quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-046 - Projeto Aço Arcônida - Kurt Brand [parte 1]



Autor
KURT BRAND


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO



Revisão
ARLINDO_SAN
A Terra serra salva ou destruída?
Os dados armazenados por um cérebro
positrônico de bordo São o fator decisivo

A história da Terceira Potência em poucas palavras:

- O foguete Stardust alcança a Lua e Perry Rhodan descobre a nave exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência (vol. 1).
- Instalação da Terceira Potência, contra a resistência das grandes potências terrenas e defesa contra tentativas de invasão extraterrena (vols. 2 a 9).
- Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos. Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o enigma galático (vols. 10 a 18).
- A Stardust-III descobre o planeta Peregrino, e Perry Rhodan alcança a imortalidade relativa (vol. 19).
- Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24).
- O Supercrânio ataca (vols. 25 a 27).
- Chegada dos saltadores, que pretendem eliminar a concorrência potencial da Terra no comércio galáctico (vols. 28 a 37).
- Primeiro contato de Perry Rhodan com Árcon e atuação como delegado do cérebro positrônico que exerce o governo no grupo estelar M-13 (vols. 38 a 42).

A missão Aralon, durante a qual Perry Rhodan esteve empenhado em obter o remédio contra a peste dos nonus, está concluída. Com isso, a atuação de Rhodan, sócio do cérebro robotizado de Árcon, deveria ter chegado ao fim, ainda mais que com a descoberta da conspiração e a prisão dos conspiradores não há mais nenhum perigo que ameace o Império.
Assim acredita Perry Rhodan, que pede férias ao Regente. Mas o Projeto Aço Arcônida, realizado por Perry Rhodan, pode ser tudo, menos férias...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanQue pede férias ao Regente.

Reginald BellO melhor amigo e confidente de Perry Rhodan.

GegulUm inspetor-chefe dos aras, que comete um engano.

KeklosBiólogo-chefe dos aras.

TalamonCuja vida foi salva por Perry Rhodan. Agora o superpesado terá oportunidade de retribuir de igual para igual.

TopthorChefe de um dos clãs dos superpesados, que fareja um bom negócio.



Aralon, a “fábrica de venenos” do Império dos Arcônidas, não se deu por vencida.
Só uma catástrofe de dimensões planetárias poderia, de uma hora para outra, imprimir novo rumo a uma evolução milenar. Aralon, o quarto planeta do sol amarelo e luminoso de Kesnar, situado a 38 anos-luz de Árcon, nem pensava em desistir do melhor negócio do Universo pelo simples motivo de que o tal do Perry Rhodan andava por aí.
Os aras, verdadeiros gênios em todos os setores da medicina, eram persistentes como os mercadores galácticos; na verdade, eram mercadores galácticos. Vendiam seus excelentes medicamentos a preços extorsivos, enquanto cuidavam discretamente para que em nenhum planeta desaparecesse qualquer das doenças que ameaçavam a vida de seus habitantes.
Em última análise, queriam ganhar, e a ânsia do lucro caracterizava-os como mercadores galácticos.
De repente viram-se atacados, pela primeira vez, por uma doença que teria de levá-los à ruína financeira, se a “infecção” não pudesse ser detida por meios radicais.
A doença chamava-se Perry Rhodan.
Desde que existiam como negociantes de doenças e medicamentos, ele lhes infligira a primeira derrota. Os aras não estavam dispostos a aceitar outra derrota.
O inspetor-chefe Gegul, responsável pela segurança de Aralon, sobressaltou-se em meio aos seus pensamentos quando sua assistente Arga Tasla entrou praticamente sem fazer nenhum ruído e lhe entregou uma mensagem.

Localização realizada pelos rastreadores estruturais:
Tempo 8:75:93 m1; local 105; localização
combinada 103 e 106.
Às 8:75:03,1 a frota de Perry Rhodan realizou uma transição em direção a Árcon, vinda de 13,64 graus.

Arga! — a voz de Gegul vibrava. Não levantou os olhos. Pensava no nome Perry Rhodan com uma expressão malévola, enquanto aguçava o ouvido para verificar se Arga Tasla parara.
Pois não! — disse esta da porta.
Chame Ma-elz e Bro-nud. Quero que estes palermas compareçam dentro de dez minutos.
Ma-elz e Bro-nud, que eram dois homens altos, pararam em atitude de expectativa, depois de terem entrado.
Sentem! — resmungou o inspetor-chefe Gegul e fez um movimento indiferente em direção às poltronas vazias. Passou diretamente ao assunto: — Rhodan saltou para Árcon. Por enquanto o perigo passou. Andaram buzinando nos nossos ouvidos que Rhodan e o cérebro robotizado trabalham de mãos dadas. Como estão as coisas por aqui? Em Aralon não há mais uma única nave com doentes! E eu lhes garanto que a catástrofe se espalhará aos confins da Galáxia se não conseguirmos destruir o tal do Rhodan.
Ainda não temos naves de guerra — foi a observação um tanto prematura de Ma-elz.
Não precisamos delas — exclamou Gegul.
Vamos usar germes? — balbuciou Bro-nud, erguendo-se da poltrona.
De que doença? — perguntou Ma-elz, endireitando o corpo.
Será que não poderiam formular perguntas mais inteligentes? — escarneceu Gegul com um sorriso diabólico. — Vocês só sabem desfiar músicas triviais. Por que será que ninguém se lembra da única idéia acertada? Por quê?
Ma-elz e Bro-nud não lhe fizeram o favor de lembrar-se da idéia acertada. Naquele momento, os dois teriam pago uma boa soma se pudessem ter uma ligeira idéia das intenções do inspetor-chefe.
É claro — disse Gegul depois de alguns segundos de espera. — A solução mais simples não ocorre a ninguém.
Cheio de arrogância, refestelou-se na grandiosidade de uma idéia e sentiu-se um chefe superinteligente e condescendente. Inclinou-se para a frente, fez sinal para que Ma-elz e Bro-nud se aproximassem e só começou a falar quando os auxiliares se encontravam diante de sua escrivaninha.
Minha idéia é esta... — principiou, enquanto Ma-elz e Bro-nud ouviam atônitos.
A idéia do inspetor-chefe Gegul era realmente genial.
Já a essa hora a destruição de Perry Rhodan parecia inevitável, e com ela a do planeta do qual viera.

* * *

Talamon, o superpesado, deu um sorriso gentil para o mensageiro dos mercadores galácticos. Fazia meia hora que o homem subira a bordo da nave capitania, “somente para sondar a opinião de Talamon”.
Os superpesados eram os guerreiros dos mercadores galácticos. Sempre que os saltadores não conseguiam controlar uma estrela, sempre que um mundo se obstinasse em não permitir a escravidão, os superpesados tinham de cuidar do problema, mediante excelente paga.
Desde cedo começaram a distinguir-se dos saltadores, porque no mundo por eles habitado reinava uma gravitação extraordinária. Essa gravitação marcara seu físico. Cada superpesado pesava até quinhentos quilos, e tinha dois metros de altura e um e meio de diâmetro; oferecia um aspecto medonho, embora não pudesse ser considerado disforme.
Os superpesados dispunham das melhores naves de guerra, não comparando com as pertencentes ao Império. Tal qual os saltadores, estavam divididos em clãs, e o chefe de um desses clãs, Talamon, acabara de receber a visita do mensageiro dos mercadores, que pretendia sondá-lo.
O clã de Talamon representava alguma coisa. Dispunha de duzentas naves de guerra. Era só graças a Perry Rhodan que Talamon ainda as possuía e continuava vivo.
E o mensageiro lhe perguntou o que pensava de Perry Rhodan.
Para mim é muita coisa! — resmungou Talamon sem pestanejar, exibindo uma cara de jogador de pôquer.
O mensageiro poderia ter esperado tudo, menos uma resposta dessas. Mostrou-se chocado.
Talamon mostrou um sorriso bondoso, em que havia um pouco de pena.
Não é possível que o senhor realmente esteja pensando assim, Talamon.
Talamon moveu seus seiscentos e cinqüenta quilos com uma agilidade de que ninguém o teria julgado capaz. O rosto de jogador de pôquer desapareceu. Assumiu uma expressão ameaçadora e sua voz trovejante gritou para o mensageiro, enchendo a sala de comando:
Queria que dissesse que Rhodan é uma simples estrela cadente? Sabe que sua pergunta é uma verdadeira ousadia? Já se esqueceu que Rhodan fez a frota robotizada de Árcon trovejar pelo espaço? Eu, Talamon, me vi diante da destruição juntamente com minha frota. Será que isso não é nada? Não venha me dizer que alguém que consegue fazer o que Perry Rhodan fez não é nada.
O mensageiro contorcia-se como um verme.
Talamon viu, mas fez de conta que não estava percebendo nada. Queria cozinhar o sujeito. Fazia questão de que o mesmo se abrisse, contando por que realizara tamanha despesa, entrando em contato pessoal com ele, Talamon, que se encontrava a dois mil anos-luz de Árcon. Uma mensagem pelo hipercomunicador teria saído mais barato.
Vamos logo, mensageiro! O que desejam? Fale! O que querem que eu faça? E quanto estão dispostos a pagar?
Quem me mandou foi Siptar — disse o mensageiro.
Até parece que este camarada quer viver para sempre — resmungou Talamon, numa alusão ao fato de que Siptar era o mais velho dos chefes de clã entre os saltadores.
Antes disso falei com Vontran. Siptar e Vontran perderam muitos parentes no planeta de Goszul...
E daí? — a figura quadrática e esverdeada de Talamon sorriu e esperou.
O boato de que Perry Rhodan esteve envolvido na explosão de bomba ocorrida no planeta de Goszul, quando os patriarcas haviam comparecido à Grande Assembléia, continua a circular insistentemente...
A gargalhada descontraída de Talamon fechou a boca do mensageiro. As lágrimas corriam pela face esverdeada do superpesado.
Quanto mais ria Talamon, mais perturbado se sentia o mensageiro. Aborrecido, finalmente, achou que bastava:
Qual é a graça?
No mesmo instante, Talamon silenciou.
É verdade — disse, dando razão ao mensageiro, não sabendo o que pensar de tão surpreso que ficou. — Não há nada de engraçado. A catástrofe do planeta de Goszul foi um caso muito triste, mas dali a culpar Perry Rhodan pelo fato... Mensageiro, quero dizer-lhe uma coisa.
Há pouco, quando o senhor perguntou o que achava de Rhodan, eu lhe disse que, para mim, ele é muita coisa.
O senhor não gostou. Mas pouco importa que goste ou deixe de gostar: a resposta só poderia ter sido esta. Perry Rhodan é um fator que não pode ser desprezado por ninguém.
Agora o senhor me vem com seus boatos. Achei graça. Sabe por que achei graça? Porque com essas histórias tolas o senhor reconhece sem querer que os saltadores também acham que Perry Rhodan é muita coisa. É verdade ou não é?”
Pois então estamos de acordo — respondeu o mensageiro em tom manhoso.
Talamon encarou-o com uma expressão de perplexidade no rosto.
Rapaz, está na hora de falar — disse em tom enfático. — Senão eu lhe explico como são as coisas quando me torno desagradável. O senhor veio para engajar-me contra Perry Rhodan. É verdade ou não é?
É.
É a primeira resposta clara que o senhor me dá, e é uma resposta muito interessante. Abra-se com o velho Talamon. Sou todo ouvidos.

* * *

Com um forte estouro, a Titan e a Ganymed emergiram do hiperespaço, retornando ao Universo normal.
O cérebro robotizado de Árcon devia ter calculado a posição com seus rastreadores estruturais supersensíveis, pois Rhodan escolhera de propósito um setor tranqüilo do grupo estelar M-13 como ponto final de sua hiper trajetória.
O choque provocado pela transição desvaneceu-se no organismo de todos os ocupantes das naves. Como sempre, Perry Rhodan e seu amigo Reginald Bell foram os primeiros a ter consciência após os efeitos do salto.
Diante deles os sóis do sistema, captados pela gigantesca tela de visão global da Titan, brilhavam num esplendor indescritível. A luminescência reluzente e cintilante, que se refletia em todas as cores e nuances, constituía a melhor apresentação para quem se aproximasse do Império dos Arcônidas.
...quem dera que não fossem tão dorminhocos — suspirou Bell.
Quieto, gorducho! — disse Perry Rhodan em voz baixa. Atrás dele encontrava-se Crest, o arcônida, e a um passo deste estava Thora, uma arcônida garbosa, inteligente e temperamental. Ambos pertenciam às classes mais elevadas da sociedade do império estelar cujos sóis viam brilhar naquele instante.
Bell era um sujeito honesto, um tanto esquentado. Virou-se para Thora. Em seu rosto havia um sorriso de escárnio.
Alguma objeção? — perguntou.
Já está na hora de inventar outra coisa — respondeu Thora com uma serenidade majestática.
Bell soltou um grunhido.
Você não ia entrar em contato com aquele montão de lata para pedir férias? -perguntou, dirigindo-se a Perry Rhodan.
Chamar o gigantesco cérebro robotizado de Árcon de montão de lata era uma enorme irreverência. Mas nem mesmo os dois arcônidas se zangaram com o lugar-tenente de Rhodan, por ter usado tal expressão.
Gucky, que estava sentado ao lado de Reginald Bell, chilreou baixinho:
Montão de lata! Você é um grosso formidável.
No mesmo instante, a sala de comando da Titan encheu-se de gostosas gargalhadas. Gucky, o ser em forma de rato-castor que era telepata e mais uma porção de coisas, acabara de chamar Reginald Bell de grosso formidável. As lágrimas corriam pelas faces de algumas das pessoas que se encontravam na sala de comando. Ao todo eram mais de trinta. Thora soltou uma risada cristalina. Crest não conseguiu dominar o riso e colocou a mão diante da boca. Perry Rhodan sacudia-se de tanto rir.
Seu porcalhão! — rugiu a voz de Bell, superando as risadas.
Num gesto rápido procurou agarrar Gucky, sua mão segurou o vazio. Num instante, o rato-castor se afastara por meio do conhecido salto de teleportação. Chiando em meio ao silêncio que tomara conta do recinto após o grito de Bell, aterrissou nos braços de Thora e perguntou:
Thora, você vai acariciar meu pêlo? Afinal, chamei esse gorducho de grosso formidável.
Num tom ríspido — que chegava a ser duro demais, porque esmagava um episódio altamente humano — a voz do oficial de rádio chamou:
A frota robotizada OGG-06 pede o sinal de código.
Estas palavras trouxeram todo inundo de volta à realidade.
Numa velocidade equivalente a 0,8 vezes a da luz, a Titan deslocava-se juntamente com a Ganymed em direção ao anel externo de fortificações, que envolvia Árcon I, II e III, transformando-o numa fortaleza estelar inexpugnável.
Nas entranhas da gigantesca esfera, que era uma obra-prima da construção astronáutica dos arcônidas, vibravam, rugiam e zumbiam os conversores, transformadores, campos magnéticos, máquinas e conjuntos de dimensões inconcebíveis.
Uma tripulação regular de mil e quinhentos homens faria da Titan a nave de guerra mais potente e perigosa da Via Láctea.
O hipercomunicador estava aquecendo.
Chegara a hora em que Perry Rhodan teria de falar com o cérebro robotizado instalado em Árcon.
Depois de emitido o sinal de identificação, o regente robotizado confirmou a recepção. O gigantesco cérebro positrônico, incapaz de qualquer emoção e capaz de reagir apenas à lógica mais fria e objetiva, estava esperando.
Nem mesmo Perry Rhodan, que se dispunha a conquistar o Universo para a Terra, faria esperar o cérebro que ocupava uma área de dez mil quilômetros quadrados.
Perry Rhodan conhecia suas limitações.
Era mais uma qualidade que o destacava em meio aos demais homens.
Rhodan ofereceu seu relatório ao cérebro instalado em Árcon. Foram palavras lacônicas, precisas, seguras. Não disse tudo, mas aquilo que falou devia trazer a marca da realidade para a lógica fria do gigantesco dispositivo positrônico.
Nenhum esclarecimento foi solicitado.
O alto-falante do hipercomunicador apenas zumbia.
O regente robotizado estava esperando; o cérebro dissociou, controlou, examinou e interpretou o relatório de Rhodan e logo descobriu que a palestra ainda não havia chegado ao fim.
Depois de ligeira pausa Rhodan prosseguiu:
Peço permissão para regressar à Terra a bordo da Titan. Durante o confronto com Talamon, o superpesado, constatamos que a tripulação prevista de mil e quinhentos homens não é suficiente. Nos homens vindos do planeta Terra não podemos esperar o QI com que se costuma contar em Árcon, muito embora uma pequena percentagem dos tripulantes da Titan seja capaz de um desempenho acima da média. Se quisermos fazer desta nave o elemento de força que seus construtores tiveram em vista, o aumento da tripulação torna-se absolutamente indispensável. E no planeta Terra encontrarei os homens de que preciso. Queira examinar meus argumentos.
Durante três minutos ouviu-se o zumbido do hipercomunicador. Finalmente veio a resposta do cérebro robotizado.
Férias concedidas — soou a voz metálica do alto-falante.
A Titan desligou.
Perry Rhodan virou a cabeça e encarou Bell. Este exibia um sorriso satisfeito.
Então você conseguiu tapear esse montão de lata — disse em tom satisfeito. — Se ele soubesse... — subitamente estacou. Lançou um olhar indagador para Perry. — Não está satisfeito por vê-lo enganado?
Não. Não temos nenhum motivo para ficarmos satisfeitos, Bell.
As palavras de Rhodan ressoaram pesadamente pela sala de comando. Bell lançou um olhar pensativo para o amigo. Perry tinha razão. Não havia nenhum motivo para ficarem satisfeitos.
Como uma sombra silenciosa evocada pelos incidentes ocorridos com os aras, a Terra mais uma vez se transformara no centro dos acontecimentos. Os aras também eram mercadores galácticos, e os mercadores galácticos continuavam a representar um perigo para a Terra.
Topthor, o superpesado, conhecia a posição do Sistema Solar; o cérebro gigante de Árcon não a conhecia.
Só no setor do grupo estelar M-13, alguns milhares de naves dos saltadores cruzavam o espaço. Cada uma delas era uma verdadeira fortaleza. O que poderia a Terra contrapor a essa força?
Nada!
Um dos pontos fortes de Perry Rhodan consistia em nunca superestimar a própria força. E o ponto que o preocupava era que dentro em breve os saltadores poderiam partir para um ataque maciço contra a Terra, para transformar o “planeta turbulento” num sol que se consumiria num holocausto nuclear.
Era por isso que pretendia voltar à Terra juntamente com a Ganymed. A alegação apresentada ao cérebro robotizado, de que a tripulação da Titan não era suficiente, desde logo se apresentava com uma fragilidade transparente. O autômato era muito inteligente para cair num golpe tão primário. Estava interessado em acompanhar os saltos da Titan e da Ganymed para descobrir as coordenadas da Terra. Mas havia um fato que o cérebro robotizado não conhecia nem devia conhecer. Tanto a Titan como a Ganymed dispunham do compensador estrutural inventado pelos mercadores galácticos, que tornaria impossível o cálculo das transições realizadas por essas naves.
Bell procurou afastar as preocupações.
Pois faremos com que esses ciganos espaciais também não tenham nenhum motivo para ficarem satisfeitos — disse com a voz zangada. — Vamos preparar a transição, Perry?
Perry Rhodan limitou-se a acenar com a cabeça.


A figura maciça e esverdeada de Talamon surgiu na tela e sorriu para Perry Rhodan.
Há poucos minutos o chamado havia sido recebido pela freqüência de hipercomunicação do superpesado. Agora a pesada nave de guerra emergia lentamente da escuridão do espaço e adaptou sua velocidade à da Titan.
Irei até aí, Perry Rhodan — disse Talamon depois do ligeiro cumprimento. Sua imagem desfez-se. Na Tal VI, a comunicação fora interrompida.
Suspender os preparativos para a transição — disse Rhodan pelo rádio, dirigindo-se à Ganymed. — Todos os dados continuam válidos.
Depois, lançou um olhar para Bell.
Mande que John Marshall e Gucky venham até aqui.
No mesmo instante, uma luminescência surgiu diante de Rhodan. O rato-castor surgiu. Seu dente roedor solitário sorria com satisfação. Procurou acomodar-se no colo de Rhodan.
Ora, Gucky! — disse Rhodan numa ligeira recriminação. — Estamos recebendo urna visita oficial.
Gucky planou para o canto mais afastado da sala de comando. Ninguém riu. Devia haver um motivo importante para que o superpesado surgisse pouco antes que a Titan e a Ganymed iniciassem a transição em direção à Terra. Talamon só se tornara amigo de Perry Rhodan depois da missão executada no planeta Aralon. Todavia, ainda faltava dar uma prova dessa amizade.
Será que Talamon vinha como amigo?
Rhodan compreendeu o olhar preocupado de Crest. Estavam pensando a mesma coisa. Era justamente por isso que Gucky e John Marshall deviam estar presentes durante a palestra, a fim de verificar se as intenções de Talamon eram honestas.
É uma bela nave — disse o superpesado. Depois de dar outra olhada pela sala de comando, acrescentou: — Acontece que dentro de pouco tempo já não será tão bela assim.
Já estava mostrando as cartas.
Perry Rhodan percebeu o sinal de John Marshall. Talamon não estava ocultando nada. Realmente viera na intenção de prevenir Rhodan.
Um momento, Talamon! — Bell pousou uma das mãos no ombro de Perry, enquanto a outra movia a chave que estabelecia contato com o posto de observação da Titan e da Ganymed. Disse para dentro do microfone: — Exerçam vigilância rigorosa em todos os setores do espaço. Liguem os protetores de localização na potência máxima.
Voltando a dirigir-se ao superpesado, que sorria satisfeito diante das instruções, Reginald Bell disse:
Mande que sua nave se coloque entre as nossas. Se quisermos evitar que os outros formulem perguntas indiscretas, não devemos dar-lhes a menor oportunidade para isso. Quer fazer o favor de transmitir as instruções para sua nave?
Um sorriso ainda mais largo cobriu o rosto do superpesado.
Se todos os homens do planeta Terra são tipos tão frios, cautelosos e impetuosos como este, já começo a sentir pena dos saltadores. É claro que mandarei colocar minha nave entre as suas.
As grandes telas de visão global da Titan mostraram que a nave Tal VI, pesadamente armada, descreveu uma curva silenciosa, e, numa manobra elegante, colocou-se numa posição em que estaria a salvo da localização.
Pois bem — disse Talamon em tom indiferente, contemplando Perry Rhodan numa tensão mal disfarçada. — Os aras do planeta Aralon estão zangados com vocês. Do ponto de vista comercial compreendo essa atitude. Mas desde que fiquei sabendo que esses bandidos da medicina andam fazendo suas feitiçarias para que a gente pegue tudo quanto é peste, a fim de poderem vender seus medicamentos a preços extorsivos, não tenho a menor simpatia por eles. Em resumo:
Aralon alarmou os clãs dos aras espalhados pelos quatro cantos da Galáxia. Sempre há doenças. Os mercadores galácticos foram submetidos a verdadeira chantagem. Os aras os ameaçaram de não lhes vender mais remédios, e por isso viram-se obrigados a concordar em lançar um ataque à Terra a fim de transformar esse mundo num sol.”
O ataque já foi iniciado? — perguntou Perry Rhodan em tom tranqüilo, fazendo com que os seiscentos e cinqüenta quilos de Talamon saltassem da poltrona e fitassem o ser terrano.
Perry Rhodan fez pouco caso; Bell estava suando. Era outro dos blefes de Rhodan. Perry não chegara a afirmar que qualquer ataque seria rechaçado, mas deixara Talamon bem menos seguro de si.
Então, Talamon, os saltadores já iniciaram o ataque? — disse, insistindo na pergunta.
Não, os saltadores não se entregam tão depressa. E uma ação dessa envergadura nunca é iniciada sem uma reunião dos patriarcas. Mas os aras já conseguiram alguma coisa. Dentro em breve, haverá uma reunião dos patriarcas. Ninguém sabe onde. Nem mesmo o mensageiro que me procurou para saber minha opinião soube dar essa informação.
Três aproximações — anunciou o oficial do posto de observação. — Uma nave está rastreando o espaço. Distância 0,325 minutos-luz. Velocidade 0,21 abaixo da luz. Irradiando sinais codificados para outra nave. Sinais conhecidos. Trata-se de unidades da frota do superpesado Talamon.
Talamon sorriu por todo o rosto e demonstrou sua admiração indisfarçada para Rhodan e Bell.
Estou curioso para ver se minhas naves não acabarão me encontrando.
Rhodan estendeu a mão num gesto indiferente:
Aposto minha Titan contra sua nave capitania de como não nos descobrirão.
O superpesado sacudiu violentamente a cabeça, escondeu as mãos maciças atrás das costas, deu uma risada matreira e disse:
A história de como o senhor se apoderou da Titan já se espalhou por aí. Não estou com vontade de apostar. Preciso da minha nave — logo voltou a tornar-se sério.
O plano dos aras não o deixa preocupado? Não preciso ser profeta para garantir que os médicos galácticos obrigarão os saltadores a destruir a Terra. E também não sou nenhum tagarela. Vim para ajudar o senhor e seu mundo.
Perry Rhodan viu John Marshall esfregar os dedos.
Quanto terei de pagar por sua amizade, Talamon? — perguntou Perry Rhodan com uma risada.
Ó sublime Via Láctea! — exclamou o superpesado com um aparente entusiasmo.
Fomos feitos para sermos sócios um do outro. Nem mesmo com os arcônidas, tenho conseguido chegar tão rapidamente ao núcleo do negócio.
Pois essa gente dorme de pé! — observou Bell.
De repente, os olhos de Talamon começaram a mexer-se. Caminhavam de um lado para outro, fitando os dois homens tão diferentes no aspecto e no caráter.
Perry e Bell exibiram seus rostos de jogador de pôquer. Essa coincidência deu de pensar à raposa de seiscentos e cinqüenta quilos que atendia ao nome de Talamon. Falando em tom pensativo, disse:
Aos poucos estou compreendendo por que todos nós, que temos alguma coisa a ver com o Império de Árcon, sempre levamos a pior quando lidamos com vocês. Mas vamos conversar sobre o preço. Afinal, de vez em quando tenho de alimentar meu clã. E manter duzentas naves em condições de combate não é nada fácil; custa muito dinheiro. Nem estou calculando o risco que vou assumir...
Perry Rhodan interrompeu-o em tom penetrante:
Quando dei ordem à frota de guerra robotizada de Árcon para que não transformasse as naves do superpesado Talamon em nuvens de gases, assumi um risco que excedia qualquer grandeza astronômica. E eu lhe pedi que pagasse alguma coisa por isso, Talamon?
Ora essa, Perry Rhodan! — respondeu Talamon em tom de recriminação. — Não se fala assim com um velho.
Será que não? — retrucou Rhodan com a mesma voz penetrante. — Nós, os humanos, gostamos de dizer a verdade, mesmo que seja dolorosa. Diga seu preço, Talamon.
John Marshall levantou-se e aproximou-se dos três homens que estavam discutindo. Rhodan olhou para o mais competente dos seus telepatas e perguntou:
O que houve, Marshall?
O telepata entendia seu chefe.
O senhor me pediu que lhe lembrasse que pretendia falar com o cérebro robotizado de Árcon.
Essas palavras representavam um código; traduzida em termos normais, o teor da mensagem seria o seguinte: “Até aqui não notei nenhum pensamento traiçoeiro em Talamon.
Rhodan fez sinal para que Marshall se afastasse.
Isso não tem pressa. Obrigado. Talamon, que não perdera uma única palavra, logo tirou suas conclusões.
O senhor quer recorrer ao auxílio do Império, Rhodan? Não se esqueça de que os saltadores também são arcônidas.
Alguns estão dormindo enquanto outros são salteadores! — interveio Bell em tom mordaz. — Talamon, que raça sem finura é a sua? Realmente, vocês nos deixam preocupados.
O superpesado não teve outra alternativa senão levar a objeção de Bell a sério. Em sua imaginação, a Terra transformou-se num único porto espacial e o poder de Perry Rhodan era imenso.
Diga seu preço, Talamon! — exigiu Rhodan, felicitando-se porque Bell estava participando da discussão. Era ele que descongelava o superpesado, fazendo-o afastar-se do ponto de vista de que teria de ganhar muito dinheiro.
Para uma ação sem limite de tempo e com pleno engajamento de toda minha força de combate... são exatamente duzentas e dezoito naves, peço dez milhões.
Quanto vale uma tonelada de aço Árcon-T? — perguntou Perry.
Aço Árcon-T? O aço de que são feitas as naves espaciais? — Talamon aguçara os ouvidos.
Isso mesmo. Tenho umas trezentas ou quatrocentas toneladas para vender.
Quanto?
Perry Rhodan levantou-se. Por enquanto considerava encerrada a discussão.
Reflita juntamente com seu clã se minha proposta representa um negócio interessante para os senhores. Depois disso, combinaremos um preço entre amigos. Pagando uma taxa de dez milhões por sua atuação em defesa da Terra, ainda terei de receber algumas dezenas de milhões do senhor. Quando voltaremos a encontrar-nos?

* * *

O inspetor-chefe Gegul encontrava-se diante do Conselho de Médicos de Aralon, ao qual teria de apresentar seu relatório.
Nos últimos dias, o ara envelhecera alguns anos. Uma enorme responsabilidade pesava sobre seus ombros. Recebera a incumbência de exercer pressão contra todos os clãs dos saltadores, fazendo, sempre que necessário, sua chantagem contra os patriarcas. O ara diria que, em determinadas circunstâncias, os fornecimentos de remédios poderiam ser suspensos.
Gegul teve que recorrer ao Serviço Intergaláctico de Informações. Sua organização não dispunha de recursos para “trabalhar” todos os clãs dos mercadores num espaço de poucos dias.
Apesar dos esforços que o haviam obrigado a passar várias noites sem dormir, assumia uma atitude orgulhosa diante do Conselho, cujos membros ouviam sua exposição com um prazer cada vez maior.
Gegul só falava sobre ações bem sucedidas. Vez por outra, um sorriso cínico surgia em seu rosto, quando contava como certo patriarca fora convertido à causa dos aras com a força do argumento de que nos próximos dias todo o clã poderia contrair uma doença mortal. Neste caso os aras se veriam obrigados a recusar o pedido de cura, pois no futuro só estariam disponíveis para os amigos.
Quando será realizada a assembléia dos patriarcas, e onde? — perguntou Dumeh, que estava presidindo o Conselho de Médicos.
Dentro de oito dias, em Laros — respondeu Gegul.
Em Laros? — interveio Santek em tom de surpresa, lançando um olhar penetrante para Gegul. — Justamente em Laros, onde realizamos nossas experiências biológicas? Gegul, você devia ter sido abandonado por todos os deuses estelares quando lhe deu na cabeça de sugerir a décima oitava lua do sistema de Gonom como ponto de encontro.
Gegul perdeu parte de sua postura orgulhosa.
Peço licença para expor os motivos que me levaram a sugerir Laros como ponto de encontro dos patriarcas dos saltadores. Parti do fato de que há alguns meses os chefes de clã dos mercadores galácticos realizaram sua assembléia geral no planeta Goszul, situado no sistema 221-Tatlira, a fim de decidir a respeito de Perry Rhodan.
A assembléia geral terminou numa explosão nuclear.
Os saltadores realizaram uma tentativa desesperada de voltar a fixar-se em Goszul, mas esta resultou numa doença misteriosa. Só nós, os aras, constatamos que a mesma é inofensiva. Apesar disso o planeta de Goszul continua a ser considerado uma estrela proibida.
É possível que esses fatos, ainda não esclarecidos, tenham sido encenados por Perry Rhodan, mas não temos prova disso.
Em Laros dispomos de recursos que nos permitem impedir qualquer influência indevida sobre a assembléia dos patriarcas, protegê-la e mesmo destruir quem pretenda exercer tais influências.
Foram estas considerações que me levaram a sugerir a décima oitava lua do planeta Gom, situado no sistema de Gonom, como ponto de encontro dos patriarcas e dos superpesados.”
Gegul sentiu-se aliviado ao notar o sorriso diabólico de Santek. Também Dumeh demonstrou uma amável concordância.
O biólogo-chefe Keklos já foi informado, Gegul? — perguntou Dumeh em tom gentil.
Mais uma vez, o inspetor-chefe inclinou ligeiramente o corpo:
O biólogo-chefe Keklos foi colocado a par de tudo e está de acordo com as medidas por mim sugeridas.
Uma expressão de triunfo brilhava nos olhos de Gegul.

* * *

Topthor, amigo de Talamon e inimigo encarniçado de Rhodan, foi arrancado do sono. Tattoll estava de pé junto à sua cama.
Senhor, o quartel-general dos superpesados quer se comunicar conosco — disse em tom exaltado, continuando a sacudir o braço do chefe do clã.
E daí? — resmungou Topthor. — Quem quer falar comigo deve saber esperar. Diga ao quartel-general que comparecerei.
Não teve muita pressa em chegar ao aparelho de hipercomunicação. Vestiu-se tranqüilamente. Ficou refletindo sobre o que o órgão central poderia querer. Tinha certeza de que não se tratava de uma missão que pudesse render milhões. Qualquer mensagem desse tipo vem com a nota de maior urgência.
Caminhou devagar em direção à sala de comando. A última escotilha abriu-se automaticamente. De longe viu o tremeluzir da tela: era o sinal típico de transmissão pelo hipercomunicador.
Fungou enquanto se deixava cair na poltrona do piloto.
Topthor! — gritou com a voz contrariada.
Quartel-general! — soou a voz metálica do micro-alto-falante. O rosto conhecido de Sirger, segundo patriarca do clã de Darfnur, surgiu na tela.
Diga logo o que aconteceu, meu filho — insistiu o gigante esverdeado em tom pouco gentil.
Nossa mensagem está sendo transmitida pelo disjuntor, Topthor!
O patriarca aguçou o ouvido. Se o disjuntor e o hipercomunicador estavam sendo usados ao mesmo tempo, algo de importante devia ter acontecido. O rosto de Topthor mostrou um certo interesse. Este fato significava algo capital.
Mas os músculos de sua face logo se descontraíram. O quartel-general anunciou data e local da assembléia dos patriarcas.
Teve de acordar-me por isso? — resmungou o velho.
Sirger, que se encontrava no quartel-general dos superpesados, perguntou em tom indiferente:
Não está mais interessado em Perry Rhodan?
Se havia um inimigo cujo nome Topthor nunca esqueceria, esse inimigo era Perry Rhodan.
O que houve com Rhodan? — berrou para dentro do microfone com tamanha força que Sirger, que se encontrava a alguns milhares de anos-luz de distância, imediatamente reduziu o volume do micro-alto-falante.
Será que o senhor não sabe o que aconteceu em Aralon? — perguntou Sirger em tom de espanto. — Na Via Láctea não se fala em outra coisa.
Era um exagero, pois Topthor não sabia de nada.
Acha que posso saber de tudo, Sirger? Encontrava-me com minha frota nas profundezas da Galáxia, a vinte e oito mil anos-luz de distância, onde tive de liquidar um assunto. E esse assunto me custou seis naves.
Não disse qual foi o assunto que teve de liquidar, mas Sirger soube tirar suas conclusões. Em poucas palavras, contou os maus bocados que Perry Rhodan fizera os aras passar. Mencionou o nome de Talamon.
O quê? — voltou a berrar Topthor. — Talamon fugiu? Você está mentindo!
Sirger não estava disposto a permitir que o chamassem de mentiroso, motivo por que formulou sua resposta de tal forma que Topthor começou a engolir em seco. Com a voz mais amável deste mundo, perguntou o que teria feito se estivesse no lugar de Talamon e, de repente, se visse cercado pela frota robotizada de Árcon.
Árcon se meteu nisso? O regente robotizado resolveu intervir? — Topthor não estava acreditando. — Você está me contando isso de maneira muito confusa, Sirger. Fim do contato.
Topthor interrompeu a comunicação, mas não desligou o hipercomunicador.
Quero uma ligação instantânea com Talamon.
A nave capitania de Talamon, Tal VI, não deu sinal de vida. Apenas uma nave de sua frota respondeu, mas ninguém sabia onde se encontrava o chefe do clã. Topthor desligou de vez.
É estranho — murmurou. — Talamon não indicou o lugar em que pode ser encontrado e não responde ao chamado expedido na sua freqüência. Alguma coisa não está certa. Isso não é...
Foi nesse instante que seu receptor captou outra mensagem de hipercomunicação. Mais uma vez era o quartel-general; o rosto de Sirger voltou a surgir na tela.
Será que o senhor pode dizer ao quartel-general onde poderíamos encontrar seu amigo Talamon?
Topthor lançou um olhar idiota para a tela.
Então também não conseguiam encontrar Talamon? Seu nervosismo cresceu. Pensava constantemente em Talamon e em Perry Rhodan.
Estava preocupado com seu amigo Talamon e por causa de Perry Rhodan.

* * *

Talamon estava voltando depois da terceira conferência com Perry Rhodan. Seu respeito para com esse homem crescera quase ao infinito, e não procurava esconder esse fato diante dos membros de seu clã. Mas nem todos concordavam com ele; era principalmente Oxcal que se opunha a toda e qualquer ligação com Rhodan.
Se Cekztel descobrir seu jogo, dentro de pouco tempo o clã de Talamon deixará de existir — advertiu.
Talamon respondeu com um sorriso alegre.
Pois Cekztel não deverá saber — logo se esqueceu desse detalhe. — Mas você não precisa participar do grande negócio que fechei com Rhodan, Oxcal.
Acontece que Oxcal queria participar do grande negócio. Tratava-se de uma quantidade quase inimaginável de sucata de aço Árcon-T. Se o negócio se concretizasse, sobraria uma boa quantia para cada membro do clã.
Onde deveremos buscar o material? — perguntou Oxcal, demonstrando seu interesse pelo negócio.
Talamon sorriu para cada um dos circunstantes. Estava curioso para ver suas caras idiotas. Também fizera uma cara idiota quando Rhodan, respondendo a pergunta idêntica, lhe dissera:
Em Honur.
O quê? Em Honur? — a voz de Cresja vibrava num tom de pavor.
Talamon sorriu e acenou com a cabeça.
Será que também devemos pegar a doença? Aquela maldita peste da alegria? — perguntou Oxcal em tom incisivo.
Vocês são uns tolos — respondeu o velho Talamon. — Até hoje sempre fui eu quem trouxe os negócios mais gordos. Vocês vieram depois e embolsaram o dinheiro. Acham que já estou tão esclerosado que não me lembrei da epidemia de Honur? Acontece que Rhodan também não se esqueceu dela. Por isso, não assumiu qualquer risco quando me contou onde está aquela sucata de primeira. Poderemos dar uma olhada no cemitério de naves existente no planeta proibido. Por enquanto isso basta. Faremos um inventário, realizaremos cálculos aproximados e, se entendi as palavras ditas por Rhodan durante a última conferência, não teremos que pagar nada. Apenas devemos manter-nos afastados de cinco naves cargueiras de grande porte e um couraçado arcônida, que Rhodan pretende reservar para si. Não é um bom negócio, meus irmãos de clã?
Talamon sentia-se triunfante.
Oxcal lembrou-se da epidemia que atacara setecentos tripulantes da Titan. Era uma hipereuforia provocada por ursinhos criados como animais domésticos no planeta de Honur.
Rhodan nos fornecerá o antídoto, Oxcal. Já se esqueceu que esteve em Aralon, e que muitos dos seus tripulantes haviam contraído a doença? Ainda estão doentes?
Oxcal lançou um olhar pensativo para seu patriarca. Não estava gostando do fogo juvenil que brilhava em seus olhos. Devia contê-lo, pois do contrário levaria todo o clã para a desgraça.
Se Cekztel, chefe de todos os clãs, tiver a mais leve suspeita, ele nos exterminará. E se Topthor tiver a menor idéia do que se passa, esquecerá quem é seu amigo. Odeia Perry Rhodan com toda a força do coração.
O rosto de Talamon assumiu um feitio rígido.
Não quero que ninguém de vocês pense em dar uma dica a Cekztel e Topthor. Por isso nossos rádios continuarão em silêncio, tanto na emissão como na recepção.
Levantou-se e dirigiu-se ao seu camarote. Pensava menos no grande negócio que em Perry Rhodan.
Talamon compreendia cada vez melhor que em Rhodan conquistara o mais sincero dos amigos, desde que ele mesmo continuasse sincero.

* * *

A bordo da Ganymed houve um alarma ligeiro.
Há poucos minutos o coronel Freyt, comandante do couraçado de 840 metros de comprimento, regressara depois da conferência com o chefe. Imediatamente quinhentos homens assumiram seus postos. Na popa da nave, os conjuntos e os conversores entraram em funcionamento.
A Ganymed preparava-se para partir.
Só os oficiais da sala de comando conheciam o destino.
O couraçado acelerava lentamente. A distância, que a separava da nave esférica Titan, foi crescendo. O cérebro positrônico de bordo controlava a aceleração.
Numa indiferença quase total, o coronel Freyt, sentado na poltrona do piloto, contemplava a grande tela de visão global. Fazia dez minutos que a Titan, reduzida a um pontinho, desaparecera. A nave Tal VI, comandada por Talamon, estava com todas as luzes apagadas e envolta no campo protetor de localização da gigantesca nave esférica. Naquele instante, transmitia uma mensagem hiperconcentrada pelo super-transmissor da nave de Rhodan.
Bip! — foi o som que se ouviu quando o receptor da Ganymed captou a transmissão.
O coronel Freyt virou-se para o oficial incumbido do cérebro positrônico. Este limitou-se a acenar com a cabeça. Foi só. Freyt não formulou qualquer pergunta. Sabia que as coordenadas do salto e os dados relativos ao tempo estavam armazenados no cérebro positrônico, aguardando o momento de serem utilizados.
Bip! — voltou a fazer o micro-alto-falante da sala de comando.
Foi a resposta à mensagem hiperconcentrada da Tal VI. Uma das naves da frota de Talamon acabara de responder.
A tela de comunicação direta com a sala de rádio iluminou-se diante de Freyt. O oficial de rádio transmitiu o texto decodificado da mensagem.
Mais uma vez, o comandante limitou-se a acenar com a cabeça. A imagem na tela desfez-se e o alto-falante acoplado nesta foi desligado.
Pouco depois, o dispositivo de localização automática começou a funcionar. A Ganymed se deslocava a uma velocidade de 0,74 abaixo da luz.
Mais uma vez, Freyt lançou um olhar indagador para o oficial incumbido do cérebro positrônico.
Mais trinta e três minutos, coronel — disse o oficial.
Depois da primeira operação de localização, a Ganymed modificara o rumo em 8 graus e 32 segundos Pi. Os potentes neutralizadores de pressão devoravam as energias que surgiram no momento em que o couraçado saiu rapidamente do velho rumo, para tomar outro. Só a tela de visão global revelara a alteração. Alguns sóis desapareceram acima da extremidade superior, enquanto outros penetraram pela extremidade inferior.
Nenhum dos homens que se encontravam na sala de comando teve tempo ou vontade de contemplar o espetáculo ímpar da cintilância do grupo estelar M-13. Hoje nada seria capaz de cativar os homens.
Voavam no desempenho de uma missão.
Deslocavam-se exatamente na direção da nave que o dispositivo de localização mantinha sempre ao alcance dos instrumentos de medição.
A velocidade da Ganymed aproximava-se da marca de 0,9 abaixo da luz.
O coronel Freyt fumava. Estava reclinado na poltrona do piloto. Reclinara-se com a mesma tranqüilidade quando, há muitos anos, realizara as missões mais perigosas nos caças de um homem da frota de Rhodan.
Um lampejo fulgurante chamou Freyt de volta para a realidade. O dispositivo automático de localização eliminou a aceleração da Ganymed. O enorme couraçado com as quatro aletas salientes na popa aproximava-se em queda livre da nave que acabara de ser localizada por meio do goniômetro.
Naquele momento, estava sendo captada pelo dispositivo ótico. Vinha do setor de meia nau. Com nitidez formidável, a nave cilíndrica surgiu numa tela adicional, que se encontrava à esquerda de Freyt.
Não demorou a ser identificada. O tenente Feller informou:
É a Tal CLIII.
O alarma ensurdecedor abafou todos os outros ruídos a bordo da nave.
Enquanto isso, o rastreador estrutural rangia.
Vindas do nada, do hiperespaço, três naves surgiram numa proximidade ameaçadora da Ganymed.
Era só o que faltava! — disse o coronel Freyt em tom tranqüilo. Mas logo emitiu suas ordens.
Avisem o chefe!
Estas palavras foram dirigidas à sala de rádio.
Vamos defender-nos com todas as armas se formos atacados!
Esta ordem ressoou nos postos de combate. No mesmo instante, abriram-se as escotilhas dos canhões.
A Ganymed estava preparada para o combate.
Quem seriam esses veículos espaciais que, vindos da transição, continuavam a aproximar-se do couraçado?
São naves dos saltadores!
O aviso veio duas vezes, do posto de localização e do setor de observação ótica.
Digam à Tal CLIII que dê o fora imediatamente — berrou no microfone, dirigindo-se à sala de rádio.
Transição — rangeu a voz do tenente Dreyfus, que se encontrava no setor de rastreamento estrutural. — A Tal CLIII acaba de saltar.
Ataque do verde quarenta e cinco — soou a voz tranqüila do oficial de tiro de Dora 8. O setor Dora 8 encontrava-se no ângulo em que a aleta de popa número um se ligava harmonicamente ao envoltório da nave.
Na sala de máquinas do couraçado, as turbinas começaram a uivar. Milhares de ligações eram feitas e desfeitas. Os últimos conversores começaram a rugir. As usinas de força forneceram energia de sobra aos postos de combate.
Dora 8 disparou durante oito segundos.
Nosso campo de visão é muito bom — disse Freyt, elogiando os homens que se encontravam a meia nau e conseguiram realizar o milagre de colocar simultaneamente três naves cilíndricas nas telas especiais.
Os artilheiros de Dora 8 também mereciam elogios. A parte em que ficavam os propulsores de uma das naves dos saltadores desapareceu. Por menos de meio segundo, ficara sujeita ao impacto direto de um potente raio de desintegração.
Outra transição — fungou o tenente Dreyfus. Sua surpresa cresceu ainda mais.
A Tal CLIII voltou...
A mensagem vinda da sala de rádio saiu ruidosamente do alto-falante:
Mensagem hiperconcentrada vinda da Tal CLIII. O texto decodificado será fornecido em seguida.
O coronel Freyt começou a imaginar o motivo por que a nave de guerra da frota de Talamon voltara e resolvera intervir na luta.
A nave do clã dos superpesados atacou a Ganymed.
Três enormes raios de desintegração precipitaram-se em direção à nave de Freyt, mas todos erraram o alvo. Não chegaram sequer a roçar os campos defensivos do couraçado de 840 metros de comprimento.
Os homens que guarneciam as posições de artilharia esbravejavam de raiva e amargura. Não viam mais nada de bom em Talamon e seu clã.
A voz do coronel Freyt fez-se ouvir:
Lancem ataques simulados contra a Tal CLIII. Os disparos devem passar raspando. Mas quero que essas canoas dos saltadores sejam transformadas em sucata.
Finalmente a mensagem decodificada da Tal CLIII foi fornecida pela sala de rádio.

Realizaremos ataques simulados. Só isso.

No mesmo instante, o campo defensivo da Ganymed foi sacudido por oito impactos. Cascatas de luz irromperam em torno da nave e a violência dos raios desintegradores encurvou os campos energéticos, a fim de que estes pudessem absorver o enorme volume de energia.
Que diabo! — esbravejou o oficial de tiro Bredhus, que se encontrava de serviço em Berta 5, pois a Tal CLIII se colocara diante de uma das naves dos saltadores, protegendo-a e impedindo numa fração de segundo que seus propulsores fossem destruídos.
O coronel Freyt, que acompanhava a batalha com o maior interesse por meio da tela de visão global, exibiu um sorriso quase imperceptível. A Tal CLIII estava desempenhando seu papel com perfeição, tornando a batalha mais difícil para a Ganymed. As duas naves dos saltadores que continuavam em condições de manobrar teriam que acreditar que uma nave dos superpesados se colocara a seu lado na luta contra a Ganymed.

* * *

Por coincidência, Talamon se encontrava a bordo da Titan, quando a menos de trinta minutos-luz de distância irrompeu a batalha espacial entre a Ganymed e as três naves dos saltadores. A intervenção da Tal CLIII e, antes dela, seu desaparecimento no hiperespaço e seu reaparecimento, haviam sido registrados com toda precisão pelos aparelhos de observação.
Então? — limitou-se Perry Rhodan a perguntar e lançou um olhar de esguelha para a figura quadrática de Talamon, quando a meio bilhão de quilômetros dali a Tal CLIII disparou três raios de desintegração contra a Ganymed, errando o alvo.
Talamon ergueu-se ligeiramente.
Em meu clã não existem traidores, Perry Rhodan!
Esta frase lacônica exprimiu o poder que cada patriarca exercia sobre seu clã. Qualquer ordem de comando era uma lei para todos.
Não acha que o aparecimento das três naves dos mercadores é uma coincidência muito estranha? — perguntou Reginald Bell, sem deixar perceber o menor resquício da jovialidade que tantas vezes gostava de demonstrar.
Naquele instante, também a Titan captou a mensagem hipercondensada da Tal CLIII. No momento em que Talamon se dispunha a dar uma resposta áspera, receberam o texto decodificado:
Realizaremos ataques simulados. Num gesto impulsivo, Bell estendeu a mão ao patriarca.
Não leve minhas palavras a mal, Talamon. Uma desconfiança honesta limpa o ambiente.
Talamon pegou a mão e apertou-a cautelosamente. Respirava com dificuldade.
Eu mesmo não acreditava no que estava vendo quando a Tal CLIII lançou o ataque contra a Ganymed, mas...
Não há nenhum mas — interveio Rhodan. — Os ataques simulados contra a nave de Freyt são o único meio de enganar os saltadores e evitar que os mesmos desconfiem de que o senhor colabora comigo. Talamon, acho que ainda seremos bons amigos.

* * *

Enquanto a luta continuava, o coronel Freyt pensava com freqüência cada vez maior na missão que tinha a cumprir. A Tal CLIII realmente tornava muito difícil alcançar o fim da batalha desigual. A cada minuto crescia o perigo de que os saltadores pudessem surgir com outras unidades de sua frota, pois as duas naves cilíndricas que ainda estavam em condições de combate emitiam constantemente seus pedidos de socorro.
Uma ligeira vibração sacudiu a Ganymed. Um abalo percorreu a gigantesca nave. Oito ou nove posições de artilharia haviam disparado suas peças ao mesmo tempo. O espaço escuro transformou-se num plano aberto em leque. Os dedos luminosos precipitaram-se para as profundezas do cosmos e atingiram as duas naves dos saltadores.
Duas nuvens alaranjadas espalharam-se para todos os lados. O metal derretido gotejou, as energias dos conversores explodiram em terríveis relâmpagos, os campos magnéticos entraram em colapso em meio a uma série de curto-circuitos.
As três naves cilíndricas dos saltadores estavam sem a popa. Reduzidas a destroços, deslocavam-se em queda livre descontrolada e seus tripulantes aguardavam o fim.
Era assim que os saltadores costumavam tratar seus inimigos: só se contentavam com a destruição total.
Por cima de tudo isso, a esfera monstruosa aproximou-se em meio a um ribombo, vinda das profundezas do espaço.
A Titan acabara de chegar.
O aparecimento da nave de um quilômetro e meio de diâmetro devia ter provocado um choque na Tal CLIII. Afastou-se com uma tremenda aceleração.
Foi este o quadro e a ação que se apresentaram aos sobreviventes das três naves dos saltadores. Compreendiam a fuga do superpesado e estavam mais do que nunca convencidos de que o fim estava próximo.
Mas a Titan e a Ganymed não demonstraram o menor interesse pelos destroços desgovernados. As naves aceleraram e não tardaram em desaparecer do raio de alcance ótico dos náufragos.
Menos de dez minutos depois, quatorze naves cilíndricas penetraram no setor em que se desenrolara a luta, vindas do hiperespaço. Realizadas em breves intervalos, quatorze transições provocaram um abalo enorme na estrutura espacial.
A Titan, que voltara a acolher a Tal VI em seu campo superpotente de defesa anti-localização, registrou todas as transições.
Os olhos de Rhodan chamejavam. Um sorriso disfarçado brincava em torno de seus lábios. Lançou um olhar para o setor de localização estrutural. O oficial, que se encontrava em atitude tensa na poltrona, fez um gesto rápido com a cabeça.
Transição dupla! — anunciou, e forneceu as coordenadas e a direção do salto.
Agora Perry Rhodan sorria satisfeito. Estava pensando no cérebro robotizado de Árcon. Ali também fora medido o salto duplo. O robô gigantesco olhava tudo com algumas centenas de milhares de relês arcônidas, aguardando o segundo salto da Titan e da Ganymed. Esperava o momento de, mediante os cálculos da transição, descobrir o ponto exato da Galáxia em que ficava a misteriosa Terra, o mundo de que vinha Perry Rhodan.
E Perry Rhodan conseguira iludir o cérebro positrônico.
Em vez da Titan, a Tal CLIII saltara juntamente com a Ganymed em direção ao centro da Via Láctea. A Titan, aproveitando esse tipo de camuflagem, permanecia no interior do grupo estelar M-13, pois tinha de realizar algumas tarefas importantes antes de regressar à Terra ameaçada.
O regente positrônico esperou em vão pelo segundo hipersalto espacial.
O salto não veio, e o compensador estrutural da Ganymed absorveu o abalo da estrutura espacial. Enquanto a Tal CLIII, desenvolvendo sua velocidade normal, equivalente à da luz, tomava o rumo do seu setor de origem no grupo estelar, a nave do coronel Freyt executou a segunda transição. Mas também esta não se dirigia exatamente para o setor secundário da Via Láctea onde havia um sistema que incluía o planeta Terra.


O superpesado Topthor recebeu a notícia irradiada por seu quartel-general: a Titan e a Ganymed, pertencentes à frota de Perry Rhodan, haviam tomado o rumo do centro da Galáxia, provavelmente para dirigir-se ao seu sistema solar.
Sirger — disse o velho de tez verde com um sorriso feroz — o quartel-general está exalando gentilezas por todos os poros. Será que já posso saber o que há atrás de tudo isso?
Não era tão fácil enganar um homem desconfiado como Topthor.
A figura de Sirger, locutor de comunicações do quartel-general dos superpesados, projetada na tela, não era nada agradável.
Ainda não conseguimos localizar seu amigo Talamon — disse desanimado.
Eu também não consegui — resmungou Topthor, ainda mais aborrecido que antes. Começava a preocupar-se realmente com o destino de Talamon e de sua frota. — Ontem não houve uma pequena batalha entre três naves dos saltadores e a Ganymed de Rhodan? Será que as informações que recebi não são corretas? Pelo que soube, a Tal CLIII, que é uma nave de guerra da frota de Talamon, realizou uma ação corajosa, batendo-se com a Ganymed a fim de dar aos mercadores uma chance de escapar, mas esse maldito Rhodan apareceu com a Titan e...
Tudo isso é verdade, senhor. As informações que tenho diante de mim dizem a mesma coisa. Mas a Tal CLIII viu-se obrigada a fugir quando apareceu a Titan, e desde então não dá mais sinal de vida. Estamos tateando no escuro.
Rhodan... — exclamou Topthor em tom de ameaça, no qual vibrava um ligeiro desespero. — Onde esse sujeito aparece, sempre há uma porção de acontecimentos inconcebíveis e de problemas. Fim, Sirger. Obrigado pelo chamado e por seu interesse.

* * *

Numa viagem-relâmpago, a Ganymed acabara de regressar à Terra. Depois de três saltos realizados sob a proteção do compensador estrutural, voltara a ingressar no espaço normal entre as órbitas da Terra e Marte.
Apoiada sobre as quatro aletas de popa, a gigantesca Ganymed estendia o corpo enorme em direção ao céu. A ponta desapareceu nas nuvens densas que pairavam sobre o deserto de Gobi.
Nuvens sobre Terrânia! Para o coronel Freyt isso não prenunciava nada de bom, embora não fosse supersticioso. Terrânia, o minúsculo trampolim situado no deserto de Gobi, de onde Perry Rhodan se pusera a caminho a fim de conquistar o Universo para a Terra, era o pólo de força da Terra. Para os homens, representava uma concentração inconcebível de poder.
O coronel Freyt estava pensando nesse poder enquanto o carro o fazia passar em velocidade vertiginosa junto aos cruzadores pesados e à Stardust-III.
Acontece que a Terra possuía menos cruzadores pesados que os dedos existentes numa única mão de um homem. Os mercadores galácticos e os superpesados poderiam lançar mão de mil vezes esse número. E, se o coronel Freyt ainda se lembrasse do poderio do Império de Árcon, não poderia fazer outra coisa senão sacudir a cabeça.
Nossa chance é de um contra um milhão — disse com a voz baixa e o desânimo ameaçava apoderar-se de seu espírito. Mas logo lembrou-se das experiências pelas quais havia passado nos últimos anos juntamente com Perry Rhodan, e não pôde deixar de murmurar: — Nossas chances nunca foram melhores. Temos Perry Rhodan, e os outros não o têm.
Alguma coisa começou a vibrar em seu interior, a irradiar força para seu espírito. Essa força vinha de uma distância de 30 mil anos-luz, isto é, do lugar em que Perry Rhodan se encontrava a bordo da Titan.
Meia hora depois da chegada do coronel Freyt, foi realizada a primeira conferência.
Major Nyssen, quando o compensador estrutural estará instalado na nave Solar System?
Foi assim. Freyt disparou uma pergunta após a outra. Exigia respostas precisas. A comunicação quase chegou a aquecer o ambiente. Indagações formuladas aos estaleiros, laboratórios, estabelecimentos de controle. Mensagens de rádio dirigidas aos estabelecimentos que forneciam os componentes corriam em redor da Terra. No curso dessa conferência, Terrânia chegou a bloquear por meia hora dois terços de todas as comunicações radiofônicas.
Para a Terra este era o primeiro e o único indício de que havia alguma coisa no ar. Terrânia só fazia uso de seus direitos irrestritos quando havia um perigo muito grave.
Em todas as estações montadas em satélite foi instaurado o regime de prontidão rigorosa. A calma reinante nas bases instaladas em planetas e luas chegou ao fim.
O coronel Freyt notou um brilho de entusiasmo nos olhos de seus colaboradores. Não era a favor desse tipo de heroísmo. Por dez minutos, um filme de Árcon interrompeu a conferência.
Durante dez minutos, homens perplexos foram bombardeados pelo poderio de Árcon, que quase chegava a esmagá-los, a aniquilá-los psiquicamente. O filme de Árcon martelava impiedosamente a alma de cada um.
Na melhor das hipóteses nós e a Terra temos uma chance de um em um milhão — disse o coronel Freyt depois da representação, familiarizando-os com a realidade. — As chances não são melhores nem piores do que sempre foram. Se os aras conseguirem engajar os mercadores galácticos em prol de seus objetivos, fazendo com que os saltadores e os superpesados se lancem num ataque à Terra, e não vejo por que os aras não conseguiriam isso, dentro de pouco tempo o planeta Terra deixará de existir e nosso sistema terá dois sóis em vez de um.
Não procurem pensar que Árcon com seu poderio irá nos ajudar. Na opinião do chefe, é justamente esse poderio que representa o maior perigo para a Terra. Se o gigantesco cérebro positrônico descobrir nossa posição, nada nos salvará da escravidão, da sujeição a uma máquina. Se não soubermos defender-nos com nossos próprios meios, estaremos perdidos. Aguardo suas sugestões amanhã, à mesma hora.”
* * *

Bip! — o receptor de hipercomunicação da Titan emitiu um som.
Chefe — exclamou o cadete Mengs, que se encontrava de plantão na sala de rádio. — A frota de Talamon entrou em posição de mergulho.
Perry Rhodan fez de conta que não tinha ouvido o título “chefe” com que seu subordinado se dirigira a ele. Sabia perfeitamente que nas conversas não-oficiais todos o chamavam de chefe, mas não era costume iniciar uma mensagem com esta palavra.
Virou a cabeça. Bell estava sentado na poltrona do co-piloto.
Como está o compensador estrutural, Bell?
Funcionando.
As engrenagens começaram a girar. A Titan estava preparada para o salto. Todos os preparativos haviam sido completados. A marca zero chegou. O enorme cérebro positrônico encarregou-se de todos os detalhes. Não poderia haver nenhuma falha humana.
A Titan mergulhou no hiperespaço. Mas desta vez não houve o tremendo abalo estrutural que costumava surgir quando um objeto se afastava da estrutura espaço-temporal, e que podia ser medido em qualquer ponto da Galáxia.
A última das grandes invenções dos mercadores galácticos, que eram inimigos encarniçados de Perry Rhodan e da Terra, era o compensador estrutural. Esse aparelho fora instalado no corpo gigantesco da Titan. O compensador estrutural havia sido descoberto a bordo da Ganymed, um couraçado construído pelos saltadores e apresado por Rhodan. Perry introduzira algumas modificações na nave: colocara quatro aletas de popa e acrescentara uma ponta de sessenta metros de comprimento. Lançando mão de todos os recursos de sua tecnologia, a indústria terrana conseguira copiar esse produto de uma civilização desconhecida. Todavia, o compensador que se encontrava a bordo da nave de Rhodan era o único exemplar. Muito tempo se passaria até que a Terra pudesse iniciar a fabricação em série.
Num tempo zero, que só podia ser compreendido em termos matemáticos, a Titan saiu do hiperespaço e passou a flutuar no silêncio demoníaco e no negrume do Universo. Estava a 8 mil anos-luz do Império de Árcon, longe de qualquer grupo estelar, num ponto em que a desolação infinita oferecia proteção contra a descoberta por qualquer nave dos saltadores.
O cadete Mengs avisara que a frota de Talamon se encontrava em posição de mergulho. Num ligeiro impulso concentrado, o patriarca Talamon avisara a execução dessa parte do plano. Sua frota de mais de duzentas naves jazia a mais de oito mil metros de profundidade, no fundo do oceano de amoníaco. Acima dele, borbulhava a atmosfera venenosa do gigantesco planeta que tinha oito vezes o diâmetro de Júpiter e no Império de Árcon era considerado um dos mundos que devia ser evitado: era a peste espacial.
As naves de Talamon mantiveram-se durante 36 horas em posição de mergulho. Era o que havia sido combinado com Rhodan. Com isso, se retiraria a menor justificativa de qualquer suspeita de que Perry Rhodan ainda se encontrasse no interior do grupo estelar M-13, ou de que o superpesado Talamon cooperasse com ele. As instalações de rádio da Titan haviam captado as mensagens de Topthor, e também os chamados ininterruptos expedidos pelo quartel-general dos superpesados, que procuravam localizar Talamon. A mensagem de Talamon passou despercebida, no momento em que estava sendo anunciado tempo e lugar da assembléia dos patriarcas.
Uma explicação plausível foi preparada para justificar a conduta de Talamon, que se mantivera em posição de mergulho. Na mesma mensagem se anunciaria que, dentro em breve, o patriarca poderia oferecer à venda quantidades enormes de aço Árcon-T.
Dali a algumas horas, quando Perry Rhodan, numa ronda pelos postos de sua nave, passou pela sala de rádio, o cadete Mengs entregou-lhe uma pilha de mensagens interceptadas e decifradas. Rhodan passou os olhos por elas sem maior interesse. Subitamente estacou. Bell estava em sua companhia.
Leia isto, gorducho!
Bell recebeu quatro mensagens para ler. Quando estava na segunda, falou entre os dentes:
Será que estes fabricantes de venenos já estão fazendo das suas de novo? — quando tinha tomado conhecimento da quarta mensagem, seus olhos começaram a chamejar. — Se eu puser as mãos nesse ara, o Gegul...! — disse em tom ameaçador. — Os aras são uma raça pior que o demônio. Nada é sagrado para estes médicos... Que médicos, que nada! São assassinos. Fazem de conta que curam e aliviam o sofrimento para realizar seus negócios imundos. Perry, você sabe onde fica o planeta Exsar?
O catalogo estelar dos arcônidas forneceu a informação desejada. O cérebro positrônico de bordo calculou a distância do salto. 4.375 anos-luz não representavam nada para a Titan. Perry Rhodan e Reginald Bell sabiam que esse salto representava um grande risco para eles. Porém precisavam certificar-se de que a terrível notícia que haviam recebido era verdadeira.
A dezoito horas-luz da órbita de Exsar, o sexto planeta da série de nove que gravita um torno do pequeno sol geminado, a Titan emergiu do hiperespaço sem ser notada. O tenente Tifflor recebeu ordem para apresentar-se ao chefe.
Perry Rhodan explicou a finalidade da missão.
...Não queremos aumentar o risco que corremos, tenente Tifflor. Por isso levaremos o senhor numa Gazela até dez minutos-luz de Exsar. Usaremos o transmissor fictício. O senhor chegara ao planeta pela face oposta ao sol. E um dos poucos mundos dos saltadores. Tem que encontrar um meio de pousar sem ser notado. Só o senhor sairá da nave num traje espacial. No momento, uma doença está surgindo em Exsar, matando diariamente duzentas mil pessoas: mercadores galácticos com suas mulheres e filhos. Esse planeta foi o único que se recusou a mandar um patriarca para participar da assembléia dos saltadores que será realizada em breve. Face a isso, os aras desferiram o golpe. Recorreram a sua arte diabólica para contaminar um planeta inteiro. Quero saber se este relato inconcebível corresponde à realidade. Tifflor, quero que o senhor me traga uma informação segura sobre se estas mensagens de rádio não são exteriorizações de um doente mental.
Bateu com a palma da mão contra as quatro folhas dobradas que segurava entre os dedos.
O cérebro positrônico lhe fornecerá os dados de que precisa. Não se esqueça de que a Titan está protegida contra a observação. Tudo entendido, tenente Tifflor?
Tudo entendido.
O tenente Tifflor, o oficial mais jovem e mais bem sucedido da Terceira Potência de Perry Rhodan, fez continência. Era um rapaz que à primeira vista não revelava nem a audácia nem a impetuosidade. Mas, esta sua maneira tinha muita semelhança com a do chefe, Perry Rhodan.

* * *

Logo após o pouso em Aralon, o inspetor-chefe Gegul dirigiu-se apressadamente ao local em que funcionava o Conselho de Médicos. Já anunciara sua chegada. Quando entrou na ante-sala, decorada com o símbolo médico dos aras, bastante original e um tanto brilhante, sua secretária Arga Tasla já o esperava.
Gegul cumprimentou-a com um ligeiro gesto da cabeça. Seus movimentos exprimiam a pressa e também um certo triunfo. Estava retornando de uma missão pessoal, e queria regalar-se com seu triunfo diante do Conselho de Médicos. Por isso, não parou quando Arga Tasla se aproximou dele. Quase chegava a encarar a presença dela como um incômodo.

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