Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
As frotas de guerra estão prontas
para entrar
em ação. Mas os médicos
galácticos não lutam
com armas convencionais.
A
história da Terceira Potência em poucas palavras:
1971 —
O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan encontra a nave
exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência
(vol. 1).
1972 —
Criação da Terceira Potência, que enfrenta a resistência das
grandes potências terrenas e rechaça as tentativas de invasão
extraterrena (vols. 2 a 9).
1975 —
Primeira interferência da Terceira Potência nos acontecimentos
galácticos. Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura
solucionar o mistério galáctico (vols. 10 a 18).
1976 —
A Stardust-III chega ao planeta Peregrino, e Perry Rhodan alcança o
dom da imortalidade relativa (vol. 19).
1980 —
Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24).
1981 —
O Supercrânio ataca (vols. 25 a 27).
198211983
— Chegada dos saltadores, que querem eliminar a concorrência
potencial da Terra no comércio galáctico (vols. 28 a 37).
1984 —
Primeiro contato de Perry Rhodan com Árcon e sua atuação como
plenipotenciário do cérebro positrônico que governa o grupo
estelar M-13 (vols. 38 a 42).
Curar e
ajudar! É esta a idéia pela qual se guia a ação de Perry Rhodan,
pois não é de seu feitio manter-se inativo enquanto setecentos dos
seus melhores homens, apesar do sono profundo e da alimentação
artificial, caminham para o definhamento lento, mas inexorável.
Acontece
que só os causadores da doença podem ajudar os homens atacados de
hipereuforia. E, se não querem ajudar voluntariamente, deverão ser
obrigados a fazê-lo. Aralon, o Centro de Epidemias, é este o
destino da Titan.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Que tem à sua disposição uma frota de guerra fornecida pelo
cérebro robotizado que governa Árcon.
Julian
Tifflor
— Que alguém deseja colocar no álcool.
Wuriu
Sengu
— O espia do exército de mutantes da Terceira Potência.
Thora
— A bela arcônida que ignora o próprio noivado.
Gucky
— O rato-castor que se recusa a executar uma ordem.
Themos
— Autor da epidemia dos nonus.
Talamon
— Comandante de uma frota dos superpesados.
1
No
interior do grupo estelar M-13, a aproximadamente 34 mil anos-luz da
Terra, um gigantesco planeta gravitava em torno de seu sol
amarelento. Nos catálogos dos arcônidas, esse sol estava registrado
com o nome de Moof e, em conformidade com as normas vigentes, o
planeta era chamado de Moof VI.
Era um
mundo terrível, que não oferecia nada de agradável.
Quando
Perry Rhodan pousou no mesmo, em fins de setembro de 1984, lembrou-se
de Júpiter, muito embora, ao contrário do planeta-gigante do
sistema solar, Moof VI abrigasse seres inteligentes.
Mas que
vida era essa...?
Os moofs
eram seres achatados, mas que mediam alguns metros de altura.
Lembravam medusas superdimensionadas. Eram inofensivos e pacíficos,
comunicavam-se por meio da telepatia, não estavam interessados em
criar uma civilização digna de nota e sentiam-se felizes quando
eram deixados em paz.
Foi o que
Rhodan fez quando constatou que os moofs nada tinham que ver com a
terrível moléstia que atacara sua tripulação. Recolheu cinqüenta
desses seres a bordo da nave, instalou especialmente para eles um
recinto com a atmosfera de metano. No mais, esperava que a capacidade
sugestiva pouco desenvolvida desses seres pudesse substituir, se
necessário, a de seus mutantes, colocados fora de ação.
Antes da
decolagem Rhodan reuniu os tripulantes sadios na sala de comando.
Crest, o cientista arcônida, alto e de cabelos brancos, acomodou-se
numa poltrona. Seus olhos avermelhados já não exprimiam muita
confiança. O destino golpeara com muita força, colocando Rhodan
numa situação quase desesperadora.
O tenente
Tifflor não parecia levar as coisas tão a sério. Sentado diante do
robô de pilotagem, aguardava calmamente as decisões de Rhodan.
Muito se assemelhava ao chefe pelo aspecto exterior, embora fosse
muito mais jovem.
Wuriu
Sengu, o espia japonês, manteve-se de pé, humilde e quieto,
conforme correspondia ao seu gênio.
Com Gucky
não acontecia a mesma coisa. O rato-castor, que era o mutante mais
competente de Rhodan, refestelou-se num sofá. Parecia um rato de
desenho animado, grandemente amplificado com uma cauda larga que lhe
servia de apoio. Possuía pêlo cor de ferrugem e um par de bondosos
olhos caninos de cor castanha. As enormes orelhas e o focinho pontudo
davam-lhe um aspecto engraçado, que iludiria qualquer estranho sobre
a verdadeira natureza do rato-castor. Gucky era telepata, telecineta
e teleportador ao mesmo tempo. Falava correntemente o intercosmo, o
arcônida e o inglês.
Sua voz
aguda quase chegava a chilrear na grande sala de comando da Titan,
uma supernave de um quilômetro e meio de diâmetro.
— Estamos
prontos para decolar, Rhodan. Quer dizer que iremos mesmo a Árcon?
— Não
vejo outra possibilidade. Sabemos que os aras são os causadores da
hipereuforia. Setecentos dos nossos homens contraíram a doença,
entre eles os membros do exército de mutantes e Thora, sem esquecer
Bell. Se alguém puder curá-los, só poderão ser os aras. Quer
dizer que precisaremos colher outras informações em Árcon. Ninguém
sabe onde fica o mundo central dos aras.
— O
cérebro robotizado de Árcon sabe — disse Crest. Subitamente
parecia muito interessado na conversa. — Ele nos ajudará.
— Ajudará
porque é do seu interesse — concordou Rhodan. — Desde o momento
em que o gigantesco cérebro positrônico substituiu os arcônidas no
governo do Império, as coisas melhoraram. Por quê? Porque o cérebro
possui iniciativa. Tenho certeza de que reconhecerá a ameaça que os
aras representam e continuará a nos ajudar. Mais alguma pergunta? Em
caso negativo, vamos decolar.
O tenente
Tifflor levantou a mão como um aluno bem comportado.
— Não
temos prisioneiros a bordo? São aras. Eles não revelaram a posição
de seu mundo?
— Revelaram
— confessou Rhodan. — Mas precisamos da confirmação de Árcon,
pois do contrario poderemos cair numa armadilha. Só o cérebro
robotizado sabe se as indicações fornecidas pelos prisioneiros são
corretas. Quer dizer que não podemos deixar de percorrer o caminho
que leva a Árcon.
— O que
estamos esperando? — chiou Gucky com uma seriedade fora do comum. —
Vamos decolar. Até Árcon é só um pulo de gato.
— Deve
ser um pulo de rato-castor — disse Tifflor, aludindo à capacidade
de teleportação de que Gucky era dotado. — São algumas dezenas
de anos-luz, se não me engano.
— Conseguiremos
fazê-lo com a tripulação reduzida à metade — prosseguiu Rhodan
em tom confiante. — Muito bem. Vamos preparar a decolagem. A
Ganymed receberá as mesmas coordenadas. Voaremos juntos a Árcon.
Árcon era
o centro do império estelar que abrangia o grupo estelar M-13, cujo
diâmetro era superior a duzentos anos-luz. Num dos três planetas
principais do sistema estava instalado o cérebro positrônico, do
qual Perry Rhodan se tornara aliado.
Sua nave,
a Titan, já pertencera aos arcônidas. Ele a roubara, mas num gesto
de generosidade o cérebro permitiu que Rhodan ficasse com a nave,
mas sob uma condição. Rhodan teria de prometer que só a utilizaria
a favor do Império.
A luta
contra os aras foi travada a favor do Império.
A Titan
era uma esfera de 1.500 metros de diâmetro. Segundo a vontade do
comando espacial arcônida, sua tripulação seria de 1.500 homens.
Com uma aceleração de 600 quilômetros por segundo ao quadrado,
levava menos de dez minutos para atingir a velocidade da luz. Depois
disso poderia realizar a transição que a transportaria para o
hiperespaço. Com um único salto através da quinta dimensão, podia
vencer dezenas de milhares de anos-luz.
Antigamente
a Ganymed fora a nave capitania de Rhodan. Foi com ela que viajou da
Terra para Árcon. Também a Ganymed vencia as distâncias por meio
da transição pelo hiperespaço. Contava com dois tipos de
instalação que eram desconhecidos até mesmo ao cérebro onisciente
de Árcon. O transmissor fictício era capaz de desmaterializar
qualquer objeto, e fazer com que voltasse a transformar-se em matéria
no ponto escolhido. Por exemplo: no interior de outra nave. Isso
representava uma arma de potência incomensurável. A segunda
conquista tecnológica obtida da raça dos saltadores era o
compensador estrutural. Uma vez ligado, tornava-se impossível que as
estações goniométricas registrassem as transições da nave. Há
algumas semanas também a Titan dispunha de um compensador desse
tipo.
Nas telas
surgiu uma paisagem primitiva. Montanhas desnudas, cobertas de neve,
subiam ao céu nevoento. Oceanos de amoníaco brilhavam sob os raios
débeis do sol. Não se via nenhum sinal de vida. Depois de se
despedirem, os moofs se haviam retirado. O grave perigo que os
ameaçava fora removido. Não eram eles, mas os aras que deviam ser
apontados como autores dos atos condenáveis. Os aras haviam tentado
conquistar o Império de Árcon, e isso por meios baixos e
traiçoeiros. No curso da luta travada contra os aras, setecentos
homens de Rhodan contraíram a moléstia que costumava ser designada
como hipereuforia. As pessoas atingidas por ela sentiam-se leves e
despreocupadas, dançavam e cantavam. Mas não mais se alimentavam.
Morriam de fome sem que o soubessem. A bem-aventurança era tamanha
que os fazia esquecer tudo, inclusive a comida.
Para
mantê-los vivos, Rhodan mandou que fossem colocados num estado de
sonolência profunda e ininterrupta. Foram alimentados
artificialmente. Mas isso não os poderia salvar, se o auxílio não
viesse logo. E esse auxílio só poderia vir dos aras, pois foram
eles que inventaram a toxina.
— Decolaremos
dentro de dez minutos — decidiu Rhodan. — As coordenadas são
conhecidas, Tiff. Mantenha contato audiovisual com o coronel Freyt.
Freyt era
o comandante da Ganymed.
Gucky
escorregou para baixo do sofá e foi em direção à porta.
— Prefiro
estar no meu camarote quando começar a transição. Aqui vivem
incomodando a gente.
Olharam-no
com um sorriso. Só Crest continuou sério.
— Perry,
quero estar presente quando o senhor estiver falando com o cérebro
robotizado.
— Todos
participarão da palestra — prometeu Rhodan. — Só faço um
pedido. Ninguém deve mencionar o fato de que temos setecentos
doentes a bordo. Só confirmarei a doença de Thora e mais algumas
pessoas. O cérebro raciocina logicamente. Se achar que não estamos
em boas condições de combate, poderá recusar-nos seu auxílio. E
no momento precisamos desse auxílio, infelizmente.
Discutiram
outros detalhes. Os ponteiros do relógio foram avançando.
— Decolar!
Os dois
gigantes levantaram-se como se não tivessem peso, graças aos campos
gravitacionais. A Ganymed era um cilindro de 840 metros de
comprimento. Os campos de propulsão só entraram em funcionamento
quando as naves já se encontravam a alguma distância do solo. O
mundo gigantesco dos moofs mergulhou nas profundezas do cosmo. Quando
as naves atingiram a velocidade da luz, estava reduzido a uma
estrela.
A seguir,
as duas naves desapareceram do espaço normal. Tremeluziram
ligeiramente, seus contornos apagaram-se — e repentinamente não
estavam mais lá.
Haviam
sido engolidas pela quinta dimensão, na qual o tempo e o espaço
perdiam toda importância.
Voltaram a
materializar-se num lugar totalmente diferente, e isso muito rápido,
quase no mesmo segundo.
E com
elas, se materializou tudo aquilo que se encontrava a bordo no
momento da transição.
*
* *
Árcon
ficava quase no centro do grupo estelar.
As duas
naves emergiram do hiperespaço a três meses-luz de seu sol
flamejante. Mantiveram-se numa relativa imobilidade, preparando a
nova fase de sua ação.
Nas
enfermarias da Titan, os doentes descansavam em suas camas. Dormiam
profundamente e não sabiam nada do que se passava em torno deles. Os
reforços chegados da Terra há pouco tempo já se haviam
familiarizado razoavelmente com as instalações da nave, ocupando o
lugar dos incapacitados. Para Rhodan isso representou um processo de
adaptação bastante desagradável. Normalmente levaria semanas para
treinar a equipe da Titan, mas nas circunstâncias em que se
encontrava teve que fazê-lo em poucos dias.
Os médicos
e cientistas cuidavam dos doentes. Embora conseguissem manter vivas
as pobres criaturas, não descobriram o causador da moléstia nem
puderam obter o antídoto.
Rhodan
pediu que Crest, Tiff, Sengu e Gucky comparecessem à sala de rádio,
onde o hipercomunicador já estava ligado. Na sala de controle
contígua, dois médicos aguardavam, para levarem Thora, que estava
apenas semi-adormecida, à presença de Rhodan quando este avisasse.
Nas
grandes telas, tremeluziam as transmissões simuladas e codificadas
do cérebro. Padrões coloridos mudavam de forma sem cessar, formando
uma confusão ininteligível. Só um aparelho de decodificação
devidamente regulado conseguiria interpretar essas imagens. Em
sintonia com as imagens óticas, os alto-falantes emitiam sons
incompreensíveis, que lembravam uma peça de música eletrônica.
Rhodan
cumprimentou os companheiros com um aceno de cabeça e ligou o
transmissor.
— Aqui
fala a Titan. Comandante Thora da família de Zoltral. Perry Rhodan é
o imediato. Peço confirmar a comunicação.
A antena
lançou as palavras de Rhodan no hiperespaço. No mesmo instante, o
receptor situado a três meses-luz de distância retransferiu-as para
o espaço normal. No momento em que falava, Rhodan poderia ser ouvido
a uma distância de vários meses-luz, ou mesmo de várias dezenas de
milhares de anos-luz. O alcance do hiper-transmissor da Titan era
inconcebível.
As imagens
da tela consolidaram-se numa figura abstrata, mas esta logo se
modificou. Aos poucos, foi surgindo o gigantesco pavilhão com a
abóbada de metal cintilante.
Era o
cérebro robotizado de Árcon, soberano de um império estelar de
dimensões inimagináveis.
Uma voz
fria, mecânica e impessoal saiu do alto-falante:
— Identificação
aceita. Faixa de onda exclusiva está ativada. Fale.
Mais uma
vez o cérebro providenciara para que ninguém pudesse ouvir a
palestra, que não foi codificada. Rhodan fitou a abóbada de aço
que abrigava o maior cérebro positrônico do Universo. Sentia uma
espécie de simpatia pelo mesmo, muito embora essa palavra nunca
poderia exprimir corretamente o que sentia. De qualquer maneira, eram
aliados — a máquina infalível e ele, Rhodan.
— A
Titan retorna de sua missão. Infelizmente não tivemos êxito.
Impedimos que o planeta Moof VI fosse destruído pela frota arcônida,
mas apenas conseguimos dar um passo em direção ao objetivo. Já
sabemos que os moofs não são culpados da revolução de Zalit nem
podem ser responsabilizados pela hipereuforia. Não têm nada com
isso, tal qual os habitantes do planeta Honur. Os únicos culpados
são os aras. Estão atrás de tudo.
— Os
aras são um clã dos saltadores, que também costumam ser chamados
de mercadores galácticos. Não existem relações amistosas entre os
dois ramos. Os aras praticamente são os médicos e biólogos do
Império.
— De
qualquer maneira são descendentes dos mercadores — disse Rhodan
com uma estranha ênfase. — Não vivem apenas da ciência, mas
também do comércio. Não conseguem livrar-se dessa herança racial.
Infelizmente não negociam apenas com medicamentos, mas também com a
morte.
— Apresente
provas!
Rhodan
suspirou.
— Encontramos
provas bastantes em Honur e em Moof VI. Sabemos que os aras costumam
infestar planetas inteiros para poderem fornecer o respectivo
antídoto em troca de bom dinheiro. O senhor acha que esse método é
correto, Regente?
O cérebro
robotizado levou um segundo para formular a resposta:
— É um
crime contra as leis do Império. Acontece que precisamos dos aras;
se não fosse assim, ordenaria a destruição imediata de seus
mundos.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Concordo
com o senhor. Mas deve haver um meio de obrigá-los a cumprir as leis
sem dispensar seu auxílio. Tenho necessidade urgente de um remédio
contra a hipereuforia. Thora de Zoltral está doente.
Rhodan
teve a impressão de perceber certo nervosismo na voz impessoal, mas
era perfeitamente possível que fosse um engano.
— Thora
está doente? Foi infeccionada pelos aras? Sim, já sei. O senhor já
me informou. Ainda não houve nenhuma cura?
— A cura
só pode ser proporcionada pelos aras.
— Eles
não possuem um mundo nativo propriamente dito; apenas dispõem de
uma série de bases planetárias.
— Por
exemplo, o planeta Aralon — disse Rhodan para atirar a isca.
Quase
cinco segundos se passaram antes que o cérebro robotizado
respondesse:
— Aralon
costuma ser considerado o mundo central dos aras. Como foi que o
senhor soube disso, Perry Rhodan do planeta Terra?
— Alguns
prisioneiros me deram a informação. Não sabia se estavam falando a
verdade. Quer dizer que é correta? Aralon realmente é o mundo
central dos médicos galácticos?
— Sim.
Aralon é o quarto dos sete planetas que gravitam em torno do pequeno
sol amarelo de Kesnar, cuja posição ainda lhe será fornecida. Há
outros detalhes importantes. Aralon não tem armas, nem possui uma
frota espacial propriamente dita. Os aras acham que não têm
necessidade de defender-se contra inimigos. Há milênios cuidam para
que as doenças infecciosas nunca terminem. Toda a Galáxia precisa
dos aras e de seus medicamentos, motivo por que mantém com eles boas
relações. Dessa forma, os aras podem ser considerados o povo mais
poderoso do Império, embora não possuam armas ou naves de guerra.
Ninguém pode obrigá-los a produzir ou entregar um medicamento
contra sua vontade.
— Acontece
que existe um meio de impedir a atuação daninha dos aras. Para o
bem do Império e de todas as raças inteligentes da Galáxia esse
meio deve ser empregado.
— Que
meio é esse? — perguntou o cérebro.
— A
astúcia.
— Queira
explicar melhor o que quer dizer — pediu o Regente sem demonstrar a
menor emoção.
— Antes
de mais nada, quero mostrar-lhe o que será dos arcônidas se os aras
tiverem a idéia de levar a epidemia para Árcon — disse Rhodan e
fez um sinal para Crest. O cientista grisalho desapareceu e pouco
depois voltou com uma cama de rodas, na qual jazia Thora.
Tinha os
olhos abertos e um sorriso radiante brincava nos seus lábios. O
rosto parecia totalmente despreocupado, mas estava magro e flácido.
Nem mesmo a alimentação artificial poderia impedir que os doentes
morressem de fome aos poucos.
— Esta é
Thora de Zoltral, comandante desta nave. Não sabe que está doente,
mas a morte já estende as mãos em sua direção, Regente — falou
Rhodan. — Ainda sorrirá no momento em que estiver morrendo. Os
aras a infeccionaram, e só eles poderão curá-la.
O cérebro
robotizado permaneceu calado durante quase um minuto.
— Explique
a astúcia que pretende empregar, Rhodan. Se conseguir convencer-me
de que um ataque a Aralon não representará qualquer perigo para o
Império, colocarei à sua disposição todos os recursos que estão
ao meu alcance.
Rhodan
suspirou aliviado. Mandou que Thora fosse levada de volta à
enfermaria, apontou para o tenente Tifflor, que se mantinha nos
fundos da sala, junto ao japonês Sengu, e disse:
— Minha
astúcia chama-se tenente Tifflor, Regente. Em certa oportunidade
esse terrano já evitou que um mundo habitado caísse nas mãos dos
mercadores galácticos. Para isso ofereceu-se para servir de chamariz
cósmico.
— Chamariz
cósmico?
— Em seu
corpo foi implantado um minúsculo transmissor, que ininterruptamente
emite seus impulsos. O fator decisivo é que esses impulsos são
propagados instantaneamente, podendo ser captados até uma distância
de dois anos-luz. E são captados telepaticamente, não por meio de
receptores mecânicos. Quer dizer que o tenente Tifflor é um
telepata artificial, que pode transmitir seus pensamentos a uma
distância de dois anos-luz. E, como já ressaltei, a transmissão é
instantânea.
— Para
mim essa técnica ainda é desconhecida. Perry Rhodan, o senhor
dispõe de certas coisas que ainda poderão ser muito úteis ao
Império.
— Foi
por isso que nos tornamos aliados — lembrou Rhodan e prosseguiu em
tom indiferente: — Soltarei Tifflor em Aralon. Um único homem não
despertará a atenção de ninguém e dificilmente será considerado
o arauto de uma potência galáctica. E ele nos manterá
continuamente informados sobre aquilo que acontecer em Aralon. Dessa
forma teremos condições de intervir no momento adequado.
— É uma
missão muito arriscada — ponderou o cérebro.
— Thora
precisa ser curada. E, para que isso aconteça, temos de assumir um
risco. Mas, se considerarmos que além de Thora todo o planeta de
Árcon poderá ser contaminado pela moléstia, o risco não poderá
ser considerado muito grande. Os aras têm de convencer-se de que
poderão servir melhor ao Império se trabalharem honestamente. A
fraude que cometem contra a saúde do Império equivale a um crime de
alta traição.
— Aguarde
até que consiga interpretar os dados disponíveis — pediu o
Regente.
O estalido
do alto-falante mostrava que a comunicação acústica acabara de ser
interrompida. O quadro permaneceu na tela.
Rhodan
desligou o transmissor e dirigiu-se a Tifflor:
— Como
vê, Tiff, muita coisa o aguarda. Ainda não tenho certeza sobre
todos os detalhes de meu plano, mas já sei mais ou menos de que
forma poderemos agarrar os aras. Wuriu Sengu e Thora o acompanharão
para Aralon.
Crest deu
instintivamente um passo para a frente. Arregalou os olhos para
Rhodan.
— Quer
expor Thora a um risco?
Um sorriso
ligeiro aflorou aos lábios de Rhodan.
— Pelo
contrário, Crest. Thora será a primeira pessoa a ser tratada com o
soro. E o tratamento ficará a cargo dos médicos de Aralon. Quando
isso acontecer, teremos a prova de que a epidemia foi causada por
eles, e ainda saberemos que é curável.
— Como
pretende levar os aras a agir dessa forma?
— Ainda
não tenho muita certeza sobre este ponto. Porém pensarei nisso e já
deverei ter a solução quando nos encontrarmos perto de Aralon. Este
mundo que tem as costas protegidas por uma potência militar capaz de
fazer frente a qualquer inimigo.
— Pelo
que acabamos de ouvir, Aralon não dispõe de qualquer armamento...
— ...mas
nem por isso estará indefeso, Crest. Acredito que os aras tenham
amigos poderosos, que intervirão na hora adequada.
— Os
aras têm amigos? Quem seriam?
— Afinal,
eles pertencem à raça dos saltadores — lembrou Rhodan, mas
interrompeu-se com um gesto apressado. O alto-falante emitiu um
estalido. Ligou o receptor. Poucos segundos depois, a voz fria do
Regente fez-se ouvir:
— O sol
Kesnar fica a trinta e oito dos seus anos-luz de Árcon. Os outros
dados conferem com aqueles que lhes foram fornecidos pelos
prisioneiros. Concedo-lhe plenos poderes para agir conforme julgar
acertado. Além disso, coloco à sua disposição uma frota de guerra
dirigida por robôs, que por ora obedecerá exclusivamente às suas
ordens. A identificação será realizada pela mesma freqüência que
estou usando para falar com o senhor. Dentro de dez minutos, as
respectivas unidades estarão à sua disposição. Informe-me sobre
sua atuação assim que a mesma seja iniciada. Atenção, uma
advertência. Não ataque Aralon enquanto não houver um motivo muito
sério. Por agora não podemos dispensar os aras. Ainda existem
doenças nos mundos do Império.
— É
verdade, Regente. E as doenças continuarão a existir enquanto os
aras puderem desenvolver sua ação nefasta.
— O
senhor acaba de receber minhas instruções — disse o Regente sem
demonstrar a menor emoção. — Siga-as, se quiser que continuemos
como sócios. De resto, desejo-lhe êxito e muitas felicidades, Perry
Rhodan. Se precisar de auxílio, entre em contato comigo. Fim.
Rhodan
esperou até que a imagem se apagasse. Depois desligou o transmissor
e o receptor. Com um suspiro de alívio, caiu na poltrona mais
próxima. Ficou sentado por longos segundos, com a cabeça apoiada
nas mãos. Ninguém se atrevia a perturbar seu descanso. Até Gucky
manteve-se quieto.
Crest
parecia impaciente.
Finalmente
Rhodan levantou a cabeça, esboçou um ligeiro sorriso e disse:
— Quase
chego a ter a impressão de que o cérebro robotizado me transformou
numa espécie de policial. Imponha a ordem e eu pagarei. Bem,
enquanto os interesses dele coincidirem com os meus, não há nada a
objetar. Mas ai de nós, no instante em que os nossos interesses
entrarem em conflito. Não sei dizer o que acontecerá quando surgir
essa situação.
— Nesse
caso depomos o Regente e assumimos o governo — chilreou Gucky em
tom confiante e escorregou do sofá para o chão. Ergueu-se e bateu
no peito, onde o pêlo era mais claro. Nessa pose seu aspecto
lembrava o dos velhos ditadores da Terra. — Serei um excelente
ministro do exterior.
Tiff
sorriu.
— Acho
que seria melhor fazer de você o ministro do prazer — sugeriu,
prosseguindo em tom sério. — Quer dizer que o senhor pretende
largar-me em Aralon, senhor Rhodan? O que devo fazer por lá? Afinal,
não conheço aquele mundo.
— Ninguém
conhece o mundo em que ficam os laboratórios médicos e bioquímicos
desses seres. Aposto que saberemos muito mais a seu respeito depois
que o senhor tiver passado alguns dias por lá.
— Thora
irá comigo?
— Terá
de ir com o senhor — confirmou Rhodan. — Sem isso a missão seria
inútil. O que houve, tenente Fuchs?
O oficial
de meia-idade fora incumbido de observar as telas enquanto Rhodan
estivesse entretido na palestra com o cérebro robotizado,
informando-o imediatamente sobre eventuais modificações. Havia
ocasiões em que Rhodan preferia não confiar apenas nos
instrumentos. Normalmente Fuchs exercia as funções de oficial de
plantão da sala de rádio.
— Uma
frota está saindo da transição. Estamos totalmente cercados. São
naves arcônidas.
— Devem
ser os reforços anunciados pelo cérebro — disse Rhodan com a voz
tranqüila e levantou-se. Acompanhado pelos outros, foi à sala de
comando e contemplou as telas panorâmicas coloridas, que ofereciam
um retrato fiel do espaço que os cercava.
A visão
era apavorante.
Os maciços
couraçados da classe da Stardust — formados por esferas de
oitocentos metros de diâmetro — mantinham-se a certa distância.
Os cruzadores e destróieres estavam formados para oferecer-lhes
proteção, com as bocas dos canhões apontadas para a frente. A
frota era comboiada por ágeis caças.
Rhodan
sabia que naquelas naves não havia um único ser humano. Os
comandantes eram robôs positronizados, cujo saber programado excedia
o dos cientistas terranos mais competentes. A manipulação dos
controles das naves seria inteiramente automática, obedecendo a uma
orientação positrônica.
A formação
que se apresentava no espaço era o poder militar mais formidável
que os olhos de Rhodan já haviam visto. E esse poder estava à sua
disposição.
Não se
sentiu tomado apenas pelo orgulho, mas principalmente pela
satisfação. O homem do planeta Terra vencera. Provara que era digno
das tradições de Árcon. O cérebro robotizado tratava o terrano de
igual para igual, chegando mesmo a dar-lhes preferência sobre os
arcônidas, que eram os fundadores do Grande Império.
O homem
provara que compreendera o ordenamento divino que reina no Universo
vivo.
Falando
como quem desperta de um sonho, Rhodan disse com a voz embargada:
— Fuchs,
estabeleça contato direto pela freqüência de Árcon com a nave
capitania da frota arcônida e passe a ligação para a sala de
comando. Quero falar com o comandante da frota.
O tenente
Fuchs dirigiu-se à sala de rádio.
Crest
perguntou:
— O que
quer com ele, Perry? Deve ter recebido suas instruções do Regente.
— A
única instrução que recebeu foi a de obedecer às minhas ordens —
respondeu Rhodan.
Após um
minuto, o rosto rígido de um robô arcônida contemplava a sala de
comando da Titan pela tela do aparelho de comunicação audiovisual.
As lentes cristálicas refletiam as luzes de controle.
— Minha
frota está à sua disposição, Rhodan da Terra — disse, iniciando
a palestra. — Quais são suas instruções?
Rhodan
procurou disfarçar a satisfação que sentia.
— Voaremos
em direção ao sistema de Kesnar. A manobra de imersão será
realizada a três meses-luz de Kesnar. Sua frota permanecerá imóvel,
enquanto minhas naves prosseguirão à velocidade da luz. A partir
deste momento permaneceremos ininterruptamente em contato
audiovisual. Novas Instruções serão transmitidas quando
necessário.
— Entendido.
Dispomos de bombas gravitacionais. A qualquer momento...
— Não
desejo que essas bombas sejam utilizadas. Qual é sua denominação?
— Meu
nome é OR-775, Rhodan da Terra.
— Muito
bem, OR-775. Siga minhas Instruções e aguarde as coordenadas de
salto, que lhe serão fornecidas por meu oficial de rádio. A
transição será realizada dentro de uma hora.
— Entendido.
Ficarei na recepção.
A tela
apagou-se.
Crest, que
estava de pé junto a Rhodan, soltou um suspiro. Rhodan fitou-o com
um ligeiro espanto.
— O que
houve, Crest? Alguma coisa o preocupa? As coisas não estão correndo
muito melhor do que jamais ousaríamos esperar?
O arcônida
confirmou com um aceno de cabeça.
— As
coisas estão correndo bem demais — ponderou. — Sabe lá o que
significa ser comandante de uma frota de guerra arcônida? Há treze
anos me confiaram o comando de uma única nave, embora fosse um
membro da família governante. E o senhor, Perry, é praticamente um
estranho, membro de uma raça subdesenvolvida. Pelo menos, há uma
década e meia não passava disso. E hoje já está agindo como
mandatário do maior império que já existiu no Universo. Perry,
para todos os efeitos o senhor já está de posse de sua herança.
Rhodan
sacudiu lentamente a cabeça.
— Não
vamos precipitar as coisas, Crest. Ninguém tem uma herança para
transmitir a mim. Mas sinto-me orgulhoso porque o cérebro robotizado
me confiou a frota mais poderosa que já vi. Pode crer em mim; as
unidades estão em boas mãos.
O tenente
Fuchs enfiou a cabeça na sala de comando.
— As
coordenadas foram confirmadas. Quer que as transmita ao comandante da
frota?
— Quero,
Fuchs. A transição será realizada exatamente dentro de cinqüenta
minutos. Até lá atingiremos a velocidade da luz. Está na hora de
elaborarmos nossos planos de guerra. Tiff, para isso não posso
dispensar sua colaboração. Também preciso de Sengu. Crest,
gostaria que o senhor também estivesse presente.
— E eu?
— soou a voz queixosa vinda do canto em que Gucky estava deitado em
sua cama, escutando a conversa. Mantinha as grandes orelhas de pé, e
os olhos castanhos contemplavam o mundo metálico da nave com uma
expressão de lealdade. — É estranho, mas tenho a impressão de
que desta vez não terei nada a fazer.
— Pois
está muito enganado, Gucky — objetou Rhodan. — Sob o ponto de
vista passivo, você até vai desempenhar o papel principal. Você é
o único que pode captar os impulsos mentais expedidos por Tiff. Não
dispomos mais de nenhum outro telepata. É bem verdade que não
poderá ir a Aralon. Mas muitas vezes a coisa mais importante não é
a aventura propriamente dita. De qualquer maneira sei que posso
confiar em você. Está satisfeito?
Gucky
soltou um assobio estridente e pouco melódico.
— O que
posso fazer? Pois bem, explique seu plano de guerra. Estou ardendo de
curiosidade.
— Está
o quê? Aprendeu isso com Bell? Acho que mais uma vez você está
confundindo os conceitos — Rhodan esboçou um ligeiro sorriso, mas
seu rosto logo voltou a tornar-se sério. — Pois bem, prestem
atenção. Vou explicar meu plano em ligeiras palavras. Entraremos em
transição daqui a quarenta e cinco minutos e voltaremos a nos
materializar a três meses-luz de Kesnar. Depois vamos...
Rhodan
falou durante meia hora. As pessoas que o ouviam não o interromperam
uma única vez.
O plano
por ele desenvolvido era excitante como um romance fantástico...
2
O sol
Kesnar surgiu nas telas do aparelho de mira da Titan sob a forma de
uma pequena estrela amarela. Uma distância de três meses-luz
transformaria qualquer gigante num anão, e Kesnar poderia ser tudo,
menos um gigante.
A imensa
frota arcônida manteve-se Imóvel em meio ao espaço. Rhodan mandou
fornecer as últimas coordenadas a OR-775. Se a frota de guerra
entrasse em transição, voltaria a materializar-se a poucos
segundos-luz de Aralon.
A Titan e
a Ganymed deslocavam-se à velocidade da luz, aproximando-se do
sistema. A essa velocidade as naves levariam três meses para chegar
a Aralon.
Mais uma
vez chegara a hora decisiva de Tiff.
Thora
voltara a ser mergulhada num sono profundo. A arcônida estava
imobilizada na cama de rodas, presa por cintos de couro, para que não
caísse caso houvesse um movimento inesperado.
Wuriu
Sengu, o espia, um homem que pela simples força de sua vontade sabia
enxergar através da matéria compacta, era, além de Gucky, o único
membro do exército de mutantes que não havia contraído a doença.
Naquele momento, usava o uniforme simples que o identificava como
membro do exército de mutantes da Terceira Potência de Rhodan. Tiff
também estava uniformizado. Não tinham a menor intenção de
ocultar sua identidade.
No pequeno
hangar da Titan em que a Gazela havia sido abrigada, foram discutidos
os últimos detalhes. A Gazela era uma nave de reconhecimento de
longa distância que tinha o formato de um disco. Seu diâmetro era
de apenas trinta metros. No ponto em que ficava a nodosidade central,
a altura chegava a dezoito metros. Todavia, essa pequena nave podia
vencer três anos-luz com um único hipersalto e tinha um raio de
ação relativo de quinhentos anos-luz.
Rhodan
puxou Tiff para o lado.
— Compreendeu
o seu papel, Tiff?
— Muitas
vezes será difícil trair o senhor.
— Acontece
que sua tarefa será precisamente esta. Nunca se esqueça deste
detalhe. Acompanhe todas as palestras com o pensamento, a fim de
manter Gucky informado sobre o que estiver acontecendo. Especialmente
quando os aras estiverem falando, repita mentalmente suas palavras.
Só assim Gucky estará em condições de acompanhar as palestras.
— Faço
votos de que nada aconteça a Thora.
— Não
se preocupe, Tiff. Os aras conhecem perfeitamente o valor do refém
que acreditarão ter em mãos. Por outro lado, farão questão de
provar ao senhor que possuem excelente capacidade no terreno da
medicina. O senhor vai ver, tudo acabará bem, conforme planejamos.
Sim, está na hora. Boa sorte, Tiff. Até a vista.
— Até a
vista. E que seja quanto antes — respondeu Tiff e empertigou o
corpo magro.
Um brilho
resoluto surgiu em seus olhos cinzentos. Abaixou-se e acariciou o
pêlo de Gucky:
— Faça
um trabalho bem feito, meu chapa. Quando eu voltar, apareça. Cocarei
sua nuca durante meia hora.
— Bell
já me cocou durante cinco horas — disse o rato-castor em tom de
desprezo.
— De
qualquer maneira, meia hora é melhor que nada.
Crest deu
uma pancada no ombro de Tiff.
— Boa
sorte, tenente. Cuide bem de Thora.
— Serei
seu anjo da guarda — prometeu Tiff e subiu no passadiço. Sengu já
o aguardava. Acenou com a mão e a escotilha se fechou.
A Gazela
estava pronta para decolar. Rhodan, Crest e Gucky saíram do hangar e
voltaram à sala de comando. Acompanharam os acontecimentos pela tela
de imagem. Durante trinta segundos não aconteceu nada. De súbito a
Gazela penetrou rapidamente no campo de visão, vinda do lado
direito. Com uma aceleração tremenda aproximava-se do sol distante.
De um instante para outro desmaterializou-se. E, simultaneamente,
sairia do hiperespaço a três meses-luz. Depois pousaria em Aralon.
O resto
não passava da mais pura especulação.
E de uma
sorte imensa, se tudo corresse de acordo com os planos.
*
* *
Tiff não
se sentia nada bem.
Ninguém
sabia qual seria a reação dos aras quando uma nave estranha
pousasse em seu mundo central. Sem dúvida, eram considerados um povo
pacato. Isso não significava que não saberiam defender-se,
especialmente quando seus interesses estavam em jogo. De qualquer
maneira, fizeram uma tentativa de submeter os habitantes do planeta
Zalit ao seu controle, por intermédio dos moofs, que eram seres
dotados de poderes sugestivos, a fim de destruir o cérebro
robotizado instalado em Árcon e dominar o Império. Dali se concluía
que os aras não eram tão inofensivos e livres de ambição como
fingiam ser.
Quando a
Gazela voltou a materializar-se, encontrava-se a vinte minutos-luz de
Aralon. Desenvolvendo a velocidade da luz, dirigiu-se ao planeta e
começou a desacelerar.
Tiff teve
tempo para orientar-se através da visão ótica. Aralon estava bem
na sua trajetória. Era uma estrela cintilante que crescia a cada
segundo que passava.
Sengu
ergueu-se do leito. Aproximou-se de Tiff e olhou para a tela.
— Quando
descobrirão nossa presença? — perguntou em tom preocupado.
Tiff deu
de ombros.
— Não
faço a menor idéia. Isso depende do seu sistema de comunicações.
É bem possível que nossa imagem já esteja em suas telas.
— Quer
que coloque o aparelho de rádio na recepção?
— Isto
nunca seria um erro. Talvez consiga estabelecer algum contato. Se
isso acontecer, não responda; deixe por minha conta.
O japonês
confirmou com um aceno de cabeça e passou a lidar com os aparelhos
de rádio.
Os minutos
foram passando; transformaram-se em meia hora.
A
velocidade já fora reduzida bastante. A Gazela deslocava-se a pouco
menos de mil quilômetros por segundo. Aralon era um planeta verde
formado por continentes e oceanos. Lembrava a Terra distante.
No
receptor de ondas normais, havia uma confusão de centenas de vozes.
Sengu não entendeu uma palavra. A língua usada geralmente era o
intercosmo, o idioma do Império Arcônida. Todas as mensagens
estavam codificadas.
Tiff
lançou um olhar para as telas laterais, e viu duas naves cilíndricas
que se aproximavam velozmente da Gazela. Antes que tivesse tempo de
refletir sobre o que devia fazer, já tinham passado. Descreveram uma
curva para a esquerda e, tal qual a Gazela, tomaram a direção de
Aralon.
Tiff nunca
vira uma coisa dessas.
Aproximavam-se
do planeta desconhecido, altamente civilizado, e ninguém lhes dava a
menor atenção.
Não teve
tempo para refletir sobre o fenômeno, sobre o qual Gucky já devia
estar informado, se não estivesse dormindo naquele momento.
Infelizmente não havia possibilidade de receber mensagens por meio
do transmissor implantado em seu corpo. Este só permitia
comunicações em sentido único.
Mais três
naves se aproximaram, vindas da direita. Também tinham o formato de
cilindro. Passaram pela Gazela e, desenvolvendo uma velocidade
tremenda, precipitavam-se em direção a Aralon. Pela tela
amplificadora, Tiff constatou que se acercavam do continente
principal e se preparavam para pousar.
— O
tráfego por aqui é muito intenso — disse em tom indiferente,
dirigindo-se a Sengu, que acompanhara a passagem das naves com o
queixo caído. — Se isso não é uma camuflagem, não nos darão
muita atenção.
Ainda não
desconfiava quanto essa suposição se aproximava da verdade.
Um vôo em
torno do planeta bastou para localizar o porto espacial. Era uma área
livre coberta de plástico. Seu formato era quase circular e o
diâmetro devia ser superior a trinta quilômetros.
Tiff nunca
vira nada parecido fora de Árcon.
As naves
enfileiravam-se no campo de pouso. Eram esferas enormes do tipo
arcônida, gigantes cilíndricos e torpedos que subiam em direção
ao céu. Mais de dez mil naves de centenas de tipos diferentes! As
idas e vindas ininterruptas eram tão perturbadoras que Tiff teve a
impressão de estar sonhando. Era mais ou menos assim que os autores
fantasiosos imaginavam um espaçoporto do futuro. E todos haviam
zombado deles. E agora viu que a fantasia desses autores nem sequer
se aproximava da realidade.
À medida
que baixava, a impressão se tornava mais intensa. As fileiras de
naves se estendiam junto a verdadeiras ruas. Carros velozes corriam
de um lado para outro, estabelecendo a comunicação com os edifícios
que cercavam o campo de pouso em forma de anel.
Tiff
continuou a descer. Descobriu um lugar livre, em que havia espaço
para sua Gazela. Teve a impressão de ser um anão no meio de
gigantes quando tocou suavemente o solo e desligou os propulsores.
Nenhum dos
gigantes parecia ter notado sua presença. Ninguém se preocupou com
ele. Era como se na Terra tivesse estacionado seu carro numa vaga, em
meio a milhares de veículos.
Seu
vizinho era uma nave cilíndrica com mais de trezentos metros de
altura. Tiff viu alguns tripulantes descerem de elevador e entrarem
num carro que os esperava. Nem sequer se dignaram a olhar para o
disco.
Não
conseguiu orientar-se naquela floresta de monstros metálicos.
Recorreu aos instrumentos de bordo para calcular a posição
aproximada dos edifícios compridos e embandeirados que vira pouco
antes do pouso. Acreditava que deviam ser uma espécie de recepção.
Sengu não
tirava os olhos espantados das inúmeras naves espaciais. Naquele
instante, estaria calculando que o número dos pousos e decolagens
chegaria, em média, a cinqüenta por minuto. Não se percebia a
existência de qualquer tipo de controle. Talvez os aras julgassem
isso tão ridículo como se na Terra alguém procurasse orientar pelo
radar os automóveis que quisessem estacionar.
— Isto é
uma coisa inconcebível! — gemeu Tiff e não compreendeu mais nada.
— Então é assim que as coisas se passam num mundo realmente
civilizado. Se me lembro que ainda há vinte anos, a simples
decolagem de um foguete causava uma sensação bem maior...
— Os
tempos mudam. E mudam muito depressa — disse Sengu, resumindo as
idéias que lhe iam pela mente. — Aliás, o carro que deverá
levar-nos já está chegando — enxergava através das paredes da
Gazela. — Quer dizer que isto não é tão desorganizado como se
poderia pensar.
— Um
carro?
— Isso
mesmo. Vem sem motorista. Está sendo teleguiado.
Tiff
sacudiu a cabeça, mas logo se controlou.
— Deixaremos
Thora no camarote. Fecharemos a escotilha de entrada, para que
ninguém possa entrar. Se bem que não acredito que por aqui alguém
esteja ansioso para roubar uma nave. Embora o furto talvez não fosse
notado. Não levaremos armas. Afinal, a raça com que devemos entrar
em contato é pacata.
Proferiu
estas palavras com certa amargura na voz, enquanto bloqueava todos os
controles. O camarote de Thora foi trancado. Fazia pouco tempo que a
arcônida havia recebido uma injeção nutritiva. Estava dormindo.
Saíram da Gazela, trancaram a escotilha e saltaram para o solo duro
e liso.
O carro
estava parado a alguns metros, aguardando-os com a porta aberta. O
lugar do motorista estava ocupado por um painel automático. No
assento de trás, havia lugar para seis pessoas.
Mal
estavam sentados, a porta fechou-se silenciosamente. O veículo
pôs-se em movimento, correu pela estrada espacial, dobrou para a
esquerda e aumentou de velocidade.
A
distância até a extremidade do campo espacial devia ser de vinte
quilômetros, se fosse mantida a mesma direção. Tiff teve trabalho
de sobra para transmitir a Gucky as impressões que desabavam sobre
ele. Naquele instante, gostaria de ver o rosto do rato-castor.
Durante a
viagem vertiginosa, Tiff não pôde fornecer uma descrição
detalhada dos diversos tipos de nave. Contentou-se com um relato
geral, e com o tempo adquiriu uma certa prática em constatar e
transmitir as principais diferenças.
Sengu logo
se cansou da visão monótona. Recostou-se no assento e fechou os
olhos.
Depois de
dez minutos de viagem, o espaço entre as naves foi aumentando, até
que o resto do campo de pouso se estendeu diante dos olhos dos
terranos. O carro seguiu diretamente para o edifício alongado com as
bandeiras, que Tiff já havia observado do alto.
Atravessaram
uma barreira. Surgiu Uma longa fila de carros parados numa espécie
de área de estacionamento. Encontraram uma vaga. O veículo, que
parecia ser dirigido por uma mão invisível, a ocupou. As portas
abriram-se. Tiff fez um sinal para Sengu. Desceram. Ninguém exigiu
qualquer pagamento. Aliás, Tiff não tinha certeza se o autômato se
contentaria com a moeda arcônida, que Crest Ilhes entregara por
precaução.
— E
agora? — perguntou Sengu perplexo. A profusão de naves fora
substituída por uma quantidade enorme de veículos estacionados. —
Para onde vamos?
Tiff
ajeitou o uniforme. Conseguiu esboçar um sorriso débil e apontou
para o edifício mais próximo.
— Para
lá.
Diante do
edifício havia um grande movimento. Humanóides entravam e saíam.
Por mais de uma vez, Tiff reconheceu figuras não-humanas, mas em
virtude da distância não lhe foi possível identificá-las. Um moof
guardado num recipiente pressurizado passou por eles e foi
introduzido no edifício que tinha o aspecto de repartição oficial.
Alguns degraus largos e coloridos levavam a um portal, atrás do qual
se viam certa instalações que tinham o aspecto de guichês.
Tiff
retribuiu o cumprimento de cabeça de um homem alto, que parecia ter
mais pressa do que eles. Quem seria? Um saltador? Ou pertenceria a
outra raça aparentada com os arcônidas?
Caminhando
lentamente e com um sinal cada vez maior de insegurança relativa os
dois terranos aproximaram-se do edifício. Ali saberiam se a teoria
de Rhodan combinava com a prática.
Um homem
robusto de menos de um metro de altura, que envergava um traje
espacial fechado, aproximou-se, lançou-lhes um olhar perscrutador.
Depois prosseguiu no seu caminho. Tiff teve a impressão de ter visto
atrás da lâmina do visor um rosto um formato de sapo, envolto por
uma atmosfera verdecenta.
— Aqui é
o ponto de encontro de todas as raças da Galáxia — cochichou para
Sengu, que observava os arredores com os olhos semicerrados. —
Nunca imaginaria que uma coisa destas realmente pudesse existir.
— Aqui o
movimento é bem maior que em Árcon — disse o japonês. — Isto
se parece mais com a capital de um império.
Era uma
observação amarga e objetiva, cuja justeza não poderia ser
contestada. Tiff reconheceu o fato em seu íntimo. Finalmente viu os
primeiros aras.
Eram
descendentes de colonos arcônidas, tal qual os saltadores ou
mercadores galácticos. Tinham mais de dois metros de altura e eram
albinos. A pele despigmentada, os cabelos brancos e os olhos
vermelhos provavam esse fato. Eram de uma magreza inimaginável;
pareciam feitos exclusivamente de pele e ossos.
Três dos
aras lançaram olhares curiosos para os terranos, mas não
demonstraram maior interesse. Usavam capas brancas com sinais
dourados na altura do peito. Seu andar grave e altivo dava mostras de
uma sensação de autoconfiança e superioridade.
— Eles
não são nem um pouco convencidos — murmurou Sengu quando os três
estavam fora do alcance de sua voz. — Para que servem essas capas
brancas?
— Talvez
sejam médicos — conjecturou Tiff em tom pensativo. — A presença
deles num porto espacial não seria nenhuma surpresa.
Chegaram
aos degraus que davam para o portal e entraram com mais alguns
humanóides. Alguém teria de interessar-se por eles.
À direita
e à esquerda enfileiravam-se os guichês, atrás dos quais estavam
sentados aras femininos que pareciam responder a perguntas que lhes
eram formuladas. Pareciam conversar com os fregueses que se
encontravam diante dos guichês. Empurravam os papéis de um lado
para outro e preenchiam formulários.
Os três
aras de capa branca passavam pela multidão, olhando atentamente para
todos os lados. Parecia que procuravam alguma coisa. Finalmente
retiraram-se por uma porta situada na parte dos fundos.
Tiff deu
uma pancadinha em Sengu e dirigiu-se ao guichê mais próximo.
Uma bela
ara lançou-lhes um olhar bastante interessado.
Tiff
pigarreou. Antes que tivesse tempo para abrir a boca e formular uma
pergunta, a moça disse em intercosmo:
— Aqui
está seu formulário. Faça o favor de preenchê-lo.
Tiff pegou
a folha de papel dobrada e por alguns segundos ficou perplexo,
examinando os caracteres que já lhe eram conhecidos. Aprendera a
língua dos arcônidas através do processo hipnótico. Não teria a
menor dificuldade em responder às perguntas constantes do
formulário.
“Resta
saber se devo responder a todas as perguntas”,
pensou.
Fez um
sinal para a moça e juntamente com Sengu dirigiu-se a uma das
inúmeras mesas espalhadas pela sala. Um instrumento de escrita
protegido por um dispositivo magnético estava à disposição do
visitante.
“Quer
dizer que aqui fizeram a mesma experiência que na Terra”,
pensou Tiff com certa alegria. Colocou o formulário sobre a mesa,
segurou a caneta e ficou perplexo com a primeira pergunta, colocada
logo após o espaço reservado aos dados relativos ao nome, planeta
de origem e o motivo da vinda:
1) De
que tipo é a doença que o trouxe a Aralon? (Indicar a designação
local ou descrever os sintomas.)
Sengu
olhou por cima do ombro de Tiff e fez uma careta.
— Será
que essa gente acredita que todo astronauta é um doente?
Tiff não
respondeu. Continuou a ler:
2)
Deseja obter tratamento direto seguido de alta imediata, ou planejou
um tratamento mais prolongado?
3)
Indique o tipo de tratamento desejado.
4) Está
vinculado ao seguro-saúde Arakos ou a qualquer outro seguro? (Favor
fornecer indicações precisas.)
Tiff
levantou a cabeça e seu olhar encontrou o de Sengu.
— Acho
que fui ao guichê errado — murmurou com a voz insegura. — Talvez
aquilo seja uma seção especial para astronautas doentes.
— Pois
vamos tentar em outro guichê — sugeriu o japonês.
Tiff
dobrou o formulário, o enfiou no bolso e, com uma expressão de
indiferença no rosto, dirigiu-se a um guichê que acabara de ficar
livre. Sem olhá-lo, a ara, bela mas muito magra, empurrou-lhe outra
ficha. Tiff pegou-a, embora já soubesse que era absolutamente igual
à que recebera antes.
Começou a
desconfiar da verdade.
Voltaram à
escrivaninha. Tiff pegou a caneta e começou a preencher o
formulário.
Nome:
Thora da família Zoltral. Sistema de Árcon.
Espécie
de
doença:
hipereuforia.
Local
do
adoecimento:
Planeta Honur, sistema de Thatrel.
Classe:
Primeira.
Seguro:
Paciente particular.
Espécie
de
tratamento:
Direto, com alta imediata.
Sengu
ficou sacudindo a cabeça e olhou cautelosamente para todos os lados.
Aquilo começava a deixá-lo apavorado. Ninguém se interessava por
eles. Naquele recinto, as pessoas se comprimiam como numa feira. O
japonês viu aras em capas brancas, que passavam devagar e em atitude
altiva por entre os recém-chegados, examinando-os. Por vezes,
dirigiam-se a eles, conversavam um pouco e seguiam seu caminho.
— Tiff,
não estou compreendendo. Onde estamos? O que está acontecendo por
aqui? Será que enlouquecemos?
Tiff
colocou sua assinatura embaixo do formulário e piscou para Sengu.
— Não
enlouquecemos coisa alguma, meu caro. Quer saber o que está
acontecendo aqui? Pois é muito simples. Acabamos de pousar em
Aralon, mundo central dos aras, que são uma raça formada
exclusivamente por médicos e o respectivo pessoal auxiliar. Por
isso, seria mais que natural que transformassem o planeta num único
hospital. É isso mesmo, Sengu. Este pavilhão é a recepção do
hospital. Qualquer pessoa que venha para Aralon está doente, quer
ser curada. Acontece que a cura só pode ser encontrada neste lugar,
que é a fonte de todas as doenças. Os aras querem viver, e vivem
das doenças dos outros.
Parecia
que uma venda caía dos olhos de Sengu. Os aras de capa branca eram
médicos que caminhavam à toa, olhando os novos pacientes. Os
numerosos guichês faziam a triagem dos recém-chegados segundo a
espécie da doença e o poder aquisitivo do paciente.
Um
planeta-hospital.
— Isso...
isso é uma coisa inconcebível.
— Será
mesmo? Pois eu acho isto mais que natural. Deveríamos ter sabido
antes de pousarmos. Bem, preenchi o formulário para Thora. Vamos
entregá-lo e aguardar os acontecimentos.
— E nós?
Será que não precisamos fazer algum registro?
— Ao que
parece não existe nenhuma obrigatoriedade de registro para as
pessoas sadias. É bem provável que uma pessoa sadia não permaneça
em Aralon mais tempo que o absolutamente necessário. Trazem os
amigos ou parentes doentes e dão o fora. Mais tarde vêm buscar o
paciente curado. É um sistema muito simples, e provavelmente também
muito lucrativo. Todo um planeta vive disto.
Um sorriso
ligeiro e frio surgiu em seu rosto. Segurou o formulário, e caminhou
em direção ao guichê mais próximo. Sengu seguiu-o. Tinha uma
sensação estranha na região do estômago.
A ara
pegou o formulário, passou os olhos e dirigiu-se a Tiff com um
sorriso amável.
— Essa
Thora da família Zoltral é sua parenta?
A voz
revelava certa dúvida. Qualquer um perceberia imediatamente que Tiff
e Sengu não eram arcônidas. No Império de Árcon havia tantas
raças que a ara não poderia ter a menor idéia sobre a raça a que
pertenciam os visitantes.
— É
claro que não. Apenas a trouxemos a pedido da família.
A moça
confirmou com um aceno de cabeça e lançou uma observação no
formulário, antes de colocá-lo na mesma. Ainda não se deu por
satisfeita. Sorriu mais uma vez, inclinou-se para a frente e fitou os
olhos de Tiff, como se procurasse uma resposta.
— Não
tenho nada com isso, mas gostaria de saber de que sistema é o
senhor. Não deve ser de Heroinka.
Tiff
sacudiu a cabeça com tamanha Torça que qualquer um acreditaria que
para ele Heroinka era o inferno.
— Venho
do planeta Terra, sistema Sol! — disse em tom indiferente. — A
senhora o conhece?
Igual a
Tiff, a moça sacudiu a cabeça violentamente.
— Nunca
ouvi falar. Ainda não tivemos nenhum paciente de lá. Onde fica?
Tiff deu
de ombros.
— Fica
muito longe, a milhares de anos-luz.
A moça
fitou Tiff com os olhos arregalados. Depois soltou uma risada
melódica. Naquele instante, era bela e engraçadinha.
— O
senhor está brincando. Não existe nenhum sistema que fique a mais
de cento e quinze anos-luz daqui.
Tiff sabia
que o conceito de ano-luz era quase idêntico ao da Terra. O planeta
completava sua órbita em torno do astro central num período de
trezentos e oitenta dias.
— Ao
menos não existe nenhum sistema pertencente ao Império.
— A
Terra — disse Tiff, falando devagar e com certa ênfase — não
pertence ao Império.
A ara
parou de rir. Escreveu algumas observações no formulário e
atirou-o numa caixa metálica. Ouviu-se um chiado, e formulário
desapareceu.
Abriu uma
gaveta, tirou um disco metálico e entregou-o a Tiff.
— Com
isto o senhor pode pagar a uma ambulância que tirará Thora de sua
nave. Será levada automaticamente ao local indicado. Entregue a
paciente e volte à sua nave. Desejo-lhe uma longa vida.
Dirigiu-se
ao próximo visitante, que era uma coisa disforme com um traje
pressurizado e uma máscara.
Tiff
arrastou Sengu consigo. O disco metálico desaparecera no seu bolso.
Quando se viram do lado de fora, respiraram aliviados. O ar era puro
e tépido. Lembrava um dia de primavera na Terra.
— Como é
difícil chamar a atenção de alguém num lugar como este — disse
Tiff em tom preocupado. — Até parece um hospital da Terra. Ali
também se pode entrar sem que ninguém lhe pergunte quem é e o que
deseja. Isso num grande hospital, naturalmente. Mas experimente
entrar num edifício de apartamentos. Todo mundo o olhará e
perguntará quem é você e com quem quer falar. E o planeta em que
nos encontramos forma um hospital. Não é de admirar que nem queiram
saber quem somos. O que lhes interessa é que tragamos um paciente e
o respectivo dinheiro...
— O que
vamos fazer? Não podemos entregar Thora e voltar sozinhos.
— Não
tenho a menor intenção de fazer isso. A moça já colocou algumas
informações no formulário. Na central, que reúne todas as
informações, começarão a desconfiar. Especialmente quando lerem a
referência à Terra.
— Acredita
que já ouviram falar no planeta Terra?
Tiff
acenou com a cabeça.
— De
qualquer maneira desconfiarão. Tanto faz que nunca tenham ouvido
falar em nosso planeta, ou que disponham de informações que não
poderão ser nada tranqüilizadoras. Estarão muito interessados em
travar conhecimento conosco. Aposto que já nos estão esperando no
lugar para onde Thora será levada.
Perto do
parque de estacionamento que já haviam visto encontraram outro.
Havia por ali veículos dos mais variados tipos, capazes de abrigar
pacientes de todas as espécies. Um deles tinha o formato de grande
aquário e estava cheio de água. Tiff tinha uma fantasia bastante
ativa para imaginar como seria o paciente transportado nesse veículo.
Tirou o
disco metálico do bolso e examinou-o mais detidamente. Possuía uma
marcação. A marcação, também redonda, que se via nas paredes
laterais do aquário transportável, não era idêntica à de sua
ficha.
Não
demoraram em encontrar o carro destinado a eles. Lembrava uma
ambulância como qualquer outra. No lugar da maçaneta, havia uma
fenda. Embaixo, o desenho da moeda.
— É uma
coisa bem bolada — murmurou Tiff. — Até mesmo um analfabeto não
teria a menor dificuldade em orientar-se num lugar como este.
Enfiou
tranqüilamente a ficha na fenda.
A porta
abriu-se silenciosamente, como se uma mão de fantasma a movesse.
Entraram. A porta fechou-se, e o carro foi posto em movimento. Saiu
para o campo espacial e dirigiu-se para a rua larga que passava entre
as naves estacionadas.
— Como é
que o condutor automático vai saber onde fica nossa nave? —
perguntou Sengu com certo ar de triunfo. — Não existe a menor
indicação sobre o lugar em que a Gazela se acha estacionada. Será
que existe uma explicação lógica?
— Acho
que existe — respondeu Tiff e viu as naves gigantescas
aproximarem-se com uma rapidez vertiginosa. Não se sentia o menor
abalo. — Afinal, fomos apanhados por um carro. O cérebro
positrônico registrou a rota percorrida. Basta solicitá-la, e o
minúsculo cérebro robotizado do automóvel fornece os dados, que
são introduzidos na programação da ambulância. Como vê, é muito
simples.
O japonês
desistiu. Sem dizer uma palavra, resolveu aguardar os acontecimentos.
Quando o carro parou suavemente bem embaixo da escotilha de entrada
da Gazela, limitou-se a soltar um ronronar de aprovação.
Thora
estava acordada. Sorriu para os dois homens, sem compreender o que
estava acontecendo. Como as correias a prendessem à cama, Tiff não
achou necessário pô-la a dormir de novo. Por meio do antígravo
portátil tiraram a cama do camarote, levaram-na pelo estreito
corredor e finalmente a colocaram no automóvel que os esperava. A
escotilha de entrada voltou a ser fechada. Quando os dois homens
haviam entrado, as portas do veículo se fecharam e este voltou a
colocar-se em movimento.
Desta vez
seguiu uma rota diferente.
*
* *
Saíram do
campo de pouso. Após quinze minutos, chegaram a uma estrada larga
que começou a descer lentamente, penetrando num túnel que
mergulhava sob a superfície de Aralon.
A
modificação provocou sentimentos um tanto ambíguos na mente de
Sengu.
— Será
que isso não é uma armadilha, Tiff? Por que iriam construir o
hospital embaixo do solo?
Tiff
estava com os olhos semicerrados.
— Não
sei mas posso imaginar. Os aras não apreciam a luz do sol. Não se
esqueça de que são albinos. Conforme o tipo do paciente, preferirão
que o hospital fique no subsolo. Acredito que seremos levados em
primeiro lugar a um posto de triagem.
Nenhum
carro os ultrapassou, mas alguns vieram ao seu encontro. A cada
quinhentos metros, estradas mais estreitas saíam para a esquerda e
para a direita. As lâmpadas redondas presas ao teto a intervalos
regulares espalhavam uma luz mortiça.
Subitamente
o veículo reduziu a velocidade. Dobrou para a direita e desenvolveu
maior velocidade.
— Não
demorará muito para sabermos a quantas andamos — conjecturou Tiff.
— Ficarei satisfeito quando esta incerteza tiver chegado ao fim.
— Eu
também — murmurou Sengu, mas o tom de sua voz não parecia muito
convincente.
Mais
adiante, viu-se uma luz mais intensa. O veículo saiu do túnel,
passou por uma grande praça, subiu numa rampa estreita e parou
diante de uma porta. Depois de alguns segundos, esta se abriu como se
estivesse sendo controlada pelos espíritos. O carro voltou a
deslocar-se e estacou num pavilhão profusamente iluminado, no qual
desembocavam vários corredores.
Tudo
reluzia de limpeza. Aras em capas brancas andavam apressadamente de
um lado para outro, conversavam animados, lançavam olhares rápidos
para o centro e tornavam a desaparecer.
Cinco aras
se aproximaram, vindos de outra direção. Ficaram parados junto ao
carro. Seus rostos sérios pareciam um prenúncio do que os esperava,
mas talvez fosse apenas uma ilusão de Tiff.
Um deles
atirou uma ficha no registro automático, e a porta da ambulância!
abriu-se.
— Os
senhores estão trazendo a paciente Thora de Árcon? — perguntou um
dos aras e lançou um olhar indagador para Tiff.
Este
confirmou com um aceno de cabeça.
— Correto
— reconheceu e desceu do carro com as pernas duras, procurando
movimentar os pés. — Esta é a seção destinada aos doentes que
sofrem de hipereuforia?
O ara não
reagiu à pergunta.
— Quem é
o senhor?
— Sou o
tenente Tifflor, do planeta Terra, sistema Sol. Não sei se isto lhe
diz alguma coisa.
— E
aquele ali?
— É
Wuriu Sengu; também vem da Terra — informou Tiff.
O ara
acenou com a cabeça, como se estivesse ouvindo alguma coisa que já
sabia há muito tempo.
— Então
é o planeta Terra — murmurou satisfeito. — Bem que nós
desconfiávamos.
Tiff não
conseguiu reprimir mais a curiosidade.
— Já
ouviu falar no planeta Terra? Será que poderia me dizer quando foi
isso?
— O
senhor ainda terá oportunidade para conversar conosco. Siga-nos.
Tiff
apontou para o carro.
— E
Thora? Está doente e precisa de assistência imediata.
— Cuidaremos
dela; não se preocupe. A peste de nonus é uma doença infecciosa
relativamente simples. Amanhã sua paciente nem se lembrará mais de
que já esteve doente. Mas não vamos perder mais tempo.
Acompanhe-nos; precisamos conversar com o senhor.
Tiff ainda
estava hesitando. Não gostou nem um pouco da idéia de deixar Thora
só. Mas não lhe deram oportunidade de empregar outras táticas de
retardamento. A um sinal do ara, quatro homens robustos
aproximaram-se. Em comparação com os outros nativos do planeta
Aralon, eram verdadeiros atletas. Tiff e Sengu foram agarrados por
dois deles. Sem a menor consideração, torceram os braços dos
homens surpresos e empurraram-nos rapidamente em direção a uma
porta.
O japonês
fez menção de defender-se, mas Tiff lhe disse:
— Não
faça isso, Sengu. Em primeiro lugar, precisamos saber o que desejam
de nós. Não se defenda.
Uma porta
foi aberta. Os quatro indivíduos robustos empurraram suas vítimas
para o interior da sala, e continuaram segurando-os.
Três dos
cinco médicos os seguiram.
Atrás de
uma mesa larga estavam sentados mais três aras com as costumeiras
capas brancas. Olharam Tiff e Sengu com uma enorme curiosidade.
— Poderiam
fazer o favor de explicar o que significa isso? — disse Tiff em tom
enérgico. — Nós lhes trazemos uma paciente e os senhores nos
tratam como se fôssemos criminosos.
O mais
velho dentre os aras acenou lentamente com a cabeça e lançou um
olhar para a pilha de documentos que se encontrava diante dele.
Voltou a levantar a cabeça e seus olhos vermelhos e inexpressivos
fitaram Tiff.
— Pois é
justamente isso. Os senhores só nos trazem uma paciente. Pelas
informações que recebemos, deve haver algumas centenas. O que houve
com os outros?
É claro
que Tiff não estava preparado para esta pergunta. Levou alguns
segundos para responder:
— Talvez
eu tenha um interesse pessoal apenas na cura de Thora.
O velho
inclinou-se para a frente.
— Será?
— voltou a folhear os documentos. — Os senhores vêm da Terra, um
planeta que fica a mais de trinta mil anos-luz e que ainda não teve
qualquer contato com o Império. Seu comandante é Perry Rhodan, que
por várias vezes entrou em choque com os mercadores galácticos. Por
que acha que devíamos ter interesse em ajudar os inimigos de nossos
amigos?
Por pouco
Tiff não responde: Porque vocês os fizeram adoecer. Mas conseguiu
controlar-se.
— Quem
lhe disse que Thora é amiga de Rhodan? — perguntou. — O que
dizem suas informações, além disso?
— Bastante
coisa — resmungou o velho. — O senhor deve estar lembrado de que
em certo planeta que os saltadores costumam chamar de Goszul, Rhodan
provocou artificialmente uma epidemia a fim de apoderar-se do mesmo.
Será que já está esquecido disso? Não deixará de confessar que é
um método bastante condenável. Os saltadores doentes vieram para
Aralon, em busca de auxílio. Foi assim que descobrimos. Felizmente
tratava-se de doença infecciosa auto-curável. De qualquer maneira,
essa história granjeou uma fama triste para Perry Rhodan. Já
sabemos quem são os terranos.
Tiff não
estava disposto a ficar calado por mais tempo.
— Então
já sabem quem somos? — fungou e de um golpe livrou-se das mãos
dos dois guardas. — Não preciso de vigia, seus fracalhões.

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