terça-feira, 8 de janeiro de 2013

P-037 - O Planeta Louco - Clark Darlton [parte 3]

Verdadeiras massas de gente saíram das portas bem abertas e corriam em direção aos robôs, como se quisessem derrubá-los.
Por dois segundos Topthor ficou perplexo, mas depois viu alguma coisa que fez um calafrio passar por suas costas largas. Nos rostos dos goszuls viam-se os sinais inconfundíveis da terrível epidemia. Manchas vermelhas e azuis espalhavam-se pelas bochechas, pela testa e pelo pescoço. Alguns dos nativos estavam sem camisa. Seus peitos pareciam caixas de tintas.
As mãos de Topthor tremeram quando verificou o tele controle dos robôs de combate. Era um caráter sem escrúpulos, que não recuava diante de nada, mas a idéia de usar robôs contra um bando de selvagens desarmados causava-lhe repugnância. Além disso, as leis de seu clã não permitiam tal procedimento.
Mas acabou assustando-se.
Formando uma frente ampla, os robôs de combate que os saltadores haviam deixado no planeta avançaram atrás dos goszuls. Seus radiadores energéticos encontravam-se em posição horizontal, prontos para disparar. No primeiro instante tinha-se a impressão de que tangiam diante de si os goszuls, que naquele instante alcançaram a formação de combate de Topthor, e passaram por elas, correndo em direção às duas naves pousadas. Dentro de mais alguns minutos alcançaram-nas e começaram a dançar em torno delas com uma terrível gritaria.
Topthor sentiu-se abalado. Então era isso que acontecia com seres dotados de alguma inteligência que perdem a memória. Não sabiam mais o que vinha a ser uma nave espacial, ignoravam o perigo que a mesma podia representar. Parecia um bando de cegos que corria para a desgraça.
A mão esquerda, que já se encontrava sobre os botões dos radiadores da nave, recuou com um ligeiro tremor. Não. Topthor não atiraria contra um grupo de seres indefesos. Estava disposto a enfrentar qualquer inimigo de igual para igual e, sempre que pudesse, o destruiria, mas atacar seres indefesos, doentes... isso não!
Rhodan suspirou aliviado no seu esconderijo. Fosse quem fosse esse Topthor, naquele instante fizera com que o juízo a seu respeito fosse favorável. Era um inimigo, e Rhodan tinha contas a ajustar com ele, mas não era nenhum monstro que se compraz em derramar o sangue de seres inocentes.
Topthor não sabia que acabara de salvar sua vida.
Voltou a dedicar sua atenção aos robôs e perguntou de si para si o que teria acontecido com as unidades deixadas no planeta.
Será que a moléstia os afetara? Até parecia que era assim, pois não havia explicação para seu estranho comportamento. Topthor não poderia saber que todos os robôs existentes no planeta de Goszul haviam sido reprogramados, a fim de transformar-se em servos fiéis de Perry Rhodan.
Aliás, nem sabia quem era seu inimigo. Supunha que Rhodan se encontrasse na Terra, um planeta situado a 1.012 anos-luz, e um belo dia pretendia ajustar contas com ele. Pelo que pensava, aqui só estava enfrentando o flagelo do esquecimento. Acontece que os próprios robôs passaram a atacá-lo.
E o fizeram com uma precisão espantosa.
A primeira salva energética foi tão surpreendente que Topthor não reagiu com a necessária rapidez. Antes que pudesse ordenar ao grupo de cinqüenta robôs que ativasse os campos protetores energéticos, metade do mesmo já se derretera sob o fogo contínuo dos atacantes. Obedecendo ao seu comando, os que restavam defenderam-se desesperadamente, mas nada puderam fazer face à superioridade do inimigo. Um campo energético atrás do outro sucumbiu sob os disparos dos radiadores, e com eles os respectivos robôs.
Dentro de cinco minutos a companhia foi destruída. Nada aconteceu aos robôs de trabalho.
Havia nisso uma contradição que deu o que pensar a Topthor.
Se é que as unidades de robôs contaminadas do planeta de Goszul haviam perdido o juízo positrônico, se não sabiam mais o que estavam fazendo, como se explicava que destruíam apenas os robôs de combate? Por que não atacavam os trabalhadores? Ainda deviam possuir uma memória.
Ou estariam sendo dirigidos por alguém?
Mas por quem...?
Topthor percebeu que pela primeira vez em sua longa vida algo como o medo começou a apossar-se dele. Era um medo terrível e indefinido, para o qual não encontrava explicação.
Transmitiu aos robôs de trabalho o comando de retornar à nave.
Os cinqüenta colossos obedeceram. Fizeram meia-volta e puseram-se em marcha de volta para a nave. Mas não foram longe. Os robôs de combate foram mais rápidos. Bloquearam sua retirada e com seus corpos robustos empurraram-nos para a periferia do campo de pouso.
Topthor teve que assistir inerme ao aprisionamento dos seus trabalhadores. Nunca esqueceria o espetáculo.
Os olhos muito arregalados de Rangol contemplaram-no da tela. A cor morena de sua pele cedera lugar a um cinza-sujo. A ponta da barba tremia.
O que é isso, Topthor? Como podia acontecer...?
Não sei! — respondeu Topthor laconicamente e fitou os goszuls, que continuavam no seu berreiro, dançando em torno das naves e sacudindo os braços, como se estivessem cumprimentando um grupo de deuses vindo do céu. — Não sei mesmo. Os robôs também devem ter enlouquecido. Como estarão as coisas no estaleiro?
Será que vale a pena resgatar máquinas loucas? — perguntou Rangol.
Topthor não respondeu. Por algum tempo continuou a contemplar a multidão maluca que se comprimia entre as naves, lançou um olhar para os edifícios, onde os últimos robôs estavam desaparecendo entre as árvores, e ligou o telecomunicador.
Preparar ambas as naves para a decolagem. Devemos salvar pelo menos o cruzador que se encontra nas montanhas. Em hipótese alguma deve cair em mãos estranhas. Oportunamente serão informados sobre as respectivas coordenadas. Decolaremos dentro de trinta segundos com o antígravo, para que os nativos não sejam machucados.
Tão silenciosamente como tinham vindo, as duas naves voltaram a subir.
Lá embaixo, no campo de pouso, os cinco mil goszuls berravam que nem uns malucos e agitavam os braços. Parecia um bando de loucos, mas naquele instante os homens de Ralv não estavam representando.
Estavam satisfeitos de verdade.
A repentina retirada deixou Rhodan surpreso.
Será que a força de elite dos saltadores foge tão depressa? — disse admirado, procurando compreender o procedimento do inimigo. — Devem ter um medo terrível da doença, principalmente porque acreditam que a mesma também ataca os robôs.
Seria uma tolice rematada afirmar que um cérebro positrônico... — principiou Bell em tom professoral, mas logo se calou. Olhou para Rhodan com uma expressão não muito inteligente. — Não venha me dizer que você pensa que os saltadores acreditam numa coisa dessas.
Parece que sim, não acha?
Bell mergulhou em reflexões. Enquanto isso Rhodan pôs-se a mexer no seu minúsculo aparelho de rádio.
Alô, Marshall. Conte a qualquer momento com o aparecimento dos saltadores. Provavelmente serão apenas duas naves. Pelo que deduzimos das mensagens que conseguimos captar, trata-se de nosso velho amigo Topthor e de um certo Rangol. Estão poupando os nativos, mas provavelmente usarão todos os recursos contra os robôs para apoderar-se da nave. Para eles vale mais que todos os robôs do planeta de Goszul.
Estamos preparados — respondeu o telepata. — Os robôs de combate aqui estacionados foram reprogramados de acordo com suas indicações. Agora são nossos. Também Borator, que neste meio tempo chegou aqui, desempenha seu papel com toda arte.
Que papel que nada — respondeu Rhodan. — Kitai influenciou o saltador, fazendo dele um excelente aliado. Borator acredita que age por sua livre e espontânea vontade. Topthor ficará admirado quando se encontrar com ele. Mais uma coisa, Marshall. Todo mundo tem que fazer de conta que está trabalhando sob as ordens dos saltadores. Perderam a memória, mas estão concluindo a construção da nave. A falta de lógica dos acontecimentos acabará por confundir Topthor.
Tomara.
Não tenha a menor dúvida — asseverou Rhodan e desligou. Refletiu por um instante e chamou a Stardust.
Alô, Fisher. Tudo em ordem? Como vão seus animais submarinos?
Ficam nadando em torno das escotilhas, fazendo como se quisessem entrar. Infelizmente não temos permissão para dar um passeio no fundo do mar, mas...
A proibição continua de pé. Já há alguma notícia de Harnahan?
Por enquanto não deu sinal de vida.
Não compreendo. Será que a camada de água é muito espessa e as ondas, intencionalmente expedidas a baixa potência, não podem penetrar nela? Deve haver alguma explicação para o silêncio de nosso caça espacial.
Harnahan é um homem de confiança e...
Avise-me assim que der alguma notícia — interrompeu Rhodan e suspendeu o contato.
O dispositivo automático ligaria seu aparelho assim que Fisher chamasse.
Rhodan dirigiu-se ao major Deringhouse.
Que tipo de pessoa é o sargento Harnahan, Deringhouse?
O major arregalou os olhos.
O que quer dizer com isso?
Bem, pode-se confiar nele? É um homem frio e objetivo, um sonhador, um espírito teórico, um realista? De que forma agiria se dependesse exclusivamente de si mesmo?
Deringhouse estreitou os olhos.
Não sei como responder à sua pergunta. Só sei dizer que o sargento Harnahan é um excelente piloto e um homem de confiança. Por que iria adotar no espaço uma atitude diferente daquela que costuma ter quando se encontra conosco?
Perguntei por perguntar, major. Esqueça.
Deringhouse sabia perfeitamente que Rhodan não fazia perguntas inúteis. De repente também achou que não era nenhum absurdo estabelecer uma ligação entre o caráter do piloto e a notícia há tanto tempo esperada. As idéias mais loucas podiam vir à mente de um homem que se encontrasse a sós num minúsculo foguete perdido na imensidão do espaço.
É possível que Harnahan seja um espírito romântico — disse, rompendo o silêncio.
Rhodan mal levantou os olhos ao dar um aceno quase imperceptível da cabeça.
Era o que eu imaginava. Bem, veremos como Harnahan explicará seu silêncio prolongado.
Bell preferiu guardar sua opinião para si.

* * *

No primeiro instante, Harn pensou que acabara de perder o juízo e estava vendo e ouvindo alucinações.
Quanto ao ouvido, era bem mais fácil acreditar numa ilusão dos sentidos. Com a vista a coisa era diferente. A esfera reluzente continuou no mesmo lugar. Permaneceu diante dos pés de Harnahan, imóvel e como que em expectativa. Tinha aproximadamente o dobro do tamanho de uma bola de futebol.
Parecia ser de metal, mas se alguém contasse a Harn que era de gesso, estaria inclinado a acreditar nisso. De repente teve a impressão de que alguma coisa estava acontecendo ao seu cérebro. Sentiu que não era nada de mal, e não havia nenhum tom de ameaça naquela pesquisa que procurou misturar o consciente e o subconsciente. Subitamente voltou a soar a voz silenciosa, que já acreditara ter ouvido:
Não, Harnahan, seu estado é perfeitamente normal. O que você vê e sente é pura realidade. Comecei a sentir seus pensamentos quando você se aproximava deste mundo. Não quis assustá-lo; por isso resolvi esperar que você me descobrisse.
Harn teve a impressão de que a esfera estava modificando os reflexos coloridos de sua superfície polida. Aos poucos foi se tornando preta como o espaço cósmico. As estrelas distantes refletiam-se nela como nas águas profundas de um lago. Ao fitá-la com mais atenção, Harn percebeu que as estrelas aumentavam de tamanho e se aproximavam.
Não se espante, Harnahan, mas sou capaz de oferecer a imagem ótica dos meus pensamentos. O que deseja ver? A nave em que veio? O planeta do qual decolou? Ah, não é seu mundo, pelo que vejo.
Harn viu que as estrelas se deslocavam na superfície negra e, perplexo, contemplou a cúpula reluzente de seu caça. Parecia que se encontrava vinte metros acima do cume da montanha.
Que coisa incrível! — exclamou. — Como é possível? Que técnica é capaz...?
A natureza encerra tesouros muito mais ricos que a tecnologia.
A frase gravou-se em seu cérebro com a força do fogo. O ser estranho devia tê-la formulado em pensamento. Aos poucos Harn começou a compreender que a esfera que tinha diante de si não era uma obra-prima da tecnologia de alguma raça desconhecida. Era um membro da raça.
A esfera vivia.
É claro que vivo, Harnahan, mas estou só. Não existe outro ser da minha raça, a não ser que o acaso o tenha criado, como fez comigo. Todo início de vida tem sua origem no acaso divino, Harnahan. Pela sua escala de tempo tenho cerca de cinco milhões de anos.
Enlouqueci; não há dúvida!”, pensou Harnahan desesperado. Mas a esfera continuava no mesmo lugar. Deitada aos seus pés, voltou a exibir na superfície fortemente abaulada a profusão das estrelas. E a esfera também pensava, e pensava de tal forma que ele entendia. Era inteligente e possuía capacidades telepáticas. Bastava pensar para que ela o compreendesse.
Sim, compreendo e sei qual é o motivo da sua presença. São os mercadores galácticos. Ajudarei você e Perry Rhodan.
Harn ficou estupefato.
O que sabe a respeito de Rhodan? — perguntou em voz alta no interior de seu capacete. De repente teve a idéia louca de que a pequena esfera que via diante de si poderia ser uma nave espacial em miniatura, na qual se abrigassem inteligências incrivelmente pequenas.
Sei quase tudo a respeito de Rhodan. Mas não se preocupe. Comigo qualquer saber está em boas mãos. Mais uma coisa: sou capaz de viver em qualquer lugar, mesmo no vácuo. Minha forma esférica é a mais favorável das formas. A ausência de pressão e a pressão elevada são por ela compensadas com a maior facilidade.
Naquele mundo sem atmosfera Harnahan defrontou-se com o maior dos milagres jamais visto por um olho humano. Acima dele fulgurava a luz das estrelas, trazendo à sua consciência a solidão infinita em que se encontrava. Estava só e teria que lidar com o impossível.
Sua raça é muito poderosa, Harnahan, mas mesmo a mais poderosa das raças tem suas fraquezas. Até eu. Há sete séculos estou nesta lua e armazeno energias para prosseguir na minha viagem pelo Universo. A radiação das estrelas é fraca. Basta para manter-me vivo e guardar uma parcela insignificante. Terei que aguardar mais um milênio para prosseguir na minha viagem.
Não compreendo, aliás, já não estou compreendendo mais nada — gemeu Harn, amargurado pela incapacidade de compreender o incompreensível. — Quem... o que é você?
Uma súbita alegria tomou conta do cérebro de Harnahan. Teve a impressão de que a esfera estava rindo. Mas respondeu a pergunta.
Você está aqui para esperar as naves dos saltadores, que pretendem atacar um mundo indefeso. Os terranos querem ajudar os seres indefesos. Estou disposto a não lhes negar meu apoio, desde que receba um pagamento adequado.
Um pagamento? — disse Harn quase sem fôlego.
Isso mesmo. Um pagamento em energia. Vocês têm bastante. Eu os ajudo na luta contra os saltadores, e em compensação vocês me dão energia. Ao menos o suficiente para que possa chegar mais perto do sol. Uma vez lá, poderei cuidar de mim.
Rhodan!”, pensou Harn. “Não posso fazer nenhuma concessão. Se ele recusar. Mas que motivos teria para recusar?
Eu os ajudarei — interrompeu-o a esfera.
Como?
Isso depende da situação. O mínimo que posso fazer é comunicar a posição das naves a qualquer instante. Naturalmente terei que limitar-me às mensagens óticas. Minhas reservas de energia não são suficientes para uma intervenção pessoal. Vá buscar sua nave!
Minha nave? Para quê? Está camuflada, para que os saltadores não a descubram.
Você pode entrar em contato com Rhodan sem recorrer à nave?
Harn sacudiu a cabeça.
O que acontecerá se eu for descoberto por uma nave dos saltadores?
Minhas reservas energéticas bastam para lidar com uma situação desse tipo — prometeu o ser estranho. — Vá buscar sua nave.
Harn olhou para o relógio. Já era tarde. Seu passeio sobre os morros e os vales havia consumido muito tempo. E agora a longa conversa com... com quem mesmo? Suspirou.
Não estarei de volta antes de uma hora, e ali poderemos esperar a qualquer momento que alguém descubra esta lua por acaso e comece a inspecionar a mesma.
Pois então esse alguém se arrependerá por acaso — foi a resposta. — Vá logo, senão ficará mesmo tarde. Depois responderei a todas as perguntas formuladas por você.
Por mais alguns segundos Harnahan, mergulhado em pensamentos, fitou a esfera que emitia um brilho negro. Depois virou-se sem dizer uma palavra e com um forte impulso afastou-se do solo.
Com três saltos transportou-se à planície.

* * *

Foi Gucky em pessoa que levou de volta ao vale do estaleiro o saltador Borator, que antes fora submetido a rigoroso interrogatório telepático e ao tratamento do sugestor Kitai. Borator recebera suas diretivas. Algumas manchas coloridas no rosto indicavam que a epidemia do esquecimento já estendia seus tentáculos em direção ao seu cérebro.
Ao menos era o que Topthor e seus companheiros deviam acreditar.
Procurou John Marshall e transmitiu-lhe as últimas instruções de Perry Rhodan. O pequeno entrevero no espaçoporto provara que os saltadores temiam a epidemia mais do que se ousara esperar. Além de tudo estavam acreditando que a epidemia do esquecimento atacava não apenas os cérebros humanos, mas também os positrônicos.
Era principalmente esse fato que devia ter representado um choque terrível para Topthor. Gucky fez questão de salientar esse ponto.
Devemos evitar o derramamento de sangue — disse, contemplando o vale, que continuava bloqueado por uma fileira de robôs de combate. Por enquanto a tarefa dos duzentos goszuls consistia em ajudar os robôs de trabalho na construção da nave, a fim de reduzir o prazo de conclusão. Fizeram o papel de nativos contaminados, que ainda não tinham enlouquecido. — Basta meter um susto tremendo nesse Topthor. Rhodan acredita que nesse caso não voltará a aparecer tão depressa.
Dificilmente poderemos evitar o derramamento de sangue se ele resolver pousar aqui — objetou Marshall. Conhecia a mentalidade inescrupulosa dos saltadores, e acreditava que numa força de choque especial como a dos superpesados a falta de escrúpulos seria ainda maior. — Será que não poderemos defender-nos? Combinamos que Topthor e seus homens seriam rechaçados com todos os meios de que dispomos. Será que os planos foram modificados?
Gucky sorriu e acenou com a cabeça. O dente roedor ficou à vista, brilhando no seu esplendor solitário. Esse dente também era responsável pelo ligeiro chiado com que Gucky pronunciava as palavras, embora dominasse perfeitamente várias línguas.
Sim, houve algumas modificações. Topthor foi mais decente do que prevíamos. Não mandou atirar contra os goszuls indefesos. Nosso chefe lhe dá um elevado crédito por isso. Por isso nossa divisa é mais do que antes a seguinte: apenas vamos fazer blefe com Topthor. Temos que nos cuidar para que não obtenha qualquer indicação sobre nossa identidade. De qualquer maneira não posso aparecer diante desse sujeito, pois é bem possível que Etztak lhe tenha contado alguma coisa a meu respeito. Afinal, vocês são gente bastante...
Sobre a mesa havia uma caixinha, e de repente ela começou a zumbir.
Marshall lançou um olhar de excusas para Gucky e acionou a tecla de recepção. Uma voz na qual o rato-castor identificou a de Borator, o homem que se encontrava sob domínio hipnótico, disse em tom exaltado:
Ataque por um robô de combate... junto à saída do vale. Quatro goszuls foram mortos. Os outros conseguiram fugir.
Por um segundo Marshall ficou estarrecido. Depois venceu o susto.
Um robô de combate? Não é possível! Todos os robôs foram reprogramados e jamais atacarão um goszul. Quais foram as providências que tomou?
Borator estava convencido de ser o verdadeiro diretor do projeto. Por ordem de vários clãs estava construindo a primeira nave de uma nova série. Dentro de quatro dias, ou talvez três, concluiria o trabalho e entregaria a obra.
Dei ordem às forças de bloqueio que destruam o robô descontrolado assim que ele apareça. Como se explica essa falha da positrônica infalível?
Não tenho a menor idéia, Borator. Verificarei pessoalmente o que houve. Cuide do seu trabalho.
Gucky respirou profundamente.
A positrônica infalível... Pois é justamente isso. Os robôs são infalíveis. É totalmente impossível que um robô reprogramado por nós se descontrole e passe a atacar nossos homens. Logo, trata-se de um robô que ainda não foi reprogramado. É aquele que não encontrei quando estive aqui pela primeira vez. Ainda bem que não demorou em dar sinal de sua presença. Logo estarei de volta, John...
Um instante! — de um salto Marshall pôs-se de pé, mas o lugar à sua frente estava vazio. Gucky acabara de teleportar-se para outro lugar.
John Marshall começou a adivinhar onde ficaria esse lugar.
Colocou o radiador de impulsos portátil no cinto do macacão e saiu correndo. Passando pela primeira fileira de guardas, entrou no vale e fez votos de não chegar tarde. Procurou em vão estabelecer contato telepático com Gucky. O rato-castor devia estar tão ocupado que não tinha tempo para concentrar-se em mensagens telepáticas.

* * *

Quando se materializou mais ou menos no ponto em que o vale descrevia uma curva, Gucky viu um grupo de uma dezena de goszuls que corria em sua direção. Gesticulavam com os braços e soltavam gritos de pavor.
Gucky esforçou-se em vão para descobrir o que deixara os nativos tão desatinados. Não viu nenhum robô descontrolado.
Antes que os goszuls chegassem ao lugar em que se encontrava, deu um salto de algumas centenas de metros e se materializou atrás deles. O guarda que informara Borator sobre a ocorrência devia encontrar-se na saída do vale. Era o primeiro robô que Gucky desativara naquele dia.
Mas por enquanto o rato-castor encontrou uma coisa diferente.
Os cadáveres de quatro goszuls apontavam-lhe o caminho.
Era por aqui que devia estar escondido o robô não reprogramado, e que por isso mesmo continuava a agir obstinadamente segundo as ordens dos saltadores. Só assim se explicava que escapara à operação geral de limpeza.
A ausência de um mecanismo de tele direção fizera com que agisse independentemente. No seu esconderijo pôde observar que o vale e o estaleiro foram ocupados pelos goszuls e por alguns desconhecidos. Também testemunhara a reprogramação de seus colegas.
A rigor devia atacar o estaleiro e o contingente de robôs transformados em inimigos, mas até mesmo uma máquina pensante tem um certo instinto de autoconservação, desde que seu construtor o julgue conveniente.
RK-176 sabia que não teria a menor chance contra os noventa e nove colegas. Talvez conseguisse destruir dez ou vinte deles num ataque de surpresa, mas depois disso havia uma certeza absoluta de que sucumbiria sob a superioridade. Era necessário que levasse para o mundo exterior a notícia do que estava acontecendo por aqui. Os governantes precisavam conhecer os fatos que se passavam no vale. Na saída do vale havia um único guarda. Se conseguisse eliminar o mesmo, o caminho para a cidade estaria livre.
Pôs-se a caminho e foi ter diretamente com os vinte goszuls. Os nativos haviam passado naquele instante pelo guarda postado na entrada do vale, que já conheciam. Já não estranhavam os robôs. RK-176 agiu com uma rapidez enorme e com uma irreflexão fora do comum quando abriu fogo contra os nativos inocentes e matou quatro deles. Só teve consciência de seu erro quando o resto do grupo fugiu aos gritos.
Era tarde para voltar atrás.
O guarda robotizado da entrada do vale testemunhara o fato.
RK-176 deixou os goszuls em paz e dirigiu-se para a passagem estreita entre as rochas, onde a figura solitária do guarda surgia nitidamente na sombra de algumas moitas. Dali a pouco a caça ao mesmo teria início.
Se tivesse condições para isso, teria dado um sorriso amargo. Mas era um robô e não sabia sorrir. Em compensação a consciência não lhe doía.
Sabia muito bem o que devia fazer.
Seus braços de combate estavam na horizontal, em posição de tiro. Manteve os olhos rígidos fitos no novo inimigo e marchou em direção ao guarda.
O receptor embutido em seu corpo permitiu a RK-176 constatar que seu aparecimento já não era nenhum segredo.
Gucky chegou com alguns minutos de atraso.
Encontrou os destroços derretidos de um robô e junto aos mesmos traços de moitas e capim queimado. Até mesmo na rocha lisa notavam-se os vestígios dos disparos energéticos. Mas do robô revoltado não se via nada. Devia ter uma vantagem considerável.
Gucky lançou um olhar de lástima para o montão de destroços e teleportou para o cume da montanha, rochas que se elevavam quinhentos metros acima da planície. Dali se enxergava quase até o mar, se o tempo estivesse bem limpo.
Hoje não estava. Mas a visibilidade bastava.
A uns quatro ou cinco quilômetros dali movia-se um pontinho negro, que vez ou outra, quando refletia os raios solares, emitia um brilho prateado. Deslocava-se rápida e firmemente na direção sudoeste.
Era ele!
Gucky sorriu cheio de expectativa. Seu instinto lúdico triunfou sobre as boas maneiras. Finalmente tinha uma oportunidade de dar uma demonstração de sua arte. Era uma pena que não havia nenhum espectador.
Bem, isso poderia ser mudado...
RK-176 marchava numa velocidade considerável, mas evidentemente sua velocidade não bastava para escapar de um teleportador do tipo de Gucky. Nem desconfiava de que estava sendo perseguido e acreditava que sua tentativa de fuga fora bem sucedida.
Seu cérebro positrônico ainda procurava por uma explicação lógica dos acontecimentos que se desenrolaram no estaleiro. Não a encontrou.
Gucky materializou dez metros atrás do robô e concentrou-se inteiramente na sua capacidade telecinética. Os fluxos invisíveis de seu espírito atingiram o monstro metálico e imobilizaram-no.
RK-176 parou imediatamente. Parecia que de um instante para outro estava condenado à imobilidade por uma falha de seu mecanismo. Mas o caso não era este. Pelo contrário: o dispositivo positrônico passou a desenvolver uma atividade febril, mas não encontrava resposta às perguntas que formulava.
Você matou quatro pessoas — disse Gucky em intercosmo, cuidando para que o robô não pudesse executar nenhum movimento. — Por isso será transformado em sucata. Tem alguma coisa a dizer antes disso?
RK-176 respondeu com a voz metálica:
Agi de acordo com as ordens que recebi. Nenhum goszul pode permanecer nas proximidades do estaleiro. Quem é você?
Acredito que você gostaria de saber. Bem, eu lhe permito uma meia-volta. Mas se quiser atirar contra mim, avise antes. Pois nesse caso o assunto será liquidado logo.
Era claro que o robô tentaria matá-lo. Gucky tinha certeza absoluta disso. O robô não poderia agir de outra forma.
E ele o fez assim que viu o rato-castor.
As duas descargas energéticas passaram longe de Gucky.
Você acaba de proferir sua própria sentença de morte — chiou Gucky, fitando as lentes do monstro. — Agora você vai aprender a voar...
RK-176 não estava regulado para o vôo. Seu cérebro registrou o fato inexplicável de que a gravidade do planeta diminuiu de uma hora para outra e que aparentemente ele mesmo já não pesava nada. E não era só isso: ficara mais leve que o ar.
RK-176 subiu como um balão.
Gucky teleportou-se de volta para a entrada do vale e a partir dali dirigiu sua vítima com muita habilidade e alegria. O que aumentava o efeito do espetáculo era o fato de que RK-176 disparava ininterruptamente os dois canhões de radiações, procurando conseguir um impacto casual.
Marshall apareceu correndo na curva da entrada do vale e viu que seu esforço seria recompensado. O espetáculo que presenciou bem que valia uma corrida.
A menos de trinta metros Gucky escava sentado numa moita de capim, lembrando um aeromodelista que, com a alegria do construtor, faz seu artefato teleguiado descrever curvas no céu. No fundo, Gucky não era outra coisa.
O robô subiu a mais de quinhentos metros e parou. Não passava de uma mancha pequenina que se destacava contra o céu e sem parar espelia raios energéticos refulgentes. Ainda bem que Gucky segurava sua vítima de tal maneira que se tinha a impressão de que o robô pretendia derrubar alguma estrela invisível.
Subitamente o ponto começou a cair e aumentou rapidamente. Gucky virou-se e deu um sorriso amável para Marshall.
Daqui a pouco você vai ouvir um estouro — profetizou. — Esse negócio vai explodir. Nunca experimentei de uma altura dessas.
Por que vai destruí-lo? — perguntou John, que sabia perfeitamente que o rato-castor notara sua vinda por via telepática e por isso não estava surpreso. — Qualquer robô pode ser reprogramado...
Este não — disse Gucky, sacudindo a cabeça e acompanhando a queda cada vez mais rápida do monstro metálico, que continuava a disparar loucamente. — Seria muito complicado. Você tem a mania de estragar qualquer alegria que eu tenha...
Mas...
John calou-se. Também ficou fascinado pelo espetáculo. E sabia que Gucky não era tão fácil de convencer. Devia ter uma raiva tremenda daquele robô que descia numa velocidade enorme e atingiu o solo a quinhentos metros do lugar em que se encontravam.
No primeiro instante teve-se a impressão de que nada aconteceria. O peso de RK-176 fez com que o mesmo penetrasse profundamente no solo rochoso. O fenômeno foi reforçado pelo fato de que os radiadores energéticos que continuavam a disparar haviam derretido a rocha, motivo por que o robô caiu praticamente numa poça de lava incandescente.
Subitamente sentiram-se ofuscados por um raio. Por alguns segundos uma nuvem branca em forma de cogumelo cobriu o lugar, até que ela se dissipasse com o vento.
Gucky suspirou fortemente.
Foi uma bela derrubada!
Indignado, John Marshall aproximou se e colocou a mão sobre o ombro do rato-castor. Para isso teve que abaixar-se.
Nunca pensei que você se alegrasse tanto com a destruição.
Às vezes gosto.
De repente Gucky olhou para o céu azul e estreitou os suaves olhos castanhos. Sem mudar de tom, prosseguiu:
Segure minha mão. Vou saltar para o estaleiro. É preferível que venha comigo.
John sabia que Gucky não teria nenhuma dificuldade em levá-lo consigo. Mas antes que isso acontecesse, também olhou para o céu.

* * *

A pouca altura a nave cilíndrica dos saltadores, que tinha mais de duzentos metros de comprimento, passou por cima das montanhas que até então a haviam ocultado.
Topthor fez um sinal para Rangol.
Descerei sozinho. No vale não há bastante espaço, por isso pousarei no platô. A comissão de investigação descerá para o vale numa nave auxiliar. O senhor ficará de prontidão numa altitude de dez quilômetros. Mantenha-se em contato com o posto de rádio.
Pretende sair da nave, Topthor?
Acompanharei minha gente. Observe os acontecimentos. Mas não ataque nem ponha em risco minha pessoa e a dos meus homens. Ao menor sinal de contaminação nossos planos serão modificados.
Os comandos dos superpesados foram transmitidos pelo intercomunicador às diversas seções da nave, que desceu lentamente e em posição horizontal sobre o platô, separado do estaleiro por uma encosta íngreme de quinhentos metros.
Mal a nave pousou, suas escotilhas abriram-se. Um robô de combate massudo saiu e, sustentado pelo campo antigravitacional, flutuou cinqüenta centímetros acima do chão rochoso. Homens que envergavam trajes protetores saíram apressadamente da grande nave e entraram numa nave muito menor. Os enormes vultos quadráticos dos superpesados pareciam medonhos e ameaçadores. Assemelhavam se a tocos gigantescos, mas seus movimentos eram de uma tremenda rapidez e agilidade.
As escotilhas da nave-mãe fecharam-se. Preparado para a luta, mantinha-se na expectativa para entrar em ação assim que Topthor o ordenasse. O rádio embutido no capacete manteve-o em contato permanente com o comandante substituto.
Foi o último a entrar na cabina apertada da nave de guerra.
Sem provocar o menor ruído subiu dois metros, deslocou-se em direção ao abismo e foi descendo lentamente. Topthor não se preocupava com o que fazia o piloto ou os vinte superpesados que o acompanhavam, todos armados até os dentes. Só se interessou pela tela.
Então era lá embaixo que ficava o estaleiro em que estava sendo construída aquela nave misteriosa que, segundo diziam seus construtores, iria conquistar o Universo. Topthor não fazia a menor idéia sobre as vantagens do artefato cuja construção estava sendo concluída, mas começou a desconfiar de que as ligeiras indicações que ouvira vez por outra não eram conversa fiada.
Desceram lentamente.
Topthor reconheceu perfeitamente a primeira fileira de guardas robotizados, que luzia frente para a saída do vale. Era tal qual Etztak lhe contara. Ao que parecia, tudo estava em ordem. Não havia nenhuma epidemia, nenhum autômato rebelde, nenhum goszul que enlouquecera...
Topthor lembrou-se de que no estaleiro não trabalhava nenhum nativo. Borator comandava apenas robôs. Pelo menos até hoje. Ninguém sabia se amanhã ainda seria assim.
Topthor ainda acreditava estar manipulando todos os fios, sem desconfiar de que não passava de uma marionete presa a um fio puxado por outra pessoa.
Por Perry Rhodan.
Sentados no seu esconderijo, John Marshall, Kitai, o sugestor e Gucky acompanhavam com um interesse enorme o pouso dos superpesados.
O trabalho no estaleiro prosseguiu como se nada tivesse acontecido. Borator estava sentado no seu escritório, transmitindo instruções. A decolagem experimental estava prevista para depois de amanhã. Os robôs trabalhavam a toda velocidade. Ainda bem que contavam com o apoio dos goszuls. Lá fora a sombra de uma nave de guerra dos saltadores foi descendo para o vale. Mal tocou o solo, os vultos enormes dos superpesados saíram das escotilhas. Suas mãos enormes seguravam os radiadores de impulsos, prontos para disparar. Os trajes espaciais estavam fechados, mas o aparelho de comunicação externo permitia comunicação direta.
Borator levantou a cabeça, fez de conta que já os esperava e levantou-se. Estava sendo dirigido pela vontade de Kitai quando saiu do escritório e se aproximou dos superpesados. Não demonstrou a menor surpresa.
Então, Topthor, vocês vieram para levar a nave? Foi Etztak que os mandou?
Quando viu o rosto salpicado do técnico, Topthor foi baixando o radiador. Seu traje protetor o resguardaria da contaminação; não tinha a menor dúvida. Mas nem por isso livrou-se da sensação desagradável de se ver diante de um inimigo desconhecido e imprevisível.
O senhor pegou a doença, Borator? — perguntou, recuando cinqüenta centímetros. Pelo canto do olho viu um grupo de goszuls acompanhado de alguns robôs sair do estaleiro escavado na rocha e, sem demonstrar o menor interesse pelos superpesados, dirigir-se para o pavilhão mais próximo. — O que é que esses nativos estão fazendo por aqui? Também estão contaminados?
Borator confirmou com um simples aceno de cabeça, como se apenas se tratasse de uma indisposição passageira.
Estamos todos contaminados, mas ainda não perdemos a memória. A deterioração do cérebro demora algumas semanas. Até lá a nave estará pronta. Quanto aos goszuls, não tive outra alternativa senão recorrer a eles. Os robôs não dariam conta do trabalho até que... bem, até que eu perca a memória. — Borator apontou para um robô de guerra que se encontrava nas proximidades. — Não sou só eu, Topthor. Os robôs também estão perdendo a memória. Depois que isso acontecer, não poderemos contar mais com eles.
Topthor recuou mais um passo. Lançou um olhar de advertência aos homens que tinham vindo com ele.
Quando é que a nave deverá ficar pronta, Borator?
Dentro de uma semana aproximadamente. Vocês poderão levá-la.
E quando... quero dizer, quanto tempo demorará até que o senhor perca a memória?
Talvez seja amanhã. Não sei. Seria conveniente que vocês se preparassem para prosseguir nos trabalhos.
Prosseguir nos trabalhos? Quer que sejamos contaminados?
Isso já aconteceu — disse Borator em tom indiferente.
O superpesado empalideceu atrás do visor de seu capacete.
Estamos usando trajes protetores!
Borator esboçou um sorriso frio.
Também passei a usar quando houve o primeiro caso aqui no vale. Veja se adiantou alguma coisa. O caso é que vocês deverão sacrificar seu bem-estar pessoal e fazer tudo para salvar esta nave. Em hipótese alguma ela deve cair em mãos estranhas.
Um bacilo nunca pode atravessar um traje protetor — disse Topthor, voltando ao tema que mais o interessava. — E antes de voltarmos ao interior de nossa grande nave, seremos expostos ao vácuo. Não há bacilo que resista a isso.
Vocês poderão expor seus trajes ao vácuo, mas não seus corpos — respondeu Borator em tom indiferente. — Não se iludam. Vocês estão perdidos da mesma forma que eu e todos os robôs e goszuls deste mundo. A única coisa que podem fazer é levar a nave ao espaço e conduzi-la ao ponto de transição com as escotilhas abertas. Depois terão que deixá-la entregue a sua própria sorte. Os saltadores saberão encontrá-la. É possível que, quando isso acontecer, a nave já não esteja contaminada. Quanto a vocês, Topthor, é bem possível que daqui a uma semana nem se lembrem de seu nome...
Borator! — a voz de Topthor saiu com uma potência digna de sua estatura. — Não vim para ouvir essas tolices. Neste vale todo mundo está trabalhando. Ainda não vi nenhum louco.
Já temos alguns — respondeu Borator em tom tranqüilo e apontou o queixo cabeludo para a direita, onde um robô de combate estava saindo de trás de um dos depósitos. — Vocês não acreditarão, mas a coisa se manifesta em primeiro lugar nos cérebros positrônicos. Ali está... olhem e escutem...
Contrariado, Topthor olhou na direção do pesado robô, que se aproximava lentamente, passando a poucos metros deles. O monstro metálico não se interessou pelos superpesados que acabavam de pousar. Nem chegou a olhá-los.
Enquanto passava por eles, cantarolava baixinho. Era uma melodia monótona e despretensiosa. Em compensação as palavras eram proferidas em intercosmo e podiam ser facilmente entendidas:

Quem sou eu...?
... Não passo da busca e do martírio,
Da sede e da saudade
Dever e angústia sem saída
Mas no fim tudo serão saudades e sede
Num lago azul, quero despejar-me...

A boca de Topthor abriu-se. Até parecia que a barba estava pesando demais, puxando o queixo para baixo. Começou a tremer como vara verde. Com grande dificuldade conseguiu murmurar:
O que... é isso...?
É uma poesia — esclareceu Borator. — Foi o próprio RK-064 que a compôs. A melodia também é dele.
Os vinte superpesados que se encontravam atrás de Topthor recuaram passo a passo até atingir a escotilha da nave de guerra. Ao menor sinal desapareceriam com a velocidade de um relâmpago. Acontece que Topthor estava chocado, mas não derrotado. Seus dedos crisparam-se em torno da arma.
Por que não destroem RK-064?
John Marshall sorriu no seu esconderijo, quando transmitiu a pergunta de Topthor a Kitai. Kitai sugeriu a resposta a Borator, que foi quase instantânea.
Por que iria destruí-lo? Se o fizesse, teria que destruir todos os preciosos robôs que estão por aqui. O fim chegará de uma forma ou de outra, e enquanto não nos atacarem não vejo motivo para destruí-los. Aliás, o robô de trabalho RA-007 está compondo um drama.
Gucky quase escorregou para baixo da mesa de tanto que riu ao ouvir esta resposta. Esbaforido, chiou:
Vocês não conseguirão expulsar Topthor com uma tolice desse calibre. Não seria preferível que eu o transformasse numa nave espacial? Minhas energias bastam para transportá-lo à lua mais próxima. Quando estiver lá, seu pessoal poderá buscá-lo.
Não se atreva! — cochichou John, furioso. — Topthor é um realista e um espírito frio. Logo suspeitaria de que se defrontava com um golpe telecinético e, portanto, com Perry Rhodan. Para ele um robô poeta é muito pior, pois não o compreende. Continue, Kitai. Acho que daqui a pouco Topthor estará nas devidas condições.
Evidentemente a cultura dos saltadores conhecia o drama, mas até então Topthor não se ocupara com essas coisas, que não trazem nenhum lucro. Perplexo, contemplou o rosto manchado de seu interlocutor e subitamente sentiu um medo terrível. Tremeu por todo o corpo e mal pôde sustentar-se sobre as pernas maciças.
Quais são os efeitos da doença sobre o homem?
Antes que Borator tivesse tempo de responder, um goszul saiu de trás de um prédio. Até parecia que vinha de encomenda. Aproximou-se do grupo dos superpesados, que em condições normais lhe teria metido tamanho susto que teria desmaiado assim que visse aqueles monstros. Mas naquela hora nem parecia estranhar a presença.
Veja — conseguiu murmurar Borator antes que o goszul se interpusesse entre ele e Topthor. Era um nativo de cabelos escuros. Trazia o peito nu, coberto de manchas azuis e vermelhas. Também o rosto estava todo colorido. A doença já devia ter consumido seu cérebro, pois nem percebeu o perigo que os superpesados representavam.
Tirou o radiador de impulsos das mãos trêmulas de Topthor e, com um sorriso nos lábios, pôs-se a brincar com o mesmo. Antes que alguém pudesse impedi-lo, o raio energético verde-pálido subiu obliquamente e gaseificou um pedaço do paredão de rocha.
Espantado, o goszul sacudiu a cabeça e devolveu a arma a Topthor, antes que este tivesse tempo de realizar sua intenção de pôr-se em segurança com um salto para trás.
Foi isso que mais o assustou.
Rindo para si mesmo, o nativo continuou na sua caminhada, passando entre as fileiras indecisas dos superpesados sem mostrar o menor sinal de medo.
Borator acenou a cabeça para Topthor.
Você viu, Topthor. Quem pega a doença esquece tudo. Não sabe mais que existe o perigo. Confia no pior inimigo, e assim fica à mercê do mesmo. Se a raça dos saltadores perder a memória e não souber mais quem são seus inimigos, estará perdida.
As mãos debilitadas de Topthor seguraram a arma.
A gente também se esquece dos seus inimigos?
Até esquecemos nosso nome — confirmou Borator. De repente prosseguiu num tom muito objetivo: — Permite que lhe mostre a nave? Dentro de uma semana terão que levá-la ao espaço. Tomara que não adoeçam antes disso. Decerto dispõem de gente que possa substituí-los se for necessário. O último grupo que restar colocará a nave no rumo.
Topthor perguntou:
O que acontecerá conosco?
Borator fez um gesto indefinido
Isso depende de vocês, Topthor. Dentro de uma semana o mais tardar seu espírito estará morto, mesmo que o corpo continue vivo. O que importa? O importante é que nossa tarefa seja cumprida, e que a nave seja entregue aos clãs...
Não aceitei a tarefa de pegar uma doença e me arruinar — exclamou Topthor. Seu corpo tremia. — Esses patifes me mandaram para a perdição e esperam que com isso poderão economizar minha recompensa. É claro! Eu me esquecerei que tenho alguma coisa a cobrar. Mas não contaram com Topthor quando fizeram suas contas. Eles mesmos que venham buscar a nave. Transmita-lhes o recado, Borator, se é que até lá ainda se lembrará dele — dirigiu-se a seus homens. — Vamos para a nave! Desistimos da execução da tarefa. — Voltando a dirigir-se a Borator, perguntou: — Acredita que estamos contaminados?
O rosto do técnico parecia desolado.
Receio que isso seja um fato consumado, Topthor.
O superpesado berrou uma praga e seguiu seus homens para o interior da cabina relativamente pequena da nave grosseira. A escotilha fechou-se. Dali a alguns segundos a nave subiu na vertical e logo desapareceu acima do paredão.
Gucky saiu de baixo da mesa.
E daí? — chilreou decepcionado. — Foi só isso? Nenhum fogo de artifício? Nenhuma demonstração telecinética? Nada?
John suspirou aliviado e bateu no ombro de Kitai.
Foi um serviço bem feito, meu caro. Borator foi um excelente ator. É pena que ele não saiba disso.
Então? — perguntou Gucky, subindo à mesa. — Eu lhe fiz uma pergunta, John.
O telepata acariciou o pêlo espesso do rato-castor.
Fique satisfeito porque conseguimos liquidar o assunto por essa forma. Muitas vezes os meios pacíficos produzem um efeito mais duradouro que um lindo fogo de artifício com muita morte e destruição. Só os vivos não esquecem.
Gucky procurou absorver a idéia.
Enquanto isso a sombra gigantesca da nave cilíndrica desprendeu-se do platô e, acelerando loucamente, disparou para o céu azul.
Topthor convocou as doze naves restantes.
Só onze responderam.


6



Quando Harnahan decolou com sua pequena nave, pensou que estivesse sonhando. Estaria doente, sofrendo os sintomas tantas vezes relatados da febre espacial? Era possível que a embriaguez da solidão o tivesse atingido, e que sua experiência não passasse de um sonho inspirado no desejo, que se formara no seu subconsciente.
Mas não; ali estava a voz misteriosa. A quilômetros de distância penetrava em seu cérebro.
Deixe as dúvidas para depois, Harnahan. Agora você não tem tempo para isso. Uma nave dos saltadores dirige-se para esta lua. Se não quiser morrer, apresse-se. Pouse no meu vale.
Harn apressou-se. Dali a menos de um minuto desceu para o vale em que havia encontrado a esfera. Continuava no mesmo lugar, mas a imagem de sua superfície estava alterada.
Fique na nave, Harnahan. Você verá tudo. Não tenha medo. Nada lhe acontecerá. Já os saltadores...
A esfera encontrava-se a dez metros de Harn. Viu perfeitamente o que se passava em sua superfície. Viu uma nave com o formato cilíndrico dos veículos espaciais dos saltadores. Percebeu que passava junto à superfície de uma lua — seria a sua? — como se estivesse procurando alguma coisa. Teve a impressão de que a esfera estava maior e continuava a inchar. Também parecia emitir um brilho mais saciado.
Saciado...?
A suspeita tremenda que Harn passou a conceber naquele instante ainda se confirmaria. No momento não teve tempo para refletir sobre problemas desse tipo: Tirou os olhos da esfera e fitou a planície.
A nave dos saltadores vinha diretamente para o lugar em que Harn se encontrava. Levantou ligeiramente a popa para ultrapassar a barreira das montanhas. Ao mesmo tempo acelerou repentinamente. A qualquer momento teria que surgir do outro lado da cumeeira.
E surgiu.
Ansioso, Harn aguardou o desenrolar dos acontecimentos. Se o comandante não estivesse dormindo, já devia ter visto o pequeno caça espacial. Num movimento automático Harn colocou a mão sobre o acelerador manual. Num golpe poderia fazer o foguete disparar para o alto...
A nave dos saltadores continuou na mesma rota inclinada em direção ao céu estrelado. Harn teve a impressão de que a velocidade estava sendo reduzida aos poucos.
Ultrapassou a velocidade de fuga da lua e não descerá mais abaixo da mesma. Faço votos de que os outros saltadores a encontrem, senão seus ocupantes estão perdidos.
Perplexo, Harn fitou a enorme nave que diminuía rapidamente até desaparecer atrás das rochas íngremes. Seus olhos treinados perceberam que não dispunha de propulsão, sendo mantida em movimento apenas pela força da sua massa. Assim que saísse do campo de gravitação da lua, viajaria em queda pela imensidão do espaço, até que penetrasse no campo de gravitação de uma lua maior, de um planeta ou mesmo de um sol.
Você destruiu os propulsores? — perguntou, olhando para a esfera, cujo diâmetro já chegava a meio metro. — Os homens que se encontram nessa nave estão perdidos.
Não destruí os propulsores — foi a resposta formulada em pensamento. — Apenas subtraí toda a energia de que dispõe a nave. Só deixei intactas as baterias de emergência, para que possam dispor da eletricidade necessária para o condicionamento de ar. De resto a nave não dispõe de nenhuma energia. Não tem propulsão, nem armas, nem hipertransmissores, coisa alguma. Se quisesse poderia subtrair sua energia. Acontece que estou interessado no tal do Perry Rhodan. Quando sair do sistema, enviar-lhe-ei uma mensagem. Um dia aguardo sua visita. Tanto faz que seja em dez anos ou em cinqüenta. Não tenho pressa. O que não quero é esperar mil anos. Aliás, a esta altura talvez seriam apenas oitocentos.
Harn ligou o minicomunicador, cuja ajustagem hipersincronizadas permitia a comunicação instantânea até uma distância de duas semanas-luz. Enquanto o aparelho realizava a regulagem automática, disse:
Informarei Rhodan sobre nosso encontro. Por enquanto permita que o informe sobre a minha posição.
Informe-o sobre sua posição, mas é bom que saiba que a guerra no segundo planeta do sistema já está decidida. Os saltadores estão fugindo. Não têm mais o menor interesse em cumprir sua tarefa. Você pode voltar. De qualquer maneira, logo receberá ordens para isso.
O tenente Fisher respondeu de bordo da Stardust:
Ora essa, Harnahan! Por que não deu notícias? Pode voltar. Não precisamos mais de indicações de posição. Os saltadores deram o fora. Onde o senhor se meteu?
Numa das luas do quarto planeta. Posso falar com Rhodan?
Infelizmente não é possível. Eu lhe direi que dentro em breve o senhor estará de volta. Apresse-se.
Mas...
Não tenho mais tempo, sargento. A Stardust está emergindo. Chame mais tarde. Fim.
O alto-falante emudeceu. Harn desligou e abriu a comporta de ar. Dali a dois minutos encontrava-se diante da esfera. Fitou a superfície negra e viu uma porção de naves cilíndricas que entravam em formação. Eram onze naves, que se agrupavam em círculos em torno de outra, maior. À esquerda do grupo via-se um planeta.
É o último planeta do sistema — esclareceram os impulsos mentais. — Eles se reúnem para sair daqui o mais depressa possível. Mas captaram o pedido de socorro da nave desaparecida e vão procurá-la.
Harn inclinou-se como se quisesse tocar a esfera, mas não teve coragem.
Que ser é você? — exclamou. — O que sabe fazer?
Eu sou eu, Harn. É a única coisa que posso dizer. Quer ver o que sei fazer? Olhe, que eu lhe mostro...
Na superfície da esfera surgiu um mar agitado... um torvelinho... e subitamente Harn viu a Stardust emergir das profundezas e deslizar lentamente sobre as cabeças brancas das ondas. A nave logo chegou à costa e pousou no espaçoporto. Os três cruzadores já haviam saído dos hangares subterrâneos. Em todos os lados viam-se os tripulantes reunidos com os nativos, que ainda traziam as manchas coloridas no rosto, mas de resto pareciam absolutamente normais.
Você é um receptor de televisão vivo — cochichou Harn emocionado e acrescentou: — Qual é o seu alcance?
A esfera não respondeu, mas o quadro de sua superfície alterou-se.
Harn viu que abandonava o sistema. Era ao menos o que parecia.revelar a imagem. Com uma velocidade milhões de vezes superior à da luz disparou para o infinito até que, perplexo, contemplou o giro da galáxia. Devia ter percorrido dezenas de milhares de anos-luz...
Retornou em velocidade vertiginosa e viu-se de novo na superfície da lua. Sabia que não saíra do lugar, mas...
Enxergo qualquer ponto da galáxia e posso transmitir a visão a outros. Infelizmente só posso comunicar-me a uma distância de duzentos anos-luz. Às vezes consigo chegar mais longe. Como vê, minha capacidade é limitada.
Subitamente Harn teve a impressão de que estava fazendo um frio terrível no seu traje aquecido. Começou a compreender o poder desse ser esférico, que parecia ser feito de energia compacta e se alimentava com a luz das estrelas. E com a energia dos conversores das naves espaciais. E compreendeu que nunca se defrontara com um ser mais benevolente.
Volte para junto de seus amigos, Harnahan. Informe Rhodan a meu respeito, mas mantenha silêncio diante dos outros. Devo descansar e poupar minhas forças, pois as estrelas estão muito distantes. Passe bem, Harnahan. Ainda nos encontraremos.
Harn lançou mais um olhar para a esfera. Depois virou-se abruptamente e voltou ao foguete. Passou pela comporta e fechou a escotilha.
Quando ligou o campo antigravitacional e começou a subir, seu olhar pousou sobre o brilho negro da esfera deitada diante da porta metálica que conduzia para o interior da montanha. Sacudiu a cabeça. Um dia descobririam tudo que havia atrás dessa porta... se é que realmente era uma porta.
Quando o vale mergulhou no espaço e o céu estrelado o acolheu, voltou a ficar a sós em sua cabina apertada.


7



O gigante saiu lentamente de sua prisão subterrânea. Os campos antigravitacionais mantinham-no suspenso alguns metros acima do solo. De ambos os lados os goszuls e os robôs cuidavam para que a superfície reluzente não entrasse em contato com a rocha. Borator corria nervosamente de um lado para outro. Falava com as mãos, com os pés e às vezes com a boca, pois essa nave era a coroação de sua vida, embora não compreendesse tudo que os técnicos haviam executado através dos robôs especializados. Com Rhodan aconteceu a mesma coisa. Sabia que só o estudo meticuloso das plantas que Borator lhe entregara permitiria uma idéia sobre os segredos encerrados naquela nave, segredos que teriam que ser desvendados.
Uma coisa era certa: a propulsão funcionava segundo os princípios arcônidas e as modificações introduzidas na mesma eram insignificantes. Por isso não seria difícil pilotar a nave recém-construída. As experiências teriam que ficar para depois, quando houvesse mais tempo. Rhodan tinha pressa de sair do planeta de Goszul.
Um único homem encontrava-se no interior do gigantesco cilindro, cujo comprimento — eram nada menos que 780 metros — penetrou no vale.
Era Reginald Bell.
Apesar de uma resistência feroz, Rhodan o nomeara comandante do cruzador recém-conquistado. Bell poderia gostar de tudo, menos brincar com forças desconhecidas. Mas quando salientaram que era a única pessoa à qual a nave poderia ser confiada, acabou concordando.
O diâmetro da nave era de duzentos metros. Faltava montar parte das instalações internas, mas Rhodan até chegava a alegrar-se com isso. Não sabia quem poderia acomodar-se nas poltronas dos superpesados. Lá em Terrânia os engenheiros e os técnicos cuidariam desses detalhes. Bell desligou os campos antigravitacionais e respirou aliviado quando o ligeiro solavanco lhe revelou que voltara a ter chão firme sob os pés. Saiu da sala de comando e dali a poucos minutos estava junto à escotilha de saída, pela qual se poderia fazer passar um elefante. Estava radiante.
Borator, você acaba de construir um belo navio. Meus parabéns!
Está satisfeito, senhor? — disse o saltador muito feliz. Continuava submetido à influência de Kitai e acreditava firmemente que era dono das suas decisões. Dali a poucos dias ficaria muito admirado quando numa ilha solitária vinte saltadores investissem contra ele com uma série de perguntas. Tal qual eles, não encontraria nenhuma resposta.
É uma bela nave — confirmou Rhodan, que se mantinha mais afastado, conversando com Ralv. — Nós a levaremos.
Vocês voltarão? — perguntou Ralv, que já fora promovido ao posto de chefe de governo do mundo libertado. — Vocês prometeram...
Instalaremos um entreposto comercial neste planeta — tranqüilizou-o Rhodan. — Meus encarregados chegarão dentro de poucas semanas. O equipamento de guerra dos saltadores bastará para protegê-los. Com ele poderão rechaçar qualquer inimigo que procure escravizar seu mundo. Acho que pelos próximos cinqüenta anos dos saltadores não os incomodarão. É quanto dura a quarentena.
Bell aproximou-se.
Está bem, vou pilotar isso — disse com um sorriso. — Quando decolaremos?
Dentro de três horas. Eu lhe recomendaria que levasse “isso” ao espaçoporto. Aproveite a oportunidade para fazer um pequeno vôo experimental. Gucky irá com você, para que possa trazê-lo de volta, se for necessário. Afinal, você não é nenhum teleportador.
Gucky! — resmungou Bell, contrariado. — Sempre tem que ser o Gucky. Bem, que venha comigo, a não ser que esteja com medo.
O rato-castor já se encontrava na escotilha tamanho elefante.
Eu, medo? — gritou a voz estridente por cima da figura assustada de Bell. — Nunca tive medo. O único medo que posso ter é de que você possa criar juízo, seu Bell das cerdas.
Pelo rosto de Bell tinha-se a impressão de que ele estava prestes a chorar. Sua voz quase chegava a ser suplicante quando se dirigiu a Rhodan:
O que vou fazer com ele, Perry?
Leve-o até a Terra. Vocês voarão juntos. Talvez assim tenham oportunidade de adaptar-se um ao outro. Dizem que uma viagem a sós pelo Universo é muito saudável para esse tipo de problema...
Bell afastou-se a passos pesados. Seus cabelos ruivos, que no curso da aventura estavam encostados à cabeça, encontravam-se em posição quase vertical.
Sem olhar para trás, desapareceu no interior da nave em companhia de Gucky. A escotilha fechou-se com um ruído surdo.
John Marshall, que se encontrava por ali, aproximou-se.
Hum! — resmungou. — Não sei se isso vai dar certo. Afinal, Gucky também é telepata.
Rhodan sorriu seguro de si.
Vez por outra lembrará Bell desse fato — disse em tom irônico enquanto contemplava a pesada nave que, leve como uma pluma, levantou-se do solo e subiu na vertical. Quando chegou à beira do platô, acelerou vertiginosamente e disparou para o céu azul. Dentro de poucos segundos desapareceu.
Borator seguiu-a com um olhar pensativo.
A frota de Rhodan cruzou a órbita do quarto planeta e, deslocando-se à velocidade da luz, aproximou-se do ponto de transição previamente calculado. Os cruzadores Terra e Centauro flanqueavam a Stardust, enquanto o Solar System e a mais recente aquisição de Bell, o cruzador apresado dos saltadores seguiam-na a uma distância de 0,00001 segundos-luz.
Além de Rhodan só havia uma pessoa na sala de comando da Stardust. Era Harnahan.
À esquerda deles o quarto planeta passou rapidamente. As numerosas luas do mesmo eram minúsculos pontos de luz, e ninguém saberia dizer em qual delas Harnahan pousara.
Rhodan não deixou perceber a menor dúvida quando perguntou:
Essa esfera, qual é mesmo seu alcance telepático?
Duzentos anos-luz, é o que ela diz.
É estranho — disse Rhodan de si para si. — Sempre se acreditava que a telepatia não conhece limitações no que diz respeito ao seu alcance. Ao que parece, nem sempre é assim. Também Marshall não pode estabelecer contato daqui para a Terra. De qualquer maneira, duzentos anos-luz...
Subitamente sentiu. Parecia uma mão suave que se colocava sobre sua cabeça e exercia uma pressão delicada. Uma coisa estranha surgiu em sua mente, expelindo suas próprias idéias. Com ligeiro olhar certificou-se de que o piloto do caça estava passando pela mesma experiência.O estranho ser esférico estava estabelecendo contato.
Já está acreditando, Perry Rhodan? Ele lhe disse que estou esperando você? Não, antes de mais nada, volte à Terra; é mais importante. Mas não se esqueça de mim, Perry Rhodan, mesmo que seja imortal. Eu o espero. Se necessário, esperarei por uma pequena eternidade.
Quem é você? — perguntou Rhodan.
Harnahan “sentiu” o sorriso alegre, tal qual Rhodan.
Vocês humanos são uma raça curiosa, e a curiosidade é a mola propulsora de seu progresso civilizatório. Acredito que será a curiosidade que um dia o levará para junto de mim. Até lá. Passe bem, Perry Rhodan. Muito obrigado.
Rhodan ficou perplexo.
Obrigado? Por quê?
Mais uma vez sentiu a risada mental.
Pela energia que consegui tirar de sua nave. Não tirei demais. Não será suficiente para um vôo mais longo. Acredito que ainda me ouvirá melhor. Muitas felicidades para você... e para o planeta Terra.
O quarto planeta ficou para trás, e com ele as luas do mesmo.
Como poderei chamá-lo? — perguntou Rhodan.
Não houve resposta. A estranha inteligência manteve-se em silêncio. Rhodan voltou a tentar, mas o contato não surgiu. Olhou para Harnahan.
Quero sua opinião, sargento. Quero sua opinião com toda a sinceridade. Que ser é este? Vive realmente? É apenas energia, ou será também espírito? Afinal, o senhor o viu? Poderá representar um perigo?
Harnahan olhou para a amplidão semeada de estrelas. Um traço suave brincou em torno de seus lábios estreitos. Havia um brilho úmido em seus olhos, quando sacudiu lentamente a cabeça.
Não posso dar resposta a nenhuma das suas perguntas. Apenas tenho resposta para uma delas. A última. Jamais este ser representará um perigo para nós. Sim, eu o vi; e também o senti. Mas não senti nada de mal e não tive medo. Não, este ser esférico não representa nenhum perigo para nós. Pelo contrário.
Perry Rhodan também olhou a profusão de estrelas. Lá adiante a algumas horas-luz de distância, ficava o ponto de transição Num golpe o cosmos morreria e desapareceria, para ressurgir poucos segundos depois, a mais de mil anos-luz daquele ponto.
Virou-se e fitou o rosto de Harnahan.
Muito bem — disse em tom suave e com uma vibração estranha na voz habituada a comandar. — Sinto a mesma coisa que o senhor. Se o ser esférico não representa nenhum perigo, talvez possa nos ajudar um dia. E precisaremos de auxílio, quando...
Calou-se.
Mas Harnahan, que afinal era apenas um humano, ficou curioso.
Quando precisaremos de auxílio?
Rhodan respondeu com um sorriso condescendente:
Receio que precisemos quando os saltadores perceberem que não perderam a memória. E isso poderá acontecer dentro de algumas semanas — o sorriso desapareceu tão depressa como surgira. — Vamos cuidar de Bell. Dentro de algumas horas...
O rosto de Bell surgiu na tela.
O que houve, Perry?
Uma transição experimental de três mil anos-luz. Está preparado?
Bell confirmou com um gesto de resignação. O dente roedor sorridente de Gucky surgiu atrás dele.
Está bem. Mas tenho certeza de que tudo funciona perfeitamente e...
Está pronto? — interrompeu-o Rhodan.
Pronto — Bell olhou por cima do ombro. — Gostaria de saber quem não está sempre pronto na situação em que me encontro. Ai!
Bell começou a subir e desapareceu da tela. Gucky ocupou seu lugar. Parecia o rato Jerry ampliado. O dente roedor brilhava de alegria.
É sempre ele que começa — disse Gucky em tom ingênuo. — Quer que o teleporte para o inferno?
Rhodan exibiu um rosto severo, mas em sua voz notava-se um riso contido.
Não faça isso, Gucky. Ainda precisaremos de Bell por algum tempo. Além disso, o diabo não gostaria nem um pouco da concorrência que iria receber. Nunca ouviu falar em concorrência desleal?
Não — respondeu o rato-castor, sacudindo as longas orelhas. — Nunca ouvi falar. O que é isso?
É o ato praticado por um telecineta que deixa um homem normal morrer de fome junto ao teto — trovejou a voz de Bell de algum lugar. — Desça-me imediatamente, senão vou... vou... está bem, Gucky, não vou fazer coisa alguma. Vamos fazer as pazes?
As pernas de Bell surgiram na tela, e dali a pouco estava novamente acomodado em sua poltrona diante do painel da nave que já pertencera aos saltadores. De boa vontade, Gucky cedeu-lhe o lugar.
Que tal uma transição experimental? — perguntou Rhodan.
Bell estava radiante.
Terei o maior prazer, cavalheiro. Não há nada que eu gostaria mais de fazer. Quanto tempo deverei esperar?
Em algum lugar, a três mil anos-luz de distância, um rato-castor chiou admirado e sacudiu a cabeça.
Rhodan acenou com a cabeça como alguém que compreende tudo.
Está bem. Vamos embora!
O sargento Harnahan olhou para a tela de popa e procurou um planeta que mergulhava no espaço. Era um planeta que possuía numerosas luas de pequenas dimensões. Em seus olhos brilhava o anseio eterno pelo conhecimento.
Afinal, era mesmo um espírito romântico e sonhador...

* * *
* *
*

O Planeta Louco encenou a loucura para libertar-se dos seres que o oprimiam.
O estratagema da doença aparentemente incurável, usado para repelir os mercadores galácticos, foi coroado de um êxito fulminante. Finalmente Perry Rhodan pode preparar o Avanço Para Árcon, há tanto planejado...
Avanço Para Árcon é o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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