O
rato-castor estava sentado, calmo. Contemplava o céu escuro e as
primeiras estrelas que cintilavam, formando constelações diferentes
e curiosas, como jamais se poderia observar da Terra.
— Ora
essa, que está fazendo aí? Eu pensava que você estivesse tomando
banho de mar...
O
rato-castor deixou aparecer o dente roedor.
— Vou
fazê-lo agora. Acho que posso deixá-lo sozinho por uma meia hora.
— Que é
isso? Você está falando como se nós não agüentássemos sem
você...
Gucky foi
caminhando para o mar, deixando na areia um rastro diferente. Depois
de uns dez metros, parou, olhou para trás e chilreou:
— Como
seria se vocês não tivessem Gucky... Estou convencido de que vou
receber as duas arrobas de cenoura, não é?
Falou e
desapareceu com um salto corajoso na onda em rebentação.
Deringhouse
sacudiu a cabeça com ar de desaprovação. Estava suspeitando que
Gucky queria captar alguma coisa.
* * *
Vermelho
como sangue, o sol se erguia atrás da floresta virgem e recebia o
novo dia com cores festivas.
Marshall
que teve o último período de vigília, estava bem próximo da água,
olhando para o horizonte longínquo. Já estava esperando pelas já
conhecidas listras prateadas que anunciavam a chegada dos aquas.
A noite
foi calma. A estação de rádio da Gazela, onde todos haviam
dormido, ficou sempre de prontidão, porém, não houve novidade
alguma. Houve, sim, grande intensidade de rádios entre as várias
estações e naves dos tópsidas, mas a grande maioria cifrados. É
verdade que o cérebro eletrônico conseguira decifrar o código
depois de algum tempo. Mas não adiantou muito, o assunto era apenas
a tomada de várias posições pelos tópsidas.
Marshall
captou os primeiros impulsos de pensamento dos homens-peixes, ainda
bem fracos, quando ainda não eram vistos. Aí é que começou a ver
no horizonte as listras prateadas, ainda bem longe. Aproximavam-se
com uma velocidade quase incrível, nadando em grupo, pois a formação
produzia um enorme sulco que se dirigia no sentido exato da praia.
Podia-se calcular: aproximavam-se uns cinqüenta aquas. A uns vinte
metros da areia da praia cessaram as listras prateadas. O chefe da
turma emergiu e chegou com dificuldade até Marshall. Os outros
ficaram na água. Só as cabeças emergiam. Olhos curiosos
contemplavam os homens.
— Viemos,
como havíamos prometido — foi o pensamento dos homens-peixes. —
Mas não conseguimos nenhuma maneira de fazer com que alguém de
vocês consiga viver dentro d’água.
Marshall
já estava chamando Gucky há vinte segundos e ficou aliviado quando,
por fim, teve uma resposta:
— Estou
dormindo ainda — eram os sinais de Gucky. — Que há de novo?
— Mande
André Noir, mas depressa! Os aquas estão aqui.
Nenhuma
resposta, mas, poucos segundos depois, Gucky se materializava bem ao
lado de Marshall, que sem querer se assustou. André Noir descia da
Gazela e veio correndo.
A
comunicação com os homens-peixes estava garantida.
— É
inútil perder tempo com tais pensamentos, pois podemos agora
permanecer muito tempo sob a água — dizia Marshall. — Existem
uniformes especiais com os quais se pode viver no espaço, e o espaço
é mais perigoso do que o mar.
— Então
vocês podem vir conosco?
— Se
vocês forem bem fortes para nos puxar, pois não nadamos tão bem
como vocês.
— Quando?
— Esperem-nos
só um pouco, temos que fazer uns preparativos.
Meia hora
mais tarde, os peixes daquele mar raso, no litoral do único
continente do planeta quatro, assistiram a um espetáculo tão
estranho, que nunca mais esqueceram.
Com
uniformes espaciais fechados, Marshall e Noir estavam montados, cada
um, no dorso escamoso de um aqua e se deixavam levar através do
verde escuro do mundo submarino. Uma terceira figura, um pouco menor,
estava no lombo de um terceiro aqua, era Gucky. Uma vanguarda de uns
vinte homens-peixes nadava à frente. O restante formava a retaguarda
da frota.
O mais
divertido de todos era, sem dúvida, Gucky. Seu uniforme especial
parecia até fundido com o corpo. A grande viseira do capacete lhe
permitia olhar para todos os lados e já que o mar não era muito
fundo, o rato-castor viveu pela primeira vez na vida os encantos do
mundo submarino. As pequenas ondulações de areia no fundo, cobertas
de plantas marinhas, pareciam um jardim gigantesco. Além disso, a
infinidade de pequenos peixes que vinham de todos os lados. À
esquerda e à direita a visão era limitada. Em cima havia um clarão
de lanterna alaranjada, vindo do sol.
A
velocidade era espantosa. Os dois homens perceberam que os aquas eram
verdadeiros foguetes vivos de propulsão traseira. Aspiravam a água
pela boca, num fluxo contínuo, comprimiam-na no meio do corpo
através de um órgão especial e depois expeliam o forte jato
através de uma válvula traseira, bem abaixo da cauda. A compressão
devia ser muito grande, pois Marshall estava convencido de que os
aquas, em atenção a seus visitantes, não usavam nem a metade da
força que tinham.
Bem acima
da estratosfera, moviam-se os dois grandes cruzadores em suas
órbitas. As instalações de rádio estavam na escuta. Todos se
encontravam de prontidão.
Também
Deringhouse estava esperando na Gazela, escondida ainda sob a ramagem
densa das árvores enormes. Achava-se preparada para entrar em ação
a qualquer momento. Bastava que Marshall apertasse o botão vermelho
do seu minitransmissor de pulso. O som já servia de meio de
localização.
Sentados
nas prisões de vidro, sem saberem se seus apelos de socorro chegavam
a algum lugar, McClears e Tifflor também esperavam.
* * *
Depois de
grandes esforços, Al-Khor conseguiu sentir chão firme debaixo dos
pés. Escorregou pelo tronco liso da árvore, esfolando muito a pele
e nos últimos cinco metros caiu diretamente. Foi por isso que
destroncou a pesada cauda coberta de escamas, que lhe doía
tremendamente.
Praguejando
e mancando de uma perna, foi abrindo caminho pela vegetação baixa
da floresta. Depois de muito procurar, achou sua pistola de raios
energéticos e chegou afinal à beira da clareira, onde, há pouco,
ainda existia a estação. As granadas de mão dos “saltadores”
tinham feito estrago total. A cúpula estava em ruínas, as viaturas
destruídas e o pessoal: morto ou ferido ou debandado.
Debandado
pelo ar.
É claro
que a imaginação de Al-Khor trabalhava. Chegou a uma conclusão,
mais ou menos lógica, de que os “saltadores”
haviam aperfeiçoado um aparelho, com o qual podiam a qualquer
momento interromper a lei da gravidade e fazer então com que os
objetos pudessem flutuar à vontade. Não havia outra explicação
para o fenômeno que ele próprio sentiu na pele: fora um fato
sobrenatural.
Andando
pelos escombros, encontrou uma viatura mais ou menos em condições,
cujo aparelhamento de rádio ainda funcionava. Chamou a central das
Tropas de Ocupação. Ela respondeu imediatamente.
— Aqui
fala Al-Khor, do Comando Seccional da Costa Sul. Os “saltadores”
presos fugiram e destruíram nossa estação. Peço socorro imediato.
Mandem-me uma nave.
A resposta
não foi muito alentadora:
— Estamos
em alarme de urgência, Al-Khor, e não podemos prescindir de nenhuma
nave. Procure abrir caminho no HQ. Perdura o perigo de que os
saltadores consigam mais reforços e nos ataquem.
— A quem
você está dizendo isto? — disse Al-Khor indignado. — Afinal,
fui eu quem lhe chamou a atenção para este fato e...
— Esperamos
você no quartel-general.
Ouviu-se o
ruído final. Al-Khor praguejando, destruiu o aparelho com um único
soco de sua mão, por assim dizer, blindada.
— ...eles
é que vejam como liquidar os saltadores.
Não tinha
pressa alguma. Procurou na viatura alguma coisa para comer e acabou
fazendo sua refeição. Já estava bem escuro, portanto tinha que
preparar um abrigo para dormir.
Quando
rompeu a madrugada, acordou gelado e ficou contente quando apareceram
os primeiros raios do sol para aquecê-lo. Depois de uma boa refeição
matinal, ligou o carro e começou a rolar por entre as ruínas em
direção ao caminho estreito que levava para o litoral e para o
quartel-general.
Estava com
remorsos. Sem suspeitar de nada, passou bem perto do esconderijo da
Gazela, tomou a direção do leste. Aproximou-se da ilha de aço,
antes do litoral, onde o Estado-Maior dos Tópsidas estava reunido em
conselho de guerra. Um barco levou Al-Khor aos seus colegas que o
receberam admirados, mas com muita reserva. Tinha-se a impressão de
que ele era culpado da evasão dos prisioneiros e portanto era
acusado de favorecer o inimigo.
Sem dar
atenção à sua chegada, o conselho de guerra prosseguiu.
— Estaríamos,
portanto, unânimes — afirmou Wor-Lök, comandante-supremo e
superior de Al-Khor — em tentar nos defendermos sozinhos, sem
auxílio, de ninguém, do iminente ataque dos saltadores.
— Isto é
pura loucura — disse Al-Khor bem alto, antes mesmo de tomar seu
lugar. — Não podemos cometer erro maior do que este.
Wor-Lök
estremeceu todo e fechou a cara. Exatamente quem havia fracassado
miseravelmente é que se atrevia a contradizê-lo? Se o ditador de
Topsid soubesse disso, Al-Khor estaria perdido. A sombra da desgraça
cairia também na cabeça do comandante-supremo do “mundo d’água”.
— Então,
quer dizer que estou cometendo um erro? — disse Wor-Lök com cara
sinistra. — Talvez o senhor terá a bondade de nos explicar melhor
e dar suas razões.
Al-Khor
respirou profundamente:
— Não
lhes basta o simples fato de dois destes saltadores terem mandado
pelos ares toda a nossa estação, depois de haverem fugido da cela
fortemente trancada e vigiada? Não pôde haver reação contra eles,
pois possuem um aparelho com que neutralizam a força da gravidade.
Suponho, além disso, que vão atacar o “mundo
d’água”
com uma frota bélica jamais vista, aniquilando-nos nos primeiros
instantes, se formos tão orgulhosos de não pedirmos auxílio de
Topsid.
Houve
agitação entre os tópsidas. As palavras de Al-Khor pareciam conter
muita coisa séria. Mas Wor-Lök não se deixou levar:
— Quem é
que lhe garante que haverá um ataque contra nós?
— Ora,
Wor-Lök, o senhor sabe, tão bem como eu, que corremos perigo. E seu
orgulho não nos deixa pedir auxílio. O senhor quer se transformar
em herói. Mas eu e a maioria de meus colegas preferimos viver.
Um longo
aplauso deu-lhe razão. Wor-Lök olhou em volta, mas só viu caras
fechadas para ele. Mesmo assim perguntou:
— Os
senhores são, portanto de opinião de que devemos expor ao ditador
toda a nossa fraqueza?
— Perfeitamente,
porque esta fraqueza não é nossa culpa. Estamos prestando ainda um
favor ao império — respondeu Al-Khor.
Realmente,
não estavam prestando favor nenhum. Mas Al-Khor não podia saber
disso. Ninguém o sabia, nem mesmo Rhodan.
— Prestando
um favor?
Wor-Lök
se levantou, olhou para a porta, onde estavam postados dois guardas
com os raios energéticos de mão.
— Sou de
opinião contrária e acho que o senhor fracassou. Agora quer
arranjar um pretexto. Isto é insubordinação e eu vou chamá-lo à
responsabilidade. Guardas, Al-Khor está preso. Levai-o para a prisão
submarina. Al-Khor, deponha as armas.
Por um
segundo, Al-Khor parecia petrificado. Depois veio vida para seu
corpo. Mais do que depressa sacou da arma e dirigiu-a contra o
comandante-geral.
— Eu
estou preso? E devo depor a arma? Isto é completamente contra o bom
senso. Estamos numa época em que devemos nos unir, se não quisermos
desaparecer.
Wor-Lök
confiava na sua autoridade em decidir sobre a vida e a morte.
— Minha
decisão não volta atrás. Guardas, prendam Al-Khor. A partir deste
momento, ele está rebaixado de todas as honras militares.
Al-Khor
não podia mais hesitar. Com um único tiro certeiro, prostrou seu
adversário, que caiu como fulminado por um raio. Depois, virou-se
para os guardas, ordenando que voltassem a seus lugares. No seu
íntimo, havia um vulcão de emoções, mas externamente estava
sereno.
— Tópsidas,
estamos agora sem chefe, mas é necessário tomarmos decisões
rápidas. Continuo com minha proposta de nos colocarmos imediatamente
em contato com Topsid e expor ao ditador o que está se passando e o
que vai acontecer, se não recebermos reforço imediato. Está
iminente uma invasão dos saltadores. Eles julgam existir neste
planeta uma base de um adversário e pretendem destruir o terceiro e
o quarto planetas. Nós, porém, queremos colonizar o “mundo
d’água”
e mais tarde também o planeta das selvas, temos portanto o direito
de prioridade.
“Ainda
não notamos nada de um inimigo neste sistema, fora dos próprios
saltadores. Peço, portanto, o consentimento do conselho para que
possa me comunicar com Topsid.”
A pesada
pistola ainda estava firme em sua mão, mas o cano apontando para o
chão. Talvez fosse a visão da poderosa arma e o reconhecimento de
que Al-Khor não tinha compromissos com ninguém, como tinha
comprovado há pouco, que levou todos os presentes a concordarem
unanimemente. Um deles se levantou e disse:
— Estamos
sem comando supremo. Proponho, pois, que a partir deste momento,
Al-Khor tome o cargo de Wor-Lök.
Outra vez,
nenhuma voz discordante.
Al-Khor
era assim o novo comandante do “mundo
d’água”.
E começou a agir imediatamente. Virou-se para um oficial:
— Providencie
que o hipertransmissor faça logo contato com Topsid. Estarei em
poucos instantes na Central de Rádio e falarei diretamente com o
ditador. E os senhores — olhou para os demais — dirijam-se
imediatamente para suas bases ou naves e aguardem ordens posteriores.
O “planeta
das águas”
está em estado de sítio. Alguém no fundo perguntou:
— Que
acontecerá com os prisioneiros que se encontram na cela submarina?
Al-Khor
sacudiu a cabeça:
— Ainda
bem que você me lembrou. Temos que torná-los incapazes de reagir,
antes que fujam também.
— Talvez
nos possam dar mais detalhes sobre a invasão iminente...
— Não,
não temos mais tempo. Além disso, já disseram tudo que queríamos
saber. São muito perigosos para continuarem vivos. Providenciem
execução sumária.
O tópsida
do fundo concordou, mas ficou sentado, para esperar o fim da
conferência.
E
exatamente isto não se deu.
* * *
Tifflor
pensava constantemente naquilo que queria transmitir a John Marshall.
Não podia fazer mais do que isto. Tinha, porém, esperança de que
Marshall captasse seus pensamentos.
McClears,
sentado no canto, no chão de vidro, olhava pensativo para o fundo do
mar, tão próximo, que agora com a luz do dia ele podia ver tão
bem. Os estranhos peixes haviam desaparecido imediatamente, quando
foram chamados. A fraca esperança do major estava acabando. Não
podiam mais esperar ajuda dos peixes inteligentes. De quem então?
Deringhouse e os mutantes estariam certamente a caminho para
libertá-los.
O
principal era que os tópsidas acreditavam na invasão dos
saltadores, a qualquer momento, tomando todas as providências para a
defesa.
Valia a
pena fazer um sacrifício para isto. Porém, não o sacrifício da
própria vida, assim pensava sinceramente McClears. Era um homem
honesto, amigo de Rhodan, mas não um suicida. Somente os loucos é
que são suicidas e heróis que se autodestroem.
— Não
dá para ver mais nada, Tifflor? Desde ontem à tarde que eles não
aparecem mais. Será que não se interessam mais por nós?
— Não
sabemos, major, quais suas relações com os tópsidas. Talvez
receberam ordens de não aparecer mais aqui.
— Para
que, então, nos prenderam numa cabina de vidro dentro do mar? Só
para que os homens-peixes nos ficassem contemplando?
— Não
sabemos nada certo — dizia Tifflor. — O melhor a fazer é esperar
o que vai acontecer.
Era mais
fácil falar do que praticar. Estavam parados ali desde ontem. Não
se ouviu mais nada depois disso, ninguém pensara em trazer alguma
coisa para comer ou beber. Por muita sorte, McClears ainda achou no
bolso uns tabletes que ajudavam um pouco contra a fome e a sede
aguda.
Ouviram
passos, de repente. Sentiram uma vibração e se levantaram. Achavam
que era melhor receber os sáurios de pé. Quem sabe também era um
aviso de subconsciente, que os levou a isto.
Souberam
no mesmo instante em que dois tópsidas abriram a porta e penetraram
na cela de vidro, o que lhes ia acontecer. As armas apontadas contra
eles e os olhares com sinistra determinação traíam nitidamente
suas intenções.
— Vão
nos matar — sussurrou Tifflor, se concentrando para pensar. —
Socorro! Marshall, Gucky. Não temos mais muito tempo. Posição:
ilha de metal, diante do litoral, vinte metros de profundidade.
Obrigam-nos a deixar a cela. Depressa.
Lá fora
no corredor, estava claro. Do teto e das paredes, penetrava luz muito
clara, que ofuscava os homens. Os tópsidas empurravam os
prisioneiros para frente com os canos das armas. Com os lábios bem
apertados, McClears e Tifflor caminhavam para um destino
desconhecido.
O corredor
fez uma grande curva e terminou numa porta metálica. Uma roda dava a
entender que se tratava de uma comporta, de ar ou de água?
Um dos
guardas girou a roda, a porta gingou devagar para fora deixando ver
um aposento vazio pela frente.
— Podem
ir — disse o tópsida em intercosmo — bom proveito!
McClears
ficou parado. Tifflor continuou andando, repetindo sem interrupção
seus gritos mentais de socorro. Descrevia a situação e esperava que
os amigos não demorassem muito em aparecer. Estava realmente na
hora.
McClears
não se movia. Cada segundo era precioso.
— Que
está acontecendo conosco? — perguntou ele.
O focinho
de lagarto se retorceu num sorriso sarcástico:
— Al-Khor,
o novo comandante-geral, os condenou à morte. Vocês não vão
sofrer muito. A gente afoga facilmente.
— Por
que devemos morrer? Não dissemos tudo que era importante para vocês?
— Não
fomos nós que demos a sentença — explicou o tópsida. — Mas eu
acho que é justa, vocês causaram muito estrago. Uma estação foi
pelos ares, os outros prisioneiros fugiram, um grande número de
tópsidas foi assassinado. Vocês merecem a morte. E agora, vamos.
McClears
não desistiu.
— Será
que nós temos que ser responsáveis pelos atos dos outros
saltadores? Não fomos nós quem ordenou a invasão.
— Chega
de falação, saltador. Vamos. Apontou a arma para o major. McClears
percebeu que não havia mais um segundo. Virou-se e encaminhou-se
para o local em que Tifflor já o esperava.
— Se
quiserem deixar a água entrar aqui — disse ele baixinho, enquanto
a porta pesada se fechava — terão que abrir a comporta externa.
Aí, nós mergulhamos.
— Tenho
receio de que haverão de ficar esperando até que tenhamos nos
afogado. Não são tão ingênuos assim, para não preverem esta
hipótese. Podemos apenas prender a respiração, nada mais. E
naturalmente, esperar.
McClears
nada respondeu.
Pelo lado
do mar, surgiu no chão uma fenda estreita de onde começou a entrar
água na comporta. A fenda foi aumentando depressa. Já atingia o
peito deles.
— A
fenda — disse Tifflor, assustado. — Se aumentar um pouco mais,
podemos passar por ela.
Mas a
porta vertical estava parada e o nível da água subia
constantemente, atingindo já o pescoço.
— Respirar
profundamente — disse McClears — prender a respiração e
procurar chegar até embaixo. Felicidades, Tifflor, talvez tenhamos
sorte.
Num
borbulhão repentino, o mar invadiu a comporta. Cobriu tudo em fração
de segundo. Os dois prisioneiros seguravam o ar e foram para o fundo.
Sentiram a pressão da água, os ouvidos começaram a zumbir e a
falta de oxigênio lhes tolhia os movimentos. McClears tocou com os
dedos a margem superior da fenda, até que deu com alguma coisa que
se movia. Não fosse a água que o envolvia, teria dado um grito. Mas
um pouco do ar acumulado no pulmão escapou, subindo em bolhas. Mais
um segundo e estaria tudo acabado.
* * *
Os aquas
da vanguarda diminuíram a velocidade e formaram de novo uma espécie
de frota bem agrupada.
— Que
está acontecendo? — perguntou André Noir, através de uma imagem
mental. Marshall e Gucky receberam prontamente a resposta:
— A
fortaleza d’água dos estranhos. Estamos chegando. Têm portas
especiais que levam daqui lá para dentro.
No mesmo
segundo, chegaram os pedidos de socorro de Tifflor. Gucky se orientou
e transmitiu telepaticamente para Marshall:
— A
menos de dez metros de nós. Devo saltar?
— Não,
espere. Quem sabe podemos ajudar, sem que os tópsidas percebam.
Na frente
deles, cintilavam, na eterna penumbra do mar, as paredes da ilha
artificial. Apoiavam-se em pilastras redondas e terminavam a uns
vinte metros do nível da água. Uma fila de muitas fendas indicava a
presença das comportas. Dali em diante, os aquas penetrariam no
domínio dos tópsidas.
— Estão
sendo procurados. Marshall fez um sinal com seu capacete.
Era uma
sensação esquisita cavalgar no lombo de um peixe esguio.
— Orientação,
Gucky.
O
rato-castor, que em outras circunstâncias estaria se divertindo
muito, conduziu seu animal de sela para perto da parede escura da
ilha de metal. Parou diante de uma comporta.
— Estão
aqui, Tifflor já está na câmera.
Marshall
já sabia disso há tempo. Sabia mais:
— Lá em
cima, na plataforma, estão dois guardas armados para o caso de
McClears ou Tifflor emergirem...
Noir era
um sugestor, naturalmente também um telepata fraco. Podia
compreender bem os impulsos de Marshall e de Gucky e estava sendo bem
informado, transmitindo logo as instruções aos aquas. Os
homens-peixes, sem peso nas costas, começaram a fazer suas piruetas,
como era de costume. Atiravam-se como setas, de um canto para o
outro, revolvendo toda a superfície do mar, pulando metros para cima
no ar ensolarado e caindo com estrépito em seu elemento natural.
Os
tópsidas abaixaram as armas. Era um espetáculo com que já estavam
acostumados.
— Agora
a água está penetrando — pensava Tifflor para Gucky.
Depois de
alguns instantes o rato-castor transmitiu:
— A
fenda é estreita demais para McClears e Tifflor passarem.
Marshall
respondeu:
— Gucky,
abrir.
O
rato-castor se aproximou mais da parede e se concentrou. Lentamente a
parte inferior da comporta foi se levantando. É claro que a água
penetrou imediatamente na câmera de trás, mas a fenda estava agora
bem maior, dando passagem fácil para os dois homens. Provavelmente
haveriam de compreender o que estava acontecendo. E compreenderam
mesmo.
Gucky fez
seu aqua abaixar um pouco mais e meteu a mão na fenda. Sentiu logo
um braço que apalpava e o puxou para fora. Era McClears. O major
tinha os olhos meio abertos mas parecia não ver nada. Uma grande
bolha de ar saiu de sua boca e subiu rápida para a superfície.
— Depressa,
Marshall! Ele pode agüentar ainda dez segundos. Leve-o bem para
frente e depois para cima.
Marshall
pegou McClears que não reagia, nem percebia o que estava
acontecendo. Noir retransmitiu a ordem aos aquas. Marshall teve
dificuldade em segurar o corpo de McClears, de tão forte que era a
velocidade com que os aquas disparavam através do mar.
Gucky não
hesitou mais um segundo. Atravessou a estreita fenda, penetrando na
comporta e viu imediatamente o pobre Tifflor que tinha desistido de
fugir e já estava boiando de encontro ao teto, onde não havia mais
um centímetro cúbico de ar. Gucky deu um pulo e pegou o pé de
Tifflor. O peso do uniforme o fez descer um pouco. O mais rápido
possível, comprimiu Tifflor contra a fenda, saindo para o mar, onde
o aqua que servia a Gucky já estava esperando. O homem-peixe pegou o
corpo do tenente e saiu em disparada, sem se preocupar com Gucky.
Este, depois de hesitar um pouco, retornou para dentro da comporta.
Os dois
tópsidas que haviam enclausurado McClears e Tifflor no pequeno
dique, ainda estavam diante da porta, conversando. Depois de dez
minutos, a comporta externa devia ser fechada e esvaziada. Portanto
ainda sobrava tempo. Não perceberam que a roda de regulagem estava
girando, por mãos invisíveis. De repente a porta abriu. Entrou uma
golfada enorme de água que, envolvendo os dois guardas distraídos,
os arrastou.
Gucky
abriu também a porta externa, de forma que, em poucos instantes,
toda a parte inferior da estação estava submersa. Os sáurios que
ali se encontravam morreram afogados. Alguns, que conseguiram
escapar, levaram a trágica notícia para os oficiais que estavam
reunidos no andar superior em importante conselho de guerra.
A água
subiu até a altura da plataforma e assim a ilha metálica não podia
mais servir de base de operação.
Gucky
passou de novo pela fenda, atingiu o mar, e tentou sair dali o mais
rápido possível, pois o local, em volta da ilha, se tornava agora
perigoso.
Gucky
captou os impulsos de Marshall, que estava a duzentos metros e já
havia alcançado a superfície com McClears. Os tópsidas na
plataforma estavam agora demasiadamente ocupados para se preocuparem
com coisas que estavam acontecendo no mar. A ilha não iria,
propriamente, cair, mas três quartos dela estavam inundados.
Gucky
poderia se utilizar de seus dons telecinéticos, mas estava adorando
nadar debaixo d’água. McClears e Tifflor já estavam fora de
perigo, como lhe dizia nitidamente a mensagem telepática de
Marshall. Os aquas estavam fazendo tudo para que os dois resgatados
do castelo de vidro saíssem o mais depressa possível da zona
perigosa.
O
rato-castor se divertia mergulhando bem fundo, junto das plantas
marinhas. Deu de cara com um enorme peixe que ao vê-lo disparou
assustado.
E assim
foi que ele chegou duas horas mais tarde que os outros para o lugar
onde estava a Gazela. Havia tomado o seu muito desejado banho de mar,
mas não se havia molhado.
6
Perry
Rhodan estava conversando com Crest e Thora sobre a possibilidade de
uma colonização interestelar, quando um zunido muito agudo se fez
ouvir. Assustou-se um pouco, apertou depois o botão de seu aparelho
receptor de pulso.
— Aqui
fala Rhodan. O que há?
— Mensagem
urgente do sistema Beta senhor. Quer que eu a receba?
— Comunique-se
com Reginald Bell e espere. Vou atender.
Crest e
Thora viram-no sair correndo do local, antes que lhe pudessem fazer
uma pergunta. Levantaram-se para acompanhá-lo, pois estavam muito
interessados em saber o que acontecera a 272 anos-luz da Terra.
O elevador
levou Rhodan em cinco minutos à central de radiocomunicação. O
operador-chefe Eilman fez posição de sentido e anunciou:
— Major
Deringhouse, Centauro, sistema Beta, solicitou transmissão especial.
Distância duzentos e setenta e dois anos-luz.
— Meu
querido Eilman — disse Rhodan — você é o homem das notícias.
Só não compreendo bem por que repete tanto coisas já conhecidas.
De qualquer maneira é melhor do que inventar novas. Que há com
Deringhouse?
— Apresenta-se
exatamente dentro de trinta segundos.
Rhodan
sorriu e tomou lugar à mesa de controle. Neste instante, Bell entra
porta a dentro, cumprimentou Eilman com um aceno de mão e sentou-se
ao lado de Rhodan.
— Agora,
estou realmente ansioso.
— Não é
por menos — respondeu Rhodan. — Onde estará o sujeito?
— Vou
lhe puxar os pêlos — prometeu Bell, com o que se tornou claro que
falavam do Gucky, cuja ausência lhes era um problema desde a partida
dos dois cruzadores pesados.
— Espere
— recomendou Rhodan tranqüilo.
Acendeu
uma lâmpada verde à sua frente, ouvindo então uma voz desfigurada
no alto-falante:
— Aqui
fala Deringhouse. Estou chamando Terrânia.
Do outro
lado, estava Rhodan:
— Como é
bom ouvir sua voz, Deringhouse. Antes de você começar a falar,
diga-me uma coisa: você viu Gucky por algum lugar?
Pequeno
intervalo, depois veio a resposta de Deringhouse:
— Gucky
está conosco, senhor.
— Está
bem. Dê então as notícias. Os saltadores já se manifestaram?
— Como
posso entender a pergunta, senhor? Nós somos os “saltadores”.
Ao menos para os tópsidas. Além disso, os verdadeiros...
— Um
momento, Deringhouse, você falou tópsidas?
O major
começou seu relato. Rhodan e Bell ouviam compenetrados, sem
interrompê-lo uma vez sequer. No fim, resumiu seu ponto de vista:
— Este
foi o plano que cada um de nós dois elaborou separadamente, sem
combinação prévia. Eu presumo que o senhor concorde com nosso
ponto de vista. Naturalmente que seria muito simples destruir as
bases dos tópsidas e suas naves com o auxílio da Centauro e da
Terra, mas não lucraríamos muito com isto. Assim temos a
possibilidade de matar dois coelhos com uma só cajadada. Merece
atenção especial o fato de que o comandante-geral dos tópsidas, um
tal Al-Khor, há poucas horas atrás enviou uma mensagem de socorro
para Topsid. Pede auxílio ao ditador e soberano do Reino Estelar dos
Tópsidas, para salvar o sistema Beta do iminente ataque dos
saltadores. Este ditador está revoltado contra o pretendido ataque
dos saltadores e prometeu a Al-Khor de lhe enviar uma poderosa frota
de guerra. Estamos esperando por ela.
Rhodan
olhou para Bell, que fitava meio desconcertado o alto-falante, como
se esperasse do aparelho uma sugestão.
— Excelente,
Deringhouse — continuou Rhodan. — Se seu plano funcionar, e eu
aposto que vai funcionar, atingiremos nosso objetivo inicial, sem
movermos uma palha. Os saltadores, que atacarem, haverão de ver nas
espaçonaves dos terríveis e corajosos tópsidas as naves da Terra
ou de seus aliados. Mas os tópsidas têm plena razão quando
consideram os saltadores como saltadores mesmo, apenas desconhecem a
razão do seu ataque. Temos, porém, que evitar que não haja nenhuma
relação mais clara entre os dois adversários. Infelizmente não
recebi ainda nenhuma notícia sobre Talamon, o superpesado com quem
temos amizade. Não sei se vai tomar parte no ataque.
— Quais
são suas ordens, senhor? — perguntou Deringhouse.
Rhodan
começou a sorrir.
— Deve
esperar, Deringhouse, o melhor é vocês se retirarem para o terceiro
planeta e agir como se ele fosse a Terra. Quem sabe vocês conseguem
até atrair para lá os tópsidas. Assim este planeta terá maior
semelhança com a Terra.
— Entendido,
senhor. Ligarei novamente quando as coisas se desenrolarem mais.
— Aparecerei
logo por aí — prometeu Rhodan — para recebermos com alegria
nossos amigos. — Desta vez, os tópsidas são nossos aliados. É
pena que não saibam nada disto. Antes de desligar, uma pergunta,
Deringhouse: você deu ordem de prisão individual para o violador da
disciplina, Gucky?
Deringhouse
titubeou um pouco, depois falou:
— Sinto
muito, senhor, mas nós precisamos muito da ação do rato-castor. Se
quiser ser sincero, sem Gucky não teríamos conseguido nada. Posso
fazer uma observação?
— Claro
que sim — disse Rhodan, continuando a sorrir mais ainda.
Bell
acrescentou:
— Estou
curioso.
Podia-se
ouvir a respiração de Deringhouse.
— Não
se deve olhar para o caso de Gucky assim. Foi simples zelo pelo
dever, mas não um desrespeito ao regulamento por motivos inferiores.
É claro que chamei sua atenção para o erro. Mas depois se
comportou maravilhosamente, chegando mesmo a salvar a vida de
McClears e de Tifflor. Ninguém fora dele, poderia fazer isto.
Portanto, acho que se devia...
— Certo,
Deringhouse, diga a Gucky que ele está perdoado. No próximo
semestre, porém, não receberá cenoura. Quer dizer mais alguma
coisa, Deringhouse?
— Senhor,
acho que isto não causará transtorno a Gucky.
— Acho
que sim. Ele gosta muito de cenoura e vai sentir muita falta.
— Não
sei, tenho que confessar que perdi uma aposta...
Bell
começou a dar gargalhada. Estava bem por dentro destas apostas. Já
tinham custado a muita gente uma boa soma de dinheiro em cenouras e
rabanetes... e pontas de dedo paralisadas de tanto coçar pêlo de
animal.
— Está
certo — ria também Rhodan. — Que ele coma bastante, mas não
deixe comer demais e estragar o estômago, pois precisamos muito dele
contra os tópsidas e contra os saltadores. Até logo mais,
Deringhouse, saudações a todos os homens e a Gucky. Fim.
Do
depósito de víveres da Centauro, os robôs levaram caixas e mais
caixas de cenoura para a cabina de Gucky, onde o rato-castor estava
sentado no sofá como um verdadeiro paxá, enquanto o major
Deringhouse cumpria sua primeira hora de “coçagem”.
Quem
fizesse aposta com Gucky teria sempre cem por cento de certeza de que
ia perder.
* * *
* *
*
A
surpreendente descoberta de que os tópsidas, velhos inimigos da
Humanidade, tinham pontos de apoio no sistema Beta, foi incluída
estrategicamente na gigantesca manobra de camuflagem de Perry Rhodan.
Será
que os tópsidas continuarão o jogo, depois que as frotas dos
saltadores e dos aras aparecerem?
E
Topthor, que já viu com os próprios olhos o sol da Terra! Será que
ele não vai reconhecer, assim que vir o enorme sol Beta, que a
positrônica o levou a um alvo errado?
Em A
Morte da Terra, Topthor é a figura central de mais uma aventura de
Perry Rhodan.

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