Verdadeiras
massas de gente saíram das portas bem abertas e corriam em direção
aos robôs, como se quisessem derrubá-los.
Por dois
segundos Topthor ficou perplexo, mas depois viu alguma coisa que fez
um calafrio passar por suas costas largas. Nos rostos dos goszuls
viam-se os sinais inconfundíveis da terrível epidemia. Manchas
vermelhas e azuis espalhavam-se pelas bochechas, pela testa e pelo
pescoço. Alguns dos nativos estavam sem camisa. Seus peitos pareciam
caixas de tintas.
As mãos
de Topthor tremeram quando verificou o tele controle dos robôs de
combate. Era um caráter sem escrúpulos, que não recuava diante de
nada, mas a idéia de usar robôs contra um bando de selvagens
desarmados causava-lhe repugnância. Além disso, as leis de seu clã
não permitiam tal procedimento.
Mas acabou
assustando-se.
Formando
uma frente ampla, os robôs de combate que os saltadores haviam
deixado no planeta avançaram atrás dos goszuls. Seus radiadores
energéticos encontravam-se em posição horizontal, prontos para
disparar. No primeiro instante tinha-se a impressão de que tangiam
diante de si os goszuls, que naquele instante alcançaram a formação
de combate de Topthor, e passaram por elas, correndo em direção às
duas naves pousadas. Dentro de mais alguns minutos alcançaram-nas e
começaram a dançar em torno delas com uma terrível gritaria.
Topthor
sentiu-se abalado. Então era isso que acontecia com seres dotados de
alguma inteligência que perdem a memória. Não sabiam mais o que
vinha a ser uma nave espacial, ignoravam o perigo que a mesma podia
representar. Parecia um bando de cegos que corria para a desgraça.
A mão
esquerda, que já se encontrava sobre os botões dos radiadores da
nave, recuou com um ligeiro tremor. Não. Topthor não atiraria
contra um grupo de seres indefesos. Estava disposto a enfrentar
qualquer inimigo de igual para igual e, sempre que pudesse, o
destruiria, mas atacar seres indefesos, doentes... isso não!
Rhodan
suspirou aliviado no seu esconderijo. Fosse quem fosse esse Topthor,
naquele instante fizera com que o juízo a seu respeito fosse
favorável. Era um inimigo, e Rhodan tinha contas a ajustar com ele,
mas não era nenhum monstro que se compraz em derramar o sangue de
seres inocentes.
Topthor
não sabia que acabara de salvar sua vida.
Voltou a
dedicar sua atenção aos robôs e perguntou de si para si o que
teria acontecido com as unidades deixadas no planeta.
Será que
a moléstia os afetara? Até parecia que era assim, pois não havia
explicação para seu estranho comportamento. Topthor não poderia
saber que todos os robôs existentes no planeta de Goszul haviam sido
reprogramados, a fim de transformar-se em servos fiéis de Perry
Rhodan.
Aliás,
nem sabia quem era seu inimigo. Supunha que Rhodan se encontrasse na
Terra, um planeta situado a 1.012 anos-luz, e um belo dia pretendia
ajustar contas com ele. Pelo que pensava, aqui só estava enfrentando
o flagelo do esquecimento. Acontece que os próprios robôs passaram
a atacá-lo.
E o
fizeram com uma precisão espantosa.
A primeira
salva energética foi tão surpreendente que Topthor não reagiu com
a necessária rapidez. Antes que pudesse ordenar ao grupo de
cinqüenta robôs que ativasse os campos protetores energéticos,
metade do mesmo já se derretera sob o fogo contínuo dos atacantes.
Obedecendo ao seu comando, os que restavam defenderam-se
desesperadamente, mas nada puderam fazer face à superioridade do
inimigo. Um campo energético atrás do outro sucumbiu sob os
disparos dos radiadores, e com eles os respectivos robôs.
Dentro de
cinco minutos a companhia foi destruída. Nada aconteceu aos robôs
de trabalho.
Havia
nisso uma contradição que deu o que pensar a Topthor.
Se é que
as unidades de robôs contaminadas do planeta de Goszul haviam
perdido o juízo positrônico, se não sabiam mais o que estavam
fazendo, como se explicava que destruíam apenas os robôs de
combate? Por que não atacavam os trabalhadores? Ainda deviam possuir
uma memória.
Ou
estariam sendo dirigidos por alguém?
Mas por
quem...?
Topthor
percebeu que pela primeira vez em sua longa vida algo como o medo
começou a apossar-se dele. Era um medo terrível e indefinido, para
o qual não encontrava explicação.
Transmitiu
aos robôs de trabalho o comando de retornar à nave.
Os
cinqüenta colossos obedeceram. Fizeram meia-volta e puseram-se em
marcha de volta para a nave. Mas não foram longe. Os robôs de
combate foram mais rápidos. Bloquearam sua retirada e com seus
corpos robustos empurraram-nos para a periferia do campo de pouso.
Topthor
teve que assistir inerme ao aprisionamento dos seus trabalhadores.
Nunca esqueceria o espetáculo.
Os olhos
muito arregalados de Rangol contemplaram-no da tela. A cor morena de
sua pele cedera lugar a um cinza-sujo. A ponta da barba tremia.
— O que
é isso, Topthor? Como podia acontecer...?
— Não
sei! — respondeu Topthor laconicamente e fitou os goszuls, que
continuavam no seu berreiro, dançando em torno das naves e sacudindo
os braços, como se estivessem cumprimentando um grupo de deuses
vindo do céu. — Não sei mesmo. Os robôs também devem ter
enlouquecido. Como estarão as coisas no estaleiro?
— Será
que vale a pena resgatar máquinas loucas? — perguntou Rangol.
Topthor
não respondeu. Por algum tempo continuou a contemplar a multidão
maluca que se comprimia entre as naves, lançou um olhar para os
edifícios, onde os últimos robôs estavam desaparecendo entre as
árvores, e ligou o telecomunicador.
— Preparar
ambas as naves para a decolagem. Devemos salvar pelo menos o cruzador
que se encontra nas montanhas. Em hipótese alguma deve cair em mãos
estranhas. Oportunamente serão informados sobre as respectivas
coordenadas. Decolaremos dentro de trinta segundos com o antígravo,
para que os nativos não sejam machucados.
Tão
silenciosamente como tinham vindo, as duas naves voltaram a subir.
Lá
embaixo, no campo de pouso, os cinco mil goszuls berravam que nem uns
malucos e agitavam os braços. Parecia um bando de loucos, mas
naquele instante os homens de Ralv não estavam representando.
Estavam
satisfeitos de verdade.
A
repentina retirada deixou Rhodan surpreso.
— Será
que a força de elite dos saltadores foge tão depressa? — disse
admirado, procurando compreender o procedimento do inimigo. — Devem
ter um medo terrível da doença, principalmente porque acreditam que
a mesma também ataca os robôs.
— Seria
uma tolice rematada afirmar que um cérebro positrônico... —
principiou Bell em tom professoral, mas logo se calou. Olhou para
Rhodan com uma expressão não muito inteligente. — Não venha me
dizer que você pensa que os saltadores acreditam numa coisa dessas.
— Parece
que sim, não acha?
Bell
mergulhou em reflexões. Enquanto isso Rhodan pôs-se a mexer no seu
minúsculo aparelho de rádio.
— Alô,
Marshall. Conte a qualquer momento com o aparecimento dos saltadores.
Provavelmente serão apenas duas naves. Pelo que deduzimos das
mensagens que conseguimos captar, trata-se de nosso velho amigo
Topthor e de um certo Rangol. Estão poupando os nativos, mas
provavelmente usarão todos os recursos contra os robôs para
apoderar-se da nave. Para eles vale mais que todos os robôs do
planeta de Goszul.
— Estamos
preparados — respondeu o telepata. — Os robôs de combate aqui
estacionados foram reprogramados de acordo com suas indicações.
Agora são nossos. Também Borator, que neste meio tempo chegou aqui,
desempenha seu papel com toda arte.
— Que
papel que nada — respondeu Rhodan. — Kitai influenciou o
saltador, fazendo dele um excelente aliado. Borator acredita que age
por sua livre e espontânea vontade. Topthor ficará admirado quando
se encontrar com ele. Mais uma coisa, Marshall. Todo mundo tem que
fazer de conta que está trabalhando sob as ordens dos saltadores.
Perderam a memória, mas estão concluindo a construção da nave. A
falta de lógica dos acontecimentos acabará por confundir Topthor.
— Tomara.
— Não
tenha a menor dúvida — asseverou Rhodan e desligou. Refletiu por
um instante e chamou a Stardust.
— Alô,
Fisher. Tudo em ordem? Como vão seus animais submarinos?
— Ficam
nadando em torno das escotilhas, fazendo como se quisessem entrar.
Infelizmente não temos permissão para dar um passeio no fundo do
mar, mas...
— A
proibição continua de pé. Já há alguma notícia de Harnahan?
— Por
enquanto não deu sinal de vida.
— Não
compreendo. Será que a camada de água é muito espessa e as ondas,
intencionalmente expedidas a baixa potência, não podem penetrar
nela? Deve haver alguma explicação para o silêncio de nosso caça
espacial.
— Harnahan
é um homem de confiança e...
— Avise-me
assim que der alguma notícia — interrompeu Rhodan e suspendeu o
contato.
O
dispositivo automático ligaria seu aparelho assim que Fisher
chamasse.
Rhodan
dirigiu-se ao major Deringhouse.
— Que
tipo de pessoa é o sargento Harnahan, Deringhouse?
O major
arregalou os olhos.
— O que
quer dizer com isso?
— Bem,
pode-se confiar nele? É um homem frio e objetivo, um sonhador, um
espírito teórico, um realista? De que forma agiria se dependesse
exclusivamente de si mesmo?
Deringhouse
estreitou os olhos.
— Não
sei como responder à sua pergunta. Só sei dizer que o sargento
Harnahan é um excelente piloto e um homem de confiança. Por que
iria adotar no espaço uma atitude diferente daquela que costuma ter
quando se encontra conosco?
— Perguntei
por perguntar, major. Esqueça.
Deringhouse
sabia perfeitamente que Rhodan não fazia perguntas inúteis. De
repente também achou que não era nenhum absurdo estabelecer uma
ligação entre o caráter do piloto e a notícia há tanto tempo
esperada. As idéias mais loucas podiam vir à mente de um homem que
se encontrasse a sós num minúsculo foguete perdido na imensidão do
espaço.
— É
possível que Harnahan seja um espírito romântico — disse,
rompendo o silêncio.
Rhodan mal
levantou os olhos ao dar um aceno quase imperceptível da cabeça.
— Era o
que eu imaginava. Bem, veremos como Harnahan explicará seu silêncio
prolongado.
Bell
preferiu guardar sua opinião para si.
*
* *
No
primeiro instante, Harn pensou que acabara de perder o juízo e
estava vendo e ouvindo alucinações.
Quanto ao
ouvido, era bem mais fácil acreditar numa ilusão dos sentidos. Com
a vista a coisa era diferente. A esfera reluzente continuou no mesmo
lugar. Permaneceu diante dos pés de Harnahan, imóvel e como que em
expectativa. Tinha aproximadamente o dobro do tamanho de uma bola de
futebol.
Parecia
ser de metal, mas se alguém contasse a Harn que era de gesso,
estaria inclinado a acreditar nisso. De repente teve a impressão de
que alguma coisa estava acontecendo ao seu cérebro. Sentiu que não
era nada de mal, e não havia nenhum tom de ameaça naquela pesquisa
que procurou misturar o consciente e o subconsciente. Subitamente
voltou a soar a voz silenciosa, que já acreditara ter ouvido:
— Não,
Harnahan, seu estado é perfeitamente normal. O que você vê e sente
é pura realidade. Comecei a sentir seus pensamentos quando você se
aproximava deste mundo. Não quis assustá-lo; por isso resolvi
esperar que você me descobrisse.
Harn teve
a impressão de que a esfera estava modificando os reflexos coloridos
de sua superfície polida. Aos poucos foi se tornando preta como o
espaço cósmico. As estrelas distantes refletiam-se nela como nas
águas profundas de um lago. Ao fitá-la com mais atenção, Harn
percebeu que as estrelas aumentavam de tamanho e se aproximavam.
— Não
se espante, Harnahan, mas sou capaz de oferecer a imagem ótica dos
meus pensamentos. O que deseja ver? A nave em que veio? O planeta do
qual decolou? Ah, não é seu mundo, pelo que vejo.
Harn viu
que as estrelas se deslocavam na superfície negra e, perplexo,
contemplou a cúpula reluzente de seu caça. Parecia que se
encontrava vinte metros acima do cume da montanha.
— Que
coisa incrível! — exclamou. — Como é possível? Que técnica é
capaz...?
— A
natureza encerra tesouros muito mais ricos que a tecnologia.
A frase
gravou-se em seu cérebro com a força do fogo. O ser estranho devia
tê-la formulado em pensamento. Aos poucos Harn começou a
compreender que a esfera que tinha diante de si não era uma
obra-prima da tecnologia de alguma raça desconhecida. Era um membro
da raça.
A esfera
vivia.
— É
claro que vivo, Harnahan, mas estou só. Não existe outro ser da
minha raça, a não ser que o acaso o tenha criado, como fez comigo.
Todo início de vida tem sua origem no acaso divino, Harnahan. Pela
sua escala de tempo tenho cerca de cinco milhões de anos.
“Enlouqueci;
não há dúvida!”,
pensou Harnahan desesperado. Mas a esfera continuava no mesmo lugar.
Deitada aos seus pés, voltou a exibir na superfície fortemente
abaulada a profusão das estrelas. E a esfera também pensava, e
pensava de tal forma que ele entendia. Era inteligente e possuía
capacidades telepáticas. Bastava pensar para que ela o
compreendesse.
— Sim,
compreendo e sei qual é o motivo da sua presença. São os
mercadores galácticos. Ajudarei você e Perry Rhodan.
Harn ficou
estupefato.
— O que
sabe a respeito de Rhodan? — perguntou em voz alta no interior de
seu capacete. De repente teve a idéia louca de que a pequena esfera
que via diante de si poderia ser uma nave espacial em miniatura, na
qual se abrigassem inteligências incrivelmente pequenas.
— Sei
quase tudo a respeito de Rhodan. Mas não se preocupe. Comigo
qualquer saber está em boas mãos. Mais uma coisa: sou capaz de
viver em qualquer lugar, mesmo no vácuo. Minha forma esférica é a
mais favorável das formas. A ausência de pressão e a pressão
elevada são por ela compensadas com a maior facilidade.
Naquele
mundo sem atmosfera Harnahan defrontou-se com o maior dos milagres
jamais visto por um olho humano. Acima dele fulgurava a luz das
estrelas, trazendo à sua consciência a solidão infinita em que se
encontrava. Estava só e teria que lidar com o impossível.
— Sua
raça é muito poderosa, Harnahan, mas mesmo a mais poderosa das
raças tem suas fraquezas. Até eu. Há sete séculos estou nesta lua
e armazeno energias para prosseguir na minha viagem pelo Universo. A
radiação das estrelas é fraca. Basta para manter-me vivo e guardar
uma parcela insignificante. Terei que aguardar mais um milênio para
prosseguir na minha viagem.
— Não
compreendo, aliás, já não estou compreendendo mais nada — gemeu
Harn, amargurado pela incapacidade de compreender o incompreensível.
— Quem... o que é você?
Uma súbita
alegria tomou conta do cérebro de Harnahan. Teve a impressão de que
a esfera estava rindo. Mas respondeu a pergunta.
— Você
está aqui para esperar as naves dos saltadores, que pretendem atacar
um mundo indefeso. Os terranos querem ajudar os seres indefesos.
Estou disposto a não lhes negar meu apoio, desde que receba um
pagamento adequado.
— Um
pagamento? — disse Harn quase sem fôlego.
— Isso
mesmo. Um pagamento em energia. Vocês têm bastante. Eu os ajudo na
luta contra os saltadores, e em compensação vocês me dão energia.
Ao menos o suficiente para que possa chegar mais perto do sol. Uma
vez lá, poderei cuidar de mim.
“Rhodan!”,
pensou Harn. “Não
posso fazer nenhuma concessão. Se ele recusar. Mas que motivos teria
para recusar?”
— Eu os
ajudarei — interrompeu-o a esfera.
— Como?
— Isso
depende da situação. O mínimo que posso fazer é comunicar a
posição das naves a qualquer instante. Naturalmente terei que
limitar-me às mensagens óticas. Minhas reservas de energia não são
suficientes para uma intervenção pessoal. Vá buscar sua nave!
— Minha
nave? Para quê? Está camuflada, para que os saltadores não a
descubram.
— Você
pode entrar em contato com Rhodan sem recorrer à nave?
Harn
sacudiu a cabeça.
— O que
acontecerá se eu for descoberto por uma nave dos saltadores?
— Minhas
reservas energéticas bastam para lidar com uma situação desse tipo
— prometeu o ser estranho. — Vá buscar sua nave.
Harn olhou
para o relógio. Já era tarde. Seu passeio sobre os morros e os
vales havia consumido muito tempo. E agora a longa conversa com...
com quem mesmo? Suspirou.
— Não
estarei de volta antes de uma hora, e ali poderemos esperar a
qualquer momento que alguém descubra esta lua por acaso e comece a
inspecionar a mesma.
— Pois
então esse alguém se arrependerá por acaso — foi a resposta. —
Vá logo, senão ficará mesmo tarde. Depois responderei a todas as
perguntas formuladas por você.
Por mais
alguns segundos Harnahan, mergulhado em pensamentos, fitou a esfera
que emitia um brilho negro. Depois virou-se sem dizer uma palavra e
com um forte impulso afastou-se do solo.
Com três
saltos transportou-se à planície.
*
* *
Foi Gucky
em pessoa que levou de volta ao vale do estaleiro o saltador Borator,
que antes fora submetido a rigoroso interrogatório telepático e ao
tratamento do sugestor Kitai. Borator recebera suas diretivas.
Algumas manchas coloridas no rosto indicavam que a epidemia do
esquecimento já estendia seus tentáculos em direção ao seu
cérebro.
Ao menos
era o que Topthor e seus companheiros deviam acreditar.
Procurou
John Marshall e transmitiu-lhe as últimas instruções de Perry
Rhodan. O pequeno entrevero no espaçoporto provara que os saltadores
temiam a epidemia mais do que se ousara esperar. Além de tudo
estavam acreditando que a epidemia do esquecimento atacava não
apenas os cérebros humanos, mas também os positrônicos.
Era
principalmente esse fato que devia ter representado um choque
terrível para Topthor. Gucky fez questão de salientar esse ponto.
— Devemos
evitar o derramamento de sangue — disse, contemplando o vale, que
continuava bloqueado por uma fileira de robôs de combate. Por
enquanto a tarefa dos duzentos goszuls consistia em ajudar os robôs
de trabalho na construção da nave, a fim de reduzir o prazo de
conclusão. Fizeram o papel de nativos contaminados, que ainda não
tinham enlouquecido. — Basta meter um susto tremendo nesse Topthor.
Rhodan acredita que nesse caso não voltará a aparecer tão
depressa.
— Dificilmente
poderemos evitar o derramamento de sangue se ele resolver pousar aqui
— objetou Marshall. Conhecia a mentalidade inescrupulosa dos
saltadores, e acreditava que numa força de choque especial como a
dos superpesados a falta de escrúpulos seria ainda maior. — Será
que não poderemos defender-nos? Combinamos que Topthor e seus homens
seriam rechaçados com todos os meios de que dispomos. Será que os
planos foram modificados?
Gucky
sorriu e acenou com a cabeça. O dente roedor ficou à vista,
brilhando no seu esplendor solitário. Esse dente também era
responsável pelo ligeiro chiado com que Gucky pronunciava as
palavras, embora dominasse perfeitamente várias línguas.
— Sim,
houve algumas modificações. Topthor foi mais decente do que
prevíamos. Não mandou atirar contra os goszuls indefesos. Nosso
chefe lhe dá um elevado crédito por isso. Por isso nossa divisa é
mais do que antes a seguinte: apenas vamos fazer blefe com Topthor.
Temos que nos cuidar para que não obtenha qualquer indicação sobre
nossa identidade. De qualquer maneira não posso aparecer diante
desse sujeito, pois é bem possível que Etztak lhe tenha contado
alguma coisa a meu respeito. Afinal, vocês são gente bastante...
Sobre a
mesa havia uma caixinha, e de repente ela começou a zumbir.
Marshall
lançou um olhar de excusas para Gucky e acionou a tecla de recepção.
Uma voz na qual o rato-castor identificou a de Borator, o homem que
se encontrava sob domínio hipnótico, disse em tom exaltado:
— Ataque
por um robô de combate... junto à saída do vale. Quatro goszuls
foram mortos. Os outros conseguiram fugir.
Por um
segundo Marshall ficou estarrecido. Depois venceu o susto.
— Um
robô de combate? Não é possível! Todos os robôs foram
reprogramados e jamais atacarão um goszul. Quais foram as
providências que tomou?
Borator
estava convencido de ser o verdadeiro diretor do projeto. Por ordem
de vários clãs estava construindo a primeira nave de uma nova
série. Dentro de quatro dias, ou talvez três, concluiria o trabalho
e entregaria a obra.
— Dei
ordem às forças de bloqueio que destruam o robô descontrolado
assim que ele apareça. Como se explica essa falha da positrônica
infalível?
— Não
tenho a menor idéia, Borator. Verificarei pessoalmente o que houve.
Cuide do seu trabalho.
Gucky
respirou profundamente.
— A
positrônica infalível... Pois é justamente isso. Os robôs são
infalíveis. É totalmente impossível que um robô reprogramado por
nós se descontrole e passe a atacar nossos homens. Logo, trata-se de
um robô que ainda não foi reprogramado. É aquele que não
encontrei quando estive aqui pela primeira vez. Ainda bem que não
demorou em dar sinal de sua presença. Logo estarei de volta, John...
— Um
instante! — de um salto Marshall pôs-se de pé, mas o lugar à sua
frente estava vazio. Gucky acabara de teleportar-se para outro lugar.
John
Marshall começou a adivinhar onde ficaria esse lugar.
Colocou o
radiador de impulsos portátil no cinto do macacão e saiu correndo.
Passando pela primeira fileira de guardas, entrou no vale e fez votos
de não chegar tarde. Procurou em vão estabelecer contato telepático
com Gucky. O rato-castor devia estar tão ocupado que não tinha
tempo para concentrar-se em mensagens telepáticas.
*
* *
Quando se
materializou mais ou menos no ponto em que o vale descrevia uma
curva, Gucky viu um grupo de uma dezena de goszuls que corria em sua
direção. Gesticulavam com os braços e soltavam gritos de pavor.
Gucky
esforçou-se em vão para descobrir o que deixara os nativos tão
desatinados. Não viu nenhum robô descontrolado.
Antes que
os goszuls chegassem ao lugar em que se encontrava, deu um salto de
algumas centenas de metros e se materializou atrás deles. O guarda
que informara Borator sobre a ocorrência devia encontrar-se na saída
do vale. Era o primeiro robô que Gucky desativara naquele dia.
Mas por
enquanto o rato-castor encontrou uma coisa diferente.
Os
cadáveres de quatro goszuls apontavam-lhe o caminho.
Era por
aqui que devia estar escondido o robô não reprogramado, e que por
isso mesmo continuava a agir obstinadamente segundo as ordens dos
saltadores. Só assim se explicava que escapara à operação geral
de limpeza.
A ausência
de um mecanismo de tele direção fizera com que agisse
independentemente. No seu esconderijo pôde observar que o vale e o
estaleiro foram ocupados pelos goszuls e por alguns desconhecidos.
Também testemunhara a reprogramação de seus colegas.
A rigor
devia atacar o estaleiro e o contingente de robôs transformados em
inimigos, mas até mesmo uma máquina pensante tem um certo instinto
de autoconservação, desde que seu construtor o julgue conveniente.
RK-176
sabia que não teria a menor chance contra os noventa e nove colegas.
Talvez conseguisse destruir dez ou vinte deles num ataque de
surpresa, mas depois disso havia uma certeza absoluta de que
sucumbiria sob a superioridade. Era necessário que levasse para o
mundo exterior a notícia do que estava acontecendo por aqui. Os
governantes precisavam conhecer os fatos que se passavam no vale. Na
saída do vale havia um único guarda. Se conseguisse eliminar o
mesmo, o caminho para a cidade estaria livre.
Pôs-se a
caminho e foi ter diretamente com os vinte goszuls. Os nativos haviam
passado naquele instante pelo guarda postado na entrada do vale, que
já conheciam. Já não estranhavam os robôs. RK-176 agiu com uma
rapidez enorme e com uma irreflexão fora do comum quando abriu fogo
contra os nativos inocentes e matou quatro deles. Só teve
consciência de seu erro quando o resto do grupo fugiu aos gritos.
Era tarde
para voltar atrás.
O guarda
robotizado da entrada do vale testemunhara o fato.
RK-176
deixou os goszuls em paz e dirigiu-se para a passagem estreita entre
as rochas, onde a figura solitária do guarda surgia nitidamente na
sombra de algumas moitas. Dali a pouco a caça ao mesmo teria início.
Se tivesse
condições para isso, teria dado um sorriso amargo. Mas era um robô
e não sabia sorrir. Em compensação a consciência não lhe doía.
Sabia
muito bem o que devia fazer.
Seus
braços de combate estavam na horizontal, em posição de tiro.
Manteve os olhos rígidos fitos no novo inimigo e marchou em direção
ao guarda.
O receptor
embutido em seu corpo permitiu a RK-176 constatar que seu
aparecimento já não era nenhum segredo.
Gucky
chegou com alguns minutos de atraso.
Encontrou
os destroços derretidos de um robô e junto aos mesmos traços de
moitas e capim queimado. Até mesmo na rocha lisa notavam-se os
vestígios dos disparos energéticos. Mas do robô revoltado não se
via nada. Devia ter uma vantagem considerável.
Gucky
lançou um olhar de lástima para o montão de destroços e
teleportou para o cume da montanha, rochas que se elevavam quinhentos
metros acima da planície. Dali se enxergava quase até o mar, se o
tempo estivesse bem limpo.
Hoje não
estava. Mas a visibilidade bastava.
A uns
quatro ou cinco quilômetros dali movia-se um pontinho negro, que vez
ou outra, quando refletia os raios solares, emitia um brilho
prateado. Deslocava-se rápida e firmemente na direção sudoeste.
Era ele!
Gucky
sorriu cheio de expectativa. Seu instinto lúdico triunfou sobre as
boas maneiras. Finalmente tinha uma oportunidade de dar uma
demonstração de sua arte. Era uma pena que não havia nenhum
espectador.
Bem, isso
poderia ser mudado...
RK-176
marchava numa velocidade considerável, mas evidentemente sua
velocidade não bastava para escapar de um teleportador do tipo de
Gucky. Nem desconfiava de que estava sendo perseguido e acreditava
que sua tentativa de fuga fora bem sucedida.
Seu
cérebro positrônico ainda procurava por uma explicação lógica
dos acontecimentos que se desenrolaram no estaleiro. Não a
encontrou.
Gucky
materializou dez metros atrás do robô e concentrou-se inteiramente
na sua capacidade telecinética. Os fluxos invisíveis de seu
espírito atingiram o monstro metálico e imobilizaram-no.
RK-176
parou imediatamente. Parecia que de um instante para outro estava
condenado à imobilidade por uma falha de seu mecanismo. Mas o caso
não era este. Pelo contrário: o dispositivo positrônico passou a
desenvolver uma atividade febril, mas não encontrava resposta às
perguntas que formulava.
— Você
matou quatro pessoas — disse Gucky em intercosmo, cuidando para que
o robô não pudesse executar nenhum movimento. — Por isso será
transformado em sucata. Tem alguma coisa a dizer antes disso?
RK-176
respondeu com a voz metálica:
— Agi de
acordo com as ordens que recebi. Nenhum goszul pode permanecer nas
proximidades do estaleiro. Quem é você?
— Acredito
que você gostaria de saber. Bem, eu lhe permito uma meia-volta. Mas
se quiser atirar contra mim, avise antes. Pois nesse caso o assunto
será liquidado logo.
Era claro
que o robô tentaria matá-lo. Gucky tinha certeza absoluta disso. O
robô não poderia agir de outra forma.
E ele o
fez assim que viu o rato-castor.
As duas
descargas energéticas passaram longe de Gucky.
— Você
acaba de proferir sua própria sentença de morte — chiou Gucky,
fitando as lentes do monstro. — Agora você vai aprender a voar...
RK-176 não
estava regulado para o vôo. Seu cérebro registrou o fato
inexplicável de que a gravidade do planeta diminuiu de uma hora para
outra e que aparentemente ele mesmo já não pesava nada. E não era
só isso: ficara mais leve que o ar.
RK-176
subiu como um balão.
Gucky
teleportou-se de volta para a entrada do vale e a partir dali dirigiu
sua vítima com muita habilidade e alegria. O que aumentava o efeito
do espetáculo era o fato de que RK-176 disparava ininterruptamente
os dois canhões de radiações, procurando conseguir um impacto
casual.
Marshall
apareceu correndo na curva da entrada do vale e viu que seu esforço
seria recompensado. O espetáculo que presenciou bem que valia uma
corrida.
A menos de
trinta metros Gucky escava sentado numa moita de capim, lembrando um
aeromodelista que, com a alegria do construtor, faz seu artefato
teleguiado descrever curvas no céu. No fundo, Gucky não era outra
coisa.
O robô
subiu a mais de quinhentos metros e parou. Não passava de uma mancha
pequenina que se destacava contra o céu e sem parar espelia raios
energéticos refulgentes. Ainda bem que Gucky segurava sua vítima de
tal maneira que se tinha a impressão de que o robô pretendia
derrubar alguma estrela invisível.
Subitamente
o ponto começou a cair e aumentou rapidamente. Gucky virou-se e deu
um sorriso amável para Marshall.
— Daqui
a pouco você vai ouvir um estouro — profetizou. — Esse negócio
vai explodir. Nunca experimentei de uma altura dessas.
— Por
que vai destruí-lo? — perguntou John, que sabia perfeitamente que
o rato-castor notara sua vinda por via telepática e por isso não
estava surpreso. — Qualquer robô pode ser reprogramado...
— Este
não — disse Gucky, sacudindo a cabeça e acompanhando a queda cada
vez mais rápida do monstro metálico, que continuava a disparar
loucamente. — Seria muito complicado. Você tem a mania de estragar
qualquer alegria que eu tenha...
— Mas...
John
calou-se. Também ficou fascinado pelo espetáculo. E sabia que Gucky
não era tão fácil de convencer. Devia ter uma raiva tremenda
daquele robô que descia numa velocidade enorme e atingiu o solo a
quinhentos metros do lugar em que se encontravam.
No
primeiro instante teve-se a impressão de que nada aconteceria. O
peso de RK-176 fez com que o mesmo penetrasse profundamente no solo
rochoso. O fenômeno foi reforçado pelo fato de que os radiadores
energéticos que continuavam a disparar haviam derretido a rocha,
motivo por que o robô caiu praticamente numa poça de lava
incandescente.
Subitamente
sentiram-se ofuscados por um raio. Por alguns segundos uma nuvem
branca em forma de cogumelo cobriu o lugar, até que ela se
dissipasse com o vento.
Gucky
suspirou fortemente.
— Foi
uma bela derrubada!
Indignado,
John Marshall aproximou se e colocou a mão sobre o ombro do
rato-castor. Para isso teve que abaixar-se.
— Nunca
pensei que você se alegrasse tanto com a destruição.
— Às
vezes gosto.
De repente
Gucky olhou para o céu azul e estreitou os suaves olhos castanhos.
Sem mudar de tom, prosseguiu:
— Segure
minha mão. Vou saltar para o estaleiro. É preferível que venha
comigo.
John sabia
que Gucky não teria nenhuma dificuldade em levá-lo consigo. Mas
antes que isso acontecesse, também olhou para o céu.
*
* *
A pouca
altura a nave cilíndrica dos saltadores, que tinha mais de duzentos
metros de comprimento, passou por cima das montanhas que até então
a haviam ocultado.
Topthor
fez um sinal para Rangol.
— Descerei
sozinho. No vale não há bastante espaço, por isso pousarei no
platô. A comissão de investigação descerá para o vale numa nave
auxiliar. O senhor ficará de prontidão numa altitude de dez
quilômetros. Mantenha-se em contato com o posto de rádio.
— Pretende
sair da nave, Topthor?
— Acompanharei
minha gente. Observe os acontecimentos. Mas não ataque nem ponha em
risco minha pessoa e a dos meus homens. Ao menor sinal de
contaminação nossos planos serão modificados.
Os
comandos dos superpesados foram transmitidos pelo intercomunicador às
diversas seções da nave, que desceu lentamente e em posição
horizontal sobre o platô, separado do estaleiro por uma encosta
íngreme de quinhentos metros.
Mal a nave
pousou, suas escotilhas abriram-se. Um robô de combate massudo saiu
e, sustentado pelo campo antigravitacional, flutuou cinqüenta
centímetros acima do chão rochoso. Homens que envergavam trajes
protetores saíram apressadamente da grande nave e entraram numa nave
muito menor. Os enormes vultos quadráticos dos superpesados pareciam
medonhos e ameaçadores. Assemelhavam se a tocos gigantescos, mas
seus movimentos eram de uma tremenda rapidez e agilidade.
As
escotilhas da nave-mãe fecharam-se. Preparado para a luta,
mantinha-se na expectativa para entrar em ação assim que Topthor o
ordenasse. O rádio embutido no capacete manteve-o em contato
permanente com o comandante substituto.
Foi o
último a entrar na cabina apertada da nave de guerra.
Sem
provocar o menor ruído subiu dois metros, deslocou-se em direção
ao abismo e foi descendo lentamente. Topthor não se preocupava com o
que fazia o piloto ou os vinte superpesados que o acompanhavam, todos
armados até os dentes. Só se interessou pela tela.
Então era
lá embaixo que ficava o estaleiro em que estava sendo construída
aquela nave misteriosa que, segundo diziam seus construtores, iria
conquistar o Universo. Topthor não fazia a menor idéia sobre as
vantagens do artefato cuja construção estava sendo concluída, mas
começou a desconfiar de que as ligeiras indicações que ouvira vez
por outra não eram conversa fiada.
Desceram
lentamente.
Topthor
reconheceu perfeitamente a primeira fileira de guardas robotizados,
que luzia frente para a saída do vale. Era tal qual Etztak lhe
contara. Ao que parecia, tudo estava em ordem. Não havia nenhuma
epidemia, nenhum autômato rebelde, nenhum goszul que enlouquecera...
Topthor
lembrou-se de que no estaleiro não trabalhava nenhum nativo. Borator
comandava apenas robôs. Pelo menos até hoje. Ninguém sabia se
amanhã ainda seria assim.
Topthor
ainda acreditava estar manipulando todos os fios, sem desconfiar de
que não passava de uma marionete presa a um fio puxado por outra
pessoa.
Por Perry
Rhodan.
Sentados
no seu esconderijo, John Marshall, Kitai, o sugestor e Gucky
acompanhavam com um interesse enorme o pouso dos superpesados.
O trabalho
no estaleiro prosseguiu como se nada tivesse acontecido. Borator
estava sentado no seu escritório, transmitindo instruções. A
decolagem experimental estava prevista para depois de amanhã. Os
robôs trabalhavam a toda velocidade. Ainda bem que contavam com o
apoio dos goszuls. Lá fora a sombra de uma nave de guerra dos
saltadores foi descendo para o vale. Mal tocou o solo, os vultos
enormes dos superpesados saíram das escotilhas. Suas mãos enormes
seguravam os radiadores de impulsos, prontos para disparar. Os trajes
espaciais estavam fechados, mas o aparelho de comunicação externo
permitia comunicação direta.
Borator
levantou a cabeça, fez de conta que já os esperava e levantou-se.
Estava sendo dirigido pela vontade de Kitai quando saiu do escritório
e se aproximou dos superpesados. Não demonstrou a menor surpresa.
— Então,
Topthor, vocês vieram para levar a nave? Foi Etztak que os mandou?
Quando viu
o rosto salpicado do técnico, Topthor foi baixando o radiador. Seu
traje protetor o resguardaria da contaminação; não tinha a menor
dúvida. Mas nem por isso livrou-se da sensação desagradável de se
ver diante de um inimigo desconhecido e imprevisível.
— O
senhor pegou a doença, Borator? — perguntou, recuando cinqüenta
centímetros. Pelo canto do olho viu um grupo de goszuls acompanhado
de alguns robôs sair do estaleiro escavado na rocha e, sem
demonstrar o menor interesse pelos superpesados, dirigir-se para o
pavilhão mais próximo. — O que é que esses nativos estão
fazendo por aqui? Também estão contaminados?
Borator
confirmou com um simples aceno de cabeça, como se apenas se tratasse
de uma indisposição passageira.
— Estamos
todos contaminados, mas ainda não perdemos a memória. A
deterioração do cérebro demora algumas semanas. Até lá a nave
estará pronta. Quanto aos goszuls, não tive outra alternativa senão
recorrer a eles. Os robôs não dariam conta do trabalho até que...
bem, até que eu perca a memória. — Borator apontou para um robô
de guerra que se encontrava nas proximidades. — Não sou só eu,
Topthor. Os robôs também estão perdendo a memória. Depois que
isso acontecer, não poderemos contar mais com eles.
Topthor
recuou mais um passo. Lançou um olhar de advertência aos homens que
tinham vindo com ele.
— Quando
é que a nave deverá ficar pronta, Borator?
— Dentro
de uma semana aproximadamente. Vocês poderão levá-la.
— E
quando... quero dizer, quanto tempo demorará até que o senhor perca
a memória?
— Talvez
seja amanhã. Não sei. Seria conveniente que vocês se preparassem
para prosseguir nos trabalhos.
— Prosseguir
nos trabalhos? Quer que sejamos contaminados?
— Isso
já aconteceu — disse Borator em tom indiferente.
O
superpesado empalideceu atrás do visor de seu capacete.
— Estamos
usando trajes protetores!
Borator
esboçou um sorriso frio.
— Também
passei a usar quando houve o primeiro caso aqui no vale. Veja se
adiantou alguma coisa. O caso é que vocês deverão sacrificar seu
bem-estar pessoal e fazer tudo para salvar esta nave. Em hipótese
alguma ela deve cair em mãos estranhas.
— Um
bacilo nunca pode atravessar um traje protetor — disse Topthor,
voltando ao tema que mais o interessava. — E antes de voltarmos ao
interior de nossa grande nave, seremos expostos ao vácuo. Não há
bacilo que resista a isso.
— Vocês
poderão expor seus trajes ao vácuo, mas não seus corpos —
respondeu Borator em tom indiferente. — Não se iludam. Vocês
estão perdidos da mesma forma que eu e todos os robôs e goszuls
deste mundo. A única coisa que podem fazer é levar a nave ao espaço
e conduzi-la ao ponto de transição com as escotilhas abertas.
Depois terão que deixá-la entregue a sua própria sorte. Os
saltadores saberão encontrá-la. É possível que, quando isso
acontecer, a nave já não esteja contaminada. Quanto a vocês,
Topthor, é bem possível que daqui a uma semana nem se lembrem de
seu nome...
— Borator!
— a voz de Topthor saiu com uma potência digna de sua estatura. —
Não vim para ouvir essas tolices. Neste vale todo mundo está
trabalhando. Ainda não vi nenhum louco.
— Já
temos alguns — respondeu Borator em tom tranqüilo e apontou o
queixo cabeludo para a direita, onde um robô de combate estava
saindo de trás de um dos depósitos. — Vocês não acreditarão,
mas a coisa se manifesta em primeiro lugar nos cérebros
positrônicos. Ali está... olhem e escutem...
Contrariado,
Topthor olhou na direção do pesado robô, que se aproximava
lentamente, passando a poucos metros deles. O monstro metálico não
se interessou pelos superpesados que acabavam de pousar. Nem chegou a
olhá-los.
Enquanto
passava por eles, cantarolava baixinho. Era uma melodia monótona e
despretensiosa. Em compensação as palavras eram proferidas em
intercosmo e podiam ser facilmente entendidas:
Quem
sou eu...?
... Não
passo da busca e do martírio,
Da sede
e da saudade
Dever e
angústia sem saída
Mas no
fim tudo serão saudades e sede
Num
lago azul, quero despejar-me...
A boca de
Topthor abriu-se. Até parecia que a barba estava pesando demais,
puxando o queixo para baixo. Começou a tremer como vara verde. Com
grande dificuldade conseguiu murmurar:
— O
que... é isso...?
— É uma
poesia — esclareceu Borator. — Foi o próprio RK-064 que a
compôs. A melodia também é dele.
Os vinte
superpesados que se encontravam atrás de Topthor recuaram passo a
passo até atingir a escotilha da nave de guerra. Ao menor sinal
desapareceriam com a velocidade de um relâmpago. Acontece que
Topthor estava chocado, mas não derrotado. Seus dedos crisparam-se
em torno da arma.
— Por
que não destroem RK-064?
John
Marshall sorriu no seu esconderijo, quando transmitiu a pergunta de
Topthor a Kitai. Kitai sugeriu a resposta a Borator, que foi quase
instantânea.
— Por
que iria destruí-lo? Se o fizesse, teria que destruir todos os
preciosos robôs que estão por aqui. O fim chegará de uma forma ou
de outra, e enquanto não nos atacarem não vejo motivo para
destruí-los. Aliás, o robô de trabalho RA-007 está compondo um
drama.
Gucky
quase escorregou para baixo da mesa de tanto que riu ao ouvir esta
resposta. Esbaforido, chiou:
— Vocês
não conseguirão expulsar Topthor com uma tolice desse calibre. Não
seria preferível que eu o transformasse numa nave espacial? Minhas
energias bastam para transportá-lo à lua mais próxima. Quando
estiver lá, seu pessoal poderá buscá-lo.
— Não
se atreva! — cochichou John, furioso. — Topthor é um realista e
um espírito frio. Logo suspeitaria de que se defrontava com um golpe
telecinético e, portanto, com Perry Rhodan. Para ele um robô poeta
é muito pior, pois não o compreende. Continue, Kitai. Acho que
daqui a pouco Topthor estará nas devidas condições.
Evidentemente
a cultura dos saltadores conhecia o drama, mas até então Topthor
não se ocupara com essas coisas, que não trazem nenhum lucro.
Perplexo, contemplou o rosto manchado de seu interlocutor e
subitamente sentiu um medo terrível. Tremeu por todo o corpo e mal
pôde sustentar-se sobre as pernas maciças.
— Quais
são os efeitos da doença sobre o homem?
Antes que
Borator tivesse tempo de responder, um goszul saiu de trás de um
prédio. Até parecia que vinha de encomenda. Aproximou-se do grupo
dos superpesados, que em condições normais lhe teria metido tamanho
susto que teria desmaiado assim que visse aqueles monstros. Mas
naquela hora nem parecia estranhar a presença.
— Veja —
conseguiu murmurar Borator antes que o goszul se interpusesse entre
ele e Topthor. Era um nativo de cabelos escuros. Trazia o peito nu,
coberto de manchas azuis e vermelhas. Também o rosto estava todo
colorido. A doença já devia ter consumido seu cérebro, pois nem
percebeu o perigo que os superpesados representavam.
Tirou o
radiador de impulsos das mãos trêmulas de Topthor e, com um sorriso
nos lábios, pôs-se a brincar com o mesmo. Antes que alguém pudesse
impedi-lo, o raio energético verde-pálido subiu obliquamente e
gaseificou um pedaço do paredão de rocha.
Espantado,
o goszul sacudiu a cabeça e devolveu a arma a Topthor, antes que
este tivesse tempo de realizar sua intenção de pôr-se em segurança
com um salto para trás.
Foi isso
que mais o assustou.
Rindo para
si mesmo, o nativo continuou na sua caminhada, passando entre as
fileiras indecisas dos superpesados sem mostrar o menor sinal de
medo.
Borator
acenou a cabeça para Topthor.
— Você
viu, Topthor. Quem pega a doença esquece tudo. Não sabe mais que
existe o perigo. Confia no pior inimigo, e assim fica à mercê do
mesmo. Se a raça dos saltadores perder a memória e não souber mais
quem são seus inimigos, estará perdida.
As mãos
debilitadas de Topthor seguraram a arma.
— A
gente também se esquece dos seus inimigos?
— Até
esquecemos nosso nome — confirmou Borator. De repente prosseguiu
num tom muito objetivo: — Permite que lhe mostre a nave? Dentro de
uma semana terão que levá-la ao espaço. Tomara que não adoeçam
antes disso. Decerto dispõem de gente que possa substituí-los se
for necessário. O último grupo que restar colocará a nave no rumo.
Topthor
perguntou:
— O que
acontecerá conosco?
Borator
fez um gesto indefinido
— Isso
depende de vocês, Topthor. Dentro de uma semana o mais tardar seu
espírito estará morto, mesmo que o corpo continue vivo. O que
importa? O importante é que nossa tarefa seja cumprida, e que a nave
seja entregue aos clãs...
— Não
aceitei a tarefa de pegar uma doença e me arruinar — exclamou
Topthor. Seu corpo tremia. — Esses patifes me mandaram para a
perdição e esperam que com isso poderão economizar minha
recompensa. É claro! Eu me esquecerei que tenho alguma coisa a
cobrar. Mas não contaram com Topthor quando fizeram suas contas.
Eles mesmos que venham buscar a nave. Transmita-lhes o recado,
Borator, se é que até lá ainda se lembrará dele — dirigiu-se a
seus homens. — Vamos para a nave! Desistimos da execução da
tarefa. — Voltando a dirigir-se a Borator, perguntou: — Acredita
que estamos contaminados?
O rosto do
técnico parecia desolado.
— Receio
que isso seja um fato consumado, Topthor.
O
superpesado berrou uma praga e seguiu seus homens para o interior da
cabina relativamente pequena da nave grosseira. A escotilha
fechou-se. Dali a alguns segundos a nave subiu na vertical e logo
desapareceu acima do paredão.
Gucky saiu
de baixo da mesa.
— E daí?
— chilreou decepcionado. — Foi só isso? Nenhum fogo de
artifício? Nenhuma demonstração telecinética? Nada?
John
suspirou aliviado e bateu no ombro de Kitai.
— Foi um
serviço bem feito, meu caro. Borator foi um excelente ator. É pena
que ele não saiba disso.
— Então?
— perguntou Gucky, subindo à mesa. — Eu lhe fiz uma pergunta,
John.
O telepata
acariciou o pêlo espesso do rato-castor.
— Fique
satisfeito porque conseguimos liquidar o assunto por essa forma.
Muitas vezes os meios pacíficos produzem um efeito mais duradouro
que um lindo fogo de artifício com muita morte e destruição. Só
os vivos não esquecem.
Gucky
procurou absorver a idéia.
Enquanto
isso a sombra gigantesca da nave cilíndrica desprendeu-se do platô
e, acelerando loucamente, disparou para o céu azul.
Topthor
convocou as doze naves restantes.
Só onze
responderam.
6
Quando
Harnahan decolou com sua pequena nave, pensou que estivesse sonhando.
Estaria doente, sofrendo os sintomas tantas vezes relatados da febre
espacial? Era possível que a embriaguez da solidão o tivesse
atingido, e que sua experiência não passasse de um sonho inspirado
no desejo, que se formara no seu subconsciente.
Mas não;
ali estava a voz misteriosa. A quilômetros de distância penetrava
em seu cérebro.
— Deixe
as dúvidas para depois, Harnahan. Agora você não tem tempo para
isso. Uma nave dos saltadores dirige-se para esta lua. Se não quiser
morrer, apresse-se. Pouse no meu vale.
Harn
apressou-se. Dali a menos de um minuto desceu para o vale em que
havia encontrado a esfera. Continuava no mesmo lugar, mas a imagem de
sua superfície estava alterada.
— Fique
na nave, Harnahan. Você verá tudo. Não tenha medo. Nada lhe
acontecerá. Já os saltadores...
A esfera
encontrava-se a dez metros de Harn. Viu perfeitamente o que se
passava em sua superfície. Viu uma nave com o formato cilíndrico
dos veículos espaciais dos saltadores. Percebeu que passava junto à
superfície de uma lua — seria a sua? — como se estivesse
procurando alguma coisa. Teve a impressão de que a esfera estava
maior e continuava a inchar. Também parecia emitir um brilho mais
saciado.
Saciado...?
A suspeita
tremenda que Harn passou a conceber naquele instante ainda se
confirmaria. No momento não teve tempo para refletir sobre problemas
desse tipo: Tirou os olhos da esfera e fitou a planície.
A nave dos
saltadores vinha diretamente para o lugar em que Harn se encontrava.
Levantou ligeiramente a popa para ultrapassar a barreira das
montanhas. Ao mesmo tempo acelerou repentinamente. A qualquer momento
teria que surgir do outro lado da cumeeira.
E surgiu.
Ansioso,
Harn aguardou o desenrolar dos acontecimentos. Se o comandante não
estivesse dormindo, já devia ter visto o pequeno caça espacial. Num
movimento automático Harn colocou a mão sobre o acelerador manual.
Num golpe poderia fazer o foguete disparar para o alto...
A nave dos
saltadores continuou na mesma rota inclinada em direção ao céu
estrelado. Harn teve a impressão de que a velocidade estava sendo
reduzida aos poucos.
— Ultrapassou
a velocidade de fuga da lua e não descerá mais abaixo da mesma.
Faço votos de que os outros saltadores a encontrem, senão seus
ocupantes estão perdidos.
Perplexo,
Harn fitou a enorme nave que diminuía rapidamente até desaparecer
atrás das rochas íngremes. Seus olhos treinados perceberam que não
dispunha de propulsão, sendo mantida em movimento apenas pela força
da sua massa. Assim que saísse do campo de gravitação da lua,
viajaria em queda pela imensidão do espaço, até que penetrasse no
campo de gravitação de uma lua maior, de um planeta ou mesmo de um
sol.
— Você
destruiu os propulsores? — perguntou, olhando para a esfera, cujo
diâmetro já chegava a meio metro. — Os homens que se encontram
nessa nave estão perdidos.
— Não
destruí os propulsores — foi a resposta formulada em pensamento. —
Apenas subtraí toda a energia de que dispõe a nave. Só deixei
intactas as baterias de emergência, para que possam dispor da
eletricidade necessária para o condicionamento de ar. De resto a
nave não dispõe de nenhuma energia. Não tem propulsão, nem armas,
nem hipertransmissores, coisa alguma. Se quisesse poderia subtrair
sua energia. Acontece que estou interessado no tal do Perry Rhodan.
Quando sair do sistema, enviar-lhe-ei uma mensagem. Um dia aguardo
sua visita. Tanto faz que seja em dez anos ou em cinqüenta. Não
tenho pressa. O que não quero é esperar mil anos. Aliás, a esta
altura talvez seriam apenas oitocentos.
Harn ligou
o minicomunicador, cuja ajustagem hipersincronizadas permitia a
comunicação instantânea até uma distância de duas semanas-luz.
Enquanto o aparelho realizava a regulagem automática, disse:
— Informarei
Rhodan sobre nosso encontro. Por enquanto permita que o informe sobre
a minha posição.
— Informe-o
sobre sua posição, mas é bom que saiba que a guerra no segundo
planeta do sistema já está decidida. Os saltadores estão fugindo.
Não têm mais o menor interesse em cumprir sua tarefa. Você pode
voltar. De qualquer maneira, logo receberá ordens para isso.
O tenente
Fisher respondeu de bordo da Stardust:
— Ora
essa, Harnahan! Por que não deu notícias? Pode voltar. Não
precisamos mais de indicações de posição. Os saltadores deram o
fora. Onde o senhor se meteu?
— Numa
das luas do quarto planeta. Posso falar com Rhodan?
— Infelizmente
não é possível. Eu lhe direi que dentro em breve o senhor estará
de volta. Apresse-se.
— Mas...
— Não
tenho mais tempo, sargento. A Stardust está emergindo. Chame mais
tarde. Fim.
O
alto-falante emudeceu. Harn desligou e abriu a comporta de ar. Dali a
dois minutos encontrava-se diante da esfera. Fitou a superfície
negra e viu uma porção de naves cilíndricas que entravam em
formação. Eram onze naves, que se agrupavam em círculos em torno
de outra, maior. À esquerda do grupo via-se um planeta.
— É o
último planeta do sistema — esclareceram os impulsos mentais. —
Eles se reúnem para sair daqui o mais depressa possível. Mas
captaram o pedido de socorro da nave desaparecida e vão procurá-la.
Harn
inclinou-se como se quisesse tocar a esfera, mas não teve coragem.
— Que
ser é você? — exclamou. — O que sabe fazer?
— Eu sou
eu, Harn. É a única coisa que posso dizer. Quer ver o que sei
fazer? Olhe, que eu lhe mostro...
Na
superfície da esfera surgiu um mar agitado... um torvelinho... e
subitamente Harn viu a Stardust emergir das profundezas e deslizar
lentamente sobre as cabeças brancas das ondas. A nave logo chegou à
costa e pousou no espaçoporto. Os três cruzadores já haviam saído
dos hangares subterrâneos. Em todos os lados viam-se os tripulantes
reunidos com os nativos, que ainda traziam as manchas coloridas no
rosto, mas de resto pareciam absolutamente normais.
— Você
é um receptor de televisão vivo — cochichou Harn emocionado e
acrescentou: — Qual é o seu alcance?
A esfera
não respondeu, mas o quadro de sua superfície alterou-se.
Harn viu
que abandonava o sistema. Era ao menos o que parecia.revelar a
imagem. Com uma velocidade milhões de vezes superior à da luz
disparou para o infinito até que, perplexo, contemplou o giro da
galáxia. Devia ter percorrido dezenas de milhares de anos-luz...
Retornou
em velocidade vertiginosa e viu-se de novo na superfície da lua.
Sabia que não saíra do lugar, mas...
— Enxergo
qualquer ponto da galáxia e posso transmitir a visão a outros.
Infelizmente só posso comunicar-me a uma distância de duzentos
anos-luz. Às vezes consigo chegar mais longe. Como vê, minha
capacidade é limitada.
Subitamente
Harn teve a impressão de que estava fazendo um frio terrível no seu
traje aquecido. Começou a compreender o poder desse ser esférico,
que parecia ser feito de energia compacta e se alimentava com a luz
das estrelas. E com a energia dos conversores das naves espaciais. E
compreendeu que nunca se defrontara com um ser mais benevolente.
— Volte
para junto de seus amigos, Harnahan. Informe Rhodan a meu respeito,
mas mantenha silêncio diante dos outros. Devo descansar e poupar
minhas forças, pois as estrelas estão muito distantes. Passe bem,
Harnahan. Ainda nos encontraremos.
Harn
lançou mais um olhar para a esfera. Depois virou-se abruptamente e
voltou ao foguete. Passou pela comporta e fechou a escotilha.
Quando
ligou o campo antigravitacional e começou a subir, seu olhar pousou
sobre o brilho negro da esfera deitada diante da porta metálica que
conduzia para o interior da montanha. Sacudiu a cabeça. Um dia
descobririam tudo que havia atrás dessa porta... se é que realmente
era uma porta.
Quando o
vale mergulhou no espaço e o céu estrelado o acolheu, voltou a
ficar a sós em sua cabina apertada.
7
O gigante
saiu lentamente de sua prisão subterrânea. Os campos
antigravitacionais mantinham-no suspenso alguns metros acima do solo.
De ambos os lados os goszuls e os robôs cuidavam para que a
superfície reluzente não entrasse em contato com a rocha. Borator
corria nervosamente de um lado para outro. Falava com as mãos, com
os pés e às vezes com a boca, pois essa nave era a coroação de
sua vida, embora não compreendesse tudo que os técnicos haviam
executado através dos robôs especializados. Com Rhodan aconteceu a
mesma coisa. Sabia que só o estudo meticuloso das plantas que
Borator lhe entregara permitiria uma idéia sobre os segredos
encerrados naquela nave, segredos que teriam que ser desvendados.
Uma coisa
era certa: a propulsão funcionava segundo os princípios arcônidas
e as modificações introduzidas na mesma eram insignificantes. Por
isso não seria difícil pilotar a nave recém-construída. As
experiências teriam que ficar para depois, quando houvesse mais
tempo. Rhodan tinha pressa de sair do planeta de Goszul.
Um único
homem encontrava-se no interior do gigantesco cilindro, cujo
comprimento — eram nada menos que 780 metros — penetrou no vale.
Era
Reginald Bell.
Apesar de
uma resistência feroz, Rhodan o nomeara comandante do cruzador
recém-conquistado. Bell poderia gostar de tudo, menos brincar com
forças desconhecidas. Mas quando salientaram que era a única pessoa
à qual a nave poderia ser confiada, acabou concordando.
O diâmetro
da nave era de duzentos metros. Faltava montar parte das instalações
internas, mas Rhodan até chegava a alegrar-se com isso. Não sabia
quem poderia acomodar-se nas poltronas dos superpesados. Lá em
Terrânia os engenheiros e os técnicos cuidariam desses detalhes.
Bell desligou os campos antigravitacionais e respirou aliviado quando
o ligeiro solavanco lhe revelou que voltara a ter chão firme sob os
pés. Saiu da sala de comando e dali a poucos minutos estava junto à
escotilha de saída, pela qual se poderia fazer passar um elefante.
Estava radiante.
— Borator,
você acaba de construir um belo navio. Meus parabéns!
— Está
satisfeito, senhor? — disse o saltador muito feliz. Continuava
submetido à influência de Kitai e acreditava firmemente que era
dono das suas decisões. Dali a poucos dias ficaria muito admirado
quando numa ilha solitária vinte saltadores investissem contra ele
com uma série de perguntas. Tal qual eles, não encontraria nenhuma
resposta.
— É uma
bela nave — confirmou Rhodan, que se mantinha mais afastado,
conversando com Ralv. — Nós a levaremos.
— Vocês
voltarão? — perguntou Ralv, que já fora promovido ao posto de
chefe de governo do mundo libertado. — Vocês prometeram...
— Instalaremos
um entreposto comercial neste planeta — tranqüilizou-o Rhodan. —
Meus encarregados chegarão dentro de poucas semanas. O equipamento
de guerra dos saltadores bastará para protegê-los. Com ele poderão
rechaçar qualquer inimigo que procure escravizar seu mundo. Acho que
pelos próximos cinqüenta anos dos saltadores não os incomodarão.
É quanto dura a quarentena.
Bell
aproximou-se.
— Está
bem, vou pilotar isso — disse com um sorriso. — Quando
decolaremos?
— Dentro
de três horas. Eu lhe recomendaria que levasse “isso”
ao espaçoporto. Aproveite a oportunidade para fazer um pequeno vôo
experimental. Gucky irá com você, para que possa trazê-lo de
volta, se for necessário. Afinal, você não é nenhum teleportador.
— Gucky!
— resmungou Bell, contrariado. — Sempre tem que ser o Gucky. Bem,
que venha comigo, a não ser que esteja com medo.
O
rato-castor já se encontrava na escotilha tamanho elefante.
— Eu,
medo? — gritou a voz estridente por cima da figura assustada de
Bell. — Nunca tive medo. O único medo que posso ter é de que você
possa criar juízo, seu Bell das cerdas.
Pelo rosto
de Bell tinha-se a impressão de que ele estava prestes a chorar. Sua
voz quase chegava a ser suplicante quando se dirigiu a Rhodan:
— O que
vou fazer com ele, Perry?
— Leve-o
até a Terra. Vocês voarão juntos. Talvez assim tenham oportunidade
de adaptar-se um ao outro. Dizem que uma viagem a sós pelo Universo
é muito saudável para esse tipo de problema...
Bell
afastou-se a passos pesados. Seus cabelos ruivos, que no curso da
aventura estavam encostados à cabeça, encontravam-se em posição
quase vertical.
Sem olhar
para trás, desapareceu no interior da nave em companhia de Gucky. A
escotilha fechou-se com um ruído surdo.
John
Marshall, que se encontrava por ali, aproximou-se.
— Hum! —
resmungou. — Não sei se isso vai dar certo. Afinal, Gucky também
é telepata.
Rhodan
sorriu seguro de si.
— Vez
por outra lembrará Bell desse fato — disse em tom irônico
enquanto contemplava a pesada nave que, leve como uma pluma,
levantou-se do solo e subiu na vertical. Quando chegou à beira do
platô, acelerou vertiginosamente e disparou para o céu azul. Dentro
de poucos segundos desapareceu.
Borator
seguiu-a com um olhar pensativo.
A frota de
Rhodan cruzou a órbita do quarto planeta e, deslocando-se à
velocidade da luz, aproximou-se do ponto de transição previamente
calculado. Os cruzadores Terra e Centauro flanqueavam a Stardust,
enquanto o Solar System e a mais recente aquisição de Bell, o
cruzador apresado dos saltadores seguiam-na a uma distância de
0,00001 segundos-luz.
Além de
Rhodan só havia uma pessoa na sala de comando da Stardust. Era
Harnahan.
À
esquerda deles o quarto planeta passou rapidamente. As numerosas luas
do mesmo eram minúsculos pontos de luz, e ninguém saberia dizer em
qual delas Harnahan pousara.
Rhodan não
deixou perceber a menor dúvida quando perguntou:
— Essa
esfera, qual é mesmo seu alcance telepático?
— Duzentos
anos-luz, é o que ela diz.
— É
estranho — disse Rhodan de si para si. — Sempre se acreditava que
a telepatia não conhece limitações no que diz respeito ao seu
alcance. Ao que parece, nem sempre é assim. Também Marshall não
pode estabelecer contato daqui para a Terra. De qualquer maneira,
duzentos anos-luz...
Subitamente
sentiu. Parecia uma mão suave que se colocava sobre sua cabeça e
exercia uma pressão delicada. Uma coisa estranha surgiu em sua
mente, expelindo suas próprias idéias. Com ligeiro olhar
certificou-se de que o piloto do caça estava passando pela mesma
experiência.O estranho ser esférico estava estabelecendo contato.
— Já
está acreditando, Perry Rhodan? Ele lhe disse que estou esperando
você? Não, antes de mais nada, volte à Terra; é mais importante.
Mas não se esqueça de mim, Perry Rhodan, mesmo que seja imortal. Eu
o espero. Se necessário, esperarei por uma pequena eternidade.
— Quem é
você? — perguntou Rhodan.
Harnahan
“sentiu”
o sorriso alegre, tal qual Rhodan.
— Vocês
humanos são uma raça curiosa, e a curiosidade é a mola propulsora
de seu progresso civilizatório. Acredito que será a curiosidade que
um dia o levará para junto de mim. Até lá. Passe bem, Perry
Rhodan. Muito obrigado.
Rhodan
ficou perplexo.
— Obrigado?
Por quê?
Mais uma
vez sentiu a risada mental.
— Pela
energia que consegui tirar de sua nave. Não tirei demais. Não será
suficiente para um vôo mais longo. Acredito que ainda me ouvirá
melhor. Muitas felicidades para você... e para o planeta Terra.
O quarto
planeta ficou para trás, e com ele as luas do mesmo.
— Como
poderei chamá-lo? — perguntou Rhodan.
Não houve
resposta. A estranha inteligência manteve-se em silêncio. Rhodan
voltou a tentar, mas o contato não surgiu. Olhou para Harnahan.
— Quero
sua opinião, sargento. Quero sua opinião com toda a sinceridade.
Que ser é este? Vive realmente? É apenas energia, ou será também
espírito? Afinal, o senhor o viu? Poderá representar um perigo?
Harnahan
olhou para a amplidão semeada de estrelas. Um traço suave brincou
em torno de seus lábios estreitos. Havia um brilho úmido em seus
olhos, quando sacudiu lentamente a cabeça.
— Não
posso dar resposta a nenhuma das suas perguntas. Apenas tenho
resposta para uma delas. A última. Jamais este ser representará um
perigo para nós. Sim, eu o vi; e também o senti. Mas não senti
nada de mal e não tive medo. Não, este ser esférico não
representa nenhum perigo para nós. Pelo contrário.
Perry
Rhodan também olhou a profusão de estrelas. Lá adiante a algumas
horas-luz de distância, ficava o ponto de transição Num golpe o
cosmos morreria e desapareceria, para ressurgir poucos segundos
depois, a mais de mil anos-luz daquele ponto.
Virou-se e
fitou o rosto de Harnahan.
— Muito
bem — disse em tom suave e com uma vibração estranha na voz
habituada a comandar. — Sinto a mesma coisa que o senhor. Se o ser
esférico não representa nenhum perigo, talvez possa nos ajudar um
dia. E precisaremos de auxílio, quando...
Calou-se.
Mas
Harnahan, que afinal era apenas um humano, ficou curioso.
— Quando
precisaremos de auxílio?
Rhodan
respondeu com um sorriso condescendente:
— Receio
que precisemos quando os saltadores perceberem que não perderam a
memória. E isso poderá acontecer dentro de algumas semanas — o
sorriso desapareceu tão depressa como surgira. — Vamos cuidar de
Bell. Dentro de algumas horas...
O rosto de
Bell surgiu na tela.
— O que
houve, Perry?
— Uma
transição experimental de três mil anos-luz. Está preparado?
Bell
confirmou com um gesto de resignação. O dente roedor sorridente de
Gucky surgiu atrás dele.
— Está
bem. Mas tenho certeza de que tudo funciona perfeitamente e...
— Está
pronto? — interrompeu-o Rhodan.
— Pronto
— Bell olhou por cima do ombro. — Gostaria de saber quem não
está sempre pronto na situação em que me encontro. Ai!
Bell
começou a subir e desapareceu da tela. Gucky ocupou seu lugar.
Parecia o rato Jerry ampliado. O dente roedor brilhava de alegria.
— É
sempre ele que começa — disse Gucky em tom ingênuo. — Quer que
o teleporte para o inferno?
Rhodan
exibiu um rosto severo, mas em sua voz notava-se um riso contido.
— Não
faça isso, Gucky. Ainda precisaremos de Bell por algum tempo. Além
disso, o diabo não gostaria nem um pouco da concorrência que iria
receber. Nunca ouviu falar em concorrência desleal?
— Não —
respondeu o rato-castor, sacudindo as longas orelhas. — Nunca ouvi
falar. O que é isso?
— É o
ato praticado por um telecineta que deixa um homem normal morrer de
fome junto ao teto — trovejou a voz de Bell de algum lugar. —
Desça-me imediatamente, senão vou... vou... está bem, Gucky, não
vou fazer coisa alguma. Vamos fazer as pazes?
As pernas
de Bell surgiram na tela, e dali a pouco estava novamente acomodado
em sua poltrona diante do painel da nave que já pertencera aos
saltadores. De boa vontade, Gucky cedeu-lhe o lugar.
— Que
tal uma transição experimental? — perguntou Rhodan.
Bell
estava radiante.
— Terei
o maior prazer, cavalheiro. Não há nada que eu gostaria mais de
fazer. Quanto tempo deverei esperar?
Em algum
lugar, a três mil anos-luz de distância, um rato-castor chiou
admirado e sacudiu a cabeça.
Rhodan
acenou com a cabeça como alguém que compreende tudo.
— Está
bem. Vamos embora!
O sargento
Harnahan olhou para a tela de popa e procurou um planeta que
mergulhava no espaço. Era um planeta que possuía numerosas luas de
pequenas dimensões. Em seus olhos brilhava o anseio eterno pelo
conhecimento.
Afinal,
era mesmo um espírito romântico e sonhador...
*
* *
*
*
*
O
Planeta Louco encenou a loucura para libertar-se dos seres que o
oprimiam.
O
estratagema da doença aparentemente incurável, usado para repelir
os mercadores galácticos, foi coroado de um êxito fulminante.
Finalmente Perry Rhodan pode preparar o Avanço Para Árcon, há
tanto planejado...
Avanço
Para Árcon é o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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