quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-050 - Atlan, o Solitário do Tempo - K. H. Scheer [parte 1]


Autor
K. H. SCHEER



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN 

 Figura fascinante, este arcônida Atlan — possui o
ativador celular e os séculos são para ele como um só dia!



INÍCIO DO IMPÉRIO SOLAR: ANO 2040

Aqui começa uma nova série de aventuras de Perry Rhodan. São passados 60 anos após a guerra atômica que não houve e 56 anos após a falsa destruição da Terra.
Agora, o primeiro obstáculo que Rhodan tem pela frente é superar Atlan, o arcônida que, além de possuir o dom do sexto sentido, carrega o ativador celular...






= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Primeiro Administrador do Império Solar.

Atlan — Um arcônida que já se encontrava na Terra quando da quase deflagração da guerra atômica.

Tombe Gmuna — Jovem tenente de Terrânia.

General Peter Kosnow — Ministro da Defesa do Império Solar.

O sussurro tornou-se uma autêntica gargalhada. Alguém dizia que uma besteira tão grande jamais havia sido ouvida. Entrando na conversa uma voz frágil de mulher, a gargalhada terminou de repente.
Com licença? — perguntou um homem assustado. — Você está afirmando que isto é apenas uma sombra da verdade?
Havia irritação na voz feminina. Depois a gargalhada estrondosa continuou. Somente podia ser Hiob. Ninguém ria tão alto e por qualquer ninharia, como ele.
Conversa fiada — disse outra voz, mais objetiva.
Alucinação ou seja lá o que for. Devem ter sido obrigados a uma aterrissagem forçada. Vocês sabem como estas coisas acontecem por lá.
Ouviu-se novamente o gargalhar de Hiob. Se ao menos conseguisse dominar um pouco sua risada estrondosa e sem motivo! Nunca o pude suportar, muito menos agora. Era um tipo arredondado, de faces avermelhadas e olhos frios. Se, no meu setor, acontecia alguma coisa errada, Hiob Malvers estava certamente por trás dos bastidores.
Silêncio — disse eu furioso. — Diabo de gente, calem a boca! Primeiro, é completamente indiferente para nós se a aterrissagem foi voluntária ou não.
Está certo — resmungou Billy Plichter. — Bom, então comecemos tudo de novo. Como aconteceu, então, Olavo? Como é que pode ter dado tudo errado? Que que há, então, Olavo? Por que o negócio não está certo, Olavo... Olavo...!
O barulho aumentou. Tinha a impressão de que campainhas minúsculas começaram a tocar ao mesmo tempo dentro de minha cabeça. Escutava a minha resposta, apesar de não estar falando.
Olavo era eu. Sem dúvida nenhuma era meu nome que estavam gritando, constantemente, cada vez mais alto. Sentia que a dor de cabeça aumentava. Billy Plichter não tinha dó, não parava de insistir. E eu precisava de descanso e merecia o descanso.
Alguém começou a falar e demorei um pouco a compreender suas palavras. Vinham de minha própria boca. Queria rir, mas a dor não deixava.
Ao meu lado houve um ruído. O movimento que fizeram com minha coxa foi rápido. Um calor agradável invadiu meu corpo e fiquei admirado de que o médico me tivesse dado a injeção na presença de outras pessoas.
Fiquei com vergonha. Ali na sala estava Willy Fergusen. Como me poderiam dar uma injeção na presença deles? Certamente, viram minha coxa!
Diante dos meus olhos, pairava uma neblina afogueada e as dores no meu cérebro se transformaram em pontadas dolorosas. Não estava quase agüentando. Quando a minha visão ficou mais clara, percebi que Willy Fergusen não poderia ter estado na sala. Hiob estava rindo novamente, mas também ele não estava na sala. Na minha frente cintilava uma grande tela, bem clara.
Estava olhando admirado para o belo quadro colorido. Meus colaboradores conversavam sobre coisas que me eram muito familiares, estava no meio deles, e, paradoxalmente, encontrava-me aqui!
A tela ficou mais nítida de repente. Apareceu nela um relógio muito moderno para medição dos anos e alguém anunciou muito solenemente:
O tempo acabou, meu amo. Quando foi que alguém me chamou pela última vez de “meu amo”? Com muito esforço consegui virar a cabeça.
Como, por favor? — perguntei com muita dificuldade.
O tempo acabou, meu amo.
Era a mesma voz que penetrava no meu ouvido, desta vez, porém, com menos solenidade, mas com mais vibração metálica.
O rosto plástico de Rico se contraiu em rugas. Estava sorrindo. Levantei a cabeça em sua direção, até encontrar seus olhos parados.
Alô, é Rico.
Sim, é Rico, meu amo. O tempo acabou, estava obrigado a acordá-lo. Exatamente sessenta e nove anos, meu amo.
Não estava gostando desta expressão cerimoniosa. Não se devia permitir que robôs tão aperfeiçoados assim, repetissem a toda hora uma expressão tão servil. Mas o que havia com os tais sessenta e nove anos?
O pensamento sobre isso me deixou aturdido. Tudo se encontrava como sempre foi. A consciência ia chegando, porém com muita dor. Tentei me levantar. Rico interveio imediatamente. Senti a rigidez do aço sob o revestimento leve de plástico de sua mão. Consegui sufocar meus gemidos, mas minhas articulações pareciam enferrujadas. Acabei dando com os olhos novamente no relógio de medição dos anos, na tela.
Somente sessenta e nove anos? Tinha regulado pra setenta. Que houve então?
Rico era tão cabeçudo, como costumam ser todas as máquinas.
Somente sessenta e nove anos, meu amo — disse imóvel. — Recebi o telecomando exatamente há trinta e seis horas, três minutos e dezoito segundos.
Quer dizer então que desta vez levaram 36 horas para me acordar do biossono, uma espécie de hibernação letárgica.
Muito tempo, muito tempo”, dizia meu cérebro.
Perguntei, então, a mim mesmo, por que um pequeno erro de regulagem causou uma diferença de tempo de um ano? Certamente foi minha culpa. O negócio foi tão rápido naquela época, quando começaram, lá em cima, com a loucura da bomba atômica.
Surgiu uma unidade especial de som, que me deixou muito espantado. O grande relógio desapareceu da tela. O videotape havia realmente desempenhado sua função, pois pessoas do meu tipo tinham necessidade de impressões óticas e acústicas do tempo imediatamente anterior ao começo do processo do grande sono biomédico. Agora estava me lembrando de que eu mesmo havia colocado no aparelho de som e imagem a fita muito bem preparada do videotape.
O insistente gargalhar de Hiob me ajudou muito. Talvez sem ele, não teria recuperado minha alegria.
Apareceu na minha frente a cabeça plástica e redonda de Rico. Rico pertencia aos poucos robôs fabricados especialmente para o controle e a manutenção das máquinas da cúpula. Sua capacidade de falar era um jogo positronicologístico com um setor ultra-rápido de aproveitamento e conversão de dados matemáticos em sons inteligíveis. Era um meio para provocar os sentidos que paulatinamente iam recuperando a vivacidade natural. Mas agora sentia necessidade de falar, de me comunicar, mesmo que fosse com uma máquina positrônica. Além do mais, o vocabulário de Rico era mais ou menos reduzido.
À direita da cama, estava a ducha de ativação tele controlada pelo computador central. O local parecia uma sala de operação moderna, com a única diferença de que ali não existiam médicos. Os estimulantes bioquímicos que atuavam sobre minhas células, ou eram injetados ou transmitidos na forma das mais diversas radiações. Na minha cabeça, ainda estava a touca cintilante do gerador de vibrações que me havia transmitido aos sentidos as primeiras impressões.
Fiquei uma hora parado, pensando nos motivos que me levaram a este sono profundo.
Exatamente há 69 anos atrás, princípios de julho de 1971, os responsáveis pelos três blocos das grandes potências perderam a cabeça. Quando começaram a ser lançados da Ásia os primeiros mísseis atômicos, ainda consegui fugir para minha cúpula submarina. Escapei da estúpida e inútil destruição. O que aconteceu, porém, com todos os homens dos continentes da Terra? Só o fato de querer recordar o terrível destino de bilhões de homens, fria e objetivamente, era uma coisa insuportável. Neste momento, eu apenas sabia que era o único homem na Terra.
Homem! — disse eu rindo.
Rico se aproximou. Quando a aparelhagem mecânica da visão percebia alguma coisa, sua reação era instantânea. Continuei sentado, sentindo as mãos macias de plástico dos muitos braços da máquina de massagem. A fisioterapia era indispensável para que eu começasse a obter o controle sobre o corpo. Ainda levaria umas horas para poder me levantar. Uma corrente de ar comprimido jorrava dos poros da espuma de borracha. O colchão no qual, pela posição de meu corpo durante 69 anos, haviam surgido pequenas deformações, voltou a ficar normal.
Nu, ainda completamente enfraquecido e abalado por sentimentos confusos, fui levado por Rico para fora do quarto. Na antecâmara, um ambiente alegre e aconchegante, estava funcionando o órgão de cores. Desenhos suaves e tranqüilizantes inundavam as paredes, enquanto que sons maviosos de velhas composições penetravam em meus ouvidos.
Os poucos metros foram terrivelmente cansativos. Gemendo, deixei-me cair nas almofadas macias da poltrona vibratória, que continuava, de uma maneira muito mais suave, a massagem pesada feita pelas mãos do robô.
Rico ministrou-me os primeiros alimentos líquidos. Meu estômago ainda não aceitava substâncias sólidas. De qualquer maneira, ainda eram necessários três ou quatro dias para me sentir mais ou menos bem.
Rico puxou mais para perto o grande espelho colorido e ajeitou a cama. Eu não havia emagrecido, sinal de que meu corpo reagira muito bem à hibernação. Fiz um sinal com a mão e vi como ele empurrou o espelho para uma cavidade na parede. Aí, o robô ficou ao meu lado. O rosto de Rico seria muito mais humano se não fosse aquela palidez que parecia cera.
Amigo, não sei o que poderia dar em troca, se, em lugar de você, estivesse aqui um ser humano de verdade. Como vão as coisas lá em cima?
Muita água, meu amo — respondeu meu criado particular diplomaticamente.
Fiquei observando-o mais a fundo. Sua resposta teria sido um truque psicológico para dar vazão a sentimentos de ira reprimidos ou ele não sabia mesmo outra coisa?
Naturalmente muita água. Estamos no fundo do Oceano Atlântico, ao sul da ilha açoreana São Miguel. Aqui começam as célebres fossas oceânicas de uma profundidade enorme. Portanto, acima de nós, há somente água. No entanto, eu quero saber como está o continente europeu. Como é que terminou a guerra atômica na França e na Espanha.
Não sei, meu amo.
O sangue me subiu então à cabeça. O sorriso plástico, submisso, de Rico me pareceu de repente como uma máscara de escárnio.
Como assim!? — exclamei em tom interrogativo. Minhas cordas vocais começaram a funcionar corretamente. — Por que razão não se realizou a observação da superfície que eu determinei?
Por culpa sua, meu amo. Todas as três estações de televisão foram destruídas pelos aviões. Fomos informados ainda de que o lançamento dos satélites seria inútil e sem sentido, pois a atmosfera do planeta estava coalhada de máquinas de guerra. Recebemos realmente suas ordens.
Decepção, medo e cólera contra minha própria imprevidência se abateram contra mim. Naturalmente os robôs não poderiam ter agido de outra forma, depois que eu, apressado e estúpido, havia dado as instruções para observação dos continentes mais importantes. Após o plano a minha intenção era despertar, ficar a par de tudo o que acontecera durante a guerra.
Agora estava completamente aéreo, separado de tudo. Não era apenas o ente mais solitário da Terra, mas também o mais ignorante. Acima da abóbada de aço da minha cúpula pressurizada nas profundezas do Atlântico, pesava uma tremenda muralha de água. É claro que esta muralha me havia preservado das radiações mortíferas dos inúmeros reatores nucleares, mas isto não me adiantou nada.
Uma ânsia premente de ao menos uma palavra saída de boca humana me avassalou de tal maneira que comecei a me sentir mal.
Levantei-me gemendo e vi, sem querer, as horríveis cicatrizes da operação, espalhadas por todos os cantos do ventre. Não podia fazer mais nada contra isso, principalmente pelo fato de que perguntas curiosas me teriam sido mais do que desagradáveis. Além disso, onde estaria o médico para corrigir os encaroçamentos e rugas da horrível intervenção cirúrgica? Certamente não existiria mais em toda a Terra nenhum cirurgião à altura. A catástrofe atômica se abatera sobre a humanidade há 69 anos. Os médicos recém-formados na época, já deviam ter morrido há tempo, mesmo na hipótese de haverem sobrevivido, por circunstâncias milagrosas, à hecatombe geral, que foi a destruição do mundo.
Minhas roupas — disse eu ao robô.
Quais, meu amo?
As últimas que estava usando antes de hibernação.
O senhor ainda está muito fraco, meu amo. Agora é que começa a segunda fase da convalescença.
Tinha que ficar resignado. Não se pode fazer nada contra as conclusões lógicas de uma máquina tão preciosa e perfeita.
Com a ajuda de Rico, meus dedos atingiram as teclas do painel de controle e eu passei para uma confortável cadeira giratória. Ponto por ponto, fui percorrendo todas as fases da convalescença programada. Surgiam na grande tela as diversas seções de minha cúpula de aço à prova de bombas, pousada no fundo do mar. Aqui embaixo não se notou nada da guerra atômica. O fornecimento de energia foi sempre motivo de muita preocupação. Os reatores II e III estavam desligados e o I funcionava com apenas 20 por cento de sua força total.
Liguei a câmara de observação submarina. Os sensores infravermelhos, montados fora da cúpula mostravam uma imagem clara e penetrante de minha habitação no fundo do mar. Diante da escotilha de saída do lado sul, havia se amontoado uma grande quantidade de lodo. A abertura de cima, porém, estava normal. Fiz com que o reator I funcionasse com a velocidade total, para armazenar a energia suficiente para a projeção.
Pela primeira vez em 69 anos, as grandes máquinas estavam funcionando. Muito abaixo de meus pés, o ruído era tremendo. O ronco surdo me penetrava nos nervos. Lá fora, enorme quantidade de lodo estava se desprendendo da carcaça.
Um jato concentrado de uma pressão de quarenta mil toneladas por metro cúbico resolveu a questão. Em poucos minutos, a escotilha sul estava livre de qualquer sujeira.
Em seguida, procurei entrar em contato com meu satélite de televisionamento, através do rádio. O corpo esférico de apenas dois metros de diâmetro, antes do início da guerra atômica, estava em órbita de duas horas em torno da Terra. As instalações eram tão perfeitas que permitiam ampliações muito nítidas. Qualquer objeto do tamanho do corpo humano podia ser visto com clareza. Mas não consegui ligação nenhuma. O minicomputador embutido no satélite não se manifestou.
O TEK-1 foi lançado naquela época, meu amo — explicou Rico objetivamente. — Isto foi dois dias depois do início de sua hibernação. Um caça da defesa espacial soviética tomou nosso satélite como se fosse de origem americana.
Ouvia tudo sem dizer uma palavra. Fazia censuras a mim mesmo. Realmente cometi muitos erros quando, com medo louco de morrer, me escondi afobadamente nas profundezas do Atlântico.
Estava também separado da superfície. Informei-me no computador central sobre o estado de coisa em volta de mim. Se os continentes estavam contaminados pela radioatividade, então era muito natural que também as correntes marítimas contivessem partículas nocivas.
Nenhum perigo nas imediações contíguas com a cúpula — constatou o cérebro positrônico de minha residência submarina. Os hipersensores, no entanto, acusam grande fonte de radiação na fossa do arquipélago de Açores. O valor oscila, conforme a profundidade, entre seis e meio e trinta e cinco miliroentgen. Fim.
Suspirei abatido. Trinta e cinco miliroentgen era extremamente perigoso, pois encontrava-me a uma profundidade de 285 metros abaixo da superfície do mar.
Procurei fazer um quadro comparativo da intensidade de radiação entre o mar e a terra firme. Se lá embaixo já havia trinta e cinco miliroentgen, então mais para cima a coisa devia ser assustadora.
Que tipo de isótopos radioativos devem ter sido empregados? Conforme meus cálculos, a duração média do tempo de validade da maioria dos isótopos era tão curta, que não se podia mais contar com o poder de radiação após 69 anos.
Depois de ter examinado todas as instalações de minha cúpula, cheguei à conclusão de que devia subir à tona o mais depressa possível. Quem sabe ainda poderia ajudar muitos sobreviventes com alimentos e remédios? Encontrava-me com bastantes provisões. Poderia alimentar, vestir e instruir pelo menos mil pessoas. Em certo sentido, eu poderia dar à Humanidade uma nova possibilidade de ressurgimento. Tratava-se apenas de saber até que ponto a radiação nociva havia atingido os sobreviventes. Talvez teria havido mesmo grandes alterações, físicas ou psíquicas.
Com a cabeça cheia de preocupações, saí do setor de controle da minha cúpula de aço. Uma coisa estava certa, tinha que voltar à tona o mais depressa possível, para ver o que tinha acontecido aos homens.
Socorrer”! — Ecoava no meu cérebro. Estava pensando agora nos meus amigos e conhecidos. Mesmo Hiob Malvers estava entre eles, apesar de me ter deixado muitas vezes irritado. Apesar de tudo, eu tinha saudade de sua gargalhada estridente!

A composição das coisas necessárias para meu abrigo submarino foi questão de simples cálculo matemático ou de bom senso. Num local completamente ermo não há necessidade nem de armas especiais de ataque nem de meios sofisticados de defesa.
No entanto, fiz tudo para ter uma proteção eficiente contra a radioatividade e carreguei ao máximo o reator do meu uniforme de mergulho. O ativador oval estava pendurado na altura do peito nu. Além disso, estava com o traje pesado e incômodo de proteção contra radiações, com o qual esperava poder vencer a pesada camada de água. Minha única arma de defesa era o inofensivo raio psicológico, cujo efeito hipno-sugestivo era mais do que suficiente para demover qualquer adversário de suas intenções. Mais do que isto, não era necessário.
Na mochila do uniforme de elevada pressurização, carregava alimentos concentrados e medicamentos especiais para neutralização da radiação. Em caso de necessidade, teria que trazer para minha cúpula submarina os sobreviventes em estado grave, vítimas desta guerra maluca. Certamente, não poderia tratá-los convenientemente na superfície. Afinal de contas, não faria mal a ninguém deixar entrar em meu abrigo aqueles pobres coitados, mutilados ou abobalhados descendentes da geração da guerra. Certamente não me poderiam causar nenhum dano.
Fazia cinco dias que havia sido despertado pelo robô. Estava bem melhor e já podia tentar a subida para a tona. E examinei o funcionamento de todo o material. O dispositivo antigravitacional funcionava normalmente. Com a maior facilidade, levantei-me do chão da cúpula.
Rico, com seus olhos mecânicos, frios, acompanhava o que eu estava fazendo. Na grande tela, ainda se liam as notícias e as imagens, que há 69 anos eram coisas atuais.
Antes de deixar a cúpula, dirigi-me pela última vez para a grande tela. Li com pesar as notícias de um jornal americano, segundo o qual havia chegado à Lua o primeiro aparelho tripulado. O comandante da operação foi um tal de Perry Rhodan, major e piloto de provas da Força Espacial Americana.
Antes deste homem ter partido para a Lua, eu o examinei atentamente. Minha impressão foi a melhor possível. Apenas, naquela ocasião — isto foi a 15 de julho de 1971 — não podia imaginar que exatamente este major da Força Espacial Americana, haveria de provocar, ao menos indiretamente, a guerra atômica. Sei apenas que havia encontrado na Lua uma substância extremamente preciosa para os grandes grupos políticos da Terra. Rhodan se recusara a entregar o achado. Foi com sua nave lunar para o deserto de Gobi e aí começou tudo.
As últimas notícias falavam de envoltórios energéticos que Rhodan havia inventado para sua nave lunar. Pelo desenrolar precipitado dos acontecimentos, não tive mais oportunidade de constatar a veracidade das notícias, em parte sensacionais, dos jornais e da televisão.
Depois de uma rápida fuga do meu laboratório para construção de naves espaciais com propulsão atômica, ainda antes de entrar para a cúpula submarina, já haviam partido da Ásia os primeiros mísseis bélicos. Os nervos dos homens não agüentaram e instintivamente veio o golpe de morte: apertar o botão das armas nucleares. Todas as nações pensavam que Rhodan teria uma importância decisiva no desenvolvimento dos conhecimentos científicos. Todos se sentiam prejudicados e todos desconfiavam de Rhodan. Assim se chegou a uma guerra, que nada foi capaz de evitar.
Para escapar destas explosões, desci para as profundezas do mar. E agora estava diante da tela, tentando arranjar uma explicação lógica para minha hesitação. Adiava minha saída para fora do mar, embora meu instinto me dissesse que eu tinha de dar uma olhada lá fora. Atrás de mim, soou a cigarra. Poderia ir.
O último olhar foi para uma foto feita por teleobjetiva. Talvez tirada de uma nave espacial. Em meio à areia escaldante do deserto de Gobi, repousava um corpo brilhante, recoberto por um clarão fosforescente.
Olhava muito para aquela fotografia, tinha algo de misterioso. Pelo menos, para os meus conceitos, era inexplicável como um foguete primitivo daquele tipo, de combustível líquido, tinha de permanecer protegido por um envoltório energético.
Interrompi os pensamentos, pois não tinha mais sentido quebrar a cabeça por coisas tão afastadas no tempo. A Humanidade tinha cavado sua própria sepultura. O próprio major Perry Rhodan, que, sem o desejar, tinha botado lenha na fogueira, já devia estar morto há muito tempo. Naquela época, tinha mais ou menos 30 anos.
A tela apagou. Dei ainda algumas instruções para outras programações e me dirigi para a escotilha corrediça.
Rico não deu mais uma palavra. Estava sozinho na parte inferior da cúpula. Quem sabe também estaria sozinho lá em cima, fora d’água? Liguei o campo magnético de meu traje de proteção, esperando até que o dispositivo de sincronização desse o sinal verde de compensação de pressão e depois ligasse, automaticamente, os registros da água.
Das fendas do chão da câmara, a água se projetou espumante, sob alta pressão. Em questão de segundos, a comporta estava cheia. Cessou o ruído esfuziante do ar expulso pela forte entrada da água. Cessou também a correnteza e o redemoinho que me lançaram de encontro à parede da câmara, apesar do meu esforço em ficar onde estava. Aliás, aquela câmara fora planejada somente para saída de emergência. Meu envoltório de proteção funcionava muito bem. Podia me mover com facilidade e segurança dentro da cápsula cilíndrica, cuja reserva de ar seria suficiente para o trajeto até em cima.
Regulei meu dispositivo de gravitação no máximo, pois em virtude do impulso natural, fui lançado de encontro ao teto da comporta. Só depois de alguns minutos de uma regulagem mais calma, fiquei em bom equilíbrio. Sem nenhum ruído, a porta externa se abriu. Diante de mim estava o insondável fundo do mar, com seus misteriosos seres vivos.
Saí com cautela. Já que meu envoltório de proteção não era flexível, e sim rígido, seria impossível tentar nadar. Caminhava num trecho de chão macio, onde tinha que vencer apenas a resistência da água.
A luz infravermelha do meu capacete estava acesa. Por meio de óculos especiais, tinha uma boa visão que alcançava uns cem metros, como se lá embaixo também houvesse a luz do sol. Ainda renunciando ao transporte automático, atingi o planalto de uma grande rocha. Atrás de mim ainda se via a meia esfera de minha cúpula de aço, já mergulhando na escuridão.
Era um silêncio de rebentar os nervos. Com certeza, nunca houve homem em situação de tão completa solidão, como eu. Sessenta e nove anos sozinho.
A menos de 200 metros da câmara d’água, começava a grande fossa oceânica. Cheguei até sua beira e inclinei a cabeça para frente, fazendo com que a lanterna do capacete a iluminasse. Curioso, um peixe fosforescente chegou bem perto. Já sabia há muito tempo que a luz infravermelha era estimulante para muitos animais. Foi interessante ver quando seres vivos das formas mais esquisitas começaram a dançar, como que inebriados pela luz infravermelha. Tudo no maior silêncio. Silêncio este que agora passava de angustiante para alegre e colorido. Quem sabe era minha peculiaridade reagir desta forma, bem diferente da maioria dos homens?
Alô, caro amigo! — disse-lhe eu.
Ouvi minhas próprias palavras e botei na cabeça que o peixe me tinha compreendido. Começou a se balançar até que chegou a dar impressão de estar dançando. Por fim, tive que afastá-lo com um movimento rápido da mão, pois estava se aproximando demais do meu envoltório energético e eu não podia matá-lo. Num planeta destruído, nada era mais sagrado e precioso do que os últimos sinais de vida. Este pensamento me arrancou do grande abatimento.
Consultei os instrumentos. Estava tudo em ordem. Não havia nenhum indício de radioatividade. Talvez fossem apenas os sensores da cúpula que a podiam descobrir.
Liguei o circuito de turbulência, aumentei em 0,025 por cento o campo de gravitação e assim comecei a subir. Passei com facilidade por sobre a garganta da tremenda fossa. Sabia que meu corpo dava a impressão de um cilindro brilhante de alta intensidade. Os peixes se reuniam cada vez mais em torno de mim. Flutuei umas milhas para o norte, até encontrar o rochedo que subia íngreme. Era a base da ilha dos Açores. Daí em diante comecei a subir a cinco metros por segundo.
Outros peixes vieram. De vez em quando, meu refletor dava com pontas de rocha saliente. As primeiras plantas das regiões mais fundas foram aparecendo. Eram espécies desconhecidas da ciência. Os homens penetrando no espaço, sem conhecer bem os mistérios do próprio planeta.
Era tudo tão lindo, que estava sorrindo feliz, até que me veio à cabeça de novo a lembrança da catástrofe atômica, desaparecendo então o sorriso de meus lábios. Neste momento, a instalação de alarme do meu pequeno rastreador começou a soar. Sentia os impulsos que vinham de encontro ao envoltório de proteção. Este os acusava com exatidão devido a sua estabilidade estrutural. Nos primeiros instantes, estava escutando um pouco assustado o zumbido que vinha da instalação de alarme, cada vez mais forte. Cheguei até a pensar em monstros do fundo do mar que têm a faculdade de descobrir suas vítimas por meio de ondas ultra-sonoras. Era um recurso que a natureza dava a estes gigantes das trevas submarinas para encontrarem alimento.
Fiquei de espreita, preparado para o que desse e viesse. Aos poucos, cheguei à conclusão de que este zumbido jamais poderia vir de um peixe. Depois de algum tempo, não precisava mais da instalação de alarme. Os impulsos emitidos por um instrumento de orientação submarina de alta freqüência é que estava causando o tal ruído agudo.
Por algum tempo, fiquei como que petrificado. Estava acontecendo algo de incrível. Uma coisa que já não devia existir mais. O setor de recordações do meu subconsciente se manifestava. Gente como eu, jamais esquece estas coisas. Numa evidência berrante, lembrei-me de uma coisa que até então não me viera à cabeça.
Submarinos atômicos, sobreviventes! Cuidado!” — foi o que pensei.
De maneira completamente irracional, comecei a nadar com movimento descoordenado de pés e mãos. Meu frágil circuito de turbulência submarina me proporcionava uma velocidade de, no máximo, dez milhas por hora. Era suficiente para um avanço normal e agradável, nunca, porém para escapar de submarinos de propulsão nuclear.
Gotas de suor escorriam pela minha face, sinal de que meus sentidos estavam exaltados. Os impulsos recebidos estavam cada vez mais intensos. Antes de conseguir chegar à fenda mais próxima da rocha, fui atingido por refletores ofuscantes. Ouvia-se o ronco cavernoso de um forte motor. A partir daí, cheguei à conclusão de que meus meios de defesa eram ridículos.
Interrompi os movimentos de natação e fiquei olhando para o foco de luz intensa Talvez julgavam que eu fosse um animal aquático. Aliás, não podiam pensar de outro jeito, pois, fora de mim, não havia ninguém na Terra que possuísse um traje com proteção contra radioatividade.
Meu cérebro trabalhava com muita lógica. Lutar seria mera loucura, ainda mais que eu não tinha nada para atacar este peixe de aço. Também estaria fora de meus interesses ferir de qualquer maneira os sobreviventes da guerra nuclear. O que me interessava, realmente, era chegar são e salvo no interior do submarino.
Reduzi a velocidade, sabendo muito bem que, na melhor das hipóteses, meu corpo seria tomado como uma sombra. A carcaça do meu cilindro tinha um brilho muito forte para permitir uma visão suficiente do interior.
Meu sistema nervoso até que estava em ordem. Não sentia medo. O ronco do motor se tornava cada vez mais forte. Daí a uns segundos, começaria a dançar na frente da luz como os peixes atraídos pela claridade. Esperava, porém, que ninguém atirasse um arpão de pesca submarina contra o meu envoltório de proteção. Ainda sabia muito bem como era a pesca submarina antes da guerra. Fortes descargas elétricas seriam funestas para a estabilidade do envoltório de proteção.
Estavam me perseguindo, não havia dúvida. Uma vez ou outra, podia perceber os contornos de um pequeno submarino de águas profundas. Isto se dava quando conseguia fugir do refletor. Quando notei que estava próximo de uma caverna estreita e funda, já era tarde. Não se pode provocar um pescador, nem torná-lo desconfiado. Pode-se enganá-lo, mas não grosseiramente, como eu estava fazendo de modo inconsciente. Talvez pensassem que eu iria desaparecer imediatamente naquela caverna escura.
Ouviu-se um silvo curto e agudo.
Tiro de ar comprimido”, gritou-me meu sexto sentido. Fiquei parado, imóvel, à espera do choque. Não teria nenhum sentido procurar escapar de um tiro teledirigido.
Um fantasma flamejante veio certeiro ao meu encontro. Atingiu-me em cheio, exatamente depois de dois segundos e meio. Vi a ponta de contato do arpão de alta voltagem penetrar no meu envoltório e explodir. Um clarão de grande intensidade envolveu-me todo. No microrreator de minha mochila, começou o zumbido de alarme e a lâmpada vermelha de emergência do meu pulso direito começou a brilhar. Sobrecarga no circuito. Choques elétricos bem doloridos açoitavam-me o corpo. Curvei-me todo de dor, tentando desesperadamente ficar livre da câimbra nervosa.
Com o resto de força que me sobrou, apertei o botão para ligar o circuito de rádio dentro d’água, e com voz interrompida tentei falar no microfone preso no pescoço:
Parem com essa loucura. Eu me rendo sem resistência.
Certamente o receptor deles estava em outra freqüência. Quem poderia saber há quanto tempo estes homens estariam neste submarino, com o qual talvez teriam escapado da guerra nuclear?
Um segundo torpedo de alta voltagem atingiu-me novamente. Novas descargas e choques me arquearam novamente o corpo dolorido. O envoltório de proteção não existia mais. Não resistiu ao segundo impacto, maior que o primeiro.
Uma escuridão total me envolveu e para os meus ouvidos havia um bramido como se fossem águas a rolarem de uma cascata.
Cascatas, nas profundezas do mar? Ridículo.”
Foi um impulso do subconsciente que penetrou no meu cérebro já entorpecido. Claro que no meio do mar não podia haver queda d’água.

Parecia o ciciar do vento no cordame de um barco à vela. Antes de minha fuga para as profundezas do oceano, gostava muito de enfrentar as forças da natureza. Mas desta vez, não estava a bordo de um barco à vela, para ficar apreciando o movimento das nuvens Era diferente, muito diferente.
Eram quatro ou cinco. O que julgava ser o ciciar do vento, não era outra coisa senão palavras pronunciadas depressa e em voz alta.
Julgavam que estivesse ainda desacordado e eu fazia questão de que continuassem com esta impressão. Assim, percebi pela conversa deles que me julgaram realmente um peixe desconhecido, das profundezas do oceano, com uma fosforescência nunca vista. Atiraram contra mim arpões de pesca e no momento do rompimento do envoltório de proteção puxaram-me por raios de tração para a escotilha de pesca do submarino. Foi minha sorte, ou minha desgraça.
Num piscar de olhos, percebi que estava numa grande sala, sobre uma mesa. Talvez fosse um laboratório, onde os seres das profundezas do mar eram estudados.
Falavam inglês. Mas o assunto de sua conversa me deixava confuso. O setor especial de lógica do meu cérebro me dizia com toda insistência que os sobreviventes de uma guerra nuclear deviam se preocupar com outras coisas. Não deveriam mergulhar com um submarino especial nas profundezas do Atlântico, perto dos Açores, para ali curtirem as aventuras de uma pesca numa das maiores fossas do mar.
Se tivessem falado que esta pesca era para o sustento de suas vidas ou para a alimentação do povo, eu teria compreendido. Mas só por divertimento...
Estava deitado, completamente imóvel, quando dedos macios começaram a apalpar meu rosto e a nuca. Uma voz masculina, de timbre grosso, disse irritada:
Que droga! Não há sinal nenhum de brânquias. Não é apenas um animal de respiração pulmonar, mas simplesmente um homem.
Cubra-o — disse um outro. — Dora está chegando aí.
Puxaram um cobertor de lã para cobrir minha nudez. Sentia cócegas na pele banhada de suor e tive que fazer um esforço muito grande para não retirar a coberta de cima do estômago. Desde a última operação, esta parte do corpo me era muito sensível.
Ele já está acordado? — disse uma mulher, demasiadamente alta.
Um hálito quente atingiu meu rosto. O perfume de um cabelo bem tratado penetrou em minhas narinas. Daí em diante comecei a pensar que o negócio da guerra nuclear não poderia ter sido tão sério assim, como eu havia imaginado o tempo todo. Se já estavam fabricando perfumes tão caros assim...
Um jovem de classe, hein! — disse alguém em tom de zombaria. — Pelo menos uns oitenta e oito anos, figura de atleta, nenhuma grama de gordura a mais, cabeleira loura, como um deus nórdico.
Outros dois homens davam gargalhadas. No meu íntimo, estava começando a me envergonhar. Certamente era gente que não ligava muita importância à boa educação e às boas maneiras. Estavam me tratando como um animal precioso, sobre o qual podiam dizer a bobagem que quisessem.
Já estava com vontade de me levantar, quando aconteceu o que eu esperava instintivamente. Um homem, que chamaram de doutor, penetrou na sala.
Cumprimentou mui educadamente, mais ou menos como um jovem recém-formado em medicina cumprimenta pessoas ricas e muito influentes.
Ah! O senhor trouxe as radiografias? — perguntou o homem de voz grossa.
Claro, meu senhor. Aliás, muito esquisitas, devo dizer.
É um homem-peixe ou não? — perguntou a mulher impaciente.
De maneira alguma, minha senhora, mas também não é homem. Gostaria de mostrar-lhes as radiografias.
Passe para cá, logo — exclamou alguém deseducadamente.
Que diabo! Que é isto? Não tem costelas?
Senti que todos se afastaram de mim, receosos.
Deixe o revólver na cintura, por favor — disse a mulher. — Não pode ser tão perigoso assim. É maravilhoso. O senhor pode acordá-lo, doutor?
Dificilmente, em poucas horas, minha senhora. Recebeu choques fortes demais.
A mão de alguém tirou a coberta de meu peito. Devia ser o médico.
Olhe aqui a cicatriz, minha senhora.
Horrível — disse ela. — Eu sempre me interessei muito pela medicina. Quem foi o “remendão” que fez isso?
Não tenho idéia, minha senhora Trata-se aparentemente de operação do estômago.
Como aparentemente? — insistiu o homem de voz grossa. — O senhor é médico ou não? Deve, portanto saber se houve ou não operação no estômago.
O médico estava em apuros. E era para ficar, pois o pessoal era mesmo sem educação.
Senhor, com esta estrutura especial do esqueleto, não se pode fazer uma afirmação categórica. A caixa toráxica toda se compõe de chapas de osso contínuas e extremamente estáveis. Este... ah... este homem deve ser levado imediatamente para uma grande clínica. Minhas possibilidades são limitadas.
Quem? As possibilidades ou o senhor? — zombeteou o de voz grossa.
Meu amigo, vou lhe dizer uma coisa. Se isto não é nem um monstro, nem um ser humano, então o negócio é muito sério. Seu aparecimento torna-se mais do que esquisito.
Foi com envoltório energético, eu já disse.
É também minha opinião, John. Já lidei muito com campos energéticos. Parece mesmo que o sujeito não nasceu na Terra. Extremamente se assemelha muito conosco. Por dentro é muito diferente. Isto é um caso para o Departamento de Defesa Aérea. Sabe Deus o que nós acabamos de encontrar. Passe um rádio para o Ministério da Segurança, em Terrânia. Em caso de necessidade, a Administração também deve ser avisada. Eu quero ficar fora deste caso.
Mas, papai — disse a mulher aborrecida. — Talvez seja um animal raro das profundezas do mar. Imagine o que vai...
Bobagem — interrompeu o homem. — Que animal das profundezas o quê! Você vai fazer o que eu achar melhor. O sujeito será levado para o Departamento de Defesa Aérea. Capitão, interrompo aqui a excursão. Suba à tona e providencie o rádio para Terrânia. Devem nos mandar um aparelho bem rápido. Com isso acaba para mim todo o prazer do esporte submarino.
Continuaram discutindo, sem suspeitarem de que eu estava ouvindo cada palavra. A comichão foi se tornando insuportável na região das cicatrizes do estômago. Tinha vontade de coçar com todos os dedos.
Além disso, a situação estava ficando perigosa para mim. O homem de voz grossa parecia não somente o chefe de todo o submarino, mas principalmente um homem enérgico.
Devagar comecei a coordenar os pensamentos. Examinei os dados que havia anotado nesta longa conversa. Minha capacidade de raciocinar se recusava a aceitar o incrível. Meu cérebro parecia estar em greve. Sentia grande dificuldade para tirar a conclusão mais simples deste mundo.
Tudo dava a entender que lá em cima não tinha havido nenhuma guerra nuclear. Falou-se de uma Defesa Aérea, portanto deviam existir também naves espaciais.
Se era possível se dirigir a um Ministério da Segurança e solicitar um aparelho veloz, então tudo isso não significava outra coisa senão o fato de eu estar caindo num erro muito grande. Mas que tipo de erro? Tinha plena certeza de que, no momento de minha fuga, haviam sido lançados da Ásia os primeiros mísseis nucleares.
Será que este major da Força Aérea Americana teve alguma participação em tudo isso? De qualquer maneira, devia ter descoberto, em sua aterrissagem na Lua, coisas importantes, que eu desconhecia totalmente.
Perdeu 69 anos dormindo inutilmente, seu burro”, é o que me dizia meu sexto sentido.
Comecei então a pensar que talvez tivesse sido destruída apenas uma parte da Terra. O fato de o pessoal a bordo não ter falado nada a respeito, devia ser pelos longos anos já decorridos. Mas ainda assim, saía de minha cabeça um mau pressentimento: as cicatrizes de uma guerra nuclear não desaparecem totalmente em 69 anos.
Continuei a ouvir a conversa. Tudo que falavam era a meu respeito. Pude saber então tudo que aconteceu.
Vamos botar um ponto final em tudo isto — disse o chefe um pouco zangado. — Tenho bom faro para estas coisas. O Império Solar não pode permitir a presença de estranhos no planeta principal e este — senti um dedo bater no meu peito — e este sujeito não é daqui. Vá para a superfície, capitão. E você, John, está armado?
Tenho um revólver antigo — disse alguém hesitando.
É suficiente. Fique de guarda no laboratório de pesca e vigie os movimentos do rapaz. Ou você está com medo?
O homem de nome John confirmou afobadamente que não tinha medo nenhum. A mulher deu uma gargalhada estridente. Parecia histérica.
Muitos homens deixavam a sala. Ouvi um ruído metálico e em seguida um homem que praguejava em voz baixa. Depois foi o estalo de um cilindro de revólver. Aparentemente, tinha puxado para fora o tambor para saber se a arma estava carregada.
Por quanto tempo ainda ficará inconsciente? — perguntou John, gritando para os homens que se retiravam e o deixavam com o desconhecido.
Não obteve resposta. Fiquei sozinho com um homem de sistema nervoso, talvez, muito fraco.
Continuei calmo, respirando profundamente. Conhecia gente desse tipo de John. Com certeza ao primeiro movimento que eu fizesse, receberia uma bala no peito.
Desviei-me do assunto. Estava ainda soando no meu ouvido o sintagma “Império Solar”. Que significaria isto? Quando desapareci na minha cúpula, há 69 anos, havia na Terra três grandes potências. Não se podia pensar ainda num governo único para toda a Terra. E muito menos ainda, numa confederação política abrangendo o sistema, a que se pudesse dar o nome de “Império Solar”.
Sentia-me calmo e compenetrado. Gente do meu tipo recupera num instante a capacidade de raciocinar objetivamente. Estava bem claro que havia cometido um grande erro, provocado em última análise pelos meus conhecimentos deficientes da natureza humana. Quando, há 69 anos atrás, alguém apertou os botões dos mísseis nucleares, eu estava crente de que as demais pessoas normais também ficariam doidas e cometeriam o mesmo erro.
Mas me enganei. E porque tudo aconteceu assim, era fácil de se deduzir. Minhas ponderações se concentravam no nome de Perry Rhodan. Este piloto espacial era a chave para o grande enigma.
Esperei até que meu vigia ficasse mais calmo. Depois de alguns minutos, se encaminhou para a antepara. Ouvi-o manejando os pesados ferrolhos. A porta se abriu lentamente.
Levantei um pouco a cabeça. O primeiro olhar consciente abrangeu a sala. Era de fato um laboratório. John estava na porta entreaberta, olhando para fora. Usava camisa de mangas curtas e calças bem apertadas, em cuja cintura estava o revólver.
Tragam-me ao menos alguma coisa para comer — gritava o rapaz.
Alguém respondeu, mas tão baixo que não consegui entender. Minha primeira experiência deu resultado. Tinha absorvido bem o choque das radiações. À minha esquerda estava meu traje de proteção radioativa. Parece que examinaram tudo, mas não se deram por contentes. Na parte superior da perna direita do traje observei a saliência alongada da minha pistola hipno-psíquica. Não se deram ao trabalho de retirar as armas.
John continuava gritando. Acho que não tinha fome alguma. Queria é que alguém ficasse perto dele.
Sem nenhum ruído e rapidamente, saí da mesa. Com dois passos largos, estava atrás do rapaz magro. Pulei em suas costas, travando seus braços com minhas pernas. Podia ainda respirar, mas meus dedos que comprimiam fortemente à direita e à esquerda da laringe, impediam a passagem do sangue da artéria para o cérebro. Sem o menor movimento de reação, caiu e ficou inerte no chão. Depois de uns três minutos, voltaria a si. Eu não tinha, pois, tempo para perder.
Duas coisas aconteceram naquele instante. Primeiro, os possantes motores do submarino começaram a roncar e, a seguir, ouviram-se passos que se aproximavam.
Ao conseguir reconhecer o homem, a pistola hipno-psíquica já estava em minha mão. Foi atingido pelos raios finíssimos do radiador hipno-psíquico antes mesmo de notar o que se passava. Eu mesmo senti na cabeça a leve vibração da arma silenciosa que paralisava por uns instantes a atuação da vontade. Já estava então realizado o contato de transmissão para a vítima selecionada. Nem precisava falar, bastava que eu pensasse intensamente, e a pessoa obedecia.
O homem parou no meio da sala. Seus olhos pareciam de vidro.
Vá para o laboratório de pesca e fique lá esperando até que eu o chame! — foi o meu comando hipnótico.
Sem dizer uma palavra, pôs-se em movimento, passou pela minha frente e desapareceu no aposento contíguo. Esperei até que o outro, que estava inconsciente, voltasse a si. Recebeu a mesma ordem.
Meu radiador tinha um alcance de dois mil metros. Se regulasse o feixe de raios para uma extensão maior, seria possível cobrir uma ampla área num só disparo. Não estava pensando mesmo em ir de aposento em aposento, procurando um por um da tripulação, o que seria, aliás, muito perigoso. Regulei a arma para toda a extensão do submarino. Depois de alguns minutos foram chegando. Todos os tripulantes estavam sob meu comando. Na frente estava um homem corpulento, que eu julguei ser o da voz grossa. Atrás dele mais quatro pessoas, entre as quais uma jovem de cabelos tingidos de um verde-berrante.
Reuniram-se no laboratório, onde os prendi, dando-lhes a ordem de não saírem dali, por motivo algum.
Seminu, como estava, percorri o submarino. Atrás de um camarote de grande luxo, havia um salão com telas panorâmicas ligadas. O submarino já estava há muito em movimento, porém mantendo a profundidade de dois mil metros. Atrás do salão, estava o posto de comando. Ao lado, o alojamento da tripulação e o porão dos reatores e dos transformadores.
Ninguém olhou para mim, quando passava pelas diversas divisões do barco. Chegando ao posto de comando, fiquei de pé atrás do capitão. Era um senhor idoso, de cabelos brancos e pele muito branca.
Os timoneiros seguiam minhas ordens sem hesitação. O primeiro-oficial se dirigiu à calculadora para determinar a rota por mim indicada.
Siga pelo litoral de Portugal. Em frente ao Cabo Roca, pouse o submarino no fundo do mar. Qual é sua velocidade de cruzeiro?
Oitenta milhas marítimas, no máximo — respondeu o comandante, sem nenhuma flexão na voz.
Bem, mantenha a velocidade de setenta milhas e com o piloto automático.
As ligações foram feitas. Dos aparelhos da cabine de rádio, ouvia-se o ruído típico. O radar eletrônico acusou a presença de um outro submarino e a operação de desvio se deu automaticamente.
Um mapa luminoso anunciava que nos estávamos aproximando de uma linha de navegação submarina de intenso tráfego. Surgiam cada vez mais linhas vermelhas com indicação de profundidade. Isto comprovava novamente que eu estava mesmo enganado. Não havia nenhum indício de guerra nuclear.
Resolvi fazer uma pergunta meio fora do assunto.
Houve uma guerra nuclear em 1.971, em que a Terra foi devastada?
Não — respondeu o comandante com voz fria.
Qual é sua idade?
Sessenta e cinco anos.
Sua data de nascimento?
23 de abril de 1.975.
Quer dizer que estamos no ano 2.040?
Perfeitamente.
Como foi que não se chegou a uma guerra nuclear? Isto é ensinado nas escolas?
Sim. A Terceira Potência, sob a presidência de Perry Rhodan, impediu a eclosão da guerra, por intermédio da supertécnica dos arcônidas.
Senti que minhas pernas iam começar a tremer. Provavelmente meu rosto estava pálido como cera.
Técnica arcônida? — repeti com voz vacilante. — Quer dizer então que Perry Rhodan se aliou com os arcônidas? Em caso positivo, quando, como e onde foi isto, responda.
Ele estava sob a influência do meu radiador psicológico. Suas respostas tinham de ser absolutamente verdadeiras.
Perry Rhodan descobriu, depois da sua primeira aterrissagem na Lua, uma nave espacial de exploração de fabricação arcônida, que ali descera em pouso de emergência. Perry os ajudou e mais tarde foi auxiliado por eles. Impediu a guerra nuclear. Surgiu depois a Terceira Potência.
A informação foi inútil para mim, pois o homem só podia responder o que era perguntado expressamente. Deixei de lado um longo período.
Como está a Terra atualmente? Que é Perry Rhodan hoje? Que forma de governo vocês têm?
A Terra é grande, ampla e bela. Os desertos foram aproveitados e nós controlamos o tempo. Não existem mais doenças. Perry Rhodan é hoje o administrador-geral do Império Solar. O IS foi fundado em 1.990, depois de ter surgido o governo mundial.
Procurei uma cadeira para sentar. As revelações eram fortes demais. Tinha passado bobamente 69 anos na cúpula, enquanto a Terra fazia progressos incríveis.
Ainda fiquei fazendo perguntas por quase uma hora. Fiquei sabendo o suficiente.
Aquele piloto espacial, rude e ousado, tinha tido a coragem de enfrentar, outrora, as grandes potências. Depois, em empreendimentos espaciais que pareciam verdadeira loucura, foi arranjando poderosos cruzadores e belonaves, com os quais foi penetrando cuidadosamente na imensa Galáxia. Deve ter estado até em Árcon.
Com esta idéia, interrompeu-se a seqüência de meu pensamento. Desde quando podiam estes pequenos selvagens chegar até Árcon? Com uma única frota, eu teria tocado para o hiperespaço as poucas naves de Rhodan.
Como é que Rhodan foi recebido em Árcon? Sabe-se algo a respeito?
Sim, sabemos. O grande Império sob a soberania de Árcon se esfacelou. Atualmente Árcon é governado por um robô, por um cérebro positrônico. Os arcônidas são preguiçosos, degenerados, imprestáveis para a vida.
Meu subconsciente tomou conta de mim. Dei um salto e agarrei com as duas mãos a garganta do homem. Gritava como um doido. Como é que este sujeito se atrevia a falar assim dos arcônidas?
Não se defendeu, ao ser sacudido por mim. Só segundos depois é que me contive.
Não diga isto outra vez, nunca mais, ouviu?
Sim! — disse o homem apático. — Nunca mais.
Não fiz mais perguntas. Fui até a proa, onde estava o laboratório de pesca. Os homens me apresentaram os documentos, que examinei cuidadosamente.
Vinham dos Estados Unidos, um estado de federação, passando oficialmente por terranos. Não havia mais dúvida nenhuma de que este tal Rhodan havia realizado o sonho dos grandes idealistas do passado.
Mandei que os homens se apresentassem em fila e os fui examinando. Um deles, que se chamava Phil Holding, tinha mais ou menos a minha compleição. Mesmo no rosto, parecia comigo, embora houvesse diferenças marcantes. Na minha primeira saída lá fora, para a aparentemente supercivilizada Humanidade, eu teria que ser Phil Holding. Era diretor-comercial de uma fábrica de conservas de legumes.
Levei-o para sua cabina e pedi que me explicasse o uso de cada terno. Eram calças muito apertadas com paletós compridos em cores berrantes, classificadas por Phil como a última palavra da moda. Vesti-me e me olhei no espelho. Não havia tanta diferença assim da moda de outrora.
Daí para frente, meu plano já estava bem delineado. Primeiramente tinha que procurar uma boa livraria e estudar a história da Terra nos últimos 69 anos. Utilizando-me da memória fotográfica, seria um trabalho para 24 horas.
Nesse ínterim, o submarino, com sua tripulação, desapareceria. Informei-me com o primeiro-oficial sobre o estoque de provisões. Era mais do que suficiente. Tinham alimentos para quatro semanas. Água potável e ar eram produzidos por máquinas robotizadas.
Portanto, podia dar-lhes ordem de permanecerem quatro semanas nas profundezas do oceano. Só poderiam vir à tona após este período. Afinal de contas, não podia matá-los de fome.
Atingimos o litoral português após cautelosas manobras. Reuni no grande salão toda a tripulação e os passageiros. Utilizando-me ainda do radiador hipno-psíquico, dei as últimas instruções. Ficariam parados no local e na profundidade determinados, até que acabassem os alimentos. Depois disso deveriam emergir e esquecer o incidente.
Sem fazer nenhuma objeção, retiraram-se para seus abrigos. Examinei mais uma vez as instalações robotizadas do barco. Achei que estavam em ordem.
Vesti o terno que Phil me recomendou como o mais elegante. Seus documentos passaram para minha nova carteira. O dinheiro abundante me era desconhecido. Eram cédulas laváveis de um plástico de alta qualidade. Microfios embutidos imantados com impulsos magnéticos tornavam a falsificação quase impossível. Havia acabado o tempo que o mundo tinha uma quantidade enorme de moedas diferentes. Em toda a Terra, como também em todo o sistema solar, ou Império Solar, como era o nome, funcionava uma única moeda — o solar. Um solar tinha cem sóis. E o seu poder aquisitivo devia ser bem elevado, pois, como me dizia Phil, com apenas cinco sóis se podia comprar um maço de vinte cigarros, da melhor marca. Portanto, o vício do cigarro ainda perdurava. Retirei dois mil solares para mim e dei-lhe um recibo. O dinheiro seria pago depois ou depositado no nome de Phil Holding.
Agora teria de mergulhar.
Antes de vestir o traje de proteção submarina em cima de meu terno, mandei que o grumete cortasse meu cabelo. Minha cabeleira comprida, que durante 69 anos não viu tesoura, ia desaparecendo. Estava agora com os cabelos aparados e com uma leve ondulação. Aplicou-me também um creme para erradicar a barba. Parecia já mais civilizado. Surpreendi-me sorrindo diante do espelho. A jornada até a tona parecia muito interessante. As rações e os medicamentos não estavam mais na mochila.
Assim equipado, deixei o submarino através da escotilha de pesca. Depois de emergir, ainda fiquei boiando, esperando que ficasse um pouco mais escuro. Estava bem próximo do litoral.
Por trás do Cabo da Roca, se via o clarão da iluminação noturna de Lisboa. Uma sensação maravilhosa de segurança, de libertação de imagens angustiantes e de viver uma nova aventura, tomou conta de mim.
Não houve guerra nenhuma. Melhor ainda. Pisei em terra, perto de um pequeno bosque, quase à beira da estrada. Escondi meu traje de mergulho numa cavidade na desembocadura de um riacho. Minha única arma era ainda o radiador hipno-psíquico. No entanto, já tinha tomado a resolução de, logo após a escapada para Lisboa, voltar para minha cúpula submarina, para os últimos preparativos.
Fui a pé até o caminho e consegui que um carro parasse para mim. Um carro de construção esquisita. O fornecimento de energia era provavelmente regulado por uma espécie de banco de carga.
O motorista português acreditou na história que lhe contei e me levou. Em questão de quinze minutos, fazíamos as belas curvas das auto-estradas da capital. Ali eu tive as primeiras impressões das grandes realizações que se efetuaram nestes 69 anos.
Agradeci muito e saltei em frente a um hotel, num grande arranha-céu. A recepção era totalmente robotizada. Um autômato, de sorriso permanente no rosto de plástico, perguntava apenas pelo nome do hóspede. Quarto 123, foi a resposta eletrônica. Depois que o autômato reagiu normalmente ao toque da palma da minha mão, fiquei sabendo que, sem a minha vontade, se registraram novas vibrações.
Bobo!” foi a reação do meu sexto sentido, contra mim mesmo.
Fiquei parado, refletindo no luxuoso salão. De cabeça fria, fiquei pensando que no espaço de duas horas já havia cometido duas burrices. Talvez, meu instinto que jamais se enganava, ainda não estava bem apto para funcionar. Quem sabe ainda sentia os efeitos da longa hibernação. Podia haver várias razões.

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