terça-feira, 8 de janeiro de 2013

P-036 - O Flagelo do Esquecimento - Clark Darlton [parte 1]


Autor
CLARK DARLTON



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES



Digitalização E Revisão
ARLINDO_SAN


Foi no ano de 1971 que Perry Rhodan, antigo oficial da Força Espacial Americana, atingiu a Lua com a nave Stardust e, com a tecnologia que adquiriu da nave espacial dos arcônidas encalhada, fundou sua Terceira Potência.
Conflitos na Terra, invasões de fora, batalhas no espaço, lutas em planetas longínquos — por tudo isto passou gloriosamente a Terceira Potência no curto espaço de sua existência.
No momento, são ainda os saltadores — aqueles comerciantes da galáxia que há milênios conseguem defender seu monopólio comercial com determinação contra qualquer concorrente que apareça — que representam o perigo mortal para toda a Terra.
Perry Rhodan, até hoje, tem feito tudo que está a seu alcance para impedir que os saltadores façam da Terra um mundo de escravos. Levtan, o traidor, desempenhou um papel importante no jogo de Rhodan, pois somente através dele é que foi possível fazer com que um grupo de agentes conseguisse penetrar na Grande Conferência dos Patriarcas dos Saltadores.
Estes homens, lutadores experimentados do Exército de Mutantes de Rhodan, cumpriram seu dever. E agora eles ainda vão mais longe: Libertam um planeta inteiro do jugo estrangeiro.
O Flagelo do Esquecimento serve-lhes de instrumento para a libertação.






= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =


John Marshall, Tako Kakuta, Kitai Ishibashi, Tama Yokida e Gucky — Formam o comando de assalto para libertar o planeta de Goszul.

Enzally — O único goszul que domina a telepatia.

Ralv — O chefe dos revoltosos goszuls.

Ralgor e Etztak — Dois patriarcas dos saltadores.

Perry Rhodan — Comandante da Stardust-III e chefe da Terceira Potência.



1



Água no porto estava lisa como um espelho. Não soprava a menor brisa e se podia ver, atrás da quilha do grande barco a vela, nitidamente, o terreno cultivado com plantas variadas. Cardumes de peixes das formas mais esquisitas se moviam de um canto para o outro, desviando-se apenas das barcaças de carga vazias, cuja missão era descarregar as mercadorias do barco a vela.
As casas da cidade se alinhavam ao longo da enseada do porto, numa quase meia-lua. Subiam o suave aclive das colinas, que logo se transformavam num planalto uniforme a se estender até o horizonte. Assim, o interior do território não diferia muito do oceano, pois formava também com o céu uma linha reta, sem interrupção.
O veleiro era, sem dúvida alguma, um navio de guerra, pois nos dois costados podiam-se ver as bocas dos canhões. No entanto, conduzia uma carga que neste momento estava sendo recebida pelos empregados do cais.
A tripulação trabalhava arduamente e sem parar, enquanto os homens morenos de basta cabeleira também cochichavam entre si e lançavam olhares tímidos na direção da popa. Depois continuavam arrastando obedientemente seus fardos até o parapeito, onde eram recebidos pelos proprietários das barcaças que estavam esperando.
No tombadilho do veleiro estavam sentados quatro homens, que observavam o movimento a bordo do barco com mais ou menos alguma atenção. Embora se pudesse supor à primeira vista que o descarregamento da mercadoria fosse negócio de seu interesse, isto não era verdade. Era-lhes completamente indiferente a carga que se encontrava nos porões do barco e também não lhes interessava que chegasse às mãos dos destinatários ou fosse jogada na água.
Um deles lamuriava, olhando para cima, para o sol causticante, que podia estar brilhando tão bem em Trípoli como em Buenos Aires, se realmente se tratasse do sol da Terra. Mas não era ele.
Este calor me deixa louco — resmungou ele, passando a mão pela barba desgrenhada. — Ficarei contente quando me livrar desta barba horrível. Não posso compreender que sentido tem a gente andar mascarado.
No momento, nenhum — respondeu seu colega, um rapaz de pequena estatura, de olhos vivos e pequenos. — Mas quando um saltador aparecer a bordo do navio, a coisa ficará diferente.
Que nada — continuou o primeiro, com um movimento de mão indicando desprezo. — Meu caro Tako, qualquer saltador notará imediatamente que nós não passamos de imitação, basta dar-lhe um pouquinho de tempo.
Mas nós não lhes deixaremos tempo para isto, John — disse o japonês sorrindo. — Além disso, não creio que eles venham a bordo. Para isso, têm sua gente, os goszuls.
Os goszuls eram os nativos da terra, que tinha sido transformada em colônia pelos saltadores, uma raça inteligente de navegadores do espaço. Ao mesmo tempo, os saltadores utilizavam este planeta como base militar e como ponto de apoio para operações comuns contra eventuais inimigos.
E um desses inimigos era exatamente Perry Rhodan, administrador do planeta Terra, contra o qual se dirigiam os planos dos saltadores no momento. Daí, a presença dos quatro terranos camuflados no tombadilho do barco, que estava parado tão pacificamente no porto do pequeno continente, a que os nativos davam o nome de Terra dos Deuses.
Sua missão secreta era expulsar os saltadores do planeta de goszul, sendo que Rhodan queria continuar incógnito. Assim, os quatro homens do barco só podiam contar consigo mesmo, pois a frota de Perry Rhodan estava esperando no espaço, a oito dias-luz de distância.
John Marshall, competente telepata do Exército de Mutantes, olhava pensativo para seus três colegas. Seu olhar ficou longo tempo parado sobre Tako Kakuta, o teleportador.
É isso mesmo — disse finalmente. — Os goszuls me preocupam. É verdade que Kitai Ishibashi lhes fez um bloqueio mental. Mas ninguém sabe por quanto tempo a situação continuará assim. Quando começarem a pensar independentemente, haverão de desconfiar e nos entregarão às criaturas dos saltadores, os chamados goszuls inteligentes. Não se esqueçam, amigos, de que estes nativos primitivos consideram os saltadores como deuses.
Kitai esfregou um pouco a barba postiça.
A duração de um bloqueio mental depende da força de vontade do paciente — disse ele, bem objetivamente. — Não posso, portanto, prever quando estes corajosos marinheiros começarão a pensar independentemente.
O quarto homem sorriu para o telepata. Chamava-se Tama Yokida, era também japonês e membro do Exército de Mutantes de Rhodan. Sua especialidade era a telecinésia. Podia movimentar a matéria no espaço infinito, apenas com as emanações energéticas do pensamento.
Nós podemos nos defender deles, caso seja necessário, meu caro Kitai. Mas espero que não seja necessário. Quanto mais tempo ficarmos despercebidos, tanto melhor para nossa missão. Quando tivermos em mãos os armamentos necessários, tudo sai bem.
John Marshall pigarreou.
As coisas estão no fundo de um rio, bem perto do espaçoporto dos saltadores, alguns quilômetros daqui. Gucky teve que afundá-las naquele local para não caírem nas mãos do inimigo. Estou feliz porque ele conseguiu escapar vivo.
Olhou em volta.
Onde é que ele está, realmente?
Estou aqui, meu amigo — falou uma voz clara e estridulante, bem atrás de John.
O telepata virou-se para trás e fixou os olhos, admirado, para o alto da amarra que estava bem perto do parapeito. A roldana da amarra se moveu um pouco. Em sua extremidade superior surgiram duas orelhas pontudas, cobertas de pêlo, depois dois olhos de brilho astuto, e finalmente um focinho comprido e fino onde tremulavam uns fios de cabelo.
As barbas compridas dão a vocês uma aparência de grande bondade — cochichou a mesma voz, enquanto os olhos rápidos observavam tudo em volta. — Todos os homens deviam usar barbas compridas, para darem a impressão de bondosos e adultos.
Depois deste conselho, Gucky arrastou-se de seu esconderijo e parou no chão, no meio dos quatro homens. Parecia sentir-se aí seguro de olhares indiscretos.
Gucky era realmente uma visão deslumbrante. Parecia um misto de castor e de rato, mais ou menos um metro de altura, com um pêlo marrom-ferrugem. Além disso, uma longa cauda que lhe servia de apoio ao caminhar. De uma distância maior, podia-se tomá-lo por uma espécie de Mickey Mouse fugido de Hollywood, mas olhando mais de perto, percebia-se logo o engano. Gucky era muito mais poderoso do que um Mickey Mouse. Habitante de um longínquo e solitário planeta, era telecineta, telepata e teleportador ao mesmo tempo. Gucky era de fato mais do que um valoroso membro do Exército de Mutantes. E, em nome de Perry Rhodan, defendia a Terra no infinito do cosmos contra todos os ataques das forças extraterrenas.
Obrigado pelo conselho — confirmou Kitai, sério, e começou a coçar o rato-castor atrás da orelha direita, o que muito lhe agradava. — Mas, quando eu imagino você de barba comprida...
Não terminou o quadro da horrenda visão, sorriu a contragosto, enquanto John ria calmamente.
Gucky de barba comprida? Santo Deus, o planeta inteiro aqui extrapolaria os limites do espaço-tempo de tanta alegria. Eu também.
Gucky assobiou como sinal de aviso. John percebeu que uma mão invisível o erguia, e não fosse a situação tão séria para permitir uma brincadeira, Gucky o teria feito flutuar até o parapeito e depois o teria deixado cair n’água.
Por este motivo, Gucky se satisfez com o aviso.
Gostaria de saber por que razão uma barba em mim seria mais ridícula que em vocês.
John Marshall estava para responder, quando seu cérebro bem adestrado sentiu impulsos estranhos. Piscou ligeiramente para seus três companheiros e comprimiu Gucky contra o chão. Ali ninguém o podia ver, se ele não aparecesse no convés. Durante quase dois minutos ele ficou escutando, de olhos semicerrados, até que acenou com a cabeça e olhou brevemente para Kitai. Enquanto os outros permaneciam quase estarrecidos em seus lugares, de respiração presa, ele anunciou, quase sussurrando:
São os nossos goszuls, pelo menos alguns deles. Libertaram-se do bloqueio hipnótico, Kitai. Estão pensando agora quem somos nós. Estamos a bordo de um navio deles e eles não atinam como chegamos aqui. Já perceberam, naturalmente, que não somos goszuls inteligentes, isto é, os nativos que receberam doutrinação hipnótica dos saltadores. Nossa semelhança com os saltadores não representa muita coisa para eles, já que nunca os viram pessoalmente. Portanto, consideram-nos simplesmente estrangeiros, o que realmente somos. Pretendem nos dominar e “nos entregar aos deuses”.
Tako, o teleportador, viu lá embaixo os primeiros servos dos deuses — assim eram chamados pelos nativos os seus irmãos de raça que se tornaram repentinamente inteligentes — que começavam a entrar no navio, para vigiar o descarregamento das mercadorias de seus senhores. Estavam acompanhados de robôs de combate dos saltadores.
Como devemos entrar em ação? — perguntou o japonês, quase sussurrando. — Quando os condicionados notarem, lançarão sobre nós os robôs de combate. Não vamos tirar as máscaras, não é ou...?
De maneira alguma — concordou John Marshall e continuou se concentrando febrilmente. — Kitai, o que você diz a isso? — Não pode daqui...?
Pessimamente — disse o sugestor abanando a cabeça. — O método mais seguro de manter os revoltados novamente sob controle é a confrontação direta. Daqui, a minha influência sobre eles seria deficiente, sem considerar ainda que poderá surgir qualquer complicação e eu não possa então me concentrar para exercer minha influência.
Com outras palavras — interrompeu o telecineta Tama Yokida — quer dizer que não é muito provável que desta distância possa isolar alguém dentro da multidão e influenciá-lo hipnoticamente; não é isto que queria dizer, Kitai?
O sugestor fez sinal afirmativo com a cabeça e nada falou. John Marshall levantou-se.
Devemos fazer alguma coisa, se quisermos manter o bando todo sob bloqueio hipnótico. As emanações mentais se tornam cada vez mais intensas. Daqui a pouco, os homens abandonam o trabalho e se precipitam sobre nós. Um deles já está com a faca na mão.
Os goszuls viviam numa civilização que podia ser comparada com a do século XVIII na Terra. As facas eram, portanto, muito eficientes nas mãos dos nativos.
Maldito robô — resmungou Kitai furioso. — Nunca experimentei em minha vida colocar um robô sob meu controle mental.
John sorriu levemente.
Tenho medo de não termos sorte com isso. Mas os robôs haveriam de notar, caso acontecesse algo com seus subordinados. Estamos, portanto, num beco sem saída.
Perguntemos a Rhodan — propôs Gucky, que ainda estava agachado no meio dos homens, evitando ser visto. — Ele pode, talvez, nos dar um conselho.
Poder, pode — continuou John — resta saber se quer. Vocês sabem que os saltadores não podem nunca saber quem é que está se intrometendo em seus assuntos particulares. É claro que o nosso micro-comunicador tem um raio de ação de três meses-luz, enquanto que Rhodan está apenas a uma distância de oito dias-luz. Mas acho que não temos mais tempo de entrar em contato com Rhodan. Olhem só lá para baixo.
As cabeças dos homens viraram todas para o mesmo lado. Lá embaixo no convés, um dos carregadores tinha deixado cair seu fardo e estava de pé perto de um dos servos dos deuses, gesticulando muito e falando com ele. Dois dos cinco robôs de combate que entraram no navio se aproximaram. Essas máquinas, de construção completamente positrônica, tinham um cérebro de funcionamento normal e podiam tomar decisões próprias e transformá-las em realidade, enquanto estivessem em contato com o controle central. Suas radiações energéticas embutidas faziam deles máquinas de combate invencíveis. Naturalmente, para os primitivos goszuls estes robôs tinham que ser criaturas semelhantes a um deus, pois não conheciam nem ainda a navegação espacial. Para eles, os deuses desciam do céu e voltavam para ele de novo.
O mais inteligente dos servos dos saltadores — não havia normalmente mais do que vinte deles no planeta dos goszuls — ouviu atentamente o que o nativo lhe tinha para comunicar. Seu olhar percorreu o convés do navio e se deteve finalmente na escada para o tombadilho.
Acenou com a cabeça, deixou de lado seu interlocutor e se dirigiu para a escada que dava para o tombadilho. Como estava parecendo, era uma visita que ele tencionava fazer aos quatro indivíduos misteriosos do tombadilho. Por felicidade, não lhe passou pela cabeça a idéia de levar como acompanhante um dos robôs de combate.
John Marshall auscultava o cérebro do goszul. Tinham-lhe falado da presença a bordo de pessoas estranhas e de aparência misteriosa, que talvez fossem interessantes para os deuses. Além disso, podia John reconhecer o nome do homem. Chamava-se Geragk.
Marshall fez um sinal rápido para Kitai. Trabalhavam muito bem juntos. Geragk sairia depois do navio, sem se lembrar de nada.
O servo dos deuses subiu os degraus de madeira para o tombadilho e de repente ficou parado junto ao parapeito, como se seus pés estivessem colados ao assoalho. Com os olhos arregalados, fixava os quatro homens que, no primeiro instante, tinha de supor serem saltadores. Seu cérebro ainda pensava normalmente e podia compreender a situação.
Saltadores? Aqui, no barco a vela dos primitivos? Que significava tudo isto?
Inclinou-se profundamente, nos seus olhos, porém, havia dúvidas. John constatou que Geragk procurava febrilmente uma explicação. Os saltadores dominavam certamente este planeta, mas eram demasiadamente orgulhosos para se preocuparem com os problemas dos nativos, muito menos ainda para se misturarem com eles desta maneira.
Perdoai-me, ilustres senhores — começou vagarosamente, fixando os olhos nervosamente nas pranchas de madeira a seus pés, como se delas pudesse tirar as palavras para se desculpar. — Mas o capitão deste barco está tão constrangido por ter a honra de abrigar neste navio pequeno hóspedes tão eminentes. Posso perguntar se vos posso ser útil em alguma coisa?
Era realmente uma boa pergunta. John sorriu.
Ótimo, Geragk, obrigado. Estamos empreendendo uma viagem de inspeção, mas como o senhor sabe, os primitivos não nos conhecem. Não queremos empregar violência, por esta razão os robôs que aqui estão garantirão a nossa saída.
John reconheceu que suas palavras não chegaram a tranqüilizar o goszul. Geragk estava mesmo decidido a comunicar o inexplicável acontecimento. Não havia, portanto, nenhum outro expediente, a não ser lhe tolher a memória e lhe sugestionar um outro quadro mental. Foi Kitai quem se incumbiu do caso.
O japonês não modificou sua postura, permaneceu sentado e dirigiu seu olhar simplesmente para Geragk, que, por sua vez, não se sentiu à vontade com o olhar fixo do outro. Mas durou pouco. Seus traços se iluminaram de repente, sorriu obsequioso, inclinou-se mais profundamente ainda, quase tocando o chão. Retirou-se sem dizer uma palavra e desceu para o convés inferior, onde ouvira o goszul que lhe chamara a atenção sobre os estranhos a bordo.
John Marshall comprimiu os olhos.
Só uma pequena folga, Kitai. Você não pode botar todos na fila e sugestionar um por um. Acho que só nos interessa uma sugestão em massa, se nós não quisermos ser atacados, e eu não gostaria principalmente por causa dos robôs de combate. À menor suspeita, eles se transformam em fortalezas a vomitar fogo.
E eu os faço voar para dentro da água — avisou Gucky chiando.
John botou os dedos nos lábios fechados.
Psiu, mais baixo, Gucky. Se alguém o vê, vai haver barulho. Ninguém poderá realmente confundi-lo com um patriarca saltador. Kitai, notou alguma coisa de esquisito neste Geragk? Naturalmente, não, pois não sabe ler pensamentos. Antes de você lhe ter impregnado a nova memória e de lhe ter ordenado que esquecesse o acontecido, eu peguei uns pedaços de pensamento. Nenhum pensamento claro e com muita coordenação, infelizmente, mas mesmo assim com detalhes interessantes.
O quê, então? — sussurrou Kitai e não perdeu de vista o convés, onde o capitão do navio conversava com alguns dos seus.
Geragk queria realmente nos denunciar a seus superiores, porque suspeitava de alguma coisa. Não o fez para prestar um serviço aos saltadores. Tinha outros motivos.
Quais?
Queria convencê-los de sua lealdade, que realmente não possui. Não sei bem exatamente, mas me parece que por alguns momentos ele pensou numa organização secreta que podia causar muitos danos aos saltadores e tornar novamente livre e independente o planeta Goszul.
Um movimento de resistência? — disse Kitai admirado. — Haverá um movimento de resistência de fato no planeta Goszul? Não acredito. Quem se atreveria a lutar contra os deuses?
Aqueles que os conhecem melhor, seus servidores. Geralmente é assim.
Eles estão atacando agora — silvou Gucky, interrompendo a conversa e se teleportou como um raio para a roldana da amarra. Os quatro homens permaneceram sentados, indecisos em seus lugares, até que Kitai falou:
Eu vou dominar todos eles de uma só vez. Nosso único esconderijo é o navio. Ninguém nos pode ver em terra, isto traria complicações desagradáveis.
Com um rápido olhar ele se certificou que os robôs continuavam rígidos nos lugares que haviam assumido. O episódio num navio dos nativos não lhes representava nada, enquanto os interesses de seus senhores não fossem atingidos.
Fiquem sentados calmamente, até que acabe tudo. Os rapazes vão descarregar o navio como se nada tivesse acontecido.
Embora John, Tako e Tama conhecessem as qualidades assustadoras de seu colega, ficavam sempre atônitos quando presenciavam as inconcebíveis alterações dos atingidos.
O capitão do navio parecia haver convencido a tripulação ou ao menos uma parte dela, de que alguma coisa não estava certa a bordo. Talvez ele se preocupasse com o fato de não saber como os estranhos entraram no barco. De qualquer maneira, não deu fé às palavras apaziguadoras de Geragk, mas gritou para sua tripulação alguma coisa. Nem todos, mas alguns abandonaram o trabalho e desembainharam as facas. Ameaçadores, dirigiram-se ao tombadilho.
Os robôs permaneciam passivos. Kitai se concentrou, lançou sua corrente de pensamento contra a tripulação.
O capitão estancou de repente, passou a mão pela cabeça, como se lembrasse de alguma coisa. Com a esquerda, guardou novamente a faca na cintura. Vagarosamente os outros seguiram seu exemplo. O primeiro deu meia-volta e caminhou para seu local de trabalho. Como se nada tivesse acontecido, pegou o fardo e o atirou para a barcaça que estava atracada embaixo. As emanações mentais de Kitai não tinham ainda atingido os servos dos saltadores. Apesar de sua inteligência relativa, não podiam compreender o que se passava a bordo do veleiro. Antes que pudessem suspeitar de alguma coisa, caíram sob a influência dos dons de Kitai. Não aconteceu muita coisa, simplesmente esqueceram. Isto foi tudo.
Estava salva a situação, pelo menos no momento. A experiência ensinava que a capacidade de Kitai tinha seus limites. Passado algum tempo, a consciência das pessoas bloqueadas neutralizava a força mental que lhes fora imposta.
O importante, porém, foi que os robôs não perceberam nada do incidente. Estavam imóveis em seus postos e cuidavam de que ninguém atacasse os servos de seus senhores.
Horas depois, terminava o desembarque da mercadoria.
Que foi que descarregamos mesmo? — perguntava Tama que, como telecineta, não podia ler os pensamentos. Antes que John pudesse responder, disse Gucky, que entrementes já havia descido da roldana da amarra:
Cânhamo ou coisa semelhante. Os saltadores pagam bem por isso, porque extraem daí um famoso entorpecente que já colocou muitos planetas sob seu jugo.
De onde é que você sabe disso?— perguntou Kitai admirado.
Gucky virou para frente as orelhas pontudas e disse chiando:
Gucky sabe tudo.
John Marshall olhou para o céu.
Está ficando escuro e eu ainda estou pensando se ficamos no navio ou se vamos para terra. Os saltadores ficam somente neste continente, o resto do planeta não lhes interessa. Se quisermos, pois, atacar, tem que ser aqui.
Ah, se Rhodan desse ao menos uma indicação — lamentou Tako.
John olhou rapidamente para o franzino japonês.
Se não me engano, ele nos mandou Gucky para estarmos a par de suas intenções. Até agora, porém, Gucky está calado. Quem sabe não chegou ainda a hora...
O rato-castor compreendeu aquela fina indireta. Desde que tinha recebido a incumbência de acompanhar o grupo dos quatro mutantes, ainda não tinha conversado nada sobre seus planos, claro que principalmente devido aos fatos que se precipitaram, não lhe permitindo tempo para isto. Inclinou a cabeça e murmurou alegre:
Chegará logo a hora, meu caro colega telepata, como você sabe tão bem como eu. Pense apenas neste Geragk, que no momento está abandonando o navio com os seus robôs. Ele é apenas um entre muitos.
Que está dizendo com isto? — queria saber John, pois Gucky guardava bem seus pensamentos.
Existem realmente alguns goszuls que se preocupam com a idéia de sacudir o jugo dos saltadores e de tocar pelo universo afora estes comerciantes da galáxia. Poderiam se tornar nossos aliados.
Certo — confirmou John, não demonstrando nenhum entusiasmo. — E como faremos contato com estas forças da resistência? Isso não é tão fácil assim, ou...?
É sim — silvou Gucky feliz e ficou olhando como os marinheiros, depois de terminar o trabalho, saíam para descansar fora do navio. — É muito simples. Você se lembra daquela voz mental que percebeu há pouco? Alguém se intrometeu em nossa conversa telepática, mais ou menos como uma terceira emissora interrompe o diálogo de dois interlocutores. Neste planeta deve existir, portanto, pelo menos um telepata.
John concordou.
Eu tinha o mesmo pressentimento — disse ele. — Mas como é que sabe que ele nos vai ajudar?
Porque é uma das figuras mais importantes do movimento de resistência — disse Gucky com tal naturalidade que surpreendeu John e os três japoneses. — Faça contato com ele, quando se apresentar, vai ser muito simples.
John se recuperou de sua grande surpresa.
De onde você sabe tudo isto?
Eu sei ainda mais — disse Gucky fugindo da pergunta. — O telepata dos goszuls se chama Enzally.
Tako fechou a boca, quando John o olhou fixamente. Kitai apenas meneou a cabeça, murmurando qualquer coisa como “segredos traiçoeiros”, enquanto Tama, sem maior interesse na conversa, contemplava o céu que já estava ficando escuro, onde se delineavam constelações estranhas. Era astrônomo e este mundo distava da terra 1.012 anos-luz. Motivo suficiente para se interessar pelo céu.
E isso você somente diz agora? — falou John Marshall com ares de repreensão.
Gucky concordou conscientemente.
Você nunca me perguntou nada a respeito — e sem mais nem menos acrescentou: — Quando pegaremos as coisas que eu trouxe de Rhodan?
John já havia quase esquecido. Sim, as coisas. Em sua viagem repleta de aventuras, Gucky tinha trazido toda espécie de bagagem que, no entanto, teve de abandonar em virtude de acontecimentos imprevistos. Estava bem acondicionada no fundo de um rio, bem longe da região povoada.
Durante o dia — continuou John — pois de noite precisaríamos de luz e isto chamaria a atenção dos robôs de vigia postados nas proximidades do espaçoporto. Com a claridade do dia, nossas chances serão melhores. Amanhã, pois, proponho eu. Aliás, Gucky, apenas uma pergunta: Que é que você trouxe?
Gucky mostrou seu dente de roedor, pois sempre que sorria este dente isolado ficava à vista. O rato-castor, de alguma maneira, sorria com o dente por mais paradoxal que isto possa parecer. E quando mostrava o dente, não se conseguia entender bem suas palavras.
Bombas — sussurrou ele com voz extraordinariamente clara. — Uma mochila inteira cheia de bombas, bombas comicamente pequenas.
Bombas? — suspirou John, fixando Gucky com olhos arregalados. — Que vamos fazer com bombas? Não temos nem um avião para lançá-las. Além disso, os saltadores nos prendem imediatamente, se começarmos a jogar bombas.
Gucky balançou a cabeça compassivamente.
Os homens são criaturas de compreensão difícil — observou muito pensativo. — Quando ouvem a palavra bomba, pensam logo em explosivos. Não, colega John, não se trata desta vez de bombas que explodem, mas simplesmente de bombas que se devoram antes de produzirem efeito. É tudo tão simples.
John concordou, sem compreender.
É, é tudo tão simples — murmurou, contemplando o rato-castor, como se lhe quisesse arrancar o pêlo. — Proponho que você agora nos diga o que vai acontecer, do contrário vai mesmo acontecer alguma coisa...
O dente de roedor de Gucky desapareceu de repente.
Pois bem, meus amigos, então ouçam com atenção.

* * *

Sete planetas giram em volta do sol 221-Tatlira, que percorre sua órbita em torno da Via Láctea a uma distância da Terra de 1.012 anos-luz. Só o segundo planeta tem vida inteligente, a raça dos goszuls, semelhante à dos homens, no momento dividida em duas metades pelos saltadores. Um patriarca desta raça de comerciantes da galáxia, de nome Goszul, descobriu o planeta e lhe deu seu nome. A partir deste tempo, o planeta de Goszul passou a pertencer ao império dos saltadores.
Os saltadores, ou também chamados comerciantes, não tinham propriamente pátria. Com suas grandes naves, percorriam as galáxias e faziam comércio. Não davam muita importância à solidariedade, a menos que seus interesses estivessem em jogo. Aí então mostravam uma grande união e esqueciam suas rixas, que freqüentemente separavam as famílias.
Um caso assim estava se passando no momento. Os saltadores haviam descoberto a Terra e tentavam transformá-la num entreposto comercial, quando foram repelidos energicamente por Perry Rhodan. Aqui, no planeta de Goszul, estavam pois reunidos os mais poderosos chefes dos clãs, a fim de estabelecerem um plano de como se libertarem do incômodo e misterioso Rhodan, que tenazmente resistia às “bem intencionadas” invasões.
Os primeiros ataques dos mutantes tinha reduzido consideravelmente o número dos patriarcas presentes, mas ninguém cedia. Aliás, ninguém supunha, nem podia supor, que era exatamente Perry Rhodan, o homem que estava a 1.012 anos-luz, o autor destes ataques.
A história de 1.012 anos-luz não era verdade. A frota de Rhodan estava realmente a oito dias-luz distante do sistema de Tatlira, esperando no espaço.
O coração da frota de Rhodan era a poderosa belonave Stardust-III, uma nave esférica com diâmetro de 800 metros. Era comandada e dirigida pelo próprio Rhodan. Trazia no seu interior armas dos tipos mais modernos e em grande parte de origem arcônida. Dois transmissores que transportavam a matéria a qualquer distância imaginável e no ponto de chegada desejado a rematerializavam — inclusive bombas atômicas — formavam uma arma irresistível.
Três cruzadores, igualmente esféricos, com diâmetro de apenas 200 metros, acompanhavam a Stardust. Seus comandantes eram o capitão McClears, o major Nyssen e o major Deringhouse.
Sem serem atingidos pelos rastreadores estruturais dos saltadores e por isso despercebidos, percorriam estes quatro gigantes do espaço o longínquo sistema solar. Rhodan não tinha intenção de intervir diretamente nos acontecimentos, embora fosse indiretamente o responsável. Não tinha pressa. Na Terra, tudo corria normalmente. O Governo Mundial era entrementes uma realidade. Rhodan fora nomeado por seis anos para Administrador do planeta. Durante sua ausência, era o coronel Freyt, seu substituto permanente, quem dirigia os negócios.
Mas nem todo mundo tinha a mesma calma que Rhodan.
Muito menos Reginald Bell, seu íntimo amigo e cooperador. Os cabelos vermelhos de Reginald Bell, que era chamado simplesmente de Bell, estavam penteados à escovinha e aquelas cerdas verticais não contribuíam exatamente para embelezar seus traços já rígidos. Nos olhos de um azul-claro, cintilava uma ira contida. Com exceção de alguns oficiais de serviço e técnicos de radiotransmissão, a sala estava vazia, mas Bell não era homem que se preocupava com a ausência de alguns subordinados, quando se tratava de dar expansão a sua ira.
Quem sabe você pode ter a gentileza — rosnou rispidamente — de me dizer para que esta demora toda.
Perry Rhodan olhava constantemente o fraco cintilar da tela, onde Tatlira parecia tão pequena como uma estrela insignificante. A luz fraca da central fazia desaparecer um pouco seu corpo magro, mas com o reflexo da tela seus traços fisionômicos eram realçados. Os lábios contraídos formavam uma linha reta. Nos olhos, o fogo tranqüilo da expectativa. Os cabelos escuros e lisos formavam um contraste benéfico com a cabeleira hirsuta de Bell.
Você ouviu o que eu disse? — perguntou Bell impaciente, quando não recebeu nenhuma resposta. Rhodan virou-lhe rapidamente a cabeça e continuou fixando a tela. — Há necessidade disso? — perguntou objetivamente.
O rosto de Bell ficou mais sombrio. As pontas do cabelo tremiam, mas sua voz abrandou um pouco. Isso, porém, não queria dizer que seu nervosismo acabara. Pelo contrário.
Para que falar, se ninguém me escuta? — disse para si mesmo. — Perguntei por que estamos aqui dependurados no infinito e esperando o quê?
Rhodan continuou olhando para a tela.
Tanto tempo, meu amigo, até que possamos descer lá do outro lado, daqui a oito dias-luz. Naturalmente ninguém pode prever quanto ainda ficaremos aqui. Isto depende primeiramente de John Marshall, seus mutantes e de Gucky.
Sempre este rato desgraçado — gritou Bell, esfregando o queixo. — Quer dizer que tudo depende deste camundongo.
E depende mesmo — concordou Rhodan, esforçando-se para permanecer sério. — Estou curioso para saber o que Gucky vai dizer quando souber o que seu melhor amigo pensa dele.
Não, por todos os deuses do Universo — gritou Bell, como se alguém lhe enfiasse uma agulha através de toda a espinha dorsal. — Tudo menos isso, não provoque desnecessariamente o maldito rato. Eu não poderia revidar. Acha que eu gostaria de ficar de novo três horas dependurado sob o teto, até que o espantalho se dignasse me deixar descer? Afinal, não sou nenhum mutante, sou um homem normal.
Rhodan tirou os olhos da tela e olhou pensativo para ele. Um esboço de sorriso apareceu nos seus lábios. Parecia que, apesar de sua relativa imortalidade, tinha envelhecido nas últimas semanas.
Muito bem — respondeu ele, nada mais.
Talvez não? — Bell fez uma contra-pergunta, mas não esperava resposta, pois logo acrescentou: — Já teve confirmação se Gucky encontrou os mutantes?
Conseguiu, mas não sem dificuldades. No momento nossa tropa de ataque está num barco a vela, ancorado no porto de terra dos deuses. O nome me escapou. Desde ontem, porém, Marshall não se manifesta.
Quem sabe foram presos — disse Bell triste.
Esperamos que não, Bell. Isto escangalharia todo meu plano.
Que plano, Santo Deus.
O de conquistar pacificamente o planeta de Goszul.
Conquistar pacificamente?... Você é muito otimista, Perry. Conquista pacífica, e os comerciantes matam os nossos onde os encontram.
No planeta de Goszul não vivem apenas comerciantes — disse Rhodan com ar sério. — Os aborígines primitivos são totalmente inofensivos, os servos que se tornaram inteligentes na Ilha da Terra dos Deuses não representam maior perigo se compreenderem que se trata de sua própria liberdade. A Terra dos Deuses é uma colônia dos saltadores. Deste ponto aí é que dominam o planeta. Normalmente, porém, permanecem na Terra dos Deuses, quando muito, duas dúzias de saltadores. A aglomeração atual é uma exceção, com a qual temos que contar. A tudo isso acrescente ainda os milhares de robôs de trabalho e de combate, que temos que ter em conta de inimigos sérios. Não obstante tudo isto, ainda aspiro a uma conquista pacífica.
Muito prazer em sabê-lo — resmungou Bell, que ainda não compreendia onde Rhodan queria chegar. — E como você vai conseguir isto? Ficando aqui, esperando até estarmos perdidos?
Rhodan apontou para uma caixinha quadrada à sua frente, em cima da mesa de controle. Ao lado dela havia alguns botões, enquanto que a parte superior apresentava um conjunto de lâmpadas de controle.
Olhe lá. Com isso posso entrar em contato com Marshall ou com Gucky. Aguardo notícias e antes que cheguem não podemos tomar nenhuma iniciativa.
Com os transmissores fictícios podemos mandar tantas bombas...
Já recusei uma vez tal proposta, Bell — lembrou-o Rhodan. — Não quero que nossa posição seja descoberta. Se deixarmos o serviço para Marshall e seu grupo, nenhum dos saltadores chegará a imaginar que nós é que estamos atrás desta ação, se é que algum dia cheguem a perceber que isto foi uma ação. Pelo contrário, atribuirão sua derrota muito mais a uma doença normal.
A cara de Bell parecia um ponto de interrogação.
De repente seus olhos se iluminaram.
Minha inteligência é a mesma que a sua, mas eu nunca entendi bem de palavras cruzadas e charadas. Por favor, tenha a gentileza de...
Rhodan teve realmente a gentileza.
Gucky levou consigo uma multidão de coisas utilíssimas, a mais útil delas são as bombas do esquecimento.
As bombas do quê?
As bombas do esquecimento. Foram desenvolvidas na Terra e simultaneamente com elas também o anti-soro. Resumindo: trata-se de uma arma bacteriológica que após algum tempo ataca o invólucro plástico das bombas e se espalha rapidamente. Todo homem que entrar em contato com a bomba, manifesta logo sintomas de uma doença desconhecida. Placas vermelhas no rosto, dores na nuca, sensação de cansaço, etc. Mas o pior vem ainda: o cérebro da pessoa atingida não funciona mais direito. Não poderá mais se lembrar de nada. Esquece tudo. Numa palavra, os atingidos ficam doidos.
E a isto você dá o nome de conquista pacífica? — protestou Bell espantado. — Quer, pois, deixar os goszuls doidos? Que tem isso a ver com humanidade?
Não se esqueça do anti-soro. Atua no sentido contrário. Os doentes se curam imediatamente e a doença não deixa absolutamente nenhuma conseqüência. É como se nunca tivessem ficado doentes.
Bell parecia indeciso.
Não estou compreendendo nada. Para que então toda esta palhaçada?
Os saltadores provêm da mesma raça que os goszuls, isto é, dos arcônidas. Portanto não são imunes a nossa doença.
O rosto de Bell se iluminou como um sol resplandecente.
Ah... quer dizer então que têm de chegar até nós, se quiserem obter o antídoto.
Rhodan abanou a cabeça.
Não havia pensado diretamente nesta hipótese. Para mim o essencial é que daí em diante eles evitem o planeta dos goszuls, como a própria peste. Se chegarem à conclusão de que o planeta está perdidamente contaminado, nunca mais voltarão. Você tem outra idéia melhor?
Bell tinha que conceder que não podia haver uma idéia melhor. Seus cabelos já pareciam mais deitados um pouco, pois sua incerteza não existia mais. Sabia agora por que Rhodan estava esperando.

* * *

Quando o dia amanheceu, John Marshall acordou seus companheiros. Os japoneses abriram os olhos e viram os primeiros raios de luz penetrando pela pequena clarabóia em sua cabina.
Já é dia — acrescentou Tako, e pulou para fora do beliche.
Como vai Gucky?
O rato-castor se materializou no meio da cabina, como se tivesse ouvido a pergunta, o que, na verdade era um fato.
Estou aqui — disse chiando e alisando seu pêlo. — Dei uma olhada em volta, os marinheiros ainda estão dormindo. Parece que trabalharam demais ontem, estão cansados. Tudo calmo, como que preparado para nossa operação.
Estou feliz de não ser teleportador — murmurou Kitai, permanecendo tranqüilo na cama. — Acham que dão conta de tudo sozinhos?
Tako abotoava seu casaco.
Acho que sim, Gucky e eu. Juntos conseguiremos tudo, mesmo que não seja de uma só vez. Perto do lugar em que Gucky afundou as coisas no rio, há um banco de areia. Lá colocaremos o negócio.
E de lá traremos caixa por caixa para o navio — acrescentou o rato-castor. — Esperamos que os robôs não nos atrapalhem os cálculos. Os homens de aço estão equipados com instrumentos de rastreamento de alta sensibilidade.
E além disso, com raios energéticos — ponderou John. — Vocês devem agir com muita cautela.
É claro — chiou Gucky, e alegre pegou a mão de Tako para o guiar. — Você está pronto?
O teleportador abanou a cabeça afirmativamente, procurando esboçar um sorriso.
Pegar pela mão não adianta muito, mas dá a qualquer um pouco mais de coragem. As coordenadas do salto, eu já conheço.
Pousaremos no banco de areia, Tako. Se houver perigo, não pular cegamente, mas voltar para cá.
Gucky concordou, dizendo:
Tudo pronto?
John e seus dois companheiros presenciaram como o japonês e o rato-castor se desmaterializaram. Era sempre o mesmo quadro. Primeiro parecia que os dois estavam atrás de uma muralha de água transparente, que aos poucos se punha em movimento. Depois, não restava mais nada.
John, Kitai e Tama ficaram sozinhos na cabina.
2



Vagarosamente o rio caracolava na direção do mar. Percorria quase a metade do continente que os aborígines chamavam de Terra dos Deuses, mas não via muita coisa da civilização ali existente. Em contraste com os outros continentes, a Terra dos Deuses tinha atingido um alto grau de civilização, em virtude das grandes instalações dos saltadores aqui construídas. Principalmente no litoral, surgiram instalações portuárias de alto nível técnico que pareciam modernas demais para os barcos a vela e não tinham, portanto uma utilização adequada.
O mais notável era o espaçoporto, que devia ser considerado o centro da administração colonial. As naves dos saltadores eram aí revisadas e consertadas. Era um traço característico desta raça que eles não tinham propriamente um planeta-pátria. Possuíam, no entanto, muitos planetas-colônia como pontos de apoio, que se tornaram, aliás, necessários para uma existência pacífica no espaço.
Naturalmente, todas as instalações tinham que ser protegidas contra possíveis sabotagens por parte dos nativos, pois os saltadores não se preocupavam em lutar com raças subdesenvolvidas. Para isso eles tinham os robôs, máquinas aperfeiçoadas, comandadas positronicamente e de aparência humanóide. Tinham tudo que uma fortaleza em miniatura devia ter, para se defenderem contra forças superiores. Sua semelhança com as máquinas de combate dos arcônidas não era mera coincidência. Os saltadores pertenceram igualmente ao grande reino estelar dos poderosos arcônidas, ficando mais tarde independentes e fundando seu próprio império, sem, porém, dar maior importância a limites fixos. Faziam comércio onde podiam. E comerciavam com tudo que pudesse trazer dinheiro, bem-estar e poder.
A Terra dos Deuses era, pois, menos controlada pelos saltadores do que propriamente pelos robôs. Apoiavam-se assim nos colaboradores voluntários, isto é, nos goszuls submetidos a um doutrinamento hipnótico, nos nativos desprezados, mas também temidos, chamados servos dos deuses. Eram tidos como traidores de sua ruça.
O banco de areia mal tinha um metro de altura na sua parte mais elevada, acima do nível da água calma do rio. As margens estavam longe, mas não longe demais para comprometer a segurança de cem por cento. O rio, aliás, não constituía nenhum impedimento para os pesados robôs.
Gucky se materializou do nada e viu como também Tako surgia do ar vazio. Um simples relance de olhos mostrou aos dois que estavam sozinhos. Aliás, quem é que viria procurar alguma coisa no banco de areia a estas horas da manhã?
Um pouco frio, acho eu — disse o japonês desconfiado. — E com esta temperatura temos que tomar um banho?
Não tem importância — disse Gucky. Eu dou um pulo de experiência e lhe dou então as coordenadas exatas. Depois saltaremos juntos. Materializamo-nos no fundo do rio, que em nenhum lugar tem mais de cinco metros de fundura. Pegaremos uma caixa e voltaremos para cá. Não ficaremos mais de dez segundos debaixo d’água.
Dez segundos é muito tempo, quando não se pode respirar.
Isto tem menos importância que o frio, e o medo de que alguém perceba nossa operação secreta.
Tako examinou o ambiente em volta. A margem norte era plana e não oferecia nenhum esconderijo. Deste lado ninguém podia surgir despercebido, muito menos um robô. A margem sul estava coberta de florestas e era muito irregular. Havia pequenas enseadas e pontas de terra que avançavam para dentro do rio. Se tivesse que haver um ataque, teria que começar por estes lados.
Enquanto os robôs de vigilância não nos perceberem, não haverá nenhum ataque — disse o japonês tentando encorajar o rato-castor e a si mesmo. — Comecemos logo para não perdermos tempo.
Gucky concordou e imediatamente desapareceu.
Tako ficou esperando.
Dez segundos mais tarde, materializou-se a seu lado uma caixa metálica reluzente e pingando água e junto dela Gucky.
Já trouxe uma comigo — guinchou o rato-castor ofegante. — Que sorte que a correnteza não está forte, do contrário não encontraríamos nem a metade das coisas. O negócio está espalhado num raio de 50 metros, direção exata leste. Vamos tentar mais?
O japonês concordou e pularam na água. Meia hora depois, já tinham recolhido quase tudo. Nem tudo foi tão fácil como no início, pois algumas caixas tinham sido encobertas pela sedimentação da areia do rio. De qualquer maneira, foi-lhes possível, depois de muitos mergulhos, libertar as caixas da areia e finalmente trazê-las para cima. Lá estavam elas empilhadas propositalmente em forma de pirâmide.
Tako estava com os olhos bem comprimidos, quando falou:
Gostaria de sugerir que primeiro ponhamos a salvo estas aqui, antes de continuarmos com a procura no fundo do rio. O que estiver lá, está em segurança, o que não se pode dizer das que estão no banco de areia.
Combinado — disse Gucky. — Uma sugestão muito lógica, eu carrego a caixa com as bombas e você a com os gêneros alimentícios. Vamos embora depressa.
John quase teve um colapso quando, no meio da cabina, surgiu uma caixa, empurrando-o para o lado, de modo que checou a tropeçar no beliche próximo, continuando deitado. Gucky materializou-se em cima da caixa, com ares de um herói.
Mercadoria expressa acaba de chegar — disse ele, dando um pulo para o beliche superior, pois na mesma hora se materializou a segunda caixa. Tako passou raspando nela e acabou deitado no úmido chão de madeira.
É só isso — perguntou John de cima da cama, contente de que Kitai e Tama estavam no momento dando um giro pelo barco para se convencerem do estado de espírito pacífico da tripulação. — Aqui não cabe mais muita coisa.
Vocês podem ir ajudando um pouco — disse Tako — colocando as caixas num lugar seguro, que possa ser fechado, enquanto nós vamos buscar as outras. São ao todo talvez vinte caixas.
Vinte! — suspirou John saindo da cama. — Vinte destas caixas?
A maioria delas é de tamanho pequeno e está bem empacotada. Infelizmente sofreram um pouco com o transporte, mas continuam impermeáveis. Gucky confirmou as palavras de Tako com um aceno de cabeça, dizendo:
Precisamos continuar o trabalho, vamos embora.
Deram um pulo para fora. Infelizmente estavam pulando numa cilada que lhes fora preparada.

* * *

RK-071 era um dos robôs de combate que tinham a incumbência de controlar uma determinada região. Geralmente estes robôs ficavam em seus abrigos aguardando o sinal de entrar em ação. Este sinal era transmitido, através do rádio pelos robôs de vigilância, que existiam em grande número e cuja missão era controlar permanentemente o território de sua jurisdição. Em geral, era um serviço apenas de rotina, pois ninguém contava com uma revolta dos inofensivos goszuls, nem mesmo por parte dos desconfiados governadores da Terra dos Deuses. Consideravam os nativos como súditos dóceis, que ainda deveriam estar gratos pela tutela de uma raça superior.
Os robôs não se deixavam levar por sentimentos nem por suposições. Estavam programados e cumpriam seu dever, que lhes era ditado pelo cérebro positrônico. Só se baseavam em fatos e nada mais.
A operação no banco de areia era um fato.
O robô de vigilância RW-895 registrara esta alteração e a transmitira ao cérebro central do seu posto de comando. Ali, a mensagem foi explorada e tomadas as providências cabíveis. O robô de combate responsável pela região era o já mencionado RK-071. Recebeu a ordem de ativamento e se pôs em marcha na direção do rio.
Mas a central de comando do posto de vigilância devia se lembrar ainda dos acontecimentos anteriores, pois não se baseavam apenas nas informações de um só robô. Sabia-se que se tratava de um adversário misterioso, que não devia ser menosprezado, e com toda certeza não era nenhum habitante deste planeta atrasado.
Tais eram as conclusões lógicas do cérebro positrônico que tudo dirigia, embora silenciasse sempre que se perguntava sobre a identidade do inimigo misterioso. Ninguém devia saber quem era, ao menos no começo.
Vindos de diversas direções, seis robôs de combate marchavam em direção ao banco de areia, para se colocarem sob o comando do RK-071. Na margem sul do rio, estava de prontidão um pelotão de goszuls de quociente intelectual mais elevado, equipado com armamento leve, com a incumbência de não permitir a passagem de ninguém e de prender qualquer pessoa suspeita.
Tudo isto aconteceu exatamente enquanto Gucky e Tako mergulhavam à procura das caixas caídas no fundo do rio, para empilhá-las no banco de areia. Das duas margens, não se podia ver bem o que se passava. De vez em quando, os observadores notavam uma figura humana, que podia ser tão bem um goszul como também um saltador. De qualquer maneira, aquele pequeno vulto estava causando muita dor de cabeça ao cérebro positrônico do posto de comando.
E, de repente, desapareceram as duas figuras, como se tivessem sido dissolvidas, juntamente com duas caixas, em pleno ar.
Isto foi para eles, os robôs de combate, o motivo de ocuparem o banco de areia. Caminharam simplesmente para frente e desapareceram dentro do rio. Assim não perdiam sua possibilidade de locomoção no espaço, a água também não lhes apresentava dificuldades. Com a maior naturalidade, caminhavam no fundo do rio e, quando a água começou a ficar rosa, subiram para o banco de areia. Aí, procuraram um esconderijo, para surpreenderem os dois seres estranhos quando estivessem de volta. A ordem que haviam recebido era de não matarem, mas sim de pegar vivos os dois desconhecidos.
E exatamente aí é que estava a sorte de Gucky.

* * *

Mais ou menos a cinco metros da pilha de caixas, Gucky e Tako se materializaram simultaneamente. Este estranho fenômeno não provocou nenhuma reação nos robôs, pois estes monstros mecânicos não se admiram de nada, nem mesmo de acontecimentos quase impossíveis. Mas o fenômeno foi realmente tão rápido, que Tako já havia pegado a caixa e iniciado a volta, quando os quatro robôs se puseram a caminho, abandonando seu esconderijo.
Gucky estava exatamente escolhendo uma determinada caixa.
O barulho que ouviu às suas costas o obrigou a virar para trás. Os quatro monstros marchavam resolutos e ameaçadores na areia solta, contra ele. Dois deles se desviaram para os lados, para lhe cortar a retirada — aliás, uma coisa muito difícil, no caso de um teleportador, como veriam logo a seguir.
Gucky deixou a caixa onde estava e se teleportou a uma altura de duzentos metros, onde de novo se materializou. Suas propriedades telecinéticas lhe permitiam pairar normalmente no ar e, de lá de cima, contemplar calmamente o desenrolar dos acontecimentos.
Não era difícil perceber o que estava acontecendo.
Lá no fundo, na margem norte estavam três outros robôs de combate em posição de sentido, aguardando ordens para entrar em ação. Os goszuls na margem sul do rio estavam um pouco mais camuflados, mas Gucky os descobriu imediatamente. Devia, porém, admitir que a automatização do sistema de vigilância dos saltadores era perfeita e funcionava instantaneamente. No espaço de meia hora, tinham eles percebido sua atividade na ilha e tomado as providências cabíveis.
E Tako, que não estava a par de nada, podia voltar a qualquer momento. Gucky resolveu então tomar as contramedidas. Em vez de se desmaterializar, deixou-se simplesmente cair. Despencou como uma pedra em cima dos robôs e com um pequeno desvio caiu a quase cinqüenta metros deles, na parte leste do banco de areia. Agora ele poderia se concentrar bastante e pôr em atividade suas forças telecinéticas.
Um dos robôs de combate se ergueu no ar, sem maior esforço, antes que Gucky tivesse tempo para se virar e tomar conhecimento da situação. Subiu até uma altura de cem metros, atirando loucamente em volta e foi de tal maneira para o lado até que parou sobre a margem sul, no trecho cheio de florestas e de rochedos, onde os goszuls tinham tomado posição. Gucky não tinha propriamente tempo, mas não conseguiu vencer a tentação.
E assim, o robô não caiu imediatamente, mas executou no ar dois loopings completos, descreveu uma curva maravilhosa em cima dos goszuls, perplexos, e foi bater com extrema velocidade de encontro a uma rocha na margem, espatifando sua cabeça metálica. O resto rolou como sucata nas águas tranqüilas do rio, desaparecendo para sempre.
Chegou a vez do segundo robô.
Depois de um passeio artístico no ar, terminou também de encontro ao rochedo, apenas com a grande diferença de que ele conseguiu transformar um pedaço da rocha em lava incandescente. Isto, porém, apressou seu fim. Sibilando se precipitou nas águas do rio juntamente com um bloco de pedra em brasa.
Gucky ia se concentrar no terceiro robô exatamente quando Tako voltou. E o japonês se materializou diretamente entre os dois monstros que estavam atacando Gucky. Estava tão perplexo que nem se mexeu. Felizmente os robôs não deram muita atenção a Tako. Sua preocupação era, com toda razão, o pequeno rato-castor, o adversário mais perigoso que era necessário botar fora de combate.
A ordem recebida tinha que ser cumprida. Ainda não tinha sido transmitido o comando de matar. Os robôs em geral têm muito pouca consideração consigo mesmo, embora os robôs de combate formem uma certa exceção. Quando eles estavam em perigo de serem aniquilados pelo adversário, fundia-se automaticamente o relê de travamento e passavam então a fazer uso de suas armas mortíferas.
De volta para o navio — guinchou Gucky, que julgava ter ainda uns segundos livres. — Eu volto também, quando tudo estiver normalizado.
Tako obedeceu, desaparecendo no ar.
Gucky pensou na opinião de John a respeito da humanidade e optou por um espetáculo muito impressionante. Esperava também assim poder influenciar beneficamente os goszuls, que futuramente seriam seus aliados.
Os dois robôs de combate que ainda restavam foram transformados em dois aviões. Exatamente em cima dos goszuls, que naturalmente não compreendiam o que estava se passando e acreditavam que os deuses metálicos estavam loucos, exatamente em cima deles é que os tais aviões começaram a executar loopings, folhas-secas e os vôos rasantes assustadores. Finalmente, como ponto alto da exibição, os dois se distanciaram, fizeram uma curva de volta e se precipitaram, com velocidade extrema, um contra o outro, até se chocarem, sob enorme explosão. Enganchados um no outro, caíram os dois “aviões”, semi-fundidos, nas águas do rio, onde desapareceram.
Os goszuls acompanhavam o espetáculo com toda atenção, embora não pudessem explicar a razão de tudo. Haveriam de imaginar que os dois deuses estavam brigando e assim se destruíram. Ninguém deles chegaria à conclusão de que o animalzinho peludo no banco de areia era o responsável por tudo.
Somente o RK-071 é que chegou à conclusão tão absurda e deu a ordem de ataque e de destruição a seus colegas de aço. A partir daí, não haveria mais consideração. O mini-adversário era demasiadamente perigoso para poder ser preso.
Os monstros marcharam na direção da margem norte e não hesitaram em mergulhar no rio. Gucky percebeu o perigo. Sabia que a água não podia prejudicar o mecanismo dos robôs. Apanhou uma caixa e a teleportou para o navio.
Tako estava exatamente descrevendo para John a situação no banco de areia, quando surgiu na cabina o rato-castor. Estava bem apertado, pois Kitai e Tama já estavam de volta.
Olha ele aí — exclamou Tako com fisionomia de aliviado. — Que se passou por lá? Você fugiu?
Apesar da seriedade do momento, Gucky teve tempo de se sentir ofendido.
Fugiu...? — repetiu perplexo e encolerizado ao mesmo tempo. — Como poderia imaginar isto? Só tive um pensamento. Kitai, uma companhia inteira de goszuls está lá no rio esperando por um tratamento seu. Quem sabe você vai transformá-los em nossos bons aliados.
Uma companhia inteira? — disse Kitai arregalando os olhos. — Que podemos fazer com eles?
Muita coisa. Você vai sugerir na mente deles que devem esquecer todas as outras ordens e se dirigirem para o porto. Aqui, eles serão recebidos por nós. Tenho uma missão vital para estes irmãos.
Kitai queria perguntar ainda alguma coisa, mas um gesto de John o deixou calado. O telepata já tinha compreendido o plano de Gucky.
Kitai fará o que você disse — falou dirigindo-se a Gucky. — E os armamentos, estão garantidos?
Gucky se preparou para saltar. Fixou os olhos em Kitai que ele tinha que levar consigo e o pegou pela mão, dizendo:
Ainda não. Três robôs de combate estão lá tentando se apoderar deles. Mas eu vou botar muita pimenta nesta sopa.
Robôs de combate? — disse John horrorizado. — Como vai se desvencilhar deles?
Não se preocupe, amigo. Quatro deles eu já destruí, servindo-me de seus poucos conhecimentos de pilotagem. Mais três ou menos três, não tem maior importância.
Com esta explicação sumária e mais ou menos misteriosa, ele desapareceu; Kitai também não estava mais na cabina. Tako, julgando-se preterido, perguntou a John:
E eu? Posso também...?
Espera um pouco — resolveu Marshall. — Gucky vem buscá-lo quando precisar. A única coisa que podemos fazer é esperar.
Gucky se materializou. Não se via ainda nada dos robôs. Deviam estar ainda debaixo d’água, podendo aparecer a qualquer momento na praia do banco de areia.
Do lado de lá, na margem sul, Kitai. Os goszuls ainda estão em posição de sentido e não sabem o que pensar das maravilhas que estão presenciando. Tome conta deles e não se preocupe com o que vai acontecer aqui. É melhor você se esconder para que os robôs não o vejam.
Que robôs?
Estão brincando de submarino, mas devem emergir logo — explicou Gucky, continuando a olhar para a praia do banco de areia. — Mas, vamos embora, não temos muito tempo.
Notou a uns metros de distância da praia um redemoinho na superfície da água. O primeiro dos robôs, com sua cabeça metálica apontou fora d’água.
Gucky gostava de variar. Nada lhe era tão desagradável como a monotonia. E se ele destruísse estes três robôs do mesmo modo como os quatro primeiros, seria terrivelmente monótono.
De um momento para o outro arquitetou um plano e o pôs em execução. Lá na margem sul, havia muitas rochas separadas, que poderia facilmente comandar telecineticamente. Até que enfim o rato-castor podia brincar à vontade, como sua raça lá no Planeta Vagabundo chama a movimentação da matéria por telecinésia.
Os goszuls, que ainda não se tinham recuperado da primeira surpresa, presenciavam uma outra. Ao invés de robôs voando, havia agora rochedos flutuando no ar, em grande fila. Erguiam-se da água, na parte rasa da margem, velejavam num vôo tranqüilo ao longo do rio e se chocavam de repente contra o espelho das águas, para afundar borbulhantemente. Naturalmente, os goszuls não podiam saber que sob estes rochedos voadores havia três robôs, cujas armas poderosíssimas de nada valiam sob a água.
Finalmente surgiu uma ilha nova de pedra, bem rente ao banco de areia, completando assim o plano de Gucky. Debaixo desta ilha, sabia ele, os robôs estariam bem guardados, embora mais tarde eles conseguissem se libertar, ou talvez não. De qualquer maneira, não era preciso se preocupar com eles no momento. O fato de que os robôs soterrados pudessem transmitir à central o que acontecera com eles, também não preocupava Gucky. Foi de encontro a Kitai no esconderijo do banco de areia e perguntou:
Está tudo pronto?
Sim, penso que está. Ainda vai levar uns minutos. Tenho que percorrer toda a margem, para não escapar ninguém.
Ótimo, então continue. Vou recomeçar o transporte das caixas e apanhar Tako. Em meia hora estará tudo terminado.
Voltou às pilhas de caixas e desapareceu com uma delas. Depois que Tako voltou, incumbiu-o de transportar o resto do armamento para o navio, enquanto ele próprio tiraria do fundo do rio as últimas caixas.
Kitai, entrementes, conseguira tudo. Isto se podia ver agora, como os goszuls abandonavam sossegados seus abrigos e se punham em forma para marchar. Um deles assumiu o comando. Sem se incomodarem mais com os dois homens e com o rato-castor na ilha, tomaram a direção do litoral e começaram a caminhar. Antes da desembocadura do rio, havia uma ponte, sabia Kitai. De lá não era muito longe para o porto.
Gucky chegou.
Chegarão ao porto amanhã, ao meio-dia, e se apresentarão aos nossos — sorriu o sugestor. — Estão agindo de livre vontade e ainda levam alguns amigos, de maneira que amanhã nós temos que contar com uma bela multidão de auxiliares voluntários.
Poderemos nos utilizar deles — sorriu Gucky, pegando Kitai pela mão. — Feche os olhos, irmão, eu o levo para o navio.
Duas horas depois, todo o equipamento estava bem estocado numa das grandes cabinas da proa, para onde John e seus mutantes tinham mudado, para não deixarem largadas as preciosas caixas. Com toda calma, podiam agora examinar o conteúdo das caixas impermeáveis.
Gucky os ajudou. Apontou para a pilha de pacotes compridos e relativamente chatos, envoltos em chapas metálicas e disse:
O conteúdo é o mesmo, basta abrir uma delas.
E assim o fizeram. Quando a tampa pulou fora, os quatro olharam estupefatos para a fila dupla de bombas pequenas, do tamanho talvez de uma granada de mão. O invólucro não era de metal, mas de um material plástico de várias cores. Gucky apontando para as vermelhas:
Estas atuam muito depressa. O período de incubação da infecção é de apenas alguns dias. Dentro de uma semana, a doença irrompe. Nas outras demora um pouco mais. Aí dentro há uma lista exata.
Guerra bacteriológica — disse John, baixo, sem muito entusiasmo.
Não se preocupem — disse Gucky, demonstrando muita alegria. — Nas caixas verdes, lá do outro lado, está o anti-soro. Aliás, estamos diante da deflagração de uma guerra que vai ser muito interessante.
Uma guerra interessante? — continuou Kitai, num tom de reprovação.
Gucky sorriu feliz:
Esta será de fato interessante.
3



O bloqueio hipnótico feito por Kitai na mente de Geragk não durou muito tempo. Ele havia voltado para seu alojamento depois de terminada a descarga do navio, após haver comunicado ao robô de vigilância competente a execução do serviço. Este providenciou imediatamente a remoção da carga do barco para a rampa do espaçoporto.
Sentou-se na cama de seu alojamento, apoiou a cabeça com as mãos. Os nervos tremiam-lhe debaixo da pele bronzeada. Nos olhos mongolóides havia um piscar nervoso. Não teria esquecido alguma coisa, que lhe parecia muito importante? Alguma coisa que poderia melhorar sua situação perante os deuses?
Por mais que refletisse, não conseguia se livrar do trauma que envolvia sua cabeça como um cinturão de aço. Quando alguém bateu à porta, tremeu todo como um criminoso surpreendido em flagrante. Exatamente hoje, Ralv queria conversar alguma coisa com ele — quase se esquecera disso. Mandou o tardio visitante entrar e fechou de novo a porta. Ralv era o cabeça da organização que pretendia pôr fim no fantasma dos deuses, e aliás, com violência. Sua estatura ultrapassava a de Geragk por uns vinte centímetros. A pele, de um vermelho-escuro, exibia pêlos pretos e fortes tendões. Ralv devia dispor de uma força física descomunal.
Não se sente bem? — perguntou depois de ter sentado.
Geragk alçou os ombros.
Não sei direito como me sinto. Quem sabe é apenas o trabalho e o calor de hoje. É como se tivesse um peso amarrado na cabeça.

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