quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-049 - A Morte da Terra - ClarK Darlton [parte 1]


Autor
CLARK DARLTON



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
O fim de uma época — a Terra
mergulha no mar do esquecimento.

História da Terceira Potência em poucas palavras:

O foguete Stardust alcança a Lua e Perry Rhodan descobre a nave exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência (vol. 1).
Instalação da Terceira Potência contra a resistência das grandes potências terrenas e defesa contra tentativas de invasão extraterrena (vols. 2 a 9).
Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos. Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o enigma galático (vols. 10 a 18).
A Stardust-III descobre o planeta Peregrino e Perry Rhodan alcança a imortalidade relativa (vol. 19).
Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24).
O Supercrânio ataca (vols. 25 a 27).
Chegada dos saltadores, que pretendem eliminar a concorrência potencial da Terra no comércio galático (vols. 28 a 37).
Primeiro contato de Perry Rhodan com Árcon e atuação como delegado do cérebro positrônico que exerce o governo no grupo estelar M-13 (vols. 38 a 42).

Os saltadores planejaram a destruição da Terra. Essa destruição é também do interesse de Rhodan. Naturalmente não a destruição da verdadeira Terra, o planeta pátrio da Humanidade. Mas, sim, o terceiro planeta desabitado do sistema Beta.
A programação alterada da positrônica de bordo da nave de Topthor levou os saltadores à falsa Terra...
E o espetáculo da destruição da Titan deve ser assistido por todos os seres inteligentes da Galáxia, para convencê-los realmente que a Terra e Rhodan não existem mais...




= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Administrador da Terra e comandante da Titan.

Major Deringhouse — Intrépido comandante do cruzador Centauro.

Al-Khor — Comandante supremo das forças tópsidas no sistema Beta.

Ber-Ka — Corajoso e pretensioso oficial tópsida que derrubou a nave de Topthor.

Cekztel — Quer destruir a Terra, mas confunde-a com um planeta de Beta.

Topthor — O grande idealizador da guerra de destruição da Terra.

Gucky — Com três poderes parapsicológicos é uma peça indispensável da vitória.

1



Fora da relação tempo-espaço, definida por Einstein, todas as leis da natureza que conhecemos perdem a validade no hiperespaço. A noção de tempo desaparece e as distâncias infinitas se reduzem a um ridículo nada.
No infinito do Universo, decorrera apenas fração de um segundo, quando Perry Rhodan deu um salto de dez mil anos-luz com a sua poderosa esfera espacial Titan, para o interior da Via Láctea.
Num piscar de olho, o Sol se reduziu a uma minúscula estrela, que apenas os mais sensíveis telescópios eletrônicos eram capazes de perceber, no emaranhado imenso de corpos celestes. Mesmo o sol Beta, o olho gigantesco vermelho, parecia quase apagado. Já estava a 9.728 anos-luz da Titan, na direção da Terra.
Diante da supernave, porém, jazia o espaço infinito, com seus sistemas habitados e desabitados... e com seus perigos.
Perry Rhodan estava sentado em frente à tela panorâmica que lhe proporcionava uma visão simultânea de todo o espaço. A seu lado, Reginald Bell, seu melhor amigo e companheiro, passava a mão na nuca para minorar a dor da transição. Depois ajeitou as cerdas eriçadas de sua cabeleira vermelha e esfregou os olhos para ver melhor. A Titan avançava para dentro do emaranhado de estrelas, porém, agora quase que se “arrastando” a uma velocidade que mal atingia 0,9 da velocidade da luz. Nesta aceleração, levariam anos para atingir a próxima estrela.
Espero que os interessados tenham ouvido o estrondo durante a rematerialização, Bell — disse Rhodan, acenando na direção da porta da central de rádio. — Saberemos em breve.
Por toda parte, nas Galáxias, existem rastreadores estruturais, que registram qualquer transição no hiperespaço. Nós não nos utilizamos do compensador estrutural durante o salto, portanto devem ter ouvido o estrondo no mesmo instante, mesmo na distância de dez mil anos-luz.
Agora é que começa o quebra-cabeça das conjeturas, meu amigo. Os comerciantes das Galáxias pensarão que somos os terranos, no que, aliás, estão certos. Permita Deus que os tópsidas, de acordo com os planos, também nos considerem comerciantes das Galáxias.”
Vamos reforçar um pouco a opinião deles — prometeu Bell, que era baixo e meio pesadão. Mas Bell, realmente, não tinha nada de pesadão e isto valia também não só no sentido físico. — Os sáurios de Topsid têm de supor que nós somos saltadores, pois acreditam que viemos do lado oposto. Com os saltadores é diferente, eles vêm das profundezas da Via Láctea e acreditam que nossa Terra esteja no sistema do sol Beta, onde os tópsidas tentam se estabelecer. Já que os saltadores tencionam destruir a Terra, os habitantes do sistema Beta vão intervir e atacá-los. Haverá então uma guerra, a que vamos assistir de camarote, se quisermos atingir nosso grande objetivo. Maravilhosamente engendrado, não é?
Sim, por Deringhouse e McClears, com os quais, finalmente, temos que manter contato. Onde estarão agora os dois cruzadores?
Bell Interpretou a pergunta como uma ordem indireta e se levantou.
Está bem, vou me informar a respeito. Rádio cifrado?
Naturalmente — confirmou Rhodan, e continuou olhando para o painel panorâmico, embora não houvesse nada para ver, de maior interesse. — Determinar a posição e pedir um relatório da situação. Eu irei pessoalmente falar com Deringhouse. Nada, de imagens, para os telespectadores clandestinos não pegarem nada. É bom que a Terra permaneça um pouco no esquecimento.
Em compensação, metade do Universo se movimenta por causa dela — disse Bell sorrindo, enquanto atravessava a cabina semi-esférica para entrar na sala de rádio, que ficava ao lado. — Alô, Martin, dormiu bem?
O cadete Martin fez um gesto que sim, sem se virar, estava sentado diante dos aparelhos, observando o resultado de alguns números em escalas coloridas. Uma tela oval apresentava reflexos cintilantes que percorriam a tela convexa, aparentemente sem sentido. Não se compreendia nada, naquela confusão de sinais. De um alto-falante, ouviam-se estalos.
Salto bem sucedido, senhor. Nenhum sinal de rádio até agora, que se refira a nós.
Envie uma mensagem por hiperrádio a Deringhouse, na direção de Beta. Em código cifrado sistema H-V trinta e três, positronicamente. Major Deringhouse deve dar sua posição e se preparar para fazer um relatório. O chefe quer falar diretamente com ele. Avise, assim que conseguir contatá-lo.
Certo, senhor, tudo será feito.
Bell ainda ficou olhando por uns instantes como o operador-chefe ligou a instalação, registrou a mensagem no aparelho de decodificação e depois a gravou em fita magnética que começou a retransmiti-la. O texto seria repetido tantas vezes até que viesse resposta na mesma freqüência. Isto poderia levar horas ou apenas minutos.
A mensagem está correndo — disse Bell a Rhodan, voltando à sua poltrona de primeiro-oficial. — Tomara que nenhum saltador nos localize.
Isso é um pouco difícil — sorriu Rhodan. — Sob certas condições, pode-se determinar a direção das transmissões por hiper-rádio, mas nunca o seu distanciamento. Terão que procurar muito até nos encontrar. Está mais otimista, Bell?
O gorducho murmurou algo ininteligível e passou a se dedicar com afinco à observação do Universo, como se nunca tivesse visto uma estrela em sua vida.
Na realidade, tinha visto muito mais estrelas do que muitos outros homens. Mas Bell pensava sempre em moças bonitas.

* * *

O cruzador pesado Centauro, uma esfera de duzentos metros de diâmetro, estava relativamente imóvel no espaço, aguardando. Bem perto dele, a menos de dois quilômetros, flutuava a nave gêmea Terra, cujo comandante era o major McClears.
A bordo da Centauro estavam, além do telepata John Marshall, nove outros mutantes, sem incluir Gucky, o rato-castor. A separação de seu amigo do peito, Bell, estava lhe fazendo muito bem, pelo menos estava deixando de aprender outras expressões um tanto fortes e tinha que se contentar com as que já sabia.
Deringhouse tinha dormido algumas horas, e naquele exato momento estava chegando à cabina de comando, para substituir seu lugar-tenente capitão Lamanche.
Alguma novidade, capitão?
O francês balançou a cabeça.
Nada, senhor. A distância do sol Beta continua ainda a de trinta anos-luz. O rastreador estrutural constatou um grande número de transições nas imediações do sistema Beta. Os tópsidas estão recebendo realmente o prometido reforço.
Deringhouse ouvia cansado.
Está bem, Lamanche, substitua-me daqui a cinco horas.
Cinco horas... Deringhouse não foi diretamente para sua poltrona, mas ficou andando de um lado para o outro na espaçosa cabina da Centauro. Quanta coisa havia acontecido nos últimos dias...
O plano de Rhodan de enganar os poderosos inimigos da Terra estava se tornando cada vez mais concreto. Os saltadores, unidos a Topthor, tinham em mãos um trunfo insuperável. O superpesado Topthor sabia onde estava a Terra. Pelo menos julgava que sabia. O que realmente não sabia era que os mutantes de Rhodan, já há muito tempo, haviam alterado os dados no computador de bordo da Top II, onde estavam armazenados todos os detalhes sobre a posição da Terra. Quando fosse consultado, o cérebro eletrônico diria hoje que a Terra é o terceiro planeta do sistema Beta.
Conforme o plano de Rhodan, os saltadores haveriam de atacar este terceiro planeta de Beta e destruí-lo, na crença de que se tratava da Terra.
Com isto estava ganhando tempo para fortalecer o sistema de defesa da Terra e para se preparar para um segundo encontro com o cérebro robotizado de Árcon. É claro que após a destruição da “Terra”, tinha-se de dar a impressão de que não existiam mais os terranos de Perry Rhodan.
Deringhouse tinha nos lábios um leve sorriso. Um plano ousado e prudente que, quando bem sucedido, resolveria muitos problemas de uma só vez.
O terceiro planeta do sol Beta era um mundo de florestas virgens inabitado, que seria sacrificado para salvar a Humanidade. O quarto planeta, porém, o “mundo d’água”, chamado Aqua, foi uma verdadeira surpresa. No único continente, que nadava num mar imenso, como uma pequena ilha, os tópsidas haviam estabelecido uma base. Os tópsidas ou sáurios possuíam a 815 anos-luz da Terra um reino estelar, dominado por um ditador. Eram velhos inimigos de Rhodan. E agora surgiam de repente tão pertos da “Terra” de novo. Num plano feito na última hora, Deringhouse e os seus se faziam passar por saltadores e acabaram revelando aos tópsidas que a força de combate dos superpesados, uma tropa de assalto de elite dos saltadores, estava a caminho para destruir a base dos tópsidas. Outras unidades dos saltadores e dos aras participariam também do assalto.
A reação foi como se esperava. Os sáurios exigiram reforços para poderem se defender do assalto. Deringhouse fugiu e estava a trinta anos-luz de distância, esperando o sucesso de sua artimanha.
Um zunido muito agudo chegou a seus ouvidos, vindo da cabina de rádio ao lado. Tenente Fischer estava de serviço.
O zumbido estridente significava hiper-rádio.
Rhodan?
Com um pulo, Deringhouse atravessou a cabina de controle e empurrou a porta da cabina de rádio.
Fischer regulou o volume e procurou o manual dos códigos. Ligou o aparelho de decodificação e, no mesmo instante, os sons quase inarticulados se tornaram compreensíveis:
...tauro. Repetindo: Titan para Centauro. Indique posição, major Deringhouse. O chefe aguarda relatório completo. Repito mensagem toda: Aqui Titan, posição dez mil anos-luz da Terra, direção Árcon. Titan para Centauro...
Apresente-se, Fischer — ordenou Deringhouse — talvez já estão chamando por nós há mais tempo. Ou você recebeu o chamado neste instante?
Não tenho a menor idéia de quando começou o sinal, senhor.
Demorou mais dois minutos até que a voz de Rhodan se fez ouvir no alto-falante. Para a cobertura de uma distância quase inimaginável, ela levou menos de um milésimo de segundo.
Aqui fala Rhodan. Estou a nove mil setecentos e vinte oito anos-luz de vocês, Deringhouse. Transições contínuas anunciam a concentração da frota dos saltadores. O número exato não é possível saber. E o que está se passando por aí?
As últimas mensagens dos tópsidas puderam ser decifradas. O ditador de Topsid prometeu enviar para a base de Aqua uma poderosa esquadrilha militar. Conforme meus cálculos, chegam a uns quinhentos aparelhos, e já estão a caminho.
Os saltadores também devem trazer um número mais ou menos aproximado. A destruição intencionada por nós do pseudo-planeta Terra se dará, pois, sob circunstâncias dramáticas. Quando os tópsidas e os saltadores se digladiarem, não sobrará muita coisa. Temos que fazer tudo para que não cheguem a explicações verbais. Os saltadores têm de considerar os tópsidas como terranos ou seus aliados, enquanto que os tópsidas têm de ver nos saltadores seus inimigos figadais. Se nós aparecermos uma vez ou outra e permitirmos que eles nos vejam um pouco, a ilusão será completa. Mais alguma coisa, Deringhouse? Tudo claro?
Apenas uma pergunta, senhor.
Pois não, Deringhouse.
O senhor vai ficar por aí ou vem nos dar um pouco de apoio? E ainda mais: Quando devemos voltar para o terceiro planeta?
A resposta de Rhodan não se fez esperar.
Vamos agir juntos. Você receberá a ordem de atacar no mesmo segundo em que a Titan saltar para o terceiro planeta. Será no momento em que os saltadores caírem em cima dos tópsidas.
Será que três espaçonaves apenas bastam para enganar os dois lados?
Acho que sim, se não ficarmos sempre no mesmo lugar. Até logo mais, Deringhouse.
O major olhou para a tela, onde, em condições normais, a imagem de Rhodan teria aparecido. Voltou depois para a cabina de comando e ficou refletindo.
Tomara que os cálculos de Rhodan dêem certo. Do contrário...”

* * *

O segundo parceiro do jogo de xadrez galático era Al-Khor, o comandante geral dos tópsidas nos planetas do sistema Beta. Depois de haver eliminado seu inimigo Wor-Lök, e ter entrado em ligação com Topsid, muita coisa se havia alterado. A base dos tópsidas no quarto planeta, até então muito fraca, foi imediatamente reforçada para não ser derrotada em caso de um ataque. Sem suspeitar de nada, Al-Khor veio de encontro aos planos de Rhodan. Além disso, quis o acaso que Al-Khor, através de suas providências, confirmasse os dados falsos dos saltadores de que no planeta das matas virgens é que estava a Terra. Al-Khor transferiu para o terceiro planeta todo o poderio militar dos tópsidas.
A cada momento chegavam novos reforços da longínqua pátria dos tópsidas, a mais de quinhentos anos-luz do sistema Beta. Deringhouse conseguiu registrar as transições, já estavam acima de quatrocentas.
No planalto, situado acima das matas virgens, os raios energéticos escavavam enormes cavernas nos rochedos. O planeta, até então desabitado, virou de uma hora para outra uma verdadeira fortaleza. Naves de patrulhamento dos sáurios cruzavam em direções predeterminadas todo o planeta, fazendo tudo para evitar um ataque de surpresa dos saltadores. Outras unidades estavam escondidas nas partes rasas do mar, esperando pela ordem de entrar em ação.
Os tópsidas estavam bem armados para repelir a cobiça dos saltadores, cujos motivos, porém, não estavam bem claros desta vez. Se soubessem por que motivos os saltadores estavam atacando o terceiro planeta, ou se chegassem a perceber que os saltadores julgavam que se tratava da Terra, seu procedimento mudaria, e tudo estaria perdido.
Al-Khor estava a bordo de um dos últimos aparelhos que haviam deixado Aqua, o planeta das águas. Quando o mundo azul desapareceu atrás dele, acenou contente para o comandante do cruzador.
Os saltadores jamais chegarão à idéia de que nós estamos mais interessados no quarto planeta do que no terceiro. E também não terão possibilidade de corrigir o erro. O ditador me comunicou há pouco, que, exatamente no momento em que nós estivermos no apogeu do ataque, mandará uma outra frota de duzentos cruzadores pesados. Tenho a impressão de que nenhuma espaçonave dos saltadores escapará da destruição.
Uma jogada genial — disse o comandante do cruzador tópsida elogiando. — Seu nome, Al-Khor, ficará nas páginas da história dos tópsidas.
Al-Khor concordou feliz. Já estava se vendo, em traje de gala, na parada da vitória, ao lado do ditador que o condecoraria como herói do Reino das Estrelas.
O cruzador chegou ao terceiro planeta e Al-Khor se dirigiu ao quartel-general, uma caverna escavada num morro, nas proximidades do equador. A estação de hiper-rádio já estava em funcionamento. Em menos de dois minutos, Al-Khor conseguiu ligação com Topsid. Exigindo um relato completo da situação, o comandante local das forças armadas apresentou-se. Depois prometeu solenemente:
Pode ficar tranqüilo, Al-Khor, os saltadores terão a maior derrota de sua longa história. O ditador está muito contente com as providências que você tomou. Envie a senha, assim que os saltadores atacarem e faça com que estejamos sempre a par do desenrolar dos acontecimentos.
Haveremos de vencer! — exclamou Al-Khor pateticamente.
Houve um momento de silêncio e depois veio a resposta:
Temos de vencer, Al-Khor.

* * *

O terceiro parceiro da partida chamava-se Cekztel, o mais velho patriarca dos superpesados, que mantinha em suas mãos o comando geral de todas as forças armadas dos saltadores. Sua figura maciça — pesava mais de seiscentos e cinqüenta quilos — estava sentada numa poltrona especial diante dos controles da espaçonave, de onde iria dirigir a estratégia geral. A estratégia que significava a destruição total de um planeta chamado Terra.
Cekztel era, propriamente, o órgão executivo do empreendimento, pois o iniciador de tudo chamava-se Topthor. E por isso, vamos nos ocupar mais dele, pois foi ele quem um dia descobriu a Terra e registrou no computador de bordo, com muito cuidado, sua localização. Como Perry Rhodan se tornava cada vez mais importante, e portanto mais perigoso, o valor deste registro positrônico era incalculável. Topthor acabou revelando este segredo aos saltadores, pois estava em jogo sua própria segurança. Resolveram, então, unidos, acabar com Rhodan, de uma vez por todas. Seu planeta pátrio teria que ser destruído. A chave para isto estava com Topthor.
Mas a chave não prestava mais, pois há muito, os mutantes de Perry Rhodan haviam alterado os dados do computador de Topthor. A “Terra” agora girava em torno do sol Beta.
Quanto mais longe, melhor.
O corpanzil de Topthor repousava numa poltrona larga. Os superpesados tinham vivido por muito tempo num planeta de elevada gravitação, mas apesar de seu enorme corpo, eram relativamente ágeis.
Alô, Regol! Você está cochilando aí no seu posto?
Cabina de rádio na escuta, Topthor. Não foi possível ainda fazer a ligação com Talamon.
Não temos nenhuma freqüência secreta?
Talamon não responde nem mesmo por ela.
Topthor, com um soco da mão direita fechada, fez funcionar outro botão, interrompendo a ligação com a sala de rádio. Durante uns dois minutos ficou praguejando sozinho, antes de ligar o intercomunicador.
Gatzek deve vir falar comigo, imediatamente.
Gatzek era o segundo-oficial da nave Top II, homem de confiança de Topthor. Os dois superpesados já tinham feito muitas campanhas juntos e travado muitas batalhas, por bom dinheiro dos ricos comerciantes das Galáxias. Desta vez, porém, não se tratava de dinheiro, tratava-se de riscar do mapa um adversário que se tornara poderoso demais.
Por que Talamon não se manifestou?
Gatzek era relativamente magro, pesava tão somente... quinhentos quilos.
Qual é a novidade, Top? Ataque?
Ainda não — murmurou Topthor mal-humorado. — Cekztel está levando muito tempo. Enquanto isto ocorre um número muito grande de transições lá por perto da Terra. Isso me preocupa. Parece que Rhodan foi avisado de alguma coisa.
Por uns instantes, Gatzek parecia assustado, mas de repente um sorriso sarcástico inundou seu rosto.
Quem é que o poderia ter avisado?
Topthor não prosseguiu com suas idéias.
Não consegui ainda me comunicar com Talamon. Onde estará o nosso amigo Talamon...?
Era o único saltador que havia feito amizade com Rhodan, porque este lhe poupara a vida, quando duzentas naves dos superpesados entraram num beco sem saída. Além disso, Talamon era devedor de gratidão a Rhodan, pelo melhor negócio que fizera em sua vida.
Naturalmente, ninguém conhecia estes detalhes, mas Topthor tinha suas suspeitas e sabia muito bem ler entre as linhas. Sua última conversa com Talamon o deixou muito preocupado.
Ele vai tomar parte no ataque à Terra? — perguntou Gatzek.
Quem dos superpesados que não vai tomar parte, ao menos com uma nave, que seja? — foi a contra-pergunta de Topthor. — Nossa frota de assalto já conta com mais de oitocentas unidades, mas de Talamon não há nem um aparelho de pequeno porte. Você tem uma explicação razoável para isto?
Gatzek sacudiu os poderosos ombros:
Será que ele está com medo?
Topthor se irritou um pouco com esta hipótese descabida.
Medo? Talamon ter medo? Receio que tenha outro motivo: simpatiza muito com Rhodan.
Com um terrano que está mais morto do que vivo? — disse Gatzek sinceramente admirado. Depois deu uma sonora gargalhada. — Por que nos preocupamos com Talamon? Se não quiser vir, que fique em casa. Mesmo sozinhos, somos capazes de liquidar este Rhodan. Não pode fazer nada contra oitocentas naves poderosíssimas.
No fundo, ele tinha razão, mas felizmente não sabia de que maneira ele estava acertando.
Talamon é meu amigo — disse Topthor — e eu não gostaria que um amigo seguisse caminhos errados, que acabariam sendo sua ruína. Temos de chamá-lo a atenção.
E como você vai conseguir isto, se ele não dá sinal de vida?
Topthor não sabia o que responder. Não tinha também mais oportunidade de se preocupar com isto, pois neste momento ouviu-se o estalo característico do alto-falante do intercomunicador e logo depois soou a voz objetiva de Regol:
Acabam de chegar as coordenadas para o salto e o horário. O ataque à Terra será desfechado exatamente dentro de trinta minutos.
É claro que ele não usou a palavra minuto, mas convertido daria mais ou menos o equivalente. Topthor esqueceu num instante o caso de Talamon. Fazendo um sinal para seu homem de confiança, Gatzek, perguntou:
Para onde é que nos leva o salto?
Para o centro do sistema dos terranos. Uma nave de patrulhamento colheu informações. Chegaremos a menos de dois minutos-luz da Terra no superespaço.
A rapaziada vai arregalar os olhos — continuou Topthor, pois o superpesado já estivera uma vez na Terra. Mas, naquela vez, Rhodan o enganara. De qualquer maneira, Rhodan lhe poupara a vida. Mas Topthor não era homem para se mostrar grato por uma coisa desta. — Porém desta feita, vamos acabar com Rhodan.
Esperamos que sim — observou Gatzek, e já não parecia tão seguro.
Mas Topthor atribuía seu mau humor a um outro motivo: Talamon. Sabia que seu amigo era um homem muito perspicaz, que jamais teria tomado uma atitude como esta sem motivos de grande peso. Se não estava tomando parte neste ataque, era porque estava duvidando de antemão do resultado da ação. Por quê? Conhecia ele tão bem assim a capacidade de Rhodan, para acreditar na vitória dos terranos? Ou seria sentimento de gratidão que o impedia de atacar Perry, por lhe haver poupado a vida, há tempos atrás?
Um saltador superpesado, mas... sentimental...?
Topthor deu uma risada forçada e se dirigiu à sala de rádio.
Então, Regol, que é que há com Talamon?
Os sinais de chamada continuam sem resposta, Topthor. Seu amigo não aparece e ninguém sabe onde está.
Topthor ficou calado, virou-se bruscamente na direção da cabina de controle. Deixou-se cair pesadamente na poltrona que rangeu sob o peso.
Gatzek esperava tranqüilo. Percebeu pela fisionomia de Topthor, que seria melhor ficar calado. Pois nos traços de Topthor não se via apenas uma curiosidade angustiante, mas declaradamente a expressão da dúvida.

* * *

Afinal aí estava Talamon, que Topthor procurava tão desesperadamente. Neste jogo de xadrez galático, representava ele o papel mais insignificante possível, pois nem aparecia. Mas exatamente isto é que deixava Topthor tão zangado e incerto.
Porém, Talamon agiu por conta própria, quando deixou de atender o pedido de seu patriarca Cekztel, não enviando nenhum aparelho para o ataque à Terra. Por que razão haveria ele de prejudicar Rhodan? Não foi exatamente Rhodan que o fizera milionário? Que lhe poupara a vida? Que lhe provara que também entre raças estranhas existe algo chamado “código de honra”?
Não, Talamon não via razão para trair Rhodan.
Estava com sua frota de duzentas unidades em algum lugar da Via Láctea, não mandou naves de patrulhamento e sua central de rádio ficou em permanente escuta. Caso fosse necessário, tinha a firme resolução de ajudar Rhodan. Sua tentativa de avisar os terranos foi inútil, pelo menos não havia recebido nenhuma resposta. Ficou acompanhando todas as transmissões das frotas dos saltadores que se reuniam e estava muito bem informado sobre tudo. Também os chamados de Topthor ele havia recebido, sem respondê-los.
E assim aconteceu, que atrás dos bastidores espreitava uma força militar de envergadura, aguardando o momento de intervir nos acontecimentos. Uma força de que ninguém suspeitava.
Nem mesmo Perry Rhodan.
2



Tudo convergia para a Titan.
O operador-chefe Martin acordara de um sono reparador e já tinha voltado para seu posto, quando o receptor começou a acusar impulsos fortes demais. Continham apenas uma palavra no texto: “Rhodan”.
O restante era ininteligível. Martin, que tinha muita experiência, gravou em fita a mensagem que se repetia e depois chamou o chefe. Rhodan apareceu logo, bem disposto depois de um bom repouso.
O que há, Martin?
O operador ligou a fita gravada. Rhodan ouviu por uns instantes, sem dizer uma palavra, depois sorriu e apontando para a instalação de controle positrônico, disse:
Aplique a chave XX-treze e deixe a fita correr. Pegue o texto decifrado e me traga na sala de comando. Eu estou substituindo Bell.
Martin começou seu trabalho enquanto Rhodan abriu a porta da cabina e entrou. Bell estava na poltrona do comandante e virou para trás com cara de cansado. Um leve sorriso tremulou em seus lábios quando fitou Rhodan.
Já é tempo que alguém me venha substituir. Não consigo mais ficar de pé. Minhas pernas estão cansadas.
Perry retrucou:
Se meus conhecimentos de anatomia não estão errados, você também senta sobre as pernas, mas numa parte muito especial que você chama de...
Santo Deus, será que tudo tem que ser tomado ao pé da letra? — lamentou Bell. — Só queria dizer que estou muito cansado.
Então vá dormir, Gordo — aconselhou-o Rhodan, tirando seu amigo da poltrona. — O negócio vai começar logo e todos os guerreiros estão mesmo cansados.
A brincadeira de Rhodan deixou Bell com melhor disposição.
O negócio vai começar? Que negócio? Você se refere ao ataque?
Quando é que você vai aprender a falar melhor? — e apontando na direção da sala de rádio, disse: — Chegou um rádio há pouco. Se não me engano, vem de Talamon.
Do superpesado? Que quer de nós?
Saberemos logo. De qualquer maneira, manteve a palavra.
Nesse instante entrou Martin.
Já decifrei o texto, devo...?
Pode rodar a fita e ligue o som para cá.
Segundos após, a fita estava tocando na sala de rádio, a mensagem tinha um texto simples e claro.
Sim — disse Rhodan contente — é sem dúvida o vozeirão do nosso amigo Talamon. Deve estar muito apreensivo a nosso respeito, para ter coragem de nos mandar esta mensagem.
Bell nada disse. Estava atento a cada palavra que saía do alto-falante:
Rhodan, aqui fala Talamon. Perigo iminente para a Terra. Em vinte minutos exatos a Terra será atacada por uma frota sob o comando de Cekztel e a orientação astronáutica de Topthor. Posição já conhecida. Estou esperando suas instruções. Não tomo parte no ataque. Repito: Rhodan, aqui fala Talamon. Perigo iminente para Terra. Em vinte minutos exatos...
Bell fazia sinal de aplauso.
Veja só, iam deles, o supergordo, é sincero e quer nos avisar. Não esperava isto dele.
Mais tarde haveremos de nos lembrar dele — prometeu Rhodan, desligando a instalação de som.
Encostou-se comodamente na poltrona e volvendo-se para Bell:
Como é? Não vai dormir? Estava tão cansado?
Cansado? — suspirou Bell. Seus cabelos vermelhos estavam arrepiados. — Como posso dormir se a batalha começa em vinte minutos?
Você não deve esquecer que esta mensagem foi recebida por Martin há uns dez minutos — disse Rhodan bem calmo. — Só a decifragem levou seis minutos.
Dez minutos!... — os olhos de Bell se arredondaram. — Isto quer dizer que os saltadores em dez minutos... Puxa vida! Que estamos fazendo aqui?
Dez minutos... — Rhodan olhou para o relógio e se corrigiu. — Nove minutos é um tempo bem grande quando se sabe aproveitar. — Rhodan apertou um botão. — Martin, faça-me uma ligação para Deringhouse. Eu vou atender aí.
Desligou o intercomunicador e se levantou.
A operação está em marcha, mesmo que não façamos mais nada. Não podemos mais detê-la, o máximo que podemos fazer é influenciar para o lado positivo e haveremos de fazê-lo, naturalmente. Você ainda quer ficar acordado?
Rhodan se dirigiu novamente para a sala de rádio, pois Deringhouse já estava esperando.
Atenção, Deringhouse. Última informação — disse Rhodan, olhando para o relógio. — Os saltadores se materializam no espaço dentro de sete minutos e trinta segundos. Temos então que já estar aí, pois não sei qual vai ser a reação de Topthor, se reconhecer seu erro. Temos que cuidar que não lhe sobre tempo para uma desculpa. Os saltadores têm que ver no terceiro planeta a Terra verdadeira. Topthor é o único ser humanóide que viu o sol da nossa Terra e guardou sua posição. Os saltadores devem, portanto ser atacados assim que chegarem.
Os tópsidas estão esperando por eles — observou Deringhouse.
Certo, mas nós devemos ajudar um pouco. Transição exatamente em sete minutos para o sistema Beta. Deringhouse, ataque a primeira nave dos saltadores que aparecer. Não espere muito e não fique mais do que um minuto em cada posição. Transição é mais importante do que luta. Os saltadores devem ter a impressão de que estão lutando contra uma grande frota de poderosos cruzadores. A mesma ordem vale também para McClears. Entendido?
Entendido, senhor. E o que é que o senhor vai fazer?
A Titan também vai aparecer. Já que somos as três únicas naves esféricas, não há perigo de nos enganarmos.
Por que — perguntou Deringhouse com voz abafada — não destruímos logo a nave de Topthor, para tirar muito aborrecimento do caminho? Quando ele e seu computador de bordo estiverem destruídos, ninguém mais poderá corrigir o erro.
Rhodan deu um sorriso frio.
Existem centenas de naves de conformação cilíndrica, muito semelhantes umas às outras. Você acha que consegue distinguir a de Topthor das outras?
Depois de curta pausa, Deringhouse ainda perguntou:
E o que faço, caso eu realmente a distinga?
Agora a pausa era do lado de Rhodan. Refletiu um pouco, embora soubesse que não haveria outra resposta. Naturalmente, Deringhouse tinha muita possibilidade de distinguir a nave de Topthor, pois a bordo da Centauro se encontrava o corpo de mutantes. E se Topthor já estivesse morto...
Se encontrar Topthor, destrua sua nave.
Obrigado. Vou fazer esforço para isso. Mais alguma coisa?
Rhodan olhou para o relógio, um movimento que haveria de repetir ainda muitas vezes, nos próximos minutos.
Transição dos saltadores em... três minutos e cinqüenta segundos. Felicidades, Deringhouse.
Rhodan virou-se para trás, quase se chocando com Bell que o seguia. Passou por ele sem dizer uma palavra e foi na direção do computador, onde recolheu os dados para o hipersalto.
Sente-se, Gordo. Dentro de cinco minutos, você poderá ver o gigantesco sol de Beta, se tiver tempo para isto.

* * *

Quer apostar como acharei a nave de Topthor, em poucos instantes? — dizia Gucky.
Deringhouse levantou as duas mãos, como se quisesse se proteger do rato-castor.
Posso apostar com o diabo, a qualquer momento, mas nunca mais com você. Meus dedos ainda estão doendo de tanto coçá-lo. Além disso, ainda tenho de lhe pagar seis arrobas de cenoura.
Mesmo assim ainda vou achar Topthor — continuou Gucky ignorando o pretexto do comandante. — Então, saltarei em sua nuca e lhe quebrarei o pescoço.
Deringhouse sorriu, enquanto verificava os controles que realizariam o salto iminente para o sistema Beta.
Teria prazer em ver isto. Você é telepata, teleportador, telecineta, mas não sabia que é também lutador de judô. Prazer em conhecê-lo...
Você não crê em mim? — disse Gucky, encostando-se no sofá, com uma expressão incrível em sua cara cômica. — Eu já liquidei centenas de robôs.
Não se trata apenas de Topthor — lembrou-lhe Deringhouse, empurrando uma alavanca para frente. — Sua espaçonave inteira deve ser destruída. Você se lembra que todos os dados sobre a nossa Terra estão ainda registrados na positrônica de bordo, pois não foram totalmente suprimidos. Claro, Topthor também é importante, pois o superpesado não é bobo. Vai perceber logo que está no planeta errado, que pulou confusamente noutro sistema e talvez mude de idéia.
John Marshall, chefe do exército de mutantes, entrou na cabina de controle da Centauro. Cumprimentou Gucky e se dirigiu a Deringhouse. Como telepata, sabia, naturalmente, sobre o que os dois estavam conversando.
Uma das missões do corpo de mutantes será descobrir a presença de Topthor, major. Por que então não se utilizar de Gucky, quando ele está tão seguro de sua competência?
Não tenho nada contra, se ele tomar a iniciativa — respondeu Deringhouse cauteloso. — O que não quero é fazer mais apostas com ele. É meu direito, não é? Não quero voltar para a Terra pobre e meio aleijado.
Marshall concordou, sorrindo, e Gucky estava feliz enquanto Deringhouse se sentia aliviado. O rato-castor concentrou-se então na grande missão que estava prestes a desempenhar.
Deu-se então o salto da Centauro. Saltou simultaneamente com sua irmã gêmea, Terra. A cinco minutos-luz do terceiro planeta, as duas esferas gigantescas de duzentos metros de diâmetro voltaram ao espaço normal.
Todos os canhões de raios energéticos estavam a plena carga e os envoltórios de proteção entraram em ação. O capitão Lamanche, na central de rádio, estava em grande atividade, procurando informações das muitas mensagens captadas, para melhor orientar uma estratégia coordenada.
A bordo da Centauro era grande a agitação, mas o espaço em volta ainda estava tranqüilo. O terceiro planeta era uma estrela bem nítida à sua frente. O rastreador estrutural estava ligado e registrava as primeiras transições. As distâncias eram diferentes, mas logo se evidenciou que todos partiam do mesmo local.
A frota dos saltadores chegava com um pequeno atraso.

* * *

Os tópsidas estavam esperando em fortificações subterrâneas. Num trabalho febril nas últimas horas, aquelas instalações foram montadas para desviarem os adversários do precioso quarto planeta. Era-lhes preferível que atacassem um mundo que não apresentava coisa melhor do que imensas matas virgens e planaltos pedregosos. Neste mundo de florestas, não existia vida inteligente, fora dos tópsidas, naturalmente.
Al-Khor, o comandante supremo, achava-se em ligação permanente com todos os postos de comando. Estava a par de todos os preparativos de defesa e de outros segredos. Para o ditador, no sistema tópsida, a 543 anos-luz de distância, havia um canal permanente de hipercomunicação.
Cruzador de patrulhamento MV-treze tem mensagem importante.
Al-Khor fez um sinal para o operador, através do vídeo de bordo.
Encaminhe a ligação para cá — ordenou ele.
Suas cerdas na nuca estavam em desalinho e sua fisionomia demonstrava grande cansaço. O corpo coberto por escamas, estava parcialmente coberto pelo uniforme. No amplo cinturão, via-se a coronha da pistola de raios energéticos.
As imagens na tela variavam. Ora a silhueta de uma nave em forma de torpedo, ora os traços duros de um tópsida.
Cruzador MV-treze, comandante Ber-Ka. Mensagem importante. Primeiros estrondos no espaço a dois minutos-luz. Os saltadores iniciam o ataque.
Tente fazer uma contagem dos estrondos — falou Al-Khor. — Ordene imediatamente outras transições, dando-lhes a posição. Mandarei logo algumas unidades de combate para o ponto onde você se encontra. Ataque, Ber-Ka, somente ações isoladas é que podem desnortear o adversário.
Vou atacar, sim — confirmou Ber-Ka. Seu rosto desapareceu da tela e logo depois surgiu outro tópsida.
Al-Khor não parava mais. O ataque ao terceiro planeta havia mesmo começado. Mas o cruzador de patrulhamento MV-treze tinha recebido ordens. Ber-Ka não hesitou em cumpri-las.
Ber-Ka era ainda muito jovem e vaidoso. Fazia apenas poucos anos que comandava uma nave de porte maior, uma nave cilíndrica de duzentos metros de comprimento. Os armamentos extraordinários lhe proporcionavam uma sensação de segurança e lhe davam muita coragem para enfrentar um adversário até mais forte. Empertigou-se todo e deu ordens a seus oficiais, para que se reunissem com ele, imediatamente.
Meus amigos — disse com muita determinação. — Al-Khor nos deu ampla liberdade de ação. Devemos atacar os saltadores onde quer que apareçam. Vocês sabem, melhor do que eu, que nunca teremos oportunidade melhor do que esta para nos colocar em destaque. Viva o ditador!
Viva o ditador! — gritaram todos os oficiais, mais ou menos entusiasmados. Para alguns, a vida tinha mais valor do que uma condecoração de validade duvidosa. Mas, desobediência ao comandante significava a morte imediata. Assim, a possibilidade de sobrevivência em meio à luta era bem maior.
Na tela da MV-treze, apareceram os pontos luminosos flutuantes dos saltadores em ataque. Aqui e ali, estes pontos surgiam, às vezes, do nada, demonstrando assim que as transições não paravam. Depois de observar melhor, Ber-Ka não tinha dúvidas de que os saltadores haviam mesmo escolhido como seu objetivo principal o terceiro planeta.
Era de qualquer maneira surpreendente. Afinal de contas, o quarto planeta era aquele que servia de base aos tópsidas e que devia ser atacado. Por que então os saltadores não se preocupavam com o quarto planeta, mas se concentravam apenas no terceiro?
Era uma questão que interessava grandemente a Al-Khor também, neste momento. Mas ninguém tinha resposta cabível para ela.
Externamente, as naves dos saltadores se assemelhavam muito com as dos tópsidas, eram, porém, mais rápidas, mais ágeis e mais bem armadas. Enfim, os superpesados eram a elite experimentada das tropas de assalto dos comerciantes das Galáxias, que sempre tinham vivido da guerra. Até hoje, não tinham conseguido fazer nada por meios pacíficos. Aliás, nunca lhes passou pela cabeça tentar fazer alguma coisa sem assaltos e guerra.
Ber-Ka procurou tanto, até que encontrou um ponto luminoso vagando mais afastado dos outros, a tal distância que excluísse qualquer cilada. Deu então as ordens ao piloto, correndo ele para o ponto de comando da artilharia, para dirigir pessoalmente o ataque.
A vítima selecionada era uma nave relativamente pequena de um clã desconhecido dos saltadores. O comandante já tinha ouvido falar de Perry Rhodan e de sua pátria Terra, achava, porém, que eram referências muito exageradas. Exatamente por isto, por ter um ponto de vista errado, é que ele e os seus seriam muito sacrificados.
Ber-Ka se aproximou de sua vítima. O saltador, sem suspeitar de nada, mantinha seu curso direto para o terceiro planeta.
As mãos quase humanas do sáurio repousavam sobre os botões de controle dos canhões de raios energéticos. No interior do cruzador se acumulava, num zumbido permanente, as energias necessárias, como que aguardando o momento de irromperem pelo espaço.
Ainda a um segundo-luz — disse um oficial quase trêmulo. O coitado não se sentia bem, embora já tivesse muita experiência de outras expedições punitivas contra súditos indefesos. Mas esta agora era diferente. Estavam pelo menos diante de um adversário à altura deles.
No mínimo.
Distância, zero vírgula cinco segundos-luz.
A distância diminuía, mas ficou de repente constante, quando o saltador percebeu o atacante, fazendo uma curva fechada.
Atrás dele! Fogo! — gritou Ber-Ka e sentiu como o solo a seus pés estremeceu todo, quando a rajada de raios poderosos saiu pela proa.
Não foi difícil aos raios energéticos, com a velocidade equivalente à da luz, atingir a nave dos saltadores, antes que pudessem tentar qualquer reação. Raios coloridos envolveram a diminuta espaçonave, como o envoltório de proteção se rompeu imediatamente, não oferecendo mais nenhuma resistência aos ataques dos raios incendiários.
Com um grande clarão esbranquiçado, explodiram os geradores. A carcaça se arqueou e começou a derreter. Pedaços de destroços voavam em todas as direções do espaço. De vez em quando se podia ver grandes vultos com trajes pressurizados, cujos dispositivos automáticos se inflavam instantaneamente, procurando colocar a salvo os sobreviventes.
Um dos oficiais sáurios não despregava os olhos dos saltadores que tentavam fugir.
Não vamos matá-los? — perguntou.
Não. Sou soldado, mas não assassino.
Eles nos atacaram, Ber-Ka.
Falando em tese, você tem razão. Mas estes aí, fomos nós que atacamos. Deixemos-lhes esta chance e não nos incomodemos mais com eles.
Ber-Ka voltou para a central de comando. Era ele o comandante, sua ordem era lei. Os saltadores, em seus uniformes de emergência, foram se separando e se perderam no vazio entre os planetas.
Ber-Ka concentrou sua atenção novamente na tela. Os pontos flutuantes eram cada vez mais numerosos, mas a uma distância daquela não se podia saber se havia naves dos tópsidas misturadas com eles. A força principal, no entanto — Ber-Ka sabia muito bem disto — estava escondida nas rochas do terceiro planeta, ou como se dizia nos catálogos dos sáurios: Lira III.
A MV-treze tinha se afastado um pouco do terceiro planeta e se aproximava da órbita de Aqua. De qualquer maneira, os atacantes deviam ser impedidos de se aproximarem do “mundo d’água” onde os restos das bases abandonadas poderiam despertar atenção.
Os pontos luminosos oscilantes desapareceram todos, menos um. Dava a impressão de ser um aparelho que não fazia questão de ser destruído logo no primeiro assalto. Uma ampliação na tela e uma chamada em código confirmou a suspeita de Ber-Ka: tratava-se mesmo de uma nave dos saltadores. E este saltador se dirigia exatamente para o planeta Aqua.
Novo curso, operação cubo CO-dezessete-dk — gritou ele para o oficial navegador, ordenando ao mesmo tempo prontidão para o ataque.
Devia-se pegar o saltador de surpresa, antes que pudesse desconfiar de alguma coisa.
Velocidade ao máximo! Acompanhou com grande sensação os movimentos do ponto luminoso e acabou constatando que se tratava de uma belonave dos superpesados. Claro que muito superior ao cruzador de patrulhamento.
Na mentalidade de Ber-Ka havia duas forças polarizantes: orgulho e instinto de conservação.
Podia ainda se afastar um pouco do curso e fazer como se não tivesse notado o adversário. Por interesse próprio, a maioria de seus subordinados manteria silêncio. Mas se houvesse apenas um que quisesse prejudicá-lo ou fazer carreira, ele estaria perdido. Covardia perante o inimigo era castigada com a morte.
Foi propriamente o receio de ser denunciado que obrigou Ber-Ka a prosseguir no ataque. Não estava se sentindo bem, mas não havia outra opção.
O ponto luminoso aproximou-se e transformou-se numa sombra alongada na tela, que focalizava muitas estrelas distantes. Não havia nenhum sinal de que o saltador houvesse percebido a presença de seu perseguidor. Continuava indiferente, com rumo fixo. Pela pequena velocidade, supor-se-ia que ainda tinha duas horas para chegar até a atmosfera de Aqua.
Central de rádio — disse Ber-Ka, cedendo a um impulso repentino — tente ligação com a nave estranha.
Com o saltador? — foi a reação de espanto.
Sim, com o saltador. As freqüências de chamada estão no catálogo. Por que se admira? Já tivemos muitos contatos com os saltadores em outros tempos.
Sim, mas sob outras circunstâncias.
Exatamente — disse Ber-Ka rindo.
É curiosidade minha. Estas circunstâncias me interessam.
Desligou a tela, colocando a central de rádio diretamente em ligação com ele. Sem sair do lugar, podia agora acompanhar melhor os esforços do operador.
Continuava a chamada.
Na outra tela, a sombra alongada da nave estava bem maior. A MV-treze se aproximava de sua órbita. Num determinado ponto as duas naves teriam de se encontrar, caso ambas mantivessem o curso e a velocidade.
Alto-falante e tela permaneciam mudos e apagados. O saltador não respondia, ou talvez não tivesse ouvido o chamado. Mas Ber-Ka não cedia tão depressa.
Continue chamando — ordenou ao oficial do rádio. — Acrescente que nós pedimos uma conferência.
Isto era contra o regulamento. Propor uma conferência com um adversário ultrapassava de muito a competência de um comandante de um pequeno cruzador. Ber-Ka sabia disto, mas lhe era completamente indiferente. Suspeitava de algo e queria saber se seu pressentimento estava certo ou errado. Para ele, isto justificava o risco que assumia.
Não poderia imaginar que, sem querer, estava dando um passo avante na história. Também não suspeitava quem era o comandante da nave estranha.
Ao penetrarem nas camadas superiores da atmosfera as primeiras naves dos saltadores, o comandante supremo do terceiro planeta, Al-Khor, deu ordem de contra-ataque.
Em todos os cantos, abriram-se pesadas comportas de metal e canos de canhões de raios energéticos emergiam do chão para erguerem sua boca de fogo contra o céu. Hangares subterrâneos despejavam frotas de combate de aparelhos velozes que galgavam o espaço em ascensão quase vertical.
Começou a batalha quase suicida, com perdas enormes para os dois lados. As primeiras bombas atômicas destruíram uma parte das instalações de defesa. Os foguetes antiespaciais dirigidos por tópsidas perseguiam as naves dos saltadores até atingi-las, destruindo-as no espaço. Só conseguiam escapar se tivessem tempo de efetuar o salto para o hiperespaço.
Al-Khor estava sentado nas profundezas de um rochedo, ouvindo as notícias. Fazia uma fisionomia de dor, ao ouvir os danos que os atacantes lhes infligiam. Mas seu rosto se iluminava todo sempre que ouvia o relato da destruição de uma nave inimiga.
No entanto, ele mesmo sabia que era questão de tempo, até que os saltadores conseguissem, por meio de uma bomba arcônida ou por uma bomba de gravitação, destruir completamente o terceiro planeta.
Começou a se surpreender pelo fato de que isto ainda não acontecera.
Ligação com Topsid! — gritou ele, desesperado, naquela caverna no coração da rocha, quando uma tremenda detonação fez tremer o rochedo e as luzes se apagaram. — Ligação imediata com o ditador, vamos, antes que seja tarde.
Por uns instantes, ninguém respondeu. Depois, ouviu-se a voz do operador de rádio:
Falta energia, estamos tentando com os geradores de emergência.
Estou esperando — disse Al-Khor. Depois, apoiando a cabeça nas duas mãos quase humanas, passou a pensar na morte certa que teria em Topsid, caso os saltadores vencessem.
Mas... era sua culpa? Culpa por não ter naves suficientes? Não tinha ele avisado o ditador e pedido que não subestimassem os comerciantes das Galáxias? Por que então tinha que morrer?
Porém não pensava nisto. O melhor seria ele se entregar aos invasores, passaria por traidor, mas continuaria vivo. Mas isto era uma decisão que não era para aquele momento.
Levantou-se, tendo nos olhos um brilho perigoso.
Ligação com Topsid — exclamou o operador. — Ligue seu aparelho, Al-Khor.
Al-Khor estremeceu, ao ouvir a palavra Topsid. Por uns instantes, não sabia o que fazer. Depois, criou coragem.
Aqui fala Al-Khor, Lira III. Começou o ataque dos saltadores, ditador. O adversário é muito superior a nós. Sem o auxilio de Topsid, estamos perdidos.
Então lutem! — disse o ditador friamente. Seus traços permaneceram duros e inacessíveis, na tela. Seus olhos frios pareciam penetrar Al-Khor, parecendo poder ler seus pensamentos. — Mandarei mais duzentos aparelhos, mas nem um a mais. Lutem e vençam, Al-Khor. Ou, nunca mais volte a Topsid.
Mas... — Al-Khor não pôde continuar, o ditador havia interrompido a ligação.
O comandante dos sáurios apoiou-se no espaldar da poltrona e suspirando profundamente, disse:
Lutar e vencer... como é fácil falar. Um mundo está caindo aos pedaços e nós temos de lutar. O que estamos fazendo, senão lutar? Nossas naves se defendem valentemente contra um inimigo em grande superioridade, mas não cedemos, preferimos morrer. E o ditador? Não tem nem uma palavra de gratidão.
Al-Khor estremeceu, como se tivesse levado uma chicotada, ao ouvir um forte ruído atrás de si. Passos pesados que se aproximavam. Ouviu-se uma voz fria, sem a menor expressão:
Como poderemos vencer, se o comandante está hesitando? O que há com você, Al-Khor? Cansado, desanimado?
Virou-se lentamente, com sua mão escamosa já segurando a arma energética.
Ra-Gor, é você! Não podia imaginar. Por que não está na seção de baterias antiaéreas, tratando de destruir as naves inimigas? Se quiser ouvir a verdade: o que você está fazendo agora é crime de alta traição.
O jovem oficial que estava atrás do comandante estava também com a mão na arma, sorrindo friamente. Nos seus olhos, havia um misto de orgulho e ódio, de medo com denodo irrestrito.
E você, Al-Khor? O que tem feito? Duvidou da sabedoria de nosso ditador. Você está exigindo o reconhecimento dele pelo simples cumprimento do nosso dever. Isto é insubordinação.
Al-Khor virou-se novamente — e devagar — olhando o painel apagado. Podia ver nitidamente no vidro fosco o reflexo do jovem oficial que lhe estava às costas.
Estava apenas pensando, Ra-Gor. Acresce ainda que guardei meus pensamentos comigo e não os transmiti a ninguém.
Não é verdade, transmitiu a mim.
Al-Khor teve que concordar:
Sem ter intenção de fazê-lo, meu amigo. Você, agora, por sua culpa, carrega na consciência um conhecimento que se torna pesado para seus ombros jovens. Vou ajudá-lo a carregar este peso.
Não é necessário, Al-Khor, eu consigo carregá-lo sozinho. O ditador me será muito grato, quando lhe explicar a covardia de seu comandante supremo.
O quê?
Sim, porque você não vai chegar vivo a Topsid. Esta vergonha deve ser poupada aos oficiais que combatem corajosamente. Ou você prefere ser fuzilado publicamente?
Al-Khor reconheceu que não tinha alternativa. Foi sempre um súdito fiel do ditador, embora não estivesse de acordo com alguns de seus métodos. Mas, agora, ser delatado por um bobalhão orgulhoso e inexperiente... não, isto era demais.
Imperceptivelmente sacou a arma, estudou um pouco o ambiente, podendo ver pelo reflexo do vidro do painel apagado que Ra-Gor ainda estava hesitando em executar sua intenção. Será que de repente ficou com medo? Mas já era muito tarde para isto. Al-Khor não sentiu a menor compaixão ou piedade, quando, de súbito, se virou contra o jovem oficial de arma na mão.
Insubordinação se castiga com a morte, Ra-Gor. Como comandante tenho o poder de julgá-lo. Condeno-o, pois, à morte. A pena será executada sumariamente. Você pode ficar com sua arma e usá-la mesmo...
Mas o sentenciado não chegou a se utilizar da arma, antes mesmo de sacá-la estava morto.
Al-Khor ficou olhando por uns instantes o cadáver do jovem oficial, corajoso e idealista, que queria tirar proveito às suas custas. Depois voltou a manusear os botões de controle.
Os relatórios das forças em combate chegavam com a maior confusão. Depois de alguns minutos, Al-Khor já sabia que a batalha estava perdida. Definitivamente. A superioridade do adversário era palpável. O que restava era um fio, quase invisível, de esperança.
Com uma pancada da mão direita, silenciou no rádio as vozes confusas. Todas as estações passaram automaticamente para a escuta.
A todos os oficiais! Aqui fala Al-Khor, o comandante supremo — fez uma pequena pausa para respirar. — Neste momento vamos desistir do planeta Lira III e vamos enfrentar os saltadores no espaço. Ou vencemos ou morremos. Fim.
Fim! A palavra ainda estava nos ouvidos de Al-Khor, quando se levantou para tomar as medidas necessárias.

* * *

Quando a Top II se materializou, e apareceu nas telas de bordo o gigante vermelho de Beta, foi como se Topthor tivesse levado uma bofetada na cara.

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