percebeu que sua força de persuasão havia chegado ao fim. Nem mesmo
Rhodan conseguira. Portanto, não teve outra alternativa senão
colocar um bloqueio pós-hipnótico nos rebeldes, que os faria
esquecer tudo que havia acontecido.
Foi assim
que apenas vinte segundos depois Rogal e seus amigos bateram em
retirada, numa retirada que não saberiam explicar a ninguém, muito
menos a si mesmos.
No dia
seguinte, quando começou a correr a notícia do assassínio dos
guardas do palácio, ninguém se espantou mais com isso que o próprio
Rogal.
*
* *
— Não
compreendo mais nada — protestou Bell e lançou um olhar
recriminador para Rhodan. — Aparecem outras pessoas que querem
fazer o trabalho por nós, e você as impede. Ficaríamos livres de
todas as preocupações, e o cérebro robotizado também. Zalit
ficaria livre e se manteria fiel ao Império...
— ...e
você acredita que o cérebro robotizado perceberia que isso foi
devido exclusivamente a nós? — retrucou Rhodan. — Nada disso;
nossa situação continuaria inalterada. Aos olhos da máquina
positrônica continuaríamos a ser um inimigo. Será que o apoio a
uma pequena rebelião é um serviço tão relevante? Para provarmos
nossa lealdade ao Império, teremos que impedir um ato cuja execução
representasse ao menos a destruição do cérebro robotizado.
— Pois é
o que o Zarlt pretende fazer.
Rhodan
sorriu.
— Mas
não conseguirá; ao menos, não o conseguirá sem o nosso auxílio e
o dos moofs. O Zarlt não passa de um incapaz dotado de um pouquinho
de inteligência. Nas mãos dos moofs, transforma-se num vulcão que
pode destruir tudo. Como vê, temos que aguardar, nem que demore
semanas. É a vez do inimigo.
Bell viu
os gestos de concordância dos outros e desistiu da apresentação de
mais argumentos. Rhodan devia saber o que estava fazendo.
Gucky
atravessou a sala e segurou a mão de Bell.
— Quando
será o próximo exercício de alarma? Pelo que ouvi dizer, desta vez
o exército de mutantes participará do mesmo.
O rosto de
Bell iluminou-se. A idéia de tanger os mutantes pelos milhares de
compartimentos da nave deixou-o alegre. Sorriu.
— Daqui
a dez minutos, Gucky. Peço que todos apareçam pontualmente e bem
lavados. Além disso, mando que...
Infelizmente
foi interrompido por Rhodan.
— Desculpe,
Bell, mas o próximo exercício será dirigido por mim. Todos
participarão, inclusive você. Precisamos aprofundar ainda mais o
nosso conhecimento da nave.
— Mas...
— Não
há nenhum mas. Se você der uma boa lavada no peito, isso não lhe
fará nenhum mal. Não foi isso que você recomendou a Gucky?
O sorriso
desapareceu do rosto de Bell.
— ...lavar
o peito? — gaguejou perplexo.
Depois
sacudiu a cabeça e, abatido, saiu da sala a fim de preparar-se para
o exercício.
Só
gostava do exercício quando podia dirigi-lo a partir da sala de
comando.
*
* *
Orbson, o
oficial zalita que comandava a patrulha espacial no setor de Voga,
recebeu a carga na periferia do sistema. A pesada nave transportadora
acabara de emergir do hiperespaço, e dentro de poucos segundos
voltaria a mergulhar, tomando direção desconhecida. A missão
secreta que tinha que executar o levaria a um sistema solar distante,
onde havia um planeta de gravitação duplicada.
Era nesse
planeta que viviam os moofs.
Orbson
sentiu uma forte repugnância ao contemplar os numerosos recipientes
de vidro. Não gostava desses seres com o formato de uma medusa, mas
alguma coisa o obrigava a não demonstrar sua repugnância. Sem
dúvida os moofs não tinham nada que lembrasse um ser civilizado,
mas já se revelaram úteis. Além disso, o Zarlt ordenara importação
de mais dois mil desses seres, assim que morreram os que existiam em
Zalit. As velhas redomas de vidro foram inutilizadas.
Por isso
Orbson não se preocupou mais com o assunto.
Sua
repugnância desapareceu tão depressa como havia surgido. Sem que o
soubesse, estava submetido aos comandos sugestivos dos moofs, que por
sua vez haviam recebido novas instruções antes de saírem de seu
mundo.
Ainda
haviam recebido a promessa de que no futuro desempenhariam um papel
importante no Império Arcônida.
A
transferência da carga foi realizada sem o menor incidente. A nave
de Orbson regressou para Zalit, enquanto a nave transportadora voltou
a popa para o sol Voga e mergulhou nas profundezas do espaço.
Mais uma
vez os desconhecidos estendiam as mãos em direção ao Império.
Zalit
ainda não estava livre dos moofs.
*
* *
— Isto
não é uma nave espacial, mas um planeta — voltou a fungar Bell
espavorido, deixando-se cair no elevador antigravitacional. O tenente
Tifflor seguiu-o, conforme era seu costume. Enquanto a queda era
freada pelos campos energéticos invisíveis, falou:
— O
senhor não disse isso há alguns dias?
Bell
aterrizou e dirigiu-se ao corredor. A voz de Rhodan soou de um dos
alto-falantes:
— Alarma
de combate! Guarnecer todas as posições. Ensaio de alarma. Ocupar
imediatamente todas as posições.
Bell
resmungou:
— Nossa
posição é D-135. Sei lá o que quer dizer isto. Fica neste andar,
a uns oitocentos metros daqui. Vamos andando.
Correram
por um corredor que descrevia uma curva ligeira para a esquerda, já
que a fita transportadora não estava funcionando. Tifflor praguejou
baixinho. Bell soltou um palavrão e lembrou-se de suas funções de
dirigente dos alarmas anteriores. Ali a coisa foi muito mais
divertida.
Um vulto
aproximou-se, vindo da esquerda.
Era Ras
Tschubai.
Bell
respirou aliviado.
— Ei,
Ras. Não quer dar-me uma ajuda? Poderia levar-me ao D-135, que
também é seu posto.
— Isso
não seria justo — gritou Tiff e passou correndo por Bell.
Bell
parou.
— Então,
Ras? Sempre fomos bons amigos. Você é um teleportador e poderá
estar lá num segundo. Já eu com estas pernas curtas...
— Pernas
tortas — disse uma voz vinda de cima.
Bell
praguejou e pôs-se a correr. Ras seguiu-o com um olhar de espanto.
Sacudiu a cabeça, lançou um olhar assustado para o pequeno
alto-falante embutido no teto. Desmaterializou-se e saltou para o
setor D-135, onde aguardou tranqüilamente a chegada de Bell.
Este
chegou após cinco minutos, fungando e gemendo. Lançando um olhar
zangado para Tiff, que já estava agachado atrás, dos controles do
desintegrador, ocupou seu lugar.
Ouviu-se
um estalido, e a voz de Rhodan disse:
— Excelente.
Dentro de dez minutos conseguimos colocar a nave em posição de
combate. Amanhã conseguiremos em nove minutos.
Depois de
uma ligeira pausa, prosseguiu:
— A
gente devia ser um teleportador, não acha, Bell? Especialmente quem
tem pernas tão curtas...
— O
principal é que sejamos felizes — resmungou Bell sem entrar no
assunto.
Sabia
perfeitamente o que o aguardava.
No dia
anterior, durante o primeiro alarma, proibira aos teleportadores que
fizessem uso de seu dom. E quando Gucky, que detestava andar, foi o
último a atingir o lugar que lhe fora destinado, Bell debochou do
mesmo, culpando suas pernas curtas pelo insucesso.
Dessa
forma a gente paga tudo que faz, e não apenas na Terra.
Se o
rato-castor soubesse do incidente e ouvisse que o próprio Bell
confessara... Não! As conseqüências seriam inconcebíveis.
Naturalmente
Gucky soube...
* * *
* *
*
Os
astronautas da Terceira Potência conseguiram enganar o gigantesco
cérebro positrônico que governa Árcon, e ainda se encontram de
posse da Titan, mas A Luta Contra o Desconhecido representou uma
prova flagrante de que é muito importante ser amigo, não inimigo do
cérebro positrônico...
Como
será que Perry Rhodan consegue isso? Em O Aliado do Gigante, título
do próximo volume, Perry Rhodan revela a resposta.

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