Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
E Revisão
ARLINDO_SAN
Foi no
ano de 1971 que Perry Rhodan, antigo oficial da Força Espacial
Americana, atingiu a Lua com a nave Stardust e, com a tecnologia que
adquiriu da nave espacial dos arcônidas encalhada, fundou sua
Terceira Potência.
Conflitos
na Terra, invasões de fora, batalhas no espaço, lutas em planetas
longínquos — por tudo isto passou gloriosamente a Terceira
Potência no curto espaço de sua existência.
No
momento, são ainda os saltadores — aqueles comerciantes da galáxia
que há milênios conseguem defender seu monopólio comercial com
determinação contra qualquer concorrente que apareça — que
representam o perigo mortal para toda a Terra.
Perry
Rhodan, até hoje, tem feito tudo que está a seu alcance para
impedir que os saltadores façam da Terra um mundo de escravos.
Levtan, o traidor, desempenhou um papel importante no jogo de Rhodan,
pois somente através dele é que foi possível fazer com que um
grupo de agentes conseguisse penetrar na Grande Conferência dos
Patriarcas dos Saltadores.
Estes
homens, lutadores experimentados do Exército de Mutantes de Rhodan,
cumpriram seu dever. E agora eles ainda vão mais longe: Libertam um
planeta inteiro do jugo estrangeiro.
O
Flagelo do Esquecimento serve-lhes de instrumento para a libertação.
=
= = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
John
Marshall,
Tako
Kakuta,
Kitai
Ishibashi,
Tama
Yokida
e Gucky
— Formam o comando de assalto para libertar o planeta de Goszul.
Enzally
— O único goszul que domina a telepatia.
Ralv
— O chefe dos revoltosos goszuls.
Ralgor
e Etztak
— Dois patriarcas dos saltadores.
Perry
Rhodan
— Comandante da Stardust-III e chefe da Terceira Potência.
1
Água no
porto estava lisa como um espelho. Não soprava a menor brisa e se
podia ver, atrás da quilha do grande barco a vela, nitidamente, o
terreno cultivado com plantas variadas. Cardumes de peixes das formas
mais esquisitas se moviam de um canto para o outro, desviando-se
apenas das barcaças de carga vazias, cuja missão era descarregar as
mercadorias do barco a vela.
As casas
da cidade se alinhavam ao longo da enseada do porto, numa quase
meia-lua. Subiam o suave aclive das colinas, que logo se
transformavam num planalto uniforme a se estender até o horizonte.
Assim, o interior do território não diferia muito do oceano, pois
formava também com o céu uma linha reta, sem interrupção.
O veleiro
era, sem dúvida alguma, um navio de guerra, pois nos dois costados
podiam-se ver as bocas dos canhões. No entanto, conduzia uma carga
que neste momento estava sendo recebida pelos empregados do cais.
A
tripulação trabalhava arduamente e sem parar, enquanto os homens
morenos de basta cabeleira também cochichavam entre si e lançavam
olhares tímidos na direção da popa. Depois continuavam arrastando
obedientemente seus fardos até o parapeito, onde eram recebidos
pelos proprietários das barcaças que estavam esperando.
No
tombadilho do veleiro estavam sentados quatro homens, que observavam
o movimento a bordo do barco com mais ou menos alguma atenção.
Embora se pudesse supor à primeira vista que o descarregamento da
mercadoria fosse negócio de seu interesse, isto não era verdade.
Era-lhes completamente indiferente a carga que se encontrava nos
porões do barco e também não lhes interessava que chegasse às
mãos dos destinatários ou fosse jogada na água.
Um deles
lamuriava, olhando para cima, para o sol causticante, que podia estar
brilhando tão bem em Trípoli como em Buenos Aires, se realmente se
tratasse do sol da Terra. Mas não era ele.
— Este
calor me deixa louco — resmungou ele, passando a mão pela barba
desgrenhada. — Ficarei contente quando me livrar desta barba
horrível. Não posso compreender que sentido tem a gente andar
mascarado.
— No
momento, nenhum — respondeu seu colega, um rapaz de pequena
estatura, de olhos vivos e pequenos. — Mas quando um saltador
aparecer a bordo do navio, a coisa ficará diferente.
— Que
nada — continuou o primeiro, com um movimento de mão indicando
desprezo. — Meu caro Tako, qualquer saltador notará imediatamente
que nós não passamos de imitação, basta dar-lhe um pouquinho de
tempo.
— Mas
nós não lhes deixaremos tempo para isto, John — disse o japonês
sorrindo. — Além disso, não creio que eles venham a bordo. Para
isso, têm sua gente, os goszuls.
Os goszuls
eram os nativos da terra, que tinha sido transformada em colônia
pelos saltadores, uma raça inteligente de navegadores do espaço. Ao
mesmo tempo, os saltadores utilizavam este planeta como base militar
e como ponto de apoio para operações comuns contra eventuais
inimigos.
E um
desses inimigos era exatamente Perry Rhodan, administrador do planeta
Terra, contra o qual se dirigiam os planos dos saltadores no momento.
Daí, a presença dos quatro terranos camuflados no tombadilho do
barco, que estava parado tão pacificamente no porto do pequeno
continente, a que os nativos davam o nome de Terra dos Deuses.
Sua missão
secreta era expulsar os saltadores do planeta de goszul, sendo que
Rhodan queria continuar incógnito. Assim, os quatro homens do barco
só podiam contar consigo mesmo, pois a frota de Perry Rhodan estava
esperando no espaço, a oito dias-luz de distância.
John
Marshall, competente telepata do Exército de Mutantes, olhava
pensativo para seus três colegas. Seu olhar ficou longo tempo parado
sobre Tako Kakuta, o teleportador.
— É
isso mesmo — disse finalmente. — Os goszuls me preocupam. É
verdade que Kitai Ishibashi lhes fez um bloqueio mental. Mas ninguém
sabe por quanto tempo a situação continuará assim. Quando
começarem a pensar independentemente, haverão de desconfiar e nos
entregarão às criaturas dos saltadores, os chamados goszuls
inteligentes. Não se esqueçam, amigos, de que estes nativos
primitivos consideram os saltadores como deuses.
Kitai
esfregou um pouco a barba postiça.
— A
duração de um bloqueio mental depende da força de vontade do
paciente — disse ele, bem objetivamente. — Não posso, portanto,
prever quando estes corajosos marinheiros começarão a pensar
independentemente.
O quarto
homem sorriu para o telepata. Chamava-se Tama Yokida, era também
japonês e membro do Exército de Mutantes de Rhodan. Sua
especialidade era a telecinésia. Podia movimentar a matéria no
espaço infinito, apenas com as emanações energéticas do
pensamento.
— Nós
podemos nos defender deles, caso seja necessário, meu caro Kitai.
Mas espero que não seja necessário. Quanto mais tempo ficarmos
despercebidos, tanto melhor para nossa missão. Quando tivermos em
mãos os armamentos necessários, tudo sai bem.
John
Marshall pigarreou.
— As
coisas estão no fundo de um rio, bem perto do espaçoporto dos
saltadores, alguns quilômetros daqui. Gucky teve que afundá-las
naquele local para não caírem nas mãos do inimigo. Estou feliz
porque ele conseguiu escapar vivo.
Olhou em
volta.
— Onde é
que ele está, realmente?
— Estou
aqui, meu amigo — falou uma voz clara e estridulante, bem atrás de
John.
O telepata
virou-se para trás e fixou os olhos, admirado, para o alto da amarra
que estava bem perto do parapeito. A roldana da amarra se moveu um
pouco. Em sua extremidade superior surgiram duas orelhas pontudas,
cobertas de pêlo, depois dois olhos de brilho astuto, e finalmente
um focinho comprido e fino onde tremulavam uns fios de cabelo.
— As
barbas compridas dão a vocês uma aparência de grande bondade —
cochichou a mesma voz, enquanto os olhos rápidos observavam tudo em
volta. — Todos os homens deviam usar barbas compridas, para darem a
impressão de bondosos e adultos.
Depois
deste conselho, Gucky arrastou-se de seu esconderijo e parou no chão,
no meio dos quatro homens. Parecia sentir-se aí seguro de olhares
indiscretos.
Gucky era
realmente uma visão deslumbrante. Parecia um misto de castor e de
rato, mais ou menos um metro de altura, com um pêlo marrom-ferrugem.
Além disso, uma longa cauda que lhe servia de apoio ao caminhar. De
uma distância maior, podia-se tomá-lo por uma espécie de Mickey
Mouse fugido de Hollywood, mas olhando mais de perto, percebia-se
logo o engano. Gucky era muito mais poderoso do que um Mickey Mouse.
Habitante de um longínquo e solitário planeta, era telecineta,
telepata e teleportador ao mesmo tempo. Gucky era de fato mais do que
um valoroso membro do Exército de Mutantes. E, em nome de Perry
Rhodan, defendia a Terra no infinito do cosmos contra todos os
ataques das forças extraterrenas.
— Obrigado
pelo conselho — confirmou Kitai, sério, e começou a coçar o
rato-castor atrás da orelha direita, o que muito lhe agradava. —
Mas, quando eu imagino você de barba comprida...
Não
terminou o quadro da horrenda visão, sorriu a contragosto, enquanto
John ria calmamente.
— Gucky
de barba comprida? Santo Deus, o planeta inteiro aqui extrapolaria os
limites do espaço-tempo de tanta alegria. Eu também.
Gucky
assobiou como sinal de aviso. John percebeu que uma mão invisível o
erguia, e não fosse a situação tão séria para permitir uma
brincadeira, Gucky o teria feito flutuar até o parapeito e depois o
teria deixado cair n’água.
Por este
motivo, Gucky se satisfez com o aviso.
— Gostaria
de saber por que razão uma barba em mim seria mais ridícula que em
vocês.
John
Marshall estava para responder, quando seu cérebro bem adestrado
sentiu impulsos estranhos. Piscou ligeiramente para seus três
companheiros e comprimiu Gucky contra o chão. Ali ninguém o podia
ver, se ele não aparecesse no convés. Durante quase dois minutos
ele ficou escutando, de olhos semicerrados, até que acenou com a
cabeça e olhou brevemente para Kitai. Enquanto os outros permaneciam
quase estarrecidos em seus lugares, de respiração presa, ele
anunciou, quase sussurrando:
— São
os nossos goszuls, pelo menos alguns deles. Libertaram-se do bloqueio
hipnótico, Kitai. Estão pensando agora quem somos nós. Estamos a
bordo de um navio deles e eles não atinam como chegamos aqui. Já
perceberam, naturalmente, que não somos goszuls inteligentes, isto
é, os nativos que receberam doutrinação hipnótica dos saltadores.
Nossa semelhança com os saltadores não representa muita coisa para
eles, já que nunca os viram pessoalmente. Portanto, consideram-nos
simplesmente estrangeiros, o que realmente somos. Pretendem nos
dominar e “nos
entregar aos deuses”.
Tako, o
teleportador, viu lá embaixo os primeiros servos dos deuses —
assim eram chamados pelos nativos os seus irmãos de raça que se
tornaram repentinamente inteligentes — que começavam a entrar no
navio, para vigiar o descarregamento das mercadorias de seus
senhores. Estavam acompanhados de robôs de combate dos saltadores.
— Como
devemos entrar em ação? — perguntou o japonês, quase
sussurrando. — Quando os condicionados notarem, lançarão sobre
nós os robôs de combate. Não vamos tirar as máscaras, não é
ou...?
— De
maneira alguma — concordou John Marshall e continuou se
concentrando febrilmente. — Kitai, o que você diz a isso? — Não
pode daqui...?
— Pessimamente
— disse o sugestor abanando a cabeça. — O método mais seguro de
manter os revoltados novamente sob controle é a confrontação
direta. Daqui, a minha influência sobre eles seria deficiente, sem
considerar ainda que poderá surgir qualquer complicação e eu não
possa então me concentrar para exercer minha influência.
— Com
outras palavras — interrompeu o telecineta Tama Yokida — quer
dizer que não é muito provável que desta distância possa isolar
alguém dentro da multidão e influenciá-lo hipnoticamente; não é
isto que queria dizer, Kitai?
O sugestor
fez sinal afirmativo com a cabeça e nada falou. John Marshall
levantou-se.
— Devemos
fazer alguma coisa, se quisermos manter o bando todo sob bloqueio
hipnótico. As emanações mentais se tornam cada vez mais intensas.
Daqui a pouco, os homens abandonam o trabalho e se precipitam sobre
nós. Um deles já está com a faca na mão.
Os goszuls
viviam numa civilização que podia ser comparada com a do século
XVIII na Terra. As facas eram, portanto, muito eficientes nas mãos
dos nativos.
— Maldito
robô — resmungou Kitai furioso. — Nunca experimentei em minha
vida colocar um robô sob meu controle mental.
John
sorriu levemente.
— Tenho
medo de não termos sorte com isso. Mas os robôs haveriam de notar,
caso acontecesse algo com seus subordinados. Estamos, portanto, num
beco sem saída.
— Perguntemos
a Rhodan — propôs Gucky, que ainda estava agachado no meio dos
homens, evitando ser visto. — Ele pode, talvez, nos dar um
conselho.
— Poder,
pode — continuou John — resta saber se quer. Vocês sabem que os
saltadores não podem nunca saber quem é que está se intrometendo
em seus assuntos particulares. É claro que o nosso micro-comunicador
tem um raio de ação de três meses-luz, enquanto que Rhodan está
apenas a uma distância de oito dias-luz. Mas acho que não temos
mais tempo de entrar em contato com Rhodan. Olhem só lá para baixo.
As cabeças
dos homens viraram todas para o mesmo lado. Lá embaixo no convés,
um dos carregadores tinha deixado cair seu fardo e estava de pé
perto de um dos servos dos deuses, gesticulando muito e falando com
ele. Dois dos cinco robôs de combate que entraram no navio se
aproximaram. Essas máquinas, de construção completamente
positrônica, tinham um cérebro de funcionamento normal e podiam
tomar decisões próprias e transformá-las em realidade, enquanto
estivessem em contato com o controle central. Suas radiações
energéticas embutidas faziam deles máquinas de combate invencíveis.
Naturalmente, para os primitivos goszuls estes robôs tinham que ser
criaturas semelhantes a um deus, pois não conheciam nem ainda a
navegação espacial. Para eles, os deuses desciam do céu e voltavam
para ele de novo.
O mais
inteligente dos servos dos saltadores — não havia normalmente mais
do que vinte deles no planeta dos goszuls — ouviu atentamente o que
o nativo lhe tinha para comunicar. Seu olhar percorreu o convés do
navio e se deteve finalmente na escada para o tombadilho.
Acenou com
a cabeça, deixou de lado seu interlocutor e se dirigiu para a escada
que dava para o tombadilho. Como estava parecendo, era uma visita que
ele tencionava fazer aos quatro indivíduos misteriosos do
tombadilho. Por felicidade, não lhe passou pela cabeça a idéia de
levar como acompanhante um dos robôs de combate.
John
Marshall auscultava o cérebro do goszul. Tinham-lhe falado da
presença a bordo de pessoas estranhas e de aparência misteriosa,
que talvez fossem interessantes para os deuses. Além disso, podia
John reconhecer o nome do homem. Chamava-se Geragk.
Marshall
fez um sinal rápido para Kitai. Trabalhavam muito bem juntos. Geragk
sairia depois do navio, sem se lembrar de nada.
O servo
dos deuses subiu os degraus de madeira para o tombadilho e de repente
ficou parado junto ao parapeito, como se seus pés estivessem colados
ao assoalho. Com os olhos arregalados, fixava os quatro homens que,
no primeiro instante, tinha de supor serem saltadores. Seu cérebro
ainda pensava normalmente e podia compreender a situação.
“Saltadores?
Aqui, no barco a vela dos primitivos? Que significava tudo isto?”
Inclinou-se
profundamente, nos seus olhos, porém, havia dúvidas. John constatou
que Geragk procurava febrilmente uma explicação. Os saltadores
dominavam certamente este planeta, mas eram demasiadamente orgulhosos
para se preocuparem com os problemas dos nativos, muito menos ainda
para se misturarem com eles desta maneira.
— Perdoai-me,
ilustres senhores — começou vagarosamente, fixando os olhos
nervosamente nas pranchas de madeira a seus pés, como se delas
pudesse tirar as palavras para se desculpar. — Mas o capitão deste
barco está tão constrangido por ter a honra de abrigar neste navio
pequeno hóspedes tão eminentes. Posso perguntar se vos posso ser
útil em alguma coisa?
Era
realmente uma boa pergunta. John sorriu.
— Ótimo,
Geragk, obrigado. Estamos empreendendo uma viagem de inspeção, mas
como o senhor sabe, os primitivos não nos conhecem. Não queremos
empregar violência, por esta razão os robôs que aqui estão
garantirão a nossa saída.
John
reconheceu que suas palavras não chegaram a tranqüilizar o goszul.
Geragk estava mesmo decidido a comunicar o inexplicável
acontecimento. Não havia, portanto, nenhum outro expediente, a não
ser lhe tolher a memória e lhe sugestionar um outro quadro mental.
Foi Kitai quem se incumbiu do caso.
O japonês
não modificou sua postura, permaneceu sentado e dirigiu seu olhar
simplesmente para Geragk, que, por sua vez, não se sentiu à vontade
com o olhar fixo do outro. Mas durou pouco. Seus traços se
iluminaram de repente, sorriu obsequioso, inclinou-se mais
profundamente ainda, quase tocando o chão. Retirou-se sem dizer uma
palavra e desceu para o convés inferior, onde ouvira o goszul que
lhe chamara a atenção sobre os estranhos a bordo.
John
Marshall comprimiu os olhos.
— Só
uma pequena folga, Kitai. Você não pode botar todos na fila e
sugestionar um por um. Acho que só nos interessa uma sugestão em
massa, se nós não quisermos ser atacados, e eu não gostaria
principalmente por causa dos robôs de combate. À menor suspeita,
eles se transformam em fortalezas a vomitar fogo.
— E eu
os faço voar para dentro da água — avisou Gucky chiando.
John botou
os dedos nos lábios fechados.
— Psiu,
mais baixo, Gucky. Se alguém o vê, vai haver barulho. Ninguém
poderá realmente confundi-lo com um patriarca saltador. Kitai, notou
alguma coisa de esquisito neste Geragk? Naturalmente, não, pois não
sabe ler pensamentos. Antes de você lhe ter impregnado a nova
memória e de lhe ter ordenado que esquecesse o acontecido, eu peguei
uns pedaços de pensamento. Nenhum pensamento claro e com muita
coordenação, infelizmente, mas mesmo assim com detalhes
interessantes.
— O quê,
então? — sussurrou Kitai e não perdeu de vista o convés, onde o
capitão do navio conversava com alguns dos seus.
— Geragk
queria realmente nos denunciar a seus superiores, porque suspeitava
de alguma coisa. Não o fez para prestar um serviço aos saltadores.
Tinha outros motivos.
— Quais?
— Queria
convencê-los de sua lealdade, que realmente não possui. Não sei
bem exatamente, mas me parece que por alguns momentos ele pensou numa
organização secreta que podia causar muitos danos aos saltadores e
tornar novamente livre e independente o planeta Goszul.
— Um
movimento de resistência? — disse Kitai admirado. — Haverá um
movimento de resistência de fato no planeta Goszul? Não acredito.
Quem se atreveria a lutar contra os deuses?
— Aqueles
que os conhecem melhor, seus servidores. Geralmente é assim.
— Eles
estão atacando agora — silvou Gucky, interrompendo a conversa e se
teleportou como um raio para a roldana da amarra. Os quatro homens
permaneceram sentados, indecisos em seus lugares, até que Kitai
falou:
— Eu vou
dominar todos eles de uma só vez. Nosso único esconderijo é o
navio. Ninguém nos pode ver em terra, isto traria complicações
desagradáveis.
Com um
rápido olhar ele se certificou que os robôs continuavam rígidos
nos lugares que haviam assumido. O episódio num navio dos nativos
não lhes representava nada, enquanto os interesses de seus senhores
não fossem atingidos.
— Fiquem
sentados calmamente, até que acabe tudo. Os rapazes vão descarregar
o navio como se nada tivesse acontecido.
Embora
John, Tako e Tama conhecessem as qualidades assustadoras de seu
colega, ficavam sempre atônitos quando presenciavam as inconcebíveis
alterações dos atingidos.
O capitão
do navio parecia haver convencido a tripulação ou ao menos uma
parte dela, de que alguma coisa não estava certa a bordo. Talvez ele
se preocupasse com o fato de não saber como os estranhos entraram no
barco. De qualquer maneira, não deu fé às palavras apaziguadoras
de Geragk, mas gritou para sua tripulação alguma coisa. Nem todos,
mas alguns abandonaram o trabalho e desembainharam as facas.
Ameaçadores, dirigiram-se ao tombadilho.
Os robôs
permaneciam passivos. Kitai se concentrou, lançou sua corrente de
pensamento contra a tripulação.
O capitão
estancou de repente, passou a mão pela cabeça, como se lembrasse de
alguma coisa. Com a esquerda, guardou novamente a faca na cintura.
Vagarosamente os outros seguiram seu exemplo. O primeiro deu
meia-volta e caminhou para seu local de trabalho. Como se nada
tivesse acontecido, pegou o fardo e o atirou para a barcaça que
estava atracada embaixo. As emanações mentais de Kitai não tinham
ainda atingido os servos dos saltadores. Apesar de sua inteligência
relativa, não podiam compreender o que se passava a bordo do
veleiro. Antes que pudessem suspeitar de alguma coisa, caíram sob a
influência dos dons de Kitai. Não aconteceu muita coisa,
simplesmente esqueceram. Isto foi tudo.
Estava
salva a situação, pelo menos no momento. A experiência ensinava
que a capacidade de Kitai tinha seus limites. Passado algum tempo, a
consciência das pessoas bloqueadas neutralizava a força mental que
lhes fora imposta.
O
importante, porém, foi que os robôs não perceberam nada do
incidente. Estavam imóveis em seus postos e cuidavam de que ninguém
atacasse os servos de seus senhores.
Horas
depois, terminava o desembarque da mercadoria.
— Que
foi que descarregamos mesmo? — perguntava Tama que, como
telecineta, não podia ler os pensamentos. Antes que John pudesse
responder, disse Gucky, que entrementes já havia descido da roldana
da amarra:
— Cânhamo
ou coisa semelhante. Os saltadores pagam bem por isso, porque extraem
daí um famoso entorpecente que já colocou muitos planetas sob seu
jugo.
— De
onde é que você sabe disso?— perguntou Kitai admirado.
Gucky
virou para frente as orelhas pontudas e disse chiando:
— Gucky
sabe tudo.
John
Marshall olhou para o céu.
— Está
ficando escuro e eu ainda estou pensando se ficamos no navio ou se
vamos para terra. Os saltadores ficam somente neste continente, o
resto do planeta não lhes interessa. Se quisermos, pois, atacar, tem
que ser aqui.
— Ah, se
Rhodan desse ao menos uma indicação — lamentou Tako.
John olhou
rapidamente para o franzino japonês.
— Se não
me engano, ele nos mandou Gucky para estarmos a par de suas
intenções. Até agora, porém, Gucky está calado. Quem sabe não
chegou ainda a hora...
O
rato-castor compreendeu aquela fina indireta. Desde que tinha
recebido a incumbência de acompanhar o grupo dos quatro mutantes,
ainda não tinha conversado nada sobre seus planos, claro que
principalmente devido aos fatos que se precipitaram, não lhe
permitindo tempo para isto. Inclinou a cabeça e murmurou alegre:
— Chegará
logo a hora, meu caro colega telepata, como você sabe tão bem como
eu. Pense apenas neste Geragk, que no momento está abandonando o
navio com os seus robôs. Ele é apenas um entre muitos.
— Que
está dizendo com isto? — queria saber John, pois Gucky guardava
bem seus pensamentos.
— Existem
realmente alguns goszuls que se preocupam com a idéia de sacudir o
jugo dos saltadores e de tocar pelo universo afora estes comerciantes
da galáxia. Poderiam se tornar nossos aliados.
— Certo
— confirmou John, não demonstrando nenhum entusiasmo. — E como
faremos contato com estas forças da resistência? Isso não é tão
fácil assim, ou...?
— É sim
— silvou Gucky feliz e ficou olhando como os marinheiros, depois de
terminar o trabalho, saíam para descansar fora do navio. — É
muito simples. Você se lembra daquela voz mental que percebeu há
pouco? Alguém se intrometeu em nossa conversa telepática, mais ou
menos como uma terceira emissora interrompe o diálogo de dois
interlocutores. Neste planeta deve existir, portanto, pelo menos um
telepata.
John
concordou.
— Eu
tinha o mesmo pressentimento — disse ele. — Mas como é que sabe
que ele nos vai ajudar?
— Porque
é uma das figuras mais importantes do movimento de resistência —
disse Gucky com tal naturalidade que surpreendeu John e os três
japoneses. — Faça contato com ele, quando se apresentar, vai ser
muito simples.
John se
recuperou de sua grande surpresa.
— De
onde você sabe tudo isto?
— Eu sei
ainda mais — disse Gucky fugindo da pergunta. — O telepata dos
goszuls se chama Enzally.
Tako
fechou a boca, quando John o olhou fixamente. Kitai apenas meneou a
cabeça, murmurando qualquer coisa como “segredos
traiçoeiros”,
enquanto Tama, sem maior interesse na conversa, contemplava o céu
que já estava ficando escuro, onde se delineavam constelações
estranhas. Era astrônomo e este mundo distava da terra 1.012
anos-luz. Motivo suficiente para se interessar pelo céu.
— E isso
você somente diz agora? — falou John Marshall com ares de
repreensão.
Gucky
concordou conscientemente.
— Você
nunca me perguntou nada a respeito — e sem mais nem menos
acrescentou: — Quando pegaremos as coisas que eu trouxe de Rhodan?
John já
havia quase esquecido. Sim, as coisas. Em sua viagem repleta de
aventuras, Gucky tinha trazido toda espécie de bagagem que, no
entanto, teve de abandonar em virtude de acontecimentos imprevistos.
Estava bem acondicionada no fundo de um rio, bem longe da região
povoada.
— Durante
o dia — continuou John — pois de noite precisaríamos de luz e
isto chamaria a atenção dos robôs de vigia postados nas
proximidades do espaçoporto. Com a claridade do dia, nossas chances
serão melhores. Amanhã, pois, proponho eu. Aliás, Gucky, apenas
uma pergunta: Que é que você trouxe?
Gucky
mostrou seu dente de roedor, pois sempre que sorria este dente
isolado ficava à vista. O rato-castor, de alguma maneira, sorria com
o dente por mais paradoxal que isto possa parecer. E quando mostrava
o dente, não se conseguia entender bem suas palavras.
— Bombas
— sussurrou ele com voz extraordinariamente clara. — Uma mochila
inteira cheia de bombas, bombas comicamente pequenas.
— Bombas?
— suspirou John, fixando Gucky com olhos arregalados. — Que vamos
fazer com bombas? Não temos nem um avião para lançá-las. Além
disso, os saltadores nos prendem imediatamente, se começarmos a
jogar bombas.
Gucky
balançou a cabeça compassivamente.
— Os
homens são criaturas de compreensão difícil — observou muito
pensativo. — Quando ouvem a palavra bomba, pensam logo em
explosivos. Não, colega John, não se trata desta vez de bombas que
explodem, mas simplesmente de bombas que se devoram antes de
produzirem efeito. É tudo tão simples.
John
concordou, sem compreender.
— É, é
tudo tão simples — murmurou, contemplando o rato-castor, como se
lhe quisesse arrancar o pêlo. — Proponho que você agora nos diga
o que vai acontecer, do contrário vai mesmo acontecer alguma
coisa...
O dente de
roedor de Gucky desapareceu de repente.
— Pois
bem, meus amigos, então ouçam com atenção.
*
* *
Sete
planetas giram em volta do sol 221-Tatlira, que percorre sua órbita
em torno da Via Láctea a uma distância da Terra de 1.012 anos-luz.
Só o segundo planeta tem vida inteligente, a raça dos goszuls,
semelhante à dos homens, no momento dividida em duas metades pelos
saltadores. Um patriarca desta raça de comerciantes da galáxia, de
nome Goszul, descobriu o planeta e lhe deu seu nome. A partir deste
tempo, o planeta de Goszul passou a pertencer ao império dos
saltadores.
Os
saltadores, ou também chamados comerciantes, não tinham
propriamente pátria. Com suas grandes naves, percorriam as galáxias
e faziam comércio. Não davam muita importância à solidariedade, a
menos que seus interesses estivessem em jogo. Aí então mostravam
uma grande união e esqueciam suas rixas, que freqüentemente
separavam as famílias.
Um caso
assim estava se passando no momento. Os saltadores haviam descoberto
a Terra e tentavam transformá-la num entreposto comercial, quando
foram repelidos energicamente por Perry Rhodan. Aqui, no planeta de
Goszul, estavam pois reunidos os mais poderosos chefes dos clãs, a
fim de estabelecerem um plano de como se libertarem do incômodo e
misterioso Rhodan, que tenazmente resistia às “bem
intencionadas”
invasões.
Os
primeiros ataques dos mutantes tinha reduzido consideravelmente o
número dos patriarcas presentes, mas ninguém cedia. Aliás, ninguém
supunha, nem podia supor, que era exatamente Perry Rhodan, o homem
que estava a 1.012 anos-luz, o autor destes ataques.
A história
de 1.012 anos-luz não era verdade. A frota de Rhodan estava
realmente a oito dias-luz distante do sistema de Tatlira, esperando
no espaço.
O coração
da frota de Rhodan era a poderosa belonave Stardust-III, uma nave
esférica com diâmetro de 800 metros. Era comandada e dirigida pelo
próprio Rhodan. Trazia no seu interior armas dos tipos mais modernos
e em grande parte de origem arcônida. Dois transmissores que
transportavam a matéria a qualquer distância imaginável e no ponto
de chegada desejado a rematerializavam — inclusive bombas atômicas
— formavam uma arma irresistível.
Três
cruzadores, igualmente esféricos, com diâmetro de apenas 200
metros, acompanhavam a Stardust. Seus comandantes eram o capitão
McClears, o major Nyssen e o major Deringhouse.
Sem serem
atingidos pelos rastreadores estruturais dos saltadores e por isso
despercebidos, percorriam estes quatro gigantes do espaço o
longínquo sistema solar. Rhodan não tinha intenção de intervir
diretamente nos acontecimentos, embora fosse indiretamente o
responsável. Não tinha pressa. Na Terra, tudo corria normalmente. O
Governo Mundial era entrementes uma realidade. Rhodan fora nomeado
por seis anos para Administrador do planeta. Durante sua ausência,
era o coronel Freyt, seu substituto permanente, quem dirigia os
negócios.
Mas nem
todo mundo tinha a mesma calma que Rhodan.
Muito
menos Reginald Bell, seu íntimo amigo e cooperador. Os cabelos
vermelhos de Reginald Bell, que era chamado simplesmente de Bell,
estavam penteados à escovinha e aquelas cerdas verticais não
contribuíam exatamente para embelezar seus traços já rígidos. Nos
olhos de um azul-claro, cintilava uma ira contida. Com exceção de
alguns oficiais de serviço e técnicos de radiotransmissão, a sala
estava vazia, mas Bell não era homem que se preocupava com a
ausência de alguns subordinados, quando se tratava de dar expansão
a sua ira.
— Quem
sabe você pode ter a gentileza — rosnou rispidamente — de me
dizer para que esta demora toda.
Perry
Rhodan olhava constantemente o fraco cintilar da tela, onde Tatlira
parecia tão pequena como uma estrela insignificante. A luz fraca da
central fazia desaparecer um pouco seu corpo magro, mas com o reflexo
da tela seus traços fisionômicos eram realçados. Os lábios
contraídos formavam uma linha reta. Nos olhos, o fogo tranqüilo da
expectativa. Os cabelos escuros e lisos formavam um contraste
benéfico com a cabeleira hirsuta de Bell.
— Você
ouviu o que eu disse? — perguntou Bell impaciente, quando não
recebeu nenhuma resposta. Rhodan virou-lhe rapidamente a cabeça e
continuou fixando a tela. — Há necessidade disso? — perguntou
objetivamente.
O rosto de
Bell ficou mais sombrio. As pontas do cabelo tremiam, mas sua voz
abrandou um pouco. Isso, porém, não queria dizer que seu nervosismo
acabara. Pelo contrário.
— Para
que falar, se ninguém me escuta? — disse para si mesmo. —
Perguntei por que estamos aqui dependurados no infinito e esperando o
quê?
Rhodan
continuou olhando para a tela.
— Tanto
tempo, meu amigo, até que possamos descer lá do outro lado, daqui a
oito dias-luz. Naturalmente ninguém pode prever quanto ainda
ficaremos aqui. Isto depende primeiramente de John Marshall, seus
mutantes e de Gucky.
— Sempre
este rato desgraçado — gritou Bell, esfregando o queixo. — Quer
dizer que tudo depende deste camundongo.
— E
depende mesmo — concordou Rhodan, esforçando-se para permanecer
sério. — Estou curioso para saber o que Gucky vai dizer quando
souber o que seu melhor amigo pensa dele.
— Não,
por todos os deuses do Universo — gritou Bell, como se alguém lhe
enfiasse uma agulha através de toda a espinha dorsal. — Tudo menos
isso, não provoque desnecessariamente o maldito rato. Eu não
poderia revidar. Acha que eu gostaria de ficar de novo três horas
dependurado sob o teto, até que o espantalho se dignasse me deixar
descer? Afinal, não sou nenhum mutante, sou um homem normal.
Rhodan
tirou os olhos da tela e olhou pensativo para ele. Um esboço de
sorriso apareceu nos seus lábios. Parecia que, apesar de sua
relativa imortalidade, tinha envelhecido nas últimas semanas.
— Muito
bem — respondeu ele, nada mais.
— Talvez
não? — Bell fez uma contra-pergunta, mas não esperava resposta,
pois logo acrescentou: — Já teve confirmação se Gucky encontrou
os mutantes?
— Conseguiu,
mas não sem dificuldades. No momento nossa tropa de ataque está num
barco a vela, ancorado no porto de terra dos deuses. O nome me
escapou. Desde ontem, porém, Marshall não se manifesta.
— Quem
sabe foram presos — disse Bell triste.
— Esperamos
que não, Bell. Isto escangalharia todo meu plano.
— Que
plano, Santo Deus.
— O de
conquistar pacificamente o planeta de Goszul.
— Conquistar
pacificamente?... Você é muito otimista, Perry. Conquista pacífica,
e os comerciantes matam os nossos onde os encontram.
— No
planeta de Goszul não vivem apenas comerciantes — disse Rhodan com
ar sério. — Os aborígines primitivos são totalmente inofensivos,
os servos que se tornaram inteligentes na Ilha da Terra dos Deuses
não representam maior perigo se compreenderem que se trata de sua
própria liberdade. A Terra dos Deuses é uma colônia dos
saltadores. Deste ponto aí é que dominam o planeta. Normalmente,
porém, permanecem na Terra dos Deuses, quando muito, duas dúzias de
saltadores. A aglomeração atual é uma exceção, com a qual temos
que contar. A tudo isso acrescente ainda os milhares de robôs de
trabalho e de combate, que temos que ter em conta de inimigos sérios.
Não obstante tudo isto, ainda aspiro a uma conquista pacífica.
— Muito
prazer em sabê-lo — resmungou Bell, que ainda não compreendia
onde Rhodan queria chegar. — E como você vai conseguir isto?
Ficando aqui, esperando até estarmos perdidos?
Rhodan
apontou para uma caixinha quadrada à sua frente, em cima da mesa de
controle. Ao lado dela havia alguns botões, enquanto que a parte
superior apresentava um conjunto de lâmpadas de controle.
— Olhe
lá. Com isso posso entrar em contato com Marshall ou com Gucky.
Aguardo notícias e antes que cheguem não podemos tomar nenhuma
iniciativa.
— Com os
transmissores fictícios podemos mandar tantas bombas...
— Já
recusei uma vez tal proposta, Bell — lembrou-o Rhodan. — Não
quero que nossa posição seja descoberta. Se deixarmos o serviço
para Marshall e seu grupo, nenhum dos saltadores chegará a imaginar
que nós é que estamos atrás desta ação, se é que algum dia
cheguem a perceber que isto foi uma ação. Pelo contrário,
atribuirão sua derrota muito mais a uma doença normal.
A cara de
Bell parecia um ponto de interrogação.
De repente
seus olhos se iluminaram.
— Minha
inteligência é a mesma que a sua, mas eu nunca entendi bem de
palavras cruzadas e charadas. Por favor, tenha a gentileza de...
Rhodan
teve realmente a gentileza.
— Gucky
levou consigo uma multidão de coisas utilíssimas, a mais útil
delas são as bombas do esquecimento.
— As
bombas do quê?
— As
bombas do esquecimento. Foram desenvolvidas na Terra e
simultaneamente com elas também o anti-soro. Resumindo: trata-se de
uma arma bacteriológica que após algum tempo ataca o invólucro
plástico das bombas e se espalha rapidamente. Todo homem que entrar
em contato com a bomba, manifesta logo sintomas de uma doença
desconhecida. Placas vermelhas no rosto, dores na nuca, sensação de
cansaço, etc. Mas o pior vem ainda: o cérebro da pessoa atingida
não funciona mais direito. Não poderá mais se lembrar de nada.
Esquece tudo. Numa palavra, os atingidos ficam doidos.
— E a
isto você dá o nome de conquista pacífica? — protestou Bell
espantado. — Quer, pois, deixar os goszuls doidos? Que tem isso a
ver com humanidade?
— Não
se esqueça do anti-soro. Atua no sentido contrário. Os doentes se
curam imediatamente e a doença não deixa absolutamente nenhuma
conseqüência. É como se nunca tivessem ficado doentes.
Bell
parecia indeciso.
— Não
estou compreendendo nada. Para que então toda esta palhaçada?
— Os
saltadores provêm da mesma raça que os goszuls, isto é, dos
arcônidas. Portanto não são imunes a nossa doença.
O rosto de
Bell se iluminou como um sol resplandecente.
— Ah...
quer dizer então que têm de chegar até nós, se quiserem obter o
antídoto.
Rhodan
abanou a cabeça.
— Não
havia pensado diretamente nesta hipótese. Para mim o essencial é
que daí em diante eles evitem o planeta dos goszuls, como a própria
peste. Se chegarem à conclusão de que o planeta está perdidamente
contaminado, nunca mais voltarão. Você tem outra idéia melhor?
Bell tinha
que conceder que não podia haver uma idéia melhor. Seus cabelos já
pareciam mais deitados um pouco, pois sua incerteza não existia
mais. Sabia agora por que Rhodan estava esperando.
*
* *
Quando o
dia amanheceu, John Marshall acordou seus companheiros. Os japoneses
abriram os olhos e viram os primeiros raios de luz penetrando pela
pequena clarabóia em sua cabina.
— Já é
dia — acrescentou Tako, e pulou para fora do beliche.
— Como
vai Gucky?
O
rato-castor se materializou no meio da cabina, como se tivesse ouvido
a pergunta, o que, na verdade era um fato.
— Estou
aqui — disse chiando e alisando seu pêlo. — Dei uma olhada em
volta, os marinheiros ainda estão dormindo. Parece que trabalharam
demais ontem, estão cansados. Tudo calmo, como que preparado para
nossa operação.
— Estou
feliz de não ser teleportador — murmurou Kitai, permanecendo
tranqüilo na cama. — Acham que dão conta de tudo sozinhos?
Tako
abotoava seu casaco.
— Acho
que sim, Gucky e eu. Juntos conseguiremos tudo, mesmo que não seja
de uma só vez. Perto do lugar em que Gucky afundou as coisas no rio,
há um banco de areia. Lá colocaremos o negócio.
— E de
lá traremos caixa por caixa para o navio — acrescentou o
rato-castor. — Esperamos que os robôs não nos atrapalhem os
cálculos. Os homens de aço estão equipados com instrumentos de
rastreamento de alta sensibilidade.
— E além
disso, com raios energéticos — ponderou John. — Vocês devem
agir com muita cautela.
— É
claro — chiou Gucky, e alegre pegou a mão de Tako para o guiar. —
Você está pronto?
O
teleportador abanou a cabeça afirmativamente, procurando esboçar um
sorriso.
— Pegar
pela mão não adianta muito, mas dá a qualquer um pouco mais de
coragem. As coordenadas do salto, eu já conheço.
— Pousaremos
no banco de areia, Tako. Se houver perigo, não pular cegamente, mas
voltar para cá.
Gucky
concordou, dizendo:
— Tudo
pronto?
John e
seus dois companheiros presenciaram como o japonês e o rato-castor
se desmaterializaram. Era sempre o mesmo quadro. Primeiro parecia que
os dois estavam atrás de uma muralha de água transparente, que aos
poucos se punha em movimento. Depois, não restava mais nada.
John,
Kitai e Tama ficaram sozinhos na cabina.
2
Vagarosamente
o rio caracolava na direção do mar. Percorria quase a metade do
continente que os aborígines chamavam de Terra dos Deuses, mas não
via muita coisa da civilização ali existente. Em contraste com os
outros continentes, a Terra dos Deuses tinha atingido um alto grau de
civilização, em virtude das grandes instalações dos saltadores
aqui construídas. Principalmente no litoral, surgiram instalações
portuárias de alto nível técnico que pareciam modernas demais para
os barcos a vela e não tinham, portanto uma utilização adequada.
O mais
notável era o espaçoporto, que devia ser considerado o centro da
administração colonial. As naves dos saltadores eram aí revisadas
e consertadas. Era um traço característico desta raça que eles não
tinham propriamente um planeta-pátria. Possuíam, no entanto, muitos
planetas-colônia como pontos de apoio, que se tornaram, aliás,
necessários para uma existência pacífica no espaço.
Naturalmente,
todas as instalações tinham que ser protegidas contra possíveis
sabotagens por parte dos nativos, pois os saltadores não se
preocupavam em lutar com raças subdesenvolvidas. Para isso eles
tinham os robôs, máquinas aperfeiçoadas, comandadas
positronicamente e de aparência humanóide. Tinham tudo que uma
fortaleza em miniatura devia ter, para se defenderem contra forças
superiores. Sua semelhança com as máquinas de combate dos arcônidas
não era mera coincidência. Os saltadores pertenceram igualmente ao
grande reino estelar dos poderosos arcônidas, ficando mais tarde
independentes e fundando seu próprio império, sem, porém, dar
maior importância a limites fixos. Faziam comércio onde podiam. E
comerciavam com tudo que pudesse trazer dinheiro, bem-estar e poder.
A Terra
dos Deuses era, pois, menos controlada pelos saltadores do que
propriamente pelos robôs. Apoiavam-se assim nos colaboradores
voluntários, isto é, nos goszuls submetidos a um doutrinamento
hipnótico, nos nativos desprezados, mas também temidos, chamados
servos dos deuses. Eram tidos como traidores de sua ruça.
O banco de
areia mal tinha um metro de altura na sua parte mais elevada, acima
do nível da água calma do rio. As margens estavam longe, mas não
longe demais para comprometer a segurança de cem por cento. O rio,
aliás, não constituía nenhum impedimento para os pesados robôs.
Gucky se
materializou do nada e viu como também Tako surgia do ar vazio. Um
simples relance de olhos mostrou aos dois que estavam sozinhos.
Aliás, quem é que viria procurar alguma coisa no banco de areia a
estas horas da manhã?
— Um
pouco frio, acho eu — disse o japonês desconfiado. — E com esta
temperatura temos que tomar um banho?
— Não
tem importância — disse Gucky. Eu dou um pulo de experiência e
lhe dou então as coordenadas exatas. Depois saltaremos juntos.
Materializamo-nos no fundo do rio, que em nenhum lugar tem mais de
cinco metros de fundura. Pegaremos uma caixa e voltaremos para cá.
Não ficaremos mais de dez segundos debaixo d’água.
— Dez
segundos é muito tempo, quando não se pode respirar.
— Isto
tem menos importância que o frio, e o medo de que alguém perceba
nossa operação secreta.
Tako
examinou o ambiente em volta. A margem norte era plana e não
oferecia nenhum esconderijo. Deste lado ninguém podia surgir
despercebido, muito menos um robô. A margem sul estava coberta de
florestas e era muito irregular. Havia pequenas enseadas e pontas de
terra que avançavam para dentro do rio. Se tivesse que haver um
ataque, teria que começar por estes lados.
— Enquanto
os robôs de vigilância não nos perceberem, não haverá nenhum
ataque — disse o japonês tentando encorajar o rato-castor e a si
mesmo. — Comecemos logo para não perdermos tempo.
Gucky
concordou e imediatamente desapareceu.
Tako ficou
esperando.
Dez
segundos mais tarde, materializou-se a seu lado uma caixa metálica
reluzente e pingando água e junto dela Gucky.
— Já
trouxe uma comigo — guinchou o rato-castor ofegante. — Que sorte
que a correnteza não está forte, do contrário não encontraríamos
nem a metade das coisas. O negócio está espalhado num raio de 50
metros, direção exata leste. Vamos tentar mais?
O japonês
concordou e pularam na água. Meia hora depois, já tinham recolhido
quase tudo. Nem tudo foi tão fácil como no início, pois algumas
caixas tinham sido encobertas pela sedimentação da areia do rio. De
qualquer maneira, foi-lhes possível, depois de muitos mergulhos,
libertar as caixas da areia e finalmente trazê-las para cima. Lá
estavam elas empilhadas propositalmente em forma de pirâmide.
Tako
estava com os olhos bem comprimidos, quando falou:
— Gostaria
de sugerir que primeiro ponhamos a salvo estas aqui, antes de
continuarmos com a procura no fundo do rio. O que estiver lá, está
em segurança, o que não se pode dizer das que estão no banco de
areia.
— Combinado
— disse Gucky. — Uma sugestão muito lógica, eu carrego a caixa
com as bombas e você a com os gêneros alimentícios. Vamos embora
depressa.
John quase
teve um colapso quando, no meio da cabina, surgiu uma caixa,
empurrando-o para o lado, de modo que checou a tropeçar no beliche
próximo, continuando deitado. Gucky materializou-se em cima da
caixa, com ares de um herói.
— Mercadoria
expressa acaba de chegar — disse ele, dando um pulo para o beliche
superior, pois na mesma hora se materializou a segunda caixa. Tako
passou raspando nela e acabou deitado no úmido chão de madeira.
— É só
isso — perguntou John de cima da cama, contente de que Kitai e Tama
estavam no momento dando um giro pelo barco para se convencerem do
estado de espírito pacífico da tripulação. — Aqui não cabe
mais muita coisa.
— Vocês
podem ir ajudando um pouco — disse Tako — colocando as caixas num
lugar seguro, que possa ser fechado, enquanto nós vamos buscar as
outras. São ao todo talvez vinte caixas.
— Vinte!
— suspirou John saindo da cama. — Vinte destas caixas?
— A
maioria delas é de tamanho pequeno e está bem empacotada.
Infelizmente sofreram um pouco com o transporte, mas continuam
impermeáveis. Gucky confirmou as palavras de Tako com um aceno de
cabeça, dizendo:
— Precisamos
continuar o trabalho, vamos embora.
Deram um
pulo para fora. Infelizmente estavam pulando numa cilada que lhes
fora preparada.
*
* *
RK-071 era
um dos robôs de combate que tinham a incumbência de controlar uma
determinada região. Geralmente estes robôs ficavam em seus abrigos
aguardando o sinal de entrar em ação. Este sinal era transmitido,
através do rádio pelos robôs de vigilância, que existiam em
grande número e cuja missão era controlar permanentemente o
território de sua jurisdição. Em geral, era um serviço apenas de
rotina, pois ninguém contava com uma revolta dos inofensivos
goszuls, nem mesmo por parte dos desconfiados governadores da Terra
dos Deuses. Consideravam os nativos como súditos dóceis, que ainda
deveriam estar gratos pela tutela de uma raça superior.
Os robôs
não se deixavam levar por sentimentos nem por suposições. Estavam
programados e cumpriam seu dever, que lhes era ditado pelo cérebro
positrônico. Só se baseavam em fatos e nada mais.
A operação
no banco de areia era um fato.
O robô de
vigilância RW-895 registrara esta alteração e a transmitira ao
cérebro central do seu posto de comando. Ali, a mensagem foi
explorada e tomadas as providências cabíveis. O robô de combate
responsável pela região era o já mencionado RK-071. Recebeu a
ordem de ativamento e se pôs em marcha na direção do rio.
Mas a
central de comando do posto de vigilância devia se lembrar ainda dos
acontecimentos anteriores, pois não se baseavam apenas nas
informações de um só robô. Sabia-se que se tratava de um
adversário misterioso, que não devia ser menosprezado, e com toda
certeza não era nenhum habitante deste planeta atrasado.
Tais eram
as conclusões lógicas do cérebro positrônico que tudo dirigia,
embora silenciasse sempre que se perguntava sobre a identidade do
inimigo misterioso. Ninguém devia saber quem era, ao menos no
começo.
Vindos de
diversas direções, seis robôs de combate marchavam em direção ao
banco de areia, para se colocarem sob o comando do RK-071. Na margem
sul do rio, estava de prontidão um pelotão de goszuls de quociente
intelectual mais elevado, equipado com armamento leve, com a
incumbência de não permitir a passagem de ninguém e de prender
qualquer pessoa suspeita.
Tudo isto
aconteceu exatamente enquanto Gucky e Tako mergulhavam à procura das
caixas caídas no fundo do rio, para empilhá-las no banco de areia.
Das duas margens, não se podia ver bem o que se passava. De vez em
quando, os observadores notavam uma figura humana, que podia ser tão
bem um goszul como também um saltador. De qualquer maneira, aquele
pequeno vulto estava causando muita dor de cabeça ao cérebro
positrônico do posto de comando.
E, de
repente, desapareceram as duas figuras, como se tivessem sido
dissolvidas, juntamente com duas caixas, em pleno ar.
Isto foi
para eles, os robôs de combate, o motivo de ocuparem o banco de
areia. Caminharam simplesmente para frente e desapareceram dentro do
rio. Assim não perdiam sua possibilidade de locomoção no espaço,
a água também não lhes apresentava dificuldades. Com a maior
naturalidade, caminhavam no fundo do rio e, quando a água começou a
ficar rosa, subiram para o banco de areia. Aí, procuraram um
esconderijo, para surpreenderem os dois seres estranhos quando
estivessem de volta. A ordem que haviam recebido era de não matarem,
mas sim de pegar vivos os dois desconhecidos.
E
exatamente aí é que estava a sorte de Gucky.
*
* *
Mais ou
menos a cinco metros da pilha de caixas, Gucky e Tako se
materializaram simultaneamente. Este estranho fenômeno não provocou
nenhuma reação nos robôs, pois estes monstros mecânicos não se
admiram de nada, nem mesmo de acontecimentos quase impossíveis. Mas
o fenômeno foi realmente tão rápido, que Tako já havia pegado a
caixa e iniciado a volta, quando os quatro robôs se puseram a
caminho, abandonando seu esconderijo.
Gucky
estava exatamente escolhendo uma determinada caixa.
O barulho
que ouviu às suas costas o obrigou a virar para trás. Os quatro
monstros marchavam resolutos e ameaçadores na areia solta, contra
ele. Dois deles se desviaram para os lados, para lhe cortar a
retirada — aliás, uma coisa muito difícil, no caso de um
teleportador, como veriam logo a seguir.
Gucky
deixou a caixa onde estava e se teleportou a uma altura de duzentos
metros, onde de novo se materializou. Suas propriedades telecinéticas
lhe permitiam pairar normalmente no ar e, de lá de cima, contemplar
calmamente o desenrolar dos acontecimentos.
Não era
difícil perceber o que estava acontecendo.
Lá no
fundo, na margem norte estavam três outros robôs de combate em
posição de sentido, aguardando ordens para entrar em ação. Os
goszuls na margem sul do rio estavam um pouco mais camuflados, mas
Gucky os descobriu imediatamente. Devia, porém, admitir que a
automatização do sistema de vigilância dos saltadores era perfeita
e funcionava instantaneamente. No espaço de meia hora, tinham eles
percebido sua atividade na ilha e tomado as providências cabíveis.
E Tako,
que não estava a par de nada, podia voltar a qualquer momento. Gucky
resolveu então tomar as contramedidas. Em vez de se desmaterializar,
deixou-se simplesmente cair. Despencou como uma pedra em cima dos
robôs e com um pequeno desvio caiu a quase cinqüenta metros deles,
na parte leste do banco de areia. Agora ele poderia se concentrar
bastante e pôr em atividade suas forças telecinéticas.
Um dos
robôs de combate se ergueu no ar, sem maior esforço, antes que
Gucky tivesse tempo para se virar e tomar conhecimento da situação.
Subiu até uma altura de cem metros, atirando loucamente em volta e
foi de tal maneira para o lado até que parou sobre a margem sul, no
trecho cheio de florestas e de rochedos, onde os goszuls tinham
tomado posição. Gucky não tinha propriamente tempo, mas não
conseguiu vencer a tentação.
E assim, o
robô não caiu imediatamente, mas executou no ar dois loopings
completos, descreveu uma curva maravilhosa em cima dos goszuls,
perplexos, e foi bater com extrema velocidade de encontro a uma rocha
na margem, espatifando sua cabeça metálica. O resto rolou como
sucata nas águas tranqüilas do rio, desaparecendo para sempre.
Chegou a
vez do segundo robô.
Depois de
um passeio artístico no ar, terminou também de encontro ao rochedo,
apenas com a grande diferença de que ele conseguiu transformar um
pedaço da rocha em lava incandescente. Isto, porém, apressou seu
fim. Sibilando se precipitou nas águas do rio juntamente com um
bloco de pedra em brasa.
Gucky ia
se concentrar no terceiro robô exatamente quando Tako voltou. E o
japonês se materializou diretamente entre os dois monstros que
estavam atacando Gucky. Estava tão perplexo que nem se mexeu.
Felizmente os robôs não deram muita atenção a Tako. Sua
preocupação era, com toda razão, o pequeno rato-castor, o
adversário mais perigoso que era necessário botar fora de combate.
A ordem
recebida tinha que ser cumprida. Ainda não tinha sido transmitido o
comando de matar. Os robôs em geral têm muito pouca consideração
consigo mesmo, embora os robôs de combate formem uma certa exceção.
Quando eles estavam em perigo de serem aniquilados pelo adversário,
fundia-se automaticamente o relê de travamento e passavam então a
fazer uso de suas armas mortíferas.
— De
volta para o navio — guinchou Gucky, que julgava ter ainda uns
segundos livres. — Eu volto também, quando tudo estiver
normalizado.
Tako
obedeceu, desaparecendo no ar.
Gucky
pensou na opinião de John a respeito da humanidade e optou por um
espetáculo muito impressionante. Esperava também assim poder
influenciar beneficamente os goszuls, que futuramente seriam seus
aliados.
Os dois
robôs de combate que ainda restavam foram transformados em dois
aviões. Exatamente em cima dos goszuls, que naturalmente não
compreendiam o que estava se passando e acreditavam que os deuses
metálicos estavam loucos, exatamente em cima deles é que os tais
aviões começaram a executar loopings,
folhas-secas e os vôos rasantes assustadores. Finalmente, como ponto
alto da exibição, os dois se distanciaram, fizeram uma curva de
volta e se precipitaram, com velocidade extrema, um contra o outro,
até se chocarem, sob enorme explosão. Enganchados um no outro,
caíram os dois “aviões”,
semi-fundidos, nas águas do rio, onde desapareceram.
Os goszuls
acompanhavam o espetáculo com toda atenção, embora não pudessem
explicar a razão de tudo. Haveriam de imaginar que os dois deuses
estavam brigando e assim se destruíram. Ninguém deles chegaria à
conclusão de que o animalzinho peludo no banco de areia era o
responsável por tudo.
Somente o
RK-071 é que chegou à conclusão tão absurda e deu a ordem de
ataque e de destruição a seus colegas de aço. A partir daí, não
haveria mais consideração. O mini-adversário era demasiadamente
perigoso para poder ser preso.
Os
monstros marcharam na direção da margem norte e não hesitaram em
mergulhar no rio. Gucky percebeu o perigo. Sabia que a água não
podia prejudicar o mecanismo dos robôs. Apanhou uma caixa e a
teleportou para o navio.
Tako
estava exatamente descrevendo para John a situação no banco de
areia, quando surgiu na cabina o rato-castor. Estava bem apertado,
pois Kitai e Tama já estavam de volta.
— Olha
ele aí — exclamou Tako com fisionomia de aliviado. — Que se
passou por lá? Você fugiu?
Apesar da
seriedade do momento, Gucky teve tempo de se sentir ofendido.
— Fugiu...?
— repetiu perplexo e encolerizado ao mesmo tempo. — Como poderia
imaginar isto? Só tive um pensamento. Kitai, uma companhia inteira
de goszuls está lá no rio esperando por um tratamento seu. Quem
sabe você vai transformá-los em nossos bons aliados.
— Uma
companhia inteira? — disse Kitai arregalando os olhos. — Que
podemos fazer com eles?
— Muita
coisa. Você vai sugerir na mente deles que devem esquecer todas as
outras ordens e se dirigirem para o porto. Aqui, eles serão
recebidos por nós. Tenho uma missão vital para estes irmãos.
Kitai
queria perguntar ainda alguma coisa, mas um gesto de John o deixou
calado. O telepata já tinha compreendido o plano de Gucky.
— Kitai
fará o que você disse — falou dirigindo-se a Gucky. — E os
armamentos, estão garantidos?
Gucky se
preparou para saltar. Fixou os olhos em Kitai que ele tinha que levar
consigo e o pegou pela mão, dizendo:
— Ainda
não. Três robôs de combate estão lá tentando se apoderar deles.
Mas eu vou botar muita pimenta nesta sopa.
— Robôs
de combate? — disse John horrorizado. — Como vai se desvencilhar
deles?
— Não
se preocupe, amigo. Quatro deles eu já destruí, servindo-me de seus
poucos conhecimentos de pilotagem. Mais três ou menos três, não
tem maior importância.
Com esta
explicação sumária e mais ou menos misteriosa, ele desapareceu;
Kitai também não estava mais na cabina. Tako, julgando-se
preterido, perguntou a John:
— E eu?
Posso também...?
— Espera
um pouco — resolveu Marshall. — Gucky vem buscá-lo quando
precisar. A única coisa que podemos fazer é esperar.
Gucky se
materializou. Não se via ainda nada dos robôs. Deviam estar ainda
debaixo d’água, podendo aparecer a qualquer momento na praia do
banco de areia.
— Do
lado de lá, na margem sul, Kitai. Os goszuls ainda estão em posição
de sentido e não sabem o que pensar das maravilhas que estão
presenciando. Tome conta deles e não se preocupe com o que vai
acontecer aqui. É melhor você se esconder para que os robôs não o
vejam.
— Que
robôs?
— Estão
brincando de submarino, mas devem emergir logo — explicou Gucky,
continuando a olhar para a praia do banco de areia. — Mas, vamos
embora, não temos muito tempo.
Notou a
uns metros de distância da praia um redemoinho na superfície da
água. O primeiro dos robôs, com sua cabeça metálica apontou fora
d’água.
Gucky
gostava de variar. Nada lhe era tão desagradável como a monotonia.
E se ele destruísse estes três robôs do mesmo modo como os quatro
primeiros, seria terrivelmente monótono.
De um
momento para o outro arquitetou um plano e o pôs em execução. Lá
na margem sul, havia muitas rochas separadas, que poderia facilmente
comandar telecineticamente. Até que enfim o rato-castor podia
brincar à vontade, como sua raça lá no Planeta Vagabundo chama a
movimentação da matéria por telecinésia.
Os
goszuls, que ainda não se tinham recuperado da primeira surpresa,
presenciavam uma outra. Ao invés de robôs voando, havia agora
rochedos flutuando no ar, em grande fila. Erguiam-se da água, na
parte rasa da margem, velejavam num vôo tranqüilo ao longo do rio e
se chocavam de repente contra o espelho das águas, para afundar
borbulhantemente. Naturalmente, os goszuls não podiam saber que sob
estes rochedos voadores havia três robôs, cujas armas
poderosíssimas de nada valiam sob a água.
Finalmente
surgiu uma ilha nova de pedra, bem rente ao banco de areia,
completando assim o plano de Gucky. Debaixo desta ilha, sabia ele, os
robôs estariam bem guardados, embora mais tarde eles conseguissem se
libertar, ou talvez não. De qualquer maneira, não era preciso se
preocupar com eles no momento. O fato de que os robôs soterrados
pudessem transmitir à central o que acontecera com eles, também não
preocupava Gucky. Foi de encontro a Kitai no esconderijo do banco de
areia e perguntou:
— Está
tudo pronto?
— Sim,
penso que está. Ainda vai levar uns minutos. Tenho que percorrer
toda a margem, para não escapar ninguém.
— Ótimo,
então continue. Vou recomeçar o transporte das caixas e apanhar
Tako. Em meia hora estará tudo terminado.
Voltou às
pilhas de caixas e desapareceu com uma delas. Depois que Tako voltou,
incumbiu-o de transportar o resto do armamento para o navio, enquanto
ele próprio tiraria do fundo do rio as últimas caixas.
Kitai,
entrementes, conseguira tudo. Isto se podia ver agora, como os
goszuls abandonavam sossegados seus abrigos e se punham em forma para
marchar. Um deles assumiu o comando. Sem se incomodarem mais com os
dois homens e com o rato-castor na ilha, tomaram a direção do
litoral e começaram a caminhar. Antes da desembocadura do rio, havia
uma ponte, sabia Kitai. De lá não era muito longe para o porto.
Gucky
chegou.
— Chegarão
ao porto amanhã, ao meio-dia, e se apresentarão aos nossos —
sorriu o sugestor. — Estão agindo de livre vontade e ainda levam
alguns amigos, de maneira que amanhã nós temos que contar com uma
bela multidão de auxiliares voluntários.
— Poderemos
nos utilizar deles — sorriu Gucky, pegando Kitai pela mão. —
Feche os olhos, irmão, eu o levo para o navio.
Duas horas
depois, todo o equipamento estava bem estocado numa das grandes
cabinas da proa, para onde John e seus mutantes tinham mudado, para
não deixarem largadas as preciosas caixas. Com toda calma, podiam
agora examinar o conteúdo das caixas impermeáveis.
Gucky os
ajudou. Apontou para a pilha de pacotes compridos e relativamente
chatos, envoltos em chapas metálicas e disse:
— O
conteúdo é o mesmo, basta abrir uma delas.
E assim o
fizeram. Quando a tampa pulou fora, os quatro olharam estupefatos
para a fila dupla de bombas pequenas, do tamanho talvez de uma
granada de mão. O invólucro não era de metal, mas de um material
plástico de várias cores. Gucky apontando para as vermelhas:
— Estas
atuam muito depressa. O período de incubação da infecção é de
apenas alguns dias. Dentro de uma semana, a doença irrompe. Nas
outras demora um pouco mais. Aí dentro há uma lista exata.
— Guerra
bacteriológica — disse John, baixo, sem muito entusiasmo.
— Não
se preocupem — disse Gucky, demonstrando muita alegria. — Nas
caixas verdes, lá do outro lado, está o anti-soro. Aliás, estamos
diante da deflagração de uma guerra que vai ser muito interessante.
— Uma
guerra interessante? — continuou Kitai, num tom de reprovação.
Gucky
sorriu feliz:
— Esta
será de fato interessante.
3
O bloqueio
hipnótico feito por Kitai na mente de Geragk não durou muito tempo.
Ele havia voltado para seu alojamento depois de terminada a descarga
do navio, após haver comunicado ao robô de vigilância competente a
execução do serviço. Este providenciou imediatamente a remoção
da carga do barco para a rampa do espaçoporto.
Sentou-se
na cama de seu alojamento, apoiou a cabeça com as mãos. Os nervos
tremiam-lhe debaixo da pele bronzeada. Nos olhos mongolóides havia
um piscar nervoso. Não teria esquecido alguma coisa, que lhe parecia
muito importante? Alguma coisa que poderia melhorar sua situação
perante os deuses?
Por mais
que refletisse, não conseguia se livrar do trauma que envolvia sua
cabeça como um cinturão de aço. Quando alguém bateu à porta,
tremeu todo como um criminoso surpreendido em flagrante. Exatamente
hoje, Ralv queria conversar alguma coisa com ele — quase se
esquecera disso. Mandou o tardio visitante entrar e fechou de novo a
porta. Ralv era o cabeça da organização que pretendia pôr fim no
fantasma dos deuses, e aliás, com violência. Sua estatura
ultrapassava a de Geragk por uns vinte centímetros. A pele, de um
vermelho-escuro, exibia pêlos pretos e fortes tendões. Ralv devia
dispor de uma força física descomunal.
— Não
se sente bem? — perguntou depois de ter sentado.
Geragk
alçou os ombros.
— Não
sei direito como me sinto. Quem sabe é apenas o trabalho e o calor
de hoje. É como se tivesse um peso amarrado na cabeça.

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