Autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
A Terra serra salva ou destruída?
Os dados armazenados por um cérebro
positrônico de bordo São o fator decisivo
A
história da Terceira Potência em poucas palavras:
- O
foguete Stardust alcança a Lua e Perry Rhodan descobre a nave
exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência
(vol. 1).
-
Instalação
da Terceira Potência, contra a resistência das grandes potências
terrenas e defesa contra tentativas de invasão extraterrena (vols. 2
a 9).
- Primeira
intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos.
Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o
enigma galático (vols. 10 a 18).
- A
Stardust-III descobre o planeta Peregrino, e Perry Rhodan alcança a
imortalidade relativa (vol. 19).
- Perry
Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24).
- O
Supercrânio ataca (vols. 25 a 27).
- Chegada
dos saltadores, que pretendem eliminar a concorrência potencial da
Terra no comércio galáctico (vols. 28 a 37).
- Primeiro
contato de Perry Rhodan com Árcon e atuação como delegado do
cérebro positrônico que exerce o governo no grupo estelar M-13
(vols. 38 a 42).
A
missão Aralon, durante a qual Perry Rhodan esteve empenhado em obter
o remédio contra a peste dos nonus, está concluída. Com isso, a
atuação de Rhodan, sócio do cérebro robotizado de Árcon, deveria
ter chegado ao fim, ainda mais que com a descoberta da conspiração
e a prisão dos conspiradores não há mais nenhum perigo que ameace
o Império.
Assim
acredita Perry Rhodan, que pede férias ao Regente. Mas o Projeto
Aço Arcônida, realizado
por Perry Rhodan, pode ser tudo, menos férias...
= = = =
= = = Personagens Principais: = = = = = = =
Perry
Rhodan
— Que
pede férias ao Regente.
Reginald
Bell
— O
melhor amigo e confidente de Perry Rhodan.
Gegul
— Um
inspetor-chefe dos aras, que comete um engano.
Keklos
— Biólogo-chefe
dos aras.
Talamon
— Cuja
vida foi salva por Perry Rhodan. Agora o superpesado terá
oportunidade de retribuir de igual para igual.
Topthor
— Chefe
de um dos clãs dos superpesados, que fareja um bom negócio.
Aralon, a
“fábrica
de venenos”
do Império dos Arcônidas, não se deu por vencida.
Só uma
catástrofe de dimensões planetárias poderia, de uma hora para
outra, imprimir novo rumo a uma evolução milenar. Aralon, o quarto
planeta do sol amarelo e luminoso de Kesnar, situado a 38 anos-luz de
Árcon, nem pensava em desistir do melhor negócio do Universo pelo
simples motivo de que o tal do Perry Rhodan andava por aí.
Os aras,
verdadeiros gênios em todos os setores da medicina, eram
persistentes como os mercadores galácticos; na verdade, eram
mercadores galácticos. Vendiam seus excelentes medicamentos a preços
extorsivos, enquanto cuidavam discretamente para que em nenhum
planeta desaparecesse qualquer das doenças que ameaçavam a vida de
seus habitantes.
Em última
análise, queriam ganhar, e a ânsia do lucro caracterizava-os como
mercadores galácticos.
De repente
viram-se atacados, pela primeira vez, por uma doença que teria de
levá-los à ruína financeira, se a “infecção”
não pudesse ser detida por meios radicais.
A doença
chamava-se Perry Rhodan.
Desde que
existiam como negociantes de doenças e medicamentos, ele lhes
infligira a primeira derrota. Os aras não estavam dispostos a
aceitar outra derrota.
O
inspetor-chefe Gegul, responsável pela segurança de Aralon,
sobressaltou-se em meio aos seus pensamentos quando sua assistente
Arga Tasla entrou praticamente sem fazer nenhum ruído e lhe entregou
uma mensagem.
Localização
realizada pelos rastreadores estruturais:
Tempo
8:75:93 m1; local 105; localização
combinada
103 e 106.
Às
8:75:03,1
a frota de Perry Rhodan realizou uma transição em direção a
Árcon, vinda de 13,64 graus.
— Arga!
— a voz de Gegul vibrava. Não levantou os olhos. Pensava no nome
Perry Rhodan com uma expressão malévola, enquanto aguçava o ouvido
para verificar se Arga Tasla parara.
— Pois
não! — disse esta da porta.
— Chame
Ma-elz e Bro-nud. Quero que estes palermas compareçam dentro de dez
minutos.
Ma-elz e
Bro-nud, que eram dois homens altos, pararam em atitude de
expectativa, depois de terem entrado.
— Sentem!
— resmungou o inspetor-chefe Gegul e fez um movimento indiferente
em direção às poltronas vazias. Passou diretamente ao assunto: —
Rhodan saltou para Árcon. Por enquanto o perigo passou. Andaram
buzinando nos nossos ouvidos que Rhodan e o cérebro robotizado
trabalham de mãos dadas. Como estão as coisas por aqui? Em Aralon
não há mais uma única nave com doentes! E eu lhes garanto que a
catástrofe se espalhará aos confins da Galáxia se não
conseguirmos destruir o tal do Rhodan.
— Ainda
não temos naves de guerra — foi a observação um tanto prematura
de Ma-elz.
— Não
precisamos delas — exclamou Gegul.
— Vamos
usar germes? — balbuciou Bro-nud, erguendo-se da poltrona.
— De que
doença? — perguntou Ma-elz, endireitando o corpo.
— Será
que não poderiam formular perguntas mais inteligentes? —
escarneceu Gegul com um sorriso diabólico. — Vocês só sabem
desfiar músicas triviais. Por que será que ninguém se lembra da
única idéia acertada? Por quê?
Ma-elz e
Bro-nud não lhe fizeram o favor de lembrar-se da idéia acertada.
Naquele momento, os dois teriam pago uma boa soma se pudessem ter uma
ligeira idéia das intenções do inspetor-chefe.
— É
claro — disse Gegul depois de alguns segundos de espera. — A
solução mais simples não ocorre a ninguém.
Cheio de
arrogância, refestelou-se na grandiosidade de uma idéia e sentiu-se
um chefe superinteligente e condescendente. Inclinou-se para a
frente, fez sinal para que Ma-elz e Bro-nud se aproximassem e só
começou a falar quando os auxiliares se encontravam diante de sua
escrivaninha.
— Minha
idéia é esta... — principiou, enquanto Ma-elz e Bro-nud ouviam
atônitos.
A idéia
do inspetor-chefe Gegul era realmente genial.
Já a essa
hora a destruição de Perry Rhodan parecia inevitável, e com ela a
do planeta do qual viera.
* * *
Talamon, o
superpesado, deu um sorriso gentil para o mensageiro dos mercadores
galácticos. Fazia meia hora que o homem subira a bordo da nave
capitania, “somente
para sondar a opinião de Talamon”.
Os
superpesados eram os guerreiros dos mercadores galácticos. Sempre
que os saltadores não conseguiam controlar uma estrela, sempre que
um mundo se obstinasse em não permitir a escravidão, os
superpesados tinham de cuidar do problema, mediante excelente paga.
Desde cedo
começaram a distinguir-se dos saltadores, porque no mundo por eles
habitado reinava uma gravitação extraordinária. Essa gravitação
marcara seu físico. Cada superpesado pesava até quinhentos quilos,
e tinha dois metros de altura e um e meio de diâmetro; oferecia um
aspecto medonho, embora não pudesse ser considerado disforme.
Os
superpesados dispunham das melhores naves de guerra, não comparando
com as pertencentes ao Império. Tal qual os saltadores, estavam
divididos em clãs, e o chefe de um desses clãs, Talamon, acabara de
receber a visita do mensageiro dos mercadores, que pretendia
sondá-lo.
O clã de
Talamon representava alguma coisa. Dispunha de duzentas naves de
guerra. Era só graças a Perry Rhodan que Talamon ainda as possuía
e continuava vivo.
E o
mensageiro lhe perguntou o que pensava de Perry Rhodan.
— Para
mim é muita coisa! — resmungou Talamon sem pestanejar, exibindo
uma cara de jogador de pôquer.
O
mensageiro poderia ter esperado tudo, menos uma resposta dessas.
Mostrou-se chocado.
Talamon
mostrou um sorriso bondoso, em que havia um pouco de pena.
— Não é
possível que o senhor realmente esteja pensando assim, Talamon.
Talamon
moveu seus seiscentos e cinqüenta quilos com uma agilidade de que
ninguém o teria julgado capaz. O rosto de jogador de pôquer
desapareceu. Assumiu uma expressão ameaçadora e sua voz trovejante
gritou para o mensageiro, enchendo a sala de comando:
— Queria
que dissesse que Rhodan é uma simples estrela cadente? Sabe que sua
pergunta é uma verdadeira ousadia? Já se esqueceu que Rhodan fez a
frota robotizada de Árcon trovejar pelo espaço? Eu, Talamon, me vi
diante da destruição juntamente com minha frota. Será que isso não
é nada? Não venha me dizer que alguém que consegue fazer o que
Perry Rhodan fez não é nada.
O
mensageiro contorcia-se como um verme.
Talamon
viu, mas fez de conta que não estava percebendo nada. Queria
cozinhar o sujeito. Fazia questão de que o mesmo se abrisse,
contando por que realizara tamanha despesa, entrando em contato
pessoal com ele, Talamon, que se encontrava a dois mil anos-luz de
Árcon. Uma mensagem pelo hipercomunicador teria saído mais barato.
— Vamos
logo, mensageiro! O que desejam? Fale! O que querem que eu faça? E
quanto estão dispostos a pagar?
— Quem
me mandou foi Siptar — disse o mensageiro.
— Até
parece que este camarada quer viver para sempre — resmungou
Talamon, numa alusão ao fato de que Siptar era o mais velho dos
chefes de clã entre os saltadores.
— Antes
disso falei com Vontran. Siptar e Vontran perderam muitos parentes no
planeta de Goszul...
— E daí?
— a figura quadrática e esverdeada de Talamon sorriu e esperou.
— O
boato de que Perry Rhodan esteve envolvido na explosão de bomba
ocorrida no planeta de Goszul, quando os patriarcas haviam
comparecido à Grande Assembléia, continua a circular
insistentemente...
A
gargalhada descontraída de Talamon fechou a boca do mensageiro. As
lágrimas corriam pela face esverdeada do superpesado.
Quanto
mais ria Talamon, mais perturbado se sentia o mensageiro. Aborrecido,
finalmente, achou que bastava:
— Qual é
a graça?
No mesmo
instante, Talamon silenciou.
— É
verdade — disse, dando razão ao mensageiro, não sabendo o que
pensar de tão surpreso que ficou. — Não há nada de engraçado. A
catástrofe do planeta de Goszul foi um caso muito triste, mas dali a
culpar Perry Rhodan pelo fato... Mensageiro, quero dizer-lhe uma
coisa.
“Há
pouco, quando o senhor perguntou o que achava de Rhodan, eu lhe disse
que, para mim, ele é muita coisa.
“O
senhor não gostou. Mas pouco importa que goste ou deixe de gostar: a
resposta só poderia ter sido esta. Perry Rhodan é um fator que não
pode ser desprezado por ninguém.
“Agora o
senhor me vem com seus boatos. Achei graça. Sabe por que achei
graça? Porque com essas histórias tolas o senhor reconhece sem
querer que os saltadores também acham que Perry Rhodan é muita
coisa. É verdade ou não é?”
— Pois
então estamos de acordo — respondeu o mensageiro em tom manhoso.
Talamon
encarou-o com uma expressão de perplexidade no rosto.
— Rapaz,
está na hora de falar — disse em tom enfático. — Senão eu lhe
explico como são as coisas quando me torno desagradável. O senhor
veio para engajar-me contra Perry Rhodan. É verdade ou não é?
— É.
— É a
primeira resposta clara que o senhor me dá, e é uma resposta muito
interessante. Abra-se com o velho Talamon. Sou todo ouvidos.
* * *
Com um
forte estouro, a Titan e a Ganymed emergiram do hiperespaço,
retornando ao Universo normal.
O cérebro
robotizado de Árcon devia ter calculado a posição com seus
rastreadores estruturais supersensíveis, pois Rhodan escolhera de
propósito um setor tranqüilo do grupo estelar M-13 como ponto final
de sua hiper trajetória.
O choque
provocado pela transição desvaneceu-se no organismo de todos os
ocupantes das naves. Como sempre, Perry Rhodan e seu amigo Reginald
Bell foram os primeiros a ter consciência após os efeitos do salto.
Diante
deles os sóis do sistema, captados pela gigantesca tela de visão
global da Titan, brilhavam num esplendor indescritível. A
luminescência reluzente e cintilante, que se refletia em todas as
cores e nuances, constituía a melhor apresentação para quem se
aproximasse do Império dos Arcônidas.
— ...quem
dera que não fossem tão dorminhocos — suspirou Bell.
— Quieto,
gorducho! — disse Perry Rhodan em voz baixa. Atrás dele
encontrava-se Crest, o arcônida, e a um passo deste estava Thora,
uma arcônida garbosa, inteligente e temperamental. Ambos pertenciam
às classes mais elevadas da sociedade do império estelar cujos sóis
viam brilhar naquele instante.
Bell era
um sujeito honesto, um tanto esquentado. Virou-se para Thora. Em seu
rosto havia um sorriso de escárnio.
— Alguma
objeção? — perguntou.
— Já
está na hora de inventar outra coisa — respondeu Thora com uma
serenidade majestática.
Bell
soltou um grunhido.
— Você
não ia entrar em contato com aquele montão de lata para pedir
férias? -perguntou, dirigindo-se a Perry Rhodan.
Chamar o
gigantesco cérebro robotizado de Árcon de montão de lata era uma
enorme irreverência. Mas nem mesmo os dois arcônidas se zangaram
com o lugar-tenente de Rhodan, por ter usado tal expressão.
Gucky, que
estava sentado ao lado de Reginald Bell, chilreou baixinho:
— Montão
de lata! Você é um grosso formidável.
No mesmo
instante, a sala de comando da Titan encheu-se de gostosas
gargalhadas. Gucky, o ser em forma de rato-castor que era telepata e
mais uma porção de coisas, acabara de chamar Reginald Bell de
grosso formidável. As lágrimas corriam pelas faces de algumas das
pessoas que se encontravam na sala de comando. Ao todo eram mais de
trinta. Thora soltou uma risada cristalina. Crest não conseguiu
dominar o riso e colocou a mão diante da boca. Perry Rhodan
sacudia-se de tanto rir.
— Seu
porcalhão! — rugiu a voz de Bell, superando as risadas.
Num gesto
rápido procurou agarrar Gucky, sua mão segurou o vazio. Num
instante, o rato-castor se afastara por meio do conhecido salto de
teleportação. Chiando em meio ao silêncio que tomara conta do
recinto após o grito de Bell, aterrissou nos braços de Thora e
perguntou:
— Thora,
você vai acariciar meu pêlo? Afinal, chamei esse gorducho de grosso
formidável.
Num tom
ríspido — que chegava a ser duro demais, porque esmagava um
episódio altamente humano — a voz do oficial de rádio chamou:
— A
frota robotizada OGG-06 pede o sinal de código.
Estas
palavras trouxeram todo inundo de volta à realidade.
Numa
velocidade equivalente a 0,8 vezes a da luz, a Titan deslocava-se
juntamente com a Ganymed em direção ao anel externo de
fortificações, que envolvia Árcon I,
II e
III,
transformando-o
numa fortaleza estelar inexpugnável.
Nas
entranhas da gigantesca esfera, que era uma obra-prima da construção
astronáutica dos arcônidas, vibravam, rugiam e zumbiam os
conversores, transformadores, campos magnéticos, máquinas e
conjuntos de dimensões inconcebíveis.
Uma
tripulação regular de mil e quinhentos homens faria da Titan a nave
de guerra mais potente e perigosa da Via Láctea.
O
hipercomunicador estava aquecendo.
Chegara a
hora em que Perry Rhodan teria de falar com o cérebro robotizado
instalado em Árcon.
Depois de
emitido o sinal de identificação, o regente robotizado confirmou a
recepção. O gigantesco cérebro positrônico, incapaz de qualquer
emoção e capaz de reagir apenas à lógica mais fria e objetiva,
estava esperando.
Nem mesmo
Perry Rhodan, que se dispunha a conquistar o Universo para a Terra,
faria esperar o cérebro que ocupava uma área de dez mil quilômetros
quadrados.
Perry
Rhodan conhecia suas limitações.
Era mais
uma qualidade que o destacava em meio aos demais homens.
Rhodan
ofereceu seu relatório ao cérebro instalado em Árcon. Foram
palavras lacônicas, precisas, seguras. Não disse tudo, mas aquilo
que falou devia trazer a marca da realidade para a lógica fria do
gigantesco dispositivo positrônico.
Nenhum
esclarecimento foi solicitado.
O
alto-falante do hipercomunicador apenas zumbia.
O regente
robotizado estava esperando; o cérebro dissociou, controlou,
examinou e interpretou o relatório de Rhodan e logo descobriu que a
palestra ainda não havia chegado ao fim.
Depois de
ligeira pausa Rhodan prosseguiu:
— Peço
permissão para regressar à Terra a bordo da Titan. Durante o
confronto com Talamon, o superpesado, constatamos que a tripulação
prevista de mil e quinhentos homens não é suficiente. Nos homens
vindos do planeta Terra não podemos esperar o QI com que se costuma
contar em Árcon, muito embora uma pequena percentagem dos
tripulantes da Titan seja capaz de um desempenho acima da média. Se
quisermos fazer desta nave o elemento de força que seus construtores
tiveram em vista, o aumento da tripulação torna-se absolutamente
indispensável. E no planeta Terra encontrarei os homens de que
preciso. Queira examinar meus argumentos.
Durante
três minutos ouviu-se o zumbido do hipercomunicador. Finalmente veio
a resposta do cérebro robotizado.
— Férias
concedidas — soou a voz metálica do alto-falante.
A Titan
desligou.
Perry
Rhodan virou a cabeça e encarou Bell. Este exibia um sorriso
satisfeito.
— Então
você conseguiu tapear esse montão de lata — disse em tom
satisfeito. — Se ele soubesse... — subitamente estacou. Lançou
um olhar indagador para Perry. — Não está satisfeito por vê-lo
enganado?
— Não.
Não temos nenhum motivo para ficarmos satisfeitos, Bell.
As
palavras de Rhodan ressoaram pesadamente pela sala de comando. Bell
lançou um olhar pensativo para o amigo. Perry tinha razão. Não
havia nenhum motivo para ficarem satisfeitos.
Como uma
sombra silenciosa evocada pelos incidentes ocorridos com os aras, a
Terra mais uma vez se transformara no centro dos acontecimentos. Os
aras também eram mercadores galácticos, e os mercadores galácticos
continuavam a representar um perigo para a Terra.
Topthor, o
superpesado, conhecia a posição do Sistema Solar; o cérebro
gigante de Árcon não a conhecia.
Só no
setor do grupo estelar M-13, alguns milhares de naves dos saltadores
cruzavam o espaço. Cada uma delas era uma verdadeira fortaleza. O
que poderia a Terra contrapor a essa força?
Nada!
Um dos
pontos fortes de Perry Rhodan consistia em nunca superestimar a
própria força. E o ponto que o preocupava era que dentro em breve
os saltadores poderiam partir para um ataque maciço contra a Terra,
para transformar o “planeta
turbulento”
num sol que se consumiria num holocausto nuclear.
Era por
isso que pretendia voltar à Terra juntamente com a Ganymed. A
alegação apresentada ao cérebro robotizado, de que a tripulação
da Titan não era suficiente, desde logo se apresentava com uma
fragilidade transparente. O autômato era muito inteligente para cair
num golpe tão primário. Estava interessado em acompanhar os saltos
da Titan e da Ganymed para descobrir as coordenadas da Terra. Mas
havia um fato que o cérebro robotizado não conhecia nem devia
conhecer. Tanto a Titan como a Ganymed dispunham do compensador
estrutural inventado pelos mercadores galácticos, que tornaria
impossível o cálculo das transições realizadas por essas naves.
Bell
procurou afastar as preocupações.
— Pois
faremos com que esses ciganos espaciais também não tenham nenhum
motivo para ficarem satisfeitos — disse com a voz zangada. —
Vamos preparar a transição, Perry?
Perry
Rhodan limitou-se a acenar com a cabeça.
A figura
maciça e esverdeada de Talamon surgiu na tela e sorriu para Perry
Rhodan.
Há poucos
minutos o chamado havia sido recebido pela freqüência de
hipercomunicação do superpesado. Agora a pesada nave de guerra
emergia lentamente da escuridão do espaço e adaptou sua velocidade
à da Titan.
— Irei
até aí, Perry Rhodan — disse Talamon depois do ligeiro
cumprimento. Sua imagem desfez-se. Na Tal VI,
a
comunicação fora interrompida.
— Suspender
os preparativos para a transição
— disse
Rhodan pelo rádio, dirigindo-se à Ganymed. — Todos os dados
continuam
válidos.
Depois,
lançou
um olhar para Bell.
— Mande
que John Marshall e Gucky venham
até
aqui.
No mesmo
instante, uma luminescência surgiu
diante
de Rhodan. O rato-castor surgiu. Seu dente roedor solitário sorria
com satisfação.
Procurou
acomodar-se no colo de Rhodan.
— Ora,
Gucky! — disse Rhodan numa ligeira
recriminação.
— Estamos recebendo urna
visita oficial.
Gucky
planou
para o canto mais afastado da sala de comando. Ninguém riu. Devia
haver um
motivo importante para que
o superpesado
surgisse pouco antes que a Titan e a Ganymed iniciassem a transição
em
direção à
Terra. Talamon só se tornara amigo
de Perry
Rhodan depois da missão executada
no
planeta Aralon. Todavia, ainda
faltava
dar uma prova dessa amizade.
Será que
Talamon vinha como amigo?
Rhodan
compreendeu
o olhar preocupado de Crest. Estavam pensando a mesma coisa.
Era
justamente por isso que Gucky e John
Marshall
deviam estar presentes durante a palestra, a fim de verificar se as
intenções de Talamon eram honestas.
— É uma
bela nave — disse o superpesado. Depois de dar outra olhada pela
sala de comando, acrescentou: — Acontece que dentro de pouco tempo
já não será tão bela assim.
Já estava
mostrando as cartas.
Perry
Rhodan percebeu o sinal de John Marshall. Talamon não estava
ocultando nada. Realmente viera na intenção de prevenir Rhodan.
— Um
momento, Talamon! — Bell pousou uma das mãos no ombro de Perry,
enquanto a outra movia a chave que estabelecia contato com o posto de
observação da Titan e da Ganymed. Disse para dentro do microfone: —
Exerçam vigilância rigorosa em todos os setores do espaço. Liguem
os protetores de localização na potência máxima.
Voltando a
dirigir-se ao superpesado, que sorria satisfeito diante das
instruções, Reginald Bell disse:
— Mande
que sua nave se coloque entre as nossas. Se quisermos evitar que os
outros formulem perguntas indiscretas, não devemos dar-lhes a menor
oportunidade para isso. Quer fazer o favor de transmitir as
instruções para sua nave?
Um sorriso
ainda mais largo cobriu o rosto do superpesado.
— Se
todos os homens do planeta Terra são tipos tão frios, cautelosos e
impetuosos como este, já começo a sentir pena dos saltadores. É
claro que mandarei colocar minha nave entre as suas.
As grandes
telas de visão global da Titan mostraram que a nave Tal VI,
pesadamente
armada, descreveu uma curva silenciosa, e, numa manobra elegante,
colocou-se numa posição em que estaria a salvo da localização.
— Pois
bem — disse Talamon em tom indiferente, contemplando Perry Rhodan
numa tensão mal disfarçada. — Os aras do planeta Aralon estão
zangados com vocês. Do ponto de vista comercial compreendo essa
atitude. Mas desde que fiquei sabendo que esses bandidos da medicina
andam fazendo suas feitiçarias para que a gente pegue tudo quanto é
peste, a fim de poderem vender seus medicamentos a preços
extorsivos, não tenho a menor simpatia por eles. Em resumo:
“Aralon
alarmou os clãs dos aras espalhados pelos quatro cantos da Galáxia.
Sempre há doenças. Os mercadores galácticos foram submetidos a
verdadeira chantagem. Os aras os ameaçaram de não lhes vender mais
remédios, e por isso viram-se obrigados a concordar em lançar um
ataque à Terra a fim de transformar esse mundo num sol.”
— O
ataque já foi iniciado? — perguntou Perry Rhodan em tom tranqüilo,
fazendo com que os seiscentos e cinqüenta quilos de Talamon
saltassem da poltrona e fitassem o ser terrano.
Perry
Rhodan fez pouco caso; Bell estava suando. Era outro dos blefes de
Rhodan. Perry não chegara a afirmar que qualquer ataque seria
rechaçado, mas deixara Talamon bem menos seguro de si.
— Então,
Talamon, os saltadores já iniciaram o ataque? — disse, insistindo
na pergunta.
— Não,
os saltadores não se entregam tão depressa. E uma ação dessa
envergadura nunca é iniciada sem uma reunião dos patriarcas. Mas os
aras já conseguiram alguma coisa. Dentro em breve, haverá uma
reunião dos patriarcas. Ninguém sabe onde. Nem mesmo o mensageiro
que me procurou para saber minha opinião soube dar essa informação.
— Três
aproximações — anunciou o oficial do posto de observação. —
Uma nave está rastreando o espaço. Distância 0,325 minutos-luz.
Velocidade 0,21 abaixo da luz. Irradiando sinais codificados para
outra nave. Sinais conhecidos. Trata-se de unidades da frota do
superpesado Talamon.
Talamon
sorriu por todo o rosto e demonstrou sua admiração indisfarçada
para Rhodan e Bell.
— Estou
curioso para ver se minhas naves não acabarão me encontrando.
Rhodan
estendeu a mão num gesto indiferente:
— Aposto
minha Titan contra sua nave capitania de como não nos descobrirão.
O
superpesado sacudiu violentamente a cabeça, escondeu as mãos
maciças atrás das costas, deu uma risada matreira e disse:
— A
história de como o senhor se apoderou da Titan já se espalhou por
aí. Não estou com vontade de apostar. Preciso da minha nave —
logo voltou a tornar-se sério.
— O
plano dos aras não o deixa preocupado? Não preciso ser profeta para
garantir que os médicos galácticos obrigarão os saltadores a
destruir a Terra. E também não sou nenhum tagarela. Vim para ajudar
o senhor e seu mundo.
Perry
Rhodan viu John Marshall esfregar os dedos.
— Quanto
terei de pagar por sua amizade, Talamon? — perguntou Perry Rhodan
com uma risada.
— Ó
sublime Via Láctea! — exclamou o superpesado com um aparente
entusiasmo.
— Fomos
feitos para sermos sócios um do outro. Nem mesmo com os arcônidas,
tenho conseguido chegar tão rapidamente ao núcleo do negócio.
— Pois
essa gente dorme de pé! — observou Bell.
De
repente, os olhos de Talamon começaram a mexer-se. Caminhavam de um
lado para outro, fitando os dois homens tão diferentes no aspecto e
no caráter.
Perry e
Bell exibiram seus rostos de jogador de pôquer. Essa coincidência
deu de pensar à raposa de seiscentos e cinqüenta quilos que atendia
ao nome de Talamon. Falando em tom pensativo, disse:
— Aos
poucos estou compreendendo por que todos nós, que temos alguma coisa
a ver com o Império de Árcon, sempre levamos a pior quando lidamos
com vocês. Mas vamos conversar sobre o preço. Afinal, de vez em
quando tenho de alimentar meu clã. E manter duzentas naves em
condições de combate não é nada fácil; custa muito dinheiro. Nem
estou calculando o risco que vou assumir...
Perry
Rhodan interrompeu-o em tom penetrante:
— Quando
dei ordem à frota de guerra robotizada de Árcon para que não
transformasse as naves do superpesado Talamon em nuvens de gases,
assumi um risco que excedia qualquer grandeza astronômica. E eu lhe
pedi que pagasse alguma coisa por isso, Talamon?
— Ora
essa, Perry Rhodan! — respondeu Talamon em tom de recriminação. —
Não se fala assim com um velho.
— Será
que não? — retrucou Rhodan com a mesma voz penetrante. — Nós,
os humanos, gostamos de dizer a verdade, mesmo que seja dolorosa.
Diga seu preço, Talamon.
John
Marshall levantou-se e aproximou-se dos três homens que estavam
discutindo. Rhodan olhou para o mais competente dos seus telepatas e
perguntou:
— O que
houve, Marshall?
O telepata
entendia seu chefe.
— O
senhor me pediu que lhe lembrasse que pretendia falar com o cérebro
robotizado de Árcon.
Essas
palavras representavam um código; traduzida em termos normais, o
teor da mensagem seria o seguinte: “Até
aqui não notei nenhum pensamento traiçoeiro em Talamon.”
Rhodan fez
sinal para que Marshall se afastasse.
— Isso
não tem pressa. Obrigado. Talamon, que não perdera uma única
palavra, logo tirou suas conclusões.
— O
senhor quer recorrer ao auxílio do Império, Rhodan? Não se esqueça
de que os saltadores também são arcônidas.
— Alguns
estão dormindo enquanto outros são salteadores! — interveio Bell
em tom mordaz. — Talamon, que raça sem finura é a sua? Realmente,
vocês nos deixam preocupados.
O
superpesado não teve outra alternativa senão levar a objeção de
Bell a sério. Em sua imaginação, a Terra transformou-se num único
porto espacial e o poder de Perry Rhodan era imenso.
— Diga
seu preço, Talamon! — exigiu Rhodan, felicitando-se porque Bell
estava participando da discussão. Era ele que descongelava o
superpesado, fazendo-o afastar-se do ponto de vista de que teria de
ganhar muito dinheiro.
— Para
uma ação sem limite de tempo e com pleno engajamento de toda minha
força de combate... são exatamente duzentas e dezoito naves, peço
dez milhões.
— Quanto
vale uma tonelada de aço Árcon-T? — perguntou Perry.
— Aço
Árcon-T? O aço de que são feitas as naves espaciais? — Talamon
aguçara os ouvidos.
— Isso
mesmo. Tenho umas trezentas ou quatrocentas toneladas para vender.
— Quanto?
Perry
Rhodan levantou-se. Por enquanto considerava encerrada a discussão.
— Reflita
juntamente com seu clã se minha proposta representa um negócio
interessante para os senhores. Depois disso, combinaremos um preço
entre amigos. Pagando uma taxa de dez milhões por sua atuação em
defesa da Terra, ainda terei de receber algumas dezenas de milhões
do senhor. Quando voltaremos a encontrar-nos?
* * *
O
inspetor-chefe Gegul encontrava-se diante do Conselho de Médicos de
Aralon, ao qual teria de apresentar seu relatório.
Nos
últimos dias, o ara envelhecera alguns anos. Uma enorme
responsabilidade pesava sobre seus ombros. Recebera a incumbência de
exercer pressão contra todos os clãs dos saltadores, fazendo,
sempre que necessário, sua chantagem contra os patriarcas. O ara
diria que, em determinadas circunstâncias, os fornecimentos de
remédios poderiam ser suspensos.
Gegul teve
que recorrer ao Serviço Intergaláctico de Informações. Sua
organização não dispunha de recursos para “trabalhar”
todos os clãs dos mercadores num espaço de poucos dias.
Apesar dos
esforços que o haviam obrigado a passar várias noites sem dormir,
assumia uma atitude orgulhosa diante do Conselho, cujos membros
ouviam sua exposição com um prazer cada vez maior.
Gegul só
falava sobre ações bem sucedidas. Vez por outra, um sorriso cínico
surgia em seu rosto, quando contava como certo patriarca fora
convertido à causa dos aras com a força do argumento de que nos
próximos dias todo o clã poderia contrair uma doença mortal. Neste
caso os aras se veriam obrigados a recusar o pedido de cura, pois no
futuro só estariam disponíveis para os amigos.
— Quando
será realizada a assembléia dos patriarcas, e onde? — perguntou
Dumeh, que estava presidindo o Conselho de Médicos.
— Dentro
de oito dias, em Laros — respondeu Gegul.
— Em
Laros? — interveio Santek em tom de surpresa, lançando um olhar
penetrante para Gegul. — Justamente em Laros, onde realizamos
nossas experiências biológicas? Gegul, você devia ter sido
abandonado por todos os deuses estelares quando lhe deu na cabeça de
sugerir a décima oitava lua do sistema de Gonom como ponto de
encontro.
Gegul
perdeu parte de sua postura orgulhosa.
— Peço
licença para expor os motivos que me levaram a sugerir Laros como
ponto de encontro dos patriarcas dos saltadores. Parti do fato de que
há alguns meses os chefes de clã dos mercadores galácticos
realizaram sua assembléia geral no planeta Goszul, situado no
sistema 221-Tatlira, a fim de decidir a respeito de Perry Rhodan.
“A
assembléia geral terminou numa explosão nuclear.
“Os
saltadores realizaram uma tentativa desesperada de voltar a fixar-se
em Goszul, mas esta resultou numa doença misteriosa. Só nós, os
aras, constatamos que a mesma é inofensiva. Apesar disso o planeta
de Goszul continua a ser considerado uma estrela proibida.
“É
possível que esses fatos, ainda não esclarecidos, tenham sido
encenados por Perry Rhodan, mas não temos prova disso.
“Em
Laros dispomos de recursos que nos permitem impedir qualquer
influência indevida sobre a assembléia dos patriarcas, protegê-la
e mesmo destruir quem pretenda exercer tais influências.
“Foram
estas considerações que me levaram a sugerir a décima oitava lua
do planeta Gom, situado no sistema de Gonom, como ponto de encontro
dos patriarcas e dos superpesados.”
Gegul
sentiu-se aliviado ao notar o sorriso diabólico de Santek. Também
Dumeh demonstrou uma amável concordância.
— O
biólogo-chefe Keklos já foi informado, Gegul? — perguntou Dumeh
em tom gentil.
Mais uma
vez, o inspetor-chefe inclinou ligeiramente o corpo:
— O
biólogo-chefe Keklos foi colocado a par de tudo e está de acordo
com as medidas por mim sugeridas.
Uma
expressão de triunfo brilhava nos olhos de Gegul.
* * *
Topthor,
amigo de Talamon e inimigo encarniçado de Rhodan, foi arrancado do
sono. Tattoll estava de pé junto à sua cama.
— Senhor,
o quartel-general dos superpesados quer se comunicar conosco —
disse em tom exaltado, continuando a sacudir o braço do chefe do
clã.
— E daí?
— resmungou Topthor. — Quem quer falar comigo deve saber esperar.
Diga ao quartel-general que comparecerei.
Não teve
muita pressa em chegar ao aparelho de hipercomunicação. Vestiu-se
tranqüilamente. Ficou refletindo sobre o que o órgão central
poderia querer. Tinha certeza de que não se tratava de uma missão
que pudesse render milhões. Qualquer mensagem desse tipo vem com a
nota de maior urgência.
Caminhou
devagar em direção à sala de comando. A última escotilha abriu-se
automaticamente. De longe viu o tremeluzir da tela: era o sinal
típico de transmissão pelo hipercomunicador.
Fungou
enquanto se deixava cair na poltrona do piloto.
— Topthor!
— gritou com a voz contrariada.
— Quartel-general!
— soou a voz metálica do micro-alto-falante. O rosto conhecido de
Sirger, segundo patriarca do clã de Darfnur, surgiu na tela.
— Diga
logo o que aconteceu, meu filho — insistiu o gigante esverdeado em
tom pouco gentil.
— Nossa
mensagem está sendo transmitida pelo disjuntor, Topthor!
O
patriarca aguçou o ouvido. Se o disjuntor e o hipercomunicador
estavam sendo usados ao mesmo tempo, algo de importante devia ter
acontecido. O rosto de Topthor mostrou um certo interesse. Este fato
significava algo capital.
Mas os
músculos de sua face logo se descontraíram. O quartel-general
anunciou data e local da assembléia dos patriarcas.
— Teve
de acordar-me por isso? — resmungou o velho.
Sirger,
que se encontrava no quartel-general dos superpesados, perguntou em
tom indiferente:
— Não
está mais interessado em Perry Rhodan?
Se havia
um inimigo cujo nome Topthor nunca esqueceria, esse inimigo era Perry
Rhodan.
— O que
houve com Rhodan? — berrou para dentro do microfone com tamanha
força que Sirger, que se encontrava a alguns milhares de anos-luz de
distância, imediatamente reduziu o volume do micro-alto-falante.
— Será
que o senhor não sabe o que aconteceu em Aralon? — perguntou
Sirger em tom de espanto. — Na Via Láctea não se fala em outra
coisa.
Era um
exagero, pois Topthor não sabia de nada.
— Acha
que posso saber de tudo, Sirger? Encontrava-me com minha frota nas
profundezas da Galáxia, a vinte e oito mil anos-luz de distância,
onde tive de liquidar um assunto. E esse assunto me custou seis
naves.
Não disse
qual foi o assunto que teve de liquidar, mas Sirger soube tirar suas
conclusões. Em poucas palavras, contou os maus bocados que Perry
Rhodan fizera os aras passar. Mencionou o nome de Talamon.
— O quê?
— voltou a berrar Topthor. — Talamon fugiu? Você está mentindo!
Sirger não
estava disposto a permitir que o chamassem de mentiroso, motivo por
que formulou sua resposta de tal forma que Topthor começou a engolir
em seco. Com a voz mais amável deste mundo, perguntou o que teria
feito se estivesse no lugar de Talamon e, de repente, se visse
cercado pela frota robotizada de Árcon.
— Árcon
se meteu nisso? O regente robotizado resolveu intervir? — Topthor
não estava acreditando. — Você está me contando isso de maneira
muito confusa, Sirger. Fim do contato.
Topthor
interrompeu a comunicação, mas não desligou o hipercomunicador.
— Quero
uma ligação instantânea com Talamon.
A nave
capitania de Talamon, Tal VI,
não
deu sinal de vida. Apenas uma nave de sua frota respondeu, mas
ninguém sabia onde se encontrava o chefe do clã. Topthor desligou
de vez.
— É
estranho — murmurou. — Talamon não indicou o lugar em que pode
ser encontrado e não responde ao chamado expedido na sua freqüência.
Alguma coisa não está certa. Isso não é...
Foi nesse
instante que seu receptor captou outra mensagem de hipercomunicação.
Mais uma vez era o quartel-general; o rosto de Sirger voltou a surgir
na tela.
— Será
que o senhor pode dizer ao quartel-general onde poderíamos encontrar
seu amigo Talamon?
Topthor
lançou um olhar idiota para a tela.
Então
também não conseguiam encontrar Talamon? Seu nervosismo cresceu.
Pensava constantemente em Talamon e em Perry Rhodan.
Estava
preocupado com seu amigo Talamon e por causa de Perry Rhodan.
* * *
Talamon
estava voltando depois da terceira conferência com Perry Rhodan. Seu
respeito para com esse homem crescera quase ao infinito, e não
procurava esconder esse fato diante dos membros de seu clã. Mas nem
todos concordavam com ele; era principalmente Oxcal que se opunha a
toda e qualquer ligação com Rhodan.
— Se
Cekztel descobrir seu jogo, dentro de pouco tempo o clã de Talamon
deixará de existir — advertiu.
Talamon
respondeu com um sorriso alegre.
— Pois
Cekztel não deverá saber — logo se esqueceu desse detalhe. —
Mas você não precisa participar do grande negócio que fechei com
Rhodan, Oxcal.
Acontece
que Oxcal queria participar do grande negócio. Tratava-se de uma
quantidade quase inimaginável de sucata de aço Árcon-T. Se o
negócio se concretizasse, sobraria uma boa quantia para cada membro
do clã.
— Onde
deveremos buscar o material? — perguntou Oxcal, demonstrando seu
interesse pelo negócio.
Talamon
sorriu para cada um dos circunstantes. Estava curioso para ver suas
caras idiotas. Também fizera uma cara idiota quando Rhodan,
respondendo a pergunta idêntica, lhe dissera:
— Em
Honur.
— O quê?
Em Honur? — a voz de Cresja vibrava num tom de pavor.
Talamon
sorriu e acenou com a cabeça.
— Será
que também devemos pegar a doença? Aquela maldita peste da alegria?
— perguntou Oxcal em tom incisivo.
— Vocês
são uns tolos — respondeu o velho Talamon. — Até hoje sempre
fui eu quem trouxe os negócios mais gordos. Vocês vieram depois e
embolsaram o dinheiro. Acham que já estou tão esclerosado que não
me lembrei da epidemia de Honur? Acontece que Rhodan também não se
esqueceu dela. Por isso, não assumiu qualquer risco quando me contou
onde está aquela sucata de primeira. Poderemos dar uma olhada no
cemitério de naves existente no planeta proibido. Por enquanto isso
basta. Faremos um inventário, realizaremos cálculos aproximados e,
se entendi as palavras ditas por Rhodan durante a última
conferência, não teremos que pagar nada. Apenas devemos manter-nos
afastados de cinco naves cargueiras de grande porte e um couraçado
arcônida, que Rhodan pretende reservar para si. Não é um bom
negócio, meus irmãos de clã?
Talamon
sentia-se triunfante.
Oxcal
lembrou-se da epidemia que atacara setecentos tripulantes da Titan.
Era uma hipereuforia provocada por ursinhos criados como animais
domésticos no planeta de Honur.
— Rhodan
nos fornecerá o antídoto, Oxcal. Já se esqueceu que esteve em
Aralon, e que muitos dos seus tripulantes haviam contraído a doença?
Ainda estão doentes?
Oxcal
lançou um olhar pensativo para seu patriarca. Não estava gostando
do fogo juvenil que brilhava em seus olhos. Devia contê-lo, pois do
contrário levaria todo o clã para a desgraça.
— Se
Cekztel, chefe de todos os clãs, tiver a mais leve suspeita, ele nos
exterminará. E se Topthor tiver a menor idéia do que se passa,
esquecerá quem é seu amigo. Odeia Perry Rhodan com toda a força do
coração.
O rosto de
Talamon assumiu um feitio rígido.
— Não
quero que ninguém de vocês pense em dar uma dica a Cekztel e
Topthor. Por isso nossos rádios continuarão em silêncio, tanto na
emissão como na recepção.
Levantou-se
e dirigiu-se ao seu camarote. Pensava menos no grande negócio que em
Perry Rhodan.
Talamon
compreendia cada vez melhor que em Rhodan conquistara o mais sincero
dos amigos, desde que ele mesmo continuasse sincero.
* * *
A bordo da
Ganymed houve um alarma ligeiro.
Há poucos
minutos o coronel Freyt, comandante do couraçado de 840 metros de
comprimento, regressara depois da conferência com o chefe.
Imediatamente quinhentos homens assumiram seus postos. Na popa da
nave, os conjuntos e os conversores entraram em funcionamento.
A Ganymed
preparava-se para partir.
Só os
oficiais da sala de comando conheciam o destino.
O
couraçado acelerava lentamente. A distância, que a separava da nave
esférica Titan, foi crescendo. O cérebro positrônico de bordo
controlava a aceleração.
Numa
indiferença quase total, o coronel Freyt, sentado na poltrona do
piloto, contemplava a grande tela de visão global. Fazia dez minutos
que a Titan, reduzida a um pontinho, desaparecera. A nave Tal VI,
comandada
por Talamon, estava com todas as luzes apagadas e envolta no campo
protetor de localização da gigantesca nave esférica. Naquele
instante, transmitia uma mensagem hiperconcentrada pelo
super-transmissor da nave de Rhodan.
— Bip! —
foi o som que se ouviu quando o receptor da Ganymed captou a
transmissão.
O coronel
Freyt virou-se para o oficial incumbido do cérebro positrônico.
Este limitou-se a acenar com a cabeça. Foi só. Freyt não formulou
qualquer pergunta. Sabia que as coordenadas do salto e os dados
relativos ao tempo estavam armazenados no cérebro positrônico,
aguardando o momento de serem utilizados.
— Bip! —
voltou a fazer o micro-alto-falante da sala de comando.
Foi a
resposta à mensagem hiperconcentrada da Tal VI.
Uma
das naves da frota de Talamon acabara de responder.
A tela de
comunicação direta com a sala de rádio iluminou-se diante de
Freyt. O oficial de rádio transmitiu o texto decodificado da
mensagem.
Mais uma
vez, o comandante limitou-se a acenar com a cabeça. A imagem na tela
desfez-se e o alto-falante acoplado nesta foi desligado.
Pouco
depois, o dispositivo de localização automática começou a
funcionar. A Ganymed se deslocava a uma velocidade de 0,74 abaixo da
luz.
Mais uma
vez, Freyt lançou um olhar indagador para o oficial incumbido do
cérebro positrônico.
— Mais
trinta e três minutos, coronel — disse o oficial.
Depois da
primeira operação de localização, a Ganymed modificara o rumo em
8 graus e 32 segundos Pi. Os potentes neutralizadores de pressão
devoravam as energias que surgiram no momento em que o couraçado
saiu rapidamente do velho rumo, para tomar outro. Só a tela de visão
global revelara a alteração. Alguns sóis desapareceram acima da
extremidade superior, enquanto outros penetraram pela extremidade
inferior.
Nenhum dos
homens que se encontravam na sala de comando teve tempo ou vontade de
contemplar o espetáculo ímpar da cintilância do grupo estelar
M-13. Hoje nada seria capaz de cativar os homens.
Voavam no
desempenho de uma missão.
Deslocavam-se
exatamente na direção da nave que o dispositivo de localização
mantinha sempre ao alcance dos instrumentos de medição.
A
velocidade da Ganymed aproximava-se da marca de 0,9 abaixo da luz.
O coronel
Freyt fumava. Estava reclinado na poltrona do piloto. Reclinara-se
com a mesma tranqüilidade quando, há muitos anos, realizara as
missões mais perigosas nos caças de um homem da frota de Rhodan.
Um lampejo
fulgurante chamou Freyt de volta para a realidade. O dispositivo
automático de localização eliminou a aceleração da Ganymed. O
enorme couraçado com as quatro aletas salientes na popa
aproximava-se em queda livre da nave que acabara de ser localizada
por meio do goniômetro.
Naquele
momento, estava sendo captada pelo dispositivo ótico. Vinha do setor
de meia nau. Com nitidez formidável, a nave cilíndrica surgiu numa
tela adicional, que se encontrava à esquerda de Freyt.
Não
demorou a ser identificada. O tenente Feller informou:
— É a
Tal CLIII.
O alarma
ensurdecedor abafou todos os outros ruídos a bordo da nave.
Enquanto
isso, o rastreador estrutural rangia.
Vindas do
nada, do hiperespaço, três naves surgiram numa proximidade
ameaçadora da Ganymed.
— Era só
o que faltava! — disse o coronel Freyt em tom tranqüilo. Mas logo
emitiu suas ordens.
— Avisem
o chefe!
Estas
palavras foram dirigidas à sala de rádio.
— Vamos
defender-nos com todas as armas se formos atacados!
Esta ordem
ressoou nos postos de combate. No mesmo instante, abriram-se as
escotilhas dos canhões.
A Ganymed
estava preparada para o combate.
Quem
seriam esses veículos espaciais que, vindos da transição,
continuavam a aproximar-se do couraçado?
— São
naves dos saltadores!
O aviso
veio duas vezes, do posto de localização e do setor de observação
ótica.
— Digam
à Tal CLIII que dê o fora imediatamente — berrou no microfone,
dirigindo-se à sala de rádio.
— Transição
— rangeu a voz do tenente Dreyfus, que se encontrava no setor de
rastreamento estrutural. — A Tal CLIII acaba de saltar.
— Ataque
do verde quarenta e cinco — soou a voz tranqüila do oficial de
tiro de Dora 8. O setor Dora 8 encontrava-se no ângulo em que a
aleta de popa número um se ligava harmonicamente ao envoltório da
nave.
Na sala de
máquinas do couraçado, as turbinas começaram a uivar. Milhares de
ligações eram feitas e desfeitas. Os últimos conversores começaram
a rugir. As usinas de força forneceram energia de sobra aos postos
de combate.
Dora 8
disparou durante oito segundos.
— Nosso
campo de visão é muito bom — disse Freyt, elogiando os homens que
se encontravam a meia nau e conseguiram realizar o milagre de colocar
simultaneamente três naves cilíndricas nas telas especiais.
Os
artilheiros de Dora 8 também mereciam elogios. A parte em que
ficavam os propulsores de uma das naves dos saltadores desapareceu.
Por menos de meio segundo, ficara sujeita ao impacto direto de um
potente raio de desintegração.
— Outra
transição — fungou o tenente Dreyfus. Sua surpresa cresceu ainda
mais.
— A Tal
CLIII voltou...
A mensagem
vinda da sala de rádio saiu ruidosamente do alto-falante:
— Mensagem
hiperconcentrada vinda da Tal CLIII. O texto decodificado será
fornecido em seguida.
O coronel
Freyt começou a imaginar o motivo por que a nave de guerra da frota
de Talamon voltara e resolvera intervir na luta.
A nave do
clã dos superpesados atacou a Ganymed.
Três
enormes raios de desintegração precipitaram-se em direção à nave
de Freyt, mas todos erraram o alvo. Não chegaram sequer a roçar os
campos defensivos do couraçado de 840 metros de comprimento.
Os homens
que guarneciam as posições de artilharia esbravejavam de raiva e
amargura. Não viam mais nada de bom em Talamon e seu clã.
A voz do
coronel Freyt fez-se ouvir:
— Lancem
ataques simulados contra a Tal CLIII. Os disparos devem passar
raspando. Mas quero que essas canoas dos saltadores sejam
transformadas em sucata.
Finalmente
a mensagem decodificada da Tal CLIII foi fornecida pela sala de
rádio.
— Realizaremos
ataques simulados. Só isso.
No mesmo
instante, o campo defensivo da Ganymed foi sacudido por oito
impactos. Cascatas de luz irromperam em torno da nave e a violência
dos raios desintegradores encurvou os campos energéticos, a fim de
que estes pudessem absorver o enorme volume de energia.
— Que
diabo! — esbravejou o oficial de tiro Bredhus, que se encontrava de
serviço em Berta 5, pois a Tal CLIII se colocara diante de uma das
naves dos saltadores, protegendo-a e impedindo numa fração de
segundo que seus propulsores fossem destruídos.
O coronel
Freyt, que acompanhava a batalha com o maior interesse por meio da
tela de visão global, exibiu um sorriso quase imperceptível. A Tal
CLIII estava desempenhando seu papel com perfeição, tornando a
batalha mais difícil para a Ganymed. As duas naves dos saltadores
que continuavam em condições de manobrar teriam que acreditar que
uma nave dos superpesados se colocara a seu lado na luta contra a
Ganymed.
* * *
Por
coincidência, Talamon se encontrava a bordo da Titan, quando a menos
de trinta minutos-luz de distância irrompeu a batalha espacial entre
a Ganymed e as três naves dos saltadores. A intervenção da Tal
CLIII e, antes dela, seu desaparecimento no hiperespaço e seu
reaparecimento, haviam sido registrados com toda precisão pelos
aparelhos de observação.
— Então?
— limitou-se Perry Rhodan a perguntar e lançou um olhar de
esguelha para a figura quadrática de Talamon, quando a meio bilhão
de quilômetros dali a Tal CLIII disparou três raios de
desintegração contra a Ganymed, errando o alvo.
Talamon
ergueu-se ligeiramente.
— Em meu
clã não existem traidores, Perry Rhodan!
Esta frase
lacônica exprimiu o poder que cada patriarca exercia sobre seu clã.
Qualquer ordem de comando era uma lei para todos.
— Não
acha que o aparecimento das três naves dos mercadores é uma
coincidência muito estranha? — perguntou Reginald Bell, sem deixar
perceber o menor resquício da jovialidade que tantas vezes gostava
de demonstrar.
Naquele
instante, também a Titan captou a mensagem hipercondensada da Tal
CLIII. No momento em que Talamon se dispunha a dar uma resposta
áspera, receberam o texto decodificado:
— Realizaremos
ataques simulados.
Num gesto impulsivo, Bell estendeu a mão ao patriarca.
— Não
leve minhas palavras a mal, Talamon. Uma desconfiança honesta limpa
o ambiente.
Talamon
pegou a mão e apertou-a cautelosamente. Respirava com dificuldade.
— Eu
mesmo não acreditava no que estava vendo quando a Tal CLIII lançou
o ataque contra a Ganymed, mas...
— Não
há nenhum mas — interveio Rhodan. — Os ataques simulados contra
a nave de Freyt são o único meio de enganar os saltadores e evitar
que os mesmos desconfiem de que o senhor colabora comigo. Talamon,
acho que ainda seremos bons amigos.
* * *
Enquanto a
luta continuava, o coronel Freyt pensava com freqüência cada vez
maior na missão que tinha a cumprir. A Tal CLIII realmente tornava
muito difícil alcançar o fim da batalha desigual. A cada minuto
crescia o perigo de que os saltadores pudessem surgir com outras
unidades de sua frota, pois as duas naves cilíndricas que ainda
estavam em condições de combate emitiam constantemente seus pedidos
de socorro.
Uma
ligeira vibração sacudiu a Ganymed. Um abalo percorreu a gigantesca
nave. Oito ou nove posições de artilharia haviam disparado suas
peças ao mesmo tempo. O espaço escuro transformou-se num plano
aberto em leque. Os dedos luminosos precipitaram-se para as
profundezas do cosmos e atingiram as duas naves dos saltadores.
Duas
nuvens alaranjadas espalharam-se para todos os lados. O metal
derretido gotejou, as energias dos conversores explodiram em
terríveis relâmpagos, os campos magnéticos entraram em colapso em
meio a uma série de curto-circuitos.
As três
naves cilíndricas dos saltadores estavam sem a popa. Reduzidas a
destroços, deslocavam-se em queda livre descontrolada e seus
tripulantes aguardavam o fim.
Era assim
que os saltadores costumavam tratar seus inimigos: só se contentavam
com a destruição total.
Por cima
de tudo isso, a esfera monstruosa aproximou-se em meio a um ribombo,
vinda das profundezas do espaço.
A Titan
acabara de chegar.
O
aparecimento da nave de um quilômetro e meio de diâmetro devia ter
provocado um choque na Tal CLIII. Afastou-se com uma tremenda
aceleração.
Foi este o
quadro e a ação que se apresentaram aos sobreviventes das três
naves dos saltadores. Compreendiam a fuga do superpesado e estavam
mais do que nunca convencidos de que o fim estava próximo.
Mas a
Titan e a Ganymed não demonstraram o menor interesse pelos destroços
desgovernados. As naves aceleraram e não tardaram em desaparecer do
raio de alcance ótico dos náufragos.
Menos de
dez minutos depois, quatorze naves cilíndricas penetraram no setor
em que se desenrolara a luta, vindas do hiperespaço. Realizadas em
breves intervalos, quatorze transições provocaram um abalo enorme
na estrutura espacial.
A Titan,
que voltara a acolher a Tal VI
em
seu campo superpotente de defesa anti-localização, registrou todas
as transições.
Os olhos
de Rhodan chamejavam. Um sorriso disfarçado brincava em torno de
seus lábios. Lançou um olhar para o setor de localização
estrutural. O oficial, que se encontrava em atitude tensa na
poltrona, fez um gesto rápido com a cabeça.
— Transição
dupla! — anunciou, e forneceu as coordenadas e a direção do
salto.
Agora
Perry Rhodan sorria satisfeito. Estava pensando no cérebro
robotizado de Árcon. Ali também fora medido o salto duplo. O robô
gigantesco olhava tudo com algumas centenas de milhares de relês
arcônidas, aguardando o segundo salto da Titan e da Ganymed.
Esperava o momento de, mediante os cálculos da transição,
descobrir o ponto exato da Galáxia em que ficava a misteriosa Terra,
o mundo de que vinha Perry Rhodan.
E Perry
Rhodan conseguira iludir o cérebro positrônico.
Em vez da
Titan, a Tal CLIII saltara juntamente com a Ganymed em direção ao
centro da Via Láctea. A Titan, aproveitando esse tipo de camuflagem,
permanecia no interior do grupo estelar M-13, pois tinha de realizar
algumas tarefas importantes antes de regressar à Terra ameaçada.
O regente
positrônico esperou em vão pelo segundo hipersalto espacial.
O salto
não veio, e o compensador estrutural da Ganymed absorveu o abalo da
estrutura espacial. Enquanto a Tal CLIII, desenvolvendo sua
velocidade normal, equivalente à da luz, tomava o rumo do seu setor
de origem no grupo estelar, a nave do coronel Freyt executou a
segunda transição. Mas também esta não se dirigia exatamente para
o setor secundário da Via Láctea onde havia um sistema que incluía
o planeta Terra.
O
superpesado
Topthor recebeu a notícia irradiada por seu quartel-general: a Titan
e a Ganymed, pertencentes à frota de Perry Rhodan, haviam tomado o
rumo do centro da Galáxia, provavelmente para dirigir-se ao seu
sistema solar.
— Sirger
— disse o velho de tez verde com um sorriso feroz — o
quartel-general está exalando gentilezas por todos os poros. Será
que já posso saber o que há atrás de tudo isso?
Não era
tão fácil enganar um homem desconfiado como Topthor.
A figura
de Sirger, locutor de comunicações do quartel-general dos
superpesados, projetada na tela, não era nada agradável.
— Ainda
não conseguimos localizar seu amigo Talamon — disse desanimado.
— Eu
também não consegui — resmungou Topthor, ainda mais aborrecido
que antes. Começava a preocupar-se realmente com o destino de
Talamon e de sua frota. — Ontem não houve uma pequena batalha
entre três naves dos saltadores e a Ganymed de Rhodan? Será que as
informações que recebi não são corretas? Pelo que soube, a Tal
CLIII, que é uma nave de guerra da frota de Talamon, realizou uma
ação corajosa, batendo-se com a Ganymed a fim de dar aos mercadores
uma chance de escapar, mas esse maldito Rhodan apareceu com a Titan
e...
— Tudo
isso é verdade, senhor. As informações que tenho diante de mim
dizem a mesma coisa. Mas a Tal CLIII viu-se obrigada a fugir quando
apareceu a Titan, e desde então não dá mais sinal de vida. Estamos
tateando no escuro.
— Rhodan...
— exclamou Topthor em tom de ameaça, no qual vibrava um ligeiro
desespero. — Onde esse sujeito aparece, sempre há uma porção de
acontecimentos inconcebíveis e de problemas. Fim, Sirger. Obrigado
pelo chamado e por seu interesse.
* * *
Numa
viagem-relâmpago, a Ganymed acabara de regressar à Terra. Depois de
três saltos realizados sob a proteção do compensador estrutural,
voltara a ingressar no espaço normal entre as órbitas da Terra e
Marte.
Apoiada
sobre as quatro aletas de popa, a gigantesca Ganymed estendia o corpo
enorme em direção ao céu. A ponta desapareceu nas nuvens densas
que pairavam sobre o deserto de Gobi.
Nuvens
sobre Terrânia! Para o coronel Freyt isso não prenunciava nada de
bom, embora não fosse supersticioso. Terrânia, o minúsculo
trampolim situado no deserto de Gobi, de onde Perry Rhodan se pusera
a caminho a fim de conquistar o Universo para a Terra, era o pólo de
força da Terra. Para os homens, representava uma concentração
inconcebível de poder.
O coronel
Freyt estava pensando nesse poder enquanto o carro o fazia passar em
velocidade vertiginosa junto aos cruzadores pesados e à
Stardust-III.
Acontece
que a Terra possuía menos cruzadores pesados que os dedos existentes
numa única mão de um homem. Os mercadores galácticos e os
superpesados poderiam lançar mão de mil vezes esse número. E, se o
coronel Freyt ainda se lembrasse do poderio do Império de Árcon,
não poderia fazer outra coisa senão sacudir a cabeça.
— Nossa
chance é de um contra um milhão — disse com a voz baixa e o
desânimo ameaçava apoderar-se de seu espírito. Mas logo lembrou-se
das experiências pelas quais havia passado nos últimos anos
juntamente com Perry Rhodan, e não pôde deixar de murmurar: —
Nossas chances nunca foram melhores. Temos Perry Rhodan, e os outros
não o têm.
Alguma
coisa começou a vibrar em seu interior, a irradiar força para seu
espírito. Essa força vinha de uma distância de 30 mil anos-luz,
isto é, do lugar em que Perry Rhodan se encontrava a bordo da Titan.
Meia hora
depois da chegada do coronel Freyt, foi realizada a primeira
conferência.
— Major
Nyssen, quando o compensador estrutural estará instalado na nave
Solar System?
Foi assim.
Freyt disparou uma pergunta após a outra. Exigia respostas precisas.
A comunicação quase chegou a aquecer o ambiente. Indagações
formuladas aos estaleiros, laboratórios, estabelecimentos de
controle. Mensagens de rádio dirigidas aos estabelecimentos que
forneciam os componentes corriam em redor da Terra. No curso dessa
conferência, Terrânia chegou a bloquear por meia hora dois terços
de todas as comunicações radiofônicas.
Para a
Terra este era o primeiro e o único indício de que havia alguma
coisa no ar. Terrânia só fazia uso de seus direitos irrestritos
quando havia um perigo muito grave.
Em todas
as estações montadas em satélite foi instaurado o regime de
prontidão rigorosa. A calma reinante nas bases instaladas em
planetas e luas chegou ao fim.
O coronel
Freyt notou um brilho de entusiasmo nos olhos de seus colaboradores.
Não era a favor desse tipo de heroísmo. Por dez minutos, um filme
de Árcon interrompeu a conferência.
Durante
dez minutos, homens perplexos foram bombardeados pelo poderio de
Árcon, que quase chegava a esmagá-los, a aniquilá-los
psiquicamente. O filme de Árcon martelava impiedosamente a alma de
cada um.
— Na
melhor das hipóteses nós e a Terra temos uma chance de um em um
milhão — disse o coronel Freyt depois da representação,
familiarizando-os com a realidade. — As chances não são melhores
nem piores do que sempre foram. Se os aras conseguirem engajar os
mercadores galácticos em prol de seus objetivos, fazendo com que os
saltadores e os superpesados se lancem num ataque à Terra, e não
vejo por que os aras não conseguiriam isso, dentro de pouco tempo o
planeta Terra deixará de existir e nosso sistema terá dois sóis em
vez de um.
“Não
procurem pensar que Árcon com seu poderio irá nos ajudar. Na
opinião do chefe, é justamente esse poderio que representa o maior
perigo para a Terra. Se o gigantesco cérebro positrônico descobrir
nossa posição, nada nos salvará da escravidão, da sujeição a
uma máquina. Se não soubermos defender-nos com nossos próprios
meios, estaremos perdidos. Aguardo suas sugestões amanhã, à mesma
hora.”
* * *
— Bip! —
o receptor de hipercomunicação da Titan emitiu um som.
— Chefe
— exclamou o cadete Mengs, que se encontrava de plantão na sala de
rádio. — A frota de Talamon entrou em posição de mergulho.
Perry
Rhodan fez de conta que não tinha ouvido o título “chefe”
com que seu subordinado se dirigira a ele. Sabia perfeitamente que
nas conversas não-oficiais todos o chamavam de chefe, mas não era
costume iniciar uma mensagem com esta palavra.
Virou a
cabeça. Bell estava sentado na poltrona do co-piloto.
— Como
está o compensador estrutural, Bell?
— Funcionando.
As
engrenagens começaram a girar. A Titan estava preparada para o
salto. Todos os preparativos haviam sido completados. A marca zero
chegou. O enorme cérebro positrônico encarregou-se de todos os
detalhes. Não poderia haver nenhuma falha humana.
A Titan
mergulhou no hiperespaço. Mas desta vez não houve o tremendo abalo
estrutural que costumava surgir quando um objeto se afastava da
estrutura espaço-temporal, e que podia ser medido em qualquer ponto
da Galáxia.
A última
das grandes invenções dos mercadores galácticos, que eram inimigos
encarniçados de Perry Rhodan e da Terra, era o compensador
estrutural. Esse aparelho fora instalado no corpo gigantesco da
Titan. O compensador estrutural havia sido descoberto a bordo da
Ganymed, um couraçado construído pelos saltadores e apresado por
Rhodan. Perry introduzira algumas modificações na nave: colocara
quatro aletas de popa e acrescentara uma ponta de sessenta metros de
comprimento. Lançando mão de todos os recursos de sua tecnologia, a
indústria terrana conseguira copiar esse produto de uma civilização
desconhecida. Todavia, o compensador que se encontrava a bordo da
nave de Rhodan era o único exemplar. Muito tempo se passaria até
que a Terra pudesse iniciar a fabricação em série.
Num tempo
zero, que só podia ser compreendido em termos matemáticos, a Titan
saiu do hiperespaço e passou a flutuar no silêncio demoníaco e no
negrume do Universo. Estava a 8 mil anos-luz do Império de Árcon,
longe de qualquer grupo estelar, num ponto em que a desolação
infinita oferecia proteção contra a descoberta por qualquer nave
dos saltadores.
O cadete
Mengs avisara que a frota de Talamon se encontrava em posição de
mergulho. Num ligeiro impulso concentrado, o patriarca Talamon
avisara a execução dessa parte do plano. Sua frota de mais de
duzentas naves jazia a mais de oito mil metros de profundidade, no
fundo do oceano de amoníaco. Acima dele, borbulhava a atmosfera
venenosa do gigantesco planeta que tinha oito vezes o diâmetro de
Júpiter e no Império de Árcon era considerado um dos mundos que
devia ser evitado: era a peste espacial.
As naves
de Talamon mantiveram-se durante 36 horas em posição de mergulho.
Era o que havia sido combinado com Rhodan. Com isso, se retiraria a
menor justificativa de qualquer suspeita de que Perry Rhodan ainda se
encontrasse no interior do grupo estelar M-13, ou de que o
superpesado Talamon cooperasse com ele. As instalações de rádio da
Titan haviam captado as mensagens de Topthor, e também os chamados
ininterruptos expedidos pelo quartel-general dos superpesados, que
procuravam localizar Talamon. A mensagem de Talamon passou
despercebida, no momento em que estava sendo anunciado tempo e lugar
da assembléia dos patriarcas.
Uma
explicação plausível foi preparada para justificar a conduta de
Talamon, que se mantivera em posição de mergulho. Na mesma mensagem
se anunciaria que, dentro em breve, o patriarca poderia oferecer à
venda quantidades enormes de aço Árcon-T.
Dali a
algumas horas, quando Perry Rhodan, numa ronda pelos postos de sua
nave, passou pela sala de rádio, o cadete Mengs entregou-lhe uma
pilha de mensagens interceptadas e decifradas. Rhodan passou os olhos
por elas sem maior interesse. Subitamente estacou. Bell estava em sua
companhia.
— Leia
isto, gorducho!
Bell
recebeu quatro mensagens para ler. Quando estava na segunda, falou
entre os dentes:
— Será
que estes fabricantes de venenos já estão fazendo das suas de novo?
— quando tinha tomado conhecimento da quarta mensagem, seus olhos
começaram a chamejar. — Se eu puser as mãos nesse ara, o
Gegul...! — disse em tom ameaçador. — Os aras são uma raça
pior que o demônio. Nada é sagrado para estes médicos... Que
médicos, que nada! São assassinos. Fazem de conta que curam e
aliviam o sofrimento para realizar seus negócios imundos. Perry,
você sabe onde fica o planeta Exsar?
O catalogo
estelar dos arcônidas forneceu a informação desejada. O cérebro
positrônico de bordo calculou a distância do salto. 4.375 anos-luz
não representavam nada para a Titan. Perry Rhodan e Reginald Bell
sabiam que esse salto representava um grande risco para eles. Porém
precisavam certificar-se de que a terrível notícia que haviam
recebido era verdadeira.
A dezoito
horas-luz da órbita de Exsar, o sexto planeta da série de nove que
gravita um torno do pequeno sol geminado, a Titan emergiu do
hiperespaço sem ser notada. O tenente Tifflor recebeu ordem para
apresentar-se ao chefe.
Perry
Rhodan explicou a finalidade da missão.
— ...Não
queremos aumentar o risco que corremos, tenente Tifflor. Por isso
levaremos o senhor numa Gazela até dez minutos-luz de Exsar.
Usaremos o transmissor fictício. O senhor chegara ao planeta pela
face oposta ao sol. E um dos poucos mundos dos saltadores. Tem que
encontrar um meio de pousar sem ser notado. Só o senhor sairá da
nave num traje espacial. No momento, uma doença está surgindo em
Exsar, matando diariamente duzentas mil pessoas: mercadores
galácticos com suas mulheres e filhos. Esse planeta foi o único que
se recusou a mandar um patriarca para participar da assembléia dos
saltadores que será realizada em breve. Face a isso, os aras
desferiram o golpe. Recorreram a sua arte diabólica para contaminar
um planeta inteiro. Quero saber se este relato inconcebível
corresponde à realidade. Tifflor, quero que o senhor me traga uma
informação segura sobre se estas mensagens de rádio não são
exteriorizações de um doente mental.
Bateu com
a palma da mão contra as quatro folhas dobradas que segurava entre
os dedos.
— O
cérebro positrônico lhe fornecerá os dados de que precisa. Não se
esqueça de que a Titan está protegida contra a observação. Tudo
entendido, tenente Tifflor?
— Tudo
entendido.
O tenente
Tifflor, o oficial mais jovem e mais bem sucedido da Terceira
Potência de Perry Rhodan, fez continência. Era um rapaz que à
primeira vista não revelava nem a audácia nem a impetuosidade. Mas,
esta sua maneira tinha muita semelhança com a do chefe, Perry
Rhodan.
* * *
Logo após
o pouso em Aralon, o inspetor-chefe Gegul dirigiu-se apressadamente
ao local em que funcionava o Conselho de Médicos. Já anunciara sua
chegada. Quando entrou na ante-sala, decorada com o símbolo médico
dos aras, bastante original e um tanto brilhante, sua secretária
Arga Tasla já o esperava.
Gegul
cumprimentou-a com um ligeiro gesto da cabeça. Seus movimentos
exprimiam a pressa e também um certo triunfo. Estava retornando de
uma missão pessoal, e queria regalar-se com seu triunfo diante do
Conselho de Médicos. Por isso, não parou quando Arga Tasla se
aproximou dele. Quase chegava a encarar a presença dela como um
incômodo.

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