— Procurei
reconhecer-me a mim mesmo. Ou melhor, o ser no qual penetrei. Não
consegui. Tive a impressão de ser um peixe num aquário. Talvez
fosse mesmo. As pessoas que passavam perto de mim não me davam a
menor atenção; devia ter escolhido o corpo de um indivíduo muito
insignificante. Mas a qualquer momento posso voltar àquela nave e
tentar...
— Um
instante, Marten, não há necessidade disso — interrompeu Rhodan.
— Por enquanto basta que saibamos que não têm a intenção de
atacar-nos. Gucky, tem alguma novidade?
— Quem
está a bordo dessa nave são os ésperes — repetiu o rato-castor.
— Sinto perfeitamente que tentam sugestionar-me.
— Quer
dizer que não são telepatas, mas sugestores que podem assumir a
vontade de outro indivíduo.
— São
ambas as coisas — chilreou Gucky. E acrescentou: — Acontece que
não conseguem passar de algumas tentativas miseráveis.
Rhodan
olhou para a tela. A nave desconhecida aproximara-se ainda mais e
parara. Não se encontrava a mais de dez quilômetros da Titan.
O operador
de rádio entrou na sala de comando.
— Há
uma mensagem vinda da nave desconhecida — anunciou. — O
comandante pede permissão para vir a bordo.
Rhodan
refletiu apenas alguns segundos. Depois disse.
— Está
bem. Transmita-lhe o meu consentimento. Mas não deve trazer nenhum
acompanhante; terá de vir sozinho. A nave pode atracar junto à
comporta dezessete. Indique o lugar por meio de sinais luminosos.
O operador
de rádio retirou-se. A manobra de atracação foi iniciada. Rhodan
dirigiu-se a Gucky.
— Volte
para onde estão os mutantes. Fiquem de prontidão. Prestem atenção
a eventuais tentativas dos zalitas de submeter-nos ao seu controle
mental. Peça a Marshall que venha à sala de comando. Assim que o
comandante estiver a bordo, Ras Tschubai e o japonês deverão ir à
nave desconhecida e dar uma olhada. Devem fazer o possível para não
serem percebidos. Entendido, Gucky?
Gucky
escorregou para fora da poltrona e colocou-se em posição ereta.
Dessa forma sua altura quase chegava a um metro e meio. Ficou muito
engraçado quando fez continência com a pata direita. Infelizmente o
dente-roedor sorridente não permitiu que Bell o levasse a sério.
— Entendido
— chiou e saiu saltitando. Esqueceu-se de que poderia percorrer o
caminho por meio da teleportação. A história dos outros ésperes
parecia tê-lo afetado gravemente. Ralf Marten seguiu-o.
Rhodan
pediu a Thora e Crest que viessem à sala de comando. Juntamente com
estes, e ainda Bell e o telepata John Marshall, aguardou o comandante
da outra nave.
Ras
Tschubai media quase dois metros de altura, um fato que dava mostras
de sua descendência dos chefes das tribos guerreiras do Sudão.
Certa vez, quando se defrontava com um grande perigo, descobriu a
capacidade de, pela simples força do seu desejo, transportar-se para
outro lugar. Naquela oportunidade, um leão saltou sobre ele, mas a
pata do animal apenas atingiu o ar. Ras Tschubai desaparecera, para
reencontrar-se em sua aldeia natal, a três mil quilômetros de
distância.
Com esse
incidente, teve início sua carreira de teleportador.
Coisa
semelhante acontecera com Tako Kakuta. O débil japonês descobrira
seu dom por ocasião de uma catástrofe, e o manteve em segredo até
o momento de juntar-se ao exército de mutantes de Rhodan.
Quando os
dois receberam ordem para entrar em ação, agiram sem perda de
tempo. O salto até a nave ancorada no casco da Titan foi facílimo.
Seria bem mais difícil não ser percebido pela tripulação da outra
nave.
Trabalharam
separadamente. Enquanto Tako se concentrava na popa da nave, Ras
desenvolveu suas atividades a meia nau.
Quando se
rematerializou e começou a enxergar, ficou aliviado ao constatar que
estava só. No recinto em que se encontrava, havia vários
instrumentos, cuja finalidade por enquanto lhe era desconhecida. Como
não houvesse nenhuma vigia, devia achar-se no setor interno da nave.
Decidiu
prosseguir normalmente nas suas investigações.
O recinto
tinha duas portas. Uma delas abriu-se facilmente a uma simples
pressão da mão e levou a um corredor no qual desembocavam outras
portas. Não se arriscou a abrir nenhuma delas. Preferiu avançar
sorrateiramente, preparado para desmaterializar-se a qualquer
momento.
A porta da
frente devia levar a um prolongamento do corredor, e devia
representar uma espécie de escotilha. Hesitou um instante antes de
abri-la. O corredor que se estendia atrás dela também estava vazio.
Encostado
à parede, aguçava o ouvido.
De algum
lugar vinham vozes humanas. Conversavam em intercosmo, a língua dos
arcônidas, que conhecia graças ao aprendizado hipnótico a que fora
submetido. Mas não entendia uma única palavra.
Mas uma
das suas tarefas consistia em descobrir alguma coisa sobre os zalitas
que se encontravam nessa nave. Foi avançando cautelosamente, até
que conseguiu entender as vozes. Vinham de uma sala que ficava atrás
de uma das numerosas portas.
Preparado
para um salto imediato, encostou o ouvido à chapa lisa. Sim, já
estava entendendo o que diziam.
— ...talvez
estejamos entrando numa fria.
Não foram
exatamente estas as palavras do desconhecido, mas o sentido era o
mesmo. Outra voz respondeu:
— Hemor
deve saber o que está fazendo. Afinal, está agindo por ordem de
Zarlt. E este sabe ainda melhor o que está fazendo.
— Devem
saber do que estão fazendo, mas com o Império não se brinca. Se
perceber que estamos trapaceando no jogo, teremos toda uma frota em
cima de nós. E não devíamos assumir este risco.
— Trata-se
de uma chance única. Olhe que esse desconhecido do espaço conseguiu
enganar o grande cérebro.
— Pois é
justamente isso. Zarlt quer ser mais esperto que ele. Acho que isso é
uma temeridade.
Houve uma
ligeira pausa. Ras ouviu passos que se aproximavam da porta. Recuou e
procurou uma saída que o livrasse de saltar. Mas não teve muito
tempo para tomar sua decisão.
A porta
abriu-se repentinamente e uma cabeça surgiu no corredor.
Ras não
saberia dizer se o sujeito ainda chegou a vê-lo. Desmaterializou-se
no mesmo instante e concentrou-se sobre a proa, onde devia ficar a
sala de comando da nave.
Era um
risco enorme, mas consolou-se com a certeza de que poderia
desaparecer a qualquer instante caso se encontrasse com mais alguém.
Teve
sorte.
Quando
começou a enxergar-se e já se preparava para desaparecer de novo,
percebeu que estava só. Viu, em torno de si, o Universo.
Mas era um
Universo cheio de ar, no qual podia respirar.
Felizmente
o receio de que poderia ter errado o salto e parado em meio ao espaço
não se confirmou. Espantou-se ao notar que se encontrava num recinto
quase redondo, cujas paredes e teto eram feitas de um material
transparente. Talvez fosse uma espécie de posto de observação.
Viu o
casco gigantesco da Titan que se elevava para a direita que nem uma
gigantesca parede. Viu num túnel de plástico que ligava as duas
naves um vulto humano, que vencia a passos rápidos a distância
entre a nave desconhecida e a Titan. Viu que foi recebido por alguns
oficiais.
Devia ser
o comandante que solicitara uma entrevista com Rhodan.
Havia uma
única porta que levava à sala de observação; o fato tranqüilizou
Ras. Correu para junto dela e lançou um olhar para o corredor que se
estendia atrás dela. Estava vazio.
Por esse
lado não havia nenhum perigo.
Voltou a
fechar a porta e virou-se.
Foi quando
viu o monstro...
*
* *
Desde o
início Tako foi menos favorecido pela sorte.
Ao
materializar-se viu-se em meio a uma multidão que discutia
apaixonadamente. Era composta apenas por zalitas em trajes sujos; era
muito provável que pertencessem à equipe técnica.
O japonês
não teve bastante presença de espírito para desaparecer de
relance. Talvez achasse que, tendo sido descoberto, isso não era
necessário, pois de qualquer maneira não poderiam prendê-lo.
A
discussão parou imediatamente. Os homens viraram a cabeça em sua
direção e arregalaram os olhos. Sem dizerem uma palavra, fitaram
aquele vulto fantasmagórico que, de repente, surgira diante deles.
Porém parecia ser de carne e osso.
Tako
divertiu-se em seu interior, mas o rosto continuou duro e zangado.
Não poderia haver contraste mais pronunciado com sua figura magra,
que parecia ser muito frágil.
Um dos
zalitas, um rapaz robusto de calça verde, adiantou-se e estendeu a
mão em direção a Tako. Seu rosto exprimiu um misto de temor e
curiosidade.
Com um
gesto o japonês afastou a mão.
— Não
me toque! — disse em intercosmo.
O zalita
compreendeu imediatamente.
— Quem é
você? — perguntou. Com um olhar de espreita acrescentou: — De
onde veio?
— Quem
sabe se não posso tornar-me invisível — respondeu Tako e,
afastando um dos zalitas com a mão, avançou lentamente em direção
à porta. — Vocês vão me dar licença para dar uma olhada pela
nave.
Abriu a
porta. Ninguém procurou impedi-lo. Olharam atrás dele, como se não
acreditassem no que estavam vendo.
Só quando
Tako já estava quase no corredor e pretendia fechar a porta atrás
de si, correram para ele como se tivessem recebido um comando para
isso. Espremeram-se pela abertura estreita e procuraram segurá-lo.
Mas suas
mãos apenas agarraram o ar.
Tako
desmaterializou-se e saltou em direção à meia nau, onde por azar
veio pousar exatamente no lugar em que Ras estivera poucos segundos
antes.
O oficial
que acabara de enfiar a cabeça pela porta testemunhou um fenômeno
misterioso, em cuja explicação lógica sua mente ainda trabalharia
por muitos anos.
De início
viu um monstro negro, que começou a tremeluzir e parecia
dissolver-se no ar. Mas isso era apenas uma transformação
arrepiante, que não sabia explicar. Mal a criatura preta se tornara
invisível, outro vulto surgiu diante do oficial.
Era Tako.
O oficial
soltou um grito e bateu a porta atrás de si.
Tako
admirou-se com a rapidez da reação do zalita e pôs-se a procurar
Ras. Devia estar por ali, se não tivesse havido algum imprevisto.
Ainda não
tinha dado dez passos quando o alarma soou na nave. O som das sereias
era extremamente agudo, tornando-se quase doloroso ao ouvido humano.
Despertaria qualquer pessoa que estivesse dormindo.
Tako
praguejou e pôs-se a correr pelo corredor. Na verdade, não
conseguira nada; apenas dera um susto em algumas pessoas e causara o
alarma. Rhodan não ficaria muito satisfeito, mas a essa altura não
poderia fazer mais nada. Seria preferível voltar para a Titan.
Certamente Ras já o tinha feito.
Tako
saltou de volta para a Titan.
*
* *
Ras
Tschubai parou em meio ao movimento.
Acreditara
estar sozinho na sala de cristal, mas não estava.
O ser
tinha menos de metro e meio de altura e quase um metro de largura.
Seu formato era circular e lembrava uma gigantesca medusa. Na parte
inferior do corpo; Ras viu um número indefinido de tocos,
funcionando como pés, que eram flácidos como o resto do corpo. O
ser era encimado por uma cabeça redonda como uma bola, grudada bem
no centro do corpo gelatinoso. Um par de olhos em forma de botão
fitou-o com uma expressão fria e malvada.
Mas o mais
estranho era que aquele ser medonho se encontrava num recipiente de
vidro que parecia hermeticamente fechado de todos os lados. Um
recipiente esférico sob pressão, soube Ras de imediato. Tubos de
metal brilhante ligavam o recipiente com um aparelho que lembrava um
depósito de oxigênio. Um carrinho de construção extremamente
simples contemplava o quadro.
Ras ficou
imóvel, olhando o monstro que, segundo imaginava, nada lhe poderia
fazer. Foi só por isso que ficou. Teve a impressão de ter feito uma
descoberta muito importante.
— De
onde vem você?
Ras não
era telepata. Por isso ficou espantado ao notar que entendia a voz
silenciosa, coisa de que geralmente só um telepata era capaz.
Mas logo
se lembrou de que um bom hipno ou sugestor também pode impor certas
idéias a quem não seja telepata.
Ignorou a
pergunta e deu um passo em direção ao recipiente de vidro. Parou a
poucos metros do mesmo. Os olhos frios e perscrutadores davam o que
pensar. Deles emanava uma ameaça que Ras não conseguiu identificar.
O que diria Rhodan quando soubesse da descoberta que acabara de
fazer?
— Quem é
Rhodan? — foi a pergunta seguinte.
Ras
assustou-se. Se essa fera sabia ler pensamentos, a coisa poderia
tornar-se perigosa. Fez um esforço desesperado para ativar a defesa
contra a observação telepática, que aprendera através do processo
de treinamento hipnótico. Devia ter conseguido; o pensamento
seguinte que captou parecia confirmá-lo.
— Por
que você se isola? Deste jeito não podemos entabular nenhuma
conversa.
Ras
decidiu não desperdiçar esta única oportunidade.
— O
que... quem é você? — pensou, concentrando-se ao máximo.
— Sou
Moof — foi a resposta, que veio acompanhada de uma estranha pressão
sobre o cérebro do teleportador. De repente, Ras sentiu a
necessidade de aproximar-se do recipiente de vidro. Quando deu o
primeiro passo, notou perfeitamente que a pressão se tornava mais
forte.
Em seu
interior sereias de alarma começaram a soar.
E o som
das campainhas também atingiu seus ouvidos. Era real e atravessava
toda a nave. Ouviu pisadas, que se aproximavam da sala em que se
encontrava. Portas foram abertas, vozes indagadoras fizeram-se ouvir.
Perigo!
Ras
concentrou-se na Titan e saltou.
Quis
saltar. Mas alguma coisa reteve-o e impediu sua desmaterialização.
Milhares de olhos invisíveis pareciam estender-se em direção ao
seu cérebro. A pressão tornou-se mais intensa, e veio acompanhada
da ordem de ficar onde estava.
O monstro
procurava hipnotizá-lo.
Ras
começou a sentir a armadilha em que caíra. Teria que escapar, pois
do contrário colocaria em perigo não apenas Rhodan, mas toda a
Humanidade. E o mandamento máximo dos astronautas terranos era o de
nunca traírem a Humanidade, sacrificando antes a própria vida.
Bem, ainda
havia tempo.
Reuniu
toda a concentração de que ainda era capaz e pensou em Rhodan e na
sala de comando. Viu Rhodan diante de si e viu o perigo terrível em
que ele mesmo se encontrava. Era uma situação semelhante à que
enfrentara na selva, quando a onça saltou sobre ele.
Apenas,
desta vez não era nenhuma onça, porém uma criatura muito mais
temível, um monstro telepático que dispunha de poderes sugestivos.
Conseguiu.
No momento
em que foi aberta a porta da sala de observação,
desmaterializou-se.
Fitou as
costas de um homem desconhecido, que se encontrava diante de Rhodan e
não notou sua chegada.
3
Marshall
recebeu o visitante junto à comporta e acompanhou-o pelos inúmeros
corredores e elevadores antigravitacionais que levavam à sala de
comando. Nesse trajeto, teve uma boa oportunidade de sondar as idéias
do visitante e submetê-lo a uma intensa espionagem.
O zalita
não desconfiou de nada. John logo percebeu que não era telepata.
Isso o surpreendeu, pois Gucky afirmara que havia telepatas a bordo
da outra nave.
Rhodan
aguardava o visitante. Em sua companhia, estavam Bell e os dois
arcônidas. Gucky manteve-se na sala de rádio, que ficava logo ao
lado; era preferível que por enquanto não aparecesse.
Quando
John Marshall entrou com o desconhecido, Rhodan levantou-se.
A
impressão que o zalita causou em Rhodan não era má, mas em seus
olhos havia alguma coisa de que Rhodan não gostava. Os olhos cor de
cobre eram compridos e ligeiramente ondulados. Até mesmo com a
iluminação artificial, a pele parecia marrom-avermelhada e tostada
pelo sol. O homem usava um tipo de uniforme com dispositivos dourados
e prateados.
— O
senhor pediu uma entrevista — principiou Rhodan.
O zalita
acenou com a cabeça. Também entre os arcônidas esse gesto
representava uma afirmativa.
— Sou
Hemor, comandante da pequena nave que Zarlt mandou ao seu encontro.
Fui incumbido de submeter-lhe certas propostas, e espero que esteja
disposto a aceitá-las.
Rhodan
ergueu as sobrancelhas.
— Isso
depende das propostas — respondeu.
Parecia um
desafio, e realmente não deixava de ser. Hemor compreendeu.
— O
senhor roubou uma nave de Árcon — principiou com segurança. —
Todo o Império está caçando o senhor. Até agora ninguém sabe
onde está.
— Mas o
senhor sabe...
— Somos
os únicos — disse Hemor com um aceno de cabeça e um sorriso frio.
— Foi por puro acaso, mas acontece que sabemos. Mas não se
preocupe. Não temos a intenção de informar Árcon sobre sua
posição. O Zarlt quer falar com o senhor.
— Quem é
o Zarlt?
O zalita
não disfarçou o espanto. Parecia acreditar que todas as
inteligências do Universo conhecessem o Zarlt.
— É o
soberano do sistema de Voga e vice-imperador de Árcon, isto é, o
representante direto do Imperador. Seu nome é almirante Demesor, e
ele aguarda o senhor em Tagnor, capital de Zalit, o quarto planeta do
sol Voga.
— O que
quer de mim?
A voz de
Rhodan era fria e calma. Fez de conta que se tratava de um assunto de
pouca importância, que poderia ser resolvido num instante. No seu
íntimo, estava muito curioso para saber o que o vice-imperador do
Império Arcônida poderia querer dele.
— Não
estou autorizado a falar sobre isso; apenas posso fornecer algumas
informações secundárias. Pode perguntar.
Rhodan
lançou um ligeiro olhar para Marshall, que se mantinha mais
afastado. O telepata respondeu com um aceno da cabeça.
— O
cérebro robotizado de Árcon declarou que sou um inimigo do Estado?
Hemor
deixou que alguns segundos se passassem e respondeu:
— Não
fez nenhuma declaração expressa nesse sentido, mas persegue o
senhor com todos os meios que estão à sua disposição. Isso
responde à sua pergunta?
— Responde;
muito obrigado. A segunda pergunta é esta: o que é que Zarlt tem
que ver com isso? Por que não cumpre as ordens do cérebro?
— Não
estou autorizado a responder a esta pergunta.
John
Marshall, que continuava no seu canto, deu outro aceno, quase
imperceptível. Rhodan encolheu os ombros.
— Está
bem; acabarei descobrindo. O que vai acontecer se eu não atender ao
convite?
Um ligeiro
sorriso aflorou à face de Hemor.
— Nossa
frota está de prontidão. Recebeu ordens para levá-lo a Zalit, e é
o que vai fazer se não houver contra-ordem. Essa contra-ordem não
será dada por mim, mas por meu representante, se eu não estiver de
volta num tempo determinado. Como vê, não esquecemos nenhum
detalhe.
— Realmente
— disse Rhodan, louvando a cautela do zalita. — Os senhores não
esqueceram. Acredito que não adianta formular outras perguntas.
Ouvirei as propostas do Zarlt.
O rosto de
Hemor iluminou-se. Parecia que um peso acabara de ser tirado de seu
coração. Lançou um olhar para Thora e Crest, que até então se
haviam mantido em silêncio.
— Não
sabia que há arcônidas a bordo desta nave. Ninguém me informou a
este respeito.
Crest fez
um gesto de desprezo.
— Será
que isto tem alguma importância? — perguntou em tom indiferente.
A porta
abriu-se e o operador de rádio entrou.
— Uma
frota vinda do sistema aproxima-se. É formada de pelo menos duzentas
unidades e está assumindo posição de ataque.
Rhodan
lançou um olhar indagador para Hemor. O zalita sorriu.
— É
apenas uma medida de precaução. Se não estou enganado, o senhor
acaba de dizer que virá comigo. Permite que regresse à minha nave?
Nesse
instante, o vulto de Ras Tschubai surgiu atrás de suas costas. Por
um segundo, o negro parecia perplexo, mas logo compreendeu o pedido
silencioso de Rhodan e recuou até a parede. Todas as pessoas que se
encontravam na sala de comando, com exceção do zalita, haviam
notado seu regresso.
— Isso
fica à vontade do senhor. O campo de pouso de Zalit está bem
assinalado?
— Basta
seguir minha nave — disse Hemor, fez uma ligeira mesura e virou-se.
Lançou um olhar indagador para Marshall, que o trouxera até ali.
Depois saiu para o corredor sem despedir-se, acompanhado pelo
telepata.
Rhodan o
focalizou com um olhar pensativo.
Bell
mexeu-se.
— Que
sujeito arrogante! — disse. — É uma cara que a gente gostaria de
esbofetear. O que será que ele pensa?
— Quando
Marshall voltar saberemos. Você vai fazer o favor de seguir essa
navezinha com a Titan. Transmita instruções ao coronel Freyt, para
que esteja a par. Vamos dar uma olhada em Zalit e no Zarlt. Tenho uma
sensação esquisita.
— Eu
também — disse Crest, que se encontrava do outro lado da sala. —
Tenho a impressão de que os zalitas não merecem tanta confiança
como se supunha. Talvez possamos prestar um bom serviço ao Império.
— É
exatamente o que pretendo fazer — disse Rhodan.
Dali a
três minutos John Marshall voltou à sala de comando e ouviu as
últimas palavras do relato de Ras.
— ...e
então essa medusa procurou dominar minha vontade. Consegui fugir,
mas receio que tenham notado minha presença. Houve um alarma geral
na nave.
— Isso
não tem importância — tranqüilizou-o Rhodan. — Tenho certeza
absoluta de que não sabiam que estavam lidando com um teleportador.
Onde está Tako?
Gucky
arrastou-se para dentro da sala.
— Já
voltou — chilreou com a voz aguda. — Deu um susto tremendo em
alguns homens e resolveu desaparecer.
Dirigindo-se
a Marshall, prosseguiu:
— Você
quer contar? Também descobri tudo que esse Hemor pensou.
— Sim,
vou contar. Se esquecer alguma coisa, você poderá completar —
Marshall voltou-se para Rhodan. — Levei-o até a comporta. Pediu
que eu o avisasse de que o vôo para Zalit será iniciado dentro de
três minutos. Pede que mantenhamos a mesma velocidade. Bem, o que
pensou foi o seguinte. Não foi muita coisa. Só descobri uma coisa.
Talvez Gucky tenha sido mais feliz. O Zarlt quer, com o nosso
auxílio, pregar uma peça ao cérebro robotizado. Parece que suas
intenções para com o Império não são as melhores.
— Era o
que eu imaginava — suspirou Crest.
Rhodan
sorriu.
— Não é
de admirar. Ninguém gosta de ser governado por uma máquina. Houve
mais alguma coisa de concreto, Marshall?
— Não.
Apenas uma vez Hemor pensou num certo Moof. Não sei quem pode ser
isso.
— Já
sabemos. Ras encontrou-se com Moof. É um animal.
— E que
animal! — chilreou a voz de Gucky em meio à discussão. — É a
besta cujos impulsos mentais encobrem os dos zalitas. Foi por isso
que não entendi nada. De qualquer maneira, o tal do Moof é um
telepata e um sugestor.
— Senti
isso na própria carne — interveio Ras.
Bell não
se interessou pela conversa. Aguardou três minutos e ligou os
propulsores. Numa manobra lenta e cautelosa, seguiu a minúscula
nave, e viu que também a Ganymed saía de sua órbita. Em velocidade
moderada, as naves aproximaram-se do gigantesco sol vermelho. A frota
seguiu-as a uma distância respeitosa.
— O que
vem a ser o tal do Moof? — perguntou Rhodan.
— Nunca
ouvi falar num Moof — disse Crest. — Essa raça deve ter surgido
recentemente por aqui.
— Parece
ser uma espécie de mascote — disse Ras. — Não sei para que
poderia servir um bicho destes numa nave. Além disso tudo indica que
os moofs só conseguem sobreviver numa atmosfera toda especial, pois
são mantidos no interior de recipientes pressurizados.
— Então
foi este o aquário através do qual Marten enxergava. Logo foi
escolher o Moof.
— Isso é
perfeitamente compreensível — afirmou Gucky. — Pois é o Moof
que emite os impulsos mentais mais intensos. Portanto, não é de
admirar que Marten tenha caído nesta.
Rhodan
resumiu sua opinião.
— Um
mascote? Talvez seja. Mas acredito que a resposta não é esta. É
bem possível que nos reservem uma surpresa.
Bell
virou-se.
— Eles
têm uns colossos respeitáveis — disse. Estava aludindo às naves
de guerra dos zalitas. — Para nós não representam nenhum perigo,
mas a esta hora não gostaria de estar a bordo da Ganymed.
— Ninguém
nos atacará — disse Rhodan, afastando a idéia de um perigo
iminente. — O Zarlt está muito curioso para conhecer-nos. Enquanto
não satisfizer sua curiosidade, estaremos seguros.
Subitamente
Gucky ergueu-se. Lançou um ligeiro olhar para Marshall e disse em
voz baixa:
— Não
pensem no que estou dizendo; procurem bloquear o cérebro. Alguém
tenta ler nossos pensamentos. É um bom telepata, mas para nós não
há bom que chegue. Não é um. São muitos, muitíssimos...
Rhodan
ficou de olhos semicerrados. Por um instante parecia indeciso. Depois
cochichou para si mesmo.
— Em
algum lugar existe um perigo terrível que nos ameaça; não tenho a
menor dúvida. Sinto-o. Esse perigo não são os zalitas. Seu nome é
outro.
— Moof —
disse John Marshall em tom decidido.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Acredito
que sim. Quem representa o perigo é o Moof.
Gucky
sacudiu tão violentamente a cabeça com as grandes orelhas de rato
que por pouco não perde o equilíbrio e cai de cima do grosso
traseiro.
— Não é
o Moof. São pelo menos duzentos moofs. Em cada nave dos zalitas,
existe ao menos um moof.
Ninguém
respondeu.
*
* *
A cidade
de Tagnor cobria uma área equivalente à de um pequeno país do
planeta Terra. Tinha trinta milhões de habitantes, um número que
não tinha nada de extraordinário face à população total do
planeta — oito bilhões.
Tal qual
no planeta Árcon, as estranhas construções em forma de funil
dominavam a paisagem. No pé em forma de coluna ficava a entrada, que
conduzia o visitante a um mundo completamente independente. O
conjunto era cercado pelas paredes que se abriam para cima. Grande
parte delas era embelezada por jardins coloridos e lindas varandas.
De espaço a espaço, surgiam as residências; cada uma delas formava
um conjunto individual e estava separada das outras por amplos
jardins.
A forma
afunilada das construções correspondia ao desejo de ocupar uma
residência individualizada e isolada das perturbações do mundo
exterior. Esse costume constituía uma das características dos
arcônidas. Como descendentes dos arcônidas, os zalitas adotaram o
velho costume.
O brilho
do gigantesco funil avermelhado que abrigava o palácio do Governo
chegava até o campo espacial. Rhodan já o notara quando ainda se
encontravam a grande altitude, e por simples coincidência um dos
zalitas que se achavam na nave-guia pensara no edifício.
Marshall
logo transmitiu a informação a Rhodan.
Então era
lá que ficava a residência do Zarlt.
O campo de
pouso era uma área de dimensões gigantescas. Lá longe, junto à
linha do horizonte, enormes edifícios o emolduravam. A extensão do
campo era de pelo menos vinte quilômetros. Só no momento em que a
frota de escolta desceu e pousou em formação ordenada, Rhodan
deu-se conta de que o tamanho desse campo de pouso espacial não era
exagerado.
A Titan
tocou o solo suavemente, como uma bola levíssima. Os raios
antigravitacionais sustentaram-na, até que os discos das colunas de
apoio encolhíveis encontrassem apoio firme. Rhodan preferiu não
desativar totalmente os raios antigravitacionais, pois receava que o
enorme peso da Titan a fizesse afundar na superfície do planeta.
Manteve os campos antigravitacionais com uma potência suficiente
para reduzir o peso da nave à metade.
Um carro
que apresentava um estranho formato de torpedo aproximou-se numa
curva elegante e aguardou pacientemente até que os visitantes
resolvessem sair da nave.
Rhodan já
tinha elaborado seus planos.
— Crest,
Bell e John Marshall virão comigo. É preferível que sejamos poucos
— quanto menos, melhor. Prefiro que Thora permaneça no interior da
nave. Tenente Tifflor, o senhor ficará na sala de comando e manterá
contato comigo. Levarei o pequeno transmissor de pulso e o deixarei
ligado.
Dessa
forma o senhor sempre estará informado sobre o que estiver
acontecendo lá fora. Se cairmos numa armadilha, ataque com os
mutantes. Entendido?
— E a
Ganymed?
— Ficará
de prontidão para decolar. Ao menor sinal de um ataque, partirá. A
Titan continuará aqui, pois estará em condições de defender-se.
Mas não acredito que tenhamos motivo para recear uma coisa dessas.
Os planos dos zalitas são outros.
— E eu?
Agachado
junto à porta, Gucky lhe lançou um olhar tão suplicante que Rhodan
sentiu-se emocionado. Mas sacudiu a cabeça.
— Não é
possível, hoje não. Quanto menos os zalitas souberem a nosso
respeito, melhor. Além disso, alguém terá que ficar para dirigir o
destacamento de mutantes e chefiar um eventual ataque. Como vê, sua
presença a bordo é indispensável. Sinto-me mais tranqüilo se
puder contar com você caso precise de um reforço. Acho que você
compreende, Gucky.
O
rato-castor compreendeu. Com um olhar de desprezo para Bell, que só
poderia ir com Rhodan porque sua presença na Titan era totalmente
indiferente, arrastou-se para fora da sala de comando. Ouviram-no dar
uma risada alegre no corredor. Era um sinal de que Rhodan realmente
pensava aquilo que acabara de dizer.
— Vamos
levar armas? — perguntou Bell.
— Os
radiadores de bolso serão suficientes. Qualquer outra arma não
serviria para nada.
Depois de
passarem por numerosos corredores e elevadores antigravitacionais
chegaram à comporta secundária situada junto ao disco da coluna de
apoio. Uma rampa foi descida automaticamente no momento em que a
escotilha externa se abriu.
Rhodan foi
o primeiro a pisar na superfície daquele mundo estranho. Bem
treinados, seus sentidos logo sentiram a pequena diferença de
gravitação em relação à Terra. O ar era límpido e transparente.
Talvez contivesse um pouco mais de oxigênio que a atmosfera à qual
estava acostumado, mas ainda se situava nos limites do normal.
O chão
era feito de uma massa dura e lisa, que lembrava o concreto. Era
completamente plano e não apresentava qualquer emenda.
O carro
aproximou-se e parou perto deles. Um zalita musculoso desceu e abriu
a porta.
“Tal
qual na Terra”,
pensou Rhodan bastante contrariado. Era bem verdade que não havia
mais nada que lembrasse a visita de um chefe de estado, embora a que
estavam fazendo poderia ser considerada como tal.
Durante a
viagem pela cidade, não tiveram tempo para conversar. Admiraram as
vias expressas muito bem construídas, os lindos parques, as inúmeras
construções em forma de funil e o tráfego intenso. Quase se
poderia ter a impressão de ter voltado ao planeta de cristal de
Árcon, caso os zalitas, apressados e ativos, não surgissem
constantemente e em toda parte.
Representavam
a única diferença.
Ao
contrário dos arcônidas, uma raça cansada e degenerada, que
deixava todo o trabalho por conta dos robôs e do cérebro
positrônico, o povo de Zalit ainda vivia. Desenvolviam seu trabalho
e sua criatividade; os rostos alegres dos habitantes da cidade
revelavam que estavam satisfeitos da vida. Não havia o menor sinal
da melancolia deprimente dos arcônidas. Pelo contrário, por mais de
uma vez os terranos viram grupos de zalitas que riam e se dirigiam
aos parques.
Rhodan
olhou de esguelha para Crest. O arcônida, observando pela janela do
carro, absorvia todas as impressões. Não movia nenhum músculo do
rosto, mas Rhodan adivinhou os pensamentos que lhe ocupavam a mente.
E o resultado dessas reflexões por certo não deixaria Crest muito
satisfeito.
Avistaram
o palácio do governo.
De longe,
já lhes causara uma impressão formidável, mas agora ultrapassou
todas as expectativas de Rhodan. A coluna cilíndrica que sustentava
o funil tinha um diâmetro de cinqüenta metros. Na extremidade
superior, o diâmetro devia ser de trezentos metros, e a altura
chegava a uns cento e cinqüenta metros. As paredes subiam num ângulo
de quarenta e cinco graus e, com exceção das janelas que se abriam
em fileira, eram completamente lisas.
A cor
rubra despertou recordações de Vega na mente de Rhodan.
Dois
oficiais com o peito cheio de condecorações receberam Rhodan e seus
companheiros e conduziram-nos ao interior do palácio.
A área
interna parecia um amplo jardim. Canteiros de flores emolduravam um
gramado bem tratado, cortado por caminhos estreitos. Bem no centro
via-se...
— Atenção!
— advertiu-os Marshall em inglês. — Um moof!
Rhodan já
o havia visto.
Sobre o
gramado havia um recipiente de vidro, do tipo descrito por Ras. No
interior estava agachada a medusa, fitando-os com os olhos vidrados
em forma de botão. Tinha-se a impressão de que controlava as
pessoas que entravam no palácio.
Subitamente
e sem qualquer motivo, Rhodan sentiu o desejo de entregar aos
oficiais que o acompanhavam o radiador que estava guardado em seu
bolso sem que ninguém o tivesse percebido. Por um instante,
admirou-se com essa idéia tão esquisita. De repente viu que Bell
enfiava a mão no bolso, devagar e cautelosamente, como se ainda
estivesse indeciso.
Era o
bolso no qual estava guardado o radiador.
Rhodan
compreendeu.
Colocou a
mão sobre o braço de Bell e arrancou a mão de seu bolso. Estava
vazia.
— Alguém
está tentando impor-nos sua vontade — disse, também em inglês. —
Só pode ser aquele moof ali no gramado. Cuida para que ninguém
entre no palácio com uma arma. Começo a acreditar que os zalitas
usam os moofs como uma espécie de cães de fila telepáticos.
Nem
desconfiava de que sua suposição era totalmente errada.
*
* *
Ao que
parecia, o Zarlt não apreciava muito o luxo; ou então, ele o
dispensava de propósito.
Estava
sentado atrás de uma mesa muito larga e comprida, coberta de
instrumentos de comunicação com os respectivos controles. Entre
eles havia pilhas de documentos, papel e utensílios. Parecia ser um
homem muito ocupado, que gostava de realizar pessoalmente os serviços
mais importantes, uma circunstância que só podia depor a seu favor.
Era bem
verdade que os olhos com que fitou os visitantes não inspiravam
muita confiança. Havia neles algo de aflito e inconstante. Exprimiam
a sede do poder e a certeza de alcançar qualquer objetivo.
Pediu a
Rhodan e seus acompanhantes que se acomodassem. Ficaram do outro lado
da mesa. Não havia mais ninguém na enorme sala, em cujas paredes se
viam telas, que no momento estavam desligadas.
Rhodan
fitou o Zarlt sem a menor cerimônia. O homem robusto usava um
uniforme colorido, que não combinava com sua personalidade. Parecia
um tanto espalhafatoso, enquanto o Zarlt poderia ser qualquer coisa,
menos isso.
Foi
diretamente ao assunto.
— Os
senhores roubaram um supercouraçado do Império, e logo o maior e o
mais moderno. Estão sendo caçados e um belo dia acabarão sendo
encontrados, se não arranjarem amigos poderosos. Nós, os zalitas,
poderemos ser seus amigos.
Rhodan
fitou o Zarlt.
— Por
quê? — perguntou.
O soberano
esboçou um sorriso meigo, mas seus olhos continuaram duros.
— Falarei
com franqueza e não perderei muitas palavras. Há pouco tempo
conseguimos eliminar a marionete dos arcônidas. A oficialidade da
frota ficou do meu lado. Não concordamos em executar as ordens de um
cérebro robotizado. Antigamente o Imperador dos arcônidas governava
o Império, hoje é uma máquina.
— Será
que uma máquina não representa a melhor garantia de que não será
cometido qualquer erro? — objetou Rhodan.
— Não.
Sua presença neste instante prova o contrário.
Não havia
como contestar isso. Todavia...
— O
cérebro não administra o Império segundo os desejos dos arcônidas
e, portanto, de seus aliados, Zarlt Demesor?
— Sabe
meu nome?
— Hemor
me disse.
— Ah,
sim, Hemor. O senhor é Rhodan?
— Sou.
— Como
se explica que esteja sendo acompanhado por um arcônida?
Os olhos
desconfiados do Zarlt pousaram em Crest.
— Talvez
existam arcônidas que pensem como o Zarlt de Zalit — disse Rhodan.
O Zarlt
acenou lentamente com a cabeça. Não demonstrou o menor interesse
por Bell e Marshall.
— Muito
bem. Vamos conversar. Já deve ter percebido que não estou muito
entusiasmado pelo governo daquela máquina. Sou, apenas formalmente,
o vice-imperador deste Império. Pretendo ser o imperador.
Era uma
afirmativa inequívoca. Rhodan sentiu certa desconfiança. Afinal,
para o Zarlt era uma pessoa totalmente estranha, e era muito mais
estranho que o mesmo lhe revelasse seus planos secretos.
— Por
que diz isso a mim, Demesor? Não acredita que poderia prejudicá-lo?
— Não.
O senhor nunca faria uma coisa dessas. Pois o senhor teve
oportunidade de constatar com seus olhos o grau de decadência dos
arcônidas, que antigamente eram um povo tão altivo. O senhor não
conseguiu lograr o cérebro robotizado, provando que não é
perfeito? Não, não acredito que o senhor seria capaz de estragar os
meus planos. E ainda acontece que precisa do nosso auxílio. Aqui em
Zalit encontrará um esconderijo onde pode permanecer oculto com a
nave roubada pelo tempo que quiser. Apenas peço uma pequena
contraprestação.
— Em que
consistiria essa contraprestação? — perguntou Rhodan em tom
ansioso.
— Como
conseguiu atravessar a barreira externa dos arcônidas contra a
vontade do cérebro robotizado?
“Ah,
então é isso”,
pensou Rhodan. Era claro que não poderia contar ao zalita que isso
só se tornara possível graças ao transmissor fictício. Os zalitas
não dispunham de um aparelho desse tipo; o único exemplar existente
encontrava-se a bordo da Ganymed. Além disso, não tinha a menor
intenção de ceder-lhe o transmissor.
— Isso é
um segredo pessoal — disse em tom cauteloso. — É possível que
lhe conte mais tarde, quando nos conhecermos melhor.
O Zarlt
disfarçou sua contrariedade.
— Estou
confiando no senhor, Rhodan, mas o senhor não confia em mim. Bem,
com o tempo isso vai mudar. De qualquer maneira, estou firmemente
decidido a neutralizar o cérebro robotizado.
Lançou um
olhar indagador para Rhodan:
— Está
disposto a me prestar o auxílio que estiver ao seu alcance?
Rhodan
sentiu os olhares de Crest e Bell pousados em si. O Zarlt acabara de
formular uma pergunta direta. O que deveria responder? Que tal uma
resposta sem compromisso?
— O
senhor espera que eu responda imediatamente, ou pode conceder-me
algum tempo para decidir? Prometo que nada farei neste meio tempo.
O Zarlt
hesitou um pouco. Afinal disse:
— Está
bem. Procure conhecer Tagnor e convencer-se-á de que o povo dos
zalitas é capaz de ocupar o lugar dos arcônidas degenerados.
Aguardo sua resposta dentro de dois dias.
Comprimiu
um botão que se encontrava embaixo da tampa da escrivaninha. A porta
abriu-se atrás de Rhodan. Alguém entrou.
— Omor,
acompanhe nossos visitantes ao carro que os levará ao campo
espacial.
Voltando a
dirigir-se a Rhodan, acrescentou:
— Este
carro ficará à sua disposição enquanto estiver aqui. Se tiver
tempo, é possível que amanhã eu vá até lá para retribuir sua
visita.
— Sua
visita será um prazer — disse Rhodan e levantou-se.
*
* *
Dali a
meia hora, quando subiram no elevador até a sala de comando da
Titan, o coronel Freyt já os aguardava. Parecia muito nervoso. Thora
e Gucky estavam sentados num sofá. A mão delicada da arcônida
acariciava o pêlo do rato-castor, que a intervalos regulares soltava
um grunhido de satisfação e parecia ter esquecido todos os
problemas.
Quando
Rhodan e seus acompanhantes entraram, levantou-se, lançou um olhar
ligeiro para Marshall, classificou os pensamentos do mesmo e chilreou
em tom indiferente:
— Apresente
seu relatório, John. Eu tenho tempo — voltou a recostar-se e
fechou os olhos. Thora não teve outra alternativa senão reiniciar a
atividade que interrompera apenas por alguns segundos.
Rhodan
cumprimentou Freyt e fez um gesto de recusa quando este se dispôs a
falar.
— Um
momento, coronel. Antes de mais nada quero formular algumas perguntas
a Marshall. Durante a viagem não me atreveria a fazê-lo, porque
estávamos sendo mantidos ininterruptamente sob observação
telepática. Então, Marshall, que impressão lhe causou o Zarlt?
Falou a verdade?
— O
senhor se admirará; disse a verdade. Não lhe ocultou nada, e não
mentiu em nenhum ponto de sua palestra.
Rhodan
parecia decepcionado, mas nem tanto.
— Muito
bem. Já sabemos a quantas andamos. O Zarlt quer conquistar o governo
do Império decadente. Seu povo é mais capaz e ativo que o de Árcon,
e por isso não haveria nenhuma objeção. Mas tenho minhas dúvidas.
O pensamento dos zalitas move-se em dimensões provinciais, e não
sei se serão capazes de desenvolver um pensamento cósmico. Quando
tentam governar o Império, só vêem sua vantagem. Não é isso,
Marshall?
— É
isso mesmo; tive a mesma impressão. Mas será que isso não se
modificaria quando alcançassem o poder?
Rhodan
sorriu.
— Nunca!
Alguém que está acostumado a pensar em moldes muito restritos não
se transformará num cosmopolita do dia para a noite. Talvez isto
fosse possível, mas tenho uma sensação desagradável. Gostaria de
saber por que não consigo confiar no Zarlt. Não mentiu para mim,
mas ainda assim sou de opinião que não diz o que pensa.
— Consegui
controlar este ponto — ponderou Marshall. — Disse exatamente o
que estava pensando.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— É
estranho, muito estranho — encarou o coronel Freyt. — Então,
onde está apertando seu sapato? Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu
muita coisa! — esbravejou Freyt e seu rosto mudou de tonalidade. —
Meu pessoal se faz de louco. Ou pelo menos parte dele.
— Como?
— Isso
mesmo. É verdade que ficaram completamente inofensivos, mas não
deixaram de ser loucos. Fazem alguma coisa absurda, e quando a gente
pergunta o motivo, dizem que não sabem mais nada. Encontrei
verdadeiros sonâmbulos.
— Sonâmbulos?
— Rhodan parecia muito pensativo. Gucky levantou-se no seu sofá e
exibiu o dente-roedor. O rato-castor esboçou um sorriso zombeteiro.
— Isso
mesmo. Quando a gente fala com eles, acordam. Há algo de errado em
tudo isso.
Rhodan
olhou para Gucky.
— Por
que está rindo, Gucky? Se souber alguma coisa, fale logo.
Gucky
escorregou do sofá para o chão e marchou em atitude grave até o
centro da sala de comando, onde se deixou cair confortavelmente sobre
a traseira, equilibrando-se com o rabo. Este lhe servia de apoio.
— Ninguém
me perguntou — anunciou sem parar com o sorriso insolente, que
deixou Bell furioso. — É claro que só podem ser os moofs.
— Cheguei
a imaginar isso — confirmou Rhodan. — Mas gostaria de saber mais
alguma coisa. Eles tentam hipnotizar-nos, Gucky?
— Sim,
mas não passam da tentativa. Os zalitas são objetos mais
compreensíveis; dos seus esforços.
Rhodan
sentiu um sobressalto.
— O que
está dizendo, Gucky? Os zalitas? Não compreendo. Em nossa opinião
os zalitas mantêm os moofs como uma espécie de mascote ou cão de
fila. Quando entramos no palácio, um moof tentou desarmar-nos por
via sugestiva.
— É bem
possível! — chilreou Gucky alegremente, como se tudo aquilo o
deixasse muito satisfeito. De repente, o dente-roedor desapareceu.
Tornou-se sério e muito atento. — Nestas últimas horas tive
oportunidade de estudar os moofs. Afinal, tentam ininterruptamente
influenciar-nos. Consegui espreitar um deles e descobri muita coisa.
Não são os zalitas que dominam os moofs; é exatamente o contrário.
Foram eles que derrubaram o Zarlt e fizeram com que Demesor assumisse
o poder. Com o auxílio deste, pretendem destruir o cérebro
robotizado estacionado em Árcon e dominar todo o Império. São os
moofs que querem assumir o lugar dos arcônidas; os zalitas apenas
acreditam que o farão.
Rhodan
fitou Gucky por muito tempo. Ninguém falou. Crest mordia
nervosamente o lábio inferior, procurando disfarçar o nervosismo.
De uma
hora para outra, a situação modificara-se por completo.
Rhodan
percebeu-o num instante. Se até então estava indeciso, ficando sem
saber se o domínio dos zalitas sobre o Império representaria uma
vantagem para as numerosas raças que viviam no mesmo, a essa altura
tinha certeza absoluta de que a ascensão ao poder das
medusas-monstro significaria o fim de todas as raças humanóides.
Não foi
difícil tomar uma decisão.
— Os
zalitas sabem que não passam de bonecos? Têm alguma idéia da
influência que os moofs exercem sobre eles?
— Não
têm a menor idéia. Acreditam que são donos de seu sistema.
Consideram os moofs uma espécie de animais domésticos. Oficialmente
são intérpretes aos quais recorrem quando se encontram com raças
desconhecidas que não dominam o intercosmo ou não sabem falar. É
então que intervém os moofs.
Rhodan
percebeu o nervosismo de Crest. Sorriu.
— Não
se preocupe, Crest. Nossa decisão só pode ser uma: num caso todo
especial como este apoiamos integralmente o cérebro robotizado.
Nunca permitiremos que os homens sejam governados por uma raça
não-humana. Por isso o Zarlt é um duplo traidor. Orientaremos nossa
ação de acordo com esse fato. Por enquanto nosso regresso à Terra
caiu na água — ergueu as sobrancelhas. — Gostaria de saber como
os moofs foram conceber a idéia de subjugar o Império. Gucky, o que
vêm a ser esses moofs?
O
rato-castor havia assumido uma posição mais cômoda. Acomodou-se
numa poltrona. Cônscio da sua importância, não deixou passar a
oportunidade.
— Dificilmente
existirão seres mais estúpidos que os moofs — revelou às pessoas
que o escutavam ansiosamente. — Como não sabem falar, são
telepatas de nascença. Mais tarde desenvolvem o dom da sugestão,
mas, como já acentuei, este permanece bastante atrofiado. Os
zalitas, que são fáceis de influenciar, foram os seres indicados
para a tentativa de revolta. Têm dificuldades quando se defrontam
com homens normais, isso sem falar nos mutantes. Esse fato os deixa
bastante confusos.
— Os
moofs são bobos? — perguntou Bell em tom de espanto.
Gucky,
muito sério, confirmou com um aceno de cabeça.
— Isso
mesmo, são estúpidos, e isso não me deixa nem um pouco admirado.
Também existem homens estúpidos, que querem governar outros homens
e não querem reconhecer que só o homem inteligente, e às vezes o
forte e o implacável, foram feitos para exercer o poder. Mas
conforme já disse, quanto mais estúpido é um ser, maiores são
seus complexos e sua sede de poder.
Depois
desse sermão um tanto ambíguo voltou a dirigir-se a Rhodan:
— Os
moofs não têm a menor noção da tecnologia e a navegação
espacial é um mistério para eles, mas são encontrados a bordo de
todas as naves dos zalitas. Os verdadeiros soberanos do sistema de
Voga são os moofs, não os zalitas.
— Não
sei o que aconteceu nos últimos treze anos — disse Thora,
intervindo no debate. — É claro que já conheço os moofs só por
histórias. Viviam num planeta situado no Império. Nós os deixamos
em paz, pois não sabíamos o que fazer com eles. E agora...
— Ao que
tudo indica, apareceu alguém que sabe o que fazer com eles — disse
Rhodan.
De
repente, Gucky pôs as orelhas de pé. Ergueu-se em sua poltrona e
fitou Rhodan com seus olhos inteligentes. O dente-roedor voltou a
aparecer. Gucky sorriu.
— Saber
o que fazer com eles...? — disse, esticando as palavras num silvo
agudo tão dissonante que Bell tapou os ouvidos. — Rhodan, acho que
com estas palavras você encontrou a solução do problema.
Ninguém
ficou mais espantado com esta observação que o próprio Rhodan, mas
este preferiu não formular outras perguntas.
4
O Zarlt
sentiu-se muito satisfeito quando no dia seguinte Rhodan o procurou e
lhe submeteu sua proposta.
— Conheço
o segredo da barreira arcônida — disse, jogando seu trunfo mais
forte. Além disso, ao fugir, consegui enganar o cérebro que,
segundo dizem, seria infalível. Isso prova que o homem é mais forte
e inteligente que o cérebro positrônico que governa o Império.
Mas, para desferirmos um golpe decisivo contra o cérebro robotizado
precisamos realizar preparativos meticulosos. É bem possível que
até aqui simplesmente tenha tido sorte, e não podemos confiar na
sorte. Quero conhecer melhor minha nova nave, à qual dei o nome de
Titan. Quero que me conceda algumas semanas para treinar minha
tripulação. Depois disso poderemos partir para o ataque conjunto.
O Zarlt
balançou a cabeça.
— Por
que me oferece uma ajuda maior que a que lhe solicitei? Qual é o
interesse que tem no Império? Onde fica seu planeta?
— Meu
planeta não pertence ao Império — disse Rhodan, respondendo em
primeiro lugar à última das perguntas. — De qualquer forma,
quando voltar a entrar em contato com o Império, gostaria que o
mesmo fosse governado por um homem, não por robôs. Esta explicação
o satisfaz?
Desta vez
o Zarlt acenou com a cabeça.
— Sim,
parece bem plausível. Quer dizer que me ajudará?
— Ajudarei.
Não tenha a menor dúvida de que farei tudo que estiver no interesse
do Império. Diga-me uma coisa: quem são os moofs?
A surpresa
conferiu uma expressão sombria ao rosto do soberano.
— Já
sabe alguma coisa a respeito dos moofs?
Rhodan
sorriu.
— Vejo-os
em toda parte, Demesor. Por que faz tanto luxo com eles, se por sua
natureza não podem viver neste mundo? De onde foram importados?
— Nossas
expedições encontraram-nos num planeta solitário. São telepatas e
nos servem como intérpretes. E também como detectores de mentiras,
quando isso se torna necessário. Poderia, por exemplo, conferir
todas as suas palavras por meio de um moof. Como vê, eles nos
prestam serviços extraordinários.
— Não
tenho a menor dúvida — disse Iihodan, levantando-se. — Espero
contar nos próximos dias com sua visita à Titan. Deve estar
interessado em conhecer a nave dos arcônidas.
— Terei
o maior prazer. Não deixarei de visitá-lo.

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