quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-048 - O Olho Vermelho do Sistema Beta - ClarK Darlton [parte 3]


O rato-castor estava sentado, calmo. Contemplava o céu escuro e as primeiras estrelas que cintilavam, formando constelações diferentes e curiosas, como jamais se poderia observar da Terra.
Ora essa, que está fazendo aí? Eu pensava que você estivesse tomando banho de mar...
O rato-castor deixou aparecer o dente roedor.
Vou fazê-lo agora. Acho que posso deixá-lo sozinho por uma meia hora.
Que é isso? Você está falando como se nós não agüentássemos sem você...
Gucky foi caminhando para o mar, deixando na areia um rastro diferente. Depois de uns dez metros, parou, olhou para trás e chilreou:
Como seria se vocês não tivessem Gucky... Estou convencido de que vou receber as duas arrobas de cenoura, não é?
Falou e desapareceu com um salto corajoso na onda em rebentação.
Deringhouse sacudiu a cabeça com ar de desaprovação. Estava suspeitando que Gucky queria captar alguma coisa.

* * *

Vermelho como sangue, o sol se erguia atrás da floresta virgem e recebia o novo dia com cores festivas.
Marshall que teve o último período de vigília, estava bem próximo da água, olhando para o horizonte longínquo. Já estava esperando pelas já conhecidas listras prateadas que anunciavam a chegada dos aquas.
A noite foi calma. A estação de rádio da Gazela, onde todos haviam dormido, ficou sempre de prontidão, porém, não houve novidade alguma. Houve, sim, grande intensidade de rádios entre as várias estações e naves dos tópsidas, mas a grande maioria cifrados. É verdade que o cérebro eletrônico conseguira decifrar o código depois de algum tempo. Mas não adiantou muito, o assunto era apenas a tomada de várias posições pelos tópsidas.
Marshall captou os primeiros impulsos de pensamento dos homens-peixes, ainda bem fracos, quando ainda não eram vistos. Aí é que começou a ver no horizonte as listras prateadas, ainda bem longe. Aproximavam-se com uma velocidade quase incrível, nadando em grupo, pois a formação produzia um enorme sulco que se dirigia no sentido exato da praia. Podia-se calcular: aproximavam-se uns cinqüenta aquas. A uns vinte metros da areia da praia cessaram as listras prateadas. O chefe da turma emergiu e chegou com dificuldade até Marshall. Os outros ficaram na água. Só as cabeças emergiam. Olhos curiosos contemplavam os homens.
Viemos, como havíamos prometido — foi o pensamento dos homens-peixes. — Mas não conseguimos nenhuma maneira de fazer com que alguém de vocês consiga viver dentro d’água.
Marshall já estava chamando Gucky há vinte segundos e ficou aliviado quando, por fim, teve uma resposta:
Estou dormindo ainda — eram os sinais de Gucky. — Que há de novo?
Mande André Noir, mas depressa! Os aquas estão aqui.
Nenhuma resposta, mas, poucos segundos depois, Gucky se materializava bem ao lado de Marshall, que sem querer se assustou. André Noir descia da Gazela e veio correndo.
A comunicação com os homens-peixes estava garantida.
É inútil perder tempo com tais pensamentos, pois podemos agora permanecer muito tempo sob a água — dizia Marshall. — Existem uniformes especiais com os quais se pode viver no espaço, e o espaço é mais perigoso do que o mar.
Então vocês podem vir conosco?
Se vocês forem bem fortes para nos puxar, pois não nadamos tão bem como vocês.
Quando?
Esperem-nos só um pouco, temos que fazer uns preparativos.
Meia hora mais tarde, os peixes daquele mar raso, no litoral do único continente do planeta quatro, assistiram a um espetáculo tão estranho, que nunca mais esqueceram.
Com uniformes espaciais fechados, Marshall e Noir estavam montados, cada um, no dorso escamoso de um aqua e se deixavam levar através do verde escuro do mundo submarino. Uma terceira figura, um pouco menor, estava no lombo de um terceiro aqua, era Gucky. Uma vanguarda de uns vinte homens-peixes nadava à frente. O restante formava a retaguarda da frota.
O mais divertido de todos era, sem dúvida, Gucky. Seu uniforme especial parecia até fundido com o corpo. A grande viseira do capacete lhe permitia olhar para todos os lados e já que o mar não era muito fundo, o rato-castor viveu pela primeira vez na vida os encantos do mundo submarino. As pequenas ondulações de areia no fundo, cobertas de plantas marinhas, pareciam um jardim gigantesco. Além disso, a infinidade de pequenos peixes que vinham de todos os lados. À esquerda e à direita a visão era limitada. Em cima havia um clarão de lanterna alaranjada, vindo do sol.
A velocidade era espantosa. Os dois homens perceberam que os aquas eram verdadeiros foguetes vivos de propulsão traseira. Aspiravam a água pela boca, num fluxo contínuo, comprimiam-na no meio do corpo através de um órgão especial e depois expeliam o forte jato através de uma válvula traseira, bem abaixo da cauda. A compressão devia ser muito grande, pois Marshall estava convencido de que os aquas, em atenção a seus visitantes, não usavam nem a metade da força que tinham.
Bem acima da estratosfera, moviam-se os dois grandes cruzadores em suas órbitas. As instalações de rádio estavam na escuta. Todos se encontravam de prontidão.
Também Deringhouse estava esperando na Gazela, escondida ainda sob a ramagem densa das árvores enormes. Achava-se preparada para entrar em ação a qualquer momento. Bastava que Marshall apertasse o botão vermelho do seu minitransmissor de pulso. O som já servia de meio de localização.
Sentados nas prisões de vidro, sem saberem se seus apelos de socorro chegavam a algum lugar, McClears e Tifflor também esperavam.

* * *

Depois de grandes esforços, Al-Khor conseguiu sentir chão firme debaixo dos pés. Escorregou pelo tronco liso da árvore, esfolando muito a pele e nos últimos cinco metros caiu diretamente. Foi por isso que destroncou a pesada cauda coberta de escamas, que lhe doía tremendamente.
Praguejando e mancando de uma perna, foi abrindo caminho pela vegetação baixa da floresta. Depois de muito procurar, achou sua pistola de raios energéticos e chegou afinal à beira da clareira, onde, há pouco, ainda existia a estação. As granadas de mão dos “saltadores” tinham feito estrago total. A cúpula estava em ruínas, as viaturas destruídas e o pessoal: morto ou ferido ou debandado.
Debandado pelo ar.
É claro que a imaginação de Al-Khor trabalhava. Chegou a uma conclusão, mais ou menos lógica, de que os “saltadores” haviam aperfeiçoado um aparelho, com o qual podiam a qualquer momento interromper a lei da gravidade e fazer então com que os objetos pudessem flutuar à vontade. Não havia outra explicação para o fenômeno que ele próprio sentiu na pele: fora um fato sobrenatural.
Andando pelos escombros, encontrou uma viatura mais ou menos em condições, cujo aparelhamento de rádio ainda funcionava. Chamou a central das Tropas de Ocupação. Ela respondeu imediatamente.
Aqui fala Al-Khor, do Comando Seccional da Costa Sul. Os “saltadores” presos fugiram e destruíram nossa estação. Peço socorro imediato. Mandem-me uma nave.
A resposta não foi muito alentadora:
Estamos em alarme de urgência, Al-Khor, e não podemos prescindir de nenhuma nave. Procure abrir caminho no HQ. Perdura o perigo de que os saltadores consigam mais reforços e nos ataquem.
A quem você está dizendo isto? — disse Al-Khor indignado. — Afinal, fui eu quem lhe chamou a atenção para este fato e...
Esperamos você no quartel-general.
Ouviu-se o ruído final. Al-Khor praguejando, destruiu o aparelho com um único soco de sua mão, por assim dizer, blindada.
...eles é que vejam como liquidar os saltadores.
Não tinha pressa alguma. Procurou na viatura alguma coisa para comer e acabou fazendo sua refeição. Já estava bem escuro, portanto tinha que preparar um abrigo para dormir.
Quando rompeu a madrugada, acordou gelado e ficou contente quando apareceram os primeiros raios do sol para aquecê-lo. Depois de uma boa refeição matinal, ligou o carro e começou a rolar por entre as ruínas em direção ao caminho estreito que levava para o litoral e para o quartel-general.
Estava com remorsos. Sem suspeitar de nada, passou bem perto do esconderijo da Gazela, tomou a direção do leste. Aproximou-se da ilha de aço, antes do litoral, onde o Estado-Maior dos Tópsidas estava reunido em conselho de guerra. Um barco levou Al-Khor aos seus colegas que o receberam admirados, mas com muita reserva. Tinha-se a impressão de que ele era culpado da evasão dos prisioneiros e portanto era acusado de favorecer o inimigo.
Sem dar atenção à sua chegada, o conselho de guerra prosseguiu.
Estaríamos, portanto, unânimes — afirmou Wor-Lök, comandante-supremo e superior de Al-Khor — em tentar nos defendermos sozinhos, sem auxílio, de ninguém, do iminente ataque dos saltadores.
Isto é pura loucura — disse Al-Khor bem alto, antes mesmo de tomar seu lugar. — Não podemos cometer erro maior do que este.
Wor-Lök estremeceu todo e fechou a cara. Exatamente quem havia fracassado miseravelmente é que se atrevia a contradizê-lo? Se o ditador de Topsid soubesse disso, Al-Khor estaria perdido. A sombra da desgraça cairia também na cabeça do comandante-supremo do “mundo d’água”.
Então, quer dizer que estou cometendo um erro? — disse Wor-Lök com cara sinistra. — Talvez o senhor terá a bondade de nos explicar melhor e dar suas razões.
Al-Khor respirou profundamente:
Não lhes basta o simples fato de dois destes saltadores terem mandado pelos ares toda a nossa estação, depois de haverem fugido da cela fortemente trancada e vigiada? Não pôde haver reação contra eles, pois possuem um aparelho com que neutralizam a força da gravidade. Suponho, além disso, que vão atacar o “mundo d’água” com uma frota bélica jamais vista, aniquilando-nos nos primeiros instantes, se formos tão orgulhosos de não pedirmos auxílio de Topsid.
Houve agitação entre os tópsidas. As palavras de Al-Khor pareciam conter muita coisa séria. Mas Wor-Lök não se deixou levar:
Quem é que lhe garante que haverá um ataque contra nós?
Ora, Wor-Lök, o senhor sabe, tão bem como eu, que corremos perigo. E seu orgulho não nos deixa pedir auxílio. O senhor quer se transformar em herói. Mas eu e a maioria de meus colegas preferimos viver.
Um longo aplauso deu-lhe razão. Wor-Lök olhou em volta, mas só viu caras fechadas para ele. Mesmo assim perguntou:
Os senhores são, portanto de opinião de que devemos expor ao ditador toda a nossa fraqueza?
Perfeitamente, porque esta fraqueza não é nossa culpa. Estamos prestando ainda um favor ao império — respondeu Al-Khor.
Realmente, não estavam prestando favor nenhum. Mas Al-Khor não podia saber disso. Ninguém o sabia, nem mesmo Rhodan.
Prestando um favor?
Wor-Lök se levantou, olhou para a porta, onde estavam postados dois guardas com os raios energéticos de mão.
Sou de opinião contrária e acho que o senhor fracassou. Agora quer arranjar um pretexto. Isto é insubordinação e eu vou chamá-lo à responsabilidade. Guardas, Al-Khor está preso. Levai-o para a prisão submarina. Al-Khor, deponha as armas.
Por um segundo, Al-Khor parecia petrificado. Depois veio vida para seu corpo. Mais do que depressa sacou da arma e dirigiu-a contra o comandante-geral.
Eu estou preso? E devo depor a arma? Isto é completamente contra o bom senso. Estamos numa época em que devemos nos unir, se não quisermos desaparecer.
Wor-Lök confiava na sua autoridade em decidir sobre a vida e a morte.
Minha decisão não volta atrás. Guardas, prendam Al-Khor. A partir deste momento, ele está rebaixado de todas as honras militares.
Al-Khor não podia mais hesitar. Com um único tiro certeiro, prostrou seu adversário, que caiu como fulminado por um raio. Depois, virou-se para os guardas, ordenando que voltassem a seus lugares. No seu íntimo, havia um vulcão de emoções, mas externamente estava sereno.
Tópsidas, estamos agora sem chefe, mas é necessário tomarmos decisões rápidas. Continuo com minha proposta de nos colocarmos imediatamente em contato com Topsid e expor ao ditador o que está se passando e o que vai acontecer, se não recebermos reforço imediato. Está iminente uma invasão dos saltadores. Eles julgam existir neste planeta uma base de um adversário e pretendem destruir o terceiro e o quarto planetas. Nós, porém, queremos colonizar o “mundo d’água” e mais tarde também o planeta das selvas, temos portanto o direito de prioridade.
Ainda não notamos nada de um inimigo neste sistema, fora dos próprios saltadores. Peço, portanto, o consentimento do conselho para que possa me comunicar com Topsid.”
A pesada pistola ainda estava firme em sua mão, mas o cano apontando para o chão. Talvez fosse a visão da poderosa arma e o reconhecimento de que Al-Khor não tinha compromissos com ninguém, como tinha comprovado há pouco, que levou todos os presentes a concordarem unanimemente. Um deles se levantou e disse:
Estamos sem comando supremo. Proponho, pois, que a partir deste momento, Al-Khor tome o cargo de Wor-Lök.
Outra vez, nenhuma voz discordante.
Al-Khor era assim o novo comandante do “mundo d’água”. E começou a agir imediatamente. Virou-se para um oficial:
Providencie que o hipertransmissor faça logo contato com Topsid. Estarei em poucos instantes na Central de Rádio e falarei diretamente com o ditador. E os senhores — olhou para os demais — dirijam-se imediatamente para suas bases ou naves e aguardem ordens posteriores. O “planeta das águas” está em estado de sítio. Alguém no fundo perguntou:
Que acontecerá com os prisioneiros que se encontram na cela submarina?
Al-Khor sacudiu a cabeça:
Ainda bem que você me lembrou. Temos que torná-los incapazes de reagir, antes que fujam também.
Talvez nos possam dar mais detalhes sobre a invasão iminente...
Não, não temos mais tempo. Além disso, já disseram tudo que queríamos saber. São muito perigosos para continuarem vivos. Providenciem execução sumária.
O tópsida do fundo concordou, mas ficou sentado, para esperar o fim da conferência.
E exatamente isto não se deu.

* * *

Tifflor pensava constantemente naquilo que queria transmitir a John Marshall. Não podia fazer mais do que isto. Tinha, porém, esperança de que Marshall captasse seus pensamentos.
McClears, sentado no canto, no chão de vidro, olhava pensativo para o fundo do mar, tão próximo, que agora com a luz do dia ele podia ver tão bem. Os estranhos peixes haviam desaparecido imediatamente, quando foram chamados. A fraca esperança do major estava acabando. Não podiam mais esperar ajuda dos peixes inteligentes. De quem então? Deringhouse e os mutantes estariam certamente a caminho para libertá-los.
O principal era que os tópsidas acreditavam na invasão dos saltadores, a qualquer momento, tomando todas as providências para a defesa.
Valia a pena fazer um sacrifício para isto. Porém, não o sacrifício da própria vida, assim pensava sinceramente McClears. Era um homem honesto, amigo de Rhodan, mas não um suicida. Somente os loucos é que são suicidas e heróis que se autodestroem.
Não dá para ver mais nada, Tifflor? Desde ontem à tarde que eles não aparecem mais. Será que não se interessam mais por nós?
Não sabemos, major, quais suas relações com os tópsidas. Talvez receberam ordens de não aparecer mais aqui.
Para que, então, nos prenderam numa cabina de vidro dentro do mar? Só para que os homens-peixes nos ficassem contemplando?
Não sabemos nada certo — dizia Tifflor. — O melhor a fazer é esperar o que vai acontecer.
Era mais fácil falar do que praticar. Estavam parados ali desde ontem. Não se ouviu mais nada depois disso, ninguém pensara em trazer alguma coisa para comer ou beber. Por muita sorte, McClears ainda achou no bolso uns tabletes que ajudavam um pouco contra a fome e a sede aguda.
Ouviram passos, de repente. Sentiram uma vibração e se levantaram. Achavam que era melhor receber os sáurios de pé. Quem sabe também era um aviso de subconsciente, que os levou a isto.
Souberam no mesmo instante em que dois tópsidas abriram a porta e penetraram na cela de vidro, o que lhes ia acontecer. As armas apontadas contra eles e os olhares com sinistra determinação traíam nitidamente suas intenções.
Vão nos matar — sussurrou Tifflor, se concentrando para pensar. — Socorro! Marshall, Gucky. Não temos mais muito tempo. Posição: ilha de metal, diante do litoral, vinte metros de profundidade. Obrigam-nos a deixar a cela. Depressa.
Lá fora no corredor, estava claro. Do teto e das paredes, penetrava luz muito clara, que ofuscava os homens. Os tópsidas empurravam os prisioneiros para frente com os canos das armas. Com os lábios bem apertados, McClears e Tifflor caminhavam para um destino desconhecido.
O corredor fez uma grande curva e terminou numa porta metálica. Uma roda dava a entender que se tratava de uma comporta, de ar ou de água?
Um dos guardas girou a roda, a porta gingou devagar para fora deixando ver um aposento vazio pela frente.
Podem ir — disse o tópsida em intercosmo — bom proveito!
McClears ficou parado. Tifflor continuou andando, repetindo sem interrupção seus gritos mentais de socorro. Descrevia a situação e esperava que os amigos não demorassem muito em aparecer. Estava realmente na hora.
McClears não se movia. Cada segundo era precioso.
Que está acontecendo conosco? — perguntou ele.
O focinho de lagarto se retorceu num sorriso sarcástico:
Al-Khor, o novo comandante-geral, os condenou à morte. Vocês não vão sofrer muito. A gente afoga facilmente.
Por que devemos morrer? Não dissemos tudo que era importante para vocês?
Não fomos nós que demos a sentença — explicou o tópsida. — Mas eu acho que é justa, vocês causaram muito estrago. Uma estação foi pelos ares, os outros prisioneiros fugiram, um grande número de tópsidas foi assassinado. Vocês merecem a morte. E agora, vamos.
McClears não desistiu.
Será que nós temos que ser responsáveis pelos atos dos outros saltadores? Não fomos nós quem ordenou a invasão.
Chega de falação, saltador. Vamos. Apontou a arma para o major. McClears percebeu que não havia mais um segundo. Virou-se e encaminhou-se para o local em que Tifflor já o esperava.
Se quiserem deixar a água entrar aqui — disse ele baixinho, enquanto a porta pesada se fechava — terão que abrir a comporta externa. Aí, nós mergulhamos.
Tenho receio de que haverão de ficar esperando até que tenhamos nos afogado. Não são tão ingênuos assim, para não preverem esta hipótese. Podemos apenas prender a respiração, nada mais. E naturalmente, esperar.
McClears nada respondeu.
Pelo lado do mar, surgiu no chão uma fenda estreita de onde começou a entrar água na comporta. A fenda foi aumentando depressa. Já atingia o peito deles.
A fenda — disse Tifflor, assustado. — Se aumentar um pouco mais, podemos passar por ela.
Mas a porta vertical estava parada e o nível da água subia constantemente, atingindo já o pescoço.
Respirar profundamente — disse McClears — prender a respiração e procurar chegar até embaixo. Felicidades, Tifflor, talvez tenhamos sorte.
Num borbulhão repentino, o mar invadiu a comporta. Cobriu tudo em fração de segundo. Os dois prisioneiros seguravam o ar e foram para o fundo. Sentiram a pressão da água, os ouvidos começaram a zumbir e a falta de oxigênio lhes tolhia os movimentos. McClears tocou com os dedos a margem superior da fenda, até que deu com alguma coisa que se movia. Não fosse a água que o envolvia, teria dado um grito. Mas um pouco do ar acumulado no pulmão escapou, subindo em bolhas. Mais um segundo e estaria tudo acabado.

* * *

Os aquas da vanguarda diminuíram a velocidade e formaram de novo uma espécie de frota bem agrupada.
Que está acontecendo? — perguntou André Noir, através de uma imagem mental. Marshall e Gucky receberam prontamente a resposta:
A fortaleza d’água dos estranhos. Estamos chegando. Têm portas especiais que levam daqui lá para dentro.
No mesmo segundo, chegaram os pedidos de socorro de Tifflor. Gucky se orientou e transmitiu telepaticamente para Marshall:
A menos de dez metros de nós. Devo saltar?
Não, espere. Quem sabe podemos ajudar, sem que os tópsidas percebam.
Na frente deles, cintilavam, na eterna penumbra do mar, as paredes da ilha artificial. Apoiavam-se em pilastras redondas e terminavam a uns vinte metros do nível da água. Uma fila de muitas fendas indicava a presença das comportas. Dali em diante, os aquas penetrariam no domínio dos tópsidas.
Estão sendo procurados. Marshall fez um sinal com seu capacete.
Era uma sensação esquisita cavalgar no lombo de um peixe esguio.
Orientação, Gucky.
O rato-castor, que em outras circunstâncias estaria se divertindo muito, conduziu seu animal de sela para perto da parede escura da ilha de metal. Parou diante de uma comporta.
Estão aqui, Tifflor já está na câmera.
Marshall já sabia disso há tempo. Sabia mais:
Lá em cima, na plataforma, estão dois guardas armados para o caso de McClears ou Tifflor emergirem...
Noir era um sugestor, naturalmente também um telepata fraco. Podia compreender bem os impulsos de Marshall e de Gucky e estava sendo bem informado, transmitindo logo as instruções aos aquas. Os homens-peixes, sem peso nas costas, começaram a fazer suas piruetas, como era de costume. Atiravam-se como setas, de um canto para o outro, revolvendo toda a superfície do mar, pulando metros para cima no ar ensolarado e caindo com estrépito em seu elemento natural.
Os tópsidas abaixaram as armas. Era um espetáculo com que já estavam acostumados.
Agora a água está penetrando — pensava Tifflor para Gucky.
Depois de alguns instantes o rato-castor transmitiu:
A fenda é estreita demais para McClears e Tifflor passarem.
Marshall respondeu:
Gucky, abrir.
O rato-castor se aproximou mais da parede e se concentrou. Lentamente a parte inferior da comporta foi se levantando. É claro que a água penetrou imediatamente na câmera de trás, mas a fenda estava agora bem maior, dando passagem fácil para os dois homens. Provavelmente haveriam de compreender o que estava acontecendo. E compreenderam mesmo.
Gucky fez seu aqua abaixar um pouco mais e meteu a mão na fenda. Sentiu logo um braço que apalpava e o puxou para fora. Era McClears. O major tinha os olhos meio abertos mas parecia não ver nada. Uma grande bolha de ar saiu de sua boca e subiu rápida para a superfície.
Depressa, Marshall! Ele pode agüentar ainda dez segundos. Leve-o bem para frente e depois para cima.
Marshall pegou McClears que não reagia, nem percebia o que estava acontecendo. Noir retransmitiu a ordem aos aquas. Marshall teve dificuldade em segurar o corpo de McClears, de tão forte que era a velocidade com que os aquas disparavam através do mar.
Gucky não hesitou mais um segundo. Atravessou a estreita fenda, penetrando na comporta e viu imediatamente o pobre Tifflor que tinha desistido de fugir e já estava boiando de encontro ao teto, onde não havia mais um centímetro cúbico de ar. Gucky deu um pulo e pegou o pé de Tifflor. O peso do uniforme o fez descer um pouco. O mais rápido possível, comprimiu Tifflor contra a fenda, saindo para o mar, onde o aqua que servia a Gucky já estava esperando. O homem-peixe pegou o corpo do tenente e saiu em disparada, sem se preocupar com Gucky. Este, depois de hesitar um pouco, retornou para dentro da comporta.
Os dois tópsidas que haviam enclausurado McClears e Tifflor no pequeno dique, ainda estavam diante da porta, conversando. Depois de dez minutos, a comporta externa devia ser fechada e esvaziada. Portanto ainda sobrava tempo. Não perceberam que a roda de regulagem estava girando, por mãos invisíveis. De repente a porta abriu. Entrou uma golfada enorme de água que, envolvendo os dois guardas distraídos, os arrastou.
Gucky abriu também a porta externa, de forma que, em poucos instantes, toda a parte inferior da estação estava submersa. Os sáurios que ali se encontravam morreram afogados. Alguns, que conseguiram escapar, levaram a trágica notícia para os oficiais que estavam reunidos no andar superior em importante conselho de guerra.
A água subiu até a altura da plataforma e assim a ilha metálica não podia mais servir de base de operação.
Gucky passou de novo pela fenda, atingiu o mar, e tentou sair dali o mais rápido possível, pois o local, em volta da ilha, se tornava agora perigoso.
Gucky captou os impulsos de Marshall, que estava a duzentos metros e já havia alcançado a superfície com McClears. Os tópsidas na plataforma estavam agora demasiadamente ocupados para se preocuparem com coisas que estavam acontecendo no mar. A ilha não iria, propriamente, cair, mas três quartos dela estavam inundados.
Gucky poderia se utilizar de seus dons telecinéticos, mas estava adorando nadar debaixo d’água. McClears e Tifflor já estavam fora de perigo, como lhe dizia nitidamente a mensagem telepática de Marshall. Os aquas estavam fazendo tudo para que os dois resgatados do castelo de vidro saíssem o mais depressa possível da zona perigosa.
O rato-castor se divertia mergulhando bem fundo, junto das plantas marinhas. Deu de cara com um enorme peixe que ao vê-lo disparou assustado.
E assim foi que ele chegou duas horas mais tarde que os outros para o lugar onde estava a Gazela. Havia tomado o seu muito desejado banho de mar, mas não se havia molhado.
6



Perry Rhodan estava conversando com Crest e Thora sobre a possibilidade de uma colonização interestelar, quando um zunido muito agudo se fez ouvir. Assustou-se um pouco, apertou depois o botão de seu aparelho receptor de pulso.
Aqui fala Rhodan. O que há?
Mensagem urgente do sistema Beta senhor. Quer que eu a receba?
Comunique-se com Reginald Bell e espere. Vou atender.
Crest e Thora viram-no sair correndo do local, antes que lhe pudessem fazer uma pergunta. Levantaram-se para acompanhá-lo, pois estavam muito interessados em saber o que acontecera a 272 anos-luz da Terra.
O elevador levou Rhodan em cinco minutos à central de radiocomunicação. O operador-chefe Eilman fez posição de sentido e anunciou:
Major Deringhouse, Centauro, sistema Beta, solicitou transmissão especial. Distância duzentos e setenta e dois anos-luz.
Meu querido Eilman — disse Rhodan — você é o homem das notícias. Só não compreendo bem por que repete tanto coisas já conhecidas. De qualquer maneira é melhor do que inventar novas. Que há com Deringhouse?
Apresenta-se exatamente dentro de trinta segundos.
Rhodan sorriu e tomou lugar à mesa de controle. Neste instante, Bell entra porta a dentro, cumprimentou Eilman com um aceno de mão e sentou-se ao lado de Rhodan.
Agora, estou realmente ansioso.
Não é por menos — respondeu Rhodan. — Onde estará o sujeito?
Vou lhe puxar os pêlos — prometeu Bell, com o que se tornou claro que falavam do Gucky, cuja ausência lhes era um problema desde a partida dos dois cruzadores pesados.
Espere — recomendou Rhodan tranqüilo.
Acendeu uma lâmpada verde à sua frente, ouvindo então uma voz desfigurada no alto-falante:
Aqui fala Deringhouse. Estou chamando Terrânia.
Do outro lado, estava Rhodan:
Como é bom ouvir sua voz, Deringhouse. Antes de você começar a falar, diga-me uma coisa: você viu Gucky por algum lugar?
Pequeno intervalo, depois veio a resposta de Deringhouse:
Gucky está conosco, senhor.
Está bem. Dê então as notícias. Os saltadores já se manifestaram?
Como posso entender a pergunta, senhor? Nós somos os “saltadores”. Ao menos para os tópsidas. Além disso, os verdadeiros...
Um momento, Deringhouse, você falou tópsidas?
O major começou seu relato. Rhodan e Bell ouviam compenetrados, sem interrompê-lo uma vez sequer. No fim, resumiu seu ponto de vista:
Este foi o plano que cada um de nós dois elaborou separadamente, sem combinação prévia. Eu presumo que o senhor concorde com nosso ponto de vista. Naturalmente que seria muito simples destruir as bases dos tópsidas e suas naves com o auxílio da Centauro e da Terra, mas não lucraríamos muito com isto. Assim temos a possibilidade de matar dois coelhos com uma só cajadada. Merece atenção especial o fato de que o comandante-geral dos tópsidas, um tal Al-Khor, há poucas horas atrás enviou uma mensagem de socorro para Topsid. Pede auxílio ao ditador e soberano do Reino Estelar dos Tópsidas, para salvar o sistema Beta do iminente ataque dos saltadores. Este ditador está revoltado contra o pretendido ataque dos saltadores e prometeu a Al-Khor de lhe enviar uma poderosa frota de guerra. Estamos esperando por ela.
Rhodan olhou para Bell, que fitava meio desconcertado o alto-falante, como se esperasse do aparelho uma sugestão.
Excelente, Deringhouse — continuou Rhodan. — Se seu plano funcionar, e eu aposto que vai funcionar, atingiremos nosso objetivo inicial, sem movermos uma palha. Os saltadores, que atacarem, haverão de ver nas espaçonaves dos terríveis e corajosos tópsidas as naves da Terra ou de seus aliados. Mas os tópsidas têm plena razão quando consideram os saltadores como saltadores mesmo, apenas desconhecem a razão do seu ataque. Temos, porém, que evitar que não haja nenhuma relação mais clara entre os dois adversários. Infelizmente não recebi ainda nenhuma notícia sobre Talamon, o superpesado com quem temos amizade. Não sei se vai tomar parte no ataque.
Quais são suas ordens, senhor? — perguntou Deringhouse.
Rhodan começou a sorrir.
Deve esperar, Deringhouse, o melhor é vocês se retirarem para o terceiro planeta e agir como se ele fosse a Terra. Quem sabe vocês conseguem até atrair para lá os tópsidas. Assim este planeta terá maior semelhança com a Terra.
Entendido, senhor. Ligarei novamente quando as coisas se desenrolarem mais.
Aparecerei logo por aí — prometeu Rhodan — para recebermos com alegria nossos amigos. — Desta vez, os tópsidas são nossos aliados. É pena que não saibam nada disto. Antes de desligar, uma pergunta, Deringhouse: você deu ordem de prisão individual para o violador da disciplina, Gucky?
Deringhouse titubeou um pouco, depois falou:
Sinto muito, senhor, mas nós precisamos muito da ação do rato-castor. Se quiser ser sincero, sem Gucky não teríamos conseguido nada. Posso fazer uma observação?
Claro que sim — disse Rhodan, continuando a sorrir mais ainda.
Bell acrescentou:
Estou curioso.
Podia-se ouvir a respiração de Deringhouse.
Não se deve olhar para o caso de Gucky assim. Foi simples zelo pelo dever, mas não um desrespeito ao regulamento por motivos inferiores. É claro que chamei sua atenção para o erro. Mas depois se comportou maravilhosamente, chegando mesmo a salvar a vida de McClears e de Tifflor. Ninguém fora dele, poderia fazer isto. Portanto, acho que se devia...
Certo, Deringhouse, diga a Gucky que ele está perdoado. No próximo semestre, porém, não receberá cenoura. Quer dizer mais alguma coisa, Deringhouse?
Senhor, acho que isto não causará transtorno a Gucky.
Acho que sim. Ele gosta muito de cenoura e vai sentir muita falta.
Não sei, tenho que confessar que perdi uma aposta...
Bell começou a dar gargalhada. Estava bem por dentro destas apostas. Já tinham custado a muita gente uma boa soma de dinheiro em cenouras e rabanetes... e pontas de dedo paralisadas de tanto coçar pêlo de animal.
Está certo — ria também Rhodan. — Que ele coma bastante, mas não deixe comer demais e estragar o estômago, pois precisamos muito dele contra os tópsidas e contra os saltadores. Até logo mais, Deringhouse, saudações a todos os homens e a Gucky. Fim.
Do depósito de víveres da Centauro, os robôs levaram caixas e mais caixas de cenoura para a cabina de Gucky, onde o rato-castor estava sentado no sofá como um verdadeiro paxá, enquanto o major Deringhouse cumpria sua primeira hora de “coçagem”.
Quem fizesse aposta com Gucky teria sempre cem por cento de certeza de que ia perder.




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A surpreendente descoberta de que os tópsidas, velhos inimigos da Humanidade, tinham pontos de apoio no sistema Beta, foi incluída estrategicamente na gigantesca manobra de camuflagem de Perry Rhodan.
Será que os tópsidas continuarão o jogo, depois que as frotas dos saltadores e dos aras aparecerem?
E Topthor, que já viu com os próprios olhos o sol da Terra! Será que ele não vai reconhecer, assim que vir o enorme sol Beta, que a positrônica o levou a um alvo errado?
Em A Morte da Terra, Topthor é a figura central de mais uma aventura de Perry Rhodan.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html