quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-045 - Aralon, o Centro de Epidemias - Clark Darlton [parte 1]


Autor
CLARK DARLTON


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
As frotas de guerra estão prontas para entrar
em ação. Mas os médicos galácticos não lutam
com armas convencionais.

A história da Terceira Potência em poucas palavras:

1971 — O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan encontra a nave exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência (vol. 1).
1972 — Criação da Terceira Potência, que enfrenta a resistência das grandes potências terrenas e rechaça as tentativas de invasão extraterrena (vols. 2 a 9).
1975 — Primeira interferência da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos. Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o mistério galáctico (vols. 10 a 18).
1976 — A Stardust-III chega ao planeta Peregrino, e Perry Rhodan alcança o dom da imortalidade relativa (vol. 19).
1980 — Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24).
1981 — O Supercrânio ataca (vols. 25 a 27).
198211983 — Chegada dos saltadores, que querem eliminar a concorrência potencial da Terra no comércio galáctico (vols. 28 a 37).
1984 — Primeiro contato de Perry Rhodan com Árcon e sua atuação como plenipotenciário do cérebro positrônico que governa o grupo estelar M-13 (vols. 38 a 42).
Curar e ajudar! É esta a idéia pela qual se guia a ação de Perry Rhodan, pois não é de seu feitio manter-se inativo enquanto setecentos dos seus melhores homens, apesar do sono profundo e da alimentação artificial, caminham para o definhamento lento, mas inexorável.
Acontece que só os causadores da doença podem ajudar os homens atacados de hipereuforia. E, se não querem ajudar voluntariamente, deverão ser obrigados a fazê-lo. Aralon, o Centro de Epidemias, é este o destino da Titan.



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Que tem à sua disposição uma frota de guerra fornecida pelo cérebro robotizado que governa Árcon.

Julian Tifflor — Que alguém deseja colocar no álcool.

Wuriu Sengu — O espia do exército de mutantes da Terceira Potência.

Thora — A bela arcônida que ignora o próprio noivado.

Gucky — O rato-castor que se recusa a executar uma ordem.

Themos — Autor da epidemia dos nonus.

Talamon — Comandante de uma frota dos superpesados.
1



No interior do grupo estelar M-13, a aproximadamente 34 mil anos-luz da Terra, um gigantesco planeta gravitava em torno de seu sol amarelento. Nos catálogos dos arcônidas, esse sol estava registrado com o nome de Moof e, em conformidade com as normas vigentes, o planeta era chamado de Moof VI.
Era um mundo terrível, que não oferecia nada de agradável.
Quando Perry Rhodan pousou no mesmo, em fins de setembro de 1984, lembrou-se de Júpiter, muito embora, ao contrário do planeta-gigante do sistema solar, Moof VI abrigasse seres inteligentes.
Mas que vida era essa...?
Os moofs eram seres achatados, mas que mediam alguns metros de altura. Lembravam medusas superdimensionadas. Eram inofensivos e pacíficos, comunicavam-se por meio da telepatia, não estavam interessados em criar uma civilização digna de nota e sentiam-se felizes quando eram deixados em paz.
Foi o que Rhodan fez quando constatou que os moofs nada tinham que ver com a terrível moléstia que atacara sua tripulação. Recolheu cinqüenta desses seres a bordo da nave, instalou especialmente para eles um recinto com a atmosfera de metano. No mais, esperava que a capacidade sugestiva pouco desenvolvida desses seres pudesse substituir, se necessário, a de seus mutantes, colocados fora de ação.
Antes da decolagem Rhodan reuniu os tripulantes sadios na sala de comando. Crest, o cientista arcônida, alto e de cabelos brancos, acomodou-se numa poltrona. Seus olhos avermelhados já não exprimiam muita confiança. O destino golpeara com muita força, colocando Rhodan numa situação quase desesperadora.
O tenente Tifflor não parecia levar as coisas tão a sério. Sentado diante do robô de pilotagem, aguardava calmamente as decisões de Rhodan. Muito se assemelhava ao chefe pelo aspecto exterior, embora fosse muito mais jovem.
Wuriu Sengu, o espia japonês, manteve-se de pé, humilde e quieto, conforme correspondia ao seu gênio.
Com Gucky não acontecia a mesma coisa. O rato-castor, que era o mutante mais competente de Rhodan, refestelou-se num sofá. Parecia um rato de desenho animado, grandemente amplificado com uma cauda larga que lhe servia de apoio. Possuía pêlo cor de ferrugem e um par de bondosos olhos caninos de cor castanha. As enormes orelhas e o focinho pontudo davam-lhe um aspecto engraçado, que iludiria qualquer estranho sobre a verdadeira natureza do rato-castor. Gucky era telepata, telecineta e teleportador ao mesmo tempo. Falava correntemente o intercosmo, o arcônida e o inglês.
Sua voz aguda quase chegava a chilrear na grande sala de comando da Titan, uma supernave de um quilômetro e meio de diâmetro.
Estamos prontos para decolar, Rhodan. Quer dizer que iremos mesmo a Árcon?
Não vejo outra possibilidade. Sabemos que os aras são os causadores da hipereuforia. Setecentos dos nossos homens contraíram a doença, entre eles os membros do exército de mutantes e Thora, sem esquecer Bell. Se alguém puder curá-los, só poderão ser os aras. Quer dizer que precisaremos colher outras informações em Árcon. Ninguém sabe onde fica o mundo central dos aras.
O cérebro robotizado de Árcon sabe — disse Crest. Subitamente parecia muito interessado na conversa. — Ele nos ajudará.
Ajudará porque é do seu interesse — concordou Rhodan. — Desde o momento em que o gigantesco cérebro positrônico substituiu os arcônidas no governo do Império, as coisas melhoraram. Por quê? Porque o cérebro possui iniciativa. Tenho certeza de que reconhecerá a ameaça que os aras representam e continuará a nos ajudar. Mais alguma pergunta? Em caso negativo, vamos decolar.
O tenente Tifflor levantou a mão como um aluno bem comportado.
Não temos prisioneiros a bordo? São aras. Eles não revelaram a posição de seu mundo?
Revelaram — confessou Rhodan. — Mas precisamos da confirmação de Árcon, pois do contrario poderemos cair numa armadilha. Só o cérebro robotizado sabe se as indicações fornecidas pelos prisioneiros são corretas. Quer dizer que não podemos deixar de percorrer o caminho que leva a Árcon.
O que estamos esperando? — chiou Gucky com uma seriedade fora do comum. — Vamos decolar. Até Árcon é só um pulo de gato.
Deve ser um pulo de rato-castor — disse Tifflor, aludindo à capacidade de teleportação de que Gucky era dotado. — São algumas dezenas de anos-luz, se não me engano.
Conseguiremos fazê-lo com a tripulação reduzida à metade — prosseguiu Rhodan em tom confiante. — Muito bem. Vamos preparar a decolagem. A Ganymed receberá as mesmas coordenadas. Voaremos juntos a Árcon.
Árcon era o centro do império estelar que abrangia o grupo estelar M-13, cujo diâmetro era superior a duzentos anos-luz. Num dos três planetas principais do sistema estava instalado o cérebro positrônico, do qual Perry Rhodan se tornara aliado.
Sua nave, a Titan, já pertencera aos arcônidas. Ele a roubara, mas num gesto de generosidade o cérebro permitiu que Rhodan ficasse com a nave, mas sob uma condição. Rhodan teria de prometer que só a utilizaria a favor do Império.
A luta contra os aras foi travada a favor do Império.
A Titan era uma esfera de 1.500 metros de diâmetro. Segundo a vontade do comando espacial arcônida, sua tripulação seria de 1.500 homens. Com uma aceleração de 600 quilômetros por segundo ao quadrado, levava menos de dez minutos para atingir a velocidade da luz. Depois disso poderia realizar a transição que a transportaria para o hiperespaço. Com um único salto através da quinta dimensão, podia vencer dezenas de milhares de anos-luz.
Antigamente a Ganymed fora a nave capitania de Rhodan. Foi com ela que viajou da Terra para Árcon. Também a Ganymed vencia as distâncias por meio da transição pelo hiperespaço. Contava com dois tipos de instalação que eram desconhecidos até mesmo ao cérebro onisciente de Árcon. O transmissor fictício era capaz de desmaterializar qualquer objeto, e fazer com que voltasse a transformar-se em matéria no ponto escolhido. Por exemplo: no interior de outra nave. Isso representava uma arma de potência incomensurável. A segunda conquista tecnológica obtida da raça dos saltadores era o compensador estrutural. Uma vez ligado, tornava-se impossível que as estações goniométricas registrassem as transições da nave. Há algumas semanas também a Titan dispunha de um compensador desse tipo.
Nas telas surgiu uma paisagem primitiva. Montanhas desnudas, cobertas de neve, subiam ao céu nevoento. Oceanos de amoníaco brilhavam sob os raios débeis do sol. Não se via nenhum sinal de vida. Depois de se despedirem, os moofs se haviam retirado. O grave perigo que os ameaçava fora removido. Não eram eles, mas os aras que deviam ser apontados como autores dos atos condenáveis. Os aras haviam tentado conquistar o Império de Árcon, e isso por meios baixos e traiçoeiros. No curso da luta travada contra os aras, setecentos homens de Rhodan contraíram a moléstia que costumava ser designada como hipereuforia. As pessoas atingidas por ela sentiam-se leves e despreocupadas, dançavam e cantavam. Mas não mais se alimentavam. Morriam de fome sem que o soubessem. A bem-aventurança era tamanha que os fazia esquecer tudo, inclusive a comida.
Para mantê-los vivos, Rhodan mandou que fossem colocados num estado de sonolência profunda e ininterrupta. Foram alimentados artificialmente. Mas isso não os poderia salvar, se o auxílio não viesse logo. E esse auxílio só poderia vir dos aras, pois foram eles que inventaram a toxina.
Decolaremos dentro de dez minutos — decidiu Rhodan. — As coordenadas são conhecidas, Tiff. Mantenha contato audiovisual com o coronel Freyt.
Freyt era o comandante da Ganymed.
Gucky escorregou para baixo do sofá e foi em direção à porta.
Prefiro estar no meu camarote quando começar a transição. Aqui vivem incomodando a gente.
Olharam-no com um sorriso. Só Crest continuou sério.
Perry, quero estar presente quando o senhor estiver falando com o cérebro robotizado.
Todos participarão da palestra — prometeu Rhodan. — Só faço um pedido. Ninguém deve mencionar o fato de que temos setecentos doentes a bordo. Só confirmarei a doença de Thora e mais algumas pessoas. O cérebro raciocina logicamente. Se achar que não estamos em boas condições de combate, poderá recusar-nos seu auxílio. E no momento precisamos desse auxílio, infelizmente.
Discutiram outros detalhes. Os ponteiros do relógio foram avançando.
Decolar!
Os dois gigantes levantaram-se como se não tivessem peso, graças aos campos gravitacionais. A Ganymed era um cilindro de 840 metros de comprimento. Os campos de propulsão só entraram em funcionamento quando as naves já se encontravam a alguma distância do solo. O mundo gigantesco dos moofs mergulhou nas profundezas do cosmo. Quando as naves atingiram a velocidade da luz, estava reduzido a uma estrela.
A seguir, as duas naves desapareceram do espaço normal. Tremeluziram ligeiramente, seus contornos apagaram-se — e repentinamente não estavam mais lá.
Haviam sido engolidas pela quinta dimensão, na qual o tempo e o espaço perdiam toda importância.
Voltaram a materializar-se num lugar totalmente diferente, e isso muito rápido, quase no mesmo segundo.
E com elas, se materializou tudo aquilo que se encontrava a bordo no momento da transição.

* * *

Árcon ficava quase no centro do grupo estelar.
As duas naves emergiram do hiperespaço a três meses-luz de seu sol flamejante. Mantiveram-se numa relativa imobilidade, preparando a nova fase de sua ação.
Nas enfermarias da Titan, os doentes descansavam em suas camas. Dormiam profundamente e não sabiam nada do que se passava em torno deles. Os reforços chegados da Terra há pouco tempo já se haviam familiarizado razoavelmente com as instalações da nave, ocupando o lugar dos incapacitados. Para Rhodan isso representou um processo de adaptação bastante desagradável. Normalmente levaria semanas para treinar a equipe da Titan, mas nas circunstâncias em que se encontrava teve que fazê-lo em poucos dias.
Os médicos e cientistas cuidavam dos doentes. Embora conseguissem manter vivas as pobres criaturas, não descobriram o causador da moléstia nem puderam obter o antídoto.
Rhodan pediu que Crest, Tiff, Sengu e Gucky comparecessem à sala de rádio, onde o hipercomunicador já estava ligado. Na sala de controle contígua, dois médicos aguardavam, para levarem Thora, que estava apenas semi-adormecida, à presença de Rhodan quando este avisasse.
Nas grandes telas, tremeluziam as transmissões simuladas e codificadas do cérebro. Padrões coloridos mudavam de forma sem cessar, formando uma confusão ininteligível. Só um aparelho de decodificação devidamente regulado conseguiria interpretar essas imagens. Em sintonia com as imagens óticas, os alto-falantes emitiam sons incompreensíveis, que lembravam uma peça de música eletrônica.
Rhodan cumprimentou os companheiros com um aceno de cabeça e ligou o transmissor.
Aqui fala a Titan. Comandante Thora da família de Zoltral. Perry Rhodan é o imediato. Peço confirmar a comunicação.
A antena lançou as palavras de Rhodan no hiperespaço. No mesmo instante, o receptor situado a três meses-luz de distância retransferiu-as para o espaço normal. No momento em que falava, Rhodan poderia ser ouvido a uma distância de vários meses-luz, ou mesmo de várias dezenas de milhares de anos-luz. O alcance do hiper-transmissor da Titan era inconcebível.
As imagens da tela consolidaram-se numa figura abstrata, mas esta logo se modificou. Aos poucos, foi surgindo o gigantesco pavilhão com a abóbada de metal cintilante.
Era o cérebro robotizado de Árcon, soberano de um império estelar de dimensões inimagináveis.
Uma voz fria, mecânica e impessoal saiu do alto-falante:
Identificação aceita. Faixa de onda exclusiva está ativada. Fale.
Mais uma vez o cérebro providenciara para que ninguém pudesse ouvir a palestra, que não foi codificada. Rhodan fitou a abóbada de aço que abrigava o maior cérebro positrônico do Universo. Sentia uma espécie de simpatia pelo mesmo, muito embora essa palavra nunca poderia exprimir corretamente o que sentia. De qualquer maneira, eram aliados — a máquina infalível e ele, Rhodan.
A Titan retorna de sua missão. Infelizmente não tivemos êxito. Impedimos que o planeta Moof VI fosse destruído pela frota arcônida, mas apenas conseguimos dar um passo em direção ao objetivo. Já sabemos que os moofs não são culpados da revolução de Zalit nem podem ser responsabilizados pela hipereuforia. Não têm nada com isso, tal qual os habitantes do planeta Honur. Os únicos culpados são os aras. Estão atrás de tudo.
Os aras são um clã dos saltadores, que também costumam ser chamados de mercadores galácticos. Não existem relações amistosas entre os dois ramos. Os aras praticamente são os médicos e biólogos do Império.
De qualquer maneira são descendentes dos mercadores — disse Rhodan com uma estranha ênfase. — Não vivem apenas da ciência, mas também do comércio. Não conseguem livrar-se dessa herança racial. Infelizmente não negociam apenas com medicamentos, mas também com a morte.
Apresente provas!
Rhodan suspirou.
Encontramos provas bastantes em Honur e em Moof VI. Sabemos que os aras costumam infestar planetas inteiros para poderem fornecer o respectivo antídoto em troca de bom dinheiro. O senhor acha que esse método é correto, Regente?
O cérebro robotizado levou um segundo para formular a resposta:
É um crime contra as leis do Império. Acontece que precisamos dos aras; se não fosse assim, ordenaria a destruição imediata de seus mundos.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
Concordo com o senhor. Mas deve haver um meio de obrigá-los a cumprir as leis sem dispensar seu auxílio. Tenho necessidade urgente de um remédio contra a hipereuforia. Thora de Zoltral está doente.
Rhodan teve a impressão de perceber certo nervosismo na voz impessoal, mas era perfeitamente possível que fosse um engano.
Thora está doente? Foi infeccionada pelos aras? Sim, já sei. O senhor já me informou. Ainda não houve nenhuma cura?
A cura só pode ser proporcionada pelos aras.
Eles não possuem um mundo nativo propriamente dito; apenas dispõem de uma série de bases planetárias.
Por exemplo, o planeta Aralon — disse Rhodan para atirar a isca.
Quase cinco segundos se passaram antes que o cérebro robotizado respondesse:
Aralon costuma ser considerado o mundo central dos aras. Como foi que o senhor soube disso, Perry Rhodan do planeta Terra?
Alguns prisioneiros me deram a informação. Não sabia se estavam falando a verdade. Quer dizer que é correta? Aralon realmente é o mundo central dos médicos galácticos?
Sim. Aralon é o quarto dos sete planetas que gravitam em torno do pequeno sol amarelo de Kesnar, cuja posição ainda lhe será fornecida. Há outros detalhes importantes. Aralon não tem armas, nem possui uma frota espacial propriamente dita. Os aras acham que não têm necessidade de defender-se contra inimigos. Há milênios cuidam para que as doenças infecciosas nunca terminem. Toda a Galáxia precisa dos aras e de seus medicamentos, motivo por que mantém com eles boas relações. Dessa forma, os aras podem ser considerados o povo mais poderoso do Império, embora não possuam armas ou naves de guerra. Ninguém pode obrigá-los a produzir ou entregar um medicamento contra sua vontade.
Acontece que existe um meio de impedir a atuação daninha dos aras. Para o bem do Império e de todas as raças inteligentes da Galáxia esse meio deve ser empregado.
Que meio é esse? — perguntou o cérebro.
A astúcia.
Queira explicar melhor o que quer dizer — pediu o Regente sem demonstrar a menor emoção.
Antes de mais nada, quero mostrar-lhe o que será dos arcônidas se os aras tiverem a idéia de levar a epidemia para Árcon — disse Rhodan e fez um sinal para Crest. O cientista grisalho desapareceu e pouco depois voltou com uma cama de rodas, na qual jazia Thora.
Tinha os olhos abertos e um sorriso radiante brincava nos seus lábios. O rosto parecia totalmente despreocupado, mas estava magro e flácido. Nem mesmo a alimentação artificial poderia impedir que os doentes morressem de fome aos poucos.
Esta é Thora de Zoltral, comandante desta nave. Não sabe que está doente, mas a morte já estende as mãos em sua direção, Regente — falou Rhodan. — Ainda sorrirá no momento em que estiver morrendo. Os aras a infeccionaram, e só eles poderão curá-la.
O cérebro robotizado permaneceu calado durante quase um minuto.
Explique a astúcia que pretende empregar, Rhodan. Se conseguir convencer-me de que um ataque a Aralon não representará qualquer perigo para o Império, colocarei à sua disposição todos os recursos que estão ao meu alcance.
Rhodan suspirou aliviado. Mandou que Thora fosse levada de volta à enfermaria, apontou para o tenente Tifflor, que se mantinha nos fundos da sala, junto ao japonês Sengu, e disse:
Minha astúcia chama-se tenente Tifflor, Regente. Em certa oportunidade esse terrano já evitou que um mundo habitado caísse nas mãos dos mercadores galácticos. Para isso ofereceu-se para servir de chamariz cósmico.
Chamariz cósmico?
Em seu corpo foi implantado um minúsculo transmissor, que ininterruptamente emite seus impulsos. O fator decisivo é que esses impulsos são propagados instantaneamente, podendo ser captados até uma distância de dois anos-luz. E são captados telepaticamente, não por meio de receptores mecânicos. Quer dizer que o tenente Tifflor é um telepata artificial, que pode transmitir seus pensamentos a uma distância de dois anos-luz. E, como já ressaltei, a transmissão é instantânea.
Para mim essa técnica ainda é desconhecida. Perry Rhodan, o senhor dispõe de certas coisas que ainda poderão ser muito úteis ao Império.
Foi por isso que nos tornamos aliados — lembrou Rhodan e prosseguiu em tom indiferente: — Soltarei Tifflor em Aralon. Um único homem não despertará a atenção de ninguém e dificilmente será considerado o arauto de uma potência galáctica. E ele nos manterá continuamente informados sobre aquilo que acontecer em Aralon. Dessa forma teremos condições de intervir no momento adequado.
É uma missão muito arriscada — ponderou o cérebro.
Thora precisa ser curada. E, para que isso aconteça, temos de assumir um risco. Mas, se considerarmos que além de Thora todo o planeta de Árcon poderá ser contaminado pela moléstia, o risco não poderá ser considerado muito grande. Os aras têm de convencer-se de que poderão servir melhor ao Império se trabalharem honestamente. A fraude que cometem contra a saúde do Império equivale a um crime de alta traição.
Aguarde até que consiga interpretar os dados disponíveis — pediu o Regente.
O estalido do alto-falante mostrava que a comunicação acústica acabara de ser interrompida. O quadro permaneceu na tela.
Rhodan desligou o transmissor e dirigiu-se a Tifflor:
Como vê, Tiff, muita coisa o aguarda. Ainda não tenho certeza sobre todos os detalhes de meu plano, mas já sei mais ou menos de que forma poderemos agarrar os aras. Wuriu Sengu e Thora o acompanharão para Aralon.
Crest deu instintivamente um passo para a frente. Arregalou os olhos para Rhodan.
Quer expor Thora a um risco?
Um sorriso ligeiro aflorou aos lábios de Rhodan.
Pelo contrário, Crest. Thora será a primeira pessoa a ser tratada com o soro. E o tratamento ficará a cargo dos médicos de Aralon. Quando isso acontecer, teremos a prova de que a epidemia foi causada por eles, e ainda saberemos que é curável.
Como pretende levar os aras a agir dessa forma?
Ainda não tenho muita certeza sobre este ponto. Porém pensarei nisso e já deverei ter a solução quando nos encontrarmos perto de Aralon. Este mundo que tem as costas protegidas por uma potência militar capaz de fazer frente a qualquer inimigo.
Pelo que acabamos de ouvir, Aralon não dispõe de qualquer armamento...
...mas nem por isso estará indefeso, Crest. Acredito que os aras tenham amigos poderosos, que intervirão na hora adequada.
Os aras têm amigos? Quem seriam?
Afinal, eles pertencem à raça dos saltadores — lembrou Rhodan, mas interrompeu-se com um gesto apressado. O alto-falante emitiu um estalido. Ligou o receptor. Poucos segundos depois, a voz fria do Regente fez-se ouvir:
O sol Kesnar fica a trinta e oito dos seus anos-luz de Árcon. Os outros dados conferem com aqueles que lhes foram fornecidos pelos prisioneiros. Concedo-lhe plenos poderes para agir conforme julgar acertado. Além disso, coloco à sua disposição uma frota de guerra dirigida por robôs, que por ora obedecerá exclusivamente às suas ordens. A identificação será realizada pela mesma freqüência que estou usando para falar com o senhor. Dentro de dez minutos, as respectivas unidades estarão à sua disposição. Informe-me sobre sua atuação assim que a mesma seja iniciada. Atenção, uma advertência. Não ataque Aralon enquanto não houver um motivo muito sério. Por agora não podemos dispensar os aras. Ainda existem doenças nos mundos do Império.
É verdade, Regente. E as doenças continuarão a existir enquanto os aras puderem desenvolver sua ação nefasta.
O senhor acaba de receber minhas instruções — disse o Regente sem demonstrar a menor emoção. — Siga-as, se quiser que continuemos como sócios. De resto, desejo-lhe êxito e muitas felicidades, Perry Rhodan. Se precisar de auxílio, entre em contato comigo. Fim.
Rhodan esperou até que a imagem se apagasse. Depois desligou o transmissor e o receptor. Com um suspiro de alívio, caiu na poltrona mais próxima. Ficou sentado por longos segundos, com a cabeça apoiada nas mãos. Ninguém se atrevia a perturbar seu descanso. Até Gucky manteve-se quieto.
Crest parecia impaciente.
Finalmente Rhodan levantou a cabeça, esboçou um ligeiro sorriso e disse:
Quase chego a ter a impressão de que o cérebro robotizado me transformou numa espécie de policial. Imponha a ordem e eu pagarei. Bem, enquanto os interesses dele coincidirem com os meus, não há nada a objetar. Mas ai de nós, no instante em que os nossos interesses entrarem em conflito. Não sei dizer o que acontecerá quando surgir essa situação.
Nesse caso depomos o Regente e assumimos o governo — chilreou Gucky em tom confiante e escorregou do sofá para o chão. Ergueu-se e bateu no peito, onde o pêlo era mais claro. Nessa pose seu aspecto lembrava o dos velhos ditadores da Terra. — Serei um excelente ministro do exterior.
Tiff sorriu.
Acho que seria melhor fazer de você o ministro do prazer — sugeriu, prosseguindo em tom sério. — Quer dizer que o senhor pretende largar-me em Aralon, senhor Rhodan? O que devo fazer por lá? Afinal, não conheço aquele mundo.
Ninguém conhece o mundo em que ficam os laboratórios médicos e bioquímicos desses seres. Aposto que saberemos muito mais a seu respeito depois que o senhor tiver passado alguns dias por lá.
Thora irá comigo?
Terá de ir com o senhor — confirmou Rhodan. — Sem isso a missão seria inútil. O que houve, tenente Fuchs?
O oficial de meia-idade fora incumbido de observar as telas enquanto Rhodan estivesse entretido na palestra com o cérebro robotizado, informando-o imediatamente sobre eventuais modificações. Havia ocasiões em que Rhodan preferia não confiar apenas nos instrumentos. Normalmente Fuchs exercia as funções de oficial de plantão da sala de rádio.
Uma frota está saindo da transição. Estamos totalmente cercados. São naves arcônidas.
Devem ser os reforços anunciados pelo cérebro — disse Rhodan com a voz tranqüila e levantou-se. Acompanhado pelos outros, foi à sala de comando e contemplou as telas panorâmicas coloridas, que ofereciam um retrato fiel do espaço que os cercava.
A visão era apavorante.
Os maciços couraçados da classe da Stardust — formados por esferas de oitocentos metros de diâmetro — mantinham-se a certa distância. Os cruzadores e destróieres estavam formados para oferecer-lhes proteção, com as bocas dos canhões apontadas para a frente. A frota era comboiada por ágeis caças.
Rhodan sabia que naquelas naves não havia um único ser humano. Os comandantes eram robôs positronizados, cujo saber programado excedia o dos cientistas terranos mais competentes. A manipulação dos controles das naves seria inteiramente automática, obedecendo a uma orientação positrônica.
A formação que se apresentava no espaço era o poder militar mais formidável que os olhos de Rhodan já haviam visto. E esse poder estava à sua disposição.
Não se sentiu tomado apenas pelo orgulho, mas principalmente pela satisfação. O homem do planeta Terra vencera. Provara que era digno das tradições de Árcon. O cérebro robotizado tratava o terrano de igual para igual, chegando mesmo a dar-lhes preferência sobre os arcônidas, que eram os fundadores do Grande Império.
O homem provara que compreendera o ordenamento divino que reina no Universo vivo.
Falando como quem desperta de um sonho, Rhodan disse com a voz embargada:
Fuchs, estabeleça contato direto pela freqüência de Árcon com a nave capitania da frota arcônida e passe a ligação para a sala de comando. Quero falar com o comandante da frota.
O tenente Fuchs dirigiu-se à sala de rádio.
Crest perguntou:
O que quer com ele, Perry? Deve ter recebido suas instruções do Regente.
A única instrução que recebeu foi a de obedecer às minhas ordens — respondeu Rhodan.
Após um minuto, o rosto rígido de um robô arcônida contemplava a sala de comando da Titan pela tela do aparelho de comunicação audiovisual. As lentes cristálicas refletiam as luzes de controle.
Minha frota está à sua disposição, Rhodan da Terra — disse, iniciando a palestra. — Quais são suas instruções?
Rhodan procurou disfarçar a satisfação que sentia.
Voaremos em direção ao sistema de Kesnar. A manobra de imersão será realizada a três meses-luz de Kesnar. Sua frota permanecerá imóvel, enquanto minhas naves prosseguirão à velocidade da luz. A partir deste momento permaneceremos ininterruptamente em contato audiovisual. Novas Instruções serão transmitidas quando necessário.
Entendido. Dispomos de bombas gravitacionais. A qualquer momento...
Não desejo que essas bombas sejam utilizadas. Qual é sua denominação?
Meu nome é OR-775, Rhodan da Terra.
Muito bem, OR-775. Siga minhas Instruções e aguarde as coordenadas de salto, que lhe serão fornecidas por meu oficial de rádio. A transição será realizada dentro de uma hora.
Entendido. Ficarei na recepção.
A tela apagou-se.
Crest, que estava de pé junto a Rhodan, soltou um suspiro. Rhodan fitou-o com um ligeiro espanto.
O que houve, Crest? Alguma coisa o preocupa? As coisas não estão correndo muito melhor do que jamais ousaríamos esperar?
O arcônida confirmou com um aceno de cabeça.
As coisas estão correndo bem demais — ponderou. — Sabe lá o que significa ser comandante de uma frota de guerra arcônida? Há treze anos me confiaram o comando de uma única nave, embora fosse um membro da família governante. E o senhor, Perry, é praticamente um estranho, membro de uma raça subdesenvolvida. Pelo menos, há uma década e meia não passava disso. E hoje já está agindo como mandatário do maior império que já existiu no Universo. Perry, para todos os efeitos o senhor já está de posse de sua herança.
Rhodan sacudiu lentamente a cabeça.
Não vamos precipitar as coisas, Crest. Ninguém tem uma herança para transmitir a mim. Mas sinto-me orgulhoso porque o cérebro robotizado me confiou a frota mais poderosa que já vi. Pode crer em mim; as unidades estão em boas mãos.
O tenente Fuchs enfiou a cabeça na sala de comando.
As coordenadas foram confirmadas. Quer que as transmita ao comandante da frota?
Quero, Fuchs. A transição será realizada exatamente dentro de cinqüenta minutos. Até lá atingiremos a velocidade da luz. Está na hora de elaborarmos nossos planos de guerra. Tiff, para isso não posso dispensar sua colaboração. Também preciso de Sengu. Crest, gostaria que o senhor também estivesse presente.
E eu? — soou a voz queixosa vinda do canto em que Gucky estava deitado em sua cama, escutando a conversa. Mantinha as grandes orelhas de pé, e os olhos castanhos contemplavam o mundo metálico da nave com uma expressão de lealdade. — É estranho, mas tenho a impressão de que desta vez não terei nada a fazer.
Pois está muito enganado, Gucky — objetou Rhodan. — Sob o ponto de vista passivo, você até vai desempenhar o papel principal. Você é o único que pode captar os impulsos mentais expedidos por Tiff. Não dispomos mais de nenhum outro telepata. É bem verdade que não poderá ir a Aralon. Mas muitas vezes a coisa mais importante não é a aventura propriamente dita. De qualquer maneira sei que posso confiar em você. Está satisfeito?
Gucky soltou um assobio estridente e pouco melódico.
O que posso fazer? Pois bem, explique seu plano de guerra. Estou ardendo de curiosidade.
Está o quê? Aprendeu isso com Bell? Acho que mais uma vez você está confundindo os conceitos — Rhodan esboçou um ligeiro sorriso, mas seu rosto logo voltou a tornar-se sério. — Pois bem, prestem atenção. Vou explicar meu plano em ligeiras palavras. Entraremos em transição daqui a quarenta e cinco minutos e voltaremos a nos materializar a três meses-luz de Kesnar. Depois vamos...
Rhodan falou durante meia hora. As pessoas que o ouviam não o interromperam uma única vez.
O plano por ele desenvolvido era excitante como um romance fantástico...
2



O sol Kesnar surgiu nas telas do aparelho de mira da Titan sob a forma de uma pequena estrela amarela. Uma distância de três meses-luz transformaria qualquer gigante num anão, e Kesnar poderia ser tudo, menos um gigante.
A imensa frota arcônida manteve-se Imóvel em meio ao espaço. Rhodan mandou fornecer as últimas coordenadas a OR-775. Se a frota de guerra entrasse em transição, voltaria a materializar-se a poucos segundos-luz de Aralon.
A Titan e a Ganymed deslocavam-se à velocidade da luz, aproximando-se do sistema. A essa velocidade as naves levariam três meses para chegar a Aralon.
Mais uma vez chegara a hora decisiva de Tiff.
Thora voltara a ser mergulhada num sono profundo. A arcônida estava imobilizada na cama de rodas, presa por cintos de couro, para que não caísse caso houvesse um movimento inesperado.
Wuriu Sengu, o espia, um homem que pela simples força de sua vontade sabia enxergar através da matéria compacta, era, além de Gucky, o único membro do exército de mutantes que não havia contraído a doença. Naquele momento, usava o uniforme simples que o identificava como membro do exército de mutantes da Terceira Potência de Rhodan. Tiff também estava uniformizado. Não tinham a menor intenção de ocultar sua identidade.
No pequeno hangar da Titan em que a Gazela havia sido abrigada, foram discutidos os últimos detalhes. A Gazela era uma nave de reconhecimento de longa distância que tinha o formato de um disco. Seu diâmetro era de apenas trinta metros. No ponto em que ficava a nodosidade central, a altura chegava a dezoito metros. Todavia, essa pequena nave podia vencer três anos-luz com um único hipersalto e tinha um raio de ação relativo de quinhentos anos-luz.
Rhodan puxou Tiff para o lado.
Compreendeu o seu papel, Tiff?
Muitas vezes será difícil trair o senhor.
Acontece que sua tarefa será precisamente esta. Nunca se esqueça deste detalhe. Acompanhe todas as palestras com o pensamento, a fim de manter Gucky informado sobre o que estiver acontecendo. Especialmente quando os aras estiverem falando, repita mentalmente suas palavras. Só assim Gucky estará em condições de acompanhar as palestras.
Faço votos de que nada aconteça a Thora.
Não se preocupe, Tiff. Os aras conhecem perfeitamente o valor do refém que acreditarão ter em mãos. Por outro lado, farão questão de provar ao senhor que possuem excelente capacidade no terreno da medicina. O senhor vai ver, tudo acabará bem, conforme planejamos. Sim, está na hora. Boa sorte, Tiff. Até a vista.
Até a vista. E que seja quanto antes — respondeu Tiff e empertigou o corpo magro.
Um brilho resoluto surgiu em seus olhos cinzentos. Abaixou-se e acariciou o pêlo de Gucky:
Faça um trabalho bem feito, meu chapa. Quando eu voltar, apareça. Cocarei sua nuca durante meia hora.
Bell já me cocou durante cinco horas — disse o rato-castor em tom de desprezo.
De qualquer maneira, meia hora é melhor que nada.
Crest deu uma pancada no ombro de Tiff.
Boa sorte, tenente. Cuide bem de Thora.
Serei seu anjo da guarda — prometeu Tiff e subiu no passadiço. Sengu já o aguardava. Acenou com a mão e a escotilha se fechou.
A Gazela estava pronta para decolar. Rhodan, Crest e Gucky saíram do hangar e voltaram à sala de comando. Acompanharam os acontecimentos pela tela de imagem. Durante trinta segundos não aconteceu nada. De súbito a Gazela penetrou rapidamente no campo de visão, vinda do lado direito. Com uma aceleração tremenda aproximava-se do sol distante. De um instante para outro desmaterializou-se. E, simultaneamente, sairia do hiperespaço a três meses-luz. Depois pousaria em Aralon.
O resto não passava da mais pura especulação.
E de uma sorte imensa, se tudo corresse de acordo com os planos.

* * *

Tiff não se sentia nada bem.
Ninguém sabia qual seria a reação dos aras quando uma nave estranha pousasse em seu mundo central. Sem dúvida, eram considerados um povo pacato. Isso não significava que não saberiam defender-se, especialmente quando seus interesses estavam em jogo. De qualquer maneira, fizeram uma tentativa de submeter os habitantes do planeta Zalit ao seu controle, por intermédio dos moofs, que eram seres dotados de poderes sugestivos, a fim de destruir o cérebro robotizado instalado em Árcon e dominar o Império. Dali se concluía que os aras não eram tão inofensivos e livres de ambição como fingiam ser.
Quando a Gazela voltou a materializar-se, encontrava-se a vinte minutos-luz de Aralon. Desenvolvendo a velocidade da luz, dirigiu-se ao planeta e começou a desacelerar.
Tiff teve tempo para orientar-se através da visão ótica. Aralon estava bem na sua trajetória. Era uma estrela cintilante que crescia a cada segundo que passava.
Sengu ergueu-se do leito. Aproximou-se de Tiff e olhou para a tela.
Quando descobrirão nossa presença? — perguntou em tom preocupado.
Tiff deu de ombros.
Não faço a menor idéia. Isso depende do seu sistema de comunicações. É bem possível que nossa imagem já esteja em suas telas.
Quer que coloque o aparelho de rádio na recepção?
Isto nunca seria um erro. Talvez consiga estabelecer algum contato. Se isso acontecer, não responda; deixe por minha conta.
O japonês confirmou com um aceno de cabeça e passou a lidar com os aparelhos de rádio.
Os minutos foram passando; transformaram-se em meia hora.
A velocidade já fora reduzida bastante. A Gazela deslocava-se a pouco menos de mil quilômetros por segundo. Aralon era um planeta verde formado por continentes e oceanos. Lembrava a Terra distante.
No receptor de ondas normais, havia uma confusão de centenas de vozes. Sengu não entendeu uma palavra. A língua usada geralmente era o intercosmo, o idioma do Império Arcônida. Todas as mensagens estavam codificadas.
Tiff lançou um olhar para as telas laterais, e viu duas naves cilíndricas que se aproximavam velozmente da Gazela. Antes que tivesse tempo de refletir sobre o que devia fazer, já tinham passado. Descreveram uma curva para a esquerda e, tal qual a Gazela, tomaram a direção de Aralon.
Tiff nunca vira uma coisa dessas.
Aproximavam-se do planeta desconhecido, altamente civilizado, e ninguém lhes dava a menor atenção.
Não teve tempo para refletir sobre o fenômeno, sobre o qual Gucky já devia estar informado, se não estivesse dormindo naquele momento. Infelizmente não havia possibilidade de receber mensagens por meio do transmissor implantado em seu corpo. Este só permitia comunicações em sentido único.
Mais três naves se aproximaram, vindas da direita. Também tinham o formato de cilindro. Passaram pela Gazela e, desenvolvendo uma velocidade tremenda, precipitavam-se em direção a Aralon. Pela tela amplificadora, Tiff constatou que se acercavam do continente principal e se preparavam para pousar.
O tráfego por aqui é muito intenso — disse em tom indiferente, dirigindo-se a Sengu, que acompanhara a passagem das naves com o queixo caído. — Se isso não é uma camuflagem, não nos darão muita atenção.
Ainda não desconfiava quanto essa suposição se aproximava da verdade.
Um vôo em torno do planeta bastou para localizar o porto espacial. Era uma área livre coberta de plástico. Seu formato era quase circular e o diâmetro devia ser superior a trinta quilômetros.
Tiff nunca vira nada parecido fora de Árcon.
As naves enfileiravam-se no campo de pouso. Eram esferas enormes do tipo arcônida, gigantes cilíndricos e torpedos que subiam em direção ao céu. Mais de dez mil naves de centenas de tipos diferentes! As idas e vindas ininterruptas eram tão perturbadoras que Tiff teve a impressão de estar sonhando. Era mais ou menos assim que os autores fantasiosos imaginavam um espaçoporto do futuro. E todos haviam zombado deles. E agora viu que a fantasia desses autores nem sequer se aproximava da realidade.
À medida que baixava, a impressão se tornava mais intensa. As fileiras de naves se estendiam junto a verdadeiras ruas. Carros velozes corriam de um lado para outro, estabelecendo a comunicação com os edifícios que cercavam o campo de pouso em forma de anel.
Tiff continuou a descer. Descobriu um lugar livre, em que havia espaço para sua Gazela. Teve a impressão de ser um anão no meio de gigantes quando tocou suavemente o solo e desligou os propulsores.
Nenhum dos gigantes parecia ter notado sua presença. Ninguém se preocupou com ele. Era como se na Terra tivesse estacionado seu carro numa vaga, em meio a milhares de veículos.
Seu vizinho era uma nave cilíndrica com mais de trezentos metros de altura. Tiff viu alguns tripulantes descerem de elevador e entrarem num carro que os esperava. Nem sequer se dignaram a olhar para o disco.
Não conseguiu orientar-se naquela floresta de monstros metálicos. Recorreu aos instrumentos de bordo para calcular a posição aproximada dos edifícios compridos e embandeirados que vira pouco antes do pouso. Acreditava que deviam ser uma espécie de recepção.
Sengu não tirava os olhos espantados das inúmeras naves espaciais. Naquele instante, estaria calculando que o número dos pousos e decolagens chegaria, em média, a cinqüenta por minuto. Não se percebia a existência de qualquer tipo de controle. Talvez os aras julgassem isso tão ridículo como se na Terra alguém procurasse orientar pelo radar os automóveis que quisessem estacionar.
Isto é uma coisa inconcebível! — gemeu Tiff e não compreendeu mais nada. — Então é assim que as coisas se passam num mundo realmente civilizado. Se me lembro que ainda há vinte anos, a simples decolagem de um foguete causava uma sensação bem maior...
Os tempos mudam. E mudam muito depressa — disse Sengu, resumindo as idéias que lhe iam pela mente. — Aliás, o carro que deverá levar-nos já está chegando — enxergava através das paredes da Gazela. — Quer dizer que isto não é tão desorganizado como se poderia pensar.
Um carro?
Isso mesmo. Vem sem motorista. Está sendo teleguiado.
Tiff sacudiu a cabeça, mas logo se controlou.
Deixaremos Thora no camarote. Fecharemos a escotilha de entrada, para que ninguém possa entrar. Se bem que não acredito que por aqui alguém esteja ansioso para roubar uma nave. Embora o furto talvez não fosse notado. Não levaremos armas. Afinal, a raça com que devemos entrar em contato é pacata.
Proferiu estas palavras com certa amargura na voz, enquanto bloqueava todos os controles. O camarote de Thora foi trancado. Fazia pouco tempo que a arcônida havia recebido uma injeção nutritiva. Estava dormindo. Saíram da Gazela, trancaram a escotilha e saltaram para o solo duro e liso.
O carro estava parado a alguns metros, aguardando-os com a porta aberta. O lugar do motorista estava ocupado por um painel automático. No assento de trás, havia lugar para seis pessoas.
Mal estavam sentados, a porta fechou-se silenciosamente. O veículo pôs-se em movimento, correu pela estrada espacial, dobrou para a esquerda e aumentou de velocidade.
A distância até a extremidade do campo espacial devia ser de vinte quilômetros, se fosse mantida a mesma direção. Tiff teve trabalho de sobra para transmitir a Gucky as impressões que desabavam sobre ele. Naquele instante, gostaria de ver o rosto do rato-castor.
Durante a viagem vertiginosa, Tiff não pôde fornecer uma descrição detalhada dos diversos tipos de nave. Contentou-se com um relato geral, e com o tempo adquiriu uma certa prática em constatar e transmitir as principais diferenças.
Sengu logo se cansou da visão monótona. Recostou-se no assento e fechou os olhos.
Depois de dez minutos de viagem, o espaço entre as naves foi aumentando, até que o resto do campo de pouso se estendeu diante dos olhos dos terranos. O carro seguiu diretamente para o edifício alongado com as bandeiras, que Tiff já havia observado do alto.
Atravessaram uma barreira. Surgiu Uma longa fila de carros parados numa espécie de área de estacionamento. Encontraram uma vaga. O veículo, que parecia ser dirigido por uma mão invisível, a ocupou. As portas abriram-se. Tiff fez um sinal para Sengu. Desceram. Ninguém exigiu qualquer pagamento. Aliás, Tiff não tinha certeza se o autômato se contentaria com a moeda arcônida, que Crest Ilhes entregara por precaução.
E agora? — perguntou Sengu perplexo. A profusão de naves fora substituída por uma quantidade enorme de veículos estacionados. — Para onde vamos?
Tiff ajeitou o uniforme. Conseguiu esboçar um sorriso débil e apontou para o edifício mais próximo.
Para lá.
Diante do edifício havia um grande movimento. Humanóides entravam e saíam. Por mais de uma vez, Tiff reconheceu figuras não-humanas, mas em virtude da distância não lhe foi possível identificá-las. Um moof guardado num recipiente pressurizado passou por eles e foi introduzido no edifício que tinha o aspecto de repartição oficial. Alguns degraus largos e coloridos levavam a um portal, atrás do qual se viam certa instalações que tinham o aspecto de guichês.
Tiff retribuiu o cumprimento de cabeça de um homem alto, que parecia ter mais pressa do que eles. Quem seria? Um saltador? Ou pertenceria a outra raça aparentada com os arcônidas?
Caminhando lentamente e com um sinal cada vez maior de insegurança relativa os dois terranos aproximaram-se do edifício. Ali saberiam se a teoria de Rhodan combinava com a prática.
Um homem robusto de menos de um metro de altura, que envergava um traje espacial fechado, aproximou-se, lançou-lhes um olhar perscrutador. Depois prosseguiu no seu caminho. Tiff teve a impressão de ter visto atrás da lâmina do visor um rosto um formato de sapo, envolto por uma atmosfera verdecenta.
Aqui é o ponto de encontro de todas as raças da Galáxia — cochichou para Sengu, que observava os arredores com os olhos semicerrados. — Nunca imaginaria que uma coisa destas realmente pudesse existir.
Aqui o movimento é bem maior que em Árcon — disse o japonês. — Isto se parece mais com a capital de um império.
Era uma observação amarga e objetiva, cuja justeza não poderia ser contestada. Tiff reconheceu o fato em seu íntimo. Finalmente viu os primeiros aras.
Eram descendentes de colonos arcônidas, tal qual os saltadores ou mercadores galácticos. Tinham mais de dois metros de altura e eram albinos. A pele despigmentada, os cabelos brancos e os olhos vermelhos provavam esse fato. Eram de uma magreza inimaginável; pareciam feitos exclusivamente de pele e ossos.
Três dos aras lançaram olhares curiosos para os terranos, mas não demonstraram maior interesse. Usavam capas brancas com sinais dourados na altura do peito. Seu andar grave e altivo dava mostras de uma sensação de autoconfiança e superioridade.
Eles não são nem um pouco convencidos — murmurou Sengu quando os três estavam fora do alcance de sua voz. — Para que servem essas capas brancas?
Talvez sejam médicos — conjecturou Tiff em tom pensativo. — A presença deles num porto espacial não seria nenhuma surpresa.
Chegaram aos degraus que davam para o portal e entraram com mais alguns humanóides. Alguém teria de interessar-se por eles.
À direita e à esquerda enfileiravam-se os guichês, atrás dos quais estavam sentados aras femininos que pareciam responder a perguntas que lhes eram formuladas. Pareciam conversar com os fregueses que se encontravam diante dos guichês. Empurravam os papéis de um lado para outro e preenchiam formulários.
Os três aras de capa branca passavam pela multidão, olhando atentamente para todos os lados. Parecia que procuravam alguma coisa. Finalmente retiraram-se por uma porta situada na parte dos fundos.
Tiff deu uma pancadinha em Sengu e dirigiu-se ao guichê mais próximo.
Uma bela ara lançou-lhes um olhar bastante interessado.
Tiff pigarreou. Antes que tivesse tempo para abrir a boca e formular uma pergunta, a moça disse em intercosmo:
Aqui está seu formulário. Faça o favor de preenchê-lo.
Tiff pegou a folha de papel dobrada e por alguns segundos ficou perplexo, examinando os caracteres que já lhe eram conhecidos. Aprendera a língua dos arcônidas através do processo hipnótico. Não teria a menor dificuldade em responder às perguntas constantes do formulário.
Resta saber se devo responder a todas as perguntas”, pensou.
Fez um sinal para a moça e juntamente com Sengu dirigiu-se a uma das inúmeras mesas espalhadas pela sala. Um instrumento de escrita protegido por um dispositivo magnético estava à disposição do visitante.
Quer dizer que aqui fizeram a mesma experiência que na Terra”, pensou Tiff com certa alegria. Colocou o formulário sobre a mesa, segurou a caneta e ficou perplexo com a primeira pergunta, colocada logo após o espaço reservado aos dados relativos ao nome, planeta de origem e o motivo da vinda:

1) De que tipo é a doença que o trouxe a Aralon? (Indicar a designação local ou descrever os sintomas.)

Sengu olhou por cima do ombro de Tiff e fez uma careta.
Será que essa gente acredita que todo astronauta é um doente?
Tiff não respondeu. Continuou a ler:

2) Deseja obter tratamento direto seguido de alta imediata, ou planejou um tratamento mais prolongado?
3) Indique o tipo de tratamento desejado.
4) Está vinculado ao seguro-saúde Arakos ou a qualquer outro seguro? (Favor fornecer indicações precisas.)

Tiff levantou a cabeça e seu olhar encontrou o de Sengu.
Acho que fui ao guichê errado — murmurou com a voz insegura. — Talvez aquilo seja uma seção especial para astronautas doentes.
Pois vamos tentar em outro guichê — sugeriu o japonês.
Tiff dobrou o formulário, o enfiou no bolso e, com uma expressão de indiferença no rosto, dirigiu-se a um guichê que acabara de ficar livre. Sem olhá-lo, a ara, bela mas muito magra, empurrou-lhe outra ficha. Tiff pegou-a, embora já soubesse que era absolutamente igual à que recebera antes.
Começou a desconfiar da verdade.
Voltaram à escrivaninha. Tiff pegou a caneta e começou a preencher o formulário.

Nome: Thora da família Zoltral. Sistema de Árcon.
Espécie de doença: hipereuforia.
Local do adoecimento: Planeta Honur, sistema de Thatrel.
Classe: Primeira.
Seguro: Paciente particular.
Espécie de tratamento: Direto, com alta imediata.

Sengu ficou sacudindo a cabeça e olhou cautelosamente para todos os lados. Aquilo começava a deixá-lo apavorado. Ninguém se interessava por eles. Naquele recinto, as pessoas se comprimiam como numa feira. O japonês viu aras em capas brancas, que passavam devagar e em atitude altiva por entre os recém-chegados, examinando-os. Por vezes, dirigiam-se a eles, conversavam um pouco e seguiam seu caminho.
Tiff, não estou compreendendo. Onde estamos? O que está acontecendo por aqui? Será que enlouquecemos?
Tiff colocou sua assinatura embaixo do formulário e piscou para Sengu.
Não enlouquecemos coisa alguma, meu caro. Quer saber o que está acontecendo aqui? Pois é muito simples. Acabamos de pousar em Aralon, mundo central dos aras, que são uma raça formada exclusivamente por médicos e o respectivo pessoal auxiliar. Por isso, seria mais que natural que transformassem o planeta num único hospital. É isso mesmo, Sengu. Este pavilhão é a recepção do hospital. Qualquer pessoa que venha para Aralon está doente, quer ser curada. Acontece que a cura só pode ser encontrada neste lugar, que é a fonte de todas as doenças. Os aras querem viver, e vivem das doenças dos outros.
Parecia que uma venda caía dos olhos de Sengu. Os aras de capa branca eram médicos que caminhavam à toa, olhando os novos pacientes. Os numerosos guichês faziam a triagem dos recém-chegados segundo a espécie da doença e o poder aquisitivo do paciente.
Um planeta-hospital.
Isso... isso é uma coisa inconcebível.
Será mesmo? Pois eu acho isto mais que natural. Deveríamos ter sabido antes de pousarmos. Bem, preenchi o formulário para Thora. Vamos entregá-lo e aguardar os acontecimentos.
E nós? Será que não precisamos fazer algum registro?
Ao que parece não existe nenhuma obrigatoriedade de registro para as pessoas sadias. É bem provável que uma pessoa sadia não permaneça em Aralon mais tempo que o absolutamente necessário. Trazem os amigos ou parentes doentes e dão o fora. Mais tarde vêm buscar o paciente curado. É um sistema muito simples, e provavelmente também muito lucrativo. Todo um planeta vive disto.
Um sorriso ligeiro e frio surgiu em seu rosto. Segurou o formulário, e caminhou em direção ao guichê mais próximo. Sengu seguiu-o. Tinha uma sensação estranha na região do estômago.
A ara pegou o formulário, passou os olhos e dirigiu-se a Tiff com um sorriso amável.
Essa Thora da família Zoltral é sua parenta?
A voz revelava certa dúvida. Qualquer um perceberia imediatamente que Tiff e Sengu não eram arcônidas. No Império de Árcon havia tantas raças que a ara não poderia ter a menor idéia sobre a raça a que pertenciam os visitantes.
É claro que não. Apenas a trouxemos a pedido da família.
A moça confirmou com um aceno de cabeça e lançou uma observação no formulário, antes de colocá-lo na mesma. Ainda não se deu por satisfeita. Sorriu mais uma vez, inclinou-se para a frente e fitou os olhos de Tiff, como se procurasse uma resposta.
Não tenho nada com isso, mas gostaria de saber de que sistema é o senhor. Não deve ser de Heroinka.
Tiff sacudiu a cabeça com tamanha Torça que qualquer um acreditaria que para ele Heroinka era o inferno.
Venho do planeta Terra, sistema Sol! — disse em tom indiferente. — A senhora o conhece?
Igual a Tiff, a moça sacudiu a cabeça violentamente.
Nunca ouvi falar. Ainda não tivemos nenhum paciente de lá. Onde fica?
Tiff deu de ombros.
Fica muito longe, a milhares de anos-luz.
A moça fitou Tiff com os olhos arregalados. Depois soltou uma risada melódica. Naquele instante, era bela e engraçadinha.
O senhor está brincando. Não existe nenhum sistema que fique a mais de cento e quinze anos-luz daqui.
Tiff sabia que o conceito de ano-luz era quase idêntico ao da Terra. O planeta completava sua órbita em torno do astro central num período de trezentos e oitenta dias.
Ao menos não existe nenhum sistema pertencente ao Império.
A Terra — disse Tiff, falando devagar e com certa ênfase — não pertence ao Império.
A ara parou de rir. Escreveu algumas observações no formulário e atirou-o numa caixa metálica. Ouviu-se um chiado, e formulário desapareceu.
Abriu uma gaveta, tirou um disco metálico e entregou-o a Tiff.
Com isto o senhor pode pagar a uma ambulância que tirará Thora de sua nave. Será levada automaticamente ao local indicado. Entregue a paciente e volte à sua nave. Desejo-lhe uma longa vida.
Dirigiu-se ao próximo visitante, que era uma coisa disforme com um traje pressurizado e uma máscara.
Tiff arrastou Sengu consigo. O disco metálico desaparecera no seu bolso. Quando se viram do lado de fora, respiraram aliviados. O ar era puro e tépido. Lembrava um dia de primavera na Terra.
Como é difícil chamar a atenção de alguém num lugar como este — disse Tiff em tom preocupado. — Até parece um hospital da Terra. Ali também se pode entrar sem que ninguém lhe pergunte quem é e o que deseja. Isso num grande hospital, naturalmente. Mas experimente entrar num edifício de apartamentos. Todo mundo o olhará e perguntará quem é você e com quem quer falar. E o planeta em que nos encontramos forma um hospital. Não é de admirar que nem queiram saber quem somos. O que lhes interessa é que tragamos um paciente e o respectivo dinheiro...
O que vamos fazer? Não podemos entregar Thora e voltar sozinhos.
Não tenho a menor intenção de fazer isso. A moça já colocou algumas informações no formulário. Na central, que reúne todas as informações, começarão a desconfiar. Especialmente quando lerem a referência à Terra.
Acredita que já ouviram falar no planeta Terra?
Tiff acenou com a cabeça.
De qualquer maneira desconfiarão. Tanto faz que nunca tenham ouvido falar em nosso planeta, ou que disponham de informações que não poderão ser nada tranqüilizadoras. Estarão muito interessados em travar conhecimento conosco. Aposto que já nos estão esperando no lugar para onde Thora será levada.
Perto do parque de estacionamento que já haviam visto encontraram outro. Havia por ali veículos dos mais variados tipos, capazes de abrigar pacientes de todas as espécies. Um deles tinha o formato de grande aquário e estava cheio de água. Tiff tinha uma fantasia bastante ativa para imaginar como seria o paciente transportado nesse veículo.
Tirou o disco metálico do bolso e examinou-o mais detidamente. Possuía uma marcação. A marcação, também redonda, que se via nas paredes laterais do aquário transportável, não era idêntica à de sua ficha.
Não demoraram em encontrar o carro destinado a eles. Lembrava uma ambulância como qualquer outra. No lugar da maçaneta, havia uma fenda. Embaixo, o desenho da moeda.
É uma coisa bem bolada — murmurou Tiff. — Até mesmo um analfabeto não teria a menor dificuldade em orientar-se num lugar como este.
Enfiou tranqüilamente a ficha na fenda.
A porta abriu-se silenciosamente, como se uma mão de fantasma a movesse. Entraram. A porta fechou-se, e o carro foi posto em movimento. Saiu para o campo espacial e dirigiu-se para a rua larga que passava entre as naves estacionadas.
Como é que o condutor automático vai saber onde fica nossa nave? — perguntou Sengu com certo ar de triunfo. — Não existe a menor indicação sobre o lugar em que a Gazela se acha estacionada. Será que existe uma explicação lógica?
Acho que existe — respondeu Tiff e viu as naves gigantescas aproximarem-se com uma rapidez vertiginosa. Não se sentia o menor abalo. — Afinal, fomos apanhados por um carro. O cérebro positrônico registrou a rota percorrida. Basta solicitá-la, e o minúsculo cérebro robotizado do automóvel fornece os dados, que são introduzidos na programação da ambulância. Como vê, é muito simples.
O japonês desistiu. Sem dizer uma palavra, resolveu aguardar os acontecimentos. Quando o carro parou suavemente bem embaixo da escotilha de entrada da Gazela, limitou-se a soltar um ronronar de aprovação.
Thora estava acordada. Sorriu para os dois homens, sem compreender o que estava acontecendo. Como as correias a prendessem à cama, Tiff não achou necessário pô-la a dormir de novo. Por meio do antígravo portátil tiraram a cama do camarote, levaram-na pelo estreito corredor e finalmente a colocaram no automóvel que os esperava. A escotilha de entrada voltou a ser fechada. Quando os dois homens haviam entrado, as portas do veículo se fecharam e este voltou a colocar-se em movimento.
Desta vez seguiu uma rota diferente.

* * *

Saíram do campo de pouso. Após quinze minutos, chegaram a uma estrada larga que começou a descer lentamente, penetrando num túnel que mergulhava sob a superfície de Aralon.
A modificação provocou sentimentos um tanto ambíguos na mente de Sengu.
Será que isso não é uma armadilha, Tiff? Por que iriam construir o hospital embaixo do solo?
Tiff estava com os olhos semicerrados.
Não sei mas posso imaginar. Os aras não apreciam a luz do sol. Não se esqueça de que são albinos. Conforme o tipo do paciente, preferirão que o hospital fique no subsolo. Acredito que seremos levados em primeiro lugar a um posto de triagem.
Nenhum carro os ultrapassou, mas alguns vieram ao seu encontro. A cada quinhentos metros, estradas mais estreitas saíam para a esquerda e para a direita. As lâmpadas redondas presas ao teto a intervalos regulares espalhavam uma luz mortiça.
Subitamente o veículo reduziu a velocidade. Dobrou para a direita e desenvolveu maior velocidade.
Não demorará muito para sabermos a quantas andamos — conjecturou Tiff. — Ficarei satisfeito quando esta incerteza tiver chegado ao fim.
Eu também — murmurou Sengu, mas o tom de sua voz não parecia muito convincente.
Mais adiante, viu-se uma luz mais intensa. O veículo saiu do túnel, passou por uma grande praça, subiu numa rampa estreita e parou diante de uma porta. Depois de alguns segundos, esta se abriu como se estivesse sendo controlada pelos espíritos. O carro voltou a deslocar-se e estacou num pavilhão profusamente iluminado, no qual desembocavam vários corredores.
Tudo reluzia de limpeza. Aras em capas brancas andavam apressadamente de um lado para outro, conversavam animados, lançavam olhares rápidos para o centro e tornavam a desaparecer.
Cinco aras se aproximaram, vindos de outra direção. Ficaram parados junto ao carro. Seus rostos sérios pareciam um prenúncio do que os esperava, mas talvez fosse apenas uma ilusão de Tiff.
Um deles atirou uma ficha no registro automático, e a porta da ambulância! abriu-se.
Os senhores estão trazendo a paciente Thora de Árcon? — perguntou um dos aras e lançou um olhar indagador para Tiff.
Este confirmou com um aceno de cabeça.
Correto — reconheceu e desceu do carro com as pernas duras, procurando movimentar os pés. — Esta é a seção destinada aos doentes que sofrem de hipereuforia?
O ara não reagiu à pergunta.
Quem é o senhor?
Sou o tenente Tifflor, do planeta Terra, sistema Sol. Não sei se isto lhe diz alguma coisa.
E aquele ali?
É Wuriu Sengu; também vem da Terra — informou Tiff.
O ara acenou com a cabeça, como se estivesse ouvindo alguma coisa que já sabia há muito tempo.
Então é o planeta Terra — murmurou satisfeito. — Bem que nós desconfiávamos.
Tiff não conseguiu reprimir mais a curiosidade.
Já ouviu falar no planeta Terra? Será que poderia me dizer quando foi isso?
O senhor ainda terá oportunidade para conversar conosco. Siga-nos.
Tiff apontou para o carro.
E Thora? Está doente e precisa de assistência imediata.
Cuidaremos dela; não se preocupe. A peste de nonus é uma doença infecciosa relativamente simples. Amanhã sua paciente nem se lembrará mais de que já esteve doente. Mas não vamos perder mais tempo. Acompanhe-nos; precisamos conversar com o senhor.
Tiff ainda estava hesitando. Não gostou nem um pouco da idéia de deixar Thora só. Mas não lhe deram oportunidade de empregar outras táticas de retardamento. A um sinal do ara, quatro homens robustos aproximaram-se. Em comparação com os outros nativos do planeta Aralon, eram verdadeiros atletas. Tiff e Sengu foram agarrados por dois deles. Sem a menor consideração, torceram os braços dos homens surpresos e empurraram-nos rapidamente em direção a uma porta.
O japonês fez menção de defender-se, mas Tiff lhe disse:
Não faça isso, Sengu. Em primeiro lugar, precisamos saber o que desejam de nós. Não se defenda.
Uma porta foi aberta. Os quatro indivíduos robustos empurraram suas vítimas para o interior da sala, e continuaram segurando-os.
Três dos cinco médicos os seguiram.
Atrás de uma mesa larga estavam sentados mais três aras com as costumeiras capas brancas. Olharam Tiff e Sengu com uma enorme curiosidade.
Poderiam fazer o favor de explicar o que significa isso? — disse Tiff em tom enérgico. — Nós lhes trazemos uma paciente e os senhores nos tratam como se fôssemos criminosos.
O mais velho dentre os aras acenou lentamente com a cabeça e lançou um olhar para a pilha de documentos que se encontrava diante dele. Voltou a levantar a cabeça e seus olhos vermelhos e inexpressivos fitaram Tiff.
Pois é justamente isso. Os senhores só nos trazem uma paciente. Pelas informações que recebemos, deve haver algumas centenas. O que houve com os outros?
É claro que Tiff não estava preparado para esta pergunta. Levou alguns segundos para responder:
Talvez eu tenha um interesse pessoal apenas na cura de Thora.
O velho inclinou-se para a frente.
Será? — voltou a folhear os documentos. — Os senhores vêm da Terra, um planeta que fica a mais de trinta mil anos-luz e que ainda não teve qualquer contato com o Império. Seu comandante é Perry Rhodan, que por várias vezes entrou em choque com os mercadores galácticos. Por que acha que devíamos ter interesse em ajudar os inimigos de nossos amigos?
Por pouco Tiff não responde: Porque vocês os fizeram adoecer. Mas conseguiu controlar-se.
Quem lhe disse que Thora é amiga de Rhodan? — perguntou. — O que dizem suas informações, além disso?
Bastante coisa — resmungou o velho. — O senhor deve estar lembrado de que em certo planeta que os saltadores costumam chamar de Goszul, Rhodan provocou artificialmente uma epidemia a fim de apoderar-se do mesmo. Será que já está esquecido disso? Não deixará de confessar que é um método bastante condenável. Os saltadores doentes vieram para Aralon, em busca de auxílio. Foi assim que descobrimos. Felizmente tratava-se de doença infecciosa auto-curável. De qualquer maneira, essa história granjeou uma fama triste para Perry Rhodan. Já sabemos quem são os terranos.
Tiff não estava disposto a ficar calado por mais tempo.
Então já sabem quem somos? — fungou e de um golpe livrou-se das mãos dos dois guardas. — Não preciso de vigia, seus fracalhões.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html