quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-047 - Gom Não Responde - Kurt Mahr [parte 3]


Bell e os seus levaram cinco horas para atingir uma das pequenas espaçonaves. Os gons haviam desaparecido há muito tempo e não se manifestavam mais.
Também os bios não davam sinal de vida. O céu cinzento estava livre de corpos estranhos. Só as estrelas mostravam o brilho opaco.
Ao chegarem a uns duzentos metros de seu objetivo, Bell deu uma ordem a Betty Toufry:
Analise um pouco a situação, Betty. Queremos saber o que há lá dentro.
No seu íntimo, estava calculando a distância entre o primeiro aparelho e o segundo.
Depois das investigações de Betty, tudo lhe parecia inútil. A distância de um para o outro era considerável e precisariam de mais duas horas para atingir o aparelho mais próximo. Além de tudo, Tschubai estava esgotado para poder transportá-los ou melhor teletransportá-los para bordo.
Betty se estirou no chão, comprimindo o binóculo contra a viseira. Passaram-se minutos, sem novidade alguma.
De repente a nave começou a vibrar. Bell viu quando uma chapa mal recortada se desprendia da parede lateral da carcaça e caía no chão aos pedaços.
Continue — disse ele.
Betty não se deixou perturbar. Sob a poderosa energia de seus dons telecinéticos, pedaço por pedaço da carcaça do aparelho se esfarelava no chão, até que o teto, já sem sustentação, desabou por completo. O espaço interno, agora já totalmente devassado, estava mesmo vazio.
Bell suspirou triste:
Podíamos ter evitado isto. Agora só nos resta nos arrastar mais duas horas até o próximo aparelho.
Marshall notou seus cuidados:
Não se preocupe com isto. Não ficaríamos tranqüilos enquanto não fizéssemos esta experiência.
Obrigado, — disse Bell, triste. — Vamos, portanto continuar.

* * *

Os gons acabaram de receber a mensagem dos aras, aliás bem nitidamente pois havia muitos deles reunidos — mais ou menos cem mil — para protegerem os estranhos contra o tufão. Estes estranhos eram preciosos e tinham aniquilado os horrorosos bios... compreenderam no mesmo instante o que significava aquela ordem.
Apesar de não saberem propriamente o que era técnica, sabiam perfeitamente de que meios técnicos dispunham os aras. Não ignoravam que o destino da raça dos gons seria decidido, se não obedecessem à ordem dos aras.
Os gons se apressaram em iniciar a reunião e para isso se dirigiram a um dos locais de assembléia, que estavam distribuídos por toda a superfície do planeta.
Recebiam resposta de todos os lados e quando chegaram ao local, lá encontraram já muitas centenas de milhares de gons reunidos. De acordo com as instruções, estavam esperando em locais diferentes; pois era um fato comprovado pela experiência entre os gons, que, numa assembléia geral, prevalecia sempre a vontade daquela parcela que antes da reunião era a maior. No momento, tudo dependia da consciência daqueles cem mil gons que haviam recebido a ordem dos aras. Aqueles esperavam pela chegada dos demais. Iriam se unir a eles, conforme a ordem de chegada, de tal maneira que o conteúdo da consciência dos cem mil haveria sempre de dominar.
Desta maneira demorou mais de vinte horas até que se formasse um supergom, que era capaz de atuar de acordo com o que desejavam os aras. Era a maior reunião de que se lembrava o supergom. Isto representava alguma coisa, pois a consciência histórica dos gons era coletiva e sob certos aspectos mais fidedigna do que documentos escritos.
O número total devia ser de um bilhão de gons que se aglomeraram por ordem dos aras. Estendiam-se por uma superfície de cerca de mil quilômetros quadrados.
Era o maior poder bélico reunido. Embora a gigantesca camada marrom-escura, em nenhum lugar, fosse mais espessa do que um centésimo de milímetro, o solo tremia quando ela passava.

* * *

Bell tinha se enganado. A tremenda explosão provocada por Ivã Goratchim, que os atirara pelos quatro cantos como folhas secas, era a causa de que, após qualquer movimento, todos se tornavam tão cansados e abatidos. Sentiam-se como se tivessem andado o dia inteiro.
A caminhada até ao disco voador, desintegrado por Betty, foi a última que podiam fazer sem uma pausa para descanso. Bell percebeu a necessidade de um repouso. Estavam talvez a um quarto do caminho entre o disco destruído e o próximo, quando Bell ordenou uma parada, simplesmente porque ninguém mais agüentava.
Pararam onde e como estavam e, quase no mesmo instante, pegaram no sono.
Acordaram após cinco horas de repouso. Marshall levantou a cabeça e exclamou:
Meu Deus, que está acontecendo?! Bell virou-se para o lado, mas não viu nada de extraordinário. Tinha dormido como um prego e se sentia mais disposto do que antes.
Instantes mais tarde também despertou Betty, com um grito angustiante. Levantou-se depressa e perguntou com os olhos arregalados:
Que é isto? Que está acontecendo?
Bell se dirigiu a Marshall.
Santo Deus, mas afinal de contas, que é isto?
Marshall sacudiu a cabeça e olhando para o céu cor de chumbo disse:
Acho que é o inferno! Gons, uma multidão tremenda de gons. Se o ar fosse telepático, já teria explodido de tanto impulso dos gons.
E o que você acha disso? — perguntou Bell.
Marshall encolheu os ombros desanimado.
Você sabe que não consigo compreendê-los quando não se dirigem diretamente a mim.
Não se preocupe com isto. Os gons nos salvaram na hora da tempestade. Por mim, podem se reunir aqui aos milhões — disse Reginald.
Você pensa mesmo assim? — perguntou Marshall. — Quem é que lhe garante que os gons ainda tenham a mesma impressão a nosso respeito?
Bell já tinha uma resposta galhofeira na boca, mas engoliu-a prontamente. Lembrou-se de que Marshall já por duas vezes se mostrou mais a par das coisas dos gons do que ele. E podia realmente acontecer que tivessem mesmo mudado de opinião. Ninguém sabia mesmo o que se passava em Gom e ninguém conhecia bem os gons.
Está bem. Então vamos tentar chegar ao aparelho o mais depressa possível. Se os gons mudarem de opinião, não nos afetará em nada.
Marshall concordou com a idéia. O “desassossego telepático” no espaço, como ele se expressava, parecia realmente tremendo.
Arrastaram-se com mais rapidez do que antes. A nave parecia se aproximar. Durante a caminhada, Marshall parava de vez em quando para escutar. Comunicou a Bell, que o “desassossego telepático” aumentava cada vez mais.
Tenho a impressão de que se vai reunir, não longe daqui, uma enorme força bélica dos gons. Gostaria de saber o que pretendem fazer.
Duas horas depois da partida, chegaram ao aparelho. Bell, premido pela situação, não quis mais perder tempo investigando se estava ou não vazio. Depois de procurar um pouco, achou a única escotilha, e, a seguir, o mecanismo que a descerrava. A porta se abriu, deixando ver uma câmara espaçosa onde cinco bios caberiam com largueza. E, muito melhor, Bell e seus quatro companheiros.
A dificuldade consistia em alcançar o degrau da entrada, que estava a um metro de altura, com os corpos cansados e sem força. Felizmente, com auxílio de Goratchim, conseguiram. O mutante de duas cabeças, com sua força física fora do comum, foi o que menos sofreu com as peripécias das últimas horas. Mas precisavam de uma hora ainda para se refazerem. Durante este tempo, o “desassossego telepático” chegou ao máximo.
Estou com medo — confessou Marshall. — Se é por nossa causa, esse movimento todo, estamos perdidos, como os homens no dilúvio, fora da arca de Noé. Não temos meio de defesa contra esta inundação.
Bell sabia disto. A princípio pensava que nada lhes aconteceria, enquanto Ivã Goratchim estivesse atento e pudesse aplicar seus dons incríveis, quando o perigo se tornasse maior. Pois os gons se compunham também de material orgânico, em parte do mesmo material que os bios. Ivã poderia provocar uma fusão de cálcio no corpo dos gons e destruí-los. Porém os gons formavam um conglomerado tão grande, como dizia Marshall, e assim a explosão atingiria não somente os gons, mas, também o próprio Ivã, seus companheiros e talvez mesmo o planeta inteiro, destruindo tudo.
Portanto os dons tremendos de Ivã estavam fora de cogitação. Sua única esperança eram então as pequenas armas de raios energéticos e o disco voador onde tinham penetrado.
No aparelho, havia a mesma gravidade que em Gom. A esperança de que dentro da nave se sentiriam melhor e poderiam se mover mais facilmente do que na planície rochosa, foi destruída num instante.
Com muita dificuldade, Bell e os seus penetraram no interior da pequena nave e verificaram o que Tako Kakuta já havia visto há vinte horas atrás: não havia nenhuma possibilidade de manobrá-la.
A emoção foi tão grande que ficaram prostados no chão, do mesmo modo como entraram, sem se mexerem.
Bell foi o primeiro a recuperar o ânimo. Foi um ânimo provocado pela auto-sugestão, de permeio com o sentimento que o homem tem quando se sente encurralado. Bell chegou bem depressa à mesma conclusão de Tako Kakuta há um dia atrás:
Deve haver motores de propulsão aqui. Provavelmente, são telecomandados, mas podemos desmontar tudo para experimentar. De qualquer maneira, esse trabalho vai nos ser útil.
A seguir deu as ordens:
Não fiquem aí de cabeça caída, pessoal. Vamos, temos de soltar as chapas que estão sob o banco circular. Movam-se, por amor de Deus, ou querem morrer aqui dentro?
E realmente, o que não conseguiria uma ponderada argumentação, conseguiram gritos de Bell, arrancando-os da letargia. Levantaram-se com um sorriso de pouca fé. Prepararam as armas, calibrando-as para raios curtos, dissolvendo chapa por chapa.

* * *

O relê do telecomando em Laros registrou que depois de uma pausa de vinte horas alguém havia voltado a um outro disco voador aterrissado em Gom. Desta vez, o relê não tomou nenhuma iniciativa. Informou ao posto de comando e recebeu instrução de deixar o aparelho onde estava.
Neste momento de grande excitação a respeito da decisão tão importante, ninguém se preocupava com um diminuto disco voador, ou com um ou dois bios que tinham sobrevivido.
Em contraste com os aras, que aguardavam com ansiedade a decisão iminente, os saltadores estavam completamente calmos. Tão calmos que o resto da frota que havia permanecido em Laros após o regresso dos patriarcas, já havia recebido ordem de partir.
A saída dos saltadores não parecia desagradar aos aras. Não podiam mesmo esperar auxílio deles na questão dos gons. De qualquer maneira, era melhor que não soubessem de nada, do dilema em que se encontravam a respeito dos nove fugitivos.
Os aras davam muita importância ao fato de serem tratados em termos de igualdade nas relações com os saltadores. Esta igualdade de parceiros equilibrados estaria arruinada, caso os saltadores viessem a saber, por exemplo, com que facilidade a posição dos aras estava se enfraquecendo.

* * *

A retirada do resto da frota foi a primeira novidade naqueles dias de horrível monotonia em que a Titan ficou aguardando no espaço. De início, Perry Rhodan estava muito céptico. Supunha que para substituir a frota que se retirara de Laros, uma outra estava sendo esperada. Mas, depois de registrar grandes abalos estruturais, que não podiam provir de outra parte, começou a acreditar que a grande conferência em Laros já havia terminado, e julgou então ter chegado o momento de se preocupar com os acidentados de Gom.
Talamon, que tinha deixado Laros com a frota de Topthor, não havia mais se comunicado. Rhodan, que acreditava na fidelidade de Talamon, até um certo ponto, tomou isto como uma prova de que os saltadores não estavam realizando apenas uma troca de tropa de ocupação, mas estavam mesmo abandonando definitivamente o satélite. O esforço que Rhodan fizera, quando teve de avançar para o hiperespaço, saindo do sistema de Árcon, com a Ganymed e com uma outra nave pesada da frota de Talamon, para simular a saída de duas naves terranas, foi plenamente compensado. Nem os aras, nem os saltadores acreditavam mais em perigo em sua redondeza.
Não havia dúvida alguma de que a Titan teria sido descoberta caso se aproximasse de Gom. A proteção dada pelos campos magnéticos contra a localização não era absoluta.
Quanto às naves de vigilância dos aras, que se encontravam no sistema, Rhodan não tinha receio algum.

* * *

Trabalharam dez horas ininterruptas, mas estavam cada vez mais longe de atingirem o objetivo. A grande dificuldade era que a fiação e os elementos de contato só podiam ser tratados por uma só pessoa. O fato de serem cinco não ajudava em nada.
Marshall tinha experimentado suas forças telepáticas para saber o que se passava em volta. Mas não conseguiu saber nada, a não ser que a quantidade de gons aumentava sempre mais. Por fim, começou a mexer num conjunto que normalmente servia para dar sinais de localização à estação de relês. Já que os pequenos aparelhos voadores só eram utilizados no âmbito dos satélites de Gom, o sinalizador consistia apenas de um circuito de vibrações comum de modulação magnética.
Tschubai o ajudava no trabalho. E quando Bell, depois de dez horas de trabalho, com os olhos ardendo e as mãos trêmulas, que não mais obedeciam, concluiu que ainda estava muito longe de seu objetivo, Marshall e o africano haviam chegado a tal ponto que o sinalizador já emitia sinais de vários comprimentos.
Marshall estava com a idéia de que podia entrar em contato com a Titan. É verdade que ela estava a vinte horas-luz de distância, e os rádio-sinais demorariam relativamente muito a chegar até ela. Mas de qualquer maneira, era preferível uma mensagem lenta, do que nada.
Queria falar a respeito com Bell, quando este, se arrastando para fora da cavidade dos motores de tração, ficou prostrado no chão, completamente exausto.
Mas antes que pudesse abrir a boca, atingiu-o um pensamento não humano, de tal intensidade, que a dor de cabeça parecia estourar-lhe o crânio. Tombou, gemendo alto.
Com Betty se deu a mesma coisa. Mas sua capacidade sendo maior que a de Marshall, sua dor de cabeça foi menor. Entendeu a mensagem que lhe dirigiram.
Bell estava prestando atenção em tudo. Arrastou-se até Marshall e o ajudou a se levantar.
Os gons...! — murmurou Marshall, com olhos arregalados. — Dizem que vão nos atacar agora.
Bell franziu a testa, comprimindo os olhos.
Atacar? A nós? Depois de nos ter salvo da tempestade?
É isso mesmo, senhor Bell — reforçou Betty, com voz trêmula. — Também recebi esta mensagem.
Pois bem — disse Bell, exteriorizando uma calma que não era sua. — Então vamos recebê-los. Talvez não consigamos acionar os motores de propulsão até lá, portanto, temos que nos defender.
Mas, temos o transmissor — gritou Marshall. — Podemos colocar a Titan a par de tudo.
Bell não sabia nada disso. Marshall teve que lhe explicar tudo em poucas palavras.
Por mim, pode enviar sua mensagem — disse Bell meio descrente. — Levará umas vinte horas para alcançar a Titan. E além de tudo, não se sabe se alguém a bordo vai dar importância a sinais do alfabeto Morse.
Com o auxílio de Ras Tschubai, Marshall iniciou sua tentativa. Começou a transmitir em Morse:

ESTAMOS EM PERIGO DE VIDA EM
GOM HEMISFÉRIO NORTE ZONA DE
PENUMBRA POUCOS QUILÔMETROS
DA FAIXA DE LUZ — BELL.

Repetiu a mensagem três vezes. Quando ia começar a quarta transmissão, ouviu-se um grito de horror. Bell estava de vigia no degrau externo da escotilha. Ouvia-se ainda seu berro:
Não são apenas os gons. Aí vem um grande exército de bios. Para fora, pessoal, e armas na mão.

* * *

Tako Kakuta não se lembrava de ter trabalhado tanto tempo em sua vida, sem pausa de um segundo.
Em comparação com Bell, que neste instante ainda estava ocupado com o mesmo problema, tinha Tako a grande vantagem de que em seu disco voador, desde que saíra de Gom, possuía a bordo a gravitação artificial de Laros. Sob outras condições, jamais teria atingido seu objetivo.
Já estava tão avançado que podia botar para funcionar o conjunto de propulsão e, além disso, já podia se utilizar dos dois desintegradores. Entrementes, o pequeno disco se aproximava de Gom. Influenciado pela tremenda atração do grande planeta, o aparelho atingia uma velocidade de cinco quilômetros por segundo em direção ao centro de gravidade de Gom. Tako Kakuta aumentou esta velocidade e já estava preparado para as manobras necessárias, quando o aparelho chegou às primeiras camadas da atmosfera do enorme planeta.

* * *

Como que cavalgando numa esteira de partículas incandescentes, desciam de um céu cor de chumbo e aterrissavam, quase no mesmo lugar onde Ivã Goratchim havia destruído a primeira força de combate dos bios, dezenas e dezenas de discos voadores.
Se Bell ainda tivesse dúvidas de que os gons tomaram a decisão de comum acordo com os aras, estas dúvidas desapareceriam agora, sob a evidência dos fatos.
Os bios aterrissaram de tal maneira que, juntamente com os gons, fecharam um círculo, em cujo centro estavam suas vítimas.
O quadro foi idêntico ao primeiro ataque. Os bios deixavam os aparelhos e vinham marchando em fila até o aparelho onde estava Bell e seus colegas.
Só que desta vez, eram quatrocentos, e, para variar, não havia nenhum indício de tempestade ou tufão que viesse favorecer os sitiados.
Desligados os motores e cessando o zunido ensurdecedor, podia-se ouvir, do outro lado, uma trepidação permanente, num crescendo gradativo. Eram os gons que caminhavam de encontro ao alvo. A trepidação do solo provou que Marshall tinha razão. Era realmente uma multidão incalculável.
Com os bios, Bell não estava muito preocupado. Desta vez, Ivã Goratchim não estava desacordado. Bell o chamou para perto da escotilha e lhe mostrou a fila dos monstros que se aproximavam. As duas cabeças do mutante contraíram as fisionomias num sorriso duro de guerra e poucos instantes depois, naquele lugar onde marchava a ala direita dos bios, houve uma terrível explosão, da qual subiu uma nuvem incandescente.
No turbilhão daquela nuvem, a quarta parte dos bios perdeu sua vida artificial.
Ivã Goratchim queria acertar bem no meio da coluna, mas neste mesmo instante, Ras Tschubai, que estava de vigia no ponto mais alto do disco, deu um grito para baixo:
Os gons estão chegando, eu os estou vendo.
A escotilha se abriu para o lado de onde vinham os bios. Bell achava que a ameaça dos autômatos, apesar de suas excelentes armas, era menor do que a outra. Mandou seu pessoal ficar em cima da pequena nave, onde estava Ras Tschubai. Para Betty, falou:
O negócio vai começar a pegar fogo, senhorita, o melhor é ficar dentro da nave.
Mas Betty olhou zangada para ele:
Eu gosto de fogo, senhor Bell. Além disso, não gosto que ninguém diga que sou covarde.
E antes que Bell pudesse responder alguma coisa, já tinha passado por ele, subindo para o lado de fora do disco. Bell não podia fazer outra coisa senão acompanhá-la.
Antes que tivesse chegado lá em cima, Ivã Goratchim já havia fulminado o segundo quarto dos estúpidos bios que avançavam contra a nave.
De cima, se podia ver que os gons caminhavam a uma velocidade de uns vinte quilômetros por hora. Moviam-se, pois, mais lentamente do que depois da tempestade. Bell queria saber a razão disso.
Quando Bell chegou ao alto, a vanguarda daquela enorme massa marrom-escura ainda estava a três quilômetros.
Eram os últimos nove ou dez minutos que restavam a Bell e a seus companheiros.
Está vendo — disse Bell a Marshall — neste momento sua mensagem em Morse já percorreu um centésimo de sua trajetória. Você acha que vamos sobreviver aos restantes noventa e nove centésimos?
Depois, mudando o tom da voz:
Quando estiverem a um quilômetro de nós, comecem a atirar. Nossas armas atingem esta distância.

* * *

Quando Marshall transmitiu seu pedido de socorro, a Titan, há muito, já estava a caminho. Escolheu aquele trecho de Gom, onde havia menos possibilidade de serem vistos pelos aras.
A mensagem em Morse que Marshall enviara, não precisou mais que minuto e meio para chegar à supernave. Aliás, demorou uns segundos até que percebessem os sinais. Foram registrados pelos receptores automáticos, mas todos pensavam que eram interferências comuns. Até que alguém se deu ao trabalho de separar sinais longos e curtos, chegando à conclusão de que eram sinais Morse.
Perry Rhodan, assim que foi informado, aumentou a velocidade da espaçonave. Não tinha dúvida de que era muito difícil encontrar alguém para dizer com mais exatidão onde se encontravam os companheiros de Bell. Era realmente difícil encontrá-los numa faixa de penumbra com mais de cinqüenta mil quilômetros de extensão.

* * *

Fogo, rapazes, fogo! — gritava Bell, com uma vontade louca de lutar.
Apontaram as armas térmicas contra o supergom e começaram a atirar, quando a vanguarda estava a um quilômetro. A esta distância, as pequenas pistolas de irradiação tinham uma potência que não podia ser considerada perigosa para um corpo compacto — como um bio ou um ser humano. Porém, através da delgada camada dos gons, os raios penetravam sem dificuldade, impediam o núcleo central da massa de avançar e faziam com que os dois flancos se deslocassem para frente, formando um semicírculo.
Por uns instantes, passou pela cabeça de Bell a idéia de enviar Ras Tschubai, que entrementes recuperara suas forças telecinéticas, para um lado ou para outro. Mas reparou logo que nem ele, nem Ras Tschubai seriam capazes de dimensionar a extensão daquela massa enorme. E o pior era que, se errasse o pulo e caísse no meio dos gons, estaria perdido.
Ivã Goratchim continuava em sua luta gloriosa. Neste exato momento ainda estavam vivos cinqüenta bios. Mas estavam muito afastados uns dos outros, de maneira que quando um explodia no ar, os outros continuavam vivos. A luta agora era individual e os poucos bios se aproximaram mais depressa, do que Bell calculava.
Mais depressa, vocês dois aí — disse Bell ao mutante de duas cabeças. — Nós não temos tempo de nos preocuparmos com os bios.
Ivã, o mais velho, respondeu:
Não pode ir mais depressa, senhor Bell, precisamos de tempo para cada um, a fim de nos concentrarmos.
Bell sabia que Ivã tinha razão. Olhou para o lado desconfiado, e notou a linha espalhada dos bios.
Queria chamar a atenção de Ivã sobre um bio que estava muito avançado. Mas neste momento, parece que uma força invisível pegou o autômato, arrancou-o do chão, atirando-o para bem alto no ar, caindo depois pesadamente nas pedras, já sem movimentos.
Bell não se conteve de entusiasmo:
Bravo, Ivã...!
A mesma coisa aconteceu a outro bio. Foi atirado para o alto, esborrachando-se depois no chão. Não se levantou mais.
A expressão no rosto de Bell era de admiração pelo que presenciava. Olhou para Betty Toufry, que disparava sua arma, afastando os gons. Não tinha tempo para se preocupar com evoluções telecinéticas.
Quem era então o autor deste último espetáculo do bio que dançou no ar e se esborrachou no solo?
Neste momento, surgiram vinte bios em sua retaguarda. Bell viu, de boca aberta, como eles viraram as costas, jogaram fora as armas, correndo de volta para a fila dos discos voadores.
Bell compreendeu de repente o que se passava. Olhou para o lado e reparou que Ivã e Ivanovitch se concentravam num dos bios em retirada. Horrorizado, exclamou:
Não, por amor de Deus, não.
O mutante olhou para ele, desencantado. Bell não deu importância a isto. Todos podiam ouvir como ele gritava:
Ishibashi, Sengu, Yokida...! Apresentem-se.
Marshall olhou espantado para ele, mas Bell abanou a mão, dizendo:
Continuem atirando.
De alguma parte ouvia-se, um leve murmúrio. Alguma coisa dava para se entender:
...com trajes bem esfarrapados... seiscentos metros de vocês... estamos chegando.
Logo depois surgiram, detrás de um rochedo baixo, três pontos que se moviam lentamente para o aparelho ocupado pelos companheiros de Bell. Provavelmente havia acontecido aos três japoneses a mesma coisa que a Ivã Goratchim. Do brilho de prata de seus trajes não se via mais nada. Era preciso um esforço maior para poder vê-los naquela penumbra.
Bell tinha mil perguntas na ponta da língua. Mas não tinha tempo. Virou-se para trás e continuou seu serviço: causar o maior estrago possível entre os gons.
Os três japoneses levaram meia hora para chegar. Quase não tinham mais força para subir no aparelho. Seus rostos estavam pálidos e a voz de Ishibashi parecia embargada quando tentou falar.
Muito bem — disse Bell — não temos tempo para conversa agora. Ajudem-nos contra os gons. Se Sengu ainda puder, deve ajudar Ivã contra os bios. Vamos, depressa, pessoal.
Uma cólera incontida se apoderou de Bell, ao refletir que os três japoneses recuperaram a liberdade só para caírem de novo nas garras dos gons e acabarem morrendo...
Se não acontecesse um milagre até lá.

* * *

Tako veio em vôo baixo. Pouco antes do choque contra o chão do planeta, conseguiu amortecer a queda e passar para o vôo horizontal. O fato de estar se movimentando exatamente no local onde se travava a tremenda batalha foi uma combinação de acaso e de genialidade técnica de Tako.
Tako voava com a altitude de quatro mil metros, numa velocidade correspondente a 1,2 à do som. Já que o aparelho não tinha propriamente asas de sustentação, uma parcela dos motores de propulsão estava convertida em força de empuxo, para manter, por meio das válvulas verticais, esta posição.
Desta altura, relativamente pequena, o japonês podia supervisionar toda a região de combate. Percebeu logo que Bell e seus companheiros estavam em perigo, devido aos gons. Fez uma grande curva, voltou, descendo gradativamente. Foi até o depósito de armas, confiando em que a direção se manteria por si, enquanto iria se ocupar com os dois desintegradores. Regulou o dispositivo de alvo automático e aguardou até que a nave, agora com a velocidade reduzida a seiscentos quilômetros por hora, e na altitude de mil e duzentos metros, se aproximasse do local da luta, até uma boa distância de tiro.
Reginald Bell viu a pequena espaçonave quando passou pela primeira vez pelo céu cor de chumbo, iluminada pelo débil clarão do sol avermelhado. Não deu maior importância, pois acreditava se tratar de um aparelho comandado por bios.
Mas a nave tornou a voltar, exatamente quando os flancos do supergom ameaçavam envolver o ponto de apoio de Bell e com mais força do que antes. Ele não tinha tempo para se preocupar com isso. Cada tiro que perdia, representava dois segundos desperdiçados.
Betty foi a primeira que parou de atirar e ficou olhando para o aparelho no ar. Bell olhou para ela e viu que ela lhe queria dizer alguma coisa. Mas antes que abrisse a boca, começaram a sair do estranho aparelho dois grossos jatos de fogo de um verde-claro, em sentido oblíquo, atingindo o dorso do supergom e abrindo sulcos largos e fumegantes.
É o japonês! — gritou Bell com voz trêmula. — Conseguiu dominar o aparelho.
Pararam de atirar para ver as proezas da pequena nave. Tako Kakuta, se era ele, parecia perseguir um objetivo com seus tiros. Os jatos esverdeados riscavam o dorso do supergom, com toda a potência dos dois desintegradores. Mal decorridos dez segundos, haviam aberto um rombo arredondado de grande dimensão.
Marshall sentiu a confusão que ia na massa enorme dos gons. Estava curioso para ver como a parte separada pelos raios dos desintegradores se uniria novamente ao todo. Mas não houve união. O trecho arredondado separou-se do resto do corpo gigantesco e caminhou sozinho contra o ponto de apoio, onde Bell e os seus julgavam, há pouco, ver o fim daquela massa marrom-escura.
Os desintegradores continuaram sua missão. Pedaço por pedaço, Tako foi destruindo aqueles trechos que já ameaçavam a cidadela de Bell. A confusão dos gons aumentava.

* * *

Nos últimos instantes, Tako percebeu que sua nave se inclinava um pouco. Largou as armas, o mais depressa que pôde, correu para o controle da propulsão e viu que o aparelho, com o funcionamento das válvulas, deslizava de encontro ao solo. Ainda conseguiu evitar a queda, mas foi-lhe impossível subir mais com o aparelho. Fez uma curva fechada, perdendo mais altura ainda, viu os rochedos do solo que se avizinhavam dele. Deu a última freada e, de olhos fechados, aguardou o que Deus quisesse.
Ouviu um estrondo surdo, o tinir de metais, viu uma nuvem de poeira penetrando pelas fendas da carcaça rebentada e sentiu, por um instante, que o mundo girava em redor dele.
Não houve mais nada. Nem mesmo chegou a perder os sentidos. Mas a grande atração de Gom o deixou quase parado.
Finalmente conseguiu se arrastar para fora. Pela primeira vez é que notou que o ar estava repleto de ruídos, tão fortes, que não haveria de ouvir seus companheiros, se o chamassem. Desligou o microfone externo e sentiu a vibração que o solo trepidante transmitia ao traje espacial, apesar de tudo ainda em bom estado.
A enorme nuvem de poeira, provocada pela descida de emergência, já tinha desaparecido. Tako viu o aparelho em que Bell e sua gente estava abrigado, a mais ou menos dois quilômetros de distância.
Atrás de si, viu o clarão de uma violenta explosão. Assustou-se, escondendo-se à sombra de um grande rochedo. Não sabia que Ivã Goratchim estava acabando de destruir o tricentésimo octogésimo sétimo bio.

* * *

O movimento do supergom perdeu a coesão depois que Tako o retalhou em vários pedaços, com fendas enormes. Os pedaços não cuidavam mais em se unirem ao resto. Vinham separados de encontro ao aparelho em que estavam entrincheirados os companheiros de Bell. Naturalmente, a ordem dada pelos aras já estava desaparecendo de sua memória, com o esfacelamento do supergom.
A queda de Tako foi observada do aparelho. Bell respirou aliviado, quando viu o rapaz sair ileso do disco. Reparou como ele se resguardou da explosão causada pelo mutante de duas cabeças e lhe queria gritar alguma coisa.
Mas, neste momento, Marshall pegou em seu braço e lhe apontou para o lado direito.
Lá estão os gons! — exclamou ele. Bell ficou olhando. Era uma parte da grande massa. Tinham visto o japonês e estavam em vias de atacá-lo. Era um grupo de no mínimo cinqüenta mil gons, força mais do que suficiente para dominar Tako.
Tako, preste atenção, os gons estão chegando.
Tako ouviu o brado de alerta, levantou-se e olhou em volta. Não viu outra coisa a não ser uma linha escura, a uns cem metros, num movimento de leve ondulação.
Saiu se arrastando, embora soubesse que os gons eram mais velozes que ele. Estava com medo. Escutou gritos e chamados no seu receptor de capacete, mas não deu importância. A voz de Marshall, zangada, lhe gritou nos ouvidos!
Pare e suba no rochedo.
Viu um rochedo íngreme em sua frente e tentou escalá-lo. Mas no mesmo momento ouviu de novo a voz de Marshall:
Não neste, no outro à direita.
Tako desceu, olhou em volta e viu que os gons já estavam a vinte metros dele. O medo lhe deu uma força incrível, correu para o rochedo e foi subindo. Podia ter usado seus dons de teleportador, mas as circunstâncias não lhe permitiam a necessária concentração.

* * *

Por que exatamente naquele rochedo? — perguntou Bell admirado. — Você acha que os gons têm mais dificuldade de subir naquele rochedo do que no outro?
Não sobem em nenhum dos dois. Bell parecia perplexo.
Como é que você sabe disso?
Lembra-se, quando deixamos o viveiro dos gons, fiquei atrás de você, observando essas solhas, quando elas iam de encontro aos degraus, talhados na rocha, não conseguindo subir neles. Sentiam apenas que o mundo acabava ali e ficavam paradas. Sabe como se explica isto?
Não.
Os gons são, até certo sentido, seres de duas dimensões. Só podem sentir o que está no mesmo plano que seu corpo. Naturalmente isto não pode ser tomado no sentido absoluto. Acho que seu ângulo de visão vertical ao plano do corpo, atinge mais ou menos uns poucos minutos, no máximo meio grau. Quando chegam a um objeto que não está bem vertical em relação ao chão, então percebem facilmente e podem subir. Mas uma parede vertical é para eles como uma tábua, onde o mundo acaba. Olhe para lá agora.
Tako desaparecera de seu campo visual. Os cinqüenta mil gons tinham cercado o rochedo. Percebia-se em seus movimentos que não sabiam mais o que fazer. Andaram de um lado para o outro, depois foram embora, deixando o rochedo com o japonês para trás.
Mas... — murmurou Bell, sem compreender.
Sei no que está pensando — interrompeu-o Marshall. — Em maiores aglomerações, quando a inteligência do supergom ultrapassa determinado nível, podem ser capazes de sentir a terceira dimensão. Nós vimos, quando fizeram uma muralha para nos proteger contra a ventania.
O supergom, que encontramos logo após a descida forçada da Gazela e do qual fugimos, nos escondendo na galeria subterrânea, era igual a este que estava cercando o japonês. Lembra-se de que as solhas não conseguiram achar a entrada do corredor? Exatamente porque não podem perceber o que está abaixo ou acima delas. Só enxergam, se enxergar for o termo certo, o que estiver em sua frente ou atrás deles.
Se calcularmos que o supergom ali na frente se compõe de cinqüenta mil gons, então podemos chegar à conclusão de que a transição da visão de duas dimensões para a de três dimensões está oscilando entre cinqüenta mil e cem mil goms.”
Fantástico! — exclamou Bell.
Sem dizer nada e sem o menor sinal, Marshall se abaixou, comprimiu o capacete contra o chão, gemendo.
Que aconteceu de novo?! — exclamou Bell assustado.
A voz jovial de Betty Toufry entrou de repente em seu receptor:
É Gucky — disse ela alegre. — A Titan está se aproximando. Gucky está dando ordem aos gons para se retirarem.

* * *

Ninguém havia notado a esfera vermelha, que se aproximava no horizonte. Mas depois, ouviu-se a voz de Gucky através do amplificador telepático. Em nome de Rhodan, informou aos gons de que, dentro de uma hora deviam se afastar bastante dos sitiados, para que a gigantesca espaçonave pudesse descer facilmente e apanhar os seus amigos. Gucky deixou bem claro aos gons que seriam destruídos se não obedecessem às instruções.
A mensagem do rato-castor foi captada por Marshall e Betty. Observavam contentes como a enorme esfera de aço descia lentamente no planalto, estacionando bem próximo a eles.
A reação do supergom foi extraordinária. Não apenas desistiu da tentativa de influenciar telepaticamente a Titan, mas obedeceu de pronto. Com o ruído característico, o ser gigantesco recuou de todos os lados, bem mais depressa do que haviam chegado.
Meia hora após a mensagem de Gucky, a Titan aterrissava tranqüila. Bell e seus companheiros foram levados para bordo. Perry Rhodan fez questão de cumprimentar todos, apertando a mão de cada um e de abraçar com afeto seu velho colega de armas.
A Titan se ergueu para o espaço, imediatamente.
Bell e os seus não tiveram um segundo de descanso. Tinham que contar suas impressões, enquanto ainda estavam frescas. Os cientistas estavam ansiosos para saber alguma coisa sobre os gons.
Cada um tinha que dizer o que sabia. Setenta por cento das informações, porém, provinham de Marshall, que sempre andava com os olhos bem abertos.
O interessante foi que Kitai Ishibashi, Tama Yokida e Wuriu Sengu, como também Ivã Goratchim, não sabiam contar nada. Esqueceram-se de tudo a partir do momento em que se levantaram do fundo da caverna e caminharam na direção dos destroços da Gazela. Dos instantes anteriores, não se recordavam. Constataram depois que estavam num aposento pequeno, baixo, arredondado e sem janelas, que tudo em volta era escuridão e ruídos esquisitos.
Para Bell e Marshall era fácil concluir que os três japoneses, como também Ivã Goratchim, estavam num viveiro subterrâneo e despertaram quando os gons subterrâneos saíram para formar o supergom.
Ishibashi, Yokida e Sengu constataram com espanto que a prata sumiu de seus trajes espaciais e a massa plástica estava pela metade. Os gons tinham tentado digerir os trajes e os homens. Mas não tiveram com a matéria viva a mesma sorte que tiveram, por exemplo, com os destroços da Gazela, que desapareceram em pouco tempo.
Sengu, procurando entre os rochedos, acabou achando um caminho e sem dificuldades chegaram os três mutantes à superfície, ainda a tempo de poderem ajudar na luta. Sobre os gons, porém, não sabiam dizer muita coisa.
Assim, a impressão predominante sobre a aventura dos gons não deixava de ser um enigma, um quebra-cabeça. Apresentaram-se teorias, foram discutidas e rejeitadas. Não havia unanimidade sobre o assunto. Ninguém podia concordar com um ser que se deixava destruir pelo fogo ao invés de usar suas enormes forças parapsicológicas, como realmente o fizeram no princípio, quando, telepaticamente, forçaram a Gazela a se espatifar no solo.
Sentia-se estar defronte de um fenômeno — que não tinha nada em comum com as formas de vida conhecidas — tão estranho em sua mentalidade, como se fosse de outros mundos.
Rhodan foi instado a fazer uma aterrissagem em Gom. Os pedidos vieram de todos os lados... Mas Rhodan explicou com um sorriso amigo, que nas atuais circunstâncias, a política era mais importante do que a ciência; mais tarde, em outra oportunidade, não teria nada a opor a uma visita científica a Gom.

* * *

Uma hora mais tarde, apareceu a Titan na lua de Laros, depois de haver passado por uma série de postos avançados dos aras, sem dar a menor satisfação, destruindo muitas bases de defesa automática equipadas com bios, armadas com mísseis nucleares, desintegradores e lança-chamas. Depositou na lua uma bomba arcônida cujo detonador estava regulado no grau 14.
A bomba fazia com que os átomos de silício em sua volta entrassem em fusão aos poucos e se estendessem sobre toda a área de Laros.
O incêndio atômico que surgiria assim, era lento, mas nada o conseguiria apagar. Os aras levariam tempo para perceber o incêndio e depois teriam ainda três meses para abandonarem Laros. Depois, não haveria mais vida em Laros.
Seria o fim da base dos aras no sistema Gonom.

* * *

A Titan partiu. Havia estado de alerta contra naves dos saltadores. Mas não apareceu nenhuma delas.
Assim que saíram do sistema, Bell e seus companheiros tiveram um descanso de quinze horas de sono repousante.
Dormiu bastante, meu caro gordo? — perguntou Rhodan.
Muito pouco — protestou Bell. — Fiquei quatro dias em Gom sem pregar os olhos.
Muito bem, — continuou Rhodan — o principal é que você está firme. Diga-me uma coisa: Será que os saltadores não suspeitaram da programação falsa da positrônica de Topthor?
Bell franziu a testa:
Acho que não. Por quê?
Porque... — disse Rhodan sério, sem olhar para Bell — porque Talamon me comunicou há poucos minutos por raio direcional de hipercomunicação, que o ataque Terra está decidido e será logo.
Se eles entenderem por Terra o que vocês programaram na positrônica de Topthor, está tudo muito bem. Voltamos para a Terra e pelo caminho mais rápido.”
A fisionomia de Bell se iluminou de repente, as rugas na testa desapareceram e lábios armaram um belo sorriso.
Perry, para a Terra! Você sabe ainda quantos andares tem o Empire-State-Building e quais são as cores dos prados de Goshun See?





* * *
* *
*










Os cientistas da Titan gostariam muito de fazer pesquisas mais profundas sobre os misteriosos e perigosos gons, que por um triz não destruíram Bell e seus companheiros.
Perry Rhodan permaneceu firme na sua opinião. Sabia que não podia retardar sua volta à Terra. Teria de articular um ardil de dimensão cósmica, ardil este que é ainda o último recurso para tentar salvar a Terra da destruição. O objetivo deste ardil é convencer os atacantes de que a Terra seria o terceiro planeta do Sistema Beta.
Os detalhes emocionantes desta incrível estratégia serão narrados em: O Olho Vermelho do Sistema Beta.

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