Dali a
cinco minutos, o gigantesco espaçoporto de Olp’Duor foi sacudido
por ondas de compressão que se deslocavam com a velocidade de um
furacão. Apesar da distância, as grandes naves mercantes começaram
a tremer na ancoragem.
A Titan
decolou prudentemente com a potência mínima. Com uma lentidão
enervante, o colosso foi subindo ao céu. Todavia, a energia que os
propulsores tiveram que desprender foi suficiente para criar um
verdadeiro fim de mundo no espaçoporto.
Só numa
altitude de cem quilômetros que as máquinas do supercouraçado
começaram a rugir e este ganhou velocidade.
A Ganymed
seguiu com diferença de um minuto, tempo standard. Também era um
monstro, mas perto da Titan parecia um duende. Apesar disso, as armas
da Ganymed bastariam para impor boas maneiras a qualquer inimigo.
Os
geradores antigravitacionais destinados à neutralização da
gravitação planetária deixaram de funcionar. Em virtude disso,
surgiu um campo gravitacional de 0,9 g, o que praticamente equivalia
às condições reinantes na Terra.
As naves
robotizadas de escolta voltaram a aparecer, mas desta vez se
mantiveram a uma distância respeitosa.
Segundo os
dados da transição transmitidos pelo cérebro, o salto seria
iniciado ainda no interior do grande sistema de Árcon. Isso era um
sinal da importância que o robô atribuía à missão. Em condições
normais, qualquer comandante pensaria duas vezes antes de provocar um
abalo estrutural em meio às confusas linhas gravitacionais e
energéticas que se cruzam no interior de um sistema solar.
Daí a dez
minutos, os gigantes espaciais atingiram a velocidade da luz. A
programação do controle automático do salto na quinta dimensão
estava concluída.
No momento
em que os veículos espaciais emergissem do hiperespaço que não
conhecia o tempo, e no qual vigoravam leis completamente diversas,
deveriam encontrar-se perto de um sol amarelo de tamanho médio, que
estava registrado nos catálogos com o nome de Moof.
Rhodan
fechou os olhos diante das incríveis luzes errantes representadas
pelos inúmeros sóis concentrados num espaço extremamente reduzido.
O grupo estelar M-13 tinha cerca de 230 anos-luz de diâmetro e
reunia cerca de 150 mil estrelas. Provavelmente o número de estrelas
era ainda superior.
Aquelas
estrelas brilhavam e cintilavam numa grandiosidade inconcebível. A
faixa da Via Láctea havia desaparecido. Por mais que a vista se
esforçasse, não encontraria nada que pudesse lembrar as estrelas
com que se familiarizara na Terra.
Cascatas
de luz corriam pelas telas. Não havia nenhum lugar em que a
navegação galáctica fosse mais difícil que em meio a esses grupos
concentrados. Uma visão clara do conjunto era praticamente
impossível. As estrelas geminadas ou sobrepostas e outros tipos de
constelações não poderiam ser percebidas. Num lugar destes uma
transição representava praticamente um salto às cegas para as
maravilhas energéticas do Universo.
Antes de
expedir o impulso para o salto, formando o campo de força destinado
à eliminação de qualquer influência energética proveniente da
quarta dimensão, Rhodan fez mais um esforço para localizar a
estrela a que se destinavam.
Seus olhos
falharam lamentavelmente. Aquilo que na Galáxia aberta seria apenas
uma coisa natural, aqui se transformava numa fantasia que confundia
os sentidos. Contra este fundo, o sol Moof era totalmente
imperceptível. A única coisa que poderia resolver o problema era a
complicada hipermatemática da raça que habitava um mundo situado no
centro do grupo estelar M-13.
Os
couraçados desapareceram numa trêmula luminosidade. Com sua
penetração forçada e mecânica no hiperespaço, as leis físicas
do Universo normal deixaram de operar. Por outro lado, porém, o
fenômeno causava as perturbações típicas na curvatura das
dimensões conhecidas.
O cérebro
robotizado localizado em Árcon III registrou o início do salto. Os
rastreadores estruturais começaram a zumbir nas naves de escolta.
Poucos segundos depois captaram os abalos causados pela manobra de
imersão. Em poucos segundos, os dois couraçados venceram uma
distância de 36 anos-luz.
A tele
direção das três naves robotizadas acionou o dispositivo de
frenagem. Não havia mais nada a escoltar.
Sua
Eminência, Vetron da família Tatstran, Almirante do Grande Império,
comandante da frota de naves espaciais ZL-ARK-86, era um dos raros
jovens que ainda conservavam um vestígio da energia que para os
indivíduos da época da expansão seria considerada normal.
Apesar
disso, Vetron também demonstrava certa inclinação pelo jogo do
simulador e pelos costumes relaxados que eram usuais tanto na corte
do Imperador como em outros lugares. De resto, porém, era um homem
de tempera extraordinária para os padrões arcônidas; tinha rosto
anguloso e era dotado de inteligência penetrante.
Vetron
assumira os modos transparentes da auto-recriminação pública. De
algum tempo para cá, os habitantes do mundo de cristal começaram a
comprazer-se em moer as próprias deficiências através de uma série
de fórmulas lingüísticas sofisticadas que exprimiam uma ironia
espirituosa.
A frota
ZL-ARK-86 encontrava-se em órbitas convergentes junto ao sexto
planeta do sol Moof.
Duzentas
naves pequenas, médias e pesadas, se materializaram diante do
sistema e, executando o plano previamente traçado, avançaram sobre
o alvo.
A estrela
Moof possuía apenas sete planetas. O sexto, habitado por monstros
disformes com aspecto de medusa, dotados de pronunciada capacidade
telepática e de capacidade de sugestão mental muito menos
desenvolvida, era um gigante avermelhado cuja atmosfera de metano e
amoníaco exercia uma tremenda pressão. Seu diâmetro era de 148 mil
quilômetros, e a gravitação superficial correspondia a 2,8 g.
Naquele
mundo fazia muito frio. Oceanos gigantescos formados exclusivamente
por amoníaco cobriam a superfície. As pequenas elevações
dificilmente poderiam ser designadas como montanhas. A enorme
gravitação não poderia ter deixado de produzir seus efeitos.
Terríveis furacões bramiam no envoltório de gases venenosos, onde
se desenvolviam reações químicas que os humanos só conseguiriam
provocar no interior dos laboratórios. Era o planeta da química
natural de alta pressão e da super-refrigeração, também natural.
O ataque
planejado tivera início há uma hora, tempo standard. Para o robô
insensível de Árcon III, esse mundo, que de qualquer maneira não
poderia ser utilizado por criaturas humanas, apenas representava um
dado em seus cálculos.
Os moofs
que viviam ali eram seres que respiravam o metano e o amoníaco e
eram dotados de órgãos compensadores de pressões elevadas. Seu
metabolismo se desenvolvia por um processo completamente estranho. De
qualquer forma, não teriam a menor serventia para o Império. Em
virtude de suas faculdades parapsicológicas, aqueles seres eram
imunes à sujeição nos termos de um colonialismo há muito
ultrapassado. Em compensação, haviam realizado uma intervenção
extremamente perigosa na política do império estelar.
Esses
motivos eram mais que suficientes para levar o robô a ordenar a
destruição desse mundo. Era um raciocínio duro e cruel, injusto e
desumano. Acontece que o Regente robotizado não era um ser humano.
O ataque
já se desenvolvia há mais de uma hora. As unidades menores
avançaram até as camadas superiores da atmosfera. Dali abriram fogo
com seus canhões de impulsos.
Os feixes
energéticos, que emitiam uma claridade solar, rugiram através dos
gases fortemente comprimidos antes de atingirem o solo em leque,
produzindo mares borbulhantes.
O
almirante Vetron não tinha pressa. Era sua primeira missão, e não
pretendia concluí-la antes da hora por meio da utilização de armas
de elevada potência.
Por
enquanto Vetron pretendia realizar uma manobra com armas energéticas
convencionais. Com isso, teria oportunidade de testar a capacidade de
reação dos comandantes das unidades e dos grupos.
Por cima
da densa atmosfera venenosa de Moof VI, pendia a destruição sob a
forma de naves espaciais esféricas, entre as quais havia três
unidades da classe Império, com oitocentos metros de diâmetro. A
tripulação organicamente viva de Vetron era formada por membros do
povo colonial de Naat, que haviam concluído o treinamento hipnótico
para o combate. Era uma raça de criaturas ciclópicas com três
olhos.
Três
minutos atrás ocorrera o tremendo abalo estrutural. Numa distância
perigosamente pequena, as duas naves gigantes emergiram do
hiperespaço, e aproximaram-se vertiginosamente do grupo que
circulava em torno do planeta.
Antes que
Vetron pudesse recuperar-se da surpresa, o rosto estreito e anguloso
de um estranho surgiu nas telas da nave capitania.
Os olhos
cor de gelo encimados por uma testa alta não agradaram a Vetron. O
desconhecido falava um arcônida impecável, sem o menor sotaque.
— O
senhor compreendeu perfeitamente; isto é uma ordem — soou a voz
áspera e fria vinda dos alto-falantes do couraçado.
Uma ruga
vertical surgira entre as sobrancelhas do desconhecido.
— Suspender
o fogo, afastar-se, entrar em forma e dar o fora. Entendido?
— Eu o
destruirei, seu bárbaro — gritou Vetron. — Eu...
O
almirante calou-se. O imenso furacão de fogo que se desprendeu da
face visível do supercouraçado fez com que perdesse a fala.
Fluxos
energéticos que progrediam à velocidade da luz, quentes como um sol
e com a grossura de uma torre de tele direção, caíram ruidosamente
nos campos defensivos de um dos pequenos cruzadores robotizados da
frota de Vetron.
A nave
esférica de cem metros de diâmetro desmanchou-se num inferno branco
de energia atômica liberada. O que ficou para trás foi uma bola de
gases turbilhonantes, diante da qual as outras naves recuaram
apavoradas.
— Isto
foi apenas uma advertência, Vetron — voltou a falar o
desconhecido. — Retire-se imediatamente. Recebi plenos poderes para
suspender o ataque. Desapareça com sua frota.
Dali a dez
segundos, Vetron recebeu a confirmação do cérebro robotizado. Só
agora o autômato entrara em contato com ele.
O arcônida
deu ordem de retirada; deu-se por vencido.
Duzentas
unidades aceleraram e saíram das órbitas tão cuidadosamente
calculadas. Vetron achou que seria indigno da sua posição voltar a
entrar em contato com o desconhecido que surgira tão inopinadamente.
Os
oficiais dos dois couraçados terranos seguiram o grupo com os olhos,
sem dizerem uma palavra. Os numerosos pontinhos transformaram-se num
único eco do rastreador. O almirante Vetron seguiu estritamente as
instruções que acabara de receber. Em poucos minutos, mergulhou no
nada.
Rhodan
pigarreou com a mão diante da boca.
— Respeito
não lhe falta — disse, esticando as palavras. — Tem até
respeito demais por uma simples máquina. Há algo de podre no reino
dos arcônidas.
O capitão
Brian, que se encontrava na sala de rádio, fez um sinal. Ao que
parecia, tudo estava em ordem. O pequeno sistema do sol Moof parecia
deserto, como se nunca uma frota poderosa se tivesse abrigado em meio
às suas órbitas planetárias.
Apenas a
superfície do sexto planeta, que emitia um brilho avermelhado,
continuava a borbulhar. As bombas normais atiradas sobre o planeta,
que traziam simples cargas explosivas de material de fusão e nunca
desenvolveriam uma potência superior a 50 megatons, estouraram sem
produzir o menor resultado. As forças gravitacionais muito intensas
já haviam trazido de volta as massas de matéria atiradas para o
alto. Os cogumelos de reação atômica espontânea tiveram um
desempenho bastante reduzido naquela atmosfera tremendamente
comprimida.
O que
ficou foram apenas crateras vitrificadas, cujo calor era irradiado
com uma rapidez incrível. As armas energéticas das naves empenhadas
no ataque haviam queimado enormes grotas na superfície. Os
rastreadores de elementos registraram as densas nuvens de amoníaco
que subiam dos lagos atingidos pelos raios energéticos.
— É um
verdadeiro inferno! — disse
Everson,
engolindo em seco. Com o coração pesado, contemplou as grandes
telas de visão global do supercouraçado.
Fazia oito
minutos que os propulsores da nave desenvolviam toda a potência de
frenagem.
Após
cinco minutos, o cérebro positrônico fez a nave entrar na órbita
previamente calculada. A Ganymed seguiu-a numa distância de apenas 2
mil quilômetros. As últimas correções de rota foram efetuadas,
antes que as naves passassem a deslocar-se em queda livre.
Os
ruidosos reatores instalados na protuberância externa da Titan
calaram-se. Um silêncio profundo passou a reinar a bordo da maior
das naves que jamais cruzara a Galáxia.
O olhar de
Rhodan caiu sobre os dois seres dotados de capacidades
supersensoriais. Eram os únicos membros do chamado exército de
mutantes que não foram vitimados pela doença.
Apoiado
sobre o grosso traseiro, Gucky mantinha-se imóvel, fitando as telas.
O rosto esperto do rato-castor estava alterado. Em seus grandes olhos
castanhos havia uma expressão de nervosismo contido.
Wuriu
Sengu, um homem de corpo volumoso e maneiras um tanto rudes, apalpava
instintivamente o grande cinto com as armas. Olhou pelas janelas
eletrônicas da nave e teve a impressão de contemplar a imensidão
vazia.
Os
diversos postos transmitiram o aviso de que estavam preparados para
entrar em ação. Os doentes continuavam calmos. A sonoterapia
parecia ser o único tratamento adequado.
Meia hora
depois da manobra de adaptação de órbita, teve início a
conferência sobre a ação a ser empreendida. Participaram os
cientistas e oficiais mais importantes dos dois couraçados.
Rhodan
explicou tranqüilamente o plano que havia concebido. Depois da
retirada da frota arcônida semi-automatizada não precisavam ter
pressa. Ainda mais que tinham certeza absoluta que, dali em diante,
ninguém mais chegaria ao gigantesco planeta ou dele sairia sem ser
visto.
Os
veteranos das pesadas lutas travadas em Honur estavam agora reunidos.
Apenas os elementos mais antigos e capazes, ausentes; eram os que
tinham acumulado maior cabedal de experiência e aqueles dotados de
capacidades parapsicológicas.
— Ninguém
poderá deixar de reconhecer a dificuldade do empreendimento —
disse Rhodan, concluindo a conferência. — Freyt manterá a Ganymed
em órbita. Preciso ficar com as costas livres.
O coronel,
um homem alto, acenou com a cabeça sem dizer uma palavra.
O vulto
gigantesco do Dr. Hayward surgiu nos fundos da sala. Estivera
trabalhando no grande laboratório da nave. Todas as cabeças se
viraram. Fora ele que conseguira isolar o veneno desconhecido. Mas
nem por isso descobrira um antídoto que neutralizasse seus efeitos.
— Nada!
— disse Hayward, respondendo à pergunta que não chegara a ser
formulada. — O conceito de argono-hexilamina já representa uma
impossibilidade. Mas sei perfeitamente que os centros nervosos mais
sensíveis dos doentes não agüentarão mais por muito tempo. O
líquido raquidiano, que produz o sangue, também é atacado pela
argonina. Os espectros sangüíneos são péssimos. Além da
hipereuforia, dentro de quinze ou vinte dias, no máximo, se
manifestará uma forma estranha de leucemia. Acredito que o soro de
Haggard será ineficaz contra a mesma.
Hayward
sentou na borda de uma mesa. Um silêncio profundo encheu o salão.
— Que
informação tranqüilizante! — disse Rhodan numa amarga ironia. —
Deve haver um meio de absorver a toxina.
— O meio
existe — respondeu Tina Sarbowna. — Acontece que não o
conhecemos. Para descobri-lo teríamos que desenvolver um trabalho de
pesquisa de três ou quatro anos.
Rhodan
virou-se num gesto de resignação. Seria inútil prosseguir na
discussão.
Passou a
outro assunto:
— Sem
mentiras, diga aos homens que teremos que agir contra seres dotados
de capacidades parapsicológicas. A raça dos moofs nunca será capaz
de produzir um simples parafuso, quanto mais uma nave espacial. A
inteligência de que são dotados não altera nada nessa situação.
Esses seres vivem no oceano atmosférico de um mundo supercomprimido.
O meio natural de comunicação entre eles é a telepatia. Além
disso, são dotados de forças sugestivas, que o homem só pode
considerar bastante fracas. Mas já vimos que a união mental de
vários moofs basta para eliminar a vontade de um homem de mente
sadia. Por isso deverão ser dadas instruções gerais para que os
homens só saiam das naves em grupos de cinco ou mais. Se forem
notadas influências sugestivas em alguma pessoa, seus companheiros
tomarão imediatamente as providências que se fizerem necessárias.
De qualquer maneira, ordenem aos homens que disparem. Não se
esqueçam de que nos defrontamos com uma raça inumana e, mais do que
isso, diabólica. Lembrem-se dos efeitos desastrosos da ação que os
moofs desenvolveram nas lutas mais recentes. Não esperem um segundo
além do necessário.
— O
senhor se esquece do ponto mais elementar — interveio o Dr. Certch.
— Em sua
opinião, qual é o ponto mais elementar? — perguntou Rhodan.
— Este
ponto elementar situa-se em dois planos distintos. Ao que parece, um
matemático raciocina de forma diferente. Em primeiro lugar teremos
de encontrar esses monstros antes de fazer qualquer coisa contra
eles. Depois que os tivermos descoberto, ainda resta saber se
conhecem alguma coisa sobre os médicos galácticos, que afinal de
contas são os responsáveis pela intoxicação. Sugiro que não
atribua uma importância exagerada às capacidades parapsicológicas
dos moofs. Serão inimigos implacáveis, até mesmo desumanos.
Votarão um ódio instintivo a tudo aquilo que não se enquadra em
seu esquema de vida. É um fenômeno compreensível. Recomendo-lhes
que se interessem desde logo pelos aras. São os únicos que podem
curar nossos doentes.
— O
caminho para os aras passa pelos moofs — exclamou Gucky em tom
nervoso e estridente. Seus braços curtos executaram uma gesticulação
intensa. — O único caminho passa pelos moofs. Eu os conheço.
Posso enfrentar uma centena deles.
— Acontece
que serão milhões — disse o Dr. Certch, insistindo em sua
opinião. — Deixem-nos de lado. A interpretação dos dados
disponíveis permite a conclusão segura de que neste mundo existe
uma base dos aras. São eles que puxam os cordões.
Rhodan fez
um gesto de recusa. Os fatos eram conhecidos e já haviam sido
considerados. Não pensava em subjugar os monstros em forma de medusa
pela forma que o cérebro robotizado desejava. Não tinha o menor
interesse na política colonialista do Império.
No
entanto, tinha a impressão de que o caminho para a base dos médicos
galácticos, que provavelmente existiria naquele planeta, só poderia
passar pelas criaturas inumanas.
Rhodan
declarou encerrada a reunião.
O coronel
entrou em sua nave de ligação e retornou à Ganymed. A bordo da
gigantesca Titan começou o trabalho febril dos preparativos para a
luta.
Os
comandos de robôs foram programados. Os blindados flutuantes saídos
das fábricas do segundo planeta de Árcon foram preparados para
entrar em ação. Substituiriam os velhos Câmbios, pois eram
veículos potentes que ofereciam possibilidades muito mais amplas.
Seus motores não teriam a menor dificuldade em vencer a gravitação
de 2,8G, e seu armamento seria suficiente para dizimar um exército
terrano.
Setecentos
homens altamente especializados, inclusive aqueles que não sairiam
da nave, receberam trajes protetores arcônidas. As equipes de
salvamento, abrigadas em blindados espaciais de alta pressão,
estavam de prontidão com os aparelhos de vôo antigravitacional.
Oito horas
depois da chegada ao sistema de Moof, uma luminosidade ofuscante saiu
dos bocais de correção de rota do supercouraçado. Descendo
rapidamente, seguiu a tração cada vez mais perceptível da
gravitação. Os projetores dos campos defensivos rugiram. A Titan
penetrou nas camadas superiores da atmosfera impregnada de gases
tóxicos que causariam a morte instantânea de qualquer homem.
Ainda
havia a pressão extremamente elevada reinante no fundo desse oceano
feito de gases supercondensados. Era um planeta infernal; era tão
grande, formidável e estranho, porém jamais poderia servir de base
a uma raça de seres que respirassem oxigênio.
Nessas
circunstâncias, quase chegava a ser compreensível que o cérebro
robotizado tivesse ordenado a destruição total de Moof VI; mas
apenas quase.
Ali viviam
seres cujo aspecto terrificante não poderia ocultar o fato de que o
Criador lhes dera um espírito e uma inteligência.
Um
comandante do tipo de Perry Rhodan fatalmente sentiria escrúpulos de
consciência toda vez que pousasse num mundo como este. As
características inumanas e totalmente estranhas do inimigo
dominariam a inteligência, que numa lógica infalível chegaria à
conclusão de que o espírito não deveria entreter qualquer tipo de
sensibilidade humana.
Muito
preocupado, Rhodan percebeu que o problema seria praticamente
insolúvel. Muitas vezes tivera oportunidade de notar que as armas
puramente espirituais são invencíveis. Os mutantes, que
representavam os pólos opostos das qualidades parapsicológicas dos
moofs, estavam quase todos inutilizados. Pela primeira vez na
história da Terceira Potência, o homem se via quase indefeso diante
de seres dotados de capacidades supersensoriais. E esses seres já
haviam provado no planeta Zalit que sabem ser por demais cruéis e
que seu pensamento é completamente diferente do raciocínio humano.
Rhodan
ainda se viu obrigado a eliminar a palavra crueldade desse contexto.
Uma qualidade puramente natural não poderia ser identificada por uma
palavra do vocabulário humano.
Gucky, o
único ser sadio dotado de elevadas capacidades telepáticas,
escutava com os olhos fechados. Os moofs conseguiram desenvolver
certa inteligência, mas os dados relativos a essa raça levavam à
conclusão de que dificilmente se poderia contar com a presença de
construções ou outros produtos da tecnologia desenvolvida.
Esses
indivíduos nunca foram capazes de criar os objetos mais simples,
pois não dispunham dos requisitos orgânicos para isso. A mão
humana, que é o instrumento mais belo e eficiente criado pela
natureza, nunca foi concedida aos moofs.
Diante da
tela de proa da Titan, que se deslocava em alta velocidade,
aglomeravam-se massas de gases incandescentes. Da simples compressão
da atmosfera até a condensação molecular, o caminho era curto.
Os
neutralizadores gravitacionais automáticos eliminaram a força da
gravidade que atingia a Titan. Os propulsores, que desenvolviam a
potência zero, apenas sustentavam e moviam o corpo da nave. Um único
dos dezoito propulsores, trabalhando com a potência mínima, bastava
para vencer a resistência da atmosfera.
— Localização
pelo eco negativa — anunciou o capitão Brian na sala de rádio. —
Nenhuma localização goniométrica. Nenhum tráfego de rádio.
Absolutamente nada. Rastreador de pistas também negativo. Existem
apenas substâncias naturais; nada de produtos ou ligas artificiais.
O rosto de
Rhodan permaneceu impassível. Sem dizer uma palavra, contemplou as
enormes telas panorâmicas.
Naquele
momento, o supercouraçado atravessava uma tempestade cuja
turbulência era pavorosa. Tudo indicava que nas camadas atmosféricas
superiores de Moof VI havia forças diabólicas que lutaram contra os
princípios de vida que aos poucos se desenvolveram no fundo do
oceano de gases.
— Setor
P três percorrido, passar ao setor P quatro — rangeu a voz
metálica do autômato.
A Titan
passou a descrever outro círculo em torno do planeta, desta vez mais
próxima da zona equatorial. Os mapas em relevo da superfície
visível foram registrados através do processo de rastreamento
eletrônico e infravermelho, que fora adequadamente programado e, sob
a forma de milhões de impulsos, transmitia os dados a um ejetor de
massa plástica. Grandes fitas de plástico saíam do cartógrafo
automático de grande precisão. A configuração tridimensional dos
resultados admitia uma tolerância de mais ou menos 1 milésimo por
cento.
Depois de
doze voltas em torno do planeta, o mapa do hemisfério norte estava
concluído. Após dez minutos, surgiram os primeiros impulsos. E isso
aconteceu de forma tão repentina e surpreendente, que o rato-castor
se encolheu.
— Então...
— soou a voz estridente de Gucky.
Seus
grandes olhos tremeluziam.
Rhodan foi
até o ser peludo, que parecia perturbado. As pequenas patas rosadas
agarraram seu braço.
— O que
houve? — perguntou Wuriu Sengu, o espia, em tom nervoso. Muito
tenso, inclinou-se sobre o rato-castor que tremia por todo corpo.
— Fale,
pequenino — cochichou Rhodan em tom insistente. — O que houve?
Mais
adiante, a figura de Everson transformou-se num objeto rodopiante.
Seus dedos correram pelas chaves do piloto automático. Houve um
rugido surdo nos dois propulsores anteriores da protuberância,
seguido do ribombar vindo dos pavilhões do neutralizador de pressão.
Numa
fração de segundo, a Titan neutralizou a velocidade elevada com que
se deslocava. O eco do rumorejar vindo das salas de máquina chegou à
de comando. Feixes filigramáticos de raios corpusculares
extremamente condensados sustinham a nave. Os estabilizadores
giroscópicos zumbiam.
Os homens
do posto central de controle de fogo viraram-se ligeiros, antes que
seus olhos caíssem sobre a pequena tela da mira automática.
Não se
via nada. Não apareceu qualquer objeto que pudesse perturbá-los,
quanto mais ameaçá-los.
O major
Chaney, comandante do grupo de desembarque, praguejou. Num momento
como este, até Rhodan caía numa certa perplexidade.
Pela
primeira vez, seu treinamento telepático teve aplicação prática.
Levantou toda e qualquer barreira mental. Os setores ociosos do
cérebro transformaram-se em rastreadores ultra-sensíveis, que se
submeteriam a qualquer impulso que quisesse atingi-los.
Gucky
devia ter sentido os impulsos com uma intensidade muito maior. A
Titan mantinha-se imóvel em meio à atmosfera turbulenta. Os
impulsos foram ficando cada vez mais fortes, até que Rhodan
conseguiu extrair um sentido definido dos mesmos.
Alguém
estava chamando. Possuído de grande angústia e de enorme
preocupação, chamava com tamanha insistência, força e
concentração que o rato-castor começou a choramingar.
— Não
pousem. Fiquem onde estão. Não pousem. Perigo. Não pousem. Eles os
esperam. Voltem para o lugar de onde vieram. Não pousem. Perigo.
Rhodan
murmurou baixinho. O Dr. Certch agachou-se diante do comandante, que
mantinha o corpo encurvado. Era uma situação irreal e enervante.
As
mensagens transmitidas por desconhecidos eram sempre as mesmas. De
repente os impulsos se tornaram tão intensos que Rhodan se apressou
em bloqueá-los por meio da vontade. Martirizado pela dor de cabeça,
ergueu o corpo.
Foi só
então que ouviu os gritos agudos. Gucky contorcia-se de dor.
— Depressa,
Hayward! — berrou alguém a plenos pulmões.
O médico
já estava ali. Sob o chiado da seringa pressurizada os tecidos do
corpo de Gucky absorveram o narcótico. Em menos de um minuto, o ser
peludo tranqüilizou-se e ficou deitado no assento do piloto.
O rosto de
Rhodan estava desfigurado pela dor. Seus olhos mortiços fitaram as
mãos de Hayward.
— Deixe
— soou a voz áspera de Rhodan. — Não quero narcótico; agüento
sem ele. Chame Kärner; depressa. Os telepatas do exército de
mutantes devem ser submetidos a uma vigilância mais rigorosa, caso
despertarem.
Interrompeu-se
para enterrar o rosto nas mãos. O silêncio passou a reinar na
gigantesca sala de comando do supercouraçado. Só os homens dos
postos de combate trocavam informações aos cochichos. Mas não
havia nada que pudesse ser atacado.
— É
isso! — disse o Dr. Certch. — Um ataque mental. Como se tudo isso
não bastasse, ainda fazem de conta que lá embaixo só temos bons
amigos. Será que isso é uma advertência?
— Parecia
verdadeira. O senhor não poderia ouvir.
— É tão
legítima como meu velho relógio niquelado — disse Certch. —
Suponhamos que a advertência é sincera. Quem poderia tê-la
emitido?
— Certch,
um amigo de verdade não transmitiria sua mensagem parapsicológica
com uma força mental tão brutal que fizesse um bom receptor como
Gucky sucumbir sob a mesma. Um telepata imbuído de boa vontade logo
percebe quando o receptor está sobrecarregado. Por que não pararam
quando o rato-castor começou a choramingar?
— Talvez
seu argumento seja convincente, Rhodan. Acredita seriamente que além
dos monstros existem outros seres dotados de capacidades telepáticas?
Em caso afirmativo, que motivo teriam para nos prevenir? Se esses
desconhecidos são inimigos encarniçados dos moofs, a advertência
seria perfeitamente explicável. Mas nesse caso ainda teríamos de
explicar como esses seres adquiriram conhecimentos astronáuticos.
Eles disseram que não devemos pousar, não é verdade? Fixemos o
conceito de pousar. Será que um ser que respira uma mistura de
metano e amoníaco e não desenvolveu qualquer tecnologia tem algum
conhecimento sobre o pouso de uma nave espacial? Não seria de
esperar que não tivessem a menor idéia disso? Quem poderia ter
emitido a mensagem telepática? Seria realmente um amigo
desconhecido?
— Qual é
a conclusão? — perguntou Rhodan.
— É
claro que só pode ser um truque. Alguém está com medo. A decisão
só pode ser uma. Pouse e aperte seus botões antes que a outra parte
tenha tempo para agir.
Alguns
segundos depois, as teclas de programação do pequeno cérebro
eletrônico começaram a bater. Ao que parecia, o psicólogo de robôs
também tinha algum conhecimento de psicologia natural. Era bem
possível que os atos de um ser inumano fossem quase idênticos aos
do homem.
— O Dr.
Certch está com a razão. Só pode ser um truque miserável. —
Rhodan compartilhava a opinião do doutor.
Depois
ordenou:
— Everson,
prepare todas as peças para disparar. O comando de Chaney deve
preparar-se para deixar a nave. Brian, informe a Ganymed. O
levantamento cartográfico do hemisfério sul deverá ser realizado a
partir do espaço. Freyt poderá enviar sondas teleguiadas para a
atmosfera. Deverão ser ligados apenas para o rastreamento de matéria
classe A. Quero saber se existe alguma coisa que não seja obra da
natureza. Ainda há um detalhe, Dr. Certch.
Desta vez
um sorriso mordaz surgiu no rosto de Rhodan. O Dr. Certch empurrou o
gigantesco par de óculos para cima do nariz. O dedo estendido
permaneceu imóvel no ar.
— O
senhor se esqueceu de que estamos procurando os aras. É possível
que a mensagem venha deles. Será que o senhor tem alguma prova de
que esses seres não possuem dons telepáticos?
Certch
soltou um assobio agudo e desafinado. Seus olhinhos claros começaram
a piscar. Nesse momento, foi iniciada a manobra de pouso da Titan.
O monstro
de aço abriu caminho pela atmosfera cada vez mais densa. Bem mais
embaixo outros monstros estavam à espera. Não eram tão grandes,
mas em compensação eram fortes. E eram muitos.
Sob o
sopro incandescente dos propulsores, uma montanha de sais de amoníaco
evaporou-se. Uma tempestade furiosa sacudia as torres de armamento da
nave.
Discos de
apoio de tamanhos assustadores afundaram no solo macio. A escuridão
desceu sobre o supercouraçado. O sol Moof estava reduzido a um disco
pálido atrás das nuvens.
Os sais e
as poças de amoníaco líquido submetidas à alteração de
temperatura e à pressão reagiram de forma surpreendente. Os
vestígios de azoto e de hidrogênio pareciam ver na Titan uma
espécie de catalisador. Sob a ação do calor tremendo desprendido
pelos propulsores e da pressão atmosférica, também entraram em
reação. Eram processos químicos que dificilmente poderiam ser
reproduzidos num laboratório.
A abóbada
energética que se desprendeu da Titan causou um tremendo furacão
naquela atmosfera venenosa. Até parecia que tinham pousado num
submundo. O espaço livre parecia ficar a uma distância infinita. As
mensagens de rádio transmitidas por Freyt sofreram fortes
interferências.
Chegaram,
mas ainda não sabiam por que haviam pisado no primeiro degrau da
escada que dá para o inferno.
Setecentos
homens contemplaram-se com uma expressão mais ou menos tranqüila.
Os engenheiros das centrais energéticas agradeciam aos céus por não
terem que sair para aquela fábrica de venenos pressurizados.
Os homens
do comando de desembarque examinavam incessantemente os
microgeradores de seus trajes arcônidas, que funcionavam
impecavelmente. Os cientistas refletiram sobre o destino que teria um
homem cujos campos defensivos entrassem em colapso. Na verdade, não
havia necessidade de refletir sobre isso. Sabiam perfeitamente quais
seriam os efeitos da pressão, da gravidade e dos gases venenosos.
Para
conservar a mobilidade, os homens tiveram de abster-se de revestir os
trajes arcônidas com a blindagem pesada e desajeitada destinada à
execução de tarefas especiais. De resto, essas armaduras disformes
apenas poderiam oferecer defesa contra os gases venenosos e a
pressão. Não ofereceriam a menor proteção contra uma gravitação
de 2,8G.
— Bem
que eu preferia uma noite de primavera na província mexicana de
Sonora — disse uma voz monótona.
Após isso
só se ouviu o rugido do furacão. Os instrumentos mediram sua
velocidade. Chegava a 480 km/h.
— Como é
que eles se comportam? — perguntou Crest.
Eles eram
os monstros que apareceram logo após o pouso da nave. Aos milhares,
provavelmente mesmo às dezenas de milhares, rodeavam o
supercouraçado a uma distância respeitosa.
Eram bem
maiores que os seres de que se guardava lembrança. Sua altura era de
cerca de 2,5 metros e sua largura passava de 1,5 metros. Descansavam
no solo como medusas em forma de sino. Na parte de cima, onde se
supunha que seria a extremidade do corpo espumoso e incolor, várias
cabeças redondas com olhos salientes saíam. A incrível
elasticidade do corpo absorvia as rajadas inesperadas do furacão
através de pronunciadas deformações e achatamentos.
A natureza
os fizera de forma tal que sempre voltavam a face longitudinal às
tormentas, pouco importando a posição em que se firmavam ao solo.
Parecia
que estavam apenas agachados. Apesar disso, observaram-se movimentos
extremamente rápidos e ágeis. Da extremidade inferior do corpo,
saíam inúmeros apêndices destinados à locomoção. Ao que tudo
indicava, os moofs não possuíam órgãos preênseis naturais. Ao
menos não haviam notado a presença deles.
Logo após
o pouso Gucky despertou do sono provocado pelo narcótico. Agachado
diante das telas, o rato-castor escutava os impulsos mentais dos
inumanos.
Eram
telepatas naturais; mais uma vez Gucky registrou o fato. A fala
normal e humanóide não seria possível em meio a esse inferno de
ruídos provocados pelos furacões incessantes. A natureza encontrara
uma solução brilhante.
Fazia dez
minutos que todos os tripulantes usavam o traje protetor arcônida,
embora Rhodan ainda não tivesse dado ordem para deixar a nave.
Esperava alguma coisa que lhe parecia evidente.
Quando
alguém entrava na sala de comando, nunca vinha só. Depois do ataque
telepático Rhodan aumentara os membros de cada grupo para um mínimo
de dez. Todos tinham que observar todos, para verificar se procediam
normalmente.
A Titan
estava pousada sobre as pernas de aterrissagem da grossura de uma
torre, em meio a uma grande planície cortada por profundas
depressões. Bem ao longe, uma cadeia de montanhas baixas subia ao
céu nublado. Cristais de amoníaco tangidos pela tempestade batiam
ininterruptamente contra o campo defensivo da nave. Parecia que um
desconhecido estava promovendo um enorme fogo de artifício.
Do lado de
onde vinha o vento, as luzes e os relampejos se sucediam sem cessar.
Os cristais se desmanchavam em incandescência, produzindo vapores
tóxicos.
— Por
que não atacam? Por que será? — perguntou Rhodan, concentrado.
Lançou um
olhar para os oficiais da nave-gigante.
Everson
estava sentado diante dos controles de amplificação do localizador
infravermelho. Os corpos dos moofs desenvolviam um excelente eco
térmico. Embora em meio a esse frio, se parecessem com geladeiras
vivas. A localização infravermelha era melhor que a observação
puramente ótica, que era turvada constantemente pelas nuvens de
matéria pulverizada.
— Deve
ser por uma questão de tática — disse Everson em tom nervoso. —
Devem levar algum tempo para reunir um número suficiente desses
seres. Afinal, não têm aviões.
— Se
tivessem, os mesmos não passariam nada bem com esses furacões —
disse Tanner. Estava sentado ao lado de Julian Tifflor, diante do
painel de controle de fogo do supercouraçado.
— Quando
receberemos ordem para disparar? — perguntou.
Rhodan
virou-se abruptamente.
— Aqui
só se atira quando nos encontramos numa situação inequívoca de
legítima defesa — exclamou. — Que diabo! Quantas vezes ainda
terei de repetir? A instrução astronáutica que lhes foi ministrada
não prevê a matança de inteligências estranhas sem qualquer
motivo. Imaginem a hipótese de que chegamos como hóspedes não
convidados. Por enquanto o direito está do lado dos outros.
— Só o
direito moral — interveio Crest. — Como é que o senhor pretende
conquistar um império, meu caro? Acredita que foi assim que meus
antepassados fundaram o império estelar?
— Isso é
problema deles — objetou Rhodan. — Acontece que sou um homem do
planeta Terra. Quero deixar bem claro uma coisa. Quem atirar sem
motivo, enfrentará dentro de dez minutos um tribunal de bordo
dirigido por mim.
O biólogo
Janus van Orgter formulou uma objeção:
— E uma
forma de vida, mas não é uma vida humana.
— De
qualquer maneira é uma forma de vida inteligente! — ponderou
Rhodan em tom áspero. — Só no momento em que, apesar de sua
inteligência, essa vida se deixar levar a um ataque sério contra
nós, terei uma justificativa perante meus semelhantes e perante
minha consciência para retribuir o golpe em legítima defesa. Uma
verdadeira inteligência não deve ignorar que um comportamento
extraordinário pode trazer conseqüências extraordinárias.
Portanto, terão que aguardar. Major Chaney!
O
comandante das tropas de desembarque respondeu pelo telecomunicador.
Ao lado dele, os homens do comando, armados até os dentes,
comprimiam-se na comporta inferior da Titan.
— Chaney,
se daqui a exatamente quinze minutos não tiver acontecido nada, o
senhor avançará numa ação relâmpago. Leve os tanques planadores
e utilize os raios de tração. Capture ao menos dez desses enormes
moofs. Não haverá mais nada a fazer. Só eles nos poderão contar
onde fica a base dos aras. Quinze minutos. O tempo está correndo.
Chaney
confirmou laconicamente. Os microgeradores começaram a zumbir nas
mochilas dos trajes arcônidas. Um ligeiro controle confirmou o
perfeito funcionamento desses reatores de campo.
Da enorme
gravitação, que era quase exatamente de 2,8 G, teriam de ser
neutralizados 1.3 G, para que se mantivesse inalterada a gravitação
terrana de 1 G.
Dali
resultaria uma redução considerável das reservas energéticas, que
teriam de ser retiradas do campo de força destinado à neutralização
da pressão atmosférica extremamente elevada. Todavia, o desempenho
dos reatores bastaria para manter tanto o neutralizador
antigravitacional como os projetores de campo defensivo abaixo do
limite máximo.
Mas, se
houvesse fogo concentrado contra os campos defensivos, o dispositivo
automático de segurança desviaria toda a energia disponível para
os mesmos. Nesse caso seria bem possível que a pessoa ficasse
repentinamente exposta à força plena da gravitação natural.
A idéia
de ficar atirado ao solo, imóvel, com o peso do corpo quase
triplicado, causava um sofrimento quase físico.
Chaney
olhou para o relógio. Cinco minutos já se haviam passado. Os moofs
ainda não se lançaram ao ataque, embora o infalível rastreador
automático registrasse milhares deles. Mantinham-se bem ao longe, a
mais de dois quilômetros dos limites do campo energético.
Subitamente
Gucky soltou um grito de advertência.
Mas esses
monstros nem pensavam em aproximar-se da nave para atacá-la.
— Os
impulsos mentais se tornam mais tranqüilos, fluem ininterruptamente
e se ligam uns aos outros — gritou Gucky. — Cuidado, neste
instante está sendo estabelecido um contato físico. Quando
começarem a pensar, serão dezenas de milhares pensando na mesma
direção. Transformam-se num só todo. Cuidado!
— Tifflor,
Tanner, mantenham-se preparados — gritou Rhodan para os oficiais de
controle de fogo. — Mr. Garand, reforce os campos defensivos. Eu...
Rhodan
interrompeu-se. Sentiu uma força estranha, perceptível apenas em
sua consciência. Começou de modo suave na nuca, até que uma dor
repentina passou pela caixa craniana e tateou em direção ao
cérebro.
Rhodan
lutou usando toda a força volitiva adquirida no seu treinamento
parapsicológico. Outros homens fizeram a mesma coisa, pois não
havia ninguém a bordo da nave que não tivesse recebido esse tipo de
treinamento.
Mas foi um
verdadeiro dilúvio que irrompeu sobre toda a vida e todo o
pensamento. A inundação completou-se numa questão de segundos. A
cada segundo que passava multiplicava-se, até que o caráter
sugestivo dessa força se tornou inconfundível.
Moía e
sacudia ininterruptamente as bases da inteligência. A mão de Marcus
Everson tateava em direção aos controles principais. Tifflor e
Tanner ergueram-se repentinamente das poltronas giratórias em que
estavam sentados diante do painel de controle de fogo.
Rhodan
apenas sentiu uma dor martirizante no cérebro. Os moofs pretendiam
paralisar toda a tripulação num só golpe.
— Gucky!
— fungou desesperado.
Cambaleou
para a frente, concentrando toda a força da vontade sobre o painel
de controle de fogo. Esforçou-se para desviar a força estranha,
neutralizá-la, considerá-la um fator sem importância.
O
rato-castor, que desta vez estava preparado para a emergência,
parecia não sentir quase nada. Rhodan viu um corpo passar
rapidamente. Viu o animal peludo surgir repentinamente diante do
painel de controle de fogo.
A pontaria
automática já estava ajustada para os alvos mais variados. Ainda
não haviam atirado, mas agora teriam de fazê-lo, senão estariam
todos perdidos.
A mão de
Everson estendeu-se para a chave-mestre do controle energético. Se a
alcançasse, poderia neutralizar todos os geradores auxiliares.
— Fogo,
Gucky. Fogo! — gritou Rhodan. Cada passo transformava-se num
martírio. Alguma coisa procurava impedi-lo. — Fogo!
As patas
macias de Gucky transformaram-se no órgão de execução. Os dedos
pequeninos brincaram com energias que ultrapassavam tudo que o
espírito humano poderia conceber. Os botões verdes, azuis e
vermelhos foram empurrados para baixo, e as fúrias do inferno
ficaram às soltas.
As peças
leves de impulsos da Titan abriram fogo. As unidades pesadas e
superpesadas juntaram-se a elas. Fluxos energéticos muito grossos,
vindos desde os canhões gigantescos da região polar da esfera,
abriram caminho com um rugido.
Dois
segundos depois que as peças de artilharia abriram fogo a bruxaria
parapsicológica cessou.
A
descontração dos cérebros veio de surpresa. Everson recuou
abruptamente dos controles. Tifflor e Tanner correram para junto do
painel de controle de fogo.
Mais uma
vez uma lancinante dor de cabeça martirizou Rhodan. Os
parapsicólogos diziam que era a utilização repentina de feixes de
nervos ociosos, ativados com demasiada rapidez.
Só por
dois segundos, as torres de armas da Titan espalharam a destruição.
Logo voltaram a silenciar. Apenas as bocas dos canhões de impulsos
térmicos ainda apresentavam uma incandescência.
Lá fora,
além da abóbada energética, um vulcão circular se abrira. O
círculo tinha alguns quilômetros de largura. Em seu centro se
encontrava a Titan, que continuava intacta. Não localizaram mais
nenhum moof. Sua presença nem poderia ser registrada, pois o pequeno
desprendimento de calor de seu corpo era superado bilhões de vezes
pela nova fonte de energia térmica.
— Vamos
sair daqui — gemeu Rhodan. Rodas vermelhas dançavam diante de seus
olhos. — Levantar a nave e pousar a vinte quilômetros daqui. Junto
às montanhas. Inicie a execução.
Seu corpo
desceu sobre o painel. Gucky emitiu impulsos tranqüilizantes, que
aliviariam a dor. Os homens agiram com rapidez e precisão. Apenas
sentiam uma leve pressão no crânio.
Com um
rugido, a gigantesca montanha de aço com seus 1.500 metros de altura
elevou-se.
— É o
Professor Kärner que está falando — soou a voz vinda dos
alto-falantes do intercomunicador sem fio. — Os doentes estão
inquietos. Parece que no subconsciente sentem a proximidade do
inimigo. Pretende prosseguir na ação em Moof VI?
— Pretendo.
Por quê? — perguntou Rhodan.
— Neste
caso, serei obrigado a amarrar os doentes e submeter os mutantes a
uma narcose profunda através do preparado paralisante do tipo do
curare. Sem isso, não me responsabilizo por nada. Apesar do sono
profundo, os centros nervosos hipersensíveis dos mutantes reagiram
ao ataque. O senhor concorda? Não temos outra alternativa.
— O
médico é o senhor. Faça o que for necessário.
Pouco
depois, a Titan voltou a pousar. Desta vez parou junto às montanhas
de pouco menos de 1.500 metros. A nave sobrepujava o cume mais
elevado.
— Já
estão aí de novo — disse o capitão Brian em tom espantado,
lançando um olhar para o receptor de comunicação audiovisual. —
Estes monstros estavam esperando por nós.
— Se
forem os moofs, eu engulo dez quilos de creme de barbear — disse
Marcus Everson quando um homem soltou um grito estridente na casa de
máquinas número três.
O ruído
surdo do radiador de impulsos portátil martirizava os microfones e
os alto-falantes da intercomunicação de bordo. O homem surgiu na
tela que se acendeu automaticamente.
Usava um
traje protetor arcônida, mas não tivera tempo para ativar o campo
defensivo.
Uma coisa
trêmula, cinza tênue, com a consistência da borracha, envolvia o
engenheiro com uma força implacável. Parecia que aquela coisa
estranha fazia questão de engolir sua vítima.
Não
carregava nenhuma arma, mas utilizou alguma coisa que poderia ser
considerada como tal. Suas forças eram sobre-humanas, tanto no plano
físico como no plano mental.
Os braços
que saíam do corpo seguravam o homem indefeso com uma força
irresistível. Ao mesmo tempo, aconteceu alguma coisa que provocou
uma reação instantânea em Gucky.
O ser
peludo, que possuía a capacidade da teleportação, desapareceu numa
luminosidade tremeluzente. Quase no mesmo instante, se materializou
na casa de máquinas.
Um calor
breve — dois tiros de radiação disparados a esmo — provocou uma
reação dolorosa no couro sensível.
De mais de
vinte lugares diferentes vinham noticias alarmantes. Seres da mesma
espécie surgiram de uma hora para outra. Não eram moofs. Nunca
antes qualquer olho humano havia visto figuras como estas. Surgiam
tão instantâneas como se as paredes de aço de vários metros de
grossura, que revestiam a nave, fossem apenas nuvens de neblina,
podendo ser transpostas com um passo.
Gucky
apenas viu a massa que pulsava. Recolhendo-se apressadamente a um
canto protegido, o rato-castor utilizou toda a energia telecinética
de que era dotado.
Uma força
invisível arrancou o engenheiro inconsciente dos braços que o
envolviam. A coisa sem olhos virou-se abruptamente. Os braços
cresceram em direção ao rato-castor, que nesse momento decisivo
descobriu por que o monstro conseguiu aparecer tão repentinamente.
O silêncio
se instalara na casa de máquinas. Surpreso, Gucky percebeu que não
era necessário desenvolver um esforço mais intenso para dominar
aquela coisa. Através de um impulso, foi levantada do chão antes de
ser atirada contra o teto de aço abobadado.
Uma
escotilha abriu-se atrás de Gucky. Dois homens entraram correndo,
com os campos defensivos ligados. Mais e mais vezes aquela figura
sonora foi atirada contra o teto. Quando Gucky a soltou, esta
estatelou-se no chão.
O
rato-castor não acreditou no que seus olhos viram: o animal voltou
ao ataque. Gucky fugiu para trás de uma máquina.
— Cuidado!
— gritou a voz aguda de Gucky.
Aquele ser
estranho, que ainda há pouco estava achatado e disforme como um
tabuleiro de bolo, transformou-se numa esfera, da qual se
precipitaram dois braços finos e extremamente elásticos.
Nem
chegara a ferir-se.
O sargento
O’Keefe esperou. Com as pernas afastadas, estava no centro da
grande sala. A regulagem setorial do cano de sua arma estava na
posição seis.
Só
comprimiu o acionador quando a coisa incompreensível se encontrava a
menos de dois metros.
Um largo
feixe energético saiu do cano. A esfera inchada foi atingida.
O’Keefe
ainda se encontrava no mesmo lugar quando a bola de cinco centímetros
de diâmetro se deformou, assumindo um feitio assimétrico e emitindo
sons melodiosos.
Em meio à
descarga energética, a coisa procurou escapar da mesma maneira como
havia chegado.
O’Keefe
voltou a disparar. Apenas uma porção minúscula da coisa
desapareceu. O resto ficou para trás. Não aconteceu mais nada.
A
instalação automática de ar condicionado emitiu um som estridente.
A temperatura na casa de máquinas número três havia subido além
do limite máximo. Protegido pelo campo energético, O’Keefe
retirou-se apressadamente em direção à escotilha. A coisa
destruída emitia pesados vapores.
O
engenheiro, que sofrera o ataque de repente, se viu envolvido por um
campo energético tremeluzente, que o protegia contra o calor
mortífero. Gucky conseguira no último instante mover a chave do
projetor do traje protetor.
— Dê o
fora! — gritou O’Keefe para o ser peludo.
Naquele
instante, Gucky sentiu os impulsos emitidos por Rhodan. Encontrava-se
em situação difícil. Com um rápido salto de teleportação, Gucky
saiu do ar escaldante do recinto superaquecido.
Ao
materializar-se na gigantesca sala de comando da Titan, o campo
defensivo de seu pequeno traje entrou em funcionamento.
Dois
monstros do mesmo tipo, haviam-se precipitado sobre Everson e Janus
van Orgter. O campo energético do biólogo funcionava, mas Everson
ainda não estava protegido.
A força
física daquele homem robusto falhou miseravelmente sob o abraço do
monstro.
Gucky
ouviu os berros de Rhodan. Condenados à inatividade, os homens
mantinham as armas empunhadas diante das massas turbilhonantes dos
corpos incolores, sob os quais surgiam vez por outra partes do corpo
das pessoas atacadas.
O campo
defensivo de van Orgter emitia constantes relampejos. O monstro
voltava sempre a entrar em contato com o campo energético, mas este
não conseguia matá-lo.
A situação
de Everson era bem pior. Mal se ouvia sua respiração ofegante. No
momento em que Gucky apareceu, Rhodan deixou cair sua arma de
radiação e pegou o facão preso ao cinto para investir contra a
massa protéica.
— Para
trás! — gritou a voz estridente de Gucky.
Rhodan mal
conseguiu jogar-se para o lado quando aquela figura estranha foi
atirada para o alto pelas energias telecinéticas. Everson, que
estava quase inconsciente, caiu ao chão de uma altura de dois
metros. Ficou deitado com o corpo encurvado.
Os tiros
de radiação incandescente destruíram a coisa grudada ao teto.
Foi nesse
momento que Janus van Orgter se tornou invisível. Seus gritos de
desespero foram ouvidos nos alto-falantes de capacete. No lugar em
que o monstro o enlaçava, surgiu uma nebulosa iluminada que logo se
desfez. O biólogo havia desaparecido da sala de comando.
Naquele
instante, as peças de artilharia da Titan começaram a disparar.
Tifflor e Tanner compreenderam o que estava em jogo. Os gritos
ligeiros de Gucky foram ouvidos.
Esses
monstros que pareciam feitos de borracha deviam ser teleportadores,
seres que sabiam transportar seu corpo por uma certa distância por
meio das energias mentais de que dispunham. Só assim se explicava
seu repentino aparecimento.
Brian
começou a berrar na sala de observação. Rhodan compreendeu. Com
uma pancada violenta da mão, desligou os controles de fogo. O rugido
surdo das torres de armamentos da Titan cessou.
— Comandante!
— gritou Tifflor desesperado, quando as luzes de controle se
apagaram de repente. — O que é isso, comandante?
— Suspender
o fogo. Van Orgter está lá fora — berrou Rhodan pelo
intercomunicador de bordo. — Aquele monstro o carregou. Chaney,
faça sair um comando de robôs. Van Orgter encontra-se a menos de
quinhentos metros da nave. Mande recolhê-lo. Faça sair as máquinas
de guerra. Devem abrir fogo contra qualquer coisa que não se pareça
com um ser humano. Esses monstros são teleportadores muito fracos.
Têm de chegar bem perto da nave antes de arriscar o salto. Procure
impedir que atravessem o campo energético.
— Ele
nem os afeta — informou alguém da sala de controle energético. —
Saltam através do campo e materializam do outro lado. Ali preparam
outro salto.
— Pois
procurem pegá-los no interior da área protegida. Fogo individual.
Cada um procurará seu alvo. Tifflor, ligue para a pontaria manual.
Deixem as armas pesadas de lado, senão nós mesmos seremos
destruídos.
Os robôs
de combate começaram a pisar fortemente. Janus van Orgter, que de um
instante para outro se viu transportado para o inferno, viu a
comporta que se abria.
Os titans
prateados com seus grandes braços armados e os organismos mecânicos
insensíveis desceram levemente ao solo.
* * *
“Estão
longe, longe demais”,
pensou van Orgter.
Em torno
dele, uivava o furacão. Quando, depois de cessada a dor da
rematerialização, voltou a mover-se, a massa borrachenta do monstro
que se espalhava em cima dele também despertou.
Janus
golpeou com os joelhos. A coisa nem se mexeu. Bateu com os punhos
para cima e viu-se banhado em suor quando o dispositivo automático
de seu traje protetor dirigiu toda a energia disponível ao campo
defensivo.
Com um
gemido surdo o biólogo desistiu. A força de gravitação de 2,8 G
atingiu-o como o peso de uma fera que saltasse sobre ele.
O
relampejar tornava-se cada vez mais violento. Seu microrreator
desenvolvia a potência máxima, esforçando-se para remover o
obstáculo ávido de contatos. Acontece que o monstro não reagia às
energias mortais do campo protetor.
Pulsando
fracamente e, segundo parecia, bastante esgotado, cobria o corpo do
homem com uma camada fina e muito resistente. Janus van Orgter
começou a desconfiar que os robôs de combate chegariam tarde.
A
atmosfera densa do planeta Moof VI parecia ser um bom condutor do
som.
Ouviu o
uivar da tormenta, e também percebeu o canto melódico do corpo
convulsionado do monstro. Teve a impressão de que fazia esforços
desesperados para reunir as últimas reservas de energia.
Janus teve
a impressão de que estava morrendo sufocado. A gravitação mortal
prendia-o ao solo com uma força tão tremenda que os pulmões ávidos
de oxigênio se recusavam a trabalhar.
— Estou
no fim — disse num estertor pelo microfone.
As
palavras de Rhodan atingiam seu ouvido, não sua mente. A coisa que o
cobria continuava imóvel.
Janus
estava pensando que deveria ter atirado quando uma coisa estranha
aconteceu com o tecido extraordinário que o cobria.
De
repente, a massa pegajosa contraiu-se. Parecia que uma força
estranha o estava atingindo.
Com um
grito a coisa ergueu-se, transformou-se numa esfera e explodiu em
meio a uma luminosidade ofuscante. A pressão abandonou os pulmões
de Orgter. De repente, conseguiu respirar normalmente. O zumbido feio
do reator transformou-se no ruído de funcionamento costumeiro.
Outros
monstros que acabavam de surgir também explodiam. Parecia que algum
desconhecido viera em seu auxílio. Van Orgter levantou-se,
cambaleante. Porém foi derrubado pela primeira rajada do furacão,
que o arrastou pelo solo. O enorme campo defensivo da Titan
aproximou-se perigosamente.
Orgter
gritou. Libertado do monstro que o prendia, transformara-se numa
folha seca em meio à tempestade.
Ouviu que
a Titan voltara a abrir fogo. Os raios energéticos rugiram acima de
sua cabeça. Mais ao longe, surgiram crateras incandescentes. Por um
instante, van Orgter conseguiu segurar-se em uma duna móvel de
cristais de amoníaco. Quando entraram em contato com o campo
protetor de seu traje, que emitia uma luminosidade ofuscante,
desenvolveram uma reação química. Vapores venenosos surgiram
diante dos olhos de Orgter. Depois de alguns segundos, foi atirado
através da duna e arrastado mais um pedaço em direção à abóbada
energética da Titan.
Mais
atrás, sombras percorriam a superfície. Mas os robôs eram detidos
constantemente, já que os monstros surgiam a todo instante no
interior da abóbada energética. Os robôs executaram sua
programação, segundo a qual deviam antes de mais nada abrir fogo
contra qualquer alvo que não tivesse aspecto humano.
Janus van
Orgter viu o fim aproximar-se. Diante dele, a parede de fogo
erguia-se para o céu.
*
* *
O major
Chaney arriscou tudo. Assim que a tartaruga, um gigantesco tanque
planador do arsenal do planeta Árcon, acabara de sair da escotilha
inferior, aumentou a velocidade sem olhar o que se encontrava à sua
frente.
As
esteiras largas do veículo estavam paradas. Planava sobre o campo de
repulsão energética, que o mantinha constantemente a 50 ou 60
centímetros do nível do solo. Dessa forma, conseguiu desenvolver
uma velocidade enorme.
Chaney
também não se preocupou com os ataques dos monstros que surgiam de
todos os lados, e que eram alvejados ininterruptamente pela massa dos
robôs colocados fora da nave. Eram muito poucos os que conseguiam
realizar o segundo salto de teleportação depois de terem
atravessado o campo energético. Seu alcance não chegava a um
quilômetro. Para os membros do exército de mutantes, isso
representava um dom muito limitado.
Os homens
sadios que se encontravam a bordo sabiam defender-se. Agora, que
estavam preparados para o aparecimento repentino dos seres
borrachentos, não houve mais nenhum rapto. Sempre havia alguém por
perto que percebia em tempo o tremeluzir da desmaterialização.

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