quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-044 - O Homem e o Monstro - K. H. Scheer [parte 2]


Dali a cinco minutos, o gigantesco espaçoporto de Olp’Duor foi sacudido por ondas de compressão que se deslocavam com a velocidade de um furacão. Apesar da distância, as grandes naves mercantes começaram a tremer na ancoragem.
A Titan decolou prudentemente com a potência mínima. Com uma lentidão enervante, o colosso foi subindo ao céu. Todavia, a energia que os propulsores tiveram que desprender foi suficiente para criar um verdadeiro fim de mundo no espaçoporto.
Só numa altitude de cem quilômetros que as máquinas do supercouraçado começaram a rugir e este ganhou velocidade.
A Ganymed seguiu com diferença de um minuto, tempo standard. Também era um monstro, mas perto da Titan parecia um duende. Apesar disso, as armas da Ganymed bastariam para impor boas maneiras a qualquer inimigo.
Os geradores antigravitacionais destinados à neutralização da gravitação planetária deixaram de funcionar. Em virtude disso, surgiu um campo gravitacional de 0,9 g, o que praticamente equivalia às condições reinantes na Terra.
As naves robotizadas de escolta voltaram a aparecer, mas desta vez se mantiveram a uma distância respeitosa.
Segundo os dados da transição transmitidos pelo cérebro, o salto seria iniciado ainda no interior do grande sistema de Árcon. Isso era um sinal da importância que o robô atribuía à missão. Em condições normais, qualquer comandante pensaria duas vezes antes de provocar um abalo estrutural em meio às confusas linhas gravitacionais e energéticas que se cruzam no interior de um sistema solar.
Daí a dez minutos, os gigantes espaciais atingiram a velocidade da luz. A programação do controle automático do salto na quinta dimensão estava concluída.
No momento em que os veículos espaciais emergissem do hiperespaço que não conhecia o tempo, e no qual vigoravam leis completamente diversas, deveriam encontrar-se perto de um sol amarelo de tamanho médio, que estava registrado nos catálogos com o nome de Moof.
Rhodan fechou os olhos diante das incríveis luzes errantes representadas pelos inúmeros sóis concentrados num espaço extremamente reduzido. O grupo estelar M-13 tinha cerca de 230 anos-luz de diâmetro e reunia cerca de 150 mil estrelas. Provavelmente o número de estrelas era ainda superior.
Aquelas estrelas brilhavam e cintilavam numa grandiosidade inconcebível. A faixa da Via Láctea havia desaparecido. Por mais que a vista se esforçasse, não encontraria nada que pudesse lembrar as estrelas com que se familiarizara na Terra.
Cascatas de luz corriam pelas telas. Não havia nenhum lugar em que a navegação galáctica fosse mais difícil que em meio a esses grupos concentrados. Uma visão clara do conjunto era praticamente impossível. As estrelas geminadas ou sobrepostas e outros tipos de constelações não poderiam ser percebidas. Num lugar destes uma transição representava praticamente um salto às cegas para as maravilhas energéticas do Universo.
Antes de expedir o impulso para o salto, formando o campo de força destinado à eliminação de qualquer influência energética proveniente da quarta dimensão, Rhodan fez mais um esforço para localizar a estrela a que se destinavam.
Seus olhos falharam lamentavelmente. Aquilo que na Galáxia aberta seria apenas uma coisa natural, aqui se transformava numa fantasia que confundia os sentidos. Contra este fundo, o sol Moof era totalmente imperceptível. A única coisa que poderia resolver o problema era a complicada hipermatemática da raça que habitava um mundo situado no centro do grupo estelar M-13.
Os couraçados desapareceram numa trêmula luminosidade. Com sua penetração forçada e mecânica no hiperespaço, as leis físicas do Universo normal deixaram de operar. Por outro lado, porém, o fenômeno causava as perturbações típicas na curvatura das dimensões conhecidas.
O cérebro robotizado localizado em Árcon III registrou o início do salto. Os rastreadores estruturais começaram a zumbir nas naves de escolta. Poucos segundos depois captaram os abalos causados pela manobra de imersão. Em poucos segundos, os dois couraçados venceram uma distância de 36 anos-luz.
A tele direção das três naves robotizadas acionou o dispositivo de frenagem. Não havia mais nada a escoltar.

Sua Eminência, Vetron da família Tatstran, Almirante do Grande Império, comandante da frota de naves espaciais ZL-ARK-86, era um dos raros jovens que ainda conservavam um vestígio da energia que para os indivíduos da época da expansão seria considerada normal.
Apesar disso, Vetron também demonstrava certa inclinação pelo jogo do simulador e pelos costumes relaxados que eram usuais tanto na corte do Imperador como em outros lugares. De resto, porém, era um homem de tempera extraordinária para os padrões arcônidas; tinha rosto anguloso e era dotado de inteligência penetrante.
Vetron assumira os modos transparentes da auto-recriminação pública. De algum tempo para cá, os habitantes do mundo de cristal começaram a comprazer-se em moer as próprias deficiências através de uma série de fórmulas lingüísticas sofisticadas que exprimiam uma ironia espirituosa.
A frota ZL-ARK-86 encontrava-se em órbitas convergentes junto ao sexto planeta do sol Moof.
Duzentas naves pequenas, médias e pesadas, se materializaram diante do sistema e, executando o plano previamente traçado, avançaram sobre o alvo.
A estrela Moof possuía apenas sete planetas. O sexto, habitado por monstros disformes com aspecto de medusa, dotados de pronunciada capacidade telepática e de capacidade de sugestão mental muito menos desenvolvida, era um gigante avermelhado cuja atmosfera de metano e amoníaco exercia uma tremenda pressão. Seu diâmetro era de 148 mil quilômetros, e a gravitação superficial correspondia a 2,8 g.
Naquele mundo fazia muito frio. Oceanos gigantescos formados exclusivamente por amoníaco cobriam a superfície. As pequenas elevações dificilmente poderiam ser designadas como montanhas. A enorme gravitação não poderia ter deixado de produzir seus efeitos. Terríveis furacões bramiam no envoltório de gases venenosos, onde se desenvolviam reações químicas que os humanos só conseguiriam provocar no interior dos laboratórios. Era o planeta da química natural de alta pressão e da super-refrigeração, também natural.
O ataque planejado tivera início há uma hora, tempo standard. Para o robô insensível de Árcon III, esse mundo, que de qualquer maneira não poderia ser utilizado por criaturas humanas, apenas representava um dado em seus cálculos.
Os moofs que viviam ali eram seres que respiravam o metano e o amoníaco e eram dotados de órgãos compensadores de pressões elevadas. Seu metabolismo se desenvolvia por um processo completamente estranho. De qualquer forma, não teriam a menor serventia para o Império. Em virtude de suas faculdades parapsicológicas, aqueles seres eram imunes à sujeição nos termos de um colonialismo há muito ultrapassado. Em compensação, haviam realizado uma intervenção extremamente perigosa na política do império estelar.
Esses motivos eram mais que suficientes para levar o robô a ordenar a destruição desse mundo. Era um raciocínio duro e cruel, injusto e desumano. Acontece que o Regente robotizado não era um ser humano.
O ataque já se desenvolvia há mais de uma hora. As unidades menores avançaram até as camadas superiores da atmosfera. Dali abriram fogo com seus canhões de impulsos.
Os feixes energéticos, que emitiam uma claridade solar, rugiram através dos gases fortemente comprimidos antes de atingirem o solo em leque, produzindo mares borbulhantes.
O almirante Vetron não tinha pressa. Era sua primeira missão, e não pretendia concluí-la antes da hora por meio da utilização de armas de elevada potência.
Por enquanto Vetron pretendia realizar uma manobra com armas energéticas convencionais. Com isso, teria oportunidade de testar a capacidade de reação dos comandantes das unidades e dos grupos.
Por cima da densa atmosfera venenosa de Moof VI, pendia a destruição sob a forma de naves espaciais esféricas, entre as quais havia três unidades da classe Império, com oitocentos metros de diâmetro. A tripulação organicamente viva de Vetron era formada por membros do povo colonial de Naat, que haviam concluído o treinamento hipnótico para o combate. Era uma raça de criaturas ciclópicas com três olhos.
Três minutos atrás ocorrera o tremendo abalo estrutural. Numa distância perigosamente pequena, as duas naves gigantes emergiram do hiperespaço, e aproximaram-se vertiginosamente do grupo que circulava em torno do planeta.
Antes que Vetron pudesse recuperar-se da surpresa, o rosto estreito e anguloso de um estranho surgiu nas telas da nave capitania.
Os olhos cor de gelo encimados por uma testa alta não agradaram a Vetron. O desconhecido falava um arcônida impecável, sem o menor sotaque.
O senhor compreendeu perfeitamente; isto é uma ordem — soou a voz áspera e fria vinda dos alto-falantes do couraçado.
Uma ruga vertical surgira entre as sobrancelhas do desconhecido.
Suspender o fogo, afastar-se, entrar em forma e dar o fora. Entendido?
Eu o destruirei, seu bárbaro — gritou Vetron. — Eu...
O almirante calou-se. O imenso furacão de fogo que se desprendeu da face visível do supercouraçado fez com que perdesse a fala.
Fluxos energéticos que progrediam à velocidade da luz, quentes como um sol e com a grossura de uma torre de tele direção, caíram ruidosamente nos campos defensivos de um dos pequenos cruzadores robotizados da frota de Vetron.
A nave esférica de cem metros de diâmetro desmanchou-se num inferno branco de energia atômica liberada. O que ficou para trás foi uma bola de gases turbilhonantes, diante da qual as outras naves recuaram apavoradas.
Isto foi apenas uma advertência, Vetron — voltou a falar o desconhecido. — Retire-se imediatamente. Recebi plenos poderes para suspender o ataque. Desapareça com sua frota.
Dali a dez segundos, Vetron recebeu a confirmação do cérebro robotizado. Só agora o autômato entrara em contato com ele.
O arcônida deu ordem de retirada; deu-se por vencido.
Duzentas unidades aceleraram e saíram das órbitas tão cuidadosamente calculadas. Vetron achou que seria indigno da sua posição voltar a entrar em contato com o desconhecido que surgira tão inopinadamente.
Os oficiais dos dois couraçados terranos seguiram o grupo com os olhos, sem dizerem uma palavra. Os numerosos pontinhos transformaram-se num único eco do rastreador. O almirante Vetron seguiu estritamente as instruções que acabara de receber. Em poucos minutos, mergulhou no nada.
Rhodan pigarreou com a mão diante da boca.
Respeito não lhe falta — disse, esticando as palavras. — Tem até respeito demais por uma simples máquina. Há algo de podre no reino dos arcônidas.
O capitão Brian, que se encontrava na sala de rádio, fez um sinal. Ao que parecia, tudo estava em ordem. O pequeno sistema do sol Moof parecia deserto, como se nunca uma frota poderosa se tivesse abrigado em meio às suas órbitas planetárias.
Apenas a superfície do sexto planeta, que emitia um brilho avermelhado, continuava a borbulhar. As bombas normais atiradas sobre o planeta, que traziam simples cargas explosivas de material de fusão e nunca desenvolveriam uma potência superior a 50 megatons, estouraram sem produzir o menor resultado. As forças gravitacionais muito intensas já haviam trazido de volta as massas de matéria atiradas para o alto. Os cogumelos de reação atômica espontânea tiveram um desempenho bastante reduzido naquela atmosfera tremendamente comprimida.
O que ficou foram apenas crateras vitrificadas, cujo calor era irradiado com uma rapidez incrível. As armas energéticas das naves empenhadas no ataque haviam queimado enormes grotas na superfície. Os rastreadores de elementos registraram as densas nuvens de amoníaco que subiam dos lagos atingidos pelos raios energéticos.
É um verdadeiro inferno! — disse
Everson, engolindo em seco. Com o coração pesado, contemplou as grandes telas de visão global do supercouraçado.
Fazia oito minutos que os propulsores da nave desenvolviam toda a potência de frenagem.
Após cinco minutos, o cérebro positrônico fez a nave entrar na órbita previamente calculada. A Ganymed seguiu-a numa distância de apenas 2 mil quilômetros. As últimas correções de rota foram efetuadas, antes que as naves passassem a deslocar-se em queda livre.
Os ruidosos reatores instalados na protuberância externa da Titan calaram-se. Um silêncio profundo passou a reinar a bordo da maior das naves que jamais cruzara a Galáxia.
O olhar de Rhodan caiu sobre os dois seres dotados de capacidades supersensoriais. Eram os únicos membros do chamado exército de mutantes que não foram vitimados pela doença.
Apoiado sobre o grosso traseiro, Gucky mantinha-se imóvel, fitando as telas. O rosto esperto do rato-castor estava alterado. Em seus grandes olhos castanhos havia uma expressão de nervosismo contido.
Wuriu Sengu, um homem de corpo volumoso e maneiras um tanto rudes, apalpava instintivamente o grande cinto com as armas. Olhou pelas janelas eletrônicas da nave e teve a impressão de contemplar a imensidão vazia.
Os diversos postos transmitiram o aviso de que estavam preparados para entrar em ação. Os doentes continuavam calmos. A sonoterapia parecia ser o único tratamento adequado.
Meia hora depois da manobra de adaptação de órbita, teve início a conferência sobre a ação a ser empreendida. Participaram os cientistas e oficiais mais importantes dos dois couraçados.
Rhodan explicou tranqüilamente o plano que havia concebido. Depois da retirada da frota arcônida semi-automatizada não precisavam ter pressa. Ainda mais que tinham certeza absoluta que, dali em diante, ninguém mais chegaria ao gigantesco planeta ou dele sairia sem ser visto.
Os veteranos das pesadas lutas travadas em Honur estavam agora reunidos. Apenas os elementos mais antigos e capazes, ausentes; eram os que tinham acumulado maior cabedal de experiência e aqueles dotados de capacidades parapsicológicas.
Ninguém poderá deixar de reconhecer a dificuldade do empreendimento — disse Rhodan, concluindo a conferência. — Freyt manterá a Ganymed em órbita. Preciso ficar com as costas livres.
O coronel, um homem alto, acenou com a cabeça sem dizer uma palavra.
O vulto gigantesco do Dr. Hayward surgiu nos fundos da sala. Estivera trabalhando no grande laboratório da nave. Todas as cabeças se viraram. Fora ele que conseguira isolar o veneno desconhecido. Mas nem por isso descobrira um antídoto que neutralizasse seus efeitos.
Nada! — disse Hayward, respondendo à pergunta que não chegara a ser formulada. — O conceito de argono-hexilamina já representa uma impossibilidade. Mas sei perfeitamente que os centros nervosos mais sensíveis dos doentes não agüentarão mais por muito tempo. O líquido raquidiano, que produz o sangue, também é atacado pela argonina. Os espectros sangüíneos são péssimos. Além da hipereuforia, dentro de quinze ou vinte dias, no máximo, se manifestará uma forma estranha de leucemia. Acredito que o soro de Haggard será ineficaz contra a mesma.
Hayward sentou na borda de uma mesa. Um silêncio profundo encheu o salão.
Que informação tranqüilizante! — disse Rhodan numa amarga ironia. — Deve haver um meio de absorver a toxina.
O meio existe — respondeu Tina Sarbowna. — Acontece que não o conhecemos. Para descobri-lo teríamos que desenvolver um trabalho de pesquisa de três ou quatro anos.
Rhodan virou-se num gesto de resignação. Seria inútil prosseguir na discussão.
Passou a outro assunto:
Sem mentiras, diga aos homens que teremos que agir contra seres dotados de capacidades parapsicológicas. A raça dos moofs nunca será capaz de produzir um simples parafuso, quanto mais uma nave espacial. A inteligência de que são dotados não altera nada nessa situação. Esses seres vivem no oceano atmosférico de um mundo supercomprimido. O meio natural de comunicação entre eles é a telepatia. Além disso, são dotados de forças sugestivas, que o homem só pode considerar bastante fracas. Mas já vimos que a união mental de vários moofs basta para eliminar a vontade de um homem de mente sadia. Por isso deverão ser dadas instruções gerais para que os homens só saiam das naves em grupos de cinco ou mais. Se forem notadas influências sugestivas em alguma pessoa, seus companheiros tomarão imediatamente as providências que se fizerem necessárias. De qualquer maneira, ordenem aos homens que disparem. Não se esqueçam de que nos defrontamos com uma raça inumana e, mais do que isso, diabólica. Lembrem-se dos efeitos desastrosos da ação que os moofs desenvolveram nas lutas mais recentes. Não esperem um segundo além do necessário.
O senhor se esquece do ponto mais elementar — interveio o Dr. Certch.
Em sua opinião, qual é o ponto mais elementar? — perguntou Rhodan.
Este ponto elementar situa-se em dois planos distintos. Ao que parece, um matemático raciocina de forma diferente. Em primeiro lugar teremos de encontrar esses monstros antes de fazer qualquer coisa contra eles. Depois que os tivermos descoberto, ainda resta saber se conhecem alguma coisa sobre os médicos galácticos, que afinal de contas são os responsáveis pela intoxicação. Sugiro que não atribua uma importância exagerada às capacidades parapsicológicas dos moofs. Serão inimigos implacáveis, até mesmo desumanos. Votarão um ódio instintivo a tudo aquilo que não se enquadra em seu esquema de vida. É um fenômeno compreensível. Recomendo-lhes que se interessem desde logo pelos aras. São os únicos que podem curar nossos doentes.
O caminho para os aras passa pelos moofs — exclamou Gucky em tom nervoso e estridente. Seus braços curtos executaram uma gesticulação intensa. — O único caminho passa pelos moofs. Eu os conheço. Posso enfrentar uma centena deles.
Acontece que serão milhões — disse o Dr. Certch, insistindo em sua opinião. — Deixem-nos de lado. A interpretação dos dados disponíveis permite a conclusão segura de que neste mundo existe uma base dos aras. São eles que puxam os cordões.
Rhodan fez um gesto de recusa. Os fatos eram conhecidos e já haviam sido considerados. Não pensava em subjugar os monstros em forma de medusa pela forma que o cérebro robotizado desejava. Não tinha o menor interesse na política colonialista do Império.
No entanto, tinha a impressão de que o caminho para a base dos médicos galácticos, que provavelmente existiria naquele planeta, só poderia passar pelas criaturas inumanas.
Rhodan declarou encerrada a reunião.
O coronel entrou em sua nave de ligação e retornou à Ganymed. A bordo da gigantesca Titan começou o trabalho febril dos preparativos para a luta.
Os comandos de robôs foram programados. Os blindados flutuantes saídos das fábricas do segundo planeta de Árcon foram preparados para entrar em ação. Substituiriam os velhos Câmbios, pois eram veículos potentes que ofereciam possibilidades muito mais amplas. Seus motores não teriam a menor dificuldade em vencer a gravitação de 2,8G, e seu armamento seria suficiente para dizimar um exército terrano.
Setecentos homens altamente especializados, inclusive aqueles que não sairiam da nave, receberam trajes protetores arcônidas. As equipes de salvamento, abrigadas em blindados espaciais de alta pressão, estavam de prontidão com os aparelhos de vôo antigravitacional.
Oito horas depois da chegada ao sistema de Moof, uma luminosidade ofuscante saiu dos bocais de correção de rota do supercouraçado. Descendo rapidamente, seguiu a tração cada vez mais perceptível da gravitação. Os projetores dos campos defensivos rugiram. A Titan penetrou nas camadas superiores da atmosfera impregnada de gases tóxicos que causariam a morte instantânea de qualquer homem.
Ainda havia a pressão extremamente elevada reinante no fundo desse oceano feito de gases supercondensados. Era um planeta infernal; era tão grande, formidável e estranho, porém jamais poderia servir de base a uma raça de seres que respirassem oxigênio.
Nessas circunstâncias, quase chegava a ser compreensível que o cérebro robotizado tivesse ordenado a destruição total de Moof VI; mas apenas quase.
Ali viviam seres cujo aspecto terrificante não poderia ocultar o fato de que o Criador lhes dera um espírito e uma inteligência.
Um comandante do tipo de Perry Rhodan fatalmente sentiria escrúpulos de consciência toda vez que pousasse num mundo como este. As características inumanas e totalmente estranhas do inimigo dominariam a inteligência, que numa lógica infalível chegaria à conclusão de que o espírito não deveria entreter qualquer tipo de sensibilidade humana.
Muito preocupado, Rhodan percebeu que o problema seria praticamente insolúvel. Muitas vezes tivera oportunidade de notar que as armas puramente espirituais são invencíveis. Os mutantes, que representavam os pólos opostos das qualidades parapsicológicas dos moofs, estavam quase todos inutilizados. Pela primeira vez na história da Terceira Potência, o homem se via quase indefeso diante de seres dotados de capacidades supersensoriais. E esses seres já haviam provado no planeta Zalit que sabem ser por demais cruéis e que seu pensamento é completamente diferente do raciocínio humano.
Rhodan ainda se viu obrigado a eliminar a palavra crueldade desse contexto. Uma qualidade puramente natural não poderia ser identificada por uma palavra do vocabulário humano.
Gucky, o único ser sadio dotado de elevadas capacidades telepáticas, escutava com os olhos fechados. Os moofs conseguiram desenvolver certa inteligência, mas os dados relativos a essa raça levavam à conclusão de que dificilmente se poderia contar com a presença de construções ou outros produtos da tecnologia desenvolvida.
Esses indivíduos nunca foram capazes de criar os objetos mais simples, pois não dispunham dos requisitos orgânicos para isso. A mão humana, que é o instrumento mais belo e eficiente criado pela natureza, nunca foi concedida aos moofs.
Diante da tela de proa da Titan, que se deslocava em alta velocidade, aglomeravam-se massas de gases incandescentes. Da simples compressão da atmosfera até a condensação molecular, o caminho era curto.
Os neutralizadores gravitacionais automáticos eliminaram a força da gravidade que atingia a Titan. Os propulsores, que desenvolviam a potência zero, apenas sustentavam e moviam o corpo da nave. Um único dos dezoito propulsores, trabalhando com a potência mínima, bastava para vencer a resistência da atmosfera.
Localização pelo eco negativa — anunciou o capitão Brian na sala de rádio. — Nenhuma localização goniométrica. Nenhum tráfego de rádio. Absolutamente nada. Rastreador de pistas também negativo. Existem apenas substâncias naturais; nada de produtos ou ligas artificiais.
O rosto de Rhodan permaneceu impassível. Sem dizer uma palavra, contemplou as enormes telas panorâmicas.
Naquele momento, o supercouraçado atravessava uma tempestade cuja turbulência era pavorosa. Tudo indicava que nas camadas atmosféricas superiores de Moof VI havia forças diabólicas que lutaram contra os princípios de vida que aos poucos se desenvolveram no fundo do oceano de gases.
Setor P três percorrido, passar ao setor P quatro — rangeu a voz metálica do autômato.
A Titan passou a descrever outro círculo em torno do planeta, desta vez mais próxima da zona equatorial. Os mapas em relevo da superfície visível foram registrados através do processo de rastreamento eletrônico e infravermelho, que fora adequadamente programado e, sob a forma de milhões de impulsos, transmitia os dados a um ejetor de massa plástica. Grandes fitas de plástico saíam do cartógrafo automático de grande precisão. A configuração tridimensional dos resultados admitia uma tolerância de mais ou menos 1 milésimo por cento.
Depois de doze voltas em torno do planeta, o mapa do hemisfério norte estava concluído. Após dez minutos, surgiram os primeiros impulsos. E isso aconteceu de forma tão repentina e surpreendente, que o rato-castor se encolheu.
Então... — soou a voz estridente de Gucky.
Seus grandes olhos tremeluziam.
Rhodan foi até o ser peludo, que parecia perturbado. As pequenas patas rosadas agarraram seu braço.
O que houve? — perguntou Wuriu Sengu, o espia, em tom nervoso. Muito tenso, inclinou-se sobre o rato-castor que tremia por todo corpo.
Fale, pequenino — cochichou Rhodan em tom insistente. — O que houve?
Mais adiante, a figura de Everson transformou-se num objeto rodopiante. Seus dedos correram pelas chaves do piloto automático. Houve um rugido surdo nos dois propulsores anteriores da protuberância, seguido do ribombar vindo dos pavilhões do neutralizador de pressão.
Numa fração de segundo, a Titan neutralizou a velocidade elevada com que se deslocava. O eco do rumorejar vindo das salas de máquina chegou à de comando. Feixes filigramáticos de raios corpusculares extremamente condensados sustinham a nave. Os estabilizadores giroscópicos zumbiam.
Os homens do posto central de controle de fogo viraram-se ligeiros, antes que seus olhos caíssem sobre a pequena tela da mira automática.
Não se via nada. Não apareceu qualquer objeto que pudesse perturbá-los, quanto mais ameaçá-los.
O major Chaney, comandante do grupo de desembarque, praguejou. Num momento como este, até Rhodan caía numa certa perplexidade.
Pela primeira vez, seu treinamento telepático teve aplicação prática. Levantou toda e qualquer barreira mental. Os setores ociosos do cérebro transformaram-se em rastreadores ultra-sensíveis, que se submeteriam a qualquer impulso que quisesse atingi-los.
Gucky devia ter sentido os impulsos com uma intensidade muito maior. A Titan mantinha-se imóvel em meio à atmosfera turbulenta. Os impulsos foram ficando cada vez mais fortes, até que Rhodan conseguiu extrair um sentido definido dos mesmos.
Alguém estava chamando. Possuído de grande angústia e de enorme preocupação, chamava com tamanha insistência, força e concentração que o rato-castor começou a choramingar.
Não pousem. Fiquem onde estão. Não pousem. Perigo. Não pousem. Eles os esperam. Voltem para o lugar de onde vieram. Não pousem. Perigo.
Rhodan murmurou baixinho. O Dr. Certch agachou-se diante do comandante, que mantinha o corpo encurvado. Era uma situação irreal e enervante.
As mensagens transmitidas por desconhecidos eram sempre as mesmas. De repente os impulsos se tornaram tão intensos que Rhodan se apressou em bloqueá-los por meio da vontade. Martirizado pela dor de cabeça, ergueu o corpo.
Foi só então que ouviu os gritos agudos. Gucky contorcia-se de dor.
Depressa, Hayward! — berrou alguém a plenos pulmões.
O médico já estava ali. Sob o chiado da seringa pressurizada os tecidos do corpo de Gucky absorveram o narcótico. Em menos de um minuto, o ser peludo tranqüilizou-se e ficou deitado no assento do piloto.
O rosto de Rhodan estava desfigurado pela dor. Seus olhos mortiços fitaram as mãos de Hayward.
Deixe — soou a voz áspera de Rhodan. — Não quero narcótico; agüento sem ele. Chame Kärner; depressa. Os telepatas do exército de mutantes devem ser submetidos a uma vigilância mais rigorosa, caso despertarem.
Interrompeu-se para enterrar o rosto nas mãos. O silêncio passou a reinar na gigantesca sala de comando do supercouraçado. Só os homens dos postos de combate trocavam informações aos cochichos. Mas não havia nada que pudesse ser atacado.
É isso! — disse o Dr. Certch. — Um ataque mental. Como se tudo isso não bastasse, ainda fazem de conta que lá embaixo só temos bons amigos. Será que isso é uma advertência?
Parecia verdadeira. O senhor não poderia ouvir.
É tão legítima como meu velho relógio niquelado — disse Certch. — Suponhamos que a advertência é sincera. Quem poderia tê-la emitido?
Certch, um amigo de verdade não transmitiria sua mensagem parapsicológica com uma força mental tão brutal que fizesse um bom receptor como Gucky sucumbir sob a mesma. Um telepata imbuído de boa vontade logo percebe quando o receptor está sobrecarregado. Por que não pararam quando o rato-castor começou a choramingar?
Talvez seu argumento seja convincente, Rhodan. Acredita seriamente que além dos monstros existem outros seres dotados de capacidades telepáticas? Em caso afirmativo, que motivo teriam para nos prevenir? Se esses desconhecidos são inimigos encarniçados dos moofs, a advertência seria perfeitamente explicável. Mas nesse caso ainda teríamos de explicar como esses seres adquiriram conhecimentos astronáuticos. Eles disseram que não devemos pousar, não é verdade? Fixemos o conceito de pousar. Será que um ser que respira uma mistura de metano e amoníaco e não desenvolveu qualquer tecnologia tem algum conhecimento sobre o pouso de uma nave espacial? Não seria de esperar que não tivessem a menor idéia disso? Quem poderia ter emitido a mensagem telepática? Seria realmente um amigo desconhecido?
Qual é a conclusão? — perguntou Rhodan.
É claro que só pode ser um truque. Alguém está com medo. A decisão só pode ser uma. Pouse e aperte seus botões antes que a outra parte tenha tempo para agir.
Alguns segundos depois, as teclas de programação do pequeno cérebro eletrônico começaram a bater. Ao que parecia, o psicólogo de robôs também tinha algum conhecimento de psicologia natural. Era bem possível que os atos de um ser inumano fossem quase idênticos aos do homem.
O Dr. Certch está com a razão. Só pode ser um truque miserável. — Rhodan compartilhava a opinião do doutor.
Depois ordenou:
Everson, prepare todas as peças para disparar. O comando de Chaney deve preparar-se para deixar a nave. Brian, informe a Ganymed. O levantamento cartográfico do hemisfério sul deverá ser realizado a partir do espaço. Freyt poderá enviar sondas teleguiadas para a atmosfera. Deverão ser ligados apenas para o rastreamento de matéria classe A. Quero saber se existe alguma coisa que não seja obra da natureza. Ainda há um detalhe, Dr. Certch.
Desta vez um sorriso mordaz surgiu no rosto de Rhodan. O Dr. Certch empurrou o gigantesco par de óculos para cima do nariz. O dedo estendido permaneceu imóvel no ar.
O senhor se esqueceu de que estamos procurando os aras. É possível que a mensagem venha deles. Será que o senhor tem alguma prova de que esses seres não possuem dons telepáticos?
Certch soltou um assobio agudo e desafinado. Seus olhinhos claros começaram a piscar. Nesse momento, foi iniciada a manobra de pouso da Titan.
O monstro de aço abriu caminho pela atmosfera cada vez mais densa. Bem mais embaixo outros monstros estavam à espera. Não eram tão grandes, mas em compensação eram fortes. E eram muitos.
Sob o sopro incandescente dos propulsores, uma montanha de sais de amoníaco evaporou-se. Uma tempestade furiosa sacudia as torres de armamento da nave.
Discos de apoio de tamanhos assustadores afundaram no solo macio. A escuridão desceu sobre o supercouraçado. O sol Moof estava reduzido a um disco pálido atrás das nuvens.
Os sais e as poças de amoníaco líquido submetidas à alteração de temperatura e à pressão reagiram de forma surpreendente. Os vestígios de azoto e de hidrogênio pareciam ver na Titan uma espécie de catalisador. Sob a ação do calor tremendo desprendido pelos propulsores e da pressão atmosférica, também entraram em reação. Eram processos químicos que dificilmente poderiam ser reproduzidos num laboratório.
A abóbada energética que se desprendeu da Titan causou um tremendo furacão naquela atmosfera venenosa. Até parecia que tinham pousado num submundo. O espaço livre parecia ficar a uma distância infinita. As mensagens de rádio transmitidas por Freyt sofreram fortes interferências.
Chegaram, mas ainda não sabiam por que haviam pisado no primeiro degrau da escada que dá para o inferno.
Setecentos homens contemplaram-se com uma expressão mais ou menos tranqüila. Os engenheiros das centrais energéticas agradeciam aos céus por não terem que sair para aquela fábrica de venenos pressurizados.
Os homens do comando de desembarque examinavam incessantemente os microgeradores de seus trajes arcônidas, que funcionavam impecavelmente. Os cientistas refletiram sobre o destino que teria um homem cujos campos defensivos entrassem em colapso. Na verdade, não havia necessidade de refletir sobre isso. Sabiam perfeitamente quais seriam os efeitos da pressão, da gravidade e dos gases venenosos.
Para conservar a mobilidade, os homens tiveram de abster-se de revestir os trajes arcônidas com a blindagem pesada e desajeitada destinada à execução de tarefas especiais. De resto, essas armaduras disformes apenas poderiam oferecer defesa contra os gases venenosos e a pressão. Não ofereceriam a menor proteção contra uma gravitação de 2,8G.
Bem que eu preferia uma noite de primavera na província mexicana de Sonora — disse uma voz monótona.
Após isso só se ouviu o rugido do furacão. Os instrumentos mediram sua velocidade. Chegava a 480 km/h.

Como é que eles se comportam? — perguntou Crest.
Eles eram os monstros que apareceram logo após o pouso da nave. Aos milhares, provavelmente mesmo às dezenas de milhares, rodeavam o supercouraçado a uma distância respeitosa.
Eram bem maiores que os seres de que se guardava lembrança. Sua altura era de cerca de 2,5 metros e sua largura passava de 1,5 metros. Descansavam no solo como medusas em forma de sino. Na parte de cima, onde se supunha que seria a extremidade do corpo espumoso e incolor, várias cabeças redondas com olhos salientes saíam. A incrível elasticidade do corpo absorvia as rajadas inesperadas do furacão através de pronunciadas deformações e achatamentos.
A natureza os fizera de forma tal que sempre voltavam a face longitudinal às tormentas, pouco importando a posição em que se firmavam ao solo.
Parecia que estavam apenas agachados. Apesar disso, observaram-se movimentos extremamente rápidos e ágeis. Da extremidade inferior do corpo, saíam inúmeros apêndices destinados à locomoção. Ao que tudo indicava, os moofs não possuíam órgãos preênseis naturais. Ao menos não haviam notado a presença deles.
Logo após o pouso Gucky despertou do sono provocado pelo narcótico. Agachado diante das telas, o rato-castor escutava os impulsos mentais dos inumanos.
Eram telepatas naturais; mais uma vez Gucky registrou o fato. A fala normal e humanóide não seria possível em meio a esse inferno de ruídos provocados pelos furacões incessantes. A natureza encontrara uma solução brilhante.
Fazia dez minutos que todos os tripulantes usavam o traje protetor arcônida, embora Rhodan ainda não tivesse dado ordem para deixar a nave. Esperava alguma coisa que lhe parecia evidente.
Quando alguém entrava na sala de comando, nunca vinha só. Depois do ataque telepático Rhodan aumentara os membros de cada grupo para um mínimo de dez. Todos tinham que observar todos, para verificar se procediam normalmente.
A Titan estava pousada sobre as pernas de aterrissagem da grossura de uma torre, em meio a uma grande planície cortada por profundas depressões. Bem ao longe, uma cadeia de montanhas baixas subia ao céu nublado. Cristais de amoníaco tangidos pela tempestade batiam ininterruptamente contra o campo defensivo da nave. Parecia que um desconhecido estava promovendo um enorme fogo de artifício.
Do lado de onde vinha o vento, as luzes e os relampejos se sucediam sem cessar. Os cristais se desmanchavam em incandescência, produzindo vapores tóxicos.
Por que não atacam? Por que será? — perguntou Rhodan, concentrado.
Lançou um olhar para os oficiais da nave-gigante.
Everson estava sentado diante dos controles de amplificação do localizador infravermelho. Os corpos dos moofs desenvolviam um excelente eco térmico. Embora em meio a esse frio, se parecessem com geladeiras vivas. A localização infravermelha era melhor que a observação puramente ótica, que era turvada constantemente pelas nuvens de matéria pulverizada.
Deve ser por uma questão de tática — disse Everson em tom nervoso. — Devem levar algum tempo para reunir um número suficiente desses seres. Afinal, não têm aviões.
Se tivessem, os mesmos não passariam nada bem com esses furacões — disse Tanner. Estava sentado ao lado de Julian Tifflor, diante do painel de controle de fogo do supercouraçado.
Quando receberemos ordem para disparar? — perguntou.
Rhodan virou-se abruptamente.
Aqui só se atira quando nos encontramos numa situação inequívoca de legítima defesa — exclamou. — Que diabo! Quantas vezes ainda terei de repetir? A instrução astronáutica que lhes foi ministrada não prevê a matança de inteligências estranhas sem qualquer motivo. Imaginem a hipótese de que chegamos como hóspedes não convidados. Por enquanto o direito está do lado dos outros.
Só o direito moral — interveio Crest. — Como é que o senhor pretende conquistar um império, meu caro? Acredita que foi assim que meus antepassados fundaram o império estelar?
Isso é problema deles — objetou Rhodan. — Acontece que sou um homem do planeta Terra. Quero deixar bem claro uma coisa. Quem atirar sem motivo, enfrentará dentro de dez minutos um tribunal de bordo dirigido por mim.
O biólogo Janus van Orgter formulou uma objeção:
E uma forma de vida, mas não é uma vida humana.
De qualquer maneira é uma forma de vida inteligente! — ponderou Rhodan em tom áspero. — Só no momento em que, apesar de sua inteligência, essa vida se deixar levar a um ataque sério contra nós, terei uma justificativa perante meus semelhantes e perante minha consciência para retribuir o golpe em legítima defesa. Uma verdadeira inteligência não deve ignorar que um comportamento extraordinário pode trazer conseqüências extraordinárias. Portanto, terão que aguardar. Major Chaney!
O comandante das tropas de desembarque respondeu pelo telecomunicador. Ao lado dele, os homens do comando, armados até os dentes, comprimiam-se na comporta inferior da Titan.
Chaney, se daqui a exatamente quinze minutos não tiver acontecido nada, o senhor avançará numa ação relâmpago. Leve os tanques planadores e utilize os raios de tração. Capture ao menos dez desses enormes moofs. Não haverá mais nada a fazer. Só eles nos poderão contar onde fica a base dos aras. Quinze minutos. O tempo está correndo.
Chaney confirmou laconicamente. Os microgeradores começaram a zumbir nas mochilas dos trajes arcônidas. Um ligeiro controle confirmou o perfeito funcionamento desses reatores de campo.
Da enorme gravitação, que era quase exatamente de 2,8 G, teriam de ser neutralizados 1.3 G, para que se mantivesse inalterada a gravitação terrana de 1 G.
Dali resultaria uma redução considerável das reservas energéticas, que teriam de ser retiradas do campo de força destinado à neutralização da pressão atmosférica extremamente elevada. Todavia, o desempenho dos reatores bastaria para manter tanto o neutralizador antigravitacional como os projetores de campo defensivo abaixo do limite máximo.
Mas, se houvesse fogo concentrado contra os campos defensivos, o dispositivo automático de segurança desviaria toda a energia disponível para os mesmos. Nesse caso seria bem possível que a pessoa ficasse repentinamente exposta à força plena da gravitação natural.
A idéia de ficar atirado ao solo, imóvel, com o peso do corpo quase triplicado, causava um sofrimento quase físico.
Chaney olhou para o relógio. Cinco minutos já se haviam passado. Os moofs ainda não se lançaram ao ataque, embora o infalível rastreador automático registrasse milhares deles. Mantinham-se bem ao longe, a mais de dois quilômetros dos limites do campo energético.
Subitamente Gucky soltou um grito de advertência.
Mas esses monstros nem pensavam em aproximar-se da nave para atacá-la.
Os impulsos mentais se tornam mais tranqüilos, fluem ininterruptamente e se ligam uns aos outros — gritou Gucky. — Cuidado, neste instante está sendo estabelecido um contato físico. Quando começarem a pensar, serão dezenas de milhares pensando na mesma direção. Transformam-se num só todo. Cuidado!
Tifflor, Tanner, mantenham-se preparados — gritou Rhodan para os oficiais de controle de fogo. — Mr. Garand, reforce os campos defensivos. Eu...
Rhodan interrompeu-se. Sentiu uma força estranha, perceptível apenas em sua consciência. Começou de modo suave na nuca, até que uma dor repentina passou pela caixa craniana e tateou em direção ao cérebro.
Rhodan lutou usando toda a força volitiva adquirida no seu treinamento parapsicológico. Outros homens fizeram a mesma coisa, pois não havia ninguém a bordo da nave que não tivesse recebido esse tipo de treinamento.
Mas foi um verdadeiro dilúvio que irrompeu sobre toda a vida e todo o pensamento. A inundação completou-se numa questão de segundos. A cada segundo que passava multiplicava-se, até que o caráter sugestivo dessa força se tornou inconfundível.
Moía e sacudia ininterruptamente as bases da inteligência. A mão de Marcus Everson tateava em direção aos controles principais. Tifflor e Tanner ergueram-se repentinamente das poltronas giratórias em que estavam sentados diante do painel de controle de fogo.
Rhodan apenas sentiu uma dor martirizante no cérebro. Os moofs pretendiam paralisar toda a tripulação num só golpe.
Gucky! — fungou desesperado.
Cambaleou para a frente, concentrando toda a força da vontade sobre o painel de controle de fogo. Esforçou-se para desviar a força estranha, neutralizá-la, considerá-la um fator sem importância.
O rato-castor, que desta vez estava preparado para a emergência, parecia não sentir quase nada. Rhodan viu um corpo passar rapidamente. Viu o animal peludo surgir repentinamente diante do painel de controle de fogo.
A pontaria automática já estava ajustada para os alvos mais variados. Ainda não haviam atirado, mas agora teriam de fazê-lo, senão estariam todos perdidos.
A mão de Everson estendeu-se para a chave-mestre do controle energético. Se a alcançasse, poderia neutralizar todos os geradores auxiliares.
Fogo, Gucky. Fogo! — gritou Rhodan. Cada passo transformava-se num martírio. Alguma coisa procurava impedi-lo. — Fogo!
As patas macias de Gucky transformaram-se no órgão de execução. Os dedos pequeninos brincaram com energias que ultrapassavam tudo que o espírito humano poderia conceber. Os botões verdes, azuis e vermelhos foram empurrados para baixo, e as fúrias do inferno ficaram às soltas.
As peças leves de impulsos da Titan abriram fogo. As unidades pesadas e superpesadas juntaram-se a elas. Fluxos energéticos muito grossos, vindos desde os canhões gigantescos da região polar da esfera, abriram caminho com um rugido.
Dois segundos depois que as peças de artilharia abriram fogo a bruxaria parapsicológica cessou.
A descontração dos cérebros veio de surpresa. Everson recuou abruptamente dos controles. Tifflor e Tanner correram para junto do painel de controle de fogo.
Mais uma vez uma lancinante dor de cabeça martirizou Rhodan. Os parapsicólogos diziam que era a utilização repentina de feixes de nervos ociosos, ativados com demasiada rapidez.
Só por dois segundos, as torres de armas da Titan espalharam a destruição. Logo voltaram a silenciar. Apenas as bocas dos canhões de impulsos térmicos ainda apresentavam uma incandescência.
Lá fora, além da abóbada energética, um vulcão circular se abrira. O círculo tinha alguns quilômetros de largura. Em seu centro se encontrava a Titan, que continuava intacta. Não localizaram mais nenhum moof. Sua presença nem poderia ser registrada, pois o pequeno desprendimento de calor de seu corpo era superado bilhões de vezes pela nova fonte de energia térmica.
Vamos sair daqui — gemeu Rhodan. Rodas vermelhas dançavam diante de seus olhos. — Levantar a nave e pousar a vinte quilômetros daqui. Junto às montanhas. Inicie a execução.
Seu corpo desceu sobre o painel. Gucky emitiu impulsos tranqüilizantes, que aliviariam a dor. Os homens agiram com rapidez e precisão. Apenas sentiam uma leve pressão no crânio.
Com um rugido, a gigantesca montanha de aço com seus 1.500 metros de altura elevou-se.
É o Professor Kärner que está falando — soou a voz vinda dos alto-falantes do intercomunicador sem fio. — Os doentes estão inquietos. Parece que no subconsciente sentem a proximidade do inimigo. Pretende prosseguir na ação em Moof VI?
Pretendo. Por quê? — perguntou Rhodan.
Neste caso, serei obrigado a amarrar os doentes e submeter os mutantes a uma narcose profunda através do preparado paralisante do tipo do curare. Sem isso, não me responsabilizo por nada. Apesar do sono profundo, os centros nervosos hipersensíveis dos mutantes reagiram ao ataque. O senhor concorda? Não temos outra alternativa.
O médico é o senhor. Faça o que for necessário.
Pouco depois, a Titan voltou a pousar. Desta vez parou junto às montanhas de pouco menos de 1.500 metros. A nave sobrepujava o cume mais elevado.
Já estão aí de novo — disse o capitão Brian em tom espantado, lançando um olhar para o receptor de comunicação audiovisual. — Estes monstros estavam esperando por nós.

Se forem os moofs, eu engulo dez quilos de creme de barbear — disse Marcus Everson quando um homem soltou um grito estridente na casa de máquinas número três.
O ruído surdo do radiador de impulsos portátil martirizava os microfones e os alto-falantes da intercomunicação de bordo. O homem surgiu na tela que se acendeu automaticamente.
Usava um traje protetor arcônida, mas não tivera tempo para ativar o campo defensivo.
Uma coisa trêmula, cinza tênue, com a consistência da borracha, envolvia o engenheiro com uma força implacável. Parecia que aquela coisa estranha fazia questão de engolir sua vítima.
Não carregava nenhuma arma, mas utilizou alguma coisa que poderia ser considerada como tal. Suas forças eram sobre-humanas, tanto no plano físico como no plano mental.
Os braços que saíam do corpo seguravam o homem indefeso com uma força irresistível. Ao mesmo tempo, aconteceu alguma coisa que provocou uma reação instantânea em Gucky.
O ser peludo, que possuía a capacidade da teleportação, desapareceu numa luminosidade tremeluzente. Quase no mesmo instante, se materializou na casa de máquinas.
Um calor breve — dois tiros de radiação disparados a esmo — provocou uma reação dolorosa no couro sensível.
De mais de vinte lugares diferentes vinham noticias alarmantes. Seres da mesma espécie surgiram de uma hora para outra. Não eram moofs. Nunca antes qualquer olho humano havia visto figuras como estas. Surgiam tão instantâneas como se as paredes de aço de vários metros de grossura, que revestiam a nave, fossem apenas nuvens de neblina, podendo ser transpostas com um passo.
Gucky apenas viu a massa que pulsava. Recolhendo-se apressadamente a um canto protegido, o rato-castor utilizou toda a energia telecinética de que era dotado.
Uma força invisível arrancou o engenheiro inconsciente dos braços que o envolviam. A coisa sem olhos virou-se abruptamente. Os braços cresceram em direção ao rato-castor, que nesse momento decisivo descobriu por que o monstro conseguiu aparecer tão repentinamente.
O silêncio se instalara na casa de máquinas. Surpreso, Gucky percebeu que não era necessário desenvolver um esforço mais intenso para dominar aquela coisa. Através de um impulso, foi levantada do chão antes de ser atirada contra o teto de aço abobadado.
Uma escotilha abriu-se atrás de Gucky. Dois homens entraram correndo, com os campos defensivos ligados. Mais e mais vezes aquela figura sonora foi atirada contra o teto. Quando Gucky a soltou, esta estatelou-se no chão.
O rato-castor não acreditou no que seus olhos viram: o animal voltou ao ataque. Gucky fugiu para trás de uma máquina.
Cuidado! — gritou a voz aguda de Gucky.
Aquele ser estranho, que ainda há pouco estava achatado e disforme como um tabuleiro de bolo, transformou-se numa esfera, da qual se precipitaram dois braços finos e extremamente elásticos.
Nem chegara a ferir-se.
O sargento O’Keefe esperou. Com as pernas afastadas, estava no centro da grande sala. A regulagem setorial do cano de sua arma estava na posição seis.
Só comprimiu o acionador quando a coisa incompreensível se encontrava a menos de dois metros.
Um largo feixe energético saiu do cano. A esfera inchada foi atingida.
O’Keefe ainda se encontrava no mesmo lugar quando a bola de cinco centímetros de diâmetro se deformou, assumindo um feitio assimétrico e emitindo sons melodiosos.
Em meio à descarga energética, a coisa procurou escapar da mesma maneira como havia chegado.
O’Keefe voltou a disparar. Apenas uma porção minúscula da coisa desapareceu. O resto ficou para trás. Não aconteceu mais nada.
A instalação automática de ar condicionado emitiu um som estridente. A temperatura na casa de máquinas número três havia subido além do limite máximo. Protegido pelo campo energético, O’Keefe retirou-se apressadamente em direção à escotilha. A coisa destruída emitia pesados vapores.
O engenheiro, que sofrera o ataque de repente, se viu envolvido por um campo energético tremeluzente, que o protegia contra o calor mortífero. Gucky conseguira no último instante mover a chave do projetor do traje protetor.
Dê o fora! — gritou O’Keefe para o ser peludo.
Naquele instante, Gucky sentiu os impulsos emitidos por Rhodan. Encontrava-se em situação difícil. Com um rápido salto de teleportação, Gucky saiu do ar escaldante do recinto superaquecido.
Ao materializar-se na gigantesca sala de comando da Titan, o campo defensivo de seu pequeno traje entrou em funcionamento.
Dois monstros do mesmo tipo, haviam-se precipitado sobre Everson e Janus van Orgter. O campo energético do biólogo funcionava, mas Everson ainda não estava protegido.
A força física daquele homem robusto falhou miseravelmente sob o abraço do monstro.
Gucky ouviu os berros de Rhodan. Condenados à inatividade, os homens mantinham as armas empunhadas diante das massas turbilhonantes dos corpos incolores, sob os quais surgiam vez por outra partes do corpo das pessoas atacadas.
O campo defensivo de van Orgter emitia constantes relampejos. O monstro voltava sempre a entrar em contato com o campo energético, mas este não conseguia matá-lo.
A situação de Everson era bem pior. Mal se ouvia sua respiração ofegante. No momento em que Gucky apareceu, Rhodan deixou cair sua arma de radiação e pegou o facão preso ao cinto para investir contra a massa protéica.
Para trás! — gritou a voz estridente de Gucky.
Rhodan mal conseguiu jogar-se para o lado quando aquela figura estranha foi atirada para o alto pelas energias telecinéticas. Everson, que estava quase inconsciente, caiu ao chão de uma altura de dois metros. Ficou deitado com o corpo encurvado.
Os tiros de radiação incandescente destruíram a coisa grudada ao teto.
Foi nesse momento que Janus van Orgter se tornou invisível. Seus gritos de desespero foram ouvidos nos alto-falantes de capacete. No lugar em que o monstro o enlaçava, surgiu uma nebulosa iluminada que logo se desfez. O biólogo havia desaparecido da sala de comando.
Naquele instante, as peças de artilharia da Titan começaram a disparar. Tifflor e Tanner compreenderam o que estava em jogo. Os gritos ligeiros de Gucky foram ouvidos.
Esses monstros que pareciam feitos de borracha deviam ser teleportadores, seres que sabiam transportar seu corpo por uma certa distância por meio das energias mentais de que dispunham. Só assim se explicava seu repentino aparecimento.
Brian começou a berrar na sala de observação. Rhodan compreendeu. Com uma pancada violenta da mão, desligou os controles de fogo. O rugido surdo das torres de armamentos da Titan cessou.
Comandante! — gritou Tifflor desesperado, quando as luzes de controle se apagaram de repente. — O que é isso, comandante?
Suspender o fogo. Van Orgter está lá fora — berrou Rhodan pelo intercomunicador de bordo. — Aquele monstro o carregou. Chaney, faça sair um comando de robôs. Van Orgter encontra-se a menos de quinhentos metros da nave. Mande recolhê-lo. Faça sair as máquinas de guerra. Devem abrir fogo contra qualquer coisa que não se pareça com um ser humano. Esses monstros são teleportadores muito fracos. Têm de chegar bem perto da nave antes de arriscar o salto. Procure impedir que atravessem o campo energético.
Ele nem os afeta — informou alguém da sala de controle energético. — Saltam através do campo e materializam do outro lado. Ali preparam outro salto.
Pois procurem pegá-los no interior da área protegida. Fogo individual. Cada um procurará seu alvo. Tifflor, ligue para a pontaria manual. Deixem as armas pesadas de lado, senão nós mesmos seremos destruídos.
Os robôs de combate começaram a pisar fortemente. Janus van Orgter, que de um instante para outro se viu transportado para o inferno, viu a comporta que se abria.
Os titans prateados com seus grandes braços armados e os organismos mecânicos insensíveis desceram levemente ao solo.

* * *

Estão longe, longe demais”, pensou van Orgter.
Em torno dele, uivava o furacão. Quando, depois de cessada a dor da rematerialização, voltou a mover-se, a massa borrachenta do monstro que se espalhava em cima dele também despertou.
Janus golpeou com os joelhos. A coisa nem se mexeu. Bateu com os punhos para cima e viu-se banhado em suor quando o dispositivo automático de seu traje protetor dirigiu toda a energia disponível ao campo defensivo.
Com um gemido surdo o biólogo desistiu. A força de gravitação de 2,8 G atingiu-o como o peso de uma fera que saltasse sobre ele.
O relampejar tornava-se cada vez mais violento. Seu microrreator desenvolvia a potência máxima, esforçando-se para remover o obstáculo ávido de contatos. Acontece que o monstro não reagia às energias mortais do campo protetor.
Pulsando fracamente e, segundo parecia, bastante esgotado, cobria o corpo do homem com uma camada fina e muito resistente. Janus van Orgter começou a desconfiar que os robôs de combate chegariam tarde.
A atmosfera densa do planeta Moof VI parecia ser um bom condutor do som.
Ouviu o uivar da tormenta, e também percebeu o canto melódico do corpo convulsionado do monstro. Teve a impressão de que fazia esforços desesperados para reunir as últimas reservas de energia.
Janus teve a impressão de que estava morrendo sufocado. A gravitação mortal prendia-o ao solo com uma força tão tremenda que os pulmões ávidos de oxigênio se recusavam a trabalhar.
Estou no fim — disse num estertor pelo microfone.
As palavras de Rhodan atingiam seu ouvido, não sua mente. A coisa que o cobria continuava imóvel.
Janus estava pensando que deveria ter atirado quando uma coisa estranha aconteceu com o tecido extraordinário que o cobria.
De repente, a massa pegajosa contraiu-se. Parecia que uma força estranha o estava atingindo.
Com um grito a coisa ergueu-se, transformou-se numa esfera e explodiu em meio a uma luminosidade ofuscante. A pressão abandonou os pulmões de Orgter. De repente, conseguiu respirar normalmente. O zumbido feio do reator transformou-se no ruído de funcionamento costumeiro.
Outros monstros que acabavam de surgir também explodiam. Parecia que algum desconhecido viera em seu auxílio. Van Orgter levantou-se, cambaleante. Porém foi derrubado pela primeira rajada do furacão, que o arrastou pelo solo. O enorme campo defensivo da Titan aproximou-se perigosamente.
Orgter gritou. Libertado do monstro que o prendia, transformara-se numa folha seca em meio à tempestade.
Ouviu que a Titan voltara a abrir fogo. Os raios energéticos rugiram acima de sua cabeça. Mais ao longe, surgiram crateras incandescentes. Por um instante, van Orgter conseguiu segurar-se em uma duna móvel de cristais de amoníaco. Quando entraram em contato com o campo protetor de seu traje, que emitia uma luminosidade ofuscante, desenvolveram uma reação química. Vapores venenosos surgiram diante dos olhos de Orgter. Depois de alguns segundos, foi atirado através da duna e arrastado mais um pedaço em direção à abóbada energética da Titan.
Mais atrás, sombras percorriam a superfície. Mas os robôs eram detidos constantemente, já que os monstros surgiam a todo instante no interior da abóbada energética. Os robôs executaram sua programação, segundo a qual deviam antes de mais nada abrir fogo contra qualquer alvo que não tivesse aspecto humano.
Janus van Orgter viu o fim aproximar-se. Diante dele, a parede de fogo erguia-se para o céu.

* * *

O major Chaney arriscou tudo. Assim que a tartaruga, um gigantesco tanque planador do arsenal do planeta Árcon, acabara de sair da escotilha inferior, aumentou a velocidade sem olhar o que se encontrava à sua frente.
As esteiras largas do veículo estavam paradas. Planava sobre o campo de repulsão energética, que o mantinha constantemente a 50 ou 60 centímetros do nível do solo. Dessa forma, conseguiu desenvolver uma velocidade enorme.
Chaney também não se preocupou com os ataques dos monstros que surgiam de todos os lados, e que eram alvejados ininterruptamente pela massa dos robôs colocados fora da nave. Eram muito poucos os que conseguiam realizar o segundo salto de teleportação depois de terem atravessado o campo energético. Seu alcance não chegava a um quilômetro. Para os membros do exército de mutantes, isso representava um dom muito limitado.
Os homens sadios que se encontravam a bordo sabiam defender-se. Agora, que estavam preparados para o aparecimento repentino dos seres borrachentos, não houve mais nenhum rapto. Sempre havia alguém por perto que percebia em tempo o tremeluzir da desmaterialização.

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