Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Figura
fascinante, este arcônida Atlan — possui o
ativador
celular e os séculos são para ele como um só dia!
INÍCIO
DO IMPÉRIO SOLAR: ANO 2040
Aqui
começa uma nova série de aventuras de Perry Rhodan. São passados
60 anos após a guerra atômica que não houve e 56 anos após a
falsa destruição da Terra.
Agora,
o primeiro obstáculo que Rhodan tem pela frente é superar Atlan, o
arcônida que, além de possuir o dom do sexto sentido, carrega o
ativador celular...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Primeiro Administrador do Império Solar.
Atlan
— Um arcônida que já se encontrava na Terra quando da quase
deflagração da guerra atômica.
Tombe
Gmuna
— Jovem tenente de Terrânia.
General
Peter
Kosnow
— Ministro da Defesa do Império Solar.
O sussurro
tornou-se uma autêntica gargalhada. Alguém dizia que uma besteira
tão grande jamais havia sido ouvida. Entrando na conversa uma voz
frágil de mulher, a gargalhada terminou de repente.
— Com
licença? — perguntou um homem assustado. — Você está afirmando
que isto é apenas uma sombra da verdade?
Havia
irritação na voz feminina. Depois a gargalhada estrondosa
continuou. Somente podia ser Hiob. Ninguém ria tão alto e por
qualquer ninharia, como ele.
— Conversa
fiada — disse outra voz, mais objetiva.
— Alucinação
ou seja lá o que for. Devem ter sido obrigados a uma aterrissagem
forçada. Vocês sabem como estas coisas acontecem por lá.
Ouviu-se
novamente o gargalhar de Hiob. Se ao menos conseguisse dominar um
pouco sua risada estrondosa e sem motivo! Nunca o pude suportar,
muito menos agora. Era um tipo arredondado, de faces avermelhadas e
olhos frios. Se, no meu setor, acontecia alguma coisa errada, Hiob
Malvers estava certamente por trás dos bastidores.
— Silêncio
— disse eu furioso. — Diabo de gente, calem a boca! Primeiro, é
completamente indiferente para nós se a aterrissagem foi voluntária
ou não.
— Está
certo — resmungou Billy Plichter. — Bom, então comecemos tudo de
novo. Como aconteceu, então, Olavo? Como é que pode ter dado tudo
errado? Que que há, então, Olavo? Por que o negócio não está
certo, Olavo... Olavo...!
O barulho
aumentou. Tinha a impressão de que campainhas minúsculas começaram
a tocar ao mesmo tempo dentro de minha cabeça. Escutava a minha
resposta, apesar de não estar falando.
Olavo era
eu. Sem dúvida nenhuma era meu nome que estavam gritando,
constantemente, cada vez mais alto. Sentia que a dor de cabeça
aumentava. Billy Plichter não tinha dó, não parava de insistir. E
eu precisava de descanso e merecia o descanso.
Alguém
começou a falar e demorei um pouco a compreender suas palavras.
Vinham de minha própria boca. Queria rir, mas a dor não deixava.
Ao meu
lado houve um ruído. O movimento que fizeram com minha coxa foi
rápido. Um calor agradável invadiu meu corpo e fiquei admirado de
que o médico me tivesse dado a injeção na presença de outras
pessoas.
Fiquei com
vergonha. Ali na sala estava Willy Fergusen. Como me poderiam dar uma
injeção na presença deles? Certamente, viram minha coxa!
Diante dos
meus olhos, pairava uma neblina afogueada e as dores no meu cérebro
se transformaram em pontadas dolorosas. Não estava quase agüentando.
Quando a minha visão ficou mais clara, percebi que Willy Fergusen
não poderia ter estado na sala. Hiob estava rindo novamente, mas
também ele não estava na sala. Na minha frente cintilava uma grande
tela, bem clara.
Estava
olhando admirado para o belo quadro colorido. Meus colaboradores
conversavam sobre coisas que me eram muito familiares, estava no meio
deles, e, paradoxalmente, encontrava-me aqui!
A tela
ficou mais nítida de repente. Apareceu nela um relógio muito
moderno para medição dos anos e alguém anunciou muito solenemente:
— O
tempo acabou, meu amo. Quando foi que alguém me chamou pela última
vez de “meu
amo”?
Com muito esforço consegui virar a cabeça.
— Como,
por favor? — perguntei com muita dificuldade.
— O
tempo acabou, meu amo.
Era a
mesma voz que penetrava no meu ouvido, desta vez, porém, com menos
solenidade, mas com mais vibração metálica.
O rosto
plástico de Rico se contraiu em rugas. Estava sorrindo. Levantei a
cabeça em sua direção, até encontrar seus olhos parados.
— Alô,
é Rico.
— Sim, é
Rico, meu amo. O tempo acabou, estava obrigado a acordá-lo.
Exatamente sessenta e nove anos, meu amo.
Não
estava gostando desta expressão cerimoniosa. Não se devia permitir
que robôs tão aperfeiçoados assim, repetissem a toda hora uma
expressão tão servil. Mas o que havia com os tais sessenta e nove
anos?
O
pensamento sobre isso me deixou aturdido. Tudo se encontrava como
sempre foi. A consciência ia chegando, porém com muita dor. Tentei
me levantar. Rico interveio imediatamente. Senti a rigidez do aço
sob o revestimento leve de plástico de sua mão. Consegui sufocar
meus gemidos, mas minhas articulações pareciam enferrujadas. Acabei
dando com os olhos novamente no relógio de medição dos anos, na
tela.
— Somente
sessenta e nove anos? Tinha regulado pra setenta. Que houve então?
Rico era
tão cabeçudo, como costumam ser todas as máquinas.
— Somente
sessenta e nove anos, meu amo — disse imóvel. — Recebi o
telecomando exatamente há trinta e seis horas, três minutos e
dezoito segundos.
Quer dizer
então que desta vez levaram 36 horas para me acordar do biossono,
uma espécie de hibernação letárgica.
“Muito
tempo, muito tempo”,
dizia meu cérebro.
Perguntei,
então, a mim mesmo, por que um pequeno erro de regulagem causou uma
diferença de tempo de um ano? Certamente foi minha culpa. O negócio
foi tão rápido naquela época, quando começaram, lá em cima, com
a loucura da bomba atômica.
Surgiu uma
unidade especial de som, que me deixou muito espantado. O grande
relógio desapareceu da tela. O videotape havia realmente
desempenhado sua função, pois pessoas do meu tipo tinham
necessidade de impressões óticas e acústicas do tempo
imediatamente anterior ao começo do processo do grande sono
biomédico. Agora estava me lembrando de que eu mesmo havia colocado
no aparelho de som e imagem a fita muito bem preparada do videotape.
O
insistente gargalhar de Hiob me ajudou muito. Talvez sem ele, não
teria recuperado minha alegria.
Apareceu
na minha frente a cabeça plástica e redonda de Rico. Rico pertencia
aos poucos robôs fabricados especialmente para o controle e a
manutenção das máquinas da cúpula. Sua capacidade de falar era um
jogo positronicologístico com um setor ultra-rápido de
aproveitamento e conversão de dados matemáticos em sons
inteligíveis. Era um meio para provocar os sentidos que
paulatinamente iam recuperando a vivacidade natural. Mas agora sentia
necessidade de falar, de me comunicar, mesmo que fosse com uma
máquina positrônica. Além do mais, o vocabulário de Rico era mais
ou menos reduzido.
À direita
da cama, estava a ducha de ativação tele controlada pelo computador
central. O local parecia uma sala de operação moderna, com a única
diferença de que ali não existiam médicos. Os estimulantes
bioquímicos que atuavam sobre minhas células, ou eram injetados ou
transmitidos na forma das mais diversas radiações. Na minha cabeça,
ainda estava a touca cintilante do gerador de vibrações que me
havia transmitido aos sentidos as primeiras impressões.
Fiquei uma
hora parado, pensando nos motivos que me levaram a este sono
profundo.
Exatamente
há 69 anos atrás, princípios de julho de 1971, os responsáveis
pelos três blocos das grandes potências perderam a cabeça. Quando
começaram a ser lançados da Ásia os primeiros mísseis atômicos,
ainda consegui fugir para minha cúpula submarina. Escapei da
estúpida e inútil destruição. O que aconteceu, porém, com todos
os homens dos continentes da Terra? Só o fato de querer recordar o
terrível destino de bilhões de homens, fria e objetivamente, era
uma coisa insuportável. Neste momento, eu apenas sabia que era o
único homem na Terra.
— Homem!
— disse eu rindo.
Rico se
aproximou. Quando a aparelhagem mecânica da visão percebia alguma
coisa, sua reação era instantânea. Continuei sentado, sentindo as
mãos macias de plástico dos muitos braços da máquina de massagem.
A fisioterapia era indispensável para que eu começasse a obter o
controle sobre o corpo. Ainda levaria umas horas para poder me
levantar. Uma corrente de ar comprimido jorrava dos poros da espuma
de borracha. O colchão no qual, pela posição de meu corpo durante
69 anos, haviam surgido pequenas deformações, voltou a ficar
normal.
Nu, ainda
completamente enfraquecido e abalado por sentimentos confusos, fui
levado por Rico para fora do quarto. Na antecâmara, um ambiente
alegre e aconchegante, estava funcionando o órgão de cores.
Desenhos suaves e tranqüilizantes inundavam as paredes, enquanto que
sons maviosos de velhas composições penetravam em meus ouvidos.
Os poucos
metros foram terrivelmente cansativos. Gemendo, deixei-me cair nas
almofadas macias da poltrona vibratória, que continuava, de uma
maneira muito mais suave, a massagem pesada feita pelas mãos do
robô.
Rico
ministrou-me os primeiros alimentos líquidos. Meu estômago ainda
não aceitava substâncias sólidas. De qualquer maneira, ainda eram
necessários três ou quatro dias para me sentir mais ou menos bem.
Rico puxou
mais para perto o grande espelho colorido e ajeitou a cama. Eu não
havia emagrecido, sinal de que meu corpo reagira muito bem à
hibernação. Fiz um sinal com a mão e vi como ele empurrou o
espelho para uma cavidade na parede. Aí, o robô ficou ao meu lado.
O rosto de Rico seria muito mais humano se não fosse aquela palidez
que parecia cera.
— Amigo,
não sei o que poderia dar em troca, se, em lugar de você, estivesse
aqui um ser humano de verdade. Como vão as coisas lá em cima?
— Muita
água, meu amo — respondeu meu criado particular diplomaticamente.
Fiquei
observando-o mais a fundo. Sua resposta teria sido um truque
psicológico para dar vazão a sentimentos de ira reprimidos ou ele
não sabia mesmo outra coisa?
— Naturalmente
muita água. Estamos no fundo do Oceano Atlântico, ao sul da ilha
açoreana São Miguel. Aqui começam as célebres fossas oceânicas
de uma profundidade enorme. Portanto, acima de nós, há somente
água. No entanto, eu quero saber como está o continente europeu.
Como é que terminou a guerra atômica na França e na Espanha.
— Não
sei, meu amo.
O sangue
me subiu então à cabeça. O sorriso plástico, submisso, de Rico me
pareceu de repente como uma máscara de escárnio.
— Como
assim!? — exclamei em tom interrogativo. Minhas cordas vocais
começaram a funcionar corretamente. — Por que razão não se
realizou a observação da superfície que eu determinei?
— Por
culpa sua, meu amo. Todas as três estações de televisão foram
destruídas pelos aviões. Fomos informados ainda de que o lançamento
dos satélites seria inútil e sem sentido, pois a atmosfera do
planeta estava coalhada de máquinas de guerra. Recebemos realmente
suas ordens.
Decepção,
medo e cólera contra minha própria imprevidência se abateram
contra mim. Naturalmente os robôs não poderiam ter agido de outra
forma, depois que eu, apressado e estúpido, havia dado as instruções
para observação dos continentes mais importantes. Após o plano a
minha intenção era despertar, ficar a par de tudo o que acontecera
durante a guerra.
Agora
estava completamente aéreo, separado de tudo. Não era apenas o ente
mais solitário da Terra, mas também o mais ignorante. Acima da
abóbada de aço da minha cúpula pressurizada nas profundezas do
Atlântico, pesava uma tremenda muralha de água. É claro que esta
muralha me havia preservado das radiações mortíferas dos inúmeros
reatores nucleares, mas isto não me adiantou nada.
Uma ânsia
premente de ao menos uma palavra saída de boca humana me avassalou
de tal maneira que comecei a me sentir mal.
Levantei-me
gemendo e vi, sem querer, as horríveis cicatrizes da operação,
espalhadas por todos os cantos do ventre. Não podia fazer mais nada
contra isso, principalmente pelo fato de que perguntas curiosas me
teriam sido mais do que desagradáveis. Além disso, onde estaria o
médico para corrigir os encaroçamentos e rugas da horrível
intervenção cirúrgica? Certamente não existiria mais em toda a
Terra nenhum cirurgião à altura. A catástrofe atômica se abatera
sobre a humanidade há 69 anos. Os médicos recém-formados na época,
já deviam ter morrido há tempo, mesmo na hipótese de haverem
sobrevivido, por circunstâncias milagrosas, à hecatombe geral, que
foi a destruição do mundo.
— Minhas
roupas — disse eu ao robô.
— Quais,
meu amo?
— As
últimas que estava usando antes de hibernação.
— O
senhor ainda está muito fraco, meu amo. Agora é que começa a
segunda fase da convalescença.
Tinha que
ficar resignado. Não se pode fazer nada contra as conclusões
lógicas de uma máquina tão preciosa e perfeita.
Com a
ajuda de Rico, meus dedos atingiram as teclas do painel de controle e
eu passei para uma confortável cadeira giratória. Ponto por ponto,
fui percorrendo todas as fases da convalescença programada. Surgiam
na grande tela as diversas seções de minha cúpula de aço à prova
de bombas, pousada no fundo do mar. Aqui embaixo não se notou nada
da guerra atômica. O fornecimento de energia foi sempre motivo de
muita preocupação. Os reatores II e III estavam desligados e o I
funcionava com apenas 20 por cento de sua força total.
Liguei a
câmara de observação submarina. Os sensores infravermelhos,
montados fora da cúpula mostravam uma imagem clara e penetrante de
minha habitação no fundo do mar. Diante da escotilha de saída do
lado sul, havia se amontoado uma grande quantidade de lodo. A
abertura de cima, porém, estava normal. Fiz com que o reator I
funcionasse com a velocidade total, para armazenar a energia
suficiente para a projeção.
Pela
primeira vez em 69 anos, as grandes máquinas estavam funcionando.
Muito abaixo de meus pés, o ruído era tremendo. O ronco surdo me
penetrava nos nervos. Lá fora, enorme quantidade de lodo estava se
desprendendo da carcaça.
Um jato
concentrado de uma pressão de quarenta mil toneladas por metro
cúbico resolveu a questão. Em poucos minutos, a escotilha sul
estava livre de qualquer sujeira.
Em
seguida, procurei entrar em contato com meu satélite de
televisionamento, através do rádio. O corpo esférico de apenas
dois metros de diâmetro, antes do início da guerra atômica, estava
em órbita de duas horas em torno da Terra. As instalações eram tão
perfeitas que permitiam ampliações muito nítidas. Qualquer objeto
do tamanho do corpo humano podia ser visto com clareza. Mas não
consegui ligação nenhuma. O minicomputador embutido no satélite
não se manifestou.
— O
TEK-1 foi lançado naquela época, meu amo — explicou Rico
objetivamente. — Isto foi dois dias depois do início de sua
hibernação. Um caça da defesa espacial soviética tomou nosso
satélite como se fosse de origem americana.
Ouvia tudo
sem dizer uma palavra. Fazia censuras a mim mesmo. Realmente cometi
muitos erros quando, com medo louco de morrer, me escondi
afobadamente nas profundezas do Atlântico.
Estava
também separado da superfície. Informei-me no computador central
sobre o estado de coisa em volta de mim. Se os continentes estavam
contaminados pela radioatividade, então era muito natural que também
as correntes marítimas contivessem partículas nocivas.
— Nenhum
perigo nas imediações contíguas com a cúpula — constatou o
cérebro positrônico de minha residência submarina. Os
hipersensores, no entanto, acusam grande fonte de radiação na fossa
do arquipélago de Açores. O valor oscila, conforme a profundidade,
entre seis e meio e trinta e cinco miliroentgen. Fim.
Suspirei
abatido. Trinta e cinco miliroentgen era extremamente perigoso, pois
encontrava-me a uma profundidade de 285 metros abaixo da superfície
do mar.
Procurei
fazer um quadro comparativo da intensidade de radiação entre o mar
e a terra firme. Se lá embaixo já havia trinta e cinco
miliroentgen, então mais para cima a coisa devia ser assustadora.
Que tipo
de isótopos radioativos devem ter sido empregados? Conforme meus
cálculos, a duração média do tempo de validade da maioria dos
isótopos era tão curta, que não se podia mais contar com o poder
de radiação após 69 anos.
Depois de
ter examinado todas as instalações de minha cúpula, cheguei à
conclusão de que devia subir à tona o mais depressa possível. Quem
sabe ainda poderia ajudar muitos sobreviventes com alimentos e
remédios? Encontrava-me com bastantes provisões. Poderia alimentar,
vestir e instruir pelo menos mil pessoas. Em certo sentido, eu
poderia dar à Humanidade uma nova possibilidade de ressurgimento.
Tratava-se apenas de saber até que ponto a radiação nociva havia
atingido os sobreviventes. Talvez teria havido mesmo grandes
alterações, físicas ou psíquicas.
Com a
cabeça cheia de preocupações, saí do setor de controle da minha
cúpula de aço. Uma coisa estava certa, tinha que voltar à tona o
mais depressa possível, para ver o que tinha acontecido aos homens.
“Socorrer”!
— Ecoava no meu cérebro. Estava pensando agora nos meus amigos e
conhecidos. Mesmo Hiob Malvers estava entre eles, apesar de me ter
deixado muitas vezes irritado. Apesar de tudo, eu tinha saudade de
sua gargalhada estridente!
A
composição das coisas necessárias para meu abrigo submarino foi
questão de simples cálculo matemático ou de bom senso. Num local
completamente ermo não há necessidade nem de armas especiais de
ataque nem de meios sofisticados de defesa.
No
entanto, fiz tudo para ter uma proteção eficiente contra a
radioatividade e carreguei ao máximo o reator do meu uniforme de
mergulho. O ativador oval estava pendurado na altura do peito nu.
Além disso, estava com o traje pesado e incômodo de proteção
contra radiações, com o qual esperava poder vencer a pesada camada
de água. Minha única arma de defesa era o inofensivo raio
psicológico, cujo efeito hipno-sugestivo era mais do que suficiente
para demover qualquer adversário de suas intenções. Mais do que
isto, não era necessário.
Na mochila
do uniforme de elevada pressurização, carregava alimentos
concentrados e medicamentos especiais para neutralização da
radiação. Em caso de necessidade, teria que trazer para minha
cúpula submarina os sobreviventes em estado grave, vítimas desta
guerra maluca. Certamente, não poderia tratá-los convenientemente
na superfície. Afinal de contas, não faria mal a ninguém deixar
entrar em meu abrigo aqueles pobres coitados, mutilados ou
abobalhados descendentes da geração da guerra. Certamente não me
poderiam causar nenhum dano.
Fazia
cinco dias que havia sido despertado pelo robô. Estava bem melhor e
já podia tentar a subida para a tona. E examinei o funcionamento de
todo o material. O dispositivo antigravitacional funcionava
normalmente. Com a maior facilidade, levantei-me do chão da cúpula.
Rico, com
seus olhos mecânicos, frios, acompanhava o que eu estava fazendo. Na
grande tela, ainda se liam as notícias e as imagens, que há 69 anos
eram coisas atuais.
Antes de
deixar a cúpula, dirigi-me pela última vez para a grande tela. Li
com pesar as notícias de um jornal americano, segundo o qual havia
chegado à Lua o primeiro aparelho tripulado. O comandante da
operação foi um tal de Perry Rhodan, major e piloto de provas da
Força Espacial Americana.
Antes
deste homem ter partido para a Lua, eu o examinei atentamente. Minha
impressão foi a melhor possível. Apenas, naquela ocasião — isto
foi a 15 de julho de 1971 — não podia imaginar que exatamente este
major da Força Espacial Americana, haveria de provocar, ao menos
indiretamente, a guerra atômica. Sei apenas que havia encontrado na
Lua uma substância extremamente preciosa para os grandes grupos
políticos da Terra. Rhodan se recusara a entregar o achado. Foi com
sua nave lunar para o deserto de Gobi e aí começou tudo.
As últimas
notícias falavam de envoltórios energéticos que Rhodan havia
inventado para sua nave lunar. Pelo desenrolar precipitado dos
acontecimentos, não tive mais oportunidade de constatar a veracidade
das notícias, em parte sensacionais, dos jornais e da televisão.
Depois de
uma rápida fuga do meu laboratório para construção de naves
espaciais com propulsão atômica, ainda antes de entrar para a
cúpula submarina, já haviam partido da Ásia os primeiros mísseis
bélicos. Os nervos dos homens não agüentaram e instintivamente
veio o golpe de morte: apertar o botão das armas nucleares. Todas as
nações pensavam que Rhodan teria uma importância decisiva no
desenvolvimento dos conhecimentos científicos. Todos se sentiam
prejudicados e todos desconfiavam de Rhodan. Assim se chegou a uma
guerra, que nada foi capaz de evitar.
Para
escapar destas explosões, desci para as profundezas do mar. E agora
estava diante da tela, tentando arranjar uma explicação lógica
para minha hesitação. Adiava minha saída para fora do mar, embora
meu instinto me dissesse que eu tinha de dar uma olhada lá fora.
Atrás de mim, soou a cigarra. Poderia ir.
O último
olhar foi para uma foto feita por teleobjetiva. Talvez tirada de uma
nave espacial. Em meio à areia escaldante do deserto de Gobi,
repousava um corpo brilhante, recoberto por um clarão fosforescente.
Olhava
muito para aquela fotografia, tinha algo de misterioso. Pelo menos,
para os meus conceitos, era inexplicável como um foguete primitivo
daquele tipo, de combustível líquido, tinha de permanecer protegido
por um envoltório energético.
Interrompi
os pensamentos, pois não tinha mais sentido quebrar a cabeça por
coisas tão afastadas no tempo. A Humanidade tinha cavado sua própria
sepultura. O próprio major Perry Rhodan, que, sem o desejar, tinha
botado lenha na fogueira, já devia estar morto há muito tempo.
Naquela época, tinha mais ou menos 30 anos.
A tela
apagou. Dei ainda algumas instruções para outras programações e
me dirigi para a escotilha corrediça.
Rico não
deu mais uma palavra. Estava sozinho na parte inferior da cúpula.
Quem sabe também estaria sozinho lá em cima, fora d’água? Liguei
o campo magnético de meu traje de proteção, esperando até que o
dispositivo de sincronização desse o sinal verde de compensação
de pressão e depois ligasse, automaticamente, os registros da água.
Das fendas
do chão da câmara, a água se projetou espumante, sob alta pressão.
Em questão de segundos, a comporta estava cheia. Cessou o ruído
esfuziante do ar expulso pela forte entrada da água. Cessou também
a correnteza e o redemoinho que me lançaram de encontro à parede da
câmara, apesar do meu esforço em ficar onde estava. Aliás, aquela
câmara fora planejada somente para saída de emergência. Meu
envoltório de proteção funcionava muito bem. Podia me mover com
facilidade e segurança dentro da cápsula cilíndrica, cuja reserva
de ar seria suficiente para o trajeto até em cima.
Regulei
meu dispositivo de gravitação no máximo, pois em virtude do
impulso natural, fui lançado de encontro ao teto da comporta. Só
depois de alguns minutos de uma regulagem mais calma, fiquei em bom
equilíbrio. Sem nenhum ruído, a porta externa se abriu. Diante de
mim estava o insondável fundo do mar, com seus misteriosos seres
vivos.
Saí com
cautela. Já que meu envoltório de proteção não era flexível, e
sim rígido, seria impossível tentar nadar. Caminhava num trecho de
chão macio, onde tinha que vencer apenas a resistência da água.
A luz
infravermelha do meu capacete estava acesa. Por meio de óculos
especiais, tinha uma boa visão que alcançava uns cem metros, como
se lá embaixo também houvesse a luz do sol. Ainda renunciando ao
transporte automático, atingi o planalto de uma grande rocha. Atrás
de mim ainda se via a meia esfera de minha cúpula de aço, já
mergulhando na escuridão.
Era um
silêncio de rebentar os nervos. Com certeza, nunca houve homem em
situação de tão completa solidão, como eu. Sessenta e nove anos
sozinho.
A menos de
200 metros da câmara d’água, começava a grande fossa oceânica.
Cheguei até sua beira e inclinei a cabeça para frente, fazendo com
que a lanterna do capacete a iluminasse. Curioso, um peixe
fosforescente chegou bem perto. Já sabia há muito tempo que a luz
infravermelha era estimulante para muitos animais. Foi interessante
ver quando seres vivos das formas mais esquisitas começaram a
dançar, como que inebriados pela luz infravermelha. Tudo no maior
silêncio. Silêncio este que agora passava de angustiante para
alegre e colorido. Quem sabe era minha peculiaridade reagir desta
forma, bem diferente da maioria dos homens?
— Alô,
caro amigo! — disse-lhe eu.
Ouvi
minhas próprias palavras e botei na cabeça que o peixe me tinha
compreendido. Começou a se balançar até que chegou a dar impressão
de estar dançando. Por fim, tive que afastá-lo com um movimento
rápido da mão, pois estava se aproximando demais do meu envoltório
energético e eu não podia matá-lo. Num planeta destruído, nada
era mais sagrado e precioso do que os últimos sinais de vida. Este
pensamento me arrancou do grande abatimento.
Consultei
os instrumentos. Estava tudo em ordem. Não havia nenhum indício de
radioatividade. Talvez fossem apenas os sensores da cúpula que a
podiam descobrir.
Liguei o
circuito de turbulência, aumentei em 0,025 por cento o campo de
gravitação e assim comecei a subir. Passei com facilidade por sobre
a garganta da tremenda fossa. Sabia que meu corpo dava a impressão
de um cilindro brilhante de alta intensidade. Os peixes se reuniam
cada vez mais em torno de mim. Flutuei umas milhas para o norte, até
encontrar o rochedo que subia íngreme. Era a base da ilha dos
Açores. Daí em diante comecei a subir a cinco metros por segundo.
Outros
peixes vieram. De vez em quando, meu refletor dava com pontas de
rocha saliente. As primeiras plantas das regiões mais fundas foram
aparecendo. Eram espécies desconhecidas da ciência. Os homens
penetrando no espaço, sem conhecer bem os mistérios do próprio
planeta.
Era tudo
tão lindo, que estava sorrindo feliz, até que me veio à cabeça de
novo a lembrança da catástrofe atômica, desaparecendo então o
sorriso de meus lábios. Neste momento, a instalação de alarme do
meu pequeno rastreador começou a soar. Sentia os impulsos que vinham
de encontro ao envoltório de proteção. Este os acusava com
exatidão devido a sua estabilidade estrutural. Nos primeiros
instantes, estava escutando um pouco assustado o zumbido que vinha da
instalação de alarme, cada vez mais forte. Cheguei até a pensar em
monstros do fundo do mar que têm a faculdade de descobrir suas
vítimas por meio de ondas ultra-sonoras. Era um recurso que a
natureza dava a estes gigantes das trevas submarinas para encontrarem
alimento.
Fiquei de
espreita, preparado para o que desse e viesse. Aos poucos, cheguei à
conclusão de que este zumbido jamais poderia vir de um peixe. Depois
de algum tempo, não precisava mais da instalação de alarme. Os
impulsos emitidos por um instrumento de orientação submarina de
alta freqüência é que estava causando o tal ruído agudo.
Por algum
tempo, fiquei como que petrificado. Estava acontecendo algo de
incrível. Uma coisa que já não devia existir mais. O setor de
recordações do meu subconsciente se manifestava. Gente como eu,
jamais esquece estas coisas. Numa evidência berrante, lembrei-me de
uma coisa que até então não me viera à cabeça.
“Submarinos
atômicos, sobreviventes! Cuidado!”
— foi o que pensei.
De maneira
completamente irracional, comecei a nadar com movimento descoordenado
de pés e mãos. Meu frágil circuito de turbulência submarina me
proporcionava uma velocidade de, no máximo, dez milhas por hora. Era
suficiente para um avanço normal e agradável, nunca, porém para
escapar de submarinos de propulsão nuclear.
Gotas de
suor escorriam pela minha face, sinal de que meus sentidos estavam
exaltados. Os impulsos recebidos estavam cada vez mais intensos.
Antes de conseguir chegar à fenda mais próxima da rocha, fui
atingido por refletores ofuscantes. Ouvia-se o ronco cavernoso de um
forte motor. A partir daí, cheguei à conclusão de que meus meios
de defesa eram ridículos.
Interrompi
os movimentos de natação e fiquei olhando para o foco de luz
intensa Talvez julgavam que eu fosse um animal aquático. Aliás, não
podiam pensar de outro jeito, pois, fora de mim, não havia ninguém
na Terra que possuísse um traje com proteção contra
radioatividade.
Meu
cérebro trabalhava com muita lógica. Lutar seria mera loucura,
ainda mais que eu não tinha nada para atacar este peixe de aço.
Também estaria fora de meus interesses ferir de qualquer maneira os
sobreviventes da guerra nuclear. O que me interessava, realmente, era
chegar são e salvo no interior do submarino.
Reduzi a
velocidade, sabendo muito bem que, na melhor das hipóteses, meu
corpo seria tomado como uma sombra. A carcaça do meu cilindro tinha
um brilho muito forte para permitir uma visão suficiente do
interior.
Meu
sistema nervoso até que estava em ordem. Não sentia medo. O ronco
do motor se tornava cada vez mais forte. Daí a uns segundos,
começaria a dançar na frente da luz como os peixes atraídos pela
claridade. Esperava, porém, que ninguém atirasse um arpão de pesca
submarina contra o meu envoltório de proteção. Ainda sabia muito
bem como era a pesca submarina antes da guerra. Fortes descargas
elétricas seriam funestas para a estabilidade do envoltório de
proteção.
Estavam me
perseguindo, não havia dúvida. Uma vez ou outra, podia perceber os
contornos de um pequeno submarino de águas profundas. Isto se dava
quando conseguia fugir do refletor. Quando notei que estava próximo
de uma caverna estreita e funda, já era tarde. Não se pode provocar
um pescador, nem torná-lo desconfiado. Pode-se enganá-lo, mas não
grosseiramente, como eu estava fazendo de modo inconsciente. Talvez
pensassem que eu iria desaparecer imediatamente naquela caverna
escura.
Ouviu-se
um silvo curto e agudo.
“Tiro
de ar comprimido”,
gritou-me meu sexto sentido. Fiquei parado, imóvel, à espera do
choque. Não teria nenhum sentido procurar escapar de um tiro
teledirigido.
Um
fantasma flamejante veio certeiro ao meu encontro. Atingiu-me em
cheio, exatamente depois de dois segundos e meio. Vi a ponta de
contato do arpão de alta voltagem penetrar no meu envoltório e
explodir. Um clarão de grande intensidade envolveu-me todo. No
microrreator de minha mochila, começou o zumbido de alarme e a
lâmpada vermelha de emergência do meu pulso direito começou a
brilhar. Sobrecarga no circuito. Choques elétricos bem doloridos
açoitavam-me o corpo. Curvei-me todo de dor, tentando
desesperadamente ficar livre da câimbra nervosa.
Com o
resto de força que me sobrou, apertei o botão para ligar o circuito
de rádio dentro d’água, e com voz interrompida tentei falar no
microfone preso no pescoço:
— Parem
com essa loucura. Eu me rendo sem resistência.
Certamente
o receptor deles estava em outra freqüência. Quem poderia saber há
quanto tempo estes homens estariam neste submarino, com o qual talvez
teriam escapado da guerra nuclear?
Um segundo
torpedo de alta voltagem atingiu-me novamente. Novas descargas e
choques me arquearam novamente o corpo dolorido. O envoltório de
proteção não existia mais. Não resistiu ao segundo impacto, maior
que o primeiro.
Uma
escuridão total me envolveu e para os meus ouvidos havia um bramido
como se fossem águas a rolarem de uma cascata.
“Cascatas,
nas profundezas do mar? Ridículo.”
Foi um
impulso do subconsciente que penetrou no meu cérebro já
entorpecido. Claro que no meio do mar não podia haver queda d’água.
Parecia o
ciciar do vento no cordame de um barco à vela. Antes de minha fuga
para as profundezas do oceano, gostava muito de enfrentar as forças
da natureza. Mas desta vez, não estava a bordo de um barco à vela,
para ficar apreciando o movimento das nuvens Era diferente, muito
diferente.
Eram
quatro ou cinco. O que julgava ser o ciciar do vento, não era outra
coisa senão palavras pronunciadas depressa e em voz alta.
Julgavam
que estivesse ainda desacordado e eu fazia questão de que
continuassem com esta impressão. Assim, percebi pela conversa deles
que me julgaram realmente um peixe desconhecido, das profundezas do
oceano, com uma fosforescência nunca vista. Atiraram contra mim
arpões de pesca e no momento do rompimento do envoltório de
proteção puxaram-me por raios de tração para a escotilha de pesca
do submarino. Foi minha sorte, ou minha desgraça.
Num piscar
de olhos, percebi que estava numa grande sala, sobre uma mesa. Talvez
fosse um laboratório, onde os seres das profundezas do mar eram
estudados.
Falavam
inglês. Mas o assunto de sua conversa me deixava confuso. O setor
especial de lógica do meu cérebro me dizia com toda insistência
que os sobreviventes de uma guerra nuclear deviam se preocupar com
outras coisas. Não deveriam mergulhar com um submarino especial nas
profundezas do Atlântico, perto dos Açores, para ali curtirem as
aventuras de uma pesca numa das maiores fossas do mar.
Se
tivessem falado que esta pesca era para o sustento de suas vidas ou
para a alimentação do povo, eu teria compreendido. Mas só por
divertimento...
Estava
deitado, completamente imóvel, quando dedos macios começaram a
apalpar meu rosto e a nuca. Uma voz masculina, de timbre grosso,
disse irritada:
— Que
droga! Não há sinal nenhum de brânquias. Não é apenas um animal
de respiração pulmonar, mas simplesmente um homem.
— Cubra-o
— disse um outro. — Dora está chegando aí.
Puxaram um
cobertor de lã para cobrir minha nudez. Sentia cócegas na pele
banhada de suor e tive que fazer um esforço muito grande para não
retirar a coberta de cima do estômago. Desde a última operação,
esta parte do corpo me era muito sensível.
— Ele já
está acordado? — disse uma mulher, demasiadamente alta.
Um hálito
quente atingiu meu rosto. O perfume de um cabelo bem tratado penetrou
em minhas narinas. Daí em diante comecei a pensar que o negócio da
guerra nuclear não poderia ter sido tão sério assim, como eu havia
imaginado o tempo todo. Se já estavam fabricando perfumes tão caros
assim...
— Um
jovem de classe, hein! — disse alguém em tom de zombaria. — Pelo
menos uns oitenta e oito anos, figura de atleta, nenhuma grama de
gordura a mais, cabeleira loura, como um deus nórdico.
Outros
dois homens davam gargalhadas. No meu íntimo, estava começando a me
envergonhar. Certamente era gente que não ligava muita importância
à boa educação e às boas maneiras. Estavam me tratando como um
animal precioso, sobre o qual podiam dizer a bobagem que quisessem.
Já estava
com vontade de me levantar, quando aconteceu o que eu esperava
instintivamente. Um homem, que chamaram de doutor, penetrou na sala.
Cumprimentou
mui educadamente, mais ou menos como um jovem recém-formado em
medicina cumprimenta pessoas ricas e muito influentes.
— Ah! O
senhor trouxe as radiografias? — perguntou o homem de voz grossa.
— Claro,
meu senhor. Aliás, muito esquisitas, devo dizer.
— É um
homem-peixe ou não? — perguntou a mulher impaciente.
— De
maneira alguma, minha senhora, mas também não é homem. Gostaria de
mostrar-lhes as radiografias.
— Passe
para cá, logo — exclamou alguém deseducadamente.
— Que
diabo! Que é isto? Não tem costelas?
Senti que
todos se afastaram de mim, receosos.
— Deixe
o revólver na cintura, por favor — disse a mulher. — Não pode
ser tão perigoso assim. É maravilhoso. O senhor pode acordá-lo,
doutor?
— Dificilmente,
em poucas horas, minha senhora. Recebeu choques fortes demais.
A mão de
alguém tirou a coberta de meu peito. Devia ser o médico.
— Olhe
aqui a cicatriz, minha senhora.
— Horrível
— disse ela. — Eu sempre me interessei muito pela medicina. Quem
foi o “remendão”
que fez isso?
— Não
tenho idéia, minha senhora Trata-se aparentemente de operação do
estômago.
— Como
aparentemente? — insistiu o homem de voz grossa. — O senhor é
médico ou não? Deve, portanto saber se houve ou não operação no
estômago.
O médico
estava em apuros. E era para ficar, pois o pessoal era mesmo sem
educação.
— Senhor,
com esta estrutura especial do esqueleto, não se pode fazer uma
afirmação categórica. A caixa toráxica toda se compõe de chapas
de osso contínuas e extremamente estáveis. Este... ah... este homem
deve ser levado imediatamente para uma grande clínica. Minhas
possibilidades são limitadas.
— Quem?
As possibilidades ou o senhor? — zombeteou o de voz grossa.
— Meu
amigo, vou lhe dizer uma coisa. Se isto não é nem um monstro, nem
um ser humano, então o negócio é muito sério. Seu aparecimento
torna-se mais do que esquisito.
— Foi
com envoltório energético, eu já disse.
— É
também minha opinião, John. Já lidei muito com campos energéticos.
Parece mesmo que o sujeito não nasceu na Terra. Extremamente se
assemelha muito conosco. Por dentro é muito diferente. Isto é um
caso para o Departamento de Defesa Aérea. Sabe Deus o que nós
acabamos de encontrar. Passe um rádio para o Ministério da
Segurança, em Terrânia. Em caso de necessidade, a Administração
também deve ser avisada. Eu quero ficar fora deste caso.
— Mas,
papai — disse a mulher aborrecida. — Talvez seja um animal raro
das profundezas do mar. Imagine o que vai...
— Bobagem
— interrompeu o homem. — Que animal das profundezas o quê! Você
vai fazer o que eu achar melhor. O sujeito será levado para o
Departamento de Defesa Aérea. Capitão, interrompo aqui a excursão.
Suba à tona e providencie o rádio para Terrânia. Devem nos mandar
um aparelho bem rápido. Com isso acaba para mim todo o prazer do
esporte submarino.
Continuaram
discutindo, sem suspeitarem de que eu estava ouvindo cada palavra. A
comichão foi se tornando insuportável na região das cicatrizes do
estômago. Tinha vontade de coçar com todos os dedos.
Além
disso, a situação estava ficando perigosa para mim. O homem de voz
grossa parecia não somente o chefe de todo o submarino, mas
principalmente um homem enérgico.
Devagar
comecei a coordenar os pensamentos. Examinei os dados que havia
anotado nesta longa conversa. Minha capacidade de raciocinar se
recusava a aceitar o incrível. Meu cérebro parecia estar em greve.
Sentia grande dificuldade para tirar a conclusão mais simples deste
mundo.
Tudo dava
a entender que lá em cima não tinha havido nenhuma guerra nuclear.
Falou-se de uma Defesa Aérea, portanto deviam existir também naves
espaciais.
Se era
possível se dirigir a um Ministério da Segurança e solicitar um
aparelho veloz, então tudo isso não significava outra coisa senão
o fato de eu estar caindo num erro muito grande. Mas que tipo de
erro? Tinha plena certeza de que, no momento de minha fuga, haviam
sido lançados da Ásia os primeiros mísseis nucleares.
Será que
este major da Força Aérea Americana teve alguma participação em
tudo isso? De qualquer maneira, devia ter descoberto, em sua
aterrissagem na Lua, coisas importantes, que eu desconhecia
totalmente.
“Perdeu
69 anos dormindo inutilmente, seu burro”,
é o que me dizia meu sexto sentido.
Comecei
então a pensar que talvez tivesse sido destruída apenas uma parte
da Terra. O fato de o pessoal a bordo não ter falado nada a
respeito, devia ser pelos longos anos já decorridos. Mas ainda
assim, saía de minha cabeça um mau pressentimento: as cicatrizes de
uma guerra nuclear não desaparecem totalmente em 69 anos.
Continuei
a ouvir a conversa. Tudo que falavam era a meu respeito. Pude saber
então tudo que aconteceu.
— Vamos
botar um ponto final em tudo isto — disse o chefe um pouco zangado.
— Tenho bom faro para estas coisas. O Império Solar não pode
permitir a presença de estranhos no planeta principal e este —
senti um dedo bater no meu peito — e este sujeito não é daqui. Vá
para a superfície, capitão. E você, John, está armado?
— Tenho
um revólver antigo — disse alguém hesitando.
— É
suficiente. Fique de guarda no laboratório de pesca e vigie os
movimentos do rapaz. Ou você está com medo?
O homem de
nome John confirmou afobadamente que não tinha medo nenhum. A mulher
deu uma gargalhada estridente. Parecia histérica.
Muitos
homens deixavam a sala. Ouvi um ruído metálico e em seguida um
homem que praguejava em voz baixa. Depois foi o estalo de um cilindro
de revólver. Aparentemente, tinha puxado para fora o tambor para
saber se a arma estava carregada.
— Por
quanto tempo ainda ficará inconsciente? — perguntou John, gritando
para os homens que se retiravam e o deixavam com o desconhecido.
Não
obteve resposta. Fiquei sozinho com um homem de sistema nervoso,
talvez, muito fraco.
Continuei
calmo, respirando profundamente. Conhecia gente desse tipo de John.
Com certeza ao primeiro movimento que eu fizesse, receberia uma bala
no peito.
Desviei-me
do assunto. Estava ainda soando no meu ouvido o sintagma “Império
Solar”.
Que significaria isto? Quando desapareci na minha cúpula, há 69
anos, havia na Terra três grandes potências. Não se podia pensar
ainda num governo único para toda a Terra. E muito menos ainda, numa
confederação política abrangendo o sistema, a que se pudesse dar o
nome de “Império
Solar”.
Sentia-me
calmo e compenetrado. Gente do meu tipo recupera num instante a
capacidade de raciocinar objetivamente. Estava bem claro que havia
cometido um grande erro, provocado em última análise pelos meus
conhecimentos deficientes da natureza humana. Quando, há 69 anos
atrás, alguém apertou os botões dos mísseis nucleares, eu estava
crente de que as demais pessoas normais também ficariam doidas e
cometeriam o mesmo erro.
Mas me
enganei. E porque tudo aconteceu assim, era fácil de se deduzir.
Minhas ponderações se concentravam no nome de Perry Rhodan. Este
piloto espacial era a chave para o grande enigma.
Esperei
até que meu vigia ficasse mais calmo. Depois de alguns minutos, se
encaminhou para a antepara. Ouvi-o manejando os pesados ferrolhos. A
porta se abriu lentamente.
Levantei
um pouco a cabeça. O primeiro olhar consciente abrangeu a sala. Era
de fato um laboratório. John estava na porta entreaberta, olhando
para fora. Usava camisa de mangas curtas e calças bem apertadas, em
cuja cintura estava o revólver.
— Tragam-me
ao menos alguma coisa para comer — gritava o rapaz.
Alguém
respondeu, mas tão baixo que não consegui entender. Minha primeira
experiência deu resultado. Tinha absorvido bem o choque das
radiações. À minha esquerda estava meu traje de proteção
radioativa. Parece que examinaram tudo, mas não se deram por
contentes. Na parte superior da perna direita do traje observei a
saliência alongada da minha pistola hipno-psíquica. Não se deram
ao trabalho de retirar as armas.
John
continuava gritando. Acho que não tinha fome alguma. Queria é que
alguém ficasse perto dele.
Sem nenhum
ruído e rapidamente, saí da mesa. Com dois passos largos, estava
atrás do rapaz magro. Pulei em suas costas, travando seus braços
com minhas pernas. Podia ainda respirar, mas meus dedos que
comprimiam fortemente à direita e à esquerda da laringe, impediam a
passagem do sangue da artéria para o cérebro. Sem o menor movimento
de reação, caiu e ficou inerte no chão. Depois de uns três
minutos, voltaria a si. Eu não tinha, pois, tempo para perder.
Duas
coisas aconteceram naquele instante. Primeiro, os possantes motores
do submarino começaram a roncar e, a seguir, ouviram-se passos que
se aproximavam.
Ao
conseguir reconhecer o homem, a pistola hipno-psíquica já estava em
minha mão. Foi atingido pelos raios finíssimos do radiador
hipno-psíquico antes mesmo de notar o que se passava. Eu mesmo senti
na cabeça a leve vibração da arma silenciosa que paralisava por
uns instantes a atuação da vontade. Já estava então realizado o
contato de transmissão para a vítima selecionada. Nem precisava
falar, bastava que eu pensasse intensamente, e a pessoa obedecia.
O homem
parou no meio da sala. Seus olhos pareciam de vidro.
— Vá
para o laboratório de pesca e fique lá esperando até que eu o
chame! — foi o meu comando hipnótico.
Sem dizer
uma palavra, pôs-se em movimento, passou pela minha frente e
desapareceu no aposento contíguo. Esperei até que o outro, que
estava inconsciente, voltasse a si. Recebeu a mesma ordem.
Meu
radiador tinha um alcance de dois mil metros. Se regulasse o feixe de
raios para uma extensão maior, seria possível cobrir uma ampla área
num só disparo. Não estava pensando mesmo em ir de aposento em
aposento, procurando um por um da tripulação, o que seria, aliás,
muito perigoso. Regulei a arma para toda a extensão do submarino.
Depois de alguns minutos foram chegando. Todos os tripulantes estavam
sob meu comando. Na frente estava um homem corpulento, que eu julguei
ser o da voz grossa. Atrás dele mais quatro pessoas, entre as quais
uma jovem de cabelos tingidos de um verde-berrante.
Reuniram-se
no laboratório, onde os prendi, dando-lhes a ordem de não saírem
dali, por motivo algum.
Seminu,
como estava, percorri o submarino. Atrás de um camarote de grande
luxo, havia um salão com telas panorâmicas ligadas. O submarino já
estava há muito em movimento, porém mantendo a profundidade de dois
mil metros. Atrás do salão, estava o posto de comando. Ao lado, o
alojamento da tripulação e o porão dos reatores e dos
transformadores.
Ninguém
olhou para mim, quando passava pelas diversas divisões do barco.
Chegando ao posto de comando, fiquei de pé atrás do capitão. Era
um senhor idoso, de cabelos brancos e pele muito branca.
Os
timoneiros seguiam minhas ordens sem hesitação. O primeiro-oficial
se dirigiu à calculadora para determinar a rota por mim indicada.
— Siga
pelo litoral de Portugal. Em frente ao Cabo Roca, pouse o submarino
no fundo do mar. Qual é sua velocidade de cruzeiro?
— Oitenta
milhas marítimas, no máximo — respondeu o comandante, sem nenhuma
flexão na voz.
— Bem,
mantenha a velocidade de setenta milhas e com o piloto automático.
As
ligações foram feitas. Dos aparelhos da cabine de rádio, ouvia-se
o ruído típico. O radar eletrônico acusou a presença de um outro
submarino e a operação de desvio se deu automaticamente.
Um mapa
luminoso anunciava que nos estávamos aproximando de uma linha de
navegação submarina de intenso tráfego. Surgiam cada vez mais
linhas vermelhas com indicação de profundidade. Isto comprovava
novamente que eu estava mesmo enganado. Não havia nenhum indício de
guerra nuclear.
Resolvi
fazer uma pergunta meio fora do assunto.
— Houve
uma guerra nuclear em 1.971, em que a Terra foi devastada?
— Não —
respondeu o comandante com voz fria.
— Qual é
sua idade?
— Sessenta
e cinco anos.
— Sua
data de nascimento?
— 23 de
abril de 1.975.
— Quer
dizer que estamos no ano 2.040?
— Perfeitamente.
— Como
foi que não se chegou a uma guerra nuclear? Isto é ensinado nas
escolas?
— Sim. A
Terceira Potência, sob a presidência de Perry Rhodan, impediu a
eclosão da guerra, por intermédio da supertécnica dos arcônidas.
Senti que
minhas pernas iam começar a tremer. Provavelmente meu rosto estava
pálido como cera.
— Técnica
arcônida? — repeti com voz vacilante. — Quer dizer então que
Perry Rhodan se aliou com os arcônidas? Em caso positivo, quando,
como e onde foi isto, responda.
Ele estava
sob a influência do meu radiador psicológico. Suas respostas tinham
de ser absolutamente verdadeiras.
— Perry
Rhodan descobriu, depois da sua primeira aterrissagem na Lua, uma
nave espacial de exploração de fabricação arcônida, que ali
descera em pouso de emergência. Perry os ajudou e mais tarde foi
auxiliado por eles. Impediu a guerra nuclear. Surgiu depois a
Terceira Potência.
A
informação foi inútil para mim, pois o homem só podia responder o
que era perguntado expressamente. Deixei de lado um longo período.
— Como
está a Terra atualmente? Que é Perry Rhodan hoje? Que forma de
governo vocês têm?
— A
Terra é grande, ampla e bela. Os desertos foram aproveitados e nós
controlamos o tempo. Não existem mais doenças. Perry Rhodan é hoje
o administrador-geral do Império Solar. O IS
foi fundado em 1.990, depois de ter surgido o governo mundial.
Procurei
uma cadeira para sentar. As revelações eram fortes demais. Tinha
passado bobamente 69 anos na cúpula, enquanto a Terra fazia
progressos incríveis.
Ainda
fiquei fazendo perguntas por quase uma hora. Fiquei sabendo o
suficiente.
Aquele
piloto espacial, rude e ousado, tinha tido a coragem de enfrentar,
outrora, as grandes potências. Depois, em empreendimentos espaciais
que pareciam verdadeira loucura, foi arranjando poderosos cruzadores
e belonaves, com os quais foi penetrando cuidadosamente na imensa
Galáxia. Deve ter estado até em Árcon.
Com esta
idéia, interrompeu-se a seqüência de meu pensamento. Desde quando
podiam estes pequenos selvagens chegar até Árcon? Com uma única
frota, eu teria tocado para o hiperespaço as poucas naves de Rhodan.
— Como é
que Rhodan foi recebido em Árcon? Sabe-se algo a respeito?
— Sim,
sabemos. O grande Império sob a soberania de Árcon se esfacelou.
Atualmente Árcon é governado por um robô, por um cérebro
positrônico. Os arcônidas são preguiçosos, degenerados,
imprestáveis para a vida.
Meu
subconsciente tomou conta de mim. Dei um salto e agarrei com as duas
mãos a garganta do homem. Gritava como um doido. Como é que este
sujeito se atrevia a falar assim dos arcônidas?
Não se
defendeu, ao ser sacudido por mim. Só segundos depois é que me
contive.
— Não
diga isto outra vez, nunca mais, ouviu?
— Sim! —
disse o homem apático. — Nunca mais.
Não fiz
mais perguntas. Fui até a proa, onde estava o laboratório de pesca.
Os homens me apresentaram os documentos, que examinei cuidadosamente.
Vinham dos
Estados Unidos, um estado de federação, passando oficialmente por
terranos. Não havia mais dúvida nenhuma de que este tal Rhodan
havia realizado o sonho dos grandes idealistas do passado.
Mandei que
os homens se apresentassem em fila e os fui examinando. Um deles, que
se chamava Phil Holding, tinha mais ou menos a minha compleição.
Mesmo no rosto, parecia comigo, embora houvesse diferenças
marcantes. Na minha primeira saída lá fora, para a aparentemente
supercivilizada Humanidade, eu teria que ser Phil Holding. Era
diretor-comercial de uma fábrica de conservas de legumes.
Levei-o
para sua cabina e pedi que me explicasse o uso de cada terno. Eram
calças muito apertadas com paletós compridos em cores berrantes,
classificadas por Phil como a última palavra da moda. Vesti-me e me
olhei no espelho. Não havia tanta diferença assim da moda de
outrora.
Daí para
frente, meu plano já estava bem delineado. Primeiramente tinha que
procurar uma boa livraria e estudar a história da Terra nos últimos
69 anos. Utilizando-me da memória fotográfica, seria um trabalho
para 24 horas.
Nesse
ínterim, o submarino, com sua tripulação, desapareceria.
Informei-me com o primeiro-oficial sobre o estoque de provisões. Era
mais do que suficiente. Tinham alimentos para quatro semanas. Água
potável e ar eram produzidos por máquinas robotizadas.
Portanto,
podia dar-lhes ordem de permanecerem quatro semanas nas profundezas
do oceano. Só poderiam vir à tona após este período. Afinal de
contas, não podia matá-los de fome.
Atingimos
o litoral português após cautelosas manobras. Reuni no grande salão
toda a tripulação e os passageiros. Utilizando-me ainda do radiador
hipno-psíquico, dei as últimas instruções. Ficariam parados no
local e na profundidade determinados, até que acabassem os
alimentos. Depois disso deveriam emergir e esquecer o incidente.
Sem fazer
nenhuma objeção, retiraram-se para seus abrigos. Examinei mais uma
vez as instalações robotizadas do barco. Achei que estavam em
ordem.
Vesti o
terno que Phil me recomendou como o mais elegante. Seus documentos
passaram para minha nova carteira. O dinheiro abundante me era
desconhecido. Eram cédulas laváveis de um plástico de alta
qualidade. Microfios embutidos imantados com impulsos magnéticos
tornavam a falsificação quase impossível. Havia acabado o tempo
que o mundo tinha uma quantidade enorme de moedas diferentes. Em toda
a Terra, como também em todo o sistema solar, ou Império Solar,
como era o nome, funcionava uma única moeda — o solar.
Um solar tinha cem sóis. E o seu poder aquisitivo devia ser bem
elevado, pois, como me dizia Phil, com apenas cinco sóis se podia
comprar um maço de vinte cigarros, da melhor marca. Portanto, o
vício do cigarro ainda perdurava. Retirei dois mil solares para mim
e dei-lhe um recibo. O dinheiro seria pago depois ou depositado no
nome de Phil Holding.
Agora
teria de mergulhar.
Antes de
vestir o traje de proteção submarina em cima de meu terno, mandei
que o grumete cortasse meu cabelo. Minha cabeleira comprida, que
durante 69 anos não viu tesoura, ia desaparecendo. Estava agora com
os cabelos aparados e com uma leve ondulação. Aplicou-me também um
creme para erradicar a barba. Parecia já mais civilizado.
Surpreendi-me sorrindo diante do espelho. A jornada até a tona
parecia muito interessante. As rações e os medicamentos não
estavam mais na mochila.
Assim
equipado, deixei o submarino através da escotilha de pesca. Depois
de emergir, ainda fiquei boiando, esperando que ficasse um pouco mais
escuro. Estava bem próximo do litoral.
Por trás
do Cabo da Roca, se via o clarão da iluminação noturna de Lisboa.
Uma sensação maravilhosa de segurança, de libertação de imagens
angustiantes e de viver uma nova aventura, tomou conta de mim.
Não houve
guerra nenhuma. Melhor ainda. Pisei em terra, perto de um pequeno
bosque, quase à beira da estrada. Escondi meu traje de mergulho numa
cavidade na desembocadura de um riacho. Minha única arma era ainda o
radiador hipno-psíquico. No entanto, já tinha tomado a resolução
de, logo após a escapada para Lisboa, voltar para minha cúpula
submarina, para os últimos preparativos.
Fui a pé
até o caminho e consegui que um carro parasse para mim. Um carro de
construção esquisita. O fornecimento de energia era provavelmente
regulado por uma espécie de banco de carga.
O
motorista português acreditou na história que lhe contei e me
levou. Em questão de quinze minutos, fazíamos as belas curvas das
auto-estradas da capital. Ali eu tive as primeiras impressões das
grandes realizações que se efetuaram nestes 69 anos.
Agradeci
muito e saltei em frente a um hotel, num grande arranha-céu. A
recepção era totalmente robotizada. Um autômato, de sorriso
permanente no rosto de plástico, perguntava apenas pelo nome do
hóspede. Quarto 123, foi a resposta eletrônica. Depois que o
autômato reagiu normalmente ao toque da palma da minha mão, fiquei
sabendo que, sem a minha vontade, se registraram novas vibrações.
“Bobo!”
foi a reação do meu sexto sentido, contra mim mesmo.
Fiquei
parado, refletindo no luxuoso salão. De cabeça fria, fiquei
pensando que no espaço de duas horas já havia cometido duas
burrices. Talvez, meu instinto que jamais se enganava, ainda não
estava bem apto para funcionar. Quem sabe ainda sentia os efeitos da
longa hibernação. Podia haver várias razões.

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