sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

P-040 - Luta Contra o Desconhecido - Clark Darlton [parte 2]

Procurei reconhecer-me a mim mesmo. Ou melhor, o ser no qual penetrei. Não consegui. Tive a impressão de ser um peixe num aquário. Talvez fosse mesmo. As pessoas que passavam perto de mim não me davam a menor atenção; devia ter escolhido o corpo de um indivíduo muito insignificante. Mas a qualquer momento posso voltar àquela nave e tentar...
Um instante, Marten, não há necessidade disso — interrompeu Rhodan. — Por enquanto basta que saibamos que não têm a intenção de atacar-nos. Gucky, tem alguma novidade?
Quem está a bordo dessa nave são os ésperes — repetiu o rato-castor. — Sinto perfeitamente que tentam sugestionar-me.
Quer dizer que não são telepatas, mas sugestores que podem assumir a vontade de outro indivíduo.
São ambas as coisas — chilreou Gucky. E acrescentou: — Acontece que não conseguem passar de algumas tentativas miseráveis.
Rhodan olhou para a tela. A nave desconhecida aproximara-se ainda mais e parara. Não se encontrava a mais de dez quilômetros da Titan.
O operador de rádio entrou na sala de comando.
Há uma mensagem vinda da nave desconhecida — anunciou. — O comandante pede permissão para vir a bordo.
Rhodan refletiu apenas alguns segundos. Depois disse.
Está bem. Transmita-lhe o meu consentimento. Mas não deve trazer nenhum acompanhante; terá de vir sozinho. A nave pode atracar junto à comporta dezessete. Indique o lugar por meio de sinais luminosos.
O operador de rádio retirou-se. A manobra de atracação foi iniciada. Rhodan dirigiu-se a Gucky.
Volte para onde estão os mutantes. Fiquem de prontidão. Prestem atenção a eventuais tentativas dos zalitas de submeter-nos ao seu controle mental. Peça a Marshall que venha à sala de comando. Assim que o comandante estiver a bordo, Ras Tschubai e o japonês deverão ir à nave desconhecida e dar uma olhada. Devem fazer o possível para não serem percebidos. Entendido, Gucky?
Gucky escorregou para fora da poltrona e colocou-se em posição ereta. Dessa forma sua altura quase chegava a um metro e meio. Ficou muito engraçado quando fez continência com a pata direita. Infelizmente o dente-roedor sorridente não permitiu que Bell o levasse a sério.
Entendido — chiou e saiu saltitando. Esqueceu-se de que poderia percorrer o caminho por meio da teleportação. A história dos outros ésperes parecia tê-lo afetado gravemente. Ralf Marten seguiu-o.
Rhodan pediu a Thora e Crest que viessem à sala de comando. Juntamente com estes, e ainda Bell e o telepata John Marshall, aguardou o comandante da outra nave.
Ras Tschubai media quase dois metros de altura, um fato que dava mostras de sua descendência dos chefes das tribos guerreiras do Sudão. Certa vez, quando se defrontava com um grande perigo, descobriu a capacidade de, pela simples força do seu desejo, transportar-se para outro lugar. Naquela oportunidade, um leão saltou sobre ele, mas a pata do animal apenas atingiu o ar. Ras Tschubai desaparecera, para reencontrar-se em sua aldeia natal, a três mil quilômetros de distância.
Com esse incidente, teve início sua carreira de teleportador.
Coisa semelhante acontecera com Tako Kakuta. O débil japonês descobrira seu dom por ocasião de uma catástrofe, e o manteve em segredo até o momento de juntar-se ao exército de mutantes de Rhodan.
Quando os dois receberam ordem para entrar em ação, agiram sem perda de tempo. O salto até a nave ancorada no casco da Titan foi facílimo. Seria bem mais difícil não ser percebido pela tripulação da outra nave.
Trabalharam separadamente. Enquanto Tako se concentrava na popa da nave, Ras desenvolveu suas atividades a meia nau.
Quando se rematerializou e começou a enxergar, ficou aliviado ao constatar que estava só. No recinto em que se encontrava, havia vários instrumentos, cuja finalidade por enquanto lhe era desconhecida. Como não houvesse nenhuma vigia, devia achar-se no setor interno da nave.
Decidiu prosseguir normalmente nas suas investigações.
O recinto tinha duas portas. Uma delas abriu-se facilmente a uma simples pressão da mão e levou a um corredor no qual desembocavam outras portas. Não se arriscou a abrir nenhuma delas. Preferiu avançar sorrateiramente, preparado para desmaterializar-se a qualquer momento.
A porta da frente devia levar a um prolongamento do corredor, e devia representar uma espécie de escotilha. Hesitou um instante antes de abri-la. O corredor que se estendia atrás dela também estava vazio.
Encostado à parede, aguçava o ouvido.
De algum lugar vinham vozes humanas. Conversavam em intercosmo, a língua dos arcônidas, que conhecia graças ao aprendizado hipnótico a que fora submetido. Mas não entendia uma única palavra.
Mas uma das suas tarefas consistia em descobrir alguma coisa sobre os zalitas que se encontravam nessa nave. Foi avançando cautelosamente, até que conseguiu entender as vozes. Vinham de uma sala que ficava atrás de uma das numerosas portas.
Preparado para um salto imediato, encostou o ouvido à chapa lisa. Sim, já estava entendendo o que diziam.
...talvez estejamos entrando numa fria.
Não foram exatamente estas as palavras do desconhecido, mas o sentido era o mesmo. Outra voz respondeu:
Hemor deve saber o que está fazendo. Afinal, está agindo por ordem de Zarlt. E este sabe ainda melhor o que está fazendo.
Devem saber do que estão fazendo, mas com o Império não se brinca. Se perceber que estamos trapaceando no jogo, teremos toda uma frota em cima de nós. E não devíamos assumir este risco.
Trata-se de uma chance única. Olhe que esse desconhecido do espaço conseguiu enganar o grande cérebro.
Pois é justamente isso. Zarlt quer ser mais esperto que ele. Acho que isso é uma temeridade.
Houve uma ligeira pausa. Ras ouviu passos que se aproximavam da porta. Recuou e procurou uma saída que o livrasse de saltar. Mas não teve muito tempo para tomar sua decisão.
A porta abriu-se repentinamente e uma cabeça surgiu no corredor.
Ras não saberia dizer se o sujeito ainda chegou a vê-lo. Desmaterializou-se no mesmo instante e concentrou-se sobre a proa, onde devia ficar a sala de comando da nave.
Era um risco enorme, mas consolou-se com a certeza de que poderia desaparecer a qualquer instante caso se encontrasse com mais alguém.
Teve sorte.
Quando começou a enxergar-se e já se preparava para desaparecer de novo, percebeu que estava só. Viu, em torno de si, o Universo.
Mas era um Universo cheio de ar, no qual podia respirar.
Felizmente o receio de que poderia ter errado o salto e parado em meio ao espaço não se confirmou. Espantou-se ao notar que se encontrava num recinto quase redondo, cujas paredes e teto eram feitas de um material transparente. Talvez fosse uma espécie de posto de observação.
Viu o casco gigantesco da Titan que se elevava para a direita que nem uma gigantesca parede. Viu num túnel de plástico que ligava as duas naves um vulto humano, que vencia a passos rápidos a distância entre a nave desconhecida e a Titan. Viu que foi recebido por alguns oficiais.
Devia ser o comandante que solicitara uma entrevista com Rhodan.
Havia uma única porta que levava à sala de observação; o fato tranqüilizou Ras. Correu para junto dela e lançou um olhar para o corredor que se estendia atrás dela. Estava vazio.
Por esse lado não havia nenhum perigo.
Voltou a fechar a porta e virou-se.
Foi quando viu o monstro...

* * *

Desde o início Tako foi menos favorecido pela sorte.
Ao materializar-se viu-se em meio a uma multidão que discutia apaixonadamente. Era composta apenas por zalitas em trajes sujos; era muito provável que pertencessem à equipe técnica.
O japonês não teve bastante presença de espírito para desaparecer de relance. Talvez achasse que, tendo sido descoberto, isso não era necessário, pois de qualquer maneira não poderiam prendê-lo.
A discussão parou imediatamente. Os homens viraram a cabeça em sua direção e arregalaram os olhos. Sem dizerem uma palavra, fitaram aquele vulto fantasmagórico que, de repente, surgira diante deles. Porém parecia ser de carne e osso.
Tako divertiu-se em seu interior, mas o rosto continuou duro e zangado. Não poderia haver contraste mais pronunciado com sua figura magra, que parecia ser muito frágil.
Um dos zalitas, um rapaz robusto de calça verde, adiantou-se e estendeu a mão em direção a Tako. Seu rosto exprimiu um misto de temor e curiosidade.
Com um gesto o japonês afastou a mão.
Não me toque! — disse em intercosmo.
O zalita compreendeu imediatamente.
Quem é você? — perguntou. Com um olhar de espreita acrescentou: — De onde veio?
Quem sabe se não posso tornar-me invisível — respondeu Tako e, afastando um dos zalitas com a mão, avançou lentamente em direção à porta. — Vocês vão me dar licença para dar uma olhada pela nave.
Abriu a porta. Ninguém procurou impedi-lo. Olharam atrás dele, como se não acreditassem no que estavam vendo.
Só quando Tako já estava quase no corredor e pretendia fechar a porta atrás de si, correram para ele como se tivessem recebido um comando para isso. Espremeram-se pela abertura estreita e procuraram segurá-lo.
Mas suas mãos apenas agarraram o ar.
Tako desmaterializou-se e saltou em direção à meia nau, onde por azar veio pousar exatamente no lugar em que Ras estivera poucos segundos antes.
O oficial que acabara de enfiar a cabeça pela porta testemunhou um fenômeno misterioso, em cuja explicação lógica sua mente ainda trabalharia por muitos anos.
De início viu um monstro negro, que começou a tremeluzir e parecia dissolver-se no ar. Mas isso era apenas uma transformação arrepiante, que não sabia explicar. Mal a criatura preta se tornara invisível, outro vulto surgiu diante do oficial.
Era Tako.
O oficial soltou um grito e bateu a porta atrás de si.
Tako admirou-se com a rapidez da reação do zalita e pôs-se a procurar Ras. Devia estar por ali, se não tivesse havido algum imprevisto.
Ainda não tinha dado dez passos quando o alarma soou na nave. O som das sereias era extremamente agudo, tornando-se quase doloroso ao ouvido humano. Despertaria qualquer pessoa que estivesse dormindo.
Tako praguejou e pôs-se a correr pelo corredor. Na verdade, não conseguira nada; apenas dera um susto em algumas pessoas e causara o alarma. Rhodan não ficaria muito satisfeito, mas a essa altura não poderia fazer mais nada. Seria preferível voltar para a Titan. Certamente Ras já o tinha feito.
Tako saltou de volta para a Titan.

* * *

Ras Tschubai parou em meio ao movimento.
Acreditara estar sozinho na sala de cristal, mas não estava.
O ser tinha menos de metro e meio de altura e quase um metro de largura. Seu formato era circular e lembrava uma gigantesca medusa. Na parte inferior do corpo; Ras viu um número indefinido de tocos, funcionando como pés, que eram flácidos como o resto do corpo. O ser era encimado por uma cabeça redonda como uma bola, grudada bem no centro do corpo gelatinoso. Um par de olhos em forma de botão fitou-o com uma expressão fria e malvada.
Mas o mais estranho era que aquele ser medonho se encontrava num recipiente de vidro que parecia hermeticamente fechado de todos os lados. Um recipiente esférico sob pressão, soube Ras de imediato. Tubos de metal brilhante ligavam o recipiente com um aparelho que lembrava um depósito de oxigênio. Um carrinho de construção extremamente simples contemplava o quadro.
Ras ficou imóvel, olhando o monstro que, segundo imaginava, nada lhe poderia fazer. Foi só por isso que ficou. Teve a impressão de ter feito uma descoberta muito importante.
De onde vem você?
Ras não era telepata. Por isso ficou espantado ao notar que entendia a voz silenciosa, coisa de que geralmente só um telepata era capaz.
Mas logo se lembrou de que um bom hipno ou sugestor também pode impor certas idéias a quem não seja telepata.
Ignorou a pergunta e deu um passo em direção ao recipiente de vidro. Parou a poucos metros do mesmo. Os olhos frios e perscrutadores davam o que pensar. Deles emanava uma ameaça que Ras não conseguiu identificar. O que diria Rhodan quando soubesse da descoberta que acabara de fazer?
Quem é Rhodan? — foi a pergunta seguinte.
Ras assustou-se. Se essa fera sabia ler pensamentos, a coisa poderia tornar-se perigosa. Fez um esforço desesperado para ativar a defesa contra a observação telepática, que aprendera através do processo de treinamento hipnótico. Devia ter conseguido; o pensamento seguinte que captou parecia confirmá-lo.
Por que você se isola? Deste jeito não podemos entabular nenhuma conversa.
Ras decidiu não desperdiçar esta única oportunidade.
O que... quem é você? — pensou, concentrando-se ao máximo.
Sou Moof — foi a resposta, que veio acompanhada de uma estranha pressão sobre o cérebro do teleportador. De repente, Ras sentiu a necessidade de aproximar-se do recipiente de vidro. Quando deu o primeiro passo, notou perfeitamente que a pressão se tornava mais forte.
Em seu interior sereias de alarma começaram a soar.
E o som das campainhas também atingiu seus ouvidos. Era real e atravessava toda a nave. Ouviu pisadas, que se aproximavam da sala em que se encontrava. Portas foram abertas, vozes indagadoras fizeram-se ouvir.
Perigo!
Ras concentrou-se na Titan e saltou.
Quis saltar. Mas alguma coisa reteve-o e impediu sua desmaterialização. Milhares de olhos invisíveis pareciam estender-se em direção ao seu cérebro. A pressão tornou-se mais intensa, e veio acompanhada da ordem de ficar onde estava.
O monstro procurava hipnotizá-lo.
Ras começou a sentir a armadilha em que caíra. Teria que escapar, pois do contrário colocaria em perigo não apenas Rhodan, mas toda a Humanidade. E o mandamento máximo dos astronautas terranos era o de nunca traírem a Humanidade, sacrificando antes a própria vida.
Bem, ainda havia tempo.
Reuniu toda a concentração de que ainda era capaz e pensou em Rhodan e na sala de comando. Viu Rhodan diante de si e viu o perigo terrível em que ele mesmo se encontrava. Era uma situação semelhante à que enfrentara na selva, quando a onça saltou sobre ele.
Apenas, desta vez não era nenhuma onça, porém uma criatura muito mais temível, um monstro telepático que dispunha de poderes sugestivos.
Conseguiu.
No momento em que foi aberta a porta da sala de observação, desmaterializou-se.
Fitou as costas de um homem desconhecido, que se encontrava diante de Rhodan e não notou sua chegada.
3



Marshall recebeu o visitante junto à comporta e acompanhou-o pelos inúmeros corredores e elevadores antigravitacionais que levavam à sala de comando. Nesse trajeto, teve uma boa oportunidade de sondar as idéias do visitante e submetê-lo a uma intensa espionagem.
O zalita não desconfiou de nada. John logo percebeu que não era telepata. Isso o surpreendeu, pois Gucky afirmara que havia telepatas a bordo da outra nave.
Rhodan aguardava o visitante. Em sua companhia, estavam Bell e os dois arcônidas. Gucky manteve-se na sala de rádio, que ficava logo ao lado; era preferível que por enquanto não aparecesse.
Quando John Marshall entrou com o desconhecido, Rhodan levantou-se.
A impressão que o zalita causou em Rhodan não era má, mas em seus olhos havia alguma coisa de que Rhodan não gostava. Os olhos cor de cobre eram compridos e ligeiramente ondulados. Até mesmo com a iluminação artificial, a pele parecia marrom-avermelhada e tostada pelo sol. O homem usava um tipo de uniforme com dispositivos dourados e prateados.
O senhor pediu uma entrevista — principiou Rhodan.
O zalita acenou com a cabeça. Também entre os arcônidas esse gesto representava uma afirmativa.
Sou Hemor, comandante da pequena nave que Zarlt mandou ao seu encontro. Fui incumbido de submeter-lhe certas propostas, e espero que esteja disposto a aceitá-las.
Rhodan ergueu as sobrancelhas.
Isso depende das propostas — respondeu.
Parecia um desafio, e realmente não deixava de ser. Hemor compreendeu.
O senhor roubou uma nave de Árcon — principiou com segurança. — Todo o Império está caçando o senhor. Até agora ninguém sabe onde está.
Mas o senhor sabe...
Somos os únicos — disse Hemor com um aceno de cabeça e um sorriso frio. — Foi por puro acaso, mas acontece que sabemos. Mas não se preocupe. Não temos a intenção de informar Árcon sobre sua posição. O Zarlt quer falar com o senhor.
Quem é o Zarlt?
O zalita não disfarçou o espanto. Parecia acreditar que todas as inteligências do Universo conhecessem o Zarlt.
É o soberano do sistema de Voga e vice-imperador de Árcon, isto é, o representante direto do Imperador. Seu nome é almirante Demesor, e ele aguarda o senhor em Tagnor, capital de Zalit, o quarto planeta do sol Voga.
O que quer de mim?
A voz de Rhodan era fria e calma. Fez de conta que se tratava de um assunto de pouca importância, que poderia ser resolvido num instante. No seu íntimo, estava muito curioso para saber o que o vice-imperador do Império Arcônida poderia querer dele.
Não estou autorizado a falar sobre isso; apenas posso fornecer algumas informações secundárias. Pode perguntar.
Rhodan lançou um ligeiro olhar para Marshall, que se mantinha mais afastado. O telepata respondeu com um aceno da cabeça.
O cérebro robotizado de Árcon declarou que sou um inimigo do Estado?
Hemor deixou que alguns segundos se passassem e respondeu:
Não fez nenhuma declaração expressa nesse sentido, mas persegue o senhor com todos os meios que estão à sua disposição. Isso responde à sua pergunta?
Responde; muito obrigado. A segunda pergunta é esta: o que é que Zarlt tem que ver com isso? Por que não cumpre as ordens do cérebro?
Não estou autorizado a responder a esta pergunta.
John Marshall, que continuava no seu canto, deu outro aceno, quase imperceptível. Rhodan encolheu os ombros.
Está bem; acabarei descobrindo. O que vai acontecer se eu não atender ao convite?
Um ligeiro sorriso aflorou à face de Hemor.
Nossa frota está de prontidão. Recebeu ordens para levá-lo a Zalit, e é o que vai fazer se não houver contra-ordem. Essa contra-ordem não será dada por mim, mas por meu representante, se eu não estiver de volta num tempo determinado. Como vê, não esquecemos nenhum detalhe.
Realmente — disse Rhodan, louvando a cautela do zalita. — Os senhores não esqueceram. Acredito que não adianta formular outras perguntas. Ouvirei as propostas do Zarlt.
O rosto de Hemor iluminou-se. Parecia que um peso acabara de ser tirado de seu coração. Lançou um olhar para Thora e Crest, que até então se haviam mantido em silêncio.
Não sabia que há arcônidas a bordo desta nave. Ninguém me informou a este respeito.
Crest fez um gesto de desprezo.
Será que isto tem alguma importância? — perguntou em tom indiferente.
A porta abriu-se e o operador de rádio entrou.
Uma frota vinda do sistema aproxima-se. É formada de pelo menos duzentas unidades e está assumindo posição de ataque.
Rhodan lançou um olhar indagador para Hemor. O zalita sorriu.
É apenas uma medida de precaução. Se não estou enganado, o senhor acaba de dizer que virá comigo. Permite que regresse à minha nave?
Nesse instante, o vulto de Ras Tschubai surgiu atrás de suas costas. Por um segundo, o negro parecia perplexo, mas logo compreendeu o pedido silencioso de Rhodan e recuou até a parede. Todas as pessoas que se encontravam na sala de comando, com exceção do zalita, haviam notado seu regresso.
Isso fica à vontade do senhor. O campo de pouso de Zalit está bem assinalado?
Basta seguir minha nave — disse Hemor, fez uma ligeira mesura e virou-se. Lançou um olhar indagador para Marshall, que o trouxera até ali. Depois saiu para o corredor sem despedir-se, acompanhado pelo telepata.
Rhodan o focalizou com um olhar pensativo.
Bell mexeu-se.
Que sujeito arrogante! — disse. — É uma cara que a gente gostaria de esbofetear. O que será que ele pensa?
Quando Marshall voltar saberemos. Você vai fazer o favor de seguir essa navezinha com a Titan. Transmita instruções ao coronel Freyt, para que esteja a par. Vamos dar uma olhada em Zalit e no Zarlt. Tenho uma sensação esquisita.
Eu também — disse Crest, que se encontrava do outro lado da sala. — Tenho a impressão de que os zalitas não merecem tanta confiança como se supunha. Talvez possamos prestar um bom serviço ao Império.
É exatamente o que pretendo fazer — disse Rhodan.
Dali a três minutos John Marshall voltou à sala de comando e ouviu as últimas palavras do relato de Ras.
...e então essa medusa procurou dominar minha vontade. Consegui fugir, mas receio que tenham notado minha presença. Houve um alarma geral na nave.
Isso não tem importância — tranqüilizou-o Rhodan. — Tenho certeza absoluta de que não sabiam que estavam lidando com um teleportador. Onde está Tako?
Gucky arrastou-se para dentro da sala.
Já voltou — chilreou com a voz aguda. — Deu um susto tremendo em alguns homens e resolveu desaparecer.
Dirigindo-se a Marshall, prosseguiu:
Você quer contar? Também descobri tudo que esse Hemor pensou.
Sim, vou contar. Se esquecer alguma coisa, você poderá completar — Marshall voltou-se para Rhodan. — Levei-o até a comporta. Pediu que eu o avisasse de que o vôo para Zalit será iniciado dentro de três minutos. Pede que mantenhamos a mesma velocidade. Bem, o que pensou foi o seguinte. Não foi muita coisa. Só descobri uma coisa. Talvez Gucky tenha sido mais feliz. O Zarlt quer, com o nosso auxílio, pregar uma peça ao cérebro robotizado. Parece que suas intenções para com o Império não são as melhores.
Era o que eu imaginava — suspirou Crest.
Rhodan sorriu.
Não é de admirar. Ninguém gosta de ser governado por uma máquina. Houve mais alguma coisa de concreto, Marshall?
Não. Apenas uma vez Hemor pensou num certo Moof. Não sei quem pode ser isso.
Já sabemos. Ras encontrou-se com Moof. É um animal.
E que animal! — chilreou a voz de Gucky em meio à discussão. — É a besta cujos impulsos mentais encobrem os dos zalitas. Foi por isso que não entendi nada. De qualquer maneira, o tal do Moof é um telepata e um sugestor.
Senti isso na própria carne — interveio Ras.
Bell não se interessou pela conversa. Aguardou três minutos e ligou os propulsores. Numa manobra lenta e cautelosa, seguiu a minúscula nave, e viu que também a Ganymed saía de sua órbita. Em velocidade moderada, as naves aproximaram-se do gigantesco sol vermelho. A frota seguiu-as a uma distância respeitosa.
O que vem a ser o tal do Moof? — perguntou Rhodan.
Nunca ouvi falar num Moof — disse Crest. — Essa raça deve ter surgido recentemente por aqui.
Parece ser uma espécie de mascote — disse Ras. — Não sei para que poderia servir um bicho destes numa nave. Além disso tudo indica que os moofs só conseguem sobreviver numa atmosfera toda especial, pois são mantidos no interior de recipientes pressurizados.
Então foi este o aquário através do qual Marten enxergava. Logo foi escolher o Moof.
Isso é perfeitamente compreensível — afirmou Gucky. — Pois é o Moof que emite os impulsos mentais mais intensos. Portanto, não é de admirar que Marten tenha caído nesta.
Rhodan resumiu sua opinião.
Um mascote? Talvez seja. Mas acredito que a resposta não é esta. É bem possível que nos reservem uma surpresa.
Bell virou-se.
Eles têm uns colossos respeitáveis — disse. Estava aludindo às naves de guerra dos zalitas. — Para nós não representam nenhum perigo, mas a esta hora não gostaria de estar a bordo da Ganymed.
Ninguém nos atacará — disse Rhodan, afastando a idéia de um perigo iminente. — O Zarlt está muito curioso para conhecer-nos. Enquanto não satisfizer sua curiosidade, estaremos seguros.
Subitamente Gucky ergueu-se. Lançou um ligeiro olhar para Marshall e disse em voz baixa:
Não pensem no que estou dizendo; procurem bloquear o cérebro. Alguém tenta ler nossos pensamentos. É um bom telepata, mas para nós não há bom que chegue. Não é um. São muitos, muitíssimos...
Rhodan ficou de olhos semicerrados. Por um instante parecia indeciso. Depois cochichou para si mesmo.
Em algum lugar existe um perigo terrível que nos ameaça; não tenho a menor dúvida. Sinto-o. Esse perigo não são os zalitas. Seu nome é outro.
Moof — disse John Marshall em tom decidido.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
Acredito que sim. Quem representa o perigo é o Moof.
Gucky sacudiu tão violentamente a cabeça com as grandes orelhas de rato que por pouco não perde o equilíbrio e cai de cima do grosso traseiro.
Não é o Moof. São pelo menos duzentos moofs. Em cada nave dos zalitas, existe ao menos um moof.
Ninguém respondeu.

* * *

A cidade de Tagnor cobria uma área equivalente à de um pequeno país do planeta Terra. Tinha trinta milhões de habitantes, um número que não tinha nada de extraordinário face à população total do planeta — oito bilhões.
Tal qual no planeta Árcon, as estranhas construções em forma de funil dominavam a paisagem. No pé em forma de coluna ficava a entrada, que conduzia o visitante a um mundo completamente independente. O conjunto era cercado pelas paredes que se abriam para cima. Grande parte delas era embelezada por jardins coloridos e lindas varandas. De espaço a espaço, surgiam as residências; cada uma delas formava um conjunto individual e estava separada das outras por amplos jardins.
A forma afunilada das construções correspondia ao desejo de ocupar uma residência individualizada e isolada das perturbações do mundo exterior. Esse costume constituía uma das características dos arcônidas. Como descendentes dos arcônidas, os zalitas adotaram o velho costume.
O brilho do gigantesco funil avermelhado que abrigava o palácio do Governo chegava até o campo espacial. Rhodan já o notara quando ainda se encontravam a grande altitude, e por simples coincidência um dos zalitas que se achavam na nave-guia pensara no edifício.
Marshall logo transmitiu a informação a Rhodan.
Então era lá que ficava a residência do Zarlt.
O campo de pouso era uma área de dimensões gigantescas. Lá longe, junto à linha do horizonte, enormes edifícios o emolduravam. A extensão do campo era de pelo menos vinte quilômetros. Só no momento em que a frota de escolta desceu e pousou em formação ordenada, Rhodan deu-se conta de que o tamanho desse campo de pouso espacial não era exagerado.
A Titan tocou o solo suavemente, como uma bola levíssima. Os raios antigravitacionais sustentaram-na, até que os discos das colunas de apoio encolhíveis encontrassem apoio firme. Rhodan preferiu não desativar totalmente os raios antigravitacionais, pois receava que o enorme peso da Titan a fizesse afundar na superfície do planeta. Manteve os campos antigravitacionais com uma potência suficiente para reduzir o peso da nave à metade.
Um carro que apresentava um estranho formato de torpedo aproximou-se numa curva elegante e aguardou pacientemente até que os visitantes resolvessem sair da nave.
Rhodan já tinha elaborado seus planos.
Crest, Bell e John Marshall virão comigo. É preferível que sejamos poucos — quanto menos, melhor. Prefiro que Thora permaneça no interior da nave. Tenente Tifflor, o senhor ficará na sala de comando e manterá contato comigo. Levarei o pequeno transmissor de pulso e o deixarei ligado.
Dessa forma o senhor sempre estará informado sobre o que estiver acontecendo lá fora. Se cairmos numa armadilha, ataque com os mutantes. Entendido?
E a Ganymed?
Ficará de prontidão para decolar. Ao menor sinal de um ataque, partirá. A Titan continuará aqui, pois estará em condições de defender-se. Mas não acredito que tenhamos motivo para recear uma coisa dessas. Os planos dos zalitas são outros.
E eu?
Agachado junto à porta, Gucky lhe lançou um olhar tão suplicante que Rhodan sentiu-se emocionado. Mas sacudiu a cabeça.
Não é possível, hoje não. Quanto menos os zalitas souberem a nosso respeito, melhor. Além disso, alguém terá que ficar para dirigir o destacamento de mutantes e chefiar um eventual ataque. Como vê, sua presença a bordo é indispensável. Sinto-me mais tranqüilo se puder contar com você caso precise de um reforço. Acho que você compreende, Gucky.
O rato-castor compreendeu. Com um olhar de desprezo para Bell, que só poderia ir com Rhodan porque sua presença na Titan era totalmente indiferente, arrastou-se para fora da sala de comando. Ouviram-no dar uma risada alegre no corredor. Era um sinal de que Rhodan realmente pensava aquilo que acabara de dizer.
Vamos levar armas? — perguntou Bell.
Os radiadores de bolso serão suficientes. Qualquer outra arma não serviria para nada.
Depois de passarem por numerosos corredores e elevadores antigravitacionais chegaram à comporta secundária situada junto ao disco da coluna de apoio. Uma rampa foi descida automaticamente no momento em que a escotilha externa se abriu.
Rhodan foi o primeiro a pisar na superfície daquele mundo estranho. Bem treinados, seus sentidos logo sentiram a pequena diferença de gravitação em relação à Terra. O ar era límpido e transparente. Talvez contivesse um pouco mais de oxigênio que a atmosfera à qual estava acostumado, mas ainda se situava nos limites do normal.
O chão era feito de uma massa dura e lisa, que lembrava o concreto. Era completamente plano e não apresentava qualquer emenda.
O carro aproximou-se e parou perto deles. Um zalita musculoso desceu e abriu a porta.
Tal qual na Terra”, pensou Rhodan bastante contrariado. Era bem verdade que não havia mais nada que lembrasse a visita de um chefe de estado, embora a que estavam fazendo poderia ser considerada como tal.
Durante a viagem pela cidade, não tiveram tempo para conversar. Admiraram as vias expressas muito bem construídas, os lindos parques, as inúmeras construções em forma de funil e o tráfego intenso. Quase se poderia ter a impressão de ter voltado ao planeta de cristal de Árcon, caso os zalitas, apressados e ativos, não surgissem constantemente e em toda parte.
Representavam a única diferença.
Ao contrário dos arcônidas, uma raça cansada e degenerada, que deixava todo o trabalho por conta dos robôs e do cérebro positrônico, o povo de Zalit ainda vivia. Desenvolviam seu trabalho e sua criatividade; os rostos alegres dos habitantes da cidade revelavam que estavam satisfeitos da vida. Não havia o menor sinal da melancolia deprimente dos arcônidas. Pelo contrário, por mais de uma vez os terranos viram grupos de zalitas que riam e se dirigiam aos parques.
Rhodan olhou de esguelha para Crest. O arcônida, observando pela janela do carro, absorvia todas as impressões. Não movia nenhum músculo do rosto, mas Rhodan adivinhou os pensamentos que lhe ocupavam a mente. E o resultado dessas reflexões por certo não deixaria Crest muito satisfeito.
Avistaram o palácio do governo.
De longe, já lhes causara uma impressão formidável, mas agora ultrapassou todas as expectativas de Rhodan. A coluna cilíndrica que sustentava o funil tinha um diâmetro de cinqüenta metros. Na extremidade superior, o diâmetro devia ser de trezentos metros, e a altura chegava a uns cento e cinqüenta metros. As paredes subiam num ângulo de quarenta e cinco graus e, com exceção das janelas que se abriam em fileira, eram completamente lisas.
A cor rubra despertou recordações de Vega na mente de Rhodan.
Dois oficiais com o peito cheio de condecorações receberam Rhodan e seus companheiros e conduziram-nos ao interior do palácio.
A área interna parecia um amplo jardim. Canteiros de flores emolduravam um gramado bem tratado, cortado por caminhos estreitos. Bem no centro via-se...
Atenção! — advertiu-os Marshall em inglês. — Um moof!
Rhodan já o havia visto.
Sobre o gramado havia um recipiente de vidro, do tipo descrito por Ras. No interior estava agachada a medusa, fitando-os com os olhos vidrados em forma de botão. Tinha-se a impressão de que controlava as pessoas que entravam no palácio.
Subitamente e sem qualquer motivo, Rhodan sentiu o desejo de entregar aos oficiais que o acompanhavam o radiador que estava guardado em seu bolso sem que ninguém o tivesse percebido. Por um instante, admirou-se com essa idéia tão esquisita. De repente viu que Bell enfiava a mão no bolso, devagar e cautelosamente, como se ainda estivesse indeciso.
Era o bolso no qual estava guardado o radiador.
Rhodan compreendeu.
Colocou a mão sobre o braço de Bell e arrancou a mão de seu bolso. Estava vazia.
Alguém está tentando impor-nos sua vontade — disse, também em inglês. — Só pode ser aquele moof ali no gramado. Cuida para que ninguém entre no palácio com uma arma. Começo a acreditar que os zalitas usam os moofs como uma espécie de cães de fila telepáticos.
Nem desconfiava de que sua suposição era totalmente errada.

* * *

Ao que parecia, o Zarlt não apreciava muito o luxo; ou então, ele o dispensava de propósito.
Estava sentado atrás de uma mesa muito larga e comprida, coberta de instrumentos de comunicação com os respectivos controles. Entre eles havia pilhas de documentos, papel e utensílios. Parecia ser um homem muito ocupado, que gostava de realizar pessoalmente os serviços mais importantes, uma circunstância que só podia depor a seu favor.
Era bem verdade que os olhos com que fitou os visitantes não inspiravam muita confiança. Havia neles algo de aflito e inconstante. Exprimiam a sede do poder e a certeza de alcançar qualquer objetivo.
Pediu a Rhodan e seus acompanhantes que se acomodassem. Ficaram do outro lado da mesa. Não havia mais ninguém na enorme sala, em cujas paredes se viam telas, que no momento estavam desligadas.
Rhodan fitou o Zarlt sem a menor cerimônia. O homem robusto usava um uniforme colorido, que não combinava com sua personalidade. Parecia um tanto espalhafatoso, enquanto o Zarlt poderia ser qualquer coisa, menos isso.
Foi diretamente ao assunto.
Os senhores roubaram um supercouraçado do Império, e logo o maior e o mais moderno. Estão sendo caçados e um belo dia acabarão sendo encontrados, se não arranjarem amigos poderosos. Nós, os zalitas, poderemos ser seus amigos.
Rhodan fitou o Zarlt.
Por quê? — perguntou.
O soberano esboçou um sorriso meigo, mas seus olhos continuaram duros.
Falarei com franqueza e não perderei muitas palavras. Há pouco tempo conseguimos eliminar a marionete dos arcônidas. A oficialidade da frota ficou do meu lado. Não concordamos em executar as ordens de um cérebro robotizado. Antigamente o Imperador dos arcônidas governava o Império, hoje é uma máquina.
Será que uma máquina não representa a melhor garantia de que não será cometido qualquer erro? — objetou Rhodan.
Não. Sua presença neste instante prova o contrário.
Não havia como contestar isso. Todavia...
O cérebro não administra o Império segundo os desejos dos arcônidas e, portanto, de seus aliados, Zarlt Demesor?
Sabe meu nome?
Hemor me disse.
Ah, sim, Hemor. O senhor é Rhodan?
Sou.
Como se explica que esteja sendo acompanhado por um arcônida?
Os olhos desconfiados do Zarlt pousaram em Crest.
Talvez existam arcônidas que pensem como o Zarlt de Zalit — disse Rhodan.
O Zarlt acenou lentamente com a cabeça. Não demonstrou o menor interesse por Bell e Marshall.
Muito bem. Vamos conversar. Já deve ter percebido que não estou muito entusiasmado pelo governo daquela máquina. Sou, apenas formalmente, o vice-imperador deste Império. Pretendo ser o imperador.
Era uma afirmativa inequívoca. Rhodan sentiu certa desconfiança. Afinal, para o Zarlt era uma pessoa totalmente estranha, e era muito mais estranho que o mesmo lhe revelasse seus planos secretos.
Por que diz isso a mim, Demesor? Não acredita que poderia prejudicá-lo?
Não. O senhor nunca faria uma coisa dessas. Pois o senhor teve oportunidade de constatar com seus olhos o grau de decadência dos arcônidas, que antigamente eram um povo tão altivo. O senhor não conseguiu lograr o cérebro robotizado, provando que não é perfeito? Não, não acredito que o senhor seria capaz de estragar os meus planos. E ainda acontece que precisa do nosso auxílio. Aqui em Zalit encontrará um esconderijo onde pode permanecer oculto com a nave roubada pelo tempo que quiser. Apenas peço uma pequena contraprestação.
Em que consistiria essa contraprestação? — perguntou Rhodan em tom ansioso.
Como conseguiu atravessar a barreira externa dos arcônidas contra a vontade do cérebro robotizado?
Ah, então é isso”, pensou Rhodan. Era claro que não poderia contar ao zalita que isso só se tornara possível graças ao transmissor fictício. Os zalitas não dispunham de um aparelho desse tipo; o único exemplar existente encontrava-se a bordo da Ganymed. Além disso, não tinha a menor intenção de ceder-lhe o transmissor.
Isso é um segredo pessoal — disse em tom cauteloso. — É possível que lhe conte mais tarde, quando nos conhecermos melhor.
O Zarlt disfarçou sua contrariedade.
Estou confiando no senhor, Rhodan, mas o senhor não confia em mim. Bem, com o tempo isso vai mudar. De qualquer maneira, estou firmemente decidido a neutralizar o cérebro robotizado.
Lançou um olhar indagador para Rhodan:
Está disposto a me prestar o auxílio que estiver ao seu alcance?
Rhodan sentiu os olhares de Crest e Bell pousados em si. O Zarlt acabara de formular uma pergunta direta. O que deveria responder? Que tal uma resposta sem compromisso?
O senhor espera que eu responda imediatamente, ou pode conceder-me algum tempo para decidir? Prometo que nada farei neste meio tempo.
O Zarlt hesitou um pouco. Afinal disse:
Está bem. Procure conhecer Tagnor e convencer-se-á de que o povo dos zalitas é capaz de ocupar o lugar dos arcônidas degenerados. Aguardo sua resposta dentro de dois dias.
Comprimiu um botão que se encontrava embaixo da tampa da escrivaninha. A porta abriu-se atrás de Rhodan. Alguém entrou.
Omor, acompanhe nossos visitantes ao carro que os levará ao campo espacial.
Voltando a dirigir-se a Rhodan, acrescentou:
Este carro ficará à sua disposição enquanto estiver aqui. Se tiver tempo, é possível que amanhã eu vá até lá para retribuir sua visita.
Sua visita será um prazer — disse Rhodan e levantou-se.
* * *

Dali a meia hora, quando subiram no elevador até a sala de comando da Titan, o coronel Freyt já os aguardava. Parecia muito nervoso. Thora e Gucky estavam sentados num sofá. A mão delicada da arcônida acariciava o pêlo do rato-castor, que a intervalos regulares soltava um grunhido de satisfação e parecia ter esquecido todos os problemas.
Quando Rhodan e seus acompanhantes entraram, levantou-se, lançou um olhar ligeiro para Marshall, classificou os pensamentos do mesmo e chilreou em tom indiferente:
Apresente seu relatório, John. Eu tenho tempo — voltou a recostar-se e fechou os olhos. Thora não teve outra alternativa senão reiniciar a atividade que interrompera apenas por alguns segundos.
Rhodan cumprimentou Freyt e fez um gesto de recusa quando este se dispôs a falar.
Um momento, coronel. Antes de mais nada quero formular algumas perguntas a Marshall. Durante a viagem não me atreveria a fazê-lo, porque estávamos sendo mantidos ininterruptamente sob observação telepática. Então, Marshall, que impressão lhe causou o Zarlt? Falou a verdade?
O senhor se admirará; disse a verdade. Não lhe ocultou nada, e não mentiu em nenhum ponto de sua palestra.
Rhodan parecia decepcionado, mas nem tanto.
Muito bem. Já sabemos a quantas andamos. O Zarlt quer conquistar o governo do Império decadente. Seu povo é mais capaz e ativo que o de Árcon, e por isso não haveria nenhuma objeção. Mas tenho minhas dúvidas. O pensamento dos zalitas move-se em dimensões provinciais, e não sei se serão capazes de desenvolver um pensamento cósmico. Quando tentam governar o Império, só vêem sua vantagem. Não é isso, Marshall?
É isso mesmo; tive a mesma impressão. Mas será que isso não se modificaria quando alcançassem o poder?
Rhodan sorriu.
Nunca! Alguém que está acostumado a pensar em moldes muito restritos não se transformará num cosmopolita do dia para a noite. Talvez isto fosse possível, mas tenho uma sensação desagradável. Gostaria de saber por que não consigo confiar no Zarlt. Não mentiu para mim, mas ainda assim sou de opinião que não diz o que pensa.
Consegui controlar este ponto — ponderou Marshall. — Disse exatamente o que estava pensando.
Rhodan sacudiu a cabeça.
É estranho, muito estranho — encarou o coronel Freyt. — Então, onde está apertando seu sapato? Aconteceu alguma coisa?
Aconteceu muita coisa! — esbravejou Freyt e seu rosto mudou de tonalidade. — Meu pessoal se faz de louco. Ou pelo menos parte dele.
Como?
Isso mesmo. É verdade que ficaram completamente inofensivos, mas não deixaram de ser loucos. Fazem alguma coisa absurda, e quando a gente pergunta o motivo, dizem que não sabem mais nada. Encontrei verdadeiros sonâmbulos.
Sonâmbulos? — Rhodan parecia muito pensativo. Gucky levantou-se no seu sofá e exibiu o dente-roedor. O rato-castor esboçou um sorriso zombeteiro.
Isso mesmo. Quando a gente fala com eles, acordam. Há algo de errado em tudo isso.
Rhodan olhou para Gucky.
Por que está rindo, Gucky? Se souber alguma coisa, fale logo.
Gucky escorregou do sofá para o chão e marchou em atitude grave até o centro da sala de comando, onde se deixou cair confortavelmente sobre a traseira, equilibrando-se com o rabo. Este lhe servia de apoio.
Ninguém me perguntou — anunciou sem parar com o sorriso insolente, que deixou Bell furioso. — É claro que só podem ser os moofs.
Cheguei a imaginar isso — confirmou Rhodan. — Mas gostaria de saber mais alguma coisa. Eles tentam hipnotizar-nos, Gucky?
Sim, mas não passam da tentativa. Os zalitas são objetos mais compreensíveis; dos seus esforços.
Rhodan sentiu um sobressalto.
O que está dizendo, Gucky? Os zalitas? Não compreendo. Em nossa opinião os zalitas mantêm os moofs como uma espécie de mascote ou cão de fila. Quando entramos no palácio, um moof tentou desarmar-nos por via sugestiva.
É bem possível! — chilreou Gucky alegremente, como se tudo aquilo o deixasse muito satisfeito. De repente, o dente-roedor desapareceu. Tornou-se sério e muito atento. — Nestas últimas horas tive oportunidade de estudar os moofs. Afinal, tentam ininterruptamente influenciar-nos. Consegui espreitar um deles e descobri muita coisa. Não são os zalitas que dominam os moofs; é exatamente o contrário. Foram eles que derrubaram o Zarlt e fizeram com que Demesor assumisse o poder. Com o auxílio deste, pretendem destruir o cérebro robotizado estacionado em Árcon e dominar todo o Império. São os moofs que querem assumir o lugar dos arcônidas; os zalitas apenas acreditam que o farão.
Rhodan fitou Gucky por muito tempo. Ninguém falou. Crest mordia nervosamente o lábio inferior, procurando disfarçar o nervosismo.
De uma hora para outra, a situação modificara-se por completo.
Rhodan percebeu-o num instante. Se até então estava indeciso, ficando sem saber se o domínio dos zalitas sobre o Império representaria uma vantagem para as numerosas raças que viviam no mesmo, a essa altura tinha certeza absoluta de que a ascensão ao poder das medusas-monstro significaria o fim de todas as raças humanóides.
Não foi difícil tomar uma decisão.
Os zalitas sabem que não passam de bonecos? Têm alguma idéia da influência que os moofs exercem sobre eles?
Não têm a menor idéia. Acreditam que são donos de seu sistema. Consideram os moofs uma espécie de animais domésticos. Oficialmente são intérpretes aos quais recorrem quando se encontram com raças desconhecidas que não dominam o intercosmo ou não sabem falar. É então que intervém os moofs.
Rhodan percebeu o nervosismo de Crest. Sorriu.
Não se preocupe, Crest. Nossa decisão só pode ser uma: num caso todo especial como este apoiamos integralmente o cérebro robotizado. Nunca permitiremos que os homens sejam governados por uma raça não-humana. Por isso o Zarlt é um duplo traidor. Orientaremos nossa ação de acordo com esse fato. Por enquanto nosso regresso à Terra caiu na água — ergueu as sobrancelhas. — Gostaria de saber como os moofs foram conceber a idéia de subjugar o Império. Gucky, o que vêm a ser esses moofs?
O rato-castor havia assumido uma posição mais cômoda. Acomodou-se numa poltrona. Cônscio da sua importância, não deixou passar a oportunidade.
Dificilmente existirão seres mais estúpidos que os moofs — revelou às pessoas que o escutavam ansiosamente. — Como não sabem falar, são telepatas de nascença. Mais tarde desenvolvem o dom da sugestão, mas, como já acentuei, este permanece bastante atrofiado. Os zalitas, que são fáceis de influenciar, foram os seres indicados para a tentativa de revolta. Têm dificuldades quando se defrontam com homens normais, isso sem falar nos mutantes. Esse fato os deixa bastante confusos.
Os moofs são bobos? — perguntou Bell em tom de espanto.
Gucky, muito sério, confirmou com um aceno de cabeça.
Isso mesmo, são estúpidos, e isso não me deixa nem um pouco admirado. Também existem homens estúpidos, que querem governar outros homens e não querem reconhecer que só o homem inteligente, e às vezes o forte e o implacável, foram feitos para exercer o poder. Mas conforme já disse, quanto mais estúpido é um ser, maiores são seus complexos e sua sede de poder.
Depois desse sermão um tanto ambíguo voltou a dirigir-se a Rhodan:
Os moofs não têm a menor noção da tecnologia e a navegação espacial é um mistério para eles, mas são encontrados a bordo de todas as naves dos zalitas. Os verdadeiros soberanos do sistema de Voga são os moofs, não os zalitas.
Não sei o que aconteceu nos últimos treze anos — disse Thora, intervindo no debate. — É claro que já conheço os moofs só por histórias. Viviam num planeta situado no Império. Nós os deixamos em paz, pois não sabíamos o que fazer com eles. E agora...
Ao que tudo indica, apareceu alguém que sabe o que fazer com eles — disse Rhodan.
De repente, Gucky pôs as orelhas de pé. Ergueu-se em sua poltrona e fitou Rhodan com seus olhos inteligentes. O dente-roedor voltou a aparecer. Gucky sorriu.
Saber o que fazer com eles...? — disse, esticando as palavras num silvo agudo tão dissonante que Bell tapou os ouvidos. — Rhodan, acho que com estas palavras você encontrou a solução do problema.
Ninguém ficou mais espantado com esta observação que o próprio Rhodan, mas este preferiu não formular outras perguntas.
4



O Zarlt sentiu-se muito satisfeito quando no dia seguinte Rhodan o procurou e lhe submeteu sua proposta.
Conheço o segredo da barreira arcônida — disse, jogando seu trunfo mais forte. Além disso, ao fugir, consegui enganar o cérebro que, segundo dizem, seria infalível. Isso prova que o homem é mais forte e inteligente que o cérebro positrônico que governa o Império. Mas, para desferirmos um golpe decisivo contra o cérebro robotizado precisamos realizar preparativos meticulosos. É bem possível que até aqui simplesmente tenha tido sorte, e não podemos confiar na sorte. Quero conhecer melhor minha nova nave, à qual dei o nome de Titan. Quero que me conceda algumas semanas para treinar minha tripulação. Depois disso poderemos partir para o ataque conjunto.
O Zarlt balançou a cabeça.
Por que me oferece uma ajuda maior que a que lhe solicitei? Qual é o interesse que tem no Império? Onde fica seu planeta?
Meu planeta não pertence ao Império — disse Rhodan, respondendo em primeiro lugar à última das perguntas. — De qualquer forma, quando voltar a entrar em contato com o Império, gostaria que o mesmo fosse governado por um homem, não por robôs. Esta explicação o satisfaz?
Desta vez o Zarlt acenou com a cabeça.
Sim, parece bem plausível. Quer dizer que me ajudará?
Ajudarei. Não tenha a menor dúvida de que farei tudo que estiver no interesse do Império. Diga-me uma coisa: quem são os moofs?
A surpresa conferiu uma expressão sombria ao rosto do soberano.
Já sabe alguma coisa a respeito dos moofs?
Rhodan sorriu.
Vejo-os em toda parte, Demesor. Por que faz tanto luxo com eles, se por sua natureza não podem viver neste mundo? De onde foram importados?
Nossas expedições encontraram-nos num planeta solitário. São telepatas e nos servem como intérpretes. E também como detectores de mentiras, quando isso se torna necessário. Poderia, por exemplo, conferir todas as suas palavras por meio de um moof. Como vê, eles nos prestam serviços extraordinários.
Não tenho a menor dúvida — disse Iihodan, levantando-se. — Espero contar nos próximos dias com sua visita à Titan. Deve estar interessado em conhecer a nave dos arcônidas.
Terei o maior prazer. Não deixarei de visitá-lo.

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