sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

P-040 - Luta Contra o Desconhecido - Clark Darlton [parte 3]


Na Titan, havia andares inteiros que ainda não tinham sido explorados. O fato de que o gigante espacial representava uma ampliação quase exata da conhecida Stardust trazia certo alívio. Apesar disso Rhodan não dispensou os exercícios de alarma, que dariam aos tripulantes a oportunidade de familiarizar-se com a Titan.
Constatou-se que as armas de que dispunha a nave seriam suficientes para, de várias maneiras diferentes, destruir um sistema solar numa questão de segundos.
Também havia um arsenal cuidadosamente trancado em que estavam escondidas as temíveis bombas gravitacionais. Tratava-se de uma arma à qual os arcônidas ainda não haviam recorrido. Era capaz de arrancar todo um planeta da estrutura espaço-temporal de quarta dimensão, fazendo-o desaparecer.
O que aconteceria se os moofs conseguissem pôr as mãos numa arma como esta?
Não era difícil encontrar a resposta, e foi ela que decidiu o curso que tomariam as ações de Rhodan.
Enquanto Bell fazia os oficiais e tripulantes correr de um canto da nave para outro, dando prazos cada vez mais curtos para encontrar as posições designadas a cada um, na sala de comando estava sendo realizada uma conferência. Além de Thora e Crest, também os mais eficientes dentre os mutantes estavam presentes. Especialmente aqueles aos quais se poderia recorrer para a realização da ação planejada.
Ainda participavam da conferência o coronel Freyt, o tenente Tifflor e o Dr. Haggard, um médico que acumulava suas funções com as de biólogo.
Quer dizer que a situação é a seguinte — principiou Rhodan, lançando um olhar para seus apontamentos. — O Zarlt apoderou-se do governo pela força. Provavelmente ainda não contava com o auxílio dos moofs. Como soube, estes vieram depois. Desde o início teve a idéia de depor o imperador e assumir o governo do Império. Para isso teria que neutralizar o cérebro robotizado. E o plano de destruir o cérebro foi o único fator que fez com que certos zalitas se tornassem seus amigos. Isso é um fator que depõe a favor desse povo, pois demonstra que não desejam a luta apenas para conquistar o poder. O que acontece é que não querem ser governados por uma máquina.
Para falar com franqueza, também não gosto que o Império se encontre sob o domínio de um robô — confirmou Crest em tom tranqüilo. Thora concordou com um aceno da cabeça. Ambos tinham bons motivos para não se sentirem satisfeitos com a situação atual.
Até aí, muito bem — confirmou Rhodan. — Infelizmente existem outras circunstâncias, que tornam nossa situação mais difícil. Temos que fazer de conta que pretendemos dar todo apoio ao Zarlt, a fim de ganhar tempo. Mesmo que queiramos ajudar o cérebro e, portanto, o Império, o primeiro ainda é nosso inimigo, e continuará a sê-lo até que consiga reconhecer logicamente nossas verdadeiras intenções. E não deixará de reconhecê-las, se conseguirmos restabelecer as condições normais em Zalit. Isso só será possível se eliminarmos os moofs, que governam o planeta por meio de um processo de sugestão. Nenhum dos nativos desconfia disso; nem mesmo o Zarlt.
O coronel Freyt sacudiu a cabeça; parecia preocupado.
Quantos moofs existem neste mundo?
Rhodan deu de ombros.
Não sabemos, mas devem ser milhares. É um número suficiente para controlar oito bilhões de zalitas.
Gucky mexeu-se. Rhodan logo notou. Nos últimos dias, notara que o rato-castor dispunha de um volume surpreendente de conhecimentos. Quando resolvia falar, geralmente havia alguma coisa no ar.
Acontece que não conseguiram de todo — chiou com a voz fina. — Alguns zalitas ainda pensam nos velhos tempos que se foram e querem vingar-se. Continuam fiéis ao Império e chegam mesmo a aceitar a tutela exercida pelo cérebro robotizado. Acham que o mesmo é mais sensato que Demesor, o novo Zarlt.
Este detalhe é muito interessante — disse Rhodan e pôs-se a refletir. — Oportunamente teremos que interessar-nos por esses zalitas. Devem possuir uma resistência mental maior que os outros.
Os moofs interessam-se principalmente pelas camadas dirigentes — explicou Gucky. — Se conseguirmos neutralizá-los, Zalit será um mundo livre.
Haggard levantou o braço. Uma sombra passou pelo seu rosto, sempre gentil.
Neutralizá-los? Como poderíamos eliminar essas medusas? Estão encerradas em recipientes pressurizados de grande resistência e, pelo que descobrimos, vivem numa mistura de gases venenosos, formada principalmente por metano.
Rhodan lançou um olhar para John Marshall.
O Dr. Haggard tem razão. Devíamos pensar na maneira de liquidá-las. Não há dúvida de que morrerão se o recipiente pressurizado for destruído. Mas não podemos penetrar em todas as naves e fazer detonar esses recipientes. E isso sem falar nos milhares de moofs que estão espalhados pelos quatro cantos do planeta.
Já pensei nisso — disse Gucky em tom triunfante.
Também já imaginei — disse Rhodan. — Foi por isso que trouxe Tama Yokida?
Você já aprendeu a ler pensamentos? — perguntou o rato-castor, fingindo surpresa. — Tama é o homem de que precisamos.
Um telecineta? — perguntou Frank Haggard em tom de dúvida.
Rhodan sorriu como quem já havia compreendido tudo. Imaginava quais seriam os planos do rato-castor, embora ainda não compreendesse por que Gucky complicava as coisas a esse ponto.
Tama não é apenas um excelente telecineta — explicou, dirigindo-se ao Dr. Haggard. — Também provou que sabe cooperar com Gucky. É bem verdade que não sei quais são exatamente os planos de nosso pequeno amigo, mas não há dúvida de que dois telecinetas serão capazes de um desempenho bem maior. Um telecineta só sabe agir numa direção, isto é, pode usar uma força de tração ou de pressão. Já em dois, podem fazer ambas as coisas ao mesmo tempo.
Lançou um olhar indagador para o rato-castor.
Será que você poderia ter a gentileza de explicar com mais detalhes quais são mesmo suas intenções?
Gucky fez uma mesura acompanhada de um sorriso zombeteiro.
É simples, chefe. Localizo o moof por via telepática. Depois pego Tama e salto para o respectivo lugar. Se exercermos uma tração telecinética em direções opostas, o vidro deixará passar o gás. O metano escapará, e o moof partirá deste vale de lágrimas. É só isso. Não haverá explosões, nada que chame a atenção.
Todo mundo compreendeu. Ninguém teve a menor objeção. Apenas Ras Tschubai disse com um ligeiro ressentimento:
E nós? O que vamos fazer? Será que assistiremos a tudo de camarote?
Gucky sorriu da forma como só um rato-castor é capaz de sorrir.
O que é isso, Ras? Vocês terão trabalho, e muito trabalho.
Que trabalho é esse?
Participem dos exercícios de alarma. Já está na hora de conhecerem nosso barquinho. Não estou com a razão?
Rhodan preferiu não emitir opinião. Não queria magoar ninguém.
Os zalitas logo perceberão que alguma coisa está errada — objetou o tenente Tifflor. — Se os moofs morrerem um atrás do outro...
Faremos com que acreditem numa epidemia que se alastrou entre esses seres — interveio Gucky.
Eu lhe dou carta branca — disse Rhodan, dirigindo-se a Gucky, que se empertigou de orgulho. — Mas faço questão de que a ação seja levada a efeito de tal forma que os zalitas não desconfiem de nada. Este detalhe é muito importante.
Sei disso — chilreou Gucky. — De resto, se vez por outra um dos recipientes explodir, isso não constituirá nenhum erro. Apenas introduzirá um pouco de variedade no panorama. Vamos embora, Tama, vamos começar. Deixaremos os zalitas sem seus lindos totozinhos.
Sem esperar resposta, Gucky escorregou para fora da poltrona, saltitou em direção ao japonesinho, segurou-o pela mão e saiu da sala. Ras Tschubai olhou-os com uma expressão de inveja.
Quanto a nós, vamos preparar-nos para a visita do Zarlt — disse Rhodan, encerrando a conferência. — Virá em companhia de um oficial que é o elemento de sua maior confiança. Já o conhecemos. Seu nome é Hemor.

* * *

A eliminação dos moofs que se encontravam no cruzador zalita MRO não correu exatamente segundo os planos. O acaso interveio e fez com que surgisse uma surpresa que se revelou muito interessante, mas não para Gucky e Tama.
Os dois mutantes se materializaram à meia nau e, sem serem percebidos, conseguiram penetrar na cúpula de observação situada na parte superior do cruzador, onde costumavam ser guardados os moofs. A sala estava vazia, com exceção da abóbada de vidro, sob a qual o moof se mantinha vigilante, dando livre jogo aos seus pensamentos, a fim de vigiar a tripulação da nave que realizava um vôo de rotina, renovando as ordens transmitidas por via sugestiva sempre que isso se tornava necessário.
Gucky soltou Tama, que não sabia teleportar-se sem auxílio de outrem, motivo por que dependia do rato-castor. Aproximaram-se do recipiente de metano e contemplaram o monstro.
Então, meu chapa — disse Gucky baixinho ao moof, retribuindo o olhar vidrado. — Você pode fazer seu testamento.
Era claro que o moof não tinha a menor idéia do que seria um testamento, mas Gucky não se deu ao trabalho de bloquear seus pensamentos. O moof leu com toda nitidez as intenções concebidas no cérebro daquele ser estranho. Estava disposto a defender-se.
Tama foi o primeiro a sentir a onda de ameaça brutal e procurou erigir suas defesas. A ameaça logo se tornou menos intensa e cessou por completo. A força sugestiva do moof não era suficiente para romper o bloqueio mental.
Gucky era ainda mais resistente. Deu uma risadinha e exibiu o brilho de seu dente-roedor.
Não se esforce inutilmente — chilreou. — Tem algum desejo?
A essa altura o moof já devia estar percebendo que sua energia era pouca. Recorreu à ameaça.
Quem é você, desconhecido? — com uma tremenda resolução na voz, prosseguiu: — Se fizer mal a um moof, você sofrerá um tremendo castigo.
Quem poderá punir-me? — perguntou Gucky.
Finalmente encontrara um moof mais loquaz que os outros.
Quando você souber, será tarde. Mais uma vez a onda sugestiva investiu contra os dois mutantes, e mais uma vez revelou-se ineficaz.
Por que pretendem conquistar o Império, e por que os zalitas têm de fazer o trabalho por vocês?
A primeira impressão foi de espanto. Mas logo surgiu o impulso inconfundível:
Vocês já sabem? Nesse caso também devem saber que para nós os zalitas são exatamente a mesma coisa que nós somos para os senhores.
Gucky pôs as orelhas de pé, embora não houvesse necessidade disso.
Os senhores? Que senhores são estes?
Ah, vocês não sabiam?
Logo o moof isolou-se, dando a impressão de que já revelara demais e receava causar um desastre ainda maior. Gucky procurou extrair outras informações do monstro, mas viu que seus esforços eram inúteis. Furioso, afastou-se do recipiente e fez um sinal para Tama.
O que já sabia permitir-lhe-ia fazer alguma coisa com os outros moofs, que seriam pegados desprevenidos.
Tama e Gucky concentraram-se simultaneamente no mesmo ponto do recipiente pressurizado. Seus fluxos mentais telecinéticos desenvolviam-se em sentido oposto. Na parede do recipiente surgiu um ponto rarefeito, por onde escapou o gás mantido sob pressão, que representava a atmosfera necessária à vida do moof.
A medusa começou a debater-se. Gucky captou impressões de pânico, que logo se tornaram mais fracas. Por uma única vez o ser tentou levantar-se, mas logo caiu sobre si mesmo. Parecia uma medusa que tinha dado à praia. Tinha um aspecto repugnante e nada imponente.
Gucky segurou a mão de Tama.
Vamos dar o fora. Este veneno não é bom para nossos pulmões.
O ar tremeluziu, e o moof moribundo viu-se sozinho.
No mesmo instante, o primeiro-oficial da nave MRO teve a impressão de que até então sentira uma dor de cabeça que cessara de repente. Espantou-se ligeiramente de nunca ter pensado nisso, mas sentiu-se satisfeito e aliviado.
Dando sua ronda habitual, entrou na sala de observação dez segundos depois de Gucky e Tama se terem desmaterializado.
Pôs a mão no bolso e tirou uma caixinha. Nela havia rolinhos feitos de plantas aromáticas, muito parecidos sob todos os pontos de vista com os cigarros usados pelos terranos. Do outro bolso tirou o isqueiro elétrico.
Farejou o ar. Havia um cheiro estranho, como de tocos de árvores apodrecidas. O moof parecia estar dormindo. Encolhido na sua caixa de vidro, não se movia.
Sacudindo a cabeça, o primeiro-oficial enfiou o cigarro entre os lábios e acionou o isqueiro. A faísca elétrica saltou sobre o pavio molhado com lassita, uma pequena chama subiu. No mesmo instante uma força irresistível atirou o oficial pela porta, que felizmente apenas estava encostada. Uma língua de fogo bramiu por cima dele e bateu contra a escotilha mais próxima.
Meio confuso, o oficial continuou deitado por alguns minutos. Quando o calor diminuiu, levantou-se. Nada se quebrara. Apenas seu uniforme estava chamuscado.
Afinal, o que havia acontecido? Uma explosão? Lembrou-se do isqueiro. No momento em que o acendeu, uma forte língua de fogo atirara-o para fora da sala de observação. Se os gases incendiados não tivessem escapado pela porta...
Nem quis imaginar as conseqüências. A cúpula teria rachado, e ele seria atirado para o espaço juntamente com o moof.
O moof!
Ouviu passos. A escotilha foi aberta e alguns homens entraram correndo, ajudando o oficial a levantar-se. Poucos minutos depois sabiam. O moof estava morto e no recipiente foi encontrada a atmosfera normal. Não havia o menor vestígio de metano. A parede do recipiente não apresentava qualquer vasamento.
Era um fenômeno incompreensível. Não encontraram explicação para o mesmo.
O comandante imediatamente entrou em contato com as outras naves e soube que na maioria delas os moofs haviam morrido pela mesma forma inexplicável. Sempre morreram sufocados, já que nos recipientes não existia mais a atmosfera de que as medusas precisavam para viver. O gás escapara, sem que houvesse qualquer vasamento.
O metano e o oxigênio formam uma mistura explosiva. Dessa forma conseguiram explicar ao menos a explosão ocorrida a bordo da MRO.
Mas quanto ao resto, o fenômeno continuou a ser um mistério.

* * *

Em Zalit ninguém imaginava que uma batalha violenta estava sendo travada.
Zarlt imaginava-o menos que qualquer outra pessoa. Impaciente, aguardava a decisão de Rhodan, mas achou preferível não continuar a insistir junto ao mesmo. Um tanto contrariado, viu-se obrigado a permitir que Rhodan e seus homens andassem livremente pela superfície de Zalit e estudassem seus habitantes. Também não imaginava que, ao proceder assim, Rhodan visava a uma finalidade bem definida.
John Marshall conseguira localizar os primeiros zalitas ainda não influenciados pelos moofs. Um ligeiro exame telepático revelou que eram dotados por um débil campo defensivo, que os protegia da influência dos moofs.
Quando Marshall e André Noir, o hipno do exército de mutantes, se puseram a caminho para procurar o grupo que exercia uma oposição clandestina, a ansiedade de Rhodan quanto às medidas que o cérebro robotizado poderia tomar tornou-se mais intensa.
Bell procurou tranqüilizá-lo.
Não acredito que poderia vir a atacar a Terra. Thora é de opinião que nossa posição astronômica ainda lhe é desconhecida. Os saltadores não têm o menor motivo para revelar essa posição aos arcônidas, que são seus inimigos mortais. Com isso apenas prejudicariam a si mesmos.
Quando não podem possuir uma coisa, querem destruí-la — disse Rhodan em tom de dúvida. — Não podem possuir-nos, mas também não podem destruir-nos. Logo, deverão ficar muito satisfeitos se um outro nos destruir.
Thora e Crest trocaram um olhar.
Não nos abandone numa emergência destas — implorou a arcônida. — O Império está em crise. Nem mesmo o cérebro robotizado imagina que o inimigo está diante de suas portas. Os zalitas podem entrar em Árcon quando quiserem, enquanto não provocarem nenhuma suspeita, e o Zarlt é muito inteligente para fazê-lo. Se perder a paciência a ponto de não querer esperar mais, recorrerá à violência e à astúcia. E é bem possível que consiga realizar seu intento.
Quando isso acontecer, os moofs que o assessoram terão deixado de existir.
Não se esqueça de que não são apenas os moofs — advertiu Crest. — Outras naves de Zarlt já estão a caminho para trazer novas levas de moofs. O trabalho de Gucky e Tama, por mais rápido que seja, não conseguirá neutralizar os reforços. A solução não é esta.
Vamos aguardar para ver o que Marshall conseguirá. Talvez o Zarlt possa ser derrubado por seu próprio povo.
E daí? Os moofs encontrarão um substituto. Será uma luta sem fim, e o senhor não terá tempo para participar dela. Não se esqueça da Terra.
Rhodan sorriu.
Muito obrigado por ter chamado minha atenção para isso. Bell, vamos enviar uma mensagem a Deringhouse. Prepare o telecomunicador e codifique a mensagem. Será um impulso concentrado, conforme combinamos. Temos que assumir o risco.
O rosto de Crest assumiu uma expressão preocupada.
Isso não seria uma leviandade, Perry? Sabemos perfeitamente que os arcônidas possuem instrumentos de localização extremamente sensíveis. Quando Deringhouse expedir sua resposta, saberão determinar precisamente a localização do emissor. E isso lhes fornecerá a posição da Terra.
Já pensei nesse detalhe — respondeu Rhodan em tom indiferente. — A resposta de Deringhouse não será expedida da Terra, mas de algum ponto da Via Láctea situado ao menos a dois mil anos-luz da mesma. E por lá o cérebro robotizado procurará em vão pelo nosso mundo.
Era a vez de Crest esboçar um sorriso.
Acho que o senhor não se esqueceu de nenhum detalhe, não é, Rhodan?
Tomara que não me tenha esquecido. Tomara mesmo!
Bell dirigiu-se à sala de rádio e preparou a mensagem. A outra porta abriu-se, e Gucky e Tama entraram. Os dois pareciam exaustos, o que face ao trabalho pesado que haviam realizado não era de admirar.
O rato-castor sentou no chão o recostou-se na parede. Tama acomodou-se numa poltrona.
A epidemia dos moof está se alastrando — disse Gucky com a voz cansada. — Morrem como se fossem moscas. Mas alguns deles não morreram em vão.
Ah, é? — disse Rhodan, sem disfarçar a curiosidade. — Por quê?
Descobri alguma coisa, ao menos com os moofs que tinham medo de morrer. Infelizmente não puderam contar mais do que sabiam.
Continue — disse Rhodan, dirigindo-se ao rato-castor, que intercalou uma pausa para aumentar o efeito de suas palavras.
Os moofs querem que os zalitas ataquem o Império e neutralizem o cérebro robotizado. Depois disso, Zarlt assumiria o cargo de imperador. Evidentemente só faria aquilo que os moofs ordenassem, se bem que o próprio Zarlt nem desconfia disso. Mas as coisas são ainda mais complicadas. Os moofs, por sua vez, apenas executam as ordens de outros seres, que se mantêm ocultos. É por eles que mandam os zalitas para a luta. Os moofs são apenas os elementos de ligação entre os zalitas e os verdadeiros manipuladores do jogo, os chamados senhores.
Era o que eu imaginava — disse Rhodan. — O que é que uma raça desamparada como os moofs poderia fazer com o império estelar? Quem são esses senhores?
O rosto de Gucky assumiu uma expressão desolada.
Infelizmente não conseguimos descobrir. Ao que parecia, os próprios moofs não sabiam. Talvez estivessem submetidos a um bloqueio hipnótico; não consegui apurar esse detalhe. De qualquer maneira, não passam de instrumentos manipulados por mestres muito poderosos.
E esses mestres logo saberão que em Zalit as coisas não estão correndo pela forma que planejaram — disse Rhodan em tom pensativo. — Quando isso acontecer, talvez saiam do seu esconderijo, revelando sua identidade.
É possível, mas não é provável — disse o rato-castor, sacudindo a cabeça peluda com tamanho vigor que as orelhas balançavam de um lado para outro. — Nem mesmo os moofs chegaram a ver um dos tais senhores, tanto que não conseguem descrevê-los. Não acredito que agirão com tamanha falta de cautela.
Bell entrou na sala, trazendo um bilhete e entregando-o a Rhodan. Lançou um olhar de esguelha para Gucky, sorriu e fez um gesto com a mão.
Pelo que vejo, temos uma pausa na batalha.
Aguarde até que chegue sua vez — resmungou Gucky em tom ameaçador e fechou os olhos, como se não suportasse a visão do velho amigo. Na verdade, estava apenas cansado demais para brigar com Bell.
Rhodan leu o texto:

Ao major Deringhouse, Terra.
Peço informar com urgência a partir da posição combinada se tudo está em ordem. Localizar imediatamente qualquer transição estranha. Nosso regresso foi retardado. Considerar eventual ataque à Terra, que deverá ser energicamente repelido.
Rhodan.

Devolveu o bilhete e fez um aceno de cabeça em direção a Bell.
Envie isto o mais rápido possível e fique na recepção. A resposta deverá demorar algumas horas, pois Deringhouse terá que tomar certas providências. E isso mesmo se tudo estiver em ordem.
Bell saiu da sala de comando. Rhodan voltou-se para Gucky, na intenção de prosseguir na palestra. Mas era tarde.
Estendido no chão, o rato-castor soltou certos grunhidos, que se pareciam com o ronronar de um gato.
Adormecera...
5



Rogal conseguira compreender até certo ponto a situação reinante em Zalit.
Rogal era um simples técnico de uma das grandes usinas que fabricavam as peças dos televisores usados em Zalit. Seu tempo livre era muito limitado, e ele o usava em atividades políticas. E não o fazia movido pela sede do poder ou pelo desejo de sair do anonimato, mas porque realmente andava preocupado com o curso dos acontecimentos.
Tal qual ele, também seus amigos sabiam perfeitamente que o novo Zarlt não assumira o poder de forma legal. A morte súbita do velho Zarlt nunca chegou a ser considerada um assassínio político, contudo esse detalhe não passava de uma questão de forma. Os oficiais que haviam penetrado no palácio na calada da noite e o mataram nunca foram punidos e atualmente ocupavam posições importantes. Apesar disso, as declarações oficiais do governo do novo Zarlt insistiam em que o velho soberano havia morrido, e havia morrido de morte natural.
Rogal sabia que essa declaração não passava de uma mentira.
E de repente apareceram os moofs. Uma nave os trouxe. Receberam recipientes pressurizados que lhes permitiam viver em Zalit. De início pensava-se que aquilo não passasse de uma brincadeira dos oficiais da frota, mas logo notaram sua importância. Os moofs conseguiam ler os pensamentos dos zalitas e sabiam comunicar-se com os mesmos por via telepática. Qualquer pessoa que se julgasse importante comprava um moof. O mesmo lhe permitia controlar os pensamentos de seus semelhantes.
Foi este o primeiro perigo que surgiu.
As prisões tiveram início. Qualquer pessoa cujos pensamentos não se conformassem com os desejos do novo Zarlt era localizada pelos moofs e presa. Os moofs intervieram abertamente na política, colocando-se ao lado do novo governo, formado quase que, com exclusividade, por oficiais da frota espacial.
Dali em diante Rogal passou a odiar os moofs.
Encontrou amigos e adeptos que não concordavam com a linha de atuação do governo. Queriam continuar a ser súditos fiéis do Império, mesmo que esse fosse dirigido por um artefato mecânico. Isso ainda era preferível ao regime do novo Zarlt.
O movimento de resistência começou a surgir, sofreu numerosos reveses, mas assim mesmo tornou-se cada vez mais forte e influente.
Seu maior inimigo continuava a ser os moofs.

* * *

Quando Rogal entrou no pequeno subterrâneo, a maioria dos seus amigos já estavam reunidos. Cumprimentou-os e reconheceu em seus rostos o brilho de confiança que por tanto tempo estivera ausente.
Os moofs estão morrendo — disse alguém com a voz alta e clara. — Estão morrendo em toda parte, e ninguém sabe por quê.
Pois eu sei — disse Rogal com um sorriso. — Dentro de pouco tempo deixarão de representar um perigo.
Acontece que as naves transportadoras que deverão trazer os reforços já se encontram a caminho. O governo não conseguirá manter-se sem os moofs telepáticos. Perderia o controle sobre o povo. A quantidade de pessoas que aderiu ao nosso movimento aumentou consideravelmente depois que os moofs começaram a morrer.
Isso não é de admirar — disse Rogal. — Quando os traidores desaparecem, também desaparece o temor dos indecisos.
Não sabia que havia outros motivos para o repentino afluxo de adeptos. Libertados da influência sugestiva dos moofs, só agora os habitantes começaram a compreender o perigo que ameaçava o sistema. Queriam depor o Zarlt, e não havia mais nenhuma constrição mental que os impedisse de realizarem seu intento.
Será que aqueles desconhecidos têm alguma coisa a ver com isso? — perguntou alguém.
Rogal lançou um olhar para a pessoa que acabara de falar.
Os desconhecidos? Quem são eles? Afinal, são hóspedes do Zarlt. Além disso, roubaram uma nave do Império. Acho que não poderemos contar com eles. Muito menos acredito que tenham alguma coisa a ver com a morte dos moofs.
É possível que o senhor esteja enganado — disse uma voz forte vinda da entrada. — Não nos julgue antes de conhecer-nos.
As cabeças viraram-se abruptamente. Todos os olhos fitaram os dois homens que, de pé na porta, retribuíam tranqüilamente os olhares. Usavam um uniforme discreto e traziam algumas armas estranhas no cinto.
Rogal reconheceu-os. Muitas vezes vira sua imagem na televisão.
Eram os desconhecidos...
Por um instante o pânico ameaçava apoderar-se dele. Estariam perdidos? Se sua suposição a respeito dos desconhecidos fosse correta, estariam. Acontece que o desconhecido acabara de dizer que talvez estivesse errado.
Decidiu jogar tudo numa única cartada. De qualquer maneira, não tinha nada a perder. Se os desconhecidos haviam localizado o grupo, era porque conheciam seus planos.
Por que veio até aqui? — perguntou, dominando a emoção.
Talvez seja para ajudá-los — disse John Marshall, lendo a dúvida e uma vaga esperança nos pensamentos de Rogal. André Noir, que se encontrava a seu lado, começou a avaliar a resistência dos homens que ali se encontravam reunidos. Levou poucos segundos para descobrir que não teria a menor dificuldade em impor-lhes sua vontade, se as circunstâncias o obrigassem a isso.
Ajudar em quê?
Queremos ajudá-los a voltar a transformar Zalit num mundo em que valha a pena viver. Pelo que vê, estou usando de toda a franqueza. Não quer usar a mesma franqueza conosco?
Como soube dos nossos planos? Afinal, são gente estranha neste planeta, e são inimigos do Império, tal qual o Zarlt. Como poderemos confiar nos senhores?
É que as aparências enganam, Rogal. Para todos os efeitos, o senhor também é considerado um súdito leal de Demesor, mas na verdade é seu inimigo. Por que não poderíamos ser amigos do Império, embora sejamos considerados seus inimigos?
Rogal achou que esses argumentos poderiam ter algum fundamento. Acenou lentamente com a cabeça.
Qual é a prova de sua suposição?
Marshall sorriu.
Os senhores são apenas um dos muitos grupos de resistência espalhados por Zalit. Em geral, não há nenhuma ligação entre os grupos, pois todo mundo tem de cuidar-se por causa dos moofs. Estou disposto a promover o contato entre os grupos, a fim de reunir e fortalecer a resistência. Isso basta para provar minha lealdade e boa vontade?
Não poderíamos admitir que o senhor pretende entregar todos os grupos ao Zarlt?
Para isso não precisaria negociar com os senhores. Conheço todos os grupos e seus chefes. Se quisesse, já estariam presos. Acontece que nosso objetivo consiste em substituir o ditador Zarlt pelo sucessor legítimo do soberano assassinado. E o objetivo dos senhores não é outro.
Rogal percebeu que o desconhecido não estava mentindo. Ainda um tanto indeciso, caminhou ao seu encontro e estendeu-lhe a mão.
Quero confiar no senhor. Se unirmos nossas forças, talvez cheguemos mais depressa ao nosso objetivo. Mas, o que acontecerá com os moofs?
Marshall não tinha a intenção de informar seu interlocutor sobre a verdadeira natureza dos moofs.
Os moofs são aliados do Zarlt. Ajudam-no a controlar os pensamentos de seus súditos. São traidores; logo, têm de ser eliminados. Já começamos a executar essa tarefa.
O rosto de Rogal iluminou-se.
Então é graças a vocês que está havendo essa mortandade entre os moofs. Digam como conseguem fazer isso, pois queremos ajudá-los. Nossa luta só poderá ser bem sucedida quando não houver mais nenhum moof.
Deixem os moofs por nossa conta. Vocês terão outro tipo de trabalho — disse Marshall e fez um sinal para André Noir. — Vocês permitem que eu participe de sua reunião? Encontraremos um caminho...
Rogal concordou com um aceno de cabeça e dirigiu-se para um ponto mais elevado do subterrâneo, de onde abriu a conferência.

* * *

Demorou nada menos de oito horas até que os receptores de hipercomunicação da Titan captassem o impulso concentrado expedido por Deringhouse. Vinham de uma distância de 32 mil anos-luz. Percorriam esse trajeto num instante, atravessando a quinta dimensão. Só retornavam ao espaço normal no momento em que atingiam o receptor.
Deringhouse, que no momento comandava a frota espacial terrana sob as divisas da Terceira Potência, recebera a informação de Rhodan e expediu a seguinte resposta:

Para Perry Rhodan, setor de Árcon.
Tudo calmo em torno da Terra. Nenhuma transição. Frota de prontidão. Boa Sorte.
Deringhouse.

Se quisesse ser sincero para consigo mesmo, Rhodan teria que confessar que um peso lhe saíra de cima do coração. O cérebro robotizado de Árcon ainda não havia tomado nenhuma providência contra a Terra. Ao que tudo indicava a suposição de Thora era correta, se bem que ainda não fora provada. De qualquer maneira, a expedição de Rhodan dispunha de tempo para preparar sua missão com toda calma.
Metade da Titan encontrava-se num hangar subterrâneo e a metade superior foi camuflada. Dessa forma, as naves que o cérebro robotizado enviasse à procura do couraçado roubado teriam poucas possibilidades de localizá-lo.
Isso se ninguém lhe contasse o que realmente estava acontecendo em Zalit...
Não se poderia confiar no Zarlt. Era bem verdade que ainda se encontrava sob o efeito retardado das ordens sugestionadas pelos moofs, mas no fundo de sua mente, seus próprios pensamentos não diferiam muito daqueles que lhe haviam sido impostos. Os moofs não poderiam ter escolhido um instrumento melhor que este. Os objetivos que perseguiam eram os mesmos, embora os métodos talvez fossem diferentes.
Se Zarlt Demesor achasse conveniente prestar um serviço ao cérebro robotizado para obter o reconhecimento do mesmo, não hesitaria um instante em trair Rhodan. Por um instante, Rhodan pensou em influenciá-lo através de seus mutantes, mas logo desistiu da idéia. As novas levas de moofs poderiam chegar a qualquer hora, e se os mesmos percebessem que o outro lado também dispunha de sugestores, a situação se tornaria ainda mais complicada. Os desconhecidos que recorriam aos moofs e aos zalitas para conquistar o Império não deveriam conhecer a força do inimigo.
O operador de rádio já se havia retirado. Bell estava realizando um dos treinamentos de alarma que tanto apreciava. Thora entrou na sala sem que ninguém o notasse. Por um instante parou na porta, contemplando Rhodan que estava sentado na poltrona, mergulhado em pensamentos.
Durante treze anos esse terrano a segurara, impedindo o regresso para Árcon, pelo qual tanto ansiava. Estava plenamente convencida de que nunca poderia permitir esse tipo de comportamento. Mas a esta hora, já não tinha tanta certeza.
O regresso para Árcon transformara-se numa amarga desilusão.
Thora não gostava de lembrar-se disso. As recriminações que pretendia jogar ao rosto de Rhodan nunca chegaram a ser formuladas em voz alta. Reconheceu que Rhodan tivera toda razão ao dizer que os arcônidas eram uma raça decadente e incapaz. A atitude de confiar a responsabilidade pelo império estelar a um cérebro positrônico bastara para definir sua opinião.
Sem virar a cabeça, Rhodan rompeu o silêncio:
A senhora não me perturba, Thora. Chegue mais perto. Quero falar com a senhora.
Thora aproximou-se lentamente. A figura altiva caminhava bem ereta e em seu rosto havia uma expressão indefinível. O cabelo quase branco emoldurava uma cabeça estreita e formava um contraste estranho com a pele morena. Os treze anos durante os quais a mesma ficara exposta à ação do sol terrano deixaram seus vestígios. Em seus olhos dourados havia um brilho que Rhodan nunca havia notado.
Quer dizer que nossas intenções estão em conflito — murmurou Thora.
Ainda bem que isso não acontece com nossas opiniões; ao menos tenho esta impressão — respondeu Rhodan. — Faça o favor de sentar, Thora. Aliás, a senhora estava com a razão. O cérebro robotizado não enviou nenhuma nave à Terra. Será que agiu assim por sua livre vontade, ou será que ainda não conhece a posição de nosso planeta?
A hipótese verdadeira é a última — disse Thora, acomodando-se numa poltrona. — Se conhecesse sua posição, a Terra estaria praticamente perdida. Não tenho a menor dúvida. Um cérebro robotizado não tem sentimentos.
Mas pensa logicamente; ao menos espero que o faça. Devia reconhecer que não sou nenhum inimigo do Império.
Por enquanto o senhor não lhe forneceu nenhuma prova disso. Qualquer indivíduo que não obedeça às suas ordens é considerado um inimigo do Império. E o senhor chegou a roubar-lhe um couraçado.
Acontece que fiz isso para servir ao Império.
Thora esboçou um sorriso de dúvida.
O senhor terá que provar isso ao cérebro. Não acha que será muito difícil, quase impossível fazê-lo?
Rhodan sacudiu a cabeça.
De forma alguma. Os moofs surgiram no momento indicado. Se conseguirmos fazer com que Zalit volte a ser um mundo plenamente leal a Árcon, isso deverá constituir prova de nossa lealdade para com o Império.
O sorriso de Thora aprofundou-se.
Para mim seria, Perry. Não duvido de suas boas intenções. Mas será que o cérebro pensa da mesma forma?
A senhora pensa logicamente, Thora, e o cérebro também. Logo, as conclusões deverão ser iguais. Bem, vamos aguardar. Aliás, eu queria conversar sobre outro assunto.
Depois de ligeira hesitação, disse em tom resoluto:
Quais são seus planos para o futuro?
O sorriso desapareceu do rosto de Thora como se uma mão invisível o tivesse apagado.
Meu futuro...? — uma dúvida a atingiu. — Que futuro poderei ter em Árcon? Minha dinastia praticamente foi extinta. Crest e eu estamos condenados ao ostracismo, se bem que de forma indireta acabaram por reconhecer-nos. Para ser sincera, Perry... se hoje me visse colocada diante da alternativa de continuar a ser uma arcônida ou transformar-me numa terrana, não teria nenhuma dificuldade em fazer a escolha.
Era uma afirmativa surpreendente para quem se lembrasse do orgulho que a arcônida costumava exibir e do desprezo que votava aos bárbaros terranos. A reviravolta era compreensível, mas para Rhodan foi rápida demais. Desconfiou de que houvesse alguma cilada.
Gostaria de ser uma terrana? — disse em tom pensativo, contemplando sua interlocutora. Esta retribuiu o olhar sem o menor constrangimento. Havia nele uma certa súplica, que Rhodan não compreendeu. — Os terranos não são seres muito inferiores à senhora, Thora?
Hoje não são mais, Perry. Às vezes chego a pensar que é exatamente o contrário. O imortal não afirmou coisa parecida?
O imortal...! De repente Rhodan pensou que sabia qual era o verdadeiro motivo da atitude de Thora. O misterioso imortal, um ser incompreensível feito de energia, que vivia num planeta artificial, denominado Peregrino, recusara aos arcônidas a ducha celular revitalizadora. A mesma só fora concedida a Rhodan e a Bell.
Por serem terranos!
O sorriso de Rhodan estava marcado pela amargura.
Compreendo, Thora, mas não sei se conseguirá convencer o imortal.
Thora recuou.
Perry, não pense assim a meu respeito. Não é só a perspectiva da vida eterna que me atrai. Árcon representou uma decepção tão amarga para mim que quase não desejo continuar a viver, quanto mais viver para sempre. Tive mais de um decênio para conhecer os terranos. Vi que em treze anos criaram uma coisa na qual levamos vários milênios. Já refleti sobre a prosperidade que o Império poderia experimentar se não fosse governado pela raça decadente dos arcônidas ou por um cérebro robotizado, mas sim pelos terranos.
Rhodan não respondeu. Sentiu que a arcônida estava dizendo a verdade. O novo curso que estavam tomando os pensamentos da mesma pareceu-lhe tão formidável, que precisou de alguns longos segundos para compreender. Mas as dúvidas logo começaram a surgir de novo.
Nesse caso sua raça teria que ceder sua posição dominante — ponderou. — A senhora é uma arcônida. E claro que no papel a senhora poderá transformar-se numa terrana, mas no fundo do coração continuará a ser o que sempre foi: uma arcônida. Será que esta situação a deixaria feliz?
Mais uma vez, um sorriso esboçou-se no rosto de Thora. Desta vez foi um sorriso mais feminino. Uma expressão suave brincava em torno de sua boca, e seus olhos iluminaram-se.
Feliz? Por que não poderia ser feliz? — perguntou, olhando para além de Rhodan.
Naquele instante, uma mão forte parecia comprimir o coração dele. Teve a impressão de que uma venda caía de seus olhos. Teve que fazer um esforço tremendo para não deixar perceber o que sentia. Examinou discretamente seu rosto, seus olhos. Mas não viu neles nenhuma confirmação de sua tremenda suposição, da qual sabia que era muito mais que uma simples hipótese.
Esteve a ponto de dar uma resposta, quando a porta se abriu com violência e Bell entrou ruidosamente na sala. Por dois segundos, ficou sem fala quando viu Thora e Rhodan, juntinhos, sentados em suas poltronas. Mas logo se controlou.
O exercício de alarma foi concluído! — disse num tom exageradamente militar.
O próximo treino foi marcado para hoje de noite. Os tripulantes já conhecem a Titan como suas algibeiras.
Rhodan parecia despertar de um sonho. Numa atitude ausente fitou Bell e acenou com a cabeça.
Está bem, Bell. O próximo exercício será realizado hoje de noite.
Bell ficou parado.
Houve alguma coisa? — perguntou em tom preocupado.
Rhodan sorriu.
Não, não houve nada; ao menos, não houve nada que pudesse preocupar você.
Ah! — disse Bell, que não estava compreendendo coisa alguma.
Lançou um ligeiro olhar para Thora, sacudiu a cabeça e saiu. A porta foi fechada abruptamente. Seus passos ecoaram pelo corredor.
Rhodan voltou a dirigir-se a Thora. A disposição de pouco antes esvaecera-se. Sua boca estava dura como sempre e em seus olhos já não havia o brilho luminoso que fornecera a primeira indicação a Rhodan. Voltara a ser a Thora que conhecera. Mas sabia que existia outra Thora, da qual teria que cuidar.
Era uma Thora que possuía um coração.

* * *

Gucky e Tama Yokida só voltaram à nave ao anoitecer.
Sua primeira caminhada foi para a sala dos tripulantes, onde Rhodan jantava em companhia de Thora, Crest, Bell e os mutantes. Num canto, o tenente Tifflor e Frank Haggard jogavam xadrez.
O rato-castor fez continência e pousou no traseiro.
Missão especial concluída — anunciou. — Nestes quinze dias, todos os moofs existentes em Zalit foram eliminados, a não ser que exista algum que não conseguimos localizar. Os cientistas estão dando tratos à bola para descobrir como os recipientes de vidro feitos para resistirem à pressão puderam tornar-se porosos, mas receio que não encontraram nenhuma explicação.
E as naves da frota espacial?
Gucky deu de ombros e por pouco não perde o equilíbrio.
Sempre que foi possível, também as controlamos e eliminamos os moofs. É claro que a toda hora algumas naves retornam de vôos de patrulhamento, com moofs vivos a bordo.
Isso também tem de ser evitado — ordenou Rhodan e deu uma palmada nas costas do rato-castor. — Sua missão prosseguirá. Os moofs terão de ser totalmente eliminados. Os seres que os comandam devem acreditar que o clima de Zalit não lhes faz bem. Neste ponto, atribuo à palavra clima um sentido figurado. Quando chegarem as naves que trouxerem novas levas de moofs, as mesmas terão que ser trabalhadas imediatamente.
Será feito — confirmou Gucky e esticou o corpinho. Seus olhos mal alcançavam a mesa posta. — Estou com fome.
Venha cá — chamou Bell, que se encontrava na extremidade oposta da mesa. — Mandei trazer algumas cenouras do frigorífico da Ganymed.
O rato-castor pôs as orelhas de pé e teleportou-se para a poltrona vazia ao lado de Bell.
Dali a dois segundos, Bell estava pendurado no teto, esforçando-se em vão para escapar aos fluxos de energia telecinética expedidos por Gucky. Debatia-se com os braços e as pernas e prometeu que mandaria imediatamente alguém à Ganymed para trazer algumas cenouras, que aquilo não passara de uma brincadeira e...
Gucky não deu a menor atenção às palavras de Bell.
Com um desprezo mortal, roía a carne do osso de um animal que também servia de alimento aos arcônidas.
Teria preferido algumas cenouras.

* * *

John Marshall confirmou as suposições de Rhodan.
As adesões ao movimento de resistência, agora unificado, decuplicaram depois que os moofs começaram a morrer e as forças sugestivas dos mesmos deixaram de agir. Os zalitas odeiam o Zarlt, que mandou assassinar o velho soberano para conseguir o poder. Não gostam da tutela exercida pelo cérebro positrônico estacionado em Árcon, mas têm bastante juízo para preferi-lo ao governo do nosso Zarlt. Sabem que, se este alcançar o poder total, o Império estará perdido, pois conhecem suas fraquezas.
Os zalitas são um povo notável — confirmou André Noir, o hipno. — Não há necessidade de influenciar os homens que acabam de ser libertados dos moofs, a não ser que se trate de oficiais ligados ao Zarlt. Estes bem que precisariam de um tratamento.
Por enquanto não! — advertiu Rhodan. — Quero que os zalitas decidam livremente. Quero que o Zarlt prossiga no seu jogo, sem saber que somos nós os responsáveis pela morte dos moofs. Quero que continue a acreditar que somos inimigos do Império e que nos escondemos do cérebro robotizado.
John Marshall procurou investigar os pensamentos de Rhodan, mas sentiu-se decepcionado quando esbarrou numa barreira impenetrável. Rhodan brindou-o com um sorriso.
Bell, que já fora descido por Gucky de sua posição incômoda junto ao teto, disse em tom desconfiado:
Admitamos, Perry, que consigamos colocar as classes dominantes dos zalitas sob a nossa influência. Fariam o que queremos. De uma hora para outra a brincadeira teria um fim e Zalit seria um planeta livre. O cérebro robotizado nos deveria um favor...
...e ficaríamos sem saber quem está atrás do plano de destruir o cérebro. Não, assim não é possível. O Zarlt deverá continuar livre para agir segundo seu arbítrio, pois do contrário os seres que manipulam o jogo desconfiarão. Quero desmascará-los, sejam eles quem forem. O Zarlt não passa de um boneco. Se cortarmos os fios nos quais está pendurado, jamais saberemos quem o faz dançar. Vamos neutralizar os moofs. Também apoiaremos o movimento de resistência. Mas isso é tudo que podemos fazer, ao menos por enquanto.
Pelo que vejo, você acha que o Zarlt deve executar seu plano para que...
Não, apenas deve dar os primeiros passos para sua execução. No momento em que a pessoa que manipula o marionete tiver sido descoberta, daremos nosso golpe e salvaremos o Império. É só o que quero.
Quer dizer que o senhor está decidido a salvar o Império? — interveio Crest.
Em sua voz não soava a mais leve das dúvidas.
Isso mesmo — confirmou Rhodan.
Crest olhou-o em cheio.
Para quem? — perguntou em tom amável.
Rhodan não respondeu. Apenas retribuiu o sorriso com a mesma amabilidade.
6



Foi a segunda visita que o Zarlt Demesor fez à Titan.
Não veio só. Trouxe alguns oficiais que na opinião de Rhodan formavam um tipo de guarda pessoal.
O Zarlt não conseguiu disfarçar inteiramente o seu nervosismo. Continuava a mostrar-se amável e solícito, mas via-se que nuvens negras desenhavam-se no horizonte do futuro que planejava. Evidente que não sabia nada sobre o papel decisivo que os moofs desempenhavam. Para ele não passavam de auxiliares na luta contra o crescente descontentamento que lavrava entre o povo. Como poderia controlar os pensamentos recônditos de seus súditos, se não podia contar com os dons telepáticos dos moofs?
Foi ao encontro de Rhodan, que o esperava na sala dos oficiais. Não deu a menor; atenção a John Marshall, que se mantinha à distância, e nem desconfiava de que, naquele instante, seus pensamentos e suas intenções estavam sendo submetidos a um exame minucioso.
Já se passou muito tempo desde que o senhor veio ao nosso mundo — principiou a palestra logo após os cumprimentos. — O senhor insiste em manter silêncio; não quer revelar como conseguiu romper a barreira exterior de Árcon.
Rhodan esboçou um sorriso frio.
O senhor acha que isso é muito fácil, Zarlt Demesor. Devo preveni-lo de que, mesmo se o conseguisse, ainda se encontraria com a enorme frota dos arcônidas, sem falar nas unidades dirigidas por robôs, que o cérebro lança à luta independentemente da frota. Não acredito que o senhor teria qualquer chance de conquistar o Império.
Quem lhe diz que pretendo conquistá-lo? Apenas quero libertá-lo do governo arbitrário exercido por uma máquina. Mais nada.
Sua intenção é muito louvável admitiu Rhodan. — Quer que eu o ajude a executá-la?
Naturalmente. O cérebro não é seu inimigo? Não o persegue como um inimigo mortal? Não vejo nenhum motivo que possa impedi-lo de ser meu aliado.
Apenas a prudência poderia impedir-me, Zarlt. Outro detalhe: como é a disposição de seu povo? Pode contar com o apoio integral do mesmo?
O Zarlt fez um gesto seguro.
Posso, sim. Nossa raça ama a paz, mas está disposta a lutar quando sua liberdade está em jogo.
Rhodan lançou um ligeiro olhar para Marshall. A comunicação entre ambos não foi notada. O Zarlt estava mentindo. Sabia perfeitamente que a maioria do povo zalita era contra ele. Ninguém concordava com o plano de atacar o cérebro robotizado.
Não tenho nada a ver com os assuntos internos de Zalit — disse Rhodan. — No momento adequado, mostrar-lhe-ei como atravessei a barreira que defende Árcon. No momento adequado, Zarlt; nem um segundo antes.
Uma sombra de contrariedade passou pelo rosto marrom-avermelhado que se exibia sob a cabeleira cor de cobre. Porém Demesor mostrou um excelente autocontrole.
Tenho tempo. Posso esperar até que sua confiança se consolide. Para comemorar nossa amizade realizarei hoje de noite uma festa no palácio vermelho. O senhor e sua oficialidade estão convidados. O senhor já se encontra em nosso mundo há trinta dias, e ainda não teve oportunidade de conhecer os zalitas em festa. Aceita o convite?
Por que não? Quantas pessoas poderei levar?
É evidente que isso fica ao seu critério. Acredito que só queira levar seus amigos mais íntimos. Outro detalhe: hoje recebi a visita de um mensageiro de Árcon, que realizou certas investigações. O cérebro robotizado dispõe de certos dados pelos quais se conclui que o senhor fugiu nesta direção. Neguei terminantemente que o senhor tenha sido visto no interior do nosso sistema.
Fico-lhe muito grato — disse Rhodan, embora já soubesse que o Zarlt lhe contara uma mentira. Nenhum mensageiro chegara a Zalit naquele dia para fazer uma afirmativa dessas. E o coordenador robotizado não tinha a menor indicação sobre a direção que Rhodan tomara com a nave roubada.
Mandarei dois carros — prometeu o Zarlt. — Da festa participarão exclusivamente membros do governo. Peço-lhe que considere este fato na escolha das pessoas que o acompanharão.
Rhodan prometeu atender ao pedido, embora não tivesse a menor intenção de modificar a decisão já tomada. Estava interessado em dar uma sensação de superioridade ao Zarlt. Queria que o mesmo se sentisse forte e confiasse no êxito do seu empreendimento. Rhodan não sabia se os grandes desconhecidos que manipulavam o jogo tinham espiões em Zalit, e quem seriam eles. Era possível que os moofs representassem o único elemento de ligação entre eles e o Zarlt. Mas também era possível que não fosse assim.
O Zarlt passou a dedicar sua atenção a outros assuntos e manifestou o desejo de conhecer a nave. Rhodan não teve nenhuma objeção. Avisou Bell, que se sentiu muito satisfeito com a tarefa, pois esperava embelezar sua existência monótona com algumas brincadeiras.
Rhodan pretextou o volume de serviço para ficar a sós com Marshall, que o informou sobre os pensamentos recônditos que atravessaram a mente do Zarlt e de seus oficiais.
Constatou que Demesor não introduzira qualquer modificação em seus planos, embora já estivesse livre da influência dos moofs.
Continuava firme no propósito de destruir o cérebro robotizado e assumir o lugar de Imperador do enorme reino estelar dos arcônidas.

* * *

Bell ficou muito triste ao saber que teria de ficar na Titan. Rhodan explicou-lhe que a nave não poderia ficar desprotegida. Ele, Bell, conhecia todos os recantos da mesma, e por isso seria o homem indicado para assumir o comando, se houvesse algum imprevisto.
Essa explicação representou um pequeno consolo para Bell. Suas queixas tornaram-se menos violentas, embora não cessassem de todo. Rhodan agiu com a maior cautela ao escolher as pessoas que o acompanhariam. Além de Thora, Crest e o Dr. Haggard, levou os mutantes John Marshall, Ras Tschubai e André Noir. Eram sete pessoas ao todo.
O teleótico Ralf Marten descansava em seu camarote, enquanto seu espírito se encontrava no palácio vermelho. Assumiu o corpo de um certo Milfor, que figurava como responsável pelo armamento da frota de Zalit. Vendo e ouvindo pelos olhos e ouvidos do inimigo, participava da festa e, se necessário, avisaria Bell assim que surgisse qualquer novidade.
Rhodan, Thora e os mutantes acomodaram-se no primeiro carro. Frank Haggard e Crest tomaram o segundo carro. Os dois homens sentiam-se ligados por uma forte amizade, cuja origem talvez residisse no fato de que fora Haggard quem há treze anos salvara Crest da morte certa pela leucemia. O médico australiano era especialista em doenças do sangue e descobridor do soro que curava a terrível doença, que já não apavorava a população da Terra.
O fato de irem sós no carro não era um simples acaso. Crest providenciara para que isso acontecesse, e pouco lhe importava que isso provocasse ou não alguma desconfiança em Rhodan. Thora também estava muito interessada em que Crest ficasse a sós com Haggard.
O carro de Rhodan partiu; o outro carro seguiu-o.
Crest disse em inglês:
Quero falar com o senhor, Frank. Na nave, dificilmente teria oportunidade para isso. Mesmo aqui teremos que ter cuidado, pois é possível que Marshall nos esteja vigiando. Peço-lhe que isole seus pensamentos. Gostaria de formular-lhe uma pergunta cuja resposta significa muita coisa para mim e para Thora.
Que introdução solene! — gracejou Haggard, contemplando o céu crepuscular de Zalit. Ali estavam eles, a 34 mil anos-luz da Terra, desenvolvendo sua atividade num planeta estranho a fim de impedir que o cérebro robotizado de Árcon fosse destruído. Era uma situação intrincada, que certamente só Rhodan poderia compreender. — Pode falar; sou todo ouvidos.
Não se espantará com minha pergunta? — certificou-se Crest, cauteloso.
De forma alguma. Pergunte.
Crest deixou que alguns segundos se passassem. Sua lembrança recuou ao instante terrível em que se viu juntamente com Rhodan diante do imortal, pedindo a dádiva da vida eterna. Há milênios a lenda do planeta da vida eterna corria por Árcon, e a lenda acabou por transformar-se em realidade no momento em que ele, Crest, e Rhodan descobriram o planeta.
Foi então que o imortal, um ser surgido da espiritualização de toda uma raça, declarou que a vida eterna estava reservada exclusivamente aos terranos. Os arcônidas, acrescentou, já tinham a vida atrás de si, e não serviram para nada. Para que aumentar o tempo de vida natural de alguém que nada soubera fazer de sua existência? Ele, o imortal, não via nenhum motivo para isso.
Naquela oportunidade, Crest conformara-se com o veredicto sem esboçar a menor reação, embora seu orgulho tivesse sofrido um forte arranhão. Com Thora, as coisas não foram diferentes. O dom da imortalidade relativa só fora concedido a Rhodan, o terrano, e ainda a Bell, para quem nada era sagrado.
Crest falou. Como se gemesse:
Frank, o senhor acredita que com os recursos de que dispõe poderia iniciar e levar avante uma renovação geral das células do corpo humano?
O Dr. Haggard reclinou-se no assento o lançou um olhar perscrutador para Crest.
Naturalmente os acontecimentos do planeta Peregrino já eram do seu conhecimento. Também sabia que Rhodan estava em condições de conferir o dom da imortalidade relativa a qualquer terrano, desde que o apresentasse ao imortal. Mas os dois arcônidas haviam sido excluídos do benefício.
Por quê? Thora e Crest não haviam provado suficientemente que não foram atingidos pela degenerescência geral de sua raça e possuíam quase a mesma força de vontade e atividade dos terranos? Talvez ainda teriam uns cinqüenta ou cem anos de vida, mas o que representava isso quando a história dos próximos milênios estava em jogo.
De repente, Haggard compreendeu como deve sentir-se uma pessoa condenada à morte. Mas não era verdade que todo homem está condenado à morte desde o momento em que nasce?
Por que faz essa pergunta, Crest?
Apenas quero saber se existe essa possibilidade, Frank. Há um meio de dispensar a colaboração do imortal?
Haggard contemplou a traseira do carro que ia à frente.
Com isso não só estaríamos dispensando a colaboração do imortal, mas passaríamos Rhodan para trás. Já se deu conta disso?
Não. Apenas queremos alcançar a imortalidade pelos caminhos da medicina, não como uma dádiva de um ser inconcebível feito de bilhões de outros seres. Se conseguirmos descobrir o segredo da renovação celular, não estaremos passando ninguém para trás. Aquilo que conquistarmos com o nosso trabalho é nosso.
Desde quando está pensando nessa possibilidade? — perguntou Haggard.
Crest fechou os olhos.
Há bastante tempo. Para falar exatamente, desde o momento em que o sargento Harnahan encontrou numa das luas do sol Tatlira um ser que tem um milhão de anos.
Haggard confirmou com um gesto. Estava lembrado.
Não sabemos absolutamente nada a respeito desse ser que tem o aspecto de uma esfera e se alimenta com a luz das estrelas. Talvez não tenha uma estrutura orgânica, motivo por que os pressupostos...
Sabemos que é mais velho que qualquer das civilizações hoje existentes — disse Crest com uma estranha ênfase. — Ainda sabemos que sobreviverá a nós e às nossas civilizações. Será que isso não basta?
O que quer dizer com isso?
O que quero dizer é que talvez não seja tão mesquinho como o imortal. Afinal, pediu nosso auxílio. Poderíamos dá-lo em troca de um preço. Esse preço seria o segredo de sua imortalidade. Não acha que seria uma proposta razoável?
Haggard acenou lentamente com a cabeça.
Já compreendi o que quer dizer. É possível que nos revele seu segredo, mas não saberemos fazer nada com ele, pois somos seres orgânicos. O senhor seria capaz de alimentar-se com a luz do sol?
Não — disse Crest em tom triste, mas seus olhos emitiam um brilho estranho. — Mas sei que sem essa luz não viveria mais. Talvez exista alguma ligação.
Haggard viu o funil vermelho do palácio que surgia à distância. Holofotes coloridos mergulhavam-no num fogo frio, envolvendo-o como gigantescos diademas.
É possível — confessou num cochicho. — Ainda teremos que conversar a respeito. Talvez haja uma esperança para o senhor. Para o senhor e para Thora.

* * *

Enquanto os discursos eram desfiados e os hóspedes dos zalitas recebiam os cumprimentos, Marshall e Noir não se mantiveram inativos. O telepata controlou ininterruptamente os presentes e constatou que todos eram vassalos fiéis do Zarlt. Por coincidência, também descobriu os assassinos do velho Zarlt. Eram pessoas que ocupavam os mais altos cargos do atual governo; entre eles havia alguns oficiais da frota, a cujo quadro pertencia Demesor.
Enquanto isso André Noir examinou os cérebros dos presentes, para verificar se ainda restava algum bloqueio hipnótico. Não se poderia pensar mais na influência dos moofs. Os zalitas eram livres, mas mantinham-se fiéis ao plano anterior.
Por enquanto Ras Tschubai não tinha o que fazer. Encontrava-se num ponto mais isolado. Quase todos o admiravam pela cor quase negra de sua pele. Não se notava qualquer tipo de incompatibilidade racial. Neste ponto os zalitas chegavam a ser mesmo superiores aos terranos, que ainda carregavam esta pesada herança.
Crest e Thora mantinham uma atitude reservada; eram principalmente Rhodan e Haggard que entretinham as conversas.
Noir estava conversando com Cenet, chefe de armamentos da frota, quando os impulsos atingiram o setor telepático de seu cérebro. Infelizmente não conseguiu concentrar-se para entender a mensagem, pois o oficial formulava perguntas e logo queria a resposta. Só uma mensagem telepática de socorro despertou a atenção de André Noir que, como hipno, conseguiu sentir esses impulsos, embora não soubesse interpretá-los.
Contando com o apoio de Noir, Marshall finalmente pediu licença e retirou-se para um canto mais tranqüilo da sala enfeitada, onde pôde dedicar sua atenção aos impulsos que estava captando. De início, pensou que se tratasse de moofs recém-chegados, que procuravam restabelecer o contato, mas logo percebeu seu engano.
Eram zalitas.
E naquele instante estavam dominando os guardas e penetrando no palácio.

* * *

Rhodan estava conversando com o Zarlt, quando percebeu o sinal de Marshall. Pensou:
É muito importante?”
A resposta veio sob a forma de um aceno de cabeça.
É tão importante que devo deixar o Zarlt a sós?”
Mais uma vez Marshall acenou com a cabeça.
Rhodan pediu licença e atravessou a sala. Marshall seguiu-o. Encontraram-se numa sala vazia.
O que houve, John?
São os rebeldes! Dominaram os guardas e estão penetrando no palácio aos montes, para matar o Zarlt e seus adeptos. A ação está sendo dirigida por meu amigo Rogal. Dizem que seremos poupados ao morticínio.
Onde está Noir? Deverá intervir antes que seja tarde. Se o Zarlt tiver conhecimento do ataque, dificilmente poderemos salvar Rogal e seus amigos.
Rogal conta com o nosso apoio.
Não podemos permitir-nos agir em seu apoio. Lembre-se de que não se trata apenas do Zarlt. Preciso conhecer os indivíduos que estão manobrando o Zarlt, e isso será impossível caso seus planos se frustrarem antes do tempo. Onde está Noir?
Está falando com Cenet, um dos oficiais.
Vá buscá-lo; depressa!

* * *

A bomba que se encontrava na mão de Rogal estava engatilhada. Apenas uma ligeira pressão de seu polegar sobre o detonador impedia sua explosão. Se Rogal fosse morto, o efeito da bomba seria tamanho que seu matador o acompanharia para a morte.
Dois dos seus companheiros haviam aniquilado o guarda que se encontrava à esquerda da entrada. Um deles ocupou o lugar do morto. Do lado direito já havia um rebelde que montava guarda.
Os rebeldes entraram no palácio sem que ninguém os impedisse. Não havia nenhum moof que pudesse denunciá-los. Os zalitas não eram telepatas.
Mais dois guardas foram dominados numa ação silenciosa. Já se ouvia bem ao longe o murmúrio de vozes vindas do salão de festas que ficava ao nível do solo. Alguém estava fazendo um discurso.
Rogal esboçou um sorriso frio, enquanto fazia um sinal aos seus seguidores e continuou a avançar. Penetraria no salão e pediria aos desconhecidos vindos de um outro sistema solar que se retirassem imediatamente do palácio. Depois disso soltaria a bomba.
Zalit voltaria a ser um mundo livre.
No corredor notou-se um movimento. Um vulto saiu da porta que dava para o salão. Sem demonstrar o menor receio, aproximou-se dos rebeldes.
Rogal reconheceu André Noir, mas a pessoa que se encontrava a seu lado lhe era totalmente estranha.
O rebelde parou e esperou. O corredor estava bem iluminado, de modo que se viam perfeitamente os desconhecidos. O homem que se encontrava ao lado de Noir despertou todo o interesse de Rogal. Aquele vulto alto e esguio insuflou em Rogal um respeito que ele mesmo não soube explicar, e que tentou espantar com um gesto da mão. Não conseguiu.
E não havia nada de extraordinário nesse homem. Não havia dúvida de que os olhos em que ardia um fogo frio e cinzento chamavam a atenção, da mesma forma que a boca com os lábios estreitos. E, mais que tudo, os movimentos tranqüilos e dominadores com que se aproximou, sem dar a menor atenção à perigosa bomba que se encontrava na mão do rebelde.
Noir parou a alguns passos de Rogal.
Meu chefe quer conhecê-lo, Rogal. Este é Rogal, Perry Rhodan.
Rogal já ouvira o nome dos lábios de Noir e Marshall. Rhodan era o chefe da expedição que roubara a nave dos arcônidas. Aparentemente era um inimigo do Império, mas Marshall ressaltara que no íntimo estava ao lado dos zalitas livres.
Fosse como fosse, Rogal não dava muito valor à diplomacia. Seu punho cerrou-se em torno da bomba. Uma expressão teimosa desenhou-se em seu rosto.
Vim para fazer justiça — disse com a voz dura, fitando os olhos cinzentos de Rhodan. — O Zarlt deve morrer.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
É claro que deve morrer, mas não hoje, Rogal. A hora ainda não chegou. É bem possível que outros terminem a obra que você iniciou. Se o Zarlt morrer hoje, o mesmo processo se repetirá dentro de poucos anos.
Por quê?
Rhodan não pretendia transmitir suas suposições ao zalita. Afinal, Rhodan não sabia nada sobre a tarefa dos moofs. Nem sobre aqueles que se encontravam por trás deles.
Mais tarde explicaremos, assim que tiver chegado o momento de agir. Vá para casa, antes que o Zarlt fique sabendo do atentado que está sendo planejado. Neste momento, não posso fazer nada por vocês.
Rogal hesitou.
Como foi que o senhor soube?
Rhodan sorriu.
Acontece que soubemos, Rogal. Cumprimentou-o com um gesto amável e deu-lhe as costas. Sem prestar a menor atenção àquilo que acontecia atrás de suas costas, caminhou em direção ao fim do corredor e voltou a entrar no salão de festas.
Noir ficou a sós com o outro. Estava disposto a usar seu dom, mas preferiu esperar até que isso se tornasse absolutamente necessário.
Rogal olhou para a bomba. Ao seu lado encontravam-se os companheiros, que não recuariam diante de nada. Em suas mãos brilhavam armas mortíferas.
Então? — perguntou Noir. — Querem usar de inteligência e esperar, ou preferem colocar a violência antes da inteligência?
Inteligência? — resmungou Rogal. — Quer que desistamos, agora que conseguimos eliminar os guardas? Não seria uma covardia? Não sei quando teremos outra oportunidade como esta. Não, meu caro, ninguém nos deterá. Dou cinco minutos a você e aos seus amigos, para que saiam do prédio. Depois disso a bomba vai explodir. O Zarlt precisa morrer.
Noir percebeu que sua força de persuasão havia chegado ao fim. Nem mesmo Rhodan conseguira. Portanto, não teve outra alternativa senão colocar um bloqueio pós-hipnótico nos rebeldes, que os faria esquecer tudo que havia acontecido.
Foi assim que apenas vinte segundos depois Rogal e seus amigos bateram em retirada, numa retirada que não saberiam explicar a ninguém, muito menos a si mesmos.
No dia seguinte, quando começou a correr a notícia do assassínio dos guardas do palácio, ninguém se espantou mais com isso que o próprio Rogal.

* * *

Não compreendo mais nada — protestou Bell e lançou um olhar recriminador para Rhodan. — Aparecem outras pessoas que querem fazer o trabalho por nós, e você as impede. Ficaríamos livres de todas as preocupações, e o cérebro robotizado também. Zalit ficaria livre e se manteria fiel ao Império...
...e você acredita que o cérebro robotizado perceberia que isso foi devido exclusivamente a nós? — retrucou Rhodan. — Nada disso; nossa situação continuaria inalterada. Aos olhos da máquina positrônica continuaríamos a ser um inimigo. Será que o apoio a uma pequena rebelião é um serviço tão relevante? Para provarmos nossa lealdade ao Império, teremos que impedir um ato cuja execução representasse ao menos a destruição do cérebro robotizado.
Pois é o que o Zarlt pretende fazer.
Rhodan sorriu.
Mas não conseguirá; ao menos, não o conseguirá sem o nosso auxílio e o dos moofs. O Zarlt não passa de um incapaz dotado de um pouquinho de inteligência. Nas mãos dos moofs, transforma-se num vulcão que pode destruir tudo. Como vê, temos que aguardar, nem que demore semanas. É a vez do inimigo.
Bell viu os gestos de concordância dos outros e desistiu da apresentação de mais argumentos. Rhodan devia saber o que estava fazendo.
Gucky atravessou a sala e segurou a mão de Bell.
Quando será o próximo exercício de alarma? Pelo que ouvi dizer, desta vez o exército de mutantes participará do mesmo.
O rosto de Bell iluminou-se. A idéia de tanger os mutantes pelos milhares de compartimentos da nave deixou-o alegre. Sorriu.
Daqui a dez minutos, Gucky. Peço que todos apareçam pontualmente e bem lavados. Além disso, mando que...
Infelizmente foi interrompido por Rhodan.
Desculpe, Bell, mas o próximo exercício será dirigido por mim. Todos participarão, inclusive você. Precisamos aprofundar ainda mais o nosso conhecimento da nave.
Mas...
Não há nenhum mas. Se você der uma boa lavada no peito, isso não lhe fará nenhum mal. Não foi isso que você recomendou a Gucky?
O sorriso desapareceu do rosto de Bell.
...lavar o peito? — gaguejou perplexo.
Depois sacudiu a cabeça e, abatido, saiu da sala a fim de preparar-se para o exercício.
Só gostava do exercício quando podia dirigi-lo a partir da sala de comando.

* * *

Orbson, o oficial zalita que comandava a patrulha espacial no setor de Voga, recebeu a carga na periferia do sistema. A pesada nave transportadora acabara de emergir do hiperespaço, e dentro de poucos segundos voltaria a mergulhar, tomando direção desconhecida. A missão secreta que tinha que executar o levaria a um sistema solar distante, onde havia um planeta de gravitação duplicada.
Era nesse planeta que viviam os moofs.
Orbson sentiu uma forte repugnância ao contemplar os numerosos recipientes de vidro. Não gostava desses seres com o formato de uma medusa, mas alguma coisa o obrigava a não demonstrar sua repugnância. Sem dúvida os moofs não tinham nada que lembrasse um ser civilizado, mas já se revelaram úteis. Além disso, o Zarlt ordenara importação de mais dois mil desses seres, assim que morreram os que existiam em Zalit. As velhas redomas de vidro foram inutilizadas.
Por isso Orbson não se preocupou mais com o assunto.
Sua repugnância desapareceu tão depressa como havia surgido. Sem que o soubesse, estava submetido aos comandos sugestivos dos moofs, que por sua vez haviam recebido novas instruções antes de saírem de seu mundo.
Ainda haviam recebido a promessa de que no futuro desempenhariam um papel importante no Império Arcônida.
A transferência da carga foi realizada sem o menor incidente. A nave de Orbson regressou para Zalit, enquanto a nave transportadora voltou a popa para o sol Voga e mergulhou nas profundezas do espaço.
Mais uma vez os desconhecidos estendiam as mãos em direção ao Império.
Zalit ainda não estava livre dos moofs.

* * *

Isto não é uma nave espacial, mas um planeta — voltou a fungar Bell espavorido, deixando-se cair no elevador antigravitacional. O tenente Tifflor seguiu-o, conforme era seu costume. Enquanto a queda era freada pelos campos energéticos invisíveis, falou:
O senhor não disse isso há alguns dias?
Bell aterrizou e dirigiu-se ao corredor. A voz de Rhodan soou de um dos alto-falantes:
Alarma de combate! Guarnecer todas as posições. Ensaio de alarma. Ocupar imediatamente todas as posições.
Bell resmungou:
Nossa posição é D-135. Sei lá o que quer dizer isto. Fica neste andar, a uns oitocentos metros daqui. Vamos andando.
Correram por um corredor que descrevia uma curva ligeira para a esquerda, já que a fita transportadora não estava funcionando. Tifflor praguejou baixinho. Bell soltou um palavrão e lembrou-se de suas funções de dirigente dos alarmas anteriores. Ali a coisa foi muito mais divertida.
Um vulto aproximou-se, vindo da esquerda.
Era Ras Tschubai.
Bell respirou aliviado.
Ei, Ras. Não quer dar-me uma ajuda? Poderia levar-me ao D-135, que também é seu posto.
Isso não seria justo — gritou Tiff e passou correndo por Bell.
Bell parou.
Então, Ras? Sempre fomos bons amigos. Você é um teleportador e poderá estar lá num segundo. Já eu com estas pernas curtas...
Pernas tortas — disse uma voz vinda de cima.
Bell praguejou e pôs-se a correr. Ras seguiu-o com um olhar de espanto. Sacudiu a cabeça, lançou um olhar assustado para o pequeno alto-falante embutido no teto. Desmaterializou-se e saltou para o setor D-135, onde aguardou tranqüilamente a chegada de Bell.
Este chegou após cinco minutos, fungando e gemendo. Lançando um olhar zangado para Tiff, que já estava agachado atrás, dos controles do desintegrador, ocupou seu lugar.
Ouviu-se um estalido, e a voz de Rhodan disse:
Excelente. Dentro de dez minutos conseguimos colocar a nave em posição de combate. Amanhã conseguiremos em nove minutos.
Depois de uma ligeira pausa, prosseguiu:
A gente devia ser um teleportador, não acha, Bell? Especialmente quem tem pernas tão curtas...
O principal é que sejamos felizes — resmungou Bell sem entrar no assunto.
Sabia perfeitamente o que o aguardava.
No dia anterior, durante o primeiro alarma, proibira aos teleportadores que fizessem uso de seu dom. E quando Gucky, que detestava andar, foi o último a atingir o lugar que lhe fora destinado, Bell debochou do mesmo, culpando suas pernas curtas pelo insucesso.
Dessa forma a gente paga tudo que faz, e não apenas na Terra.
Se o rato-castor soubesse do incidente e ouvisse que o próprio Bell confessara... Não! As conseqüências seriam inconcebíveis.
Naturalmente Gucky soube...

* * *
* *
*





Os astronautas da Terceira Potência conseguiram enganar o gigantesco cérebro positrônico que governa Árcon, e ainda se encontram de posse da Titan, mas A Luta Contra o Desconhecido representou uma prova flagrante de que é muito importante ser amigo, não inimigo do cérebro positrônico...
Como será que Perry Rhodan consegue isso? Em O Aliado do Gigante, título do próximo volume, Perry Rhodan revela a resposta.

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