Autor
CLARK
DARLTON
Tradutor
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Um mundo nas malhas dos telepatas
— e somente os mutantes podem
romper o bloqueio mental.
Síntese
da história da Terceira Potência:
1971 — O
foguete Stardust chega à Lua e Perry Rhodan descobre lá encalhado o
cruzador de reconhecimento dos arcônidas (Perry Rhodan — volume
1).
1972 —
Formação da Terceira Potência contra a resistência conjunta das
grandes potências da Terra e defesa contra invasões extraterrenas
(volumes 2 a 9).
1975 —
Pela primeira vez, a Terceira Potência intervém nos acontecimentos
da Galáxia. Perry Rhodan depara no setor Vega com os tópsidas e
tenta descobrir o enigma galático (volumes 10 a 18).
1976 —
Perry Rhodan chega com a Stardust-III ao planeta Peregrino e
consegue, juntamente com Bell, a imortalidade relativa (volume 19).
1980 —
Perry Rhodan volta à Terra e luta por Vênus (volumes 20 a 24).
1981 — O
Supercrânio ataca (volumes 25 a 27).
1982/83 —
Aparecem os saltadores para excluírem a Terra como concorrente
potencial ao comércio das Galáxias (volumes 28 a 37).
1984 —
Ataque de Perry Rhodan contra Árcon (volumes 38 a 39).
Mesmo para
os arcônidas Crest e Thora, que por 13 anos perderam o contato com
sua pátria, Árcon ofereceu enormes surpresas — sem falar,
naturalmente, em Perry Rhodan e em seus cosmonautas da Terra.
Apesar de
tudo, conseguiram enganar o grande cérebro positrônico que há seis
anos exercia a função de regente do Império Arcônida, e se
apoderar da Titan, a mais possante espaçonave do universo conhecido.
Mas para
ser reconhecido como O Aliado do Gigante, Perry Rhodan tem que
cumprir uma missão muito importante...
=
= = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Perry
Rhodan
— Chefe da Terceira Potência.
Reginald
Bell
— Ministro da Segurança da Terceira Potência.
Demesor
— Vice-imperador de Árcon e ditador do sistema Voga.
Rogal
— Revolucionário.
Zernif
— Almirante e amigo do Zarlt assassinado.
John
Marshall
— Chefe do Exército de Mutantes.
Gucky,
Wuriu
Sengu
e Kitai
Yshibashi
— Mutantes da Terceira Potência, que terão uma missão
importantíssima.
1
Rogal
ficou parado, tentando escutar qualquer ruído na escuridão. Era
tudo silêncio e imobilidade. Talvez estivesse enganado. Os muros de
pedra exalavam um frio úmido que não fazia bem a seus pulmões. O
ar estava péssimo e sufocante. Em algum lugar estavam caindo, em
cadência regular, gotas de água que se estatelavam em alguma poça.
Rogal já havia sido liberado do poder hipnótico de André Noir.
Vários
caminhos levavam ao palácio de Zarlt, tirano de Zalit, o quarto
planeta do gigantesco sol vermelho Voga, a uma distância apenas de
três anos-luz de Árcon.
Este
caminho subterrâneo era conhecido apenas por poucos confidentes do
legítimo soberano de Zalit, assassinado há algum tempo. Rogal se
certificou de que sua pistola energética estava bem firme na
cintura. Não tinha coragem de acender a lanterna, embora não
esperasse que os vigias do palácio conhecessem o caminho secreto. Se
o ex-guarda-costas Elton, do falecido Zarlt, não tiver mentido, o
caminho secreto terminará exatamente nos aposentos de dormir de
Demesor, que de oficial da Frota Espacial se havia guindado ao posto
de novo soberano.
De modo
inconsciente, os punhos de Rogal se retesavam quando pensava em
Demesor. O nome do déspota incluía uma dupla traição. Primeiro
mandou matar o velho Zarlt e depois concebeu o plano de se revoltar
contra o Império dos Arcônidas, cujo vice-imperador era ele mesmo.
Naturalmente, apenas de nome. Mas o domínio absoluto do gigantesco
cérebro robotizado só poderia ser um fenômeno passageiro e, de
maneira alguma, motivo suficiente para trair o Império. A idéia de
ser dirigido por um robô também não agradava a Rogal, mas de
qualquer jeito um robô seria mais justo do que um Zarlt com o nome
de Demesor. E por isso é que Demesor devia morrer.
Depois
desta pequena pausa, Rogal continuou sua caminhada. Sim, pensava ele,
essa intenção não era um crime, mas uma ação justa, pela qual um
planeta inteiro ficaria livre da ditadura de um homem ambicioso.
Acima dele, ouviram-se de repente passos surdos, que se afastavam,
sumiram por uns instantes e tornaram a voltar. Emudeceram exatamente
em cima dele. Tinha a impressão de que alguém o estava olhando
através da grossa cobertura de pedra. Um calafrio percorreu sua
espinha dorsal. O susto foi tão grande que sentiu pontadas no
coração. Mas o alívio veio logo. Como a fantasia prega sustos na
gente! A tal pessoa não poderia, naturalmente, vê-lo. Foi tudo mero
acaso, por certo explicado pelo fato de que um sentinela estava
patrulhando pouco acima do local onde estava.
Continuou
seus movimentos, respirando com intensidade, quando suas mãos
tateantes sentiram uma barreira lisa.
A
porta...?
A barreira
era de madeira, como o guarda-costas desertor lhe havia descrito.
Seus dedos procuraram até darem com um pequeno botão. Ficou então
hesitante, pensando o que poderia haver atrás da porta. Quem sabe os
guardas já o esperavam, avisados pelo misterioso instinto que
prolonga a vida de tantos tiranos...? Ou seria apenas a continuação
do corredor secreto e a escada-caracol entre as paredes, que levava
para cima? Encostou o ouvido contra a superfície de madeira e ficou
escutando de olhos cerrados. Não, não havia ruído algum. Girou
vagarosamente o botão e a porta cedeu, continuando tudo escuro.
Penetrou
no corredor, encostando apenas a porta. Sabia que deste lado não
havia possibilidade de abri-la e de maneira que não poderia
fechá-la, caso não quisesse perder a única possibilidade de
retirada. Foi apalpando cuidadosamente para frente, até que os pés
deram com o primeiro degrau da escada. Respirou pausado. O
guarda-costas tinha falado a verdade. Seriam então ainda 368 degraus
até o aposento de dormir de Demesor. No ducentésimo, fez uma pausa
para respirar. Naturalmente não era uma escada-caracol de fato, era
mais um corredor em ziguezague subindo em degraus. O palácio do
Zarlt era, como todos os edifícios em Zalit, em forma de um funil. O
cabo do funil era uma superfície circular de cinqüenta metros de
diâmetro. Daí subiam os terraços em forma de arenas num ângulo de
mais ou menos quarenta e cinco graus para fora e para cima, até
terminarem numa altura de cento e cinqüenta metros. Aí em cima, o
diâmetro dos círculos atingia uns duzentos e cinqüenta metros. Os
andares arredondados tinham fachadas de vidro. A arquitetura em Zalit
provinha dos arcônidas, como os próprios habitantes de Zalit não
eram outra coisa do que simples descendentes dos arcônidas.
Pela
primeira vez, Rogal se atreveu a acender sua lanterna de bolso, para
se orientar. Sua pele bronzeada lembrava os índios da Terra. Sua
cabeleira tinha reflexos de cobre. Na mão direita estava a arma de
construção esquisita que deveria pôr fim à vida de Zarlt. A
escada continuava subindo.
Novamente
se percebiam passos regulares, que se afastavam, se aproximavam e
depois desapareciam. O palácio devia estar cheio de guardas. Demesor
era desconfiado como todos os ditadores.
Rogal
sorriu de modo frio e apagou a lanterna. A escuridão parecia ter
duplicado de intensidade. Sua mão apalpou a parede e continuou a
caminhada. Estava consciente de que sua vida estava em jogo, pois o
Zarlt não o pouparia, caso o apanhasse. Mas antes de morrer, tinha
certeza disso, haveriam de tentar tudo para ficar a par de seus
segredos. Imaginariam que tinha amigos, amigos que poderiam ser
perigosos para o Estado. Principalmente haveriam de se interessar em
conhecer o chefe do movimento clandestino.
Rogal
estava decidido a pôr fim à vida, antes que conseguissem tirar dele
qualquer segredo. Pensando assim, atingiu o último degrau. Terminava
diante de uma parede lisa e fria. Mais uma vez se arriscou a acender
a lanterna de bolso. O anunciado rebaixamento era tão reduzido que
jamais o teria descoberto apenas apalpando. O primeiro empurrão
abriria uma pequena fenda para se olhar, o segundo abriria um pouco a
porta, por onde entraria no quarto de dormir do tirano. A lanterna
foi apagada, pois já tinha visto o suficiente. Esperou até que seus
olhos se habituassem novamente à escuridão e depois apertou o dedo
contra o rebaixamento da porta. Houve uma vibração quase
imperceptível e um feixe muito fraco de luz atingiu seus olhos. Com
muito cuidado colocou o olho direito contra a fenda.
Viu um
quarto muito grande, levemente iluminado por lâmpadas amortecidas no
teto. Bem em sua frente, estava uma cama larga, onde um homem
repousava. Estava encoberto por grossos cobertores que lhe deixavam
livre apenas a cabeça. Via-se bem nítida a linha de seu corpo. Era
o Zarlt Demesor.
Rogal
estava cansado de ver no videofone o rosto de Demesor. Conhecia, e
muito bem, os traços rígidos e ao mesmo tempo acolhedores do
tirano. Lá estava o homem que queria trair Zalit e o Império,
dormindo tranqüilamente. Rogal, neste momento, quase se sentiu um
traidor, mas conseguiu dominar seus escrúpulos morais.
Seria
realmente assassinato, quando se libertava um mundo inteiro de um
homem que ameaçava trazer apenas guerra e desgraça? Não era melhor
a morte de um do que de milhões? Com ponderações de justiça e bom
senso, não se conseguia nada com ele. Portanto não havia outro meio
a não ser usar de violência para fazer valer novamente a razão e o
direito.
Rogal
pegou a arma com firmeza, empurrou sem nenhum ruído a porta secreta
para dentro da parede oca, deixando livre o caminho. Sabia que ela,
através de um mecanismo embutido, ficaria aberta apenas dois minutos
e depois se fecharia automaticamente. Era uma medida de precaução
para evitar que pessoas estranhas viessem a saber da passagem
clandestina, pela qual se podia sair despercebido, como também
entrar no palácio.
Aí estava
Demesor, a menos de cinco metros à sua frente, completamente
indefeso. Rogal ainda estava indeciso. Deu três ou quatro passos,
levantou a arma e apontou. O dedo indicador puxou o gatilho e um raio
energético esverdeado atingiu com a velocidade da luz o rosto do
homem que dormia, envolvendo-o numa auréola de fogo de raios
cintilantes. Rogal viu horrorizado como o rosto começou a se
dissolver, escorrendo em filetes incandescentes sobre o travesseiro,
corroendo com um leve chiado os cobertores, até pingar no chão.
O Zarlt
derretia...
Rogal
fitava o incompreensível. Sua mão começou a tremer e os raios
energéticos percorreram sem rumo o aposento até incendiar as
cortinas das janelas, apagando-se em seguida.
Abriu-se
uma porta lateral e três, quatro homens entraram no quarto,
precipitaram-se contra o assaltante, tirando-lhe a arma. Rogal não
reagiu. Olhava, como que fora de si, para o cadáver do Zarlt. O que
estavam fazendo com ele no momento, não tinha nenhuma importância.
Mas o Zarlt estava realmente morto...
Mãos
fortes puxaram-lhe os braços para trás das costas. Num relance de
vista Rogal percebeu que a porta secreta se fechava sem nenhum ruído.
Pelo menos assim, os guardas não saberiam como ele tinha entrado no
palácio. Não lhes fazia mal quebrar a cabeça com isso.
Sem
nenhuma resistência deixou-se levar do quarto para fora. Admirou-se
apenas de que ninguém se preocupou em olhar para o cadáver. Será
que a morte do tirano era assim tão indiferente para os guardas?
Empurraram-no para o aposento contíguo e depois para o espaçoso
corredor circular.
Em algum
lugar estava tocando um sinal de alarma. As portas se abriram e caras
curiosas olharam por um instante para o grupo que passava. Depois
fecharam-nas, como se estas coisas não fossem boas de serem vistas.
O alarma
terminou. Os quatro guardas, que acompanhavam Rogal, pararam diante
de uma porta. Um deles bateu. Alguém respondeu secamente e a porta
se abriu. Um homem chegou até ao corredor e olhou com cara de sono
para o grupo esquisito e para seu prisioneiro. Rogal sentiu como se
uma mão de ferro apertasse seu coração. Viu que os olhos do Zarlt
Demesor se tornaram de repente frios e impiedosos.
*
* *
— Ele já
devia estar de volta há muito tempo, se tudo corresse como
planejamos.
A voz
parecia preocupada, mantendo ainda um raio de esperança. Era a voz
de uma pessoa mais idosa, sentada numa cômoda poltrona, diante de um
aquecedor elétrico que lhe esquentava os pés. Além dele, ali
estavam também presentes cinco outros zalitas, sendo que todos
demonstravam aparência de tresnoitados.
— Ele
pode estar atrasado — consolou um deles. — Quem sabe se teve de
esperar para poder agir melhor. Há tantas possibilidades que nós
não podemos imaginar...
— E se
tiver acontecido a pior delas? Se o atentado fracassou e o coitado
foi preso. Que irá acontecer se ele não tiver oportunidade de se
matar... se então nos denunciar?
O
interlocutor anterior meneou a cabeça.
— Rogal
é um dos melhores dos nossos homens, faz tudo planejado e com a
devida cautela. Jamais se arriscaria inutilmente.
*
* *
O velho
Zernif, ex-comandante da Frota Espacial de Zalit e almirante do
falecido Zarlt, fez um gesto indeciso.
— O
prazo terminou. Já passou muito da meia-noite e Rogal ainda não
voltou. As medidas de segurança combinadas devem ser postas em ação.
Se nos descobrirem aqui no esconderijo, Zalit está perdido. Mesmo os
amigos não nos podem mais ajudar.
Os
amigos... Por alguns instantes, os revoltosos se lembraram daqueles
amigos, que numa nave de combate apanhada dos arcônidas haviam
regressado ao seu mundo. Eles tinham mantido relações com o Zarlt e
pareciam de acordo com o plano do grupo. Pois, não aprovavam as
intenções de Zarlt e o classificavam de traidor.
— Devemos
dar o fora daqui, independentemente do fato se Rogal teve sucesso ou
não. Se Demesor escapou do atentado, a situação não está boa
para nós. Ele não tem dó e nenhum de nós escapará.
— Se nos
encontrar — acrescentou Zernif, alisando a barba bronzeada, que lhe
dava um porte de figura respeitável. — Se Rogal for coagido a
fazer denúncias, isto pode realmente acontecer.
— Rogal
preferirá a morte.
— E se
não lhe deixarem tempo para morrer?
Silêncio
total. O almirante Zernif, falou baixo:
— Vamos
esperar ainda meia hora, depois desapareceremos. Se Rogal ainda
conseguir voltar, saberá onde nos encontrar.
A meia
hora combinada passou, sem que Rogal aparecesse. Os chefes do
movimento de resistência se prepararam para a partida. Sabiam que o
caminho secreto para o palácio não tinha agora muita importância.
Tinham que desaparecer mesmo, se não quisessem ser surpreendidos
pelos carrascos do Zarlt. Pegaram suas armas, pistolas energéticas
leves e pesadas de fabricação arcônida. Depois ligaram os
detonadores de retardamento das bombas de dinamite, destinadas a
mandar pelos ares a casa velha e abandonada, e com ela também, o
ponto de partida do caminho secreto.
De
repente, ouviu-se um ruído em determinado lugar da parede. Alguém
pisava vacilante sobre cascalhos e batia compassadamente na parede.
Zernif pôs-se a escutar. De início, seus olhos mostravam sinais de
alegria, mas logo mais foram transformados em desconfiança e
preocupação.
— Deve
ser Rogal — disse alguém contente. — Ele tem que se apressar,
pois as bombas explodem em trinta minutos.
— Quem
sabe não é Rogal — murmurou o almirante Zernif, tentando esconder
o medo em sua voz. — Por que razão não dá emite o sinal da
senha?
Ninguém
respondeu.
Se a
pessoa que se arrastava nesta direção era realmente Rogal, deveria
ter dado o sinal da senha: três pancadas leves na parede, antes de
abrir a porta. Se esta se abrisse sem o sinal, certamente não seria
Rogal que se aproximava do esconderijo.
Os homens
se entreolharam, sem dizer uma palavra. Automaticamente suas mãos
correram para a cintura, apanhando as armas. Destravaram a segurança
e já lá estavam seis bocas de fogo apontadas para o local da parede
onde se escondia a porta. Nenhum ruído passava despercebido de seus
ouvidos atentos. Devia ser muito mais o número de pessoas reunidas
atrás da muralha de pedra. A vibração dos pés o indicava. Não
havia dúvida de que o atentado de Rogal fracassara. Mais ainda, os
carrascos do Zarlt tinham descoberto o caminho secreto. Se com culpa
de Rogal ou sem sua culpa, isto ainda teria que ser explicado.
Zernif
sussurrou:
— Escondam-se
todos, para que eles não nos vejam logo de início. Primeiro
precisamos saber quantos são, e só depois que todos saírem do
corredor é que começaremos a atirar. Compreendido?
Os cinco
homens concordaram. Esconderam-se atrás de caixas e móveis velhos.
O aquecedor elétrico já estava frio, mas ainda havia um arzinho de
calor agradável no ambiente. No entanto os conspiradores já
começavam a sentir frio. No fundo, podia-se ouvir o leve tique-taque
dos detonadores de retardamento. Ainda restavam vinte minutos... e
depois tudo iria pelos ares.
Na parede
da frente, ouviu-se um estalo e a partir daí a parede começou a se
dividir. Uma parte se projetou para a direita e a outra para a
esquerda. Apareceu um vulto.
Rogal.
Tinha uma
aparência esquisita, com os olhos vazios e sem expressão, fitando o
ambiente sem ver nada. Atrás dele surgiram homens de uniformes
coloridos, tendo às mãos as pistolas energéticas, em posição de
logo. Empurraram Rogal para frente. E como nada tivesse acontecido,
entraram depois dele. Eram ao todo doze guardas do palácio, entre
eles dois membros da temível polícia secreta do Zarlt.
O
almirante Zernif os reconheceu imediatamente e percebeu ainda muito
mais. Levantou a arma contra os dois policiais e gritou bem alto:
— Pela
liberdade e pelo império! — e atirou.
Seus cinco
companheiros só estavam esperando por isto. Saltaram de seus abrigos
e fizeram fogo cerrado contra os doze soldados de Zarlt. Um destes,
apesar do perigo iminente, avançou uns passos para frente e tirou
Rogal da linha de fogo. Sem nenhuma consideração, deu-lhe um
estúpido empurrão, atirando-o ao chão. Só depois é que se
dirigiu ao inimigo.
Num minuto
depois, estava tudo terminado. Os doze guardas palacianos estavam
mortos e dois dos revolucionários estavam caídos. Zernif tinha
recebido no braço um tiro de raspão, o que porém não o impedia de
parecer muito feliz. Mas não havia muito motivo para isto.
Rogal
ainda estava no mesmo lugar. Olhava abobalhado em torno de si. Um
simples exame dos seus olhos arregalados e sem expressão convenceu
Zernif de que ele não tinha cometido nenhuma traição consciente.
Alguma coisa havia acontecido a ele. Se sua suspeita se confirmasse,
Rogal estaria praticamente morto ou, em outras palavras, seria melhor
que morresse.
Não havia
mais tempo. Em quinze minutos, as bombas detonariam e da velha
construção não sobraria nada.
— Cuidem
de Rogal, temos que levá-lo conosco. Talvez consigamos saber
qualquer coisa. Precisamos nos apressar.
Já estava
ficando noite. Ao longe brilhavam as luzes de Tagnor, a capital do
planeta Zalit com quase 30 milhões de habitantes. Depois de caminhar
alguns passos, embarcaram no carro escondido entre a vegetação do
parque. O motor começou a roncar. Duas curvas depois alcançaria a
estrada de saída.
O momento
estava chegando. De repente, uma língua de fogo cortou o céu
escuro, e uma enorme compressão de ar varreu a solidão do parque,
enquanto que um estampido ensurdecedor atingia toda a região.
Não havia
mais caminho secreto para o palácio do Zarlt.
2
O
Espaçoporto de Tagnor tinha vinte quilômetros de diâmetro. Era
realmente muito grande, mas ao mesmo tempo muito pequeno, em relação
com o inimaginável movimento nele reinante. A quase cada minuto
subiam e desciam espaçonaves de carga, luxuosos gigantes de
passageiros, belonaves e cruzadores da frota dos zalitas. Era como se
fosse um enorme pombal.
Esta era,
pelo menos, a opinião de Reginald Bell. Sua pesada estatura
repousava numa frágil poltrona, diante das instalações de controle
da tela panorâmica, por meio da qual observava o movimento no
espaçoporto. Vez por outra, um sorriso feliz percorria seu rosto
largo e seus cabelos eriçados davam a entender, mais do que tudo,
que não havia motivo para inquietação. Ele não estava sozinho na
enorme central da Titan, como haviam batizado a belonave aprisionada.
Com um diâmetro de um quilômetro e meio, era a maior nave esférica
conhecida no Universo, um novo produto da tecnologia dos arcônidas.
O corpo
magro, esguio de Perry Rhodan, estava apoiado na mesa de navegação,
parecendo se sentir bem nesta posição. O rosto pequeno demonstrava
concentração e contentamento ao mesmo tempo. Era como se todos os
cuidados tivessem desaparecido ou nunca tivessem existido. No
entanto, existiam e bastante.
— Um
verdadeiro desfile da frota, permita-me a observação — disse
Bell, meio aereamente, como se tudo isto não tivesse importância
alguma para ele.
De suas
palavras, se podia deduzir um subconsciente de superioridade. Rhodan
confirmou distraído.
— Você
que o diga, amigo — murmurou ele. — Pergunta-se apenas quem lhe
deu a ordem: o cérebro robotizado em Árcon ou o Zarlt?
Bell
deixou de responder, porque nada sabia. Continuou olhando para os
painéis de controle, dedicando-se ao trabalho de sua
responsabilidade.
A Titan
estava à beira do espaçoporto, já bem próxima da estrada de saída
de Tagnor. A metade inferior da possante nave esférica estava
estacionada num hangar vazio, colocado à disposição pelo zeloso e
serviçal Zarlt. Naturalmente, não sem segundas intenções. Ainda
esperava que Rhodan lhe fosse contar de que maneira tinha conseguido
romper o anel de defesa do sistema de Árcon.
Estava
esperando isto, inutilmente, há algumas semanas e sua esperança
parecia em definitivo esgotada. Rhodan aguardava tranqüilo até o
momento em que o Zarlt deixasse cair a máscara.
A porta se
abriu e entrou uma espécie de Mickey Mouse de um pêlo
marrom-ferrugem: talvez um metro e meio de comprimento, orelhas
grandes, focinho comprido e uma cauda larga de castor. Nos olhos
castanhos havia um vislumbre de brejeirice e humor.
— Alô —
guinchou o singular animal, no mais puro intercosmo e se acomodou
muito à vontade numa espreguiçadeira. Por alguns momentos ficou
contemplando, muito compenetrado, a Bell, que estava concentrado
olhando para o painel de controle. Depois, suspirando conformado, se
dirigiu a Rhodan, para continuar seu relatório já iniciado. —
Estão chegando novos moofs.
A
curiosidade de Rhodan despertou repentinamente:
— Quem
os trouxe?
— Naves
da frota do Zarlt, mas descobri que não são eles propriamente os
responsáveis pelo transporte. Eles recebem a respectiva carga
através de naves estrangeiras nos confins do sistema.
— Ah...
— murmurou Rhodan, refletindo um pouco. — Eu suspeitava disso. Os
desconhecidos não desistem.
— Devemos
continuar, Tama e eu?
Rhodan fez
que sim. Segundo sua opinião, era uma carnificina sem sentido,
trazer para este mundo novas levas de moofs. Por outro lado, a
situação se tornava perigosa quando os moofs aumentavam. Devia-se
ao menos tentar controlar o aumento dos moofs.
Os
moofs...
Constituíam
realmente um problema. Alguém que permanecia oculto atrás dos
bastidores, prudentemente, mandava trazer para Zalit os “inaladores
de metano”,
possuidores de forças telepáticas, acondicionados em recipientes
pressurizados de vidro, onde ficavam as medusas de metro e meio de
altura. Além da telepatia, possuíam também o dom da sugestão, que
comparados aos níveis da Terra eram relativamente deficientes.
Apesar disso, tinham conseguido influenciar o Zarlt e, com ele, a
camada dirigente de Zalit. O Zarlt devia conquistar o Império dos
Arcônidas para uma raça desconhecida. Rhodan já havia percebido
isto. E este fato era suficiente para colocá-lo diante de uma
difícil decisão.
O poderoso
reino sideral dos arcônidas não era dirigido por seres humanos, mas
sim pelo maior cérebro positrônico conhecido do Universo.
Independente do fato de que ninguém sente simpatia por uma máquina,
o regente robotizado não tinha tratado bem a Rhodan. Perseguiu-o e o
considerou como o inimigo número um da nação. Os arcônidas mesmo,
vagabundos decadentes e amigos da boa vida, pouco se incomodavam com
os acontecimentos dentro do Império. Deixavam tudo por conta do
cérebro robotizado e estavam convencidos de que ele os governava
para seu próprio bem. Em parte, isto era verdade, mas Rhodan não
podia se conformar com a idéia de que centenas de raças
inteligentes ficassem dependendo das decisões lógicas de um robô.
Assim, lhe
pareceu razoável, desde o início, a aspiração do Zarlt de Zalit
de destruir o cérebro positrônico e mesmo de se apoderar do
Império. Mas depois surgiram os moofs.
Eram eles
os tramadores dos acontecimentos, como se acreditava a princípio.
Dominavam a inteligência dos zalitas e os incitavam à rebelião
contra Árcon. Até que se positivou que isto era um grande erro. Os
moofs agiam sob comando e sob coação de desconhecidos, que
naturalmente pensavam em colher os frutos da revolta. Além disso, se
constatou que o Zarlt era tirano e assassino, que se tornou criminoso
sem nenhuma influência sugestiva dos moofs.
Rhodan via
agora uma possibilidade de provar ao cérebro robotizado de Árcon
que estava ao lado do Império e não tinha, pois, intenção de
prejudicá-lo.
Havia
chegado a este ponto de suas considerações, quando Bell quebrou o
silêncio:
— A
Central de Rádio está chamando, Perry. Você vai atender ou devo eu
fazê-lo?
— Obrigado,
continue, por favor, no painel, já vou.
A Central
de Rádio estava bem próxima.
— Que há
de novo?
Um dos
oficiais entregou a Rhodan uma folha de papel.
— Uma
mensagem do Major Deringhouse — Urgente.
“Major
Deringhouse”,
pensou Rhodan, recebendo a mensagem, sem lê-la imediatamente.
Voltou
para a Central, onde Bell o aguardava curioso. Deringhouse comandava
a frota espacial da Terra e estava de prontidão. No entanto, o
cérebro robotizado podia ter sabido através dos saltadores, de que
planeta provinha Rhodan. E se assim fosse, a Terra corria grande
perigo. Uma única nave-robô podia transformar o sistema solar numa
nuvem radioativa apenas com o emprego de bombas dos arcônidas: as
bombas de gravitação. Embora a Terra estivesse a uma distância de
34 mil anos-luz, para evitar o perigo de ser radiogoniometrado,
Deringhouse havia enviado a mensagem de um ponto qualquer das
Galáxias.
Bell
perguntou:
— E
então?
Rhodan
apanhou o papel e o leu em voz alta:
Para
Perry Rhodan, setor Árcon. A respeito sua pergunta sobre a traição
saltadores. O cérebro positrônico em Vênus ficou equipado com
todas as informações disponíveis. A investigação dá uma certeza
de 99,08% de que os saltadores não denunciaram a posição da Terra
para Árcon. Muitas felicidades. Aqui tudo em paz e em ordem.
ass.
Deringhouse.
Bell
respirou sensivelmente aliviado.
— Nossa
boa e velha Terra ainda existe. Às vezes, a gente esquece que ela
está a uma eternidade daqui. A luz necessita de trinta e quatro mil
anos para chegar até lá.
— Nenhuma
conferência agora — interrompeu-o Rhodan. — A mensagem não diz
absolutamente que o perigo já passou. Pelo contrário, o cérebro
robotizado de Árcon nos procura. Se o Zarlt está saturado com o
nosso jogo, haverá de denunciar nossa origem. Mostraria assim também
sua lealdade para com o cérebro, podendo assim muito mais facilmente
enganá-lo mais tarde.
— Cheguemos
então antes dele — propôs Bell, com um sorriso confiante. —
Denunciemos o Zarlt e o cérebro robotizado fica nosso amigo e nos dá
de presente talvez até a nave apreendida.
— Não
totalmente assim, mas algo semelhante, é o que imagino — respondeu
Rhodan. — Mas não nos esqueçamos que atrás do Zarlt estão os
moofs e atrás destes, novamente os desconhecidos. Encontrá-los é
realmente nosso maior dever.
Fez uma
pausa, mas antes que Bell pudesse retrucar alguma coisa, continuou:
— Mas
julgo que devemos resolver esta missão passo a passo. E o primeiro
passo se chama: Zarlt. O problema deve ser atacado pelo lado deles.
John Marshall entrou em ligação com o líder do movimento
clandestino, um ex-almirante Zernif. Vamos ajudá-lo em seus
propósitos.
— Que é
que ele pretende mesmo?
— Vingar
o Zarlt assassinado e estabelecer seu legítimo sucessor.
Bell olhou
para Rhodan:
— E o
novo Zarlt reconhece a soberania do cérebro robotizado sobre o
Império de Árcon?
— Sim,
porque no momento não existe solução melhor. Os próprios
arcônidas não podem mais governar um império que tem uma extensão
de quase 230 anos-luz.
— Quer
dizer então que ajudaremos mesmo o cérebro?
Rhodan
fixou a parede e disse baixo, num tom quase de resignação:
— Sim.
*
* *
Do ponto
de vista espiritual, o corpo de mutantes de Perry Rhodan era a maior
força no setor conhecido do lado externo da Via Láctea. A explosão
da bomba atômica produziu em alguns homens alterações singulares
na estrutura do cérebro. Estas alterações os transformou em
mutantes. Se algumas destas faculdades adquiridas foram hereditárias,
ainda não pôde ser constatado.
Quanto à
distinção entre mutantes positivos ou negativos, isto depende, no
sentido político, das qualidades de caráter e da capacidade destes
homens. Os membros do corpo de mutantes foram, sem exceção,
mutantes positivos. Havia telepatas, telecinetas, teleportadores,
observadores, orientadores, hipnos e auscultadores de freqüência.
Havia também um, que, com a força de sua mente, podia provocar
explosões atômicas a grandes distâncias.
O telepata
John Marshall era o chefe oficial dos mutantes. Cidadão australiano,
que hoje pertencia à Terceira Potência de Perry Rhodan, colaborou
sempre para a união da Terra e agora que o planeta já alcançara
este objetivo, acompanhava Perry Rhodan em sua jornada para Árcon.
E com ele,
o corpo dos mutantes.
Pertence
também a este grupo: Gucky, o pequeno rato-castor. Era não apenas
telepata, mas também telecineta e teleportador. Esta multiplicidade
de faculdades parapsicológicas caracterizava Gucky automaticamente
como um gênio universal, o que não o tornava cheio de si. Todos
gostavam muito do pequeno ser que Rhodan havia encontrado no planeta
Vagabundo.
Juntamente
com Tama Yokida, o telecineta japonês, Gucky estava em ação.
Tratava-se de ficar livre dos perigosos moofs, que, com seu dom de
sugestão, exerciam uma influência nociva sobre os zalitas. Bastava
que Tama e Gucky unissem seus dons telecinéticos num impulso
bilateral e a estrutura molecular dos recipientes pressurizados se
alteraria. Originar-se-ia uma perfuração, por onde escaparia a
atmosfera de metano, elemento essencial para a vida dos moofs.
Já tinham
terminado os exercícios diários de alarma. Rhodan estava ciente de
que cada um dos seus conhecia suficientemente a gigantesca
espaçonave, para poder atingir bem rápido qualquer estação
ordenada — o que não era uma bagatela, tomando-se em consideração
o volume de um esfera espacial de quilômetro e meio de diâmetro.
Os dois
arcônidas Thora e Crest estavam junto dele na Central. Thora, de
estatura elevada, de cabelos brancos e olhos cor de ouro estava
sentada calmamente em sua poltrona e não desviava o olhar de Rhodan.
Crest ficou de pé. Ele também era de constituição albina, como
toda sua raça, com a qual parecia agora não ter nenhuma ligação,
depois que seu clã não pertencia mais à casta governante. Já
fazia seis anos que o cérebro robotizado dominava o Império. O
imperador Orcast XXI não era mais do que um fantoche.
Thora e
Crest foram os que, há treze anos atrás, fizeram uma descida
forçada na Lua da Terra e deram a Perry Rhodan o poder de
transformar a Terra numa potência cósmica.
— O
Zarlt deixou cair a máscara — disse Rhodan sem rodeios. — Acabo
de receber um comunicado de que ele, aliás, não só deu nossa
posição ao cérebro robotizado, como também deixou transparecer em
sua embaixada em Árcon que sua frota espacial conseguiu identificar
a nossa origem. Pediu, para reforço, naves de combate comandadas por
robôs. Houve depois uma advertência via rádio para o nosso
endereço, o que significa simplesmente uma proibição de levantar
vôo. Pretende, pois, nos deter aqui.
— Qual é
o significado de todas estas manobras? — perguntou Crest. — Por
que não denuncia ao Cérebro onde nós estamos?
Rhodan
sorriu.
— Se
você se colocar na situação de Demesor, a resposta não lhe será
difícil. Demesor quer tapear o cérebro robotizado, para depois
assumir o poder. A Titan é a mais possante nave espacial de Árcon,
mas está em nosso poder. Que adianta a Demesor se o cérebro
robotizado dela se apoderar? Por isto é que pede reforços, para
prender a todos nós. Depois ele avançará contra Árcon, pois está
crente que rompemos o anel de segurança unicamente porque possuímos
a Titan. Como ele poderá saber que foi apenas com o auxílio do
transmissor fictício em Ganymed?
Crest
concordou.
— Ah,
quase já me havia esquecido da Ganymed, embora tivéssemos iniciado
a expedição com ela e só depois é que conquistamos a Titan. Está
tudo certo, Perry, mas acho que o Zarlt calculou mal.
Perry
continuou sorrindo.
— Mas eu
gostaria primeiro que ele não percebesse isto. Para mim é muito
mais importante que o cérebro robotizado se convença da nossa
lealdade. Você tem qualquer sugestão neste particular?
Antes que
Crest respondesse, Thora deu sua opinião:
— Por
que não iniciamos contato com ele?
Rhodan
abanou a cabeça amigavelmente.
— Já o
tentamos, mas ele não reagiu. Quem sabe a recepção em superonda
não é constante. Então devemos nos aproximar um pouco mais.
— De
Árcon?
— Por
que não?
Crest
acrescentou:
— Acho
que não é tanto a distância que impede o cérebro de nos ouvir.
Suponho antes que os zalitas armaram uma abóbada de bloqueio
magnético em torno de seu planeta. Atua por polarização. As
mensagens que chegam passam livremente, mas as que saem são retidas.
O processo pode ser também invertido. Só assim se explica o
silêncio do cérebro.
— Quer
dizer que bastaria então — constatou Rhodan — que apenas nos
afastássemos um pouco da atmosfera, para conseguirmos entrar em
contato?
— Teoricamente,
sim — concordou Crest convencido.
Rhodan
ponderou por um momento.
— Você
pode ter razão, mas se vamos realmente tentar, não devíamos
esquecer nossas provas — virou-se para a mesa de controle e apertou
um botão. Alguém atendeu. — Mande John Marshall para cá
imediatamente. Deve vir também o tenente Tifflor — desligou
novamente e se virou para os dois arcônidas para mais explicações.
— Não se pode exigir de um cérebro robotizado que aceite
simplesmente a palavra de honra de um estranho.
— Você
tem algum plano? — indagou Thora.
Rhodan
meneou a cabeça afirmativamente, sem conseguir impedir que seu olhar
se demorasse mais longamente em seu rosto severo, mas ainda muito
lindo. Que transformação tinha se dado com ela? Sua altivez não
tinha limites e seu ódio não tinha semelhante. E hoje, depois de
haver reconhecido como estava apagada a herança espiritual dos
arcônidas e como estava cheia de vida a jovem raça dos terranos,
houve uma grande transformação em seu interior, que se
exteriorizava não apenas por uma revisão em sua filosofia de vida,
mas principalmente em sua posição pessoal para com Rhodan.
Há tempos
atrás, Rhodan podia apenas suspeitar, porém hoje tinha plena
certeza de que, em seu íntimo, ele a amava. Mas a concretização
deste amor devia permanecer irreal, pois entre ele e ela havia a
eternidade. Não mais o abismo de cultura de dez mil anos, mas a
própria eternidade. Pois Rhodan tinha recebido do Imortal a ducha
celular prolongadora da vida, que não foi concedida a Thora. Rhodan
não envelhecia mais, Thora porém...
Interrompeu
o pensamento. Agora não havia solução para o problema e nenhuma
resposta para suas perguntas. Um dia, porém, tinha que haver uma
solução ou melhor uma decisão. Tinha tanta atração por ela, e
por outro lado tinha também tanto medo dela.
— Sim,
Thora, tenho um plano. Faremos uma visita ao cérebro robotizado com
a Gazela.
— Com a
tele-sonda? Através do anel de segurança?
Rhodan
sorriu e balançou a cabeça.
— Não
uma visita direta, Thora. Algumas horas-luz serão suficientes para
fugirmos do radio bloqueio. Depois entraremos em contato com o
cérebro por meio do videofone. O Zarlt deve ficar sem saber nada,
então da Ganymed nos transportaremos num salto com o auxílio do
transmissor fictício.
— Uma
bela idéia, Perry — disse Crest — estou de acordo. Mas o que
você pretende dizer ao cérebro robotizado?
— A
verdade. Vou reconhecê-lo plenamente como regente do Império.
Thora não
parecia muito contente com a resposta.
— Vamos
reconhecer então que não são os arcônidas, mas sim um robô quem
domina o Império?
— Primeiramente,
não temos outra opção e em segundo lugar acho que a atuação do
cérebro não é desvantajosa para o Império. Repare este Orcast,
Thora. Acredita sinceramente que ele conseguirá manter unido o reino
decadente?
— Orcast
certamente não — concordou Thora. Havia brilho intenso em seus
olhos cor de ouro. — Mas o clã dos Zoltral não está tão
decadente.
Thora e
Crest pertenciam a este clã.
— Virá
o tempo em que o clã dos Zoltral haverá de dominar novamente —
disse Rhodan com ênfase. — Aí então podemos tratar da
substituição do cérebro robotizado. Na presente situação, porém,
é indispensável captar a confiança do regente.
Thora
fitou Rhodan por mais algum tempo, depois abaixou a cabeça.
— Acho
que terei de lhe dar razão, Perry. Quando é que partimos então?
Rhodan não
deu resposta, pois neste momento entraram na Central John Marshall e
o tenente Tifflor. Tiff, como ele era chamado em geral, parecia muito
com Rhodan, embora fosse vinte anos mais moço. Tinha se destacado
muito em várias missões especiais e gozava da confiança ilimitada
de Rhodan. A porta se fechou sem nenhum ruído. Perry fez um sinal
para os dois e foi falando diretamente:
— Tiff,
ponha-se em contato com o major Freyt e combine os preparativos para
a decolagem da Gazela com o transmissor fictício. Tripulação:
Thora, Crest, Gucky e eu. John Marshall vai tentar trazer para cá o
almirante Zernif, se necessário, por meio de Ras Tschubai. Bell toma
o comando da Titan, durante nossa ausência. Isso é tudo. Nós nos
encontramos em duas horas na Ganymed. Alguma pergunta?
— E eu
fico sobrando — murmurou Bell decepcionado. — Que é que eu vou
fazer aqui, onde nada acontece?
— Como é
que você sabe que nada vai acontecer? — perguntou Rhodan
seriamente. — Eu quero ter a certeza de ter deixado um comandante
de confiança na Titan, durante minha ausência. Não se pode brincar
com uma espaçonave como a Titan.
Meio
convencido, Bell estava mais contente. De qualquer maneira, Rhodan
lhe havia confiado uma responsabilidade muito grande.
*
* *
Na
segurança do quartel-general clandestino, Zernif e seus amigos
tinham oportunidade de tratar de Rogal. Voltando de um atentado
malogrado, em circunstâncias tão misteriosas, ele estava com toda
certeza sob a influência de um grande choque. Seus olhos arregalados
fitavam o vazio e seus lábios cerrados estavam mudos. Não respondia
a nenhuma pergunta.
Estavam
todos sentados em volta dele e tentavam obter-lhe uma palavra
esclarecedora. O atentado fracassou completamente? Não tivera
oportunidade de atirar no tirano? Prenderam-no antes disso? Foi
traído por alguém?
De olhos
abertos, ele encarava a luz forte do dia. O almirante Zernif
murmurou:
— Está
sem sentidos. Talvez lhe precisamos dar uns dias de repouso. Em breve
saberemos se o Zarlt ainda está vivo, se o atentado foi bem
sucedido. Talvez os estranhos nos possam dizer alguma coisa. Este tal
Rhodan tem um grupo de homens maravilhosos. Alguns deles nós já
conhecemos.
De
repente, todos se viraram. Ouviu-se um ruído bem no meio da sala.
Ninguém podia entrar aqui despercebido, pois o quartel-general
estava a dez metros abaixo do solo, bem próximo da cidade. Os
dispositivos de segurança jamais falharam.
O que
presenciaram foi de arrepiar-lhes os fios dos cabelos. Do nada,
materializaram-se duas figuras humanas. Uma já era conhecida de
Zernif. Era o homem que se chamava John Marshall. Pertencia ao grupo
de Rhodan, este estranho misterioso, que parecia estar do seu lado,
embora não lhe tivesse prestado ainda nenhum auxílio. O outro homem
era-lhe desconhecido. Sua pele quase preta era estranha e fora do
comum. Será que ele pertencia também ao grupo de Rhodan?
Zernif se
conteve. Sua mão, que repousava na coronha da arma, voltou
automaticamente à posição normal.
— O
senhor? Como é que chegou até aqui?
— Com o
auxílio de meu amigo Ras Tschubai, que agora lhe apresento. É
teleportador.
Zernif se
levantou. Por uns instantes se esqueceu de Rogal. Os demais
revoltosos continuaram preocupados com a vigilância, graças à qual
deviam sua vida.
— Como é
que os senhores nos acharam?
— Não
foi difícil, Zernif. Viemos pedir sua ajuda.
— Minha
ajuda? Como podemos ajudá-los se vocês são mais poderosos do que o
próprio Zarlt?
— Vocês
vão saber logo. Este não é Rogal? Que aconteceu com ele? Parece
estar sob coação hipnótica.
— Achamos
que são as conseqüências de um choque mental. Temos que saber o
que houve com ele.
Marshall
comprimiu os olhos. Seu primeiro pensamento foi que os moofs pudessem
ter rompido sua barragem natural de defesa.
— Onde
foi que aconteceu isto?
Zernif
hesitou um pouco em responder.
Não podia
supor que Marshall estava lendo seus pensamentos. Depois, resolveu
contar ao estranho toda a verdade. Falou rapidamente do planejamento
de todo o atentado. Marshall acompanhou todo o relato.
— Portanto,
na noite passada? Então fracassou o atentado, pois ainda hoje, antes
do meio-dia, o Zarlt deu novas ordens que são claramente contra nós,
seus hóspedes. Quem sabe ele acha que somos responsáveis pelo
acontecimento? E Rogal voltou desta maneira? — olhou na direção
do revoltoso, cuja posição ainda era a mesma.
Continuava
olhando fixamente para a claridade forte.
— Posso
examiná-lo um pouco?
Era apenas
um pretexto para penetrar, com toda calma, nos pensamentos de Rogal.
Marshall se espantou ao notar a intensa barragem de proteção que
estava enfrentando. Não tinha faculdades de sugestionador. Quem
poderia ajudar aqui, seria André Noir, o hipno do corpo dos
mutantes. Virou-se para Ras Tschubai, dizendo:
— Você
nos pode teleportar para a Titan, a mim, Zernif e Rogal ao mesmo
tempo?
O africano
abanou a cabeça.
— É
muito arriscado, eu proponho levar cada um separado para a nave. O
tempo é o mesmo.
— Certo
— respondeu Marshall, explicou a Zernif a finalidade de sua visita.
E depois acrescentou: — Levamos Rogal conosco e vamos ver o que
podemos fazer com ele. Trouxe aqui um aparelho de rádio, por meio do
qual vocês estarão sempre em contato com Rhodan. Fiquem na escuta.
Agora vamos primeiro a Rogal.
Os homens
ficaram quase atônitos, quando o negro com Rogal desapareceram
repentinamente. Dez segundos após, materializou-se novamente e levou
Zernif. Depois veio a vez de Marshall.
Ficaram
todos silenciosos, olhando ansiosos para o misterioso aparelho que
emitia um leve zumbido. Era sua única ligação com o mundo
exterior.
*
* *
O
transmissor fictício do planeta Peregrino era realmente uma coisa
maravilhosa.
Podia
teleportar qualquer tipo de material em fração de segundo, para
qualquer lugar, por meio da quinta dimensão, independente de se
tratar de bombas atômicas ou de seres humanos. No Universo inteiro,
nunca se tinha visto uma arma mais perfeita. As cúpulas de proteção
não adiantavam mais nada às grandes naves espaciais, se as bombas
desmaterializadas eram teleportadas para o seu interior e aí
detonavam.
Mas hoje,
Rhodan estava usando o transmissor para fins pacíficos. Devia
conduzir a Gazela despercebidamente para o espaço. O aparelho de
telerreconhecimento era uma espécie de disco voador com um diâmetro
de mais de trinta metros. Seu eixo vertical tinha dezoito metros e o
raio de ação era de 500 anos-luz. Seu equipamento bélico consistia
de raios energéticos de superimpulso de origem arcônida.
Tiff
anunciou que a Gazela estava pronta para partir. Thora, Crest e
Marshall já estavam a bordo. Rhodan estava esperando por Gucky, que
devia aparecer a qualquer momento. Enquanto isso Perry conversava com
o major Freyt, comandante da Ganymed.
— Caso
houver, nesse ínterim, um ataque contra ela e contra a Titan, então
defendam-se. A Ganymed vai para o espaço e aguarda, na posição
combinada, por eventuais ordens. Ninguém conseguirá encontrá-la,
pois nenhum rastreador de estrutura pode localizar seu salto. Com a
Titan é diferente, e é por isso que ela fica onde está.
— Está
certo — tranqüilizou Freyt. — Saberei defender minha pele. E
quanto a Bell, também não tenho dúvida alguma.
Rhodan
queria responder, quando o rato-castor se materializou.
— Cá
estou eu — disse ele — estava ocupado com Tama, atacando um
grande transporte de moofs. Mandei embora Tama juntamente com Ras.
— Estamos
esperando por você — respondeu Rhodan, despedindo-se de Freyt. —
Até logo mais, comandante.
— Pescoço
e perna quebrada — desejou este.
— Nada
disso — respondeu Gucky brincalhão, acompanhando Rhodan com um
pequeno salto, já que os degraus da escada para bordo eram muito
altos para ele.
A Gazela
estava no hangar da Ganymed. O transmissor haveria de atirá-la três
meses-luz para o espaço além. Nenhum olho humano, nem mesmo nenhum
instrumento técnico, por mais aperfeiçoado que fosse, conseguiria
registrar seu deslocamento.
Tomaram
seus lugares. Fechou-se a escotilha e o tempo começou a correr.
Então veio a partida e simultaneamente a transição.
Quando
Rhodan abriu os olhos depois de um rápido cochilo, viu um mar de
sóis de brilho intenso. Árcon lá estava, no centro daquele
agrupamento de estrelas M-13, formando como que uma esfera, 34 mil
anos-luz distante da Terra. Os sóis estavam bem juntos um do outro,
visão esta completamente diferente daquilo que vemos da nossa Terra.
Quase não se via um ponto escuro e a própria Via Láctea
empalidecia em comparação com o espetáculo de luminosidade dos
astros tão próximos.
Rhodan
conferia as escalas. Estavam agora a três meses-luz de distância do
gigantesco sol vermelho Voga. O Zarlt ainda devia supô-los na Titan.
Em sua volta para Zalit seria bem diferente. Não seria possível uma
descida por meio do transmissor fictício. Com alguns movimentos
manuais, Rhodan sintonizou a instalação de hiperrádio para
recepção e esperou até que o painel se aquecesse. Ouviu-se um
estalo no alto-falante quando se ligou a instalação de som. A
hiperfreqüência do cérebro robotizado era conhecida, mas não
havia transmissão no momento.
— Devemos
chamar — propôs Thora, cuja hesitação inicial se convertera numa
inimaginável força de ação e alegria de decisão. — Depois
vamos ver como ele reage.
Zernif, o
ex-almirante da frota espacial de Zalit, conservava uma expressão de
apreensão.
— Não
sei bem o que devo fazer aqui. Que devo mesmo dizer ao regente do
Império?
— Alguma
coisa — disse Rhodan — que deverá interessar muito ao cérebro.
Você é nossa testemunha principal e eu tenho a convicção de que o
cérebro haverá de distinguir a verdade da mentira, se não for por
telepatia, ao menos através da lógica de seus dados.
— Aliás
é uma idéia fascinante — interveio Crest no debate — a de reger
um poderoso reino estelar através de um robô. Quanta mudança houve
aqui nestes últimos treze anos, depois de durante quase dez mil anos
sem um acontecimento importante. Às vezes, eu chego a ter dúvidas
se esta nova forma de governo é realmente nociva para Árcon.
Rhodan
franziu as sobrancelhas e olhando para Crest perguntou:
— Quer
dizer com isto que reconhece o domínio do cérebro robotizado, você
que é um descendente do deposto clã que estava no governo?
Crest
tentou contornar:
— Não
diretamente. Penso apenas que o cérebro me é mais simpático do que
este Orcast XXI, que ao meu ver nada mais é do que um sonhador e um
folgazão enfastiado.
— Deste
ponto de vista você pode ter razão — disse Rhodan, observando o
grande painel, no qual tremulavam desenhos coloridos e abstratos.
Simultaneamente a isto, o alto-falante despejava ruídos sem sentido
e quebrados. — Suponho que já estamos recebendo mensagens do
cérebro. São cifradas e não se destinam a nós.
— Nas
principais faixas de onda do Império, ele está permanentemente em
contato com seus postos de comando — confirmou Crest. — Pode
manter com simultaneidade milhares de contatos.
— Na
mesma freqüência? — perguntou Rhodan, duvidando da assertiva.
Crest fez
que sim.
Depois de
refletir uns segundos, Rhodan ligou resoluto o emissor, esperou até
que estivesse em condições de funcionar, respirou profundamente e
começou a falar:
— Aqui
fala Perry Rhodan da Terra. Estou chamando o regente do Império de
Árcon. Responda, por favor. É urgente.
Repetiu
estas palavras três vezes, dedicando então toda a sua atenção ao
receptor e ao painel de controle.
Thora e
Crest estavam de olhos fixos nos sinais coloridos que se repetiam.
Tiff, ocupado principalmente com a observação visual do espaço em
volta, notou a tensão reinante na Central. Zernif aguardava paciente
e conformadamente o que iria acontecer.
Somente
Gucky é que parecia não estar interessado em tudo aquilo. Estava
deitado numa espreguiçadeira com os olhos semi-cerrados. Podia-se
supor que estava dormindo. Mas quem o conhecia, sabia que o
rato-castor era a concentração personificada.
Rhodan
abanou a cabeça, dizendo:
— O
Cérebro deve nos ouvir. Por que não recebemos resposta? — repetiu
seu chamado várias vezes, acrescentando ainda: — Peço-lhe para
confirmar a recepção. Trata-se da existência do Império.
As imagens
coloridas começaram a correr mais depressa. Os sinais do
alto-falante aumentaram. Foi tudo.
— De
qualquer maneira, uma reação — murmurou Rhodan descontente. —
Só que eu não sei o que fazer com isso. Como descobriremos o código
que o cérebro deve estar usando?
— Quem
sabe o senhor declara — propôs Thora — que o código nos é
desconhecido, exigindo uma transmissão em texto claro.
Rhodan
achou que era uma boa sugestão e repetiu sua mensagem, acentuando
que todo o código cifrado lhes era desconhecido.
A tensão
na Gazela chegou ao máximo. Os sinais coloridos pararam no painel. O
alto-falante acusou fortes estalos e a seguir sons desconexos. Fria e
impessoal soou uma voz que de repente invadiu toda a Central. Esta
voz dizia na língua dos arcônidas:
— Liguei
seu transmissor e o meu num canal bloqueado, não precisamos de
código. Ninguém poderá acompanhar esta transmissão. Sua posição
é conhecida. Fale.
— O
senhor me está vendo? — perguntou Rhodan.
Houve uma
pequena pausa, depois sumiram da tela aqueles desenhos parados.
Voltaram novamente, porém, já com movimentos, começando a formar
uma imagem plástica. Enquanto isto, a voz mecânica e fria dizia:
— Eu o
estou vendo, como também o senhor me poderá ver em poucos
instantes. Sua distância de minha posição é de três quartos de
ano-luz, conforme seu cálculo. Eu o mantenho sob irradiação. Onde
está a espaçonave roubada?
A imagem
se completou. Rhodan viu um imenso átrio, que não permitia que se
pudesse fazer qualquer conclusão do lugar onde estava. No centro
deste átrio, jazia uma gigantesca semi-esfera de metal reluzente em
sua superfície. Nada mais do que isto. Teria um diâmetro de
cinqüenta metros, abrigando com toda segurança o cérebro
robotizado. O que havia por baixo da semi-esfera ninguém sabia. A
altura de toda a construção era de vinte e cinco metros, como
Rhodan conseguiu calcular.
Fazia
treze anos que ansiava pelo momento de estar frente à frente do
regente do Império dos Arcônidas, mas, mesmo em seus mais ousados
devaneios, nunca poderia imaginar que ele fosse assim: uma
semi-esfera de metal.
Lembrou-se
da pergunta do cérebro robotizado.
— Regente,
a espaçonave roubada está esperando por mim num lugar seguro. Se eu
não conseguir voltar, ela está praticamente perdida para o Império.
— Não é
minha intenção prendê-lo — respondeu o cérebro friamente. —
Se estivesse na nave roubada, o caso seria outro. O que é que o
senhor deseja?
— Convencê-lo
de que eu não sou seu inimigo.
— Isso
lhe vai ser bem difícil — duvidou o monstro metálico, mudando
repentinamente de assunto. — Estou vendo dois arcônidas. São
eles, por acaso, Thora e Crest?
— Perfeitamente,
são eles, regente. Pertenciam outrora à camada dominante de Árcon.
— O clã
dos Zoltral não trouxe nenhuma vantagem para Árcon — respondeu
friamente o cérebro. — Desde que eu, há seis anos, tomei o poder,
a situação melhorou.
Rhodan se
admirou secretamente de que o robô deixava transparecer qualquer
coisa como orgulho. Quem podia sentir sentimentos de orgulho, também
não seria infenso a outros sentimentos...?
— Ninguém
tem dúvidas quanto a isto — disse Rhodan. — Mas o senhor tem que
admitir que o clã dos Zoltral sempre foi mais eficiente e positivo
para o Império do que o clã de Orcast.
— Por
este motivo é que Orcast foi substituído por mim — respondeu o
cérebro prontamente. — Ele teria arruinado o Império.
— Uma
última pergunta a respeito do Império, regente: Por que motivo o
senhor não me reconhece como amigo? Crê que eu possa prejudicar o
Império? Não estou trazendo de volta Thora e Crest?
A resposta
veio imediatamente:
— O
senhor é meu maior inimigo, quando eu raciocino do ponto de vista
pessoal do poder. No referente ao Império, o senhor é meu aliado,
enquanto percebo. Está vendo que me encontro num dilema. Admira-se
de que eu fale assim?
— Realmente
— disse Rhodan — isto me surpreende.
— Eu o
admito, somente para que o senhor possa compreender meu modo de agir.
E então, por que o senhor vem me procurar?
— Eu lhe
queria dizer onde escondi a espaçonave roubada.
Veio a
primeira pausa. Desta vez, o cérebro positrônico necessitava
visivelmente de tempo para elaborar a mensagem e medir todas as suas
possibilidades e eventuais conseqüências. Este processo, que para
um homem gastaria horas e horas, levou apenas dez segundos. Então
respondeu o Cérebro:
— Por
quê?
Naturalmente
não tinha encontrado uma resposta satisfatória e lógica. Nenhum
milagre nisso, pensava Rhodan. Ninguém poderia achar mesmo.
— Para
lhe provar que sou seu amigo, tenho que fazer isto. Eu lhe dei o nome
de Titan e acho que foi muito certo. O senhor a recebe de volta,
quando quiser. Para sua informação: a Titan está no espaçoporto
de Tagnor, capital do Planeta Zalit, no Sistema Voga, distante três
meses luz da minha atual posição.
— Impossível
— foi a resposta imediata. — Fosse assim, eu saberia.
Rhodan deu
um pequeno sorriso, que parecia condescendência.
— Como
que o senhor saberia isto? Que fator lhe daria esta certeza? Talvez,
o fator que se chama Zarlt?
— Exatamente.
O Zarlt de Zalit é o vice-imperador. Uma nave tão grande assim, ele
não poderia deixar de ver, estando ela no espaçoporto de Tagnor. E
o Zarlt haveria de me comunicar, pois dei a ordem de vigiá-la. A
conclusão lógica é que o senhor está mentindo. A Titan está
escondida em outro lugar.
— Palpite
errado — respondeu Rhodan, parecendo querer levar o negócio à
brincadeira. — O senhor se esqueceu de que uma outra pessoa também
pode estar mentindo. Por exemplo, o Zarlt.
— Zarlt
Elton tem-me uma dedicação muito fiel.
— É
possível — continuou Rhodan, calmo. — Mas que lhe interessa
isto, se Elton já morreu há algum tempo?
Novamente
uma pequena pausa. Depois:
— Por
que não recebi nenhuma notícia de sua morte?
— Porque
seus assassinos julgaram que isto não era muito diplomático. Fora
disso, seus planos seriam prejudicados se o regente do Império
ficasse sabendo que Zalit tinha a intenção de se apoderar do
governo do Império Arcônida.
— Assassinos?
Rhodan
sentiu que o cérebro robotizado era, portanto, capaz de ficar
admirado.
— Zarlt
Elton foi assassinado. O novo Zarlt é Demesor, um ex-oficial da
frota espacial. Foi ele quem planejou a destruição do cérebro
robotizado de Árcon.
— Isto é
um absurdo — foi a resposta calma. — Ninguém me pode destruir.
— Pode
sim — contradisse Rhodan, friamente. — A gente pode destruí-lo.
Somente Demesor é que não pode. Por este motivo é que ele pediu
meu auxílio. O senhor está compreendendo agora por que ele não lhe
comunicou onde estava a nave Titan?
— Sob
este ponto de vista seria lógico e portanto compreensível. Porém,
a minha pergunta continua: O senhor está falando a verdade? Quem me
pode provar isto?
— Talvez
o almirante Zernif — disse Rhodan, apontando para o zalita. — Ele
serviu ao Império sob Zarlt Elton, porém caiu em desgraça, quando
Demesor chegou ao poder. Sua vida foi salva por um acaso. Com outros
zalitas que são fiéis ao Império, fundou um movimento de
resistência, cuja finalidade é restaurar a ordem em Zalit, uma
ordem que é um serviço para o Império.
Houve uma
pausa de quase um minuto. Depois continuou o cérebro robotizado, em
tom impessoal:
— Examinei
as informações sobre o almirante Zernif. Sua pessoa está acima de
toda dúvida. Era assim também com Demesor.
— Por
que este “era”
no caso de Demesor?
— Porque
acabo de constatar que Demesor foi enviado para a Academia Espacial
em lugar de seu irmão mais capacitado. Isto foi há trinta anos de
Zalit. Os documentos mencionam uma probabilidade de que ele, naquele
tempo, ameaçou seu irmão. Mais ainda. Estas informações dizem que
o irmão de Demesor foi, mais tarde, vítima de um acidente. É
sabido que este seu irmão era um adepto fiel do Império.
Rhodan
respirou profundamente. O cérebro robotizado trabalhava rápido e de
modo frio.
— Quais
as conclusões a que o senhor chegou, regente?
— Que o
senhor diz a verdade. Que há com Zernif?
Zernif deu
uns passos para frente e fixou os olhos na reluzente cúpula de
metal.
— Gostaria
de reforçar as palavras de Rhodan e acentuar que nosso Império está
em perigo. Demesor instalou uma ditadura militar em Zalit e impôs
uma barreira às informações. Minha organização clandestina
haverá de depor Demesor e colocar o legítimo sucessor do velho
Zarlt em seu posto.
— Obrigado
— disse o cérebro. — Eu confio no senhor, pois não há mais
outra alternativa. E o que o senhor tem com tudo isto, Rhodan?
— Demesor
pediu meu auxílio e eu fingi ceder. Protegeu a nave Titan e a mim,
porque estava crente de ter achado um aliado contra o senhor. Demesor
procurou saber de mim, como eu tinha rompido o anel de segurança de
Árcon.
— Isto,
também eu gostaria de saber — disse o cérebro robotizado.
Rhodan
sorriu.
— O
senhor saberá mais tarde, regente. Mas, foi por meio de uma arma,
que é desconhecida em Árcon. Sua origem vem do planeta da vida
eterna.
— Este
planeta é apenas uma vaga teoria.
— Não,
é uma realidade — contradisse Rhodan. — Eu mesmo estive nele e
obtive uma imortalidade relativa, que aliás foi recusada a Thora e a
Crest. Mas, continuando o assunto, regente, Demesor é um traidor e
tem que ser neutralizado. Porém, ele não é o único culpado. O
senhor conhece os moofs?
— Sim,
conheço, são seres oriundos de um mundo de metano dentro do
Império, relativamente primitivos e também inofensivos. Telepatas e
fracos sugestores. Que têm eles a ver com Demesor?
— Estão
aos milhares em Zalit e se apoderaram espiritualmente do poder. O
Zarlt traidor não o sabe e pensa que os moofs são seus melhores
aliados. Com auxílio deles acha que conquistará o Império.

Nenhum comentário:
Postar um comentário