Bell e os
seus levaram cinco horas para atingir uma das pequenas espaçonaves.
Os gons haviam desaparecido há muito tempo e não se manifestavam
mais.
Também os
bios não davam sinal de vida. O céu cinzento estava livre de corpos
estranhos. Só as estrelas mostravam o brilho opaco.
Ao
chegarem a uns duzentos metros de seu objetivo, Bell deu uma ordem a
Betty Toufry:
— Analise
um pouco a situação, Betty. Queremos saber o que há lá dentro.
No seu
íntimo, estava calculando a distância entre o primeiro aparelho e o
segundo.
Depois das
investigações de Betty, tudo lhe parecia inútil. A distância de
um para o outro era considerável e precisariam de mais duas horas
para atingir o aparelho mais próximo. Além de tudo, Tschubai estava
esgotado para poder transportá-los ou melhor teletransportá-los
para bordo.
Betty se
estirou no chão, comprimindo o binóculo contra a viseira.
Passaram-se minutos, sem novidade alguma.
De repente
a nave começou a vibrar. Bell viu quando uma chapa mal recortada se
desprendia da parede lateral da carcaça e caía no chão aos
pedaços.
— Continue
— disse ele.
Betty não
se deixou perturbar. Sob a poderosa energia de seus dons
telecinéticos, pedaço por pedaço da carcaça do aparelho se
esfarelava no chão, até que o teto, já sem sustentação, desabou
por completo. O espaço interno, agora já totalmente devassado,
estava mesmo vazio.
Bell
suspirou triste:
— Podíamos
ter evitado isto. Agora só nos resta nos arrastar mais duas horas
até o próximo aparelho.
Marshall
notou seus cuidados:
— Não
se preocupe com isto. Não ficaríamos tranqüilos enquanto não
fizéssemos esta experiência.
— Obrigado,
— disse Bell, triste. — Vamos, portanto continuar.
*
* *
Os gons
acabaram de receber a mensagem dos aras, aliás bem nitidamente pois
havia muitos deles reunidos — mais ou menos cem mil — para
protegerem os estranhos contra o tufão. Estes estranhos eram
preciosos e tinham aniquilado os horrorosos bios... compreenderam no
mesmo instante o que significava aquela ordem.
Apesar de
não saberem propriamente o que era técnica, sabiam perfeitamente de
que meios técnicos dispunham os aras. Não ignoravam que o destino
da raça dos gons seria decidido, se não obedecessem à ordem dos
aras.
Os gons se
apressaram em iniciar a reunião e para isso se dirigiram a um dos
locais de assembléia, que estavam distribuídos por toda a
superfície do planeta.
Recebiam
resposta de todos os lados e quando chegaram ao local, lá
encontraram já muitas centenas de milhares de gons reunidos. De
acordo com as instruções, estavam esperando em locais diferentes;
pois era um fato comprovado pela experiência entre os gons, que,
numa assembléia geral, prevalecia sempre a vontade daquela parcela
que antes da reunião era a maior. No momento, tudo dependia da
consciência daqueles cem mil gons que haviam recebido a ordem dos
aras. Aqueles esperavam pela chegada dos demais. Iriam se unir a
eles, conforme a ordem de chegada, de tal maneira que o conteúdo da
consciência dos cem mil haveria sempre de dominar.
Desta
maneira demorou mais de vinte horas até que se formasse um supergom,
que era capaz de atuar de acordo com o que desejavam os aras. Era a
maior reunião de que se lembrava o supergom. Isto representava
alguma coisa, pois a consciência histórica dos gons era coletiva e
sob certos aspectos mais fidedigna do que documentos escritos.
O número
total devia ser de um bilhão de gons que se aglomeraram por ordem
dos aras. Estendiam-se por uma superfície de cerca de mil
quilômetros quadrados.
Era o
maior poder bélico reunido. Embora a gigantesca camada
marrom-escura, em nenhum lugar, fosse mais espessa do que um
centésimo de milímetro, o solo tremia quando ela passava.
*
* *
Bell tinha
se enganado. A tremenda explosão provocada por Ivã Goratchim, que
os atirara pelos quatro cantos como folhas secas, era a causa de que,
após qualquer movimento, todos se tornavam tão cansados e abatidos.
Sentiam-se como se tivessem andado o dia inteiro.
A
caminhada até ao disco voador, desintegrado por Betty, foi a última
que podiam fazer sem uma pausa para descanso. Bell percebeu a
necessidade de um repouso. Estavam talvez a um quarto do caminho
entre o disco destruído e o próximo, quando Bell ordenou uma
parada, simplesmente porque ninguém mais agüentava.
Pararam
onde e como estavam e, quase no mesmo instante, pegaram no sono.
Acordaram
após cinco horas de repouso. Marshall levantou a cabeça e exclamou:
— Meu
Deus, que está acontecendo?! Bell virou-se para o lado, mas não viu
nada de extraordinário. Tinha dormido como um prego e se sentia mais
disposto do que antes.
Instantes
mais tarde também despertou Betty, com um grito angustiante.
Levantou-se depressa e perguntou com os olhos arregalados:
— Que é
isto? Que está acontecendo?
Bell se
dirigiu a Marshall.
— Santo
Deus, mas afinal de contas, que é isto?
Marshall
sacudiu a cabeça e olhando para o céu cor de chumbo disse:
— Acho
que é o inferno! Gons, uma multidão tremenda de gons. Se o ar fosse
telepático, já teria explodido de tanto impulso dos gons.
— E o
que você acha disso? — perguntou Bell.
Marshall
encolheu os ombros desanimado.
— Você
sabe que não consigo compreendê-los quando não se dirigem
diretamente a mim.
— Não
se preocupe com isto. Os gons nos salvaram na hora da tempestade. Por
mim, podem se reunir aqui aos milhões — disse Reginald.
— Você
pensa mesmo assim? — perguntou Marshall. — Quem é que lhe
garante que os gons ainda tenham a mesma impressão a nosso respeito?
Bell já
tinha uma resposta galhofeira na boca, mas engoliu-a prontamente.
Lembrou-se de que Marshall já por duas vezes se mostrou mais a par
das coisas dos gons do que ele. E podia realmente acontecer que
tivessem mesmo mudado de opinião. Ninguém sabia mesmo o que se
passava em Gom e ninguém conhecia bem os gons.
— Está
bem. Então vamos tentar chegar ao aparelho o mais depressa possível.
Se os gons mudarem de opinião, não nos afetará em nada.
Marshall
concordou com a idéia. O “desassossego
telepático”
no espaço, como ele se expressava, parecia realmente tremendo.
Arrastaram-se
com mais rapidez do que antes. A nave parecia se aproximar. Durante a
caminhada, Marshall parava de vez em quando para escutar. Comunicou a
Bell, que o “desassossego
telepático”
aumentava cada vez mais.
— Tenho
a impressão de que se vai reunir, não longe daqui, uma enorme força
bélica dos gons. Gostaria de saber o que pretendem fazer.
Duas horas
depois da partida, chegaram ao aparelho. Bell, premido pela situação,
não quis mais perder tempo investigando se estava ou não vazio.
Depois de procurar um pouco, achou a única escotilha, e, a seguir, o
mecanismo que a descerrava. A porta se abriu, deixando ver uma câmara
espaçosa onde cinco bios caberiam com largueza. E, muito melhor,
Bell e seus quatro companheiros.
A
dificuldade consistia em alcançar o degrau da entrada, que estava a
um metro de altura, com os corpos cansados e sem força. Felizmente,
com auxílio de Goratchim, conseguiram. O mutante de duas cabeças,
com sua força física fora do comum, foi o que menos sofreu com as
peripécias das últimas horas. Mas precisavam de uma hora ainda para
se refazerem. Durante este tempo, o “desassossego
telepático”
chegou ao máximo.
— Estou
com medo — confessou Marshall. — Se é por nossa causa, esse
movimento todo, estamos perdidos, como os homens no dilúvio, fora da
arca de Noé. Não temos meio de defesa contra esta inundação.
Bell sabia
disto. A princípio pensava que nada lhes aconteceria, enquanto Ivã
Goratchim estivesse atento e pudesse aplicar seus dons incríveis,
quando o perigo se tornasse maior. Pois os gons se compunham também
de material orgânico, em parte do mesmo material que os bios. Ivã
poderia provocar uma fusão de cálcio no corpo dos gons e
destruí-los. Porém os gons formavam um conglomerado tão grande,
como dizia Marshall, e assim a explosão atingiria não somente os
gons, mas, também o próprio Ivã, seus companheiros e talvez mesmo
o planeta inteiro, destruindo tudo.
Portanto
os dons tremendos de Ivã estavam fora de cogitação. Sua única
esperança eram então as pequenas armas de raios energéticos e o
disco voador onde tinham penetrado.
No
aparelho, havia a mesma gravidade que em Gom. A esperança de que
dentro da nave se sentiriam melhor e poderiam se mover mais
facilmente do que na planície rochosa, foi destruída num instante.
Com muita
dificuldade, Bell e os seus penetraram no interior da pequena nave e
verificaram o que Tako Kakuta já havia visto há vinte horas atrás:
não havia nenhuma possibilidade de manobrá-la.
A emoção
foi tão grande que ficaram prostados no chão, do mesmo modo como
entraram, sem se mexerem.
Bell foi o
primeiro a recuperar o ânimo. Foi um ânimo provocado pela
auto-sugestão, de permeio com o sentimento que o homem tem quando se
sente encurralado. Bell chegou bem depressa à mesma conclusão de
Tako Kakuta há um dia atrás:
— Deve
haver motores de propulsão aqui. Provavelmente, são telecomandados,
mas podemos desmontar tudo para experimentar. De qualquer maneira,
esse trabalho vai nos ser útil.
A seguir
deu as ordens:
— Não
fiquem aí de cabeça caída, pessoal. Vamos, temos de soltar as
chapas que estão sob o banco circular. Movam-se, por amor de Deus,
ou querem morrer aqui dentro?
E
realmente, o que não conseguiria uma ponderada argumentação,
conseguiram gritos de Bell, arrancando-os da letargia. Levantaram-se
com um sorriso de pouca fé. Prepararam as armas, calibrando-as para
raios curtos, dissolvendo chapa por chapa.
*
* *
O relê do
telecomando em Laros registrou que depois de uma pausa de vinte horas
alguém havia voltado a um outro disco voador aterrissado em Gom.
Desta vez, o relê não tomou nenhuma iniciativa. Informou ao posto
de comando e recebeu instrução de deixar o aparelho onde estava.
Neste
momento de grande excitação a respeito da decisão tão importante,
ninguém se preocupava com um diminuto disco voador, ou com um ou
dois bios que tinham sobrevivido.
Em
contraste com os aras, que aguardavam com ansiedade a decisão
iminente, os saltadores estavam completamente calmos. Tão calmos que
o resto da frota que havia permanecido em Laros após o regresso dos
patriarcas, já havia recebido ordem de partir.
A saída
dos saltadores não parecia desagradar aos aras. Não podiam mesmo
esperar auxílio deles na questão dos gons. De qualquer maneira, era
melhor que não soubessem de nada, do dilema em que se encontravam a
respeito dos nove fugitivos.
Os aras
davam muita importância ao fato de serem tratados em termos de
igualdade nas relações com os saltadores. Esta igualdade de
parceiros equilibrados estaria arruinada, caso os saltadores viessem
a saber, por exemplo, com que facilidade a posição dos aras estava
se enfraquecendo.
*
* *
A retirada
do resto da frota foi a primeira novidade naqueles dias de horrível
monotonia em que a Titan ficou aguardando no espaço. De início,
Perry Rhodan estava muito céptico. Supunha que para substituir a
frota que se retirara de Laros, uma outra estava sendo esperada. Mas,
depois de registrar grandes abalos estruturais, que não podiam
provir de outra parte, começou a acreditar que a grande conferência
em Laros já havia terminado, e julgou então ter chegado o momento
de se preocupar com os acidentados de Gom.
Talamon,
que tinha deixado Laros com a frota de Topthor, não havia mais se
comunicado. Rhodan, que acreditava na fidelidade de Talamon, até um
certo ponto, tomou isto como uma prova de que os saltadores não
estavam realizando apenas uma troca de tropa de ocupação, mas
estavam mesmo abandonando definitivamente o satélite. O esforço que
Rhodan fizera, quando teve de avançar para o hiperespaço, saindo do
sistema de Árcon, com a Ganymed e com uma outra nave pesada da frota
de Talamon, para simular a saída de duas naves terranas, foi
plenamente compensado. Nem os aras, nem os saltadores acreditavam
mais em perigo em sua redondeza.
Não havia
dúvida alguma de que a Titan teria sido descoberta caso se
aproximasse de Gom. A proteção dada pelos campos magnéticos contra
a localização não era absoluta.
Quanto às
naves de vigilância dos aras, que se encontravam no sistema, Rhodan
não tinha receio algum.
*
* *
Trabalharam
dez horas ininterruptas, mas estavam cada vez mais longe de atingirem
o objetivo. A grande dificuldade era que a fiação e os elementos de
contato só podiam ser tratados por uma só pessoa. O fato de serem
cinco não ajudava em nada.
Marshall
tinha experimentado suas forças telepáticas para saber o que se
passava em volta. Mas não conseguiu saber nada, a não ser que a
quantidade de gons aumentava sempre mais. Por fim, começou a mexer
num conjunto que normalmente servia para dar sinais de localização
à estação de relês. Já que os pequenos aparelhos voadores só
eram utilizados no âmbito dos satélites de Gom, o sinalizador
consistia apenas de um circuito de vibrações comum de modulação
magnética.
Tschubai o
ajudava no trabalho. E quando Bell, depois de dez horas de trabalho,
com os olhos ardendo e as mãos trêmulas, que não mais obedeciam,
concluiu que ainda estava muito longe de seu objetivo, Marshall e o
africano haviam chegado a tal ponto que o sinalizador já emitia
sinais de vários comprimentos.
Marshall
estava com a idéia de que podia entrar em contato com a Titan. É
verdade que ela estava a vinte horas-luz de distância, e os
rádio-sinais demorariam relativamente muito a chegar até ela. Mas
de qualquer maneira, era preferível uma mensagem lenta, do que nada.
Queria
falar a respeito com Bell, quando este, se arrastando para fora da
cavidade dos motores de tração, ficou prostrado no chão,
completamente exausto.
Mas antes
que pudesse abrir a boca, atingiu-o um pensamento não humano, de tal
intensidade, que a dor de cabeça parecia estourar-lhe o crânio.
Tombou, gemendo alto.
Com Betty
se deu a mesma coisa. Mas sua capacidade sendo maior que a de
Marshall, sua dor de cabeça foi menor. Entendeu a mensagem que lhe
dirigiram.
Bell
estava prestando atenção em tudo. Arrastou-se até Marshall e o
ajudou a se levantar.
— Os
gons...! — murmurou Marshall, com olhos arregalados. — Dizem que
vão nos atacar agora.
Bell
franziu a testa, comprimindo os olhos.
— Atacar?
A nós? Depois de nos ter salvo da tempestade?
— É
isso mesmo, senhor Bell — reforçou Betty, com voz trêmula. —
Também recebi esta mensagem.
— Pois
bem — disse Bell, exteriorizando uma calma que não era sua. —
Então vamos recebê-los. Talvez não consigamos acionar os motores
de propulsão até lá, portanto, temos que nos defender.
— Mas,
temos o transmissor — gritou Marshall. — Podemos colocar a Titan
a par de tudo.
Bell não
sabia nada disso. Marshall teve que lhe explicar tudo em poucas
palavras.
— Por
mim, pode enviar sua mensagem — disse Bell meio descrente. —
Levará umas vinte horas para alcançar a Titan. E além de tudo, não
se sabe se alguém a bordo vai dar importância a sinais do alfabeto
Morse.
Com o
auxílio de Ras Tschubai, Marshall iniciou sua tentativa. Começou a
transmitir em Morse:
ESTAMOS
EM PERIGO DE VIDA EM
GOM
HEMISFÉRIO NORTE ZONA DE
PENUMBRA
POUCOS QUILÔMETROS
DA
FAIXA DE LUZ — BELL.
Repetiu a
mensagem três vezes. Quando ia começar a quarta transmissão,
ouviu-se um grito de horror. Bell estava de vigia no degrau externo
da escotilha. Ouvia-se ainda seu berro:
— Não
são apenas os gons. Aí vem um grande exército de bios. Para fora,
pessoal, e armas na mão.
*
* *
Tako
Kakuta não se lembrava de ter trabalhado tanto tempo em sua vida,
sem pausa de um segundo.
Em
comparação com Bell, que neste instante ainda estava ocupado com o
mesmo problema, tinha Tako a grande vantagem de que em seu disco
voador, desde que saíra de Gom, possuía a bordo a gravitação
artificial de Laros. Sob outras condições, jamais teria atingido
seu objetivo.
Já estava
tão avançado que podia botar para funcionar o conjunto de propulsão
e, além disso, já podia se utilizar dos dois desintegradores.
Entrementes, o pequeno disco se aproximava de Gom. Influenciado pela
tremenda atração do grande planeta, o aparelho atingia uma
velocidade de cinco quilômetros por segundo em direção ao centro
de gravidade de Gom. Tako Kakuta aumentou esta velocidade e já
estava preparado para as manobras necessárias, quando o aparelho
chegou às primeiras camadas da atmosfera do enorme planeta.
*
* *
Como que
cavalgando numa esteira de partículas incandescentes, desciam de um
céu cor de chumbo e aterrissavam, quase no mesmo lugar onde Ivã
Goratchim havia destruído a primeira força de combate dos bios,
dezenas e dezenas de discos voadores.
Se Bell
ainda tivesse dúvidas de que os gons tomaram a decisão de comum
acordo com os aras, estas dúvidas desapareceriam agora, sob a
evidência dos fatos.
Os bios
aterrissaram de tal maneira que, juntamente com os gons, fecharam um
círculo, em cujo centro estavam suas vítimas.
O quadro
foi idêntico ao primeiro ataque. Os bios deixavam os aparelhos e
vinham marchando em fila até o aparelho onde estava Bell e seus
colegas.
Só que
desta vez, eram quatrocentos, e, para variar, não havia nenhum
indício de tempestade ou tufão que viesse favorecer os sitiados.
Desligados
os motores e cessando o zunido ensurdecedor, podia-se ouvir, do outro
lado, uma trepidação permanente, num crescendo gradativo. Eram os
gons que caminhavam de encontro ao alvo. A trepidação do solo
provou que Marshall tinha razão. Era realmente uma multidão
incalculável.
Com os
bios, Bell não estava muito preocupado. Desta vez, Ivã Goratchim
não estava desacordado. Bell o chamou para perto da escotilha e lhe
mostrou a fila dos monstros que se aproximavam. As duas cabeças do
mutante contraíram as fisionomias num sorriso duro de guerra e
poucos instantes depois, naquele lugar onde marchava a ala direita
dos bios, houve uma terrível explosão, da qual subiu uma nuvem
incandescente.
No
turbilhão daquela nuvem, a quarta parte dos bios perdeu sua vida
artificial.
Ivã
Goratchim queria acertar bem no meio da coluna, mas neste mesmo
instante, Ras Tschubai, que estava de vigia no ponto mais alto do
disco, deu um grito para baixo:
— Os
gons estão chegando, eu os estou vendo.
A
escotilha se abriu para o lado de onde vinham os bios. Bell achava
que a ameaça dos autômatos, apesar de suas excelentes armas, era
menor do que a outra. Mandou seu pessoal ficar em cima da pequena
nave, onde estava Ras Tschubai. Para Betty, falou:
— O
negócio vai começar a pegar fogo, senhorita, o melhor é ficar
dentro da nave.
Mas Betty
olhou zangada para ele:
— Eu
gosto de fogo, senhor Bell. Além disso, não gosto que ninguém diga
que sou covarde.
E antes
que Bell pudesse responder alguma coisa, já tinha passado por ele,
subindo para o lado de fora do disco. Bell não podia fazer outra
coisa senão acompanhá-la.
Antes que
tivesse chegado lá em cima, Ivã Goratchim já havia fulminado o
segundo quarto dos estúpidos bios que avançavam contra a nave.
De cima,
se podia ver que os gons caminhavam a uma velocidade de uns vinte
quilômetros por hora. Moviam-se, pois, mais lentamente do que depois
da tempestade. Bell queria saber a razão disso.
Quando
Bell chegou ao alto, a vanguarda daquela enorme massa marrom-escura
ainda estava a três quilômetros.
Eram os
últimos nove ou dez minutos que restavam a Bell e a seus
companheiros.
— Está
vendo — disse Bell a Marshall — neste momento sua mensagem em
Morse já percorreu um centésimo de sua trajetória. Você acha que
vamos sobreviver aos restantes noventa e nove centésimos?
Depois,
mudando o tom da voz:
— Quando
estiverem a um quilômetro de nós, comecem a atirar. Nossas armas
atingem esta distância.
*
* *
Quando
Marshall transmitiu seu pedido de socorro, a Titan, há muito, já
estava a caminho. Escolheu aquele trecho de Gom, onde havia menos
possibilidade de serem vistos pelos aras.
A mensagem
em Morse que Marshall enviara, não precisou mais que minuto e meio
para chegar à supernave. Aliás, demorou uns segundos até que
percebessem os sinais. Foram registrados pelos receptores
automáticos, mas todos pensavam que eram interferências comuns. Até
que alguém se deu ao trabalho de separar sinais longos e curtos,
chegando à conclusão de que eram sinais Morse.
Perry
Rhodan, assim que foi informado, aumentou a velocidade da espaçonave.
Não tinha dúvida de que era muito difícil encontrar alguém para
dizer com mais exatidão onde se encontravam os companheiros de Bell.
Era realmente difícil encontrá-los numa faixa de penumbra com mais
de cinqüenta mil quilômetros de extensão.
*
* *
— Fogo,
rapazes, fogo! — gritava Bell, com uma vontade louca de lutar.
Apontaram
as armas térmicas contra o supergom e começaram a atirar, quando a
vanguarda estava a um quilômetro. A esta distância, as pequenas
pistolas de irradiação tinham uma potência que não podia ser
considerada perigosa para um corpo compacto — como um bio ou um ser
humano. Porém, através da delgada camada dos gons, os raios
penetravam sem dificuldade, impediam o núcleo central da massa de
avançar e faziam com que os dois flancos se deslocassem para frente,
formando um semicírculo.
Por uns
instantes, passou pela cabeça de Bell a idéia de enviar Ras
Tschubai, que entrementes recuperara suas forças telecinéticas,
para um lado ou para outro. Mas reparou logo que nem ele, nem Ras
Tschubai seriam capazes de dimensionar a extensão daquela massa
enorme. E o pior era que, se errasse o pulo e caísse no meio dos
gons, estaria perdido.
Ivã
Goratchim continuava em sua luta gloriosa. Neste exato momento ainda
estavam vivos cinqüenta bios. Mas estavam muito afastados uns dos
outros, de maneira que quando um explodia no ar, os outros
continuavam vivos. A luta agora era individual e os poucos bios se
aproximaram mais depressa, do que Bell calculava.
— Mais
depressa, vocês dois aí — disse Bell ao mutante de duas cabeças.
— Nós não temos tempo de nos preocuparmos com os bios.
Ivã, o
mais velho, respondeu:
— Não
pode ir mais depressa, senhor Bell, precisamos de tempo para cada um,
a fim de nos concentrarmos.
Bell sabia
que Ivã tinha razão. Olhou para o lado desconfiado, e notou a linha
espalhada dos bios.
Queria
chamar a atenção de Ivã sobre um bio que estava muito avançado.
Mas neste momento, parece que uma força invisível pegou o autômato,
arrancou-o do chão, atirando-o para bem alto no ar, caindo depois
pesadamente nas pedras, já sem movimentos.
Bell não
se conteve de entusiasmo:
— Bravo,
Ivã...!
A mesma
coisa aconteceu a outro bio. Foi atirado para o alto,
esborrachando-se depois no chão. Não se levantou mais.
A
expressão no rosto de Bell era de admiração pelo que presenciava.
Olhou para Betty Toufry, que disparava sua arma, afastando os gons.
Não tinha tempo para se preocupar com evoluções telecinéticas.
Quem era
então o autor deste último espetáculo do bio que dançou no ar e
se esborrachou no solo?
Neste
momento, surgiram vinte bios em sua retaguarda. Bell viu, de boca
aberta, como eles viraram as costas, jogaram fora as armas, correndo
de volta para a fila dos discos voadores.
Bell
compreendeu de repente o que se passava. Olhou para o lado e reparou
que Ivã e Ivanovitch se concentravam num dos bios em retirada.
Horrorizado, exclamou:
— Não,
por amor de Deus, não.
O mutante
olhou para ele, desencantado. Bell não deu importância a isto.
Todos podiam ouvir como ele gritava:
— Ishibashi,
Sengu, Yokida...! Apresentem-se.
Marshall
olhou espantado para ele, mas Bell abanou a mão, dizendo:
— Continuem
atirando.
De alguma
parte ouvia-se, um leve murmúrio. Alguma coisa dava para se
entender:
— ...com
trajes bem esfarrapados... seiscentos metros de vocês... estamos
chegando.
Logo
depois surgiram, detrás de um rochedo baixo, três pontos que se
moviam lentamente para o aparelho ocupado pelos companheiros de Bell.
Provavelmente havia acontecido aos três japoneses a mesma coisa que
a Ivã Goratchim. Do brilho de prata de seus trajes não se via mais
nada. Era preciso um esforço maior para poder vê-los naquela
penumbra.
Bell tinha
mil perguntas na ponta da língua. Mas não tinha tempo. Virou-se
para trás e continuou seu serviço: causar o maior estrago possível
entre os gons.
Os três
japoneses levaram meia hora para chegar. Quase não tinham mais força
para subir no aparelho. Seus rostos estavam pálidos e a voz de
Ishibashi parecia embargada quando tentou falar.
— Muito
bem — disse Bell — não temos tempo para conversa agora.
Ajudem-nos contra os gons. Se Sengu ainda puder, deve ajudar Ivã
contra os bios. Vamos, depressa, pessoal.
Uma cólera
incontida se apoderou de Bell, ao refletir que os três japoneses
recuperaram a liberdade só para caírem de novo nas garras dos gons
e acabarem morrendo...
Se não
acontecesse um milagre até lá.
*
* *
Tako veio
em vôo baixo. Pouco antes do choque contra o chão do planeta,
conseguiu amortecer a queda e passar para o vôo horizontal. O fato
de estar se movimentando exatamente no local onde se travava a
tremenda batalha foi uma combinação de acaso e de genialidade
técnica de Tako.
Tako voava
com a altitude de quatro mil metros, numa velocidade correspondente a
1,2 à do som. Já que o aparelho não tinha propriamente asas de
sustentação, uma parcela dos motores de propulsão estava
convertida em força de empuxo, para manter, por meio das válvulas
verticais, esta posição.
Desta
altura, relativamente pequena, o japonês podia supervisionar toda a
região de combate. Percebeu logo que Bell e seus companheiros
estavam em perigo, devido aos gons. Fez uma grande curva, voltou,
descendo gradativamente. Foi até o depósito de armas, confiando em
que a direção se manteria por si, enquanto iria se ocupar com os
dois desintegradores. Regulou o dispositivo de alvo automático e
aguardou até que a nave, agora com a velocidade reduzida a
seiscentos quilômetros por hora, e na altitude de mil e duzentos
metros, se aproximasse do local da luta, até uma boa distância de
tiro.
Reginald
Bell viu a pequena espaçonave quando passou pela primeira vez pelo
céu cor de chumbo, iluminada pelo débil clarão do sol avermelhado.
Não deu maior importância, pois acreditava se tratar de um aparelho
comandado por bios.
Mas a nave
tornou a voltar, exatamente quando os flancos do supergom ameaçavam
envolver o ponto de apoio de Bell e com mais força do que antes. Ele
não tinha tempo para se preocupar com isso. Cada tiro que perdia,
representava dois segundos desperdiçados.
Betty foi
a primeira que parou de atirar e ficou olhando para o aparelho no ar.
Bell olhou para ela e viu que ela lhe queria dizer alguma coisa. Mas
antes que abrisse a boca, começaram a sair do estranho aparelho dois
grossos jatos de fogo de um verde-claro, em sentido oblíquo,
atingindo o dorso do supergom e abrindo sulcos largos e fumegantes.
— É o
japonês! — gritou Bell com voz trêmula. — Conseguiu dominar o
aparelho.
Pararam de
atirar para ver as proezas da pequena nave. Tako Kakuta, se era ele,
parecia perseguir um objetivo com seus tiros. Os jatos esverdeados
riscavam o dorso do supergom, com toda a potência dos dois
desintegradores. Mal decorridos dez segundos, haviam aberto um rombo
arredondado de grande dimensão.
Marshall
sentiu a confusão que ia na massa enorme dos gons. Estava curioso
para ver como a parte separada pelos raios dos desintegradores se
uniria novamente ao todo. Mas não houve união. O trecho arredondado
separou-se do resto do corpo gigantesco e caminhou sozinho contra o
ponto de apoio, onde Bell e os seus julgavam, há pouco, ver o fim
daquela massa marrom-escura.
Os
desintegradores continuaram sua missão. Pedaço por pedaço, Tako
foi destruindo aqueles trechos que já ameaçavam a cidadela de Bell.
A confusão dos gons aumentava.
*
* *
Nos
últimos instantes, Tako percebeu que sua nave se inclinava um pouco.
Largou as armas, o mais depressa que pôde, correu para o controle da
propulsão e viu que o aparelho, com o funcionamento das válvulas,
deslizava de encontro ao solo. Ainda conseguiu evitar a queda, mas
foi-lhe impossível subir mais com o aparelho. Fez uma curva fechada,
perdendo mais altura ainda, viu os rochedos do solo que se
avizinhavam dele. Deu a última freada e, de olhos fechados, aguardou
o que Deus quisesse.
Ouviu um
estrondo surdo, o tinir de metais, viu uma nuvem de poeira penetrando
pelas fendas da carcaça rebentada e sentiu, por um instante, que o
mundo girava em redor dele.
Não houve
mais nada. Nem mesmo chegou a perder os sentidos. Mas a grande
atração de Gom o deixou quase parado.
Finalmente
conseguiu se arrastar para fora. Pela primeira vez é que notou que o
ar estava repleto de ruídos, tão fortes, que não haveria de ouvir
seus companheiros, se o chamassem. Desligou o microfone externo e
sentiu a vibração que o solo trepidante transmitia ao traje
espacial, apesar de tudo ainda em bom estado.
A enorme
nuvem de poeira, provocada pela descida de emergência, já tinha
desaparecido. Tako viu o aparelho em que Bell e sua gente estava
abrigado, a mais ou menos dois quilômetros de distância.
Atrás de
si, viu o clarão de uma violenta explosão. Assustou-se,
escondendo-se à sombra de um grande rochedo. Não sabia que Ivã
Goratchim estava acabando de destruir o tricentésimo octogésimo
sétimo bio.
*
* *
O
movimento do supergom perdeu a coesão depois que Tako o retalhou em
vários pedaços, com fendas enormes. Os pedaços não cuidavam mais
em se unirem ao resto. Vinham separados de encontro ao aparelho em
que estavam entrincheirados os companheiros de Bell. Naturalmente, a
ordem dada pelos aras já estava desaparecendo de sua memória, com o
esfacelamento do supergom.
A queda de
Tako foi observada do aparelho. Bell respirou aliviado, quando viu o
rapaz sair ileso do disco. Reparou como ele se resguardou da explosão
causada pelo mutante de duas cabeças e lhe queria gritar alguma
coisa.
Mas, neste
momento, Marshall pegou em seu braço e lhe apontou para o lado
direito.
— Lá
estão os gons! — exclamou ele. Bell ficou olhando. Era uma parte
da grande massa. Tinham visto o japonês e estavam em vias de
atacá-lo. Era um grupo de no mínimo cinqüenta mil gons, força
mais do que suficiente para dominar Tako.
— Tako,
preste atenção, os gons estão chegando.
Tako ouviu
o brado de alerta, levantou-se e olhou em volta. Não viu outra coisa
a não ser uma linha escura, a uns cem metros, num movimento de leve
ondulação.
Saiu se
arrastando, embora soubesse que os gons eram mais velozes que ele.
Estava com medo. Escutou gritos e chamados no seu receptor de
capacete, mas não deu importância. A voz de Marshall, zangada, lhe
gritou nos ouvidos!
— Pare e
suba no rochedo.
Viu um
rochedo íngreme em sua frente e tentou escalá-lo. Mas no mesmo
momento ouviu de novo a voz de Marshall:
— Não
neste, no outro à direita.
Tako
desceu, olhou em volta e viu que os gons já estavam a vinte metros
dele. O medo lhe deu uma força incrível, correu para o rochedo e
foi subindo. Podia ter usado seus dons de teleportador, mas as
circunstâncias não lhe permitiam a necessária concentração.
*
* *
— Por
que exatamente naquele rochedo? — perguntou Bell admirado. — Você
acha que os gons têm mais dificuldade de subir naquele rochedo do
que no outro?
— Não
sobem em nenhum dos dois. Bell parecia perplexo.
— Como é
que você sabe disso?
— Lembra-se,
quando deixamos o viveiro dos gons, fiquei atrás de você,
observando essas solhas, quando elas iam de encontro aos degraus,
talhados na rocha, não conseguindo subir neles. Sentiam apenas que o
mundo acabava ali e ficavam paradas. Sabe como se explica isto?
— Não.
— Os
gons são, até certo sentido, seres de duas dimensões. Só podem
sentir o que está no mesmo plano que seu corpo. Naturalmente isto
não pode ser tomado no sentido absoluto. Acho que seu ângulo de
visão vertical ao plano do corpo, atinge mais ou menos uns poucos
minutos, no máximo meio grau. Quando chegam a um objeto que não
está bem vertical em relação ao chão, então percebem facilmente
e podem subir. Mas uma parede vertical é para eles como uma tábua,
onde o mundo acaba. Olhe para lá agora.
Tako
desaparecera de seu campo visual. Os cinqüenta mil gons tinham
cercado o rochedo. Percebia-se em seus movimentos que não sabiam
mais o que fazer. Andaram de um lado para o outro, depois foram
embora, deixando o rochedo com o japonês para trás.
— Mas...
— murmurou Bell, sem compreender.
— Sei no
que está pensando — interrompeu-o Marshall. — Em maiores
aglomerações, quando a inteligência do supergom ultrapassa
determinado nível, podem ser capazes de sentir a terceira dimensão.
Nós vimos, quando fizeram uma muralha para nos proteger contra a
ventania.
“O
supergom, que encontramos logo após a descida forçada da Gazela e
do qual fugimos, nos escondendo na galeria subterrânea, era igual a
este que estava cercando o japonês. Lembra-se de que as solhas não
conseguiram achar a entrada do corredor? Exatamente porque não podem
perceber o que está abaixo ou acima delas. Só enxergam, se enxergar
for o termo certo, o que estiver em sua frente ou atrás deles.
“Se
calcularmos que o supergom ali na frente se compõe de cinqüenta mil
gons, então podemos chegar à conclusão de que a transição da
visão de duas dimensões para a de três dimensões está oscilando
entre cinqüenta mil e cem mil goms.”
— Fantástico!
— exclamou Bell.
Sem dizer
nada e sem o menor sinal, Marshall se abaixou, comprimiu o capacete
contra o chão, gemendo.
— Que
aconteceu de novo?! — exclamou Bell assustado.
A voz
jovial de Betty Toufry entrou de repente em seu receptor:
— É
Gucky — disse ela alegre. — A Titan está se aproximando. Gucky
está dando ordem aos gons para se retirarem.
*
* *
Ninguém
havia notado a esfera vermelha, que se aproximava no horizonte. Mas
depois, ouviu-se a voz de Gucky através do amplificador telepático.
Em nome de Rhodan, informou aos gons de que, dentro de uma hora
deviam se afastar bastante dos sitiados, para que a gigantesca
espaçonave pudesse descer facilmente e apanhar os seus amigos. Gucky
deixou bem claro aos gons que seriam destruídos se não obedecessem
às instruções.
A mensagem
do rato-castor foi captada por Marshall e Betty. Observavam contentes
como a enorme esfera de aço descia lentamente no planalto,
estacionando bem próximo a eles.
A reação
do supergom foi extraordinária. Não apenas desistiu da tentativa de
influenciar telepaticamente a Titan, mas obedeceu de pronto. Com o
ruído característico, o ser gigantesco recuou de todos os lados,
bem mais depressa do que haviam chegado.
Meia hora
após a mensagem de Gucky, a Titan aterrissava tranqüila. Bell e
seus companheiros foram levados para bordo. Perry Rhodan fez questão
de cumprimentar todos, apertando a mão de cada um e de abraçar com
afeto seu velho colega de armas.
A Titan se
ergueu para o espaço, imediatamente.
Bell e os
seus não tiveram um segundo de descanso. Tinham que contar suas
impressões, enquanto ainda estavam frescas. Os cientistas estavam
ansiosos para saber alguma coisa sobre os gons.
Cada um
tinha que dizer o que sabia. Setenta por cento das informações,
porém, provinham de Marshall, que sempre andava com os olhos bem
abertos.
O
interessante foi que Kitai Ishibashi, Tama Yokida e Wuriu Sengu, como
também Ivã Goratchim, não sabiam contar nada. Esqueceram-se de
tudo a partir do momento em que se levantaram do fundo da caverna e
caminharam na direção dos destroços da Gazela. Dos instantes
anteriores, não se recordavam. Constataram depois que estavam num
aposento pequeno, baixo, arredondado e sem janelas, que tudo em volta
era escuridão e ruídos esquisitos.
Para Bell
e Marshall era fácil concluir que os três japoneses, como também
Ivã Goratchim, estavam num viveiro subterrâneo e despertaram quando
os gons subterrâneos saíram para formar o supergom.
Ishibashi,
Yokida e Sengu constataram com espanto que a prata sumiu de seus
trajes espaciais e a massa plástica estava pela metade. Os gons
tinham tentado digerir os trajes e os homens. Mas não tiveram com a
matéria viva a mesma sorte que tiveram, por exemplo, com os
destroços da Gazela, que desapareceram em pouco tempo.
Sengu,
procurando entre os rochedos, acabou achando um caminho e sem
dificuldades chegaram os três mutantes à superfície, ainda a tempo
de poderem ajudar na luta. Sobre os gons, porém, não sabiam dizer
muita coisa.
Assim, a
impressão predominante sobre a aventura dos gons não deixava de ser
um enigma, um quebra-cabeça. Apresentaram-se teorias, foram
discutidas e rejeitadas. Não havia unanimidade sobre o assunto.
Ninguém podia concordar com um ser que se deixava destruir pelo fogo
ao invés de usar suas enormes forças parapsicológicas, como
realmente o fizeram no princípio, quando, telepaticamente, forçaram
a Gazela a se espatifar no solo.
Sentia-se
estar defronte de um fenômeno — que não tinha nada em comum com
as formas de vida conhecidas — tão estranho em sua mentalidade,
como se fosse de outros mundos.
Rhodan foi
instado a fazer uma aterrissagem em Gom. Os pedidos vieram de todos
os lados... Mas Rhodan explicou com um sorriso amigo, que nas atuais
circunstâncias, a política era mais importante do que a ciência;
mais tarde, em outra oportunidade, não teria nada a opor a uma
visita científica a Gom.
*
* *
Uma hora
mais tarde, apareceu a Titan na lua de Laros, depois de haver passado
por uma série de postos avançados dos aras, sem dar a menor
satisfação, destruindo muitas bases de defesa automática equipadas
com bios, armadas com mísseis nucleares, desintegradores e
lança-chamas. Depositou na lua uma bomba arcônida cujo detonador
estava regulado no grau 14.
A bomba
fazia com que os átomos de silício em sua volta entrassem em fusão
aos poucos e se estendessem sobre toda a área de Laros.
O incêndio
atômico que surgiria assim, era lento, mas nada o conseguiria
apagar. Os aras levariam tempo para perceber o incêndio e depois
teriam ainda três meses para abandonarem Laros. Depois, não haveria
mais vida em Laros.
Seria o
fim da base dos aras no sistema Gonom.
*
* *
A Titan
partiu. Havia estado de alerta contra naves dos saltadores. Mas não
apareceu nenhuma delas.
Assim que
saíram do sistema, Bell e seus companheiros tiveram um descanso de
quinze horas de sono repousante.
— Dormiu
bastante, meu caro gordo? — perguntou Rhodan.
— Muito
pouco — protestou Bell. — Fiquei quatro dias em Gom sem pregar os
olhos.
— Muito
bem, — continuou Rhodan — o principal é que você está firme.
Diga-me uma coisa: Será que os saltadores não suspeitaram da
programação falsa da positrônica de Topthor?
Bell
franziu a testa:
— Acho
que não. Por quê?
— Porque...
— disse Rhodan sério, sem olhar para Bell — porque Talamon me
comunicou há poucos minutos por raio direcional de hipercomunicação,
que o ataque Terra está decidido e será logo.
“Se eles
entenderem por Terra o que vocês programaram na positrônica de
Topthor, está tudo muito bem. Voltamos para a Terra e pelo caminho
mais rápido.”
A
fisionomia de Bell se iluminou de repente, as rugas na testa
desapareceram e lábios armaram um belo sorriso.
— Perry,
para a Terra! Você sabe ainda quantos andares tem o
Empire-State-Building
e quais são as cores dos prados de Goshun See?
*
* *
*
*
*
Os
cientistas da Titan gostariam muito de fazer pesquisas mais profundas
sobre os misteriosos e perigosos gons, que por um triz não
destruíram Bell e seus companheiros.
Perry
Rhodan permaneceu firme na sua opinião. Sabia que não podia
retardar sua volta à Terra. Teria de articular um ardil de dimensão
cósmica, ardil este que é ainda o último recurso para tentar
salvar a Terra da destruição. O objetivo deste ardil é convencer
os atacantes de que a Terra seria o terceiro planeta do Sistema Beta.
Os
detalhes emocionantes desta incrível estratégia serão narrados em:
O Olho Vermelho do Sistema Beta.

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