quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

P-039 - O Mundo dos Três Planetas - K. H. Scheer [parte 3]

O Grande Coordenador tomara suas providências para que também aqui o controle não lhe escapasse das mãos. Rhodan já se convencera de que, enquanto existisse esse posto de controle de alta potência, uma decolagem forçada seria totalmente impossível.
No interior do supercouraçado, os homens e as mulheres do comando não passavam de partículas de pó num deserto. Perdiam-se na imensidão. Tornava-se necessário recorrer aos aparelhos de radiocomunicação para localizar alguém que estivesse andando por aí, apontando-lhe o caminho da sala de comando.
Nesse ponto, a gigantesca nave realmente representava uma catástrofe, por mais sedutor que parecesse o poderio que irradiava da mesma.
Há uma hora, Thora solicitara permissão para realizar um ensaio com os dezoito propulsores de gigantescas proporções. A permissão só foi concedida depois que Crest e Rhodan confirmaram que também saberiam manipular os controles.
Naquele momento os dezoito bocais de jato montados no anel equatorial bramiam e cuspiam fogo. Como era usual nas naves arcônidas, toda a aparelhagem de propulsão estava instalada nesse anel.
Quando trabalhavam em ponto morto, as máquinas proporcionavam uma força de empuxo que ficava cinco por cento abaixo daquela que, com a gravitação reinante, elevaria o corpo gigantesco da nave acima do solo.
A conseqüência disso foi que os discos de apoio dos pés de aterissagem, que eram verdadeiras torres, eram arrastados por vários metros sobre o revestimento metálico da pista. Vibrações extremamente fortes foram sentidas no interior da nave.
Concentrado ao máximo, Rhodan estava acomodado no assento do segundo astronauta. Tinha diante de si os mesmos instrumentos de controle que se encontravam ao alcance da mão de Thora.
Tratava-se da ligação de emergência ou de perigo, que apenas por um curto espaço de tempo permitia que o controle fosse exercido por duas pessoas. Era evidente que esse tipo de pilotagem estava acompanhado de tolerâncias extremamente elevadas, que não poderiam ser usadas num vôo de longa distância.
De qualquer maneira, Rhodan descobrira que dessa forma a Veast Ark poderia ser levada ao espaço. Todavia, as indicações dos inúmeros autômatos de correção nunca poderiam ser controlados por duas pessoas. Um vôo realizado com base na ligação de emergência nunca passaria de um tatear incerto, que conduziria a situações cujo domínio exigia uma equipe de comando bem treinada.
Imediatamente após o início do funcionamento dos reatores, Rhodan virou-se abruptamente. Assim que a primeira língua de fogo saiu dos bocais, uma forte luminosidade surgiu atrás dele. O monstro blindado sob o qual se abrigava o autômato auxiliar do grande robô, subitamente se envolvera num campo energético de elevada potência.
Cinco minutos já se haviam passado, desde o momento em que os reatores foram ligados. A chave-mestra do regulador automático sincronizado de potência estava apenas um traço acima da marca zero.
Apesar disso, o colosso continuava a escorregar sob o efeito das vibrações, afastando-se cada vez mais da sua posição primitiva.
Crest guarnecia a sala principal de máquinas juntamente com quinze técnicos. Os resultados das medições fornecidos dali eram impecáveis.
Um a dezoito em perfeitas condições — soou a voz retumbante de Bell nos alto-falantes. — Boa coordenação, tolerância de mais ou menos 0,001 por cento. Os reguladores de empuxo começam a funcionar com um desvio de 0,002 por cento. Propulsores em boas condições de funcionamento. Fim.
Ao surgir na tela, o rosto de Bell apresentava uma expressão de nervosismo. Rhodan sacudiu a cabeça de forma quase imperceptível. Ainda era cedo para uma fuga forçada para o espaço.
Os lábios de Bell estreitaram-se. Sem dizer uma palavra, desligou.
Ensaio concluído, posição zero — soou a voz de Thora pela aparelhagem de intercomunicação.
Rhodan desligou. O rumorejar profundo no anel equatorial do supercouraçado morreu. Apesar dos campos de absorção de partículas, o solo tornara-se incandescente a uma distância de setecentos metros dos bocais.
O silêncio passou a reinar na sala de comando. Só os instrumentos de controle continuavam a funcionar. Thora lançou um olhar para Rhodan.
Enquanto ela girava a poltrona e se levantava, Rhodan procurou localizar o mutante Wuriu Sengu, que se encontrava por ali. Ao descobrir o espia, foi agraciado por um ligeiro aceno de cabeça.
O ensaio das máquinas preenchera sua finalidade. Sengu, cujo dom não era afetado por camadas de aço arcônida de um palmo de grossura nem por campos energéticos altamente concentrados, fora encarregado de verificar de que forma os controles da estação de bordo estavam ligados ao cérebro central.
Tanaka Seiko, o mutante positivo que reagia a qualquer tipo de ondas, também estava presente. Ao que parecia, também concluíra suas investigações.
Rhodan voltou a dirigir o olhar inexpressivo para os controles. Subitamente, a voz metálica do Grande Coordenador se fez ouvir:
Mantenha-se afastada da linha vermelha de perigo, comandante.
Thora estacou. A coisa semi-esférica, de altura superior à de um homem, instalada no centro da sala de comando, ainda não desligara o campo energético. Rhodan notou o impulso diagramático tremulante numa tela pequenina, quase imperceptível. Examinando-o mais detidamente, Rhodan percebeu que, em algum lugar, nas entranhas da nave, funcionava uma usina de força de menos de 80 mil quilowats-hora. O zumbido delicado era quase imperceptível. Perdia-se em meio aos outros ruídos.
Concluía-se que o aparelho funcionava com a energia fornecida pelos mecanismos da nave. Um interesse ansioso surgiu na mente de Rhodan. Memorizou cuidadosamente o pequeno algarismo surgido na parte inferior da tela diagramática. O mesmo só podia referir-se a uma pequena instalação energética secundária. As usinas maiores produziam um potencial muito mais elevado.
Tifflor também havia percebido. Empalideceu ao olhar para Rhodan.
Ensaio concluído — disse Thora, dirigindo-se ao receptor invisível do autômato. — Daqui a dez dias, poderei arriscar a primeira decolagem. Até aqui as reações dos meus tripulantes foram excelentes. Aliás, nem era de esperar que fosse diferente com zeklons da guarda do velho Imperador submetidos a um aprendizado hipnótico. Gostaria de realizar um ensaio das usinas energéticas.
Aguardou a resposta. Um ligeiro zumbido foi ouvido na cúpula de aço.
Permissão concedida — decidiu o cérebro no seu estilo lacônico e indiferente.
Thora voltou. Rhodan estabeleceu o contato audiovisual com a segunda equipe técnica que, sob a direção de Rous, guarnecia a central energética principal.
Com isso, os postos mais importantes da nave estavam guarnecidos. O sargento chamou.
Reatores um a oito em ordem, iniciado o processo de aquecimento — transmitiu.
Poucos segundos depois, os reatores nucleares arcônidas iniciaram seu processo de fissão nuclear, análogo ao do sol, que se realizava com base na catálise do carbono. Estrelas artificiais surgiram no monstro de muitos metros de altura, cuja energia era captada pelos conversores acoplados e conduzida diretamente aos circuitos sem fio, que faziam funcionar as máquinas e instalações da nave.
Os reatores de números um a oito entraram em funcionamento com intervalos de dez segundos. No fim, o supercouraçado era um verdadeiro monstro prenhe de energia.
Rhodan viu confirmado o relato do teleportador, segundo o qual a Veast Ark estava plenamente equipada e pronta para decolar. O que o incomodava era apenas o poderoso comando de robôs de combate, que ingressara na nave juntamente com os tripulantes humanos.
Rhodan trocou um olhar ligeiro com Thora. Esta empalideceu no momento em que ligou o compensador de gravitação. Um rugido terrível penetrou até a sala de comando. Dos instrumentos de medição, concluía-se que o suprimento de energia aos projetores fora regulado pelo mecanismo automático para o valor de 1,3 g.
No mesmo instante, o ruído dos geradores cessou. Uma campainha estridente rompeu o silêncio. Linhas vermelhas surgiram na tela do autômato.
Não concedemos permissão de usar os compensadores — soou a voz retumbante saída do aparelho.
Não houve outra advertência, e a voz não parecia muito ameaçadora. Mas o simples fato da interrupção abrupta do funcionamento dos geradores demonstrava o grau extraordinário de vigilância daquele cérebro, ocupado simultaneamente numa infinidade de outros problemas.
Thora anunciou o encerramento dos ensaios programados para aquele dia.
Permissão para o encerramento concedida — soou a frase estereotipada. — Atenção para a interpretação de sua atividade. Face ao excelente desempenho de sua tripulação, convém colocar a bordo as tropas auxiliares já preparadas. Mil e quinhentos naats devidamente instruídos subirão a bordo dentro de quatro horas. Ficarão submetidos ao seu comando. Prossiga na instrução teórica dos seus zeklons. Fim.
Rhodan não conseguiu reprimir uma vigorosa praga. Com o rosto pálido, olhou para o autômato auxiliar que media pelo menos dez metros de diâmetro e executava com tamanha rapidez e precisão as ordens da estação a que estava subordinado.
Era só o que faltava — cochichou Rhodan para a arcônida. — Não tem um meio de impedir que os naats sejam colocados a bordo?
Thora ergueu os ombros, desolada. Para uma arcônida o gesto era muito humano.
Os comandos vigorosos de Tifflor suplantaram a palestra. As vinte pessoas que se encontravam na sala de comando levantaram-se. Marshall lançou um olhar saudoso para a sala de rádio, que estava separada por uma parede blindada transparente.
Não tinham nada a fazer por lá. Por enquanto o treinamento só abrangia os setores mais importantes.
Thora passou pelos homens que faziam continência. O reluzente campo energético que cercava a estação retransmissora se desfez. Rhodan arriscou um ligeiro olhar para o indicador de potência do pequeno gerador. A curva já se apagara.
As escotilhas de segurança de vários metros de grossura, feitas de aço arcônida, abriram-se diante deles. O ventre mecânico da gigantesca nave escancarou-se diante dos homens que saíam da sala.
Dois guardas robotizados fizeram continência, atirando os braços armados para cima. Wuriu Sengu espremeu-se ao lado de Rhodan. Os outros logo compreenderam. As discussões em torno deste ou daquele acontecimento tornaram-se mais ruidosas e violentas.
É uma coisa estranha — disse o robusto japonês em tom exaltado. — Olhei aquela coisa de todos os lados e até pelo avesso. Não há nenhum cabo que chegue até lá.
Não tem nenhuma ligação por cabo? — disse Rhodan, surpreso e perplexo. Seu cérebro infatigável começou a funcionar.
Será possível? Constatei que o robô recebe seu suprimento de energia de uma fonte instalada no interior da nave.
Não há nenhum cabo — insistiu o espia. — Mas o aparelho dispõe de suprimento de energia próprio. Vi nitidamente um minigerador.
Rhodan engoliu uma praga. O nervosismo começou a martirizá-lo.
Conheço a explicação — cochichou Tanaka Seiko, o goniômetro, enquanto se aproximava. — No momento em que o campo energético foi ativado, registrei um fluxo energético sem fio. Veio de baixo. A interrupção no funcionamento das máquinas foi levada a efeito por meio de impulsos de rádio transmitidos pelo intercomunicador numa freqüência absolutamente estranha. Trata-se de ondas hipermoduladas, que saltam a grandes intervalos sobre a escala de freqüências. Não é possível esquematizá-las.
Rhodan parou, perplexo. Então era isso!
E o reator embutido no aparelho? Entrou em funcionamento? — perguntou com a voz tensa.
Não senhor, tenho certeza absoluta. Acredito que só será usado numa emergência.
Rhodan e seu grupo entraram no grande corredor circular que contornava a sala de comando numa curva bastante ampla, dali havia conexões radiais com o convés central, cuja área bastava para abrigar todos os alojamentos dos tripulantes.
Passaram pelo poço antigravitacional do elevador central, que emitia uma leve fosforescência, seguindo os que iam à frente. Rhodan viu-se novamente em meio aos seus homens.
Prestem atenção — disse falando apressadamente e em voz baixa. — Não adiantaria interromper o suprimento de energia. O robô de controle está equipado com gerador próprio. Ivã, logo após o jantar você terá que procurar um esconderijo na sala de comando, que não possa ser captado por qualquer circuito de televisão. Fique por lá. Se alguma coisa não der certo, essa sala provavelmente será a primeira a ser trancada. Leve um microrrádio. Assim que receber a minha ordem, você destruirá aquilo juntamente com a cúpula de aço, procedendo de forma a não demolir todas as instalações.
O mutante de duas cabeças levantou as mãos. Era a única pessoa capaz de destruir o mecanismo de controle numa ação totalmente inesperada.
Antes de entrarem na sala da tripulação com as numerosas telas, os homens estavam devidamente informados. Cada um conhecia o lugar em que devia apresentar-se.
Rhodan penetrou na ampla e confortável sala de refeições. Gucky, que há quatro dias arcônidas não fazia outra coisa senão saltar de um recinto para outro, dedicando uma atenção toda especial aos depósitos de armamentos, estava agachado em atitude melancólica junto a janelinha pela qual era servida a comida. Sem dizer uma palavra, Rhodan pegou o sujeitinho na altura dos quadris e o suspendeu no braço esquerdo. Gucky chiou de prazer.
Em meio a uma conversa tola, cochichou suas informações:
Está completamente armada, chefe. Bombas arcônidas, radiadores de impulsos e desintegradores. Só os depósitos de mantimentos não estão cheios. Não existe praticamente nenhum lugar ao qual não tenha ido.
Onde estão os robôs de combate?
No convés dois, lá embaixo, pouco acima da comporta inferior. Contei trezentos. Ainda há uns vinte e cinco que montam guarda aqui em cima. São máquinas pesadas, chefe!
Rhodan e seus oficiais sentaram em torno de uma mesa grande. Thora e Crest retiraram-se para a sala especial que lhes era destinada. Como arcônidas que eram, não podiam rebaixar-se a ponto de comerem na mesma sala dos zeklons.
Rhodan comia automaticamente. Seus pensamentos estavam longe dali.
Marshall — soprou para dentro do aparelho implantado em sua garganta, sem mover os lábios. O telepata respondeu. — Preste atenção aos meus pensamentos. Ainda não estou em condições de transmitir livremente. Compreendeu?
Como por acaso, Marshall ergueu a mão. Rhodan continuou a comer como se nada tivesse acontecido.
Mande seus três teleportadores prepararem desintegradores portáteis. Devemos contar com um ataque dos robôs. Quando a hora tiver chegado, os teleportadores e os telecinetas deverão ser os primeiros a atacar. Reúna seus homens e mantenha desimpedido o convés central até que tenhamos chegado à sala. Acha que conseguirá?” Mais uma vez o telepata respondeu com um ligeiro sinal.
A conversa tornou-se cada vez mais forçada e vazia. Numa e noutra das mesas começaram a soar gargalhadas pouco autênticas. Ninguém deixara de perceber a conversa muda, e todos haviam ouvido que, dentro de quatro horas, 1.500 ciclópicos naats seriam levados a bordo.
Era claro que não poderiam aceitar mais esse tipo de dificuldade.
Tan’Ro, acabo de ser informada de que em breve deverão chegar cinco mil robôs pesados de combate da última série. O Grande Coordenador julga conveniente avisar os naats, que chegarão logo após, de que qualquer rixa será imediatamente punida. Como lugar-tenente do comandante, você deverá colocar os robôs nos depósitos a eles destinados. Entendido?
Entendido, Alteza — disse Rhodan com o rosto pálido e a voz débil.
A expressão de desespero nos olhos de Thora era inconfundível.
Mais uma coisa — disse com a voz entrecortada. — Pedem que, uma vez terminado o carregamento dos robôs, você compareça ao pavilhão de exames. Ordenaram nova investigação no seu cérebro. Não será dolorosa. Você voltará imediatamente. Pretendo realizar mais um ensaio de máquinas. Fim.
A imagem na tela empalideceu. Rhodan sentou lentamente. Por alguns segundos, reinou um silêncio completo no salão, em que cabiam quinhentas pessoas.
Quer dizer que os robôs chegarão, o mais tardar dentro de três horas. Vamos terminar a refeição e concluir os preparativos.
O sargento Rous foi o primeiro a afastar a louça de plástico. Pigarreando fortemente, convocou os homens de sua equipe técnica. O rosto de Anne Sloane apresentava uma palidez cadavérica. Era evidente que, se não poderiam aguardar a entrada de 1.500 ciclopes, muito menos poderiam esperar a chegada de 5 mil máquinas de guerra pesadas. Se necessário, poderiam enfrentar os primeiros, mas nunca um número tão grande de máquinas que cumpririam prontamente qualquer ordem do cérebro central.
Bell apalpou cuidadosamente o bolso interno de sua blusa colorida. Isso significava que os dados de uma transição ligeira que os levaria ao quinto planeta já haviam sido programados. Isso fora feito com o auxílio do microcalculador que, apesar do perigo que isso representava, fora trazido dos depósitos da Gazela.
Não se poderia correr o risco de utilizar um dos inúmeros instrumentos de bordo. Era um plano desesperado, que se tornava cada vez mais arriscado, à medida que aumentava a dependência temporal.
Apresse-se! — insistiu Rhodan. — Vamos proporcionar-lhes uma recepção condigna.
8



Mal saíram para o largo corredor que dava para a sala de comando, aconteceu alguma coisa com que nem Rhodan, nem qualquer dos outros homens do grupo contavam, principalmente num momento tão crítico.
O aparelho de minicomunicação guardado sob a blusa de Rhodan emitiu um zumbido estridente. Estava regulado apenas para uma freqüência bem determinada, por isso não poderia tratar-se de uma transmissão ocasional. Ouviram-se três zumbidos; depois houve uma ligeira pausa, seguida de cinco zumbidos.
Os dedos de Rhodan abriram apressadamente a vestimenta. O minúsculo instrumento apareceu.
É a Terceira Potência que está falando — soou uma voz apressada. Somente o coronel Freyt, comandante da Ganymed, poderia conhecer o sinal convencionado. Recebera instruções para só acionar os potentes transmissores da nave num caso de extrema emergência ou perigo.
O rosto de Freyt surgiu na minúscula tela de imagem.
Graças a Deus, o senhor ainda está vivo — soou a voz vinda do microalto-falante. — Ocorreu a hipótese Crepúsculo. Um comando de busca chefiado pelo naat Novaal descobriu que o senhor, Crest e Thora não se encontram a bordo. Novaal vai denunciar o fato. Orientei as antenas direcionais exatamente para Árcon I, II e III. Esperava encontrá-lo em algum lugar. Corremos um perigo enorme. Se o cérebro robotizado raciocinar logicamente, tudo estará perdido.
Rhodan contorceu ligeiramente os músculos da face.
Obrigado — fungou. — Fim. Aguarde-me dentro de trinta minutos. É possível que demore mais um pouco. Chegaremos num super couraçado. Prepare o plano Vesúvio. Teremos de arriscar tudo.
Os homens ficaram em atitude tensa.
De uma hora para outra, surgiram as armas que haviam sido guardadas nos alojamentos e foram passadas de mão em mão.
Não podemos perder tempo; está na hora — disse Rhodan apressadamente. — Todos a postos. Ivã, saia correndo. Você tem que dar um jeito de entrar na sala de comando. O cérebro só levará poucos segundos para descobrir quem somos. Os elevados quocientes intelectuais pelo menos o levarão a realizar um controle. O fato de que lá desapareceram vinte e cinco homens do nosso tipo logo provocará a desconfiança do robô. Gucky, salte para o depósito de armamentos juntamente com os outros teleportadores. Bell, entregue a fita de programação a Tifflor. Ele se encarregará da transição. Vamos logo, Ivã!
As últimas palavras terminaram num berro. Lá adiante o vulto gigantesco do mutante dobrou por um canto do corredor.
Gucky, Ras Tschubai e Tako Kakuta dissolveram-se no mesmo instante. Sabiam perfeitamente de que armas precisariam para enfrentar um ataque de robôs.
Os outros homens saíram em disparada, num silêncio paradoxal. Era uma corrida contra o tempo. Se o naat já tivesse transmitido seu aviso, o cérebro robotizado agiria com uma coerência implacável. E o estranho ser peludo seria reconhecido imediatamente.
Rhodan correu. Correu com o peito ofegante e as pernas apressadas em direção à sala de comando. Thora e Crest apareceram, vindos de um corredor lateral. Foi nesse momento que soou o alarma. Um apito estridente começou a soar. Outros juntaram-se a ele.
No momento em que Rhodan passava pelo elevador central, as escotilhas blindadas da sala de comando fecharam-se mais à frente. Com um forte estalo abriram-se os campos protetores energéticos destinados a oferecer proteção adicional. Sua luminosidade azulada fez empalidecer as luzes normais.
Para trás! — gritou Thora apavorada.
No último instante, Rhodan conteve o salto.
Ivã está lá dentro — gritou Wuriu Sengu, que se encontrava mais atrás. — Eu o vejo.
Respirando pesadamente, Rhodan empurrou os homens para trás, até a altura do elevador. O berreiro das instalações de alarma ainda enchia os recintos amplos do supercouraçado.
Ao fecharem-se, as escotilhas haviam atirado Ivã Goratchim ao solo. As duas cabeças comunicaram-se com um grito. Mais adiante, a uns quarenta metros do lugar em que se encontravam, o campo energético especial do controlador automático se inflamara. O instrumento se regulara para o suprimento energético de emergência.
As cabeças concentravam-se. A expressão dos grandes olhos tornou-se mais intensa. Os impulsos mentais invisíveis de nível superior atravessaram facilmente a estrutura energética do campo protetor.
O primeiro composto de carbono foi descoberto no próprio envoltório blindado. Ivã preferiu não atacar essa concentração de átomos. Isso levaria a uma explosão devastadora.
Na solda de uma das ligações de energia, seus olhos descobriram vestígios de cálcio.
Isso! — gemeu a cabeça da esquerda. — Não é demais. Tudo preparado?
Um impulso poderoso atravessou a barreira energética e a abóbada blindada. Apenas uns poucos átomos de cálcio foram atingidos pelo processo.
Ivanovitch, o jovem, soltou um grito estridente. Contrariando a vontade do outro cérebro, os dois braços do corpo desengonçado cobriram os olhos ofuscados. O colosso caiu pesadamente para a frente.
Uma ofuscante incandescência branca saiu do autômato. A chama subiu até o teto abaulado, atingindo o parapeito circular e causando graves avarias em alguns instrumentos de interpretação astronômica ali instalados.
A abóbada blindada de aço de Árcon não se desfez nos seus componentes. Mas no centro da mesma, apareceu uma fenda de um palmo em cujo interior fervilhava o material derretido. O campo energético desmanchou-se numa luminescência bruxuleante. O alarma automático de fogo logo passou a desenvolver sua atividade febril.
Os estridentes apitos de alarma deixaram de funcionar. As lâmpadas vermelhas voltaram a acender-se sobre as portas blindadas da sala de comando, que continuavam fechadas. As instalações comuns da nave, que já não estavam sujeitas à influência do controlador automático, imediatamente voltaram a desempenhar suas funções.
Ivanovitch gritou. Seu irmão mal e mal conseguiu arrastar o corpo da trajetória da porta interna que se abria.
Rhodan saltou para o recinto, com a arma engatilhada. Uma vez desaparecida a cortina energética, o mecanismo que abria a porta funcionou sem problemas.
Os lampejos ainda saltavam da abóbada rompida. Uma terrível onda de calor recebeu os homens que se aproximavam apressadamente. O fedor dos isolamentos carbonizados fez com que também a aparelhagem de condicionamento de ar entrasse em estado de alarma.
Rhodan cobriu o rosto com as mãos e saltou para dentro do assento de piloto de encosto alto. Atrás de suas costas, surgiam inofensivos robôs de reparos, controlados exclusivamente pelos mecanismos automáticos da própria nave.
Os bocais do equipamento de incêndio chiaram ao espalharem os produtos químicos que pelo simples contato produziam o congelamento dos pontos atingidos pelo incêndio. Momentaneamente uma temperatura mais amena começou a reinar na sala de comando.
Thora, controle as usinas energéticas — gritou Rhodan. — Ativar os campos defensivos. Rápido!
Os dedos trêmulos de Thora manipularam os controles.
O sargento Rous avisou que a nave estava pronta para decolar. Fazia algum tempo que chegara ao posto de controle das máquinas. Os alto-falantes de bordo transmitiram os primeiros rugidos dos disparos energéticos de alta potência.
Marshall e Sengu colocaram sobre as pernas o mutante monstro, que gemia deitado no chão. Não podiam prescindir de Ivã.
As enormes telas de visão global iluminaram-se diante de Rhodan. No mesmo instante, os grupos de geradores de números um a quatro começaram a funcionar.
Uivando fortemente, logo desenvolveram a potência máxima.
Quando os projetores de campo superpesados começaram a absorver a energia liberada, o gigantesco espaçoporto transformou-se num fim de mundo.
Um tremendo fluxo de energia espalhou-se vertiginosamente pelo corpo esférico do couraçado.
As placas de aço de vários metros de grossura que serviam de pavimento ao campo de pouso, transformadas em matéria gaseificada, foram atingidas pelo campo de defesa hipermagnético e atiradas violentamente para fora.
O hipercampo que servia à defesa contra objetos materialmente estáveis avançou até alcançar um raio de cinco quilômetros. As naves mais próximas foram agarradas por forças invisíveis e impelidas com tamanho ímpeto que até parecia que estavam decolando mediante o uso de toda a potência dos propulsores.
Uma área de dez quilômetros de diâmetros foi atingida pelos campos defensivos do supercouraçado. Não deixaram nada nos seus lugares. Nos pontos em que as energias tocavam o solo, descargas quilométricas subiam aos céus de Árcon. Os destroços incandescentes choviam, transformados em raios. Longe, um pequeno cruzador explodiu numa incandescência ofuscante. Era uma explosão nuclear espontânea, que só poderia ter sido causada pela reação das armas de bordo.
Um furacão de fogo rugiu sobre a área. Mais e mais construções e veículos espaciais foram atingidos pelas labaredas, e os destroços incandescentes continuavam a subir às camadas superiores da atmosfera.
Os grupos de reatores de números cinco a oito também estavam funcionando. Rous aumentou violentamente o desempenho dos gigantescos geradores. Um mar de lava começou a ferver em tomo da nave, mas esta não foi atingida por qualquer onda de compressão.
Rhodan ouviu seu próprio berro. Não sabia o que estava gritando no seu acesso de entusiasmo. Era a excitação dos últimos dias que encontrara um meio de expandir-se.
Thora anunciou que o campo antigravitacional e os neutralizadores de pressão estavam funcionando. Com isso, poderiam dispor de toda a potência dos reatores.
Os propulsores demoraram muito mais a entrar em funcionamento. Bell e Crest, que se encontravam no posto de controle dos mesmos, transmitiam as informações em tom extremamente nervoso. O propulsor número 16 parecia gaguejar. O processo de fusão nuclear fora iniciado sem que as máquinas estivessem aquecidas.
Dentro de poucos segundos também essa máquina acompanhou o rugido do conjunto que trabalhava em ponto morto.
Num gesto violento, Rhodan baixou a chave de decolagem automática e ligou o dispositivo de emergência destinado à pilotagem manual.
As luzes verdes dos controles de emergência confirmaram que o autômato central entrara em funcionamento. Dali em diante, poderiam contar com o mecanismo de alta potência de compensação positrônica. Pouco importaria a forma de decolagem: a aparelhagem auxiliar seria mantida constantemente na regulagem adequada. Isso acontecia principalmente com o mecanismo destinado à eliminação das forças de inércia desencadeadas durante o processo de decolagem.
Vamos, decole! — gritou Thora. — O que está esperando? Decole logo!
Olhando para as telas de visão global, Rhodan só viu um mar de fogo branco e ofuscante. Fora uma loucura final ativar os gigantescos campos energéticos no interior de uma atmosfera densa. E era ainda mais louco envolver neles um corpo em repouso.
Um terrível furacão de calor, mais violento e devastador que as ondas de compressão provocadas por uma explosão nuclear, rugiu sobre a área.
Junto aos campos energéticos, o ar entrou em incandescência. O vácuo aumentava de intensidade, enquanto perdurava o aquecimento forçado. Até parecia que Árcon III teria que submergir num inferno.
E olhe que apenas ativei os campos defensivos”, pensou Rhodan num instante. Logo colocou as chaves conjugadas dos propulsores na posição de decolagem.
Depois de três segundos as ligações sincronizadas passaram ao verde.
Com um rugido surdo, o gigante esférico desprendeu-se do mar de fogo que surgira no lugar em que antes havia chapas de aço.
Liberada do seu peso em virtude do eficientíssimo campo antigravitacional, os propulsores apenas tiveram que movimentar o gigante e vencer a resistência do ar.
O campo de pouso foi recuado. Dentro de dois segundos atingiram uma altitude de cinco mil metros.
Cuidado! — gritou Tifflor, abrigando-se imediatamente atrás de um aparelho.
Um raio térmico desprendera-se da abóbada energética bem visível do robô gigante. No momento em que a vista o captou, já percorrera a distância até a nave.
Uma luz ofuscante brilhou nos campos energéticos da Veast Ark. Um rugido surdo interrompeu os ruídos dos propulsores. O supercouraçado rechaçara o raio mortal com tamanha facilidade que o impacto mal chegou a ser registrado.
Que nave formidável! Que nave formidável! — gritou Rhodan. — Tifflor, ligue o autômato da transição. Entraremos na rota de salto.
A nova aceleração que Rhodan imprimiu à nave foi suficiente para transformar esta num vulto fugaz. Começou com a cifra de cem quilômetros por segundo. O intenso deslocamento de ar provocou novo furacão.
O que ficou para trás foi uma paisagem incendiada. A abóbada energética do cérebro, que continuou intacta, era o único vestígio das enormes construções e dos gigantescos estaleiros que antes cobriam a área.
Depois de menos de dois segundos, o brilho ofuscante desapareceu repentinamente diante dos campos defensivos. A Veast Ark acabara de atravessar as camadas superiores da atmosfera e ingressara no espaço vazio.
Imediatamente, Rhodan deu o desempenho máximo aos propulsores. Nunca ouvira um rugido tão violento produzido por uma aparelhagem desse tipo.
A irradiação de impulsos expedidos à velocidade da luz fez com que o supercouraçado avançasse ainda mais rapidamente. Com uma aceleração de 600 Km/seg2 disparou pelo espaço.
Tifflor trabalhou febrilmente na programação, que só agora se tornou possível.
Ao lado dele, Thora introduziu a rota de aproximação, também calculada com antecipação, no dispositivo positrônico de pilotagem automática. Por enquanto, a nave ainda se deslocava ao acaso pelo espaço vazio.
Onde estão os dados? — gritou Rhodan.
Uma imagem surgiu na tela. O rastreador automático, que logo começou a funcionar, indicou dois couraçados da classe Império.
As naves dispararam todas as peças. Cinco impactos, que teriam significado a destruição imediata de qualquer outra nave, atingiram simultaneamente os campos defensivos. Um ligeiro solavanco do corpo da nave foi o único sinal do ataque mal sucedido.
Após isso desapareceram imediatamente. As naves da classe Império só conseguiram acelerar à razão de 500 Km/seg2, enquanto o gigante do espaço dirigido por Rhodan atingia a marca dos 600 Km/seg2.
Nas telas de imagem, que finalmente começaram a mostrar contornos nítidos, surgiu o negrume infinito do espaço. Só depois de alguns segundos, os olhos ofuscados conseguiram distinguir o brilho formidável dos sóis muito próximos.
Ligar o piloto automático — gritou Thora. Estava próxima a um esgotamento total. Rhodan aguardou o sinal verde do piloto automático. Quando veio, moveu uma chave que desligou a direção manual.
Um tremendo rugido fez a Veast Ark estremecer. Num movimento que quase chegava a ser brusco demais para os compensadores de pressão, a esfera foi arrancada de sua trajetória.
A manobra de adaptação que foi seguida por uma força de quase 4g atravessou os compensadores. Thora, atingida pela súbita gravitação, caiu ao solo. Tiff ajoelhou-se abruptamente.
Já passou — gemeu Rhodan com o primeiro riso descontraído de seu rosto. — Já passou.
Seguiu-se um último empuxo de correção. O marcador de rota foi entrando no círculo de programação. Uma vez atingido, parou. O supercouraçado da classe Universo estava na rota correta.
Rhodan ia enxugar a testa quando recebeu a informação vinda de baixo. Bell havia abandonado seu posto.
Finalmente estamos em cima. Que coisa linda! Resta saber quanto tempo durará isso. Nossos amigos de quatro braços, não reagem bem aos disparos das nossas armas. Atravessam o teto e vêm subindo. A todo instante surge um deles no lugar em que menos se espera. Já paralisei os elevadores antigravitacionais. Ficar-lhe-ei muito grato se você puder dispensar alguns dos seus homens.
Rhodan conhecia essa linguagem intencionalmente relaxada. Sempre que Bell se exprimia dessa forma, estava prestes a sucumbir.
Rhodan mandou que todos os homens que pudessem ser dispensados descessem. Os mutantes já travavam uma luta encarniçada contra os robôs desalmados, que evidentemente não tinham a noção da morte.
Postos de comando dos mais importantes foram desguarnecidos.
Mande-os vestir trajes espaciais resistentes — acrescentou Bell. — O rosto que aparecia atrás do capacete estava enegrecido. — A temperatura média por aqui, às vezes, chega a trezentos graus, apesar do sistema de condicionamento de ar que está trabalhando a plena carga.
As ordens de Rhodan precipitavam-se. Faltavam uns quatro minutos para o início da transição. Tiff anunciara que estava tudo preparado. A programação elaborada por Bell fora introduzida num autômato encarregado do hipersalto.
Thora, faça o favor de expedir um impulso condensado pelo hipercomunicador, dirigido ao coronel Freyt. Repita, por quatro vezes, a palavra minhocão. Solicite confirmação.
Depois de ter posto o transmissor a funcionar, repetiu apenas três vezes a palavra convencionada. Freyt confirmou com um pio de um décimo de segundo.
Já sabia que dentro de três minutos, tempo standard, Rhodan efetuaria a transição.
Nos conveses inferiores, rugia a batalha de robôs. Menos de quarenta humanos e um rato-castor lutavam contra máquinas de guerra dotadas de reações instantâneas, cuja única ambição parecia consistir em desmanchar em cinzas qualquer ser orgânico que se encontrasse a bordo.
Era duro, para falar a verdade, duro demais. Até mesmo os velhos combatentes da batalha de Vega reconheceram isso.
Os teleportadores e telecinetas realizaram um trabalho imenso. Ivã Goratchim destruía uma máquina após a outra, fazendo com que se derretessem de dentro para fora. Sabia perfeitamente em que ponto dos cérebros que os dirigiam encontraria vestígios mínimos de carbono. Por sorte cuidara disso em tempo.
Trinta segundos para a transição — soou a voz de Rhodan pelos alto-falantes embutidos nos capacetes. — Doze, sete, um, vamos...
O campo estrutural formado de um instante para outro envolveu a nave. As naves da frota robotizada, que seguiam à pequena distância, registraram os fortes solavancos de uma alteração estrutural que se iniciava. Mais algumas unidades menores foram danificadas.
A Veast Ark, nova em folha, que apenas realizara alguns vôos de experiência, iria realizar a primeira transição.
Rhodan ainda sentia a dor na nuca. Logo depois disso, começou o sussurro indefinido do hiperespaço, que absorveu a unidade energética totalmente desmaterializada. Neste ponto, cessavam as leis do espaço normal.
Rhodan viu fenômenos luminosos confusos. Os combates travados a bordo do supercouraçado tiveram que ser suspensos, por alguns segundos.
9



O rosto anguloso do coronel Freyt passara por uma estranha transformação. Parecia uma careta de palhaço de segunda categoria.
Vem com um supercouraçado — repetiu a informação do rádio-telefonista. — Com um supercouraçado?
Sim senhor! — fungou o homem. Também parecia um tanto abalado.
Que droga! — exclamou Freyt do fundo da alma, tateando à procura de um lugar para sentar.
Gastou exatamente oito segundos para digerir a notícia surpreendente. Se o chefe disse que viria num supercouraçado depois de ter decolado numa minúscula Gazela, isso levaria qualquer psiquiatra, dotado de senso de objetividade, a comprimir os botões de alarme com os dedos de ambas as mãos.
Freyt não era psiquiatra, embora fosse um bom psicólogo. E, como conhecesse Rhodan, há bastante tempo, admitia a possibilidade daquilo que parecia impossível.
Quando os oito segundos haviam passados, virou-se rapidamente na banqueta giratória.
Será que essa mensagem pelo hiper-comunicador poderia ser um truque? — perguntou apenas por uma questão de forma.
Não foi nenhum truque. Foi o chefe em pessoa.
As solas de plástico dos sapatos de Freyt rangeram quando o mesmo atravessou apressadamente a comporta blindada que separava a sala de rádio da sala de comando. Em poucos segundos os homens que cochilavam nos postos de combate ouviram um berreiro. O rosto febril de Freyt surgiu em todas as telas.
O comandante para todos — soou a voz retumbante dos alto-falantes. — Ficaremos em rigorosa prontidão. Preparar as torres de canhão para serem escamoteadas. Neste instante, entra em vigor o plano Vesúvio. Fechar os trajes espaciais e ligar os rádios de capacete. Partida dentro de aproximadamente trinta minutos, tempo de bordo. Atenção, sala de máquinas: preparar nave para decolagem de emergência. Oficial de armas: apontar canhões para os alvos já identificados. Assim que as torres forem escamoteadas, os canhões deverão ser disparados. Se os projetores dos campos de sucção não forem destruídos no primeiro ataque, nunca conseguiremos sair daqui.
Atenção, tripulação do transmissor: orientar o aparelho para a grande torre de tele direção situada ao sul do espaçoporto. Uma bomba de fusão de vinte quilotons será suficiente, desde que exploda no interior da torre.
Central energética: colocar todos os reatores em funcionamento. Quando o chefe chegar, os campos defensivos terão que ser ativados dentro de um segundo. Sairá do hiperespaço depois de uma transição a pequena distância; provavelmente aparecerá a pouca distância do planeta. Sabem perfeitamente o que nos poderá acontecer se nessa oportunidade estivermos sem os campos defensivos.
Para sua informação: o chefe aludiu à sua chegada num supercouraçado. Face a isso, poderemos esperar ao menos uma nave da classe Império. Portanto, não se assustem se, de repente, avistarem um verdadeiro monstro. Confirmem o recebimento.”
Nunca se vira tamanha correria no interior da Ganymed, desde que a mesma passou a ser tripulada por seres humanos.
Jogos de baralho foram atirados aos cantos, rações comidas pela metade caíam ao chão. Face à prontidão simples já reinante, os postos levaram menos de três minutos para anunciar que tudo estava preparado.
Os canhões de desintegração giraram no interior das torres. Quando fossem escamoteados, não haveria necessidade de fazer pontaria antes de atirar.
O primeiro oficial da artilharia passou as pontas dos dedos pelo “teclado” de fogo. As luzes verdes se acenderam uma atrás da outra.
O funcionamento do transmissor fictício era autônomo. Na tela, aparentemente simples, surgiu a torre de mais de quinhentos metros de altura em que se localizavam as instalações de comunicação e tele direção. No interior da mesma, havia sido localizada a sala de comando dos projetores do campo de tração.
Antes da partida de Rhodan, os mutantes haviam assinalado a localização exata das máquinas subterrâneas. Em meio ao círculo assim traçado, encontrava-se a Ganymed, apoiada sobre as aletas de popa.
Máquinas começaram a zumbir. Dez minutos depois da mensagem de Rhodan, transmitida pelo hipercomunicador, não havia mais nada que pudesse ser corrigido ou melhorado.
Quase mil homens aguardavam ansiosamente o momento decisivo. Os rádios de capacete garantiam a comunicação radiofônica com todos os tripulantes. Freyt mandou que o receptor da nave fosse sintonizado para os transmissores de capacete. Dessa forma, todos ouviriam quando chegasse a grande notícia.
Freyt sabia que, antes do salto, Rhodan ainda forneceria outras indicações. Os segundos transformaram-se em eternidades, que pareciam desdobrar-se. Justamente nesse instante, a ligação especial com o oficial de comunicações do planeta Naat começou a funcionar.
Freyt fugiu apressadamente para um canto e fez um sinal. O tenente Tanner, um tipo moreno e ágil, colocou-se tranqüilamente diante do receptor. Na tela, surgiu o rosto redondo do naat com seus três olhos. Envergava o uniforme de comandante de couraçado.
O comandante Perry Rhodan já voltou da tal da excursão? — perguntou o ser estranho em tom irônico.
Deverá voltar daqui a uma hora, aproximadamente — respondeu Tanner com a maior indiferença. — Pode acreditar que o comandante apenas saiu para andar um pouco. Não agüentava mais ficar preso na nave.
Bem, veremos. Onde está o representante de Rhodan?
Está tomando um banho.
Está fazendo o quê?
Está se limpando. Raspando a sujeira da pele. Entre nós isso costuma ser feito com água e detergentes.
Que loucura! — exclamou o naat, filho de um mundo ressequido. — A água serve para beber. O senhor pôs em funcionamento as máquinas da nave. Por quê?
Não queremos que enferrujem. E os tripulantes têm que ficar em movimento. Permite uma pergunta? Onde está o senhor neste instante?
Na sala de controle. Por quê?
Perguntei apenas por curiosidade — disse Tanner com um sorriso muito gentil. — Sempre gosto de saber onde se encontra meu interlocutor. Quer que peça ao comandante que procure o senhor?
O naat desligou sem responder.
Esse sujeito nem desconfia de sua sorte — murmurou Tanner em tom sombrio.
Decorridos três minutos, surgiu outro impulso.
Três vezes minhocão — berrou o operador de rádio.
Freyt limitou-se a fazer um gesto. Logo começou a contar. Depois de três segundos, os rastreadores estruturais registraram um salto. Meio segundo depois, Freyt comprimiu todos os botões que se encontravam ao alcance de suas mãos. Os geradores da Ganymed começaram a rugir. Com um estalo, surgiu um campo energético muito estreito, mas altamente condensado junto ao envoltório externo da nave.
As torres dos canhões saíram dos abrigos. Antes que o ruído ensurdecedor de uma manobra de imersão realizada nas Imediações da nave atingisse os rastreadores estruturais, o oficial de artilharia abriu fogo.
Os raios de impulsos foram expelidos com um rugido. O solo começou a ferver nos pontos em que era atingido pelo calor tremendo das radiações. Crateras borbulhentas surgiram nos pontos exatos em que os projetores do campo de tração estavam montados no subsolo.
A condensação energética de uma bomba arcônida propagou-se com a velocidade da luz e atingiu uma nave da classe Império pousada no campo. A gigantesca esfera, totalmente desprotegida, desmanchou-se numa luminosidade tremeluzente.
No mesmo instante, uma enorme coluna de fogo saiu da imensa torre de controle. O transmissor fictício não tivera a menor dificuldade em romper o campo defensivo e colocar a bomba no interior da construção.
Destroços incandescentes subiram com o cogumelo típico das explosões nucleares. A Ganymed ignorou o furacão escaldante provocado pela onda de compressão pois, naquela fração de segundo, entraram em ação forças muito mais poderosas que as desencadeadas por uma bomba de vinte quilotons.
Pouco acima do envoltório atmosférico do quinto planeta de Árcon um verdadeiro monstro retornava ao espaço normal.
Freyt, está preparado? — berrou uma voz conhecida, na qual ainda ressoava o choque da transição. — Decole. Dentro de dez segundos, estarei acima do espaçoporto.
Freyt empurrou para baixo a chave de engate. O inferno desencadeado nas imediações da Ganymed preenchera sua finalidade. Os invencíveis campos de tração não existiam mais.
No momento em que flamejantes jatos de popa ergueram o couraçado e este começou a subir lentamente, nova desgraça desabou sobre a base espacial de Naatral.
Uma gigantesca esfera de fogo aproximou-se velozmente, vinda do leste. A Ganymed, que subitamente acelerou ao máximo e disparou para o alto, mal e mal escapou à onda de compressão antes que um terrível furacão começasse a rugir.
O novo supercouraçado voava a apenas dez quilômetros de altura, provocando uma terrível onda de compressão e de sucção.
O quinto mundo jamais conhecera um furacão como este. Pesadas naves foram arrancadas das suas bases e instalações técnicas caíram como castelos de cartas.
Após um instante, tudo passou. Bem ao longe, um ponto luminoso que parecia insignificante corria para o espaço. Uma vez rompida a atmosfera, cessou a incandescência que tremulara em torno da Veast Ark numa extensão várias vezes superior ao seu diâmetro.
Poucos segundos depois foi localizada a Ganymed. No mesmo instante, o supergigante surgiu nas telas dos rastreadores da nave terrana.
Santo Deus! — gemeu o comandante. — O que é isso?
As telas iluminaram-se e mostraram o rosto desfigurado de Rhodan.
Freyt, tenho que pilotar esta nave enorme com uns dez homens, porque os outros estão lutando contra os robôs. Nada de perguntas. Thora fornecerá as coordenadas. Ligue o piloto automático, adapte a rota e acelere ao máximo. Dentro de onze minutos, aproximadamente, realizaremos uma transição de aproximadamente três anos-luz para o interior do grupo de estrelas. Os dados para o salto lhe serão fornecidos depois da adaptação da rota. Apresse-se. Preciso de reforços, não importa como.
Os tripulantes da Ganymed agiram com uma segurança de sonâmbulos. Rhodan não teve de explicar as dificuldades que tinham de ser enfrentadas para pilotar uma nave dessas com os controles de emergência.
Os dados chegaram. Os propulsores da Ganymed rugiram durante a manobra de adaptação de rota. Depois de realizada a última correção, deslocava-se praticamente na esteira dos jatos da outra unidade.
As coordenadas do salto foram introduzidas diretamente no dispositivo automático. Não se realizou nenhuma programação mais precisa.
Localização no verde trinta e dois graus, cerca de cem naves — soou a informação vinda do posto de rastreamento. — Outra localização no vermelho, cinqüenta unidades pesadas. As transições sucedem-se ininterruptamente.
Freyt pôs a funcionar os compensadores estruturais. Assim que mergulhasse no hiperespaço, não poderia ser localizado. Todavia, a localização da nave de Rhodan seria perfeitamente possível. Freyt começou a transpirar sangue. Mais uma vez, o chefe colocava todas as chances numa única cartada. Provavelmente estaria contando com a confusão tremenda, reinante no setor de Árcon.
Faltam vinte segundos — soou a voz de Rhodan. Era quase imperceptível. Dez, seis, um, vamos.
Dois corpos imensos desfizeram-se numa luminosidade ofuscante. No mesmo instante surgiu um tremendo rugido na área do quinto planeta. Mais de duzentos couraçados imergiram quase simultaneamente no espaço normal.
A transição de Rhodan foi muito breve. Quando sentiu a dor da rematerialização, mal conseguiu levantar-se.
Bem perto do supercouraçado, a Ganymed penetrou na dimensão normal à mesma velocidade apenas onze por cento inferior à da luz.
Depressa, Freyt! — gritou Rhodan no microfone. — Mais meia hora, e estamos liquidados. Está registrando alguma transição?
Ininterruptamente — foi a resposta nervosa. — Tivemos sorte. Posso garantir que nesta confusão tremenda não puderam localizar onde saímos. À nossa frente, está um grande sol vermelho. Não houve nenhuma localização. Será que o senhor podia puxar-me com um ralo de tração?
Não tenho gente para isso — cochichou Rhodan, exausto. — Vou desligar os campos energéticos. Procure segurar minha nave.
Rhodan acionou pessoalmente os controles necessários. Thora estava pendurada no seu assento de piloto; perdera os sentidos.
Um grupo de reatores deixou de funcionar. Logo depois, outro. Os dezoito propulsores deixaram de trabalhar ao mesmo tempo. Só os geradores pequenos destinados ao suprimento interno da nave continuaram a funcionar.
Indefeso, o supercouraçado deslocava-se vertiginosamente em queda livre, atravessando o espaço vazio em direção ao sol vermelho, ainda distante.
Cambaleante, Rhodan saiu da poltrona e ajudou Tifflor a pôr-se de pé.
Já estou bem — disse Tiff com um sorriso débil. — Duas transições seguidas foram demais.
Fique aqui — ordenou Rhodan com uma calma estranha. — Abra as comportas polares superiores assim que os homens de Freyt iniciarem a travessia. Darei uma olhada lá embaixo.
Não faça isso! — gritou o jovem atrás dele.
Tiff arregalou os olhos de pavor.
Rhodan limitou-se a fazer um gesto. Ao entrar no corredor circular que começava junto à sala de comando, ouviu o ruído dos disparos. As detonações agudas sucederam-se.
Ivã”, pensou Rhodan, enquanto sentiu suas energias despertarem de novo.
Dois conveses abaixo, encontrou os primeiros combatentes. O sargento Rous se encontrava no comando. Um calor abrasador reinava em toda parte. Rhodan viu-se obrigado a fechar o capacete.
Tudo bem. Por enquanto conseguimos agüentá-los — soou a voz de Rous no alto-falante do capacete. — Derrubamos uns duzentos e cinqüenta. Na maior parte, devem ser creditados a Ivã e Gucky. A coisa não seria muito grave se essas máquinas não disparassem as armas para abrir furos no teto das salas situadas abaixo de nós para subir mais um pavimento.
Defenda o elevador central. Bell, onde está você?
De repente Rhodan, sentiu-se dominado pelo medo de que o amigo pudesse estar morto. Soltou um grito mais forte e desesperado para chamar o companheiro.
No convés trinta e dois, diante da porta de uma sala de máquinas — rangeu a voz áspera de Bell. — Estão atacando que nem uns loucos. Trouxe a Ganymed? A única coisa que percebemos foram os dois saltos.
Dentro de vinte minutos, no máximo, chegará um reforço de oitocentos homens. Freyt está realizando a manobra de aproximação. Agüentem mais um pouco, rapazes. Este problema também será resolvido.
Rhodan desceu por íngremes escadas de emergência. À medida que penetrava na parte inferior da nave, o calor tornava-se mais insuportável.
Isso não afetava o material de que era feita a nave. Não havia por ali nenhuma porta, nenhuma travessa que não fosse de aço arcônida, um material que suportava perfeitamente temperaturas superiores a trinta mil graus.
Descobriu os homens de Bell atrás de uma coluna de suporte do amplo salão. Eram apenas seis homens equipados com dois canhões de desintegração portáteis e alguns radiadores de impulsos pesados que mantinham a posição-chave extremamente importante.
Cuidado! — berrou alguém.
Rhodan saltou para o abrigo mais próximo. No lugar em que se encontrara um instante antes, surgiu uma mancha incandescente, da qual o metal derretido pingava ao solo, produzindo um chiado.
Rhodan atirou instintivamente. O feixe de raios ofuscantes de sua arma de impulsos inflamou o campo defensivo do robô. Um segundo impacto derrubou o vulto repentinamente saído de um corredor lateral.
A máquina debatia-se furiosamente no chão. A grande mancha incandescente do peito expelia chamas ofuscantes. Era uma luta irreal e enervante. Ninguém sabia indicar o lugar exato em que se encontravam os cem robôs de combate que ainda restavam. Era de esperar que de repente surgissem pelas costas, desenvolvendo a rapidez que lhes era peculiar. Quando suas pesadas armas começassem a disparar, não haveria nada que pudesse detê-los. O homem teria de provar que sabia compensar a enorme agilidade mecânica das máquinas desalmadas por meio da sua inteligência.
Até agora, havia sido capaz. Mas Rhodan não devia lembrar-se dos homens que apesar de tudo foram surpreendidos.
Gucky apareceu por um instante. Ele e os dois teleportadores eram praticamente os únicos seres inatingíveis. E o rato-castor ainda tinha a vantagem de, além da teleportação, ainda dominar a arte da telecinese.
Antes que os homens de Bell pudessem girar suas armas, o ser peludo descobrira o vulto metálico que se aproximava sorrateiramente.
Rhodan ouviu seu próprio sorriso forte e estridente, quando subitamente o robô voou e foi atirado contra o teto com tamanha força que seu micro cérebro, sensível aos choques, foi prontamente inutilizado. Depois, foi jogado ao solo por duas vezes com um impacto terrível. Por fim, começou a girar loucamente, agitando os membros metálicos.
Gente, que brincadeira! — disse a voz chilreante de Gucky.
No mesmo instante o rato-castor desapareceu.
Rhodan soltou os últimos sons inarticulados de seu riso histérico no microfone. Depois de uma grave dissonância, calou-se.
Está bem, minha gente, também tenho nervos — soou sua voz nos alto-falantes dos capacetes. — Assim que puderem, respondam um por um. Onde está Crest?
Na sala de controle de máquinas, Perry — soou a voz do arcônida. — Estamos num campo de tração muito potente. Parece que...
O disparo de um desintegrador abafou a voz de Crest. O homem agachado atrás do canhão portátil mastigava, automaticamente, um alimento concentrado conduzido à boca.
Não há nada como as boas maneiras à mesa — disse em tom sarcástico.
10



Ao lado do supercouraçado, a Ganymed com seus 840 metros de comprimento e 220 metros de diâmetro parecia um barco salva-vidas de tamanho um tanto exagerado.
Ao saírem das comportas de ar para num salto vencer a distância de menos de cinqüenta metros que os separava das escotilhas externas do gigante, os homens dos grupos de combate tiveram de usar toda a capacidade de raciocínio para não se impressionarem profundamente com a massa enorme que tinham diante de si.
Grupo Tanner, segunda comporta da esquerda — disse a voz saída dos alto-falantes de capacete. — Quando penetrarem na atmosfera normal, regulem os campos defensivos dos trajes para a potência máxima. Não os abram. Em alguns setores a temperatura é muito elevada.
Desintegradores superpesados, artefatos que, muito mal, podiam ser carregados e manejados com as duas mãos, foram trazidos a bordo pelos oitocentos homens.
Freyt resolveu utilizar também as comportas da cúpula polar inferior para penetrar na nave. Se os robôs ainda intactos reagissem de acordo com as leis da lógica, teriam de lutar em duas frentes.
Os homens da Ganymed trouxeram equipamentos de que o grupo de Rhodan não dispunha.
Se a bordo da supernave existiam trajes arcônidas com geradores e campos defensivos próprios, estes ainda não haviam sido encontrados.
Parado diante do grande elevador central, Tifflor indicava as posições dos grupos que iam chegando.
Os combatentes, totalmente esgotados, retiravam-se das suas posições, que passavam a ser ocupadas por elementos descansados.
Só os mutantes continuaram a combater. Dentro de meia hora, a ordem estabeleceu-se naquela confusão. Os campos defensivos dos trajes arcônidas eram capazes de resistir a um impacto oblíquo. Mas com um disparo de radiações direto de um robô, a coisa mudava de figura. Nesse caso, os campos defensivos desmoronariam.
Rhodan, Crest e Thora encarregaram-se da distribuição de tarefas nas áreas inferiores. Os oitocentos homens foram avançando implacavelmente para cima, ou para baixo.
Passada uma hora a ação concentrou-se aos recintos do convés 32, interrompido e dividido a cada passo pelos elevados pavilhões de máquinas.
Atenção, todos os combatentes — soou a voz de Rhodan pelo rádio. — Os robôs que se tiverem abrigado atrás de alguma máquina importante não deverão ser atacados pelos senhores. Sempre que virem um deles ou o localizarem com os rastreadores energéticos portáteis, avisem imediatamente o tenente Marshall, que enviará um mutante. Só atirem quando não houver risco de destruir alguma instalação vital.
Rhodan virou-se abruptamente quando alguns vultos delicados passaram apressadamente. Eram os robôs médicos da Ganymed, cujas células sensoriais descobriam um ferido com maior facilidade que o olho humano.
Quando as primeiras vítimas da luta desigual foram carregadas nas macas, Rhodan mordeu os lábios. Os Drs. Haggard e Manoli também estavam por perto.
Na maior parte das vezes, os ferimentos eram graves.
Daremos um jeito em tudo isso — gritou Haggard. — Haverá necessidade de algumas amputações, mas para a bioplástica arcônida isso não representa qualquer problema. Preciso de vinte homens descansados para transportar os feridos.
Rhodan expediu imediatamente as respectivas instruções. Os feridos foram transportados com o maior cuidado para a Ganymed, onde poderiam contar com todos os recursos da medicina.
Foi duro, muito duro! — suspirou Bell. Seus cabelos ruivos cortados à escovinha estavam chamuscados em cima da testa. — Esses robôs devem pertencer a um novo modelo. Reagem mais depressa que os nossos. Se tivéssemos mais cinco mil máquinas desse tipo a bordo, seria a morte.
Mal acabou de proferir estas palavras, adormeceu sentado. Não despertou quando o braço mecânico de um robô o ergueu suavemente e o retirou do lugar.
Demorou mais quatro horas, até que as últimas máquinas de guerra fossem abatidas a tiro ou destruídas pelos mutantes. Rhodan organizou grupos de busca, aos quais coube a tarefa desagradável de limpar os diversos setores da nave.
Tomem cuidado, mas não se deixem dominar pelo pânico. Pela própria estrutura técnica dos robôs de guerra, estes não costumam esconder-se à maneira humana. Atacam enquanto podem. Por isso, é quase certo que não encontrarão nenhuma dessas máquinas em atividade. Se ainda houvesse alguma, ela se teria precipitado para as linhas de fogo.
Rhodan voltou o rosto cansado. O Dr. Eric Manoli contemplou um par de olhos apagados e inflamados, que retratavam todas as canseiras e preocupações das últimas horas.
Você precisa descansar imediatamente — preveniu-o Manoli em tom preocupado. — Seu corpo não agüenta isso por muito tempo.
Em primeiro lugar, vem minha nave e minha gente. Onde está Freyt?
Lá em cima, na sala de comando. Subiram nos elevadores antigravitacionais que já funcionavam de novo.
Quando Rhodan entrou na sala de comando, os homens ficaram em posição de sentido. Thora dormia profundamente no assento de piloto.
Rhodan parou um instante diante dela e olhou o rosto descontraído. Manoli suspirou aliviado quando viu que os lábios tensos de Rhodan foram afrouxando.
As telas de observação global estavam em funcionamento. Especialistas muito bem treinados, familiarizados com a aparelhagem da Stardust-III, ocupavam os postos mais importantes.
Julian Tifflor, de repente parecia não saber o que era o cansaço, vez por outra dava suas explicações.
A sala de rádio estava guarnecida e uma das grandes unidades energéticas trabalhava com a potência mínima.
Nas cúpulas polares da nave-gigante, giravam as antenas dos rastreadores. A sala de observação e de rádio só se distinguia daquela da Stardust pelo seu tamanho impressionante.
Rhodan ouvia atentamente o trovejar surdo emitido ininterruptamente por um dos rastreadores estruturais.
Estão loucos à nossa procura — disse Freyt em voz baixa. — Ouça este tráfego de hipercomunicações! O robô gigante deve estar fora de si, se é que isso pode acontecer com um robô.
Rhodan passou pela comporta blindada. Mais uma transição sacudiu os instrumentos. Escutou por alguns segundos e lançou um olhar para as telas vazias dos rastreadores de matéria de velocidade superior à da luz. Finalmente deixou-se cair numa poltrona articulada.
Era o que eu imaginava! Só mesmo por acaso, em meio a tantos hipersaltos, o cérebro poderia ter fixado justamente a posição do nosso. Por pouco, não perdemos a hora de saltar. Se o fizéssemos agora, dentro de poucos minutos toda a frota estaria em cima de nós.
Onde estamos neste instante? Rhodan fitou a enorme tela de visão global, que se estendia sem a menor solução de continuidade. O grande sol vermelho destacava-se nitidamente sobre o cintilar irreal do grupo M-13.
Não tenho a menor idéia. Só sei que percorremos uma distância de três anos-luz. Os cálculos da segunda transição foram realizados por Thora. Deve ter escolhido um lugar relativamente solitário no meio desse entroncamento de tráfego galático. Freyt...
O coronel aproximou-se.
Pois não.
Seu aviso chegou bem na hora. Sem ele, ainda teria esperado ao menos duas horas. Qual foi o motivo da investigação?
De repente, o tal do administrador de Naat quis falar com o senhor. Ao que parece, tratava-se de uma tarefa no espaço que devíamos realizar por ordem do cérebro.
Ah! — disse Rhodan, acompanhado por uma risada sem graça.
Novaal, o tal do nativo, veio a bordo. Foi quando começamos a transpirar. Deu pela falta do senhor, e depois de algum tempo também de Thora e Crest. Toda a tripulação teve que entrar em fila fora da nave. Aí a coisa foi descoberta. Logo expedi a mensagem de emergência. Deve ter sido uma questão de minutos, visto que Novaal imediatamente expediu uma mensagem destinada ao cérebro. Nós a captamos.
Rhodan acenou, em atitude pensativa. Enquanto virava a cabeça, seus olhos voltaram a brilhar. Era o momento da compreensão consciente. Naquele momento, deu-se conta de quanto realizara com aquele pequeno grupo de homens e mulheres.
Freyt sorriu consigo mesmo, quando notou a alteração havida no rosto de Rhodan. Essa alteração revelava um traço do caráter de Rhodan, que, quase nunca, o abandonara.
O doutor começou pelo estraçalhamento interno, observado na expressão de Rhodan.
Não comece a pensar naquilo — observou o médico imediatamente. — Um certo tipo de autodiagnóstico pode ser totalmente aceitável, mas não para o espírito de um homem que a rigor devia estar na clínica. Você devia acabar com esse tipo de autocrítica.
Rhodan dispensou um ligeiro olhar ao amigo dos primórdios da conquista espacial primitiva. Manoli acompanhara o primeiro vôo tripulado à Lua no foguete químico Stardust. Foi naquele dia, em 19 de junho de 1.972, que tudo começou.
Que dia é hoje? — perguntou Perry com a voz baixa.
Três de junho de 1.984 — disse Manoli em tom compreensivo.
Rhodan deu uma risadinha distraída. Depois disse:
Acho que vamos dar a esta nave formidável o nome Titan. Sabem que a Terra já dispõe de um couraçado gigante que provavelmente é o maior e o mais poderoso da Via Láctea?
Lançou os olhos em torno. Os rostos céticos fizeram aflorar um sorriso em seus lábios. A velha ironia ressoou em suas palavras:
Bem, não é o que pensam. Garanto-lhes que não entregarei esta nave a ninguém. Precisarei de trinta dias para treinar a nova tripulação. Depois veremos como serão embaralhadas as cartas. Nossa excursão a Árcon foi um fracasso moral de primeira ordem. O resultado prático da mesma consiste apenas no conhecimento do que está acontecendo no Grande Império. Esse conhecimento compensa todos os sofrimentos. Meus amigos, se hoje a Terra fosse descoberta por uma frota robotizada, teríamos tempos terríveis diante de nós. Até agora isso não aconteceu, porque ninguém me convencerá de que os mercadores galácticos entregariam a posição de um sistema solar tão valioso a um cérebro robotizado. Se o fizessem, já não teriam nenhuma chance real.
Um novo rugido soou nos rastreadores estruturais. Por alguns instantes, viu-se um pontinho luminoso na tela diagramática do aparelho de observação a longa distância.
O corpo de Rhodan só se descontraiu quando o ponto estranho saiu da tela.
Estamos num lugar muito movimentado — observou Freyt em tom nervoso. — O que vamos fazer?
Rhodan levantou-se tranqüilamente. Mais uma vez, seus olhos procuraram o sol vermelho.
Mande setecentos homens para cá. Com trezentos homens, o senhor não terá nenhum problema em controlar a Ganymed. A Titan leva quarenta naves auxiliares da classe Good Hope. Se ainda quisesse tripular as mesmas, precisaria de cerca de mil e quinhentos homens treinados. Procuraremos um meio de nos separarmos rápida e discretamente do grupo estelar M-13. Por enquanto é só.
Quando Freyt ia formular outra pergunta, viu diante de si um homem que dormia com os olhos entreabertos. Sem dizer uma palavra, saiu da sala de comando.
Lá fora, no grande ponto de entroncamento e controle da imensa nave, Julian Tifflor continuava em plena atividade.
Dirija-se imediatamente à clínica — resmungou Freyt em tom mordaz. — Faça o favor! É uma ordem. Deixe isto aqui por nossa conta. Saberemos lidar com as máquinas. Vamos logo, rapaz, o senhor precisa dormir.
Tifflor mergulhou num oceano de embaraço quando sentiu a mão de Freyt pousada em seu ombro.
Rapaz, vocês fizeram um trabalho formidável! — disse alguém.
Naquele momento, também Tiff estava de folga.
Bem longe da nave que vagava pelo espaço, o sol desconhecido ocupava seu lugar no firmamento.
Parecia uma lágrima de sangue.





* * *
* *
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Sim, era este o grande segredo que Crest e Thora guardaram por treze anos: Árcon é um mundo formado por três planetas, um mundo de maravilhas técnicas.
Foi só graças ao transmissor fictício vindo do planeta Peregrino que Perry Rhodan teve possibilidade de visitar o mundo dos milagres.
Mas, para sair de Árcon teve de recorrer a um estratagema.
Perry Rhodan e seu grupo conseguiram escapar ao cérebro positrônico, mas será que recuperaram a liberdade de ação?
Luta Contra o Desconhecido, o novo volume da série Perry Rhodan oferecerá o relato fascinante das novas aventuras dos astronautas terranos.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html