sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

P-041 - O Aliado do Gigante - Clark Darlton [parte 1]

Autor
CLARK DARLTON




Tradutor
S. PEREIRA MAGALHÃES




Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Um mundo nas malhas dos telepatas
e somente os mutantes podem romper o bloqueio mental.

Síntese da história da Terceira Potência:

1971 — O foguete Stardust chega à Lua e Perry Rhodan descobre lá encalhado o cruzador de reconhecimento dos arcônidas (Perry Rhodan — volume 1).
1972 — Formação da Terceira Potência contra a resistência conjunta das grandes potências da Terra e defesa contra invasões extraterrenas (volumes 2 a 9).
1975 — Pela primeira vez, a Terceira Potência intervém nos acontecimentos da Galáxia. Perry Rhodan depara no setor Vega com os tópsidas e tenta descobrir o enigma galático (volumes 10 a 18).
1976 — Perry Rhodan chega com a Stardust-III ao planeta Peregrino e consegue, juntamente com Bell, a imortalidade relativa (volume 19).
1980 — Perry Rhodan volta à Terra e luta por Vênus (volumes 20 a 24).
1981 — O Supercrânio ataca (volumes 25 a 27).
1982/83 — Aparecem os saltadores para excluírem a Terra como concorrente potencial ao comércio das Galáxias (volumes 28 a 37).
1984 — Ataque de Perry Rhodan contra Árcon (volumes 38 a 39).
Mesmo para os arcônidas Crest e Thora, que por 13 anos perderam o contato com sua pátria, Árcon ofereceu enormes surpresas — sem falar, naturalmente, em Perry Rhodan e em seus cosmonautas da Terra.
Apesar de tudo, conseguiram enganar o grande cérebro positrônico que há seis anos exercia a função de regente do Império Arcônida, e se apoderar da Titan, a mais possante espaçonave do universo conhecido.
Mas para ser reconhecido como O Aliado do Gigante, Perry Rhodan tem que cumprir uma missão muito importante...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.

Reginald Bell — Ministro da Segurança da Terceira Potência.

Demesor — Vice-imperador de Árcon e ditador do sistema Voga.

Rogal — Revolucionário.

Zernif — Almirante e amigo do Zarlt assassinado.

John Marshall — Chefe do Exército de Mutantes.

Gucky, Wuriu Sengu e Kitai Yshibashi — Mutantes da Terceira Potência, que terão uma missão importantíssima.
1



Rogal ficou parado, tentando escutar qualquer ruído na escuridão. Era tudo silêncio e imobilidade. Talvez estivesse enganado. Os muros de pedra exalavam um frio úmido que não fazia bem a seus pulmões. O ar estava péssimo e sufocante. Em algum lugar estavam caindo, em cadência regular, gotas de água que se estatelavam em alguma poça. Rogal já havia sido liberado do poder hipnótico de André Noir.
Vários caminhos levavam ao palácio de Zarlt, tirano de Zalit, o quarto planeta do gigantesco sol vermelho Voga, a uma distância apenas de três anos-luz de Árcon.
Este caminho subterrâneo era conhecido apenas por poucos confidentes do legítimo soberano de Zalit, assassinado há algum tempo. Rogal se certificou de que sua pistola energética estava bem firme na cintura. Não tinha coragem de acender a lanterna, embora não esperasse que os vigias do palácio conhecessem o caminho secreto. Se o ex-guarda-costas Elton, do falecido Zarlt, não tiver mentido, o caminho secreto terminará exatamente nos aposentos de dormir de Demesor, que de oficial da Frota Espacial se havia guindado ao posto de novo soberano.
De modo inconsciente, os punhos de Rogal se retesavam quando pensava em Demesor. O nome do déspota incluía uma dupla traição. Primeiro mandou matar o velho Zarlt e depois concebeu o plano de se revoltar contra o Império dos Arcônidas, cujo vice-imperador era ele mesmo. Naturalmente, apenas de nome. Mas o domínio absoluto do gigantesco cérebro robotizado só poderia ser um fenômeno passageiro e, de maneira alguma, motivo suficiente para trair o Império. A idéia de ser dirigido por um robô também não agradava a Rogal, mas de qualquer jeito um robô seria mais justo do que um Zarlt com o nome de Demesor. E por isso é que Demesor devia morrer.
Depois desta pequena pausa, Rogal continuou sua caminhada. Sim, pensava ele, essa intenção não era um crime, mas uma ação justa, pela qual um planeta inteiro ficaria livre da ditadura de um homem ambicioso. Acima dele, ouviram-se de repente passos surdos, que se afastavam, sumiram por uns instantes e tornaram a voltar. Emudeceram exatamente em cima dele. Tinha a impressão de que alguém o estava olhando através da grossa cobertura de pedra. Um calafrio percorreu sua espinha dorsal. O susto foi tão grande que sentiu pontadas no coração. Mas o alívio veio logo. Como a fantasia prega sustos na gente! A tal pessoa não poderia, naturalmente, vê-lo. Foi tudo mero acaso, por certo explicado pelo fato de que um sentinela estava patrulhando pouco acima do local onde estava.
Continuou seus movimentos, respirando com intensidade, quando suas mãos tateantes sentiram uma barreira lisa.
A porta...?
A barreira era de madeira, como o guarda-costas desertor lhe havia descrito. Seus dedos procuraram até darem com um pequeno botão. Ficou então hesitante, pensando o que poderia haver atrás da porta. Quem sabe os guardas já o esperavam, avisados pelo misterioso instinto que prolonga a vida de tantos tiranos...? Ou seria apenas a continuação do corredor secreto e a escada-caracol entre as paredes, que levava para cima? Encostou o ouvido contra a superfície de madeira e ficou escutando de olhos cerrados. Não, não havia ruído algum. Girou vagarosamente o botão e a porta cedeu, continuando tudo escuro.
Penetrou no corredor, encostando apenas a porta. Sabia que deste lado não havia possibilidade de abri-la e de maneira que não poderia fechá-la, caso não quisesse perder a única possibilidade de retirada. Foi apalpando cuidadosamente para frente, até que os pés deram com o primeiro degrau da escada. Respirou pausado. O guarda-costas tinha falado a verdade. Seriam então ainda 368 degraus até o aposento de dormir de Demesor. No ducentésimo, fez uma pausa para respirar. Naturalmente não era uma escada-caracol de fato, era mais um corredor em ziguezague subindo em degraus. O palácio do Zarlt era, como todos os edifícios em Zalit, em forma de um funil. O cabo do funil era uma superfície circular de cinqüenta metros de diâmetro. Daí subiam os terraços em forma de arenas num ângulo de mais ou menos quarenta e cinco graus para fora e para cima, até terminarem numa altura de cento e cinqüenta metros. Aí em cima, o diâmetro dos círculos atingia uns duzentos e cinqüenta metros. Os andares arredondados tinham fachadas de vidro. A arquitetura em Zalit provinha dos arcônidas, como os próprios habitantes de Zalit não eram outra coisa do que simples descendentes dos arcônidas.
Pela primeira vez, Rogal se atreveu a acender sua lanterna de bolso, para se orientar. Sua pele bronzeada lembrava os índios da Terra. Sua cabeleira tinha reflexos de cobre. Na mão direita estava a arma de construção esquisita que deveria pôr fim à vida de Zarlt. A escada continuava subindo.
Novamente se percebiam passos regulares, que se afastavam, se aproximavam e depois desapareciam. O palácio devia estar cheio de guardas. Demesor era desconfiado como todos os ditadores.
Rogal sorriu de modo frio e apagou a lanterna. A escuridão parecia ter duplicado de intensidade. Sua mão apalpou a parede e continuou a caminhada. Estava consciente de que sua vida estava em jogo, pois o Zarlt não o pouparia, caso o apanhasse. Mas antes de morrer, tinha certeza disso, haveriam de tentar tudo para ficar a par de seus segredos. Imaginariam que tinha amigos, amigos que poderiam ser perigosos para o Estado. Principalmente haveriam de se interessar em conhecer o chefe do movimento clandestino.
Rogal estava decidido a pôr fim à vida, antes que conseguissem tirar dele qualquer segredo. Pensando assim, atingiu o último degrau. Terminava diante de uma parede lisa e fria. Mais uma vez se arriscou a acender a lanterna de bolso. O anunciado rebaixamento era tão reduzido que jamais o teria descoberto apenas apalpando. O primeiro empurrão abriria uma pequena fenda para se olhar, o segundo abriria um pouco a porta, por onde entraria no quarto de dormir do tirano. A lanterna foi apagada, pois já tinha visto o suficiente. Esperou até que seus olhos se habituassem novamente à escuridão e depois apertou o dedo contra o rebaixamento da porta. Houve uma vibração quase imperceptível e um feixe muito fraco de luz atingiu seus olhos. Com muito cuidado colocou o olho direito contra a fenda.
Viu um quarto muito grande, levemente iluminado por lâmpadas amortecidas no teto. Bem em sua frente, estava uma cama larga, onde um homem repousava. Estava encoberto por grossos cobertores que lhe deixavam livre apenas a cabeça. Via-se bem nítida a linha de seu corpo. Era o Zarlt Demesor.
Rogal estava cansado de ver no videofone o rosto de Demesor. Conhecia, e muito bem, os traços rígidos e ao mesmo tempo acolhedores do tirano. Lá estava o homem que queria trair Zalit e o Império, dormindo tranqüilamente. Rogal, neste momento, quase se sentiu um traidor, mas conseguiu dominar seus escrúpulos morais.
Seria realmente assassinato, quando se libertava um mundo inteiro de um homem que ameaçava trazer apenas guerra e desgraça? Não era melhor a morte de um do que de milhões? Com ponderações de justiça e bom senso, não se conseguia nada com ele. Portanto não havia outro meio a não ser usar de violência para fazer valer novamente a razão e o direito.
Rogal pegou a arma com firmeza, empurrou sem nenhum ruído a porta secreta para dentro da parede oca, deixando livre o caminho. Sabia que ela, através de um mecanismo embutido, ficaria aberta apenas dois minutos e depois se fecharia automaticamente. Era uma medida de precaução para evitar que pessoas estranhas viessem a saber da passagem clandestina, pela qual se podia sair despercebido, como também entrar no palácio.
Aí estava Demesor, a menos de cinco metros à sua frente, completamente indefeso. Rogal ainda estava indeciso. Deu três ou quatro passos, levantou a arma e apontou. O dedo indicador puxou o gatilho e um raio energético esverdeado atingiu com a velocidade da luz o rosto do homem que dormia, envolvendo-o numa auréola de fogo de raios cintilantes. Rogal viu horrorizado como o rosto começou a se dissolver, escorrendo em filetes incandescentes sobre o travesseiro, corroendo com um leve chiado os cobertores, até pingar no chão.
O Zarlt derretia...
Rogal fitava o incompreensível. Sua mão começou a tremer e os raios energéticos percorreram sem rumo o aposento até incendiar as cortinas das janelas, apagando-se em seguida.
Abriu-se uma porta lateral e três, quatro homens entraram no quarto, precipitaram-se contra o assaltante, tirando-lhe a arma. Rogal não reagiu. Olhava, como que fora de si, para o cadáver do Zarlt. O que estavam fazendo com ele no momento, não tinha nenhuma importância. Mas o Zarlt estava realmente morto...
Mãos fortes puxaram-lhe os braços para trás das costas. Num relance de vista Rogal percebeu que a porta secreta se fechava sem nenhum ruído. Pelo menos assim, os guardas não saberiam como ele tinha entrado no palácio. Não lhes fazia mal quebrar a cabeça com isso.
Sem nenhuma resistência deixou-se levar do quarto para fora. Admirou-se apenas de que ninguém se preocupou em olhar para o cadáver. Será que a morte do tirano era assim tão indiferente para os guardas? Empurraram-no para o aposento contíguo e depois para o espaçoso corredor circular.
Em algum lugar estava tocando um sinal de alarma. As portas se abriram e caras curiosas olharam por um instante para o grupo que passava. Depois fecharam-nas, como se estas coisas não fossem boas de serem vistas.
O alarma terminou. Os quatro guardas, que acompanhavam Rogal, pararam diante de uma porta. Um deles bateu. Alguém respondeu secamente e a porta se abriu. Um homem chegou até ao corredor e olhou com cara de sono para o grupo esquisito e para seu prisioneiro. Rogal sentiu como se uma mão de ferro apertasse seu coração. Viu que os olhos do Zarlt Demesor se tornaram de repente frios e impiedosos.

* * *

Ele já devia estar de volta há muito tempo, se tudo corresse como planejamos.
A voz parecia preocupada, mantendo ainda um raio de esperança. Era a voz de uma pessoa mais idosa, sentada numa cômoda poltrona, diante de um aquecedor elétrico que lhe esquentava os pés. Além dele, ali estavam também presentes cinco outros zalitas, sendo que todos demonstravam aparência de tresnoitados.
Ele pode estar atrasado — consolou um deles. — Quem sabe se teve de esperar para poder agir melhor. Há tantas possibilidades que nós não podemos imaginar...
E se tiver acontecido a pior delas? Se o atentado fracassou e o coitado foi preso. Que irá acontecer se ele não tiver oportunidade de se matar... se então nos denunciar?
O interlocutor anterior meneou a cabeça.
Rogal é um dos melhores dos nossos homens, faz tudo planejado e com a devida cautela. Jamais se arriscaria inutilmente.

* * *

O velho Zernif, ex-comandante da Frota Espacial de Zalit e almirante do falecido Zarlt, fez um gesto indeciso.
O prazo terminou. Já passou muito da meia-noite e Rogal ainda não voltou. As medidas de segurança combinadas devem ser postas em ação. Se nos descobrirem aqui no esconderijo, Zalit está perdido. Mesmo os amigos não nos podem mais ajudar.
Os amigos... Por alguns instantes, os revoltosos se lembraram daqueles amigos, que numa nave de combate apanhada dos arcônidas haviam regressado ao seu mundo. Eles tinham mantido relações com o Zarlt e pareciam de acordo com o plano do grupo. Pois, não aprovavam as intenções de Zarlt e o classificavam de traidor.
Devemos dar o fora daqui, independentemente do fato se Rogal teve sucesso ou não. Se Demesor escapou do atentado, a situação não está boa para nós. Ele não tem dó e nenhum de nós escapará.
Se nos encontrar — acrescentou Zernif, alisando a barba bronzeada, que lhe dava um porte de figura respeitável. — Se Rogal for coagido a fazer denúncias, isto pode realmente acontecer.
Rogal preferirá a morte.
E se não lhe deixarem tempo para morrer?
Silêncio total. O almirante Zernif, falou baixo:
Vamos esperar ainda meia hora, depois desapareceremos. Se Rogal ainda conseguir voltar, saberá onde nos encontrar.
A meia hora combinada passou, sem que Rogal aparecesse. Os chefes do movimento de resistência se prepararam para a partida. Sabiam que o caminho secreto para o palácio não tinha agora muita importância. Tinham que desaparecer mesmo, se não quisessem ser surpreendidos pelos carrascos do Zarlt. Pegaram suas armas, pistolas energéticas leves e pesadas de fabricação arcônida. Depois ligaram os detonadores de retardamento das bombas de dinamite, destinadas a mandar pelos ares a casa velha e abandonada, e com ela também, o ponto de partida do caminho secreto.
De repente, ouviu-se um ruído em determinado lugar da parede. Alguém pisava vacilante sobre cascalhos e batia compassadamente na parede. Zernif pôs-se a escutar. De início, seus olhos mostravam sinais de alegria, mas logo mais foram transformados em desconfiança e preocupação.
Deve ser Rogal — disse alguém contente. — Ele tem que se apressar, pois as bombas explodem em trinta minutos.
Quem sabe não é Rogal — murmurou o almirante Zernif, tentando esconder o medo em sua voz. — Por que razão não dá emite o sinal da senha?
Ninguém respondeu.
Se a pessoa que se arrastava nesta direção era realmente Rogal, deveria ter dado o sinal da senha: três pancadas leves na parede, antes de abrir a porta. Se esta se abrisse sem o sinal, certamente não seria Rogal que se aproximava do esconderijo.
Os homens se entreolharam, sem dizer uma palavra. Automaticamente suas mãos correram para a cintura, apanhando as armas. Destravaram a segurança e já lá estavam seis bocas de fogo apontadas para o local da parede onde se escondia a porta. Nenhum ruído passava despercebido de seus ouvidos atentos. Devia ser muito mais o número de pessoas reunidas atrás da muralha de pedra. A vibração dos pés o indicava. Não havia dúvida de que o atentado de Rogal fracassara. Mais ainda, os carrascos do Zarlt tinham descoberto o caminho secreto. Se com culpa de Rogal ou sem sua culpa, isto ainda teria que ser explicado.
Zernif sussurrou:
Escondam-se todos, para que eles não nos vejam logo de início. Primeiro precisamos saber quantos são, e só depois que todos saírem do corredor é que começaremos a atirar. Compreendido?
Os cinco homens concordaram. Esconderam-se atrás de caixas e móveis velhos. O aquecedor elétrico já estava frio, mas ainda havia um arzinho de calor agradável no ambiente. No entanto os conspiradores já começavam a sentir frio. No fundo, podia-se ouvir o leve tique-taque dos detonadores de retardamento. Ainda restavam vinte minutos... e depois tudo iria pelos ares.
Na parede da frente, ouviu-se um estalo e a partir daí a parede começou a se dividir. Uma parte se projetou para a direita e a outra para a esquerda. Apareceu um vulto.
Rogal.
Tinha uma aparência esquisita, com os olhos vazios e sem expressão, fitando o ambiente sem ver nada. Atrás dele surgiram homens de uniformes coloridos, tendo às mãos as pistolas energéticas, em posição de logo. Empurraram Rogal para frente. E como nada tivesse acontecido, entraram depois dele. Eram ao todo doze guardas do palácio, entre eles dois membros da temível polícia secreta do Zarlt.
O almirante Zernif os reconheceu imediatamente e percebeu ainda muito mais. Levantou a arma contra os dois policiais e gritou bem alto:
Pela liberdade e pelo império! — e atirou.
Seus cinco companheiros só estavam esperando por isto. Saltaram de seus abrigos e fizeram fogo cerrado contra os doze soldados de Zarlt. Um destes, apesar do perigo iminente, avançou uns passos para frente e tirou Rogal da linha de fogo. Sem nenhuma consideração, deu-lhe um estúpido empurrão, atirando-o ao chão. Só depois é que se dirigiu ao inimigo.
Num minuto depois, estava tudo terminado. Os doze guardas palacianos estavam mortos e dois dos revolucionários estavam caídos. Zernif tinha recebido no braço um tiro de raspão, o que porém não o impedia de parecer muito feliz. Mas não havia muito motivo para isto.
Rogal ainda estava no mesmo lugar. Olhava abobalhado em torno de si. Um simples exame dos seus olhos arregalados e sem expressão convenceu Zernif de que ele não tinha cometido nenhuma traição consciente. Alguma coisa havia acontecido a ele. Se sua suspeita se confirmasse, Rogal estaria praticamente morto ou, em outras palavras, seria melhor que morresse.
Não havia mais tempo. Em quinze minutos, as bombas detonariam e da velha construção não sobraria nada.
Cuidem de Rogal, temos que levá-lo conosco. Talvez consigamos saber qualquer coisa. Precisamos nos apressar.
Já estava ficando noite. Ao longe brilhavam as luzes de Tagnor, a capital do planeta Zalit com quase 30 milhões de habitantes. Depois de caminhar alguns passos, embarcaram no carro escondido entre a vegetação do parque. O motor começou a roncar. Duas curvas depois alcançaria a estrada de saída.
O momento estava chegando. De repente, uma língua de fogo cortou o céu escuro, e uma enorme compressão de ar varreu a solidão do parque, enquanto que um estampido ensurdecedor atingia toda a região.
Não havia mais caminho secreto para o palácio do Zarlt.

2



O Espaçoporto de Tagnor tinha vinte quilômetros de diâmetro. Era realmente muito grande, mas ao mesmo tempo muito pequeno, em relação com o inimaginável movimento nele reinante. A quase cada minuto subiam e desciam espaçonaves de carga, luxuosos gigantes de passageiros, belonaves e cruzadores da frota dos zalitas. Era como se fosse um enorme pombal.
Esta era, pelo menos, a opinião de Reginald Bell. Sua pesada estatura repousava numa frágil poltrona, diante das instalações de controle da tela panorâmica, por meio da qual observava o movimento no espaçoporto. Vez por outra, um sorriso feliz percorria seu rosto largo e seus cabelos eriçados davam a entender, mais do que tudo, que não havia motivo para inquietação. Ele não estava sozinho na enorme central da Titan, como haviam batizado a belonave aprisionada. Com um diâmetro de um quilômetro e meio, era a maior nave esférica conhecida no Universo, um novo produto da tecnologia dos arcônidas.
O corpo magro, esguio de Perry Rhodan, estava apoiado na mesa de navegação, parecendo se sentir bem nesta posição. O rosto pequeno demonstrava concentração e contentamento ao mesmo tempo. Era como se todos os cuidados tivessem desaparecido ou nunca tivessem existido. No entanto, existiam e bastante.
Um verdadeiro desfile da frota, permita-me a observação — disse Bell, meio aereamente, como se tudo isto não tivesse importância alguma para ele.
De suas palavras, se podia deduzir um subconsciente de superioridade. Rhodan confirmou distraído.
Você que o diga, amigo — murmurou ele. — Pergunta-se apenas quem lhe deu a ordem: o cérebro robotizado em Árcon ou o Zarlt?
Bell deixou de responder, porque nada sabia. Continuou olhando para os painéis de controle, dedicando-se ao trabalho de sua responsabilidade.
A Titan estava à beira do espaçoporto, já bem próxima da estrada de saída de Tagnor. A metade inferior da possante nave esférica estava estacionada num hangar vazio, colocado à disposição pelo zeloso e serviçal Zarlt. Naturalmente, não sem segundas intenções. Ainda esperava que Rhodan lhe fosse contar de que maneira tinha conseguido romper o anel de defesa do sistema de Árcon.
Estava esperando isto, inutilmente, há algumas semanas e sua esperança parecia em definitivo esgotada. Rhodan aguardava tranqüilo até o momento em que o Zarlt deixasse cair a máscara.
A porta se abriu e entrou uma espécie de Mickey Mouse de um pêlo marrom-ferrugem: talvez um metro e meio de comprimento, orelhas grandes, focinho comprido e uma cauda larga de castor. Nos olhos castanhos havia um vislumbre de brejeirice e humor.
Alô — guinchou o singular animal, no mais puro intercosmo e se acomodou muito à vontade numa espreguiçadeira. Por alguns momentos ficou contemplando, muito compenetrado, a Bell, que estava concentrado olhando para o painel de controle. Depois, suspirando conformado, se dirigiu a Rhodan, para continuar seu relatório já iniciado. — Estão chegando novos moofs.
A curiosidade de Rhodan despertou repentinamente:
Quem os trouxe?
Naves da frota do Zarlt, mas descobri que não são eles propriamente os responsáveis pelo transporte. Eles recebem a respectiva carga através de naves estrangeiras nos confins do sistema.
Ah... — murmurou Rhodan, refletindo um pouco. — Eu suspeitava disso. Os desconhecidos não desistem.
Devemos continuar, Tama e eu?
Rhodan fez que sim. Segundo sua opinião, era uma carnificina sem sentido, trazer para este mundo novas levas de moofs. Por outro lado, a situação se tornava perigosa quando os moofs aumentavam. Devia-se ao menos tentar controlar o aumento dos moofs.
Os moofs...
Constituíam realmente um problema. Alguém que permanecia oculto atrás dos bastidores, prudentemente, mandava trazer para Zalit os “inaladores de metano”, possuidores de forças telepáticas, acondicionados em recipientes pressurizados de vidro, onde ficavam as medusas de metro e meio de altura. Além da telepatia, possuíam também o dom da sugestão, que comparados aos níveis da Terra eram relativamente deficientes. Apesar disso, tinham conseguido influenciar o Zarlt e, com ele, a camada dirigente de Zalit. O Zarlt devia conquistar o Império dos Arcônidas para uma raça desconhecida. Rhodan já havia percebido isto. E este fato era suficiente para colocá-lo diante de uma difícil decisão.
O poderoso reino sideral dos arcônidas não era dirigido por seres humanos, mas sim pelo maior cérebro positrônico conhecido do Universo. Independente do fato de que ninguém sente simpatia por uma máquina, o regente robotizado não tinha tratado bem a Rhodan. Perseguiu-o e o considerou como o inimigo número um da nação. Os arcônidas mesmo, vagabundos decadentes e amigos da boa vida, pouco se incomodavam com os acontecimentos dentro do Império. Deixavam tudo por conta do cérebro robotizado e estavam convencidos de que ele os governava para seu próprio bem. Em parte, isto era verdade, mas Rhodan não podia se conformar com a idéia de que centenas de raças inteligentes ficassem dependendo das decisões lógicas de um robô.
Assim, lhe pareceu razoável, desde o início, a aspiração do Zarlt de Zalit de destruir o cérebro positrônico e mesmo de se apoderar do Império. Mas depois surgiram os moofs.
Eram eles os tramadores dos acontecimentos, como se acreditava a princípio. Dominavam a inteligência dos zalitas e os incitavam à rebelião contra Árcon. Até que se positivou que isto era um grande erro. Os moofs agiam sob comando e sob coação de desconhecidos, que naturalmente pensavam em colher os frutos da revolta. Além disso, se constatou que o Zarlt era tirano e assassino, que se tornou criminoso sem nenhuma influência sugestiva dos moofs.
Rhodan via agora uma possibilidade de provar ao cérebro robotizado de Árcon que estava ao lado do Império e não tinha, pois, intenção de prejudicá-lo.
Havia chegado a este ponto de suas considerações, quando Bell quebrou o silêncio:
A Central de Rádio está chamando, Perry. Você vai atender ou devo eu fazê-lo?
Obrigado, continue, por favor, no painel, já vou.
A Central de Rádio estava bem próxima.
Que há de novo?
Um dos oficiais entregou a Rhodan uma folha de papel.
Uma mensagem do Major Deringhouse — Urgente.
Major Deringhouse”, pensou Rhodan, recebendo a mensagem, sem lê-la imediatamente.
Voltou para a Central, onde Bell o aguardava curioso. Deringhouse comandava a frota espacial da Terra e estava de prontidão. No entanto, o cérebro robotizado podia ter sabido através dos saltadores, de que planeta provinha Rhodan. E se assim fosse, a Terra corria grande perigo. Uma única nave-robô podia transformar o sistema solar numa nuvem radioativa apenas com o emprego de bombas dos arcônidas: as bombas de gravitação. Embora a Terra estivesse a uma distância de 34 mil anos-luz, para evitar o perigo de ser radiogoniometrado, Deringhouse havia enviado a mensagem de um ponto qualquer das Galáxias.
Bell perguntou:
E então?
Rhodan apanhou o papel e o leu em voz alta:

Para Perry Rhodan, setor Árcon. A respeito sua pergunta sobre a traição saltadores. O cérebro positrônico em Vênus ficou equipado com todas as informações disponíveis. A investigação dá uma certeza de 99,08% de que os saltadores não denunciaram a posição da Terra para Árcon. Muitas felicidades. Aqui tudo em paz e em ordem.
ass. Deringhouse.

Bell respirou sensivelmente aliviado.
Nossa boa e velha Terra ainda existe. Às vezes, a gente esquece que ela está a uma eternidade daqui. A luz necessita de trinta e quatro mil anos para chegar até lá.
Nenhuma conferência agora — interrompeu-o Rhodan. — A mensagem não diz absolutamente que o perigo já passou. Pelo contrário, o cérebro robotizado de Árcon nos procura. Se o Zarlt está saturado com o nosso jogo, haverá de denunciar nossa origem. Mostraria assim também sua lealdade para com o cérebro, podendo assim muito mais facilmente enganá-lo mais tarde.
Cheguemos então antes dele — propôs Bell, com um sorriso confiante. — Denunciemos o Zarlt e o cérebro robotizado fica nosso amigo e nos dá de presente talvez até a nave apreendida.
Não totalmente assim, mas algo semelhante, é o que imagino — respondeu Rhodan. — Mas não nos esqueçamos que atrás do Zarlt estão os moofs e atrás destes, novamente os desconhecidos. Encontrá-los é realmente nosso maior dever.
Fez uma pausa, mas antes que Bell pudesse retrucar alguma coisa, continuou:
Mas julgo que devemos resolver esta missão passo a passo. E o primeiro passo se chama: Zarlt. O problema deve ser atacado pelo lado deles. John Marshall entrou em ligação com o líder do movimento clandestino, um ex-almirante Zernif. Vamos ajudá-lo em seus propósitos.
Que é que ele pretende mesmo?
Vingar o Zarlt assassinado e estabelecer seu legítimo sucessor.
Bell olhou para Rhodan:
E o novo Zarlt reconhece a soberania do cérebro robotizado sobre o Império de Árcon?
Sim, porque no momento não existe solução melhor. Os próprios arcônidas não podem mais governar um império que tem uma extensão de quase 230 anos-luz.
Quer dizer então que ajudaremos mesmo o cérebro?
Rhodan fixou a parede e disse baixo, num tom quase de resignação:
Sim.

* * *

Do ponto de vista espiritual, o corpo de mutantes de Perry Rhodan era a maior força no setor conhecido do lado externo da Via Láctea. A explosão da bomba atômica produziu em alguns homens alterações singulares na estrutura do cérebro. Estas alterações os transformou em mutantes. Se algumas destas faculdades adquiridas foram hereditárias, ainda não pôde ser constatado.
Quanto à distinção entre mutantes positivos ou negativos, isto depende, no sentido político, das qualidades de caráter e da capacidade destes homens. Os membros do corpo de mutantes foram, sem exceção, mutantes positivos. Havia telepatas, telecinetas, teleportadores, observadores, orientadores, hipnos e auscultadores de freqüência. Havia também um, que, com a força de sua mente, podia provocar explosões atômicas a grandes distâncias.
O telepata John Marshall era o chefe oficial dos mutantes. Cidadão australiano, que hoje pertencia à Terceira Potência de Perry Rhodan, colaborou sempre para a união da Terra e agora que o planeta já alcançara este objetivo, acompanhava Perry Rhodan em sua jornada para Árcon.
E com ele, o corpo dos mutantes.
Pertence também a este grupo: Gucky, o pequeno rato-castor. Era não apenas telepata, mas também telecineta e teleportador. Esta multiplicidade de faculdades parapsicológicas caracterizava Gucky automaticamente como um gênio universal, o que não o tornava cheio de si. Todos gostavam muito do pequeno ser que Rhodan havia encontrado no planeta Vagabundo.
Juntamente com Tama Yokida, o telecineta japonês, Gucky estava em ação. Tratava-se de ficar livre dos perigosos moofs, que, com seu dom de sugestão, exerciam uma influência nociva sobre os zalitas. Bastava que Tama e Gucky unissem seus dons telecinéticos num impulso bilateral e a estrutura molecular dos recipientes pressurizados se alteraria. Originar-se-ia uma perfuração, por onde escaparia a atmosfera de metano, elemento essencial para a vida dos moofs.
Já tinham terminado os exercícios diários de alarma. Rhodan estava ciente de que cada um dos seus conhecia suficientemente a gigantesca espaçonave, para poder atingir bem rápido qualquer estação ordenada — o que não era uma bagatela, tomando-se em consideração o volume de um esfera espacial de quilômetro e meio de diâmetro.
Os dois arcônidas Thora e Crest estavam junto dele na Central. Thora, de estatura elevada, de cabelos brancos e olhos cor de ouro estava sentada calmamente em sua poltrona e não desviava o olhar de Rhodan. Crest ficou de pé. Ele também era de constituição albina, como toda sua raça, com a qual parecia agora não ter nenhuma ligação, depois que seu clã não pertencia mais à casta governante. Já fazia seis anos que o cérebro robotizado dominava o Império. O imperador Orcast XXI não era mais do que um fantoche.
Thora e Crest foram os que, há treze anos atrás, fizeram uma descida forçada na Lua da Terra e deram a Perry Rhodan o poder de transformar a Terra numa potência cósmica.
O Zarlt deixou cair a máscara — disse Rhodan sem rodeios. — Acabo de receber um comunicado de que ele, aliás, não só deu nossa posição ao cérebro robotizado, como também deixou transparecer em sua embaixada em Árcon que sua frota espacial conseguiu identificar a nossa origem. Pediu, para reforço, naves de combate comandadas por robôs. Houve depois uma advertência via rádio para o nosso endereço, o que significa simplesmente uma proibição de levantar vôo. Pretende, pois, nos deter aqui.
Qual é o significado de todas estas manobras? — perguntou Crest. — Por que não denuncia ao Cérebro onde nós estamos?
Rhodan sorriu.
Se você se colocar na situação de Demesor, a resposta não lhe será difícil. Demesor quer tapear o cérebro robotizado, para depois assumir o poder. A Titan é a mais possante nave espacial de Árcon, mas está em nosso poder. Que adianta a Demesor se o cérebro robotizado dela se apoderar? Por isto é que pede reforços, para prender a todos nós. Depois ele avançará contra Árcon, pois está crente que rompemos o anel de segurança unicamente porque possuímos a Titan. Como ele poderá saber que foi apenas com o auxílio do transmissor fictício em Ganymed?
Crest concordou.
Ah, quase já me havia esquecido da Ganymed, embora tivéssemos iniciado a expedição com ela e só depois é que conquistamos a Titan. Está tudo certo, Perry, mas acho que o Zarlt calculou mal.
Perry continuou sorrindo.
Mas eu gostaria primeiro que ele não percebesse isto. Para mim é muito mais importante que o cérebro robotizado se convença da nossa lealdade. Você tem qualquer sugestão neste particular?
Antes que Crest respondesse, Thora deu sua opinião:
Por que não iniciamos contato com ele?
Rhodan abanou a cabeça amigavelmente.
Já o tentamos, mas ele não reagiu. Quem sabe a recepção em superonda não é constante. Então devemos nos aproximar um pouco mais.
De Árcon?
Por que não?
Crest acrescentou:
Acho que não é tanto a distância que impede o cérebro de nos ouvir. Suponho antes que os zalitas armaram uma abóbada de bloqueio magnético em torno de seu planeta. Atua por polarização. As mensagens que chegam passam livremente, mas as que saem são retidas. O processo pode ser também invertido. Só assim se explica o silêncio do cérebro.
Quer dizer que bastaria então — constatou Rhodan — que apenas nos afastássemos um pouco da atmosfera, para conseguirmos entrar em contato?
Teoricamente, sim — concordou Crest convencido.
Rhodan ponderou por um momento.
Você pode ter razão, mas se vamos realmente tentar, não devíamos esquecer nossas provas — virou-se para a mesa de controle e apertou um botão. Alguém atendeu. — Mande John Marshall para cá imediatamente. Deve vir também o tenente Tifflor — desligou novamente e se virou para os dois arcônidas para mais explicações. — Não se pode exigir de um cérebro robotizado que aceite simplesmente a palavra de honra de um estranho.
Você tem algum plano? — indagou Thora.
Rhodan meneou a cabeça afirmativamente, sem conseguir impedir que seu olhar se demorasse mais longamente em seu rosto severo, mas ainda muito lindo. Que transformação tinha se dado com ela? Sua altivez não tinha limites e seu ódio não tinha semelhante. E hoje, depois de haver reconhecido como estava apagada a herança espiritual dos arcônidas e como estava cheia de vida a jovem raça dos terranos, houve uma grande transformação em seu interior, que se exteriorizava não apenas por uma revisão em sua filosofia de vida, mas principalmente em sua posição pessoal para com Rhodan.
Há tempos atrás, Rhodan podia apenas suspeitar, porém hoje tinha plena certeza de que, em seu íntimo, ele a amava. Mas a concretização deste amor devia permanecer irreal, pois entre ele e ela havia a eternidade. Não mais o abismo de cultura de dez mil anos, mas a própria eternidade. Pois Rhodan tinha recebido do Imortal a ducha celular prolongadora da vida, que não foi concedida a Thora. Rhodan não envelhecia mais, Thora porém...
Interrompeu o pensamento. Agora não havia solução para o problema e nenhuma resposta para suas perguntas. Um dia, porém, tinha que haver uma solução ou melhor uma decisão. Tinha tanta atração por ela, e por outro lado tinha também tanto medo dela.
Sim, Thora, tenho um plano. Faremos uma visita ao cérebro robotizado com a Gazela.
Com a tele-sonda? Através do anel de segurança?
Rhodan sorriu e balançou a cabeça.
Não uma visita direta, Thora. Algumas horas-luz serão suficientes para fugirmos do radio bloqueio. Depois entraremos em contato com o cérebro por meio do videofone. O Zarlt deve ficar sem saber nada, então da Ganymed nos transportaremos num salto com o auxílio do transmissor fictício.
Uma bela idéia, Perry — disse Crest — estou de acordo. Mas o que você pretende dizer ao cérebro robotizado?
A verdade. Vou reconhecê-lo plenamente como regente do Império.
Thora não parecia muito contente com a resposta.
Vamos reconhecer então que não são os arcônidas, mas sim um robô quem domina o Império?
Primeiramente, não temos outra opção e em segundo lugar acho que a atuação do cérebro não é desvantajosa para o Império. Repare este Orcast, Thora. Acredita sinceramente que ele conseguirá manter unido o reino decadente?
Orcast certamente não — concordou Thora. Havia brilho intenso em seus olhos cor de ouro. — Mas o clã dos Zoltral não está tão decadente.
Thora e Crest pertenciam a este clã.
Virá o tempo em que o clã dos Zoltral haverá de dominar novamente — disse Rhodan com ênfase. — Aí então podemos tratar da substituição do cérebro robotizado. Na presente situação, porém, é indispensável captar a confiança do regente.
Thora fitou Rhodan por mais algum tempo, depois abaixou a cabeça.
Acho que terei de lhe dar razão, Perry. Quando é que partimos então?
Rhodan não deu resposta, pois neste momento entraram na Central John Marshall e o tenente Tifflor. Tiff, como ele era chamado em geral, parecia muito com Rhodan, embora fosse vinte anos mais moço. Tinha se destacado muito em várias missões especiais e gozava da confiança ilimitada de Rhodan. A porta se fechou sem nenhum ruído. Perry fez um sinal para os dois e foi falando diretamente:
Tiff, ponha-se em contato com o major Freyt e combine os preparativos para a decolagem da Gazela com o transmissor fictício. Tripulação: Thora, Crest, Gucky e eu. John Marshall vai tentar trazer para cá o almirante Zernif, se necessário, por meio de Ras Tschubai. Bell toma o comando da Titan, durante nossa ausência. Isso é tudo. Nós nos encontramos em duas horas na Ganymed. Alguma pergunta?
E eu fico sobrando — murmurou Bell decepcionado. — Que é que eu vou fazer aqui, onde nada acontece?
Como é que você sabe que nada vai acontecer? — perguntou Rhodan seriamente. — Eu quero ter a certeza de ter deixado um comandante de confiança na Titan, durante minha ausência. Não se pode brincar com uma espaçonave como a Titan.
Meio convencido, Bell estava mais contente. De qualquer maneira, Rhodan lhe havia confiado uma responsabilidade muito grande.

* * *

Na segurança do quartel-general clandestino, Zernif e seus amigos tinham oportunidade de tratar de Rogal. Voltando de um atentado malogrado, em circunstâncias tão misteriosas, ele estava com toda certeza sob a influência de um grande choque. Seus olhos arregalados fitavam o vazio e seus lábios cerrados estavam mudos. Não respondia a nenhuma pergunta.
Estavam todos sentados em volta dele e tentavam obter-lhe uma palavra esclarecedora. O atentado fracassou completamente? Não tivera oportunidade de atirar no tirano? Prenderam-no antes disso? Foi traído por alguém?
De olhos abertos, ele encarava a luz forte do dia. O almirante Zernif murmurou:
Está sem sentidos. Talvez lhe precisamos dar uns dias de repouso. Em breve saberemos se o Zarlt ainda está vivo, se o atentado foi bem sucedido. Talvez os estranhos nos possam dizer alguma coisa. Este tal Rhodan tem um grupo de homens maravilhosos. Alguns deles nós já conhecemos.
De repente, todos se viraram. Ouviu-se um ruído bem no meio da sala. Ninguém podia entrar aqui despercebido, pois o quartel-general estava a dez metros abaixo do solo, bem próximo da cidade. Os dispositivos de segurança jamais falharam.
O que presenciaram foi de arrepiar-lhes os fios dos cabelos. Do nada, materializaram-se duas figuras humanas. Uma já era conhecida de Zernif. Era o homem que se chamava John Marshall. Pertencia ao grupo de Rhodan, este estranho misterioso, que parecia estar do seu lado, embora não lhe tivesse prestado ainda nenhum auxílio. O outro homem era-lhe desconhecido. Sua pele quase preta era estranha e fora do comum. Será que ele pertencia também ao grupo de Rhodan?
Zernif se conteve. Sua mão, que repousava na coronha da arma, voltou automaticamente à posição normal.
O senhor? Como é que chegou até aqui?
Com o auxílio de meu amigo Ras Tschubai, que agora lhe apresento. É teleportador.
Zernif se levantou. Por uns instantes se esqueceu de Rogal. Os demais revoltosos continuaram preocupados com a vigilância, graças à qual deviam sua vida.
Como é que os senhores nos acharam?
Não foi difícil, Zernif. Viemos pedir sua ajuda.
Minha ajuda? Como podemos ajudá-los se vocês são mais poderosos do que o próprio Zarlt?
Vocês vão saber logo. Este não é Rogal? Que aconteceu com ele? Parece estar sob coação hipnótica.
Achamos que são as conseqüências de um choque mental. Temos que saber o que houve com ele.
Marshall comprimiu os olhos. Seu primeiro pensamento foi que os moofs pudessem ter rompido sua barragem natural de defesa.
Onde foi que aconteceu isto?
Zernif hesitou um pouco em responder.
Não podia supor que Marshall estava lendo seus pensamentos. Depois, resolveu contar ao estranho toda a verdade. Falou rapidamente do planejamento de todo o atentado. Marshall acompanhou todo o relato.
Portanto, na noite passada? Então fracassou o atentado, pois ainda hoje, antes do meio-dia, o Zarlt deu novas ordens que são claramente contra nós, seus hóspedes. Quem sabe ele acha que somos responsáveis pelo acontecimento? E Rogal voltou desta maneira? — olhou na direção do revoltoso, cuja posição ainda era a mesma.
Continuava olhando fixamente para a claridade forte.
Posso examiná-lo um pouco?
Era apenas um pretexto para penetrar, com toda calma, nos pensamentos de Rogal. Marshall se espantou ao notar a intensa barragem de proteção que estava enfrentando. Não tinha faculdades de sugestionador. Quem poderia ajudar aqui, seria André Noir, o hipno do corpo dos mutantes. Virou-se para Ras Tschubai, dizendo:
Você nos pode teleportar para a Titan, a mim, Zernif e Rogal ao mesmo tempo?
O africano abanou a cabeça.
É muito arriscado, eu proponho levar cada um separado para a nave. O tempo é o mesmo.
Certo — respondeu Marshall, explicou a Zernif a finalidade de sua visita. E depois acrescentou: — Levamos Rogal conosco e vamos ver o que podemos fazer com ele. Trouxe aqui um aparelho de rádio, por meio do qual vocês estarão sempre em contato com Rhodan. Fiquem na escuta. Agora vamos primeiro a Rogal.
Os homens ficaram quase atônitos, quando o negro com Rogal desapareceram repentinamente. Dez segundos após, materializou-se novamente e levou Zernif. Depois veio a vez de Marshall.
Ficaram todos silenciosos, olhando ansiosos para o misterioso aparelho que emitia um leve zumbido. Era sua única ligação com o mundo exterior.

* * *

O transmissor fictício do planeta Peregrino era realmente uma coisa maravilhosa.
Podia teleportar qualquer tipo de material em fração de segundo, para qualquer lugar, por meio da quinta dimensão, independente de se tratar de bombas atômicas ou de seres humanos. No Universo inteiro, nunca se tinha visto uma arma mais perfeita. As cúpulas de proteção não adiantavam mais nada às grandes naves espaciais, se as bombas desmaterializadas eram teleportadas para o seu interior e aí detonavam.
Mas hoje, Rhodan estava usando o transmissor para fins pacíficos. Devia conduzir a Gazela despercebidamente para o espaço. O aparelho de telerreconhecimento era uma espécie de disco voador com um diâmetro de mais de trinta metros. Seu eixo vertical tinha dezoito metros e o raio de ação era de 500 anos-luz. Seu equipamento bélico consistia de raios energéticos de superimpulso de origem arcônida.
Tiff anunciou que a Gazela estava pronta para partir. Thora, Crest e Marshall já estavam a bordo. Rhodan estava esperando por Gucky, que devia aparecer a qualquer momento. Enquanto isso Perry conversava com o major Freyt, comandante da Ganymed.
Caso houver, nesse ínterim, um ataque contra ela e contra a Titan, então defendam-se. A Ganymed vai para o espaço e aguarda, na posição combinada, por eventuais ordens. Ninguém conseguirá encontrá-la, pois nenhum rastreador de estrutura pode localizar seu salto. Com a Titan é diferente, e é por isso que ela fica onde está.
Está certo — tranqüilizou Freyt. — Saberei defender minha pele. E quanto a Bell, também não tenho dúvida alguma.
Rhodan queria responder, quando o rato-castor se materializou.
Cá estou eu — disse ele — estava ocupado com Tama, atacando um grande transporte de moofs. Mandei embora Tama juntamente com Ras.
Estamos esperando por você — respondeu Rhodan, despedindo-se de Freyt. — Até logo mais, comandante.
Pescoço e perna quebrada — desejou este.
Nada disso — respondeu Gucky brincalhão, acompanhando Rhodan com um pequeno salto, já que os degraus da escada para bordo eram muito altos para ele.
A Gazela estava no hangar da Ganymed. O transmissor haveria de atirá-la três meses-luz para o espaço além. Nenhum olho humano, nem mesmo nenhum instrumento técnico, por mais aperfeiçoado que fosse, conseguiria registrar seu deslocamento.
Tomaram seus lugares. Fechou-se a escotilha e o tempo começou a correr. Então veio a partida e simultaneamente a transição.
Quando Rhodan abriu os olhos depois de um rápido cochilo, viu um mar de sóis de brilho intenso. Árcon lá estava, no centro daquele agrupamento de estrelas M-13, formando como que uma esfera, 34 mil anos-luz distante da Terra. Os sóis estavam bem juntos um do outro, visão esta completamente diferente daquilo que vemos da nossa Terra. Quase não se via um ponto escuro e a própria Via Láctea empalidecia em comparação com o espetáculo de luminosidade dos astros tão próximos.
Rhodan conferia as escalas. Estavam agora a três meses-luz de distância do gigantesco sol vermelho Voga. O Zarlt ainda devia supô-los na Titan. Em sua volta para Zalit seria bem diferente. Não seria possível uma descida por meio do transmissor fictício. Com alguns movimentos manuais, Rhodan sintonizou a instalação de hiperrádio para recepção e esperou até que o painel se aquecesse. Ouviu-se um estalo no alto-falante quando se ligou a instalação de som. A hiperfreqüência do cérebro robotizado era conhecida, mas não havia transmissão no momento.
Devemos chamar — propôs Thora, cuja hesitação inicial se convertera numa inimaginável força de ação e alegria de decisão. — Depois vamos ver como ele reage.
Zernif, o ex-almirante da frota espacial de Zalit, conservava uma expressão de apreensão.
Não sei bem o que devo fazer aqui. Que devo mesmo dizer ao regente do Império?
Alguma coisa — disse Rhodan — que deverá interessar muito ao cérebro. Você é nossa testemunha principal e eu tenho a convicção de que o cérebro haverá de distinguir a verdade da mentira, se não for por telepatia, ao menos através da lógica de seus dados.
Aliás é uma idéia fascinante — interveio Crest no debate — a de reger um poderoso reino estelar através de um robô. Quanta mudança houve aqui nestes últimos treze anos, depois de durante quase dez mil anos sem um acontecimento importante. Às vezes, eu chego a ter dúvidas se esta nova forma de governo é realmente nociva para Árcon.
Rhodan franziu as sobrancelhas e olhando para Crest perguntou:
Quer dizer com isto que reconhece o domínio do cérebro robotizado, você que é um descendente do deposto clã que estava no governo?
Crest tentou contornar:
Não diretamente. Penso apenas que o cérebro me é mais simpático do que este Orcast XXI, que ao meu ver nada mais é do que um sonhador e um folgazão enfastiado.
Deste ponto de vista você pode ter razão — disse Rhodan, observando o grande painel, no qual tremulavam desenhos coloridos e abstratos. Simultaneamente a isto, o alto-falante despejava ruídos sem sentido e quebrados. — Suponho que já estamos recebendo mensagens do cérebro. São cifradas e não se destinam a nós.
Nas principais faixas de onda do Império, ele está permanentemente em contato com seus postos de comando — confirmou Crest. — Pode manter com simultaneidade milhares de contatos.
Na mesma freqüência? — perguntou Rhodan, duvidando da assertiva.
Crest fez que sim.
Depois de refletir uns segundos, Rhodan ligou resoluto o emissor, esperou até que estivesse em condições de funcionar, respirou profundamente e começou a falar:
Aqui fala Perry Rhodan da Terra. Estou chamando o regente do Império de Árcon. Responda, por favor. É urgente.
Repetiu estas palavras três vezes, dedicando então toda a sua atenção ao receptor e ao painel de controle.
Thora e Crest estavam de olhos fixos nos sinais coloridos que se repetiam. Tiff, ocupado principalmente com a observação visual do espaço em volta, notou a tensão reinante na Central. Zernif aguardava paciente e conformadamente o que iria acontecer.
Somente Gucky é que parecia não estar interessado em tudo aquilo. Estava deitado numa espreguiçadeira com os olhos semi-cerrados. Podia-se supor que estava dormindo. Mas quem o conhecia, sabia que o rato-castor era a concentração personificada.
Rhodan abanou a cabeça, dizendo:
O Cérebro deve nos ouvir. Por que não recebemos resposta? — repetiu seu chamado várias vezes, acrescentando ainda: — Peço-lhe para confirmar a recepção. Trata-se da existência do Império.
As imagens coloridas começaram a correr mais depressa. Os sinais do alto-falante aumentaram. Foi tudo.
De qualquer maneira, uma reação — murmurou Rhodan descontente. — Só que eu não sei o que fazer com isso. Como descobriremos o código que o cérebro deve estar usando?
Quem sabe o senhor declara — propôs Thora — que o código nos é desconhecido, exigindo uma transmissão em texto claro.
Rhodan achou que era uma boa sugestão e repetiu sua mensagem, acentuando que todo o código cifrado lhes era desconhecido.
A tensão na Gazela chegou ao máximo. Os sinais coloridos pararam no painel. O alto-falante acusou fortes estalos e a seguir sons desconexos. Fria e impessoal soou uma voz que de repente invadiu toda a Central. Esta voz dizia na língua dos arcônidas:
Liguei seu transmissor e o meu num canal bloqueado, não precisamos de código. Ninguém poderá acompanhar esta transmissão. Sua posição é conhecida. Fale.
O senhor me está vendo? — perguntou Rhodan.
Houve uma pequena pausa, depois sumiram da tela aqueles desenhos parados. Voltaram novamente, porém, já com movimentos, começando a formar uma imagem plástica. Enquanto isto, a voz mecânica e fria dizia:
Eu o estou vendo, como também o senhor me poderá ver em poucos instantes. Sua distância de minha posição é de três quartos de ano-luz, conforme seu cálculo. Eu o mantenho sob irradiação. Onde está a espaçonave roubada?
A imagem se completou. Rhodan viu um imenso átrio, que não permitia que se pudesse fazer qualquer conclusão do lugar onde estava. No centro deste átrio, jazia uma gigantesca semi-esfera de metal reluzente em sua superfície. Nada mais do que isto. Teria um diâmetro de cinqüenta metros, abrigando com toda segurança o cérebro robotizado. O que havia por baixo da semi-esfera ninguém sabia. A altura de toda a construção era de vinte e cinco metros, como Rhodan conseguiu calcular.
Fazia treze anos que ansiava pelo momento de estar frente à frente do regente do Império dos Arcônidas, mas, mesmo em seus mais ousados devaneios, nunca poderia imaginar que ele fosse assim: uma semi-esfera de metal.
Lembrou-se da pergunta do cérebro robotizado.
Regente, a espaçonave roubada está esperando por mim num lugar seguro. Se eu não conseguir voltar, ela está praticamente perdida para o Império.
Não é minha intenção prendê-lo — respondeu o cérebro friamente. — Se estivesse na nave roubada, o caso seria outro. O que é que o senhor deseja?
Convencê-lo de que eu não sou seu inimigo.
Isso lhe vai ser bem difícil — duvidou o monstro metálico, mudando repentinamente de assunto. — Estou vendo dois arcônidas. São eles, por acaso, Thora e Crest?
Perfeitamente, são eles, regente. Pertenciam outrora à camada dominante de Árcon.
O clã dos Zoltral não trouxe nenhuma vantagem para Árcon — respondeu friamente o cérebro. — Desde que eu, há seis anos, tomei o poder, a situação melhorou.
Rhodan se admirou secretamente de que o robô deixava transparecer qualquer coisa como orgulho. Quem podia sentir sentimentos de orgulho, também não seria infenso a outros sentimentos...?
Ninguém tem dúvidas quanto a isto — disse Rhodan. — Mas o senhor tem que admitir que o clã dos Zoltral sempre foi mais eficiente e positivo para o Império do que o clã de Orcast.
Por este motivo é que Orcast foi substituído por mim — respondeu o cérebro prontamente. — Ele teria arruinado o Império.
Uma última pergunta a respeito do Império, regente: Por que motivo o senhor não me reconhece como amigo? Crê que eu possa prejudicar o Império? Não estou trazendo de volta Thora e Crest?
A resposta veio imediatamente:
O senhor é meu maior inimigo, quando eu raciocino do ponto de vista pessoal do poder. No referente ao Império, o senhor é meu aliado, enquanto percebo. Está vendo que me encontro num dilema. Admira-se de que eu fale assim?
Realmente — disse Rhodan — isto me surpreende.
Eu o admito, somente para que o senhor possa compreender meu modo de agir. E então, por que o senhor vem me procurar?
Eu lhe queria dizer onde escondi a espaçonave roubada.
Veio a primeira pausa. Desta vez, o cérebro positrônico necessitava visivelmente de tempo para elaborar a mensagem e medir todas as suas possibilidades e eventuais conseqüências. Este processo, que para um homem gastaria horas e horas, levou apenas dez segundos. Então respondeu o Cérebro:
Por quê?
Naturalmente não tinha encontrado uma resposta satisfatória e lógica. Nenhum milagre nisso, pensava Rhodan. Ninguém poderia achar mesmo.
Para lhe provar que sou seu amigo, tenho que fazer isto. Eu lhe dei o nome de Titan e acho que foi muito certo. O senhor a recebe de volta, quando quiser. Para sua informação: a Titan está no espaçoporto de Tagnor, capital do Planeta Zalit, no Sistema Voga, distante três meses luz da minha atual posição.
Impossível — foi a resposta imediata. — Fosse assim, eu saberia.
Rhodan deu um pequeno sorriso, que parecia condescendência.
Como que o senhor saberia isto? Que fator lhe daria esta certeza? Talvez, o fator que se chama Zarlt?
Exatamente. O Zarlt de Zalit é o vice-imperador. Uma nave tão grande assim, ele não poderia deixar de ver, estando ela no espaçoporto de Tagnor. E o Zarlt haveria de me comunicar, pois dei a ordem de vigiá-la. A conclusão lógica é que o senhor está mentindo. A Titan está escondida em outro lugar.
Palpite errado — respondeu Rhodan, parecendo querer levar o negócio à brincadeira. — O senhor se esqueceu de que uma outra pessoa também pode estar mentindo. Por exemplo, o Zarlt.
Zarlt Elton tem-me uma dedicação muito fiel.
É possível — continuou Rhodan, calmo. — Mas que lhe interessa isto, se Elton já morreu há algum tempo?
Novamente uma pequena pausa. Depois:
Por que não recebi nenhuma notícia de sua morte?
Porque seus assassinos julgaram que isto não era muito diplomático. Fora disso, seus planos seriam prejudicados se o regente do Império ficasse sabendo que Zalit tinha a intenção de se apoderar do governo do Império Arcônida.
Assassinos?
Rhodan sentiu que o cérebro robotizado era, portanto, capaz de ficar admirado.
Zarlt Elton foi assassinado. O novo Zarlt é Demesor, um ex-oficial da frota espacial. Foi ele quem planejou a destruição do cérebro robotizado de Árcon.
Isto é um absurdo — foi a resposta calma. — Ninguém me pode destruir.
Pode sim — contradisse Rhodan, friamente. — A gente pode destruí-lo. Somente Demesor é que não pode. Por este motivo é que ele pediu meu auxílio. O senhor está compreendendo agora por que ele não lhe comunicou onde estava a nave Titan?
Sob este ponto de vista seria lógico e portanto compreensível. Porém, a minha pergunta continua: O senhor está falando a verdade? Quem me pode provar isto?
Talvez o almirante Zernif — disse Rhodan, apontando para o zalita. — Ele serviu ao Império sob Zarlt Elton, porém caiu em desgraça, quando Demesor chegou ao poder. Sua vida foi salva por um acaso. Com outros zalitas que são fiéis ao Império, fundou um movimento de resistência, cuja finalidade é restaurar a ordem em Zalit, uma ordem que é um serviço para o Império.
Houve uma pausa de quase um minuto. Depois continuou o cérebro robotizado, em tom impessoal:
Examinei as informações sobre o almirante Zernif. Sua pessoa está acima de toda dúvida. Era assim também com Demesor.
Por que este “era” no caso de Demesor?
Porque acabo de constatar que Demesor foi enviado para a Academia Espacial em lugar de seu irmão mais capacitado. Isto foi há trinta anos de Zalit. Os documentos mencionam uma probabilidade de que ele, naquele tempo, ameaçou seu irmão. Mais ainda. Estas informações dizem que o irmão de Demesor foi, mais tarde, vítima de um acidente. É sabido que este seu irmão era um adepto fiel do Império.
Rhodan respirou profundamente. O cérebro robotizado trabalhava rápido e de modo frio.
Quais as conclusões a que o senhor chegou, regente?
Que o senhor diz a verdade. Que há com Zernif?
Zernif deu uns passos para frente e fixou os olhos na reluzente cúpula de metal.
Gostaria de reforçar as palavras de Rhodan e acentuar que nosso Império está em perigo. Demesor instalou uma ditadura militar em Zalit e impôs uma barreira às informações. Minha organização clandestina haverá de depor Demesor e colocar o legítimo sucessor do velho Zarlt em seu posto.
Obrigado — disse o cérebro. — Eu confio no senhor, pois não há mais outra alternativa. E o que o senhor tem com tudo isto, Rhodan?
Demesor pediu meu auxílio e eu fingi ceder. Protegeu a nave Titan e a mim, porque estava crente de ter achado um aliado contra o senhor. Demesor procurou saber de mim, como eu tinha rompido o anel de segurança de Árcon.
Isto, também eu gostaria de saber — disse o cérebro robotizado.
Rhodan sorriu.
O senhor saberá mais tarde, regente. Mas, foi por meio de uma arma, que é desconhecida em Árcon. Sua origem vem do planeta da vida eterna.
Este planeta é apenas uma vaga teoria.
Não, é uma realidade — contradisse Rhodan. — Eu mesmo estive nele e obtive uma imortalidade relativa, que aliás foi recusada a Thora e a Crest. Mas, continuando o assunto, regente, Demesor é um traidor e tem que ser neutralizado. Porém, ele não é o único culpado. O senhor conhece os moofs?
Sim, conheço, são seres oriundos de um mundo de metano dentro do Império, relativamente primitivos e também inofensivos. Telepatas e fracos sugestores. Que têm eles a ver com Demesor?
Estão aos milhares em Zalit e se apoderaram espiritualmente do poder. O Zarlt traidor não o sabe e pensa que os moofs são seus melhores aliados. Com auxílio deles acha que conquistará o Império.

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