O
Grande Coordenador tomara suas providências para que também aqui o
controle não lhe escapasse das mãos. Rhodan já se convencera de
que, enquanto existisse esse posto de controle de alta potência, uma
decolagem forçada seria totalmente impossível.
No
interior do supercouraçado, os homens e as mulheres do comando não
passavam de partículas de pó num deserto. Perdiam-se na imensidão.
Tornava-se necessário recorrer aos aparelhos de radiocomunicação
para localizar alguém que estivesse andando por aí, apontando-lhe o
caminho da sala de comando.
Nesse
ponto, a gigantesca nave realmente representava uma catástrofe, por
mais sedutor que parecesse o poderio que irradiava da mesma.
Há
uma hora, Thora solicitara permissão para realizar um ensaio com os
dezoito propulsores de gigantescas proporções. A permissão só foi
concedida depois que Crest e Rhodan confirmaram que também saberiam
manipular os controles.
Naquele
momento os dezoito bocais de jato montados no anel equatorial bramiam
e cuspiam fogo. Como era usual nas naves arcônidas, toda a
aparelhagem de propulsão estava instalada nesse anel.
Quando
trabalhavam em ponto morto, as máquinas proporcionavam uma força de
empuxo que ficava cinco por cento abaixo daquela que, com a
gravitação reinante, elevaria o corpo gigantesco da nave acima do
solo.
A
conseqüência disso foi que os discos de apoio dos pés de
aterissagem, que eram verdadeiras torres, eram arrastados por vários
metros sobre o revestimento metálico da pista. Vibrações
extremamente fortes foram sentidas no interior da nave.
Concentrado
ao máximo, Rhodan estava acomodado no assento do segundo astronauta.
Tinha diante de si os mesmos instrumentos de controle que se
encontravam ao alcance da mão de Thora.
Tratava-se
da ligação de emergência ou de perigo, que apenas por um curto
espaço de tempo permitia que o controle fosse exercido por duas
pessoas. Era evidente que esse tipo de pilotagem estava acompanhado
de tolerâncias extremamente elevadas, que não poderiam ser usadas
num vôo de longa distância.
De
qualquer maneira, Rhodan descobrira que dessa forma a Veast Ark
poderia ser levada ao espaço. Todavia, as indicações dos inúmeros
autômatos de correção nunca poderiam ser controlados por duas
pessoas. Um vôo realizado com base na ligação de emergência nunca
passaria de um tatear incerto, que conduziria a situações cujo
domínio exigia uma equipe de comando bem treinada.
Imediatamente
após o início do funcionamento dos reatores, Rhodan virou-se
abruptamente. Assim que a primeira língua de fogo saiu dos bocais,
uma forte luminosidade surgiu atrás dele. O monstro blindado sob o
qual se abrigava o autômato auxiliar do grande robô, subitamente se
envolvera num campo energético de elevada potência.
Cinco
minutos já se haviam passado, desde o momento em que os reatores
foram ligados. A chave-mestra do regulador automático sincronizado
de potência estava apenas um traço acima da marca zero.
Apesar
disso, o colosso continuava a escorregar sob o efeito das vibrações,
afastando-se cada vez mais da sua posição primitiva.
Crest
guarnecia a sala principal de máquinas juntamente com quinze
técnicos. Os resultados das medições fornecidos dali eram
impecáveis.
— Um
a dezoito em perfeitas condições — soou a voz retumbante de Bell
nos alto-falantes. — Boa coordenação, tolerância de mais ou
menos 0,001 por cento. Os reguladores de empuxo começam a funcionar
com um desvio de 0,002 por cento. Propulsores em boas condições de
funcionamento. Fim.
Ao
surgir na tela, o rosto de Bell apresentava uma expressão de
nervosismo. Rhodan sacudiu a cabeça de forma quase imperceptível.
Ainda era cedo para uma fuga forçada para o espaço.
Os
lábios de Bell estreitaram-se. Sem dizer uma palavra, desligou.
— Ensaio
concluído, posição zero — soou a voz de Thora pela aparelhagem
de intercomunicação.
Rhodan
desligou. O rumorejar profundo no anel equatorial do supercouraçado
morreu. Apesar dos campos de absorção de partículas, o solo
tornara-se incandescente a uma distância de setecentos metros dos
bocais.
O
silêncio passou a reinar na sala de comando. Só os instrumentos de
controle continuavam a funcionar. Thora lançou um olhar para Rhodan.
Enquanto
ela girava a poltrona e se levantava, Rhodan procurou localizar o
mutante Wuriu Sengu, que se encontrava por ali. Ao descobrir o espia,
foi agraciado por um ligeiro aceno de cabeça.
O
ensaio das máquinas preenchera sua finalidade. Sengu, cujo dom não
era afetado por camadas de aço arcônida de um palmo de grossura nem
por campos energéticos altamente concentrados, fora encarregado de
verificar de que forma os controles da estação de bordo estavam
ligados ao cérebro central.
Tanaka
Seiko, o mutante positivo que reagia a qualquer tipo de ondas, também
estava presente. Ao que parecia, também concluíra suas
investigações.
Rhodan
voltou a dirigir o olhar inexpressivo para os controles. Subitamente,
a voz metálica do Grande Coordenador se fez ouvir:
— Mantenha-se
afastada da linha vermelha de perigo, comandante.
Thora
estacou. A coisa semi-esférica, de altura superior à de um homem,
instalada no centro da sala de comando, ainda não desligara o campo
energético. Rhodan notou o impulso diagramático tremulante numa
tela pequenina, quase imperceptível. Examinando-o mais detidamente,
Rhodan percebeu que, em algum lugar, nas entranhas da nave,
funcionava uma usina de força de menos de 80 mil quilowats-hora. O
zumbido delicado era quase imperceptível. Perdia-se em meio aos
outros ruídos.
Concluía-se
que o aparelho funcionava com a energia fornecida pelos mecanismos da
nave. Um interesse ansioso surgiu na mente de Rhodan. Memorizou
cuidadosamente o pequeno algarismo surgido na parte inferior da tela
diagramática. O mesmo só podia referir-se a uma pequena instalação
energética secundária. As usinas maiores produziam um potencial
muito mais elevado.
Tifflor
também havia percebido. Empalideceu ao olhar para Rhodan.
— Ensaio
concluído — disse Thora, dirigindo-se ao receptor invisível do
autômato. — Daqui a dez dias, poderei arriscar a primeira
decolagem. Até aqui as reações dos meus tripulantes foram
excelentes. Aliás, nem era de esperar que fosse diferente com
zeklons da guarda do velho Imperador submetidos a um aprendizado
hipnótico. Gostaria de realizar um ensaio das usinas energéticas.
Aguardou
a resposta. Um ligeiro zumbido foi ouvido na cúpula de aço.
— Permissão
concedida — decidiu o cérebro no seu estilo lacônico e
indiferente.
Thora
voltou. Rhodan estabeleceu o contato audiovisual com a segunda equipe
técnica que, sob a direção de Rous, guarnecia a central energética
principal.
Com
isso, os postos mais importantes da nave estavam guarnecidos. O
sargento chamou.
— Reatores
um a oito em ordem, iniciado o processo de aquecimento —
transmitiu.
Poucos
segundos depois, os reatores nucleares arcônidas iniciaram seu
processo de fissão nuclear, análogo ao do sol, que se realizava com
base na catálise do carbono. Estrelas artificiais surgiram no
monstro de muitos metros de altura, cuja energia era captada pelos
conversores acoplados e conduzida diretamente aos circuitos sem fio,
que faziam funcionar as máquinas e instalações da nave.
Os
reatores de números um a oito entraram em funcionamento com
intervalos de dez segundos. No fim, o supercouraçado era um
verdadeiro monstro prenhe de energia.
Rhodan
viu confirmado o relato do teleportador, segundo o qual a Veast Ark
estava plenamente equipada e pronta para decolar. O que o incomodava
era apenas o poderoso comando de robôs de combate, que ingressara na
nave juntamente com os tripulantes humanos.
Rhodan
trocou um olhar ligeiro com Thora. Esta empalideceu no momento em que
ligou o compensador de gravitação. Um rugido terrível penetrou até
a sala de comando. Dos instrumentos de medição, concluía-se que o
suprimento de energia aos projetores fora regulado pelo mecanismo
automático para o valor de 1,3 g.
No
mesmo instante, o ruído dos geradores cessou. Uma campainha
estridente rompeu o silêncio. Linhas vermelhas surgiram na tela do
autômato.
— Não
concedemos permissão de usar os compensadores — soou a voz
retumbante saída do aparelho.
Não
houve outra advertência, e a voz não parecia muito ameaçadora. Mas
o simples fato da interrupção abrupta do funcionamento dos
geradores demonstrava o grau extraordinário de vigilância daquele
cérebro, ocupado simultaneamente numa infinidade de outros
problemas.
Thora
anunciou o encerramento dos ensaios programados para aquele dia.
— Permissão
para o encerramento concedida — soou a frase estereotipada. —
Atenção para a interpretação de sua atividade. Face ao excelente
desempenho de sua tripulação, convém colocar a bordo as tropas
auxiliares já preparadas. Mil e quinhentos naats devidamente
instruídos subirão a bordo dentro de quatro horas. Ficarão
submetidos ao seu comando. Prossiga na instrução teórica dos seus
zeklons. Fim.
Rhodan
não conseguiu reprimir uma vigorosa praga. Com o rosto pálido,
olhou para o autômato auxiliar que media pelo menos dez metros de
diâmetro e executava com tamanha rapidez e precisão as ordens da
estação a que estava subordinado.
— Era
só o que faltava — cochichou Rhodan para a arcônida. — Não tem
um meio de impedir que os naats sejam colocados a bordo?
Thora
ergueu os ombros, desolada. Para uma arcônida o gesto era muito
humano.
Os
comandos vigorosos de Tifflor suplantaram a palestra. As vinte
pessoas que se encontravam na sala de comando levantaram-se. Marshall
lançou um olhar saudoso para a sala de rádio, que estava separada
por uma parede blindada transparente.
Não
tinham nada a fazer por lá. Por enquanto o treinamento só abrangia
os setores mais importantes.
Thora
passou pelos homens que faziam continência. O reluzente campo
energético que cercava a estação retransmissora se desfez. Rhodan
arriscou um ligeiro olhar para o indicador de potência do pequeno
gerador. A curva já se apagara.
As
escotilhas de segurança de vários metros de grossura, feitas de aço
arcônida, abriram-se diante deles. O ventre mecânico da gigantesca
nave escancarou-se diante dos homens que saíam da sala.
Dois
guardas robotizados fizeram continência, atirando os braços armados
para cima. Wuriu Sengu espremeu-se ao lado de Rhodan. Os outros logo
compreenderam. As discussões em torno deste ou daquele acontecimento
tornaram-se mais ruidosas e violentas.
— É
uma coisa estranha — disse o robusto japonês em tom exaltado. —
Olhei aquela coisa de todos os lados e até pelo avesso. Não há
nenhum cabo que chegue até lá.
— Não
tem nenhuma ligação por cabo? — disse Rhodan, surpreso e
perplexo. Seu cérebro infatigável começou a funcionar.
— Será
possível? Constatei que o robô recebe seu suprimento de energia de
uma fonte instalada no interior da nave.
— Não
há nenhum cabo — insistiu o espia. — Mas o aparelho dispõe de
suprimento de energia próprio. Vi nitidamente um minigerador.
Rhodan
engoliu uma praga. O nervosismo começou a martirizá-lo.
— Conheço
a explicação — cochichou Tanaka Seiko, o goniômetro, enquanto se
aproximava. — No momento em que o campo energético foi ativado,
registrei um fluxo energético sem fio. Veio de baixo. A interrupção
no funcionamento das máquinas foi levada a efeito por meio de
impulsos de rádio transmitidos pelo intercomunicador numa freqüência
absolutamente estranha. Trata-se de ondas hipermoduladas, que saltam
a grandes intervalos sobre a escala de freqüências. Não é
possível esquematizá-las.
Rhodan
parou, perplexo. Então era isso!
— E
o reator embutido no aparelho? Entrou em funcionamento? — perguntou
com a voz tensa.
— Não
senhor, tenho certeza absoluta. Acredito que só será usado numa
emergência.
Rhodan
e seu grupo entraram no grande corredor circular que contornava a
sala de comando numa curva bastante ampla, dali havia conexões
radiais com o convés central, cuja área bastava para abrigar todos
os alojamentos dos tripulantes.
Passaram
pelo poço antigravitacional do elevador central, que emitia uma leve
fosforescência, seguindo os que iam à frente. Rhodan viu-se
novamente em meio aos seus homens.
— Prestem
atenção — disse falando apressadamente e em voz baixa. — Não
adiantaria interromper o suprimento de energia. O robô de controle
está equipado com gerador próprio. Ivã, logo após o jantar você
terá que procurar um esconderijo na sala de comando, que não possa
ser captado por qualquer circuito de televisão. Fique por lá. Se
alguma coisa não der certo, essa sala provavelmente será a primeira
a ser trancada. Leve um microrrádio. Assim que receber a minha
ordem, você destruirá aquilo juntamente com a cúpula de aço,
procedendo de forma a não demolir todas as instalações.
O
mutante de duas cabeças levantou as mãos. Era a única pessoa capaz
de destruir o mecanismo de controle numa ação totalmente
inesperada.
Antes
de entrarem na sala da tripulação com as numerosas telas, os homens
estavam devidamente informados. Cada um conhecia o lugar em que devia
apresentar-se.
Rhodan
penetrou na ampla e confortável sala de refeições. Gucky, que há
quatro dias arcônidas não fazia outra coisa senão saltar de um
recinto para outro, dedicando uma atenção toda especial aos
depósitos de armamentos, estava agachado em atitude melancólica
junto a janelinha pela qual era servida a comida. Sem dizer uma
palavra, Rhodan pegou o sujeitinho na altura dos quadris e o
suspendeu no braço esquerdo. Gucky chiou de prazer.
Em
meio a uma conversa tola, cochichou suas informações:
— Está
completamente armada, chefe. Bombas arcônidas, radiadores de
impulsos e desintegradores. Só os depósitos de mantimentos não
estão cheios. Não existe praticamente nenhum lugar ao qual não
tenha ido.
— Onde
estão os robôs de combate?
— No
convés dois, lá embaixo, pouco acima da comporta inferior. Contei
trezentos. Ainda há uns vinte e cinco que montam guarda aqui em
cima. São máquinas pesadas, chefe!
Rhodan
e seus oficiais sentaram em torno de uma mesa grande. Thora e Crest
retiraram-se para a sala especial que lhes era destinada. Como
arcônidas que eram, não podiam rebaixar-se a ponto de comerem na
mesma sala dos zeklons.
Rhodan
comia automaticamente. Seus pensamentos estavam longe dali.
— Marshall
— soprou para dentro do aparelho implantado em sua garganta, sem
mover os lábios. O telepata respondeu. — Preste atenção aos meus
pensamentos. Ainda não estou em condições de transmitir
livremente. Compreendeu?
Como
por acaso, Marshall ergueu a mão. Rhodan continuou a comer como se
nada tivesse acontecido.
“Mande
seus três teleportadores prepararem desintegradores portáteis.
Devemos contar com um ataque dos robôs. Quando a hora tiver chegado,
os teleportadores e os telecinetas deverão ser os primeiros a
atacar. Reúna seus homens e mantenha desimpedido o convés central
até que tenhamos chegado à sala. Acha que conseguirá?” Mais uma
vez o telepata respondeu com um ligeiro sinal.
A
conversa tornou-se cada vez mais forçada e vazia. Numa e noutra das
mesas começaram a soar gargalhadas pouco autênticas. Ninguém
deixara de perceber a conversa muda, e todos haviam ouvido que,
dentro de quatro horas, 1.500 ciclópicos naats seriam levados a
bordo.
Era
claro que não poderiam aceitar mais esse tipo de dificuldade.
— Tan’Ro,
acabo de ser informada de que em breve deverão chegar cinco mil
robôs pesados de combate da última série. O Grande Coordenador
julga conveniente avisar os naats, que chegarão logo após, de que
qualquer rixa será imediatamente punida. Como lugar-tenente do
comandante, você deverá colocar os robôs nos depósitos a eles
destinados. Entendido?
— Entendido,
Alteza — disse Rhodan com o rosto pálido e a voz débil.
A
expressão de desespero nos olhos de Thora era inconfundível.
— Mais
uma coisa — disse com a voz entrecortada. — Pedem que, uma vez
terminado o carregamento dos robôs, você compareça ao pavilhão de
exames. Ordenaram nova investigação no seu cérebro. Não será
dolorosa. Você voltará imediatamente. Pretendo realizar mais um
ensaio de máquinas. Fim.
A
imagem na tela empalideceu. Rhodan sentou lentamente. Por alguns
segundos, reinou um silêncio completo no salão, em que cabiam
quinhentas pessoas.
— Quer
dizer que os robôs chegarão, o mais tardar dentro de três horas.
Vamos terminar a refeição e concluir os preparativos.
O
sargento Rous foi o primeiro a afastar a louça de plástico.
Pigarreando fortemente, convocou os homens de sua equipe técnica. O
rosto de Anne Sloane apresentava uma palidez cadavérica. Era
evidente que, se não poderiam aguardar a entrada de 1.500 ciclopes,
muito menos poderiam esperar a chegada de 5 mil máquinas de guerra
pesadas. Se necessário, poderiam enfrentar os primeiros, mas nunca
um número tão grande de máquinas que cumpririam prontamente
qualquer ordem do cérebro central.
Bell
apalpou cuidadosamente o bolso interno de sua blusa colorida. Isso
significava que os dados de uma transição ligeira que os levaria ao
quinto planeta já haviam sido programados. Isso fora feito com o
auxílio do microcalculador que, apesar do perigo que isso
representava, fora trazido dos depósitos da Gazela.
Não
se poderia correr o risco de utilizar um dos inúmeros instrumentos
de bordo. Era um plano desesperado, que se tornava cada vez mais
arriscado, à medida que aumentava a dependência temporal.
— Apresse-se!
— insistiu Rhodan. — Vamos proporcionar-lhes uma recepção
condigna.
8
Mal
saíram para o largo corredor que dava para a sala de comando,
aconteceu alguma coisa com que nem Rhodan, nem qualquer dos outros
homens do grupo contavam, principalmente num momento tão crítico.
O
aparelho de minicomunicação guardado sob a blusa de Rhodan emitiu
um zumbido estridente. Estava regulado apenas para uma freqüência
bem determinada, por isso não poderia tratar-se de uma transmissão
ocasional. Ouviram-se três zumbidos; depois houve uma ligeira pausa,
seguida de cinco zumbidos.
Os
dedos de Rhodan abriram apressadamente a vestimenta. O minúsculo
instrumento apareceu.
— É
a Terceira Potência que está falando — soou uma voz apressada.
Somente o coronel Freyt, comandante da Ganymed, poderia conhecer o
sinal convencionado. Recebera instruções para só acionar os
potentes transmissores da nave num caso de extrema emergência ou
perigo.
O
rosto de Freyt surgiu na minúscula tela de imagem.
— Graças
a Deus, o senhor ainda está vivo — soou a voz vinda do
microalto-falante. — Ocorreu a hipótese Crepúsculo. Um comando de
busca chefiado pelo naat Novaal descobriu que o senhor, Crest e Thora
não se encontram a bordo. Novaal vai denunciar o fato. Orientei as
antenas direcionais exatamente para Árcon I, II e III. Esperava
encontrá-lo em algum lugar. Corremos um perigo enorme. Se o cérebro
robotizado raciocinar logicamente, tudo estará perdido.
Rhodan
contorceu ligeiramente os músculos da face.
— Obrigado
— fungou. — Fim. Aguarde-me dentro de trinta minutos. É possível
que demore mais um pouco. Chegaremos num super couraçado. Prepare o
plano Vesúvio. Teremos de arriscar tudo.
Os
homens ficaram em atitude tensa.
De
uma hora para outra, surgiram as armas que haviam sido guardadas nos
alojamentos e foram passadas de mão em mão.
— Não
podemos perder tempo; está na hora — disse Rhodan apressadamente.
— Todos a postos. Ivã, saia correndo. Você tem que dar um jeito
de entrar na sala de comando. O cérebro só levará poucos segundos
para descobrir quem somos. Os elevados quocientes intelectuais pelo
menos o levarão a realizar um controle. O fato de que lá
desapareceram vinte e cinco homens do nosso tipo logo provocará a
desconfiança do robô. Gucky, salte para o depósito de armamentos
juntamente com os outros teleportadores. Bell, entregue a fita de
programação a Tifflor. Ele se encarregará da transição. Vamos
logo, Ivã!
As
últimas palavras terminaram num berro. Lá adiante o vulto
gigantesco do mutante dobrou por um canto do corredor.
Gucky,
Ras Tschubai e Tako Kakuta dissolveram-se no mesmo instante. Sabiam
perfeitamente de que armas precisariam para enfrentar um ataque de
robôs.
Os
outros homens saíram em disparada, num silêncio paradoxal. Era uma
corrida contra o tempo. Se o naat já tivesse transmitido seu aviso,
o cérebro robotizado agiria com uma coerência implacável. E o
estranho ser peludo seria reconhecido imediatamente.
Rhodan
correu. Correu com o peito ofegante e as pernas apressadas em direção
à sala de comando. Thora e Crest apareceram, vindos de um corredor
lateral. Foi nesse momento que soou o alarma. Um apito estridente
começou a soar. Outros juntaram-se a ele.
No
momento em que Rhodan passava pelo elevador central, as escotilhas
blindadas da sala de comando fecharam-se mais à frente. Com um forte
estalo abriram-se os campos protetores energéticos destinados a
oferecer proteção adicional. Sua luminosidade azulada fez
empalidecer as luzes normais.
— Para
trás! — gritou Thora apavorada.
No
último instante, Rhodan conteve o salto.
— Ivã
está lá dentro — gritou Wuriu Sengu, que se encontrava mais
atrás. — Eu o vejo.
Respirando
pesadamente, Rhodan empurrou os homens para trás, até a altura do
elevador. O berreiro das instalações de alarma ainda enchia os
recintos amplos do supercouraçado.
Ao
fecharem-se, as escotilhas haviam atirado Ivã Goratchim ao solo. As
duas cabeças comunicaram-se com um grito. Mais adiante, a uns
quarenta metros do lugar em que se encontravam, o campo energético
especial do controlador automático se inflamara. O instrumento se
regulara para o suprimento energético de emergência.
As
cabeças concentravam-se. A expressão dos grandes olhos tornou-se
mais intensa. Os impulsos mentais invisíveis de nível superior
atravessaram facilmente a estrutura energética do campo protetor.
O
primeiro composto de carbono foi descoberto no próprio envoltório
blindado. Ivã preferiu não atacar essa concentração de átomos.
Isso levaria a uma explosão devastadora.
Na
solda de uma das ligações de energia, seus olhos descobriram
vestígios de cálcio.
— Isso!
— gemeu a cabeça da esquerda. — Não é demais. Tudo preparado?
Um
impulso poderoso atravessou a barreira energética e a abóbada
blindada. Apenas uns poucos átomos de cálcio foram atingidos pelo
processo.
Ivanovitch,
o jovem, soltou um grito estridente. Contrariando a vontade do outro
cérebro, os dois braços do corpo desengonçado cobriram os olhos
ofuscados. O colosso caiu pesadamente para a frente.
Uma
ofuscante incandescência branca saiu do autômato. A chama subiu até
o teto abaulado, atingindo o parapeito circular e causando graves
avarias em alguns instrumentos de interpretação astronômica ali
instalados.
A
abóbada blindada de aço de Árcon não se desfez nos seus
componentes. Mas no centro da mesma, apareceu uma fenda de um palmo
em cujo interior fervilhava o material derretido. O campo energético
desmanchou-se numa luminescência bruxuleante. O alarma automático
de fogo logo passou a desenvolver sua atividade febril.
Os
estridentes apitos de alarma deixaram de funcionar. As lâmpadas
vermelhas voltaram a acender-se sobre as portas blindadas da sala de
comando, que continuavam fechadas. As instalações comuns da nave,
que já não estavam sujeitas à influência do controlador
automático, imediatamente voltaram a desempenhar suas funções.
Ivanovitch
gritou. Seu irmão mal e mal conseguiu arrastar o corpo da trajetória
da porta interna que se abria.
Rhodan
saltou para o recinto, com a arma engatilhada. Uma vez desaparecida a
cortina energética, o mecanismo que abria a porta funcionou sem
problemas.
Os
lampejos ainda saltavam da abóbada rompida. Uma terrível onda de
calor recebeu os homens que se aproximavam apressadamente. O fedor
dos isolamentos carbonizados fez com que também a aparelhagem de
condicionamento de ar entrasse em estado de alarma.
Rhodan
cobriu o rosto com as mãos e saltou para dentro do assento de piloto
de encosto alto. Atrás de suas costas, surgiam inofensivos robôs de
reparos, controlados exclusivamente pelos mecanismos automáticos da
própria nave.
Os
bocais do equipamento de incêndio chiaram ao espalharem os produtos
químicos que pelo simples contato produziam o congelamento dos
pontos atingidos pelo incêndio. Momentaneamente uma temperatura mais
amena começou a reinar na sala de comando.
— Thora,
controle as usinas energéticas — gritou Rhodan. — Ativar os
campos defensivos. Rápido!
Os
dedos trêmulos de Thora manipularam os controles.
O
sargento Rous avisou que a nave estava pronta para decolar. Fazia
algum tempo que chegara ao posto de controle das máquinas. Os
alto-falantes de bordo transmitiram os primeiros rugidos dos disparos
energéticos de alta potência.
Marshall
e Sengu colocaram sobre as pernas o mutante monstro, que gemia
deitado no chão. Não podiam prescindir de Ivã.
As
enormes telas de visão global iluminaram-se diante de Rhodan. No
mesmo instante, os grupos de geradores de números um a quatro
começaram a funcionar.
Uivando
fortemente, logo desenvolveram a potência máxima.
Quando
os projetores de campo superpesados começaram a absorver a energia
liberada, o gigantesco espaçoporto transformou-se num fim de mundo.
Um
tremendo fluxo de energia espalhou-se vertiginosamente pelo corpo
esférico do couraçado.
As
placas de aço de vários metros de grossura que serviam de pavimento
ao campo de pouso, transformadas em matéria gaseificada, foram
atingidas pelo campo de defesa hipermagnético e atiradas
violentamente para fora.
O
hipercampo que servia à defesa contra objetos materialmente estáveis
avançou até alcançar um raio de cinco quilômetros. As naves mais
próximas foram agarradas por forças invisíveis e impelidas com
tamanho ímpeto que até parecia que estavam decolando mediante o uso
de toda a potência dos propulsores.
Uma
área de dez quilômetros de diâmetros foi atingida pelos campos
defensivos do supercouraçado. Não deixaram nada nos seus lugares.
Nos pontos em que as energias tocavam o solo, descargas quilométricas
subiam aos céus de Árcon. Os destroços incandescentes choviam,
transformados em raios. Longe, um pequeno cruzador explodiu numa
incandescência ofuscante. Era uma explosão nuclear espontânea, que
só poderia ter sido causada pela reação das armas de bordo.
Um
furacão de fogo rugiu sobre a área. Mais e mais construções e
veículos espaciais foram atingidos pelas labaredas, e os destroços
incandescentes continuavam a subir às camadas superiores da
atmosfera.
Os
grupos de reatores de números cinco a oito também estavam
funcionando. Rous aumentou violentamente o desempenho dos gigantescos
geradores. Um mar de lava começou a ferver em tomo da nave, mas esta
não foi atingida por qualquer onda de compressão.
Rhodan
ouviu seu próprio berro. Não sabia o que estava gritando no seu
acesso de entusiasmo. Era a excitação dos últimos dias que
encontrara um meio de expandir-se.
Thora
anunciou que o campo antigravitacional e os neutralizadores de
pressão estavam funcionando. Com isso, poderiam dispor de toda a
potência dos reatores.
Os
propulsores demoraram muito mais a entrar em funcionamento. Bell e
Crest, que se encontravam no posto de controle dos mesmos,
transmitiam as informações em tom extremamente nervoso. O propulsor
número 16 parecia gaguejar. O processo de fusão nuclear fora
iniciado sem que as máquinas estivessem aquecidas.
Dentro
de poucos segundos também essa máquina acompanhou o rugido do
conjunto que trabalhava em ponto morto.
Num
gesto violento, Rhodan baixou a chave de decolagem automática e
ligou o dispositivo de emergência destinado à pilotagem manual.
As
luzes verdes dos controles de emergência confirmaram que o autômato
central entrara em funcionamento. Dali em diante, poderiam contar com
o mecanismo de alta potência de compensação positrônica. Pouco
importaria a forma de decolagem: a aparelhagem auxiliar seria mantida
constantemente na regulagem adequada. Isso acontecia principalmente
com o mecanismo destinado à eliminação das forças de inércia
desencadeadas durante o processo de decolagem.
— Vamos,
decole! — gritou Thora. — O que está esperando? Decole logo!
Olhando
para as telas de visão global, Rhodan só viu um mar de fogo branco
e ofuscante. Fora uma loucura final ativar os gigantescos campos
energéticos no interior de uma atmosfera densa. E era ainda mais
louco envolver neles um corpo em repouso.
Um
terrível furacão de calor, mais violento e devastador que as ondas
de compressão provocadas por uma explosão nuclear, rugiu sobre a
área.
Junto
aos campos energéticos, o ar entrou em incandescência. O vácuo
aumentava de intensidade, enquanto perdurava o aquecimento forçado.
Até parecia que Árcon III teria que submergir num inferno.
“E
olhe que apenas ativei os campos defensivos”,
pensou Rhodan num instante. Logo colocou as chaves conjugadas dos
propulsores na posição de decolagem.
Depois
de três segundos as ligações sincronizadas passaram ao verde.
Com
um rugido surdo, o gigante esférico desprendeu-se do mar de fogo que
surgira no lugar em que antes havia chapas de aço.
Liberada
do seu peso em virtude do eficientíssimo campo antigravitacional, os
propulsores apenas tiveram que movimentar o gigante e vencer a
resistência do ar.
O
campo de pouso foi recuado. Dentro de dois segundos atingiram uma
altitude de cinco mil metros.
— Cuidado!
— gritou Tifflor, abrigando-se imediatamente atrás de um aparelho.
Um
raio térmico desprendera-se da abóbada energética bem visível do
robô gigante. No momento em que a vista o captou, já percorrera a
distância até a nave.
Uma
luz ofuscante brilhou nos campos energéticos da Veast Ark. Um rugido
surdo interrompeu os ruídos dos propulsores. O supercouraçado
rechaçara o raio mortal com tamanha facilidade que o impacto mal
chegou a ser registrado.
— Que
nave formidável! Que nave formidável! — gritou Rhodan. —
Tifflor, ligue o autômato da transição. Entraremos na rota de
salto.
A
nova aceleração que Rhodan imprimiu à nave foi suficiente para
transformar esta num vulto fugaz. Começou com a cifra de cem
quilômetros por segundo. O intenso deslocamento de ar provocou novo
furacão.
O
que ficou para trás foi uma paisagem incendiada. A abóbada
energética do cérebro, que continuou intacta, era o único vestígio
das enormes construções e dos gigantescos estaleiros que antes
cobriam a área.
Depois
de menos de dois segundos, o brilho ofuscante desapareceu
repentinamente diante dos campos defensivos. A Veast Ark acabara de
atravessar as camadas superiores da atmosfera e ingressara no espaço
vazio.
Imediatamente,
Rhodan deu o desempenho máximo aos propulsores. Nunca ouvira um
rugido tão violento produzido por uma aparelhagem desse tipo.
A
irradiação de impulsos expedidos à velocidade da luz fez com que o
supercouraçado avançasse ainda mais rapidamente. Com uma aceleração
de 600 Km/seg2
disparou pelo espaço.
Tifflor
trabalhou febrilmente na programação, que só agora se tornou
possível.
Ao
lado dele, Thora introduziu a rota de aproximação, também
calculada com antecipação, no dispositivo positrônico de pilotagem
automática. Por enquanto, a nave ainda se deslocava ao acaso pelo
espaço vazio.
— Onde
estão os dados? — gritou Rhodan.
Uma
imagem surgiu na tela. O rastreador automático, que logo começou a
funcionar, indicou dois couraçados da classe Império.
As
naves dispararam todas as peças. Cinco impactos, que teriam
significado a destruição imediata de qualquer outra nave, atingiram
simultaneamente os campos defensivos. Um ligeiro solavanco do corpo
da nave foi o único sinal do ataque mal sucedido.
Após
isso desapareceram imediatamente. As naves da classe Império só
conseguiram acelerar à razão de 500 Km/seg2,
enquanto o gigante do espaço dirigido por Rhodan atingia a marca dos
600 Km/seg2.
Nas
telas de imagem, que finalmente começaram a mostrar contornos
nítidos, surgiu o negrume infinito do espaço. Só depois de alguns
segundos, os olhos ofuscados conseguiram distinguir o brilho
formidável dos sóis muito próximos.
— Ligar
o piloto automático — gritou Thora. Estava próxima a um
esgotamento total. Rhodan aguardou o sinal verde do piloto
automático. Quando veio, moveu uma chave que desligou a direção
manual.
Um
tremendo rugido fez a Veast Ark estremecer. Num movimento que quase
chegava a ser brusco demais para os compensadores de pressão, a
esfera foi arrancada de sua trajetória.
A
manobra de adaptação que foi seguida por uma força de quase 4g
atravessou os compensadores. Thora, atingida pela súbita gravitação,
caiu ao solo. Tiff ajoelhou-se abruptamente.
— Já
passou — gemeu Rhodan com o primeiro riso descontraído de seu
rosto. — Já passou.
Seguiu-se
um último empuxo de correção. O marcador de rota foi entrando no
círculo de programação. Uma vez atingido, parou. O supercouraçado
da classe Universo estava na rota correta.
Rhodan
ia enxugar a testa quando recebeu a informação vinda de baixo. Bell
havia abandonado seu posto.
— Finalmente
estamos em cima. Que coisa linda! Resta saber quanto tempo durará
isso. Nossos amigos de quatro braços, não reagem bem aos disparos
das nossas armas. Atravessam o teto e vêm subindo. A todo instante
surge um deles no lugar em que menos se espera. Já paralisei os
elevadores antigravitacionais. Ficar-lhe-ei muito grato se você
puder dispensar alguns dos seus homens.
Rhodan
conhecia essa linguagem intencionalmente relaxada. Sempre que Bell se
exprimia dessa forma, estava prestes a sucumbir.
Rhodan
mandou que todos os homens que pudessem ser dispensados descessem. Os
mutantes já travavam uma luta encarniçada contra os robôs
desalmados, que evidentemente não tinham a noção da morte.
Postos
de comando dos mais importantes foram desguarnecidos.
— Mande-os
vestir trajes espaciais resistentes — acrescentou Bell. — O rosto
que aparecia atrás do capacete estava enegrecido. — A temperatura
média por aqui, às vezes, chega a trezentos graus, apesar do
sistema de condicionamento de ar que está trabalhando a plena carga.
As
ordens de Rhodan precipitavam-se. Faltavam uns quatro minutos para o
início da transição. Tiff anunciara que estava tudo preparado. A
programação elaborada por Bell fora introduzida num autômato
encarregado do hipersalto.
— Thora,
faça o favor de expedir um impulso condensado pelo hipercomunicador,
dirigido ao coronel Freyt. Repita, por quatro vezes, a palavra
minhocão.
Solicite confirmação.
Depois
de ter posto o transmissor a funcionar, repetiu apenas três vezes a
palavra convencionada. Freyt confirmou com um pio de um décimo de
segundo.
Já
sabia que dentro de três minutos, tempo standard, Rhodan efetuaria a
transição.
Nos
conveses inferiores, rugia a batalha de robôs. Menos de quarenta
humanos e um rato-castor lutavam contra máquinas de guerra dotadas
de reações instantâneas, cuja única ambição parecia consistir
em desmanchar em cinzas qualquer ser orgânico que se encontrasse a
bordo.
Era
duro, para falar a verdade, duro demais. Até mesmo os velhos
combatentes da batalha de Vega reconheceram isso.
Os
teleportadores e telecinetas realizaram um trabalho imenso. Ivã
Goratchim destruía uma máquina após a outra, fazendo com que se
derretessem de dentro para fora. Sabia perfeitamente em que ponto dos
cérebros que os dirigiam encontraria vestígios mínimos de carbono.
Por sorte cuidara disso em tempo.
— Trinta
segundos para a transição — soou a voz de Rhodan pelos
alto-falantes embutidos nos capacetes. — Doze, sete, um, vamos...
O
campo estrutural formado de um instante para outro envolveu a nave.
As naves da frota robotizada, que seguiam à pequena distância,
registraram os fortes solavancos de uma alteração estrutural que se
iniciava. Mais algumas unidades menores foram danificadas.
A
Veast Ark, nova em folha, que apenas realizara alguns vôos de
experiência, iria realizar a primeira transição.
Rhodan
ainda sentia a dor na nuca. Logo depois disso, começou o sussurro
indefinido do hiperespaço, que absorveu a unidade energética
totalmente desmaterializada. Neste ponto, cessavam as leis do espaço
normal.
Rhodan
viu fenômenos luminosos confusos. Os combates travados a bordo do
supercouraçado tiveram que ser suspensos, por alguns segundos.
9
O
rosto anguloso do coronel Freyt passara por uma estranha
transformação. Parecia uma careta de palhaço de segunda categoria.
— Vem
com um supercouraçado — repetiu a informação do
rádio-telefonista. — Com um supercouraçado?
— Sim
senhor! — fungou o homem. Também parecia um tanto abalado.
— Que
droga! — exclamou Freyt do fundo da alma, tateando à procura de um
lugar para sentar.
Gastou
exatamente oito segundos para digerir a notícia surpreendente. Se o
chefe disse que viria num supercouraçado depois de ter decolado numa
minúscula Gazela, isso levaria qualquer psiquiatra, dotado de senso
de objetividade, a comprimir os botões de alarme com os dedos de
ambas as mãos.
Freyt
não era psiquiatra, embora fosse um bom psicólogo. E, como
conhecesse Rhodan, há bastante tempo, admitia a possibilidade
daquilo que parecia impossível.
Quando
os oito segundos haviam passados, virou-se rapidamente na banqueta
giratória.
— Será
que essa mensagem pelo hiper-comunicador poderia ser um truque? —
perguntou apenas por uma questão de forma.
— Não
foi nenhum truque. Foi o chefe em pessoa.
As
solas de plástico dos sapatos de Freyt rangeram quando o mesmo
atravessou apressadamente a comporta blindada que separava a sala de
rádio da sala de comando. Em poucos segundos os homens que
cochilavam nos postos de combate ouviram um berreiro. O rosto febril
de Freyt surgiu em todas as telas.
— O
comandante para todos — soou a voz retumbante dos alto-falantes. —
Ficaremos em rigorosa prontidão. Preparar as torres de canhão para
serem escamoteadas. Neste instante, entra em vigor o plano Vesúvio.
Fechar os trajes espaciais e ligar os rádios de capacete. Partida
dentro de aproximadamente trinta minutos, tempo de bordo. Atenção,
sala de máquinas: preparar nave para decolagem de emergência.
Oficial de armas: apontar canhões para os alvos já identificados.
Assim que as torres forem escamoteadas, os canhões deverão ser
disparados. Se os projetores dos campos de sucção não forem
destruídos no primeiro ataque, nunca conseguiremos sair daqui.
“Atenção,
tripulação do transmissor: orientar o aparelho para a grande torre
de tele direção situada ao sul do espaçoporto. Uma bomba de fusão
de vinte quilotons será suficiente, desde que exploda no interior da
torre.
“Central
energética: colocar todos os reatores em funcionamento. Quando o
chefe chegar, os campos defensivos terão que ser ativados dentro de
um segundo. Sairá do hiperespaço depois de uma transição a
pequena distância; provavelmente aparecerá a pouca distância do
planeta. Sabem perfeitamente o que nos poderá acontecer se nessa
oportunidade estivermos sem os campos defensivos.
“Para
sua informação: o chefe aludiu à sua chegada num supercouraçado.
Face a isso, poderemos esperar ao menos uma nave da classe Império.
Portanto, não se assustem se, de repente, avistarem um verdadeiro
monstro. Confirmem o recebimento.”
Nunca
se vira tamanha correria no interior da Ganymed, desde que a mesma
passou a ser tripulada por seres humanos.
Jogos
de baralho foram atirados aos cantos, rações comidas pela metade
caíam ao chão. Face à prontidão simples já reinante, os postos
levaram menos de três minutos para anunciar que tudo estava
preparado.
Os
canhões de desintegração giraram no interior das torres. Quando
fossem escamoteados, não haveria necessidade de fazer pontaria antes
de atirar.
O
primeiro oficial da artilharia passou as pontas dos dedos pelo
“teclado”
de fogo. As luzes verdes se acenderam uma atrás da outra.
O
funcionamento do transmissor fictício era autônomo. Na tela,
aparentemente simples, surgiu a torre de mais de quinhentos metros de
altura em que se localizavam as instalações de comunicação e tele
direção. No interior da mesma, havia sido localizada a sala de
comando dos projetores do campo de tração.
Antes
da partida de Rhodan, os mutantes haviam assinalado a localização
exata das máquinas subterrâneas. Em meio ao círculo assim traçado,
encontrava-se a Ganymed, apoiada sobre as aletas de popa.
Máquinas
começaram a zumbir. Dez minutos depois da mensagem de Rhodan,
transmitida pelo hipercomunicador, não havia mais nada que pudesse
ser corrigido ou melhorado.
Quase
mil homens aguardavam ansiosamente o momento decisivo. Os rádios de
capacete garantiam a comunicação radiofônica com todos os
tripulantes. Freyt mandou que o receptor da nave fosse sintonizado
para os transmissores de capacete. Dessa forma, todos ouviriam quando
chegasse a grande notícia.
Freyt
sabia que, antes do salto, Rhodan ainda forneceria outras indicações.
Os segundos transformaram-se em eternidades, que pareciam
desdobrar-se. Justamente nesse instante, a ligação especial com o
oficial de comunicações do planeta Naat começou a funcionar.
Freyt
fugiu apressadamente para um canto e fez um sinal. O tenente Tanner,
um tipo moreno e ágil, colocou-se tranqüilamente diante do
receptor. Na tela, surgiu o rosto redondo do naat com seus três
olhos. Envergava o uniforme de comandante de couraçado.
— O
comandante Perry Rhodan já voltou da tal da excursão? — perguntou
o ser estranho em tom irônico.
— Deverá
voltar daqui a uma hora, aproximadamente — respondeu Tanner com a
maior indiferença. — Pode acreditar que o comandante apenas saiu
para andar um pouco. Não agüentava mais ficar preso na nave.
— Bem,
veremos. Onde está o representante de Rhodan?
— Está
tomando um banho.
— Está
fazendo o quê?
— Está
se limpando. Raspando a sujeira da pele. Entre nós isso costuma ser
feito com água e detergentes.
— Que
loucura! — exclamou o naat, filho de um mundo ressequido. — A
água serve para beber. O senhor pôs em funcionamento as máquinas
da nave. Por quê?
— Não
queremos que enferrujem. E os tripulantes têm que ficar em
movimento. Permite uma pergunta? Onde está o senhor neste instante?
— Na
sala de controle. Por quê?
— Perguntei
apenas por curiosidade — disse Tanner com um sorriso muito gentil.
— Sempre gosto de saber onde se encontra meu interlocutor. Quer que
peça ao comandante que procure o senhor?
O
naat desligou sem responder.
— Esse
sujeito nem desconfia de sua sorte — murmurou Tanner em tom
sombrio.
Decorridos
três minutos, surgiu outro impulso.
— Três
vezes minhocão — berrou o operador de rádio.
Freyt
limitou-se a fazer um gesto. Logo começou a contar. Depois de três
segundos, os rastreadores estruturais registraram um salto. Meio
segundo depois, Freyt comprimiu todos os botões que se encontravam
ao alcance de suas mãos. Os geradores da Ganymed começaram a rugir.
Com um estalo, surgiu um campo energético muito estreito, mas
altamente condensado junto ao envoltório externo da nave.
As
torres dos canhões saíram dos abrigos. Antes que o ruído
ensurdecedor de uma manobra de imersão realizada nas Imediações da
nave atingisse os rastreadores estruturais, o oficial de artilharia
abriu fogo.
Os
raios de impulsos foram expelidos com um rugido. O solo começou a
ferver nos pontos em que era atingido pelo calor tremendo das
radiações. Crateras borbulhentas surgiram nos pontos exatos em que
os projetores do campo de tração estavam montados no subsolo.
A
condensação energética de uma bomba arcônida propagou-se com a
velocidade da luz e atingiu uma nave da classe Império pousada no
campo. A gigantesca esfera, totalmente desprotegida, desmanchou-se
numa luminosidade tremeluzente.
No
mesmo instante, uma enorme coluna de fogo saiu da imensa torre de
controle. O transmissor fictício não tivera a menor dificuldade em
romper o campo defensivo e colocar a bomba no interior da construção.
Destroços
incandescentes subiram com o cogumelo típico das explosões
nucleares. A Ganymed ignorou o furacão escaldante provocado pela
onda de compressão pois, naquela fração de segundo, entraram em
ação forças muito mais poderosas que as desencadeadas por uma
bomba de vinte quilotons.
Pouco
acima do envoltório atmosférico do quinto planeta de Árcon um
verdadeiro monstro retornava ao espaço normal.
— Freyt,
está preparado? — berrou uma voz conhecida, na qual ainda ressoava
o choque da transição. — Decole. Dentro de dez segundos, estarei
acima do espaçoporto.
Freyt
empurrou para baixo a chave de engate. O inferno desencadeado nas
imediações da Ganymed preenchera sua finalidade. Os invencíveis
campos de tração não existiam mais.
No
momento em que flamejantes jatos de popa ergueram o couraçado e este
começou a subir lentamente, nova desgraça desabou sobre a base
espacial de Naatral.
Uma
gigantesca esfera de fogo aproximou-se velozmente, vinda do leste. A
Ganymed, que subitamente acelerou ao máximo e disparou para o alto,
mal e mal escapou à onda de compressão antes que um terrível
furacão começasse a rugir.
O
novo supercouraçado voava a apenas dez quilômetros de altura,
provocando uma terrível onda de compressão e de sucção.
O
quinto mundo jamais conhecera um furacão como este. Pesadas naves
foram arrancadas das suas bases e instalações técnicas caíram
como castelos de cartas.
Após
um instante, tudo passou. Bem ao longe, um ponto luminoso que parecia
insignificante corria para o espaço. Uma vez rompida a atmosfera,
cessou a incandescência que tremulara em torno da Veast Ark numa
extensão várias vezes superior ao seu diâmetro.
Poucos
segundos depois foi localizada a Ganymed. No mesmo instante, o
supergigante surgiu nas telas dos rastreadores da nave terrana.
— Santo
Deus! — gemeu o comandante. — O que é isso?
As
telas iluminaram-se e mostraram o rosto desfigurado de Rhodan.
— Freyt,
tenho que pilotar esta nave enorme com uns dez homens, porque os
outros estão lutando contra os robôs. Nada de perguntas. Thora
fornecerá as coordenadas. Ligue o piloto automático, adapte a rota
e acelere ao máximo. Dentro de onze minutos, aproximadamente,
realizaremos uma transição de aproximadamente três anos-luz para o
interior do grupo de estrelas. Os dados para o salto lhe serão
fornecidos depois da adaptação da rota. Apresse-se. Preciso de
reforços, não importa como.
Os
tripulantes da Ganymed agiram com uma segurança de sonâmbulos.
Rhodan não teve de explicar as dificuldades que tinham de ser
enfrentadas para pilotar uma nave dessas com os controles de
emergência.
Os
dados chegaram. Os propulsores da Ganymed rugiram durante a manobra
de adaptação de rota. Depois de realizada a última correção,
deslocava-se praticamente na esteira dos jatos da outra unidade.
As
coordenadas do salto foram introduzidas diretamente no dispositivo
automático. Não se realizou nenhuma programação mais precisa.
— Localização
no verde trinta e dois graus, cerca de cem naves — soou a
informação vinda do posto de rastreamento. — Outra localização
no vermelho, cinqüenta unidades pesadas. As transições sucedem-se
ininterruptamente.
Freyt
pôs a funcionar os compensadores estruturais. Assim que mergulhasse
no hiperespaço, não poderia ser localizado. Todavia, a localização
da nave de Rhodan seria perfeitamente possível. Freyt começou a
transpirar sangue. Mais uma vez, o chefe colocava todas as chances
numa única cartada. Provavelmente estaria contando com a confusão
tremenda, reinante no setor de Árcon.
— Faltam
vinte segundos — soou a voz de Rhodan. Era quase imperceptível.
Dez, seis, um, vamos.
Dois
corpos imensos desfizeram-se numa luminosidade ofuscante. No mesmo
instante surgiu um tremendo rugido na área do quinto planeta. Mais
de duzentos couraçados imergiram quase simultaneamente no espaço
normal.
A
transição de Rhodan foi muito breve. Quando sentiu a dor da
rematerialização, mal conseguiu levantar-se.
Bem
perto do supercouraçado, a Ganymed penetrou na dimensão normal à
mesma velocidade apenas onze por cento inferior à da luz.
— Depressa,
Freyt! — gritou Rhodan no microfone. — Mais meia hora, e estamos
liquidados. Está registrando alguma transição?
— Ininterruptamente
— foi a resposta nervosa. — Tivemos sorte. Posso garantir que
nesta confusão tremenda não puderam localizar onde saímos. À
nossa frente, está um grande sol vermelho. Não houve nenhuma
localização. Será que o senhor podia puxar-me com um ralo de
tração?
— Não
tenho gente para isso — cochichou Rhodan, exausto. — Vou desligar
os campos energéticos. Procure segurar minha nave.
Rhodan
acionou pessoalmente os controles necessários. Thora estava
pendurada no seu assento de piloto; perdera os sentidos.
Um
grupo de reatores deixou de funcionar. Logo depois, outro. Os dezoito
propulsores deixaram de trabalhar ao mesmo tempo. Só os geradores
pequenos destinados ao suprimento interno da nave continuaram a
funcionar.
Indefeso,
o supercouraçado deslocava-se vertiginosamente em queda livre,
atravessando o espaço vazio em direção ao sol vermelho, ainda
distante.
Cambaleante,
Rhodan saiu da poltrona e ajudou Tifflor a pôr-se de pé.
— Já
estou bem — disse Tiff com um sorriso débil. — Duas transições
seguidas foram demais.
— Fique
aqui — ordenou Rhodan com uma calma estranha. — Abra as comportas
polares superiores assim que os homens de Freyt iniciarem a
travessia. Darei uma olhada lá embaixo.
— Não
faça isso! — gritou o jovem atrás dele.
Tiff
arregalou os olhos de pavor.
Rhodan
limitou-se a fazer um gesto. Ao entrar no corredor circular que
começava junto à sala de comando, ouviu o ruído dos disparos. As
detonações agudas sucederam-se.
“Ivã”,
pensou Rhodan, enquanto sentiu suas energias despertarem de novo.
Dois
conveses abaixo, encontrou os primeiros combatentes. O sargento Rous
se encontrava no comando. Um calor abrasador reinava em toda parte.
Rhodan viu-se obrigado a fechar o capacete.
— Tudo
bem. Por enquanto conseguimos agüentá-los — soou a voz de Rous no
alto-falante do capacete. — Derrubamos uns duzentos e cinqüenta.
Na maior parte, devem ser creditados a Ivã e Gucky. A coisa não
seria muito grave se essas máquinas não disparassem as armas para
abrir furos no teto das salas situadas abaixo de nós para subir mais
um pavimento.
— Defenda
o elevador central. Bell, onde está você?
De
repente Rhodan, sentiu-se dominado pelo medo de que o amigo pudesse
estar morto. Soltou um grito mais forte e desesperado para chamar o
companheiro.
— No
convés trinta e dois, diante da porta de uma sala de máquinas —
rangeu a voz áspera de Bell. — Estão atacando que nem uns loucos.
Trouxe a Ganymed? A única coisa que percebemos foram os dois saltos.
— Dentro
de vinte minutos, no máximo, chegará um reforço de oitocentos
homens. Freyt está realizando a manobra de aproximação. Agüentem
mais um pouco, rapazes. Este problema também será resolvido.
Rhodan
desceu por íngremes escadas de emergência. À medida que penetrava
na parte inferior da nave, o calor tornava-se mais insuportável.
Isso
não afetava o material de que era feita a nave. Não havia por ali
nenhuma porta, nenhuma travessa que não fosse de aço arcônida, um
material que suportava perfeitamente temperaturas superiores a trinta
mil graus.
Descobriu
os homens de Bell atrás de uma coluna de suporte do amplo salão.
Eram apenas seis homens equipados com dois canhões de desintegração
portáteis e alguns radiadores de impulsos pesados que mantinham a
posição-chave extremamente importante.
— Cuidado!
— berrou alguém.
Rhodan
saltou para o abrigo mais próximo. No lugar em que se encontrara um
instante antes, surgiu uma mancha incandescente, da qual o metal
derretido pingava ao solo, produzindo um chiado.
Rhodan
atirou instintivamente. O feixe de raios ofuscantes de sua arma de
impulsos inflamou o campo defensivo do robô. Um segundo impacto
derrubou o vulto repentinamente saído de um corredor lateral.
A
máquina debatia-se furiosamente no chão. A grande mancha
incandescente do peito expelia chamas ofuscantes. Era uma luta irreal
e enervante. Ninguém sabia indicar o lugar exato em que se
encontravam os cem robôs de combate que ainda restavam. Era de
esperar que de repente surgissem pelas costas, desenvolvendo a
rapidez que lhes era peculiar. Quando suas pesadas armas começassem
a disparar, não haveria nada que pudesse detê-los. O homem teria de
provar que sabia compensar a enorme agilidade mecânica das máquinas
desalmadas por meio da sua inteligência.
Até
agora, havia sido capaz. Mas Rhodan não devia lembrar-se dos homens
que apesar de tudo foram surpreendidos.
Gucky
apareceu por um instante. Ele e os dois teleportadores eram
praticamente os únicos seres inatingíveis. E o rato-castor ainda
tinha a vantagem de, além da teleportação, ainda dominar a arte da
telecinese.
Antes
que os homens de Bell pudessem girar suas armas, o ser peludo
descobrira o vulto metálico que se aproximava sorrateiramente.
Rhodan
ouviu seu próprio sorriso forte e estridente, quando subitamente o
robô voou e foi atirado contra o teto com tamanha força que seu
micro cérebro, sensível aos choques, foi prontamente inutilizado.
Depois, foi jogado ao solo por duas vezes com um impacto terrível.
Por fim, começou a girar loucamente, agitando os membros metálicos.
— Gente,
que brincadeira! — disse a voz chilreante de Gucky.
No
mesmo instante o rato-castor desapareceu.
Rhodan
soltou os últimos sons inarticulados de seu riso histérico no
microfone. Depois de uma grave dissonância, calou-se.
— Está
bem, minha gente, também tenho nervos — soou sua voz nos
alto-falantes dos capacetes. — Assim que puderem, respondam um por
um. Onde está Crest?
— Na
sala de controle de máquinas, Perry — soou a voz do arcônida. —
Estamos num campo de tração muito potente. Parece que...
O
disparo de um desintegrador abafou a voz de Crest. O homem agachado
atrás do canhão portátil mastigava, automaticamente, um alimento
concentrado conduzido à boca.
— Não
há nada como as boas maneiras à mesa — disse em tom sarcástico.
10
Ao
lado do supercouraçado, a Ganymed com seus 840 metros de comprimento
e 220 metros de diâmetro parecia um barco salva-vidas de tamanho um
tanto exagerado.
Ao
saírem das comportas de ar para num salto vencer a distância de
menos de cinqüenta metros que os separava das escotilhas externas do
gigante, os homens dos grupos de combate tiveram de usar toda a
capacidade de raciocínio para não se impressionarem profundamente
com a massa enorme que tinham diante de si.
— Grupo
Tanner, segunda comporta da esquerda — disse a voz saída dos
alto-falantes de capacete. — Quando penetrarem na atmosfera normal,
regulem os campos defensivos dos trajes para a potência máxima. Não
os abram. Em alguns setores a temperatura é muito elevada.
Desintegradores
superpesados, artefatos que, muito mal, podiam ser carregados e
manejados com as duas mãos, foram trazidos a bordo pelos oitocentos
homens.
Freyt
resolveu utilizar também as comportas da cúpula polar inferior para
penetrar na nave. Se os robôs ainda intactos reagissem de acordo com
as leis da lógica, teriam de lutar em duas frentes.
Os
homens da Ganymed trouxeram equipamentos de que o grupo de Rhodan não
dispunha.
Se
a bordo da supernave existiam trajes arcônidas com geradores e
campos defensivos próprios, estes ainda não haviam sido
encontrados.
Parado
diante do grande elevador central, Tifflor indicava as posições dos
grupos que iam chegando.
Os
combatentes, totalmente esgotados, retiravam-se das suas posições,
que passavam a ser ocupadas por elementos descansados.
Só
os mutantes continuaram a combater. Dentro de meia hora, a ordem
estabeleceu-se naquela confusão. Os campos defensivos dos trajes
arcônidas eram capazes de resistir a um impacto oblíquo. Mas com um
disparo de radiações direto de um robô, a coisa mudava de figura.
Nesse caso, os campos defensivos desmoronariam.
Rhodan,
Crest e Thora encarregaram-se da distribuição de tarefas nas áreas
inferiores. Os oitocentos homens foram avançando implacavelmente
para cima, ou para baixo.
Passada
uma hora a ação concentrou-se aos recintos do convés 32,
interrompido e dividido a cada passo pelos elevados pavilhões de
máquinas.
— Atenção,
todos os combatentes — soou a voz de Rhodan pelo rádio. — Os
robôs que se tiverem abrigado atrás de alguma máquina importante
não deverão ser atacados pelos senhores. Sempre que virem um deles
ou o localizarem com os rastreadores energéticos portáteis, avisem
imediatamente o tenente Marshall, que enviará um mutante. Só atirem
quando não houver risco de destruir alguma instalação vital.
Rhodan
virou-se abruptamente quando alguns vultos delicados passaram
apressadamente. Eram os robôs médicos da Ganymed, cujas células
sensoriais descobriam um ferido com maior facilidade que o olho
humano.
Quando
as primeiras vítimas da luta desigual foram carregadas nas macas,
Rhodan mordeu os lábios. Os Drs. Haggard e Manoli também estavam
por perto.
Na
maior parte das vezes, os ferimentos eram graves.
— Daremos
um jeito em tudo isso — gritou Haggard. — Haverá necessidade de
algumas amputações, mas para a bioplástica arcônida isso não
representa qualquer problema. Preciso de vinte homens descansados
para transportar os feridos.
Rhodan
expediu imediatamente as respectivas instruções. Os feridos foram
transportados com o maior cuidado para a Ganymed, onde poderiam
contar com todos os recursos da medicina.
— Foi
duro, muito duro! — suspirou Bell. Seus cabelos ruivos cortados à
escovinha estavam chamuscados em cima da testa. — Esses robôs
devem pertencer a um novo modelo. Reagem mais depressa que os nossos.
Se tivéssemos mais cinco mil máquinas desse tipo a bordo, seria a
morte.
Mal
acabou de proferir estas palavras, adormeceu sentado. Não despertou
quando o braço mecânico de um robô o ergueu suavemente e o retirou
do lugar.
Demorou
mais quatro horas, até que as últimas máquinas de guerra fossem
abatidas a tiro ou destruídas pelos mutantes. Rhodan organizou
grupos de busca, aos quais coube a tarefa desagradável de limpar os
diversos setores da nave.
— Tomem
cuidado, mas não se deixem dominar pelo pânico. Pela própria
estrutura técnica dos robôs de guerra, estes não costumam
esconder-se à maneira humana. Atacam enquanto podem. Por isso, é
quase certo que não encontrarão nenhuma dessas máquinas em
atividade. Se ainda houvesse alguma, ela se teria precipitado para as
linhas de fogo.
Rhodan
voltou o rosto cansado. O Dr. Eric Manoli contemplou um par de olhos
apagados e inflamados, que retratavam todas as canseiras e
preocupações das últimas horas.
— Você
precisa descansar imediatamente — preveniu-o Manoli em tom
preocupado. — Seu corpo não agüenta isso por muito tempo.
— Em
primeiro lugar, vem minha nave e minha gente. Onde está Freyt?
— Lá
em cima, na sala de comando. Subiram nos elevadores
antigravitacionais que já funcionavam de novo.
Quando
Rhodan entrou na sala de comando, os homens ficaram em posição de
sentido. Thora dormia profundamente no assento de piloto.
Rhodan
parou um instante diante dela e olhou o rosto descontraído. Manoli
suspirou aliviado quando viu que os lábios tensos de Rhodan foram
afrouxando.
As
telas de observação global estavam em funcionamento. Especialistas
muito bem treinados, familiarizados com a aparelhagem da
Stardust-III, ocupavam os postos mais importantes.
Julian
Tifflor, de repente parecia não saber o que era o cansaço, vez por
outra dava suas explicações.
A
sala de rádio estava guarnecida e uma das grandes unidades
energéticas trabalhava com a potência mínima.
Nas
cúpulas polares da nave-gigante, giravam as antenas dos
rastreadores. A sala de observação e de rádio só se distinguia
daquela da Stardust pelo seu tamanho impressionante.
Rhodan
ouvia atentamente o trovejar surdo emitido ininterruptamente por um
dos rastreadores estruturais.
— Estão
loucos à nossa procura — disse Freyt em voz baixa. — Ouça este
tráfego de hipercomunicações! O robô gigante deve estar fora de
si, se é que isso pode acontecer com um robô.
Rhodan
passou pela comporta blindada. Mais uma transição sacudiu os
instrumentos. Escutou por alguns segundos e lançou um olhar para as
telas vazias dos rastreadores de matéria de velocidade superior à
da luz. Finalmente deixou-se cair numa poltrona articulada.
— Era
o que eu imaginava! Só mesmo por acaso, em meio a tantos
hipersaltos, o cérebro poderia ter fixado justamente a posição do
nosso. Por pouco, não perdemos a hora de saltar. Se o fizéssemos
agora, dentro de poucos minutos toda a frota estaria em cima de nós.
— Onde
estamos neste instante? Rhodan fitou a enorme tela de visão global,
que se estendia sem a menor solução de continuidade. O grande sol
vermelho destacava-se nitidamente sobre o cintilar irreal do grupo
M-13.
— Não
tenho a menor idéia. Só sei que percorremos uma distância de três
anos-luz. Os cálculos da segunda transição foram realizados por
Thora. Deve ter escolhido um lugar relativamente solitário no meio
desse entroncamento de tráfego galático. Freyt...
O
coronel aproximou-se.
— Pois
não.
— Seu
aviso chegou bem na hora. Sem ele, ainda teria esperado ao menos duas
horas. Qual foi o motivo da investigação?
— De
repente, o tal do administrador de Naat quis falar com o senhor. Ao
que parece, tratava-se de uma tarefa no espaço que devíamos
realizar por ordem do cérebro.
— Ah!
— disse Rhodan, acompanhado por uma risada sem graça.
— Novaal,
o tal do nativo, veio a bordo. Foi quando começamos a transpirar.
Deu pela falta do senhor, e depois de algum tempo também de Thora e
Crest. Toda a tripulação teve que entrar em fila fora da nave. Aí
a coisa foi descoberta. Logo expedi a mensagem de emergência. Deve
ter sido uma questão de minutos, visto que Novaal imediatamente
expediu uma mensagem destinada ao cérebro. Nós a captamos.
Rhodan
acenou, em atitude pensativa. Enquanto virava a cabeça, seus olhos
voltaram a brilhar. Era o momento da compreensão consciente. Naquele
momento, deu-se conta de quanto realizara com aquele pequeno grupo de
homens e mulheres.
Freyt
sorriu consigo mesmo, quando notou a alteração havida no rosto de
Rhodan. Essa alteração revelava um traço do caráter de Rhodan,
que, quase nunca, o abandonara.
O
doutor começou pelo estraçalhamento interno, observado na expressão
de Rhodan.
— Não
comece a pensar naquilo — observou o médico imediatamente. — Um
certo tipo de autodiagnóstico pode ser totalmente aceitável, mas
não para o espírito de um homem que a rigor devia estar na clínica.
Você devia acabar com esse tipo de autocrítica.
Rhodan
dispensou um ligeiro olhar ao amigo dos primórdios da conquista
espacial primitiva. Manoli acompanhara o primeiro vôo tripulado à
Lua no foguete químico Stardust. Foi naquele dia, em 19 de junho de
1.972, que tudo começou.
— Que
dia é hoje? — perguntou Perry com a voz baixa.
— Três
de junho de 1.984 — disse Manoli em tom compreensivo.
Rhodan
deu uma risadinha distraída. Depois disse:
— Acho
que vamos dar a esta nave formidável o nome Titan. Sabem que a Terra
já dispõe de um couraçado gigante que provavelmente é o maior e o
mais poderoso da Via Láctea?
Lançou
os olhos em torno. Os rostos céticos fizeram aflorar um sorriso em
seus lábios. A velha ironia ressoou em suas palavras:
— Bem,
não é o que pensam. Garanto-lhes que não entregarei esta nave a
ninguém. Precisarei de trinta dias para treinar a nova tripulação.
Depois veremos como serão embaralhadas as cartas. Nossa excursão a
Árcon foi um fracasso moral de primeira ordem. O resultado prático
da mesma consiste apenas no conhecimento do que está acontecendo no
Grande Império. Esse conhecimento compensa todos os sofrimentos.
Meus amigos, se hoje a Terra fosse descoberta por uma frota
robotizada, teríamos tempos terríveis diante de nós. Até agora
isso não aconteceu, porque ninguém me convencerá de que os
mercadores galácticos entregariam a posição de um sistema solar
tão valioso a um cérebro robotizado. Se o fizessem, já não teriam
nenhuma chance real.
Um
novo rugido soou nos rastreadores estruturais. Por alguns instantes,
viu-se um pontinho luminoso na tela diagramática do aparelho de
observação a longa distância.
O
corpo de Rhodan só se descontraiu quando o ponto estranho saiu da
tela.
— Estamos
num lugar muito movimentado — observou Freyt em tom nervoso. — O
que vamos fazer?
Rhodan
levantou-se tranqüilamente. Mais uma vez, seus olhos procuraram o
sol vermelho.
— Mande
setecentos homens para cá. Com trezentos homens, o senhor não terá
nenhum problema em controlar a Ganymed. A Titan leva quarenta naves
auxiliares da classe Good Hope. Se ainda quisesse tripular as mesmas,
precisaria de cerca de mil e quinhentos homens treinados.
Procuraremos um meio de nos separarmos rápida e discretamente do
grupo estelar M-13. Por enquanto é só.
Quando
Freyt ia formular outra pergunta, viu diante de si um homem que
dormia com os olhos entreabertos. Sem dizer uma palavra, saiu da sala
de comando.
Lá
fora, no grande ponto de entroncamento e controle da imensa nave,
Julian Tifflor continuava em plena atividade.
— Dirija-se
imediatamente à clínica — resmungou Freyt em tom mordaz. — Faça
o favor! É uma ordem. Deixe isto aqui por nossa conta. Saberemos
lidar com as máquinas. Vamos logo, rapaz, o senhor precisa dormir.
Tifflor
mergulhou num oceano de embaraço quando sentiu a mão de Freyt
pousada em seu ombro.
— Rapaz,
vocês fizeram um trabalho formidável! — disse alguém.
Naquele
momento, também Tiff estava de folga.
Bem
longe da nave que vagava pelo espaço, o sol desconhecido ocupava seu
lugar no firmamento.
Parecia
uma lágrima de sangue.
*
* *
*
*
*
Sim,
era este o grande segredo que Crest e Thora guardaram por treze anos:
Árcon é um mundo formado por três planetas, um mundo de maravilhas
técnicas.
Foi
só graças ao transmissor fictício vindo do planeta Peregrino que
Perry Rhodan teve possibilidade de visitar o mundo dos milagres.
Mas,
para sair de Árcon teve de recorrer a um estratagema.
Perry
Rhodan e seu grupo conseguiram escapar ao cérebro positrônico, mas
será que recuperaram a liberdade de ação?
Luta
Contra o Desconhecido, o novo volume da série Perry Rhodan oferecerá
o relato fascinante das novas aventuras dos astronautas terranos.

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